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Liberalismo

Político e Direitos
Humanos
Profa. Flávia C. Limmer

Pós-Doutora em Direito – UERJ


Mestre em Direito – PUC-Rio
Professora de Direito da PUC-Rio, EMERJ, CEPED UERJ, CEPAD

flaviaclimmer@puc-rio.br
Dignidade da Pessoa
Humana
Múltiplas percepções....
 a noção de dignidade humana varia no
tempo e no espaço, sofrendo o impacto da
história e da cultura de cada povo, bem
como de circunstâncias políticas e
ideológicas
Pós Segunda Guerra Mundial
 A dignidade da pessoa humana se tornou um dos
grandes consensos éticos mundiais, servindo de
fundamento para o advento de uma cultura fundada na
centralidade dos direitos humanos e dos direitos
fundamentais.
 Progressivamente, ela foi incorporada às declarações
internacionais de direitos e às Constituições
democráticas, contribuindo para a formação crescente
de uma massa crítica de jurisprudência e para um direito
transnacional, em que diferentes países se beneficiam
da experiência de outros.
Dignidade da Pessoa Humana
 valor moral que, absorvido pela política, tornou-
se um valor fundamental dos Estados
democráticos em geral.
 tal valor foi progressivamente absorvido pelo
Direito, até passar a ser reconhecido como um
princípio jurídico.
Dignidade como Princípio Jurídico
 Eficácia direta: possibilidade de se extrair uma regra do
núcleo essencial do princípio, permitindo a sua aplicação
mediante subsunção.

 Eficácia interpretativa: significa que as normas jurídicas


devem ter o seu sentido e alcance determinados da maneira
que melhor realize a dignidade humana, que servirá,
ademais, como critério de ponderação na hipótese de colisão
de normas.

 Eficácia negativa paralisa, em caráter geral ou particular, a


incidência de regra jurídica que seja incompatível – ou
produza, no caso concreto, resultado incompatível – com a
dignidade humana.
Conteúdos mínimos da
dignidade
 valor intrínseco da pessoa
humana,
 autonomia da vontade
 valor comunitário
Valor Intrínseco
 todas as pessoas são um fim em si mesmas,
e não meios para a realização de metas
coletivas ou propósitos de terceiros.
 A inteligência, a sensibilidade e a capacidade
de comunicação são atributos únicos que
servem de justificação para essa condição
singular.
 Do valor intrínseco decorrem direitos
fundamentais como o direito à vida, à
igualdade e à integridade física e psíquica.
Autonomia da Vontade
 Elemento ético da dignidade humana, associado à
capacidade de autodeterminação do indivíduo, ao seu
direito de fazer escolhas existenciais básicas.

 Capacidade de fazer valorações morais e de cada um


pautar sua conduta por normas que possam ser
universalizadas.

 A autonomia tem uma dimensão privada, subjacente aos


direitos e liberdades individuais, e uma dimensão pública,
sobre a qual se apoiam os direitos políticos, isto é, o
direito de participar do processo eleitoral e do debate
público.
O valor comunitário
 Elemento social da dignidade humana, identificando a
relação entre o indivíduo e o grupo.
 Valores compartilhados pela comunidade, assim
como às responsabilidades e deveres de cada um.
 A dignidade como valor comunitário funciona como um
limite às escolhas individuais.
 Se destina a promover objetivos sociais diversos, dentre
os quais a proteção do indivíduo em relação a atos que
possa praticar capazes de
 afetar a ele próprio (condutas autorreferentes), a
proteção de direitos de outras pessoas e a proteção de
valores sociais, dos ideais de vida boa de determinada
comunidade. 10
Valor Comunitário
 Para minimizar os riscos do moralismo e da
tirania da maioria, a imposição de valores
comunitários deverá levar em conta:
(a) a existência ou não de um direito
fundamental em jogo,
(b) a existência de consenso social forte
em relação à questão
(c) a existência de risco efetivo para
direitos de terceiros.
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Liberalismo Político
Liberalismo Político X
Liberalismo Econômico
 Liberalismo Econômico: intervenção mínima
do Estado na economia .
 Liberalismo político: a sociedade é ordenada
por uma estrutura de acordo com os
princípios de justiça que sejam aceitos por
todas as pessoas

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Liberalismo Político
 Principal teórico: John Rawls
O anti-utilitarismo de Rawls
 O homem existe como fim em si, e não
simplesmente como meio, donde se extrai o
valor absoluto da dignidade da pessoa, pelo
qual ela deve ser respeitada.
 Cada pessoa possui direitos inalienáveis
que não podem ser transacionados em troca
do bem-estar da sociedade. As instituições
sociais são justas quando, tendo por
fundamento esse princípio moral, não fazem
“nenhuma distinção arbitrária entre as
pessoas na fixação de direitos e deveres de
base.”
Justiça Social
 As instituições são justas quando,
têm por fundamento os princípios
morais e não fazem nenhuma
distinção arbitrária entre as pessoas
na fixação de direitos e deveres
individuais.
Princípios da Justiça como
Equidade de John Rawls
 “1°. Cada pessoa tem direito igual a um sistema
plenamente adequado de liberdade para todos.
 2°. posições abertas para todos, em condições de
uma equitativa igualdade de chances e
oportunidades ;
 3º. As chances devem redundar no maior benefício
possível aos membros menos privilegiados da
sociedade ”.

 A forma de considerar esses princípios, a partir de


uma justa posição das partes no acordo original,
constitui o que Rawls chama de justiça como
equidade (fairness).
Posição Originária e Véu da
Ignorância
 Na “posição original”, os princípios de justiça são escolhidos
sob um “véu de ignorância”.
 Sob o véu da ignorância, os parceiros são realmente
considerados como cidadãos da sociedade.
 Eles devem ignorar o seu lugar nesta mesma sociedade, sua
posição e estatuto social e o que será reservado a cada um
na repartição dos bens e cargos. Enfim, ignora-se o contexto
social e particular de cada pessoa, abstraindo-se o aspecto
psicológico e histórico dos indivíduos.
 O objetivo dessa idealidade do sujeito, no “véu de
ignorância,” é impedir a constituição de interesses e
vantagens pessoais, razão pela qual as circunstâncias
particulares são abstraídas
Igualdade Original
 Se todos os cidadãos estão representados segundo uma
justa (fair) igualdade na situação original, todos receberão a
mesma proteção dos princípios de justiça.
 Assim, a expressão “justiça como equidade” refere-se a
princípios extraídos de um acordo realizado numa situação
inicial, ela mesma considerada justa.
 Rawls define essa justiça qualificando-a de procedimental ,
isto é um procedimento correto e equitativo que determina se
um resultado será igualmente correto ou equitativo, qualquer
que seja o conteúdo do contrato social a ser realizado, desde
que o procedimento tenha sido corretamente aplicado.
Equidade como justa igualdade
de chances
 A justa igualdade de chances significa exigência de uma
distribuição mais igualitária dos recursos de que dispõe uma
sociedade, complementando a unilateralidade da análise
liberal da liberdade por uma concepção democrática.

 Com essa teorias fez surgir a idéia de cotas para negros nas
Universidades Publicas, Porcentagem de vagas para
deficientes nos concursos públicos, vestibular só para
indígenas, bolsas federais, meia passagem e meia entrada
nos cinemas e teatros e passe livres nos coletivos para
estudantes, e outros tantos projetos sociais existentes.
Direito à Felicidade
RE 477554 AgR / MG
 Ninguém, absolutamente ninguém, pode ser
privado de direitos nem sofrer quaisquer
restrições de ordem jurídica por motivo de
sua orientação sexual. Os homossexuais, por
tal razão, têm direito de receber a igual proteção
tanto das leis quanto do sistema político-jurídico
instituído pela Constituição da República,
mostrando-se arbitrário e inaceitável qualquer
estatuto que puna, que exclua, que discrimine,
que fomente a intolerância, que estimule o
desrespeito e que desiguale as pessoas em
razão de sua orientação sexual
RE 477554 AgR / MG
 RECONHECIMENTO E QUALIFICAÇÃO DA UNIÃO
HOMOAFETIVA COMO ENTIDADE FAMILIAR.
 O Supremo Tribunal Federal - apoiando-se em valiosa
hermenêutica construtiva e invocando princípios
essenciais (como os da dignidade da pessoa humana,
da liberdade, da autodeterminação, da igualdade, do
pluralismo, da intimidade, da não discriminação e da
busca da felicidade) - reconhece assistir, a qualquer
pessoa, o direito fundamental à orientação sexual,
havendo proclamado, por isso mesmo, a plena
legitimidade ético-jurídica da união homoafetiva como
entidade familiar, atribuindo-lhe, em conseqüência,
verdadeiro estatuto de cidadania, em ordem a permitir que
se extraiam, em favor de parceiros homossexuais,
relevantes conseqüências nno plano do Direito,
notadamente no campo previdenciário, e, também, na
esfera das relações sociais e familiares
RE 477554 AgR / MG
 DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E BUSCA DA FELICIDADE.
 O postulado da dignidade da pessoa humana, que representa -
considerada a centralidade desse princípio essencial (CF, art. 1º, III) -
significativo vetor interpretativo, verdadeiro valor-fonte que conforma e
inspira todo o ordenamento constitucional vigente em nosso País, traduz,
de modo expressivo, um dos fundamentos em que se assenta, entre nós,
a ordem republicana e democrática consagrada pelo sistema de direito
constitucional positivo.
 O princípio constitucional da busca da felicidade, que decorre, por
implicitude, do núcleo de que se irradia o postulado da dignidade da
pessoa humana, assume papel de extremo relevo no processo de
afirmação, gozo e expansão dos direitos fundamentais, qualificando-se,
em função de sua própria teleologia, como fator de neutralização de
práticas ou de omissões lesivas cuja ocorrência possa
comprometer, afetar ou, até mesmo, esterilizar direitos e franquias
individuais.
 Assiste, por isso mesmo, a todos, sem qualquer exclusão, o direito à
busca da felicidade, verdadeiro postulado constitucional implícito, que se
qualifica como expressão de uma idéia-força que deriva do princípio da
essencial dignidade da pessoa humana.
Caso Concreto
 PALOMA propõe demanda em que visa à mudança
de seu prenome no assento de nascimento, uma
vez que, ao tentar fazê-lo, o Oficial de Registro Civil
indeferiu o pleito.
 Alega que, apesar de constar no seu assento de
nascimento o sexo masculino e o nome BRUNO,
desde os seus 14 anos se sente e se veste como
menina, o que torna legítimo o desejo de alteração
do seu prenome.
 Assevera que o Oficial de Registro lhe negou tal
alteração, sob o argumento de que não fora
provado o fato de o autor ter se submetido à cirurgia
de transgenitalização, o que, retruca este, seria 25
Caso Concreto
 desnecessário, pois mesmo não tendo se
submetido à intervenção cirúrgica, o seu "sexo
psíquico" é feminino.
 Responda, fundamentadamente, em no máximo 20
(vinte) linhas, como deve ser julgado o caso.

26
REsp 1626739 / RS
 RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE RETIFICAÇÃO DE
REGISTRO DE NASCIMENTO PARA A TROCA DE
PRENOME E DO SEXO (GÊNERO) MASCULINO PARA O
FEMININO. PESSOA TRANSEXUAL. DESNECESSIDADE
DE CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO.
 1. À luz do disposto nos artigos 55, 57 e 58 da Lei
6.015/73 (Lei de Registros Públicos), infere-se que
o princípio da imutabilidade do nome, conquanto de
ordem pública, pode ser mitigado quando sobressair
o interesse individual ou o benefício social da
alteração, o que reclama, em todo caso, autorização
judicial, devidamente motivada, após audiência do
Ministério Público.
27
REsp 1626739 / RS
 2. Nessa perspectiva, observada a necessidade de
intervenção do Poder Judiciário, admite-se a
mudança do nome ensejador de situação vexatória
ou degradação social ao indivíduo, como ocorre
com aqueles cujos prenomes são notoriamente
enquadrados como pertencentes ao gênero
masculino ou ao gênero feminino, mas que
possuem aparência física e fenótipo
comportamental em total desconformidade com o
disposto no ato registral.
 3. Contudo, em se tratando de pessoas transexuais,
a mera alteração do prenome não alcança o escopo
protetivo encartado na norma jurídica infralegal, 28
REsp 1626739 / RS
 além de descurar da imperiosa exigência de
concretização do princípio constitucional da
dignidade da pessoa humana, que traduz a máxima
antiutilitarista segundo a qual cada ser humano
deve ser compreendido como um fim em si mesmo
e não como um meio para a realização de
finalidades alheias ou de metas coletivas.
 4. Isso porque, se a mudança do prenome configura
alteração de gênero (masculino para feminino ou
vice-versa), a manutenção do sexo constante no
registro civil preservará a incongruência entre os
dados assentados e a identidade de gênero da
pessoa, a qual continuará suscetível a toda sorte 29de
REsp 1626739 / RS
 constrangimentos na vida civil, configurando-se
flagrante atentado a direito existencial inerente à
personalidade.
 5. Assim, a segurança jurídica pretendida com a
individualização da pessoa perante a família e a
sociedade - ratio essendi do registro público,
norteado pelos princípios da publicidade e da
veracidade registral - deve ser compatibilizada com
o princípio fundamental da dignidade da pessoa
humana, que constitui vetor interpretativo de toda a
ordem jurídico-constitucional.
 6. Nessa compreensão, o STJ, ao apreciar casos de
30
transexuais submetidos a cirurgias de
REsp 1626739 / RS
 transgenitalização, já vinha permitindo a alteração
do nome e do sexo/gênero no registro civil
 7. A citada jurisprudência deve evoluir para alcançar
também os transexuais não operados, conferindo-
se, assim, a máxima efetividade ao princípio
constitucional da promoção da dignidade da pessoa
humana, cláusula geral de tutela dos direitos
existenciais inerentes à personalidade, a qual,
hodiernamente, é concebida como valor
fundamental do ordenamento jurídico, o que implica
o dever inarredável de respeito às diferenças.
 8. Tal valor (e princípio normativo) supremo envolve
um complexo de direitos e deveres fundamentais 31de
REsp 1626739 / RS
 todas as dimensões que protegem o indivíduo de
qualquer tratamento degradante ou desumano,
garantindo-lhe condições existenciais mínimas para
uma vida digna e preservando-lhe a individualidade
e a autonomia contra qualquer tipo de interferência
estatal ou de terceiros (eficácias vertical e horizontal
dos direitos fundamentais).
 9. Sob essa ótica, devem ser resguardados os
direitos fundamentais das pessoas transexuais não
operadas à identidade (tratamento social de acordo
com sua identidade de gênero), à liberdade de
desenvolvimento e de expressão da personalidade
humana (sem indevida intromissão estatal), ao 32
REsp 1626739 / RS
 reconhecimento perante a lei (independentemente da
realização de procedimentos médicos), à intimidade e
à privacidade (proteção das escolhas de vida), à
igualdade e à não discriminação (eliminação de
desigualdades fáticas que venham a colocá-los em
situação de inferioridade), à saúde (garantia do bem-
estar biopsicofísico) e à felicidade (bem-estar geral).
 10. Consequentemente, à luz dos direitos
fundamentais corolários do princípio fundamental da
dignidade da pessoa humana, infere-se que o direito
dos transexuais à retificação do sexo no registro civil
não pode ficar condicionado à exigência de realização
da cirurgia de transgenitalização, para 33
Caso Concreto
 A.B.C., de plena posse de suas faculdades mentais, procura o dentista
B.M.L para extrair TODOS os seus dentes.
 Alega que, por já ter perdido dois dentes molares (dentre os 32 dentes
até então existentes), seria melhor extrair todos os outros para,
posteriormente, usar prótese dentária, comumente chamada
“dentadura”.
 O profissional orienta-lhe no sentido da desnecessidade do
procedimento requerido, uma vez que, em virtude do avanço
tecnológico, seria fácil implantar os dentes faltantes. Ademais, como os
molares são os últimos na arcada dentária, ainda que optasse por não
fazer o tratamente, nada o afetaria esteticamente.
 A.B.C.. agradeceu a orientação, mas estava irredutível em sua intenção.
 Responda fundamentadamente, com base nas dimensões da dignidade
da pessoa humana, qual a conduta mais adequada que o dentista deve
tomar: extrair ou não os dentes?

34
Ingo Sarlet
 Uma dimensão dúplice da dignidade manifesta-se
enquanto simultaneamente expressão da
autonomia da pessoa humana (vinculada à ideia de
autodeterminação no que diz com as decisões
essenciais a respeito da própria existência), bem
como da necessidade de sua proteção
(assistência) por parte da comunidade e do Estado,
especialmente quando fragilizada ou até mesmo - e
principlamente – quando ausente a capacidade de
autorideterminação.

35
Ingo Sarlet
 Assim, a dignidade, na sua perspecitva assistencial
(protetiva) da pessa humana, poderá, dadas as
circunstâncias, prevalecer em face da dimensão
autonômica, de tal sorte que, todo aquele a quem
faltarem as condições para uma decisão própria e
responsável (de modo especial no âmbito da
biomedicina e bioética) poderá até mesmo perder –
pela nomeação eventual de um curador ou
submissão involuntária a tratamento médico e/ou
internação – o exercício pessoal de sua
capacidade de autodeterminação, restando-lhe,
contudo, o direito a ser tratado com dignidade
36
(protegido e assistido).”
Ingo Sarlet
 Mesmo presente, em sua plenitude, a autonomia da
vontade (dignidade como capacidade de
autodeterminação) esta poderá ser relativizada em
face da dignidade na sua dimensão assistencial
(protetiva), já que, em determinadas circunstâncias,
nem mesmo o livre consentimento autoriza
determinados procedimentos, tal como ocorre, vlgl,
com a extração de todos os dentes de um paciente
sem qualquer tipo de indicação médica,
especialmente quando o consentimento estiver
fundado na ignorância técnica.

37
Caso Concreto
 Determinada consumidora foi surpreendida com o
aumento de valor da prestação de seu plano de
saúde, que foi majorado de R$ 62,75 em setembro de
2015 para R$ 295,36 no mês seguinte,
consubstanciando um aumento de cerca 470,6%,
percentual este muito acima dos índices de
atualização monetária do governo federal.
 Dessa feita, a mesma propõe demanda em face da
sociedade operadora do plano a fim de reduzir os
valores de sua contribuição, e alega que a
mensalidade foi majorada devido à implantação de
um novo modelo contributivo e que a relação que
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mantém com a ré é de consumo.
Caso Concreto
 Defendeu a aplicação do artigo 6º, V do Código de
Defesa do Consumidor. Aduziu que a ré recebe
verbas do Governo Federal a título de patrocínio.
Alegou que o segurado deve ser avisado de forma
prévia, direta e inequívoca quanto à majoração da
contraprestação. Salientou que o reajuste visa a
afastar os idosos do plano.
 A ré, em sua defesa, alega que acumulou prejuízos
nos últimos períodos, em razão da denominada
seleção adversa, que implica no incentivo à
contratação por aqueles segurados que oferecem
maior risco; e que resta impossível manter a
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sociedade em funcionamento sem o acréscimo
Caso Concreto
 Financeiro proveniente do reajuste aplicado.
 Responda fundamentadamente, com base na
dignidade da pessoa humana, e no princípio da
obrigatoriedade dos contratos, como deve ser julgada
a causa.

40
TJ-RS - Apelação Cível : AC
70058921636 RS
 APELAÇão CÍVEl. seguro. plano de saúde.
aplicação do código de defesa do consumidor.
REAJUSTE DA MENSALIDADE. ALTERAÇÃO
UNILATERAL DO CONTRATO. ABUSIVIDADE.
 1. Os planos e seguros de saúde estão submetidos às
disposições do Código de Defesa do Consumidor,
enquanto relação de consumo atinente ao mercado
de prestação de serviços médicos. Isto é o que se
extrai da interpretação literal do art. 35 da Lei
9.656/98. Aliás, sobre o tema em lume o STJ editou a
súmula n. 469, dispondo esta que: aplica-se o Código
de Defesa do Consumidor aos contratos de plano de
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saúde.
TJ-RS - Apelação Cível : AC
70058921636 RS
 2. A operadora de saúde não indicou os critérios
utilizados para determinar o reajuste em valor tão
vultoso, rompendo com o equilíbrio contratual,
princípio elementar das relações de consumo, a teor
do que estabelece o artigo 4º, inciso III, do Código de
Defesa do Consumidor, inviabilizando a continuidade
do contrato firmado com o demandante.
 3. O consumidor tem o direito de prever qual será a
amplitude do aumento dos preços, que deve ser
realizado de forma eqüitativa entre os contraentes, em
especial nos contratos de prestações sucessivas,
como é o caso dos autos.
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TJ-RS - Apelação Cível : AC
70058921636 RS
 4. Ademais, a alteração do contrato por meio de
resolução elaborada pela ré importa variação
unilateral do preço, cláusula nula de pleno direito, de
acordo com o artigo 51, X do Código de Defesa do
Consumidor.
 5. Ainda, no que tange à eventual erro na realização
dos cálculos atuariais quando da contratação, é
oportuno ressaltar que entre os elementos do contrato
de seguro, inclusive no de saúde, previstos no art.
757 do Código Civil, está a empresarialidade da
atividade securitária, prevista no parágrafo único da
referida norma, exercida por empresas de grande
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porte, capazes de suportar os deslizes de uma
TJ-RS - Apelação Cível : AC
70058921636 RS
 empreitada mal sucedida.
 Dado provimento apelo.

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