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NA ESCOLA COM OS ENCANTADOS: Religiões afro-brasileiras, consciência histórica

e cotidiano escolar do maranhão


REINILDA DE OLIVEIRA SANTOS1

Resumo expandido
Há mais de uma década o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira,
respaldado pela Lei n° 10.639/2003, passou a ocupar um espaço que deveria ser respeitado no
currículo e no cotidiano escolar, contudo esse ainda é um grande desafio nas salas de aulas do
país. Assim, pretendo discutir os espaços que as religiões afro brasileiras ocupam no Ensino
Fundamental da escola Centro de Ensino Sotero dos Reis, bem como pensar em como os alunos
constroem consciência histórica sobre essas cosmologias, uma vez que os espaços se reduzem
cada vez mais nesse ambiente. Certamente, o ambiente escolar se apresenta como uma espécie
de microcosmo a partir do qual seria possível compreender relações e processos característicos
da sociedade em geral, sobretudo no que tange o tema da religião, num contexto em que
frequentemente o panteão social, mítico e humano identificado com África é representado de
modo extremamente negativo. Assim, com o intuito de elaborar estratégias para questionar
movimentos de inscrição negativa das alteridades/identidades afro-religiosas, pretende-se
analisar o processo através do qual, no Ensino Fundamental maior, se consolidam certas formas
de representar o universo material, simbólico e humano das manifestações religiosas de matriz
africana, consubstanciando-se determinados tipos de consciência histórica na qual esses
repertórios ou estão ausentes ou são estereotipados. A pretensão deste trabalho é investigar as
ações e relações que configuram o cotidiano escolar no ensino fundamental maior, a fim de
perceber os lugares das religiões afro-brasileiras e, de modo mais geral, problematizar acerca
do universo da cultura negra. A relevância desse trabalho se dá, sobretudo, devido ao pouco
material que se tem sobre a temática disponível nas escolas e também pela importância de se
problematizar esse assunto tendo em vista a atual conjuntura política do país. Em um país que,
segundo José Ricardo O. Fernandes (2005), o mais adequado seria se falar em “culturas
brasileiras” ao invés de “cultura brasileira”, ainda é comumente perceptível um
desconhecimento e despreparo em se trabalhar essa diversidade cultural nas escolas.
Constantemente, são observadas na sociedade e na escola manifestações de incompreensão e
preconceito em relação às religiões afro-brasileiras. No universo escolar, crianças e
adolescentes oriundos de casas de culto afro geralmente passam por situações no mínimo
constrangedoras, quando não psicologicamente violentas. Na realidade, é nesse ambiente que
elas se sentem mais reprimidas em assumir determinadas identidades. Desta forma, a escola,
que deveria ser um ambiente que subsidiasse uma leitura crítica da diversidade religiosa
existente no país, muitas vezes se posiciona de forma inadequada, trazendo elaborações
equivocadas que acabam por desqualificar e demonizar essas expressões religiosas. A escola se
torna assim um ambiente desencarnado, descontextualizado, um ambiente que nega, ao invés
de incluir, o universo social, cultural e religioso no qual está inserido. Diante disso, é válido
frisar que, além das ações afirmativas de grupos específicos como o Movimento Negro e do
advento da lei 10.639, um passo importante e demasiado necessário que precisa ser trilhado é
o da mudança no processo educacional, sobretudo, no ensino fundamental. Nesse contexto, a
disciplina de História, como também outros campos disciplinares, deve colaborar nesse
processo de valorização e legitimidade das diferentes cosmologias religiosas.

Palavras chaves: Consciência histórica: Religiões afro brasileiras: Cotidiano Escolar:


Currículo.

1
Mestranda no Programa de pós-graduação História, Ensino e Narrativas da Universidade Estadual do Maranhão.
Bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão –
FAPEMA. email: Reinilda.oliver@folha.com.br.