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Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP

Maíra Ribeiro Maximiano dos Santos (94472)


Prof. Dr. Markus Lasch
UC: "Conceitos Fundamentais de Teoria Literária"

Resenha crítica do texto “O Efeito de Real’’ de Roland Barthes

Roland Barthes inicia Efeito de Real, ensaio publicado no livro Literatura e


Semiologia1, criticando a análise estrutural que, ao privilegiar as grandes articulações do
discurso narrativo, não contempla os detalhes ditos como supérfluos.

Ao citar as descrições de Flaubert, o autor observa que existe uma motivação


para sua existência dentro do texto, mesmo não cumprindo, a princípio, função direta na
narrativa, nem sendo responsáveis também pela progressão do enredo.

Exemplificando, Barthes cita a seguinte descrição2 : “um velho piano suportava,


sob um barômetro, um monte piramidal de caixas”. Seriam todos esses detalhes
dispensáveis em uma análise?

Podemos observar que a figura do piano implicitamente remete o leitor à ideia


de que aquele ambiente pertence a uma pessoa com padrões elevados. Certamente o
elemento ‘piano’ age no que diz respeito a caracterização do ambiente/personagem. Mas
e a figura do barômetro? Por que está na cena, se não desempenha nenhuma função de
progressão ou caracterização no texto?

“nenhuma finalidade parece justificar a referência ao barômetro, objeto que não é


incongruente nem significante e não participa, à primeira vista, da ordem do notável”
( BARTHES, 1972, p.36)

São esses “detalhes inúteis” representados pelo barômetro, que Barthes pretende
defender do método de análise estruturalista ao considerar como válida a presença do
supérfluo que não é supérfluo, tentando provar que, mesmo não obedecendo aos
princípios da análise estrutural, merece seu espaço.

1 BARTHES, R. Efeito de real. In: Vários autores. Literatura e Semiologia.


Petrópolis: Vozes, 1972

2 FLAUBERT, G. Um Coração Simples (Um Coeur Simple): Três Contos. Paris,


Charpentier- Fasquelle,1893, p.4.
Dando continuidade ao pensamento, o autor, ao explicar sobre a estrutura geral
do discurso narrativo, fala sobre a marca preditiva, que consiste na esquematização
objetiva (sem rodeios) da trajetória que a personagem (e também o leitor) percorrerá em
um caminho pré-estabelecido.

Opondo-se à marca preditiva, a descrição, embora não justificada por nenhuma


finalidade de ação ou comunicação, desempenha grande importância nos discursos
narrativos.

Para responder à questão: “qual é definitivamente, se assim podemos dizer, a


significação dessa insignificância? ” (BARTHES, 1972, p.38), o autor relembra que a
corrente retórica reconheceu a finalidade da descrição, e essa finalidade era o belo.

Podemos concluir então que a descrição cumpriu por muito tempo uma função
estética garantida pelo discurso de aparato do gênero epidídico, cuja função não era a
persuasão, mas a admiração do auditório. Posteriormente, correspondendo a neo-
retórica alexandrina, a descrição não estava sujeita ao realismo nem mesmo ao
verossímil, que aqui, desempenha neste momento não um papel referencial, mas
discursivo.

Se voltarmos a falar de Flaubert, podemos notar que a função estética e não


realista da descrição é fortemente presente. Observemos o seguinte trecho:

“ os mastros como florestas de agulhas, as ilhas como peixes negros prisioneiros, as


nuvens como ondas aéreas que se arrebentam contra um penhasco”

Ao descrever a cidade de Rouen, em Madame Bovary, o romancista francês


encarrega-se, por meio da linguagem, apresentar uma cena pintada, em que Rouen:

“ (...) não é mais que uma espécie de fundo destinado a receber as joias de algumas
metáforas raras, o excipiente neutro, prosaico, que reveste a preciosa substancia
simbólica, como se em Rouen, importassem apenas as figuras de retórica, às quais a
vista da cidade se presta, como se Rouen não fosse notável senão por suas substituições.
” (BARTHES, 1972, p.39)

Diferentemente da retórica clássica que desempenhava a atividade fantasmática


(hipotipose) de “por as coisas sob os olhos do auditor”, a descrição realista, ao colocar o
referente pelo real e “fingindo segui-lo como escravo”, procura uma nova razão para
escrever.
Esta constatação do real faz com que voltemos a pensar na oposição entre a
verossimilhança (o que poderia ter acontecido) e a História (o que de fato aconteceu),
que estruturou a lógica da representação, a partir de Aristóteles em sua Arte Poética3.

“ Não é em metrificar ou não que diferem o historiador e o poeta; a obra de Heródoto


pode ser metrificada; não seria menos uma história com o metro do que sem ele; a
diferença está em que um narra acontecimentos e o outro, fatos quais podiam
acontecer.” (Aristóteles, Arte Poética, IX)

Portanto, sendo o realismo literário, há tempos, contemporâneo da história,


podemos então nos perguntar: “ que importa então a não- funcionalidade de um detalhe,
uma vez que ele denota ‘o que já ocorreu’: o real concreto torna-se a justificação
suficiente do dizer. ” (BARTHES, 1972, p.41)

Vale observar que, a partir desse raciocínio, o efeito de realidade rompe com a
lógica da representação tomando o real pelo real (princípio realista da história), criando
uma outra categoria de verossimilhança diferente da clássica, que é precisamente o
realismo. Barthes ainda declara que a nova verossimilhança é responsável pela nossa
necessidade da autenticação do real4, pensemos então no advento e desenvolvimento das
fotografias, reportagens, exposições, ou seja, todas essas coisas nos revelam que:

“(...)o real é suposto bastar-se a si mesmo, que é bastante forte para desmentir
qualquer ideia de função, que sua enunciação não tem nenhuma necessidade de ser
intrigada numa estrutura e que o ter-estado-lá das coisas é um princípio suficiente da
palavra. ” (BARTHES, 1972, p.42)

Quando o significado é expulso do signo, é dada a chance da formação de uma


forma do significado, que é, segundo Barthes, a própria estrutura narrativa. Da mesma
forma que é possível que Foucault, ao analisar no primeiro capítulo de As palavras e as

3 ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética clássica. São Paulo: Cultrix,


1995, p.28.

4 No tocante a busca da autenticação do real, confirmada pela cultura


midiática muito presente em nossos dias, vale comentar o processo de
alheamento da realidade física em virtude da experiência virtual da
sociedade atual (que passa da saciedade do espetáculo para a sociedade do
estímulo) moldando o homem num corpo virtual, ou melhor, segundo
Christoph Türcke em Sociedade Excitada, “um ‘aí’ etéreo, receptível em
todos os lugares de um determinado campo de transmissão, mas em lugar
alguma palpável” (TURCKE, 2010, P.45)
coisas5 o quadro de Velásquez (Las meninas), concluir que está diante de uma
representação da representação clássica.

“ (...) por todas as partes um vazio essencial é imperiosamente indicado: o


desaparecimento necessário daquilo que a funda — daquele a quem ela se
assemelha e daquele a cujos olhos ela não passa de semelhança. Esse sujeito
mesmo — que é o mesmo — foi elidido. E livre, enfim, dessa relação que a
acorrentava, a representação pode se dar como pura representação. ”
(FOUCAULT, 1999, p.20-21)

Barthes finaliza seu ensaio com uma resposta à pergunta inicial sobre a função
da descrição nos trechos de Flaubert e Michelet:

“ o barômetro de Flaubert, a pequena porta de Michelet, não dizem mais do que isto:
somos o real; é a categoria do real ( e não seus conteúdos contingentes) que é então
significada; ou melhor, a própria carência do significado em proveito do único referente
torna-se o próprio significante do realismo: produz –se um efeito de real, fundamento
desse inverossímil inconfessado que forma a estética de todas as obras correntes da
modernidade” (BARTHES, 1972, p.43)

Ao concluir que no texto descritivo não há significado, mas sim a forma de


significado, assim como não há realidade, mas o efeito de real, Barthes, através do
exemplo do esvaziamento do signo ‘barômetro’ de Flaubert, posiciona o romancista no
espaço da modernidade, lugar de se colocar em discussão o enfraquecimento da
secularidade da representação mimética e de abrir caminhos para novas formas de
representação.

5 FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências


humanas. Tradução Salma Tannus Muchail. — 8ª ed. — São Paulo: Martins
Fontes, 1999.