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i Estudos de Psicologia
1997, Vo114, nO3, 17 26 -

Um olhar crítico sobre o estudo


do desamparo aprendido.
Maria Helena Leite Hunziker2
Departamento de Psicologia Experimental Universidade de São Paulo

o desamparo aprendido vem sendo observado numa grande variedade de espécies. Esse artigo
mostra as características básicas dos experimentos sobre desamparo aprendido realizados com su-
jeitos infra-humanos. A análise crítica da maioria desses experimentos revela problemas de proce-
dimento e mensuração do fenômeno, além de pouca precisão nas definições empregadas. É
descrito um procedimento modificado, o qual produziu resultados mais precisos quanto à aprendi-
zagem operante em estudo, se comparados com os resultados dos procedimentos convencionais.
Sugere-se que a maior precisão dos experimentos sobre desamparo aprendido trará importantes
contribuições para a análise do comportamento em geral, e para a investigação do controle aversivo
e dos efeitos da não-contingência, em particular.
Palavras chave: desamparo aprendido, comportamento animal, controle aversivo, estímulos
incontroláveis

Abstract
A critical view about the learned helplessness studies
Leamed helplessness effect has been observed across a wide range of species. This paper introdu-
ces the basic characteristics of leamed helplessness experiments performed with infrahuman sub-
jects. A critical analysis of most of these experiments shows procedural and measurement
problems in addition to a low defitional precision. Some results produced by a modified procedure
are reported, which were able to generate more accurate data (compared to conventional procedu-
res) with respect to the operant leaming under study. It is proposed that well established leamed
helplessness experiments can make significant contributions to behavior analysis, particularly to
the investigation ofaversive control and to the effects of non-contingency.
Key words: leamed helplessness, animal behavior, aversive control, uncontrollable stimuli

Ao se falar sobre o desamparo aprendido effect), caracteriza-se pela dificuldade de apren-


é necessário que se faça a distinção entre o fenô- dizagem demonstrada por sujeitos previamente
meno comportamental e uma das suas hipóteses expostos a eventos aversivos incontroláveis.3
explicativas. O desamparo aprendido, enquanto Essa dificuldade é avaliada em comparação ao
efeito comportamental (learned helplessness comportamento apresentado por sujeitos ingê-

I. O conteúdo deste texto baseia-se na conferência apresentada no IV Latini Dies, congresso realizado em Guadalajara (Méxi-
co), em 23-26 de fevereiro de 1995.
2. A autora é pesquisadora do CNPq (processo no. 523612/95-8).
3. ConfOlme se verá mais adiante, essa caracterização do desamparo pode sofrer algumas variações. Contudo, a "dificuldade de
aprendizagem" é a mais freqüentemente utilizada.
Endereço para correspondência:Departamento de Psicologia Experimental Instituto de Psicologia- USP Av. Prof. Mello Mo-
raes, 1721, CEP 05508-900, São Paulo, SP E-mail: hunziker@usp.br
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nuos (não submetidos previamente a nenhum ocorrem após a emissão de uma classe de res-
tratamento específico), submetidos a igual con- postas específica (R), ou seja, p(S/R). Embora
dição de aprendizagem. Analisam-se diferentes nem sempre explicitada, a contingência especi-
aspectos do comportamento, tais como a latên- fica também a probabilidade de S ocorrer na au-
cia de fuga/esquiva ou a quantidade de exposi- sência dessa classe de respostas (NR), ou seja,
ções à contingência necessária para se obter o
p(S/NR). Por exemplo, no esquema de refor-
padrão de aprendizagem.
çamento contínuo feito em laboratório, o reforço é
Enquanto explicação do comportamento,
sempre apresentado após a emissão de uma deter-
a hipótese do desamparo aprendido (learned
minada classe de respostas (tal como pressão à
helplessness hypothesis) diz que esse efeito é
barra), mas nunca na sua ausência: esse é um ar-
determinado pela aprendizagem de que há uma
ranjo experimental onde p(S/R)= 1,0 e
independência entre respostas e estímulos,
p(S/NR)=O,O. Nesse caso ambas as probabilida-
aprendizagem essa que se estabelece frente aos
eventos incontroláveis e se generaliza para no- des são diferentes entre si, sendo que esse ao.anjo

vas situações (Maier e Seligman, 1976; Selig- pode ser traduzido na expressão p(S/R) p(S/NR).

man, Maier e Solomon, 1971). A diferença entre ambas as probabilida-


A denominação comum entre comporta- des define uma contingência operante, sendo
mento e hipótese produz não apenas impreci- variável a magnitude dessa diferença (no exem-
sões de análise, como gera também um viés plo citado tivemos a magnitude máxima uma
teórico. Em primeiro lugar, ela obscurece o fato vez que foram utilizados os valores extremos de
de que tal hipótese é apenas uma dentre várias variação de probabilidade). Nesses casos, diz-
propostas para explicar o comportamento. se que a ocorrência da resposta controla a ocor-
Além disso, ela pode dar a falsa ilusão de que o rência do estímulo que a segue, o que esse estí-
fenômeno já está explicado, desfavorecendo a mulo é contingente à resposta. Assim,
busca de maiores evidências para sua confirma- estímulos contingentes são também chamados
ção, ou mesmo de outras explicações alternati- de estímulos controláveis. Inversamente, nas
vas. Portanto, para garantir maior precisão de
relações onde ambas as probabilidades são
análise, neste texto o termo desamparo aprendi-
iguais entre si, o estímulo ocorre independente-
do será sempre utilizado em referência ao com-
mente da ocorrência (ou ausência) da resposta,
portamento, sendo explicitado quando ele se
o que lhe confere a denominação de estímulo
referir à hipótese teórica.
não-contingente ou estímulo incontrolável.
O estudo do desamparo aprendido teve
A sensibilidade dos indivíduos às conse-
início dentro do referencial teórico e metodoló-
qüências do seu comportamento vem sendo
gico da análise funcional do comportamento,
apontada como um dos principais mecanismos
onde se investigam as relações entre eventos do
de adaptação das diferentes espécies (Skinner,
organismo (R) e do ambiente (S). As contin-
1981). Se o controle do ambiente permite a
gências operantes (de dois termos) são defini-
construção de um repertório comp0l1amental
das pela probabilidade com que estímulos (S)
adaptativo, qual a conseqüência para o indiví-
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duo do seu contato com eventos ambientais in- 1993, que mostram o início "acidental" do estu-
controláveis? Essa é a questão subjacente aos do do desamparo). Histórico à parte, um fato a
estudos sobre o desamparo aprendido.4 ser analisado criticamente é que a generalização
Os estudos pioneiros consistiram na ex- do desamparo para situações não aversivas
posição de cães a choques elétricos incontrolá- deve ser cuidadosa. Apesar de alguns autores
veis, seguida (24hs após) de um treino operante argumentarem que ela pode ser feita (Peterson
de fuga/esquiva. Observou-se que esses sujeitos et ai., 1993), deve-se considerar que tais gene-
não aprenderam a resposta de fuga/esquiva, ao ralizações baseiam-se em poucos (e freqüente-
contrário dos animais não expostos previamen- mente questionáveis) dados experimentais,
te aos choques (ou expostos aos mesmos cho- insuficientes para sua sustentação. Numa análi-
ques, porém controláveis), que a aprenderam se mais rigorosa, pode-se dizer que ainda hoje é
rapidamente. Como apenas a experiência pré- questionável se eventos incontroláveis não
via com choques não bastava para explicar aversivos produzem interferência em aprendi-
esses resultados, o efeito de interferência na zagens futuras, ou mesmo se eventos aversivos
aprendizagem foi atribuído à incontrolabilidade incontroláveis interferem em novas aprendiza-
dos choques (Overmier e Seligman, 1967; gens sob reforçamento positivo. Esse é um as-
Seligman e Maier, 1967). pecto que necessita de mais investigação.
Esse efeito foi replicado com diversas es- Outro problema associado ao estudo do
pécies, dentre mamíferos, aves, peixes e inse- desamparo está na inconsistência da sua carac-
tos, o que lhe confere grande generalidade terização: ora ele é apontado como "não apren-
(Eisenstein e Carlson, 1997). Contudo, deve-se dizagem de novas respostas", ora como "não
destacar que esse efeito vem sendo investigado aprendizagem de fuga", e às vezes como "difi-
no laboratório animal quase que exclusivamen- culdade de aprendizagem" (Maier e Seligman,
te com eventos aversivos incontroláveis (mais 1976). Conforme analisado por Levis (1976),
especificamente, choques elétricos). Essa pre- essas diferentes denominações representam
dominância provavelmente se explique pelo processos comportamentais distintos. Segundo
fato do estudo do desamparo ter surgido dentro esse autor, os termos "não aprendizagem" e
de uma linha de investigação sobre esquiva, "não aprendizagem de fuga" sugerem diferen-
quando alunos de Richard Solomon - um dos tes graus de generalidade para o fenômeno: in-
defensores da "teoria de dois fatores" para a es- sensibilidade a qualquer contingência ou
quiva (Rescor1a e Solomon, 1967) - testavam apenas a contingências de reforçamento negati-
essa "teoria" (ver Peterson, Maier e Seligman., vo, respectivamente. Além disso, o efeito carac-
terizado como "não aprendizagem" sugere uma
4. Não se pretende. com isso. dizer que o estudo do desam- incapacidade de aprender, diferentemente de
paro deu início à investigação dos efeitos de eventos aver-
"dificuldade de aprendizagem" que é um efeito
sivos não contingentes. A supressão condicionada. por
exemplo. foi estudada por Estes e Skinner (1941) varias menos drástico. Ou seja, dependendo da carac-
décadas antes do estudo do desamparo aprendido. O obje- terização do fenômeno, ele se toma mais ou me-
tivo aqui é apenas destacar ao leitor a questão básica sub-
nos generalizável, ou representa diferentes
jacente ao estudo do desamparo.
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graus de dificuldade na adaptação do indivíduo trabalhos que relaciona o desamparo a essa


a novos contextos ambientais. psicopatologia são experimentalmente questio-
A ambigüidade conceitual é indesejável náveis. Por exemplo, na psicofatmacologia, o
na ciência. A falta de precisão na caracterização desamparo aprendido vem sendo utilizado
desse fenômeno tem permitido que sejam igual- como simples teste de drogas antidepressivas,
mente classificados como desamparo aprendi- sem destaque para a análise das variáveis am-
do comportamentos submetidos a diferentes bientais que controlam os comportamentos in-
tipos de controle. Conseqüentemente, uma aná- vestigados. Além disso, nessa literatura existe
lise crítica do conjunto de publicações na área uma grande diversidade de procedimentos que
revela, muitas vezes, uma aparente falta de coe- vem sendo utilizados como "fórmulas" de pro-
rência dos resultados obtidos. Uma conceitua- dução de comportamentos rotulados como de-
ção mais rigorosa do fenômeno seria, portanto, samparo, os quais não são equivalentes entre si
um primeiro requisito indispensável para se se analisados funcionalmente (compat"ar,por
estabelecer a coerência interna na área. exemplo, os procedimentos empregados por
Levando-se em conta que os estudos vem Hemingway e Reigle, 1987; Kametani, Kimura
sendo realizados quase que exclusivamente e Shimizu, 1983;Martin, Gozlan e Puech, 1992;
com eventos aversivos incontroláveis, e que a Petty e Sherman, 1979).
aprendizagem é avaliada sob reforçamento ne- Outra inconsistência que pode ser obser-
gativo, pode-se sugerir que uma definição mais vada principalmente nos estudos voltados à
cuidadosa do fenômeno explicite esses aspec- aplicação clínica, relaciona-se ao uso indevido
tos. Por exemplo, o desamparo seria mais ade- do termo desamparo. Originalmente de cunho
quadamente definido como "dificuldade de meramente descritivo de um desempenho que
aprendizagem sob reforçamento negativo em ocorre sob determinadas condições, ele algu-
função da experiência prévia com eventos aver- mas vezes é utilizado (equivocadamente) com
sivos incontroláveis". Embora mais restritiva, sentido causal: diz-se que o indivíduo se com-
essa definição se ajusta aos dados experimen- porta de tal maneira porque está desampara-
tais existentes até o momento, impedindo gene- do, e não que ele está desamparado porque se
ralizações aparentemente estimulantes, porém comporta de tal maneira. Tanto essa impreci-
sem base experimental que as sustente. são, como a grande diversidade de comporta-
O baixo rigor conceitual e metodológico mentos (controlados por diferentes condições)
nessa área de investigação reflete-se, também, que passaram a ser rotulados indiscriminada-
na aplicação clínica que foi dada ao desamparo mente de desamparo aprendido, talvez decor-
aprendido. Pouco tempo após os primeiros estu- ram da falta de análise do comportamentos em
dos, o desamparo aprendido foi sugerido como questão, e tem como conseqüência o fato de que
um modelo animal de depressão (Seligman, essa denominação tenha se tomado inespecífica
1975). Essa transposição dos dados básicos do no uso clínico (Peterson et ai., 1993).
laboratório animal para a clínica se deu sem que Esses problemas conceituais tem afasta-
o fenômeno estivesse solidamente estabelecido. do do estudo do desamparo os pesquisadores in-
Como conseqüência, a grande quantidade de teressados no desenvolvimento da análise
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funcional do comportamento. Isso apenas agra- bre o qual se avaliaria a interferência da incontro-
vou a falta de rigor metodológico, criando um labilidade: a ausência de aprendizagem mostrada
círculo vicioso. Contudo, a importância teórica por esses sujeitos impede, portanto, que essa
das questões subjacente ao estudo do desampa- análise seja feita (ver em Hunziker, 1981, análise
ro justifica que os analistas do comportamento mais detalhada sobre esse problema).
retomem a sua investigação e proponham solu- Por mais que esse fato seja conflitante
ções para esses problemas. com a própria definição do fenômeno, é surpre-
Do ponto de vista metodológico, o aspec- endente a constatação de que ele tem passado
to mais frágil desses estudos tem sido a caracte- "desapercebido". No geral, os autores tem utili-
rização da variável dependente: apesar do zado como medida do desamparo apenas a
desamparo ser definido como dificuldade de maior latência apresentada na sessão de fuga
aprendizagem, as contingências utilizadas nos pelos sujeitos expostos aos choques incontrolá-
estudos com animais (ratos, em sua maioria) veis, desprezando o fato de que se não houve
freqüentemente não permitem a análise desse aprendizagem não se pode analisar a interferên-
processo. Após o tratamento experimental cia dos choques incontroláveis sobre ela. Rigo-
(choques incontroláveis ou nenhum choque), o rosamente, a única conclusão possível de se
teste de aprendizagem de fuga vem sendo reali- tirar desses estudos é que os choques incontro-
zado utilizando-se a contingência de reforça- láveis tornaram os indivíduos mais lentos na
mento negativo em FR2 para a resposta de emissão da resposta que estava sendo avaliada.
con'er na shuttlebox (Maier et aI., 1973),ou FR3 Contudo, essa lentidão pode refletir apenas um
para a resposta de pressão à barra (Seligman, efeito motor decorrente das alterações neuro-
Rosellini e Kozak., 1975). Com ambas as con- químicas induzidas pelos choques incontrolá-
tingências, observa-se em vários estudos que os veis (conforme proposto por Weiss, Glazer e
animais ingênuos (não submetidos a qualquer Pohorecky, 1976). Embora alterações motoras
tratamento prévio) apresentaram latências inal- e neuroquímicas sejam inegavelmente relevan-
teradas ou aumentadas ao longo da sessão (ver tes como efeito da incontrolabilidade dos cho-
Alloy e Bersh, 1979, grupos N; Freda e Klein, ques, suas implicações teóricas diferem
1976, grupo R , experimento I; Jackson, Maier daquelas postuladas pela hipótese do desampa-
e Coon, 1979, grupo restrained, experimento ro aprendido, cuja ênfase recai sobre a menor sen-
IA; Maier et ai., 1973,grupos restrained, expe- sibilidade às contingências operantes. Por mais
rimentos IA, lB e 3; Maier e Testa,1975, gru- óbvio que pareça, é necessário que seja lembrado
pos NPS-BOTH e NPS-Follows). Ora, se a que para se estudar os efeitos da incontrolabilidade
aprendizagem de fuga é caracterizada pela re- sobre processos de aprendizagem é indispensável
dução da latência da resposta que produz o tér- que essa aprendizagem possa ser claramente men-
mino do evento aversivo, não se pode dizer que surada.
esses animais tenham aprendido. Por nãohave- Esse foi o ponto de partida de uma série
rem sido submetidos a qualquer manipulação de estudos desenvolvidos no nosso laboratório.
experimental, esses animais são os que deve- Nos primeiros experimentos, testamos os pro-
riam fornecer o referencial de aprendizagem so- cedimentos descritos nos principais trabalhos
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sobre o desamparo aprendido. Numa primeira tos previamente aos choques incontroláveis te-
fase, um grupo de ratos (n=8) foi exposto a 60 rem apresentado latências mais altas que seus
choques elétricos incontroláveis de 1,0 mA e pares ingênuos, não se pode concluir pela repli-
10,0 s de duração fixa, ministrados a intervalos cação do desamparo aprendido como fenômeno
médios de 1 min (grupo experimental); um se- de interferência num processo de aprendizagem
gundo grupo de animais não recebeu qualquer (Hunziker, 1977).
choque (grupo ingênuo). Após 24 hs, todos os Nossa análise dos resultados com a re-
sujeitos foram igualmente submetidos à sessão posta de correr partiram do fato de que durante
de teste de aprendizagem de fuga, com 60 cho- um choque essa resposta tem uma alta probabi-
\
ques (de igual intensidade e distribuição tempo- lidade de ser eliciada dado que é uma resposta I
ral dos anteriores) cuja interrupção era espécie-específica (BoIles, 1970). Assim, inde-
contingente à emissão de diferentes respostas, pendentemente do controle operante, as latênci-
para os diferentes grupos de sujeitos (n=8): para as iniciais já são bastante baixas. Para se
a resposta de coner, foram utilizadas contin- observar o controle operante de uma resposta
gências de reforçamento em FR 1 e FR2; para a numa contingência de fuga é necessário que ela
resposta de pressionar a barra, utilizou-se a con- seja emitida com altas latências iniciais, de for-
tingência de reforçamento em FR3. As latências ma que a sua redução gradual (em função do tér-
de fuga desses animais foram comparadas às mino do choque ser contingente a ela) evidencie
apresentadas por sujeitos ingênuos submetidos o reforçamento negativo. Portanto, algo preci-
a iguais contingências. Os resultados revelaram saria ser modificado no procedimento utilizado
que os animais tratados com choques incontro- com os testes na shuttlebox. Fizemos uma pe-
láveis foram os que apresentaram as maiores la- quena alteração na própria caixa experimental,
tências de fuga. Apesar desse resultado aparen- introduzindo uma divisória da shuttlebox com
temente confirmado do desamparo, notou-se um pequeno orifício a 8,0 cm acima do piso, em
que: 1) o uso da contingência de fuga FR 1(para substituição à divisória convencional que tem
a resposta de correr na shuttlebox) produziu la- esse orifício ao nível do piso. Com essa peque-
tências muito baixas desde o início da sessão de na alteração, para que o animal passasse ao
teste, o que impossibilitou a avaliação do con- compartimento oposto dashutlebox, era preciso
trole operante do comportamento, que seria ca- saltar através do orifício, e não mais simples-
racterizado pelo decréscimo das mesmas ao mente correr para a extremidade oposta da cai-
longo da sessão; 2) as contingências de FR2 xa Como a resposta de saltar ocorre inicial-
(para a resposta de correr de um compartimento mente com altas latências, foi possível registrar
ao outro da shuttlebox) e FR3 (para a resposta de claramente a sua redução na medida em que o
pressão à barra) também não produziram um sujeito ingênuo se expunha à contingência de
padrão comportamental de aprendizagem, nos fuga. Com isso, pudemos ter um parâmetro com-
sujeitos ingênuos, embora as suas latências ini- parativo dessa aprendizagem operante que nos
ciais tenham sido relativamente elevadas, elas permitiu avaliar a dificuldade de aprendizagem
se mantiveram praticamente inalteradas ao lon- apresentada pelos animais previamente expos-
go da sessão. Assim, apesar dos animais expos- tos a choques incontroláveis. Com esse procedi-

(
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mento foi replicado o fenômeno básico de mento, foi obtido o desamparo até 75 dias após a
desamparo aprendido com ratos, sem os proble- exposição aos choques incontroláveis (Mestre,
mas apontados anteriormente (Hunziker, 1966), resultados esses que se ajustam melhor
1981). aos efeitos duradouros da aprendizagem.
O desamparo observado com esse nosso Utilizando esse mesmo procedimento,
arranjo experimental vem sendo replicado por obtivemos resultados divergentes sobre a im-
diferentes pesquisadores (Graeff, 1991; Damia- portância do fator sexo dos sujeitos na aprendi-
ni, 1993; Gouveia Jr, 1996; Mestre, 1996; zagem do desamparo: ao contrário de diversos
Yano, 1996). Porém, apesar de replicar o fenô- autores que afirmam que ratos fêmeas não apre-
meno básico, esse procedimento gerou alguns sentam o desamparo aprendido (Navarro et aI.,
resultados divergentes dos descritos na literatu- 1984; Steenberger, Heinsbroek, Van Haaren e
ra para algumas manipulações efetuadas. Por Van de PolI, 1989), encontramos esse fenôme-
exemplo, diversos autores apontaram a dificul- no com igual intensidade em ratos machos e fê-
dade de se obter desamparo em ratos utilizando- meas (Damiani e Hunziker, 1996). Também
se reforçamento negativo contínuo (FR 1). Se- obtivemos analgesia condicionada induzida por
gundo eles, o desamparo apenas seria obtido choques incontroláveis sem a necessidade de
com ratos em situações de aprendizagem de res- re-exposição dos ratos a choques elétricos
postas "difíceis", sendo esse "difícil" caracteri- (Hunziker, 1992), ao contrário do que se afirma
zado pela intermitência do reforçamento Jackson et ai. (1979). Por fim, nos estudos que
negativo - FR2 ou FR3 (ver Maier e Seligman, realizamos sobre os efeitos da imipramina - dro-
1976, e Peterson et aI., 1993). Contudo essas ga de especial interesse na área, dado seu com-
propostas não se basearam em nenhumajustifi- provado efeito clínico como antidepressivo -
cativa teoricamente convincente, sendo apre- obtivemos repetidamente a reversão do desam-
sentadas como "receitas" para se produzir o paro com administrações agudas dessa droga
desamparo (ver crítica de Levis, 1976). Em opo- (Graeff, Hunziker e Graeff, 1989; Gouveia Jr,
sição a elas, nossos resultados mostraram que, 1996; Hunziker, Buonomano e Moura, 1986)
com uma contingência de fuga bem estabelecida, ao contrário de diversos autores que defendem a
o desamparo pode ser claramente observado com necessidade de administrações crônicas para
ratos submetidos à situação de aprendizagem sob que tal reversão se dê (Sherman, Sacquitne e
reforçamento negativo contínuo, o que dispensa Petty, 1982; Petty e Sherman, 1979).
a antiga (e infundada) restrição. Essas diferenças sistemáticas entre os
Outra discordância dos nossos resultados trabalhos de desamparo desenvolvidos no
em comparação com os descritos na literatura nosso laboratório e os publicados na literatura
diz respeito ao aspecto de "transitividade" podem ser interpretadas de diferentes maneiras.
apontado para o desamparo: há relatos de que, Uma interpretação possível é que as variáveis
em ratos, o desamparo tem curta duração, desa- dependentes estudadas em ambos os conjuntos
parecendo após 48 hs da experiência com a in- de experimentos não se eqüivalem: enquanto no
controlabilidade (por exemplo, Seligman et ai., nosso laboratório temos evidências de que estu-
1975). Essa afirmação gerou dúvidas sobre a na- damos um processo de aprendizagem (de fuga) ,
tureza do desamparo como fenômeno de apren- nos trabalhos que utilizam o procedimento con-
dizagem (Levis, 1976). Com o nosso procedi- vencional (de Maier e colaboradores) não se
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pode identificar aprendizagem associativa. As- vestigação. Com humanos, os trabalhos sobre
sim, é possível que nestes trabalhos, os efeitos desamparo aprendido tem enfatizado as expli-
comportamentais sejam determinados princi- cações cognitivas sobre a atribuição de causali-
palmente pela já comprovada depleção de al- dade feita pelo sujeito (Abranson e Seligman,
guns neurotransmissores, que leva à diminuição 1978;Petersonet aI., 1993):essesmesmosda-
geral de atividade motora (Weiss et aI., 1976): dos poderiam ser reinterpretados como com-
essas alterações neuroquímicas podem interagir portamentos governados por regras (rule-
com fármacos (por exemplo, a imipramina) e governed behavior), onde o desamparo seria
com os hormônios característicos de cada sexo um conjunto de comportamentos controlados
(daí os efeitos diferenciados entre machos e fê- pela "regra" de independência entre R e S que
meas), além de retomarem à linha-de-base com competiria com as contingências em vigor.
o passar do tempo (e por isso a transitoriedade De uma maneira geral, consideramos que
do efeito descrito por esses autores). É provável estudos bem conduzidos sobre o desamparo
que as latências medidas nesses estudos, que aprendido poderão trazer contribuições rele-
não representam um processo de aprendizagem, vantes para a compreensão do comportamento
sejam mais representativas da atividade motora como um todo, além da notória contribuição
dos sujeitos, refletindo as alterações neuroquí- para o estudo do controle aversivo do comp0l1a-
micas induzidas pelos choques incontroláveis. mento e dos efeitos da não-contingência. A ex-
Embora esses efeitos motores provavelmente ploração do contínuo controlabilidade-incon-
estejam presentes também nos nossos estudos, trolabilidade permite a investigação de ques-
o procedimento utilizado permitiu isolar o pro- tões críticas-que incluem o confronto da con-
cesso de aprendizagem que, ao que tudo indica, tingência X contiguidade - que podem ser
sofre menos influência das alterações neuroquí- analisadas nos estudos do desamparo. A re-aná-
micas apontadas por Weiss et ai. (1976). Se- lise dos dados sobre o esse efeito, desenvolvida
guindo-se esta interpretação, pode-se concluir com rigor metodológico e conceitual, pode res-
que há muito para ser feito para que a generali- gatar uma série de trabalhos bastante criativos
dade do desamparo, como fenômeno de apren- realizados nessa área, ampliando o universo da
dizagem, possa ser melhor avaliada. análise do comportamento e sugerindo avanços
Uma alternativa possível é analisar a re- nessas investigações.
levância o controle de estímulos no desamparo
aprendido. Por exemplo, Lee e Maier (1988),
utilizando a aprendizagem de discriminação
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