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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC/SP

Erica Oliveira Lopes Silva

DESENVOLVIMENTO DE JOGOS DIGITAIS: UMA EXPERIÊNCIA COM ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL II

MESTRADO EM TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA E DESIGN DIGITAL

São Paulo

2017

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC/SP

Erica Oliveira Lopes Silva

DESENVOLVIMENTO DE JOGOS DIGITAIS: UMA EXPERIÊNCIA COM ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL II

MESTRADO EM TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA E DESIGN DIGITAL

Dissertação apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de mestre em Tecnologias da Inteligência e Designer Digital área de concentração Processos Cognitivos e Ambientes Digitais, sob a orientação da Prof.ª D.rª Ana Maria Di Grado Hessel.

São Paulo

2017

FICHA CATALOGRÁFICA

LOPES, Erica Oliveira. Desenvolvimento de jogos digitais: Uma experiência com alunos do Ensino Fundamental II. São Paulo: 2017. Dissertação de Mestrado: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Área de Concentração: Processos Cognitivos e Ambientes Virtuais Orientadora: Professora Doutora Ana Maria Di Grado Hessel

Palavras-chave: Jogos Digitais, Games na educação, Criação de Jogos, Dispositivos Móveis, Tecnologia Educacional.

Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total

ou parcial desta dissertação por processo de fotocopiadoras ou eletrônicos.

BANCA EXAMINADORA

Dedico este estudo ao meu Pai, por ter acreditado em mim, quando eu mesma não acreditava.

AGRADECIMENTOS

Em especial meus agradecimentos à Prof.ª D.rª Ana Maria Di Grado Hessel, por sua competente orientação, disponibilidade, incentivo e dedicação para a realização deste trabalho.

Meus agradecimentos também a Prof.ª D.rª Sonia Maria de Macedo Allegretti e ao Prof.º Dr. David de Oliveira Lemes, pela participação na banca examinadora e por suas valiosas sugestões, que muito contribuíram para o aperfeiçoamento deste trabalho.

Agradeço também ao Prof.º Ms. Claudio Carlos, pela sua atenção e satisfação de me atender quando solicitado.

Agradeço a minha mãe, que muitas vezes que ajudou, me incentivou para que eu conseguisse concluir esse trabalho.

Ao meu marido Ageu, por me aguentar por diversas vezes nervosa, impaciente e ausente mesmo estando ao seu lado. Aos meus filhos Isabela, Rebeca e Guilherme, por ser o motivo de eu não desistir dos meus objetivos.

Aos meus irmãos Rafael, Débora e Gabriela, e minha avó, por entenderem minha ausência e por me amarem.

A Valéria pela amizade, carinho e por ajudar em momentos difíceis, onde me faltava forças para continuar.

Aos meus queridos alunos e colegas, do Colégio Carlos Drummond de Andrade, pela participação e aprendizagem que me proporcionaram.

E, não poderia deixar de agradecer a Edna Conti, pela dedicação com que executa seu trabalho.

Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Steve Jobs

RESUMO

Este estudo trata da narrativa de uma experiência docente, focada no processo de criação de jogos digitais para mobile, por alunos do 7º ano do Ensino Fundamental II. É um estudo descritivo de caráter exploratório, no qual a narrativa é parte de um processo reflexivo que procura focar os aspectos que caracterizam a experiência sob ponto de vista do docente. Um dos motivos do estudo foi a constatação de que o aluno da contemporaneidade é um sujeito imerso em um mundo virtual com dispositivos móveis presentes em toda parte, inclusive em sala de aula, exigindo de professores uma mudança de postura. Outra justificativa da escolha do tema de pesquisa, dentro do assunto tecnologia educacional, foi observar, através de estudos anteriores, o crescimento do uso de jogos em sala de aula, e ainda mais, verificar de que maneira esses jogos podem ser utilizados para aumentar o interesse dos alunos pela aula. Os dados dessa investigação foram construídos no decorrer da experiência docente de orientação do processo de criação de jogos para mobile. A análise interpretativa focou o processo e desenrolou-se por meio de uma reflexão sobre os aspectos exitosos e dificuldades percebidas. A pesquisa concluiu que por meio da experiência desenvolvida, os alunos se motivam e se envolvem no processo de criação de jogos, além de assumirem um protagonismo sobre seu percurso de aprendizagem. Além disso a pesquisa mostrou que é possível envolver professores de outras disciplinas, apesar de alguma resistência, que foi vencida pelo desejo expresso dos alunos em desenvolver seus produtos.

Palavras-chave: Jogos Digitais, Games na educação, Criação de Jogos, Dispositivos Móveis, Tecnologia Educacional.

ABSTRACT

This research is a further essay about a teacher experience, focused in the creation of Digital Games for mobile gadgets, made by 7the Grade students. This is a descriptive study from an exploratory view, in which the narrative is part of a reflexive process that aims to focus the aspects that show the experience from the teaching point of view. One of the motives for the study was the confirmation that the current student is a subject that is immersed in a virtual world with digital mobile devices found everywhere including in the classroom, requiring teacher with a change in their behavior. Another justification for the choice, in within the subject of educational technology, was to observe, through previous studies, the growth in the use of games in the classrooms, and even more, verify that by this way, those games can be used to increase the interest of the kids for the class. The data of this investigation were built during the teaching experience in the games creation guidance for mobiles. The interpretative analysis focused the process and was unrolled by a reflection on the successes and the perceived difficulties. The research realized that through the developed experience, the students were motivated and enrolled in the games creation, besides assuming a protagonism about their learning route. Besides that the research showed that it is possible to involve teachers from other areas, besides some resistance, which was overcome by the desire of the students in developing their products.

Key-words: Digital Games, Games in Education, Games creation, Mobile gadgets, Educational Technology.

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Ferramenta Construct 2

41

Figura 2 - Formas e personagens

44

Figura 3: Inserindo o personagem

46

Figura 4: Métrica e animação de personagem

47

Figura 5: Alunos observando a movimentação do personagem

48

Figura 6: Jogo exemplo com vida e pontos

49

Figura 7: Event sheet de pontos e vida

50

Figura 8: Event sheet touch

50

Figura 9: Jogo de exemplo criado pelo professor

52

Figura 10: Event sheet do exemplo criado pelo professor

53

Figura 11: Alunos iniciando o projeto proposto

54

Figura 12: Criação dos jogos

55

Figura 13: Página da disciplina no Facebook

56

57

Figura 15: Jogo Grupo 1

63

Figura 16: Event sheet - Grupo 1

64

Figura 17: Jogo Grupo 2

66

Figura 18: Event sheet Grupo 2

66

Figura 20: Event sheet - Grupo 3

70

Figura 21: Jogo Grupo 4

72

Figura 22: Event sheet - Grupo 4

73

LISTA DE TABELAS

Tabela 1: A diferença entre nativos e imigrantes

30

Tabela 2: Como nativos e imigrantes digitais aprendem

31

Tabela 3: Modelo de avaliação dos jogos

60

Tabela 4: Modelo de avaliação do jogo Grupo 1

64

Tabela 5: Modelo de avaliação do jogo Grupo 2

67

Tabela 6: Modelo de avaliação do jogo Grupo 3

70

Tabela 7: Modelo de avaliação do jogo Grupo 4

73

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

16

Tema de Pesquisa

18

Problema de Pesquisa

18

Objetivo geral da pesquisa

20

Objetivos específicos

20

Procedimentos Metodológicos

20

Justificativa

21

1 ESTUDOS RELACIONADOS AO TEMA

23

2 REFERENCIAL TEÓRICO

26

2.1 Autonomia e Conhecimento

26

2.2 Tecnologia e motivação

27

2.3 Conhecimento na Cibercultura

28

2.4 Uso de tecnologias nas escolas

32

2.5 Games e educação

34

3

CONTEXTO DA PESQUISA

36

3.1 Procedimentos metodológicos

36

3.2 A Escola

37

3.3 A sala de aula

37

3.5

Novo projeto para Disciplina de Jogos Digitais

38

3.6 Apresentação aos alunos do 7º ano do novo projeto para a disciplina de Jogos

 

Digitais

39

3.7

Conhecendo a ferramenta Construct 2

40

3.7.1 A criação de roteiros

42

3.7.2 A criação de personagens

43

3.7.3 Animação dos personagens

46

3.7.4 Pontuação e Vidas

48

3.7.5 Transferir o jogo para o mobile

50

3.8

Jogos Digitais no 7º ano

51

3.8.1

Proposta

53

3.8.2 Integração com outras disciplinas: Português/Redação, Artes, Matemática,

Inglês e História

54

3.8.3 Uso do Facebook e Youtube

55

3.8.4 Desenvolvimento dos jogos

57

3.8.4.1 Jogo: Grupo 1

60

3.8.4.2 Jogo: Grupo 2

65

3.8.4.3 Jogo: Grupo 3

67

3.8.4.4 Jogo: Grupo 4

71

4 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

74

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

83

APÊNDICE A PLANO DE ENSINO

88

APÊNDICE B CONHECENDO O CONSTRUCT2

91

16

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa tem como cenário atual as salas de aula do ensino fundamental. Em dias

em que a conectividade exerce sua influência constantemente sobre toda a sociedade, surge

para o professor um novo desafio: ensinar um conteúdo já não é suficiente, necessita-se

encontrar uma maneira de motivar os alunos e promover a aprendizagem coletiva.

Os professores se queixam de que os alunos não demonstram interesse pelas aulas. Essa

geração está focada nas inúmeras possibilidades oferecidas por seus aparelhos móveis.

Diversas vezes, ignoram o que o professor está ensinando, e preferem jogar em seus

celulares, seja individual ou coletivamente. Quando são surpreendidos por questionamentos

inesperados, realizam buscas rápidas no Google e respondem de maneira rápida e resumida.

Por sua vez, para os professores essa é uma situação de difícil resolução, por isso, na

maioria das vezes optam por seguirem trabalhando com uma didática tradicional, recusando-se

a aceitar o perfil desse novo aluno, e excluindo celulares e games da sala de aula.

Acredita-se, porém, que a relação que esse aluno tem com a tecnologia é algo a ser

estudado, analisado e compreendido. Serres 1 (2013) afirma que a cabeça do aluno está nas mãos

deste próprio aluno, ou seja, o dispositivo móvel se transformou em sua memória. É ali, que ele

guarda tudo o que considera realmente importante.

Ainda nessa mesma linha de pensamento Prensky 2 (2010), nos remete a pensar nos

1 Michel Serres (Agen, 1 de setembro de 1930) é um filósofo francês. Escreveu entre outras obras "O terceiro instruído" e "O contrato natural". Atuou como professor visitante na Universidade de São Paulo. Desde 1990 ele ocupa a poltrona 18 da Academia francesa.

2 Marc Prensky (nascido em 15 de março de 1946 em Nova York) é um escritor americano e palestrante sobre aprendizagem e educação. Mais conhecido como inventor e divulgador dos termos “nativo digital” e “imigrantes digitais” que ele descreveu em um artigo de 2001 em “On the Horizon”.

17

dispositivos móveis como extensão do cérebro dos jovens sugerindo que qualquer fatalidade

que venha a ocorrer com seus smartphones, corresponda à perda de parte de seus corpos.

Diante desta nova realidade, Squire (2007), defende a utilização de Jogos Digitais

como uma maneira de motivar o aluno em atividades significativas, permitindo explorar os

mundos enquanto aprendem.

Os jogos digitais, vêm provocando diversas mudanças na área da educação, pois

aparecem novas formas todos os dias de aprender e ensinar, alterando constantemente o

relacionamento entre homens e máquinas, e principalmente onde o virtual está em constante

alteração tornando-se uma memória coletiva alimentada em tempo real. Uma das mudanças

ocasionada pela distribuição do conhecimento é o uso de games na educação.

No NMC Horizon Report 3 , se demonstra que, no prazo de três a cinco anos, a

adoção da tecnologia educacional terá como benefício: agilizar o processo de criação e

publicação do conteúdo educacional, produzido pelos próprios professores, fazendo com que

os mesmos se sintam mais confiantes, e assim existirá uma melhora na orientação de seus

alunos, que passarão a ser produtores e não apenas consumidores do próprio conhecimento.

Os games principalmente os RPG´s, fazem com que o jogador esteja em contato

com outras pessoas de igual interesse com relação ao jogo, e com isso, nossos jovens acabam

se conectando com outras pessoas, criando assim, uma “espécie” de rede social.

3 NMC Horizon Report k12 2015 - relatório de tendências elaborado pelo NMC, que traça o horizonte de cinco anos para o impacto tecnológico das TIC´s em comunidades escolares em todo o mundo.

18

Quest to Learn 4 , uma escola localizada em Nova York, fundada em 2009 pelo

Institute of Play, criado por desenvolvedores de games em 2007, é pioneira na gamificação do

seu currículo tendo como objetivo aumentar o interesse, a motivação e o aprendizado de alunos.

A escola utiliza elementos dos jogos digitais e não digitais, em sua maioria

produzido por professores e alunos, motivando o aprendizado por meio de brincadeiras, sem

separação entre a teoria e prática. O papel do professor é buscar maneiras para que o aluno

sempre queira jogar mais, engajar-se mais e descobrir novas formas de interagir com o

conhecimento e mundo ao seu redor.

Tema de Pesquisa

A partir de minha experiência como docente de jogos digitais e dos exemplos citados,

escolhi, como tema de pesquisa, dentro do assunto tecnologia educacional, “Como orientar

alunos do Ensino Fundamental II para a produção de jogos digitais?”.

Problema de Pesquisa

O início deste estudo foi motivado pelo desejo de narrar a minha experiência pessoal,

trabalhando na área da tecnologia. Iniciei minha carreira no ano de 2000, como analista de

sistemas. Já no ano de 2012 se deu o início de minha atuação na área acadêmica, ministrando

aulas para os alunos do ensino fundamental II, em uma escola da rede pública de ensino,

localizada na Zona Leste de São Paulo.

A primeira experiência foi ministrar a disciplina de matemática, numa época em que

já pensava sobre a necessidade de uma nova dinâmica para sala de aula. De início, levei para a

4 http://www.q2l.org/

19

sala de aula jogos comuns como damas, xadrez, e jogos de tabuleiro com o objetivo de motivar

os alunos para uma aprendizagem diferente.

Nesta mesma época, notei que todos os alunos se mostraram muito interessados em

um jogo chamado “Pou”, no qual, o objetivo era cuidar de um bichinhoatravés da tela do

celular, e para isso o jogador deveria suprir as necessidades básicas dele, dentre elas: comida,

felicidade, banho e necessidades fisiológicas.

Os alunos dedicavam muito tempo a esse jogo, não se importando com o que acontecia

a sua volta. Ao observar esse fato, estudei a dinâmica do jogo e notei que ele foi desenvolvido

como forma de ensinar porcentagem e matemática financeira às crianças. Passei então a utilizar

o jogo para explicar o conteúdo de porcentagem.

O Mestrado teve seu início a partir do meu interesse na temática: uso das tecnologias

em sala de aula. Na ocasião, lecionava a disciplina de Jogos Digitais para os jovens do ensino

técnico. Ao mesmo tempo, nas aulas do programa de pós-graduação estudava princípios do

pensamento complexo de Edgar Morin (2000). A crítica de Morin a respeito de fragmentação

do saber em disciplinas e sua proposta de que o conhecimento transcende essa divisão

interdisciplinar, uma vez que o entendimento da vida necessita de um olhar mais sistêmico, que

compreende a sua diversidade, foram relevantes para iniciar esta pesquisa.

Após início dos estudos, percebi, assim, que as aulas de informática poderiam ser uma

ótima oportunidade de reunir as demais disciplinas do currículo do ensino Fundamental II,

integrando-as sob uma questão problematizadora gerada nas atividades da disciplina de Jogos

Digitais.

Quando os professores entram em sala de aula, se deparam com uma nova realidade,

um

novo

jovem,

intitulado

por

Prensky

(2009)

como

nativo

digital,

um

jovem

de

20

comportamento inquieto e muito competitivo, o que os leva a repensar a maneira de ensinar

conhecimentos nas disciplinas fragmentadas.

Tendo em vista conhecer novas formas de organizar a aprendizagem dos alunos, bem

como despertar o interesse desse novo jovem nativo digital pelo aprendizado, esta pesquisa

procura responder à questão problema: Como orientar os alunos do Ensino Fundamental II

para a produção de Jogos Digitais?”.

Objetivo geral da pesquisa

Refletir sobre o processo de construção de games com alunos do ensino fundamental

II.

Objetivos específicos

Descrever o processo de desenvolvimento do uso de jogos na disciplina jogos

digitais;

Descrever os games construídos pelos alunos no decorrer da aula de jogos digitais.

Analisar a narrativa da experiência a partir do que foi exposto pelos estudiosos do

assunto.

Procedimentos Metodológicos

Este é um estudo qualitativo no qual descrevo uma experiência de construção de games

em uma sala de aula do ensino fundamental II, na disciplina Jogos Digitais.

O objetivo é cartografar o processo e refletir analiticamente sobre as etapas do mesmo.

Portanto, este é um estudo descritivo de caráter exploratório, no qual a narrativa é parte de um

21

processo reflexivo que procura focar os aspectos que caracterizam a experiência sob ponto de

vista dos teóricos abordados.

Justificativa

Um dos motivos que me levou à escolha do tema de pesquisa, foi observar, através de

estudos anteriores, o crescimento do uso de jogos em sala de aula, e ainda mais, verificar de

que maneira esses jogos podem ser utilizados para aumentar o interesse dos alunos pela aula,

onde pergunto: de que forma a criação de jogos pode ser utilizada como estratégia para

aumentar o interesse dos alunos pelas aulas?

Por esse motivo acredito ser de grande importância estudar a interface entre o ensino

e os jogos digitais.

O desenvolvimento desta dissertação está estruturado em quatro capítulos, assim

denominados e sintetizados:

O Capítulo 1 Revisão Bibliográfica, expõe uma pesquisa realizada em trabalhos

científicos já publicados, que procura identificar e desvelar possíveis pesquisas correlatas ao

tema desta pesquisa.

O Capítulo 2 Referencial Teórico, tem o objetivo de apresentar conceitos que

envolvam Jogos Digitais e educação, de modo a permitir uma reflexão posterior sobre as

características que emergem da experiência em Jogos Digitais, em particular: como orientar os

alunos do Ensino Fundamental II para a produção de jogos Digitais?

Após estudos, o Capítulo 3 Contexto da Pesquisa, descreve a experiência da criação e

22

Capítulo 4 Discussões dos Resultados, aborda reflexões feitas a partir da correlação

entre o que propõe os autores pesquisados e o que foi observado no comportamento dos alunos,

durante a criação e desenvolvimento dos jogos digitais.

23

1 ESTUDOS RELACIONADOS AO TEMA

Buscando identificar e desvelar possíveis pesquisas correlatas ao tema desta

pesquisa, realizei uma revisão de literatura de trabalhos científicos já publicados.

Para esta tarefa, realizei consulta na base de dados do Sistema de Publicações de

Teses e Dissertações da PUC-SP.

Nesse processo de exploração de trabalhos já publicados para torná-los válidos para

esta pesquisa, foi utilizada, inicialmente, a combinação dos descritores “jogos digitais” com

“modelos educacionais”; “mobile” com “ambientes educacionais”; “jogos” com “ensino

fundamental”, de modo que a combinação destes descritores aparecesse no título ou resumo das

obras.

Tendo em vista os grandes avanços tecnológicos nas últimas décadas, e o aumento

significativo de crianças e adolescentes com acesso a smartphones, foi realizado um recorte

temporal de aproximadamente 10 anos, de modo a contemplar possíveis trabalhos relacionados

a esse contexto de expansão.

As produções recuperadas na busca realizada nas bases de dados mencionadas,

tiveram seus títulos e resumos submetidos à leitura para captar possíveis aproximações com a

presente pesquisa; para aumentar o critério de seleção, foram excluídas obras que não

abordavam questões relacionadas ao espaço escolar.

Em sua pesquisa, Fittipaldi (2007) busca contribuir para aprimorar a qualidade na

educação, onde aprimora as relações entre jogos de regras explícitas, aprendizagem e

desenvolvimento, uma vez que a pesquisa incide sobre as situações de sala de aula e suas

práticas educativas.

24

Para esta tese, Fittipaldi (2007), utiliza quatro estudos de casos realizados com

crianças de quatro anos de idade, do sexo masculino, alunos de uma escola pública situada na

Zona Leste de São Paulo. Sua análise de dados foi realizada com base na perspectiva sócio-

histórica, fundamentada em Vigotski, analisando os níveis de desenvolvimento do jogador e

sua ampliação sobre as possibilidades de aprender.

Após conclusão dos estudos, a tese obteve como resultado o entendimento de que

os jogos quando incorporados à escola, e se ela estiver comprometida com o processo de

aprendizagem e do desenvolvimento dos alunos, o jogo será um recurso importante para

conhecer os alunos, propor-lhes desafios e possibilitar-lhes a aventura de conhecer o mundo.

Em sua pesquisa, Almeida (2015), nos provoca em prol de elementos lúdicos como

melhor ferramenta de ensino-aprendizagem. Ele também nos leva a refletir sobre como o jogo

é usado para despertar o interesse do aluno pela aprendizagem e não para ensiná-lo de forma

direta.

A metodologia utilizada para essa pesquisa foi a qualitativa baseada em estudo de

caso, desenvolvida com alunos do sétimo ao nono ano, do ensino fundamental II.

Almeida (2015), ainda nos mostra os diferentes métodos de aplicação de jogos na

educação, sendo elas:

Jogos educacionais;

Jogos de entretenimento aplicados à educação;

Jogos de entretenimento com aprendizagem informal;

Jogo de entretenimento com aprendizagem tangencial.

Como resultado de sua pesquisa, Almeida (2015), confirma a sua hipótese de que,

experiências que equilibram o foco entre conteúdo educacional e elementos lúdicos tornando a

aprendizagem significativa, assim potencializando o processo de ensino-aprendizagem.

25

Outro autor interessante é Knittel (2014), que desenvolveu uma pesquisa sobre o

reflexo do uso de dispositivos móveis no ambiente educacional. Isso se deu através da utilização

de aulas programadas que visavam ao desenvolvimento de habilidades e competências dos

alunos durante as aulas de física, do ensino fundamental.

No decorrer da pesquisa de Knittel (2014), foi citado o uso de aplicativos

educacionais de física para celulares, e as habilidades que os alunos adquiriram ao utilizaram

os aplicativos.

A autora nos lembra também que, para que exista o sucesso no uso da tecnologia,

seja ela por meio do celular ou de qualquer outro tipo de dispositivo, o professor precisa realizar

a preparação da aula. Assim, o direcionamento do uso da ferramenta acontece de forma

coerente.

O nativo digital detém todo o conteúdo disponível por meio da internet e, muitas

vezes, em suas mãos através dos celulares. Para ele, não existe a necessidade de se armazenar

todo esse conhecimento em sua cabeça, importa mais dar espaço a uma nova genialidade, a uma

inteligência invertida, e a uma eficiente subjetividade cognitiva.

26

2 REFERENCIAL TEÓRICO

As salas de aula como as conhecemos atualmente foram determinadas pelo modelo

tradicional, no qual predominam a tendência instrucionista e tecnicista. Nesse modelo, toda e

qualquer atenção é polarizada pelo educador, que detém a autoridade e encanta os alunos ao

transmitir o conteúdo dos livros.

Nessa sociedade, a educação é mensurada pela quantidade do conhecimento

acumulado e não pelo uso ou aplicação desse conhecimento.

2.1 Autonomia e Conhecimento

O modelo tradicional oferece ao aluno quantidade de conhecimento cuja aplicação

é feita através de exercícios diversos, acreditando com isso estar exercitando a inteligência. Por

outro lado, sabemos que, com o passar dos anos, pouco desse conhecimento subsistirá.

O

aluno

da

época

atual

vive

mergulhando

num

mundo

tecnológico,

onde

informações e conhecimentos estão disponíveis a qualquer momento em múltiplos espaços. Já

é possível pensar numa educação que ofereça ao aluno instrumentos que lhe permitam construir

conhecimento com certa autonomia.

A educação desta maneira nos aproxima do que afirma Piaget (1975, p. 62):

Conquistar por si mesmo um certo saber, com a realização de pesquisas livres, e por meio de um esforço espontâneo, levará a retê-lo muito mais; isso possibilitará sobretudo ao aluno a aquisição de um método que lhe será útil ter toda a vida e aumentará permanentemente a sua curiosidade, sem o risco de estancá-la; quando mais não seja, ao invés de deixar que a memória prevaleça sobre o raciocínio, ou submeter a inteligência a exercícios impostos de fora, aprenderá ele a fazer por si mesmo funcionar a sua razão e construirá livremente suas próprias noções.

Sabemos ainda que, segundo o autor citado acima, o conhecimento resulta das

interações entre um sujeito consciente e objetos já constituídos.

27

Delineia-se, assim, a possibilidade de propor a pré-adolescentes e adolescentes a

construção dos conhecimentos relacionados na grade curricular própria do Ensino Fundamental

II interagindo com a tecnologia, especificamente com os jogos digitais.

2.2 Tecnologia e motivação

Diferentemente do modelo tradicional, hoje busca-se oferecer um processo de

ensino e aprendizagem centrado no aluno, não na figura do professor. O aluno deve ser

orientado a ser ele mesmo o agente de sua educação e o professor assume o imprescindível

papel daquele que ensina o educando a aprender ou de facilitar da aprendizagem.

Nesse novo contexto, o professor precisa considerar a importância da motivação

dos alunos para o aprendizado, pois como bem afirma Gil (2012, p. 86) “motivação constitui a

força que nos move para alcançar determinado objetivo. É a mola propulsora da ação.”.

A etimologia da palavra “motivação” nos revela que sua origem está no verbo latino

movere” cujo significado é “mover”. Podemos deduzir assim que “motivação” é aquilo que

move alguém para uma determinada ação.

Na atualidade, o termo adquiriu conotações diversificadas, porém para esta

pesquisa, ele será considerado no contexto do ensino aprendizagem, no qual, conforme o

construtivismo,

“o

aluno

é

protagonista

de

sua

determinados

processos

cognitivos,

que

ninguém

aprendizagem,

pode

fazer

por

cabendo-lhe

realizar

ele

(SALVADOR

e

colaboradores, apud BORUCHOVITCH; BZUNECK, 2001, P. 11).

No contexto escolar, pode-se afirmar que a motivação se revela no esforço

empreendido pelo aluno na ação de aprender ou de construir o conhecimento.

Sabemos que ao estabelecer uma meta de realização como a criação de jogos

digitais

“mobile”

pelos

alunos,

estamos

oferecendo

a

eles

um

potente

motivador

de

28

comportamento humano que “é dotado da capacidade singular de direcionar suas ações a metas

designadas mentalmente, que podem ser de diversos tipos. Destacam-se entre elas as metas de

realização, particularmente estudadas, quando se trata de motivação dos alunos em sala de aula,

]” [

(BZUNECK, 2001, p. 58).

No contexto social atual marcado por constantes transformações provocados por

inovações científicos e tecnológicos, faz-se necessário motivar os alunos para que desenvolvam

sua inteligência, que, segundo Bzuneck (2001, pp. 110 111), referindo-se a Sternberg (1998)

“para ser bem-sucedida precisa de raciocínio analítico, criatividade e conhecimento prático

(capacidade do indivíduo de aplicar e utilizar o conhecimento adquirido) ”.

A criação de jogos digitais “mobile” por alunos do 7º ano do Ensino Fundamental

II concretizou-se como boa oportunidade de aplicação do conhecimento adquirido dentro e fora

de sua sala de aula. O esforço empreendido por eles na criação dos jogos digitais expressou a

motivação

neles

despertada pelo

manuseio

das

novas

tecnologias

digitais

disponíveis,

atualmente.

2.3 Conhecimento na Cibercultura

Quando olhamos para o mundo de hoje, e o grande número de tecnologias que

possuímos, nos deparamos com uma realidade crescente de informação, estamos vivendo em

uma Cibercultura onde tudo está sendo mediado através de dispositivos digitais que utilizam a

internet para gerar e distribuir informações a todo o momento.

Podemos

dizer

também

que

estamos

vivendo

num

metamundo

virtual

ou

ciberespaço, que de acordo com Lévy (2002) se tornaria principal laço de comunicação entre

aprendizagem e diversão das sociedades humanas. Estamos constantemente conectados ao

mundo da informação que está em constante movimento.

29

O aluno atualmente deixa de enxergar o professor como porta-voz do saber, já que

sozinho ele pode obter o conhecimento dos livros, com um simples toque dos dedos.

Alguns estudiosos se referem a esses jovens como solitários, contudo, Lemos e

Lévy (2010) discordam, de acordo com eles isso não ocorre, posto que, o tempo todo esse jovem

interage com outras pessoas por meio de redes sociais.

Fica uma questão: Como fazer com que o aluno foque seu pensamento e aprenda

sem se desconectar?

Para responder a esse questionamento, precisamos entender as mudanças na forma

de se comunicar e se comportar desse novo aluno, que é um nativo digital (usuários

contemporâneos da internet), que muito se diferencia do imigrante digital (usuários nascidos

antes da internet).

Prensky (2001), nos lembra que como imigrantes digitais possuímos “sotaques” que

são percebidos o tempo todo por nossos jovens. Esses “sotaques” muitas vezes não são

observados por nós, e demonstram a diferença de como imigrantes e nativos lidam com a

comunicação e as novas tecnologias.

30

Tabela 1: A diferença entre nativos e imigrantes digitais.

Imigrantes

Nativos

Imprime e-mail para ler

Utiliza e-mail apenas para cadastro nos games on-line

Liga para confirmar o recebimento de um e-mail

Envia mensagens instantâneas

Imprime documento para ler e fazer alteração manual, só depois alterá-la no computador

Lê e altera o documento direto na tela do computador, celular ou tablete

Marca reuniões em espaços físicos

Reúnem-se o tempo todo através de vídeo chamadas

Precisa que a pessoa esteja ao seu lado para ver um site interessante

Encaminha a URL do site através de mensagens instantâneas e redes sociais

Fonte: Autora deste trabalho, baseada na obra de Prensky (2001)

No quadro acima, podemos observar as mudanças tecnológicas e comportamentais

que ocorreram no século XX, relatadas por Prensky (2001), de maneira sistematizada, e assim

observar claramente que a forma com que lidamos com as novas tecnologias é bem diferente

das de nossos alunos.

O fato de utilizar o e-mail para marcar reuniões e depois ligar para confirmar o

recebimento, demonstra nossa insegurança quanto ao uso das novas tecnologias, outra maneira

de demostrar é o fato de ligar, ou precisar que a outra pessoa esteja fisicamente em uma local,

para que ocorra uma conversa ou reunião, quando bastaria apenas um toque para enviar um

áudio ou iniciar uma videoconferência em um aplicativo, como no caso do WhatsApp.

O novo aluno deixa de ser passivo e se torna ativo em sala de aula, questionando e

principalmente interagindo com o professor a fim de diminuir as inquietações decorrentes da

grande quantidade de informações pelas quais ele é bombardeado o tempo todo.

31

Quando comparamos os nativos digitais com os imigrantes digitais em sala de aula

representados pelo professor e o aluno (pré-adolescente), observamos a distância que ocorre

com relação a utilização das novas tecnologias em sala de aula. Como resultado dessa reflexão,

somos levados a pensar, que a forma com que nossos jovens aprendem também mudou.

O professor também precisa mudar sua postura diante desses nativos digitais para

que eles enxerguem no professor um mediador de conhecimento que pode orientá-los.

No quadro abaixo, sintetizo as diferentes necessidades de alunos nativos e

imigrantes digitais no momento de aprender.

Tabela 2: Como nativos e imigrantes digitais aprendem

Imigrantes

Nativos

Passo-a-passo

Muito rapidamente

Linhas e linhas de texto

Gráficos ao invés do texto

Trabalhar individualmente

Sempre ligados a uma rede de contatos

Processam uma coisa de cada vez

Processam várias coisas ao mesmo tempo

Preferem acesso as informações de forma linear

Preferem ter acesso ao conhecimento de forma aleatória (hipertexto)

Fonte: Autora deste trabalho, baseada na obra de Prensky (2001).

O mais intrigante, é saber que mesmo a tela do computador se abrindo como um

livro, onde se torna necessário apenas um dedo para navegar pelas páginas, e com dois dedos

(os polegares) existe a possibilidade de buscar todo e qualquer saber disponível, esse jovem,

quando termina um trabalho, só pensa em tê-lo fisicamente por meio da impressão.

A utilização de tecnologias no ambiente de sala de aula não pode ser considerada

solução para os problemas de ensino aprendizagem dos alunos, contudo, com a inserção desta

utilização, podem-se criar situações favoráveis a uma aprendizagem agradável e proveitosa.

32

Prensky (2013) se refere à tecnologia como uma extensão do nosso cérebro, uma

nova maneira de pensar, uma solução que seres humanos criaram para lidar com este novo

contexto, difícil, incerto, complexo e ambíguo.

O autor também nos leva a perceber mudanças de comportamento dos alunos de

hoje. Em seu livro, somos conduzidos a repensar o currículo escolar e suas prioridades, sempre

considerando a geração dos nascidos digitais.

2.4 Uso de tecnologias nas escolas

Serres (2013) nos lembra de que durante a formação, o discente era silencioso, pois,

toda a sua atenção era voltada ao educador que, por sua vez, precisava desse silêncio para que

pudesse ser porta-voz do que estava escrito nas literaturas.

Com a chegada das novas tecnologias, a figura de encantamento que existia pelo

educador simplesmente desapareceu, dando abertura para debates e questionamentos sobre o

conteúdo exposto durante as aulas. O saber, antes centrado na figura do professor passa a ser

dissolvido e acessível na internet.

Segundo Serres (2013, p. 27):

Da mesma maneira que a pedagogia foi inventada pelos gregos (paideia), no momento da invenção e da propagação da escrita, e assim como ela se transformou ao emergir a imprensa, no Renascentismo, a pedagogia muda completamente com as novas tecnologias, cujas novidades são apenas uma variante qualquer

As salas deixaram de ser silenciosas e passaram a ser agitadas e falantes. Os alunos

simplesmente não conseguem ficar quietos por muito tempo, se dispersando a qualquer

momento.

Ramal (2012), quando trata de tecnologia e formação de professores, nos mostra

através de depoimentos que a não utilização das novas tecnologias, como ocorre com os

33

celulares, em sala de aula é provocada pela insegurança e falta de domínio da ferramenta, por

parte dos professores.

Ainda segundo Ramal (2012), o professor que não possui domínio das novas

tecnologias, e por considerar o mestre que deve dominar com perfeição o conteúdo a ser

transmitido, prefere não incorporar as tecnologias em suas aulas, já que sente medo de errar, e

ter sua autoridade abalada diante de seus alunos.

Cabe aos educadores, pois, modificar suas práticas e instruir seus alunos para que

os mesmos absorvam essa chuva de informações de forma crítica e construtiva.

Também segundo Serres (2013), atualmente as novas tecnologias mudam a

pedagogia, colocando a inteligência acima do acúmulo do conhecimento, já que todo o saber

está agora distribuído em lugares diversos

Essa distribuição do conhecimento vem provocando diversas mudanças nas áreas

da informação, da comunicação e da educação, pois aparecem novas formas todos os dias de

aprender e ensinar, alterando constantemente o relacionamento entre homens e máquinas, e

principalmente onde o virtual está em constante alteração tornando-se uma memória coletiva

alimentada em tempo real. Uma das mudanças ocasionada pela distribuição do conhecimento é

o uso da tecnologia na educação.

No NMC Horizon Report 5 , se demonstra que no prazo de três a cinco anos a adoção

da tecnologia educacional terá como benefício, agilizar o processo de criação e publicação do

conteúdo educacional, produzido pelos próprios professores, fazendo com que os mesmos se

5 NMC Horizon Report k12 2015 - relatório de tendências elaborado pelo NMC, que traça o horizonte de cinco anos para o impacto tecnológico das TIC´s em comunidades escolares em todo o mundo.

34

sintam mais confiantes, e assim existirá uma melhora na orientação de seus alunos, que

passaram a ser produtores e não apenas consumidores do próprio conhecimento.

Ao trabalhar com as novas tecnologias, temos que levar em consideração nossos

jovens, que desde o ensino infantil até a faculdade, são a primeira geração a crescer com a

tecnologia digital presente no seu dia a dia. Durante toda a vida estão cercados por smartphones,

tablets, notebooks, videogames entre outros brinquedos e ferramentas da era digital.

2.5 Games e educação

Os games principalmente os RPG´s, fazem com que o jogador esteja em contato

com outras pessoas de igual interesse com relação ao jogo, e com isso, nossos jovens acabam

se conectando com outras pessoas, criando assim, uma “espécie” de rede social.

Em seu livro Mattar (2010), se refere aos games como uma ferramenta que motiva

os jovens, algo que não existe na escola tradicional. O autor ainda defende uma mudança no

estilo de educar o “nativo digital”, que tem a necessidade de receber as informações de maneira

mais rápida, já que essa nova geração tem incorporada em seu cotidiano a internet e os games.

Mattar (2010), nos diz que quando joga, o jovem é convidado a participar de forma

ativa e estratégica, de forma a procurar instigar a criatividade e capacidade de analisar o

ambiente, em busca de soluções e conquistas, sempre com novas fases e desafios a vencer.

Essas características dos jogos podem ser utilizadas nas escolas, que segundo o

próprio autor, não estar sendo valorizadas pelas escolas, já que jogadores podem ressignificar

imagens e objetos de outros jogos, e assim utilizar a experiência anterior para resolver

problemas atuais.

Diante desta nova realidade, Squire (2007), defende a utilização de Jogos Digitais

como uma maneira de motivar o aluno em atividades significativas, permitindo ao aluno

35

explorar os mundos, enquanto aprendem. Ainda segundo o autor, os jogos dão acesso a

maneiras diferentes de pensar, experimentando o conhecimento, habilidades e valores,

adquiridos através da aprendizagem.

Muitas vezes em sala de aula é difícil fazer com que o aluno compreenda que os

conteúdos ministrados fazem parte de uma constante, onde, o conhecimento adquirido

anteriormente serve como base para que o próximo conhecimento seja adquirido, algo que eles

praticam o tempo todo com os jogos.

Prensky (2012) destaca as mudanças no estilo cognitivo dos nativos digitais,

observando a necessidade de rever as teorias e práticas educacionais mais adequadas a esses

novos estilos de aprendizagem, defendendo que essas práticas sejam baseadas em jogos digitais.

Em seu artigo Alves (2007), sobre a importância da utilização de imagens e sons

nas aulas, captando assim, a atenção dos alunos, nos faz refletir ainda sobre a influência das

novas mídias sociais em crianças e adolescentes.

Ajuda-nos nessa reflexão saber que já existe a Quest to Learn 6 , uma escola

localizada em Nova York, fundada em 2009 pelo Institute of Play, criado por desenvolvedores

de games em 2007, é pioneira na gamificação do seu currículo com o objetivo de aumentar o

interesse, a motivação e o aprendizado de alunos.

A escola utiliza elementos dos jogos, como níveis e competição no currículo,

motivando os alunos por meio de brincadeiras, sem separação entre a teoria e prática. O papel

do professor e buscar maneiras para que o aluno sempre queira jogar mais, engajar-se mais e

descobrir novas formas de interagir com o conhecimento e mundo ao seu redor.

6 http://www.q2l.org/

36

3 CONTEXTO DA PESQUISA

O objetivo deste capítulo é apresentar a metodologia utilizada na realização desta

pesquisa, a caracterização dos participantes, a metodologia de coleta das informações e a forma

com que os dados coletados foram analisados.

A pesquisa exploratória, visa aprofundar conhecimentos a respeito do assunto em

questão baseado em dados bibliográficos, sendo necessário o planejamento das etapas as serem

realizadas, possibilitando um melhor entendimento sobre quais os métodos utilizar para dar

resposta à questão investigada. Feito isto teremos como refletir sobre as contribuições que, o

desenvolvimento de jogos digitais por alunos do Ensino Fundamental II, pode trazer para a

motivação do aprendizado.

A narrativa da experiência, a seguir, está entremeada com alguns conceitos

explicativos.

3.1 Procedimentos metodológicos

Esta é uma pesquisa que pode ser classificada como exploratória, pois visa

aprofundar conhecimentos a respeito do uso de jogos digitais para um ensino integrado no ciclo

fundamental II.

Caracteriza-se como uma pesquisa descritiva, pois descreve o desenvolvimento de

jogos em sala de aula. De início, foi feita uma pesquisa bibliográfica que, segundo Gil (2002,

p. 44) “é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros

e artigos científicos.”, iniciando com a escolha do tema, na disciplina de Jogos Digitais.

As etapas dessa pesquisa estão descritas a seguir.

37

Após levantamento bibliográfico inicial foram formulados os objetivos principal,

específicos e problema de pesquisa.

Uma vez estudada a bibliografia necessária para o desenvolvimento do tema,

iniciou-se um projeto com o objetivo de desenvolver de maneira mais proveitosa e prazerosa à

docência da disciplina Jogos Digitais no ensino fundamental II, no Colégio Carlos Drummond

de Andrade.

3.2 A Escola

O Colégio Carlos Drummond de Andrade, no qual fiz a coleta de dados para esta

pesquisa, é de grande porte, possuindo quatro unidades todas na zona leste da cidade de São

Paulo, sendo a unidade Tatuapé escolhida para realização da pesquisa.

A quase totalidade dos alunos é oriunda do mesmo bairro, pertencendo a uma

população de classe média alta.

Meu primeiro contato com a escola deu-se em 2013, quando fui contratada para

ministrar aulas no curso técnico de Jogos Digitais. Ao final do ano de 2015, levei ao

conhecimento da diretora do colégio o tema do meu projeto de pesquisa e solicitei autorização

para que o mesmo fosse realizado, ela demonstrou estar interessada e disposta a colaborar.

3.3 A sala de aula

Em acordo com a coordenação e direção do colégio, assumi as aulas da disciplina

de Jogos Digitais para as turmas do ensino fundamental II. Para esta pesquisa a classe escolhida

foi a do sétimo ano A. Uma classe com 34 alunos sendo, 15 meninas e 19 meninos, com idades

entre 11 e 12 anos.

38

A turma foi escolhida por sua grande maioria já estudar no colégio há pelo menos

dois anos, sendo assim, já haviam estudado a disciplina de Jogos Digitais no ano anterior, fato,

esse, que viabilizou a classe para esta pesquisa.

As aulas para esta turma, ocorrem uma vez por semana, no período matutino,

durante 50 minutos por aula.

3.4 Pequeno histórico da disciplina de Jogos Digitais

Até o ano de 2015, a disciplina era ministrada em aulas semanais, as quais

desenvolviam o seguinte conteúdo: software Blender (utilizado para modelagem gráfica em

3D) e pacote Office para todos os alunos do 6º ao 9º ano sem nenhuma alteração nas aulas para

cada uma das séries.

Os alunos não entendiam o conteúdo das aulas e muitas vezes se sentiam frustrados

por não avançarem muito no uso da ferramenta. Por esse motivo, se limitavam a desenhar e

representar alguns objetos do mundo real. Quanto ao pacote Office, na maioria das vezes, os

alunos eram submetidos a aulas de digitação, nas quais, eles tinham como objetivo digitar um

grande volume de textos utilizando os dedos da maneira didática convencional, como era feito

em aulas de datilografia.

Diante desse cenário, as aulas de informática não eram atrativas, pois, os alunos as

viam como uma obrigação e não como algo prazeroso.

3.5 Novo projeto para Disciplina de Jogos Digitais

A fim de intervir nesse contexto, encaminhou-se proposta de um novo projeto à

direção da instituição, no qual, as aulas deveriam ser divididas de acordo com a maturidade de

39

cada série, e ainda assim, abarcaria a criação de jogos, utilizando a ferramenta Construct 2, para

os alunos do 7º ano do ensino fundamental II.

A escolha da ferramenta Construct 2, se deu pelo fato de não existir a necessidade

de codificar, pois tudo é feito de forma automática. O aluno cria o roteiro do jogo, e o restante

da aplicação é feito através do mouse, com a ação de arrastar e soltar os objetos no cenário

principal.

Após a escolha da ferramenta, foi elaborado o plano de ensino (Apêndice A), onde

estaria detalhado a ementa, objetivos e conteúdo programático da disciplina para o ano de 2016.

3.6 Apresentação aos alunos do 7º ano do novo projeto para a disciplina de

Jogos Digitais

Nesta aula, os alunos foram convidados a conhecer um pouco mais sobre o mundo

dos eletrônicos, através de Gularte (2010), que aborda em seu livro os diferentes tipos de

dispositivos eletrônicos, suas curiosidades, ano que eles surgiram e como foi sua evolução até

chegar aos dias de hoje.

Nessa viagem, muitos alunos se mostraram surpresos ao conhecerem como essas

mudanças ocorreram, também demonstraram algumas vezes empolgação ao perceberem que

eles também viveram algumas dessas mudanças como, por exemplo, a utilização dos jogos em

celulares que teve seu início em 1997.

Durante essa aula, muitos estavam curiosos em saber o porquê tudo isso estava

sendo mostrado, já que para eles, por conta do passado da disciplina, não fazia o menor sentido.

Essa curiosidade deu lugar à desconfiança por parte dos alunos, quando foi apresentado a eles

o novo plano de aula, que incluiria a criação de jogos, e a importância das outras disciplinas

para que essa prática ocorresse. Sendo assim, para a criação do jogo seria necessário um roteiro,

40

escrito com o auxílio das aulas de redação; a criação dos personagens seria auxiliada pelo

professor de artes; a localização do jogo será tratada nas aulas de geografia e a caracterização

do período em que se passa a história, seria auxiliada pelo professor de história; todos foram

convidados a se levantar e a pular, nesse momento demonstrei o uso da gravidade e das funções,

que seriam explicadas pelos professores de física e matemática. Também nesse dia apresentei

o nosso material, em que o caderno seria substituído pelo pendrive e para grande surpresa de

todos, informei que, durante as aulas, o uso de celulares seria permitido.

3.7 Conhecendo a ferramenta Construct 2

O Construct 2 é uma game engine (motor de jogo), utilizado para criação de jogos

digitais, multiplataformas em 2D. A ferramenta foi criada pela empresa Scirra em 2007, e é

disponibilizada pela própria empresa na versão gratuita e na versão paga.

A facilidade para o uso da ferramenta foi o principal argumento para sua escolha,

onde a programação é realizada através de bloco de comandos pré-programados, facilitando

assim, a construção dos jogos em um curto período de tempo.

Para auxiliar os alunos durante as aulas, elaborei uma apostila (Apêndice B), como

forma de apoio ao uso da ferramenta durante as aulas.

Ao entrarem no laboratório, os alunos estavam bem agitados e ainda não

acreditavam muito na proposta que lhes foi apresentada na primeira aula, todos muito

desconfiados começaram a falar de maneira alta e bem agitada. Ao perceber isso, mudei minha

estratégia e resolvi mostrar jogos prontos feitos através da ferramenta para tentar ganhar a

confiança deles sobre o que aconteceria durante as aulas.

41

Mostrei para eles o site onde poderiam fazer o download 7 da ferramenta para

continuarem suas atividades em casa, em seguida abri o Construct2 e mostrei onde eles

poderiam achar exemplos de jogos feitos com o uso da ferramenta, abri o Flapping Birds. Todos

ficaram agitados e felizes perguntando se eles iriam aprender a fazer jogos como aquele. O

laboratório ficou em silêncio e como mágica todos os olhinhos estavam virados para mim

esperando uma resposta, respondi que só dependeria deles para que fossem capazes de fazer

qualquer jogo já que para isso eles precisariam se comprometer com a disciplina, todos

concordaram e liberei para que eles explorassem a ferramenta.

Figura 1 - Ferramenta Construct 2

explorassem a ferramenta. Figura 1 - Ferramenta Construct 2 Fonte: Tela inicial da engine Construct 2.

Fonte: Tela inicial da engine Construct 2.

Ao entrarem no laboratório, os alunos se dirigiram aos computadores e como

mágica estavam todos prestando atenção em mim, no que eu tinha para falar. Fiz um passeio

pela ferramenta mostrando onde ficavam a área de trabalho ou criação, propriedades do projeto,

as pastas do projeto, as camadas e a área de programação. Quando concluí a explicação,

convidei os alunos a iniciarem um projeto novo, para isso disponibilizei uma pasta chamada

recursoscom todos os itens necessários para a criação do primeiro jogo com plano de fundo,

7 https://www.scirra.com/

42

sons, itens de tela e personagem, todos prestavam muita atenção e, apesar de ter liberado o uso

de celular e de ele estar em cima das mesas, a maioria dos alunos nem se preocupou em apanhá-

lo.

Nesta primeira aula, começamos a criar um cenário para o nosso jogo, e todos

tinham ideias das mais diferentes possíveis. Algo muito interessante é que eles queriam sempre

saber mais, nesta aula as perguntas eram se o jogo teria personagens, como eles seriam e o que

iriam fazer, respondi apenas que teriam que esperar. Os olhinhos de curiosidade eram

impressionantes.

3.7.1 A criação de roteiros

Quando estamos iniciando um projeto de jogos, precisamos determinar itens como

o público que o jogo pretende atingir, tecnologia na qual ele será executado e o gênero do jogo.

Segundo Chandler (2012), plataforma é o hardware que será usado no jogo, como

um computador, videogame portátil ou conectado a um televisor, celular ou tablete. Onde a as

diferenças entre eles são as configurações e limitações técnicas como memória que influenciam

no designer do jogo.

Ainda segundo o autor, o gênero dos jogos ajuda os desenvolvedores a visualizar

melhor a mecânica do jogo, definindo os gêneros em luta, RPG (role-playing game), tiro em

primeira pessoa (FPS first person shooter), combate, esportes, simulação, representação de

papéis, estratégia e atiradores em terceira pessoa, pode-se combinar vários gêneros para criação

de um mesmo jogo.

Os jogos atualmente são baseados em mundos complexos, e eles contam histórias.

Um jogador não mais avança simplesmente através de telas repetitivas matando os inimigos

numa busca em direção à meta final.

43

O jogador agora espera progredir através de um mundo onde haja uma rica história

e uma infinidade de decisões a serem tomadas. Isto aumenta a complexidade de escrever um

roteiro de videogame e também contribui para a riqueza da criatividade envolvida.

Pensando nisso Comparato (2012), propõe em seu livro cinco etapas para criação

de um roteiro, sendo elas:

Idéia Fato ou acontecimento que provoca no autor a necessidade de

relatar;

Conflito Fato que fundamenta a trama;

Personagens Quem vai viver o conflito, feito através da criação de um

argumento ou sinopse.

Ação dramática Maneira que a história será contada. Devemos responder

às perguntas: O que? Quem? Onde? Quando?

Tempo dramático: Quanto tempo e em que tempo a história ocorrerá.

Embora o autor escreva roteiros para cinema e televisão, o mesmo processo se

aplica a roteiros de jogos. Deve-se escrevê-lo de diferentes maneiras para os diferentes

membros de uma equipe que projetará os jogos, sendo necessário que todos entendam o que

será construído.

3.7.2 A criação de personagens

A criação de personagem é uma parte muito importante da criação de jogos e

precisa de uma atenção especial, qualquer erro pode fazer com que os personagens transmitam

a informação errada ao jogador.

Segundo Rogers (2012), a criação do personagem passa pela escolha de sua

personalidade, e dessa maneira auxiliando na escolha das formas que serão utilizadas para sua

44

criação.

Círculos são usadas para fazer seu personagem parecer amigável. Quadrados são, muitas vezes, usados para personagens fortes ou burros, dependendo do tamanho do quadrado. Triângulos são interessantes, um triângulo apontado para baixo, muitas vezes, é usado para dar ao heroico personagem uma estrutura poderosa. Entretanto, use o mesmo triângulo apontado para baixo na cabeça de um personagem e ele parecerá sinistro. (ROGERS, 2012, p. 108)

Figura 2 - Formas e personagens

(ROGERS, 2012, p. 108) Figura 2 - Formas e personagens Fonte: Rogers, 2012, p. 108 Quando

Fonte: Rogers, 2012, p. 108

Quando criamos o personagem para um jogo, precisamos nos preocupar com várias

coisas como tipos de personagens (valentão, heroico, valentão), também precisamos pensar no

nome que ele terá dentro do jogo, e indo mais fundo, se esse nome será atribuído pelo criador

ou pelo jogador.

Outro ponto importante na criação de personagens são as armas, Rogers (2012)

alerta que temos que tomar cuidado para que as armas não atrapalhem a ação dos personagens.

A criação de personagens é altamente complexa envolvendo, muitas vezes, vários

profissionais. Para este estudo utilizaremos um pacote de recursos 8 com personagens já criados,

auxiliando assim o aluno que precisará apenas escolher dentre os personagens, qual se encaixa

8 Pacote de recursos disponível em https://goo.gl/AF5g34

45

em seu jogo.

Na pasta recursosos personagens estão no formato de sprites, sendo, como

definido por Rabin (2013, p. 704), “Elementos 2D desenhados na tela semelhantes aos

elementos de interface do usuário.”.

Nesta aula como na anterior os alunos estavam tão empolgados que nos corredores

já queriam confirmar se iria ter aula mesmo, foi bem interessante já que isso não acontecia

antes.

Quando chegaram ao laboratório, todos tomaram os seus lugares e logo foram

questionando

sobre

o

assunto

da

aula.

Quando

falei

que

seria

sobre

personagem

e

movimentação ouvi gritos de alegria. Fiquei animada e feliz, dei início aos trabalhos.

Nesta aula falei para os alunos o que são sprites e como iríamos inseri-los no nosso

jogo, como um explorador e herói. Em seguida, ensinei a colocá-lo no ambiente do jogo.

Quando todos conseguiram inserir o personagem, mostrei que ele poderia ter ações como pular

e andar. Propositadamente fiz o personagem sair da tela e questionei os alunos sobre o que eles

achavam que seria o problema já que, tínhamos feito o cenário, com chão e plataformas. Após

algumas sugestões pedi que os alunos batessem os pés no chão e todos disseram “sólido” que

era a resposta para o meu questionamento. O personagem só conseguiria andar sobre algo que

fosse sólido e nós deveríamos definir essa propriedade do chão para que o nosso herói

começasse a andar. Após definir a propriedade coloquei, o jogo para executar e todos ficaram

admirados. Liberei os equipamentos e todos começaram a fazer o movimento dos personagens.

46

Figura 3: Inserindo o personagem

46 Figura 3: Inserindo o personagem Fonte: Foto produzida pela autora deste trabalho. 3.7.3 Animação dos

Fonte: Foto produzida pela autora deste trabalho.

3.7.3 Animação dos personagens

A animação dos personagens é algo extremamente importante, pois, cria uma

expectativa no jogador quanto aos efeitos que a animação possa provocar no personagem.

Atualmente, temos jogos com personagens cada vez mais realistas, e parte desse

realismo também é responsabilidade do animador, profissional responsável pela animação dos

personagens, Rabin (2013) nos diz que, na indústria de games, o animador tem sido uma das

posições mais cobiçadas, e também a tarefa mais complicada de empreender.

Segundo Rabin (2013, p.729):

Aprender a arte da animação é simples e acessível para quem usa o tempo para observar as coisas ao seu redor se movendo, reagindo e se comportando. Para animadores, o mundo é como um livro didático para o estudo da autonomia de todas as coisas vivas.

Para se produzir a animação de um personagem, se faz necessário o planejamento

de todas as tarefas, para isso trabalhamos a relação do personagem com o mundo do jogo,

Rogers (2012) diz que pensar na métrica do personagem (altura e largura), auxilia a determinar

as ações e consequentemente a animação do personagem a cada momento do jogo.

47

Figura 4: Métrica e animação de personagem

47 Figura 4: Métrica e animação de personagem Fonte: Roger, 2012, p. 117 Após os alunos

Fonte: Roger, 2012, p. 117

Após os alunos entrarem no laboratório, foram avisados que faríamos animação dos

personagens, sendo necessário, portanto, que eles prestassem atenção, já que teriam de realizar

uma série de comandos com o fim de iniciar a animação dos personagens. Todos ficaram bem

atentos. Dividi a aula em quatro partes e na primeira expliquei sobre as strips que nada mais

são do que várias sprites ou desenhos que ao serem mostradas em sequência criam uma

animação.

Depois informei que o personagem que colocamos na aula anterior seria substituído

por uma sprite strip, mas sem perder suas ações, em seguida mostrei como colocar a strip e

como alterar suas propriedades, iniciou com a animação para a direita, após todos terminarem

demonstrei como deveriam fazer a animação para a esquerda.

O personagem se movimentava para a direita, mas quando tinha que andar para

esquerda parecia andar de costas. Informei que para mudar isso, precisaríamos programar algo

que faríamos na aula seguinte.

Percebi bastante dificuldade dos alunos ao terem que realizar um grande número de

ações novas na mesma aula. A grande maioria solicitou minha ajuda, ou a de um colega para

poder realizar as ações.

48

Figura 5: Alunos observando a movimentação do personagem

48 Figura 5: Alunos observando a movimentação do personagem Fonte: Foto produzida pela autora deste trabalho.

Fonte: Foto produzida pela autora deste trabalho.

3.7.4 Pontuação e Vidas

Pontos e vidas são temas que despertam um grande interesse nos alunos, já que a

competitividade é um princípio básico dos jogos, então, quando o personagem atinge um

determinado inimigo ou demora muito tempo para atingir determinados desafios, ele passa a

perder vidas ou pontos. Já quando ele atinge o objetivo da fase, ou, até mesmo pega itens na

tela seus pontos ou vidas podem aumentar.

Nesta aula, trabalhamos o conceito de ações e eventos. Expliquei aos alunos que

para que o personagem perca vidas, será necessário que um evento provoque uma ação. O

evento que iremos utilizar para essa aula, será o de colisão ou “on colision.

Expliquei que os eventos são acontecimentos, e dei como exemplo quando dois

objetos se encontram, esse choque nada mais é do que uma colisão. O mesmo ocorre com o

personagem do jogo, quando ele colidir com o inimigo, uma ação será realizada, no caso do

jogo será subtraído um na quantidade de vidas.

49

Figura 6: Jogo exemplo com vida e pontos

49 Figura 6: Jogo exemplo com vida e pontos Fonte: Tela da engine Construct 2. Isso

Fonte: Tela da engine Construct 2.

Isso gerou uma inquietação entre os alunos, e todos me perguntaram: Como

faremos isto?

Respondi que para isso ser feito, teremos que criar uma variável que será um campo

que terá seu valor alterado no decorrer do jogo, e esse valor é exibido na tela e atualizado cada

vez que o evento de colisão for realizado.

Já para a pontuação, incluímos na tela moedas e quando o personagem colidir com

a moeda a ação a ser realizada será, acrescentar dez no valor dos pontos. Para isto, novamente

utilizaremos uma variável que terá seu valor alterado quando o evento de colisão entre o

personagem e a moeda ocorrer, e após seu valor ser alterado o valor que está sendo exibido na

tela também será atualizado.

50

Figura 7: Event sheet de pontos e vida

50 Figura 7: Event sheet de pontos e vida Fonte: Tela do Construct 2. 3.7.5 Transferir

Fonte: Tela do Construct 2.

3.7.5 Transferir o jogo para o mobile

A Aula em que colocamos os joguinhos dos alunos no celular foi muito interessante

e prazerosa pois eles se mostraram realmente interessados, até mesmo porque, quando colocado

no celular, eles poderiam mostrar não só para os amigos os jogos que eles haviam criado, mas

também, para os pais e para outras pessoas fora do ambiente escolar.

No início da aula, conversamos sobre como os comandos que até o momento

estavam sendo executados através do teclado, seria transferido para o celular. Para que os

controles fossem executados pelo celular, deveríamos incluir no jogo o touch, ferramenta que

possibilitaria que os comandos fossem executados com a ponta dos dedos.

Para os testes no computador, o touch seria simulado através dos cliques do mouse.

A partir desse momento, expliquei como alterar o programa para que esta nova realidade fosse

verdade no jogo de cada um deles.

Figura 8: Event sheet touch

que esta nova realidade fosse verdade no jogo de cada um deles. Figura 8: Event sheet

Fonte: Tela do Construct 2.

51

Percebi nos alunos, um pouco de dificuldade de entender não só como os comandos

seriam inseridos no jogo, mas também, como funcionaria no celular. Muitos pediram minha

ajuda, e todos foram atendidos. Para concluir este processo nos jogos de todos os alunos, foram

necessárias três aulas.

Quando finalmente concluímos os jogos, compilamos e criamos o executável

primeiro para a plataforma Android e em seguida para a plataforma IOS. Para conseguir este

resultado, exportamos o jogo para HTML5, e em seguida usamos um site que efetua a

compilação e geração dos aplicativos o CocoonJs 9 .

Os alunos utilizaram o cabo USB dos celulares para transferir os arquivos, e com

os arquivos já no celular, instalar os jogos.

3.8 Jogos Digitais no 7º ano

O novo projeto foi implantado no início deste ano de 2016. Como havia sido

previsto na divisão do conteúdo da disciplina de Jogos Digitais, aos alunos do 7º ano do ensino

fundamental II coube a criação de jogos digitais usando o programa Construct 2 para

computadores.

A escolha do programa Construct 2 foi feita por tratar-se de uma ferramenta de fácil

aprendizado, onde a maioria das ações são realizadas por meio de botões, e a programação

apesar de ser orientada a objetos é realizada em blocos, outro ponto positivo da ferramenta é

ela ser disponibilizada de maneira gratuita, podendo gerar arquivos compatíveis com os

sistemas operacionais Android e IOS.

9 https://cocoon.io/home

52

Para melhor andamento das aulas, essas foram organizadas da seguinte forma: nas

primeiras aulas do projeto, os alunos conheceram um pouco sobre a história dos videogames e

quais informações eram necessárias para a criação dos jogos; outro ponto importante das

primeiras aulas foi contar aos alunos a proposta do projeto da disciplina para 2016 e as

alterações propostas para melhoria da disciplina de Jogos Digitais.

Depois de atualizar os alunos, iniciamos o conteúdo explicando sobre a ferramenta

para a criação de um jogo simples de plataforma que foi desenvolvido com orientações

contínuas sobre o personagem, fundo, vidas, músicas e inimigos.

Figura 9: Jogo de exemplo criado pelo professor

fundo, vidas, músicas e inimigos. Figura 9: Jogo de exemplo criado pelo professor Fonte: Tela da

Fonte: Tela da engine Construct 2.

53

Figura 10: Event sheet do exemplo criado pelo professor

53 Figura 10: Event sheet do exemplo criado pelo professor Fonte: Tela da engine Construct 2.

Fonte: Tela da engine Construct 2.

Esse jogo foi desenvolvido para que os alunos aprendessem sobre a utilização do

programa e seus recursos, além de mostrar para eles como se desenvolvia um jogo de

plataforma.

3.8.1 Proposta

Após essas aulas, sete no total, foi proposta a criação de um jogo como um novo

desafio aos alunos. Para isso, a sala foi dividida em grupos e a seguinte proposta de atividade

foi feita para a turma:

Criação de um jogo que deve se passar no período da Idade Média e que

demonstre como é o funcionamento de um sistema Feudal. Esse jogo deve ser desenvolvido

para pessoas com faixa etária de até 12 anos. Para sua criação, será necessário um roteiro

contendo a descrição dos personagens e do jogo. Obrigatoriamente deve incluir falas em

Inglês. É necessário identificar: o local onde se passará o jogo, o tipo de vegetação e clima

do ambiente.

54

Os jogos foram desenvolvidos por 4 grupos de alunos, durante o período de 3

meses. Estão apresentados neste trabalho mais adiante.

Figura 11: Alunos iniciando o projeto proposto

mais adiante. Figura 11: Alunos iniciando o projeto proposto Fonte: Foto produzida pela autora deste trabalho.

Fonte: Foto produzida pela autora deste trabalho.

3.8.2 Integração com outras disciplinas: Português/Redação, Artes,

Matemática, Inglês e História

A descrição dos personagens do roteiro do jogo, foi desenvolvida durante as aulas

de redação, quando os alunos foram auxiliados pela professora da disciplina, que durante suas

aulas ensinou os métodos para criação desse tipo de texto.

Para criação dos personagens, foi disponibilizado aos alunos uma pasta virtual

denominada recursos, onde já existiam algumas imagens que poderiam ser utilizadas como

personagens, fundo e itens de tela. Uma particularidade dessa pasta é que ela possuía itens de

diversos tipos e ficou a critério dos alunos definir como eles seriam usados. Também foi aberta

a possibilidade de ser criada as imagens do jogo.

Quando se fez necessário programar a movimentação, vidas e pontos, contou-se

com o auxílio do professor de matemática, ao ministrar o conteúdo de funções, utilizou por

55

diversas vezes o jogo como exemplo, e com isso o professor constatou maior interesse dos

alunos pela disciplina.

Para as falas em inglês o auxílio foi da equipe de professores bilíngue da instituição,

que durante todo o processo de desenvolvimento dos jogos apoiou e corrigiu o conteúdo

elaborado pelos alunos.

A disciplina de história foi a mais afetada pelo projeto, já que o tema central do

desafio era a demonstração do sistema feudal, conteúdo escolhido por estar sendo ministrado

durante o período do projeto. O professor relatou que, por diversas vezes, durante as aulas, foi

questionado pelos alunos sobre o tipo de vestimenta, hábitos e armas utilizadas na época.

Figura 12: Criação dos jogos

e armas utilizadas na época. Figura 12: Criação dos jogos Fonte: Foto produzida pela autora deste

Fonte: Foto produzida pela autora deste trabalho.

3.8.3 Uso do Facebook e Youtube

Durante o processo de desenvolvimento do projeto, observou-se grande interesse dos

alunos em dar continuidade na criação de jogos também fora da escola, já que as aulas se

tornaram curtas visto o grande interesse dos alunos. Para suprir essa necessidade foram

56

utilizados dois outros meios de interação que podem ser acessados pelos alunos de qualquer

lugar a qualquer momento, o Facebook 10 e o Youtube 11 .

Figura 13: Página da disciplina no Facebook

1 1 . Figura 13: Página da disciplina no Facebook Fonte: Tela do Facebook O Youtube

Fonte: Tela do Facebook

O Youtube foi utilizado para esse projeto como ferramenta de apoio, onde foram

feitas videoaulas do conteúdo que estava sendo ministrado e ao ser disponibilizado, os alunos

utilizaram como instrumento para tirar dúvidas e relembrar o conteúdo.

10 https://www.facebook.com/profericalopes/

11 https://www.youtube.com/user/ericaolsilva

57

Figura 14: Canal do Youtube usado no projeto

57 Figura 14: Canal do Youtube usado no projeto Fonte: Tela do Youtube. Ao perceber um

Fonte: Tela do Youtube.

Ao perceber um grande interesse dos alunos em mostrar para os pais e colegas o

que era desenvolvido durante as aulas de Jogos Digitais, criei uma página no Facebook, onde

foram postadas fotos das aulas, recados e até mesmo a informação sobre a disponibilização das

videoaulas. Durante o desenvolvimento dos games a página foi alimentada pelos alunos.

O dia da apresentação dos projetos foi esperado com bastante ansiedade pelos

alunos. Observei a inquietação dos grupos com relação à aceitação do jogo pelos colegas. Ao

perceber que tudo havia ocorrido conforme as expectativas, os alunos ficaram simplesmente

encantados.

Durante

o

processo

de

criação,

a

parte

mais

interessante

foi

observar

o

envolvimento dos alunos, sua real preocupação e principalmente, notar o quanto eles precisam

das disciplinas de núcleo comum para a construção de um jogo.

3.8.4 Desenvolvimento dos jogos

Durante todo o processo de criação, estive ao lado dos alunos de forma a apoiá-los

e principalmente para ajudar a fazer os jogos conforme proposta.

Quando iniciou o projeto, os alunos não perceberam que antes de fazer o jogo, eles

precisavam cumprir algumas etapas como, por exemplo, a criação dos roteiros e a criação dos

58

personagens. Nesse primeiro momento, eles simplesmente começaram a construir o jogo e ao

fazerem essa construção, perceberam que precisavam criar o roteiro e os personagens, pois só

assim eles conseguiriam trabalhar com o que foi pedido. Após algumas discussões em sala de

aula, discussões essas até mesmo entre os componentes do grupo, eles resolveram então

começar tudo de novo: primeiro criar uma história, e o mais interessante nessa parte foi que

alguns grupos simplesmente dispersaram do tema ao escrever sobre seu conteúdo. Outros

grupos resumiram o máximo possível, como podemos ver nos

alunos.

roteiros criados pelos próprios

A discussão em torno do roteiro foi muito grande. Questionaram-se o tempo todo,

se o jogo poderia ter fases, outros simplesmente queriam acabar logo com tudo aquilo. O que

eles não pensaram foi o tempo que teriam para realizar essa atividade. Eles estavam crentes que

aquilo ia mudar a vida deles. O mais interessante de tudo isso foi ver a carinha deles de

satisfação com o jogo. Com roteiro pronto, eles já visualizavam o jogo com os desenhos dos

personagens etc. Uns pensaram em colocar um personagem dos dias atuais e transferi-lo

ao

passado para poder explicar o sistema feudal; outros pensaram numa história com príncipes e

princesas, envolvendo o herói e a mocinha para relatar o sistema feudal; outros tomaram

cuidado com o tipo de fala e como essas falas seriam inseridas no trabalho. Achei interessante

que um grupo simplesmente montou um roteiro todo em inglês com, naturalmente, alguns erros,

achando que tudo o que eles fossem fazer relacionado ao jogo teria que ser em inglês.

Em seguida, percebi uma certa divisão no grupo: uma parte ficou responsável por

procurar os desenhos dos personagens, do fundo e do background e a outra parte do grupo ficou

responsável por programar o jogo, pensar como o jogo seria programado. Chamou minha

atenção o fato dos participantes de um grupo dividirem até mesmo a parte dos personagens. Um

dos componentes do grupo acabou liderando os outros e cobrei outro nível de qualidade do

jogo, como se fosse, realmente, uma empresa de games, com logo, nome da empresa, etc. Eles

59

pensaram nos mínimos detalhes. O responsável pelas Sprites e os backgrounds começou a

trabalhar. Pensavam que precisavam de espadas e como eles iam colocar a espada na mão dos

personagens; nesse momento, preferi ficar um pouco distante, porque queria ver de que maneira

eles iriam resolver esse problema já que eu não tinha ensinado nada para eles sobre como um

personagem prende algo na mão ou ao corpinho dele. Para o processo de criação de jogos o que

eles tiveram realmente foram aulas simples e básicas sobre games. O que me surpreendeu nisso,

foi que eles fizeram a famosa pergunta: como eu faço? Eu simplesmente disse que a resposta

estava ali. Na aula seguinte à pergunta, eles já vieram com a resposta todos felizes, me dizendo:

“conseguimos”, mostrando o que eles tinham conseguido fazer.

Muitos professores me procuraram, relatando sempre o maior interesse dos alunos

em relação aos assuntos que poderiam contribuir para o jogo que eles estavam criando. O

professor de história foi o mais questionado, já que o sistema feudal era o assunto que estava

sendo ministrado no bimestre.

Para a avaliação dos jogos foi criada uma tabela para facilitar o processo. Cada jogo

foi avaliado segundo os critérios: roteiro, designer de jogo, programação, trabalho em equipe,

utilização do tema, relação entre roteiro e jogo, motivação com relação à atividade, onde cada

item foi validado com as notas: 0 (zero) não realizou ou não atingiu o que foi solicitado; 5

(cinco) não realizou o item em sua totalidade; 10 realizou o item em sua totalidade.

A seguir a descrição dos jogos criados pelos alunos e a avaliação dos jogos.

60

Tabela 3: Modelo de avaliação dos jogos

Grupo ?

Nome do jogo:

 
 

0

5

10

Roteiro

     

Designer do jogo

     

Programação

     

Trabalho em equipe

     

Utilização do tema

     

Relação entre roteiro e jogo

     

Motivação com relação à atividade

     

Fonte: Autora deste trabalho

3.8.4.1 Jogo: Grupo 1

O Grupo 1, ao longo do processo de criação do jogo, observei uma grande

preocupação do grupo quanto a pesquisa sobre o tema “Feudalismo”. Essa preocupação foi

relatada no roteiro, que teve quase em sua totalidade informações sobre o Sistema Feudal, não

relatando o que seria o jogo.

A seguir roteiro do Grupo 1:

ROTEIRO

O feudalismo é um sistema econômico, político e social

fundamentado na propriedade sobre a terra. Esta pertence ao

senhor feudal que cede uma porção dessa terra ao vassalo em

61

troca de serviços ocasionando uma relação de dependência.

Sua principal característica é a saída das pessoas da cidade

para o campo.

ILUSTRAÇÃO DO FEUDO

O feudalismo se inicia com o período das invasões

bárbaras e a posterior queda do Império Romano do Ocidente

(século V) que transforma toda a estrutura política e econômica

da Europa Ocidental descentralizando-a. Os povos “bárbaros”

ao ocuparem parte das terras da Europa Ocidental contribuem

com o processo de ruralização e o surgimento de diversos

reinos, dentre os quais se destacou o Reino dos Francos. Mas

é no Reino Carolíngeo que se solidificam as principais

estruturas do feudalismo.

Predominantemente durante toda a Idade Média, o

feudalismo

se

caracteriza

pelas

relações

de

vassalagem

(dependência pessoal) e de autoridade e posse de terra. As

vilas e o colonato tornam-se o centro da nova estrutura sócio-

econômica que tem um sistema produtivo basicamente voltado

para o suprimento das necessidades individuais dos feudos.

Com uma estrutura social estática e hierarquizada

podemos identificar a vassalagem e a suserania com as

principais relações da sociedade feudal. O senhor feudal ou

suserano era quem tinha a posse das terras e as cedia aos

62

vassalos que deviam trabalhar nelas para sustento próprio e,

no que chamavam de corveia, o trabalho gratuito para o

senhor feudal durante três dias por semana.

A sociedade era basicamente composta por duas

camadas principais: os senhores e os servos. O clero, embora

de muita importância na sociedade feudal, não constituía uma

classe separada uma vez que os componentes do clero, ou

eram senhores (alto clero), ou eram servos (baixo clero).

A Igreja nesse período assume a posição de único

poder centralizado. Aliás, a que se considerar a enorme

importância da igreja na sociedade feudal uma vez que naquela

época

toda

a

formação

moral,

fortemente influenciada pelo clero.

social

e

ideológica

era

O fim do sistema feudal costuma ser delimitado pela

queda do Império Romano do Oriente no século XV e, na

Europa deveu-se a diversos motivos econômicos, sociais,

políticos e religiosos. Dentre eles podemos destacar a fome

ocasionada pela estagnação das técnicas agrícolas aliada ao

crescimento excessivo da população; a peste que assolou a

Europa dizimando um terço da população já bastante debilitada

pela fome; o esgotamento das reservas minerais abalou a

produção de moedas afetando inevitavelmente as operações

bancárias e o comércio; a ascensão da burguesia e a crise

religiosa ocasionada pela necessidade de uma nova filosofia

religiosa e novas necessidades espirituais.

63

Pude perceber que o roteiro ficou sob responsabilidade das meninas, a programação

do jogo foi responsabilidade dos meninos, que discutiram o tempo todo sobre como realizar a

tarefa, se preocupando sempre com a estética do jogo.

O grupo optou por um layout simples a criação do jogo, conforme figura 12, a

função principal do jogador é proteger o feudo dos inimigos, para isso é necessário que ele

posicione os atiradores em locais estratégicos de forma que os inimigos não cheguem ao final

do percurso. A dificuldade do jogo muda conforme o tempo de jogo, fazendo com que os

inimigos fiquem mais resistentes as flechas, assim sendo necessário que o jogador pense na

estratégia de jogo para conseguir o maior número de pontos dessa fase.

Figura 15: Jogo Grupo 1

maior número de pontos dessa fase. Figura 15: Jogo Grupo 1 Fonte: Tela da engine Construct

Fonte: Tela da engine Construct 2.

Durante a programação do jogo, através da engine Contruct 2, o grupo se mostrou

bastante organizado, dividindo a programação em: controle de personagens e controle das

armas. Com esta divisão a programação ficou fácil de ser compreendida.

Outra característica da programação são os nomes dados as sprites e layers

utilizadas no jogo, todas estão nomeadas de forma a facilitar a verificação de cada item, ou seja,

as camadas foram nomeadas, onde cada item foi colocado e sua camada de referência.

64

A utilização de variável do tipo local, item que determina que as informações

podem ser utilizadas em mais de uma fase são características que podem demonstrar que

existirá uma continuidade na criação do jogo. (Figura 13)

Figura 16: Event sheet - Grupo 1

do jogo. (Figura 13) Figura 16: Event sheet - Grupo 1 Fonte: Tela da engine Construct

Fonte: Tela da engine Construct 2.

Após apresentação do jogo pelo grupo, foi realizada a avaliação dos itens

solicitados, conforme tabela abaixo.

Tabela 4: Modelo de avaliação do jogo Grupo 1

Grupo 1

Nome do jogo:

Feudalismo a Guerra

 

0

5

10

Roteiro

 

X

 

Designer do jogo

   

X

Programação

 

X

 

Trabalho em equipe

 

X

 

Utilização do tema

 

X

 

Relação entre roteiro e jogo

X

   

Motivação com relação à atividade

 

X

 

Fonte: Autora deste trabalho

65

3.8.4.2 Jogo: Grupo 2

O Grupo 2, ao longo do processo de criação do jogo, observei o grupo bem

equilibrados, apesar da divisão de atividades do grupo, novamente meninas responsáveis por

roteiro e pesquisa e meninos na programação do jogo.

Apesar de toda pesquisa e interesse o roteiro ficou bem simples mas relata um

pouco da história que eles tinham em mente para o jogo, utilizando o conhecimento adquirido

sobre feudalismos para sua criação, conforme demonstrado abaixo.

Roteiro DJ

1 Silva trabalha nos feudos, colhendo as plantações.

2 Ele conhece uma mulher e cria um filho com ela.

3 O seu filho cresce e Silva vê a sua habilidade de filosofia,

ele conta para seus amigos sobre seu filho, o padre se sente

ameaçado e manda mata-lo por ser contra a igreja e o seu

senhor.

4 Ele foge com seu filho para o salvar.

5 Os caras que trabalham para o senhor feudal começam a

cruzada em busca dele, porém Silva se junta com pessoas que

não aceitam essa igreja e tem uma guerra.

6 Silva e seu filho criam a civilização e todos começam a ir

para a cidade.

O jogo elaborado pelo grupo teve seu layout com riqueza de detalhes e a utilização

de bastante itens de tela para tornar o jogo mais próximo ao tema. Conforme podemos verificar

na figura abaixo.

66

Figura 17: Jogo Grupo 2

66 Figura 17: Jogo Grupo 2 Fonte: Tela da engine Construct 2. O grupo utilizou como

Fonte: Tela da engine Construct 2.

O grupo utilizou como base outros jogos de plataforma e com isso, vários recursos

de tela, de maneira a exibir a tela de forma infinita, ou seja, o jogador não encontrará o fim.

Para este jogo, o jogador precisa passar por vários obstáculos e perigos na floresta

para poder fugir do “Senhor Feudal” e ganhar o jogo. Conforme imagem a seguir.

Figura 18: Event sheet Grupo 2

e ganhar o jogo. Conforme imagem a seguir. Figura 18: Event sheet – Grupo 2 Fonte:

67

Todos os itens do jogo foram programados através de ações, não sendo utilizado a

event sheet. Após apresentação do jogo pelo grupo, foi realizada a avaliação dos itens

solicitados, conforme tabela abaixo.

Tabela 5: Modelo de avaliação do jogo Grupo 2

Grupo 2

Nome do jogo:

DJ

 

0

5

10

Roteiro

 

X

 

Designer do jogo

   

X

Programação

 

X

 

Trabalho em equipe

   

X

Utilização do tema

 

X

 

Relação entre roteiro e jogo

 

X

 

Motivação com relação à atividade

   

X

Fonte: Autora deste trabalho

3.8.4.3 Jogo: Grupo 3

O Grupo 3, durante a produção do jogo foi possível abordar a participação de todos

os componentes do grupo, em todas as partes de criação do jogo, Desde o início o grupo queria

relatar o tema através de um jogo de plataforma.

Iniciaram o trabalho com a pesquisa do tema e elaboração do roteiro, utilizando o

conhecimento adquirido sobre feudalismos para sua criação.

68

Word Game

Word Game é uma empresa que está a bastante tempo

nos jogos teen para crianças, até 12. Com o intuito de divertir

e aprender2ws com o jogador enquanto joga, História, Inglês e

Português.

Este novo jogo que estamos criando é um jogo de estilo

idade média que se passa no Sistema Feudal, os camponeses

têm que passar por diversas fases como: pegar moedas,

correr, saltar e etc.

Com tudo isso o jogador aprenderá qual tipo de

vegetação, como eram os feudos e o clima.

Camponês:

Os

camponeses

cultivavam

em

suas

terras

produtos dos Senhores Feudais e seus produtos próprios

também, mas no mercado, o produto dos Senhores Feudais

tinha maior valor e mais preferência.

Tipo de vegetação: Sempre sedimentar, portanto uma área

plana que recebe sedimentos de outra área. Os continentes

europeus

possuem

uma

geologia

principal

a

planície.

Geralmente localizadas em baixas altitudes, ou seja, pouco

elevada ao nível do mar. É um dos tipos de relevo mais

aproveitados pelo homem para as atividades agrícolas durante

a Idade Média.

Como eram os feudos: O feudo era uma unidade de produção

do mundo medieval e onde acontecia a maior parte das

69

relações sociais. O senhor do feudo possuía, além da terra,

riquezas em espécie e tinha direito de cobrar impostos e taxas

em seu território. Uma vez por semana os camponeses

poderiam plantar nas terras do senhor feudal, e tudo o que eles

produzissem

50%

seria

cedido

ao

pagamento por usar sua terra.

senhor

feudal

como

O layout do jogo possui vários itens alguns bem diferentes para a época solicitada,

como é o caso das moedas e alguns monstros.

O personagem utilizado é um explorador, o jogador faz uma volta ao tempo,

chegando ao feudalismo, onde precisa coletar moedas e se livrar dos inimigos para chegar ao

livro que o fará voltar para casa. Esse trajeto é repleto de perigos e aventura de conhecimento,

conforme demonstrado abaixo.

Figura 19: Jogo Grupo 3

e aventura de conhecimento, conforme demonstrado abaixo. Figura 19: Jogo Grupo 3 Fonte: Tela da engine

70

A programação do jogo foi trabalhada de maneira bem organizada e simples, desta

maneira facilitando o entendimento de cada etapa do processo de criação, conforme figura a

seguir.

Figura 20: Event sheet - Grupo 3

conforme figura a seguir. Figura 20: Event sheet - Grupo 3 Fonte: Tela da engine Construct

Fonte: Tela da engine Construct 2.

Após apresentação do jogo pelo grupo, foi realizada a avaliação dos itens

solicitados, conforme tabela abaixo.

Tabela 6: Modelo de avaliação do jogo Grupo 3

 

Grupo 3

Nome do jogo:

Jogo da Memória

 

0

5

10

Roteiro

   

X

Designer do jogo

 

X

 

Programação

   

X

Trabalho em equipe

   

X

Utilização do tema

 

X

 

Relação entre roteiro e jogo

 

X

 

Motivação com relação à atividade

   

X

Fonte: Autora deste trabalho

71

3.8.4.4 Jogo: Grupo 4

O Grupo 4, durante a produção do jogo foi possível abordar a participação de todos

os componentes do grupo em todas as partes de criação do jogo, este, que era bem diferente da

proposta de jogo dos colegas. Desde o início o grupo queria relatar o tema através de um jogo

de memória.

Iniciaram o trabalho com a pesquisa do tema e elaboração do roteiro, conforme

demonstrado abaixo, utilizando o conhecimento adquirido sobre feudalismos para sua criação

do jogo.

Era Feudal

O objetivo do jogo é se libertar do feudo, por meio de

jogos divididos em 3 fases.

1ª Fase: Jogo da memória. Ache os 10 pares (1,5 min)

Fase:

Procure

no

feudalismo. (3,5 min)

caça-palavras

10

termos

sobre

o

3ª Fase: Passe por um circuito com inimigos, buracos e areia

movediça. (3 min)

- Se o participante não realizar a tarefa no tempo correto, o jogo

automaticamente reiniciará.

- Se realizado todas as tarefas o jogador ganhará o jogo e

consequentemente se libertará do feudo.

72

O jogo elaborado pelo grupo teve seu layout simples, deixando os detalhes para as

cartas que seriam utilizadas no jogo, 100 no total.

O jogador deverá através da memória selecionar as cartas iguais para ganhar os

pontos do jogo, conforme figura abaixo.

Figura 21: Jogo Grupo 4

do jogo, conforme figura abaixo. Figura 21: Jogo Grupo 4 Fonte: Tela da engine Construct 2.

Fonte: Tela da engine Construct 2.

Para este trabalho, existiu a necessidade de muita pesquisa sobre a programação, as cartas

precisariam ser exibidas em duplicidade na tela, também deveriam ser embaralhadas para que

o jogador a cada rodada fosse surpreendido com novas informações e posições, conforme

demonstrado na imagem abaixo.

73

Figura 22: Event sheet - Grupo 4

73 Figura 22: Event sheet - Grupo 4 Fonte: Tela da engine Construct 2. Após apresentação

Fonte: Tela da engine Construct 2.

Após apresentação do jogo pelo grupo, foi realizada a avaliação dos itens

solicitados, conforme tabela abaixo.

Tabela 7: Modelo de avaliação do jogo Grupo 4

Grupo 4

Nome do jogo:

Jogo da Memória

 

0

5

10

Roteiro

   

X

Designer do jogo

   

X

Programação

   

X

Trabalho em equipe

   

X

Utilização do tema

 

X

 

Relação entre roteiro e jogo

   

X

Motivação com relação à atividade

   

X

Fonte: Autora deste trabalho

74

4 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

No desenvolvimento deste trabalho estudei procedimentos para o desenvolvimento

de um novo projeto para a disciplina de Jogos Digitais, visando, relatar minha experiência como

docente, focando em descrever o processo para criação de jogos, no decorrer das aulas de Jogos

Digitais com alunos do 7º ano do ensino fundamental II, em uma escola particular situada na

cidade de São Paulo.

Para compreender o projeto utilizei pesquisas existentes e referencial teórico, que

sustentou o desenvolvimento desta pesquisa, com a intenção de narrar minha experiência.

As aulas foram preparadas e ministradas, produzindo instrumentos para que o aluno

construa o próprio conhecimento. Para este trabalho considero muito importante o que é dito

por Piaget (1975, p.62)

Conquistar por si mesmo um certo saber, com a realização de pesquisas livres, e por meio de um esforço espontâneo, levará a retê-lo muito mais; isso possibilitará sobretudo ao aluno a aquisição de um método que lhe fará útil ter toda a vida.

Piaget (1975), em sua teoria diz que o estudante aprende interagindo com o meio,

passando por dois processos, o de assimilação e o processo de acomodação, nos quais o

estudante estará em desequilíbrio cognitivo que é ajustado no momento que ocorre a

aprendizagem.

Quando iniciamos as atividades para a nova disciplina trabalhamos o processo de

assimilação, onde foi proposto aos alunos novos estímulos, que ao termino do projeto se

tornaria um jogo criado pelos próprios alunos, algo que para eles era novidade.

Ainda segundo Piaget (1975), o processo de aprendizagem acontece dentro do

cérebro, e para que isso ocorra temos que levar em consideração o conhecimento adquirido

anteriormente pelo indivíduo, no nosso caso o aluno.

75

Pensando neste conhecimento, criei a proposta para criação de um novo jogo, que

para mim tinha como objetivo resgatar o conhecimento adquirido anteriormente pelos alunos

durante as aulas de núcleo comum (português, matemática, história, entre outras), e assim trazer

o aluno para o processo de acomodação que Piaget (1975) relato como o momento de

aprendizagem efetiva, onde o aluno faz a ligação entre o novo conteúdo e o conteúdo já

aprendido anteriormente

No início das atividades percebi um jovem diferente da minha época, interessado

nas redes sociais e em seus smartphones, deixando de lado o interesse pelas aulas. Um jovem

que não enxerga mais o professor como porta-voz do saber, já que com a chegada da tecnologia

o saber que era centrado no professor agora está acessível na internet.

Prensky (2013) se refere a tecnologia como extensão do cérebro dos jovens,

alterando assim, o comportamento de nossos alunos e desta maneira precisamos repensar na

maneira como conduzimos as aulas. Para tentar introduzir mudança didática, investi em uma

maneira lúdica de orientar os alunos sobre os conhecimentos mínimos necessários para criação

de jogos digitais.

Em seu livro Mattar (2010), se refere aos games como uma ferramenta que motiva

os jovens, defendendo os games como um novo estilo de educar os nativos digitais, que

possuem necessidade de receber a informação de forma mais rápida, e que já possuem a internet

e os games incorporadas em seu cotidiano.

Mas, para que esse novo estilo de educar existisse algumas etapas se fizeram

necessárias. Tinha em mente a estrutura que gostaria de seguir para alcançar o objetivo proposto

de orientar os alunos na produção de jogos digitais, e assim após efetuar o levantamento

bibliográfico e a preparação das aulas dei início ao projeto.

76

Na primeira aula que ministrei para a turma do 7º ano A, confesso estar um pouco

nervosa, existia o receio de como os alunos iriam receber minha proposta para as aulas, iniciei

me apresentando e contando um pouco sobre a história dos games. Acreditava que ao

conhecerem um pouco sobre o mundo dos eletrônicos, desde o ano de seu surgimento até os

dias atuais, conforme demonstrado por Gularte (2010), além de desenvolver o contexto

histórico dos games, se tornaria uma abertura importante para informá-los da nova proposta

para a disciplina de Jogos Digitais.

Na aula seguinte, a proposta foi conhecer a ferramenta Construct 2, que seria

utilizada no decorrer da aula, demonstrei como instalar, onde localizar a ferramenta para

download e deixei que eles jogassem jogos demonstrativos que a ferramenta utiliza como

exemplo, confesso que hoje observando o que foi realizado, percebi ter me precipitado, pois,

criei uma ansiedade desnecessária neste primeiro momento, acredito que se a parte teoria fosse

introduzida antes da apresentação da ferramenta, existiria um aumento de interesse em outras

partes da construção dos games.

Após passado este primeiro momento, a discussão com os alunos se deu sobre a

tecnologia na qual o jogo seria executado, para isto, utilizei os conhecimentos adquiridos com

Chandler (2012), que nos explica as diferentes plataformas ou hardwares, que podemos utilizar

para executar um jogo, os diferentes tipos de gêneros no qual um jogo pode ser desenvolvido.

Quando iniciamos a fase de criação dos roteiros, os alunos se mostraram bastante

empolgados. A

teoria descrita por Comparato (2012), nos trouxe as etapas necessárias para

criação de um roteiro, que deve ser escrito de diferentes maneiras, para que todos os membros

de uma equipe entendam o que será construído. Essa tarefa se mostrou simples de ser realizada

já que os alunos seriam apoiados pela professora de português. Eu só não tive a percepção que

77

isso poderia não ser tão simples. Pelo fato da professora não possuir tanta experiência com

jogos, se tornou difícil a condução das aulas e até mesmo do que era um roteiro para games.

Os

roteiros

criados

pelos

grupos,

estavam

muito

simples,

ou

o

nível

de

detalhamento era tão grande que a característica de um roteiro era deixada de lado, Imagino

para uma próxima oportunidade a criação de um modelo de roteiro, onde sua construção deve

ser realizada em conjunto com os alunos para melhorar a percepção deles sobre o que é um

roteiro de games.

A aula de criação de personagens se tornou a mais divertida, pedi para que os alunos

falassem nomes dos personagens de jogos para que pudéssemos analisar a aparência deles, para

fazer essa análise utilizamos o que é dito por Rogers (2012, p. 108)

Círculos são usadas para fazer seu personagem parecer amigável. Quadrados são, muitas vezes, usados para personagens fortes ou burros, dependendo do tamanho do quadrado. Triângulos são interessantes, um triângulo apontado para baixo, muitas vezes, é usado para dar ao heroico personagem uma estrutura poderosa. Entretanto, use o mesmo triângulo apontado para baixo na cabeça de um personagem e ele parecerá sinistro. (ROGERS, 2012, p. 108)

Os

alunos

ficaram

simplesmente

encantados

comentando

sobre

como

seus

personagens seriam criados, muitos já projetando esses elementos com triângulos e círculos.

Percebi naquele momento que a teoria não só me auxiliou para a criação das aulas, mas também

trouxe a motivação do saber para o aluno, que até então não visualizava o jogo como uma forma

de aprendizagem.

Roger (2012), demonstrou como as métricas de altura e largura, aprendidas na aula

de matemática, servem como auxilio na hora de determinar as ações e consequentemente a

animação do personagem a cada momento do jogo. O professor de matemática envolvido no

projeto pode contribuir com o ensino dessas métricas.

78

A programação dos jogos se deu de maneira bem interessante, muitas dúvidas e

questionamento por parte dos alunos, já que era algo novo para eles. A principal dificuldade

que pude observar era em como se concentrar e pensar no problema de forma estruturada para

facilitar.

Durante as aulas, pude perceber um envolvimento grande da maioria dos alunos, os

questionamentos eram diversos e muitas vezes fui tratada como uma colega de sala. O interesse

dos alunos para as aulas era evidente, pude entender claramente a importância da motivação no

processo de ensino aprendizagem descrita por Gil (2012, p.86): “motivação constitui a força

que nos move para alcançar determinado objetivo, é a mola propulsora da ação”. O objetivo

dos alunos era construir o jogo, e isso os motivou a aprender e principalmente a buscar o

conhecimento. Os alunos se tornaram protagonistas do próprio conhecimento, já que por muitas

vezes fiquei apenas observando as dificuldades encontradas por eles, com o simples propósito

de saber de que maneira o problema seria solucionado.

No desenvolvimento do novo projeto para a disciplina de Jogos Digitais, o interesse

dos alunos pela criação de jogos ficou evidente, quando espontaneamente pediram orientação

para dar continuidade à criação dos projetos em casa. O tempo das aulas não foi o suficiente

para os anseios dos alunos por aprender mais.

Conforme o construtivismo, “o aluno é protagonista de sua aprendizagem, cabendo-

lhe realizar determinados processos cognitivos, que ninguém pode fazer por ele” (SALVADOR

e colaboradores, apud BORUCHOVITCH; BZUNECK, 2001, P. 11). Diante de toda a

experiência esse protagonismo pode ser observado, bem como a aplicação do conhecimento

adquirido dentro e fora da sala de aula. O esforço empreendido por eles na criação dos jogos

expressou a motivação neles despertada pelo manuseio das novas tecnologias disponíveis.

79

Levando em conta a afirmação de Lemos e Lévy (2010) de que o jovem de hoje

não é solitário, pois interage com outras pessoas por meio de redes sociais, os alunos foram

orientados a usar o Facebook e o Youtube, outros meios de interação, fora da sala de aula. Além

disso, puderam experimentar que, atualmente, eles vivem num metamundo virtual que torna

possível a comunicação entre aprendizagem e diversão, como foi observado por Lévy (2000).

Sabendo

que

são

nativos

digitais,

incentivei

os

alunos

a

buscarem

mais

conhecimento disponível na internet, por meio dos celulares, sempre presentes em suas mãos.

Confirma-se, assim, o que observou Serres (2013) a respeito do desaparecimento

da figura do professor como centro do conhecimento a ser ensinado. A escola não detém mais

o monopólio do conhecimento, hoje ele está disponível também no mundo virtual.

Ao apresentar os jogos criados aos demais colegas de sala, os alunos do novo

projeto, puderam confirmar que é possível desenvolver habilidades e competências, utilizando

as novas tecnologias para fins educacionais, como já foi pesquisado por Knittel (2014).

80

CONCLUSÃO

No desenvolvimento deste trabalho estudei procedimentos para o desenvolvimento

de um novo projeto para a disciplina de Jogos Digitais, motivada pela constatação de que o

aluno da atualidade é um novo sujeito imerso num mundo virtual com dispositivos móveis

presentes em toda parte, inclusive na sala de aula, exigindo dos professores posturas didáticas

novas e a busca de recursos tecnológicos condizentes com o mundo atual. Esta pesquisa teve

início com a escolha do tema ”O desenvolvimento de jogos digitais no Ensino Fundamental II”.

Ao refletir a respeito da motivação através do processo de construção de games, concluí que, é

possível, no Ensino Fundamental II, aprender os conteúdos próprios desse ciclo de forma

integrada, tendo como eixo integrador a criação de jogos digitais, o que foi descrito no novo

projeto para a disciplina de Jogos Digitais, capítulo 2.

À questão problema formulada no início “Como orientar alunos do Ensino

Fundamental II para produção de jogos digitais?”, pode responder que essa produção é possível

e atende à proposta de direcionar o interesse dos alunos pelo processo de ensino-aprendizagem.

No início do projeto os alunos trabalharam de forma individual, e após a

apresentação da proposta de criação de um jogo como um novo desafio, a sala foi dividida em

quatro grupos. O nível de envolvimento dos alunos após serem divididos em grupos foi

aumentando a cada aula. Ao término de uma das aulas, fui abordada por um aluno que me disse

“Professora, estou com muitas dúvidas de como será o meu jogo”. Acredito que a inquietação

e espontaneidade deste aluno, são pré-requisitos importantes para o processo de aprendizagem.

Pude perceber que o interesse dos alunos para as aulas era evidente, e entender

claramente a importância da motivação no processo de ensino aprendizagem descrita por Gil

(2012, p.86): “motivação constitui a força que nos move para alcançar determinado objetivo, é

a mola propulsora da ação”. A construção do jogo por parte dos alunos, motivou o aprender e

81

principalmente a buscar o conhecimento, cenário onde os alunos se tornaram protagonistas do

próprio conhecimento.

Diante de toda a experiência esse protagonismo foi observado e com isso a

aplicação do conhecimento adquirido dentro e fora da sala de aula. O esforço empreendido por

eles na criação dos jogos expressou a motivação neles despertada pelo manuseio das novas

tecnologias disponíveis, explicada pelo construtivismo, “o aluno é protagonista de sua

aprendizagem, cabendo-lhe realizar determinados processos cognitivos, que ninguém pode

fazer por ele (SALVADOR e colaboradores, apud BORUCHOVITCH; BZUNECK, 2001, P.

11).

Os alunos do ensino fundamental II, foram capazes de criar jogos digitais com

qualidade, contando com o apoio das disciplinas de Português/Redação, Matemática, Artes,

História e Inglês, concretizando pelos discentes que a construção do conhecimento pode-se dar

de forma integrada e com motivação. Constatou-se ainda que a resistência de alguns professores

ao projeto desenvolvido foi vencida pelo interesse dos alunos em querer criar seus jogos.

Conclui-se ainda que as experiências desenvolvidas nesta pesquisa evidenciam

aspectos inovadores úteis para melhorar a aprendizagem dos alunos, nativos digitais, que se

fazem presentes nas salas de aula, atualmente:

A integração das disciplinas, num ensino interdisciplinar tornou-se mais

acessível, graças às novas tecnologias.

Os dispositivos móveis sempre presentes nas mãos de nossos alunos podem

muito bem ser integrados pela escola no processo de ensino-aprendizagem.

É possível direcionar o interesse dos alunos pelas novas tecnologias de

comunicação para uma aprendizagem significativa.

82

Enfim, esta pesquisa não teve a pretensão de esgotar o assunto escolhido, mas

apenas visou contribuir modestamente para o desenvolvimento de pesquisas que buscam

integrar novas tecnologias, como jogos digitais, por exemplo, ao processo de ensino-

aprendizagem.

83

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LUDKE, Menga, ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: Abordagens Qualitativas.

2ª ed. Rio de Janeiro: E.P.U., 2013.

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Pearson Prentice Hall, 2010.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2007.

Os setes saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez Editora,

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PIAGET, Jean. Para onde vai a educação? 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1975.

A epistemologia genética/ sabedoria e ilusões da filosofia/ Problemas de

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RABIN, Steve. Introdução ao desenvolvimento de games Vol. 3. Trad. Luis Carlos Petry.

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RAMAL, Andrea Cecília. Educação na cibercultura: hipertextualidade, leitura, escrita e

aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2002.

ROGERS, Scott. Level UP: Um guia para o design de grandes jogos. São Paulo: Blucher, 2012.

SERRES, Michel. Polegarzinha: uma nova forma de viver em harmonia e pensar as

instituições, de ser e de saber. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

SCHELL, J. The art of game design: a book of lenses. Morgan Kaufman: Mellon University.

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Building

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TECHNOLOGY-SADDLE BROOK THEN ENGLEWOOD CLIFFS NJ, v. 47, n. 5, p. 51,

2007.

88

APÊNDICE A – PLANO DE ENSINO

I. Dados Identificadores Plano de Ensino Plano de Aula 89 Curso Ensino Fundamental II –

I. Dados Identificadores

Plano de Ensino

Plano de Aula

89

Curso

Ensino Fundamental II 7º ano

Disciplina / U.C.

Jogos Digitais

Carga Horária

Semanal: 50 minutos

II. Ementa

A disciplina de Jogos Digitais desenvolve atividades práticas para auxiliar o aluno exercitar suas funções mentais e intelectuais, facilitando a aprendizagem e aumentando a capacidade de retenção do que é ensinado.

III. Objetivos

1. Objetivo Geral:

Envolver o aluno em atividades lúdicas e jogos com o fim de entretê-lo e auxilia-lo a aprender a pensar, tomar decisões, analisar situações e cumprir metas.

2. Objetivos Específicos:

Criar um jogo pedagógico adotando uma exploração do conhecimento e o lúdico como consequência; Estimular o aluno a adquirir o conhecimento, auxiliando-o no aumento da autoconfiança; Estimular a autoaprendizagem do aluno, de maneira que incorpore a fantasia e o desafio ao dia-a-dia do aluno.

IV. Conteúdo Programático

Fundamentos básicos para programação.

Princípios básicos para desenvolvimento de jogos digitais.

Criação de personagens.

Desenvolvimento e criação de um jogo.

Plano de Ensino Plano de Aula 90 V. Métodos/Técnicas/Recursos      Aulas expositivas, exercícios

Plano de Ensino

Plano de Aula

90

V.

Métodos/Técnicas/Recursos

   

Aulas expositivas, exercícios práticos e teóricos;

Aplicações práticas de desenvolvimento de Jogos em laboratório;

Desenvolvimento de projeto orientado.

VI.

Avaliação

   

Processo ensino-aprendizagem: aulas expositivas, exercícios práticos e teóricos, retorno da avaliação institucional como etapa no aprimoramento das atitudes didático-pedagógicas e apresentação do projeto elaborado durante a disciplina.

VII.

Bibliografia

CONSTRUCT 2. Disponvel em: https://www.scirra.com/construct2.

MANZANO, José Augusto N. G. e OLIVEIRA, Jayr Figueiredo de. Algoritmos - Lógica para Desenvolvimento de Programação de Computadores. São Paulo: Editora Érica 2009;

NORTON, Peter. Introdução à Informática. São Paulo: Makron Books, 2003.

SCHUYTEMA, Paul. Design de games: uma abordagem prática. Tradução de Claúdia

Profª Erica Lopes

Profª Erica Lopes Assinatura

Assinatura

Profª Erica Lopes Assinatura

Assinatura do Coordenador:

Assinatura do Diretor:

Data:

91

APÊNDICE B – CONHECENDO O CONSTRUCT2

Começando o Construct 2

Iniciaremos o uso do Contruct 2, nele nós iremos conhecer a ferramenta e começar a utiliza-la.

nós iremos conhecer a ferramenta e começar a utiliza-la. Quando entramos no Construct 2 pela primeira

Quando entramos no Construct 2 pela primeira vez nos deparamos com a seguinte tela.

a ferramenta e começar a utiliza-la. Quando entramos no Construct 2 pela primeira vez nos deparamos

92

Nesta primeira tela nós conseguimos ter uma visão das principais funções do programa, por exemplo, criar um novo projeto, abrir projetos recentemente abertos e alguns links de assuntos que possam ser importantes para o usuário.

de assuntos que possam ser importantes para o usuário. Iremos nos concentrar no item criar novo

Iremos nos concentrar no item criar novo projeto.

Iremos nos concentrar no item criar novo projeto . Quando clicamos nesse item nos é apresentada

Quando clicamos nesse item nos é apresentada a seguinte tela:

clicamos nesse item nos é apresentada a seguinte tela: Tela de diálogo para escolha do tipo
clicamos nesse item nos é apresentada a seguinte tela: Tela de diálogo para escolha do tipo

Tela de diálogo para escolha do tipo de layout do projeto.

Para o nosso primeiro projeto utilizaremos o NEW EMPTY PROJECT , onde possui todas as configurações padrões do Construct 2. Selecionamos a opção e clicamos em OPEN.

Após essa seleção será montado na tela os itens iniciais do seu projeto, vamos conhecer essa nossa área.

Pastas do Propriedades Projeto Objetos do Projeto Área de trabalho/ Desenvolvimento
Pastas do
Propriedades
Projeto
Objetos do
Projeto
Área de trabalho/ Desenvolvimento
vamos conhecer essa nossa área. Pastas do Propriedades Projeto Objetos do Projeto Área de trabalho/ Desenvolvimento