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Novo avido da Embraer tem desempenho acima do. esperado nos testes de voo CONSTRUIDO Estudos recentes acirram polémica sobre os riscos de consumir comidas industrializadas ricas em conservantes, sal, acuicar e gorduras Rada ‘Amazénia é overtebrado com mais cromossomos sexuais Brasil tem sobrevida alta em cancer de préstata e baixa nos tumores infantis Marcelo Viana, diretor do Impa, fala do ingresso do pais na elite da matemética internacional eZ Nmero de imigrantes que buscam reftigio cresce 34 vezes ‘em menos de 10 anos CAPA Alguns efeitos dos ALIMENTOS FABRICADOS Maior consumo de ultraprocessados eleva risco de desenvolver obesidade, hipertensao e cancer; ainda sao necessarios estudos com mais participantes para confirmar os achados Ricardo Zorzetto ‘5 ltimos anos vem se acirrando uma polémica em torno dos alimentos indus- trializados,em especial aqueles ricos em agdecares, gorduras, sal e compostos qui micas que aumentam a sua durabilidade ‘ou Ihe conferem mais aroma, cor e sabor, De um lado, alguns grupos de nutricionistas ¢ especialistas em satide piilica atribuem a esses alimentos um papel importante, que comega a ser quantificado, no aumento do risco de de- senvolver obesidade e diabetes, dois problemas de satide cada vez mais comuns no mundo. O consumo desses alimentos, elassificados como traprocessados em 2009 pelo epidemiologista Carlos Augusto Monteiro, professor da Faculdade de Satide Publica da Universidade de Sao Paulo (FSP-USP), é elevado em virios paises ricos, nos quais a proporgao de pessoas com peso acima do considerado saudivel é alta, e vem crescendo de modo acelerado nos paises com popuilagao de a. De outro lado, pesquisado- eade ciéncia renda média e res da cecnologia de alimentos consideram a classificagio imprecisa, Também afirmam que o consumo desse tipo de alimento, {que permite a parte da populagio mund acesso ao minimo de energia necessiria para se manter viva,é apenas um dos muitos fatores ase rem pondlerados na explicagio desses problemas, Estudos recentes alimentam esse debate a0 apresentar evidéncias inieiais de que um con- sumo maior desse tipo de alimento industriali zado pode ter um impacto nocivo sobre a satide. Em fevereiro deste ano, a revista British Medical Journal apresentou o resultado de uma pesqui- sa conduzida na Franga que, pela primeira vez, sugeriu existir uma associagio entre um maior consumo de alimentos ultraprocessados ¢ 0 au- mento no risco de efncer. 0 trabalho do grupo francés se baseou na avaliagdo de informag: sobre 104.980 pessoas com idade entre 18 72 anos que integram o projeto NutriNet-Sant6. Os pesquisadores separaram os voluntarios,inicial- mente todos sem cancer, em quatro grupos, que diferiam apenas com relagio ao consumo de ul- ‘traprocessados. Os produtos industrializados prontos para 0 consumo correspondiam a 8.5% das calorias ingeridas diariamente entre os parti- cipantes que menos consumiam esses alimentos e representavam 32,3% da energia ingerida pelo grupo mais adepto dos ultraprocessados - em eral, doces, bebidas adogadas e cereais matinais. Emcinco anos de acompanhamento, uma pe. |quena proporcio de cada grupo desenvolveu can. cer. Quando descontaram os efeitos protetores ter do risco de surgir um tumor (ser mais jovem ou praticar atividade fisiea) e os agravadores fumar u ter histérico de cancer na familia, entre ou- tr0s), os pesquisadores verificaram que um au- ‘mento de 10 pontos pereentuais na participagao dos ultraprocessados na dieta elevou em 129% a probahilidade de desenvolver cancer. ‘3 autores evitam afirmar que os ultrapro- cessados provocam cancer. Um motivo € que ainda nao se sabe o que na composicio desses alimentos poderia levar ao desen- volvimento de tumores. “além de apresentarem niveis mais altos de sal, agitcar e gordura, os ul- ‘traprocessados contém aditivos e compostos que se formam durante o processamento industrial ‘podem ter impacto nasaile",explica aepide- ‘miologista Chantal Julia, pesquisadora da Uni versidade Paris 13 e uma das autoras do estudo, do qual participou Monteiro. 0s ultraprocessados sao uma invencao re- cente da indiistria, que usa ingredientes bara- tos para reduzir a quantidade de alimentos in natura ediminuir o prego dos produtos” firma. epidemiologista especializa- 3, “Em um ultraprocessado, mui- tas vezes, resta pouco ou nada dos alimentos a partir dos quais foi produzido.” Foi ele que em 2009 propés reclassifiar os alimentos com base no grau de processamento, endo mais a partir de macronutrientes (proteinas, carboidratos ¢ gorduras) (ver fichas ao lado). Sua expectativa 6 de que essa forma de ver os alimentos, aque °” sustralésia i 4 aos problemas de satide é de estudos transver- sais, Neles, os pesquisadores coletam os dados dodesfecho e da exposigfio em um sé momento, tornando mais dificil confirmar que o resultado decorre da exposigdo ao fendmeno. Desde que props essa classificagao dos ali- ‘mentos, Monteiro e sua equipe verificaram que participagio dos ultraprocessados no prato dos brasileiros aumentou 22% na década passada (ver tabela na pagina 26) ¢ que a disponibilidade desses alimentos é maior na casa de pessoas com sobrepeso ou obesidade, Também constataram {que quem consome mais deles (ma calorias diirias) ingere niveis altos de agticares livres e baixos de fibras,o que reduz. a saciedade. (0 consumo de ultraprocessados ¢ historica: mente elevado em paises ricos, como Estados Unidos, Canadé e Inglaterra, onde respondem por mais da metade das calorias ingeridas por dia, As vendas nessas nagdes, porém, parecem ter atingido um ponto de saturagio ¢ estagnado na dltima década, segundo andlise das vendas entre 1998 e 2012 em 79 paises, feita por Pop~ kin, Monteiro e Jean-Claude Moubarac, do Ca- nad, No estudo, publicado em 2013 na Obesity Review, el o.avango da indiistria transnacional de produgio e distribuicio desses alimentos em nagSes com populagio de de 35% das VaRIAcho 2000-2083 > 23% > nag% > 195% > 49% > na% > 733% > 25% ey NOBRASIL E EM OUTROS 12 PAISES : Evoluco do comércio de bebidas e alimentos ultraprocessados em 13 na¢Ses da América Latina no perfodo 2000-2013, VENDAS 2000 vaRiAcKo (ek Pe cop 203 2000:5013 gerna > =44% Bola > rre9% feast > 306% che > see colombia > 253% cova ea > m% Feuador > Guana > Neco > Peru > 107% Fp Da > a74% Uap > 64% enue > 9% } baixa renda. No periodo, as vendas au- : ‘mentaram, em média, 2.8% ao ano $ no Peru, no México, no Brasil ena ; faa ; Turquia € 5.5% ao ano na China, na Boliviae na Indonésia, entre ‘outros. “Essa indistria éaforga que agora molda o sistema ali mentar mundial”, escreveram os pesquisadores ‘Nas duas iltimas décadas eres ce entre pesquisadores, entidades édieas ¢ drgios de defesa do con- sumidor a conviegi de que existe um lado nocivo nos alimentos icos em sal gor- dura, agticar e compostos sintéticas, agrupados por Monteiro sob o termo ultraprocessados. Em 2012, arevista PLOS Medicine publicow uma sie de artigos intitulada “Big food”, na qual avaliava 6 papel da indiistria global de alimentos sobre a satide. Em um deles, 0 economista e socidlogo David Suckler, da Universidade de Cambridge ¢ a nutricionista Marion Nestle, da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, : Jembram que 0 mercado mundial de alimentos i e bebidas esté concentrado na mao de poucas : tulkinacionais, Napoca, as 10 naires, as Big food, como chamar, detinham metade das ven 4 das nos Estados Unidos e15% no resto do munda, Segundo Stuckler e Marion, havia evidéncias de (que usavam estratégias semelhantes 4 indistria lo tabaco para escapar de regulagées ¢ taxacdes Big rentes “0 aumento do consumo dos produtos da food acompanha de perto 0s niveis cres de obesidade e diabetes”, afirmaram, ‘m geral, formulados para serem apetitosos, baratos e durar muito, esses alimentos po dem ser transportados por longas distancias. imento industrializado 60 que permite te das pessoas no mundo comer” salta abbioguimica Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco, professora do Departamento de Alimentos e Nutriglo da Faculdade de Ciéncfas Farmacéuticas (FCF) da USP e coordenadora do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), outro Cepid apoiaco pela FAPESP. “Algumas décadas ats nfo se conseguia fazer os alimentos chegs- rem a regides distantes em paises como o Brasil porque eram muito pereciveis", conta Eduardo Purgatto, professor da FCR-USP e integrante do FoRC. “O processamento mucdou esse cenério.” Para Velloso, da Unieamp, é preciso compreen der o papel da indtistria de duas formas. “Por um Jado, ela torna possivel que parte da populaglo em regiées do planeta dependentes de uma pro- dugio local, que pode flutuar muito, enha certa PESQUSA FAPESP 265 | 25, NO PRATO DOS BRASILEIROS Compra de alimentos minimamente processados e de ingredientes culinarios diminuiu e de ultraprocessados aumentou entre 2002-2003 2008-2009, segundo levantamento feito em cerca de 48 mil domicilios 900 TOTAL DECALORIAS 2002-2003 2008-2009 ‘Came (eet pee Outro alment rata ou minimamente rocessado ee OSC 50 3 10 oF, 03 a8 156 50° 89) a5" 22 10 ar 05: a Agicardemess TO ES Farinha de mandioca ura animal (manteiga, bana enata) ‘Outroingrediente culnéio procersado ne na 35. 26 2a 10.8" 108 27 19) 23 or Quejo omar Bscote boloeton Servete chocolate eoutra doce ha salgada salgadinho Refigerante Dutra bebida acucarada mb Refecaopromta neni elatadocongeado ou des Maino ecalde ee on 26 aT 1s oa 20 0s 19) 02" aa 2 16 os 2a 22 or _garantia de acesso a alimentos; por outro, cae: sumo excessivo desses alimentos, come ocbe com a populagio mais pobre dos centros urban pode interferir na saiide.” ‘Ainda que Monteiro demonstre em que gran ultraprocessados contribuem para a obeside de, équase certo que esses alin expliquem tudo. $40 conhecidos uns poucos ge- nes que, alterados, entos, por sino o suficientes para levar uma pessoa a engordar, mas existem mais de 300 que regulam o actimulo e o consumo de energia. A complexidade biol6gica foi amplificada nas tilti- mas décadas pelo aumento na oferta mundial de alimentos e por mudangas no modo de cozinhar. Com mais disponibilidade de industrializadose o barateamento dos dleos vegetais comestiveis, a ingestao calérica média passou de 2,4 mil qui- localorias por pessoa por dia em 1970 para 3 mil em 2015, segundo dados do Fundo das Nacdes Unidas para Alimentagao e Agricultura (FAO) ‘Também houve uma redugio na atividade fisiea ce mudangas no modo de preparo de alimentos. Mfetate dos chineses tem sobrepeso porque dei xou de assar os alimentos ou prepari-los no vapor €e passou a frité-los", conta Popkin. “E paises, as pessoas engo pio, ortihase frituras, e nfo ultraprocessados.” Bernadette concorda: “Colocar a culpa em uma sé causa, sem considerar a reducio na atividade fisica e a forma como as pessoas cozinham, no s0 brasileiro acrescentando muito sale ag cexplica uma parte pequena do problema”. fam por comer muito proposta de que os ultraprocessados for- ‘mem uma categoria parte, reunindo o que ha de pouco saudivel nos alimentos, gerou uum debate polarizado, Quem discorda nao vé fundamento, Para Bernadette, falta uma de- finigo clara sobre o que é um ultraprocessado, Michael Gibney, da University College Dublin, Irlanda, diz.que seria preciso estabelecer limites de sal, agitear, gordura e aditivos para definir alimentos, Membro do comité cientifico da Nestlé, Gibney publicou um comentario em 2017 no American Journal of Clinical Nutrition ‘no qual diz ainda faltarem evidéncias de que os ultraprocessados sao quase viciantes. Em outro comentario, publicado em 2017 na revista EC Nutrition, o engenheiro de alimen= tos Rau! Amaral Rego e o bidlogo Airton Vialta, pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Ali ‘mentos (Ital), vinculado a Secretaria de Agricul- tura e Abastecimento do Estado de Sto Paulo e ‘a Agencia Paulista de Tecnologia dos Agroneg6- ios, dizem que o sistema de Monteiro é frigil ¢ confita com classificagdes bem estabelecidas. “Nao hi sentido pritico em tentar classificar os alimentos com base no grau de processamento, jii que o mesmo alimento pode ser processado de diferentes maneiras, dependenclo do produto que se quer alcanear”, escre- veram., Rego e Vialta nfo quiseram se manifestar nesta reportagem. ios apoiadores afirmam que a nova clas medidas que beneficiem a sade da populaZo, “Ao reunir um grupo va riado de ali ultrapracessados, criou-se um indi cador-sintese, que permit melhor a qualidade da 023", firma Inés Rug castro, da Uer) eta das pes- 0 Ministério da Satide elabo- rouem 204 oGuiaalimentar gal @ gorduras para a populagdo brasileira. Distribuido a 60 mil profissionais, dasmide e educadores, o documento recomenda o consumo abundante de alimentos in natura, reduzido dos processados e que se evitem os ultraprocessados. Anda que nfo use o termo ultraprocessado, a Agéncia Nacional de Vigilancia Sanitéria (An. visa), Srgio federal que controla o registro de is de uma ntos © be ecalorins medicamentos e alimentos, tenta hin <écada regular a publicidade de alim bidas ieos em agicares, sl e gordi para eriangas e proibir sua eamercializa «escolas, comio ocorre em municipios de alguns estados. E/um esforga para combater os indices de sobrepesa e obesidade crescentes no pais - hoje 15% das eriangas e 58% dos adultos esto com peso superior ao sauclivel. ApOs diseutir por quatro anos com a sociedacle e a indiistria ‘uma propostarigorosa de controle, 2 Anvisa pt blicow em 2010 uma resolugio brands, suspensa depois por agées judicias interpostas pelo setor publicitirio e d alimentos, ificasao pode orienta. ~Ha uma década o Brasil tenta eatosnacaeesorisde regular a ‘onheeer_ ~— publicidade Ribeirode de alimentos e bebidas ricos ‘feast, @m agucares, Como alarmante indice de 75% da populagio ‘com peso superior ao saudivel, o Chile, de modo pioneiro, proibiu em novembro de 2017 a veieu- Iago de comerciais de alimentos com exeesso de calorias, sal, agdicar e gorduras na televisao aberta e fechada das 6h &s 22h, Uma lei de 2016 if obrigara a indiistria aalterar as embalagens dos produtos, retirando personagens icénicos, como sucarados, € las ingredientes considerados pouco saudiveis, ‘medida que se discute atualmente no Brasil Além da restrigao da publicidade e da mudanga na rotulagem, Popkin, Monteiro e outros especia listas defenclem o aumento da carga de impostos sobre esses alimentos, “Remover os ultraproces- sados da dieta é 0 primeiro passo para promover que ilust sade cerais matinais -xibindo alertas sobre os niveis habitos alimentares saudaveis”, afirma Popkin. ‘Pungatto, do FORC, propde outra saida: que se ores do governo e da sociedad industria de alimentos, “$6 a indistria”, afirma, 12 de produzir alimentos processados eultraprocessados de melhor qualidade, talvez com mais flbras € proteinas, e fazé-los chegar a pregos acessiveis a boa parte da populaga Projeto Artigos cientificos