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Exodus – Catherine Parthenie

Exodus
Série Filhos do Pecado
Livro 2

Catherine Parthenie

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Exodus – Catherine Parthenie

De que adiantam-me asas, se não


aprendi a voar?...

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Exodus – Catherine Parthenie

A DOR DE UM ANJO.
Por onde ela anda? Eu não saberia dizer, mas
a falta que ela faz é imensa. Aceitei meu trabalho
nessa Cidade porque a amo, queria estar perto dela,
tocar-lhe a face, sentir o cheiro daquela pele suave.
Eu aguentei o quanto pude, declarei todo o
meu amor, e mesmo assim esse amor continua um
segredo frio escondido em meu coração.
Ela não faz idéia do quanto ansiei por tocar
seus lábios com os meus, ela não faz idéia do quanto
isso é fascinante. Minha vida era um nada, até que a
encontrei. Como não se perder de amores ao ver
aquele anjo de pele alva e cabelos vermelhos?
Eu pequei, não posso amá-la...
Por que eu te deixei, Lienne?

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Exodus – Catherine Parthenie

SEM VOAR

De que adianta-me o amor,


Se ele não pertence a mim?
De que adiantam-me os sonhos,
Se a noite é clara como o dia?
De que adianta-me a vitória,
Se não tenho com quem comemorar?
De que adianta-me salvar,
Se quem precisa, ao perigo joga-se?
Por que sonhar, se não posso realizar?
Por que amar, se não posso sentir?
De que adiantam-me asas,
Se não aprendi a voar?

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Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 1 - Odiando
O tempo não passa longe dele, é como perder
a importância de viver, é como não ter esperanças na
vida... e ele disse que estaria ao meu lado quando eu
perdesse minhas esperanças. Onde você está agora,
Arel? Perdi você, perdi tudo.
Deserto inóspito e sem vida, uma longa
caminhada até o verdadeiro destino. Sem ele, nunca
chegarei, o tempo não passa.
Nunca importei-me com nada, jamais dei o
devido valor aos sentimentos alheios, até que o
conheci. Por que deixaste-me sozinha, Arel? Eu te
amo.
Um caminho sombrio... eu não o acharia tão
triste se eu não amasse. Tudo era melhor antes,
porque nada doía. A traição era só um ódio a mais, a
falsidade era só um sentimento vil, as mentiras, os
enganos, tudo era só uma fantasia. Amar é pior.
Carrego comigo a prova de que um dia eu fui
feliz, por um breve momento eu senti algo bom
dentro de mim. E foi como um sonho.
E agora, caminhando pela noite gelada do
deserto, tentando encontrar o caminho de um lugar
que pensei ser a minha casa, o coração partido pelas
feridas deixadas para trás e o corpo deformado com
asas grandes que eu nem sei como funcionam, eu
vejo o quanto eu estava errada. Meu único e
verdadeiro lar sempre foi o meu próprio coração. E

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Exodus – Catherine Parthenie

esse lar está destruído agora. Sobrou apenas um


turbilhão de destroços.
A partida é sempre mais difícil. Ela traz
lembranças. E meu rosto toma outra forma. A
tristeza partiu. O ódio tomou conta.
Avisto a cidade.
Já estou nela.
Escalo uma imensa construção gótica, com os
górgonas, figuras que lembram-me Adramalech, por
companhia.
-O que te aguarda, novo mundo? Esqueceram
que não morri? Esqueceram-se da minha volta?
Sim, eles esqueceram. Transformaram-me
num nada. Merecem sofrer. Não estou aqui para
salvar, essa nunca foi minha intenção. Eu só queria
vingança, e meu mundo era melhor assim, pois eu
não sofria, só odiava.
De volta ao mesmo mundo.
De volta ao cruel lar dos humanos.
E a raça mais desprezada vai mostrar o seu
valor. Uma nefilin transformada em anjo volta para
atormentar muito mais que seus demônios. Em seus
sonhos mais cruéis, me encontrás. Foram vocês quem
mostraram-me o caminho. Nenhum demônio mata
seu irmão. Nenhum demônio jamais traiu-me.
Falsidade, ganharam tudo o que queriam e, quando
não precisaram mais de mim, descartaram a pior da
prole dos anjos.
-Vivam enquanto podem, nessa doce ilusão de
que tudo está bem. Vivam seus sonhos, pois estão
prestes a caírem.
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Exodus – Catherine Parthenie

Por onde começar?


Estranhamente eu conheço o caminho do
inferno.
Cumprir minha promessa.
Vou seguir o intuito que leva-me o ódio.
-Pare, Lienne.
Viro-me. Um déja vu.
-Não cansas de dizerdes sempre a mesma
frase? – respondi.
-O que pretendes fazer?
-Não sei – dou de ombros. – Saltar daqui.
Espatifar-me no concreto. Não morrerei mesmo.
-Anjos sentem dor.
-Fostes tu quem ensinaste-me que ferir um
outro lugar desvia a atenção da dor principal. Meu
coração lateja demais. É forte... e triste.
-Achas que Arel não sente o mesmo? Acredite
em mim, querida, sei tanto quanto você o tamanho
da dor do amor.
-A dor de perder um grande amor, pai. Tu a
perdestes para a morte. Eu o perdi para a vida.
Como conformar-me com o destino, sabendo que ele
existe e jamais poderá pertencer-me?
-O amas tanto assim, minha filha?
-Mais que a minha vida, pai...
Anjos choram.
Eu chorei.
-Se o amas, ainda há salvação para você. Olhe,
– meu pai apontou para baixo, onde um humano
estava sendo covardemente espancado por outros
dois – é a sua chance. Salve-o.
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-Não – respondi firme.


Os olhos de Caleb faiscavam indignados.
-Como não?
-Se tenho que curar minha dor com outra, que
eu pule por vontade própria e não para salvá-lo.
Ganhei asas, mas não aprendi a voar.
-Salve-o, Lienne.
-Não.
-O deixarás morrer?
-Não foi o que fizeram comigo? Não
desejaram que eu morresse numa fogueira
inquisitiva? Eu não importo-me com eles. São um
monte de nada.
Meu pai fitou-me incrédulo por alguns
segundos, depois, num elegante vôo, rasando até o
concreto, ele livrou o humano, o colocando num
lugar seguro.
E o arcanjo volta para sua cria.
-Já mostrei-te como fazer. A decisão é sua.
Mas prefiro ver-te morta do que ao lado de
Apollyon.
-Ver-me morta, papai? – levantei as
sobrancelhas num fingido sobressalto. – Quem não é
capaz de amar, os anjos ou os nefilins?
-Morra, Lienne.
Caleb empurrou-me contra a mureta, fazendo
com que eu me desiquilibrasse e caísse de uma
imensa altura.
Olhos fechados.
Sentindo a gravidade levar-me ao chão.
Dois membros movimentam-se.
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Exodus – Catherine Parthenie

Nada pode deter-me.


Eu volto.
Sorrindo.
Posso voar.
O rosto espantado de Caleb é como um
prêmio.
-Ainda irás surpreender-se muito comigo,
meu pai.
-Não pode ser – ele falava assustado, com a
voz embargada.
O sorriso da vitória é sempre o melhor.
-Apenas aceite, pai, apenas aceite...

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Exodus – Catherine Parthenie

SALVE-ME

Vejo vultos.
Seus olhos são belos.
Eles contam histórias de heróis
De um tempo disperso e extinto.
Enxergo sua coragem,
Sinto seu medo e seus desgostos,
Entendo a sua saudade,
Não aceito sua confusão.
És perfeito,
És belo,
És simples
E humilde.
Um coração puro
Num corpo deformado.
Diferente de quem olha-te,
De um corpo perfeito
Com o coração dilacerado.
Salve-me!
Sou eu quem precisa de ajuda,
Porque só tu és o que verdadeiramente me amas.
Ajude-me!
Porque a vida tomou-me as ilusões
E despadaçou minhas esperanças.
Fique comigo
E proteja-me.
Esteja ao meu lado
E salve-me.
Abençoada alma,
Salve-me.
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Capítulo 2 – Visitando.
Caminhando pela noite, lembrando de
palavras ferozes, lembrando de todo o ódio... quanta
dor, quanta amrgura. O que me resta? Seguir até o
destino que eu mesma fiz.
Sigo como uma criança, agarrada ao ursinho
de Séfora, um presente que será devolvido em breve,
porque eu acredito nela, eu acredito na mesma força
que a move, o ódio.
O inferno.
Eu sei como chegar até lá.
Uma dúvida: Persis ou Apollyon?
Apollyon.
É para lá que vou.
-Irmã – escuto sua voz, como um rugido para
outros, um som suave para mim.
Sorrio.
Corro para abraçá-lo.
-Meu irmão, Adramalech, meu anjo.
-Lienne sabe ser irmã Adramalech?
-Sim, eu sei. Nosso pai ainda te ama, ele não
sabia que ainda estavas vivo – não sei explicar o por
quê, mas eu jamais conseguiria odiar Caleb.
-Pai amar Adramalech?
-Sim, meu querido, ele te ama.
-Lienne ver novo pai?
-É preciso. Eu fiz uma promessa, meu irmão,
tenho que cumprí-la.
-Irmão vai junto.
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-Não. Preciso que deixe-me sozinha dessa vez.


Logo estarei de volta, meu anjo.
-Adramalech anjo?
-Você tem asas, não tem? – falei sorrindo.
-Irmã tem asas.
-Sou como você, meu querido. Agora eu
preciso ir. Apenas proteja-me, irmão.
-Adramalech proteger irmã.
Despedi-me do meu irmão com um olhar
orgulhoso. Ele era lindo, a sua maneira. Meu amado
irmão, o único membro da minha família que eu
faria questão de dar a minha vida.
Segui até o castelo esquisito de Apollyon.
Entrei como Persis, sem cerimônia, mas com
respeito.
-Eis que volto, conforme prometi, meu senhor
– falei pomposamente, ajoelhando-me perante o
grande Rei das Trevas.
Ele analisou-me atentamente.
-Levante-se – obedeci. – Vejo que estás
diferente.
Apollyon caminhou até mim, pegou meu
braço e passou sua mão suavemente por ele, até
meus ombros. Levantou minha blusa, deixando parte
do meu abdômen exposto. Eu não entendia o que ele
procurava, talvez cicatrizes ou marcas. Eu jamais
saberia dizer ao certo o que intrigava Apollyon
naquele momento. Ao fim de sua inspeção, ele
sorriu.

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-Voltastes como prometeras. Estás diferente e


continuas intacta. Entretanto, meu anjo, trouxestes
meu presente?
-Aquele deserto é todo igual, um grande nada
para todos os lados. Porém, há um lugar que dá
acesso à Cidade dos Nefilins, meu senhor.
Apollyon sorriu torto.
-Conhecestes o filho de Kandake? – ele
perguntou-me.
-Não só o filho como toda a porcaria a que ele
sujeita-se. Custei a acreditar que Kandake fosse tão
estúpido para acreditar em suas propostas.
-E por que acreditas no que eu digo?
-Eu não acredito, senhor.
Apollyon riu.
-E por que voltastes?
-Por que tenho algo que queres e tu tens algo
que eu quero.
-Eu posso enganar-te como fiz com tantos
outros.
-A diferença, senhor, é que somente eu tenho
o que tanto desejas. E só lhe entregarei seu presente
depois que receber o meu.
-És esperta, Lienne. Vejo que fiz uma boa
escolha. Diga-me, qual seu preço pelo meu presente?
– Apollyon perguntou-me ainda com seu sorriso
irônico nos lábios.
-Quero destruir Persis e todos que enganaram-
me. Quero tudo o que prometeste-me, quero poder,
quero reinar ao seu lado e a liberdade de
Adramalech – respondi com firmeza.
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-Então não descobristes somente as asneiras


de Kandake, mas as do seu próprio pai também.
-Adramalech não é uma asneira. Ele é seu
trunfo. Todos eles são, inclusive Kali.
O Rei das Trevas olhou-me de um jeito
curioso, apertando o olhar e sorrindo torto.
-Sim, és realmente muito esperta. Fizestes bem
o seu trabalho entre os arcanjos. Saistes muito antes
do que eu esperava. Quem foi o pobre coitado que
matastes?
-Iehuiah.
O olhar de Apollyon demonstrava um
sobressalto, uma curiosidade instigante, um medo
controlado.
-Como podes ver, meu senhor, não fiz um
acordo com o intuito de uma brincadeira, mas para
cumprir minha parte e receber o que prometeste-me
– falei firme.
-Vejo que enganei-me em certos pontos com
você. Mas terás o que me pedes, e terei o que me
ofertas. E reinaremos juntos, serás minha rainha e
estarei sempre ao seu lado.
Azazel entrou na sala do trono naquele
instante. Permaneci de costas para ele, mas o
reconheci pela voz.
-Persis aproxima-se, senhor – ele disse.
Apollyon não desviou seu olhar do meu, e foi
dessa maneira que respondeu ao ex-nefilin que ali
encontrava-se.
-Permita que ele entre e não o avise da visita
que recebo.
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Exodus – Catherine Parthenie

Azazel deixou-nos a sós.


-Acho melhor esconder-se. Não quero que
Persis veja que estás aqui – disse-me Apollyon.
-Concordo, meu senhor. Entretanto, gostaria
muito de saber o que esse porcaria tem a dizer-lhe.
-Fique atrás do trono. Ele não poderá ver-te
dali.
Obedeci. Eu estava mesmo curiosa para
conhecer as intenções de Persis. E estava muito mais
ansiosa para destruí-lo.

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MEDO

Meu medo eu joguei longe,


Despedacei,
Quebrei,
Dispensei.
Tomei uma grande dose de coragem
E enfrento o mundo.
Seu desgosto é meu prazer,
Destruir-te é minha sina.
Nada do que fizestes será impune,
Porque eu conheço suas intenções,
Eu vi a maldade em seu olhar,
E chegou a hora de estabelecer seu destino.
Eu fiz o meu,
E declaro o fim do seu.

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Capítulo 3 – Escondendo.
Aquele demônio estava a cada dia mais lindo.
Persis entrava naquela sala, majestoso como se fosse
o próprio rei daquele lugar.
-Salve o meu senhor! – ele falou
respeitosamente.
-Pare com isso, Persis, e diga-me por que
viestes incomodar-me – rebateu Apollyon.
-Senhor, soube que a nefilin saiu-se bem em
sua missão. Ela já está entre nós.
-Como podes saber? Por acaso já vistes a
nefilin como um anjo, Persis?
-Não, senhor. Mas tenho a certeza de que ela
não demorará a procurar-me.
“Babaca, infeliz” – eu pensava comigo mesma.
-O que te faz pensar que Lienne o procurará? –
perguntou-lhe Apollyon.
-Porque temos um trato, meu senhor. Ela não
seria tão estúpida por não cumprí-lo.
-Assim como você também não seria por não
cumprir o nosso acordo.
-De maneira alguma, meu senhor. Por isso
estou aqui, para firmá-lo.
-Esse trato já foi firmado. Tudo o que espero
agora é que o cumpras. Vá, Persis. Minha paciência
com você esgotou-se na primeira frase. Deixe-me
com meus pensamentos.
E o anjo maldito logo desapareceu dali. Saí do
meu esconderijo e fiquei ao lado de Apollyon.
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-O que farás? – ele perguntou-me.


-O que ele espera. O mesmo que você, enganá-
lo.
-Sua audácia me fascina.
Apollyon tomou-me em seus braços e beijou-
me os lábios. Apesar de estar apaixonada por Arel,
não posso negar que esse ósculo acendeu uma brasa
em meu corpo.
-Conte-me seus planos, Lienne.
-São os mesmos que os seus. Ele fez um
acordo comigo, mas já fiz o mesmo com você.
Enganarei Persis até o momento de destruí-lo.
-E quando selaremos nossos votos? Porque a
cada palavra de desgosto que sua boca desfere, sinto-
me mais atraído por você – ele falou apertando-me
contra seu corpo forte. Pude sentir o tamanho do seu
desejo e estremeci com a idéia.
-No momento certo, meu senhor. Primeiro
quero realizar a minha vingança. Depois... depois,
sim, lhe entregarei seu presente. E assim reinaremos
juntos naquela Cidade. Então serei sua, apenas sua –
sussurrei em seu ouvido, fazendo o grande Rei das
Trevas estremecer de desejo.
Suas mãos passearam pelas minhas asas e
voltaram para o meu corpo. Lidar com ele era
diferente. Persis era gentil e educado, mas era forte.
Arel era quase incontrolável em nossos momentos
mais íntimos. Apollyon era enigmático e poderoso.
Seu toque era mágico e amedrontador. Eu jamais
ousaria detê-lo. E eu não queria detê-lo, eu gostava
de seu toque fascinante.
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-Sabes como manipular um macho, minha


adorada. És bela e perfeita. E o fato de ser intocada
provoca-me um desejo enlouquecedor. Mas eu sei
esperar, jovem nefilin.
Ele afastou-se subitamente.
-O que aprendestes desde que saistes da
Cidade? – ele perguntou-me.
-Eu sei voar – respondi sorrindo e arrancando
risadas de Apollyon.
-Sim, minha cara. Vejo que ainda não tens
plena noção do que se tornastes.
Ele deu dois passos firmes em minha direção,
firmando seu forte olhar nos meus. Num rápido
movimento, ele atacou-me com o braço direito, mas
eu o detive segurando seu punho. Essa nova vida
dava-me uma percepção muito maior dos
acontecimentos. Eu podia escutar o menor sussurro
do mundo dos humanos, mesmo estando no meio do
inferno. Eu enxergava a quilômetros de distância e
sentia tudo o que passava na minha pele, até o
mínimo soprar de uma brisa leve.
Enquanto eu segurava o punho de Apollyon,
nossos olhares continuavam conectados e nossos
lábios exibiam sorrisos irônicos.
-Bem, vejo que sabes voar e defender-se. E
como ficarão suas asas?
-Um grande mistério – respondi-lhe. – Não sei
nem como sou capaz de fazer essas coisas, quanto
mais camuflar os novos membros.
-Posso cuidar disso.
-Como? Transformando-me num demônio?
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Exodus – Catherine Parthenie

-Não. Você é fascinante como um anjo.


Apenas confie em mim.
-Confiar? Isso não faz parte de mim.
-Eu também não confiava em você.
-Uma condição mútua, devo dizer.
Apollyon riu com a minha resposta.
-Tenho pena dos que sofrerão sua vingança,
Lienne. Tome – ele estendeu-me um pequeno frasco
de vidro, muito parecido com o que continha o
veneno de Arel. – Beba isto e suas asas
desaparecerão.
-Vou regurgitar minhas tripas depois de beber
essa porcaria?
-Seu pai deu-lhe uma boa surra, pelo que vejo,
pois tomastes do acelerador do arcanjo metido –
comentou Apollyon.
-Fiz por merecer – respondi dando de ombros.
– Mas eu dispenso seu veneno.
-Isso só camuflará suas asas aos olhos
humanos. Elas sempre estarão com você e, não tenha
dúvidas, não sentirás nada.
Desconfiada, ingeri o líquido roxo. Virei a
cabeça e olhei por sobre os ombros e pude ver meus
novos membros enrolando-se e, como mágica,
adentrando em meu corpo. Apollyon tinha razão.
Nada senti.
-Precisas confiar mais em mim, anjo.
-Sua reputação precede a confiança, meu
senhor. Mas agradeço-lhe pelo veneno.
E ele disse as mesmas palavras de Arel:
-Não é veneno!
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Exodus – Catherine Parthenie

Eu ri.
-Agora, diga-me o que desejas fazer.
-Quero voltar ao mundo dos humanos, a
mesma carreira, um novo nome, muito sucesso e
muito dinheiro. Eu cuidarei do resto.
-E como será seu novo nome?
-Não sei – dei de ombros. – Algo parecido com
o original. Eliane, talvez. Era o nome da minha mãe.
-Que seja! Pegue – ele jogou-me um molho de
chaves que alcancei ainda no ar. – São de uma
residência que me pertence. Lá, encontrarás tudo o
que precisas: carro, aparelhos eletrônicos e um
estoque de sangue e vinho. Azazel será seu
empregado.
-E Adramalech?
-Queres mesmo um demônio como bichinho
de estimação rondando pelo mundo dos vivos?
-Não fales assim do meu irmão – sibilei por
entre os dentes.
-Adramalech fica. Encontre a cura para ele
voltar a ser o que era e eu o liberto. Aceitarás o
desafio?
-Jamais fugirei de uma briga, Apollyon – falei
seu nome em sua presença pela primeira vez.
-Então somos dois, minha querida.
Virei-me e saí dali proferindo as palavras:
-Sabes onde encontrar-me.

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REVOLTA DE UM ANJO TRAÍDO

Rostos envelhecidos,
Emoldurados por rugas,
Lembranças que a idade não supera...
Olho em seus olhos,
Eles não reconhecem-me.
Abutres mais fétidos que carniça,
Almas apodrecidas
No doce engano da ilusão.
Esqueceram-se de quem mais traíram,
Esqueceram-se da minha volta,
Desconhecem minha imortalidade,
E eles não reconhecem-me...
Mate seus pecados
Afogando-os no álcool,
Porque nem isso os manterá intactos
E eles não reconhecem-me?
Lembrarão quando minhas mãos estiverem em seus
pescoços...

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Capítulo 4 – Avisando.
Saindo do submundo, chego logo numa
mansão. Esse seria meu novo lar. Azazel aguardava-
me, disponível para atenter a qualquer pedido meu.
Fui conhecer cada cantinho daquela
residência. Uma construção bonita e bem decorada,
uma grande besteira, agora que isso já não
interessava-me mais.
No escritório encontrei documentos falsos
com a minha foto e o nome Eliane Mantus. Ironia?
Sim, mais uma de tantas de Apollyon, já que Mantus
era um de seus muitos nomes. Sorrir foi inevitável.
Junto a esses documentos, havia uma papelada de
uma grande empresa. Seja lá qual foi o milagre de
Apollyon, a empresa pertencia a mim. Era como
degustar uma refeição saborosa, porque era o mesmo
lugar onde eles, meus inimigos, trabalhavam. Agora
todos estavam em minhas mãos.
Percorri o caminho de volta até a sala
principal da mansão e encontrei Azazel por lá.
-Sabes o que vim fazer? – perguntei-lhe.
-Sei.
-Por onde eles andam?
-Num bar aqui perto. Mas aviso-te que já não
são mais os mesmos.
-Como assim, Azazel? Eles viraram anjos
também? – zombei de suas palavras.
-Não. Mas o tempo que passastes na Cidade
dos Nefilins não tem a mesma cronologia dos
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Exodus – Catherine Parthenie

humanos. Seus dois meses por lá foram como vinte


anos para os seus amigos.
-Eles não são meus amigos – respondi por
entre os dentes.
Caminhei para a porta de saída e Azazel ainda
falava:
-Precisas de companhia?
-Não. Estarei bem.
-Saberás onde encontrá-los?
-O cheiro dessas antas jamais saiu das minhas
narinas – respondi e segui pela noite afora.
Você já tentou esquecer o passado e seus
desgostos? Eu já.
Eu tive uma segunda chance, vivi uma nova
vida, aprendi a amar. E quando tudo acabou, quando
a ilusão se dissipou, lá estava o passado: intacto!
Nada mudou, tudo piorou, porque meus inimigos
estão melhores e vivem na ilusão de serem mais
fortes. E a única verdade é que seus mundos não
passam mesmo de uma grande utopia.
Eu não sigo regras que são impostas pela
sociedade decadente e perdidamente cega por
doutrinas que os induzem a uma falsa paz.
Eu faço minhas próprias regras.
Eu crio o meu destino.
Eu manipulo o meu presente.
Tudo deu errado?
Sim. Porque eu errei.
Solução? Não é possível rebobinar o passado,
mas é fato que o futuro ainda está em minhas mãos.

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Exodus – Catherine Parthenie

Eles envenenaram-me, acusaram-me, trairam-


me. Se os próprios soubessem o quanto isso me
fortaleceu...
Não serei como eles, porque eu simplesmente
não importo-me com a opinião alheia. Eles criaram
um monstro, fizeram-me invencível. Nunca tive pena
de mim mesma, não dobrei-me ante ao destino. Mas
já é hora de contar a verdadeira história.
E quem não ama, afinal? A criatura tenebrosa
da qual me tornei ou aqueles que matam os seus?
Um anjo não mata sua cria, ele manda outro fazer.
Um demônio não trai a mão que o alimenta. Onde
está o amor da raça humana? Jogada nas lixeiras de
suas almas podres e fétidas.
Ódio? Eis tudo o que sou.
Minha missão? Acabar com a escória que
habita a terra e depois esperar pelo meu fim.
Covardes inúteis. Passo por eles, olho em seus
rostos enrugados com o passar dos anos e eles não
me reconhecem... Saboreiam o doce sabor do engano
enquanto esse alimento não alcança o amargor do
fim.
Dois meses numa cidade que existe no mundo
de ninguém foi o mesmo que vinte anos. E eles
jubilam nas suas fantasias de boa vida e de sucesso,
com a flacidez de suas peles emoldurando corpos
frágeis e velhos. E eles não me reconhecem...
Raça pútrida! Infames criaturas!
Tantos de nós foram destruídos pelos seus
pecados. E eu cheguei a acreditar que tudo aconteceu
por culpa minha.
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Exodus – Catherine Parthenie

Aproveitem enquanto podem.


Exatamente a dois metros de distância, mais
que suficiente para sentir o odor intragável de seus
poros dilatados exalando o suor provocado pelo
exesso de álcool, os observo sentada na mesa do bar.
Três almas que exultam por mais um grande
feito. O olhar de cada um encontra o meu. E eles não
me reconhecem...
Como poderiam? Estou com minha face presa
a estranha e falsa inocência dos dezessete anos,
enquanto seus corpos reclamam a chegada dos
cinquenta.
E eles me reconhecem...
-Perdeu alguma coisa? – resmunga Mariana ao
perceber que estou fitando-a.
Meu sorriso malicioso continua o mesmo. Isso
a assusta.
-Peraí, você é parente da Lienne? – pergunta-
me Daniel com seu olhar cobiçoso, como um pedófilo
ansiando por sua criança.
Não respondo.
-Você é surda, garota? – fala Mariana. Meu
olhar recai para sua mão esquerda onde seus dedos
exibem orgulhosos o mesmo aro dourado da mão de
Daniel.
Levanto-me acendendo um cigarro e
caminhando até eles. Aquela porcaria já não faz
efeito entorpecente algum em meu corpo, mas
aparências precisam ser mantidas. Sorrio baforando
a fumaça de nicotina.

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Exodus – Catherine Parthenie

-Não sei quem é Lienne, mas um dia vocês


ouvirão falar muito de mim.
-És muito atrevida, garota – grita Mariana.
-É a frase que mais escuto – falo com ironia. –
Entretanto, afirmo-lhe que ainda hei de ver-te
rastejando atrás de mim.
-Mocinha, - falou Daniel sorrindo – quem você
pensa que é para falar assim conosco?
Uma pergunta estúpida que não merecia uma
resposta.
Sorri novamente e segui meu caminho.

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Exodus – Catherine Parthenie

A BENÇÃO DOS LÁBIOS

Por que seus olhos confundem-me?


Por que sua imagem chama-me?
Por que seus beijos aquecem-me?
Por que eu te amo?
Confunda-me com seus beijos,
Depois liberte minha alma.
Aqueça-me com sua imagem,
Depois deixe-me morrer.
Chame-me com seu olhar,
Depois mate-me com sua partida.
Porque eu te amo.
Sua voz é como oração
Quando sussurras meu nome.
Seus beijos são bênçãos
Estampadas em meus lábios.
Ore meu nome,
Abençôe minha boca.
Depois mate-me com sua partida.
E eu sempre te amarei.

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Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 5 – Encontrando.
Caminhando de volta para meu novo lar, com
o ego e o orgulho inflados pelo ocorrido a pouco,
meus pensamentos voltam para onde o coração
chama. Começo a lembrar de beijos que
incendiaram-me de desejos e anseio por ele.
O fogo... meu fogo, o anjo do fogo! Toco no
símbolo do nosso amor despedaçado, a pedra que
carrega o peso de uma traição. Uma traição para
salvar uma amizade... Nada valeu, eu o perdi e já
não tenho mais meus dias felizes.
E o poder de um pensamento apaixonado é
tão forte, que meu anseio vai até onde ele está e o
traz até mim. A imagem perfeita a minha frente. Um
anjo ao meu alcance, sorrindo feliz. Se é uma
realidade ou uma miragem, eu não sei. Mas o fato de
vê-lo é tão agradável que o esforço para controlar as
batidas rápidas do meu coração é enorme.
-Anjo – falo sorrindo.
-Por que deixei-te? – ele pergunta.
-Porque era o certo a fazer.
-Não é certo deixar o amor – sua voz perfeita
sempre retruca minhas respostas.
-Não, meu anjo, não é certo. Mas talvez eu não
seja o amor que tanto procuras. Estás enganado ao
meu respeito.
A sua resposta veio com um beijo. Sentir sua
língua procurando a minha ansiosamente, sua pele

29
Exodus – Catherine Parthenie

em contato com a minha, o calor do desejo, a vontade


de entregar-me e desvendar seus mistérios...
Afasto-me subitamente.
-Vá embora, Arel. Meu mundo não te
pertence, meu amor não é seu – declaro pesarosa e
firme.
-Não posso perder-te.
-Ninguém perde o que não tem. Isso tudo é só
uma ilusão, nosso amor é proibido. E depois, jamais
acreditastes em mim, eu quis ajudar um amigo e
vistes tal ato como uma traição dos meus
sentimentos sinceros por você.
-Quando fostes sincera? Sua vida é uma bola
de mentiras e falsidades – sua voz proferindo essas
palavras assolou-me o coração.
Venci o ódio e a humilhação e sorri.
-Vejo que aprendestes a lição. Agora saia do
meu caminho e não procure-me mais.
Segui sem olhar para trás, até que ele chamou-
me:
-Lienne, onde estão suas asas?
-Não queira saber essa resposta.

De volta a mansão.
Noite sem sono.
De volta a eternidade em claro.
Os sonhos acabaram. As esperanças se
foram...
A vida é um mistério. Os anjos são um
mistério. Por que amamos se nossa função é viver na
solidão eterna? Ouvi-lo chamar meu nome foi como
30
Exodus – Catherine Parthenie

mágica, foi sagrado. Anjos não sussurram, eles oram.


Meu nome em sua boca foi um ato sagrado. Fui
enaltecida e abençoada, para logo a seguir ser
amaldiçoada por um beijo tão encantador quanto o
milagre da vida que faz os nefilins existirem.
Meu nome ressoando em sua voz... sensação
tão boa quanto voar!
-O que estou fazendo? – murmuro para meus
pensamentos. – Não posso tê-lo. Já prometi meu
corpo para outro.
-Falando sozinha? – a voz do outro anjo
perturba-me.
Hora de sorrir novamente.
-Encontraste-me afinal – respondo.
-Tal beleza caminhando aos prantos pelas ruas
desse mundo infectado de horror é motivo para
destacar-se.
-Acabei de chegar e já perturbas-me com
futilidades, Persis.
-Caistes de amores por aquele anjo? – ele
acusa-me.
-Amor? Desconheço tal sentimento – respondo
dando de ombros.
-Uma pena, porque eu te amo e ansiava entrar
em seu coração.
-Tenho uma palavra no lugar desse orgão.
-Qual?
-Vingança, Persis. Vingança.
-Nosso acordo está de pé?
-Por que não estaria? – rebato sua pergunta.
-Porque habitas na casa do Rei das Trevas.
31
Exodus – Catherine Parthenie

-Azazel encontrou-me primeiro – menti.


-Que seja. Como faremos?
-Do meu jeito. Eu dou as cartas agora.
-E por que pensas que aceitarei seu jogo,
Lienne?
-Porque tenho as respostas que tanto anseia,
porque sem mim, nada terás para entregar ao nosso
Rei.
Persis sorri.
-Sempre soube que você seria a melhor. Tão
cruel... Uma peste com o rosto de um anjo
emoldurado no corpo de uma criança.
-Não sou mais criança, Persis.
-Deflorastes teu corpo com aquele anjo? –
perguntou-me Persis enciumado.
-Tal preciosidade continua imaculada, meu
querido.
Ele deu a volta em torno da mesa enorme do
escritório da mansão e curvou-se para deixar seu
olhar no mesmo nível que o meu. Senti quando sua
mão agarrou meus cabelos fortemente antes de sua
boca murmurar as palavras:
-Pertences a mim, somente a mim.
Afastei sua mão com um safanão que ele não
esperava. Levantei-me bruscamente, obrigando-o a
dar dois passos para traz. O empurrei contra a
parede e deixei meu corpo encostar no dele de
maneira sensual. Fiquei nas pontas dos pés para
alcançar seu ouvido e sussurrar:

32
Exodus – Catherine Parthenie

-Não sou de ninguém, porém, se pedires com


carinho, posso pensar em dar-te algum prazer. Mas
te garanto que quem dá as regras agora sou eu.
Eu o beijei.
Uma noite e três beijos.
Uma noite e três ameaças.
Uma noite e uma tentiva por parte do meu pai
de matar-me.
Uma noite e muitas mentiras proferidas.
Eu afasto-me enquanto observo Persis de
olhos fechados e arfando pelo beijo. Acendo um
cigarro, mania irritante, mas que tranquiliza.
-Entendestes? Ou preferes que eu desenhe em
gráficos? – pergunto vitoriosa.
-Continuas com vícios que nenhum prazer
podem oferecer-te?
-E o que tu tens a ver com isso?
-Ficaremos nesse eterno bate e rebate de
perguntas?
-Apenas responda-me, Persis.
-Que tal se os dois dividirem o poder?
-Se gostas de viver na ilusão de que é assim
que vai ser, pois que seja – dou de ombros. – Você é
quem será iludido mesmo.
-Veremos de quem será a ilusão no fim dessa
história.
-Vai embora, Persis. Tenho mais o que fazer.

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Exodus – Catherine Parthenie

VINGANÇA

Analisando os fatos,
Correndo em pensamento,
Discernindo as jogadas.
Entranto com tudo.
Matar ou morrer...
Eu mato...
E depois morro.
Eu vingo,
Eu venço.
Eles não imaginam,
Não fazem idéia.
Apenas esperam...
Anseiam por uma única chance
De enganarem-me novamente.
E o sorriso estampa-se no meu rosto.
Matar ou morrer?
Eu mato, eles morrem.

34
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 6 – Analisando.
Passei a noite inteira analisando os
documentos da minha nova empresa: Exodus
Arquitetura S. A. Claro que ela não era só minha.
Apollyon jamais faria algo que não lhe desse
vantagem alguma. Eu era a sócia, ele estava naqueles
papéis como meu marido, fato que tornava tudo
muito mais engraçado.
Bem, o quadro de funcionários era vasto. Uma
empresa grande e com um faturamento absurdo!
Quem Apollyon teve que matar para conseguir isso,
eu jamais saberia. Mas o interessante era os
“milagres” que esse ser fazia para conseguir o que
tanto almejava.
Enfim, passei a noite inteira lendo aquelas
porcarias, planejando minha vingança, formulando
as maiores falcatruas para destruir aqueles três
imbecis que me trairam. De certa forma, apesar de
tudo o que fiz contra eles, eu lhes dei uma chance e o
modo como agiram comigo foi vil até mesmo para
esse monte de lixo.
O sol já reinava forte. Eu estava recostada na
imensa cadeira daquele escritório com um sorriso
estampado no rosto, contando os minutos para
iniciar meu ataque contra as bestas humanas. Não
senti quando minha visita entrou, devido a tamanha
concentração que esse assunto me dava.
-Sonhando acordada, nefilin? – perguntou-me
o Rei das Trevas.
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Exodus – Catherine Parthenie

-Não me chames assim. Sabes tão bem quanto


eu que essa fase da minha vida já passou – retruquei.
-Sempre serás a filha de um anjo. Podes estar
alada agora, mas sempre serás uma nefilin.
-Homens... humanos, demônios, anjos...
sempre vão irritar-me.
-E você sempre irá me fascinar – disse ele
aproximando-se de mim, curvando-se para sua boca
alcançar meus lábios, beijando-me de maneira
intensa e deliciosa. Esse ósculo só perdia para o
sabor doce da boca de Arel. Nem Persis despertava
esse desejo em mim. – Não imaginas o quanto
desejo-te.
-Não és o único – provoquei-o com um sorriso
maldoso.
-Mas serei o primeiro!
Certo, ninguém consegue rebater as palavras
dos arcanjos e Apollyon, mesmo sendo um demônio
das trevas, foi um arcanjo um dia. Eu deveria ter
aprendido essa lição na Cidade dos Nefilins, mas a
teimosia sempre inspirava-me a responder.
Observei melhor Apollyon. Ele trajava um
imponente e elegante terno escuro. Parecia o humano
mais lindo do universo, perfeito em sua imagem de
um nórdico simpático. Seus cabelos loiros, quase
brancos, destacavam aqueles olhos que ficavam
azuis nesse mundo. Lindo e perfeito! Mas meu
coração fora doado a outro arcanjo e eu sempre
amaria Arel.
-Pronta para assumir o poder? – ele
perguntou-me.
36
Exodus – Catherine Parthenie

-O que achas? É um momento notável de


grande ansiedade da minha parte. Mas o clímax
dessa vingança só chegará quando eu vê-los
derrotados.
-Não contarás seus planos nem ao seu rei?
-Que valor terá se meu rei souber minha
conspiração? Não lhe agradarás mais a minha
atitude em relação aos fátuos humanos podres e
desatinados pela confusão que irei proporcionar-lhes
do que conhecer antecipadamente o fim desse jogo?
-Perversamente matreira, criatura fascinante
com planos exímios! – ele respondeu-me com um
sorriso sedutoramente maléfico. – Vá, querida
súcubo.
-Não sou uma súcubo – falei de maneira
casual.
-Não és nefilin, não és súcubo. O que és,
minha cara?
-Simplesmente Lienne, a nubente do inferno –
respondi com a voz sensual, aproximando-me dele.
-Apenas uma neófita nessa arte, minha
querida.
-Penso que já provei meu valor, grande Rei.
-A cada segundo torna-se mais atrevida, alada
rainha. Agora vá, apronte-se para a nossa chegada na
Exodus.
-Nome propício para uma empresa, sendo que
tirarei todos de lá.
Apollyon riu alto. Deixei-o sozinho naquele
escritório e subi para trocar-me, escolhendo uma das
roupas que, como todos os milagres de Apollyon,
37
Exodus – Catherine Parthenie

empilhavam-se de maneira organizada num closet


perfeitamente abastecido, como se esperassem
sempre pela minha chegada.
Assim que desci a longa escadaria, duas
silhuetas assombram a porta de entrada. Com a nova
visão, de longe percebi a presença dos dois nefilins.
Caminhei altivamente até eles.
-O que fazem aqui? – perguntei com a voz
controlada e com o coração aflito.
-Fugimos daquela cidade – respondeu o
nefilin.
-Ai, meu deus! Se eu soubesse que você se
esconderia tão bem e nesse lugar belíssimo, eu nem
teria hesitado em fugir! – exclamou Séfora
adentrando na imensa residência da qual eu habitava
e observando cada detalhe.
-Séfora, como conseguistes caminhar a luz do
sol? – perguntei sem entender.
-Encontramos Persis durante a noite e ele
forneceu-me uma bebida esquisita, mas que permite-
me caminhar pela luz da estrela matutina.
Olhei rudemente para Azazel.
-Um pequeno experimento que deu certo,
minha senhora – ele defendeu-se ao meu olhar
inquisitivo.
-Tendo esse experimento em mãos, privastes-
me dessa benção? – indaguei.
-A jovem nefilin foi o teste de Persis.
Caminhei até Azazel e o chutei no abdômen,
lançando-o contra a parede.

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Exodus – Catherine Parthenie

-A quem obedeces, estúpido transformado? A


seu rei ou a outro de sua espécie? – gritei-lhe.
Azazel levantou-se com dificuldade e, de
cabeça baixa, respondeu:
-Esse experimento foi dado antes de sua volta,
senhora.
-Na próxima que fizerdes sem meu
consentimento terás a cabeça separada de seu corpo
– respondi-lhe. Depois virei-me para Mikael e
perguntei: - Por que fugiram da Cidade? Não sabiam
que estariam mais seguros por lá?
-Kandake nos orientou para que fugíssemos –
desculpou-se Mikael.
-Seu pai é uma anta!
-Meu pai?
Não, eu era a anta. Uma grande tola que fala
demais.
Felizmente Apollyon apareceu e salvou-me
das indagações de Mikael.
-O que temos aqui? – perguntou o Rei das
Trevas.
-Dois fujões querendo arrumar uma grande
refrega para nós. Estúpidos! – falei por entre os
dentes. – Hazanel mandará todos a procura dos dois.
-Hazanel é só um tolo besta, Lienne. Deixe os
jovens sob nossa proteção. Nenhum deles ousará
enfrentar-me – respondeu Apollyon.
-Então, o problema será todo seu.
-Ora, essa doce garotinha passará facilmente
como nossa filha – ele disse sorrindo enquanto
colocava o braço em volta dos ombros de Séfora, que
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Exodus – Catherine Parthenie

sorria como se tivesse ganhado na Loteria. Um pai,


era a figura que ela mais almejava na vida. – Assim
será, Lienne.
-E eu tenho idade para ter uma filha desse
tamanho? Séfora é mais velha que eu!
-O presidente da Exodus já teve outras
mulheres. Ela será sua enteada – Apollyon sorriu,
divertindo-se com tudo.
-E o que farás com Mikael?
-O filho de Kandake será nosso funcionário.
-Kandake é meu pai? – perguntou o nefilin.
Revirei os olhos. Aquela situação cansava-me.
A imputação malévola de Apolyon não tinha freios e
colocar Mikael e Séfora nessa assacadilha não
agradava-me nem um pouco.
-Kandake é seu pai, aquele imprestável é seu
irmão – apontei para Azazel – e eu não tenho
paciência para lidar com isso. Você irá conosco e
Séfora fica. Não sei até quando as porcarias que
Persis lhe deu durarão – olhei para a nefilin. – Suba,
Teddy está em cima da cama do quarto principal.
-Não o lavastes, né? – ela perguntou-me
inocente como uma criança.
-Não, aquela porcaria continua fedido e
encardido como sempre foi. Agora suba!
-Você não manda em mim, Lienne – ela
retrucou.
-Ah, que lindo teatro! Sou sua madastra,
lembra-se? Ou aceita isso ou volta para a Cidade dos
Nefilins. Como será?

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Exodus – Catherine Parthenie

-E enfrentar quinze chibatadas? Não sou tão


louca quanto você.
Bufando, Séfora fez o que lhe ordenei.
Era hora de enfrentar a realidade e dar o
primeiro passo para a minha doce e imensamente
esperada vingança.

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Exodus – Catherine Parthenie

O RETORNO DA FÊNIX

Fui caçada,
Enganada,
Traída,
Queimada,
Destruída.
Minhas cinzas eram
Como odor agradável aos inimigos.
Despedaçada,
Ferida,
Fugindo,
Sem vida.
Minha ausência era
Como festa para os bandidos.
Treinada,
Concentrada,
Vitoriosa,
Alada.
Meu retorno será
Como fel para eles.
Um doce sabor para mim.
A fênix retorna
Para completar o fim.

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Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 7 – Conhecendo.
Chegamos na Exodus e caminhamos
rapidamente até a sala da presidência. Duas moças
recepcionavam o local. Apollyon entrou direto na
sala com Mikael ao lado. Eu parei na porta e olhei
para as duas, analisei-as. Uma ruiva baixinha e
simpática e uma morena alta e esguia. Duas
humanas de belezas exóticas.
-Sigam-me – falei quase rindo ao lembrar-me
do modo como Arel tratava-me na Cidade dos
nefilins.
As duas acompanharam-me, adentrando no
ambiente perfeitamente decorado.
-Sentem-se – ordenei e as duas obedeceram.
Agora eu entendia Arel, era bom mandar!
-Já conhecem-me – Apollyon falou. – Esta é
minha esposa, Eliane.
-Eliane? – sibilou Mikael.
Apenas assenti discretamente e ele entendeu o
recado.
-Ela será a nova presidente da Exodus. É a ela
a quem responderão de agora em diante. Entendido?
-Sim, senhor – as duas responderam em
uníssono.
-Eliane, - continuou Apollyon – essas são
Fernanda e Priscila, suas novas ajudantes.
Terminada as apresentações, ele fez um gesto
para que eu falasse. Caminhei até ficar ao seu lado

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Exodus – Catherine Parthenie

direito, mostrando minha verdadeira posição ao lado


do Rei das Trevas, fato que elas desconheciam.
-Não quero nenhum funcionário sem
autorização entrando na minha sala, não quero fotos
minhas em jornais ou revistas, não quero minha vida
espalhada por aí. Mikael tem acesso livre a minha
sala sem precisar ser anunciado. Me chamem de
Lienne, um apelido usado pelos íntimos. Cumpram
minhas ordens e terão uma grande amiga.
Desobedeçam-me e corram, pois eu não serei piedosa
– terminei meu discurso com a voz firme,
disfarçando a ansiedade por ter tanto poder nas
mãos.
Ambas olhavam-me com uma mistura de
medo e admiração.
-Podem se retirar – Apollyon completou.
-Estamos a sua disposição, senhora – falou
Priscila.
-Sem formalidades. Sou forte, mas não mordo.
Realmente eu espero amizade e fidelidade. Portanto,
chame-me apenas de Eliane.
-Sim – ela deu-me um sorriso contido.
-Podem ir – reforcei a ordem de Apollyon.
Ficamos a sós na sala. Nos entreolhamos.
Mikael expressava confusão, enquanto Apollyon
sorria.
-Lembra-se da história que contei para Arel? –
perguntei ao nefilin.
-Sim.
-Isso tudo faz parte da minha vingança contra
aqueles humanos que mencionei em tal conversa. Ou
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Exodus – Catherine Parthenie

estás do meu lado ou este é o momento de partir. O


que farei a partir de agora não será motivo de
orgulho para um anjo fiel e quem estiver do meu
lado terá o mesmo desagrado que acarretarei.
-Entretanto, terás a minha proteção caso aceite
ajudar Lienne – falou Apollyon oferecendo o pior
convite para Mikael.
-Vingastes a morte de Saron, Lienne.
Provastes com aqueles castigos que és digna da
minha confiança. Jamais te deixarei.
Essas palavras de Mikael fizeram-me lembrar
do meu amigo. Na verdade, lembrei-me de tudo que
deixei para trás... Meu pai, meus amigos, meu
grande amor.
-Apenas ajude-me, Mikael. É só o que te peço.
E a vingança tomava forma. O primeiro passo
foi dado. E esse passo foi além do que eu planejara,
pois acabei envolvendo dois amigos nessa tramóia.
Percebi que eu agia tão erroneamente quanto aqueles
que me trairam. Era como se todo o tempo passado
voltasse de maneira grandiosa. Eu usaria aliados
mais fortes, minha nova empresa era muito maior e
meus inimigos estavam sob meus pés.
Eu não senti o que esperava. Uma sensação
estranha assolava-me o coração, mas o desejo de
vingança era tão forte e entorpecente que fez-me
ignorar tudo.
-Qual o primeiro passo? – Mikael perguntou,
tirando-me de devaneios insanos.
-Contatos e projetos. Preciso saber de tudo o
que está se passando na empresa. Preciso que
45
Exodus – Catherine Parthenie

comunique a todos os arquitetos a nova presidência,


principalmente aos três babacas que eu tanto odeio.
Torne-se amigo deles, aproxime-se, faça-os confiar
em você.
-Volto em uma hora – respondeu o nefilin,
retirando-se dali determinado a cumprir tudo o que
eu havia pedido, com um sorriso tão malígno quanto
o meu.
Observei Mikael. Ele seria um anjo forte se
terminasse seu treinamento na Cidade dos Nefilins.
-O filho de Kandake nasceu para servir-te. Ele
te idolatra – comentou o Rei das Trevas.
-Não é para menos, levei quinze chibatas para
protegê-lo. Ele deve muito a mim.
Apollyon soltou uma gargalhada sonora.
-Acredito que a Cidade dos Nefilins conte
seus dias agora em dois períodos: antes e depois da
filha de Caleb. Quinze chibatadas! O que fizestes
para merecer tal punição?
-O que me pedistes, encontrei o caminho
alternativo para entrar e sair de lá.
-Quem foi o autor do seu castigo?
-Meu pai.
Mais uma gargalhada, que agora tornava-se
irritante.
-Caleb é digno de minha admiração. Jamais
encostaria em meu filho.
-Filho? – perguntei curiosa.
-Um assunto que não lhe diz respeito, minha
cara.

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Exodus – Catherine Parthenie

-Vejo que modos rudes fazem parte da


essência dos arcanjos – rebati lembrando de Arel no
meu primeiro dia naquela Cidade.
-Assim como sua curiosidade atormenta a
todos.
-Segredos não revelados e pertinentes aos
meus planos atormentam-me – corrigi os
pensamentos dele.
-E que planos são esses?
-De não criar filho de um demônio.
-Você diverte-me, Lienne. Meu filho está
criado e não faz idéia do que ele é.
-Mantenha seu filho longe de mim, Apollyon.
-Como? Ele está mais perto de você do que
imaginas.
-Desisto de tentar decifrar seus enígmas. Vou
sair – falei caminhando para a grande porta de
mogno.
-Aonde estarás, nefilin?
-Matando.

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Exodus – Catherine Parthenie

O AMOR NOS MATA...

O amor chega com um olhar.


O amor consome a alma.
Quando entenderás que te amo?

O amor tira-nos de órbita.


O amor comete loucuras.
Não sabes que te amo?

O amor faz perecer o ódio.


O amor transforma demônios.
Não acreditas que te amo?

O amor nos vence,


O amor nos engana,
O amor enlouquece,
O amor nos mata...

Eu morreria por você.


Eu morreria por esse amor.

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Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 8 – Amando.
O vinho batizado com sangue que Apollyon
deixou na mansão supria-me a tal ponto de não
precisar caçar. Eu tinha uma nova vida, e já não
ansiava mais pelo sangue que corria nas veias
humanas. Porém, em troca dessa transformação,
ganhei sentimentos intensos que faziam-me arder de
amor por um anjo.
Caminhei até um lugar distante, chegando
num local muito parecido com aquele onde Arel
beijou-me pela primeira vez.
Meu anjo...
Por que os nefilins amam?
Por que eu pensava assim, sendo que eu era
um anjo?
Ele não podia amar-me. Nossas vidas, nossos
destinos, não foram entrelaçados. Eu desfiz todas as
nossas esperanças com minhas escolhas. Permiti que
o ódio tomasse o lugar do amor e segui pela estrada
tortuosa da vingança. Porém, meu anseio por vê-lo
era tão grande que chego a orar. Sim, eu orei. Pois
seu nome era como prece sagrada.
-Deus, como eu queria acreditar... como eu
queria ele aqui! – sibilei.
-Ainda não aprendestes que suas orações
sempre serão atendidas?
Impossível não sorrir. Ele estava ali, perfeito
como sempre.

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Exodus – Catherine Parthenie

-És um anjo, Ele escuta seus pedidos – Arel


falava com satisfação, como se aquela prece fosse
tudo o que ele mais desejasse de mim.
-Como sabias onde encontrar-me? – perguntei
disfarçando a felicidade de tê-lo a minha frente, a
magia de revê-lo.
-Adivinhar seus planos não é tão difícil assim.
-Estás afirmando que sou previsível?
-E não és?
-Posso beijar-te ou bater-te, isso depende do
meu humor – respondi.
-Ainda assim seriam apenas duas opções.
-Você me irrita, Arel.
-Tanto que desejas-me ao teu lado.
-Um anjo gabando-se? O pecado do amor não
é o único que atingiu seu coração.
-Lienne, sempre dramática!
Éramos dois anjos estúpidos, um de frente ao
outro, nos desejando. E tudo o que fazíamos era nos
alfinetarmos.
Eu só queria dizer que o amava, mas o
orgulho construía barreiras diante das palavras.
O caminho errado.
A minha culpa.
Atitudes insanas superavam a vontade de
amá-lo. Um ódio crescente, o orgulho. A vingança
valia mais que o amor?
Mesmo fugindo dessa estranha verdade, lá
estava eu, rendendo-me aos seus pés.

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Exodus – Catherine Parthenie

-Por que empenha-se tanto em estragar a sua


vida? – Arel perguntou-me enquanto sua mão
alcançava minha face, acariciando-a delicadamente.
-Fiz algumas escolhas erradas, Arel. Decisões
estúpidas, confesso. Mas a vingança é como um
vício, não posso livrar-me dela.
-Não podes ou não queres?
-Subestimas tal sentimento, anjo.
-Nada é mais forte que o amor, Lienne.
Sem que eu esperasse, ele tomou-me em seus
braços, segurou-me de maneira que para desgrudar-
me dele, seria necessária uma luta. E eu não queria
lutar, não dessa vez. Eu só queria sentir novamente o
sabor dos seus lábios. E Arel não decepcionou-me
quanto a isso.
Sua boca percorria meu pescoço, trilhando o
caminho que a levaria até meus lábios. Línguas
movimentavam-se em sincronia, trazendo tudo o que
palavras não conseguiriam explicar.
Suas mãos soltaram meus pulsos para tocarem
em meu quadril, puxando-me para si, apertando-me
ao calor de seu corpo ardente de desejo.
Pernas trêmulas.
Vontades quase incontidas.
Um amor revelando-se...
Uma promessa havia sido feita e eu não
poderia quebrá-la antes da minha vingança ser finda.
Errado!
Esse ósculo era um grande erro! Subestimar o
Rei das Trevas era o único atrevimento que eu não
ousaria fazer.
51
Exodus – Catherine Parthenie

Libertei-me de Arel com um grande


empurrão. Seu olhar confuso era como o fio de uma
adaga enferrujada cravada em minha carne.
-Por que, Lienne?
-Porque dissestes que eu era um erro. Porque
essas palavras levaram-me até Apollyon e agora eu
pertenço à ele. Eu posso dar-te inúmeras razões,
Arel, porém nunca entenderás nenhuma delas.
Num desvairado acesso, Arel partiu para cima
de mim, arrancando minha blusa. Assustada, não
reagi. Ele deu alguns passos para trás e avaliou-me
com um olhar incrédulo.
-Tens razão, eu não entendo. Continuas
intocada.
-Por que todos fazem isso comigo? Por que
procurar por uma prova no lugar errado? – gritei
com raiva. – Pior, uma prova invisível!
-Não sabes o que acontecerá caso venhas a
perder sua virtude?
-Não!
-Lienne, por trás dessa fúria ainda escondes a
inocência de uma criança – e ele sorriu.
-Não sou o que pensas, Arel.
-Realmente. És somente uma tola.
-Lindas palavras! Levantaram minha moral.
Sou infantil e tola – respondi enquanto ajeitava os
trapos que antes eram minha blusa. Nessas horas eu
agradecia a existência de quem inventou a roupa
íntima. Não que eu me sentisse à vontade trajando
quase nada na parte superior do meu corpo. Na

52
Exodus – Catherine Parthenie

verdade, essa era uma situação bem patética, mas era


melhor do que estar sem nada.
-Desculpe-me por isso – falou Arel.
-Por que ainda me segues?
-Por culpa de três palavras: eu te amo.
-Não foi o que dissestes quando eu beijei Liel.
-Aproveitando o assunto, por que o beijastes?
Essa era uma pergunta que eu não queria
responder. Entretanto, eu já não tinha mais nada a
perder mesmo...
-Séfora e Liel estavam aos beijos naquele dia –
respondi.
-Qual o problema disso?
-Alguém poderia vê-los.
-Torno a perguntar: qual o problema disso?
-Batestes a cabeça, anjo? Eles são filhos de
Arktos, estariam quebrando uma das regras da
Cidade dos Nefilins. Tente entender-me, Arel, eu só
beijei meu amigo para salvá-lo de uma punição.
-Calma, Lienne. Vamos por partes. De onde
tirou a idéia de que os dois eram irmãos?
-Nossos pais aparecem quando o perigo é
eminente e nos conduzem para a Cidade dos
Nefilins. Arktos salvou Liel.
-Sim, mas isso não significa que Arktos é o pai
dele.
-Não? – esse era um segredo novo para mim.
-Não. O pai de Liel pertence às trevas, por isso
mandamos Arktos salvá-lo.
Fofoca do ano até mesmo para os anjos!

53
Exodus – Catherine Parthenie

-Estás dizendo que todo o meu sacrifício foi


em vão?
-Ao lembrar-me da cena, vejo que não foi
sacrifício algum para você.
-Poupe-me de seus ciúmes, pois não sabes de
nada, Arel – falei por entre os dentes. – És mais cego
do que aqueles que vivem na escuridão.
-Interessante ouví-la falar isso. Pois é você
quem anda perdida em alcançar objetivos que irão
destruir-te.
-Ao menos eu luto pelo que quero. Mesmo
que eu venha a perecer, terei sempre o orgulho de ter
tentado – rebati.
-Que orgulho é esse, Lienne? Orgulha-se da
derrota?
-Sou apenas fiel aos meus desejos.
-Quando olho para você, tudo o que vejo é a
infidelidade em forma de anjo. És, para mim, a mais
perfeita infelicidade, a ânsia que tanto busco. Corri
atrás desse sentimento e prostrei-me ante a sua
determinação. Fui iludibriado pelos seus jogos
sedutores. És uma mistura de inocência e maldade.
-Jamais brinquei com o amor, Arel. Tudo o
que sinto é verdadeiro.
-Eis o mistério, Lienne... Com um simples e
terno olhar, com o revelar de seu tórrido sorriso, com
um único toque de sua suave pele, transformastes
em humilde criança o mais poderoso dos infiéis.
-Essa é uma tormenta que assola-me.
-Pobre nefilin, perdida e sozinha. Mudastes o
rumo de tantos e, mesmo assim, amo-te com a força
54
Exodus – Catherine Parthenie

do brilho de mil sóis. Porque um único beijo não foi


suficiente para extrair a vontade lasciva de saborear
seu amor.
-Meu anjo...
Eu não queria ser essa guerreira afoita. Eu não
queria lutar contra esse sentimento. Mas, se eu
morresse naquele instante, sabendo que ele amava-
me tanto, isso já era uma grande vitória.
-Quem amas, Lienne? Quem realmente é o
dono do seu coração?
-Um mistério não revelado? Gravei seu nome
em minha vida, Arel.
-E no entanto insiste em perder-me. É disso
que orgulha-se tanto?
Eu vi a dor em seus olhos, eu vi o quanto ele
amava-me, eu vi aquele anjo partir para poder
sibilar:
-Orgulho-me de amar-te muito, Arel.
E durante toda essa conversa, não estávamos
sós. Uma terceira figura observou tudo e agora
fitava-me com seu olhar inquisidor. O ignorei e parti
dali, na esperança de que esse assunto fosse deixado
para trás...

55
Exodus – Catherine Parthenie

INIMIGO.

O inimigo persegue-me,
Ele me sonda como uma fera.
Eu fujo em meu temor.
O inimigo aproxima-se,
Ele olha-me como um caçador.
Eu o encaro por orgulho.
O inimigo castiga-me,
Ele profere duras palavras.
Eu o escuto em minha dor.
O inimigo acolhe-me,
Ele me envolve em seus braços.
Eu me rendo ao seu amor.

56
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 9 – Respondendo.
Ele seguia-me, queria respostas, buscava fatos,
bem a sua maneira ortodoxa de ser. Eu não voltaria
para a Exodus, mas ele saberia onde encontrar-me de
qualquer forma. Voltei para a mansão onde agora eu
habitava sempre com ele ao meu encalço.
Assim que entrei no escritório, virei-me para
encará-lo com um ingênuo sorriso eclipsado pelo
meu olhar malígno. Eu estava mais contida, com a
fúria reclusa, enclausurada pelo medo que eu sentia
do meu genitor.
-Essa sua paúra é, de certa forma, interessante.
Lembra-me uma fera acuada que ruge para afastar
seu caçador. Porém ainda vejo a coragem avançando
em seu semblante. Uma forma eclética dessa sua
nova vida – ele falou, analisando-me.
Era perceptível a ebulição do meu amor
contido, quase sendo revelado em forma de lágrimas.
Eu estava ébria de paixão e a ponto de eclodir, de
forma perspicaz e sucinta, o ódio pertinente que eu
sentia por amar demais. Uma redundância estúpida
do meu coração: amar e odiar. Eu amava Arel e me
odiava por isso, mas não deixaria a presença daquele
ser abater-me e eu lutaria pela minha verdade
enquanto houvesse forças para isso.
-Eis que a bela torna-se a fera. Num tempo
longíquo você se renderia.
-Eu lutaria – rebati.

57
Exodus – Catherine Parthenie

-Uma tentativa infrutífera, pois conheces a


minha força.
-Eu matei Iehuiah – falei com desdém.
-E quem disse que ele era melhor que eu?
Nem o olhar persuasivo que eu usara para
derretê-lo enquanto eu era somente uma criança, foi
suficiente para fazê-lo recuar. Eu o temia demais.
Enquanto eu perdia-me na tentativa de
condensar seus sentimentos, ele desferiu um forte
golpe em minha face, fazendo o mundo girar diante
de meus olhos.
-Agistes como a áspide, pequena serpente
cheia de mistérios e surtilégios. O que pretendes com
tal atitude? Desvirtuar um arcanjo fazendo-o
prostrar-se ante aos seus desejos?
Mais um golpe inesperado, levando-me ao
chão. Dali mesmo gritei:
-O que esperavas de uma nefilin alada?
-Bondade, amor, proteção! É disso que os
humanos precisam, não de um arcanjo a menos para
cuidar deles – urrou meu pai.
-A bondade mata, o amor destrói e a proteção
me expõe – respondi levantando-me. – Poupe-me de
seu ciúme!
-Anjos amam, Lienne.
-Eu não tenho amor, pai! – exclamei.
-Seus olhos só enxergam um caminho:
vingança.
-Vingança e amor assolam o coração de todos.
Eu chorei.

58
Exodus – Catherine Parthenie

Estava perdida e desesperada, louca de terror,


no meio de um labirinto de sonhos desfeitos, dentro
de um emaranhado confuso e tosco. Vivendo a
realidade tóxica do amor perdido.
De frente ao arcanjo que deu-me a vida toda a
minha coragem esvaiu-se. A leoa evanescente dava
lugar a criança que um dia fui. E o amor que eu
sentia por ele ainda residia em alguma parte do meu
corpo angélico, pois eu ansiava por aqueles braços
que um dia embalaram-me.
-Ainda há tempo, Lienne, não destrua sua
história.
-O que restou para mim, pai? O era uma vez de
ninguém? A criança cresceu, tornei-me um anjo.
-Anjos e crianças não odeiam.
-Então por que odeias-me?
-De onde tiras essas idéias absurdas?
-Diga-me, somente uma vez.
-Eu sempre vou te amar, minha filha.
-E mesmo amando-me não és capaz de
entender o que sinto por Arel? Sabias dos meus
sentimentos por ele, pai.
-Sentir é uma coisa, agir é outra.
-Agistes de maneira pecaminosa com minha
mãe. Quem és tu para julgar-me?
Ganhei uma lição que eu jamais aprenderia:
meu pai não aguenta ser provocado. Uma série de
golpes foram desferidos. Livrei-me da maioria, mas
Caleb era muito mais forte e poderoso. E senti-me
como se estivesse de volta a uma das arenas da

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Exodus – Catherine Parthenie

Cidade dos Nefilins quando seu chute acertou-me o


estômago.
Caída, vi quando ele aproximou-se de mim.
Eu esperei por mais um golpe, com a ridícula
esperança de interceptá-lo ou revidá-lo. Entretanto,
Caleb abaixou-se para olhar-me nos olhos e dizer:
-Seu atrevimento não terá fim?
-Esqueça-me. Eu sou a filha de um pecado que
jamais deveria ter nascido.
Dito isso, levantei-me e fui para os meus
aposentos.

Machucada e pensando nele. Um amor


proibido e arrasador. Há momentos em que me
perco na ilusão e, quando a realidade volta, já não sei
se conseguirei viver sem ele ao meu lado. E o que eu
não daria para conhecer o amor carnal de um anjo?
Felizes foram as mulheres que deitaram-se
com eles. Mesmo com suas vida rompidas para que
monstros pudessem nascer, elas experimentaram o
amor mais sublime de todos.
Eu seria capaz de quebrar meu trato com as
trevas só para ter o prazer que o corpo dele poderia
me dar. Mas Arel é como uma estrela inalcansável
para mim.
Enquanto soluço pelas lágrimas pesadas,
como criança sem consolo, sinto mãos fortes, que há
muito não me tocavam daquele jeito.
-Eu sei o quanto dói – ele sussurrava enquanto
prendia-me em seu abraço.

60
Exodus – Catherine Parthenie

E o ódio se dissipa. Toda aquela luta foi


esquecida e entrego-me como a nefilin desprotegida
que adentrou na Cidade que transformou-me em
anjo.
-Pai, arranca isso de mim – peço com a voz
embargada.
-Ninguém arranca o amor, é uma tortura
eterna. Lastimo por você, minha filha. És capaz de
destruir grandes criaturas, no entanto não consegues
vencer o amor.
Caleb pega-me em seus braços e coloca-me na
cama. Senta-se ao meu lado, velando meu pranto
suas antigas palavras faziam-se reais ali. ele disse
certa vez:
“No momento de encarar a tempestade, estarei ao
seu lado”.
E meu pranto torturoso era a tempestade que
descia em forma de lágrimas por um anjo proibido
para mim.
-Por que ainda me amas? – pergunto.
-Porque tenho fé em você.
-Não sou mais uma nefilin.
-Mas sempre serás minha filha.
-Pai, mataria-me se eu lhe pedisse?
-Eu poderia ter matado-te há pouco. Mas
quando olho para você, vejo muito mais que meu
reflexo. Vejo a força de uma vida que insiste em
negar sua essência. Você ama, Lienne, apenas aceite
isso.

61
Exodus – Catherine Parthenie

-Eu só queria Arel ao meu lado, só uma única


noite, uma única vez. Depois disso, poderias
destruir-me.
-Não diga essas coisas, ainda sou seu pai. Por
que achas que tivemos essa briga? Podes chegar a ter
mil anos e mesmo assim serás uma garotinha para
mim. Morro de ciúmes de você.
Eu sorri.
-Preciso ir, Lienne. Fique em paz.
-Adeus, pai.

62
Exodus – Catherine Parthenie

POR VOCÊ.

Por você, eu alcançaria o mundo.


Por você, eu desistiria de tudo.
Por você, eu enfretaria meu maior inimigo.
Por você, eu viveria sem abrigo.
O único quem ama-me realmente,
O único quem esteve ao meu lado sempre.
O único quem salvou-me,
O único quem amparou-me.
Por você, faria loucuras.
Por você, eu morro.
Tomo minha decisão,
Dou-me como experiência,
Meu corpo será sua salvação.

63
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 10 – Conhecendo.
Eu não ficaria na cama chorando o dia todo
como uma criança mimada. Aproveitaria todas as
oportunidades, mas eu precisava recuperar-me das
dores que os golpes do meu pai causara-me.
Caminhei pela imensa mansão em busca de
Azazel e o encontrei numa das salas.
-Preciso daquela porcaria que Persis coloca no
vinho – falei firme.
-Mate um humano e beba o sangue dele –
Azazel respondeu de maneira casual.
-Os golpes que recesbestes não foram
suficientes para mostrar-te quem é que manda aqui?
-Falas do acelerador?
-Do que mais seria? Ou acaso pensas que eu
desejava um cacho de uvas? – respondi imitando o
modo de Arel falar. Tudo era ele para mim, eu
respirava Arel assim como um vampiro anseia por
vida.
Ele remexeu em seu bolso até encontrar o que
procurava e logo ele lançava ao ar um pequeno
frasco que veio parar certeiramente em minhas mãos.
-Onde conseguistes tais lesões? – perguntou-
me Azazel.
-Sabes o que aconteceu. Não se faças de besta
– respondi sem paciência e virando aquela porcaria
de uma vez.
Eu esperava pela mesma reação que tive
quando ingeri essa droga pela primeira vez.
64
Exodus – Catherine Parthenie

Entretanto, na pele de um anjo, a reação foi como


sentir nada. Porém eu pude sentir quando as dores
diminuiram e meus ossos voltavam para o lugar.
Olhei para o pequeno frasco de vidro e
percebi que ainda restava cerca de um terço do
conteúdo. Preparei-me para beber o resto, quando
Azazel chamou minha atenção:
-Vá com calma, anjo. Acelerador em excesso
pode provocar-te uma mutação indesejada.
-Como assim?
-Como o próprio nome diz, esse produto
acelera suas células regenerativas. Tomado em
excesso, seu corpo irá desgovernar seu sistema
hormonal e essas células estarão totalmente fora de
controle.
-Anjos têm hormônios?
-Inacreditável, mas têm.
-E se eu tomar demais eu me transformarei
em... – o instiguei a contar mais.
-Conhecestes Kali?
-A filha de Hazanel? – rebati sua pergunta.
-Como sabes que ela é filha de Hazanel?
-Não sei. Não sabia nem que ela ainda vivia.
-Bem, Kali foi salva pelo nosso Rei. Ela um dia
foi uma nefilin, assim como você. Porém, para os
nefilins da antiguidade, o dilúvio era o fim. Exceto
para alguns que foram resgatados por nosso Rei. E
foi com essa droga que ele curou suas feridas, porém
o resultado não foi o que ele esperava,
transformando aqueles nefilins mórbidos em
criaturas deformadas e abomináveis. E mesmo assim
65
Exodus – Catherine Parthenie

eles são gratos ao Rei por salvarem-lhe a vida,


chamando-o de pai.
-Grande explicação! – exclamei. – E se o
acelerador fosse dado à eles novamente?
-Eu tenho duas teorias quanto a isso: ou eles
morreriam ou suas células se regerariam e eles
voltariam a ser o que eram antes.
-Peraí! Tem um ponto cego nessa história. Por
que eles tranformaram-se naquelas criaturas? Porque
eu entendo que estejas falando de Adramalech
também – falei enquanto meu cérebro trabalha a mil
pensamentos por minuto.
-Não posso dizer-te ao certo, mas acredito que
essa droga deveria estar com a concentração errada.
Por esse motivo os nefilins sofreram mutação
excessiva – respondeu Azazel como se o assunto
“alquimia” fosse a sua vida.
Meus pensamentos vagaram para uma idéia
principal: na concentração certa, os nefilins voltariam
a ser o que eram. Adramalech voltaria a ser o que
era! Ele seria novamente o nefilin perfeito que um
dia foi e eu não duvidava da beleza do meu irmão.
-Qual o ingrediente principal desse veneno? –
perguntei a Azazel.
-Bem, eu não chamaria esse composto de
veneno.
-Que seja, é uma droga, muda nossas células, é
veneno – rebati irritada.
-Lembra-se da árvore com o fruto da vida?

66
Exodus – Catherine Parthenie

-Aquela que o livro sagrado descreve na


passagem que conta sobre o Paraíso e os pais da
humanidade?
-Sim. Adão e Eva. O fruto oferecido pela
serpente – explicou Azazel.
Eu ri alto.
-Ela foi muito burra, mas Apollyon não pode
levar a culpa disso. Eva comeu aquela maçã porque
quis – falei em meio as gargalhadas.
-E quem disse que era uma maçã? Aquele
fruto é sagrado e não existe em meio aos humanos.
-Certo, essa frutinha está no Éden onde tem
dois anjos gigantescos na porta e ninguém entra e
ninguém sai – comentei como quem pede mais
explicações.
-As almas puras podem entrar lá. Por que
achas que o nosso Rei mantém aqueles que um dia
foram nefilins? Adramalech e Kali são dois desses
que sempre invadem o Éden em busca do fruto
proibido para a preparação de mais composto
acelerador para a transformação de nefilins em seres
noturnos.
-Estás dizendo-me que Apollyon expõe
Adramalech ao risco de ser morto por dois anjos
brutamontes que defendem o Éden?
-Não só ele, como a doce Kali também.
Então eu percebi que Azazel sentia algo a
mais pela filha de Hazanel. Percebi que ele era o
único ser que realmente conhecia o amor, pois ele
enxergava a alma e não a aparência. Kali deveria ser
tão bela quanto Adramalech, mas sua beleza era
67
Exodus – Catherine Parthenie

interna e não física. E eu vi que eu era mesmo a


pessoa mais mesquinha e egoísta do universo e
jamais mudaria tal posição, porque vendera minha
alma em troca de uma vingança boba.
E após raciocinar bastante, uma nova
vingança nascia em mim. Apollyon expusera
Adramalech ao perigo, por isso o grande Rei não
permitira que ele saísse daquele lugar asqueroso
comigo.
-Azazel, o que farias para livrar Kali dessa
loucura?
-Não entendo suas palavras, anjo.
-Testaria esse experimento numa dose
excessiva para que Kali tivesse uma única chance de
voltar a ser como foi um dia? – perguntei com a
intenção de usar a filha de Hazanel como cobaia. Se
tudo desse certo com ela, Adramalech seria o
próximo.
-E colocar a vida dela em risco? Jamais faria
isso!
-E se fizéssemos ao contrário?
-Eu realmente esforço-me para acompanhar
seu raciocínio, mas sua mente trabalha mil vezes
mais que a minha. Sinto muito, mas não entendo o
que dizes – respondeu Azazel. E ele tinha razão, o
que minha mente processara era uma grande
loucura, mas o que eu teria a perder? Arel... e ele era
tudo para mim.
-Eu penso que, se eu ingerisse uma dose maior
que a necessária desse acelerador e tranformasse-me
em demônio, como Adramalech e Kali, depois
68
Exodus – Catherine Parthenie

tornasse a beber desse produto, eu voltaria a ser


como estou agora?
-Isso nunca foi testado por um anjo
transformado, senhora Lienne. Com os nefilins, eu
tenho a certeza de que esse processo daria certo, mas
com os transformados, como eu ou a senhora, não
tenho a mesma certeza. A não ser que...
Azazel hesitou em responder e ficou
pensativo. Logo vi seu olhar arregalando-se, como se
alcançasse a ciência de um segredo sagrado.
-Conte-me – ordenei.
-Senhora, apenas permita-me refletir melhor
no assunto para dar-te a resposta certa.
-Tão sério assim?
-Uma grande revelação, senhora.
-Pois, que seja, Azazel. Assim que tiverdes
algo concreto, procure-me.
Virei-me para voltar ao escritório da mansão,
entretanto, antes que eu pudesse retirar-me, o filho
de Kandake chamou-me.
-Senhora?
-Sim.
-Farias qualquer coisa para salvar seu irmão?
-Então sabes que Adramalech é meu irmão?
-Esse assunto só é segredo fora do reinado de
Apollyon.
Suspirei e fechei meus olhos, lembrando-me
de que Adramalech foi o único que sempre estivera
ao meu lado. E o carinho que eu sentia por ele era
mesmo enorme. Meu grande irmão merecia uma
chance, pois ele era o verdadeiro herdeiro do trono
69
Exodus – Catherine Parthenie

da Cidade dos nefilins. O filho varão de um arcanjo,


uma alma pura e fiel, esquecida no submundo de um
rei enganoso.
-Eu morreria pelo meu irmão – respondi.
-Era tudo o que eu precisava saber.
-Por que importa-se tanto com ele?
-Não é com Adramalech que importo-me, nem
com o trono da Cidade dos nefilins, acredite. Tudo o
que eu desejo é ver Kali feliz.
-Prepare esse veneno, Azazel. Acerte na dose e
eu darei a minha vida para salvar esses dois.

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Exodus – Catherine Parthenie

DOCE VINGANÇA

Observando,
Analisando,
Esperando,
Planejando.

Ansiando,
Aproximando,
Enganando,
Saboreando.

Torturando,
Sorrindo,
Vencendo,
Exterminando.

E minha doce vingança toma forma...

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Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 11 – Planejando.
Eu volto para a Exodus e encontro Apollyon
sentado na cadeira da presidência.
-Esquentando meu lugar? – perguntei
ironicamente.
-Esperando-te, minha cara – ele respondeu
levantando-se e cedendo o lugar para que eu
pudesse sentar.
-Mikael?
-Já esteve aqui procurando por você umas
duas vezes.
-Vou chamá-lo – fiz meção de levantar-me,
mas fui detida por um forte empurrão do rei das
trevas.
-Onde esteves?
-Sabes de todos os meus passos, seus
demônios me perseguem. Por que perguntas?
-Porque quero saber até onde vais tua
fidelidade comigo.
-Achas mesmo que morro de amores por ti?
Nunca enganei-te, grande rei. Entretanto, meu
acordo foi firmado contigo e um único beijo não
mudará minha palavra – respondi de maneira firme.
-Não gosto de saber que a nubente do inferno
anda distribuindo seus ósculos aos indignos por aí.
-Matarás à todos? Nunca parastes para pensar
que Arel pode ser um bom informante?
Apollyon afastou-se sorrindo torto.

72
Exodus – Catherine Parthenie

-A cada palavra sua tenho a certeza de que fiz


a escolha certa.
-Até porque sou a única filha de um arcanjo.
-Fato que seu pai poderia mudar.
-Fato que meu pai não seria capaz de mudar –
rebati.
-Caleb ainda morre de ciúmes da filhinha? E o
que dirá a sua pequenina quando souber que seu
papaizinho não é o santo que aparenta ser?
-Não tenho paciência para seus jogos,
Apollyon. E a vida sexual do meu pai pouco
importa-me. Você só tem duas opções: ou aceita
meus beijos com Arel e Persis ou destrua os dois.
Assim todos saberão que o grande rei das trevas
realmente se rende de amores por alguém.
-Eu não te amo, Lienne.
-Estamos quites, eu também não te amo –
caminhei até ele e deixei meus braços enroscarem-se
em seu pescoço. – Mas morro de desejo por você,
meu rei.
Apollyon estremeceu, depois envolveu-me em
seus braços e beijou-me calorosamente. Um ósculo
entorpecente, exasperado, enfeitiçado.
-Ah, imenso e odioso sentimento – ele
sussurrou.
-Sim, caro rei, o pior dos castigos.
-Eu a cerquei, encurralei, dominei e a vítima
sou eu – Apollyon sorri. – Quis fazer doer e essa dor
instalou-se em mim. O que és, linda Lienne, uma
criança hiperativa ou um cão antisocial?
-Faça sua escolha.
73
Exodus – Catherine Parthenie

-Não posso. Estou completa e insanamente


perdido nessa fantasia ilusória.
Olho para ele sem entender.
-Sim, minha pequena leoa, és apenas uma
ilusão.
-O tempo e o imprevisto sobrevêm para todos
– respondo.
-Palavras de um sábio rei... mas até mesmo
Salomão rendeu-se à mim. Mas você... você é como o
sol depois da tempestade. Não, você é a tempestade.
Água de chuva torrencial. Vem forte, bagunça,
destrói, deixa sua marca, acaba, vai embora, evapora.
-Isso tudo é besteira, Apollyon.
-Devaneios de um sádico, minha querida.
-A verdade é que teme minha traição. Nunca
temestes nada, mas temes a mim e isso tortura-te –
respondi vitoriosa.
-A verdade é que precisamos um do outro,
Lienne. Que venha o tempo, que o imprevisto desça
sobre nós, sempre teremos nossa esperança de
vingança estampada um no outro.
-Meu destino já tem endereço fixo.
-Sim, o inferno.
Eu ri.
-A Cidade dos Nefilins, Apollyon.
-Que eu transformarei no novo inferno. Vejo-
te em breve, linda nefilin.
E Apollyon deixou-me a sós com meus
pensamentos. Eu não podia preocupar-me com ele,
eu tinha uma vingança para preparar.

74
Exodus – Catherine Parthenie

Saí daquela sala e encontrei uma das minhas


novas ajudantes.
-Priscila, encontre Mikael para mim, por favor
- pedi para a humana.
-Claro, Lienne, sem problemas.
-Depois venha até minha sala.
Não esperei sua resposta, mas aguardei sua
presença. Em menos de dois minutos ela adentrava
no imponente escritório.
-Encontrastes Mikael? – perguntei.
-Não, mas deleguei a tarefa à Nataly, uma das
subordinada.
-Inteligente.
-Preciso estar a altura do cargo.
-Ganhastes um ponto comigo. Agora preciso
que digas-me tudo o que sabes sobre um dos
funcionários da Exodus.
-Conheço todos, Lienne. É só perguntar.
-Daniel Medeiros.
-Arquiteto, quarenta e oito anos, casado com
Mariana Medeiros, Mariana Souza com nome de
solteira. Não é um bom profissional, mas a esposa o
ajuda, mantendo seu emprego aqui.
-Boa, Priscila. Preciso falar com esse
imprestável em particular ainda hoje. Tente contatá-
lo para mim e marque uma reunião para às seis e
meia.
-Certo. Isso é só?
-Por enquanto.
Priscila levantou-se e Mikael já entrava em
minha sala.
75
Exodus – Catherine Parthenie

-O que conseguistes? – perguntei.


-Bem, depois de muito tempo, conseguir te
achar, né?
-Não estou com paciência para suas gracinhas,
Mikael.
-Certo. A melhor projetista daqui é Mariana.
Ela quase nunca erra e é a arquiteta mais solicitada
da empresa.
-Seus projetos?
Mikael estendeu-me uma pasta que trazia nas
mãos.
-Cinco deles prontos para entrega. Agora me
conte seus planos – pediu Mikael.
-São simples – respondi analisando os projetos
de Mariana. – Ela não é perfeita e há pequenos erros
aqui, nada que comprometa a estrutura de uma
construção, mas... com minha ajuda, isso ficará
perfeito.
-Pensei que quisesse destruí-la e não ajudá-la
– falou o nefilin sem entender meu plano.
-Mariana acusou-me de roubar seus projetos,
destruiu-me quando eu estava no topo. Farei o
mesmo com ela, a colocarei no topo e depois a farei
cair. Olho por olho e dente por dente, meu amigo.
-Isso tudo diverte-me.
Claro que, como todo nefilin, Mikael tinha a
melhor parte de seu pai, a beleza, e a pior parte de
sua mãe, a ruindade humana.
-Conte-me sobre os outros – pediu-me o
nefilin.

76
Exodus – Catherine Parthenie

-Daniel traiu-me por estar apaixonado. Ele


levou-me a um ritual de adoração ao nosso rei e usou
fotos onde eu mesma conduzia o ritual para
denunciar-me. O seduzirei e o levarei para uma
macumbinha básica.
-E Valéria?
-Ela adora seu Deus. Lhe mostrarei o meu
deus.
-A entregará para Apollyon? – perguntou-me
Mikael.
-Meu querido noivo precisa saciar-se – rebati
sorrindo.
-És mesmo virgem, Lienne?
-Sou.
Mikael sorriu maliciosamente.
-Feliz de quem for seu primeiro.
-Perdestes o amor à sua vida, nefilin?
-Não, minha amiga, mas sexo é bom demais e
com uma nefilin é muito melhor.
-Quando eu experimentar isso, eu te conto o
que eu acho.
Mikael riu e afastou-se.
-Onde vais? – perguntei.
-Fazer sexo com Nataly.
-Você não presta – respondi rindo.
-Nenhum de nós prestamos.

77
Exodus – Catherine Parthenie

SEDUÇÃO?

Ele aproxima-se.
Não é amor.
Não é paixão.
Não é prazer,
Nem sedução.

A vingança caminha.
Ele deseja-me.
Ele me quer.
Ele beija-me.
Sedução?

A vingança acredita.
Eu planejo.
Eu o beijo.
Ele me deseja.
Sem noção.

Ele não faz idéia.


Sua vida em minhas mãos.
Seu fim está próximo.
Como chamaríamos isso?
Sedução?

78
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 12 – Seduzindo.
Seis e meia.
Primeiro passo da vingança.
O telefone toca.
-Sim? – atendo prontamente.
-Lienne, Daniel Medeiros está aqui.
-Dê-me dois minutos e depois mande-o entrar.
-Certo – responde Priscila.
Retiro meu casaco. Peça inútil, não sinto frio,
não sinto calor. Uma blusa sensual, revelando curvas
do meu colo, estava por baixo. Sem o casaco, minha
calça mostrava outras curvas, muito desejadas por
Arel. Solto meu cabelo e fico de costas para a porta,
olhando a paisagem da imensa janela há mais de
vinte andares de altura.
Escuto a porta abrir-se.
Sorrio.
Hora da vingança.
-Chamaste-me, senhora?
-Não sente. Nossa conversa será rápida –
respondo ainda de costas para ele.
A porta fecha-se e ele aproxima-se.
Escuto cada passo.
Sinto sua respiração.
Apenas uma mesa grande nos separa.
Caminho na semi-penumbra da sala,
iluminada apenas pela luz do fim de tarde.
Tudo ou nada.
Perder ou ganhar.
79
Exodus – Catherine Parthenie

Eu ganharia.
Fico cara a cara com o inimigo.
Sinto seu coração acelerar e seu corpo arfar.
-Algum problema? – pergunto.
-Não, é que... você lembra-me uma pessoa que
morreu há muito tempo – responde o tapado.
Seus poros dilatam-se, posso enxergar cada
um deles abrindo-se e o suor brotando em sua pele
imperfeita.
-Conte-me sobre isso – ordeno.
-Ela era exatamente como você. A cor da pele,
os olhos verdes, cabelos como fogo. A semelhança é
incrível.
-Os lábios? – diminuo a distância entre nós.
-Os seus são mais perfeitos.
-O corpo? – o instigo a olhar-me da cabeça aos
pés e é exatamente o que ele faz.
-Você é perfeita.
-A voz? – sussurro em seu ouvido e ele
estremece.
-Doce como mel.
-Os beijos? – encosto meus lábios naquela pele
nogenta e fétida de seu pescoço transpirante.
-Nunca experimentei os dela.
-E os meus?
-Quantos anos tem?
-O suficiente para fazer loucuras.
Ele toma-me pela cintura e deixo-me ser
colocada sobre a mesa. Abro minhas pernas e
permito que seu corpo encoste no meu. Sentir aquele
membro rígido deu-me asco. Eu o odiava, mas sabia
80
Exodus – Catherine Parthenie

mentir melhor que Apollyon. Gemi enquanto seus


labios beijavam minha face em busca da minha boca.
O puxei pelo paletó e o apertei junto a mim.
Ele encontrou meus lábios e sua língua
buscava furiosamente a minha.
Nogento.
Pervertido.
Podre.
Me contive e deixei que ele fizesse o que
queria. Quando sua mão começou a percorrer meu
corpo, eu o detive.
-Não sou assim tão fácil, querido. És um
homem casado e eu tenho um dono.
-Provocas-me e depois dispensa-me?
-Um jogo de sedução. Desejas um corpo novo
como o de uma criança e eu anseio por carinhos de
um homem maduro – rebati.
-Seu dono não dá conta do recado?
-Ninguém dá.
-O que queres de mim?
-Você.
-Sou seu escravo.
-Morrerias por mim?
-Não antes de possuir seu corpo.
-O procurarei novamente – murmurei quente
em seu ouvido, deixando-o louco de desejo.
-Quando?
-Amanhã, Daniel.
-Aguardo seu chamado, minha deusa.

81
Exodus – Catherine Parthenie

-Cuidado com suas palavras, o tribunal


eclesiástico pode lançar-te na fogueira – brinco com
uma verdade.
-Não os temo.
-Que seja. Espere meu chamado amanhã.
Daniel saiu pouco satisfeito da minha sala. Eu
preferia regurgitar minhas tripas a ter que beijá-lo
novamente. Mas sacrifícios eram precisos e eu faria o
que fosse possível para ter Daniel em minhas mãos.
Assim que fiquei só, peguei o telefone e
disquei o número que eu havia anotado quando
cheguei naquele escritório.
-Alô? – atende uma voz feminina do outro
lado da linha, uma beata carquética.
-Monsenhor Josiah, por favor.
-Quem deseja?
-Eliane Manthus, presidente da Exodus.
-Sobre qual assunto desejas falar com o
Monsenhor?
-Doação.
-Um minuto, por favor.
A igreja de Cristo... sempre vendendo-se por
dinheiro. Fácil de conquistar, fácil de comprar. Um
monte de pervertidos infiéis às próprias leis. Lacraias
podres e repulsivas, vivendo em despropósitos às
suas doutrinas.
-Senhora Manthus? – era a voz do Monsenhor.
-Agrada-lhe a quantia de dez mil dólares
como uma pequena doação? – sucinta e direta.
-Doações sempre serão bem vindas, senhora –
responde o pervertido.
82
Exodus – Catherine Parthenie

-Passe-me o número da conta para que eu


possa realizar a transferência, monsenhor.
-Em nome de quem devo agradecer tal
generosidade?
-Não reza a palavra que o que deres a mão
direita, a esquerda jamais fique sabendo? Doação
anônima, meu senhor. Apenas nós saberemos disso.
-Que seja...
Ele passou-me o número de uma conta
particular. Eu ganhei sua confiança.
O som da vitória era bom. Viver isso era um
preço sem igual. A vingança é fria, mas é doce...

83
Exodus – Catherine Parthenie

TOMANDO O QUE É MEU.

O amor de um anjo é quente,


Abrasa, aquece.
O amor do anjo me pertence,
É meu, esquece.
Eu disfarço,
Tento fingir indiferença.
Meu coração rompe-se,
Sem ele não tenho esperança.
Ela o toma de mim.
E eu nada importo.
Eu era dele, ele era meu.
Duas almas,
Dois amores,
Dois teimosos,
Dois atores.
Eu digo que o odeio.
Ele diz que não me ama.
Eu digo que não o quero,
Mas da distância o coração reclama.
E ela chega de mansinho,
Ela toma o que é meu.
Ele apaixona-se.
A humana ganhou,
A nefilin perdeu.

84
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 13 – Escutando.
Quase fim do expediente. Estar na Exodus era
um sentimento exultante, o sabor da vitória, o gosto
da vingança, vê-la tomando forma, saber que eles
seriam destruídos, era tão fascinante quanto estar
com Arel.
E um aviso assombrou minha mente, eu
precisaria vingar-me de mais alguém. Os humanos
eram só o começo. Essa luta estava em seu início, os
adversários que eu enfrentaria eram apenas um
treinamento. Persis seria o próximo e Apollyon o
grande chefe que teria o meu “cheque-mate”. Eu
destruiria e depois seria destruída.
Arel tornava-se um sonho cada vez mais
impossível, uma estrela inalcansável.
Meus pensamentos são interrompidos pela
entrada de Fernanda.
-Lienne, uma moça insiste em falar com você –
chamou-me minha assistente com a intimidade que
eu mesma havia lhe dado.
-O que ela quer? – pergunto para minha
subordinada.
-Ela apenas disse que é um assunto referente
ao seu pai.
-Meu pai?
A curiosidade invade a todos, inclusive aos
anjos. Foi pela curiosidade de um arcanjo em
conhecer o corpo de uma humana, em experimentar
o amor, que eu nasci.
85
Exodus – Catherine Parthenie

-Mande-a entrar – respondi casualmente. Esse


era mesmo um dia interminável.
Fernanda assentiu e logo uma moça de pele
morena e cabelos negros entrava no meu escritório.
Beleza humana é algo raro de se encontrar aos olhos
de um anjo, entretanto, naquele momento, eu
agradecia aos céus por Arel não estar diante daquela
beldade.
-Olá – ela disse de maneira tímida.
-Sente-se – praticamente ordenei e ela
obedeceu. Senti seu medo pelas batidas de seu
coração. – Estás aqui para falar-me de meu pai. O
que ele pode ter com você?
-Eu o conheço.
-E daí?
-Eu o amo.
A encarei furiosa. Percebi quando cada um
dos seus membros estremeceram diante da minha
reação.
-Não sabes nada sobre meu pai – rebati.
-Não? Então por que estou diante de uma
mulher com mais de vinte e poucos anos e com a
aparência de uma adolescente mal resolvida?
Sorri com o canto da boca. O medo dela durou
pouco. Audaciosa, uma mulher forte e decidida, um
tipo que realmente levaria meu genitor à loucura.
-Sabes o que eu sou? – perguntei-lhe.
-A filha de um arcanjo.
-O fruto de um pecado. Minha mãe morreu
porque eu a matei para poder viver. Enfim, o

86
Exodus – Catherine Parthenie

problema é seu, não durarás mais que nove meses


mesmo.
-Engana-se se pensas que vim cobrar alguma
coisa ou a paternidade de um filho. Pelo contrário,
vim fazer-lhe um convite. Claro que fiquei
atormentada por um tempo, tentando entender toda
essa situação. Mas é impossível não encantar-me por
Caleb e...
-Por favor, a vida sexual do meu pai não me
diz respeito. Eu quero que ele se dane. O ódio dele
por mim é recíproco – a interrompi.
-É onde você se engana. Seu pai a ama e olhos
dele chegam a brilhar quando falamos sobre você.
-Sim, claro. A surra que levei hoje mostrou o
quanto ele importa-se comigo. Acredito que ele
nunca chegou a comentar sobre quantos dos meus
ossos foram quebrados pelas suas mãos. É o que
desejas para seu filho?
-Essa conversa não está tomando o rumo
certo. Vamos recomeçar. Olá, Lienne, me chamo
Patricia, não estou grávida e sou amante do seu pai.
-E o que eu tenho a ver com isso?
-Quero uma vida normal.
-Envolva-se com um humano então.
-Eu amo seu pai.
-Problema seu, aguente as consequências. Mas
peço-te um favor.
-Que favor, Lienne?
-Avise meu pai de que o trono na Cidade dos
Nefilins será tomado pelo seu verdadeiro
primogênito e não pelo filho que ele terá com você.
87
Exodus – Catherine Parthenie

Adramalech existe e eu farei de tudo para que meu


irmão tome o que é ele por direito.
-Já disse que não estou grávida e desconheço a
existência de seu irmão.
-É o que os anjos fazem, eles geram filhos e os
largam no mundo para que os demônios tomem
conta.
-E quem esteve ao seu lado todo esse tempo?
Uma bofetada mais forte que um soco do meu
pai. Patricia não era uma mulher fácil de vencer.
Determinada, jamais desistiria de lutar pelos seus
objetivos.
-O que viestes fazer aqui, afinal? – perguntei
retomando meu ar superior.
-Um convite. Gostaria de conhecer-te melhor,
gostaria de unir minha nova família. Um jantar na
minha casa essa noite, como pessoas normais. Não
devo ser mais velha que você...
-Tenho quase cinquenta anos para o mundo
humano. Vejo que não passas dos vinte e cinco –
mais uma vez eu a interrompia.
-Minha idade é de vinte e três anos.
Novamente sorri irônicamente. Meu pai era
mesmo um velhote impossível.
-E o que pretendes, Patricia? Abrir um asilo de
anjos? – brinquei com a situação.
Percebi sua indignação com minhas palavras
ao ver seu rosto corar.
-Estou curiosa com essa situação – continuei. –
Meu pai sabe que viestes aqui?
-Não, Lienne. Isso seria uma surpresa.
88
Exodus – Catherine Parthenie

-Como me encontrastes?
-Caleb sabe de todos os seus passos, ele conta-
me tudo sobre você.
-Nem tudo, Patricia. Pergunto-me se já vistes
o diabo em pessoa.
Ela estremeceu com esse comentário.
-Não acredito que sejas tão má a esse ponto –
respondeu Patricia, obviamente equivocada com
meu comentário.
-Não falo de mim, mas do anjo com quem
mantenho um acordo. Sou a noiva do rei das trevas,
a nubente de Satanás, como os humanos o chamam.
Vou destruir a Cidade dos Nefilins. Minha fúria é
desmedida. Matarei meu pai, se for preciso.
-Não farias isso. És apenas uma criança
birrenta que insistes em não admitir que ama o
próprio genitor – Patricia respondeu firme.
-E você seria minha nova mamãe? – perguntei
debochadamente.
-Encare-me como quiser, ficarei feliz se assim
aceitar-me. Pegue – ela estendeu-me um cartão. – Aí
está meu endereço. Estarei esperando-te.
-Estou ansiosa, isso será muito divertido. Ver
a cara nogenta do meu pai surpreendido com minha
presença será um ótimo entretenimento para essa
noite.
-Um dia entenderás o quanto Caleb a ama.
-Ele não hesitaria em matar-me.
-Ele não hesita em amar-te, Lienne.
Essas foram as últimas palavras de Patricia em
meu escritório. Ela levantou-se e saiu.
89
Exodus – Catherine Parthenie

SURPRESA.

Eu não o quero,
E ele vem.
Não o desejo,
Mas ele tenta.
Eu o odeio,
E ele ama.
Me refreio,
Ele insiste.
O provoco,
Ele chama.
Brincamos com fogo,
Nos queimamos.
Arde,
Gostamos.
O provoco novamente,
Ele ri.
O deixo tonto,
Ele sorri.
Digo que morrerei,
Ele entristece-se.
Ele diz que é meu,
E surpreende-me.

90
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 14 – Sentindo.
Um jantar com papai e mamãe. Essa cena eu
pagava para ver.
Permaneci mais uma hora na Exodus
consertando os erros nos projetos de Mariana. Eu
deixaria tudo perfeito, eu a levaria ao topo. Assim
que terminei, trancafiei tudo num cofre e saí
determinada para viver a palhaçada de um jantar
com a meretriz do meu pai. O que ela serviria-me?
Sangue? Ri sozinha da situação.
Saí do meu escritório e vi Priscila e Fernanda
conversando.
-O que ainda fazem aqui? – perguntei.
-Só vamos embora quando você for –
respondeu Priscila.
-Por quê?
-Porque gostamos de você.
-Mal me conhecem.
-Mesmo assim, uma jovem forte e linda é
impossível de não ser admirada.
-Não precisam fazer isso por mim – rebati.
-Não precisamos, mas queremos – respondeu
Fernanda.
Dei de ombros.
-Que seja. Façam como quiserem – respondi e
continuei meu caminho. A última coisa de que eu
precisava agora era apegar-me em uma amizade com
humanos.

91
Exodus – Catherine Parthenie

Já no saguão do imenso prédio da Exodus dou


de cara com Persis. O mundo humano era mais
cansativo e cheio de surpresas que a Cidade dos
Nefilins.
-O que fazes aqui? – perguntei.
-O mesmo que você, trabalhando para
Apollyon.
-Ótimo, olhar a sua cara feia era tudo o que eu
precisava para encerrar meu dia – respondi com um
sorriso malicioso.
-Não achava-me feio quando derretia-se em
meus carinhos.
-É verdade, porém culpo seu vinho
envenenado, era aquilo que iludia-me, Persis.
-Quando quiserdes mais, terei imenso prazer
em servir-te grandes doses de sangue numa taça de
ouro. Atitude digna para uma rainha.
-Estou sentindo-me enlouquecida de desejo
por você. Aliás, o desejo é tanto que seria capaz de
dar tudo de mim aqui mesmo – respondi com
deboche.
-Não hesitarei em saciar-te.
Persis agarrou-me furiosamente e beijou-me.
Minha boca já era a poluição ambulante. Dei mais
beijos num só dia do que em toda a minha vida.
Empurrei Persis com força e sorri.
-Já disse que agora eu dou as cartas. Não tens
domínio algum sobre mim, demônio.
Ele riu.
-Falastes como uma fanática religiosa –
brincou Persis.
92
Exodus – Catherine Parthenie

-Sou mesmo uma fanática, mas pela minha


vingança.
-E é sua maldade que me seduz.
-Não sou má, apenas retribuo na mesma
medida.
-Ora, minha criança, perdoe-me pelo erro. Sua
inocência é tão sedutora quanto sua maldade.
Eu podia odiar Persis, mas jamais negaria o
quanto ele podia divertir-me.
-Conte-me, Lienne, sonhastes comigo
enquanto esteves enclausurada? Sentistes saudades?
-Ah, sim, meu caro. Morri de saudades, sonhei
com todas as suas traições e palavras mentirosas,
com nossos beijos. Cheguei a saciar-me pensando em
ti.
-Imagino a cena, deve ter sido algo delicioso.
-Vai procurar tua turma, aquela cambada de
nefilins fátuos, um séquito de perdedores.
-Ao menos tenho meu exército. E você,
começastes a formar o seu?
A ignorância de Persis chegara num ponto
inacreditável. Eu não precisaria de exército algum
para detê-lo, eu era mais audaciosa que isso. Mesmo
assim, eu tinha os mais fortes ao meu lado, ou seja,
os mais inteligentes. Azazel, Mikael, Séfora. Até
mesmo o próprio Persis dava-me as informações
necessárias para que fosse destruído pelas minhas
próprias mãos. Entretanto, eu jamais revelaria meu
trunfo.

93
Exodus – Catherine Parthenie

-Para que preciso de um exército se serei sua?


Tudo o que é seu me pertencerá em breve – joguei
essas frases com duplo sentido.
-É bom saber que ainda tenho-te sob meu
domínio.
-Sim, Persis, sonhar é bom. Faz bem até
mesmo para os anjos e os demônios. Diga-me, como
conseguistes suas asas exóticas?
-Por que perguntas?
-Coisas de mulher, quero combinar – brinquei.
Persis gargalhou.
-És ainda uma garotinha. Minha
transformação deu-se pelo mesmo extrato que um
dia transformou-te num ser noturno.
Burro. Totalmente ignorante. Dei um passo a
mais para salvar meu irmão.
-Ótimo, farei o mesmo – respondi.
Persis olhou-me sério. Sua mão tocou meu
rosto com delicadeza, um gesto raro daquele
demônio.
-Tome cuidado com isso, Lienne.
-Por quê?
-Eu jamais aguentaria ver o fim de sua
existência.
Apenas mantive meu olhar fixo no dele e,
inacreditavelmente, eu vi sinceridade em suas
palavras.
-Nunca entenderás – ele falou docemente.
-O quê?
-O quanto eu te amo.

94
Exodus – Catherine Parthenie

-Já disse-te que não sou capaz de exercer tal


sentimento.
-Meu amor por você supre todo o ódio que
sentes por mim. Não errei, Lienne. Em momento
algum joguei contra você. Há um segredo que ainda
não pode ser revelado, mas sei que um dia
entenderás o que digo. Apenas dê uma trégua em
sua luta, dê-me uma chance de mostrar que nunca
menti quando prometi um trono para a minha
rainha. Amei-te desde o primeiro instante em que te
vi.
Abaixei meu olhar. Não havia uma resposta
para suas palavras. Não havia nada a ser dito.
-Preciso ir, Persis.
Caminhei controlando lágrimas, lembrando
dos nossos primeiros momentos juntos, do quanto
ele ensinou-me, de que ele fora o único a mostrar-me
a verdade que anjo algum pode revelar. Persis era
especial... e eu o destruiria.

95
Exodus – Catherine Parthenie

PURO AMOR

Amor de mãe,
Jamais experimentei.
Amor de irmão,
Sempre lutarei.
Amor eterno,
Ainda não o conheci.
Amor carnal,
Prazer que não vivi.
Amor de um pai,
Deturpado por enganos.
Amor de um arcanjo,
Sempre causando-me danos.
Amor de quem me ama,
Que eu recuso veemente.
Amor de quem esteve comigo,
E que eu precisarei eternamente.

96
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 15 – Enfrentando.

(Caleb)
O amor batera novamente à porta do meu
coração. E esse novo sentimento só não era mais forte
do que meu carinho pela pequenina que um dia
embalei. Minha proteção era dividida em manter
viva a mulher que dominou meus sentindos e cuidar
de Lienne.
Minha filha era um caso sério. Lienne é a
criatura mais difícil de enfrentar. Eu mantive-me
controlado enquanto ela teve seu caso com aquele
demônio imundo. Entretanto, com Arel, as coisas
eram diferentes. Saber que minha pequenina estaria
nos braços daquele anjo imprestável causava-me um
furor desmedido.
Braços delicados envolveram-me enquanto eu
fitava o mundo através da vidraça da sua janela.
Acaricio a pequena mão que alcança meu peito.
-Darei um beijo em troca de seus pensamentos
– ela fala docemente. A voz de Patricia é como
bálsamo nos meus tímpanos.
-Por um único beijo seu, eu daria a minha vida
– respondo sorrindo e ainda olhando pela janela.
-Então diga-me o motivo de sua aflição.
-Apenas imaginando em como vou arrebentar
a cara de Arel.
Ela riu, um som delicioso.
-Sua filha já está bem grandinha, meu arcanjo.
97
Exodus – Catherine Parthenie

-Lienne não sabe nada da vida, é apenas uma


criança caprichosa. Ela nunca experimentou o amor
carnal e Arel está louco para colocar suas mãos
pagajosas na minha filha.
-Tenho certeza de que ela sabe se cuidar,
Caleb.
-Lienne é uma criatura impulsiva e destemida,
e esses são seus maiores defeitos. O medo traz a
ponderação. Estive a um ponto de perdê-la quando a
vi lutando contra um anjo que tinha o dobro de seu
tamanho, temi pela sua vida.
Os braços de Patricia apertaram-me
carinhosamente e sua cabeça encostou-se em meus
ombros.
-Tudo ficará bem, Caleb.
Nem tudo ficaria bem. Eu a perderia um dia,
esse era o infortúnio que atingia os imortais. Nossos
amados humanos morriam enquanto seguíamos em
nossa existência sem fim.
O que eu não daria por uma certeza de que
Patricia seria eternamente minha... esse não era o
momento de torturar-me, ela não merecia isso.
Minha amada era dona do meu coração e eu a
desejava.
A puxei para junto de mim e a encostei na
parede, meus braços apoiaram-se na mesma
estrutura, bloqueando uma fuga que ela jamais faria.
Deslizei minha mão direita pelo seu pescoço até
alcançar o alvo do meu desejo, fazendo-a arfar.
Aproximei meus lábios dos dela e sussurrei:
-Eu te amo.
98
Exodus – Catherine Parthenie

A beijei intensamente. Minha ânsia em possuir


seu corpo era tanta que a envolvi com força entre
meus braços, na tentativa de sentir aquele corpo
quente junto ao meu.
-Eca, isso é nogento – uma voz fininha e
conhecida atrapalhou meu momento.
Virei-me bruscamente e quase sem jeito diante
daquela criatura.
-O que fazes aqui? – perguntei irritado.
-Fui convidada e a porta estava aberta.
-Vejo que falhei em sua educação.
-Pois é, papai, deverias ter matado-me quando
teve a chance. Infelizmente tornei-me a pedra em seu
caminho, sempre te farei tropeçar.
-E eu sempre me levantarei para dar-te uma
surra.
-Não dessa vez. Estamos quites. Atrapalhastes
meu momento com Arel – ela deu de ombros.
-Já ordenei para que deixes aquele arcanjo em
sua paz.
-Arel, Persis, Apollyon... a lista é grande. Qual
deles matarás primeiro?
Eu não aguentava ouví-la falando assim.
Jamais a enxergaria como uma nefilin crescida, eu
olhava em seus olhos e via uma garotinha petulante.
Suas palavras irritaram-me e, num golpe, eu
esbofeteei seu rosto delicado.
Lienne fechou os olhos e mordeu os lábios,
segurando a dor dentro de si. Ela era orgulhosa
demais para demonstrar fraqueza.

99
Exodus – Catherine Parthenie

-Caleb, por favor! – exclamou Patricia


assustada com minha atitude. – Eu a convidei, queria
fazer-te uma surpresa. Vamos tentar nos
entendermos, por mim.
Sim, por ela eu faria qualquer coisa. Diante
das duas mulheres que eu mais amava, eu renderia-
me até para meu pior inimigo...

(Lienne)
Eu passaria o resto da eternidade levando
surras do meu pai. Era preferível morrer do que ser
odiada pelo único ser que tinha a obrigação de amar-
me.
-Venha, Lienne, sente-se conosco – falou
Patricia.
-Vejo que essa foi a maior sandice que fiz
neste dia. Jamais deveria ter vindo – respondi por
entre os dentes, sempre encarando meu genitor.
-Mas eu estou contente por você ter vindo.
-Não é o mesmo sentimento do seu arcanjo,
Patricia. Minha presença é indesejável para ele.
-Saistes cedo demais da Cidade dos nefilins,
esquecestes a principal lição, a humildade – Caleb
falou firme.
-Não preciso de humildade para os meus
planos.
-Perecerás ao final de tudo.
-Então estarás feliz, já que desejas a minha
morte.
-Não sabes o que desejo, nefilin.
100
Exodus – Catherine Parthenie

Aproximei-me dele, mesmo o temendo, e o


encarei.
-Desejas tomar o trono que um dia pertenceu-
te, desejas um novo nefilin que possas treinar e dar-
te o orgulho que jamais te dei. Desejas meu fim assim
como anseio pelo seu.
Caleb levantou a mão para surrar-me. Era
hora de mostrar ao meu pai o quanto eu poderia ser
forte. Interceptei seu golpe segurando com força em
seu pulso firme. Vários outros golpes foram
desferidos e todos defendidos pelos meus rápidos
reflexos. Entretanto, eu jamais venceria a força de um
arcanjo. Um forte soco no meu rosto fez-me tombar
no chão da sala. Minha decepção comigo mesma foi
tanta que não levantei. Mantive-me prostrada.
Outra surra do meu pai.
Novas mágoas acomulando-se em meu peito.
Eu só queria ser amada por ele.
Eu só queria deixá-lo orgulhoso.
E eu perdia a única pessoa que um dia
importou-se comigo para o seu novo amor.
As lágrimas já não poderiam mais ser
contidas.
-Dói? – ele perguntou-me.
Sim, meu coração doía demais. Assenti.
-Doeu em mim também, Lienne. Cada castigo
que te dei, cada parte de seu corpo que machuquei.
Doeu todas as vezes que vi seu rosto vermelho pelos
meus golpes, doeu todas as vezes que negaste-me.
-Não doerá mais.
Levantei-me e dirigi-me para a saída.
101
Exodus – Catherine Parthenie

-Lienne, fique, por favor – pedia-me Patricia.


Olhei para meu pai com meus olhos
marejados.
-Jamais neguei-te, eu te odeio. E minha
coragem é maior que a sua, porque ao menos eu
consigo dizer essas palavras – falei sem desviar meu
olhar.

(Caleb)
Ouví-la dizer que odiava-me era como um
pesadelo. Vê-la partir sem dizer o quanto eu a amava
foi como uma tortura.
-Eu te amo, minha pequenina – sibilei para
mim mesmo.
Patricia abraçou-me.
-Perdoe-me por isso, minha amada.
-Tive pena dela, Caleb. Lienne está perdida.
-Ainda tenho fé na minha filha.
-E ela entenderá isso?
-Um dia, minha amada. Não importe-se com
isso agora. Vamos aproveitar nossa noite.
-Dê-me o Paraíso, meu arcanjo.
Nossos beijos recomeçaram e eu a amei ali
mesmo, tranformando sua sala num paraíso de
êxtase e paixão...

102
Exodus – Catherine Parthenie

AMOR QUE NÃO AMA.

O amor nos atrai,


O amor nos chama.
O amor convence,
O amor nos vence.

Ele foi meu.


Eu cheguei a acreditar,
Eu pensei que eu era o que ele precisava,
E nunca imaginei o odiar.

O amor me atraiu,
O amor chamou-me.
O amor convenceu,
O amor venceu.

Eu me rendi,
E acreditei...
E quando o revi,
Eu morri.

O amor me traiu,
O amor me destruiu.
O amor machucou,
O amor me matou.

103
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 16 – Traindo.
Perdida em meus próprios erros.
Derrotada pelo meu fracasso.
Eu pereci um dia. E o fiz pela inocência de
confiar em quem menos devia.
Quem era Lienne agora?
O que eu me tornei?
Uma máquina vingativa, o amor perdido de
um arcanjo, a decepção do meu pai.
Eu jamais venceria?
Em certos momentos isso tudo parecia uma
luta sem sentido. Vendi minha alma ao rei do
inferno. Eu jamais teria Arel comigo.
Tudo ilusão. Apollyon estava certo, eu era só
uma ilusão.
Num só dia eu perdi tudo o que ainda restava
em mim: meu orgulho, o amor do meu pai, minha
sede de vingança e meu desejo de vencer.
Caminhando pela noite, triste e solitária,
escuto uma voz conhecida. Dois vultos numa praça
deserta. Aproximei-me devagar, seguindo o som de
duas risadas. Uma delas era a que fazia meu coração
tremer. Cerrei meus olhos e permaneci nas sombras,
escondida de tudo, invisível até mesmo para os
anjos.
-Você é um anjo e eu sou uma humana. Como
pode amar-me? – ela perguntou.
-O maior tesouro está nas coisas mais simples
da vida – ele respondeu.
104
Exodus – Catherine Parthenie

Meu coração despedaçou-se ao ouví-lo falar as


minhas palavras para ela. Abri os olhos e vi os lábios
que naquele mesmo dia me pertenceram, tocarem os
dela.
Foi como morrer.
Suas mãos perfeitas tocaram o rosto frágil da
humana. Eram as mesmas mãos que tocaram-me
com brutalidade.
Ele sorriu.
Um sorriso que era meu.
Retirei o cordão que ainda carregava em meu
pescoço, sempre escondido por uma echarpe, com a
pedra do nosso amor. O pedido de amá-lo
eternamente.
Caminhei até eles.
Eu queria conter as lágrimas, mas elas
teimavam em escorrer pela minha face.
-Isso não me pertence – falei entregando-lhe o
presente que me fora dado como prova de amor.
-Lienne?
Ele olhou-me confuso. Seus olhos fitaram a
humana e voltaram para mim.
-Agora eu entendo – falei entre minhas
teimosas lágrimas - Havia um motivo para não
cumprir sua promessa. Pedistes-me para que eu
vivesse, dissestes-me que estaria comigo se assim eu
o fizesse. Findei minha parte e, no entanto, jamais
cumpriestes a sua. Agora eu entendo...
-Lienne, deixe-me explicar... nem eu entendo
nada disso. Eu...

105
Exodus – Catherine Parthenie

-Que palavras poderiam mudar o que viram


meus olhos? Tinhas razão, todos têm razão. Sou
apenas uma criança. Não sei identificar meus
verdadeiros inimigos. Adeus, Arel. Dessa vez é para
sempre.
É... eu realmente não sabia nada.
Acho que, no fundo, eu sempre esperei por
uma traição daqueles humanos podres. Mas eu senti
a verdadeira dor da infidelidade. Jamais imaginei
que isso seria possível.
Difícil era aguentar noites sem sono.
Mudei meus conceitos.
Os nefilins amam.
Os demônios amam.
Os anjos odeiam.
Os humanos enganam.
A dor transforma as pessoas.
A dor trouxe-me de volta.
A dor fez-me enxergar.
Segui direto para a mansão, minha nova
morada. Ignorei a presença de Séfora e Mikael. Segui
para falar com o único anjo que poderia raciocinar
comigo, o único que entenderia minha ânsia e meus
segredos.

106
Exodus – Catherine Parthenie

MISTÉRIOS.

Segredos sagrados,
Há muito escondidos.
Segredos de anjos,
Mistérios vividos.
Mistérios enterrados,
Por filhos do pecado descobertos.
Segredos trancados,
Agora libertos.
Raciocínios dispersos,
Fatos aglomerados,
Peças encaixadas,
Segredo descoberto.
Profecias de morte,
Promessas de vida,
Compromissos sinceros,
Com futuros de despedida.
Luto para desvendá-los,
Perguntas profundas.
Dúvida respondida,
Resposta da questão muda.
O mundo é um mistério.
O amor é um mistério.
A vida é um mistério.
Ele me ama,
E a fúria em mim abranda.

107
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 17 – Desvendando.
Segui direto para o quarto daquele que seria
meu cúmplice.
-Azazel, com quem Persis andou enquanto
estive na Cidade dos Nefilins? – perguntei sem
rodeios.
-Como assim, Lienne?
-Persis é seu melhor amigo, te conta tudo.
Você o conhece há muito tempo. Ele teve alguma
amante durante minha ausência?
-Persis jamais esteve com uma fêmea desde
que encontrou-te pela primeira vez. Ele só conheceu
os prazeres da carne com uma nefilin, Camila. E você
matou o pai dela.
-Filha de Iehuiah?
-Sim, ela mesma.
-Ele tomou o acelerador e nada aconteceu,
apenas suas asas assumiram uma aparência exótica.
Nossa teoria é infundada – falei tentando refletir em
tudo, recomeçando do zero.
Eu tentei desistir, mas eu não poderia. Havia
uma criatura que ainda esperava em mim e eu jamais
decepcionaria meu irmão.
-Confias em mim?
-Sim, Azazel, eu confio.
-Persis é herdeiro do trono.
-Eu sei disso.
-Como sabes?

108
Exodus – Catherine Parthenie

-Suas tatuagens. Somente meu pai e Hazanel


têm essas marcas. Somente um herdeiro teria o
mesmo. Só não entendo o por quê.
-Certo. Preste atenção. Conheces a citação “um
dia como mil anos”?
-Sim. Segunda carta de Pedro, capítulo três,
verso oito.
Azazel sorriu.
-Caleb é mesmo o melhor instrutor.
Sim, ele tinha razão. Eu tive o melhor de todos
os arcanjos para treinar-me durante toda a minha
vida. E jamais dei o exato valor para isso.
-Lienne, a cada mil anos humanos, quatro
arcanjos assumem a Nova Ordem. As quatro
criaturas divinas do Apocalipse: o leão, o novilho, o
homem e a águia. A coragem, o sacrifício, a
fidelidade e a sabedoria, respectivamente. Nesses mil
anos, dois morrem e dois permanecem. A coragem e
o sacrifício são extintos, permanecendo a fidelidade e
a sabedoria. Seu pai é a sabedoria e Hazanel é a
fidelidade.
-E o que Persis tem a ver com isso? –
perguntei-lhe.
-Ele é um dos quatro. Quando ele tomou o
acelerador, ele já tinha suas marcas de herdeiro. Por
esse motivo sua transformação não o mudou como
fez com seu irmão e com Kali.
-Se ele é um dos herdeiros, por que fez
tamanha besteira?
-Vida eterna, Lienne. Persis é o sacrifício da
Nova Ordem.
109
Exodus – Catherine Parthenie

-Ele morreria – concluí.


-O livro sagrado conta-nos sobre vinte e
quatro anciãos em torno do Trono de Deus. Esses são
os vinte e quatro arcanjos criados diretamente pelas
Suas mãos. Treze deles estão na Cidade dos Nefilins.
Os outros são Apollyon, seu pai, Arel, Miguel,
Rafael, Gabriel e Daniel.
-Falastes-me de vinte e quatro e citastes-me
apenas vinte.
-Dois mil anos se passaram desde a morte do
Cordeiro, o Filho de Deus. A cada mil anos, dois
arcanjos morrem. Dois mil anos, quatro arcanjos a
menos.
-Conquistanto a imortalidade, Persis não
deveria preocupar-se com nada. Por que ele quer
destruir a Cidade dos Nefilins e os arcanjos?
-Ele é o único herdeiro varão.
-Persis quer impedir o nascimento dos outros
três – completei o raciocínio de Azazel.
-Exatamente. Assim ele evita o Apocalipse e,
consequentemente, o nosso fim. Persis faz parte da
última geração da Nova Ordem. Os quatro últimos
herdeiros são os quatro cavaleiros apocalípticos.
-Como podes ter certeza de que Persis faz
parte da última geração? Todos os outros eram
arcanjos e Persis foi um nefilin.
-Porque essa é a verdadeira Nova Ordem,
formada pelos filhos do pecado. Já que estes serão
destruídos ao fim de tudo.
-E a data? Isso poderia acontecer daqui a
milhares de anos. Não tem sentido.
110
Exodus – Catherine Parthenie

-Mas Nostradamus nunca falhou em sua


profecia, como pensam os humanos.
-Claro, agora eu entendo. “A dois mil
chegarás e de dois mil não passarás” – relatei a
profecia. – Nostradamus nunca referiu-se ao ano dois
mil e sim ao milênio.
-Dois mil novecentos e noventa e nove será o
último ano da humanidade, Lienne.
-Essa seria mesmo a última geração de filhos
do pecado.
-O anti Cristo já nasceu, o fim não tarda. Mil
anos como um dia. Apollyon tem um filho. Tudo isso
é um jogo de interesses, Lienne. O rei das Trevas nos
engana e nós o enganamos.
-Então Persis é o mocinho e não o vilão – falei
rindo.
Irônico, mas era a verdade. Ele sacrificou-se
para salvar a todos os nefilins. Persis salvaria a
humanidade. E Kandake foi erroneamente julgado
por mim.
E mais uma verdade invadiu-me. Adramalech
poderia ser um dos herdeiros. E se um anjo
sacrificou-se por todos nós, eu faria o mesmo pelo
meu irmão.
-Nossa teoria tem sentido, Azazel. Eu posso
testar o acelerador, eu serei a cobaia. Não tenho as
marcas, não faço parte da Nova Ordem. Eu havia
entendido tudo errado – um novo raciocínio assolou-
me. - Droga! – exclamei percebendo uma verdade
que me levou a socar a porta do quarto de Azazel e
quebrando-a ao meio.
111
Exodus – Catherine Parthenie

-Qual o motivo de sua revolta, Lienne?


-Os arcanjos estão buscando o nascimento dos
outros herdeiros. Eu vi Arel com uma humana há
poucos minutos.
-Arel?
-O próprio.
-E o que pretendes fazer?
-Juntar-me a Persis. Podemos deter os arcanjos
que estão na Cidade dos Nefilins, mas os que ainda
estão na morada original descerão à terra e
cumprirão a profecia de qualquer forma. Não há
saída, Azazel.
-Os outros arcanjos nada farão. São príncipes e
líderes da milícia celeste, nunca descerão aqui. São
soberbos demais para isso.
-Tens certeza?
-Absoluta. Eles só virão à terra para lutar.
-E nós lutaremos também. Prepare o
acelerador o mais rápido possível, Azazel. Eu o
testarei.
-É perigoso, Lienne.
-Que seja, minha morte não será em vão. Não
tenho nada a perder. Porém, resta-me uma dúvida.
-Qual?
-Azazel, o que aconteceria se um humano
bebesse esse veneno?
-Esse humano morreria... e renasceria minutos
depois. Porém, seu coração não bateria mais e ele
teria ânsia de vida.
-Sangue?
-Sim, Lienne.
112
Exodus – Catherine Parthenie

-Esse humano seria um...


-Vampiro original – Azazel respondeu minha
incompleta pergunta.
-Alguém sabe disso?
-Só Persis, eu e você.
E esse segredo só seria revelado se meu pai
tomasse a decisão certa.
Ainda restava-me uma última pergunta que
eu hesitava em fazer. A pergunta que eu tanto temia
encarar, pois sua resposta poderia ser intensa
demais. Eu cheguei a chorar por ele, eu chorei por
lembrar-me dos bons momentos que passamos
juntos. E essa pergunta não precisou ser feita, Azazel
entendeu o meu silêncio e respondeu a uma questão
muda:
-Sim, Lienne, ele te ama de verdade.

113
Exodus – Catherine Parthenie

O SABER.

Lhe contei segredos,


Que ele já sabia.
Lhe contei histórias,
Que ele já vivia.
Lhe pedi conselhos,
Que ele sempre me dera.
Lhe pedi apoio,
Que ele sempre cedera.
Lhe pedi permissão,
Ele não concedera.
Lhe pedir o saber,
Que eu já sabia...

114
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 18 – Intimando.
Eu precisava falar com Caleb, o arcanjo que
deu-me a vida. E só havia um lugar onde ele poderia
estar naquele momento: a casa da Patricia.
Passei pela sala da mansão e Séfora chamou-
me:
-Lienne?
Revirei os olhos, eu não tinha tempo a perder
com as besteiras daquela nefilin.
-O que queres, Séfora? – perguntei irritada.
-Quando poderei sair dessa casa? Não que eu
não goste dela, eu gosto muito. Mas eu quero visitar
o túmulo da minha mãe.
Olhei para Séfora e vi um futuro
impressionante. Ela era como eu, pequena e magra,
mas com uma força desmedida. Transformada, ela
teria uma utilidade maior nos meus planos. O
mesmo seria com Mikael.
-Esse é um problema que resolverei em breve
– respondi à ela. – Assim que encontrar o
imprestável do Kandake.
-Isso vai demorar muito?
-Estás na minha casa, bebendo do meu vinho,
abusando da minha hospitalidade e ainda reclamas?
Vai demorar o tempo que for necessário, portanto
sente-se e aguarde. Tenho problemas mais
importantes para resolver.

115
Exodus – Catherine Parthenie

Passei dos limites com a fúria, pois Séfora


jamais iria aturar tamanho desaforo calada.
Entretanto, ela apenas obedeceu e eu me retirei.
Peguei um dos carros que Apollyon
disponibilizou, muitos dos seus “milagres” eram
bem vindos em certos momentos, e segui direto para
a casa de Patricia.
Passavam das duas da madrugada. Horário
nunca foi problema para os anjos e nefilins, mas era o
tormento dos humanos. Essa atitude, minha
madrasta teria que perdoar.
Toquei a campainha de sua casa
insistentemente.
-Lienne? O que fazes aqui? – Patricia atendeu
com cara de sono.
-Preciso falar com o meu pai.
-Claro, querida, entre, por favor.
Não hesitei e fiz o que ela pediu. Encontro
meu pai de pé, como um guarda costas de sua
amada. Enfrentei meu ciúme e disse:
-Precisamos conversar.
-Não precisamos continuar uma briga sem
sentido e...
-Esquece essa briga! – gritei. Fechei meus
olhos na tentativa de acalmar-me, suspirei e voltei a
falar calmamente: - Pai, preciso contar-te sobre
mistérios que Azazel ajudou-me a desvendar, preciso
que saibas das descobertas que fiz, do sacrifício que
pretendo fazer e preciso saber qual caminho
escolherás.
-Do que estás falando, Lienne?
116
Exodus – Catherine Parthenie

-Três assuntos: Nova Ordem, Adramalech e


Patricia.
-O que Patricia tem a ver com suas
maquinações?
-Vamos por ordem, por favor?
-Fale logo, Lienne.
-Certo. Eu e Azazel conversamos e...
Contei para meu pai toda a conversa que tive
com Azazel. Falei sobre a Nova Ordem e sobre
Persis. No final, perguntei:
-Sabias disso?
Caleb ficou pensativo por alguns instantes,
depois respondeu:
-Sim, eu sabia. Por que achas que eu aturava
aquele demônio com suas mãos grandes em você?
-Pai, os arcanjos estão planejando acabar logo
com tudo. Eu vi Arel com uma humana quando saí
daqui. Eles querem dar vida aos outros três
herdeiros. Arel me traiu.
-Arel com uma humana?
-Sim.
-Ele não só traiu você, como traiu a Nova
Ordem. Se meu filho realmente está vivo, os quatro
herdeiros já existem.
Ouvir Caleb chamar Adramalech de “meu
filho” enterneceu meu coração. Entretanto, prendi-
me mais a sua outra revelação.
-Como já existem? Quem são os outros filhos
de arcanjos?
-Esse é um mistério que terás que descobrir
sozinha, Lienne – respondeu meu pai.
117
Exodus – Catherine Parthenie

-Se sabias de tudo, por que nunca contaste-me


nada?
-Porque eu não podia. Porque te conheço
muito bem e sei que esse seu jeito impulsivo acabaria
com tudo. Kandake é nosso informante, ele sempre
nos avisou dos planos dos arcanjos.
Fechei meus olhos com raiva ao perceber a
besteira que eu havia feito.
-Qual o problema, Lienne? – perguntou Caleb.
-Eu entendi tudo errado e contei sobre a
traição de Kandake para Hazanel quando eu ainda
estava na Cidade dos Nefilins.
-Eu sei.
-Como sabes se falei em segredo com o
arcanjo?
-Hazanel está do nosso lado. Ele contou-me a
conversa que tiveram.
-Nosso lado? Então lutarás conosco?
-Sim.
-Amas Patricia de verdade? Não faz parte
dessa conspiração dos arcanjos?
-Sim, eu a amo. E como já disse, essa atitude
deles não tem sentido, já que os quatro herdeiros já
foram gerados.
-Como não sabias da existência de
Adramalech, se tinhas contato com Persis e
Kandake? – o intimei.
-Nunca perguntei sobre ele, porque eu
realmente acreditava que Adramalech estivesse
morto. Até o dia em que revelou-me tal fato naquela
arena.
118
Exodus – Catherine Parthenie

Revelação que custou-me uma surra que doía


só de lembrar.
-Por que entraram nessa conspiração com
Persis? Vocês não sabiam da existência de
Adramalech, o círculo não estava completo. O fim
não aconteceria – comentei.
-Acreditávamos que os outros arcanjos
escondiam filhos quando Apollyon gerou o anti
Cristo.
-Quem é o filho de Apollyon?
-Admiro-me que ainda não saibas, ele era seu
melhor amigo. O filho de Apollyon é Liel.
Claro, o próprio rei das trevas disse que seu
filho estava mais perto de mim do que eu poderia
imaginar. Liel, o filho de um mentiroso, fingiu todo o
tempo na Cidade dos Nefilins, mostrando-se
esquecido de uma vida que era impossível esquecer.
Ele entrou naquela cidade para vigiar-me, para
transformar-se e voltar para o seu pai. Da mesma
forma, Hazanel e Caleb o aceitaram por perto para
manterem seus planos em segredo.
-De qualquer forma – continuou Caleb –
temos que detê-los, pois Adramalech jamais
conseguirá assumir sua posição, mesmo que junte-se
a nós. E um novo herdeiro pode vir a existir. Meu
filho deve ser excluído dessa lista.
-E se eu disser que existe uma maneira de
trazê-lo de volta a sua forma original?
Meu pai olhou-me assustado. Ele jamais
imaginara tal possibilidade. Porém, sua sabedoria ia
além de tudo o que eu poderia prever.
119
Exodus – Catherine Parthenie

-O acelerador – concluiu Caleb. – Isso poderá


matá-lo, Lienne.
-Por esse motivo eu testarei primeiro em mim.
Só quero que prometas-me que, caso tudo dê errado
e eu seja destruída nessa experiência, o senhor
continuará tentando salvar meu irmão.
Caleb transformou seu rosto numa fúria
incontrolável. Eu jamais o vira tão possesso.
-Não permitirei que faças tamanha besteira,
nem que para isso eu te dê uma nova surra – urrou
meu pai.
-Não poderás impedir-me – rebati.
-Não duvides de mim, Lienne. Sua ousadia
fugiu do controle. Não permitirei isso.
-Nem para salvar a existência da Patricia?
-O que queres dizer com tal sandice?
-Na dose certa, o acelerador a mataria, depois
a traria de volta à vida. O único problema seria o
sangue, mas teremos humanos suficientes para
satisfazê-la e ela pode pegar os mortos fresquinhos e
saciar-se...
Um tapa ressoou forte em minha face.
-Perdestes sua sanidade, criança. Não
concordarei com tamanha loucura – vociferou Caleb.
-Preferes que ela envelheça e morra? Que
amor é esse, senhor arcanjo? – gritei de volta.
-Ela seria uma assassina!
-Há outras formas de fazer isso, eu mesma
testei essas porcarias na minha outra vida.
-Não usarás o acelerador em Patricia – Caleb
falou firme.
120
Exodus – Catherine Parthenie

-A decisão é dela e não sua.


Nossa discussão tomou um rumo tão forte que
nos esquecemos da presença de minha nova
madrasta naquele lugar. Até que ela colocou-se entre
nós e disse:
-Hora da verdade. Caleb, você me ama?
-Mais que a minha vida, Patricia.
-Lienne, confias nesse troço que tanto falam?
-Confio em Azazel. Tanto que darei meu
corpo para testar o acelerador – respondi.
-Não. Não dará – gritou meu pai.
-Farei o que eu quero e não o que mandas.
-Parem os dois, nesse instante! – Patricia falou
mais alto que ambos. – Mais uma briga e eu mesma
darei um jeito de esbofetear os dois.
Olhei para meu pai e não aguentamos.
Começamos a rir.
-Duvidam de mim? – perguntou Patricia
brava com nossa atitude.
-Não, que isso, Paty – respondi segurando o
riso.
-De maneira alguma, querida – Caleb fez o
mesmo.
-Certo. Vamos aos fatos. Caleb me ama e
Lienne confia no trocinho doido que me
transformará em uma maluca assassina.
-Vampira – consertei.
-Cale-se – ela falou com o dedo indicador
levantado.

121
Exodus – Catherine Parthenie

Apertei os lábios para não rir. Se ela era assim


enquanto humana, imaginei o estrago que ela faria
quando se tornasse uma vampira.
-Caleb, eu te amo e daria tudo para viver ao
seu lado eternamente. Falastes-me mais cedo que
tinha fé em Lienne, então eu também acredito nela. A
decisão é minha, como sua própria filha disse. E eu
aceitarei a oferta que ela me faz.
-Patricia, eu não aguentarei perder-te.
-Me perderás de qualquer maneira, meu
arcanjo. A vida me cobrará, o tempo irá desgastar
minha pele e meus orgãos. Aceite minha morte ou
arrisque-se por ter-me ao seu lado por toda a
eternidade.
Meu pai a olhou com ternura, ele a amava e eu
odiava essa situação. Não suportava ter que dividí-lo
com ela. E eu fui a autora da pior ideia, o motivo que
me faria ter que conviver nesse pesadelo por toda
minha existência. Abominei minha boca grande por
não manter-se fechada.
-E Adramalech? – perguntou meu pai.
-Eu já disse que serei a cobaia desse
experimento – retruquei.
-Não vou perder uma filha para salvar outro.
-Então deixe Arel e sua gangue fazendo filhos
por aí e que venha o Apocalipse! Dane-se, cansei
disso tudo – gritei.
-Ainda temos um trunfo, Lienne. Arel e os
arcanjos não sabem que Kandake é o informante de
Persis.

122
Exodus – Catherine Parthenie

Estremeci. Eu fiz outra besteira, e das grandes.


Minha reação não passou desapercebida por Caleb.
-O que aconteceu?
-Certa vez, na Cidade dos Nefilins, eu contei
para Arel sobre Kandake.
-Claro, você faria qualquer coisa para
entregar-se para aquele arcanjo imundo.
-Eu estava apaixonada! – rebati.
-Apaixonada e assanhada.
-Quem sai aos seus não degenera.
Caleb só não me bateu porque Patricia ainda
estava entre nós. Aproveitei-me da situação e
continuei:
-Não perdestes tempo, logo colocou,
literalmente, suas asinhas de fora e se acasalou com a
primeira que viu.
-Já perdi minha paciência com você!
-Nunca tivestes. Sempre tratastes-me com
surras, seus carinhos estavam guardados para ela.
-Assim como os seus para aquele arcanjo
imprestável.
-Não ouvirei seus desaforos. Fique com sua
amada, nada tenho para fazer aqui.
-Se eu pegar-te com Arel, não precisarás testar
nenhum acelerador, porque eu mesmo te mato.
-Grite sozinho, arcanjo.
Virei-me e saí dali batendo a porta.

123
Exodus – Catherine Parthenie

(Caleb)
Patricia chorava em silêncio. Só então percebi
o tamanho do desastre que aquela conversa fizera
com minha amada.
-Sinto muito pelas atitudes de Lienne – falei
carinhosamente.
-Ela me odeia, Caleb.
-Lienne é só uma criança enciumada. Apesar
de sua força, eu sou tudo o que ela tem. Arel a traiu,
ela odeia Persis, seu melhor amigo quer matá-la.
Minha filha precisa de nós, Patricia.
-Eu nunca vi tanta violência num só dia. Eu
não a entendo. Primeiro Lienne mostrou-me uma
forma de estar sempre ao seu lado, depois ela
ofende-me com palavras insanas. Eu sou um nada
para vocês. Sou uma raça inferior.
-Não, minha amada. És a mais perfeita das
criaturas.
-Pare, Caleb! – ela gritou. – Vocês odeiam os
humanos, você não quer que eu me transforme e
viva eternamente ao seu lado.
-Patricia, eu a amo e não quero que sofras.
-Chega! Cansei dessas mentiras.
-Eu sou um arcanjo, não posso mentir – gritei
por entre os dentes.
-Conveniente falar tal coisa – respondeu-me
como um deboche.
Ela não acreditava em nada do que eu dizia, e
isso pouco importava. Eu queria Patricia ao meu
lado, tamanho era o fascínio que ela causava-me.
124
Exodus – Catherine Parthenie

-Deixe-me, Caleb. Cansei de suas brigas,


cansei de sua filha ofendendo-me.
Ela virou-se para sair da minha presença, mas
eu a detive, segurando-a pelo pulso. A encostei na
parede com força, prendendo suas mãos entre as
minhas, deixando-a com os braços abertos e
levemente levantados. Patricia olhava-me nos olhos,
era uma mulher corajosa e isso era o que eu mais
admirava nessa criatura.
-Cansou-se disso? – perguntei beijando-a logo
a seguir. O prazer de sentir nossas línguas
encontrando-se era imenso. Aquela mulher era meu
segundo ponto fraco, o pecado dos anjos, perfeita em
sua beleza. Eu a amava e Lienne que entendesse isso.
Arfando após nosso beijo, ela disse:
-Como vou cansar-me de ser seduzida por
você?
A tomei em meus braços e o quarto foi nosso
refúgio...

125
Exodus – Catherine Parthenie

ANJO DAS TREVAS

Caminhando como um deus


Ele conquista.
Segue sua jornada,
Destruindo, caçando, matando.
O anjo negro,
A perfeita criatura das trevas,
O deus do submundo,
O dono de toda entrega.
Dissipando, queimando, quebrando.
Ele atormenta com sua beleza.
O anjo negro rende-se pelo pecado.
Ele está em minhas mãos,
A um passo da destruição.
Lutando pela única chance de ser enganado,
Vencido, destruído.
Pelo próprio erro,
Pelo próprio desejo,
Eu o destruo.
E ele nem faz idéia...

126
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 19 – Enganando.
-Arcanjo idiota – eu murmurava enquanto
dirigia de volta para a mansão, sempre socando o
volante.
De volta ao meu novo lar, pensamentos em
fúria. De volta aos meus planos. Meus adversários
agora eram outros. Os humanos ainda estavam em
minha lista negra. Persis saira dela. Arel tomou seu
lugar junto com os doze arcanjos da Cidade dos
Nefilins.
Após um banho, já no meu quarto, vestindo-
me para voltar à Exodus e dar continuação aos meus
planos, recebo uma visita desagradável.
-Seu corpo leva meus pensamentos para o
lado mais pervertido que existe – ele falou dirigindo-
me um olhar cobiçoso.
-Um dia ele será seu – respondo casualmente e
continuo a me vestir.
-Quando será esse dia?
-Paciência, Apollyon. Achei que ao menos essa
virtude existia em seu ser – rebati ainda de maneira
casual.
-Sim, Lienne, sei esperar o momento certo de
tomar o que me pertence.
-Estás como um louco – falei sorrindo.
Aproximei-me dele trajando apenas lingeries negras.
– Precisas saciar teu corpo pecaminoso, amado rei –
sussurrei em seu ouvido.
-Podemos resolver isso agora mesmo.
127
Exodus – Catherine Parthenie

-Farias um favor para ambos?


-Tudo o que me pedires, nefilin.
-Uma saciedade para seus desejos e uma
vingança para os meus.
-Diga-me logo o que queres, Lienne.
-Seduzas Valéria, a possua. Somente tu tens
esse poder, somente a tua beleza a levaria a cometer
tamanha loucura.
-Não a desejo. Quero você.
-Mesmo sabendo que aquela freirinha ainda é
tão virgem quanto eu?
O olhar de Apollyon iluminou-se.
-Desvirtuar é o que agrada-me. Nada terá o
mesmo prazer que possuir sua carne firme e sem
mácula. Mas farei o que me pedes, será um prazer
fazê-la quebrar seu voto de castidade.
-Sabes quem é a tal imperfeição?
-A cretina que usa o broche em cruz. Sei quem
ela é.
-Faça isso por mim, Apollyon. É só o que te
peço por enquanto.
-Não consigo negar um pedido seu, linda
nefilin. Entretanto, algo intriga-me.
-O quê, caro rei?
-O dia alcança sua quarta hora, o mundo
humano ainda dorme. Onde vais tão cedo?
-Minnha vingança já esperou demais. Estarei
na Exodus.
-Faça como quiserdes.
Assenti e Apollyon retirou-se. Terminei de
vestir-me e, enquanto eu saía para voltar à Exodus,
128
Exodus – Catherine Parthenie

escutei a voz de Kandake vinda do quarto de Azazel.


Dirigi-me para lá e percebi que meus sentidos não
traíram-me.
-Bom ver-te por aqui – falei para Kandake.
-Como estás, Lienne?
-Preciso de um favor. Vamos parar de rodeios
e falsos cumprimentos.
-Do que precisas?
-Mikael e Séfora precisam voltar para a arena
e alcançarem a transformação.
-Retirei meu filho de lá para que não morresse
e estás querendo que eu o leve de volta?
-Mikael não morrerá – afirmei.
-Como podes ter certeza disso?
-Eu e o meu pai o treinaremos. Uma grande
guerra está por vir, sabes que é um fato consumado.
-Os céus não conspirarão contra nós enquanto
os quatro herdeiros não se reunirem.
-Mas Apollyon sim. Liel é forte e sairá vivo
daquela cidade. Tudo ou nada, Kandake.
O anjo ficou pensativo. Ele realmente amava
seus filhos e tive inveja deles. Gostaria de receber o
mesmo amor do meu pai.
-Eu confio em Mikael – falei firme.
-Conheço a força de meu filho, Lienne. Mas
precisamos de Arktos nesse time e colocar Séfora em
risco pode fazer com que ele desista de estar conosco.
-Arktos sabe de tudo? – perguntei percebendo
que meu pai escondera muitas coisas além da
identidade dos herdeiros.
-Sim, ele está conosco.
129
Exodus – Catherine Parthenie

-Séfora é forte, ela conseguirá vencer.


Entretanto, uma ajuda de Hazanel nesse sentido seria
muito bem vinda, e só você pode conseguir isso.
-Quem os acompanhará?
-Eu.
O olhar de Kandake não demonstrou
surpresa.
-Hazanel está certo em confiar que você é
quem salvará todos nós – ele falou.
-Ou serei o motivo de destruição de todos –
rebati.
-Eu acredito em você, Lienne – disse Azazel.
-Az, agradeço sua confiança. E, acredite, ela é
recíproca. Mas tudo o que preciso agora é que use
seus conhecimentos e prepare logo o acelerador. O
nosso tempo é escasso.
-Já estou trabalhando nele.
-Quando será a luta de Mikael e Séfora? –
perguntou-me Kandake.
-Diga-me você, anjo.
-Uma das nefilins terá seu teste final em uma
semana. Falarei com Hazanel e ele cuidará para que
dois guerreiros estejam na arena nesse dia. Darei um
jeito de sair sorrateiramente e guiá-los pela entrada
principal. De lá, é com você.
-Confie em mim, saberei como domar a
situação. Converse com Séfora e seu filho, não conte
sobre a Nova Ordem e não exponha Persis, ele é a
peça chave de toda essa conspiração e não sei até
onde Séfora pode ser confiável, ela está encantada
por Apollyon – alertei.
130
Exodus – Catherine Parthenie

-Assim farei – respondeu Kandake.


Ele já estava retirando-se quando o chamei.
-Anjo? Perdoe-me. Eu não fazia idéia que...
-Acredite, Lienne, isso tudo nos ajudou muito.
Não tenho ressentimento algum contra você.
Sorri e o vi partir de encontro aos dois nefilins
que estavam hospedados na mansão.
-Meu pai acredita muito na sua força, Lienne.
-Espero não decepcioná-lo.
Deixei Az sozinho com suas teorias e segui
para dar andamento em minha vingança. Os
humanos ainda precisavam pagar por toda a asneira
que fizeram comigo.
O primeiro passo para impedir uma grande
guerra foi tomado. Apollyon caíra na minha
armadilha, ele sentia-se tão confiante em enganar e
mentir que nunca passou-lhe pela cabeça que eu
poderia fazer o mesmo com ele. Sem saber, o Rei das
Trevas cavava sua própria cova.

131
Exodus – Catherine Parthenie

UM CORAÇÃO HUMANO.

Humanidade?
Jamais a conheci,
Jamais a vi.
O coração humano é cheio de poeira,
A podridão de seus atos
Os deprime,
Os afasta da santidade.
Que santidade?
Nem anjos a têm...
Generalizar,
Foi tudo o que sempre fiz.
No entanto,
Um coração humano me faz feliz.

132
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 20 – Trabalhando.
Cheguei na Exodus às cinco da manhã e não
desperdicei meu tempo. Fui direto para a sala da
presidência e voltei a trabalhar em cima dos projetos
de Mariana. Aprimorei seus cálculos, transformei
seus gráficos e tudo aquilo não parecia em nada com
o original entregue a mim por Mikael.
Eu tinha agora dez projetos, cinco originais
feitos pelas mãos da própria Mariana e cinco feitos
por mim.
Vingança... eu a teria em breve. Cada um
deles pagaria com a mesma moeda, o mesmo preço...
com juros, com muitos juros!
Entretida com toda aquela papelada, não senti
o tempo passar. Realmente, o tempo dos anjos não é
o mesmo dos humanos.
Fernanda entrava em minha sala com um
copo fumegante e um pacote estranho.
-O que é isso? – perguntei.
-Café da manhã. A senhorita está aqui desde
cedo e, sim, eu sei de tudo. Portanto, trate de se
alimentar – ela falou com um sorriso simpático no
rosto.
Fernanda entregou-me o copo fumegante e o
pacote que trazia consigo. O abri para conferir o
conteúdo e encontro uma porção de bolinhas
estranhas.
Olho para ela de maneira interrogativa.

133
Exodus – Catherine Parthenie

-Pães de queijo e chocolate quente. Vamos,


coma tudo – Fernanda respondeu.
Eu ri alto.
-Não consumo esse tipo de alimento, mas
agradeço sua atenção – falei enternecida com sua
atitude.
-Claro que não, linda desse jeito, deve comer
só uma folha de alface por dia. Mas você está pálida
demais. Aliás, todos vocês são pálidos demais.
-Fernanda, por que importa-se tanto comigo?
-Eu consigo enxergar no fundo dos seus olhos
e sei que és uma pessoa maravilhosa e uma jovem
notável. No entanto, vejo uma dor contida, enxergo
seu esforço para sorrir e fingir que tudo está bem.
Lienne, não precisas ser forte todo o tempo, basta ser
o que és.
Era a primeira vez que eu demonstrava
fraqueza diante de uma humana.
Era a primeira vez que eu recebia um carinho
inocente.
Era a primeira vez que alguém fazia-me um
favor sem esperar nada em troca.
As palvras dela fizeram lágrimas escorrerem.
Entendi, naquele momento, que alguns humanos
mereciam o sacrifício que todos nós estávamos
prestes a fazer.
Sequei as lágrimas rapidamente e abaixei
minha cabeça.
-Um choro demonstra que a melhor pessoa do
mundo mora aí dentro, mas que a mágoa a atingiu.
Nos conhecemos ontem, entretanto já consigo
134
Exodus – Catherine Parthenie

distinguir cada sorriso fingido que dás. Vejo toda


essa sua devoção para conseguir o que tanto almeja,
ignorando a dor, vencendo os obstáculos. Por que
isso, Lienne? Por que simplesmente não permites
que o futuro tome conta do seu destino?
Refleti em suas palavras. Fernanda tinha mais
sabedoria que muitos anjos. Ela era pura e sincera,
mas eu jamais abaixaria a guarda.
-Porque eu não dou a ninguém o prazer de
manipular o meu futuro. Meu destino está em
minhas mãos, Fernanda – respondi as suas
perguntas.
-Não seria melhor encontrar a luz e seguí-la?
-Acredito que um caminho de luz esconda
mais segredos que as sombras, pois a luz se
intensifica e cega seus olhos. A penumbra é minha
amiga.
Fernanda suspirou pesadamente. Seu rítimo
cardíaco provava sua sincera preocupação.
-Muitos problemas? – ela perguntou-me.
Sorri.
-Os problemas são as minhas soluções, eles
fizeram-me sábia. E nem isso é suficiente, Fernanda.
Se os problemas existem, eu descanso em paz. Um
conselho que dou-te agora: se sua vida está bem,
cuidado. A ilusão sempre nos afronta.
-Sim, você está certa. Só quero que saibas que
sempre poderá contar comigo.
-É bom saber disso, Fernanda. Mas engana-se
em relação a pessoa que sou. Tenho meus erros, e
eles são muitos.
135
Exodus – Catherine Parthenie

-O que eu perdi? – perguntou Priscila


entrando sorridente em minha sala.
-Reunião de mulheres – Fernanda respondeu.
-Do tipo “falar mal dos homens” e tudo mais?
-Do tipo “Lienne, pare de trabalhar e coma um
pouco” – respondeu Fernanda fazendo-me rir.
-Posso falar mal dos homens, se quiserem –
brinquei.
-Ótimo! – exclamou Priscila sentando-se a
minha frente. – Pode começar.
Eu ri. Elas me divertiam, eram boas
companheiras.
-Bem, teve um cara... ele era lindo, perfeito. O
tipo alto, loiro, olhos cinzentos. Eu pensei que ele era
o grande amor da minha vida. Lutei por ele,
derramei muitas lágrimas por... – hesitei, não valeria
a pena falar o nome dele. – Enfim, juramos amor
eterno e ele me traiu.
-Que canalha! – Priscila falou revoltada.
-Um sem vergonha mesmo – completou
Fernanda.
Em meio a muitas risadas e muito falatório
contra os homens, dei-me conta de que eu vivia o
que eu tanto evitara, uma amizade com as humanas.

136
Exodus – Catherine Parthenie

DÚVIDAS.

Devo crer?
O que ele procura?
Fui enganada certa vez,
Largada em amargura.
Devo confiar?
O que ele quer dizer?
Seus atos mudaram,
Amar-me é o seu querer.
Ele foi um inimigo,
Ele foi um adversário,
Eu estava errada.
Ele foi o conforto,
Ele foi o amparo,
E não percebi nada.
Novamente juntos,
Novas palavras,
Novas promessas
E muitas dúvidas.

137
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 21 – Acreditando.
-O papo está muito bom, mas precisamos
trabalhar – falei interrompendo a “festinha” que
fazíamos em meu escritório.
-Qual a ordem de hoje? – perguntou Priscila.
-Esses projetos foram esquecidos aqui por
Mikael – entreguei-lhe as maquinações que eu havia
tramado contra Mariana nas mãos de Priscila. –
Acredito que devam ser levados ao cliente dela.
Priscila avaliou a papelada, conferiu a
assinatura falsa, feita de maneira exímia pelas
minhas mãos, acreditando mesmo que tal rabisco
pertencia à Mariana.
-Sim, claro. Seu amigo deve ter esquecido isso
ontem. Mas eu mesma o farei chegar ao seu destino.
-Obrigada – agradeci.
Elas sairam e comecei a planejar uma outra
vingança. Eu precisava surpreender Apollyon, só
restava-me entender como eu faria isso.
-Lienne, um rapaz dizendo-se seu advogado
quer falar com você. Ele é bem insistente... e bonito! –
falou Priscila com um sorriso malicioso.
Persis, só podia ser a figura irritante. Sorri
feliz. Não estranhei minha própria reação, era ele
quem eu queria por perto naquele momento.
-Mande-o entrar – respondi.
-Já estou dentro – falou Persis fazendo-me rir.
-Nunca se cansarás de vir perturbar-me? –
perguntei assim que ele fechou a porta.
138
Exodus – Catherine Parthenie

-Como deixaria, se essa é minha atividade


preferida?
-Audacioso e teimoso como uma mula –
rebati.
-Ao menos sou fiel à você.
-Azazel precisa aprender a guardar a língua
na boca.
-O arcanjo de merda machucou seu coração,
nefilin?
-Cuidado, Persis. Ofensas são como
bumerangues, elas sempre voltam para você.
-E beijos?
-Dispenso. Já tive minha cota de beijos
encerrada pelo resto da minha existência. Mas aceito
seus favores como advogado.
-O que posso fazer por você, nefilin?
Contei a ele sobre meu plano para destruir
Mariana. Persis riu quando terminei meu relato.
-Isso será divertido, Lienne.
-Então, divirta-se comigo.
-Seu beijos me divertem.
-Já disse que passarei o resto da vida sem
beijos.
Persis contornou a mesa e veio até mim. Ele
apoiou-se nos braços da grande cadeira giratória e
deixou seu rosto próximo do meu. Seu sorriso
debochado iluminava seu rosto.
-Te ofereço uma vida eterna, ficarás
eternamente sem beijos? – ele perguntou-me.
-Sem os seus. Não gosto dos mocinhos.
-E Arel?
139
Exodus – Catherine Parthenie

-Quem disse que ele é um bom garoto?


-Posso ser mal, posso te arrebentar, posso te
trair. Serei o que você quiser, Lienne.
Nossos olhos fitavam-se intensamente.
Nenhum dos dois estava disposto a ceder.
Eu via Persis com outros olhos. Eu comecei a
sentir algo mais forte por ele. Aquele demônio me
venerava, sua beleza entorpecia meus sentidos.
Nossas lembranças faziam-me... desejá-lo. Recordei
da imagem de seu peito nu, seu tórax perfeito... sim,
eu o desejei.
Permiti que sua mão tocasse meu rosto. Seus
dedos passearam pela minha face, contornando
meus lábios, meus olhos, deslizando pelo meu
pescoço, alcançando meu ombro, descendo pelo meu
braço, segurando a minha mão.
-Nunca entenderás? – ele perguntou baixinho,
era quase um sussurro.
-Não.
-Ainda o amas?
-Não, Persis.
-Eu te amo.
Minha mão assumiu vontade própria e tocou
seu cabelo. Resisiti ao máximo que pude. Porém, ver
aqueles lábios próximos dos meus enfraqueceu-me.
Eu o beijei como nunca fizera antes.
Persis ajoelhou-se diante de mim, sem
interromper nosso ósculo. Num único movimento,
ele colocou-me sobre suas pernas. Nossos corpos
colados, um de frente para o outro. Suas mãos
emaranhavam-se em meus cabelos.
140
Exodus – Catherine Parthenie

-Desejo-te, Lienne.
-Entre na fila, mas aviso-te que ela é imensa.
-Eu os mato e chego na frente.
-E serias o primeiro...
-E o único.
-Metido – sorri.
-Um apaixonado faz loucuras por sua amada.
Suas palavras eram verdadeiras. Eu acreditei
nele. Mesmo sofrendo com o trauma da traição de
Arel, eu acreditava em Persis.
-Eu morreria por você, Lienne.
O abracei forte e deitei minha cabeça em seu
ombro. Ele apertou-me em seus braços quentes e
ficamos assim por um longo tempo.
-Só serás minha se assim desejardes. Tudo o
que vivi foi uma grande ilusão, até que conheci você.
Tudo, Lienne, todas as minhas palavras, tudo o que
minha boca proferiu foram mentiras e falsidades,
exceto nas vezes em que eu declarei meu amor por
você. Jamais te entregaria para Apollyon.
-Não?
-Não. Eu te mataria antes.
Rimos juntos.
-Posso matar Arel? – Persis brincou.
-Por que quer matá-lo?
-Porque ele te magoou.
-E isso é motivo para destruir um arcanjo?
-Eu faria um favor para a humanidade, ele é
muito feio.
Persis me divertia.

141
Exodus – Catherine Parthenie

-Eu quero matá-lo porque é o arcanjo mais


burro que já conheci. Ele perdeu o que tanto almejo e
nunca conseguirei ter.
-E o que seria, Persis?
-Seu amor.
-Sinto decepcioná-lo, mas o prazer de matar
Arel será meu. Ele disse que amava-me... e mentiu.
-Anjos e arcanjos criados não podem mentir,
Lienne.
-Devo acreditar no amor de Arel?
-Ora, quando ele disser “eu te amo”, apenas
acredite. Ele pode amar te destruir ou te amar de
verdade. De qualquer forma, será amor, não será?
Eu ri. Persis tinha a melhor percepção de amor
que todos nós.

142
Exodus – Catherine Parthenie

MAL ENTENDIDO.

Um pedido,
Um favor
E uma briga.
Um desejo,
Um clamor
De toda uma vida.
Um desentendimento,
Troca de palavras,
Ofendida.
Um medo,
Um tormento,
Muitas feridas.

143
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 22 – Pedindo.
Novamente sozinha em meu escritório, fiquei
pensando em Persis e em tudo que vivemos. Se eu
tomasse a decisão certa, poderia ter evitado todos os
sofrimentos que vivia naquele instante.
Lembrei-me de palavras que meu pai falava
quando eu tinha apenas quinze anos, dos
treinamentos que ele me dava, mesmo sem que eu
entendesse o por quê daquilo tudo.
“Uma escolha errada pode destruir seu destino,
Lienne. Siga sempre certa do que faz. Na dúvida, escolha a
mente, pois o coração engana e deturpa” – eram as sábias
palavras do meu pai.
E ele estava certo, como sempre.
Meu coração mostrou-me a raiva, fazendo-me
odiar Persis.
Meu coração mostrou-me a beleza, fazendo-
me amar Arel.
Caminhos errados.
Escolhas erradas.
Agi com o coração e deixei a razão de lado.
Erros e mais erros.
Hora de deixar os sentimentos para trás e
buscar a verdade que a mente insistia em mostrar.
Era o momento de deixar o orgulho de lado e pedir
ajuda para o melhor arcanjo instrutor que a Cidade
dos Nefilins já teve: Caleb, meu pai.
Levantei-me e fui fazer o que minha razão
ordenava.
144
Exodus – Catherine Parthenie

Na recepção da sala da presidência, vejo


Priscila perdida em montanhas de trabalhos.
-Pode fazer-me um favor? – perguntei à ela.
-Até dois.
-Marque uma reunião com Daniel para mais
tarde.
-Em qual horário?
-O mesmo de ontem.
-Tudo bem. Mais alguma coisa?
-O que estás fazendo? – pergunto apontando
para a montanha de papéis em sua mesa.
-Perdendo-me em cálculos – responde Priscila
com uma careta de desespero.
-O contador não deveria ser o encarregado
disso?
-Almejo uma promoção, esse é o preço que
devo pagar.
Sorri. Tudo na vida tem um preço, mesmo
quando ele não é cobrado. E eu faria questão de
pagar a amizade sincera que Priscila me rendia.
Tomei um dos papéis e o analisei. Erros
esdrúluxos foram encontrados logo nas primeiras
linhas. Tomei uma caneta da mão de Priscila e
comecei a verter erros em acertos precisos.
Com a mente trabalhando em uma velocidade
muito maior que a de um humano, consegui, em
poucos minutos, realizar metade do trabalho de
Priscila.
-Aqui está. Posso terminar o resto para você
quando eu voltar – entreguei a nova pilha de papéis
corrigidos.
145
Exodus – Catherine Parthenie

Embasbacada, Priscila perguntou-me:


-Como consegues fazer isso?
-Fazendo – dei de ombros.
Ela olhou-me desconfiada.
-Você não é normal, Lienne.
-Depende de sua definição para “normal”.
-Uma mulher bonita, nunca é inteligente. Não
a esse ponto.
-Então não sou normal, pois faço isso desde
que nasci.
-Não duvido.
-Preciso ir, te vejo mais tarde – cortei o
assunto que estendia-se para um lado que não
agradava-me.
Voltei ao rumo de uma nova missão e, ainda
no prédio da Exodus, num dos corredores daquele
edifício, encontro Mikael enroscado em beijos com a
Nataly.
-Não a engula, nefilin – brinquei chamando a
atenção do meu amigo.
-Nefilin? O que é um nefilin? – perguntou
Nataly.
-O filho de um anjo. O pai de Mikael é lindo
como um anjo – consertei meu deslize.
-Então agora eu compreendo sua beleza – ela
sorriu encantada por Mikael.
-Por que atrapalhastes-me, dona Eliane? –
perguntou-me o nefilin por entre os dentes.
-Conversastes com Kandake hoje. E eu odeio
essa formalidade – respondi.

146
Exodus – Catherine Parthenie

-Como devo chamá-la? Eliane? Eli? Senhora?


Patroa?
-Linda, gostosa, amor, sonho, ilusão. Faça sua
escolha – dei de ombros. – Só não me chame de dona.
-Lienne é um bom apelido para o seu nome –
Mikael entrou na brincadeira.
-Tanto faz. Preciso que venhas comigo.
-Fazer o quê?
-Falar com Caleb.
-Sobre a conversa que tive com Kandake?
-Exatamente – sorri de maneira debochada.
-Isso não agrada-me.
-Tens apenas duas opções: Caleb ou eu. No
entanto, seu lindo rosto será atingido pelas minhas
mãos ou pelas dele. A decisão de quem fará isso será
só uma formalidade.
-Enlouqueceu? Um soco de Caleb me
destruiria. Deixa que ele fique com Séfora, escolho
você.
-Juro que estou tentando acompanhar a
conversa, mas não entendo uma só palavra do que
dizem – comentou Nataly.
-Eu explico: Mikael tem uma namorada, o
nome dela é Halina, ela mora numa cidade longe
daqui e ele só está brincando com seus sentimentos.
-Ah, muito obrigado por isso, Lienne – falou
Mikael de maneira irônica.
-Por nada. Não sente-se mais aliviado agora
que a verdade veio à tona? – ironizei como ele havia
feito.

147
Exodus – Catherine Parthenie

-Isso é mesmo verdade? – perguntou a


humana.
-Sim – respondeu Mikael. – É verdade, eu
tenho uma namorada.
Nataly estapeou o rosto do nefilin e correu
para longe de nós.
-Doeu? – perguntei divertindo-me com a
situação.
Mikael riu.
-Nem senti.
Deixamos a Exodus e seguimos de carro pela
cidade.
-Como aprendestes a dirigir? – perguntou o
nefilin ao meu lado.
-Persis ensinou-me.
-O que esse cara não te ensinou?
-Fazer sexo.
-Isso eu mesmo posso ensinar-te.
-Ótimo! Convidaremos Halina e faremos uma
orgia – brinquei.
-Você tem o dom de acabar com meus sonhos,
Lienne.
-O que dói mais, um soco de Caleb ou um
tapa de Halina?
-Uma nefilin com ciúme é a arma mais mortal
que já conheci. Prefiro apanhar do seu pai. Falando
nele, onde o encontraremos?
-Caleb só pode estar em dois lugares: na
Cidade dos Nefilins ou na casa da sua amante. Como
não podemos voltar ao nosso parque de diversões,
vamos visitar minha nova mamãe.
148
Exodus – Catherine Parthenie

-Você é má – rebateu Mikael.


-Sou um anjo.
Em meio a uma conversa divertida, chegamos
na casa de Patricia. Ela não demorou para nos
atender.
-Lienne? – Minha madrasta pareceu surpresa
ao ver-me ali. – Esse que te acompanha é Arel?
-Pirou? Arel é lindo. Essa porcaria é um
nefilin, Mikael.
-Obrigado por gostar tanto de mim –
protestou meu amigo.
Ignorei Mikael e falei com Patricia.
-Podemos entrar?
-Claro, entre – ela respondeu dando-nos
passagem.
Já no interior da casa de Patricia, eu pergunto:
-Onde está meu pai?
-Ele não se encontra aqui.
-Então o chame, por favor.
-Para uma nova briga?
-De certa forma – dei de ombros. – Apenas
conte-me como o encontra, como consegue chamá-lo,
entrar em contato, sei lá.
-Caleb aparece de repente, quando ele sente
saudades ou quando estou em perigo.
-Então fique em perigo.
-Como farei isso, Lienne?
-Eu te ajudo. Te dou umas porradas com
muito prazer, não te suporto mesmo.
Patricia olhou-me incrédula enquanto
caminhava em sua direção com os punhos fechados.
149
Exodus – Catherine Parthenie

-Não faça isso, Lienne – Mikael deteve-me.


-Preciso falar com Caleb e ela tem que estar
em perigo para que ele resolva aparecer. Tens uma
solução melhor?
Mikael soltou-me. Tornei a atacar Patricia e
meu plano deu certo. Antes mesmo que eu pudesse
socá-la, meu pai entrou sem cerimônias na casa de
sua amada.
-Sempre ultrapassando limites – vociferou
Caleb.
-Oi, papai – falei debochadamente.
-Seu masoquismo impressiona-me.
-Claro, receber seus golpes é um grande
prazer.
-És minha filha, gosto de te mimar – ele socou-
me. – Estás feliz, filhinha?
-Agora estou – respondi tonta e cambaleante
com o golpe desferido em minha cabeça. Fui
amparada por Mikael.
Jamais senti-me daquela maneira. Era preciso
muito mais que um soco leve de Caleb para
derrubar-me. E ele percebeu meu mal estar.
-O que houve, Lienne? – perguntou meu pai
parecendo preocupado.
-Não sei – respondi vendo a sala de Patricia
girar diante de mim.
Sentei-me no chão e levei as mãos a cabeça. Eu
não alimentava-me há mais de dois dias.
Transformara-me num anjo, mas meu corpo
ainda cobrava um desejo que jamais sairia dele, a
ânsia por sangue. Não cheguei a consumir nem
150
Exodus – Catherine Parthenie

mesmo do vinho que Apollyon disponibilizara, o


vinho batizado com sangue e veneno.
Meu pai abaixou-se diante de mim e segurou
meu queixo, fazendo-me olhar diretamente para ele.
-Sem sangue? – ele perguntou e eu assenti. –
Por quê?
Eu jamais diria, não daria esse prazer à ele
novamente. Não voltaria a implorar por algo que
meu pai não era capaz de dar-me.
Eu desisti de sangue, desisti de matar os
humanos por alimentar-me de suas vidas. Tudo para
conquistar o orgulho do arcanjo que eu mais
admirava e temia, meu pai.
Com um safanão, afastei o braço de Caleb e
levantei-me, sempre controlando meus sentidos e
mantendo-me firme.
-Vim fazer-te um pedido – falei assim que
recobrei minhas forças.
-Atacando Patricia?
-Aparecestes, não?
-Diga-me o que queres.
-Preciso que ajude-me a treinar Mikael e
Séfora. Eu os levarei, com a ajuda de Kandake, até a
Cidade dos Nefilins e eles terminarão seus testes.
-Já conversei com Hazanel sobre isso e ele
concorda com seus planos.
Kandake era mesmo eficiente em sua luta por
salvar sua prole. Ele fez exatamente o que lhe pedi.
-Temos pouco tempo e precisamos começar
logo – meu pai olhou para sua amada e disse: -
Podemos usar sua casa para isso? A nova morada de
151
Exodus – Catherine Parthenie

Lienne é perigosa, Apollyon poderia aparecer por lá


e nos flagrar.
-Claro, arcanjo. Contanto que não destruam o
pouco que eu tenho – respondeu Patricia.
-Os treinamentos serão feitos durante a noite.
Séfora ainda sofre com os efeitos do sol em sua pele –
expliquei.
-Por mim, tudo bem, Lienne – Patricia
concordou.
A fitei e encontrei um sorriso acolhedor em
seu rosto. Mesmo com minhas inconsequências, ela
aceitava-me e tentava de tudo para agradar-me.
-Desculpe por tudo – falei sem graça.
-Posso falar com você em particular?
Assenti e a acompanhei até seu quarto.

152
Exodus – Catherine Parthenie

SEM MEDO DE AMAR.

Os braços que me embalaram


Foram os mesmos que me agrediram.
A voz que ensinou-me,
Foi a mesmo que marcou-me.
Nos afastamos.
Medo e trauma restaram.
Medo de não ser amada.
Trauma de ser deixada.
Eu o amo, mas não sei como dizer.
Ele sente o mesmo, e não sabe o que fazer.
A coragem o invade,
Sua boca pronuncia verdade.
Um arcanjo não mente,
Ele diz o que sente.
Resisto, temo o dano.
Acabo rendendo-me
Quando ele diz: eu te amo.

153
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 23 – Declarando.
-Lienne, por que tentas esconder o que é
visível até para os cegos?
-Não entendi sua pergunta, humana.
-Amas seu pai e mesmo assim esforça-se tanto
para afastá-lo de ti.
-O fruto de um pecado não nasceu para amar.
O ódio é um dos meus eternos companheiros,
Patricia. E meu pai só enxerga um erro quando olha
para mim. Sou um pecado que ele jamais conseguirá
apagar.
-Seu pai a ama, Lienne. Pediste-me um favor,
cedi minha casa para que realizes seus planos.
Porém, quero algo em troca.
-O quê?
-Que vá até seu pai e diga o quanto o ama, o
abrace e deixe que ele enxergue seus sentimentos.
-Procuro outro lugar para treinar meus
amigos – respondi quase saindo do quarto.
-Dois teimosos! – ela gritou. – Como podem
duas criaturas serem tão parecidas?
Parei e voltei a encará-la.
-Caleb teve a mesma reação quando lhe fiz
igual pedido – ela levantou-se, pegou-me pelo braço
e conduziu-me até uma poltrona florida. – Agora
sente-se – Patricia falou firme.
Eu ri e disse:
-Estou de castigo, mamãe?
-Lienne, obedeça-me.
154
Exodus – Catherine Parthenie

Tive medo pelos humanos. Essa mulher seria


uma vampira muito sádica. Diante da rispidez de
suas palavras, fiz o que ela ordenou. Minha madrasta
saiu do quarto e voltou minutos depois
acompanhada do arcanjo e do nefilin.
-Caleb e Lienne, – Patricia recomeçou seu
discurso – há assuntos mal resolvidos entre os dois.
Eu e Mikael seremos testemunha dessa conversa,
porque se os dois não se entenderem, juro que
termino tudo com Caleb e não permitirei
treinamento algum para os planos de Lienne.
Portanto, criaturas teimosas, comecem a falar o que
sentem.
Silêncio.
Ninguém cederia.
Virei meu rosto para o lado oposto de onde
eles estavam. Minhas feições mostravam meu
desagrado diante daquela situação.
-Caleb, por favor – sussurrou Patricia.
Escutei os passos do arcanjo aproximando-se
de mim. Ele sentou-se no leito de descanso de sua
amada e ficou frente a frente comigo. Meu olhar
ainda fugia do dele.
-Enfrentaremos uma grande batalha,
lutaremos juntos. Uma trégua em nossas
divergências seria bem vinda, Lienne.
-Talvez isso seria possível se seu vício não
fosse arrebentar meus ossos – rebati com raiva.
-Achas que divirto-me com isso?
-Tenho certeza.

155
Exodus – Catherine Parthenie

-Lienne, certa vez eu vi-me diante de uma


pequena criatura, belíssima e com um olhar intenso.
Ela era indefesa e frágil. Cuidei dela, segurei em sua
mão, ensinei a caminhar, mostrei os perigos da vida,
a fiz forte. Essa criatura cresceu e tornou-se mais
bela. Pelos motivos errados, ela escolheu o caminho
certo. Impulsiva, forte, segura, linda... ela acreditou
que não precisava mais de mim. Precisei domá-la,
consertar seu caráter, podar sua fúria, mostrar o
caminho certo. Ela foi treinada, testada, surrada,
vencida. E ela venceu. Mas a névoa do orgulho, as
ilusões de um falso amor, cegou seus olhos. Um
golpe evita dar de cara com uma parede de chumbo.
Não arrependo-me de nenhum dos meus atos com
essa criatura.
-Estamos quites, também o odeio.
-Não arrependo-me de nada porque eu fiz
dela o anjo que eu mais admiro e amo.
Olhei para Caleb. Meus olhos marejaram. Ele
finalmente falava o que eu tanto ansiei escutar.
-És minha criança, és parte de mim. Jamais
considerei o seu nascimento como um erro. Pelo,
contrário, fostes meu orgulho e minha alegria
durante todos esses anos. Podes odiar-me, eu não me
importo. Meu amor por você é tão forte que estou
cego e não vejo seus desaforos. Eu te amo, Lienne.
Essa é a minha verdade.
Chorei.
Eu precisava disso, eu precisava dele.
-Pai, fica comigo, não me abandona porque eu
te amo muito – falei entre soluços e lágrimas.
156
Exodus – Catherine Parthenie

Sua mão forte acariciou meu rosto.


-Minha pequenina, essas palavras fazem-me
feliz. Nunca abandonei-te, filhinha. Como deixar
para trás meu maior tesouro? Como esquecer parte
do meu coração?
Pela primeira vez na minha vida eu acreditei
nas palavras do meu pai.
Pela primeira vez eu o abracei com ternura,
com amor, sem ressentimentos, sem competições. E o
conforto que senti com esse gesto foi tão forte que eu
não queria mais largá-lo.
-Eu te amo, pequenina. Eu te amo demais.

157
Exodus – Catherine Parthenie

ACREDITANDO.

Fortes,
Seguros,
Precisos,
Maduros.
Preciso fazê-los vencer.
Treinados,
Entendidos,
Aperfeiçoados,
Decididos.
Ele podem vencer.
Obedientes,
Atenciosos,
Firmes,
Formosos.
É... eles vão vencer.

158
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 24 – Treinando.
Os treinamentos começariam naquele mesmo
dia, ou melhor, naquela noite. Eu voltei para a
Exodus e seduzi Daniel, fazendo-o ficar doido por
mim, conquistando sua confiança, mexendo com
seus sentidos, entorpecendo sua mente com
promessas de amor que jamais seriam cumpridas.
-Que tal uma festinha particular e bem seleta?
– sugeri a Daniel.
-Do que se trata, minha flor?
Sorri maliciosamente, mais um passo em
minha vingança.
-Inflingir a lei, quebrar algumas regras, viver
perigosamente – aproximei-me dele e sentei em seu
colo de maneira imprópria. Encostei meus lábios em
seu ouvido e disse: - O perigo não te seduz? O medo
não te excita?
Ele arfou.
-Você me deixa louco. Amo a sua audácia.
Conte-me o que pretendes, Eliane.
-Um ritual de magia negra em honra ao sexo.
Imagine corpos nus. Imagine um altar com uma
virgem em sacrifício, entregando seu corpo intacto...
– eu falava de maneira sensual. Era nogento, eu
prefiria levar outro soco de Caleb, mas isso não
aconteceria por culpa de nossa trégua.
-Quando faremos isso, linda flor?
-Amanhã. Hoje eu tenho um encontro – falei
acabando com aquela podridão e saindo de seu colo.
159
Exodus – Catherine Parthenie

-Um encontro com quem? – Daniel perguntou


enciumado.
-Ora, meu querido, o dono dessa empresa é
meu senhor.
-E acredito que seu encontro não será com o
senhor Manthus.
-Não.
-Com quem será, Eliane? – ele perguntou
enfurecido pelo ciúme desmedido e segurando meu
braço.
-Com um anjo – respondi debochadamente.
-Diga-me o nome dele – Daniel gritou.
-Nossa, essa agressividade me excita.
-Estás bricando com fogo. Quero saber o nome
do canalha que te encontrará.
O aperto de Daniel não chegava nem a fazer
cócegas em meu braço, mesmo assim, ele acreditava
estar no comando.
-Conte-me ou sofra minha ira.
Ameaçada. Isso era bom, eu amava ser
chamada para a briga. Calculei o tamanho da força
que eu usaria para não matá-lo num só golpe. Sorri e
empurrei Daniel usando a mesma força que os
humanos usam para esmagar um formiga. Ele caiu a
dois metros de mim.
Fui até ele e abri alguns botões de sua camisa.
Um hematoma arroxeado formava-se em seu peito.
Ótimo, ele teria que preocupar-se em esconder isso
de sua querida esposa.
-Podes dizer que foi minha boca que deixou
essa marca em seu corpo – falei tranquilamente. –
160
Exodus – Catherine Parthenie

Como eu estou morrendo de medo da sua ira, eu


conto quem é o homem que terá um encontro comigo
essa noite. Ele é meu pai. Agora eu preciso ir. Até
amanhã, Daniel. E, já sabe, orgia marcada. Vamos
nos divertir muito por lá.
Ah, o doce sabor da vitória... eu já
experimentava o néctar da vingança, o prazer de
pagar com a mesma moeda. Mais alguns dias e
Daniel estaria na mesma situação que um dia
colocou-me...

Mikael levou Séfora até a casa de Patricia e


meu pai já estava por lá. Após nossa conversa melosa
e nossas declarações, ele recebeu-me com um abraço
carinhoso e um beijo na minha cabeça.
-Preparada? – Caleb perguntou-me.
Assenti e todos nos dirigimos para um
cômodo completamente vazio.
-Cadê os móveis dessa casa? – perguntei.
-E acha que meu escritório seria mesmo o alvo
de seus golpes? Seu pai retirou tudo para mim, assim
nada será quebrado. Eu amo meu computador –
falou Patricia de um jeito divertido.
-Pensei que amasses o meu pai – rebati no
mesmo tom.
-O computador não tem uma filha bipolar.
Todos riram com as palavras de Patricia.
Nos posicionamos e Caleb iniciou o
treinamento com Mikael.
-Isso vai doer – falei baixinho para Séfora.

161
Exodus – Catherine Parthenie

-Por esse motivo que trouxe comigo duas


grandes squeezes cheias de vinho com acelerador.
Um presente do Az, que previu muitos golpes e
ossos quebrados – respondeu a nefilin com seu
sorriso maroto.
Meu pai começou com Mikael, ensinando
golpes de defesa. Mas o nefilin distraía-se com
facilidade e um soco leve de Caleb o acertou no
rosto.
-Que merda! – murmurou Mikael.
-Palavras são um presente, não as disperdice
com tolices e insultos. Use-as para o seu próprio bem
– meu pai chamou a atenção do nefilin.
-Sinto muito, senhor.
-Recomecemos.
Mais uma série de golpes e defesas e, quando
a mão de Caleb estava prestes a acertar o nariz de
Mikael, ele deteve-se.
-Concentração, nefilin. Precisas aprender a
esquecer o que está ao seu redor e focar seu alvo –
falou meu pai com firmeza.
-Hei, isso não vale! – protestei.
-Do que estás falando, Lienne?
-Se fosse o meu nariz, o senhor o teria
quebrado.
Meu pai gargalhou.
-És a única filha do pecado que aguenta meus
golpes mais fortes.
-E por isso eu precisava sentir o gosto do meu
próprio sangue? Estava sendo divertido ver Mikael
apanhar.
162
Exodus – Catherine Parthenie

-Concordo com a Lienne – comentou Séfora.


-Senhor arcanjo, poderia, por favor, quebrar
todos os ossos de Séfora? – brincou Mikael.
Nesse clima de descontração, meu pai
ensinava os dois, e eu os observava com orgulho.
Após duas horas de treinamento, nenhum
osso foi quebrado por Caleb ter auto-controle
suficiente para deter-se no momento certo. E os dois
avançaram bastante, sempre escutando com atenção
os conselhos do arcanjo.
-Dois contra um. Faremos uma demonstração
de defesa e ataque – falou meu pai. – Lienne, venha
aqui.
Tirei meus sapatos e caminhei até eles.
-Uma luta entre três. Mikael e Séfora atacarão
e você defenderá. Quando encontrar a oportunidade
certa, Lienne, ataque-os.
Assenti e começamos. Séfora tinha um defeito,
ela era afoita demais numa luta. Mikael era mais
contido e sabia avaliar a situação. Defendi-me de
golpes vindos de todos os lados e percebi Séfora
baixar a guarda por um momento. Um chute em seu
estômago a fez cair. Enfrentar Mikael era mais fácil
para mim, apesar da vantagem que ele tinha, eu era
mais baixa e isso ajudava-me a furar seu bloqueio e
encontrar o alvo livre. Um soco em seu queixo, vindo
de baixo para cima, o tirou de combate.
Caleb aproximou-se de nós e disse:
-Séfora, és boa na defesa, mas preocupa-se
demais em atacar, baixando a guarda. Por isso fostes
derrotada. Mikael, não podes contar sempre com seu
163
Exodus – Catherine Parthenie

tamanho para amedrontar seu oponente. Lienne


usou o ponto fraco dela em seu próprio favor. Tente
fazer o mesmo da próxima vez.
-Quero ver Lienne fazer o mesmo com o
senhor – protestou Séfora.
-Meu treinamento já foi encerrado – rebati.
-Mas seria ótimo assistir a um combate dos
dois – comentou Mikael.
-Demos uma trégua em nossas brigas –
respondi firme. Eu realmente não gostava da idéia de
enfrentar meu pai mais uma vez.
-Observar seus movimentos seria uma ótima
lição para nós – retrucou Séfora.
E com essas palavras, ela convenceu Caleb.
Olhei para Patricia como um pedido de “socorro”.
Mas minha amada nova mamãe, entrou no jogo e
respondeu:
-Se for só um treinamento, acho que não
haverá problemas.
Caleb ficou de frente para mim e colocou suas
mãos em meus ombros.
-Dê o seu melhor. É um treinamento, mas
preciso saber se ficarás bem caso venha a enfrentar
um oponente forte. Portanto, faremos um
treinamento tão avançado quanto os que tínhamos
na Cidade dos Nefilins. Tudo bem?
Assenti.
Mikael e Séfora afastaram-se. Dei alguns
passos para trás, aumentando a distância entre Caleb
e eu.
-Pronta? – perguntou meu pai.
164
Exodus – Catherine Parthenie

-Sempre – respondi.
Ele começou o ataque e percebi que em nada
ele facilitava para mim. Porém, minha força, minha
percepção, minha visão, tudo em mim era muito
diferente desde o nosso último treinamento. Eu já
não era mais uma nefilin, eu ganhara minhas asas e
meu corpo aperfeiçoou-se.
Por alguns momentos, apenas defendi-me. Até
que Caleb deixou, por milésimos de segundos, o
campo livre para que eu pudesse agir. Sem que ele
esperasse, eu consegui socá-lo na fronte.
-Oh, meu Deus! – exclamou Séfora. – Agora
ela morre.
-Não acredito no que acabei de ver – disse
Mikael.
-Ela fez mesmo o que eu vi? – Patricia
perguntou.
Caleb sorriu e disse:
-Não és mais a mesma criança que um dia
treinei.
-Não. Mas ainda sou sua filha. Revanche?
-O primeiro a acertar um golpe vencerá.
-Prepare-se para perder, papai.
-Serei derrotado com orgulho.
Reiniciamos a luta e nenhum dos dois assumia
uma vantagem. Estávamo em igualdade enquanto eu
raciocianava, lembrando de todos os seus
ensinamentos, colocando-os em prática. E minha
ascenção terminou quando vi o sorriso de Caleb. Ele
achara uma brecha e, sem que eu tivesse tempo para

165
Exodus – Catherine Parthenie

defender-me, ele golpeou minha nuca, fazendo com


que eu caísse com a força do impacto.
Ele queria saber como eu me sairia com um
oponente forte? Eu demonstraria isso.
-Como está o chão? – meu pai perguntou
debochando da situação.
-Por que não o experimenta e sinta o senhor
mesmo? – respondi dando-lhe uma rasteira e
fazendo-o tombar ao meu lado. – Agora sabes como
é beijar um piso de porcelanato.
Levantei-me para concluir minha vitória, mas
ele agarrou meu tornozelo, fazendo-me voltar ao
negro piso brilhante do recinto. Seu braço golpeou
minhas costas e senti três das minhas costelas
partindo-se. Arfei com a dor que esse golpe causou-
me.
A dor vem acompanhada da raiva. Ainda no
chão, soquei seu olho e ele levantou-me a cabeça
para depois fazê-la ir de encontro ao piso frio e duro.
Senti uma fissura abrir-se no supercílio e o sangue
escorrer.
Fraca, desisti da luta. Arfando e chorando de
dor. Caleb levantou-se, foi até Séfora e logo voltou.
Ele virou-me e nem o gelo daquele porcelanato era
capaz de aliviar a dor nas minhas costelas.
-Beba – Caleb entregou-me a squeeze com o
preparado de Az.
Não recusei e saciei a sede que atormentava-
me há dias.
O sabor entorpecente do sangue.
O sangue que trazia vida.
166
Exodus – Catherine Parthenie

O sangue que transformava.


O sangue inebriante que um dia pertenceu a
alguém.
O acelerador tinha a função de curar, mas
naquele preparado ele fazia algo a mais, ele
mantinha o sangue sempre fresco, sem coagulações,
quente, como se ainda pulsasse em uma véia
humana.
Meus ossos voltaram para o lugar ao qual
pertenciam. A fissura fechou-se. As dores cessaram.
Eu agora arfava, mas de prazer. E, em
segredo, desejei Persis e seus beijos.
Tomada nos braços do meu pai que sentou-se
ao meu lado e colocou-me em seu colo, escuto ele
dizer:
-Deixastes-me orgulhoso.
-Perdi a luta – reclamei manhosa.
-Porque estavas fraca. De outra forma, eu
estaria derrotado pela minha própria filha. Foi a
primeira vez que um adversário derrubou-me.
-É bom saber disso – falei sorrindo.
-Por que essa abstinência de sangue?
-Dissestes-me que era errado. Eu quis dar-te
orgulho.
-Orgulhei-me de ser seu pai desde que
nascestes, pequenina. Não faças mais isso, afinal terei
que acostumar-me com a idéia, já que Patricia em
breve será uma bebedora de sangue. Quero que
fiques bem, criança.
-Obrigada, pai.
-Como ela está? – Patricia juntava-se a nós.
167
Exodus – Catherine Parthenie

-Para quem já levou quinze chibatadas, o que


ganhei há pouco foi só um carinho – respondi rindo.
-Quinze chibatadas, todos os ossos do corpo
quebrado, humilhação pública, e mais uma dúzia de
muitas torturas. Sim, Lienne é minha diva – brincou
Séfora.
-Espero um dia entender sua força –
completou Mikael.
Caleb olhou para Patricia e depois para mim
com o rosto de moleque atrevido.
-O que o senhor está aprontando, arcanjo? –
perguntou Séfora, sempre agarrada ao encardido
Teddy.
Meu pai lançou uma piscadela cúmplice para
a nefilin e levantou-se. Eu e Patricia permanecemos
sentadas no chão.
-Vocês duas têm problemas mal resolvidos –
Caleb brincava com as palavras de Patricia. –
Resolvam-se ou terminarei tudo com minha amada e
darei uma grande surra em minha filha.
Olhei para minha madrasta e ela sorria,
encantada pelo seu arcanjo.
-Terei recompensa depois disso? – ela
perguntou.
Eu e os nefilins dissemos em uníssono:
-Eca!
-Parem com isso, vocês me dão náuseas –
comentou Séfora.
-Nogento – protestei.
-Saudade da Halina – rebateu Mikael.
Caleb e Patricia riam da nossa reação.
168
Exodus – Catherine Parthenie

-Lienne, - minha madrasta começou a resolver


os “problemas” – eu amo seu pai e,
consequentemente, amo-te também. Mesmo que não
entendas o que sinto, quero que encontre em mim a
mãe que a morte te roubou.
-Fala sério, sou mais velha que você – rebati.
-Infelizmente estás presa a essa aparência de
uma eterna criança. Olho para ti e vejo uma
adolescente mimada e ciumenta. Claro que não
tenho idade para ser sua mãe. Nem Caleb parece ser
seu pai. E, sei que abdiquei da maternidade ao
aceitar sua oferta, então, permita-me realizar meu
sonho impossível cuidando de você.
-Enlouqueceu? – Séfora intrometia-se na
conversa. – Ela deixa o arcanjo de cabelo em pé.
Aposto que ele parecia ter uns vinte anos, no
máximo, antes dela nascer. Tá vendo esse rostinho
aqui, meu bem? – a nefilin repuxava as bochechas do
meu pai. – Foi deformado pelas preocupações que
dona Lili causou-lhe. Vais mesmo criar um anjo do
inferno?
Patricia gargalhava com a atitude da nefilin.
-Sim, minha querida. Aliás, cuidarei de você
também, caso queiras – respondeu minha madrasta.
-Não, obrigada. Sou muito feliz assim. Prefiro
a falta de Arktos do que Caleb como pai adotivo.
-Quantos anos tem, Séfora?
-Para as contas dos humanos, uns cinquenta e
poucos, para os anjos, vinte e oito.
-Não pareces ter mais que catorze ou quinze.

169
Exodus – Catherine Parthenie

-Maldições dos nefilins, ficamos presos nessa


aparência adolescente para o resto de nossas vidas.
-Na aparência e no cérebro – murmurou
Caleb.
-Pareço mais velha – gabei-me.
-Não te daria mais que dezessete, Lienne –
rebateu Patricia. – E Mikael passaria por, no máximo,
dezenove ou vinte.
-Ganhei, sou o mais velho, mando em todas –
brincou Mikael. – Agora temos que ir.
Eu e Séfora assentimos e eu levantei-me para
partir, mas Patricia falou:
-Lienne, estamos bem? Daremos uma trégua
em nossas divergências?
Olhei do meu pai para ela e analisei os fatos.
Como eu sempre digo, é muito bom o sabor da
vitória. Eu tinha um trunfo.
-Vou pedir algo em troca – respondi.
-O que você quiser.
-Mantenha Caleb ocupado.
-Tudo bem, isso é fácil – falou Patricia
entendendo meu raciocínio. Fêmeas... humanas,
anjos ou nefilins, sempre seríamos cúmplices em
certos assuntos.
-Por que esse pedido, pequenina? – perguntou
Caleb com os braços cruzados sobre o peito.
Olhei para os meus amigos e sibilei um
“preparem-se para correr”. Eles assentiram e,
disfarçadamente, deram passos de ré em direção à
porta do quarto.
-Responda-me, Lienne – insistia o arcanjo.
170
Exodus – Catherine Parthenie

Joguei as chaves do meu carro para Mikael.


-Patricia, já vistes anjos e nefilins correndo? –
perguntei.
-Não, por quê?
-Nem verás, é impossível para os olhos
humanos acompanhá-los. Eles simplesmente
parecem sumir.
-Lienne? A resposta – meu pai falou mais
firme dessa vez.
Eu ri e falei:
-Eu quero que ela o mantenha ocupado para
que eu possa ficar na “pegação” com Persis.
Mal terminei de proferir essas palavras e parti
com meus amigos numa fuga desenfreada. Como se
estivéssemos em um labirinto, desviamos de
paredes, pulamos os móveis e alcançamos a saída.
Mikael destravou o carro e entramos rapidamente
nele.
-Rápido, dá logo a partida nisso – gritei.
O nefilin era o melhor no volante e logo
estávamos livres da perseguição de Caleb e ríamos
sem parar.
-Lienne, você é completamente insana! –
exclamou Séfora.
-Ora, encare essa fuga como parte do
treinamento. Se não pode vencê-los, corra. Ao menos
temos a certeza de que arcanjo algum nos alcançará.

171
Exodus – Catherine Parthenie

FALSIDADE.

Eles andam cercados de leis,


E quebram suas próprias regras.
Ele criam suas doutrinas,
E nunca prendem-se à elas.
Vendem-se facilmente.
Escondem-se atrás de máscaras de falsidades.
Mostram-se como santos.
E a ganância os domina.
Melhor para meus planos,
Ele se vendem e eu os compro.

172
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 25 – Comprando.
Os treinamentos dos nefilins continuaram e
tive que enfrentar a fúria de Caleb no dia seguinte.
Felizmente, nossa trégua poupou-me de uma surra.
Em certos momentos eu simplesmente queria
viver tudo o que deixei para trás. Minha vida foi
rápida, tudo passou como num piscar de olhos e
perdi toda diversão. Mikael e Séfora sentiam o
mesmo, por isso Teddy seria sempre a melhor
companhia daquela nefilin. E eram nos treinamentos
que nos deixávamos levar e sermos as crianças que
não tivemos a chance de ser. Ríamos e brincávamos
uns com os outros, acompanhados de Caleb e
Patricia, como uma grande família feliz.
Porém, nem tudo são flores e alegrias.
Haviam momentos em que a mente cobrava a minha
verdadeira idade. Eram nesses momentos que o
desejo de vingança rondava-me e eu assumia a
personalidade sombria.
Entro, pela primeira vez em toda a minha
existência, numa imponente construção gospel com
um ar gótico.
-A igreja de Cristo. Um novo reinado numa
nova ordem – li as inscrições numa plaqueta
dourada aos pés da cruz.
Olhei para o teto altíssimo da construção.
Vitrais de todas as cores impediam a luz direta do
sol, dando uma iluminação estranha e arrepiante. Era
como fogo...
173
Exodus – Catherine Parthenie

Parada, sem mover um só músculo, observo a


sala da purificação. Eu estive a um ponto de morrer
ali. Um recinto circular com as paredes revestidas de
tijolos reflatários, o teto era guarnecido por uma
abóbada retrátil, que permitiria a saída das fumaças
nas fogueiras santas. Um outro círculo menor,
exatamente ao centro do primeiro. O tom escurecido
de maneira nada uniforme mostrava que vidas foram
incineradas ali.
-Senhora Manthus? – pergunta uma voz
masculina.
Viro-me para encará-lo e percebo seu susto
com minha aparência.
-Perdoe-me, senhorita. Pensei estar falando
com uma senhora a quem eu esperava a visita – falou
Monsenhor Josiah.
-Sou Eliane Manthus – respondi firme.
-Uma adolescente?
-Agradeço o elogio, entretanto afirmo-te que
tenho idade suficiente para assumir meu cargo e
estar legalmente casada com Apollyon Manthus, não
infligindo nenhuma das leis que reza a igreja de
Cristo.
-Claro, senhora, não quis insinuar tal desaforo.
-Trago-te uma quantia para a doação.
-Qual o valor?
-O triplo da última.
O rosto do Monsenhor Josiah iluminou-se com
um sorriso ganancioso.
-Uma grande quantia, senhora.

174
Exodus – Catherine Parthenie

-Isso renderia-me um grande favor? – rebati.


Eu não estava doando nada, mas comprando algo.
-Não sendo nada que vá contra nossas leis.
-Essa doação anônima e em suas mãos é
contra as leis, no entanto, faremos vistas grossas
diante desse pequeno pecado.
-Jogas bem, senhora Manthus. Qual o seu
pedido?
-Farei uma denúncia, um herege numa
reunião secreta envolvendo magia negra e um ritual
de orgia. Estive lá, escondida, constatei a heresia e
registrei tal crime. Quero imunidade diante da
minha acusação, pois minha presença nesse ritual foi
de extrema importância para que tal onfensa à igreja
fosse registrada.
-Sem problemas, entendo sua posição. Seu
nome não será citado diante do tribunal eclesiástico,
deixaremos isso como uma denúncia anônima.
-Ótimo. Tenho a sua palavra, no entanto, antes
de entregar-te a quantia, peço-te uma outra
gratificação pela minha generosidade.
-Doação significa dar sem receber nada em
troca – rebateu o Monsenhor.
-Uma pena, pois essa não seria a última.
-Diga-me o que queres, senhora.
-Jamais vi o ritual de purificação da alma,
gostaria de estar presente nesse e de acender as
chamas que irão purificar o herege.
-Por que terias esse direito, é um parente seu?
-Não, mas é funcionário da minha empresa,
ele sujou o bom nome da Exodus.
175
Exodus – Catherine Parthenie

-Bem, diante desse termo, acho que posso


conseguir esse favor sem problema algum.
-Então, aqui está – entreguei-lhe a maleta que
eu carregava.
Mosenhor Josiah abriu a valise ali mesmo e
conferiu as notas verdes, tocando-as com carinho,
cheirando-as.
-Tem muito mais de onde essas vieram. Meu
esposo é um homem rico. Atenda meus pedidos e
atenderemos os seus. A Exodus é parceira da igreja
de Cristo.
“E as portas do inferno jamais prevalecerão contra
ela? Não é isso que vejo” – pensei.
-Uma parceria excelente – exclamou o cretino.
-Cumpra sua parte, monsenhor. Retornarei em
breve.
Deixando aquele lugar pútrido, sibilo palavras
de afronta:
-E as portas do inferno estarão sempre prontas
para recebê-la...
Mikael junta-se a mim quase na saída.
-Filmou tudo?
-Cada mínimo movimento – ele responde. – O
que farás agora?
-Vou para o inferno.

Desço ao submundo, o reino de Apollyon.


Aquele lugar tornava-se tão familiar e normal quanto
a Cidade dos Nefilins. Procuro por Adramalech, mas
não encontro meu irmão.

176
Exodus – Catherine Parthenie

Sigo direto ao castelo exótico onde reside o rei


das trevas. Ao seu lado estão Adramalech e Kali, sob
eterna vigilância do próprio interessado neles.
-Minha querida nefilin, não esperava sua
visita.
Meus olhos encontram os de Adramalech.
Atrás daquela carcaça estranha residia uma alma
inteligente, que entendera meu olhar, assentindo de
maneira discreta.
-Fizestes o que eu pedi, grande rei?
-Seduzir a virgem cinquentona? – ele
gargalhou – Ela deve estar suspirando de prazer até
agora.
-Isso dá uma idéia de como ficarei quando
entregar-me a ti – provoquei.
-Não, meu bem, ficarás ainda mais arfante,
pois com você farei com toda a minha ânsia.
-Falando em perversidades, poderia
emprestar-me algumas sucubos, demoninhos, um
pessoalzinho barra pesada para realizar minha
vingança?
-Suas vinganças são um tanto excêntricas,
Lienne. O que farás com essas criaturas?
-Uma orgia – dei de ombros.
Apollyon riu alto.
-Não empolgue-se, querido noivo. Vou apenas
dar uma festinha em sua homenagem e colocarei um
humano no meio. Depois o denunciarei no tribunal
eclesiástico que, devo confessar, comprei com seu
dinheiro.
-A troco de quê?
177
Exodus – Catherine Parthenie

-Acender as chamas da fogueira.


-Nem eu teria uma imaginação tão fértil e
malígna.
-Vais permitir que suas criaturas saiam
comigo? – insisti.
-Por que eu perderia essa homenagem? Estarei
ao seu lado quando aquelas chamas o consumirem.
-Adramalech e Kali?
-Eles ficam.
-Não podem sair nem para assombrarem um
pouquinho só?
-Preciso dos meus filhos, querida nefilin.
-Que seja. Mande seus súditos na mansão hoje
a noite. Minha vingança precisa ser feita e, quanto
mais rápido tudo acontecer, mais rápida será nossa
união. Não decepcione-me, grande rei.
-Sou um santo ao seu lado, Lienne.
-Sim, um santo, Apollyon.
Não discuti com aquela anta infernal, não
poderia chamar a atenção para todo o meu plano. Eu
precisava me concentrar numa vingança por vez. E
essa era a hora de Daniel...

-Uau! Essa é a sua casa? – perguntou Daniel


assim que estacionei na porta da frente da mansão.
-Sim – desci do carro e caminhei imponente.
O som de música alta e muita gente já podia
ser escutado do lado de fora até mesmo para os
humanos.
Mikael e Séfora estavam treinando com Caleb.
Pedi à eles para que dessem a desculpa de que eu
178
Exodus – Catherine Parthenie

estaria trabalhando com Az na mistura que mudaria


meu irmão. Eu não colocaria nenhum dos meus
amigos em risco de envolvimento com os humanos,
as criaturas mais falsas que os demônios.
Assim que entramos, vi casais de demônios e
sucubos – que pareciam humanos aos olhos de quem
visse - dançando de maneira sensual, enquanto uma
pequena garota, vestida numa túnica branca, estava
amarrada em cima do altar envolto em panos negros.
A garota era uma nefilin. Fiquei imaginando o que
ela teria feito de tão ruim para merecer esse castigo
de ser possuída pelo pior dos humanos. Enfim, era
problema dela. Meu problema era outro.
A sala da mansão estava irreconhecível.
Apollyon teve o cuidado de preparar tudo de
maneira perfeita, sem deixar provas ou rastros que
pudessem nos revelar.
-Fique à vontade, Daniel. Tomarei algumas
providências e logo voltarei, mas saiba que és o
convidado de honra e aquela virgem espera-te.
O cretino arfou só de pensar em possuir a
pequena nefilin. Ela parecia ter menos de treze anos,
mas eu sabia que era dona de quase quarenta. O
deixei no meio daquela maluquice e fui até a cozinha
pegar do meu vinho preferido e um pequeno
equipamento já preparado para registrar cada
momento.
Dançando no rítmo do rock que tocava alto,
eu exultava com a vingança. Posicionei-me num
lugar estratégico, onde eu conseguiria ficar
escondida e filmar toda a maluquice.
179
Exodus – Catherine Parthenie

Esperei eles começarem. Aliás, eu nem sabia


como fariam isso, mas eu confiava nas maldades de
Apollyon e no seu desejo por mim. E a música parou
de repente.
-Adoradores – falou uma voz conhecida,
chamando a atenção de todos. Sorri e entornei mais
uma grande dose do vinho entorpecente. Persis era
mesmo um safado! Ele trajava um manto negro e
encapuzado, jamais seria reconhecido por Daniel. –
Nosso rei anseia por sangue.
Persis beijou a pequena nefilin e seu olhar
encontrava o meu, sempre com seu sorriso torto e
debochado. Eu lhe devolvia o olhar com indignação
e ciúme, sorrindo para ele da mesma forma.
-O sangue da vida, o sangue do nascimento, o
sangue do rompimento – continuou Persis. –
Oferecemos essa virgem ao prazer do nosso
convidado – ele apontou para Daniel que
aproximou-se prontamente. – Tome-a para si, deixe o
sangue do rompimento brotar por entre as pernas
dela e honre o nosso rei. Tome nosso sacrifício,
irmão.
Persis rasgou a roupa da nefilin e Daniel a
cobiçou. Logo ele estava com suas mãos pervertidas
tocando a beldade de pele branca. Ele a possuiu e a
pequena safada pareceu gostar.
-Que nogenta – murmurei para mim mesma.
Daniel satisfez seu corpo e permaneceu alguns
minutos ainda por cima da nefilin. Arfante,
levantou-se com dificuldade.

180
Exodus – Catherine Parthenie

-Não tenha um ataque cardíaco, seu pervetido.


Eu quero ter o prazer de te matar – novamente falei
sozinha.
Persis voltou ao altar e entregou um punhal
para Daniel.
-O que faço com isso? – perguntou o humano.
-Mate-a.
-Por quê?
-Ela é nosso sacrifício.
-Como farei isso? Não sou assassino.
“Claro que não, sua anta. Você não mata, manda
matar” – pensei.
-Termine o que começou ou sofra a ira do
nosso rei.
E, num efeito cinematográfico, – que acredito
ter custado milhões – um monstro fumegante surge
no meio de uma névoa escura. Durou menos que
trinta segundos e foi melhor que cinema. Eu segurei
a gargalhada para não ser vista ali.
Daniel estremeceu diante daquilo e olhou para
Persis.
-Corte os pulsos dela – ordenou Persis.
“Inteligente, a garota não morrerá. Basta se
entupir de vinho batizado mais tarde”.
Temeroso, Daniel pegou um dos braços da
nefilin e cortou-lhe o pulso rapidamente. A garota
fingiu dor, uma ótima atriz. Apollyon tinha mesmo
os melhores.
“Uma cena dessas e nem posso gargalhar”.
Ao ver o sangue da garota escorrendo, Daniel
sentiu ânsia e começou a suar feito um porco. Quase

181
Exodus – Catherine Parthenie

sem forças, ele fez o mesmo com o outro braço dela


e, em poucos segundos de fingimento, a nefilin
encenou sua própria morte.
Daniel regurgitou no chão.
“Nogento”.
-Está feito! – exclamou Persis. –Agora
divirtam-se, meus irmãos.
Persis era o melhor numa festa.
Guardei o equipamento num lugar seguro e
secreto. Quando voltei para a sala, Daniel chorava
em cima do corpo falsamente morto da garota no
altar.
-Vá para casa, Daniel. Já fizestes seu trabalho –
falei firme.
-Como?
-Com suas pernas, voando, rastejando. Achas
mesmo que importo-me? Saia da minha casa.
-Nos veremos amanhã?
-Claro. O que achou? Que eu ficaria chorando
por essa garota? Nossos irmãos encontrarão um
lugar para jogar esse corpo e logo teremos um dia
normal. Agora vá, Daniel. Recupere-se no caminho e
finja que nada aconteceu.
-Sim.
Mandei dois demônios escoltarem o imbecil
até uma quadra antes da casa dele. Daniel se foi e a
festa recomeçou.
-Oi, Letty – falei para a nefilin do sacrifício.
-Oi. Te odeio, Lienne.
Eu ri e me entupi mais e mais de vinho
batizado. O som alto da festa, o sabor entorpecente
182
Exodus – Catherine Parthenie

do vinho, a alegria de uma vingança... eu merecia


comemorar.
Estava dançando com a garrafa na mão,
quando Persis abraçou-me.
-Te quero – ele sussurrou em meu ouvido.
-Você não vale nada.
Ele tomou-me nos braços. Minhas pernas
prenderam-se em sua cintura e subimos aos beijos
até meu quarto. Ele jogou-me na cama e depois
retirou sua camiseta. Seu peito nu, suas tatuagens...
as tatuagens! Aquilo acendeu-me um sinal de alerta.
Levantei-me decidida e disse:
-Não farei nada. Nem hoje, nem amanhã e
nem depois. Muito menos com você.
-Como queira, Lienne – Persis respondeu sem
parecer importar-se com isso.
-Não estás furioso?
-Não. Eu te amo.
-Tens certeza?
-Tenho. E entendo seu medo de fazer sexo.
-Eu não tenho medo de sexo – rebati.
-Tens medo do que?
-Vai se catar, Persis.
Voltei para a festa e o deixei sozinho em meu
quarto. Toda a sujeira do falso ritual fora limpa.
Agora aquela mansão parecia apenas um abrigo de
muitos jovens numa festa louca.
Deixei minha morada e parti para a casa da
Patricia. Eu preferia ajudar no treinamento dos
nefilins. E carreguei comigo a prova que findaria
minha primeira vingança.
183
Exodus – Catherine Parthenie

PREDADORA.

Eu cerco, sondo,
Caço as oportunidades,
Aguardo, espero.
Ataco no momento certo.
A vítma cai,
Precisa do meu amparo.
Eu finjo, torno-me seu socorro.
Como uma amiga eu a questiono.
Ela confessa, amansa.
Compro sua confiança,
Mais um passo na vingança.

184
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 26 – Confessando.
O tempo no mundo dos humanos é diferente
da Cidade dos Nefilins e do inferno. Misturar os dois
na cabeça e fazer um tremenda confusão é
compreensível. Foi o que Kandake fez, ele
confundiu-se e falou-nos a data errada para os testes
dos nefilins. Felizmente Caleb consertou a situação.
Enfim, dez dias haviam passado desde o primeiro
dia de treinamento com Mikael e Séfora. E a hora de
levá-los até a Cidade dos Nefilins não tardava a
chegar.
Por onde eu ia, eu carregava comigo a prova
original de um crime que nunca aconteceu. Mais um
último passo e minha primeira vingança seria
finalizada.
Eu já dava os passos para as outras duas
vinganças dentro da Exodus. Eu sondava, analisava,
sempre sem deixar-me ser vista. Foi numa dessas
sondagens que uma oportunidade apareceu. Valéria
estava no banheiro feminino regurgitando tudo o
que ingerira. Seu corpo tremia, ela estava suando
frio, a pressão cardíaca estava baixa demais. Valéria
cambaleou e precisou do meu amparo para não cair.
-Desculpe-me – ela falou com a voz
amolecida.
-Tudo bem, deixe-me ajudá-la – respondi.
Ao escutar minhas palavras, Valéria arregalou
seus olhos e fitou meu rosto. Vê-la estremecer de

185
Exodus – Catherine Parthenie

medo em meus braços foi ótimo e um sorriso em


minha face foi aberto.
-Santo Deus, não pode ser! – ela exclamou.
-Não, realmente não pode ser. Eu não sou
Santo Deus – brinquei.
-Digo... você me lembra uma pessoa, mas... é
estranho.
-Você está muito pior do que eu imaginara, já
está até delirando.
-Não, é verdade o que digo. A semelhança é
impressionante e se eu não a tivesse conhecido há
mais de vinte e poucos anos atrás, eu diria que são a
mesma pessoa.
-Então eu estaria bem velhinha, certo?
Ela riu com dificuldade.
-Você tem razão, isso é apenas uma
coincidência.
-Venha, moça, eu vou ajudar-te a recuperar-se
– falei colocando o braço de Valéria em meu pescoço
e fingindo que arrastá-la era um esforço enorme. –
Mulher pesada – murmurei por entre os dentes
assim que cheguei na recepção da presidência.
-O que aconteceu? – perguntou Priscila
correndo para nos ajudar, mas sem largar aquela
rosquinha que os humanos chamam de donuts.
-Ela estava passando mal no banheiro
feminino e, como eu não sei quem ela é – menti – a
trouxe para o meu escritório.
-Você é doida, Lienne. Deveria ter pedido
ajuda.
-Seu nome é Lienne? – perguntou Valéria.
186
Exodus – Catherine Parthenie

-Não. Sou Eliane, mas elas insistem em


chamar-me de Lienne. Quem sou eu para discutir
com minhas amigas? – pisquei para Priscila.
Entramos na minha sala e colocamos a Valéria
sentada. Arfantes, - eu estava falsamente arfante – eu
e Priscila nos olhamos e rimos.
-Que cheiro doce é esse? – reclamou Valéria.
-Donuts de chocolate. A senhora quer um
pedacinho? – Priscila quase esfregou a rosquinha na
cara da Valéria.
Sentindo o aroma do doce, Valéria voltou a
sentir náuseas e a passar muito mal. Corri e peguei a
lata de lixo.
-Faça as porcarias aqui, minha sala não merece
ser batizada logo na sua primeira visita – falei
estendendo o depósito cilíndrico no exato momento
em que ela expelia alguma coisa de dentro de si. –
Eca!
-Isso é muito nogento – reclamou Priscila
desistindo do donuts.
Valéria recuperava-se arfante, enquanto eu e
minha amiga passávamos uma toalha úmida em seu
rosto.
-Estás melhor? – perguntei.
-Sim, acho que sim.
Realmente, a cor voltara ao seu rosto, seu
sangue já corria pelas suas veias na pressão certa. Só
então ela analisou o local onde encontrava-se e
exclamou:
-Essa é a sala da presidência!
-Sim.
187
Exodus – Catherine Parthenie

-Então você é...


-Eliane Manthus – completei.
-Santo Deus!
-Eu sou Eliane e não o Santo Deus – não resisti
a brincadeira.
-Desculpe-me – Valéria riu. – Que situação.
Estou completamente envergonhada.
-Não fique, essas coisas acontecem. Diga-me
seu nome – falei como se eu não soubesse.
-Valéria Oliveira. Sou arquiteta, sua
funcionária.
-Ótimo. E há quanto tempo estás grávida? –
perguntei de maneira direta, sem rodeios.
-Lienne, com todo o respeito: você pirou? –
perguntou-me Priscila.
-Por quê?
-Dona Valéria faz parte das esposas de Cristo.
-Eu nem sabia que ele poderia casar. Quantas
esposas ele tem?
-Ai, odeio quando você fica engraçadinha.
Não devemos brincar com coisas sérias. Dona Valéria
é um dos membros honorários da Igreja de Cristo.
-Por que falar “Igreja de Cristo” se é a única
que existe no mundo?
Priscila revirou os olhos em sinal de
impaciência.
-Lienne, acorda a cambada de neurônios seus
que tiraram o dia de folga hoje. Acontece que essa
senhora fez um voto de castidade diante da Igreja.
Ela seria como as freiras de antigamente, só que leva
uma vida normal e casta.
188
Exodus – Catherine Parthenie

-Isso mesmo – afirmou Valéria.


-A vida inteira sem sexo? – perguntei.
-A vida inteira.
-Legal, vou ficar a vida inteira sem beijos.
-Verdade?
-Não, mentira. Eu beijei ontem mesmo.
Priscila riu alto.
-Também, com um marido daqueles, é
impossível não beijar!
-Eu devo ter comido algo que não me fez bem
– reclamou a dona falsa freira.
Certo, essa palhaçada e falsidade de Valéria
estava irritando-me. Pedi para que Priscila saísse e
fiquei a sós com Valéria. Contornei a enorme mesa e
sentei-me em meu lugar, ficando de frente para ela.
-Desculpe-me novamente por todo esse
vexame, senhora Manthus.
-Por favor, sou mais nova que você. Me chame
de Eliane ou Lienne, como fazem as meninas.
-Prefiro Eliane. O nome Lienne provoca-me
arrepios.
-Que seja. O fato aqui, Valéria, é que tudo na
vida é difícil. Certos sacrifícios e promessas são
difíceis demais de cumprirmos até o fim das nossas
tristes vidas.
-Não entendo o que queres dizer-me.
-Afirmo que estás grávida.
-Não estou. Apenas ingeri algo que não fez-
me bem.
-Ótimo. Tenho que zelar pelos meus
funcionários. Vamos ao médico – levantei-me
189
Exodus – Catherine Parthenie

disposta a cumprir minha ameaça, mas valéria não


mexeu-se. – Ainda passando mal?
-Não, Eliane. Sente-se por favor, preciso
contar-te algo.
Assenti e tornei a sentar-me.
-Eu conheci um homem – ela começou a
confessar – e ele era maravilhoso. Estou com quase
cinquenta anos e ter um homem mais jovem
cortejando-me foi como viver um sonho. Acabei
rendendo-me aos seus encantos e conheci o sexo pela
primeira vez.
-Isso é algo interessante.
-O fato é, se a Igreja descobre minha traição
aos meus votos, eu serei purificada na fogueira santa
da nova inquisição. Eu tenho medo, Eliane – ela
chorava feito uma criança desamparada. – Não sei
como isso pode acontecer na minha idade, mas eu
estou grávida sim, e não quero morrer naquela
fogueira consumindo a mim e meu filho.
Refleti por alguns minutos. Eu decidia a
melhor maneira de vingar-me dela.
-Agora sentes o desespero daqueles que foram
denunciados por você e todo o tribunal eclesiástico.
Eles tinham uma vida, cometeram um erro, e vocês
os acusaram por um único erro. Destruíram vidas
inocentes pelo simples prazer de fazer uma fogueira
de carne humana. Por que eu esconderia tal fato da
sua Igreja? Como esconderás uma gestação
complicada pela idade, Valéria?
-Eu não sei... eu não sei – ela levou as mãos á
cabeça e recomeçou a chorar.
190
Exodus – Catherine Parthenie

-Procurastes ajuda do pai dessa criança? – essa


palhaçada tava ficando muito melhor do que eu
imaginara.
-Não, ele sumiu e... Apollyon é um homem
comprometido.
-Apollyon? – fingi-me de desentidada. O
idiota não usou nem outro nome qualquer. – Alto,
loiro, olhos azuis intensos...
-Você o conhece?
-Apollyon Manthus, meu marido.
-Ah, que lindo! – Valéria escondeu o rosto
entre as mãos. – Acabei de assinar minha sentença de
morte.
-Engana-se, Valéria. Não irei te denunciar, não
irei te recriminar, não irei te demitir. Pelo contrário,
vou ajudar-te.
-Como?
-Não podes ficar aqui. Farás uma viagem e
direi que fostes convocada para analisar a
possibilidade de uma nova filial em outra cidade
bem longe daqui. Cuidarei do que precisardes,
inclusive de documentos falsos, assim não saberão
que você quebrou um voto importante da Igreja.
Nenhum médico ou enfermeira poderá denunciar-te.
Terás, todo o mês, seu salário depositado numa conta
nova.
-O que vais querer de mim em troca desse
imenso favor? – ela perguntou-me desconfiada.
-Analise tudo. Não podes viajar e voltar quase
um ano depois trazendo consigo uma criança. As

191
Exodus – Catherine Parthenie

pessoas não são tão burras assim, Valéria. Se ficardes


com seu filho, todo nosso plano vai por água abaixo.
-E o que farei com ele?
-O pai dessa criança poderá criá-la. Eu ficarei
com seu filho.
-Por quê?
-Sou estéril, meu marido fez um filho em ti.
Estás com medo da fogueira inquisitiva e eu quero
ser mãe. Te ofereço minha ajuda para manter sua
moral intacta e, em troca, você me dará seu filho. E se
a sua única preocupação é a culpa de não estar perto
dele, podemos fingir sermos as melhores amigas do
mundo. Ficarás mais perto do seu filho do que
imaginas.
O sorriso que invadiu o rosto de Valéria dava
um sabor muito melhor à minha vingança.
-Aceito seu acordo, Eliane.
-Prepararei tudo e em breve estarás longe
disso tudo e tranquila num lugar seguro e
confortável.
-Nem sei como agradecer.
-Sabe sim, entregando-me seu filho. Agora
deixe-me. Preciso providenciar certas coisas para que
tudo dê certo.
Valéria assentiu e saiu do meu escritório.
-Imbecil – sibilei sozinha. – Vais morrer dando
a luz à um nefilin.

192
Exodus – Catherine Parthenie

PURIFICANDO COM FOGO

O fogo tem poder,


É com ele que eu jogo.
O fogo destrói,
É com ele que eu vingo.
O fogo comanda,
É com ele que vivo.
O fogo abrasa,
É com ele que eu comando.
O fogo é intenso,
É com ele que eu luto.
O fogo purifica,
É com fogo que te castigo.

193
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 27 – Queimando.
Liguei para Persis e consegui com que ele
arranjasse tudo o que eu precisava, documentos
falsos, um lugar para Valéria ficar e, o mais
importante, sua cumplicidade nesse assunto. Persis
aceitou ser o “papai” dessa criança.
-Hora de terminar a primeira vingança – falei
sorrindo ao pegar a cópia do meu tesouro e uma
maleta com mais de cinquenta mil dólares.
Voltei a falar com Monsenhor Josiah, dessa
vez o encontrei numa praça.
-Aqui está – estendi um pendrive ao padre
imbecil. – Minha denúncia.
-Fotos?
-Vídeo. Nítido como uma produção
cinematográfica.
-Ótimo.
-Quero que tudo aconteça hoje.
-Não seu se conseguirei ser tão rápido assim.
-Nem por cinquenta e sete mil dólares?
Ah, a ganância... ela assola até os santos. O
sorriso de Josiah por dinheiro era como o de uma
criança pelo Papai Noel.
-Prepare-se para brincar com fogo, senhora
Manthus.
-Mais um favor, não quero que a esposa dele
fique sabendo. Avisem-na após o término da
execução.
-Sim, creio que é melhor desse jeito.
194
Exodus – Catherine Parthenie

-Nos veremos mais tarde. Meu marido estará


comigo na inquisição.
-Até mais tarde.
Mosenhor Josiah deixou-me sentada no banco
daquela praça e foi fazer a sua parte na minha
vingança.
-Nunca se cansa de enganar esse cara? –
pergunta Mikael sentando-se ao meu lado e
entregando a câmera minúscula nas minhas mãos.
-Por que me cansaria? É tão divertido.

Exatamente às três da tarde, a Exodus é


invadida pela guarda eclesiástica e todos seguem
direto até a sala de Daniel. Observando de longe,
vejo ele negar as acusações, até ser confrontado com
o vídeo onde ele aparecia tendo relações sexuais num
altar negro com o símbolo de Baphmont – um dos
muitos nomes de Apollyon – e logo depois
assassinando sua parceira sexual.
Sem ter como negar tal acusação, Daniel é
levado pelos guardas. Escutar seus gritos, ver seu
desespero, foi a melhor das sensações. Eu sorri.
-É bom? – pergunta-me Apollyon.
-É ótimo. Mas ainda não terminei.
-Vamos, minha querida, terminaremos o que
começastes.

Daniel foi preso e falsamente julgado pelo


tribunal eclesiástico, sendo que ele já estava
condenado a partir do momento em que entreguei o
pendrive ao Monsenhor Josiah.
195
Exodus – Catherine Parthenie

Mariana não ficou sabendo de nada, eu


mesma planejei para que um de seus clientes
solicitasse sua presença na construção de uma
arquitetura contratada.
Tudo pronto. Seis da tarde. Hora da execução.
-Envergonhastes o nome de Cristo,
envergonhastes sua família e seus amigos,
envergonhastes seus patrões, grandes colaboradores
da nossa obra. Fostes abençoado por ter a
oportunidade de purificar sua alma na busca do
perdão de Deus e da sua eterna salvação – falava um
dos padres.
-Meu pai já o perdoou, isso é só a parte legal
da diversão toda – brincou Apollyon.
Daniel foi amarrado num madeiro e seus
olhos derramavam lágrimas de medo e
arrependimento. E eu sorria.
Foi-me entregue um instrumento que eu
usaria para atear o fogo que consumiria o herege.
Aproximei-me dele. Fiquei tão próximo, até ter a
certeza de que mais ninguém, além de Apollyon com
sua audição de anjo, nos escutaria. Ainda sorrindo,
falei:
-Daniel, olhe para mim.
Ele fez conforme pedi.
-Lembra-se de mim? Fomos amigos, eu achei
que poderia confiar em você. Eu acreditei que seria
fiel a mim. Lembra-se de uma reunião secreta?
Lembra-se de sua traição? Eu não morri.
-Lienne? Não pode ser.

196
Exodus – Catherine Parthenie

-Pode. Tudo pode ser quando não somos


humanos.
-O que você é?
Fiz a mágica que Persis ensinou-me, abri
minhas asas de uma maneira que somente Daniel e
as criaturas sobrenaturais pudessem enxergar.
-Um anjo?
-Não, Daniel. Se eu fosse um anjo eu não me
vingaria. Eu sou um demônio. Agora sofra, não foi o
que desejastes para mim? Te desejo de volta cem
vezes mais.
Afastei-me e, com o instrumento em minhas
mãos, dei vida às chamas que o consumiam. Virei-
me de costas para Daniel e encarei Apollyon. Frente
a frente com o rei das Trevas. Nossos olhares
cruzaram-se em sincronia, nossos sorrisos de vitória
eram iguais.
Os gritos de Daniel, o fogo o consumindo, o
cheiro de carne queimada, escutar cada mínimo
detalhe de sua destruição, o coração acelerando-se
com a adrenalina da morte, o farfalhar de pele
ressecando-se e derretendo... doce melodia, uma
ópera escrita para a realeza. Fechei meus olhos e
aproveitei o som daqueles berros.
-Isso... – murmurei. – Morra.
-Te excita? – perguntou Apollyon abraçando-
me e beijando meu rosto.
-Demais, tanto quanto a você.
-Amo suas vinganças.
Se eu tive remorso? Nem um pouco. Daniel
teve o que merecia, eu não o obriguei a participar
197
Exodus – Catherine Parthenie

daquele ritual. Se Letty fosse mesmo uma criança,


aquele pedófilo teria aproveitado-se dela e depois a
teria matado. Sim, eu livrei o mundo de uma besta
desalmada. Ele fez isso comigo, só retribuí o favor...

198
Exodus – Catherine Parthenie

UMA VEZ MAIS.

Não temo nada,


Não temo você,
Não temo ninguém.
Noites sozinha,
Noites vazias.
Era melhor não existir,
Não ter,
Não ser.
Sim, não existir...
Mas há uma fúria que não posso negar.
Sem você, meu instinto é lutar,
É vencer,
Nunca amar.
Mas se eu pudesse,
Eu queria te ver,
Eu queria te ter.
Novamente...
Uma vez mais.
E, depois seria
Para sempre,
Um amargo adeus!

199
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 28 – Transformando.
Todos na Exodus ficaram sabendo da
execução de Daniel, mas nenhum deles soube da
minha participação. Mariana gritava e lamentava a
morte do marido e eu divertia-me com sua dor. Mas
a vingança dela estava guardada. Mariana ainda
teria sua chance de sofrer.
Avisei Priscila e Fernanda que eu faria uma
longa viagem. Meses para os humanos, algumas
horas para mim. Apollyon não perceberia minha
ausência, o tempo no inferno passa tão rápido
quanto na Cidade dos Nefilins.
Com tudo acertado na Exodus, segui até
Persis.
-Tenho algo para lhe contar – falei assim que
entrei em sua casa.
-Diga que me ama.
-Estou do seu lado. Lutarei a seu favor.
Planejo minha vingança contra Apollyon.
Persis sorriu com satisfação.
-O que farás, Lienne?
-Estou indo com Mikael e Séfora até a Cidade
dos Nefilins. Eles lutarão e ganharão suas asas.
Teremos dois anjos fortes a mais do nosso lado.
-Esse é um segredo que Az escondeu-me.
-Um pedido meu. Eu precisava de uma
certeza.
-Que certeza?

200
Exodus – Catherine Parthenie

-Um dia saberás, esse não é o momento. Cuide


da minha vingança com Mariana, confio em você,
Persis.
-Como é que é? Fala de novo, preciso gravar
esse som eternamente na minha cabeça.
-Eu confio em você.
-Diz que me ama, agora.
-Cresce, anjo.
-Eu não era um demônio?
-Eu sou um demônio. Você é bonzinho
demais.
Sem que eu esperasse, Persis jogou-me no
chão e deitou-se por cima de mim, segurando
fortemente meus braços.
-Posso ser malvado quando eu quero.
Ele beijou-me do jeito que eu mais gostava,
com a fúria de uma paixão que só Persis sentia.
-Quando serás minha?
-Nunca. Eu não pertenço a ninguém, Persis.
O golpeei com as minhas pernas e livrei-me
dele. Levantei-me rapidamente.
-O medo do amor... – murmurou Persis.
-Nunca tive medo de amar. Amo meu pai,
amei Arel...
-Nunca amastes Arel. Fostes iludida por ele.
Onde está seu arcanjo agora? O encontrarás naquela
cidade e entenderás o que eu digo.
-Do que estás falando, seu imprestável?
-Segredos, Lienne. Segredos que os arcanjos
escondem. A verdade é que me amas e engana-se a si
mesma por medo. Agora vá. Cuidarei de Mariana e
201
Exodus – Catherine Parthenie

de Valéria. Elas estarão nas suas mãos quando


voltardes.
Balancei a cabeça negativamente e parti.

Meia noite.
Caminhando mais uma vez pelo deserto que
um dia enfrentei.
Lembranças.
Dores.
Eu o veria.
Já não o amava mais.
Ou amava?
Logo teria essa certeza...
Dois nefilins acompanham-me. Eu não temia
por eles, confiava nos ensinamentos do meu pai.
Kandake encontra-nos na metade do caminho.
-Os guiarei daqui em diante – fala o anjo.
-Até porque esse deserto é um monte de nada
sempre igual. Eu jamais encontraria a Cidade
sozinha.
-Eles estão mesmo preparados?
-Tiveram o melhor instrutor.
-Caleb – afirmou o anjo.
-E eu.
Kandake riu.
Chegamos na Cidade que um dia foi meu lar.
-Eu entro primeiro. Daqui a alguns minutos
vocês entram, o resto é com Lienne.
Assenti.
-Tenham cuidado.
-Teremos, anjo.
202
Exodus – Catherine Parthenie

-Não precisamos morrer de novo para entrar


na Cidade dos Nefilins? – perguntou Séfora.
-Já morreram uma vez.
Kandake entrou e esperamos o tempo
necessário.
-Chegou a hora – falei firme para os nefilins.
Caminhamos sem hesitação até a arena dos
testes finais. Uma garota pequena, com a pele
estremamente branca e cabelos negros, enganava
com sua falsa fragilidade, matando Ayel, pai de
Saron, no exato momento em que chegávamos.
Assistimos a transformação de uma nefilin
num anjo. Olhando do outro lado, era a visão mais
linda que eu jamais vira. Lembrando do que senti,
foram as piores dores e a maior confusão que eu já
vivera.
-Isso dói? – perguntou Séfora.
-Lembra-se das chibatadas que levei?
-Sim, jamais esquecerei – ela falou
envergonhada.
-Foram como suaves carinhos.
Séfora estremeceu.
-Fica tranquila, nefilin, morrer dói mais.
Aproximei-me da arena e Ilke foi o primeiro a
manifestar-se ao me ver.
-Como ousas...
-Ousando – o interrompi. – E não vim para
falar com você. Mas seu filho está muito bem, caso
seja do seu interesse. Ele continua bagunçando o
mundo... e continua lindo – sorri torto para Arel que
entendeu a minha provocação.
203
Exodus – Catherine Parthenie

-O que queres aqui, Lienne? Esse já não é mais


o seu lar – bradou Hazanel.
-Se eu quisesse sofrimento, viveria no inferno.
Lá é mais agradável. No entanto, tive que ter esse
desprazer e, acredite, minha ânsia por deixar esse
lugar é enorme.
-Audaciosa – murmurou Ilke.
O ignorei e continuei meu teatro com Hazanel.
-Meus amigos não completaram suas
passagens nesse lugar. Os trouxe de volta e solicito
um teste final para ambos.
-Eles não podem...
-Eu ainda tomo as decisões por aqui, meu
irmão – Hazanel falou firme com Ilke. – E se nossa
melhor ex-aluna deseja tanto ver a morte de seus
companheiros, que assim seja. Os nefilins estão
preparados?
-Melhor do que se aqui estivessem.
-És realmente audaciosa, Lienne.
-Eu diria corajosa e confiante. Só quero provar
que essa Cidade não tem utilidade alguma para os
filhos do pecado. Enfim, se insistem em manterem-se
escondidos da fúria divina com a falsa preocupação
que sentem em cuidar de filhos que nunca deveriam
ter nascido, problema de vocês. Quero o teste final
deles e que seja agora – rebati com firmeza,
provocando a todos ali presentes.
-Quem será o primeiro?
-Mikael.
-Que Arel seja seu oponente.

204
Exodus – Catherine Parthenie

Gelei. Eu não queria que Mikael morresse,


mas Caleb garantiu-me que ele estava pronto. E, ele
estando pronto, significava que venceria. E eu não
queria que Arel morresse.
Dei meu único argumento para evitar que
ambos se matassem numa luta sem fim.
-Estás mesmo disposto a sacrificar um dos
seus arcanjos, senhor Hazanel?
-Temes pela vida de seu amigo?
-Confio no nefilin. Porém, os senhores insitem
em punir os infratores das regras ridículas que
criaram. Um nefilin é proibido de lutar com um
arcanjo fora da arena de treinamento.
-Assim sendo, quem devo punir, você ou seu
pai?
-Nunca lutamos.
-Não foi o que eu soube, Lienne.
-Papai insiste em demonstrar seus carinhos
com força extrema. Só poderia nos acusar com uma
denúncia formal de um dos dois. Pelo que vejo,
Caleb não fez nenhuma queixa contra mim e também
não faço nenhuma contra ele. Arrume um adversário
a altura ou arrisque-se a perder um dos arcanjo, eu
não importo-me – blefei.
Hazanel sorriu. Ele, estranhamente, amava
minha audácia.
Dois outros anjos – enormes – foram
convocados e apresentados como opositores dos
nefilins. Hazanel iniciou as formalidades que
prescendiam a luta.
-Conhecestes a identidade de seu pai, Mikael?
205
Exodus – Catherine Parthenie

-Tive o desprazer – o nefilin fingia tão bem


quanto eu. Ele amava e admirava Kandake tanto que
desejava muito deixá-lo orgulhoso.
-Sem mais, que a luta comece – bradou
Hazanel.
Mikael retirou sua camiseta e seu físico era
perfeito. Com músculos bem definidos, tive a certeza
de que ele seria um belo anjo.
O oponente do nefilin o sondou por alguns
instantes e senti-me aliviada quando ele tentou o
primeiro golpe. Aprendendo com o melhor, Mikael
tornou-se melhor. Ele defendeu-se, seguiu os
conselhos de Caleb, concentrou-se na luta, esqueceu
tudo o que estava a sua volta.
Irritado com a desvantagem que o humilhava,
o anjo atentou contra o nefilin com um golpe mortal.
Toda a platéia levantou-se acreditando que Mikael
morreria. Pude perceber o sorriso de satisfação de
Arel. Sorriso esse que foi retribuído por outro saído
dos meus lábios. Mikael aprendeu a lição. Assim
como fiz com ele no primeiro dia de treinamento, ele
interceptou o golpe do anjo e aproveitou-se da
desvantagem de altura e o socou no queixo com
força máxima. Um golpe vindo de baixo para cima,
quebrando o maxilar do anjo. Desnorteado, o
oponente caiu de bruços. Mikael deu término a sua
vida com uma pisada forte na coluna do anjo. Escutei
seus ossos quebrarem-se e sua vida esvair-se aos
poucos até seu último suspiro.

206
Exodus – Catherine Parthenie

No mesmo instante o nefilin prostrou-se com


a dor que o assolava. Dois cortes surgiram do nada
em suas costas e ele gritou.
Eu sorria e Séfora chorava agarrada ao Teddy.
Como uma criança nascendo, a ponta de duas
asas saíam dos cortes de Mikael. Seus novos
membros eram maiores que as fissuras. Uma dor
insuportável. O nefilin urrava enquanto recebia a
vida de um anjo que ele mesmo matou. Porque era
assim mesmo que acontecia. Quem mata um anjo
tem o direito a sua força, seus membros, suas
habilidades. E tudo cessou. E Mikael já não era mais
um nefilin.
Kandake sorriu orgulhoso e pouco importou-
se com o irmão que jazia ao lado de outro morto
pelas mãos da ex-nefilin.
Pai e filho retiraram-se da arena e
compartilharam momentos de ternura que jamais
tiveram.
Séfora ainda chorava.
-Tenho medo – ela dizia.
-Certa vez destes-me o Teddy e pediu para
que eu tomasse conta dele. Falastes que logo o
pegaria de volta e sua confiança fez-me crer que
assim seria. Agora eu peço-te, entregue-me o seu
melhor amigo. Eu cuidarei dele e ao fim de tudo lhe
devolverei, porque acredito em você.
-Também acredito em você – Arktos falou já
do nosso lado. – E estarei aqui para receber-te
orgulhoso e de braços abertos.

207
Exodus – Catherine Parthenie

Séfora assentiu, secou suas lágrimas e foi para


o centro da arena.
-Ela vencerá? – perguntou-me Arktos assim
que ficamos a sós.
-Caleb a treinou.
-Então ela vencerá.
Olhei para o Teddy, acariciando o fucinho do
urso encardido. Lembrei-me dos treinamentos e
entreguei o ursinho para Arktos sem nada dizer e
correndo até minha amiga. Coloquei as minhas mãos
em seus ombros, como fazia meu pai. Olhei em seus
olhos e disse:
-Eu confio em você. Não anseie pelo ataque,
concentre-se na defesa e espere o momento certo.
Promete?
Séfora assentiu e voltei para o lado de seu pai.
Tomei Teddy de suas mãos e o abracei com força,
desejando muito poder devolvê-lo à ela.
-Foi o primeiro presente que dei para minha
filha logo que ela nasceu. Passei cinco anos ao seu
lado e antes de partir lhe disse que, num dos idiomas
humanos, Arktos significa urso. Afirmei-lhe que
mesmo de longe, eu jamais a abandonaria. Se eu
perceber que ela pode morrer, eu entrarei na arena e
matarei seu opositor – falou o pai de Séfora com
firmeza. E eu chorei.
Felizmente, a pequena nefilin não nos
decepcionou. Séfora não afoitou-se para atacar. Ela
defendia-se com precisão, mesmo sentindo as dores
que a intercepção de um golpe forte causava. Jamais

208
Exodus – Catherine Parthenie

a vi tão concentrada. Porém, um golpe forte a


derrubou.
Arktos fez menção de correr até ela, mas eu o
detive.
-Espere, anjo. Ainda não é o momento.
-Ele vai matá-la – bradou Arktos.
-Confie – gritei de volta.
Coloquei-me na frente de Arktos na tentativa
de passar-lhe confiança com meu olhar. Funcionou e
ele acalmou-se. Virei-me para ver o restante da luta
e, no exato momento em que o anjo daria o golpe
final em Séfora, ela fez o mesmo que eu no meu teste
com Iehuiah, acertou-lhe nas genitálias. Rápida, ela
levantou-se e aproveitou o momento de dor de seu
oponente, desferindo-lhe diversos golpes na cabeça.
Com uma voadora, ela o lançou ao chão. A morte
daquele anjo foi a mais sangrenta, pois Séfora
arrancou-lhe o coração e ficou a observar o orgão
ainda pulsante em sua mão pequena.
O mesmo golpe que atinge os nefilins quando
matam um anjo, aflingiu Séfora. Em poucos minutos
ela era um pequeno anjo perfeito.
Ela correu para os meus braços e disse:
-Eu venci!
A apertei com força e deixei as lágrimas
escaparem. Eu quase a perdi. Eu temi pela sua vida.
-Sim, você venceu.
Devolvi-lhe o Teddy e a deixei com seu pai.
Fui para o centro da arena e falei olhando para
os arcanjos:

209
Exodus – Catherine Parthenie

-Senhores, agradeço-lhes a hospitalidade.


Nada mais tenho com essa Cidade. Até um dia.
Hazanel sorriu e acenou, despedindo-se.
Virei-me para ir de encontro aos meus,
quando Arel chamou-me.
-De volta a arena.
-De volta às mentiras.
-Não posso mentir – ele rebateu.
-Dissestes que amavas-me. Fostes o crítico do
meu beijo com Liel. Fizestes o mesmo. Ao menos eu
tinha um motivo. Diga-me o seu.
-Não posso, Lienne. Porém, afirmo-te que
jamais menti ao dizer que te amava.
Retirei meu casaco e depois minha camiseta.
Trajando apenas um top e uma calça jeans, disse-lhe:
-Olhe para o meu corpo. Não sei por quê, mas
minha pele totalmente lisa é uma prova de que
jamais pertenci a nenhum macho. E não pertencerei.
Não a você. Mas volto agora para os braços do anjo
fiel que espera-me. Persis está louco para ver-me.
Arel atacou-me, mas eu o deti desferindo-lhe
golpes odiosos. Todo o rancor que eu guardara
desde que o vi com uma humana, desde que escutei
ele proferindo minhas palavras para ela, foi exposto
com aquele ataque. O derrubei e o prendi no chão
com meu pé em seu peito, colocando toda a minha
força para machucar o arcanjo imprestável.
-O ciúme é a força que move um coração
machucado. Não sou mais uma nefilin, não és mais
forte que eu.
-Preciso que entendas...
210
Exodus – Catherine Parthenie

-Não há o que entender – gritei


interrompendo seu falatório.
-Parem com isso – ordenou Hazanel. –
Cumpristes sua missão aqui, agora deixe-nos,
Lienne.
Obedeci e fui até meus amigos, recolocando
minha camiseta e amarrando o casaco na cintura.
-Falastes com Halina? – perguntei a Mikael.
-Ela morreu na semana passada. Minha luta
foi, ao mesmo tempo, uma vingança. Aquele maldito
matou minha namorada.
-Nataly sempre estará esperando-te – rebati
com frieza. – Vamos antes que eu mate um certo
arcanjo.
Assim que virei-me para pegar o caminho da
saída, um pequeno anjo de pele branca e cabelos
negros colocou-se a minha frente.
-Lienne, o grande amor de Persis.
-Camila, a amante de Persis – rebati.
-Matastes meu pai.
-Não vou dizer que sinto por isso. Era eu ou
ele.
-Admiro sua honestidade e digo-te mais,
fizestes-me um imenso favor.
-Disponha sempre – sorri com deboche.
-Posso seguí-la? Não tenho para onde ir.
-Vai jogar meu namorado na cama e seduzí-
lo?
-Não interesso-me mais por Persis. Não sou
burra e sei o que vieram fazer aqui. Ofereço-me para
estar ao seu lado.
211
Exodus – Catherine Parthenie

-Que seja, se morrer, a culpa será somente sua.


Kandake e Arktos nos acompanharam até a
saída da Cidade dos Nefilins. Séfora estava
encantada pelo carinho que Arktos lhe dava, jamais a
vira tão feliz. Nos despedimos de todos e voltamos
para o mundo dos humanos. A missão dos anjos
transformados era salvar e, de certa forma, era o que
faríamos...

212
Exodus – Catherine Parthenie

COBRANÇAS.

Eu menti, enganei.
Ela mentiu, enganou.
Eu fugi, me aperfeiçoei.
Ela venceu, aproveitou.
Eu voltei, a encontrei.
Ela fugiu, me ignorou.
Eu avisei, informei.
Ela riu, não acreditou.
Eu dei a oportunidade,
Ela pegou.
Eu cobro, pressiono.
Ela nega, mente.
Eu insisto, acuo.
Ela confessa, perde.

213
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 29 – Vingando.
Cinco horas na Cidade dos Nefilins foi o
mesmo que pouco mais de cinco meses no mundo
humano. Deixei os novos anjos escondidos na casa
da Patricia e voltei correndo para a mansão. Eu
precisava manter meu disfarce com Apollyon.
Felizmente ele não deu conta da minha ausência e
pude continuar com minha farsa... e com minha
vingança.
Coloquei uma roupa adequada ao ambiente
da Exodus. Minha intenção de correr para a empresa
foi interrompida por Azazel.
-Acredito que consegui a fórmula certa, mas
só teremos certeza disso se a testarmos – ele disse.
Suspirei. Lutei pela minha vida e agora eu
estava prestes a perdê-la. Mas eu faria tudo para
salvar meu irmão.
-Vou resgatar Adramalech e Kali e
experimentaremos esse veneno – respondi sem
demonstrar o medo que eu sentia.
-Vais mesmo fazer tal sacrifício?
-Não há outra solução, Az. Alguém precisa
fazê-lo. Ainda hoje acharemos a cura para
destransfromar meu irmão e Kali, ou o mundo ficará
feliz com a minha morte.
E se eu tivesse mesmo que morrer, que ao
menos duas das minhas vinganças fossem
executadas. Segui direto para a casa de Persis.
-Já lestes o jornal do dia? – ele perguntou-me.
214
Exodus – Catherine Parthenie

Peguei o caderno de notícias em sua mesa e


sorri ao ler a primeira página. Mariana era
reconhecida como uma grande arquiteta com o
melhor projeto já realizado. Na foto ela recebia um
troféu das mãos do novo reitor da faculdade onde
nos formamos. Eu exultei com a notícia.
-Conseguir isso não foi fácil, mas ainda tenho
minha lábia – Persis entregou-me o que eu havia lhe
pedido.
Eu não poderia usar o meu verdadeiro
diploma, pois, para o mundo, Lienne estava morta.
Pedi a Persis um falso, mas com todos os registros da
faculdade. E ele conseguiu.
-Quanto te devo por isso? – perguntei-lhe.
-Uma noite de amor.
-Conheci sua querida Camila – rebati.
-E ela vive?
-É um anjo agora, ela matou o pai de Saron.
Camila aderiu a nossa causa e está escondida com os
outros na casa de uma amiga minha. Quer vê-la?
-Não. Eu quero você, já disse.
-Um dia eu te pagarei, Persis. Mas não com
sexo.
Peguei o jornal e o falso diploma e caminhei
para a saída, quando ele disse:
-Não vai nem ao menos cumprimentar minhas
visitas?
-Que visita?
E vejo duas criaturas na sala de Persis. Corri
para abraçar um deles e chorei.
-Adramalech fugir. Irmã pedir isso.
215
Exodus – Catherine Parthenie

-Sim, eu pedi. E você é o anjo mais inteligente


que eu já conheci – falei apertando-o em meus braços
e senti suas mãos retribuindo meu gesto.
-Adramalech roubar Kali.
-Fez bem, meu querido.
-Persis demônio. Persis dizer que irmã morrer.
E o panaca do Persis gargalhou.
-Eu não disse isso. Falei que você queria
morrer, não que estava morta.
-Eu não quero morrer, demônio cretino –
rebati.
-Anjo, demônio, mocinho, bandido. Decida-se,
Lienne.
-Leve-os a noite para a mansão. Conhecerás
meu plano e veremos se ainda vais desejar-me em
sua cama.
-Por quê? Virarás um monstrinho?
Não respondi.
Mas ele entendeu.
-Não farás isso, Lienne.
-Farei. Eu morro pelo meu irmão.
-Adramalech ficar assim. Lienne não morrer.
-Não vou morrer, Adramalech. Por favor,
acredite em mim.
-Te proíbo disso – gritou Persis.
-Pare com essa bobeira, já aturei o mesmo
discurso de Caleb e, no final, até ele acabou cedendo.
-Persis certo.
-Persis errado, ele sempre está errado. Não
vou discutir com vocês. Apareçam na mansão e

216
Exodus – Catherine Parthenie

vejam o teste. O farei mesmo sem a presença de


convidados.
Peguei meus pertences e fui para a Exodus.
Não sei como, mas Persis chegou primeiro que eu.
-Não permitirei tal ousadia – ele protestava.
-Você não manda em mim – gritei sem parar
de caminhar.
Passamos por Priscila e Fernanda ainda
discutindo.
-Você está aqui como meu advogado, então
cale a sua boca nogenta e trabalhe – falei firme.
-Poderosa – brincou Priscila.
-Adoro! – comentou Fernanda.
Entramos na minha sala e eu falei:
-Não toco mais nesse assunto com você.
Vamos resolver o problema da Exodus e seguir
nossas vidas.
-Que problema? – perguntou Priscila. Eu não
percebi que ela e Fernanda nos acompanharam, mas
aproveitei a situação.
-Um roubo de projetos – expliquei. – Mariana
cometeu um erro.
-Que erro? Ela é a melhor.
-Um erro que iremos investigar, senhorita –
respondeu Persis.
Felizmente Mikael fez tudo o que eu lhe
ordenara antes de tornar-se um anjo. Ele recolocou
os projetos verdadeiros e cheios de erros de volta em
sua sala, junto com outros perfeitos feitos pelas
minhas mãos. Os que entreguei para Priscila era uma
mistura dos dois, com uma assinatura falsa que a
217
Exodus – Catherine Parthenie

minha própria secretária reconhecera como


pertencendo a Mariana. Plano perfeito.
-Fernanda e Priscila, preciso que contatem o
último cliente da Exodus com um projeto de Mariana
aprovado. Chamem a polícia – que era comandada
pela Igreja – e reúnam todos aqui na minha sala o
mais rápido possível.
Eficientes, as duas saíram sem questionar
minhas ordens.
-Amo te ver no poder – brincou Persis.
-Não foi o que dissestes assim que retornei.
-Amo te ver no poder, mas aprecio muito mais
quando eu posso dar as ordens e ver minha nefilin
querida obedecendo. Quando entenderás que és
minha, Lienne?
-Nunca.
-Como foi na Cidade dos Nefilins?
-Normal. Mikael e Séfora lutaram, ganharam
suas asas, dei uma surra no Arel...
Minha explicação foi interrompida pelas
gargalhadas de Persis.
-Não creio que perdi tamanha diversão.
Conte-me, Lienne, o que o arcanjo fez para merecer
tal surra?
-Nada. Eu o irritei e ele quis agredir-me.
-O que dissestes à ele?
-Tirei minha camiseta e o deixei observando o
que jamais teria.
-Claro, todo esse corpo me pertence.
-Deixa de ser convencido. Eu pertenço a mim
mesma, você não é o meu dono.
218
Exodus – Catherine Parthenie

Após meia hora de uma discussão ridícula


com Persis, Fernanda entrou em minha sala
acompanhada do nosso melhor cliente e de alguns
policiais.
-Senhora Manthus, – falou Fernanda com
formalidade – estes são o empresário Arthur Gomes,
sócio majoritário do grupo Gomes limitada; e o
delegado Pedro Navarro, acompanhado dos policiais
Mendes e Silva.
-Agradeço por atenderam prontamente ao
meu chamado – falei.
Eu e Persis cumprimentamos todos e, após
sentarem-se, explicamos a situação.
-O projeto que chegou em minhas mãos tinha
a assinatura de Mariana Souza Medeiros – falou
Arthur após nossa acusação.
-Sim, um projeto que eu mesma criei e que
não era para ser repassado a cliente algum. Foi
apenas para não perder a prática. Uma brincadeira –
respondi.
-Se brincas daquele jeito, és a melhor projetista
que já conheci.
-Temos que averiguar a denúncia – disse o
delegado Pedro. – A senhora Mariana é muito bem
conceituada e acredito que tudo isso não passa de
um engano.
-Ela é minha melhor funcionária, achas
mesmo que quero perdê-la? Será muito melhor para
mim que tudo seja um engano – rebati firme.
-Necessitas de um mandato para investigar a
sala de Mariana Medeiros? – Persis perguntou.
219
Exodus – Catherine Parthenie

-A senhora Eliane é sócia e presidente da


Exodus. Tudo isso pertence à ela e ao marido. Se
ambos concordarem com a investigação, iniciaremos
uma busca agora mesmo – respondeu Pedro.
-Podem começar. Eu assino em baixo tudo o
que a minha esposa diz – Apollyon entrava
imponente e sedutor na sala. Eu sorri e recebi seu
cumprimento com um beijo “apaixonado”.
-Obrigada, querido – falei representando.
-És a melhor, minha amada. Acredito em tudo
o que dizes.
Persis revirava os olhos diante da cena.
-Que seja, iniciaremos a busca – rebateu o
delegado.
-Fernanda, acompanhe os senhores até a sala
da impostora – ordenou Apollyon.
Os policiais saíram com Fernanda e ficamos
eu, o rei das trevas, Persis e Arthur no escritório.
-Com estás, Gomes? – perguntou meu falso
marido.
-Encantado com o talento e a beleza de sua
jovem esposa, Manthus.
Os dois iniciaram uma conversa particular e
Persis aproximou-se de mim para sibilar:
-Cretina.
-Ciumento.
-Só tem ciúme quem ama.
-E como sou cretina, eu me divirto com tudo.
Não demorou muito e os policiais voltavam à
minha sala com vários papéis em mãos.

220
Exodus – Catherine Parthenie

-Infelizmente, tinhas razão, senhora.


Encontramos provas de fraude – falou o delegado.
Persis fingiu avaliar a papelada como um bom
advogado. Apollyon fez sua melhor cara de patrão
indignado e eu sorria.
-O que faremos agora? – perguntei.
-Precisamos interrogar a senhora Medeiros.
-Ela está em horário de almoço, mas não tarda
a chegar – respondeu Fernanda.
-Nossos funcionários almoçam no refeitório
da empresa. Mariana encontra-se dentro da Exodus.
Toda essa movimentação não passou desapercebida.
Não seria melhor evitar sua fuga? – perguntou
Apollyon.
-Claro, senhor. Mendes, Silva, acompanhem a
senhorita Fernanda até o refeitório e tragam Mariana
Medeiros aqui – ordenou Pedro.
Quinze minutos de espera e escutei os gritos
da minha rival no corredor que antecedia a recepção
da minha sala.
Levantei-me e fiquei de costas para todos,
observando a janela imensa do escritório.
-O que querem comigo? – perguntou a sempre
revoltada Mariana.
Percebi que Persis manteve-se afastado para
que não fosse reconhecido pela maluca.
-Encontramos esses papéis em sua sala – falou
Pedro. Olhei de esguelha e ele entregava todos os
projetos para a funcionária que em breve seria
demitida e presa.

221
Exodus – Catherine Parthenie

Alguns segundos esperando Mariana avaliar a


papelada.
-Eu... não sei do que se trata – ela falou com a
voz tremida.
-Trata-se de três projetos semelhantes –
explicou Pedro. – Um deles é de sua autoria. Podes
mostrar-me qual deles reconhece como seu?
-Sim, claro. Este é o meu.
-Ótimo. Outro pertence à senhora Manthus,
sua patroa. Podes distinguí-lo pela assinatura legível
da presidente da Exodus.
-Sim.
-Entretanto, o projeto entregue ao senhor
Gomes é uma mistura dos dois e tem a sua
assinatura como autora de tal trabalho.
Pedro estendeu à Mariana o rolo que Arthur
carregava consigo. Ela avaliou o trabalho e disse:
-Isso não é meu.
-Mas a assinatura é sua, sem sombras de
dúvida, senhora – rebateu o delegado.
-Isso é armação. Eu jamais toquei nesse
projeto.
-Como explicas sua assinatura? – Apollyon
perguntou com a voz inocente. Quase gargalhei com
isso tudo.
-Eu não sei – respondeu Mariana.
-Senhora Manthus? – chamou-me o delegado
Pedro e virei-me para falar com todos.
Assim que Mariana olhou-me, ela estremeceu
e, assustada, falou:

222
Exodus – Catherine Parthenie

-Lienne? Você armou tudo isso, sua cretina.


Eu te odeio, vagabunda!
-Tenha respeito, senhora – bradou o delegado.
– Sua exaltação será considerada como declaração de
culpa.
-Ela nem é quem diz ser – gritou Mariana.
-Afirmo-te que sou Eliane Manthus.
Entretanto, sou chamada de Lienne, um apelido
carinhoso dado pelas minhas funcionárias mais
próximas. Se ainda duvidas, mostro-te meus
documentos.
-Impostora! Você é Lienne, a mesma Lienne
que se formou comigo. Nascestes em mil novecentos
e noventa e um e...
-E mantém-se jovem? Conte-me seu segredo,
por favor – Arthur interrompeu a acusação de
Mariana.
-Ela está abalada com a execução recente de
seu esposo. É natural essa reação – falei calmamente.
-Tente controlar-se, senhora – falou o
delegado. – O fato é que temos três projetos, duas
autoras e uma acusação séria.
-Tudo pode ser resolvido com uma só
pergunta – Persis pronunciara-se na conversa pela
primeira vez.
-Seu namorado! Claro. Isso prova que tudo é
armação. Esses dois estão juntos desde a faculdade,
sempre tramando as piores mentiras – bradou
Mariana.
-Você também, Persis? – brincou Arthur. – Dê-
me o endereço da fonte da juventude.
223
Exodus – Catherine Parthenie

-Bem, delegado, faço agora uma denúncia


formal de calúnia e defamação. Essa senhora acabou
de acusar-me de ser o namorado de uma mulher
casada. Se ela não apresentar prova alguma do que
diz, eu a processarei – rebateu Persis.
-Tens provas do que dissestes? – perguntou
Pedro para Mariana.
-Não, mas... – ela gaguejou e não encontrou
palavras para sua resposta.
-Sendo assim, formalizo a denúncia.
Os policiais Mendes e Silva anotavam tudo.
-Quanto ao roubo do projeto... – continuou
Pedro, mas Mariana o interrompeu:
-Eu não roubei nada. Entreguei meu trabalho
para o funcionário novo, Mikael. Pedi para que ele o
levasse até seu destino.
-E onde está esse funcionário?
-Viajando com outra funcionária. Ambos estão
avaliando a possibilidade de uma filial da Exodus
em outra cidade – respondi.
-Alguém pode confirmar o que dizes, senhora
Medeiros?
-Priscila estava em minha sala quando
entreguei o meu projeto para Mikael.
Antes mesmo de ser interrogada, Priscila
respondeu:
-Sim, eu vi quando o entregastes a Mikael. E
também vi quando ele atendeu o chamado da
senhora Manthus assim que saiu de sua sala. Ele o
esqueceu nesse mesmo escritório. Sei disso porque a

224
Exodus – Catherine Parthenie

senhora Manthus o devolveu para mim. Eu o


despachei para o escritório do senhor Gomes.
-Poderia dizer-me qual desses projetos foi
entregue pela senhora Manthus? – perguntou Pedro
estendendo os três trabalhos para Priscila.
Minha secretária não precisou avaliar muito,
logo ela apontou para um deles.
-Este aqui. Fernanda estava ao meu lado e
pode confirmar o que digo – respondeu Priscila e
Fernanda assentiu ao que ela falava.
-Isso é armação. Essa letra nem é minha! –
rebateu Mariana.
-Estás entregando-se, senhora. A letra não é
sua, mas a assinatura é – falou Persis. – Ou negarás
esse fato também?
-Não, essa assinatura realmente é minha, mas
eu não sei como ela foi parar aí. E ela não pode
provar que o projeto é dela. Como teremos certeza de
que ela é capaz de fazer algo tão perfeitamente?
-Eu posso – respondeu Priscila. Ela olhou para
o delegado e disse: - Eu estava atolada de trabalhos
da contabilidade. Era como um estágio para
conseguir uma vaga nesse departamento. A senhora
Manthus viu meu desespero e fez cálculos precisos
sem usar calculadora alguma. E isso em menos de
meia hora.
Certo, faça o bem, não importa a quem.
-E esse diploma comprova que a senhora
Manthus é qualificada como arquiteta – Persis
entregou o diploma falso para Pedro. – Agora chamo
a atenção de todos para um fato que está passando
225
Exodus – Catherine Parthenie

desapercebido. A senhora Medeiros percebeu que o


projeto aprovado não era o seu, e mesmo assim ela
aceitou os créditos sem alertar o cliente do equívoco.
Isso não basta para incriminá-la?
Naquele momento eu poderia gritar ao Persis
que o amava, mas contive-me.
-Sim, o senhor tem razão. A senhora Medeiros
não recusou a autoria do projeto. Ela mesma
acompanhou a construção da obra com a papelada
em mãos – falou Arthur Gomes.
Todos erram. Mesmo que uma grande
armação seja feita, a ambição, a ganância por
sucesso, sobe à mente da pessoa e ela acaba cedendo
ao prazer que tudo isso nos traz. Mariana errou. Ela
poderia ter negado a autoria do projeto, mas não o
fez. Ela almejou o sucesso e agarrou-se a primeira
oportunidade que teve. Mariana pagaria pelo seu
erro.
-Sinto muito, senhora Mariana Medeiros, mas
reconhecestes o projeto como seu e afirmastes agora
há pouco que ele não lhe pertencia. Sendo assim,
nada poderei fazer senão prendê-la.
Eu já disse que o sabor da vingança é doce
como mel? Então retiro o que eu disse, porque é
muito melhor que isso.
Registramos a denúncia formalmente.
Mariana, sem ter outra opção, confessou tudo e foi
detida. Os telejornais noticiaram todo o ocorrido. Ela
foi demitida da Exodus e, como era membro
honorário da Igraja de Cristo, passaria pelo tribunal
eclesiástico.
226
Exodus – Catherine Parthenie

Persis conseguiu com que eu falasse em


particular com ela por cinco minutos. Não
disperdicei meu tempo e disse:
-Lembrastes de mim? Tirastes tudo de mim.
Como se sente? Dói, não é? Doeu em mim também. E
tudo por quê? Por causa de Daniel? Pois saibas que
ele morreu desejando meu corpo, ele morreu porque
deflorou uma criança. Você não tinha serventia
alguma para ele, era só uma velha carquética e
enrugada. Eu mesma fiz questão de acender a
fogueira que o consumiu. E, antes que pergunte-me
como faço para manter a minha juventude,
respondo-te que seu erro foi nunca ter percebido que
não sou como você, uma humana podre. Certa vez,
levei quinze chibatadas para não denunciar a culpa
dos meus amigos. É o que os amigos fazem, eles
morrem pelos outros. Você e sua fé falam mal dos
demônios, pois afirmo-te que jamais vi um demônio
agir de maneira tão vil quanto os humanos, eles
seriam como santos se comparados à vocês. Olho por
olho e dente por dente, Mariana. Denunciastes-me e,
no entanto, fizestes o mesmo que eu. Se um dia
tiverdes a oportunidade de uma nova vida, lembre-
se: não julgue, pois da mesma maneira que julgardes,
sereis julgada. Deves conhecer essas palavras, é o
sermão do monte que o seu Cristo proferiu um dia.
Tenha uma boa morte, porque estarei apreciando
cada segundo do esvair de sua vida.

227
Exodus – Catherine Parthenie

FANTASIA

Me vejo perdida...
Que mundo é esse?
Aqui tudo é fácil,
E tudo pode acontecer.
Me perdi na fantasia do teu olhar,
Na insanidade que o desejo me leva.
E agora não sei mais voltar.

Me encontro louca e quente de ansiedade,


Preciso urgentemente te encontrar.
Saciar minha vontade de te curar,
Fazer essa magia florescer.
Sentir o calor dos teus braços,
E novamente em outro mundo estar.
Virar uma desvairada,
Me encontrar fora da realidade.
Viver numa fantasia insana,
De possuir um corpo como o seu.
Preciso entender o que sentes,
Prendendo-me
Nessa loucura de me envolver.
E, se por acaso,
O caminho de volta eu não encontrar,
Minha vontade de viver com você
Me fará à fantasia secreta voltar.

228
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 30 – Sacrificando.
Satisfeita com a destruição de Mariana, fui
cuidar da minha nova missão. Mas, antes disso,
passei na casa de Patricia. Eu era péssima com
despedidas, então tentei tornar tudo bem natural.
-Oi, Lienne, minha querida – ela abraçou-me
e, pela primeira vez, eu retribui o abraço dela com
mais intensidade.
Mesmo da porta, eu fiquei agarrada ao seu
corpo, chorando feito criança. Ela era tudo o que eu
tinha como exemplo de mãe. Foi por ela que eu
aproximei-me do meu pai.
-O que foi, querida? – ela perguntava
acariciando minhas costas. Eu nunca havia percebido
que Patricia era mais alta que eu.
E eu não conseguia responder a sua pergunta,
só chorei... e decidi que era melhor não enfrentar
Mikael, Séfora, Caleb e até mesmo Camila, uma nova
amiga.
-Adeus, mãe – foi só o que eu disse. Soltei-me
do abraço dela e corri de volta para o carro.
Dirigi direto para a mansão com o olhar
embaçado pelas lágrimas e a saudade já invadindo
meu ser. O que aconteceria após a minha morte? Eu
teria uma alma como os humanos? Essa alma
viveria? Eu descobriria isso em breve.
Estacionei na porta de casa e fiquei ali parada
por alguns minutos, recobrando minha coragem e

229
Exodus – Catherine Parthenie

secando as lágrimas. Adramalech merecia todo o


sacrifício.
Saí do carro decidida e entrei na mansão em
busca de Azazel. Ele já esperava-me na sala.
-Pronta? – ele perguntou-me.
-Acho que sim.
-Se você não tem certeza, então não concordo
em testar o acelerador.
-Estou mais que pronta, Az. Vamos logo com
isso e não me irrite – falei firme, disfarçando o medo.
-Que seja. Se algo der errado, quero que saibas
que te estimo muito e que admiro sua coragem.
Jamais me perdoarei pela sua morte e te prometo que
serei o próximo a testar, em mim mesmo, o
acelerador.
-Valeu, Az – falei o abraçando forte.
-Pronta mesmo? – ele perguntou assim que o
soltei.
-Sim – respondi decidida.
-Tome, aqui está o acelerador – ele entregou-
me um copo com um líquido incolor. – Esse é o
primeiro passo. Se der certo, logo a seguir te
entregarei o outro.
-Tudo bem.
Eu preparava-me para entornar a bebida,
quando a porta da frente foi praticamente
arrombada.
-Não faça isso, Lienne, eu te imploro – Persis
corria ao meu encontro. Adramalech e Kali o
seguiam.
-Eu preciso, anjo.
230
Exodus – Catherine Parthenie

-Não precisa.
-Por favor, Persis, não torne tudo mais difícil.
-Eu te amo, Lienne.
-Um dia eu entenderei – falei sorrindo e com a
voz doce.
-Como entenderás se estiveres morta?
-De alguma forma eu entenderei.
-Volte para mim.
-Eu sempre volto, Persis.
-Eu não concordo com isso.
Mais pessoas chegavam ali. Revirei os olhos.
Eu só queria acabar logo com tudo.
-Nunca pensei que diria isso, mas Persis tem
razão. Eu também não concordo com isso, Lienne –
bradou Caleb.
-Vocês não precisam concordar, eu o farei e
pronto.
Olhei para Mikael, Séfora, Patricia, Camila,
Az, Persis, Adramalech e Kali. Todos com rostos
pesarosos. E eu me senti amada. Ao menos alguém
choraria minha morte.
-Adramalech amar irmã.
Só quando meu irmão proferiu essas palavras
foi que meu pai deu por sua presença ali. Ele foi até o
estranho demônio e, sem falar nada, o abraçou forte.
-Pai conhecer filho. Adramalech lembrar pai.
-Meu filho amado. Eu te amo, mas não posso
perder sua irmã – respondeu Caleb sem soltar o
demônio.
-Eu não vou morrer – falei firme. – Eu confio
em Azazel e não quero despedidas.
231
Exodus – Catherine Parthenie

-É bom mesmo que confie, porque se você


morrer, ele logo se juntará a ti no túmulo –
murmurou Persis.
Evitei brigas, despedidas, lágrimas. Levei o
copo que continha o veneno acelerador e bebi todo o
seu conteúdo. No mesmo instante uma dor forte
invadiu-me. Larguei o copo e escutei o vidro
espatifando-se, pude ouvir cada pedacinho quicando
no chão de mármore.
Minha pele enrugou-se e foi tomando um tom
acinzentado. Minhas unhas cresceram, encurvando-
se como garras. Senti minha coluna entortar e
minhas asas doíam. Meu maxilar avançava como se
quisesse saltar do meu rosto. Meus pés doeram até
romperem os sapatos, crescendo de maneira
desproporcional. Prostrei-me arfando de dor.
Escutei cada sussurro de susto, distingui as
lágrimas do meu pai, meu coração doeu.
Alguém aproximou-se de mim e vi um anjo
chorar. Ele acariciou meu rosto e disse:
-Tão linda. Sempre serás linda. Mesmo que
fique presa nessa forma, ainda assim te acharei o
anjo mais belo de todos.
-Persis – tentei falar, mas minha voz tinha o
mesmo rugido que Adramalech fazia.
-Deu certo! – exclamou Azazel. Precisamos
testar o outro líquido.
-Irmã bonita. Persis certo.
Adramalech era puro e eu o amava. Valeu
cada dor, valeu ver minha beleza se romper para dar
lugar ao novo monstro.
232
Exodus – Catherine Parthenie

-Lienne, pegue, tome isso – Azazel estendeu-


me outro copo com um líquido púrpura, mas eu não
conseguia controlar meus novos e pesados membros.
Persis tomou o copo das mãos de Az e disse:
-Deixe que eu faço isso.
Ele encostou o copo em meus lábios e ajudou-
me a tomar o novo veneno.
-Isso, meu anjo. Vai dar certo. Volte para mim.
Uma nova dor. Dessa vez eu urrei sem poder
mais aguentar. Aconteceu tudo ao contrário e eu
achei que estava morrendo. Minha pele esticava-se,
meus membros encolhiam-se. Minha coluna
endireitava-se e tudo doía. Minha cabeça parecia
uma bomba prestes a explodir. Gritei na ânsia de
fazer a dor passar e percebi que minha voz voltava
ao normal. Deitei-me e fiquei em posição fetal. Tudo
escureceu e perdi meus sentidos. Eu morri?...

Vozes ao longe...
-Lienne, não! Eu te amo. Viva, volte para mim,
você prometeu, anjo – um demônio gritava.
Alguém pegou-me em seus braços.
As vozes estavam mais próximas.
-Ela está viva, acalmem-se.
Abri meus olhos e a luz cegava-me.
Eu nasci uma vez.
Eu vi um rosto quando eu nasci.
Os filhos de anjos lembram-se de tudo.
Eu renascia... e vi o mesmo rosto tomando-me
em seus braços.

233
Exodus – Catherine Parthenie

-Você conseguiu – ele sorria em meio as


lágrimas. Até os arcanjos choram.
Sorri.
Eu venci mais uma.
-Claro que eu consegui. Sou sua filha –
brinquei ainda com a voz fraca.
-Fostes corajosa, pequenina.
-Herdei isso do meu pai. Precisa conhecê-lo,
arcanjo, ele bate que é uma beleza.
Ele riu. Doce som.
Ele abraçou-me. Maravilhosa sensação.
-Eu te amo, pequenina.
-Beba, Lienne – Az estendia-me uma squeeze.
O cheiro do sangue misturado ao vinho atiçou meus
sentidos e não hesitei. Bebi tudo e, como mágica,
senti-me renovada.
-Estou bem – falei levantando-me do colo do
meu pai.
Eu estava mesmo bem, ou queria que assim
todos pensassem. Mas minhas pernas me traíram e
eu cambaleei. Um anjo de asas exóticas amparou-me.
-Eu disse que voltaria para você, Persis – falei
em seus braços.
-Sim, você disse. Agora eu vou te matar por
essa experiência e você terá que dar um jeito de
voltar novamente.
Soltei-me dele e caminhei com dificuldade até
a criatura que observava-me com olhos brilhantes.
-Foi por você. Eu morreria por você, meu
irmão. Se não quiseres experimentar o acelerador, eu
entenderei.
234
Exodus – Catherine Parthenie

-Adramalech amar Lienne. Eu querer ser nefilin.


-Você será, meu anjo.
Az estava ao meu lado e segurava o copo com
o líquido púrpura. Ele o entregou a mim e foi de
encontro a Kali. Nada falaram, apenas vieram para
junto de nós. Um outro copo como o mesmo líquido
foi entregue das mãos de Persis para Azazel.
Olhei para Az e perguntei:
-Pronto?
-Se não funcionar perderemos nossos dois
amores.
-E estaremos juntos. Mas eu confio em você e
sei que vai funcionar.
-Obrigada, Lienne.
Assenti. Eu e ele ajudamos Adramalech e Kali
a ingerirem o acelerador. Assim que terminaram, Az
tomou o copo da minha mão e afastou-se, mas eu
fiquei com eles. Segurei na mão de Kali e na do meu
irmão. Jamais os deixaria.
Os dois gritavam de dor. Suas asas encolhiam-
se. Eles não eram anjos transformados em demônios,
eram nefilins. Nós esquecemos esse detalhe.
Adramalech gritava cada vez mais alto. Soltei a mão
de Kali e o envolvi em meus braços.
-Não morra, por favor – eu chorava o
apertando forte. – Eu te amo, não morra!
Senti sua pele esticar-se e fechei meus olhos. O
corpo que parecia frágil e encolhido em meus braços,
tomava a forma de um homem forte, mas eu não o
larguei. Eu pedia para quem pudesse escutar, para
quem pudesse ajudar, para que o mantivesse vivo.
235
Exodus – Catherine Parthenie

Eu temia pela sua vida, eu o amava. Seus gritos


aumentaram. Sua voz mudou. E eu não o soltei.
Os urros cessaram.
Adramalech arfava, sua dor era tão forte que o
impedia de gritar.
Silêncio.
A forte criatura que eu envolvi em meus
braços soltou-se de mim e não abri meus olhos.
Eu não ousava ver a morte do meu irmão.
Prostrei-me e chorei. Eu o perdi.
Alguém tocou meu rosto, secou minhas
lágrimas. Outro alguém segurou minha mão e a
beijou com cuidado.
-Não chores, você me salvou.
Doce voz. Era como bálsamo, era deliciosa,
linda e perfeita. Temi abrir os olhos e perder meu
sonho que trazia o mais belo som.
-Lienne, olhe para mim, você me salvou! – ele
falou com mais firmeza.
Realizei seu desejo e eis que vejo a criatura
mais linda que um anjo. Seus cabelos loiros, seus
olhos verdes, seu sorriso igual ao de Caleb.
-Adramalech? – perguntei sem acreditar.
-Quem mais seria, minha amada irmãzinha?
-Você é tão lindo e se parece com o papai.
-Então sou feio. Eu poderia ser lindo como
você – ele sorriu. Mal nascera numa nova vida e já
brincava com a situação.
Olhei para a dona da mão que segurava a
minha e vi uma nefilin com a pele cor de chocolate,

236
Exodus – Catherine Parthenie

olhos caramelos, cabelos negros, uma beleza exótica


e perfeita. Ela era linda. Os dois eram lindos!
-Deste-me uma nova oportunidade. Serei
eternamente grata à você. Se um dia eu precisar
pagar com a vida, eu pagarei – a voz de Kali era
doce, suave, fina. E eu encantei-me por ela.
Não pude conversar muito com Kali, pois
Azazel logo a tirou dali para abraçá-la e jurar amor
eterno.
Fiquei enciumada com o olhar do meu irmão
para Séfora. Bichinho safado, era mais santinho
quando era um demônio.
Caleb abraçou o filho, lhe pediu perdão por tê-
lo abandonado, apresentou-lhe para Patricia e todos
os nossos amigos. E eu perdi meu irmão para a
simpatia que todos eram capazes de exercer.
Mas como perder o que não nos pertence? Ele
nunca foi só meu, eu o amei demais e arrisquei-me
por ele. E faria tudo novamente se fosse preciso. Mas
doeu ver o sorriso de Adramalech dividido com eles.
Afastei-me e fui sentar no pé da escadaria.
Abaixei minha cabeça e ali fiquei, firme e sem
permitir que as lágrimas descessem.
-Como você está? – perguntou Persis.
-Eu virei um monstrinho, voltei a ser anjo –
dei de ombros. – Acho que estou bem.
-Fostes corajosa. Eu jamais faria isso.
-Nem por mim?
-Por que eu te mudaria? Achas mesmo que me
apaixonei pela sua beleza?

237
Exodus – Catherine Parthenie

Eu nem tive tempo de responder. Persis


deixou-me sozinha.
Sozinha para pensar.
Sozinha para refletir.
Sozinha para sentir falta.
Sozinha para entender... entender algo que eu
não queria aceitar e nem acreditar.
E eu era mais teimosa que uma mula.
Porque eu jamais contaria à Persis o que eu
sentia.
Uma cabeça loira encosta-se na minha.
Ficamos cara a cara, olhos nos olhos.
-Eu te amo, Lienne. E não pense que vou
desgrudar de você.
Abracei forte meu irmão, a verdadeira
imagem do meu irmão.

238
Exodus – Catherine Parthenie

VOCÊ

O que sinto? Não sei dizer...


Tudo chegou de repente
E eu odiei você.
Devastando, mudando os planos.
O que seria descanso virou fantasia.
E agora te quero perto de mim.

O que posso dizer?


Tomaste-me tudo,
Meu rei, meu mundo, meu amor, meu poder.
Tens o que todos anseiam,
Amor proibido, bandido, cruel, dolorido
É possível? É... e existe!
E agora te quero cuidando de mim.

Mudarei seu amargo destino,


Te dar a eternidade é minha missão
Salvarei seu desejo,
Desvendarás segredos,
Conhecerás mistérios,
Ganharás teu amor,
Assim como o meu perdão.

Encontre-me no meio da noite,


Te mostrarei um prazer escondido,
Conhecerás a delícia do sangue,
Saborearás o líquido proibido.
Como um anjo sem asas,
Mostrarás seu sorriso
239
Exodus – Catherine Parthenie

Com presas, uma nova lei.


Esse é seu novo destino,
Ao teu lado sempre ficarei...

240
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 31 – Revivendo.
A missão dessa noite ainda não estava
completa. Se algo tinha que ser feito, que fosse logo
de uma vez, sem enrolação.
Fui até Patricia e perguntei:
-Despediu-se da vida? Despediu-se do sol?
-Isso não acontecerá hoje, Lienne – gritou meu
pai.
-E será quando? Quando ela estiver a beira da
morte? Quando fizerdes um filho nela e a deixar
morrer no parto de um nefilin?
-Lienne, eu... – meu pai começou a falar, mas
foi interrompido por Patricia.
-Quando esteves mais cedo na minha casa, eu
não entendi a sua reação, mas percebi que despedia-
se. Seu pai e seus amigos correram até você assim
que lhes contei o ocorrido, e eu não poderia deixar
de ver aquela que me chamou de mãe. Chego aqui e
vejo a maior prova de amor de todo o mundo. E mais
que isso, eu vi sua coragem e te admirei. E se é para
viver para todo o sempre ao seu lado, que assim seja,
Lienne. Eu despeço-me do sol, despeço-me da vida,
despeço-me do meu sonho. Eu queria embalar uma
criança, mas eu desisto de tudo para ser a sua mãe.
Fiquei sem palavras. Só a fitei séria.
Eu ganhei meu irmão de volta e uma mãe no
mesmo dia. E eu tinha que dividir todos com todos.
Não podiam ser todos meus? Só meus?

241
Exodus – Catherine Parthenie

-Como faremos isso, Az? – perguntei sem


desviar meu olhar de Patricia.
-Tenho que explicar uma coisa.
-O quê?
-Ela vai tomar o acelerador e...
-E o quê, Azazel?
-Ela tem que morrer.
-Pois que morra.
-Alguém terá que matá-la. O acelerador não
mata o humano, ele só fica guardado, como um
veneno, em seu corpo. E quando a pessoa morre, ele
age.
-Eu mato – falei friamente.
-Perdeu o juízo, Lienne? – vociferou Caleb.
-Nunca tive nenhum.
-A trégua acabou – ele levantou a mão para
me bater, mas Patricia o deteve.
-Eu decidi isso. Lienne fará um favor que nem
você seria capaz. Eu te amo, Caleb. E vou morrer por
você. E só vou permitir que duas pessoas me matem,
você ou Lienne.
-Jamais farei isso com você, Patricia –
respondeu meu pai.
-Então deixe que sua filha faça – ela falou
decidida.
Caleb virou-se para mim e disse:
-A idéia foi sua, se ela morrer e não voltar, eu
vou cometer o maior pecado dos anjos, matarei
minha própria filha.
-Vai dar certo – falei sem dar importância ao
que ele dizia.
242
Exodus – Catherine Parthenie

-Se não der, eu te protejo – Adramalech


sussurrou em meu ouvido.
Persis pegou-me pelo braço e tentou levar-me
para um canto e falar comigo em particular, mas meu
irmão protestou:
-Tira suas mãos de cima dela, seu cretino.
-Fica na tua, monstrinho – rebateu Persis.
-Já faz tempo que observo teus olhares para
minha irmã.
-Ciuminho de família? Quem disse que eu me
importo? Lienne faz o que eu mando.
-Desde quando? – perguntei.
-Desde sempre.
Adramlech desferiu um soco no rosto perfeito
de Persis. Caleb riu.
-Não se pode negar que tu és filho dele – falei
com Adramalech e apontando para Caleb.
-Ele não é seu dono, Lienne.
-Nem você.
-Se tem alguém a quem você deve obediência,
esse alguém sou eu.
-Por quê?
-Porque eu sou seu irmão e sou o mais velho.
-É ruim, heim? Não obedeço nem o nosso pai.
-As coisas vão mudar.
-Não vão não.
-Você não vai ficar de agarração com esse
demônio cretino.
-Eu faço o que eu quero e você não manda em
mim!

243
Exodus – Catherine Parthenie

-Crianças, parem de briga porque a mamãe


precisa morrer – ironizou Patricia.
Percebi que meu pai só ria.
Me infezei e fui logo acabar com aquela
baboseira. Andei até Azazel para pegar o maldito
veneno e, quando passei por Caleb, ele falou:
-Agora posso ficar tranquilo nos braços de
Patricia, você tem um novo cão de guarda. E sabe o
que é melhor nisso tudo? Foi você mesma quem
causou essa situação.
Olhei para Caleb e sorri com deboche.
-Nada que Séfora não resolva.
Nem esperei sua resposta, saí de perto dele o
mais rápido possível.
-Pega – entreguei o veneno para Patricia. –
Bebe logo isso que eu preciso te matar.
Ela, tão decidida e corajosa quanto eu fui, não
hesitou e bebeu tudo.
-Estou pronta – Patricia falou.
A olhei e tomei uma decisão naquele instante.
Eu tive minhas vinganças. E uma outra ainda estava
inacabada, mas eu poderia consertar o estrago de um
ódio.
-Não morrerás, Patricia, mas estarás para
sempre numa nova família. Ganhastes um
companheiro, o arcanjo que eu tanto admiro, mesmo
com nossas brigas. E agora tens dois filhos que, pelo
visto, viverão se esbofeteando – rimos juntas. – Mas
seus sonhos serão realizados. Te prometo isso, terás a
criança que sonhas embalar em seus braços. E sei que
ele será melhor que eu, porque além do melhor
244
Exodus – Catherine Parthenie

instrutor da Cidade dos nefilins, ele terá você e o


amor que nenhum filho do pecado jamais teve, o
amor de uma mãe carinhosa.
Sorri e nos abraçamos. E, ainda em seus
braços, falei:
-Não sei como te matar, não pensei nisso. Não
sei como fazer sem destruir uma parte do seu corpo.
-Vou precisar do meu coração?
-Não, ele não funcionará mais mesmo.
-Uma facada no coração pode ser uma boa.
-Que seja.
Soltei-me dela e fui pegar a arma que tiraria a
vida da minha madrasta. Voltando da cozinha com a
faca em punho, sibilo para Persis:
-Assim que tudo acabar, vou precisar de você.
Continuei firme na minha missão.
Eu matei Patricia.
Eu a vi cair sem vida aos meus pés.
Eu vi seu sangue escorrer pelas minhas mãos.
Depois eu não vi mais nada.
Fechei meus olhos e esperei...
Nada.
Continuei esperando...
Depois de um tempo, eu só esperava mesmo
pela fúria do meu pai e pelo adeus que eu daria a
minha vida.
Mas tudo mudou quando escutei um rosnado
fino.
Sorri.
Minha nova mamãe era uma vampira.
-Eu disse que ia dar certo.
245
Exodus – Catherine Parthenie

DOR

Fiz castelos de sonhos,


Mas sonhos são como areias,
O vento sopra,
Tudo é leve, se vai, se perde...
Novas chances são dadas.
Cabe a mim encontrar o caminho,
Cabe a você mostrar o destino.

E agora que tudo acabou, tua ausência dói.


Porque era do mesmo lado que deveríamos estar.
Sonharás nessa noite,
Frios serão seus lábios,
Sem vida encontrarás teu corpo...
Ah, venha até mim e arranque essa dor!
Mata o desejo do coração,
Me faça tudo entender, por favor.

Escutarei seu nome,


Pensarei em você.
Como sua criança doce
Desejará te ver.
Uma amiga, um perdão.
Uma voz que findou-se, partiu.
Marcaste-me o coração,
E essa dor te destruiu.

246
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 32 – Perdoando.
Alguns meses passaram-se.
Adramlech e Séfora estavam namorando e
mesmo assim ele não largava do meu pé. Tive
saudade do ciume de Caleb, era mais fácil de
enfrentar.
Patricia tentou não matar ninguém, mas uma
vez vampira, danou-se. Ela matou e eu ajudei,
dividimos nossa refeição entre mãe e filha, segredo
de mulheres. Caleb nunca ficou sabendo disso. Mas,
na maioria das vezes, ela tomava um vinho que
Azazel preparava.
Apollyon anda tão perdido fazendo planos
para conquistar o mundo que esqueceu-se de
Adramalech e Kali, mas nunca parou de me
perturbar e me desejar.
Azazel estava feliz com Kali e Mikael com a
humana Nataly.
E eu... eu sempre sozinha. E ainda em busca
de vingança.
Persis me acompanhou até a cidade onde
Valéria morava para esconder sua gestação. Eu a
visitava diariamente, sempre fingindo ser sua melhor
amiga. Até que o grande dia chegou.
Liguei para Persis e pedi a sua ajuda. Tudo
estava preparado para nossa fuga. Era minha última
vingança com os humanos e eu não poderia falhar.
-Eliane, me ajude – ela murmurava em meio
as dores.
247
Exodus – Catherine Parthenie

-Logo vai passar – eu falava friamente


passando minha mão em seus cabelos.
-Leve-me para o hospital, por favor.
-Para quê? Nunca entenderão mesmo.
-Eliane, me ajude, por favor, a dor é imensa! –
Valéria arfava.
-Cometestes um pecado, pague por ele –
respondi por entre os dentes.
-Estás odiando-me porque eu deitei-me com
seu marido?
Soquei a cômoda de seu quarto e a quebrei no
meio.
-Não tô nem aí por ter feito sexo com
Apollyon! – gritei. – Fui eu quem pediu para que ele
te seduzisse. E sabe por que eu fiz isso, Valéria? Para
que você provasse do próprio veneno. Pregastes sua
fé, falastes do teu Cristo, denunciastes pessoas
inocentes que apenas amaram demais, e tudo isso
por quê? Pelo simples prazer de dizer que era santa?
Onde está sua santidade agora, freirinha?
-Eliane, podemos resolver nossas divergências
depois. Mas agora, por favor, salve minha vida e a
do meu filho – ela chorava.
-Não há salvação para você, Valéria – falei
calmamente.
-O que eu te fiz, Eliane? Por favor, eu peço
perdão por ter dormido com seu marido, mas por
que o mandastes seduzir-me?
-Pobre imbecil, nunca entenderás? – abaixei-
me ao lado de sua cama e acariciei seu rosto. – Sabe,
Valéria, eu tinha grande carinho por você, acreditei
248
Exodus – Catherine Parthenie

que fosse minha amiga de verdade. Mas preferistes


acreditar no que outros falavam. É uma pena.
-Não entendo – ela suava frio, seu corpo
tremia, ela gritava.
Eu já podia ver o contorno das mãos do
pequeno monstrinho forçando a barriga dela,
tentando arrebentar todos os obstáculos para nascer.
-Não, você não entende. Mas não se preocupe,
eu te explico.
Sentei-me ao seu lado e peguei a sua mão. Sua
pele era mais gelada que a de um defunto.
-Eu lembro de tudo o que fizestes contra mim.
Lembra-se da noite em que esteve no meu escritório
e me contou sobre os rituais dos quais eu
participava? Eu lembro. Daniel te convenceu que
tudo era mentira. Mas ele era o mentiroso, porque ele
me enganou. Ele queria meu corpo e, como eu não
cedi, ele mostrou umas fotos de um ritual que ele
mesmo preparou em sua casa. Eu me lembro disso
tudo, Valéria. E você?
Ela olhou-me assustada, seus olhos pareciam
querer saltar de seu rosto.
-Lienne? Como... como pode? Você...
-Sim, querida amiga, sim... eu deveria ser uma
velha carquética como você e seus falecidos amigos.
Ah, esqueci de te contar. Daniel participou de um
ritual de magia negra, onde eu mesma registrei sua
participação e denunciei o ocorrido. Ah, amiga, você
não imagina como foi bom acender aquela fogueira –
falei sorrindo como uma criança com um presente
nas mãos.
249
Exodus – Catherine Parthenie

-Nós merecemos.
-Sim, merecem. Mas, calma, querida, tem
mais. Mariana roubou meu projeto e confessou
tudinho. Ela foi presa e condenada a morte pelo
tribunal eclesiástico por mentir e aproveitar-se de
uma oportunidade para alcançar o sucesso. Uma
pena, não é? Não, não é.
-Lienne, me perdoe, eu...
-Tarde demais para isso, Valéria. Não posso
mais te ajudar.
-Por que não? Leve-me para um hospital, por
favor – ela falou quase gritando com as dores que
sentia.
-Porque nem os médicos podem te ajudar.
Daqui a pouco esse monstrinho vai arrebentar seu
corpo para ganhar a vida.
-Não fale assim do meu filho – Valéria falou
por entre os dentes.
-Por que não? Vocês chamaram-me de
monstro. Não respondi sua pergunta anterior. Eu
não sou humana, sou a filha de um arcanjo. Eu sou
um anjo também, quer ver?
Abri minhas enormes asas brancas para ela.
-Oh, meu Deus! Eu atentei contra uma criatura
divina!
-Eu diria uma criatura infernal, mas me chame
como quiser, eu não me importo. O fato é que seu
amado filhinho não é humano. Apollyon não é
humano. Diga-me, Valéria, o que achas de Satanás?
Ela gritou de dor, arfou. Eu esperei. Valéria
recuperou a força e respondeu:
250
Exodus – Catherine Parthenie

-Eu o temo e o odeio. Amo ao meu Deus.


-E, no entanto, terás um filho do Diabo.
Seus olhos arregalaram-se.
-Apollyon é o Rei das Trevas. Seu filho é o
príncipe do inferno. Como se sente diante disso?
Mais um grito de dor.
-Você está morrendo, Valéria. Mas eu também
morri. Morri quando vocês me trairam. Vocês
trairam um anjo.
-Lienne, perdoe-me. Eu aceito minha punição
porque eu mereço. Mas não permita que eu morra
sem o seu perdão.
Essas palavras pegaram-me de surpresa.
Daniel e Mariana mantiveram suas poses até o fim.
Mostraram indignação, surpresa, mas não pediram
perdão.
Lembrei do meu pai, do meu irmão, de
Patricia. Eu fiz o que era certo.
-Valéria, é tarde demais para a sua vida, e
mesmo assim eu te perdôo.
-Meu filho é um monstro do inferno, mas eu o
amo. Arrume um lar para ele.
-Ele já tem um lar esperando para recebê-lo de
braços abertos.
-Jura?
-Pela minha vida.
-Obrigada, Lienne.
Ela segurou forte a minha mão e eu chorei.
-Vá em paz, Valéria. Seu filho terá minha
proteção.
-É bom morrer com a visão de um anjo.
251
Exodus – Catherine Parthenie

Essas foram suas últimas palavras. O pequeno


nefilin a rasgou inteira e Valéria entrou em choque.
Seu coração parou de bater exatamente às seis e seis
da tarde do dia seis de junho do ano de dois mil e
trinta e seis.
Eu segurei o pequeno nefilin nu e sujo de
sangue. O primeiro rosto que ele viu na vida foi o
meu. E será o único que ele jamais esquecerá.
O aproximei de Valéria de uma maneira que
ficassem cara a cara.
-Eu sei que você me entende, garotinho. Esse
rosto adormecido pertence a sua verdadeira mãe. Ela
morreu para que você pudesse nascer, foi uma
escolha dela e não sua. Você não a matou, jamais
pense isso. Ela morreu porque te amou demais.
Voltei a criança para mim, olhei em seus olhos
e disse:
-Seu irmão, Liel, é um panaca. Mas eu vou te
ensinar a arrebentar a cara dele, prometo.
Persis ajudou-me a limpar o pequeno nefilin.
O vestimos, pegamos todo o enxoval que Valéria
montou com carinho para seu filho e fomos embora
dali.
-Para onde? – Persis perguntou-me já em seu
carro.
-Para a casa da vampira.

Patricia abre a porta de sua casa. O relógio


marcava oito da noite.
-Lienne, que bela visita!
-Meu pai está com você?
252
Exodus – Catherine Parthenie

-Sim.
-Chame-o, por favor.
Ela fez o que lhe pedi e assim que os dois
estavam na porta, eu disse:
-Tenho um assunto sério para falar com vocês.
-O que o panaca do seu namorado aprontou?
– perguntou Caleb olhando para o carro de Persis.
-É sério, pai. Não estou brincando.
Escutando o tom da minha voz, meu pai
assentiu, demonstrando que estava disposto a ouvir
o que eu diria.
-Patricia, quando eu te matei, eu te prometi
que um dia terias uma criança para embalar como se
fosse seu filho.
-Sim, eu me lembro. Não entendi e não
entendo ainda, mas eu lembro.
-Pai, Apollyon teve outro filho.
-Como sabes disso?
-Eu vi essa criança nascer e eu prometi para
sua mãe que eu cuidaria dele. Apollyon não sabe da
existência desse filho. Eu não sei cuidar de uma
criança. Mas vocês sabem. Caleb fez um bom
trabalho comigo, eu acho... – sem saber quais
palavras se encaixariam ao momento, falei: - esperem
aqui.
Fui até o carro e peguei, cuidadosamente, o
pequeno nefilin do colo de Persis. Depois voltamos
juntos até Caleb e Patricia.
-Eu confio ele à vocês. Eu fiz uma promessa
que não posso cumprir sozinha. Então, Patricia, esse
é o filho que te prometi.
253
Exodus – Catherine Parthenie

Ela o tomou de meus braços e, se vampiros


chorassem, ela o faria. O carinho com que Patricia o
embalou, fez-me sorrir, sabendo que tomei a decisão
certa.
-Obrigada, Lienne. Além da minha vida, do
meu amor eterno pelo seu pai, devo-te o meu sonho
realizado.
-Só te peço um favor, Patricia. Sempre diga à
ele que sua mãe o amou demais.
-Sempre direi isso, querida.
-Pai, tudo bem cuidar dele como fez comigo?
-Sim, sem problemas. Mesmo não sendo meu
filho, o ensinarei como fiz com você e Adramalech,
meus filhos legítimos.
-Então vê se faça certo dessa vez. Já basta uma
doida na família – eu sorri em meio a brincadeira. –
Hei, eu tenho uma família!
-Sempre tivestes, pequenina.
-Sim, pai. Éramos uma pequena família.
Agora somos completos.
Caleb, Patricia, Adramalech, Séfora, Mikael,
Camila, Azazel, Kali, Kandake, Hazanel, Arktos... e
até mesmo Persis... sim, minha família era enorme.
-Preciso ir. Cuidem do Apollyonzinho.
-Não tem outro nome para essa criatura? –
perguntou Caleb.
-Pelo amor que sente a sua esposa, dê-lhe um
nome descente. Porque, fala sério, Adramalech é
meio tenso.
Todos riram.

254
Exodus – Catherine Parthenie

Eu entreguei os pertences do nefilin, meu


novo irmãozinho, para Patricia.
Indo para o carro de Persis, escuto meu pai
chamando-me:
-Lienne, preciso falar com você.
-Persis, espere no carro, por favor.
Ele assentiu e fui de encontro ao meu pai.
-Diga – falei esperando um grande sermão.
E tudo o que ganhei foi um forte abraço.
-Nunca errei com você. Criei um anjo perfeito.
Eu te amo, pequenina.
-Eu te amo, papai.
Ele riu ainda abraçando-me.
-O mundo está mesmo no fim, você está
chamando-me de papai.
-Não estraga o momento – retruquei
brincando.
-Não vou estragar, porque é muito bom ouvir
isso. Fala de novo?
Eu ri.
-Deixa de ser bobo.
-Há anos espero para escutar novamente essa
frase de sua boca. Lembro-me de quando eras uma
garotinha e corria para os meus braços. Ficávamos
assim, como estamos agora. Eu de joelhos, claro. E
você dizia que me amava. Eu era o único na sua vida.
Faça-me feliz, pequenina.
Como recusar?
-Eu te amo, papai.

255
Exodus – Catherine Parthenie

ANJO NEGRO

Medo, insanidade.
Há algo mais terrível que as sombras?
Há um temor que nos faz gelar,
Um olhar que amedronta.
Escuridão, trevas.
Assim ficamos sem entender,
Viciada nesse desejo,
Vejo minha vida se perder.

Suas asas são negras.


Meu anjo, te desejo!
Seu sorriso queima.
Meu anjo, te anseio!
Teu amor destrói.
Te tocar eu preciso!

Sim, sou tua, me entrego,


Anjo negro das trevas.
Rei do meu submundo,
E o medo que me destrói.
É o que agora enfrento,
Não tenho medo de você,
Nem medo da sua alma,
Medo do que sinto,
Medo do amor...
Amor que me acalma.

256
Exodus – Catherine Parthenie

Capítulo 33 – Renascendo.
-Fiquei triste, eu já estava até acostumando-
me a idéia de ser papai e você mamãe – brincou
Persis.
-Vai se catar. Melhor, pare o carro, faça sexo
com uma humana e terás seu amado Persinho.
-Tenho uma idéia melhor. E você fica linda
enciumada.
Nem respondi. Encostei minha cabeça no
banco macio do carro e fechei meus olhos. Em certos
momentos eu desejava poder dormir.
-Parece feliz – comentou Persis.
-Aham – respondi ainda de olhos fechados.
E eu estava mesmo. Eu tinha feito a coisa
certa. E, após conseguir minha vingança, perguntei-
me o que ganhei com tudo isso. Nada. A satisfação
passou e eles simplesmente não existiam mais.
Senti o carro de Persis parando e abri os olhos,
acreditando estar de volta a mansão. Enganei-me. Ele
levou-me até sua casa.
-És um demônio muito abusado mesmo –
protestei.
-Tudo o que aconteceu merece uma
comemoração. Tem muito vinho e gostaria de
compartilhá-lo com você.
-Tá – dei de ombros. Eu não ia dispensar
vinho e sangue.
Ele serviu-me uma grande dose em taça de
ouro.
257
Exodus – Catherine Parthenie

-Para uma rainha, como eu prometi.


-Só falta a rainha – brinquei.
Após muitas doses, muita conversa, muitas
risadas, ele ficou perto de mim. Muito perto mesmo.
-Que droga colocastes nesse vinho, Persis? –
falei baixinho.
-Nenhuma, minha rainha. Não preciso de
drogas, é você quem me entorpece.
Persis beijou-me e o desejo de ser dele
invadiu-me.
-Eu te quero, Lienne.
Deixei que ele me conduzisse, aos beijos, até
seu quarto. Retirei sua camisa e minhas mãos
passearam em seu peito nu, contornando suas
marcas de herdeiro de um trono sagrado dos
arcanjos. Meus dedos subiram até seu pescoço,
trazendo sua boca de volta para mim.
Persis, me colocou em sua cama e sentir seu
corpo sobre o meu fez a ânsia de amá-lo subir pelo
meu corpo. Permiti que ele rasgasse minhas roupas.
Eu queria ser dele, eu precisava dele.
Dois anjos nus.
Um quarto na penumbra.
O amor revelando-se.
Nos envolvemos e já não éramos mais dois
anjos, mas apenas um. Nos fundimos num amor, no
desejo que estava há muito guardado.
Eu amei cada segundo, cada movimento, cada
carícia.
O sexo dos anjos é divino.

258
Exodus – Catherine Parthenie

Chegamos ao êxtase desse ato juntos, em


sincronia, como almas gêmeas que encontravam-se
em forma de anjos.
Nossas mãos entrelaçadas.
Nossos lábios rendendo-se em beijos.
Corpos angelicais arfantes.
-Um dia entenderás – ele disse saindo de cima
de mim e deitando-se ao meu lado.
-O quê? – perguntei.
-Que eu te amo.
Eu sorri. Era hora de revelar um segredo que
eu havia descoberto e escondido desde quando meu
irmão conseguiu sua verdadeira forma.
-Eu entendo – falei sorrindo.
-Entende?
-Entendo. Eu te amo, Persis. Tinhas razão,
enganei-me com Arel. Talvez eu o ame, mas de uma
outra forma. Meu amor por você é diferente, é como
o de uma mulher pelo seu homem.
Ele riu, levou as mãos à cabeça.
-Que foi? – perguntei.
-Nada, Lienne. Eu tô feliz. Eu não imaginava
isso, achei que nunca fosses amar-me. Se não fosse
uma cena tão ridícula, eu estaria pulando.
Encostei minha cabeça em seu peito e disse:
-Mas eu te amo mesmo.
Ele abraçou-me.
-Sempre te amei, Lienne.
Será que alguma coisa poderia estragar a
perfeição desse momento? Sim, podia.

259
Exodus – Catherine Parthenie

Uma dor percorreu meu abdômem e meus


braços. Arfei e tentei levantar-me, mas Persis
prendeu-me junto à ele.
-Calma, anjinha, já vai passar.
-O que é isso, Persis? Está doendo.
-Você mesma verá. Só acalme-se, juro que vai
passar.
Ele tinha razão. A dor foi cessando aos poucos
até sumir.
-O que aconteceu comigo? – perguntei ainda
envolvida em seus braços.
-Você virou um anjo, querida – ele sussurrou
carinhoso.
-Eu já era um anjo.
Persis levantou-me com cuidado, deixando-
me de joelhos ao lado dele. Sua mão passeou pela
minha barriga e depois pelos meus braços,
acendendo novamente a brasa do desejo.
-Olhe, Lienne. Veja o que aconteceu.
Meus braços estavam marcados, assim como
meu abdômem. Eu tinha as tatuagens sagradas de
um herdeiro.
Confusa, perguntei:
-Não são apenas os filhos varões que podem
assumir a Nova Ordem?
-Filhos de quatro arcanjos. Ninguém falou
nada sobre homem ou mulher.
-Quatro filhos de arcanjos?
-Sim.
Entendi as palavras do meu pai, os quatro
herdeiros já existiam: Persis, Adramalech, Kali e eu.
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Exodus – Catherine Parthenie

Persis chamava-me de rainha, porque eu


também tinha o direito a um trono.
-Entendestes? Eu te prometi que serias minha
rainha. Eu não menti.
Ele ficou de joelhos a minha frente e segurou
meu rosto com suas mãos, beijando-me
ansiosamente, preparando-me para amá-lo
novamente.
Uma vez eu amei um anjo.
Eu despedi-me dele em meio às lágrimas.
Uma vez eu odiei um demônio.
O anjo perdeu-me.
O demônio ficou ao meu lado e amou-me.
E eu chorei... dessa vez, de alegria.

(Persis)
Mesmo que ela nunca confie em mim, mesmo
que ela me odeie, ainda assim a amarei. E tal
sentimento nunca mudará, não importa o que diga.
Pois o amor é algo eterno e transcedental.
Eu trocaria minhas asas pelo seu sorriso,
Lienne...

*Últimas frases de Persis, escritas por Krayon C.


Goldsmith e gentilmente cedidas para Exodus.

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Exodus – Catherine Parthenie

AGRADECIMENTOS:

Ao meu herói, por sempre acompanhar cada frase escrita:


Papai, eu te amo!
Para minha rainha amada, porque minha força vem de você:
Mamãe, eu te amo!
Para Sam, Brianna, Fernanda, Priscila, Marcinha, Carolis,
Gabriel, Joicy, Patricia, Nataly, Rafael, Laena, Camila e Manu –
vocês sempre me acompanham e me apoiam. Nada mais justo do
que agradecer aos leitores mais do que especiais, amigos que
sempre dão o incentivo especial.
Para um anjo... por me amar demais.
Para os leitores da comunidade, porque sem vocês eu nunca teria
coragem de terminar.
Amo todos vocês!

Catherine Parthenie.

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Exodus – Catherine Parthenie

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