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Análise Psicológica (2004), 4 (XXII): 691-704

O mundo do texto e a psicoterapia


fenomenológico-existencial

DANIEL SOUSA (*)

HERMENÊUTICA ao vivido o próprio tema da investigação feno-


menológica. Ao introduzir uma contribuição na
A hermenêutica tem raízes gregas – ¦TOJPG\C hermenêutica, salienta a multiplicidade dos sen-
– que já remete para o interpretar. tidos, expressando a necessidade da confronta-
A semântica grega sabia já que “dizer qual- ção entre interpretações.
quer coisa de qualquer coisa, é já dizer outra coi- Martin Heidegger, por seu lado, procurando o
sa, interpretar”. A lógica grega assenta na univo- fundamento da metafísica, põe a questão do ser
cidade das afirmações e tende a afastar a diversi- na distinção com todo o existente. Da preocupa-
dade dos sentidos. Por esta razão se despreza a ção epistemológica de Dilthey passamos para o
comédia, irónica e mentirosa, em favor da tragé- domínio ontológico.
dia, que procura a purificação na 6hVDF4H. Sófo- Mais perto de nós, há que reter G. H. Gadamer
cles contra Aristófanes, o 8`(@H contra o :bh@H. e, sobretudo, Paul Ricoeur, para quem “il n’y a
A kátharsis das paixões exprime-se com a cla- pas d’herméneutique générale, pas de Canon uni-
reza que permite realizar a imitação da verdade. versal pour l’exégèse, mais des théories séparées
Aristóteles introduzirá a temática no seu AXD\ et opposées concernant les régles de l’interpré-
¦D:0<g\"H sem resolver aquela contradição. tation” (Ricoeur, 1969).
Durante mais de um milénio a hermenêutica A reflexão hermenêutica aponta assim para a
reportou-se à exegese dos textos bíblicos. ultrapassagem da divergência das hermenêuticas.
A hermenêutica moderna afirma-se no segui-
mento de Wilhelm Dilthey e Edmund Husserl. O
primeiro, salientando uma consciência histórica, HERMENÊUTICA E PSICOLOGIA
propôs uma metodologia válida para as ciências
sociais e humanas, animou a discussão entre ex- A psicologia sofreu a influência das correntes
plicação e compreensão. Husserl, faz do regresso hermenêuticas, fomentando debates interdiscipli-
nares entre as duas áreas de estudo. As contro-
vérsias de hoje mantém traços das questões aci-
ma realçadas. Messe, Sass e Woolfolk (1990)
editaram uma obra dividida em três áreas funda-
(*) Psicólogo Clínico. Unidade Investigação em Filo-
mentais: questões metodológicas; hermenêutica
sofia e Ciências Sociais – Instituto Superior de Psico- ontológica e hermenêutica crítica. A primeira par-
logia Aplicada, Lisboa. te da obra aborda, no essencial, explorações teó-

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ricas sobre o método hermenêutico quando aplica- e prever acontecimentos. O conhecimento narra-
do à psicologia e à psicanálise; a ontologia her- tivo, pelo contrário, estaria direccionado para as
menêutica concentra-se menos no papel desem- “vicissitudes das intenções humanas” (Bruner,
penhando pela interpretação, enquanto método, 1986). Se o conhecimento paradigmático se pre-
para se centrar na constituição da existência hu- ocupa com provas empíricas e com verdades uni-
mana em si mesma; finalmente, a hermenêutica versais, o narrativo, move-se pelos meios da ve-
crítica, pretende constituir-se como um espaço rosimilhança e dos acontecimentos da vida hu-
aberto de discussão sobre os fundamentos que assis- mana. Em Actos de Significado Bruner (1990),
tem à construção, tanto das práticas intelectuais, expõe logo de início, o desalento em relação aos
como das instituições sociais (Messer, Sass & Wool- equívocos de uma certa revolução cognitiva, ocor-
folk, 1990). rida no fim dos anos 50: «a ênfase começou a
Packer e Addison (1989), propõem um con- deslocar-se do “significado” para a “informação”,
junto de estudos hermenêuticos em psicologia, que da construção de significado para o processa-
vão da área social, passando pela educacional até mento de informação», quando o objectivo ini-
à clínica. Nestas áreas, está presente a discussão cial era «descobrir e descrever formalmente os
sobre o objecto de estudo, a origem do conheci- significados que os seres humanos criam a partir
mento, o carácter explicativo e os métodos usa- das suas relações com o mundo e, em seguida
dos. Donde, surge a polémica com o racionalis- propor hipóteses sobre a intervenção dos pro-
mo, o positivismo, o empirismo e os contrapon- cessos de criação de significado» (Bruner, 1990,
tos destas áreas, com uma perspectiva hermenêu- p. 17). Estamos em presença da defesa de uma
tica em psicologia. psicologia cultural, assente nas actividades sim-
Chegados a este ponto, uma interrogação nos
bólicas que subsistem na criação do sentido, cons-
assiste no imediato: o que une estes psicólogos
truído pelo homem sobre si mesmo e a sua acção
ao longo das obras citadas? Qual a motivação pa-
no mundo.
ra recuperar as polémicas intermináveis da ori-
Mas, como dissemos, são várias as razões pa-
gem do conhecimento e a discussão sobre os pres-
ra invocar Bruner. Ficaram já demarcados dois
supostos e os fundamentos que a psicologia aco-
aspectos: uma crítica aos desenvolvimentos ocor-
lheu, desde que se constitui como campo de es-
ridos na revolução cognitiva que se estende aos
tudo autónomo, adoptando como modelo, a ra-
cionalidade científica? No limite, dir-se-á que o momentos actuais da psicologia; a ênfase numa
que está em causa é a própria maneira de como o psicologia cultural que tem a interpretação e o signi-
homem se constitui a si mesmo e ao mundo em ficado como pontos centrais para estar concen-
que vive. Pelo caminho, um desencanto académi- trada, não tanto em comportamentos, mas na “acção
co pelas vias que a psicologia tem seguido. Não situada”. O autor ajuda-nos também a clarificar
estão em causa as múltiplas investigações que fa- outros aspectos. Em primeiro lugar, a delimita-
zem hoje parte da psicologia, mas uma certa ma- ção do nosso estudo. Não obstante reclamarmos
neira de considerar o conhecimento que exclui o a hermenêutica como companheira de percurso,
homem e a sua subjectividade. A psicologia ao estamos em presença de discussões sobre a psi-
adoptar o método experimental como meio de conhe- cologia e a psicoterapia. Este alicerce tornar-se-
cimento exclusivo, totalitário, abandonou aspectos -á mais importante à medida em que o texto
cruciais como: significado, intencionalidade, de- avançar para questões mais directamente ligadas
sejo, contexto. com a hermenêutica e com os debates internos
Torna-se aliás imperioso recordar outro psicó- desta. A psicologia mantém-se no nosso horizon-
logo, Jerome Bruner (1986, 1990). Por várias ra- te. A mediação desta última parece-nos tanto mais
zões. Em Actual Minds, Possible Worlds (1986), importante, quando estão em causa fundamenta-
diferencia dois tipos de conhecimento: o conhe- ções epistemológicas da hermenêutica que, pas-
cimento paradigmático e o conhecimento narra- sando pelo crivo do olhar psicológico, preten-
tivo. O primeiro segue uma lógica matemática, dem ser submetidas ao campo psicoterapêutico.
própria do pensamento científico, pretendendo, A psicologia deverá manter-se como vector cen-
tanto quanto possível, estabelecer um reducionis- tral dos debates. Finalmente, os trabalhos dos au-
mo que permita desenvolver explicações causais tores citados, reflectem a importância que a her-

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menêutica tem actualmente para a psicologia e certeza impõem. Ao que parece, estas só poderão
para o futuro que se perspectiva. surgir sob a égide de uma psicologia cientifica-
Veja-se, a título de exemplo, o número espe- mente articulada com as áreas de ponta acima men-
cial do Psychological Bulletin, publicado pela cionadas. O Sujeito construtor do sentido, o ho-
American Psychological Association, em No- mem que se move intencionalmente associado ao
vembro de 2000. Os editores, Eisenberg, Robert- seu contexto é relegado para o limbo das arcas
son, e Sher (2000), compuseram o número sob da subjectividade.
uma denominação ambiciosa: Psychology in the Mas estamos agora muito longe do espectro a
21st Century. Os textos passam por várias áreas que nos propomos seguir nestas linhas. Não é
de estudo da psicologia: da emoção à tomada de objectivo deste texto refutar as linhas gerais por
decisão, das relações interpessoais à psicotera- que se move a psicologia do século XXI, nem
pia, entre outros. No entanto, o pano de fundo das ignorar a importância das investigações realiza-
diferentes investigações é a proeminente preo- das nos campos das neurociências ou da genéti-
cupação em estabelecer laços cada vez mais for- ca. O que está em causa é explicitar o contexto
tes com as neurociências, com a biologia, com a actual da nossa disciplina e as atinentes reflexões
genética; ou seja, a psicologia entra no século epistemológicas sobre a mesma. É dentro da actual
XXI com o objectivo claro de sedimentar o cará- situação que os autores citados vão desenvolven-
cter de racionalidade científica, adaptado às áreas do os esforços de articulação entre a psicologia e
de vanguarda acima citadas. Sobre a psicoterapia a hermenêutica. Se o nosso texto não pretende
referem os autores: «The issues surrounding the analisar a Psicologia do século XXI, não tem
next generation of psychotherapy research must igualmente como objectivo estabelecer uma es-
find a way to maintain high scientific standards pécie de história das ideias e das relações entre a
(…).» Genericamente, sobre a psicologia, o pos- hermenêutica e a psicologia. Pretendemos ape-
tulado é igualmente claro: «Whereas much of the nas, concentrar em alguns pontos da obra de um
20th century was a period of division and segre- dos autores que mais tem contribuindo para a
gation of intellectual interests, the 21st century ligação entre a hermenêutica e as ciências sociais
promisses to be one of convergence and integra- e humanas: Paul Ricoeur.
tion» (Eisenberg, Robertson & Sher, 2000). Pre- São múltiplas as possibilidades de contacto
sumimos que a integração e a convergência a que com a hermenêutica ricoeuriana. Por economia
os autores se referem, estejam directamente liga- de espaço, teremos de fazer escolhas, não isentas
das às áreas de futuro que apontam para a psico- de alguns riscos. Vamos abordar, sucintamente,
logia: a biologia, a genética, a neurociência, cam- alguns aspectos que se desenvolvem essencial-
pos que se movem numa modernidade cientifi- mente na obra Du texte à la action – Essais d’her-
camente aceite. Como os próprios autores salien- méneutique II (1986). Adiantemos os motivos
tam, as escolhas dos temas deste Psychological que nos levaram a reflectir sobre algumas te-
Bulletin, expressam as suas próprias opções e en- máticas destes textos. Em primeiro lugar, iremos
tendimentos sobre a disciplina. Não deixam, no acompanhar o autor nas suas razões para susten-
entanto, de ser um reflexo das áreas que a psico- tar uma fenomenologia hermenêutica, longe de
logia privilegia para o presente e para o seu futu- uma perspectiva idealista, defendida por Husserl.
ro, enquadradas por uma reconhecida instituição Seguiremos em paralelo a perspectiva que Ri-
– American Psychological Association (APA). coeur desenvolve sobre a ontologia heidegge-
Parece-nos agora mais claro, a razão em re- riana. Assentes numa fenomenologia hermenêu-
cordar as preocupações que Bruner expressou a tica e numa ontologia da compreensão, destaca-
propósito da revolução cognitiva. O contexto não
remos algumas noções fundamentais da obra ri-
se alterou, pelo contrário, a psicologia main-
coeuriana: discurso; mundo; texto; acção. Atra-
stream, parece apostada em seguir os caminhos
vés destes tópicos teremos de passar por algumas
que a afastam do homem como ponto principal
problemáticas entretanto criadas ao nosso campo
para a constituição de si mesmo e do seu mundo.
de estudo, a saber:
Estamos em presença de uma psicologia tecnolo-
gicamente armada, de forma a fazer face às exi- - o afastamento da hermenêutica de uma psi-
gências que as buscas pela verificação e pela cologia de autor;

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- e a passagem para o modelo do texto em sein ao real, para além do estrito elo sujeito-
contraponto ao modelo dialogal. objecto. Donde, a questão fundamental é a de
mundaneidade do mundo, é a condição de habi-
Ambas as questões, serão acrescentadas com
tante do mundo que permite ao Dasein desenvol-
uma discussão, a partir da noção de mundo do
ver a tríade: situação-compreensão-interpretação.
texto com o objectivo último de estabelecer pon-
Antes de qualquer discurso há um ser já lançado,
tes com o campo da psicoterapia, em particular,
um estar aí prévio que desconhece o objecto, um
com as abordagens fenomenológico-existenciais.
ser que apenas é para compreender. Compreen-
der, antes demais, como compreensão de possi-
FENOMENOLOGIA HERMENÊUTICA bilidade de ser.
A primazia da ontologia fundamental sobre a
Em Du texte à la action (1986), Ricoeur ex- epistemologia e a psicologia do sujeito tem im-
plicita algo que já tinha iniciado em Le conflict plicações drásticas nestas duas últimas. Desta-
des interprétations (1969), uma crítica à fenome- que-se uma ideia central: é inacessível o ideal de
nologia de Husserl, na sua versão idealista. Con- uma transparência do sujeito a si mesmo. Este
sequentemente, defende um excerto da herme- caminho tinha sido já desbravado a partir da lei-
nêutica na fenomenologia, salientando a interde- tura realizada sobre Freud e explicitada em Le
pendência entre ambas. Os argumentos tornam- conflict des interprétations (1969). A partir dos
se mais visíveis em Du texte à la action, onde mestres da suspeita Marx, Nietzsche e Freud o
Ricoeur expõe cinco teses do idealismo husser- homem moderno sofre um rude golpe no seu nar-
liano, às quais acrescenta as antíteses hermenêu- cisismo que impunha uma “ilusão da consciência
ticas, de modo a propor a “pertença mútua” entre de si”. A consciência passa então a ser uma tare-
fenomenologia e hermenêutica. Não abordare- fa e não um adquirido. Libertando a fenomeno-
mos os argumentos em pormenor. Destacaremos logia do idealismo husserliano, caminho já ence-
alguns aspectos que nos possibilitarão seguir a tado por Heidegger, Ricoeur vai no entanto pro-
hermenêutica proposta por Ricoeur e tornar claro por uma via mais longa, aquela desenvolvida por
alguns problemas surgidos a partir desta última. uma ontologia da compreensão que coloca no
Em primeiro lugar, salientemos a base heideg- Dasein o lugar do compreender esse ente que inter-
geriana seguida por Ricoeur. Antes da fenome- roga o seu ser. A via longa implica assim um des-
nologia se preocupar em ter posições radicais, vio necessário:
afastando-se de uma perspectiva científica, im- «il n’est pas de comprehension de soi qui
porta sobretudo, atender ao solo ontológico da ne soit médiatisée par dês signes, dês sym-
compreensão colocado por Heidegger, ultrapas- boles et dês textes; la comprehension de
sando assim os limites da divisão sujeito-obje- soi concide à titre ultime avec l’interpré-
cto. Ricoeur prefere no entanto substituir o “ser-
tation appliqué à ces termes médiatures»
-no-mundo” pela noção de pertença ao qual irá
(Ricoeur, 1986, p. 33).1
contrapor a ideia de distanciação. Perceberemos
mais tarde que estes dois conceitos serão a base Este aspecto relaciona-se directamente com
de uma dialéctica desejada entre explicação e outra crítica ao idealismo de Husserl: o equívoco
compreensão. Por agora importa reter que, pri- da intencionalidade. Se esta foi o fundamento de-
meiro o homem está lançado no mundo, só de- cisivo apresentado pela fenomenologia herdeira
pois o tenta compreender (Verstehen). A relação de Brentano, não foi menos importante, segundo
sujeito-objecto passa a ter um elo ontológico,
herdado da fenomenologia hermenêutica heideg-
geriana. Este aliás poderá ser um dos equívocos
de uma leitura estritamente existencial da obra
Ser e Tempo, isto é, apesar de se aprofundar te- 1
«não há compreensão de si que não seja media-
mas como o ser-para-a-morte, a angústia, entre tizada por signos, símbolos e textos; a compreensão de
outros, não é com a intenção de desenvolver uma si coincide, em última análise, com a interpretação apli-
psicologia existencial mas de relacionar o Da- cada a estes termos mediadores» (Ricoeur, 1986).

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Ricoeur, o mal entendido gerado no seio fenome- mencement ou à la fin» (Ricoeur 1986, p. 54).3 O
nológico que esqueceu a lição primeira: a cons- que implica então o desvio proposto?
ciência de alguma coisa em contraposição à cons- A tarefa hermenêutica é agora mais clara. Já
ciência de si. Não está em causa o método des- não se trata apenas de uma interpretação simbó-
critivo, nem a époche, que aliás é entendida co- lica como o autor propôs nos seus primeiros tra-
mo espaço necessário para o homem construir o balhos, mas de assumir a despesa de um duplo
sentido da sua vivência. A redução reflecte na trabalho: restaurar ambas as dinâmicas do texto.
fenomenologia, a necessidade de distanciação de Isto é, restabelecer a estrutura interna do texto e
uma hermenêutica que, tal como a primeira, a sua projecção como mundo outro que eu po-
busca o sentido através da experiência no mun- deria habitar enquanto meu. Deste modo, entra-
do, por sua vez, não acessível ao conhecer ime- mos na noção de mundo do texto, que caracteri-
zará a hermenêutica ricoeuriana. Estamos já dis-
diato.
tantes do idealisamo husserliano e próximos de
A intencionalidade, a grande descoberta da fe-
uma interdependência entre a fenomenologia e a
nomenologia, mantinha-se retida na perspectiva
hermenêutica, bem como da função que esta úl-
idealista: tima desempenhará na restauração do mundo in-
«la phénoménologie, qui était pourtant issue terno do texto e da projecção deste. Estamos, no
de la découverte du caractère universal de entanto, perante uma encruzilhada para o psicó-
l’intentionnalité, n’a pas suivi le conseuil logo e para o psicoterapeuta. Em primeiro lugar,
de sa propre trouvaille, à savoir que la cons- a hermenêutica distancia-se das suas perspecti-
cience a son sens hors d’elle-même» (Ri- vas românticas, deixando de ter como objectivo
coeur, 1986, p. 59).2 uma psicologia de autor. Se a compreensão do
ser heideggeriano assenta na mundanização do
Portanto, até este ponto temos um Dasein mundo, abandona-se simultaneamente um olhar
antecipadamente lançado num mundo, através do psicológico desse compreender. A mira do olhar
qual se poderá compreender enquanto projecto, interpretativo é reajustada, já não se trata de com-
sempre em aberto enquanto é. Estamos inevita- preender a subjectividade do sujeito, mas de pers-
velmente ligados ao mundo por uma pertença in- pectivar o trabalho do texto constituído como mun-
dissolúvel. Mas, se para Heidegger o Dasein é do. Por outro lado, é abandonado o modelo dia-
ele mesmo lugar de manifestação, de um fazer- logal agora substituído pelo discurso fixado pela
-ver, para Ricoeur, será necessário realizar uma escrita. Não é apenas a intencionalidade do sujei-
mediação pelos signos, pelos símbolos e pelos to-autor que deixa de ser a preocupação da her-
textos, através de uma dialéctica na qual o ho- menêutica é também o modelo de diálogo e a sua
mem necessita de se distanciar para se reapro- intersubjectividade que deixa de impor os limites
priar da sua ipseidade. A intencionalidade e a pró- ao discurso tornado texto, então habilitado para a
pria redução, salientam a necessidade da consci- investigação interpretativa. A tarefa hermenêu-
ência procurar o sentido fora de si mesma. O cír- tica proposta por Ricoeur coloca de uma assen-
tada dois desafios à psicologia: a recusa do mo-
culo hermenêutico nega duplamente o projecto
delo dialogal e a rejeição da busca de uma inten-
husserliano na busca de uma radicalidade última
cionalidade do sujeito. Deixemos para já em aber-
ou de uma intuição primeira: «tout interprétation
to estas problemáticas às quais voltaremos mais
place l’ínterprète in medias res et jamais au com- adiante.

2
«a fenomenologia, apesar de ter a sua origem na
descoberta do carácter universal da intencionalidade,
não seguiu o conselho da sua própria descoberta, a
3
saber, que a consciência tem o seu sentido fora de si «toda a interpretação coloca o intérprete in media
mesma» (Ricoeur, 1986). res e nunca no início ou no fim» (Ricoeur, 1986).

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O MUNDO DO TEXTO permanecer no dito. É no sentido que o aconteci-
mento se supera, na articulação significação-acon-
Antes de reflectirmos sobre os problemas cria- tecimento, está o âmago da problemática herme-
dos pela proposta hermenêutica ricoueriana, apro- nêutica. Torna-se assim relevante a uma linguís-
fundemos um pouco mais a noção de mundo do tica do discurso uma aproximação à teoria do actos
texto e alguns conceitos a este relacionados: acon-
de discurso, desenvolvida no essencial por Austin
tecimento, discurso e acção. Para Ricoeur, o texto
e Searle, e que apresenta três níveis relacionados
não é apenas uma forma do homem trocar men-
entre si: nível do acto locucionário, i.e., o acto de
sagens entre si, mas um meio de comunicação na
e pela distância. Ao reclamar o texto como espa- dizer; o nível do acto ilocucionário, que repre-
ço primeiro, não se pretende colocar o nó do pro- senta aquilo fazemos quando dizemos algo; e o
blema hermenêutico na escrita, teremos de o pro- nível do acto perlocucionário que traduz as impli-
curar num primeiro momento no discurso, de- cações que criamos no meio, pelo facto de ter-
pois nas oposições fala-escrita e linguagem-es- mos dito o que dissemos. Se num primeiro mo-
crita, finalmente na noção de obra. O objectivo é mento estamos ao nível proposicional do acto de
trazer à luz o mundo do texto como ponto pri- dizer, este por sua vez, poderá constituir-se como
mordial para o homem perspectivar historica- acção no sentido em que podemos assumir uma
mente a sua experiência, a sua relação ao real. promessa, promover uma ideia, dar uma ordem,
Deste modo, a preocupação fundamental da her- estando já a fazer algo (ilocucionário); finalmen-
menêutica é passar da noção de texto à ideia de te, ao realizar uma ordem, ao dar uma indicação,
abertura de um mundo, o mundo da obra que se pode-se provocar uma série de reacções, como mau
projecta, que se abre, permitindo chegar à com-
estar, irritação ou, por exemplo, um contenta-
preensão de si.
mento pela indicação dada (perlocucionário). O
No entanto, será necessário dar alguns passos
intermédios. O primeiro opõe uma linguística da fundamental é ter em conta que os actos de dis-
língua a uma linguística do discurso. Ao contrá- curso traduzem um reescrever da acção, na me-
rio da linguagem que poderá conhecer movimen- dida em que provocam alterações de facto na vi-
tos centrífugos sem um fim aparente, através dos vência de cada um. O sentido que o discurso po-
códigos de uma língua particular, o discurso pos- de ter desenvolve-se a diferentes níveis – cogni-
sui um traço fundamental de distanciação tradu- tivo, emocional, interrelacional – não estando ape-
zido na dialéctica acontecimento – significação. nas circunscrito à empiria da fala humana, pelo
Em primeiro lugar, o discurso é entendido como contrário, tem uma implicação directa na acção,
acontecimento porque se realiza temporalmente, provocando alterações entre sujeitos e na relação
enquanto que a língua é virtual e acontece fora destes com o mundo. Podemos então compreen-
do tempo. No discurso alguém fala, um alguém der o primeiro movimento do paradigma textual,
que exprime e, ao fazê-lo, pretende descrever ou assente na dialéctica acontecimento-significação.
representar alguma coisa. Esta característica dis- Por um lado, o discurso não é apenas lingua-
tingue igualmente o discurso da linguagem, se gem, distingue-se desta por um conjunto de ra-
esta última rodopia em volta do seu sistema lexi- zões que o promovem enquanto acontecimento.
cal, nos quais signos remetem para outros signos, Por outro, o acontecimento poderá ultrapassar o
no primeiro, está-se perante a representação de carácter fugaz que o caracteriza e ter uma marca
um mundo. Este último é descrito por alguém de inscrição mais forte na acção humana, pela
que fala, e ao falar, exprime-se perante um outro criação do sentido que surge na distanciação do
que recepciona o discurso, colocando-se nova- dito, tal como perspectivado pela teoria dos actos
mente a tónica temporal num espaço entre inter- de discurso. O discurso é um acontecer dado pe-
locutores que podem prolongar ou suspender o lo sentido dele resultante.
acontecimento do discurso, o mesmo é dizer, o Outros passos são ainda necessários para che-
descrever de um mundo. garmos à noção primeira de uma hermenêutica
Não é no entanto o carácter fugaz no tempo que textual. Considerar o discurso como obra estru-
se pretende compreender mas o sentido que pode turada. Se a frase é a medida de uma hermenêu-

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tica do discurso, a obra permite alargar o proble- objectivo bem como a área de acção do autor: o
ma hermenêutico e constituir-se como um mun- texto é o paradigma que permite ultrapassar as
do particular, total e finito. Para além do con- limitações da hermenêutica romântica e das di-
ceito de obra, a distinção entre fala e escrita, per- cotomias entre explicação e compreensão, estan-
mitirá um dos objectivos de Ricoeur para superar do assim na base da proposta ricoeuriana para
a hermenêutica romântica: tornar o texto autóno- uma hermenêutica geral. Abordemos então al-
mo da intencionalidade do autor. Pretende-se assim guns aspectos sobre as relações entre as teorias
conceder um espaço necessário ao texto, não o do texto e da acção, de modo a podermos expla-
limitando a uma perspectiva psicológica, propor- nar com outro pormenor, os nossos pontos de vista.
cionando-lhe em paralelo, uma distanciação que A dialéctica explicar-compreender torna-se viá-
será reapropriada no acto da leitura, constituin- vel porque a relação entre a escrita e a leitura pro-
do-se esta como tarefa da interpretação. Renun- move possibilidades não realizadas no diálogo,
ciado ao objectivo de alcançar a intenção do au- na dicotomia falar-ouvir. O paradigma textual per-
tor, o texto passa a ser o espaço onde o sujeito se mite desenvolver uma objectividade de estatuto
pode compreender perante a obra. Esta traduz-se explicativo, quando assente em quatro caracterís-
por um discurso que tem a pretensão de dizer a ticas base: capacidade de fixar a significação na
verdade, de promover a criação intencional de escrita; distância em relação à intenção do autor;
um mundo em directa relação com a realidade – desenvolve-se através de referências não osten-
o mundo da vida. O papel da interpretação passa sivas e pelo facto de ser obra em aberto passível
então a ser o de «expliciter la sorte d’être-au-mon- de várias leituras-interpretações. O texto, tal co-
de déployé devant le text» (Ricoeur, 1986, p. 128).4 mo o indivíduo, poder ser apreendido a partir de
Vemos agora também porque Ricoeur salien- diferentes perspectivas, estando-se deste modo
tou o conceito heideggeriano de mundaneidade. perante um cenário análogo ao da percepção, on-
O mundo de Heidegger não é apenas a totalidade de o vértice de quem vê, implica sempre um olhar
dos entes, o ser-no-mundo é a transcendência particular. Existem sempre perspectivas outras
realizada pelo Dasein, o mundo nunca está ape- para apreendermos os fenómenos, como existem
nas em face, o mundo “mundaniza-se”. O Dasein sempre várias possibilidades, ainda que não ili-
transcende-se não em relação aos entes mas em mitadas, para interpretar um texto. É assim im-
direcção ao mundo, entendido enquanto horizon- portante relevar o carácter construtivo da leitura
te de possibilidades do ser-aí se interpretar. É no ou de um olhar sobre a acção humana, carácter
mundo que o Dasein se conhece. O mundo do esse que assenta no círculo hermenêutico: o todo
texto é em si mesmo um mundo, diferente do influência as partes e estas o primeiro. Num tex-
mundo real e precisamente por ser diferente, po- to, tal como na acção, as frases, os actos, não têm
de entrar em confronto com este último, descons- todos um valor idêntico, fazem parte de um “pro-
truí-lo, pô-lo em causa. Mas, se o mundo do tex- cesso cumulativo e holístico”. As frases e as acções
to desarruma o nosso mundo real, constitui-se não são agrupados paralelamente em termos va-
igualmente como um conjunto de possibilidades lorativos, pelo contrário, são consideradas e pers-
para a nossa vivência, desvendando horizontes pectivadas de maneira distinta, consoante a força
outros para a nossa realidade, refazendo-a, orga- e a importância reconhecidas através de um pro-
nizando-a. O mundo do texto vai assim intervir cesso construtivo, um jogo entre o todo e as partes.
na nossa acção, transfigurando-a. Esta questão remete aliás para um outro par
vinculativo: conjecturar-validar.
Numa hierarquização de interpretações de
A ACÇÃO HUMANA COMO TEXTO textos ou de acções, estamos perante uma “lógi-
ca da probalidade subjectiva”, e se no círculo
Com a noção de mundo do texto explicita-se o hermenêutico, onde o intérprete é sempre colo-
cado in media res, o primeiro movimento passa
pelo conjecturar das partes (frases/acções), não
assumindo estas em relação ao todo (texto/indi-
4
«explicitar o modo de ser-no-mundo exposto dian- víduo), um carácter estático e definitivo. O texto,
te do texto» (Ricoeur, 1986). tal como o sujeito, constrói-se, não é dado por

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uma sucessão de frases ou de acções. Se não exis- dologia da interpretação dos textos é um para-
tem regras boas e previamente estabelecidas pa- digma adequado ao objecto das ciências huma-
ra a criação de conjecturas, existem no entanto, nas. Não é este o nosso ponto de discussão. Não
procedimentos de validação apropriados. A vali- pretendemos debruçarmo-nos sobre aspectos me-
dação de uma interpretação não passa por uma todológicos de investigação, apenas reflectir so-
verificação empírica mas por uma lógica «da bre o espaço de encontro terapêutico. Se a dis-
incerteza e da probalidade qualitativa» que está cussão metodológica está fora do âmbito deste
subjacente à dialéctica conjecturar-validar. Não texto, está igualmente excluída a controvérsia que
estamos assim no universo da verdade empírica, se poderia desenvolver entre as hermenêuticas de
da relação causa-efeito, mas no âmbito de disci- Ricoeur e Gadamer, já que este último ao contrá-
plinas onde a validação das conjecturas criadas, rio do primeiro, assenta a sua perspectiva de in-
decorrem de processos argumentativos. Não quer terpretação exactamente no diálogo e não no tex-
isto dizer que todas as interpretações têm o mes- to. Tentar-se-á reflectir sobre o paradigma textual
mo valor, ou que um texto tem possibilidades ili- de Ricoeur a partir do interior deste.
mitadas de interpretação. O texto enquanto tota-
lidade, limita o âmbito e as possibilidades de in-
terpretação, o mesmo acontecendo com as acções O MUNDO DO TEXTO E A PSICOTERAPIA
humanas. Estas, possuem também um contexto, FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL
uma amplitude limitada e circunscrita, análoga à
semântica de um texto. Há multiplicidade de signi- O cerne do assunto para nós está no campo psi-
ficações possíveis da acção, contrapõe-se uma fi- coterapêutico. Poderíamos sintetizar numa ques-
nitude de construções possíveis, diríamos, vero- tão: como é que a fenomenologia hermenêutica
símeis. ricoeuriana, assente no paradigma textual, pode
Entre uma multiplicidade particular do texto e trazer vantagens e pontos de contacto com a abor-
uma pluralidade semelhante da acção humana, Ri- dagem fenomenológico existencial em psicote-
coeur invoca novamente aspectos da teoria da rapia? Acrescem as duas problemáticas acima
acção, nomeadamente, aqueles que relacionam as adiantadas: a recusa do modelo dialogal e a rejei-
dimensões intencionais e motivacionais da ção da busca de uma intencionalidade do sujeito.
acção. Esta é compreendida quando à questão o Parece-nos importante sugerir agora o psicó-
quê? acresce a resposta à pergunta porquê? A in- logo mediador antes de entrarmos nos argumen-
tencionalidade, expressa em desejos e crenças, ma- tos de âmbito propriamente psicoterapêutico. Re-
nifesta-se não apenas pela intensidade do agir, tomemos então a psicologia de cariz cultural, pro-
como também pelo sentido que lhe está inerente. posta por Jerome Bruner, para quem o conceito
Daí o autor propor que a acção humana pode ser central é o de significado. O sentido da existên-
compreendida a partir da motivação, da intenção cia humana é construído a partir da experiência e
do sujeito, podendo estas serem objecto de uma dos estados intencionais do sujeito, assentes em
lógica argumentativa que explica a acção, colo- sistemas simbólicos da cultura que desenvolvem
cando-a num espaço propício ao conflito de in- processos de interpretação da vida em comum, o
terpretações. que se poderá designar de psicologia de senso
A partir daqui cumpre-nos clarificar alguns comum. Dir-se-á que a psicologia cultural de
pontos. Como ficou explícito, o nosso interlocu- Bruner põe o homem-no-mundo. É a participa-
tor está em diálogo com uma tradição de longos ção na e através da cultura que proporcionará ao
pergaminhos, tentando desenvolver a sua pro- sujeito constituir os seus estados intencionais. A
posta hermenêutica, longe das preocupações psi- sua vivência torna-se assim partilhada e pública
cológicas, ao contrário deste texto. Por outro la- pelo que a interpretação está no mundo e não no
do, como é sabido, Ricoeur aplicou o seu para- ser isolado. Uma psicologia com as presentes preo-
digma textual à ideia de “acção sensata” de Max cupações não deixará de lado o que a psicologia
Weber, com intuito de demonstrar como é que científica descura facilmente: o desejo, a crença,
uma teoria do texto está directamente relaciona- a intenção, o compromisso. Estes últimos têm si-
da com uma teoria da acção e, sobretudo, para do sistematicamente excluídos da “boa psicolo-
explicitar como é que em seu entender a meto- gia” por não conterem uma premissa indispen-

698
sável: um estatuto explicativo. Segundo Bruner, de ele caí do interior de si mesmo, presume um
este aspecto deve-se à desconsideração com que afastamento angustiante, ou seja, não são os en-
a subjectividade da experiência humana é olhada tes intramundanos que angustiam o ser-aí, é o
e que se traduz na desconfiança com que encara- mundo enquanto “mundaneidade” que angustia o
mos o que as pessoas dizem, em contraponto ao Dasein, é o próprio ser-no-mundo que é angús-
que as pessoas fazem. A psicologia cultural cen- tia, solitário, entregue apenas a si, ek-siste estra-
trada no significado da experiência humana dará nhamente num mundo que não é sua casa, mas sim
atenção não apenas ao que as pessoas fazem, mas um desenraizamento. A tríade situação-compre-
também ao que dizem ser as razões que as leva- ensão-interpretação segue uma lógica extensível
ram a ter ou não ter determinadas acções, bem ao espaço terapêutico, mas como afirma Ricoeur,
como, ao que as pessoas dizem sobre os outros e o homem não tem apenas uma situação, ele tem
das acções destes e, «ao que as pessoas dizem ser e vive um mundo. Sempre já lançado, ele terá de
os seus mundos» (Bruner, 1990, p. 27). A ques- constituir a consciência como tarefa. A via longa
tão primordial para essa psicologia não é tentar ricoeuriana parece-nos claramente relacionada
prever ou verificar a veracidade dos comporta- com o espaço a dois no qual o próprio conhecer é
mentos humanos, mas em se mover pelos esta- tarefa, diríamos, de uma interceptação de textos
dos intencionais que se traduzirão na “acção si- que se cruzam. Mas avancemos passo a passo.
tuada” dos sujeitos. A oposição entre diálogo e texto. Ao explici-
Numa linguagem ricoeuriana, diríamos que se- tar o seu paradigma textual, Ricoeur facilita a
gundo Bruner, existe uma unidade fundamental compreensão da importância da própria lingua-
na dialéctica dizer-fazer. O conhecimento narra- gem, ou se quisermos, da relevância de uma lin-
tivo proposto pelo autor não se preocupa com ex- guística do discurso na qual assenta a relação te-
plicações causais nem com provas empíricas. Di- rapêutica. Senão vejamos. A questão fundamen-
reccionado para a intencionalidade, para as «vi- tal do discurso é ter um traço de distanciação tra-
cissitudes das intenções humanas», move-se pe- duzido na dialéctica acontecimento-significação.
los meios da verosimilhança. Este aspecto per- As quatro características que distinguem esta lin-
mite-nos sugerir uma relação directa com a dia- guística do discurso são no fundo uma boa des-
léctica referida por Ricoeur: o conjecturar e o va- crição do espaço terapêutico: realiza-se tempo-
lidar da acção humana, acima descritas. As rela- ralmente; alguém fala; ao falar descreve, expri-
ções entre causa-efeito e intenção-acção, impli- me um mundo; ao exprimir-se fá-lo perante um
cam lógicas distintas. Na primeira pode-se iden- outro. Estes quatro pontos são inerentes à relação
tificar e distinguir os aspectos prévios que impli- intersubjectiva, mais ainda, importa aqui referir
carão consequências, Ricoeur dá mesmo um exem- que não é o carácter fugaz da fala humana que
plo muito simples: se um fósforo pode ser causa parece ter maior peso, mas tal como defendido
de uma explosão eu posso definir o primeiro sem na teoria dos actos de discurso, é o que perma-
referir a segunda. Já não posso compreender uma nece no dito que permite criar o sentido aos acon-
acção se a separar da sua intenção, como explici- tecimentos do discurso. Os diferentes níveis (lo-
tado pelas relações entre as perguntas o quê? e cucionário, ilocucionário e perlocuciuonário) tra-
porquê? duzem a inscrição do discurso enquanto actos que
Parecem-nos claros os pontos de contacto des- têm um impacto real na acção das pessoas, in-
ta psicologia com a fenomenologia hermenêutica fluenciando-as cognitiva, inter-relacional e emo-
de Ricoeur. Vejamos então como estas, no nosso cionalmente. A diferença entre linguagem e dis-
entender, estão intimamente relacionadas com as curso assenta na possibilidade deste se tornar acon-
premissas das abordagens fenomenológica-exis- tecimento marcante pelo facto da distanciação do
tenciais do encontro psicoterapêutico. dito lhe dar um sentido.
Comecemos por uma das bases de Ricoeur: a A teoria dos actos de discurso parece realçar
ontologia heideggeriana. As abordagens fenome- as preocupações da psicologia cultural de Bruner
nológico existenciais em psicoterapia, identifi- que não descura a relação entre o que as pessoas
cam-se com a noção desse Dasein que, mesmo dizem e o que fazem. Nesta dialéctica, podere-
antes de se compreender já está aí, lançado no mos ter um caminho privilegiado para o signifi-
mundo. Essa abertura que constitui o Dasein, on- cado da experiência humana, para a acção situa-

699
da no mundo. Esta relação entre o dizer e o fazer olhar de diferentes “leitores”. No inverso, dir-se-
tem directas implicações com o espaço terapêu- -á que os textos nada mais abordam senão o mun-
tico. O que é falado na intersubjectividade do diá- do da acção humana, como bem expresso na teo-
logo, tem certamente uma inscrição relacional da ria da tragédia de Aristóteles: o muthos da tragé-
ordem do dito da teoria dos actos de discurso, mar- dia, as fábulas, as intrigas, mais não são de que
cando e assinalando um percurso intrínseco e cir- uma mimèsis, ou seja, a representação criativa e
cunscrito à relação entre os dois sujeitos, mas que construtiva da acção humana. É pela significação
é também referente ao mundo expresso na narra- da acção que esta se destaca do acontecimento da
tiva e aos personagens desta. A linguagem enten- acção, o mesmo é dizer, é a «c’est sa structure
dida como discurso tem um efeito exponencial noématique qui peut être fixée et détachée du
na relação, as proposições ultrapassam-se a si mes- processus d’interaction et devenir un object in-
mas, para além do acto estritamente proposicio- terprété» (Ricoeur, 1986, p. 215).5
nal, marcam e delimitam o espaço de acontecer Para se compreender essa estrutura parece fun-
entre os dois sujeitos. Pensamentos, cognições, damental para Ricoeur estarmos atentos a outro
emoções, sonhos, devaneios, são inscritos num per- aspecto da teoria da acção, aquele que destaca o
curso e como que fixados em pontos específicos carácter intencional e motivacional da acção. A
de tempo do espaço relacional, como se de um acção humana, neste sentido, e tal como defendi-
texto fixado pela escrita se tratasse. do por Bruner, poderá ser compreendida a partir
Por outro lado, o mundo dito é o da experiên- dos actos intencionais do agentes que se movem
cia encarnada. Essa aliás é uma das conclusões no espaço mundo partilhado. Daí termos de rela-
retiradas a partir da leitura de Freud, a relação cionar à pergunta o quê? a exploração de um por-
directa entre desejo e fala. Não existe uma vi- quê? Aos quais acrescentaríamos a partir de um
vência que não peça para ser dita, expressa no olhar fenomenológico do espaço terapêutico um
último Heidegger: «A linguagem é a casa do ser. como? Como vivenciou este ou aquele aspecto.
Nesta habitação do ser mora o homem» (Heideg- Podemos assim, longe de uma lógica da estrita
ger, 1947/1987, p. 31). Se o Dasein está ontolo- causalidade e do seu efeito, tentar compreender a
gicamente distante e onticamente próximo de si partir da intencionalidade, as acções humanas.
mesmo, nem por isso esta diferença, esta falta em O paradigma textual da fenomenologia her-
relação a si mesmo, o deixa de impelir a preen- menêutica ricoeuriana acaba por ter estreitas re-
cher os espaços vazios colocados por uma expe- lações com as dinâmicas do espaço terapêutico.
riência que “pede para ser dita”. Mas se a teoria Julgamos que a noção mundo do texto simboliza
dos actos de discurso, do qual o paradigma textual magistralmente as intersecções referidas. Nele
se socorre enquanto modelo simultaneamente ex- estão contidos os traços fundamentais. Uma dis-
plicativo e compreensivo, a teoria da acção, outro tanciação que permite ao sujeito reapropriar-se a
alicerce seu, permite igualmente conexões estrei- partir de um mundo expresso, enquanto obra em
tas como o espaço terapêutico. Que retiramos nós aberto. Também nos textos terapêuticos o mundo
da conjugação entre texto e acção? neles contidos, estão em directa relação com a
As acções também se destacam do sujeito en- realidade – o mundo da vida (Lebenswelt). A
quanto actos que deixam uma inscrição, tanto na
relação terapêutica, sem caminhos previamente
experiência deste, como naqueles com quem ele
estabelecidos, constitui-se como espaço de cons-
se relaciona. As acções humanas deixam cunhos,
trução entre sujeitos que se colocam numa posi-
delimitam e sinalizam o curso dos acontecimen-
ção propícia para perspectivar o horizonte de
tos da história e das estórias nela envolvidas. Nes-
possibilidades do ser-aí se interpretar. Um inter-
te sentido, a acção contém inclusivamente uma
independência em relação às intenções iniciais
de quem as provocou, uma autonomia análoga à
identificada na semântica de um texto. Com uma
autonomia própria, marcando um percurso de acon-
tecimentos, as acções são um espaço publica- 5
«estrutura noemática da acção que pode ser fixada
mente partilhado, aberto à confrontação das e destacada do processo de interacção e tornar-se obje-
interpretações. Obras em aberto, disponíveis ao cto interpretativo» (Ricoeur, 1986).

700
pretar que é feito a partir de uma co-narrativa, nentemente, não através de uma mera sucessão
com uma dinâmica interna e que se projecta nes- ou sobreposição cronológica, mas sobretudo, a
se espaço intersubjectivo relacional, como mun- partir de uma probalidade subjectiva, sempre cir-
do outro. Este mundo, tal como proposto por Ri- cunscrita à multiplicidade de significações pos-
coeur, simultaneamente diferente e semelhante, à síveis dos actos de discurso.
realidade quotidiana de um Dasein, permite a O desafio que o modelo fenomenológico exis-
este colocar-se perante espaços eventualmente tencial defende que seja colocado ao self-cons-
habitáveis por ele. É neste sentido que o mundo truct da pessoa, parece-nos estar em plena con-
do texto assim compreendido, também na rela- formidade com a dialéctica conjecturar-validar,
ção terapêutica, desvenda horizontes outros, des- tal como descrita por Ricoeur. Por outro lado, o
construindo e construindo o nosso real, intervin- self-construct, tal como explicitado, está em di-
do na acção. Tal como acima referido, o mundo recta relação com a noção de mundo, primordial
do texto intervém na acção transfigurando-a. no contexto de psicoterapia fenomenológico-exis-
A teoria fenomenológica-existencial em psi- tencial. O mundo é conceito central que não de-
coterapia tem insistido numa perspectiva relacio- corre apenas de questões teóricas. Se por um la-
nal, em vez de um olhar estritamente isolado da do, o mundo criado entre os dois sujeitos é em si
existência humana. Esta última poderia ser es- mesmo particular, por outro, o terapeuta existen-
pelhada na simples frase de Lyotard (1954): «O cial não exclui todas as dimensões incluídas no
mundo é, deste modo negado como exterioridade mundo “lá de fora” que fazem parte integral da
e afirmado como ambiente, o Eu é negado como vivência da pessoa. Num certo sentido, há mes-
interioridade e afirmado como existente.» Se a mo uma tónica no «bring the world back into the
análise do Dasein passa pela exploração dos seus consulting room» (Spinelli, 2002). As relações
dilemas centrais – a angústia, a escolha, a liber- interpessoais são aspecto fundamental para ex-
dade, o sentido, a temporalidade – não deixa de pressar o ser-aí do sujeito, a forma única como
ser fundamental a maneira como as suas respos- ele o habita, vive e experiência as suas próprias idios-
tas se posicionam em relação à totalidade do seu sincrasias, os outros, o mundo.
mundo. Como refere Spinelli (1997), «whatever Neste sentido é muito importante salientar que
the response, however, what is significant is that a psicoterapia fenomenológico-existencial passa
the response itself expresses the stance we take por um processo de construção, os texto-narrati-
toward our relations with the world». Neste senti- va expressam-se como obra em aberto, diríamos
do o modelo fenomenológico-existencial assen- numa linguagem ricoeuriana, pretende-se expli-
ta numa exploração clarificadora do ser-no-mun- citar o modo de ser-no-mundo exposto diante do
do e das suas contradições, das suas angústias tal texto. Se o Dasein transcende-se não em relação
como firmado na noção de self-construct (Spi- aos entes mas em direcção ao mundo, este cons-
nelli, 1997). Neste conceito, o autor engloba os titui-se como horizonte de possibilidades do ser-aí
nossos valores, atitudes em relação a nós e aos se interpretar. No contexto terapêutico, a mun-
outros, aspirações, a história que nos faz distin- daneidade do mundo é crucial para o entendi-
guir enquanto individualidade encarnada de estar mento da tríade situação-compreensão-situação.
no mundo, muitas vezes, vivenciada sem ques- Este mundo perspectivado perante o “texto” po-
tionamento. Esta exploração do ser-no-mundo, derá assim intervir na nossa acção, transfiguran-
acrescentamos nós, pode assentar na dialéctica do-a, colocando o indivíduo numa dialéctica de
conjecturar-validar, tal como defendida por Ricoeur. pertença e distanciação que lhe permite recons-
Na relação terapêutica, os dois sujeitos são eles truir a sua ipseidade.
mesmo dois intérpretes, colocados in media res, Importa aqui invocar a noção de ancoragem
perante o texto-narrativa que se abre entre eles. proposta por Frederico Pereira (2001). Ao refe-
Também aqui, o primeiro movimento passa por rir-se à relação em contexto psicanalítico, salien-
conjecturar as partes (frases/acções) em relação ta a importância desempenhada pela função de
ao todo (texto/indivíduo), sem assumir um ca- ancoragem que ocorre entre os textos do analista
rácter definitivo. A lógica da conjectura-valida- e do analisando. Os dois textos, entrelaçados um
ção decorre de um processo construtivo, no qual no outro, diríamos nós, com uma lógica de vali-
as partes e o todo se vão influenciando perma- dação intrínseca e própria da totalidade realizada

701
por ambos, permite que a função de ancoragem texto, concentra em si um conjunto de conceitos
estabeleça limites de modo a que as possibili- que salientam essa ligação, não apenas com uma
dade de interpretação não caíam numa pura deri- psicologia centrada no sujeito construtor de sen-
va semiótica. Como afirma Ricoeur, «um texto é tido, mas também, com uma perspectiva terapêu-
quase um indivíduo», se este para além de uma tica que privilegia a compreensão do modo do
situação tem sobretudo um mundo, também a sujeito se posicionar no mundo. As problemáti-
acção humana, tal como um texto, é um campo cas entre explicação e compreensão, ultrapassa-
limitado de construções possíveis para a sua inter- das na proposta do paradigma textual, encontra a
pretação. Também na relação psicanalítica, inter- sua analogia na dialéctica conjecturar-validar,
pretar um texto é sobretudo criar e construir tex- quando transposto o modelo do texto para a no-
tos outros dos quais o sujeito pode perspectivar ção de acção humana. Estas questões, possibili-
outras possibilidades, sobre si mesmo, os outros tam a extensão da presente reflexão, a realizar
e o mundo. Estamos assim ao nível de constru- em contextos próximos, e que incidirão sobre
ção do sentido. Ao reconstruírem narrativas, ana- outras áreas da obra ricoeuriana, desenvolvidas
lista e analisando, criam outras narrativas, tradu- em Soi même comme au outre, particularmente, a
zindo-se assim o processo hermenêutico como
noção de identidade narrativa.
um alargamento de perspectivas (Pereira, 2001).
É por isso que há por nós uma passagem par-
ticularmente importante em Du texte à la action
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duit dans le cas de ce que nous avons appe-
lé l’inscription sociale de l’action humaine
(…). Si nous sommes justifiés à étendre à
l’action le concept de “conjecture”, pris
pour synonyme de verstehen, nous som- 6
«O que parece legitimar esta extensão da conjectura
mes également autorisés à étendre au champ do domínio dos textos ao da acção é o facto de que, ao
de l’action le concept de “validation”, dont argumentar acerca da significação de uma acção, eu
nous avons fait un équivalent de l’erklä- coloco os meus desejos e as minhas crenças à distân-
cia e submeto-os a uma dialéctica concreta de confron-
ren.» (Ricoeur, 1986, p. 228).6 tação com pontos de vista opostos. Este modo de pôr a
minha acção à distância, a fim de tomar consciência
dos meus próprios motivos, abre caminho à espécie de
DISCUSSÃO distanciação que se produz no caso daquilo a que cha-
mamos a inscrição social da acção humana (…). Se
estamos justificados ao estender à acção o conceito de
A fenomenologia hermenêutica proposta por “conjectura”, tomada como sinónimo de verstehen, es-
Ricoeur, parece-nos, em estreita relação com es- tamos igualmente autorizados a estender ao campo da
paço terapêutico, em particular com as aborda- acção o conceito de “validação” que nós tornámos equi-
gens fenomenológico-existenciais. O mundo do valente do erklären.» (Ricoeur, 1986)

702
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703
de uma psicologia do sujeito. O paradigma textual é Paul Ricoeur is subject to analysis, mainly when it co-
então exposto em analogia com a acção humana, en- mes to its heideggerian roots and the notion of the world
globando uma resposta à problemática entre explica- of text. The therapist is therefore confronted with two
ção e compreensão. Os contributos do autor são colo- problems: moving away from the dialogue model and
cados em discussão com uma psicologia de cariz cul- refusal of hermeneutics to accept a psychology of the
tural, defendida por Jerome Bruner, e, com o campo
subject. The textual paradigm is then compared with
psicoterapêutico, nomeadamente, com as abordagens
fenomenológico-existenciais. human action thus encompassing a response to the
Palavras-chave: Fenomenologia, hermenêutica, Ri- problem posed by explanation versus understanding.
coeur, psicoterapia, fenomenologia-existencial. The author’s contributions are compared against Jero-
me Bruner’s cultural psychology and psychotherapy,
namely against existential-phenomenological approa-
ABSTRACT ches.
Key words: Phenomenology, hermeneutics, Ricoeur,
Hermeneutical phenomenology as put forward by psychotherapy, existential phenomenology.

704