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Salmo 136 - Razões para Ser Grato a Deus

Uma senhora alemã certa vez procurou seu pastor com uma oferta para a igreja, o equivalente
a dez dólares na época, dizendo: “Nos anos anteriores eu tive de gastar com a compra de remédios,
mas neste ano ninguém da minha família ficou doente e não tive de comprar remédio algum, de modo
que quero demonstrar minha gratidão a Deus dessa maneira”. Algum tempo depois, a mesma mulher
veio ao seu pastor com outra oferta explicando que muitos dos seus vizinhos haviam sofrido perdas
em uma recente tempestade, mas que sua fazenda tinha sido completamente poupada. “Eu trouxe essa
doação à igreja como oferta de gratidão”, disse ela ao pastor.

Essa demonstração de gratidão pelos feitos bondosos de Deus é uma dentre várias maneiras
de ser grato. Outras pessoas podem fazer o mesmo se esforçando para desenvolver santidade e
obediência às palavras do Senhor, dedicando tempo à pregação do evangelho, comparecendo aos
cultos de adoração a Deus e trabalhando pela edificação do corpo de Cristo. O escritor do Salmo 136
também encontrou uma maneira de evidenciar sua gratidão a Deus de um modo bastante enfático. O
seu chamado ao povo, no início dos três primeiros versículos, é “rendei graças ao Senhor” (hôdû
layhwh), “rendei graças ao Deus dos deuses” (hôdû le’lohê ha’elohîm) e “rendei graças ao Senhor
dos senhores” (hôdû la’adonê ha’adonîm). O tema e o chamado são exatamente a “gratidão”. E nesse
caso, a gratidão tem uma razão não só específica, mas enfática: “o amor divino”. Algo notável em
todo o salmo é recorrência da frase “pois o seu amor dura para sempre” (kî lê‘ôlam hasdô). Isso ocorre
rigorosamente na parte final de todos os 26 versículos — no v.3 há uma pequena variação na palavra
traduzida como “para sempre” (lê‘ôlam), a qual surge em sua forma defectiva (lê‘olam) que não muda
seu sentido em absolutamente nada. Para destacar o amor do Senhor pelo qual o crente deve ser grato,
o salmista alista cinco evidências desse amor que beneficia a humanidade de um modo geral, mas
principalmente os servos de Deus.

A primeira evidência do amor constante do Senhor é o caráter divino (vv.1-3). O primeiro


chamado à gratidão tem como explicação a declaração (v.1): “Pois ele é bom” (kî-tôv). Há muito
modos de alguém ser bom, mas, no caso de Deus, trata-se tanto de um traço íntimo do seu caráter
como uma virtude ativa que pode ser testemunhada por olhos atentos. Alguém pode ser bom, mas ter
sua atuação bondosa suprimida pela força dos maus ou pela incapacidade pessoal de externar o bem
interior. Esse não é o caso de Deus, visto ser chamado de (v.2) “Deus dos deuses” (le’lohê ha’elohîm)
e de (v.3) “Senhor dos senhores” (la’adonê ha’adonîm). Essa é a garantia de que sua bondade não é
limitada por circunstâncias adversas ou pela oposição dos inimigos. Por isso, ao ser bondoso para
com seus servos, seu amor é retribuído com gratidão e louvor conforme expressos nesse cântico. Ao
que tudo indica, principalmente pela ênfase na gratidão e pelo tom exultante do salmo, o povo de
Israel havia testemunhado recentemente o amor bondoso de Deus em sua vida.

A segunda evidência é a obra maravilhosa de Deus (vv.4-9). O segundo chamado à gratidão


é direcionado (v.4) “àquele que faz grandes maravilhas por si mesmo” (le‘oseh nifla’ôt gedolôt
levaddô). O termo “maravilhas”, que expressa as ações poderosas de Deus, normalmente surge em
conexão com uma das duas maiores demonstrações do seu poder: a criação ou a libertação de Israel
da escravidão no Egito. Nesse caso, apesar de o êxodo ser um assunto tratado pelo salmista (vv.10-
15), a conexão primária se dá com a obra da criação (vv.5-9). Tal obra não dependeu de mais ninguém
além de Deus e tudo o que ele criou, o fez “por si mesmo”, ou seja, com seus próprios recursos. Tais
recursos envolvem seu maravilhoso conhecimento, pelo que o louvor se dirige (v.5) “àquele que fez
os céus com entendimento” (le‘oseh hashamayim bitvûnâ). A capacidade divina de criar com uma
habilidade magistral se deve ao fato que seu conhecimento é ilimitado. Até aqui fica claro que a
criação envolveu o poder e o conhecimento de Deus. Mas quando se percebe que, podendo fazer tudo
da maneira que quisesse, ele escolheu fazê-lo de um modo benéfico para o homem, como separar a
terra onde o homem habitaria (v.6) e criar os astros para nos servirem de luz, de guias e de promotores
de estações climáticas (vv.7-9), então seu amor fica bastante evidente e convida seus servos à
gratidão.
A terceira evidência do amor de Deus é a libertação recebida (vv.10-15). O assunto desse
parágrafo é o êxodo, de modo que o louvor agora se dirige (v.10) “àquele que desferiu golpes no
Egito, em seus primogênitos” (lemakkeh mitsrayim bivkôrêhem). Essa menção da décima praga age
tanto como resumo de todas as dez, como na qualidade do golpe mais duro dado à sociedade egípcia
da época. Porém, a ênfase não está sobre a justiça de Deus contra o Egito, mas sobre o amor de Deus
por Israel revelado na forma da libertação do povo (v.11): “E fez Israel sair do meio deles” (wayyôtse’
yisra’el mittôkam). Para mostrar seu amor pelo povo que escolheu, o Senhor não poupou nenhuma
atuação poderosa que fosse necessária (v.12). Por isso, quando o povo se viu entre o mar e os
perseguidores, Deus fez o que jamais se ouvira dizer, pelo que o povo rendeu louvor (v.13) “àquele
que dividiu o Mar Vermelho em [duas] partes” (legozer yam-sûf ligzarîm). Tendo feito Israel passar
no meio do mar em seco (v.14), Deus finalizou sua libertação afundando todo o poderio militar
inimigo (v.15): “Mas lançou o Faraó e seu exército no Mar Vermelho” (weni‘er par‘oh wehêlô
beyam-sûf). O povo de Israel jamais se esqueceu dessa demonstração amorosa, razão pela qual Deus
passou a ser conhecido como “Senhor, vosso Deus, que vos tirou da terra do Egito” (Dt 13.5).

A quarta evidência é a proteção constante (vv.16-20). A viagem no deserto durou quarenta


anos por causa da incredulidade e rebeldia do povo, apesar de ter testemunhado o grande poder de
Deus no êxodo. Ainda assim, o Senhor não deixou que eles perecessem por completo no deserto. Em
lugar disso, sua atuação amorosa fez com que a gratidão do povo fosse rendida (v.16) “àquele que
conduziu seu povo pelo deserto” (lemôlîk ‘ammô bammidbar). A ação de Deus de conduzir Israel foi
bem mais que apontar o rumo certo, como se fosse uma espécie de mapa ou de bússola. A ideia
presente é a de fazê-los chegar ao destino e de, no caminho, lhes sustentar com o que fosse necessário.
Por isso, além de lhes apontar o rumo a seguir (Ex 13.21,22), o Senhor lhes forneceu diariamente o
alimento que, em meio ao deserto, caia do céu na forma de maná (Dt 8.16). Não somente isso, mas
também lhes deu água mesmo onde não haviam mananciais visíveis ou acessíveis, e o fez
miraculosamente (Ne 9.15,20). Se eles foram protegidos dos perigos diários de fome e sede, Deus
também lhes protegeu de inimigos pontuais aterrorizantes como exércitos inimigos liderados por reis
que não lhes foram favoráveis, abatendo, com isso, (v.19) “a Seom, rei dos amorreus” (lesîhôn melek
ha’emorî) e também (v.20) “a Ogue, rei de Basã” (ûle‘ôg melek havvashan). A conta final é que, em
meio a muitas ações protetoras como essas, Deus agiu amorosamente em benefício de Israel (v.18)
“e matou poderosos reis” (wayyaharog melakîm ’addîrîm).

A última evidência do amor do Senhor é a misericórdia imerecida (vv.21-26). A dureza de


Israel no deserto lhe rendou a alcunha de “povo de dura cerviz” (Êx 32.9; 33.3; 34.9; Dt 9.6,13), ou
seja, um povo cuja rebeldia e orgulho lhe impedia que dobrar seu pescoço diante de Deus em
humildade e sujeição. Apesar de merecerem castigo e rejeição por isso, o Senhor tomou os reinos que
abateu diante de Israel (vv.21,22) “e deu suas terras por herança” (wenatan ’artsam lenahalâ),
“herança para Israel, seu servo” (nahalâ leyisra’el ‘avdô). Ao falar da herança da terra de Canaã, o
salmista adentra seu pensamento nos dias da conquista e dos juízes de Israel. Novamente por causa
de pecado, os israelitas foram acossados por inimigos, seis povos daquela região — arameus,
moabitas, filisteus, cananeus, midianitas e amonitas. Em meio aos juízos, o povo se arrependeu e
clamou a Deus, o qual não tinha obrigação de lhes perdoar, nem de lhes socorrer. Mas devido à
fidelidade plena de misericórdia, o Senhor os acudiu e o povo se tornou muito grato àquele (v.23)
“que, no nosso abatimento, se lembrou de nós” (shevveshiflenû zakar lanû), conforme declarou o
salmista. “Lembrar-se” do povo não significa que tivesse se esquecido deles, mas que lhes atendeu
as orações e lhes socorreu. Assim, o Senhor foi misericordioso (v.24) “e nos livrou nossos inimigos”
(wayyifreqenû mitsarênû). Se a misericórdia de Deus, como evidência do seu amor, foi vista na
proteção, também o foi na provisão (v.25): “Ele concede pão à toda carne” (noten lehem lekol-basar).
Deus realmente é o responsável pela manutenção de toda vida na Terra, mas o salmista se sente ainda
mais grato ao saber que ele e seu povo são alvos desse trato. Assim, o salmo encerra com o chamado
inicial (v.26): “Rendei graças ao Deus dos céus” (hôdû le’el hashamayim).
Que nós demonstremos a mesma gratidão pelas mesmas razões: as demonstrações do amor
divino por nós ao agir do nos salvando, sustentando, conduzindo, provendo e abençoando, apesar de
nada merecermos! E que, devido a tal gratidão, nossa demonstração também seja vista e honre ao
Deus digno de toda adoração e gratidão!