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LÂMIA

Evaldo Fonseca
.1.

Um joguinho de futebol logo pela manhã na modesta e apertada garagem


do prédio de três andares da Rua Santa Rita Durão, no ainda relativamente pacato
bairro da Savassi, na metade dos anos 1980, não parecia boa ideia depois de mais
uma noite em claro que quase escurecera totalmente de tanta vodca.
Principalmente porque o fato mais notável da noitada havia sido uma
discussão com policiais militares que quase resultara em pancadaria e prisão.
O entrevero se dera na tumultuada entrada de uma das muitas festas da
Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, a apenas quatro
blocos dali.
O pátio sempre colorido da faculdade, no qual viam-se nas paredes
pinturas e pichações feiosas de pseudo-artistas moderninhos, permitidas pela
direção da escola, era palco constante de eventos mal organizados e cheios de
estudantes ensandecidos. Sempre ao som de bandas da mais abjeta música
mineira, do mais tosco heavy metal, da mais calhorda new wave ou do mais
escatológico punk rock.
Além, é claro, de tonéis de cerveja quente e toneladas de maconha e cocaína
servindo de combustível para a garotada.
Um soldadinho bem idiota, integrante da guarnição convocada pela
vizinhança irritada com a balbúrdia costumeira, não queria deixá-lo entrar.
Alegava que o local estava cheio demais e que, de qualquer maneira, a farra seria
interrompida logo, em nome do bem-estar das famílias do entorno.
Bêbado, Helvécio mandou que ele e seus colegas se ferrassem.
“Vão se foder, meganhas de merda!”, ele e a vodca berraram.
Imediatamente, um bando de cachorros fardados cercou-o, latindo gordas
ameaças, chamando-o de “filhinho de papai”, de “bosta” e de “seu escroto”, e ele
teve de correr para não apanhar. Os policiais ficaram rindo.
Helvécio chegou arfando ao prédio onde morava, aquele edifício antigo de
classe média, e desabou ao pé da portaria, abraçado a um xaxim de bromélias de
plástico.
Pôs-se a observar os passarinhos saltitantes nas árvores da rua, gorjeando
idiotamente aos primeiros raios do sol, e uma tristeza imensa pesou-lhe no peito e
nas pálpebras. Desmaiou por alguns minutos até ser despertado por gritos
animados como os pios dos passarinhos, vindos de meninos na garagem do
edifício – um tipo de estacionamento ao ar livre. Pelo barulho de boladas na
parede chapiscada da rampa de entrada, era uma pelada. Levantou-se e correu
até lá.
Entre amigos – muitos deles quatro ou cinco anos mais novos e ainda não
iniciados na vida noturna –, deu de ombros para a miséria espiritual que o
engolira e pediu para entrar na brincadeira, também a despeito do sapato de bico
fino e da camisa de seda preta, que se recusou a tirar.
O resultado foi que a ressaca colossal, toda a chateação com a lama vivida
pouco antes com os canas e uma série de outros fatores de ordem psicossomática –
conforme os médicos lhe explicariam – fizeram com que passasse, aos 18 anos, por
uma crise inédita e crucial na (de) formação de sua personalidade.
Bastaram alguns minutos de corrida leve e de chutes sem muita direção na
bola murcha, em um modorrento começo de dia em março de 1985, para que
começasse a se sentir mal. Muito mal!
Erupções vermelhas e disformes surgiram no corpo – primeiro nos braços,
depois no peito e no rosto. O suor excessivo, a hiperventilação, uma incontrolável
coceira no corpo, a tontura e a sensação de um bolo de farinha entalado na
garganta ajudaram a piorar as coisas.
“Que é isso, cara?! Cê tá todo empolado!”, comentou Flavinho, um boa
praça, de 15 anos ou menos, morador do 201 e um dos craques do futebol de
garagem.
Pânico. Coração acelerado.
Helvécio nem disse até logo. Subiu correndo as escadas do prédio até seu
apartamento, no terceiro andar, buscando refúgio e ajuda.
“Mãe, eu ‘tô’ morrendo”, disse, exasperado, a Dona Ilzete, que lia o jornal
como sempre, óculos dependurados o grande nariz, sentadinha à mesa da copa.
Ele deixou-se cair como um naco de bosta no sofá, de frente para a TV, com
a mão no pescoço, sufocado, mirando na tela o patético reflexo.
“Está parecendo algum tipo de alergia. Você comeu alguma coisa
diferente?”, ela questionou, simulando estar tranquila.
Helvécio não havia comido nada desde a tarde anterior.
O último lanchinho havia sido um pão dormido com manteiga e café frio
antes de sair com alguns amigos para mais uma aventura errática pelo chamado
'Baixo Belô' – um conjunto de dez ou 12 quarteirões coalhados de bares
'descoladinhos'.
Deixara sua casa, para variar, como um caçador descontrolado em busca de
algo ou de alguém que, como definia em pífias incursões bêbadas e baudelaireanas,
pudesse dar sentido ao seu “micro-inferno repleto de flores do mal”.
“Eu... não... consigo... respirar!”, respondeu à mãe, sentindo-se derreter
num caldeirão de adrenalina.
Agora apavorada também, Dona Ilzete acordou Heloísa, irmã dele e médica
da casa.
Ainda sonolenta, recuperando-se de um plantão no Pronto-Socorro, ela
sugeriu que o próprio Helvécio fosse à farmácia, correndo, e tomasse uma injeção.
“É alergia, sim. Pode dar edema de glote, fechamento da garganta. Precisa
de remédio”, disse Helô, examinando o maninho de perto.
Helvécio sentiu espasmos violentos na barriga. Soltou puns altos e
fedorentos e experimentou ondas de suor ainda maiores que as de quando estava
perseguindo descoordenadamente a bola murcha na garagem, acompanhadas
agora de calafrios.
Uma sensação de perda total de controle o arrebatou.
“Minha garganta vai fechar?”, ele gritou.
Sem perspectivas ou respostas, sem contar com a razão ou com
pensamentos bacanas que pudessem abrir uma janela paro o Sol iluminar-lhe as
ideias, Helvécio, até então um sujeito excessivamente seguro em sua morbidez
ensaiada – um charme nonchalance de jovem metido a pós-moderno dos anos
1980 –, saiu como um bólido de pavor pela porta da rua.
De uma espécie de Lord Byron charmoso e de alma obscura, mas
pensamentos rasos, ou de um Sartre dado a rompantes de existencialismo de
almanaque e raciocínio turvo como a água de um pântano, a despeito do esforço
em parecer nobre e filosófico todo o tempo, transformara-se em uma criancinha
mimada e histérica.
“Isso é a Náusea?”, ele se perguntava.
Helvécio sentia-se um arremedo empobrecido de Maiakovski, um dos
muitos ídolos literários – transtornado, tornado, louco pelo desespero, sim, mas
não pela dramática impossibilidade de um amor genuíno, proibido pela sincera
amizade com o companheiro da musa Lílitchka, ou pela decepção com os rumos
inauditos e frustrantes de uma revolução que tivera tudo para ser sensacional.
Ele perdera o prumo por um terror insano, incontrolável, desconhecido e
repentino de morrer. Só isso.
E não havia devaneios inspiradores sobre um utópico e tonitruante balaço
na cabeça que pudessem reduzir o desconforto. Ele nunca teria coragem para tal.
O que Helvécio tinha, naquele turbilhão súbito e inexplicável de emoções,
era a profundidade mental de um animalzinho acuado pela besta-fera da
inexorabilidade.
“Eu vou morrer, e vou morrer agora! Sei que vou!”, pensava, enquanto
sentia-se flutuar como um anjo decadente por sobre as calçadas da Savassi.
Transpassado por ondas cada vez mais violentas de destempero, os
pensamentos de Helvécio misturavam-se e revolviam como escombros em um
ciclone, impregnados do odor de flores pestilentas e de peidos de pavor. Ele
contorcia o rosto, incomodado também pelo cheiro agora pútrido das
quaresmeiras de BH e pela própria ignomínia refletida nos olhares opacos dos
passantes. E tinha a boca seca: não conseguia engolir nada, nem ar. E via-se na
iminência de um desmaio de verdade que, para sua sorte, não aconteceu.
“Eu preciso de uma namorada... Preciso achar uma coisa para fazer que me
dê prazer, que me deixe feliz... Eu preciso... de um médico”.
De volta ao lar, sem saber com que forças e com que senso de direção havia
conseguido fazer isso, Helvécio correu paro o quarto e deitou-se sem nem tirar os
sapatos. Cobriu-se até o queixo, tremendo.
Dona Ilzete nem quis saber por onde ele havia andado. Encontrou uma
caixa de Polaramine esquecida na mini-farmácia do banheiro e levou um
comprimido ao filho, que tinha o corpo coberto por brotoejas disformes. Ele
engoliu o remédio entre soluços.
“Mãe, eu vou morrer, não vou?”.
Angelical e acolhedora, ela disse que não, que se mantivesse calmo, que
tudo ficaria bem, que o tal edema de glote, se houvesse um, de fato, cederia; que o
Sol, enfim, voltaria a brilhar.
Dona Ilzete falava coisas assim e dava tapinhas nas costas do filho, do
mesmo jeito que fazia quando ele tinha seis anos e se queixava de medo do escuro.
“Tá”, ele respondeu, sem muita convicção, mas suspeitando de que a
viagem ao inferno, ou pelo menos aquele capítulo satânico de sua vida, poderia
estar chegando mesmo ao fim.
Até que o sono o abraçou, mais pelo efeito do medicamento que pelo
reconfortante e leve ritmo das batidas de mão de Dona Ilzete.

***

Na manhã seguinte, depois de quase um dia inteiro de sono pesado,


acreditando-se refeito da urticária misteriosa e da sensação de pânico que o levara
à beira da loucura, Helvécio foi a um médico, indicado pela irmã.
Teve prioridade no abarrotado consultório do doutor Gervásio, sumidade
em clínica geral. Além disso, um ébrio inveterado que, segundo fofocas da turma
de Heloísa, das quais Helvécio tomava conhecimento involuntariamente pela irmã
na mesa de almoço dos domingos, havia perdido qualquer rascunho de prazer
pela vida de tanto lidar com o que chamava de “um aniquilante sentimento de
finitude”.
Tudo por ter trabalhado, por duas décadas, em unidades de tratamento
intensivo precárias nas quais o que fugia à regra era a sobrevivência dos doentes.
Como atributos adicionais, o sujeito possuía um diploma de especialista em
reações alérgicas em uma renomada escola norte-americana e, mais importante,
era um dos ex-tutores de Heloísa, no recém-concluído curso de medicina.
As grandes olheiras sob os olhos cinzentos e apagados e os profundos
sulcos que cortavam o rosto do doutor, formando assustadores feixes de rugas –
embora ele, talvez, ainda não tivesse 50 anos –, quase chamaram mais a atenção do
(im)paciente que a explicação que ele deu, após uma breve anamnese e um exame
clínico apressado.
“Meu jovem, o que você teve é o que chamamos de urticária colinérgica”,
sentenciou.
“E eu vou morrer?”, Helvécio perguntou, apertando a mesma tecla do dia
anterior, mas com os batimentos cardíacos mais acelerados que a percussão de um
punk core californiano.
Tudo por jamais ter ouvido a palavra colinérgica na vida – e porque ela,
aparentemente, dizia respeito a algo muito, muito grave.
“Não, não”, o médico riu, e tossiu. “O que aconteceu é que seu organismo
reagiu de forma um tanto incomum ao estresse emocional e físico e à grande
ansiedade pela qual você certamente está passando”, ele acrescentou, soltando a
fumaça do cigarro de piteira pelas narinas peludas.
O doutor prosseguiu:
“Com o esforço feito no exercício matinal, houve uma grande liberação de
histamina em seu organismo, os edemas cutâneos apareceram e, provavelmente,
você de fato correu o risco de ter um inchaço interno na garganta. Mas isso tudo
passou, não passou? Isso tudo passa!”, Gervásio disse, com um rasgo do gato de
Alice no país das maravilhas nos lábios – um sorriso forçado com o qual desejava
soar otimista, mas que o deixava ainda mais temível.
“Afinal, você é novo e cheio de vida! E tem um futuro bacana pela frente!
Mas, olha, enquanto essa coisa estiver aí, procure não se banhar com água muito
fria ou exagerar nos exercícios, porque a urticária pode voltar. Fique tranqüilo e
tome esse remedinho aqui, de oito em oito horas. E mande um grande abraço à
sua irmã”, concluiu o médico, entregando-lhe o papel da receita.
Pelo que Helvécio entendera, em sua ainda inconsistente forma de ver a
“coisa”, não poderia nunca mais entrar em piscinas sem aquecimento, nadar no
mar ou tomar banhos nas cachoeiras da Serra do Cipó. Também não poderia jogar
bola ou fazer qualquer tipo de atividade física até o fim de seus dias, sob pena de
experimentar, no coração daquelas trevas inéditas e indesejáveis que o envolviam,
o horror, o horror do dia anterior.
“Ok, ok... Minha vida vai oficialmente virar uma grande merda”, ele
resumiu para si, mentalmente, pouco antes de pegar o ônibus, em frente ao
consultório, enquanto observava os braços em busca das tenebrosas manchas
vermelhas.
.2.

A grande merda na qual a vida de Helvécio parecia estar fadada a se


transformar deu as caras rapidamente. Aos poucos, o rapaz foi deixando de lado a
empáfia que tornara-se uma espécie de marca registrada de sua presença, desde o
início do colégio – embora, mesmo quando criança, demonstrasse tendência a se
achar melhor que os outros.
A sensação de controle absoluto sobre a vida mostrou-se de uma
fragilidade sem precedentes e foi insidiosamente substituída por uma abominável
certeza de impotência.
Helvécio passou a olhar mais para baixo que para os interlocutores. Claro,
quase sempre perscrutava o corpo em busca de sinais de alergia, o que poderia
prenunciar um edema de glote, na melhor das hipóteses, ou um episódio de
pânico injustificado que o faria ter de se explicar aos circundantes, na pior.
O fato é que começou a enfrentar sérias dificuldades de relacionamento: o
ar lúgubre que ele até então simulava muito bem, com orgulho, um discurso
fabricado por leituras superficiais de autores via de regra depressivos e roupas
quase sempre pretas, foi-se instalando de maneira real. O álcool, com o qual se
municiava para tentar descolar eventuais parceiras sexuais nas noites de via sacra
e ao mesmo tempo pecaminosa pelos bares do “Baixo Belô”, foi abandonado. E ele
desenvolveu um pavor desmedido de ficar fora de si.
“Eu não posso beber senão entro em parafuso e me perco”, repetia
constantemente, como um mantra negativo.

***

Uma das raras tentativas de divertir-se depois do episódio na garagem de


casa foi a ida a uma festa de aniversário em Rio Acima, cidade próxima a Belo
Horizonte. A reunião, regada a bebidas baratas e maconha poeirenta, foi no sítio
de um colega no Tangará, um condomínio de casas de campo que teria recebido,
alguns anos antes, a visita de ninguém menos que Mick Jagger, segundo rumores
que chegaram a circular freneticamente pela capital mineira.
Helvécio confirmou ali, de maneira vergonhosa, toda a relevância da nova
regra que se impôs.
'No satisfaction'.
Depois de tomar, não sem hesitação, três copinhos de cerveja com Chicão,
Zuca e Beto, amigos dos tempos de colégio que o haviam convencido a sair da
toca, ele encantou-se com uma moça chamada Dayana. Era negra e brilhosa, que
dançava com alegria contagiante e fazia o papel de estrela da festa, quase uma
stripper bem remunerada.
Dayana serpentava qual uma deusa da noite do Senegal, rebolando a bunda
generosa e convidativa ao som de Q’uran, faixa de My Life in the Bush of Ghosts, de
David Byrne e Brian Eno.
Além da pele lindamente escura e macia, do corpo escultural, da
proeminente e nada sutil redondeza do derrière e dos olhos grandes e
incandescentes como esferas de obsidianas polidas, Dayana tinha o hálito
levemente desagradável, com um cheiro de fruta passada.
E isso a tornava ainda mais sensual – pelo menos para Helvécio.
Hálitos assim eram típicos de garotas que regulavam o apetite com
moderadores químicos, num farmacológico e um tanto estúpido para ficar
gostosas sem exercícios físicos. Essas garotas não se alimentavam direito, claro, e
ingeriam bebidas alcoólicas aos cântaros, talvez para suprir a falta de proteínas. E
isso fazia com que enlouquecessem e se tornassem ninfomaníacas das mais
desavergonhadas sob o efeito das drogas combinadas, conforme a teoria que ele
desenvolvera.
Helvécio havia notado o odor característico do que costumava definir como
sexoloucas no bafejar quente de Dayana em seu rosto, logo que a cumprimentou
com três beijinhos, na chegada ao sítio.
Mais tarde, embriagado por menos de 1 litro de cerveja, avançou nela, bem
no meio da sala, onde a pista de dança fora improvisada.
Dayana bailava o grande e suado corpo de ébano, delineado por um vestido
curto e apertado de chita colorida, ao ritmo de frenéticos tambores eletrônicos e de
um coro místico. Helvécio beijou-a na boca gorda, gulosamente, sem enfrentar
resistência, ansioso pelo sabor de pecado misturado ao de maçã passada que
certamente experimentaria.
O coração disparou e, por um momento, pensou que se livraria de todos os
seus demônios – menos o do sexo!
O soco do namorado de Dayana, um negro alto e forte, acertou-lhe o
estômago no momento em que ele recolhia ar para repetir a dose com a deusa
africana.
Helvécio virou-se para o agressor, atordoado. Em vez de revidar, como
todos esperavam, preferiu lançar um olhar preocupado para os braços, onde, sob o
lusco-fusco das estroboscópicas da sala, verificou que grotescas pelotas vermelhas
começavam a aparecer.
“Caramba, deu a coisa. Vou morrer!”, ele disse em voz alta, abafando The
sky is gone out, do Bauhaus, que sucedera a música de Byrne e Eno.
Saiu da casa com os lábios inchados – efeito que o fez pensar na temida
palavra colinérgica –, urrando contra o universo, dirigindo imprecações aos deuses
do Senegal e a quaisquer outros em que se pudesse pensar, convicto de que não
passaria daquela noite.
Dayana, os amigos dele e até o namorado da moça ficaram lá, perplexos.
Apesar do início da reação alérgica, ele chegou mais calmo em casa, de táxi,
minutos depois. Tomou um Polaramine, verificou que as manchas e a coceira já
desapareciam e jurou que jamais iria a festas novamente.
“Festas também me dão alergia”, raciocinou, antes de dormir, soluçando.

***

Nos dias que se seguiram, o baixo astral de Helvécio foi tamanho que a
mãe e a irmã começaram a suspeitar de depressão. Do tipo clínico, conforme
explicou Heloísa. Ele se recusava a sair de casa, sobretudo à noite, e passava a
maior parte do tempo entrevado no quarto, ouvindo música, lendo e, por vezes,
chorando.
“Esse menino precisa fazer terapia, mãe!”, dizia Heloísa, primeiro pelas
costas dele e, com o passar dos dias, na frente, sem cerimônia.
Dona Ilzete, porém, não admitia que seu caçula frequentasse um "médico
de loucos".
Até que um outro incidente, só que doméstico e fruto de um engraçado
mal-entendido, serviu pra reforçar as impressões de Helô e ajudá-la a convencer a
mãe.
Helvécio fazia curso de inglês em uma conhecida escola de idiomas da
cidade enquanto aguardava o início das aulas de direito na UFMG, no qual havia
sido aprovado para o segundo semestre – entre a notícia de que passara no
vestibular e o início das aulas, foram meses de ócio preenchidos por uma overdose
de bandas e livros soturnos.
Em um dever de casa encomendado pelo professor Kevin Smith, escolheu
uma música do The Cure pra traduzir: I am sinking.
Kevin, um gordo e rosado inglês de Bournemouth, uma espécie de bardo
alcoólatra formado em Letras que se apaixonara pelos trópicos, alguns anos antes,
e por uma mulata do interior mineiro chamada Bernadete – o que o fizera trocar a
terra da Rainha pelo Bananão –, dava aulas de preparação para o proficiency e
sempre pedia aos estudantes que fizessem versões livres de músicas de rock
britânicas. Para “miorar” o idioma, ele dizia.
Helvécio escreveu, depois de tirar a letra de ouvido de uma fita Basf preta e
amarela:

Eu estou tão mal... Os anos passam... Estou afundando. Então me engano, como todos
fazem. Os segredos dentro de mim me confundem, me fazem mais fraco. Então me engano,
como todos fazem. Eu me encolho de medo e espero que nunca mais sinta... Se pelo menos
eu pudesse... não me lembrar de nada....

O papel com a tradução porca e em garranchos de Helvécio foi encontrado


por Heloísa sobre a cômoda do quarto, no momento em que ela invadira o
santuário do irmão para pegar emprestado um disco de Elis Regina. Ela levou a
mão aos lábios, aturdida, leu mais de uma vez o texto e correu para alertar dona
Ilzete:
“O Helvécio pode até se matar se não fizermos nada! Você precisa me
escutar. Dê uma lida nesse poema dele”.
A mãe fitou com tristeza o verso pessimista de Robert Smith, do The Cure,
pensando tratar-se mesmo de um desabafo desesperado da lavra do filho.
Chorando, ela assentiu:
“Marque um psiquiatra!”.
“Até que enfim”, Heloísa disse.
Comunicado da decisão da família de que deveria consultar um encolhedor
de cabeças, Helvécio, surpreendentemente, não fez objeção. Muito menos tentou
explicar que não compusera I am sinking ou que quem fizera isso fora um cara
esquisito e parecido com uma “banana empanada”, segundo declaração então
recente da vocalista da banda Siouxsie and the banshees a uma famosa revista sobre
rock.
No fundo, sentia que não estava dando conta, sozinho, de domar os seres
malignos que pareciam se alimentar e crescer dentro dele. Afinal, eram demônios
de hábitos sórdidos, transmutados em pensamentos torpes e sem sentido e que
surgiam nos momentos mais inoportunos, sem que pudesse trancafiá-los nos
porões da mente.
Ele poderia tê-los recebido com hospitalidade, com cafezinho e pães de
queijo, e procurado ouvir o que tinham a propor. Isso talvez evitasse tanto
sofrimento, mas Helvécio ainda não estava preparado.

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