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Análise do soneto: “Pede-me o desejo, Dama, que vos veja”

Pede-me o desejo, Dama, que vos veja,


não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa a qual natural seja


que não queira perpétuo seu estado;
não quer logo o desejo o desejado,
porque não falte nunca onde sobeja.

Mas este puro afeito em mim se dana;


que, como a grave pedra tem por arte
o centro desejar da natureza,

assi o pensamento (pola parte


que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)
foi, Senhora, pedir esta baixeza.

Pede-me o desejo, Dama, que vos veja,


Não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
Que quem o tem não sabe o que deseja.

Nesta primeira estrofe é estabelecida a proposta do poema: o “eu-lírico” afirma que o desejo
pede que ele a veja, mas que (o desejo) está enganado porque o amor é tão delicado a ponto
de quem ama não saber o que, de fato, deseja.

Não há cousa a qual natural seja


Que não queira perpétuo seu estado;
Não quer logo o desejo o desejado,
Porque não falte nunca o que sobeja.

A segunda quadra vem explicar, por meio dum silogismo, qual é o caráter do desejo: parte da
proposição de que nada natural não quer perpétuo estado, ou, mais claramente, tudo o que é
natural pretende-se perene, portanto o desejo não quer o desejado para que se mantenha
sempre desejando. Daí deduzimos que o desejo é natural e que o objeto desejado deve ser
necessário e inalcançável para que o primeiro exista e mantenha-se eterno.

Mas este puro afeito em mim se dana;


Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da natureza,

assi o pensamento (pola parte


que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)
foi, Senhora, pedir esta baixeza.
O primeiro terceto, iniciado pela adversativa (mas), vem indicar que, embora o eu-lírico saiba
que o desejo, como cousa natural, pretende-se eterno, nele isto não se aplica. É introduzido
um cotejo que será encerrado no último terceto do poema: assim como a grave pedra, a
ciência, o pensamento, a filosofia, deseja o centro da natureza, o pensamento, ou desejo dele,
pediu que ele fosse vê-la porque ele é uma criatura terrestre, humana.
A parte “terrestre [e] humana” à qual a personagem-sujeito se refere está ligada diretamente
à prática, embora tenha demonstrado anteriormente que tem domínio sobre os princípios
teóricos, contemporâneos ao poema, que pregam a procura pela manutenção eterna do que é
natural.

É deste modo que a análise proposta no poema procura distinguir teoria e prática,
diferenciando o pensamento e a ação.

Sob o ponto de vista da teoria, que crê na cousa natural querer perpétuo seu estado, a ação,
que leva o “eu-lírico” à concretização do desejo, vendo a Dama, é caracterizada como
“baixeza”.

É interessante observar que, embora, sob a perspetiva do plano dos princípios o ato de vê-la
seja apontado como baixeza típica do humano, o “eu-lírico” faça questão de assumir a sua
“falha” e demonstrar, no final do poema como aquela teoria não serve de nada ao ser
terrestre e humano.

Desta maneira, fica evidenciado no poema em questão que apesar de coexistirem o carnal e o
espiritual, a estância prática, humana e carnal é privilegiada por Camões, em detrimento da
teórica, sobre-humana e idealizada.

Formalmente o poema “Pede-me o desejo, Dama, que vos veja” de Luís de Camões é um
soneto constituído por duas quadras e dois tercetos em versos decassilábicos.
O texto obedece ao esquema rimático dos sonetos – ABBA//ABBA//CDE//DCE, havendo rima
interpolada em A, emparelhada em B e interpolada em C, D, E.
O tema do soneto é o Amor.
O Amor surge apresentado ao longo do poema de forma contraditória: o amor ideal
(puro/platónico) e o amor físico (erótico/sensual). Estes dois tipos geram um conflito no poeta,
pois este pede, em apóstrofe, à Dama a satisfação do desejo físico: ”Pede-me o desejo, Dama,
que vos veja”, e de imediato clarifica o seu erro e quase pede desculpa: “não entende o que
pede; está enganado”. A personificação do desejo ajuda a que o poeta, de certa forma, se
distancie dele: ”Pede-me o desejo”, pois o amor é “tão fino e tão delgado”, ou seja, é ideal,
puro, e por isso o desejo, que remete para a sensualidade, “está enganado”. Para esclarecer
esta ideia, o sujeito poético utiliza a lógica, afirmando que tudo na natureza deseja perpetuar
o seu estado, não podendo, por isso, o desejo ser nunca satisfeito: “Não há cousa a qual
natural seja/que não queira perpétuo seu estado; /não quer logo o desejo o desejado, /porque
não falte nunca onde sobeja.”.
A segunda parte do poema introduz, de certa forma, o desgosto do poeta, ao verificar que o
seu “puro afeito” “se dana”, pois, sendo um elemento da natureza, tal como a pedra, o sujeito
poético não se liberta do desejo e, à semelhança desta que “tem por arte/o centro desejar da
natureza”, também ele tem desejo, uma “baixeza”, pois reduz o pensamento à sua parte
“terrestre [e] humana”, impedindo assim de ascender ao ideal.

O soneto é estruturalmente cíclico. O primeiro e o último versos repetem-se quase


integralmente: "Pede o desejo, dama, que vos veja", e: "Foi, Senhora, pedir esta baixeza". O
mesmo verbo principal, o mesmo locutor, a mesma alocutária. Muda, porém, o sujeito, muda
o tempo do verbo. No v. 1, é o desejo o agente; no v. 14, é o pensamento, o que agrava a
responsabilidade do amante-sujeito lírico, consciente de que pede e do que pede. O verbo, no
início, está no presente: "Pede [...] que vos veja.", mas um presente que contém em si
embutido um futuro - se pede é porque ainda não a viu, mas possivelmente a verá -; no fim,
está no passado - em que também se embutiria um futuro que não se sabe se se realizou - "foi
pedir". Assim, o soneto pode ser lido indefinidamente, recriando a obsessiva busca da
realização amorosa, que não se efetua, pois, ao tentá-la, o amante a sente e qualifica como
baixeza.

No soneto, como vimos, há um sentimento de culpa excessivo, pois que o máximo do desejo
está - pelo menos no nível do explícito - em ver. Não é isso que encontramos nas supra-citadas
canções. Em ambas o Poeta, ainda que seja por um momento, é arrastado a um desejo mais
forte que o de apenas ver o objeto amado.

Na PRIMEIRA ESTROFE é estabelecida a proposta do poema: o “eu-lírico” afirma que o desejo


pede que ele veja sua dama, mas que (o desejo) está enganado porque a fineza e a pureza do
amor o impedem de saber o que realmente quer. Sabe também que, para não faltar, o desejo
não pode obter o desejado.

O sentimento tão físico de desejar se transforma em platônico e não sendo concretizado é


condição para que o amor seja eterno.

Existe, então, o conflito entre o espiritual e o carnal quando o eu-lírico expõe a sua condição
terrena e humana.
O amor e a referência à mulher são levados para o sentimento platônico, como pode se
observar na primeira estrofe “É este amor tão fino e tão delgado”, porém também existe a
contrariedade da condição humana em “que vai tomar de mim, terrestre [e] humana”,
características que dão força dramática ao poema.

Durante todo o tempo existe o conhecimento do que seja eterno e também a contrariedade
do desejo físico, num questionamento que exprime também a força intelectual do poema.

De início, é bastante puro o desejo expresso de ver, mas a insistência com que aparece este
substantivo e seus cognatos (desejo, deseja, desejo, desejado, desejar) acompanhado de o
verbo pedir (três vezes) cria o tom do desejo obsessivo que arde por transformar "este amor
tão fino e tão delgado" em "baixeza".

Sabe ainda que este puro afeto se contamina do que o amante tem de humano e terrestre,
levando-o a "pedir esta baixeza" que é ainda vê-la, com um ver que perdeu a pureza inicial.

A SEGUNDA ESTROFE vem explicar, por meio dum silogismo, qual é o caráter do desejo: parte
da proposição de que nada natural não quer perpétuo estado, ou, mais claramente, tudo o
que é natural pretende-se perene, portanto o desejo não quer o desejado para que se
mantenha sempre desejando. Daí deduzimos que o desejo é natural e que o objeto desejado
deve ser necessário e inalcançável para que o primeiro exista e mantenha-se eterno.

O PRIMEIRO TERCETO, iniciado pela adversativa, vem indicar que, embora o eu-lírico saiba que
o desejo, como cousa natural, pretende-se eterno, nele isto não se aplica.

É introduzido um cotejo que será encerrado no ÚLTIMO TERCETO do poema: assim como a
grave pedra, a ciência, o pensamento, a filosofia, deseja o centro da natureza, o pensamento,
ou desejo dele, pediu que ele fosse vê-la porque ele é uma criatura terrestre, humana.
Assim, deixa claro no final, que a parte responsável pelo ultraje de galantear a moça é sua
parte humana, vulgar, vil. Daí o adjetivo “baixeza” qualificando o homem em relação a
“senhora”, marcando a superioridade da mulher. Camões de vale do pacto de vassalagem, tão
caro à poesia trovadoresca e ainda mundo agraciado por poetas e leitoras do mundo todo.

A parte “terrestre [e] humana” à qual a personagem-sujeito se refere está ligada diretamente
à prática, embora tenha demonstrado anteriormente que tem domínio sobre os princípios
teóricos, contemporâneos ao poema, que pregam a procura pela manutenção eterna do que é
natural.

É deste modo que a análise proposta no poema procurar distinguir teoria e prática,
diferenciando o pensamento e a ação.
Sob o ponto de vista da teoria, que crê na cousa natural querer perpétuo seu estado, a ação,
que leva o “eu-lírico” à concretização do desejo, vendo a Dama, é caracterizada como
“baixeza”.

É interessante observar que, embora, sob a perspectiva do plano dos princípios o ato de vê-la
seja apontado como baixeza típica do humano, o “eu-lírico” faça questão de assumir sua
“falha” e demonstrar, ao final do poema como aquela teoria não serve de nada ao ser
terrestre e humano.

Desta maneira, fica evidenciado no poema em questão que apesar de coexistirem, o carnal e o
espiritual, a estância prática, humana e carnal é privilegiada por Camões, em detrimento da
teórica, sobre-humana e idealizada.

Duas forças opostas atuam sobre o amante: a lúcida consciência de que o desejo se mata ao
realizar-se - tal como a esperança, o desejo só existe in fieri - e a incapacidade de resistir ao
apelo do amor, que o atrai tão inevitavelmente como o centro da Terra atrai a pedra lançada.

CONCLUSÃO:
O verbo, no início, está no presente: "Pede [...] que vos veja.", mas um presente que contém
em si embutido um futuro - se pede é porque ainda não a viu, mas possivelmente a verá -; no
fim, está no passado - em que também se embutiria um futuro que não se sabe se se realizou -
"foi pedir". Assim, o soneto pode ser lido indefinidamente, recriando a obsessiva busca da
realização amorosa, que não se efetua, pois, ao tentá-la, o amante a sente e qualifica como
baixeza.

O soneto é estruturalmente cíclico. O primeiro e o último versos repetem-se quase


integralmente: "Pede o desejo, dama, que vos veja", e: "Foi, Senhora, pedir esta baixeza". O
mesmo verbo principal, o mesmo locutor, a mesma alocutária. Muda, porém, o sujeito, muda
o tempo do verbo. No v.1, é o desejo o agente; no v. 14, é o pensamento, o que agrava a
responsabilidade do amante-sujeito lírico, consciente de que pede e do que pede.

No soneto, como vimos, há um sentimento de culpa excessivo, pois que o máximo do desejo
está - pelo menos no nível do explícito - em ver. Não é isso que encontramos nas supracitadas
canções. Em ambas o Poeta, ainda que seja por um momento, é arrastado a um desejo mais
forte que o de apenas ver o objeto amado.

O EU-lírico afirma que o Amor está enganado pois ele existe em maior quantidade no desejo. E
assim o poeta traça uma tensão: não conseguiria resistir ao desejo de pedir uma retribuição
amorosa em relação à ideia de amar só em pensamento.