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Edinéia Aparecida dos Anjos Rossi 1

Outrificação e Coisificação: Violência Psicológica e o Impacto


Psicossocial do Racismo sob a Ótica de Jogadores de Futebol
Negros
ediaarossi@gmail.com
Produção Avançada Acadêmica II – Professor João Fillipe Horr

Resumo

Este artigo tem o propósito de examinar o impacto psicossocial do racismo enquanto


violação ao princípio da dignidade humana das pessoas negras em decorrência do impacto
causado pelas injúrias, que se tornam cada vez mais comuns no futebol. Será analisada
ainda, a outrificação e coisificação do negro como violência psicológica. Para analisar essa
questão, será abordado o conceito de raça e serão apresentados casos de ofensa à
dignidade do jogador de futebol em decorrência de ataques discriminatórios durante as
partidas. Trata-se de um estudo de pesquisa bibliográfica exploratória. A busca foi
realizada nos indexadores de base latino-americana como Scielo, Pepsic e Lilacs. Essas
agressões de ordem moral têm implicações psicossociais nas vítimas, ferem o direito de
isonomia de que dispõe a personalidade humana e perpetuam o racismo.

Palavras-chave: Raça. Racismo no futebol. Coisificação. Outrificação.

Introdução

O racismo cujo impacto incide sobre a outifricação e coisificação do negro, é


uma das principais causas das injustiças e desigualdades sociais que assolam a sociedade
brasileira.
Mesmo com a redução nas demonstrações de racismo observa-se que o preconceito
perdura até o presente no futebol, manifestando-se sob a forma de abuso racial,
intimidações, discriminações e assédios por parte dos torcedores, como se fossem
ignoradas as campanhas antirracismo que se intensificaram dos anos 1990 até a atualidade.
Essa tendência veio acompanhada de inúmeras investigações relacionadas à
extensão e à intensidade das demonstrações racistas no futebol, embora existam poucas
análises acadêmicas orientadas à análise da eficácia das estratégias antirracistas nessa
modalidade esportiva.
As injúrias raciais cometidas no futebol afetam a capacidade que o negro tem em
se constituir como indivíduo, já que esse tratamento racista o excluí do seu corpo social,
como se essa animalização violentasse sua existência ao imortalizar o racismo.
Diante de tais circunstâncias questiona-se: Qual a responsabilidade social
subjacente na formação de indivíduos que desconhecem a questão racial? Tal
procedimento pode ser um dos fatores que reforçam as atitudes discriminatórias, e
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consequentemente, o racismo.
Esse estudo defende a hipótese de que a negação do negro como humano gera
violência psicológica e perpetua o racismo.
Com base nesse entendimento, um dos objetivos desse estudo consiste em,
provendo embasamento teórico, preencher um pouco dessa lacuna para que possam ser
acessadas as respostas dos torcedores em face das manifestações explícitas de racismo no
futebol, durante as partidas e posteriormente nas redes sociais.
Por derradeiro almeja-se analisar o impacto psicossocial do racismo, causado pelas
injúrias raciais no futebol, que desencadeiam um processo de "coisificação e
"outrificação" do negro, constituindo violência psicológica que afronta o princípio da
dignidade da pessoa humana.
Para isso, é necessário analisar de que forma os jogadores negros são vítimas de
racismo no futebol, que no caso específico do Brasil, ocorre em detrimento da condição
que caracteriza a formação étnica do país.
Considerando-se que a identidade nacional brasileira se fundamenta fortemente na
cultura do futebol, havendo, o racismo manifestado no comportamento dos torcedores,
resulta de uma cultura institucionalizada desse esporte.
A divulgação feita pela mídia reflete exatamente o comportamento dos times de
futebol em relação ao assunto em comento. E no intuito de colocar essa análise em xeque,
ressalte-se que há diferentes formas de racismo evidenciadas na atualidade, especialmente
no futebol, seja ele na modalidade profissional ou não.

Método

Do ponto de vista metodológico, O estudo é embasado por referências


bibliográficas e pela análise de notícias sobre incidentes que repercutiram divulgados pela
mídia.
As bases indexadoras eletrônicas que são utilizadas neste estudo são as seguintes:
Scielo, Pepsic e Lilacs. E a coleta de dados foi orientada por um roteiro semiestruturado,
que consistiu no pré-projeto desse trabalho, especialmente no que se refere aos objetivos
propostos.
Sendo assim, a presente pesquisa analisou a outrificação e coisificação do negro
como violência psicológica e o impacto psicossocial do racismo sob a ótica de jogadores
de futebol negros, a partir de episódios de injúria racial veiculados pela mídia.
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Para tal análise foi utilizado o método de pesquisa bibliográfica exploratória,


ancorada numa abordagem qualitativa para a identificação da natureza dos dados
coletados, visto que tal recurso permite a compreensão sobre os temas específicos.

Segundo Minayo (1992), a pesquisa qualitativa aprofunda o significado e a


intencionalidade e que, a rigor, qualquer investigação social deveria contemplar
o aspecto qualitativo que trazem para o interior da análise o subjetivo, o
objetivo, os atores sociais, os fatos e significados, trabalha o caráter de
antagonismo, de conflito entre grupos sociais, permite aprofundar o caráter
social, as dificuldades de construção do conhecimento e responde a questões
muito particulares de pesquisa. Além disso, a pesquisa qualitativa se preocupa
com realidades que não podem ser quantificáveis, pois lida com o universo de
significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, fenômenos esses
que não podem ser compreendidos por meio de operacionalização de variáveis,
equações ou médias estatísticas.

Essa pesquisa se deu por meio de coleta de informações disponibilizadas em


depoimentos dos jogadores submetidos à injúria racial, que repercutiram pela mídia
(Globo Esporte, Folha de São Paulo, Carta Capital, Observatório da Discriminação Racial
no Futebol). O uso dessas matérias colabora significativamente com a pesquisa,
permitindo a análise e as considerações, de acordo com objetivos previamente
estabelecidos, de modo que se possa observar os fatos tal como ocorrem.

A Dicotomia do Conceito de Raças

Há vertentes que consideram as raças construções ideológica sem validade


ontológica. Contudo, o emprego desse conceito é inadequado, mesmo no contexto de
discussão mais positivo sobre o assunto, quando se aborda o antirracismo.
Ao basear a discussão ao redor das ideias de raça, a impressão que se tem é de que
o assunto parece simplesmente reforçar o senso comum dominante das ideias de distinção
entre raças, com toda a herança discriminatória e bagagem estereotípica que elas carregam
(MUNANGA, 2014).
O conceito de raças não tem embasamento científico e, contudo, ele vem sendo
usado para tentar afastar o debate das noções de raça, fazendo o foco incidir mais ainda no
processo do racismo e da discriminação:
As "raças humanas" seriam determinadas pela cor da pele e características
físicas, associadas a origem social dos indivíduos, mas que caiu em desuso pela
comunidade científica. Estudos genéticos já provaram que não existem
subgrupos de humanos, sendo errado classificar negros, asiáticos, indígenas ou
outros grupos enquanto diferentes raças. A abordagem antropológica e
sociológica da questão estabelece que os diferentes grupos entre humanos são
etnias, e apresentam diferenças fenotípicas, como a cor de pele. (...)Enquanto
que a noção social de raça caiu em desuso, um sinônimo mais adequado da
palavra seria cor. Por exemplo, ao invés de usar "a raça negra sofre preconceito
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no Brasil", usa-se "as pessoas de cor negra sofrem preconceito no Brasil". (...) O
conceito de raça biológico é melhor aplicado aos animais, como os gatos e
cachorros. O cachorro, por exemplo, é uma subespécie dos lobos, e as raças são
as categorias posteriores. Algumas das raças de cachorro mais populares são
Pug, Beagle, Akita, Golden Retriever e Maltês. Todos apresentam diferenças de
aparência entre eles, sendo alguns de pelo longo, outros curto, olhos azuis ou
pretos, de pequeno ou grande porte, entre uma infinidade de características
genéticas que compõem cada raça canina (MUNANGA, 2014).

Em outras palavras, usar padrões teóricos que empregam o conceito de raça para
combater o racismo, é uma atitude que simplesmente reforça a diferenciação racial e entre
os diferentes grupos.
A ação entre os grupos não causa necessariamente prejuízo e aumento da divisão,
pelo uso de termos como “raça”. O conceito de raça deveria ser usado como método para
desafiar as políticas discriminatórias racistas e suas práticas, como se fosse uma estratégia
essencialista (MUNANGA, 2014).
Considerando-se que a ideia de raça existe no discurso político e no popular, ele
pode ser utilizado estrategicamente dentro de um contexto de desenvolvimento, em
estratégias antirracistas, à medida que se compreenda a necessidade de que sejam
desenvolvidas políticas pertinentes.
Por isso, dilemas envolvendo a análise do racismo e do antirracismo dentro de uma
estrutura que inclui debates sobre raças, são efetivos à medida que se compreende que tais
ideias, por si só, não implicam exclusão e discriminação, embora não se possa evitar que
se façam tais associações e debates críticos sobre as ideias referentes à raça.
Esse ponto de partida não pode ocorrer com base em uma ótica de racialização
problemática, porque oferecerá o fundamento que viabilizará o reconhecimento da
realidade das circunstâncias sociais que, por sua vez, habilitarão e permitirão a propagação
de ideias e noções corretas sobre o conceito de raça. Assim procedendo, contudo, e esse é
o ponto crucial, adotar-se-á uma posição crítica em relação ao conceito de raça, cujo
reflexo incidirá com ênfase central sobre esse fundamento.
Convém salientar que as ideias e estereótipos se desenvolveram em relação ao
conceito de raça dentro de um contexto particular de formação social.
Sob essa perspectiva, o foco do debate eleva-se para além do conceito de raça e de
relações raciais e aproxima-se da natureza e do processo de heterogeneidade
(MUNANGA, 2014).
É essencial que se reconheça que as instituições políticas e sociais estão permeadas
por ideias sobre distinção entre as pessoas que lei considera iguais e que uma visão
equivocada desse conceito pode ser destrutiva para as pessoas negras, em especial porque
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estão presentes como corrente principal e não secundárias da sociedade.


A racialização surge dos processos, das estruturas e das instituições resultantes.
Quando analisado, o processo de racialização se deixa transparecer crenças sobre raças e
suas relações têm mais a ver com atitudes, ações, motivações e interesses dos grupos de
poder na sociedade, e menos a ver com as características, atitudes e reações daqueles
definidos como pertencentes a uma raça considerada inferior (MUNANGA, 2014).
A natureza multidirecional, inconsistente e imprevisível do racismo no futebol
deve ser reconhecida por aqueles que estão tentando compreender e desafiar essa atitude
destrutiva denominada preconceito. Então, as ideias antirracistas e políticas poderão ser
efetivamente influenciadas pela compreensão das dinâmicas do processo de racialização.

Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, Isonomia e Criminalização do Racismo

É justo como forma de reparação devolver às pessoas negras o direito ínsito de


serem reintegrados à sociedade com a dignidade e isonomia devida, direito esse que lhes
foi tirado pelos sistemas escravagistas e suas bagagens ideológicas. É um dever social
impedir que sejam feridos em sua dignidade humana e isonomia. Nas linhas seguintes
discorreremos sobre o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, a Isonomia perante a lei
e a criminalização do racismo no Brasil.

Racismo: Ofensa ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana

A raiz etiológica da palavra dignidade é proveniente do latim dignus, aquele que


merece honra, que é importante (SARLET, 2004).
O conceito de dignidade é sustentado pela filosofia estoica, que defende a
existência de princípios morais, universais, eternos e imutáveis inalienáveis que originam
os direitos fundamentais. Com base nesse conceito, o ser humano dispõe de liberdade e
igualdade relativamente à dignidade de que está imbuído (SZANIAWSKI, 2005).
A Declaração Universal dos Direitos do Homem aprovada pela Assembleia Geral
das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1848, constitui o mais efetivo sistema de
valores fundamentado no princípio da dignidade humana (BOBBIO, 1909).
A conceituação axiológica de “dignidade da pessoa humana” pressupõe a vida
como condição objetiva, embora seja inegável seu embotamento à medida que nos
deparamos com a questão da discriminação racial (BRASIL, 2018).
A dignidade consiste no direito básico à intangibilidade da vida humana, em todas as suas
acepções, enquanto preceito jurídico absoluto e um imperativo categórico, tutelado pela
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Constituição Federal (VENOSA, 2003).


Pressuposto filosófico do regime jurídico civilizado das sociedades democráticas, o
princípio da dignidade da pessoa humana é fundamentalmente um conteúdo que na prática
não é observado, uma espécie de axioma da civilização ocidental (BARCELLOS, 2002).
A tutela dada ao ser humano pelo direito geral de personalidade não atingirá
somente os atributos do ser humano nos aspectos materiais são patrimoniais (como no
sistema de proteção do direito civil), mas atingirá, sobretudo, os atributos do ser humano
sob o aspecto moral (SZANIAWSKI, 2005).
Assim, a lesão ou ameaça de lesão aos atributos da personalidade humana de tal
ordem importante para o novo ordenamento jurídico de matriz constitucional que o
simples fato da lesão ou sua ameaça já faz mover-se o sistema jurídico em defesa da
personalidade agredida de forma real o potencial, independentemente de haver a
constatação de dano à personalidade humana: o simples atentado a ela já é um ilícito,
entendendo ilícito por "todo comportamento humano, todo o ato de terceiro que provoque,
por qualquer modo, perturbação aos bens da personalidade de outrem, mediante a violação
dos direitos que a protegem” (SZANIAWSKI, 2005).
É essencial a tutela dada pelo ordenamento à dignidade da pessoa humana. Em seu
artigo 5º, a Constituição Federal positivou os direitos e garantias fundamentais gerais do
ser humano. O racismo constitui-se como dano moral, pois atinge os direitos
personalíssimos do indivíduo. (BRASIL, 2018).
Toda a alteração situacional que ocasiona prejuízo de alguma ordem ao indivíduo
constitui-se como dano, podendo ser de natureza material ou imaterial. O dano ao
patrimônio imaterial ou moral do indivíduo é cometido contra o conjunto de bens
intangíveis, incidindo sobre os direitos da personalidade. É, portanto, indenizável, ainda
que não resulte em alterações psíquicas na vítima (VENOSA, 2003).

A Igualdade ou Isonomia: Perante a Lei Todos São Iguais

O princípio de isonomia originou o direito de igualdade. Em consonância com esse


principio ninguém será submetido a tratamento discriminatório e arbitrário, sendo
intoleráveis a escravidão, a discriminação racial, perseguições em virtude de motivos
religiosos, etc. Mas de onde provém a noção equivocada de preconceito racial, social,
cultural, senão da própria diferenciação materializada na Constituição? Desta sorte,
eventualmente a lei concretiza a diferença racial.
O conceito de que perante a lei todos são iguais foi há muito subvertido, haja vista
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que as diferenças são percebidas com maior intensidade, elidindo com o Principio da
Isonomia. Nisso verifica-se a hipossuficiência e vulnerabilidade das pessoas negras
(MORAES, In: SARLET, 2004).

A Criminalização do Racismo

Segundo definição extraída do site do Conselho Nacional de Justiça – CNJ, a


injúria racial consiste em ofender a honra de alguém se valendo de elementos referentes à
raça, cor, etnia, religião ou origem, o crime de racismo atinge uma coletividade
indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça, ou seja, a
própria subjetividade do sujeito.
O crime de injúria racial (injúria qualificada pelo preconceito de raça) está previsto
no artigo 140, parágrafo 3º, do Código Penal, que estabelece a pena de reclusão de um a
três anos e multa, além da pena correspondente à violência, para quem cometê-la, sendo a
prescrição de oito anos.
Considerando-se que o racismo implica conduta discriminatória dirigida a
determinado grupo ou coletividade e, geralmente, refere-se a crimes mais amplos, cabe ao
Ministério Público a legitimidade para processar o ofensor. O crime de racismo é
inafiançável e imprescritível, sujeito a reclusão, e está previsto no artigo 5º da
Constituição Federal, na Lei nº 7.716 de 05 de janeiro 1989 (Lei do Crime Racial).
Embora a lei enquadre uma série de situações como crime de racismo, nos casos
mais amplos, cabe ao Ministério Público a legitimidade para processar o ofensor. E ainda
que haja essa diferenciação legal, os estudiosos sobre o tema entendem a injúria racial
como racismo.

O Racismo no Futebol: Elisão da Dignidade e da Isonomia do Jogador Negro

O Brasil é um país onde o racismo se manifesta de forma tácita, embora mais da


metade da população seja constituída por pessoas negras. É, portanto, inegável que a
marca da raça tornou-se indelével na identidade do país, perpetuada na cultura do samba e
futebol (GUIMARÃES, 1999; LEVINE, 2005).
Assim, no futebol brasileiro, as manifestações racistas, que antes constituíam casos
isolados, estão se tornando cada vez mais frequentes. Essa tendência à discriminação
racial no futebol brasileiro parece ter sido importada da Europa e da América do Norte
(GUIMARÃES, 1999; LEVINE, 2005).
Quando nossos jogadores são contratados para jogar em times Europeus ou dos
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EUA são submetidos a comportamento abusivo de ordem racista, o que induz à


compreensão de que o racismo é um comportamento global, que causa sofrimento
emocional e fere a dignidade humana (GUIMARÃES, 1999; LEVINE, 2005).
Ao que tudo indica, tornou-se uma tendência do momento manifestar o sentimento
racista no futebol por meio de músicas cantadas pelos torcedores, ou pelo ato de jogar
bananas no campo, imitar macacos, entre outras manifestações preconceituosas, sendo tais
abusos cometidos não apenas por um, mas por centenas de indivíduos preconceituosos.
Evitar as diversas formas de manifestações do racismo em partidas de futebol,
como as que foram descritas nas linhas acima, têm sido um desafio durante a última
década. Na verdade, o combate ao racismo nessa modalidade esportiva intensificou-se
desde 1990, quando houve uma conscientização relativa sobre implicações psicossociais
de tais afrontas à dignidade humana (GUIMARÃES, 1999; LEVINE, 2005).
De fato, desde as campanhas pela comissão de igualdade racial, iniciadas entre
1993/94 a questão do racismo no futebol tem recebido emérito destaque. Conferências e
seminários referentes ao assunto, assim como artigos publicados e divulgados na televisão
e no rádio, destacam a gravidade do problema, no intuito de reduzir seus efeitos danosos.
Em 1998, foram publicados na Europa resultados de estudos sobre os impactos
sociais e psicológicos causados pelo racismo no futebol, em um artigo que continha
aproximadamente trinta reivindicações por atitudes de combate ao preconceito racial.
Nos últimos dez anos, a indústria do futebol, no Brasil e no exterior, vêm passando
por uma espécie de renascimento, em virtude de programas antirracistas, e paralelamente
vem noticiando eventos racistas no intuito de combatê-los, embora muitas vezes pareçam
surtir o efeito contrário. Analogamente, os clubes vêm sendo orientados a enfatizar o
conforto e a segurança dos espectadores. O interesse da mídia pelo assunto nunca foi tão
elevado como agora (GUIMARÃES, 1999).
O futebol profissional tornou-se um grande e rentável negócio, para o qual
convergem as melhores mídias. Talvez por esse motivo o mais alto índice de incidentes
racistas ocorra na modalidade profissional.
Essa tendência ao racismo no futebol torna-se uma espécie de paradoxo quando se
considera que o futebol, adquire um aspecto democrático com o passar dos anos que não
se imaginava pudesse ser atingido. Essa afirmativa deve-se ao fato de que, do ponto de
vista cultural, houve mudanças no perfil do público interessado no futebol, que passou a
incluir mulheres entre os torcedores, demonstrando que o paradigma de mudanças chegou
às instâncias desportivas para causar transformações contundentes. A exclusão das pessoas
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negras, contudo, ainda é uma realidade que destoa da aparente democracia inclusiva
desportiva (LEVINE, 2005).
Dessa forma, salienta-se que a violência e a agressividade de ordem étnica
mantiveram-se incólumes nos estádios, apenas deslocando-se parcialmente para outros
lugares, o que causa a falsa impressão de que essa doença chamada racismo foi curada.
Outra característica do futebol no período culturalmente transitório constituído
pelo século XXI refere-se ao aumento do poder de influência dos torcedores, que passaram
a desempenhar um papel mais ativo em relação às partidas de futebol.
É importante ressaltar a perspectiva histórica do racismo no futebol, no qual
podem ser observados inúmeros incidentes à medida que o assunto é segmentado com
atenção (GUIMARÃES, 1999; LEVINE, 2005).
A questão da identidade cultural nacional é apontada como um dos fatores que, em
última instância, condicionariam a isonomia entre torcedores e jogadores brasileiros
quando jogam em casa, a despeito da formação identitária de nosso povo.

Manifestações Explícitas de Racismo no Futebol

O racismo no futebol é um fenômeno complexo que se manifesta ao longo do jogo


e após, inclusive nas redes sociais. Contudo, muitos times de futebol reivindicam a
redução do nível de racismo nas partidas.
Torcedores de clubes de futebol europeus relataram ter testemunhado comentários
racistas direcionados aos jogadores estrangeiros e ouviram abusos verbais direcionados a
torcedores provenientes de outros países, especialmente os com prevalência de etnia
negra. A complexidade das manifestações de racismo precisa ser considerada, para
impedir que tais eventos perniciosos sejam uma característica do futebol (GUIMARÃES,
1999).
O racismo nos campos de futebol parece ter se tornado uma moda intermitente.
Epítetos e slogans racistas são invocados em contextos específicos e servindo a funções
particulares, de modo que uma partida de futebol pode estar caracterizada por uma
atmosfera de circunstâncias apropriadas a uma explosão de atividades racista ou
transcorrer sem nenhuma manifestação dessa natureza.
Essa atmosfera racista estava presente, por exemplo, em novembro de 1997, na
partida entre Hereford United e Brighton e Hove Albion, time que havia estado na liga de
futebol na temporada anterior. Durante o aquecimento antes da partida, jogadores negros
foram submetidos a tratamento racista, por parte de jogadores do time oponente, o que
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pode ter sido uma estratégia de intimidação.


O racismo em massa manifestado por parte dos torcedores é sempre relatado em
partidas de futebol. Essa manifestação generalizada causa um efeito psicológico
extremamente ofensivo e traumático ao sujeito alvo da ofensa. Um de seus objetivos mais
óbvios consiste em criar um ambiente em que clubes constituídos por jogadores negros
bem-sucedidos, deixem de atrair torcedores negros às arquibancadas (LEVINE, 2005).
É o que de fato ocorre, haja vista que o medo de sofrer ataques racistas ou qualquer
tipo de abusos está presente também nos torcedores de etnia negra, temor que eles
demonstram quando questionados sobre o assunto. Muitos relatam que não querem sentir-
se deslocados e, por esse motivo, evitam frequentar partidas de futebol em que prevalecem
torcedores brancos.
As manifestações racistas nas partidas de futebol são geralmente demonstradas
pelo fato de os torcedores que dirigem ofensas a jogadores negros de times oponentes
apresentarem o mesmo comportamento em relação aos jogadores negros de seu próprio
time, o que é relatado com frequência. Inúmeros incidentes ilustram que a aceitação de
jogadores e torcedores negros por torcedores brancos independe do time em prol do qual
estão jogando (GUIMARÃES, 1999).
Eventualmente, a etnia de jogadores membros é aceita à medida que os limites da
inclusão são remodelados, porém, observa-se que os mesmos indivíduos que outrora
aceitaram a inclusão, podem dirigir comentários ou atos de ordem racistas, em ocasiões
adversas.
Esse fenômeno enfatiza quão inútil tem sido a vertente teórica que aborda a
racionalização, destacando a natureza contraditória e incoerente do racismo presente no
ambiente desportivo do futebol.
O racismo nos jogos profissionais de futebol tem recebido muita atenção nas
últimas décadas. Contudo, o preconceito racial que ocorre nos níveis menos profissionais
não tem recebido a devida notoriedade por parte da mídia e poucos estudos e acadêmicos
também (LEVINE, 2005).
Tais manifestações têm se tornado cada vez mais frequentes e mais violentas do
que as testemunhadas no futebol profissional. Um ex-jogador amador, ao relatar suas
experiências pretéritas quando jogava na Inglaterra, mencionou que enquanto viajavam
por cidades pequenas do país sofreu terríveis abusos de ordem racista, motivo por que
odiava se deslocar até esses lugares. Em tais cidades pequenas raramente eram vistas
pessoas negras, manifestações de racismos eram terríveis e insuportáveis (LEVINE,
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2005).
Exemplo disso pode ser visto na partida de futebol mencionada a seguir:
Durante uma partida da Copa do Brasil, (...) em Porto Alegre, torcedores do
Grêmio xingaram o goleiro Aranha, do Santos, com palavrões de cunho racial. O
jogador foi chamado de “macaco” e “preto fedido” por alguns gremistas. Aos 42
minutos do segundo tempo, Aranha reclamou com o árbitro Wilton Pereira
Sampaio sobre as agressões. O juiz, porém, mandou a partida seguir. (...) o
goleiro registrou boletim de ocorrência em Porto Alegre, afirmando que quatro
pessoas estavam envolvidas nos xingamentos1.

Pode-se notar que se trata de um fenômeno global à medida que o preconceito se


manifesta em times de futebol de diferentes nacionalidades. Um dos ataques mais
agressivos que ganharam publicidade na mídia foi dirigido aos membros de um time
constituído predominantemente por jogadores asiáticos que jogavam em um time da
região leste de Londres (LEVINE, 2005).
Em uma partida em novembro de 1998, contra oponentes do Romside, após sofrer
ofensas racistas nos trinta minutos do primeiro tempo, nos minutos subsequentes o time
recebeu ataques físicos que resultaram na hospitalização de alguns jogadores (LEVINE,
2005).
Esse evento não foi, de modo algum, um caso isolado, haja vista que outros
ataques racistas têm sido relatados por jogadores e times amadores asiáticos em virtude da
cor de sua pele.
Em face das evidências de agressões racistas a reação de associações futebolísticas
tem sido criticada por serem relutantes em punir os clubes constituídos por jogadores
racistas (GUIMARÃES, 1999).
Essa crítica é extensiva a questões de racismo institucional em alguns órgãos
associados a organizações de futebol. Os debates mais intensos envolvendo racismo
institucional receberam destaque após a morte de adolescentes negros depois de uma
partida de futebol, o que trouxe uma nova definição para o racismo institucional
(GUIMARÃES, 1999).

Outrificação e Coisificação: Violência Psicológica e Impacto Psicossocial do Racismo

No Brasil, o racismo teve início no período colonial, com a importação de


escravos africanos. Os portugueses trouxeram os primeiros negros, vindos principalmente
da região onde atualmente se localizam Nigéria e Angola. Em 1888, quando assinada a
Lei Áurea que decretava a abolição da escravatura, não foram feitas leis para a inclusão
dos negros na sociedade, nem projetos de assistência para que essa população tivesse
1 Disponível em: http://www.dw.com/pt-br/futebol-racismo-e-o-mito-da-democracia-racial/a-17895600
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acesso a condições básicas, de modo que continuaram a ser tratados como inferiores, com
traços de cultura e de religião marginalizados, o que ocasionou inúmeros problemas de
ordem biopsicossocial aos negros, problemas esses que perduram até a atualidade.
A coisificação dos negros que ocasiona a perda identitária no plano psicológico foi
abordada com clareza por Schwarcz (1996), em “Ser peça, ser coisa: definições e
especificidades da escravidão no Brasil” obra que faz alusão ao que pode estar na origem
da constituição social do negro:

É reconhecido um documento que orienta os proprietários na compra ‘novas


peças’ e alerta para o perigo de calotes. Assim aconselha o Manual do
Fazendeiro ou Tratado Doméstico sobre as Enfermidades, escrito em 1839 por
I.B.A. Imbert: “Circunstâncias a que se deve orientar toda pessoa que deseja
fazer uma boa escolha de escravos: pele lisa, não oleosa, de bela cor preta,
isenta de manchas, cicatrizes ou odores demasiados fortes; com as partes
genitais convenientemente desenvolvidas: isto é, nem pecasse pelo excesso,
nem pela cainheza; o baixo-ventre não muito saliente; nem o umbigo muito
volumoso; peito comprido, profundo, sonoro, espáduas desempenadas, sinal de
pulmões bem colocados; pescoço em justa proporção com a estatura, carnes
rijas e compactas; aspecto de ardor e vivacidade: reunidas ter-se-á um escravo
que apresentará ao senhor todas as garantias desejáveis de saúde, força e
inteligência.” (SCHWARCZ, 1996, p. 14).

Nascimento (2003, p. 162) encontrou indícios em documentos da época de que a


crença vigente no século XVIII era de que o macaco e o negro seriam seres atrasados, e
que o símio assemelha-se aos seres mais inferiores de nossa espécie. Assim, além de
submetidos a um processo de coisificação, ao serem tratados como mercadorias vendáveis,
os negros submetem-se ainda à inferiorização de sua raça, como se constituíssem outra
espécie, diferente do homo sapiens, sendo eles rebaixados às espécies simiescas.
Assim, observa-se que ao longo de muitos séculos, os povos africanos não eram
considerados sujeitos, portanto, não tinham subjetividade, não fazendo parte da categoria
de humanos. Eram considerados animais ou objetos que podiam ser mensurados,
amansados, contidos pela verdadeira racionalidade.
Em face de tal violência psicológica sofrida, sinaliza-se para o âmago da questão
racial na história, de modo a identificar a forma como o saber psicológico se constitui
tanto nos negros, vítimas de tais afrontas, quanto na própria sociedade que os submete a
tal tratamento aviltante.
O processo de identificação psicológico dos negros é composto e fortemente
marcado pela violência racista e a forma como eles costumam ser pensados, causa marcas
psicológicas indeléveis, conforme comentário de Jurandir Freire Costa (1984):
Ser negro é ser violentado de forma constante e contínua e cruel, sem pausa ou
repouso por uma dupla injunção: a de encarnar o corpo e os ideais de Ego do
sujeito branco e a de recusar, negar e anular a presença do corpo negro
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(COSTA, 1984, p. 104).

O conceito de coisificação do ser humano está associado à invisibilidade.


Primeiramente, considerar um ser humano como objeto ou coisa significa atribuir a ele a
mesma importância que se dá as coisas que se encontram ao redor, que passam
despercebidas, imbuídas do atributo de ser invisíveis, ainda que tangíveis.
O que se apresenta como retrato incompleto do burguês pós-colonial e associado
ao intelectual metropolitano é a prevalência de seu desejo pelo outro, ou seja, uma
necessidade de fixar a diferença cultural em um objeto abrangível, visível. O desejo pelo
outro é duplicada, porque nenhuma das partes é autossuficiente a uma luta antagônica e
epistemológica e relativamente ao conhecimento do outro, e sua representação no ato da
articulação e da enunciação.
O conceito de coisificação das pessoas negras pode ser observado no fragmento
abaixo extraído da obra "Pele negra, máscaras brancas", de Fanon (1986):
Então, atacado em diversos pontos, o esquema corporal desmoronou, seu lugar
tomado por um esquema racial epidérmico... já não era uma questão de estar
consciente do meu corpo na terceira pessoa, mas em uma pessoa tripla... eu era
responsável por meu corpo, por minha raça, por meus ancestrais (FANON,
1986).

Essa identificação binária é uma espécie de reflexo do Um no Outro, confrontados


na linguagem do desejo pelo processo psicanalítico de identificação, cuja representação é
sempre temporalmente adiada.
Relativamente a concerne insignificância atribuída às pessoas negras, convém
destacar o fragmento abaixo extraído da obra de um poeta de Bombaim (JIN, 1990), que
reflete a condição dos negros na atualidade:
“Um dia aprendi uma arte secreta, invisibilidade, era seu nome. Acho que
funcionou, pois ainda agora vocês olham, mas nunca me veem. Só meus olhos
ficaram para vigiar e assombrar e transformar seus sonhos em caos” (JIN,
1990).

A alienação cultural incide sobre Ambivalência da identificação psíquica. O


homem negro quer o confronto objetificador com a alteridade. O lugar do Outro não deve
ser representado, como um ponto fenomenológico fixo oposto ao Eu, que Apresente uma
consciência culturalmente estrangeira. O Outro deve ser visto como negação necessária de
uma identidade primordial-cultural ou psíquica-que introduz o sistema de diferenciação
que permite ao cultural ser significado como realidade linguística, política, simbológica,
histórica.
Se o sujeito do desejo nunca é simplesmente um "Eu mesmo", então, um Outro
nunca é simplesmente um " aquilo mesmo", uma frente de identidade verdade ou equívoco
Edinéia Aparecida dos Anjos Rossi 14

(FANON, 1986).
Para que haja a verdadeira igualdade é necessária uma cultura internacional,
baseada não no exotismo do multipluralismo ou na diversidade de culturas, mas na
inscrição e articulação do hibridismo da cultura (BHABHA, 2005).
As pessoas negras hoje habitam um espaço intermediário, ou seja, encontram-se
em um entre-lugar social, estranhos em seu ambiente, permanentemente estrangeiro em
seu próprio país, o que caracteriza absoluta despersonalização. Nisso consiste a alienação
absoluta da pessoa (BHABHA, 2005).
A alienação do negro em seu próprio ambiente, traz a realidade psicológica
compatível com a anulação de si próprio, conforme pode ser observado na citação abaixo
de Fanon, na obra "Pele negra, máscaras brancas":
Um peso desconhecido me oprimia no mundo branco o homem de cor encontra
dificuldades no desenvolvimento de seu esquema corporal... eu era atacado por
canibalismo, deficiência intelectual, fetichismo, deficiências faciais...
transportei-me para bem longe de minha própria presença... o que mais me
restava senão uma amputação, uma excisão, uma hemorragia que me manchava
todo o corpo de sangue negro. (FANON, 1986, p. 73)

A presença negra através da narrativa representativa do conceito de pessoa


ocidental faz adução a seu passado amarrado e a traiçoeiros estereótipos de primitivismo e
degeneração, que jamais produzirá uma história de progresso civil, um espaço para a
inserção social. Seu presente, desmembrado e deslocamento, não conterão a imagem
questionada na dialética mente/corpo e resolvida da epistemologia da aparência e
realidade. Os olhos do homem branco destroçam o corpo do homem negro e nesse ato de
violência epistemológica seu próprio quadro de referência é transgredido, e seu campo de
visão perturbado (BHABHA, 2005).
Ao articular o problema da alienação cultural, questiona-se radicalmente a
formação da autoridade individual com a social na forma como se desenvolvem no
discurso da soberania social. As virtudes sociais da racionalidade histórica, da coesão
cultural, da autonomia da consciência individual, assumem uma identidade imediata,
utópica, com os sujeitos aos quais conferem uma condição civil (BHABHA, 2005).
O conceito de diferença étnica concentra-se no problema da ambivalência da
autoridade cultural: a tentativa de dominar em nome de uma supremacia étnica e cultural
que se produz somente no momento da diferenciação (BARTHES, 1972).
O que é frequentemente chamado de alma negra é um artefato do homem branco,
que revelam profunda incerteza psíquica, representações fendidas são o palco da divisão
entre corpo e alma encena o artifício de uma divisão que atravessa a frágil pele - negra e
Edinéia Aparecida dos Anjos Rossi 15

branca - da autoridade individual e social, conforme retrata o fragmento seguinte referente


às condições psicoemocional (FANON, 1986).
Quando encontra resistência do outro, a autoconsciência passa por uma
experiência de desejo... a fim que passo a desejar, peço para ser considerado.
Não estão simplesmente aqui e agora, selado, coisificado. Eu sou a favor de
outro lugar e de outra coisa. E exige que se tome conhecimento de minha
atividade mediadora na medida em que persigo boa algo que não a vida... que o
ocupavam espaço. Movia-me na direção do outro... em outra evanescente,
hostil, mas não opaco, transparente, sem estar lá, desapareceu. Náusea.
(FANON, 1986, p. 86)

Análise e Discussão dos Dados

A intenção primordial desse estudo foi analisar o processo de outrificação e


coisificação como violência psicológica e impacto psicossocial do racismo. Essa análise
foi realizada sob o viés dos jogadores de futebol negros porque as manifestações de injúria
racial no futebol são evidentes e geralmente atingem notoriedade na mídia, ao passo que a
injúria a que são submetidas as pessoas comuns, são sofridas tacitamente, e não ganham
notoriedade, motivo porque muitas vezes parecem inverídicas quando mencionadas.
Diante disso, a prática psicológica não pode ser omissa à questão racial, e a
produção de trabalhos voltados a essa questão devem contribuir para uma escuta
psicológica mais sensível e qualificada para tal. Nessa perspectiva, Nascimento (2003, p.
184) refere-se a um saber psicológico que procura ser universal, ou não consegue enxergar
a questão racial, ou resiste em reconhecer a especificidade, por exemplo, de uma
abordagem “afro-brasileira”. O psicólogo, sendo negro ou não, precisa através de seu
conhecimento teórico e prático ser capaz de acolher a demanda.
Diante da invisibilidade da violência contra os negros, a produção de
conhecimento que aborde a questão racial é crucial. Para a sociedade, estudar o racismo é
necessário para que se possa compreender seus desdobramentos e para que não haja mais
marginalização, inferiorização, discriminação, ignorância, desrespeito, em decorrência da
cor de pele.
Com base no que foi abordado sobre racismo no futebol, é possível afirmar que a
realidade do nosso tempo é cada vez mais caracterizada por processos rápidos e constantes
de mudança, em que há uma "multiplicidade de vozes" que não permitem qualquer
construção de significado (HERMANS, DIMAGGIO, 2007), em virtude da erosão gradual
das certezas cujos discursos baseiam-se em um passado sangrento e doloroso que deu
embasamento para a construção da identidade brasileira. Somos uma cultura forjada a
ferro e fogo sobre os pilares sofridos das culturas negra e indígena. Tornamo-nos o país do
Edinéia Aparecida dos Anjos Rossi 16

samba e do futebol, influências de nossos antepassados provenientes dos países africanos.


Assim, se o problema com que se deparava a raça negra consistia em construir uma
identidade e mantê-la sólida e estável ao longo do tempo no Brasil, esse desafio
inegavelmente foi vencido, e a questão crucial passou a ser deixar abertas todas as
possibilidades diante do racismo tácito ou revelado com que se deparam os negros, ainda
hoje num país em que prevalece a própria etnia negra (BAUMAN, 1999). As vozes
discursivas de países tipicamente racistas não podem ecoar mais alto que o sangue negro
correndo nas veias da maior parte do povo brasileiro.
A incerteza, a aceleração e a fragmentação que caracteriza o desenvolvimento
social deste "segundo contexto da modernidade", estão produzindo mudanças
significativas na construção biográfica dos indivíduos negros, no compromisso de
estabelecer o controle sobre a dimensão temporal de suas vidas (LECCARDI 2005) e na
função de uma reorganização do próprio ser.
Os efeitos do racismo no futebol estendem-se para além das partidas, deixando
marcas indeléveis nas vítimas do preconceito e perpetuando uma condição de
inferioridade que traz a lume uma bagagem de sofrimento físico e psicológico. Vários
estudos militam a favor de uma melhor capacidade de adaptação social às pessoas da raça
negra para que em decorrência dos abusos raciais sofridos apresentem condições
biopsicossociais altamente diferenciadas e complexas (BURKE, & TULLY, 1977;
HOELTER, 1985; STRYKER, 1987, etc.).
Contudo, verifica-se que as pessoas da raça negra apresentam uma formação
psicológica multidimensional, caracterizada pela complexidade na autorrepresentação, que
modera o impacto negativo de eventos estressantes na saúde física e mental (efeito
tamponante), efetivamente desempenhando um papel protetor no bem-estar pessoal, como
se fosse uma estratégia de regulação e ressignificação do preconceito sofrido.
Devem-se posicionar as pessoas da raça negra para além da dicotomia racial, para
que, dessa forma exista uma isonomia no sentido real do termo. Hoje está em voga a
valorização da cultura negra, e do empoderamento racial. Esse movimento baseia-se em
valores contundentes. Um valor é percebido como importante, não só por ser considerado
uma "verdade evidente" (BERNARD et al, 2003; MAIO et al, 1998), ou porque esteja
intimamente ligada a uma norma social particular, ou porque acredita-se que ele reflita um
aspecto essencial e inalienável da natureza humana (BAIN, KASHIMA e HASLAM,
2006).
O valor é importante por se constituir enquanto convicção central para o indivíduo
Edinéia Aparecida dos Anjos Rossi 17

quando ele é internalizado. Assim, o empoderamento e a igualdade buscada serão aos


poucos internalizados pela sociedade racista do mundo contemporâneo, contribuindo para
a autodefinição pessoal e dando sentido à identidade intrínseca das pessoas negras, que
transcende a cor da pele. Quando isso ocorrer, não haverá mais a necessidade de se
resignarem diante de comentários em uma partida de futebol, porque simplesmente, os
comentários não farão diferença, afinal os valores estarão contemporizados. Eles estão
acima disso (VERPLANKEN, & HOLLAND, 2002).
Uma vez adquirido, cada valor é integrado em um sistema organizado de acordo
com uma ordem de prioridades, que constituiria o sistema de valores individuais, definido
por Rokeach como uma organização permanente de convicções, concernentes a estilos de
vida ou propósitos particulares de existência, ao longo de um continuum de importância.
Esses sistemas individuais, com o tempo podem tornar-se coletivos, sociais. É esse o
processo pelo qual vem passando o conceito de empoderamento da raça negra enquanto
valor, necessário e premente, e cedo ou tarde a sociedade assimilará esse valor como
concreto e intangível (ROKEACH, 1973).
Nesse sentido é o entendimento de Schwartz, para quem:
Um valor é um conceito que um indivíduo tem, um propósito trans-situacional
que expressa interesse (individualista vs. coletivista) relativo a domínios
motivacionais e avaliado com importância contínua (...) como princípio
orientador na vida de alguém (SCHWARTZ, & BILSKY, 1987).

O pressuposto básico do modelo proposto por Schwartz diz respeito à natureza e à


origem dos valores, que são referidos como as representações cognitivas de três tipos de
necessidades humanas universais: as necessidades biológicas do organismo; as exigências
de natureza social, necessárias para a coordenação das trocas interpessoais; e as
obrigações socioinstitucionais que garantem o bem comum e a sobrevivência da
sociedade. Quando num estádio de futebol pessoas são vítimas de comportamento abusivo
de ordem racista, essas necessidades são diametralmente atacadas (CAPANNA,
VECCHIONE, & SCHWARTZ, 2005).
A autorrepresentação predominantemente constituída por afrodescendentes parece
não ser muito alta por ser constantemente espezinhada, especialmente com referência à
dimensão atual, e da receptividade etnocultural relativamente baixa, fenômeno que se
manifesta em âmbito global. Contudo, a tendência aponta para mudanças favoráveis a uma
democracia mais efetiva e real entre raças e crenças distintas, a um ponto tal que a
opressão não mais poderá calar.
Edinéia Aparecida dos Anjos Rossi 18

Conclusão

O objetivo primordial desse trabalho foi analisar a outrificação e coisificação


enquanto violências psicológicas, bem como o impacto psicossocial do racismo. Essa
análise foi feita sob o viés de jogadores de futebol negros, de modo a enfatizar as injúrias
raciais que esses atletas são submetidos e, por meio delas, ilustrar as situações de
hipossuficiência a que estão sujeitas as pessoas comuns que constituem a etnia negra.
Foram analisadas manifestações explícitas de racismo no futebol, durante as
partidas, além de posicionar o comportamento antirracista analisando os fatores
conjunturais inter-relacionados. Por fim, foram analisados os efeitos psicossociais do
racismo nos indivíduos que sofrem afrontas, por intermédio de matérias publicadas sobre
o assunto em que se pode observar o abuso verbal dirigido a jogadores de etnia negra.
Constatou-se por meio desse estudo que o racismo, a partir do impacto causado
pelas injúrias raciais no futebol, desencadeia um processo de "coisificação e
"outrificação" do negro, constituindo-se como uma violência psicológica que afronta o
princípio da dignidade da pessoa humana.
Para atingir tais objetivos foi realizada uma análise de casos referentes a
manifestações explícitas de racismo que foram veiculados pela mídia. A revisão de
literatura sugere que existe uma relação entre o discurso racista e a coisificação das
pessoas de raça negra.
Considerando-se que há a necessidade de preparo para lidar com a questão
multicultural e étnica, considera-se de extrema relevância a formação de profissionais com
conhecimento teórico e prático acerca das questões relacionadas ao racismo e ao
sofrimento psicológico causado por tal, de modo a não contribuir para reforçar atitudes
discriminatórias.
Diante do exposto as implicações desse estudo são relevantes tanto do ponto de
vista teórico quanto do ponto de vista empírico, pois durante a realização da pesquisa
constatou-se a necessidade de articular o conhecimento teórico com os paradigmas
socioculturais vigentes, que são os eixos empíricos mais condizentes com as
necessidades expressas relativamente à questão racial.
Como sugestão de estudos futuros, é necessário ampliar a abrangência da análise,
que nessa pesquisa analisou as pessoas negras sob o enfoque do sujeito. Pretende-se
ampliar o estudo o por meio da análise do contexto, e das condições de ocorrências do
discurso racista, o que possibilitará uma visão mais abrangente do emprego dos métodos
de pesquisa, trazendo contribuições significativas do ponto de vista metodológico para
Edinéia Aparecida dos Anjos Rossi 19

ampliar a análise dos resultados e, por fim, para verificar tendências e oportunidades para
que os profissionais da psicologia que analisam as implicações biopsicossociais do
racismo e tenham mais conhecimento sobre o tema.

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