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Obras publicadas na Coleccão «Grandes Clássicos do Teatro»: MOLIERE


I - O Leque de Lady windermere. Oscar Wilde
2 - Frei Luís de Sousa. Alrneida Garreu
3 - Castro. Antônio Ferreira
4 - Hamlet. William Shakespeare
5 - Três lrmãs, Anron Tchekov
6 - O Mercador de vene:a. William Shakespeare
7 - DOIII João. Moliere
8 - Casa da Boneca. Henrik Ibsen
9 - O AFareI/TO. Moliere

o AVARENTO

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA
Título original: L' A vare

Tradução de Maria Benedita Basto


Tradução portuguesa © de P. E. A.

Capa: estúdios P. E. A.

Direitos reservados por


Publicações Europa-América, Lda. NOTAINTRODUTÓRIA
Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida
ou transmitida na presente forma ou por qualquer pro-
cesso, electrónico, mecânico ou fotográfico, incluindo
fotocópia, xerocópia ou gravação, sem autorização pré- Moliere, cujo verdadeiro nome era Jean-Baptiste
via e escrita do editor. Exceptua-se naturalmente a
transcrição de pequenos textos ou passagens para apre- Poquelin, nasceu em Paris, em 1622 . Escrevendo, quer

.
sentação ou crítica do livro. Esta excepção não deve d~
modo nenhum ser interpretada como sendo extensiva a
~. .'
transcrição de textos em recolhas antológicas ou sirm-
em verso, quer em prosa, desde a farsa até à comédia de
costumes, passando pela comédia musical .Moliere deixou
lares donde resulte prejuízo para o interesse pela obra.
Os transgressores são passíveis de procedimento judicial
uma obra tão rica quanto diversa que continua a ser
representada em todo o mundo.
Filho primogénito de uma abastada família burguesa,
Moliere fez os primeiros estudos no Colégiode Clermont,
dirigido por jesuítas. Continuou depois os estudos em
Orleães onde obteve a licenciatura em Direito. Segundo
Editor: Francisco Lyon de Castro
parece, terá então pensado em seguir a advocacia, mas a
PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA, LDA.
literatura, a filosofiae principalmente oteatro atraíam-no
Apartado 8
2726-901 MEM MARTINS mais. O estudo do grego e do latim permitiu-lhe conhecer
PORTUGAL
europa.america@mail.telepac.pt os grandes pensadores e autores clássicos, sua fonte de
inspiração.
Edição n.": 153409/7132
Fevereiro de 1999 No entanto, esta atracção pela vida artística não
agradava ao pai, que, desejando afastar ofilho do meio do
Execução técnica:
Gráfica Europam, Lda., teatro, lhe cede ocargo que ocupava na corte, de camareiro
Mira-Sintra - Mem Martins
do rei, cujos direitos de transmissão já tinha reservado
para o filho.

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Moliere o Avarento

Não foiduradoura a permanência de Moliere na corte. como o conforto, o dinheiro, a saúde e o amor, pouco
Logo que atingiu a maioridade, libertou-se da tutela haveria a dizer se a avareza do pai não arrastasse os
paterna para se dedicar completamente ao teatro. outros membros da famílias para situações difíceis.
O ano de 1643marca oinícioda actividade artística de Harpagão organiza para os filhos, Cleanto e Elisa
Moliere, quando decide fundar, com os irmãos Béjart e casamentos de interesse. Para si reserva-se o direito de
mais cincoamigos, um grupo teatral a que deram o nome escolher a jovem e encantadora Mariana.
de Ilustre Teatro. A este seguem-se outros grupos, todos Mas Cleanto, que está apaixonado pelajovem, e Elisa,
eles sem sucesso, até que, em 1658, Moliere se fixa em secretamente comprometida com Valério, recusam
Paris, sob a protecção do rei Luís XIV que instala a obedecer ao pai. O tesouro do avarento, roubado e
companhia numa dependência do Louvre, a sala do posteriormente devolvido ao seu proprietário, permitirá
Petit-Bourbon. Lutando contra intrigas e difamações, exercer uma chantagem graças à qual o amor sairá
Moliere conhece então o triunfo. vencedor.
«Escola de Mulheres», «Tartufo», «Dom João», «O
Misantropo», «Médico À Força», «O Avarento» e «As
Sabichonas» são testemunho evidente de quanto o teatro
lhe ficou a dever.
Moliere sucumbe aos 51 anos, em pleno período de
consagração. Adoece repentinamente durante uma
representação de «ODoente Imaginário» e vem a falecer
poucas horas depois.

o Avarento

Nesta peça Moliere leva-nos a casa de Harpagão, um


rico burguês parisiense. Desta família, aparentemente
vulgar, em que as pessoas têm as preocupações comuns

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L
NOTA DA TRADUTORA

Esta tradução responde a um convite do Teatro do


Noroeste na pessoa do seu director.
Encenar os clássicos é sempre um desafio. Traduzi -los,
também.
Moliêre e eu agradecemos ao José Martins.
PERSONAGENS

HARPAGÃO - Pai de Cleanto e de Elisa, pretendente de


Mariana.
CLEANTO - Filho de Harpagão e amante de Mariana.
ELISA - Filha de Harpagão e amante de Valério.
VALÉRIO - Filho de Anselmo e amante de Elisa.
MARIANA - Filha de Anselmo e amante de Cleanto.
Pretendida por Harpagão.
ANSELMO - Pai de Valério e Mariana.
EUFROSINA - Alcoviteira.
MESTRE SIMÃO - Corretor.
MESTRE TIAGO - Cozinheiro e cocheiro de Harpagão.
O FARPAS* - Criado de Cleanto.
SENHORA CLÁUDIA - Criada de Harpagão.
O PALHA D'AVEIA E O CARAS DE BACALHAU* - Lacaios
de Harpagão.
COMISSÁRIO E ESCRIVÃO.

A cena passa-se em Paris.

*NooriginaILaFleche,BrindavoineeLaMerluche.Moliereatribui
estes nomes como quem veste as personagens. Eles falam, de uma
forma imediata, dos seus perfis,juntando ainda uma nota de humor.
Na adaptação para português pretendi ser fiel a esse jogo traindo o
menos possível quer o original quer as possibilidades da língua
portuguesa.
o Avarento

ACTOI a ira de meu pai, a repreensão da família, a censura


do mundo, e mais do que tudo, Valério, a mudança
do vosso coração e essa frieza criminosa com a qual
os do vosso sexo pagam, na maior parte das vezes, os
testemunhos demasiado ardentes de um inocente
amor.
VALÉRIO- Oh! Não me façais essa injustiça de mejulgar
CENA I pelos outros. Achai-me capaz de tudo menos de
faltar ao que vos devo; amo-vos demais para o fazer
VALÉRIO, ELISA e o meu amor por vós durará tanto quanto a minha
vida.
ELISA - Ah! Valério, todos dizem o mesmo. Todos os
VALÉRIO- Então! encantadora Elisa, estais a ficar homens se assemelham pelas palavras, só as acções
melancólica, depois das promessas de amor que os diferenciam.
tivestes a bondade de me fazer? Vejo-vos suspirar, VALÉRIO- Uma vez que só as acções permitem conhecer
ai, no meio da minha alegria! Será arrependimento, quem realmente somos, tomai o cuidado de por elas
dizei-me, de me terdes feito feliz ou pesa-vos esse julgar o meu coração e não procureis encontrar de
compromisso para o qual o meu ardente amor vos que me acusar nos injustos temores de uma incómoda
empurrou? premonição. Não me assassineis, peço-vos, com os
ELISA- Não, Valério, não posso arrepender-me do que dolorosos golpes de uma ultrajante suspeita e dai-me
faço por vós. Sinto-me arrastada por um doce poder tempo de vos convencer, através de mil e uma
e nem mesmo teria força para desejar que as coisas provas, da sinceridade deste meu amor ardente.
assim não tivessem acontecido. Mas para vos dizer ELISA- Ai! Com que facilidade nos deixamos persuadir
a verdade, inquieta-me o que possa vir a passar-se por aqueles que amamos. Sim, Valério, tenho o
e receio muito amar-vos um pouco mais do que vosso coração comoincapaz de me enganar. Acredi to
devia. que me amais de um amor verdadeiro e que me
VALÉRIO - Mas que haveis de recear, Elisa, dos sereis fiel; não, não quero duvidar de vós, e limitarei
sentimentos que docemente me dedicais? este meu mal-estar ao receio da reprovação que
ELISA- Ai valha-me Deus! Mil coisas ao mesmo tempo: poderei ter de enfrentar.

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Moliêre o Avarento

VALÉRIO- Mas porquê esse desassossego? filhos poderiam autorizar-vos coisas muito mais
ELISA- Nada teria a temer se toda a gente vos visse com estranhas. Perdoai-me, encantadora Elisa, se assim
os mesmos olhos que eu, e no vosso modo de ser falo diante de vós: sabeis que sobre este assunto não
encontro a razão das coisas que por vós faço. O meu podemos dizer bem. Mas enfim, se eu puder, como
coração, em sua defesa, reconhece todo o vosso espero, encontrar a minha família, não teremos
mérito, auxiliado por uma gratidão com a qual o céu grandes dificuldades em torná-Ia favorável. Espero
me compromete convosco. Revivo constantemente impacientemente notícias deles, e se elas tardarem
I
esse espantoso perigo que nos ofereceu aos olhares a chegar, irei eu mesmo procurá-Ias.
I
um do outro, essa surpreendente generosidade que ELISA - Oh! Valério, não vos vades embora daqui,
vos fez arriscar a vossa vida para salvar a minha do peço-vos; e pensai apenas em vos adaptardes ao
furor das ondas, esses cuidados, cheios de ternura carácter de meu pai.
com que me rodeastes depois de me terdes tirado da VALÉRIO- Bem vedes quanto por isso me esforço e
água e as constantes provas desse ardente amor, quantas astutas complacências foi preciso pôr em
que nem otempo nem as dificuldades enfraqueceram prática para me introduzir ao seu serviço, sob que
e que, fazendo-vos negligenciar tanto a família como máscara de simpatia me disfarço para lhe agradar
a pátria, vos prende nestes lugares, vos obriga por e que personagem represento todos os dias para
minha causa a disfarçar a vossa condição social e vos conseguir o seu afecto. Tenho feito consideráveis
reduziu, para me poderdes ver, a este oficio de progressos e vou-me dando conta de que para ganhar
secretário de meu pai. Tudo isto produz em mim um os homens, não há melhor caminho que o de, diante
profundo efeito e é a meus olhos o bastante para deles, fazer reverência às suas inclinações, adoptar
justificar o compromisso em que pude consentir. as suas máximas, esconder os seus defeitos e aplaudir
Mas talvez não baste para ojustificar aos olhos dos o que fazem. Não vale a pena ter medo de exagerar
outros e não estou certa de que compreendam os na complacência e no modo como gozamos com eles,
meus sentimentos. pois mesmo os mais finos são sempre cegos quando
VALÉRIO- Tudo o que dissestes justifica-se pelo amor se trata de lisonja e não há nada, por mais
que junto de vós pretendo merecer; e quanto aos impertinente e ridículo que pareça, que não se lhes
vossos escrúpulos, as atitudes do vosso pai bastam consiga fazer engolir, desde que bem temperado
para vos justificar diante de todos: a sua excessiva com louvores. A sinceridade sofre um pouco com este
avareza, a maneira austera como age perante os meu trabalho, mas quando precisamos dos homens,
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1S
Moliêre

temos de nos ajustar a eles e como não conseguimos


I
"
conquistá-los senão assim, a culpa não é dos que
lisonjeiam mas dos que querem ser lisonjeados.
ELISA - Mas porque não tentais também ganhar o apoio
de meu irmão para o caso da criada vir a revelar o
nosso segredo?
VALÉRIO - Não podemos manobrar um e outro; os feitios CENA II
do pai e do filho são tão opostos que se torna dificil
conciliar estas duas confianças. Mas vós, pela vossa CLEANTO, ELISA
parte, agijuntodevosso irmão e servi-vos da amizade
que há entre vós para o atrair para o nosso lado. É
ele que chega. Retiro-me. Aproveitai este momento CLEANTO - Quanto me alegra encontrar-vos sozinha,
para lhe falar, mas não lhe reveleis senão o que minha irmã! Ardia em desejos de vos falar, para me
achardes conveniente. abrir convosco e vos confiar um segredo.
ELISA - Não sei se terei coragem de lhe fazer esta ELISA - Aqui me tendes pronta para vos ouvir, meu
confidência. irmão. Que tendes para me dizer?
CLEANTO - Muitas coisas, minha irmã, contidas numa
só palavra: amo.
ELISA - Amais?
CLEANTO - Sim, amo. Mas antes de ir mais longe, sei que
dependo de um pai e que o nome de filho me submete
às suas vontades; que não devemos comprometer a
nossa palavra sem o consentimento daqueles que
nos deram o ser; que os céus os fez senhores dos
nossos desejos e que é nosso dever dispor deles
somente sob os seus conselhos; que, não estando sob
a influência de nenhum louco amor, estão menos
sujeitos a errar do que nós e a ver m uito melhor o que
nos convém; que é melhor acreditar na luz da sua

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Moliere
o Avarento

prudência que na cegueira da nossa paixão, e que o enleado assim que a vi. Chama-se Mariana e vive
arrebatamento dajuventude nos arrasta, na maior sob a tutela de uma velha mãe, quase sempre doente
parte das vezes, para deploráveis abismos. Digo-vos e por quem esta adorável filha nutre um invulgar
tudo isto, minha irmã, para que não vos deis ao sentimento de amizade. Trata-a, acarinha-a, la-
trabalho de mo dizer, porque, enfim, o meu amor menta-a, consola-a com uma ternura comovente.
nada quer ouvir e peço-vos, por isso, que me não Tudo o que faz se envolve de um grande encanto e
tenteis repreender. vemos brilhar mil graciosidades em todas as suas
ELISA- E estais comprometido, meu irmão, com aquela acções:uma doçura cheia de atractivos, uma bondade
que amais? cativante, um adorável pudor, uma ... Oh, minha
CLEANTO - Não, mas estou decidido a fazê-lo , e rogo-vos, irmã, só queria que a tivésseis visto.
de novo, que me não mostreis razões que me ELISA- Já vejo bastante nas palavras que me dizeis e
dissuadam. para compreender o que ela é, basta-me saber que a
ELISA- Serei eu, meu irmão, uma tão estranha pessoa? amais.
CLEANTO- Não, irmã; mas vós não amais, ignorais a CLEANTO- Descobri, em segredo, que não vivem na
doce violência que um terno amor exerce sobre os abundância e que a sua prudente forma de viver não
nossos corações, e temo o vosso bom senso. consegue, contudo, estender a todas as suas
ELISA- Ai, meu irmão! Não falemos da minha sensatez. necessidades os bens de que dispõem. Imaginais,
Não há ninguém a quem ela não falte pelo menos minha irmã, a alegria de poder modificar a situação
uma vez na vida; e se eu vos abrisse o meu coração, da pessoa que amamos, de poder contribuir com
tornar-me-ia talvez, a vossos olhos, bem menos alguma ajuda às modestas necessidades de uma
sensata do que vós. virtuosa família, e concebei o meu desgosto ao ver
CLEANTO - Ah! provera aos céus que a vossa alma, como como por causa da avareza de um pai possa estar
a minha ... impossibilitado de saborear essa alegria e de dar à
ELISA- Terminemos primeiro a vossa história, e dizei-me minha amada uma prova de amor.
quem é aquela que amais. ELISA- Concebo demais, meu irmão, como deve ser
CLEANTO- Uma jovem que mora desde há pouco na grande o vosso desgosto.
vizinhança e que parece ter nascido para despertar CLEANTO - Ah, minha irmã, é maior do que imaginar se
o amor em quantos a vêem. Nunca a natureza , possa: porque afinal, haverá algo de mais cruel que
minha irmã, criou nada de tão doce, e senti-me esta severa poupança exercida sobre nós, esta

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Moliere

incompreensível penúria em que padecemos? De


"
I
que nos serve ter riquezas se elas só nos pertencerem
quando já não estivermos em idade de as gozar, se
para me manter tenho de me endividar e se, tal como
vós, me vejo reduzido a recorrer diariamente ao
crédito dos comerciantes para me vestir convenien-
temente? Enfim, quis falar convosco para que me CENAIII
ajudeis a sondar o pai sobre os meus actuais sen-
timen tos; e se ele se opuser ,j á resolvi partir com esse HARPAGÃO, ° FARPAS
delicado ser para um outro lugar, gozar a ventura
que nos queira oferecer o céu. Mandei procurar por
todo olado um empréstimo para realizar esse desejo; HARPAGÃO- Fora daqui imediatamente e nada de
e se osvossos problemas, minha irmã, se assemelham resmungar. Vá, pró olho da rua, grandessíssimo
aos meus, e se o nosso pai se opuser aos nossos ladrão-chefe', carne criminosa, boa prà forca!
desejos, abandoná -lo-emos evenceremos essa tirania O FARPAS,aparte - Nunca vi ninguém tão malvado como
em que nos mantém, há tanto tempo, a sua este maldito velho e creio, com o devido respeito, que
insuportável avareza. tem o diabo no corpo.
ELISA- É bem certo que em cada dia que passa ele nos HARPAGÃO- Estás a resmungar?
dá mais motivos para lamentarmos a morte de O FARPAS- Porque me escorraçais?
nossa mãe e que ... HARPAGÃO - Só mesmo tu, patife!. .. Pedir-me
CLEANTO- Oiço a sua voz. Afastemo-nos um pouco para esclarecimentos! Sai rápido antes que te bata.
terminar estas nossas confidências e depois, uni- O FARPAS- O que é que eu vos fiz?
remos as nossas forças para atacar a dureza do seu HARPAGÃO- Fizeste-me que eu quero que saias.
carácter. O FARPAS- Meu patrão, o vosso filho deu-me ordem de
o esperar.

I No original maitre-juré-filou. Jogo irónico que parte de uma


analogia com a passagem a mestre dentro de uma corporação por
obra realizada. Entre os melhores mestres recrutam-se então os
jurados, o mais alto grau dentro da profissão.

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Moliere
o Avarento
HARPAGÃO- Pois vai esperá-lo na rua e não me fiques
HARPAGÃO- Vem cá, quero ver. Mostra as mãos.
mais aqui em casa, especado como uma estaca, a
O FARPAS - Aqui estão.
observar o que se passa para teu provei to. Não quero
HARPAGÃO- As outras.
ter constantemente diante de mim um espião dos
O FARPAS - As outras?
meus negócios, um traidor, cujos malditos olhos
HARPAGÃO- Sim.
assediem tudo o que faço, devorem o que possuo e
O FARPAS -Aqui estão.
vasculhem por todo o lado para ver se não há nada
HARPAGÃO- (Apontando para os calções) Não meteste
para roubar.
nada aqui dentro?
O FARPAS - Como diabo quereis vós que vos roubem?
O FARPAS - Procure o senhor.
Acaso sereis um homem roubável, vós, que fechais
HARPAGÃO - (Apalpando-lhe os calções) Estes calções,
tudo e ficais de sentinela noite e dia?
assim grandes, são mesmo apropriados para serem
HARPAGÃO- Fecho o que me apetece fechar e vigio como
os receptores das coisas roubadas ... Bem gostaria,
me agrada Não andam por aí espiões, que tomam
que à conta disso, mandassem pendurar uns ...
nota de tudo o que faço? (Aparte) Tremo só de pensar
O FARPAS - Ah! Como um homem destes merecia o que
que ele desconfie do meu dinheiro. (Alto) Não serias
receia e que prazer não teria eu em roubá-Ia!
tu homem para fazer correr o boato que eu escondo
HARPAGÃO- Hâ?'
dinheiro em minha casa?
O FARPAS - O quê?
O FARPAS - Tendes dinheiro escondido?
HARPAGÃO- O que estás tu a dizer de roubar?
HARpAGÃO-Não, meu malandro! Não disse isso! (Aparte)
O FARPAS - Estou a dizer que procureis muito bem para
Enraiveço. (Alto) Só pergunto se, maliciosamente,
ver se eu vos roubei.
não irás espalhar por aí que o tenho.
HARPAGÃO- E é o que eu quero fazer. (Procura nos bolsos
O FARPAS - Rem? E que nos importa a nós se o tendes
do Farpas)
ou não, se para nós é o mesmo?
FARPAS, aparte - A peste à avareza e aos avarentosf
HARPAGÃO - Está a armar em esperto. Eu já te dou a
HARPAGÃO - O quê, o que estás pràí a dizer?
esperteza pelas orelhas abaixo. (Levanta a mão para
lhe dar uma bofetada) Rua! Já disse!
O FARPAS - Está bem, eu saio.
HARPAGÃO- Espera. Não levas nada? 2 No original, auaricieux. Trata-se de ~ma versão pop~lar da

O FARPAS - Que vos levaria eu? palavraauare estabelecendo assim um duplcjogo de desentendimen to,
impossível de reconstruir em língua portuguesa.
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Moliêre o Avarento

o FARPAS - O que eu estou a dizer? HARPAGÃO - Calas-te?


HARPAGÃO- Sim, o que é que estás a dizer da avareza O FARPAS - Que remédio!. ..
e dos avarentos? HARPAGÃO - Ah! Ah!
O FARPAS - Estou a dizer que a peste leve a avareza e os O FARPAS, mostrando-lhe um dos bolsos do colete - Vede,
avarentos. ainda aqui há um bolso. Estais satisfeito?
HARPAGÃO- De quem estás a falar? HARPAGÃO - Vá, dá-mo cá sem que te reviste.
O FARPAS - Dos avarentos. O FARPAS - O quê?
HARPAGÃO- E quem são esses avarentos? HARPAGÃO - O que me tiraste.
O FARPAS - Vilões e leprosos O FARPAS - Mas eu não vos tirei nada.
HARPAGÃO- Mas a quem te queres referir? HARPAGÃO - De certeza?
O FARPAS - E em que é que isso o incomoda? O FARPAS - Certeza, certezinha.
HARPAGÃO - Incomodo-me com o que tenho de me HARPAGÃO - Adeus, vai pró diabo
incomodar. O FARPAS - Fui bem aviado.
O FARPAS - Achais que pretendo falar de vós? HARPAGÃO- Entrego o caso à tua consciência. Aqui está
HARPAGÃO- Acho o que acho. Mas quero que me digas um malandro de um criado que me irrita que eu sei
com quem falas quando dizes isso. lá e não me agrada nada ver por cá um desgraçado
FARPAS - Falo ... Falo com os meus betões." de um cão manco como ele."
HARPAGÃO- Eu podia era abotoar-te com estas duas ...
O FARPAS - Quereis impedir-me de amaldiçoar os
avarentos?
HARPAGÃO- Não, mas impeço-te de dar à língua e de ser
insolente. Cala-te.
O FARPAS - Eu não disse o nome de ninguém.
HARPAGÃO- Se me dizes mais alguma coisa, desanco-te.
O FARPAS -A quem servir a carapuça ...

4 O actor que representava oFarpas era Luis Béjart, que coxeava.


Moliere atribui à personagem uma característica do actor, misturando
3 N~ original [...] Je parle à mon bonnet / Et moi, je pourrais bien
assim, sobre o palco, a vida e a ficção. Não se trata de um acontecimento
parler a ta barrette. A resposta de Harpagão obedece à necessidade
isolado mas de um traço do seu estilo, ou melhor, do modo como
de respeitar o trocadilho entre estas duas falas, a partir da expressão
portuguesa falar com os seus botões. Moliere pensa e constrói a sua arte, que é sempre também a sua vida.

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24
o Avarento

Dez mil moedas em nossa casa é uma soma bastante ...


(Entram os irmãos que conversam em voz baixa) Oh
céus! Acabo de me trair. Deixei-me levar por um
caloroso entusiasmo e raciocinei em voz alta. Que é?
CLEANTO - Nada, meu pai.
HARPAGÃO - Já aí estais há muito tempo?
CENA IV ELISA - Acabámos de chegar.
HARPAGÃO - Ouvistes ...
HARPAGÃO, ELISA, CLEANTO CLEANTO - O quê, meu pai?
HARPAGÃO - Vá ...
ELISA - O quê?
HARPAGÃO- É que isto de guardar em casa uma grande HARPAGÃO - O que eu estava a dizer.
quantia de dinheiro dá uma trabalheira ... e feliz CLEANTO - Não.
daquele que tem todos os seus haveres bem colocados HARPAGÃO - Ai ouviram, ouviram.
e só conserva consigo o que precisa para as suas ELISA - Peço-vos desculpa.
despesas. É que nos atrapalha, ter de descobrir em HARPAGÃO- Bem vejo que escutastes algumas palavras.
casa um esconderijo seguro: sim, porque para mim É que falava comigo mesmo sobre a dificuldade que
os cofres-fortes são suspeitos, não me fio neles. há hoje em arranjar dinheiro e, dizia eu, muito feliz
Acho-os precisamente uma boa isca para ladrões e é aquele que pode ter em casa dez mil escudos de
é sempre a primeira coisa que atacam. No entanto, ouro ....
não sei se fiz bem em ter enterrado no meujardim, CLEANTO - Hesitávamos em nos aproximar, com receio
dez mil escudos de ouro que me en tregaram ontem." de vos interromper.
HARPAGÃO - Ainda bem que vos posso dizer isto, não
fosseis vós tomar as coisas ao contrário, e imaginar
5 No original dix mil écus. Representam uma grande quantia de que era eu quem tinha os dez mil escudos de ouro.
dinheiro. Oécu de Luis XIV aqui referido era uma moedaem ouroque
pesava cerca de 1,8 g e valia três libras. Harpagão teria, portanto, CLEANTO - Não nos metemos nos vossos negócios.
trinta mil libras ou 18 kg em ouro dentro da sua caixa. Na tradução HARPAGÃO - Provera a Deus que eu os tivesse, dez mil
para língua portuguesa optei por referir sempre de ouro, em ouro ou
moeda de ouro, uma vez que a moeda portuguesa actual é o escudo escudos de ouro!
e a quantia referida não possibilitava a compreensão da enorme
fortuna que Harpagão tinha enterrado no jardim. CLEANTO - Não creio.

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Moliere o Avarento

HARPAGÃO- Seria um rico negócio para mim. Só peço vingança aos céus; e a mirar-vos dos pés à
ELISA- São coisas ... cabeça há aí que chegue para uma boa renda. Já vos
HARPAGÃO- Vinham mesmo a calhar. disse mais de vinte vezes, meu filho, que os vossos
CLEANTO- Penso que ... modos não me agradam nada: dais-vos ares de
HARPAGÃO- Vinham-me facilitar a vida. marquês e para andar vestido assim, tendes de me
ELISA- Sois ... roubar.
CLEANTO- Eu, roubar-vos? Como?
HARPAGÃO- E já não me queixava, como ando sempre
HARPAGÃO- Sei lá como! Eu cá sei? Onde é que podeis
a fazê-Io, de que os tempos vão maus.
ir buscar com que vos vestirdes desse modo?
CLEANTO- Meu Deus, meu pai, não tendes razão de
CLEANTO- Eu, meu pai? É que eu jogo e como tenho
queixa, todos sabemos que tendes bastante fortuna.
muita sorte, visto-me com o dinheiro que ganho.
HARPAGÃO-O quê? Bastante fortuna? Os que odisseram
HARPAGÃO- Pois fazes muito mal. Se sois feliz ao jogo,
men tiram. Não há nada de mais falso, os malandros
deveríeis aproveitar e pôr a render o dinheiro de
é que fazem correr esses boatos todos.
modo a que mais tarde vos pudesse vir a servir. Bem
CLEANTO- Não vos encolerizais.
gostaria de saber, isto para já não falar do resto,
HARPAGÃO- É estranho que os meus próprios filhos me para que servem todos esses laçarotes com que
traiam e se tornem meus inimigos. andais atado da cabeça aos pés e se uma meia dúzia
CLEANTO- É ser-se seu inimigo dizer-se que sois rico? de cordões não chegaria bem para segurar os calções.
HARPAGÃO - Sim. Frases dessas e as despesas que fazeis Para quê gastar dinheiro em perucas quando se
serão a causa de um destes dias me virem cortar o pode usar o próprio cabelo, que é de graça? Quero
pescoço, pensando que me forrei com o dinheiro". apostar que em perucas e fitas trazes aí pelo menos
CLEANTO- Quais são as grandes despesas que eu faço? vinte dobrões? ; ora vinte dobrões rendem ao ano,
HARPAGÃO- Quais? Há lá coisa mais escandalosa que mesmo a umjuro baixo de oito e meio por cento", de-
esse sumptuoso fato que passeais pela cidade? Ainda zoito libras, seis soldos e oito dinheiros.
ontem discuti com a vossa irmã; mas ainda foi pior.

7 No original,pistoles. Equivale ao dobrão castelhano e português,

GNooriginal,quejesuistoutcousudepistoles.Naépocaerahabitual o que justificou esta opção. Cf. nota anterior s.f.f. .


8 A tradução literal seria um dinheiro por doze. O Juro ~egal da
coser o dinheiro ao forro do casaco. Pistoles era uma moeda de ouro
que valia dez libras. Optei por trad uzir por dinheiro, uma vez qu~ a época (Édito de 1665) era de um por vinte, o que equivale a cmco P?r
palavra pistola poderia dificultara compreensão da frase de Harpagao. cento em linguagem actualizada. Note-se por lS~Oa lrO~l1ausurana
Cf. também acto V, I. de Harpagão. Na tradução optei pelo segundo tipo de linguagem.

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o Avarento
Moliere

HARPAGÃO-A sua fisionomia?


CLEANTO- Tendes razão.
CLEANTO- Pura e cheia de graciosidade.
HARPAGÃO- Mas deixemos isso e falemos de um outro
HARPAGÃO- O seu ar e os seus modos?
assunto. Hã?! (Baixo, aparte) Parece que fazem sinais
CLEANTO- Admiráveis, sem hesitação.
um ao outro para me roubarem a bolsa. (Alto) O que
querem dizer esses gestos? HARPAGÃO- Não vos parece que uma moça aSSIm
ELISA - Estamos a tentar decidir qual de nós falará merecia que pensassem nela?
primeiro, temos ambos algo a dizer-vos. . CLEANTO- Claro, meu pai.
HARPAGÃO- E eu também tenho algo para dizer a HARPAGÃO- Que é um partido desejável?
ambos. CLEANTO- Muito desejável.
CLEANTO- É de casamento, meu pai, que desejávamos HARPAGÃO- Que ela tem todo o ar de governar bem a
falar. casa?
HARPAGÃO- E é igualmente de casamento que quero CLEANTO- Sem dúvida.
conversar convosco. HARPAGÃO- Que um marido teria satisfação nela?
ELISA- Aí, meu pai! CLEANTO- Com toda a certeza.
HARPAGÃO- Qual a razão desse grito? É a palavra ou a HARPAGÃO - Há só um pequeno senão: receio que não me
coisa que vos faz ter medo? traga a fortuna que seria desejável.
CLEANTO-Ocasamento pode amedrontar-nos consoante .CLEANTO- Oh! meu pai! Não se tenha em consideração
as intenções que sobre o assunto possais ter, e os bens quando se trata de um pessoa de bem.
receamos que as nossas inclinações não venham a HARPAGÃO - Perdoai-me, perdoai-me! Mas o que se deve
estar de acordo com a vossa escolha. dizer é que se não lhe encontramos a riqueza com
HARPAGÃO- Um pouco de paciência. Não se alarmem. que sonhamos tratemos de a ganhar por outro lado.
Sei o que vos convém e nenhum de vós terá razão de CLEANTO- É compreensível.
queixa do que tenciono fazer. E para começar por HARPAGÃO - Pois bem, apraz-me ver que concordeis com
uma ponta, dizei-me, vistes uma jovem chamada os meus sentimentos e uma vez que o seu porte
Mariana, que mora não muito longe daqui? honesto e a sua candura conquistaram a minha
CLEANTO- Vi, sim, meu pai.
alma, resolvi desposá-Ia, desde que encontre nisso
HARPAGÃO,a Elisa - E vós?
algum benefício.
ELISA- Já ouvi falar dela.
CLEANTO- Como?
HARPAGÃO- Meu filho, que achais dessa moça?
HARPAGÃO- Como?!
CLEANTO- Um ser muito encantador.
31
30
Moliere o Avarento

CLEANTO- Estais resolvido, dizeis ... ELISA-Não.


HARPAGÃO- A desposar Mariana. HARPAGÃO- Sim.
CLEANTO- Quem? Vós!? Vós!? ELISA- Não, já vos disse.
HARPAGÃO- Sim, eu, eu, eu! Que quer isso dizer? HARPAGÃO- Sim, digo-vos eu.
CLEANTO- De repente senti uma tontura. Retiro-me. ELISA- Não me submeterá a isso.
HARPAGÃO - Não há-de ser nada. Ide depressa à cozinha HARPAGÃO- A isso vos submeterei".
beber um grande copode água simples. Ora vejam-me ELISA- Prefiro matar-me, a casar com um tal marido.
estes alfenicados, que são mais fracos que galinhas HARPAGÃO - Não só não te matarás, como o desposarás.
chocas. Pois foi, minha filha o que resolvi para mim. Oram vejam só que atrevimento! Já viram alguma
Quan to ao teu irmão destino-lhe uma certa viúva de vez uma filha falar deste modo a seu pai?
quem me vieram falar esta manhã; e quanto a ti, ELISA- E já alguma vez se viu um pai casar uma filha
dou-te ao Sr. Anselmo. deste jeito?
ELISA- Ao Sr. Anselmo? HARPAGÃO- É um partido sobre o qual nada há a dizer
HARPAGÃO- Sim. É um homem maduro, prudente, e aposto que toda a gente aprovará a minha escolha.
sensato, que não tem mais de cinquenta anos e de ELISA - E eu aposto que nenhuma pessoa sensata o
quem muito gabam as riquezas. aprovará.
ELISA,fazendo uma vénia - Não me quero casar, meu HARPAGÃO- Vem ali Valério. Queres fazê-lojuiz deste
pai, por favor. assunto?
HARPAGÃO,retribuindo a vénia - E eu, minha filhinha, ELISA- Consinto.
minha ternura, quero que vos caseis, por favor. HARPAGÃO- E submeter-te-ás à sua decisão?
ELISA- Peço-vos perdão, meu pai. ELISA- Sim, farei o que ele disser.
HARPAGÃO- Peço-vos perdão, minha filha. HARPAGÃO- Está feito.
ELISA- Sou uma humilde criada do Sr. Anselmo, mas,
com vossa permissão, nunca me casarei com ele.
9 Esta cena é um exemplo do que se poderá chamar o fundo de
HARPAGÃO- Sou um vosso humilde criado, mas com a
dança ou o riso da simetria. Encontraremos ao longo da obra muitos
vossa permissão desposá-lo-eis ainda hoje. diálogos construí dos sobre uma estrutura simétrica que invocam,
por uma lado, a presença do bailado e da música habitual nesta época
ELISA- Ainda hoje? e por outro provocam o riso, realçando as oposições, as contradições
HARPAGÃO- Ainda hoje. das personagens. A esta partitura, Moliere acrescenta ainda uma
outra variante, construída como uma fuga, em que odiálogo simétrico
ELISA- Assim não será, meu pai. é posto em causa por um elemento irreverente criando um outro
HARPAGÃO- Assim será, minha filha. espaço múltiplo de sentido.

32 33
I) Avari;llto-2
o Avarento

considerável, é um cavalheiro nobre, afável, ajuizado,


sensa to e bem instalado na vida, a quem não restam
filhos do primeiro casamento. Seria ela capaz de
encontrar melhor?
VALÉRIO- Lá isso é verdade; mas ela poderia dizer-vos
que talvez seja precipitar um pouco as coisas, que
CENA V talvez fosse preciso ao menos algum tempo para ver
se a sua inclinação se acomodará ...
VALÉRIO, HARPAGÃO, ELISA
HARPAGÃO - É uma ocasião única, que é preciso agarrar
com unhas e dentes 10. Vejo aqui uma vantagem que
não encontrarei noutro lado: ele compromete-se a
HARPAGÃO- Anda cá, Valério. Acabámos de te eleger
recebê-Ia sem dote ...
para nos dizeres qual de nós tem razão, a minha
VALÉRIO- Sem dote?
filha ou eu.
HARPAGÃO- Sim.
VALÉRIO- Vós, senhor, sem hesitação.
VALÉRIO- Ah! Já não digo mais nada. Estais a ver, é
HARPAGÃO- Sabes de que estávamos a falar?
uma razão totalmente convincente; há que se render.
VALÉRIO- Não, mas não saberieis não ter razão, vós sois
HARPAGÃO- Para mim representa uma poupança de
todo razão.
peso.
HARPAGÃO- Quero dar-lhe ainda hoje por esposo um
VALÉRIO - Certamente, sobre isso é impossível
homem tão rico quanto sábio, e a malandra diz-me
contradizê-lo. É verdade que a vossa filha vos pode
na cara que não quer saber dele para nada. Que
fazer ver que o casamento é um assunto mais sério
dizes a isto?
do que parece; que há aí com que ser feliz ou infeliz
VALÉRIO- Que é que eu digo?
toda a vida, e que um compromisso que deve durar
HARPAGÃO- Sim.
até à morte não se deve estabelecer senão com
VALÉRIO- Rum ... Hum.r.
grandes precauções.
HARPAGÃO- Rum ...Rum ... O quê?
VALÉRIO- Digo que no fundo sou da vossa opinião e é
10 No original prendre uite aux cheueux. Conta-se que a deusa

impossível que não tenhais razão; mas também ela latina Ocassio (a Oportunidade, a Ocasião) era uma mulhercalv~ por
detrás e apenas com uma madeixa de cabelos à frente. Por ISSO,
não deixa de a ter, completamente ... e... quando aparecia, era preciso agarrar rapi~a~ente? seu cabelo antes
RARPAGÃO- Como! O Sr. Anselmo é um partido queestasevirasse.Noentanto,apesardeeXlstIremlmguaportugu~sa,
esta expressão não é muito utilizada, o que me levou a esta opçao.
34
35

"
Moliêre o Avarento

HARPAGÃO- Sem dote! certos feitios que só se devem atacar de viés,


VALÉRIO- Tendes razão. Aí está o que tudo decide; temperamentos inimigos da mais pequena forma de
compreende-se. Mas pessoas há que vos poderiam resistência, naturezas obstinadas, que a verdade
dizer que, numa ocasião destas, a inclinação de uma faz empinar, que se entesam sempre diante do
jovem é algo que se deve indubitavelmente levar em direito caminho da razão e que só com rodeios
conta, e que essa enorme diferença de idades, de conseguimos levar aonde queremos. Fingi que
espírito e de sentimentos, torna um casamento consentis no que ele quer, alcançareis melhor os
sujeito a desagradáveis percalços. vossos objectivos, e...
HARPAGÃO- Sem dote! ELlSA- Mas esse casamento, Valério?
VALÉRIO- Oh! Perante isso, não há réplica possível, bem VALÉRIO- Procuraremos impedi-lo por outras vias.
o sabemos. Quem dianho se pode opor a isso? Não é ELlSA- Mas que poderemos inventar, se ele terá lugar
que não haja muitos pais que antes prefeririam ainda hoje?
cuidar da felicidade das suas filhas que do dinheiro VALÉRIO- É preciso pedir um adiamento e fingir uma
que teriam de dar; que não as sacrificariam ao doença qualquer.
interesse e procurariam, acima de tudo, assegurar ELlSA - Mas se chamarem os médicos, descobrirão a
a um casamento aquela suave conformidade que mentira.
nele mantém constantes, a honra, a tranquilidade e VALÉRIO- Estais a brincar? Eles percebem alguma
a alegria, e que ... coisa disso? Vá, vá, com eles podereis ter a doença
HARPAGÃO- Sem dote! que melhor vos aprouver; eles encontrarão sábias
VALÉRIO- É verdade. Isso fecha a boca a qualquer um. razões para vos explicar a origem do vosso mal.
Sem dote! Meios de resistir a uma razão como esta! HARPAGÃO,aparte, entrando - Não era nada, graças a
HARPAGÃO,aparte, olhando para ojardim - Ora esta! Deus.
Parece que ouço ladrar um cão! Será que me querem VALÉRIO- O nosso último recurso será a fuga que nos
ir ao dinheiro? (A Valério) Esperai aqui que eu volto porá a coberto de tudo; e se o vosso amor, bela Elisa,
já. é capaz de tal firmeza ...(uêHarpagão) Sim, é preciso
ELISA- Estais a brincar, Valério, para lhe falardes desse que uma filha obedeça ao seu pai. Não deve agarrar-se
modo? ao aspecto do marido; e quando a grande razão do
VALÉRIO- É para não o azedar e assim melhor alcançar sem dote se encontra nele, é seu dever aceitar tudo
os nossos intentos. Ir assim, frontalmente, contra os o que lhe derem.
seus desejos é meio caminho para tudo estragar. Há HARPAGÃO- Bem falado, essas coisas.
36 37
Molíere

,
ACTOII
VALÉRIO- Senhor, peço-vos perdão se o meu zelo me leva
"

longe de mais e se tomo a liberdade de lhe falar deste


modo.
HARPAGÃO - Como? Estou contentíssimo e quero que
passes a ter sobre ela um poder absoluto. Sim, bem
podes tentar fugir, incumbo-o da autoridade que
Deus me deu sobre ti, e exijo que faças tudo o que ele
CENA I
disser.
VALÉRIO - E depois disto tentai resistir às minhas
CLEANTO, O FARPAS
advertências! Senhor, acompanhá-Ia-ei para
continuar a dar-lhe estas lições.
HARPAGÃO - É um favor que me fazes. Certamente.
CLEANTO - Ah, grande traidor, onde é que andaste
VALÉRIO - Convém manter-lhe a rédea curta.
metido? Não te tinha dado ordem ...
HARPAGÃO - É verdade. É preciso ...
O FARPAS - Sim, meu senhor, eu vim aqui para vos
VALÉRIO - Não vos incomodeis, estou convencido que a
esperar a pé firme, mas o senhor vosso pai, o pior dos
consigo domar.
homens, pôs-me na rua contra a minha vontade, e
HARPAGÃO - Isso, isso. Vou dar uma voltinha pela
por pouco não me bateu.
cidade e volto já.
CLEANTO - Como vai o nosso negócio? É mais do que
VALÉRIO- Sim, o dinheiro é o que há de mais precioso no
nunca urgente, pois desde a última vez que te vi,
mundo, e deveríeis agradecer ao céu o homem
descobri que meu pai é meu rival.
honesto que ele vos deu para pai. Ele sabe o que quer
O FARPAS - O vosso pai apaixonado?
dizer viver. Assim que alguém se oferece para ficar
CLEANTO - Sim! E passei as maiores aflições para lhe
com uma filha sem dote não se deve olhar para trás.
esconder a perturbação que esta notícia me provocou.
Tudo se encerra nisto, e sem dote passa ~ querer
O F ARPAS- Ele, a entregar-se ao amor? Que diabo estará
dizer beleza, juventude, nascimento, honra,
ele a congeminar? Está a gozar com o mundo? E o
sabedoria e probidade.
amor foi feito para gente da laia dele?
HARPAGÃO - Rapaz corajoso! Fala como um oráculo.
CLEANTO - Era só o que faltava, para mal dos meus
Feliz de quem pode ter um secretário como este!
pecados, que se lhe metesse esta paixão na cabeça.

39
38
-,
Moliere o Avarento

o FARPAS - Mas, e porque lhe escondeis o vosso amor? para que ele fique a saber, pela vossa própria boca,
CLEANTO - Para o impedir de suspeitar e assim dos vossos bens e da vossa família; e não tenho
resguardar, para o que for necessário, meios de dúvida que o simples nome de vosso pai vai facilitar
acção mais eficazes para impedir este casamento. tudo.
Que resposta te deram? CLEANTO- E principalmente a herança que me pertence
O FARPAS - Pois é, senhor, são bem infelizes os que têm por morte da nossa mãe, que ninguém me pode tirar.
de pedir emprestado! E tem de engolir muitos sa pos, O FARPAS - Tendes aqui umas cláusulas que ele mesmo
quem se vê, como vós, obrigado a passar pelas mãos ditou ao nosso intermediário para vos serem
dos sanguessugas." mostradas antes de concluir o negócio:
CLEANTO - Não se fecha o negócio? «Supondo que o prestamista obtenha todas as
O FARPAS - Perdão. O tal mestre Simão, o corretor que garantias e que o devedor seja maior e de uma
nos indicaram, homem de acção e cheio de zelo, diz
família de ampla fortuna, sólida, segura, limpa e
que por vós mexeu todos os cordelinhos, e que vai
livre de quaisquer encargos, [ar-se-á um contrato
com a vossa cara.
legal e oportuno diante de um notário, o mais
CLEANTO - Vou ter os quinze mil francos de que preciso?
honesto que achar se possa e que para este efeito será
O FARPAS-Sim, mas com algumas pequeninas condições,
escolhido pelo prestamista, a quem mais importa
que tereis de aceitar se desejais que o negócio vá por
que o contrato seja devidamente lavrado.»
diante.
CLEANTO - Não há nada a dizer.
CLEANTO - Pôs-te em contacto com quem vai emprestar
O FARPAS - «O prestamista, para não sobrecarregar a
o dinheiro?
sua consciência de nenhum escrúpulo, pretende
O FARPAS- Ai, isso não é assim. O homem ainda faz mais
emprestar o seu dinheiro ao juro de cinco cento»
questão do que vós em se manter escondido e são
CLEANTO - Cinco por cento? Caramba! O homem é
mistérios bem maiores do que pensais. Não querem
dizer o seu nome, nem por nada, mas hoje mesmo honesto! Não há razão de queixa.
chegareis à fala com ele numa casa emprestada, O FARPAS - Lá isso é verdade.
«Mas, como o dito prestamista não tem em sua casa
a soma em questão, e que para ser amável ao
devedor se vê ele mesmo obrigado apedi-la a outrem
11 No original fesse-mathieu, De tradução difícil em língua aojurode vinteporcento, convirá que oditoprimeiro
portuguesa. Na origem estará uma pressuposta actividade de São
Mateus ligada à usura, antes de se tornar apóstolo. devedor pague essejuro sem prejuízo do resto, visto

40 41
o Avarento
Moliêre

«Mais .urri jogo de tapeçarias com Os Amores de


que é apenas para seu benefício que o dito prestamista Gombaud e de Macé.
contrai este empréstimo.» Mais uma grande mesa em nogueira, de doze colunas
CLEANTO - Com mil demónios! Mas que judeu, mas que ou pilares torneados, que alarga para os dois lados
mouro me saiu esse aí? Fica -me a vin te e cinco e meio e guarnecida dos seus seis escabelos.»
por cento! CLEANTO - Irra! Mas o que é que eu ...
O FARPAS - É verdade. Foi o que eu disse. Tendes de O FARPAS - Um pouco de paciência.
pensar bem. «Mais três grandes mosquetes guarnecidos de
CLEANTO - Que queres tu que eu pense? Preciso do madrepérola, com os três garfos a condizer.
dinheiro, tenho de aceitar tudo. Mais um forno de tijolos com duas retortas e três
O FARPAS - Foi a resposta que eu dei. recipientes, muito úteis aos curiosos da arte de
CLEANTO - Há ainda mais alguma coisa? destilar»
O FARPAS - Só mais uma cláusulazinha: CLEANTO - Eu enraiveço!
«Dos quinze mil francos pedidos, o prestamista só O FARPAS - Calma.
poderá entregar doze mil libras em dinheiro, e pelos «Mais um alaúde de Bolonha fornecido com todas ou
mil escudos restantes deverá o devedor receberroupas, quase todas ... as suas cordas.
móveis e jóias, constantes da lista junta, objectos Mais umjogo de bilhar e umjogo de damas com um
esses que o prestamista dá, de boa fé, pelo meus jogo do ganso, retomado dos gregos, muito próprios
módico preço que lhe é possioel.» para passar o tempo quando não há nada para fazer.
CLEANTO - Que é que isso quer dizer? Mais um lagarto empalhado com três pés e meio de
O FARPAS - Escutai a lista. comprido, curiosidade agradável para pendurar
«Primeiro, uma cama de quatro pés com barras de num tecto de um quarto.
Tudo acima mencionado, valendo legalmente mais
ponto húngaro elegantemente aplicados sobre tecido
de quatro mil e quinhentas libras, e reduzido, por
cor de azeitona, com seis cadeiras e o folho do mesmo
condescendência do prestamista ao valor de mil
tecido, tudo muito bem acondicionado e debruado de
escudos em prata»
tafetazinho alternando azul e vermelho.
CLEANTO - Que a peste o engula mais a sua
Mais um dossel de bom tecido de Aumale rosa seco
condescendência, um tratante, um carrasco é o que
com galão e franjas em seda»
ele é! Onde é que já se ouviu falar de semelhante
CLEANTO - Mas que quer ele que eu faça com isso?
usura? Não contente com o juro louco que me exige
O FARPAS - Esperai.
43
42
Moliere

ainda me quer obrigar a ficar por três mil libras, com


os trastes velhos que por aí apanha? Não consigo
fazer mais de duzentos escudos com isso tudo; e no
entanto a minha decisão terá de ser aceitar o que ele
quer, porque está em posição de o fazer, o celerado
apanhou-me com a corda na garganta.
O FARPAS- Não vos zangueis, senhor, mas vejo-vos CENA II
seguir o mesmo caminho que levou Panürgio" à
ruína, pedindo dinheiro adiantado, comprando caro, MESTRE SIMÃO, HARPAGÃO,
vendendo barato, vendendo as uvas na parreira. CLEANTO, °
FARPAS
CLEANTO- E que queres tu que eu faça? É a isto que se
vêem reduzidos os jovens por culpa da maldita
avareza dos seus pais; e ainda se admiram se depois MESTRESIMÃO- Sim, senhor, é um jovem que precisa
os filhos lhes desejam a morte. de dinheiro. Os seus assuntos pessoais obrigam-no
O FARPAS- Temos de confessar que o vosso pai é capaz a arranjá-lo urgentemente e está disposto a aceitar
de incitar contra a sua vilania o mais pacífico tudo o que prescreverdes.
homem deste mundo. Graças a Deus, não me sinto HARPAGÃO- Mas achais, Mestre Simão, que não há aí
inclinado a acções que me conduzam à forca e entre nada a temer, conheceis o nome, os bens e a família
os meus colegas que andam metidos em negócios daquele por quem pedis?
escuros, sei muito bem safar-me a tempo de intrigas MESTRESIMÃO- Não, não vos posso informar bem e foi
que possam cheirar a baloiço, mas, para vos dizer a por acaso que o mandaram vir ter comigo; mas ele
verdade, pelos seus modos de proceder, dá-me mesmo vos esclarecerá e o seu mandatário assegu-
vontade de o roubar, acho mesmo que roubando-o rou -me que ficareis satisfeito quando oconhecerdes.
praticava uma acção meritória. Tudo o que vos poderei dizer é que a sua família é
CLEANTO- Deixa-me ficar essa relação. Quero vê-Ia outra muito rica, que já não tem mãe e que, se quiserdes,
vez. vos pode assegurar que o pai estará morto antes que
corram oito meses.
12 Personagem de Rabelais, Livro III, acto lI. Uma outra
HARPAGÃO- Já é qualquer coisa. A caridade, Mestre
singularidadede Moliereé esta técnicade patchwork:colano seu Simão, obriga-nos a fazer o bem, sempre que
textooutrostextos deoutrosescritores.Rabelaisé alémdisso umdos
seus preferidos. " . possamos.

44 45
Moliere o Avarento

'. , MESTRESIMÃO- É compreensível! devassidão, de te precipitar em perigosas despesas,


O FARPAS,baixo, a Cleanto - Que quer isto dizer? O de dissipar vergonhosamente os bens que os teus
nosso mestre Simão a falar com vosso pai! pais amealharam com o suor do rosto?
CLEANTO,baixo, ao FARPAS - Será que lhe disseram CLEANTO- E não vos cora o rosto por desonrar a vossa
quem eu sou? Serias tu capaz de me atraiçoar? condição com os negócios sujos que fazeis, sacrificar
MESTRESIMÃO- Ah! Ah! Isso é que são pressas. Quem o bom nome e a honra ao insaciável desejo de
é que vos disse que era aqui? (a Harpagão) Eu pelo acumular escudo sobre escudo, e enriquecer em
menos não fui, senhor, quem lhes revelou o vosso matéria de juros, sobre as mais infames subtilezas
nome e a vossa morada. Mas a meu ver isso não é que os mais célebres usurários jamais inventaram?
problema: são pessoas discretas e podereis HARPAGÃO- Sai da minha vista, infame, sai da minha
explicar-vos mutuamente. vista!
HARPAGÃO- Como? CLEANTO- Quem, em vossa opinião, é mais criminoso,
MESTRESIMÃO- Este senhor é a pessoa de que vos falei oque compra odinheiro de que precisa ou aquele que
e que deseja pedir-vos as quinze mil libras de rouba o dinheiro que lhe não faz falta?
empréstimo. HARPAGÃO- Sai,já disse, não me ponhas a ferver. (Só)
HARPAGÃO- O quê? Meu grandessíssimo patife, então Até nem estou aborrecido com o que aconteceu: é
és tu quem se entrega a estes condenáveis excessos? para mim um aviso de que devo ter, mais do que
CLEANTO- Como!? Meu pai! Sois vós quem se entrega a nunca, todos os seus actos debaixo de olho.
estas vergonhosas acções?
(MESTRE SIMÃO e O FARPAS saem)
HARPAGÃO- És tu quem se quer arruinar com tão
condenáveis empréstimos?!
CLEANTO- E sois vós quem procura enriquecer-se com
tão criminosas usuras?!
HARPAGÃO- E ainda ousarás aparecer à minha frente
depois disto?
CLEANTO- E ainda ousareis aparecer aos olhos do
mundo depois disto?
HARPAGÃO- Não tens vergonha, diz-me, de chegar a tal

46 47
I 'I

CENAIII CENA IV

EUFROSINA, HARPAGÃO o FARPAS, EUFROSINA

EUFROSINA- Senhor ... o FARPAS- O caso é divertidíssimo. Tem de ter por aí um


I!ARPAGÃO- Esperai um momento. Já venho falar grande armazém cheio de trastes velhos pois não
convosco.(Aparte)Vemapropósitodarumavoltinha reconhecemos nada do que vinha na lista.
pelo meu dinheiro. EUFROSINA- Ah! És tu, meu pobre Farpas! Aque se deve
este encontro?
O FARPAS- Ah! És tu, Eufrosina! Que fazes tu por aqui?
EUFROSINA- O que faço por todo o lado: entrometer-me,
tornar-me prestável às pessoas e aprovei tar omelhor
possível os talentozitos que possa ter. Bem sabes
que neste mundo é preciso viver com jeito e que a
pessoas como eu o céu não deu outra renda que a
intriga e a astúcia.
O FARPAS- Tens algum negócio com o patrão da casa?
EUFROSINA- Sim, ando a arranjar-lhe uma coisita de
que espero recompensa.
O FARPAS - Dele? Bem fina serás se conseguires
arrancar-lhe alguma coisa e previno-te que cá em
casa o dinheiro anda muito caro.
48 49
Moliere

••
EUFROSINA - Há certos serviços que dão muito
dinheirinho ...
O FARPAS-Sou um vosso criado, mas ainda não conheces
o Sr. Harpagão. O Sr. Harpagão é de todos os
humanos o humano menos humano, o mortal, de
todos os mortais mais duro e agarrado. Não há
serviço que o faça sentir reconhecido e lhe faça abrir CENA V
os cordões. Elogios, estima, benquerença, em
palavras e amizade tanto quanto se queira; mas HARPAGÃO, EUFROSINA
dinheiro, nada a fazer. Não há nada mais seco, mais
árido que os seus agradecimentos e o seu afecto, e
HARPAGÃO, baixo - Está tudo em ordem. (Alto) Então que
dar é uma palavra pela qual tem tamanha aversão,
que nunca diz: dou-vos osbons dias mas: empresto-vos há, Eufrosina?
os bons dias! EUFROSINA- Ai que bom aspecto tendes! Parece que
EUFROSINA- Jesus, senhor! Eu cá conheço a arte de vendeis saúde!
espremer os homens. Tenho o segredo de os HARPAGÃO- Quem, eu?
enternecer, de lhes excitar o coração, de lhes EUFROSINA- Nunca vos vi uma cor tão fresca e tão
encontrar os pontos fracos. vivaça!
O FARPAS- Isso aqui são bagatelas! No que respeita ao HARPAGÃO- A sério?
dinheiro , desafio-te a enternecer o homem em EUFROSINA - Como assim? Nunca em vossa vida
estivestes tão jovem quanto agora, até conheço
questão. É um turco", mas de uma turquidade que
gente de vinte e cinco anos que parece mais velha
faz desesperar toda a gente; e podia-se morrer ao pé
dele que ele não se mexeria. Numa palavra, ama o que vós.
HARPAGÃO- E no entanto, Eufrosina, tenho sessenta
dinheiro acima da reputação, da honra, e da virtude.
A vista de um pedinte provoca-lhe convulsões. É bem puxados. ,
feri-Io no ponto mortal, é esfaquear-lhe o coração, é EUFROSINA- Ora! que é isso, sessenta anos? E a flor da
arrancar-lhe as entranhas; e se ... Mas ele aí vem, idade, estais mesmo a entrar na melhor estação do
retiro-me. homem.
HARPAGÃO - É verdade; mas vinte anos a menos não me
13 Turco: representação do infiel, do bárbaro, inimigo da civilização. faziam mal nenhum, creio.

SI
50
Moliêre o Avarento

EUFROSINA- Estais a brincar? Não tendes precisão relaciono com elas,já lhes fui falando acerca de vós,
disso, sois da têmpera dos que vivem até aos cem. e disse à mãe das vossas intenções a respeito de
I!ARPAGÃO- Achas mesmo? Mariana, quando a vistes passar na rua ou tomar ar
EUFROSINA- Com toda a certezinha. Tendes todos os à janela.
sinais. Ficai um pouco quieto. Ora aqui está, bem I!ARPAGÃO- E ela respondeu?
entre os vossos dois olhos, um sinal de longa vida. EUFROSINA- Recebeu a proposta com alegria; e quando
I!ARPAGÃO- Percebes disso? lhe dei parte que desejaríeis que a sua filha assistisse
EUFROSINA- Claro. Mostrai-me a vossa mão. Ai, credo, esta noite ao contrato de casamento da vossa,
Jesus, senhor, mas que linha da vida! consentiu logo e confiou-ma à minha guarda.
I!ARPAGÃO- Como? HARPAGÃO- É que vou ser obrigado, Eufrosina, a dar de
EUFROSINA- Pois não vedes até onde chega esta linha? jantar ao Sr. Anselmo e teria muito gosto que ela
HARPAGÃO- E o que quer isto dizer? estivesse presente no repasto.
EUFROSINA - Livra, eu dizia cem anos, mas vós EUFROSINA- Tendes razão. Depois do almoço ela virá
ultrapassareis os cento e vinte! visitar a vossa filha, daí tenciona depois dar uma
I!ARPAGÃO- Será possível? volta pela feira", para regressar à hora do jantar.
EUFROSINA- Só se vos matarem, digo-vos eu! Ainda HARPAGÃO- Muito bem! Empresto-lhes o meu coche e
haveis de enterrar filhos e filhos dos vossos filhos. podem ir juntas.
I!ARPAGÃO- Tanto melhor! Como vai o nosso negócio? EUFROSINA- Assim se fará.
EUFROSINA- É preciso perguntar? Já alguma vez me HARPAGÃO- Mas, Eufrosina,já tocaste à mãe na questão
viram meter-me num assunto de onde me não saísse de quanto pode dar à filha? Disseste-lhe que era
bem? E sobretudo para casamentos tenho um talento preciso que ajudasse um pouco, que fizesse um
maravilhoso. Não há partido no mundo que em esforço, que se sacrificasse numa ocasião como esta?
pouco tempo não consiga par e creio até, que se me Porque ninguém casa com uma moça sem que ela
metesse na cabeça, conseguia casar a Turquia com traga alguma coisa.
a República de Veneza.!' Mas de certeza que neste
caso não haverá tão grandes dificuldades. Como me
15 Moliere gosta de desenhar sob as suas histórias um fundo
factual. É uma estratégia que realça esse seujogo de misturar a arte
14 Referência a uma tradicional inimizade. A República de Veneza e a vida. Aqui refere uma dos acontecimentos mundanos de Paris: as
era a principal adversária da expansão turca no mediterrâneo. suas grandes feiras de Saint Germain ou de Saint-Laurent.

52 53
Moliêre
o Avarento
EUFROSINA- o quê?! Mas é uma menina que vos trará
doze mil libras de renda. HARPAGÃO- Sim, não é mau, mas essa conta não tem
HARPAGÃO- Doze mil libras de renda? nada de palpável, de real.
EUFROSINA- Sim. Primeiro, foi criada e educada numa EUFROSINA- Perdão. Não chama real ao facto de trazer
grande poupança de boca. É umajovem acostumada para omatrimónio uma grande sobriedade, a herança
a viver de salada, de leite, de queijo e de maçãs, para de um grande amor pela simplicidade de vida e a
quem não será por consequência necessário nem aquisição de grandes fundos de ódio ao jogo?
uma farta mesa nem caldos complicados, nem HARPAGÃO-Sóportroçasepodequererconstituirodote
perpétuas receitas de cevada moídaw para se pôr a partir de todas as despesas que ela não fará. Não
bela, nem todas as outras delicadezas que qualquer vou dar recibo em troca do que não recebo, é preciso
outra mulher exigiria; e isto não monta assim a tão que eu apalpe qualquer coisa.
pouco, rondará bem os três mil francos por ano, pelo EUFROSINA- Jesus, criatura! Não vos faltará que
menos. Além disso, ela não anseia senão por uma apalpar ... e elas falaram-me de uma certa terra
elegância simples e detesta as toilettes espaventosas onde têm bens dos quais vireis a ser dono.
""... ,
as jóias caras, os móveis sumptuosos por que as HARPAGÃO- Será preciso ver isso. Mas, Eufrosina, há
outras damas tanto se encaloram; e esta cláusula ainda uma coisa que me inquieta. A rapariga é
vale bem mais de quatro mil libras por ano. jovem, como sabes, e geralmente a mocidade gosta
> I

Acrescente-se que ela tem uma horrível aversão da mocidade, é essa a companhia que procuram.
pelo jogo, o que é pouco vulgar entre as mulheres de Tenho medo que um homem da minha idade não
hoje; até conheço uma que mora aqui na vizinhança sej a do seu gosto e que isso me venha a trazer certos
que perdeu este ano às cartas vinte mil francos. Mas desarranjos que não me agradariam nada.
ponhamos a quarta parte, cinco mil francos ao jogo EUFROSINA- Ah, não a conheceis de todo! É mais uma
e quatro mil em roupas e jóias faz nove mil libras· particularidade sua de que vos queria falar. Tem
mais mil escudos para alimentação, não vem tudo uma aversão horrível por tudo quanto seja moço, só
isto a dar por ano as tais doze mil libras bem gosta de velhos.
contadas? HARPAGÃO- Ela?
EUFROSINA- Sim, ela. Só queria que a tivésseis ouvido
falar. Não pode suportar a vista de um rapaz novo;
16 Receita utilizada nos cuidados da pele. e nada a encanta mais do que ver um belo velho com
uma barba majestosa. Para ela, os mais velhos são
54

55
Moliêre o Avarento

os mais sedutores e aconselho-vos a não tentar EUFROSINA- É preciso ser-se doida varrida. Achar
parecer mais novo do que sois. O que lhe interessa prazer na juventude. São lá homens esses loiraços?
é pelo menos um sexagenário e ainda não há quatro Pode a gente ligar-se a bichos desses?
meses, esteve para se casar e rompeu tudo porque o HARPAGÃO- É o que eu digo todos os dias, com aquela
noivo só tinha cinquenta e seis anos e não pôs os cor de carne de galinha, três pêlos de barba
óculos para assinar o contrato. arrebitados que parecem bigodes de gato, as
HARPAGÃO- Só por isso? cabeleiras louras como a estopa 17, os calções caídos
EUFROSINA- Sim, sim. Diz ela que cinquenta e seis anos pelas pernas abaixo e as camisas desbarrigadas."
não lhe chegam para a contentar e que se pela pelos EUFROSINA- E isso ao pé de uma pessoa como vós! Isto
narizes que usam óculos.
é que é um homem! Há com que encher a vista!
HARPAGÃO- Realmente essa é que é uma grande Assim é que é preciso ser e estar vestido para
novidade.
seduzir.
EUFROSINA- E ainda vai mais longe. No quarto dela há
HARPAGÃO-Achas-me belo?
vários quadros e algumas gravuras. Que pensais
EUFROSINA- O quê? Sois de encantar e a vossa figura é
vós que representam? Adónis? Céfalos? Páris e
digna de ser pintada. Virai-vos um pouco, se faz
Apelos? Não. São belos retratos de Saturno, do rei
favor. Não se pode exigir melhor. Andai um pouco
Príamo, do velho Nestor e do bom pai Anquises aos
para que vos veja. Ora aqui temos um corpo bem
ombros do seu filho.
torneado, livre, solto, sem a menor empena.
HARPAGÃO- Mas isso é admirável! Nunca me passaria
HARPAGÃO- Lá moléstias não tenho, graças a Deus. A
pela cabeça que assim fosse e muito me agrada
não ser este catarro de vez em quando. 19
saber que ela tem assim esses gostos. De facto, se eu
tivesse sido mulher também não me agradariam os EUFROSINA- Isso não é nada. O vosso catarro não vos
rapazes novos. assenta nada mal e tendes imensa graça ao tossir.
EUFROSINA- Bem o creio. Gostar dos novos, são uma boa
droga! São uns ricos ranhosos, uns belos presumidos!
Vai-se lá gostar dessa ementa! Ainda gostava de 17 O louro era a cor da moda para as perucas.
saber que condimento é que lhes encontram! 18 Referência a uma moda em que as camisas parecem insufladas
sob o gibão.
HARPAGÃO- Cá por mim, também não consigo en-
19 Mais uma vez Moliere confunde vida e teatro: Harpagão era
tendê-lo, e nem sei como é que há mulheres que representado por Moliere que sofria de uma doença pulmonar que o
gostam tanto deles. obrigava a tossir frequentemente.

56 57
Moliere
o Avarento
i I

HARPAGÃO- Diz-me cá, a Mariana ainda não me viu?


Nem reparou em mim, ao passar? gostava eu que tivésseis visto o seu contentamento
ao ouvir-me falar de vós. (Retoma oar alegre)A alegria
EUFROSINA- Não. Mas temos conversado muito a vosso
saltava-lhe dos olhos enquanto narrava as vossas
respeito. Fiz-lhe um retrato da vossa pessoa e não
qualidades e por fim, deixei-a mortinha de
me esqueci de lhe elogiar o vosso mérito e as
impaciência por ver concluído o vosso casamento.
vantagens que lhe traria ter um marido como vós.
HARPAGÃO- Fizeste bem e agradeço-te. HARPAGÃO- Deste-me um grande prazer, Eufrosina e
confesso, devo-te todos os agradecimentos do mundo.
EUFROSINA- Pois meu senhor, eu tinha um pequeno
pedido a fazer-vos. (Fica com um ar sério) Estou a EUFROSINA- Imploro-vos, senhor, quemedeis a ajudinha
que vos peço. (Retoma oar sério) Endireitava a minha
ponto de perder um processo se não arranjar dinheiro
e vós poderíeis facilmente ajudar-me a arranjá-lo se vida e ser-vos-ia eternamente grata.
quis ésseis ter para comigo alguma generosidade. HARPAGÃO- Adeus, vou acabar de pôr a minha
Nem podeis imaginar o prazer que ela vai ter correspondência em dia.
quando vos vir. (Retoma um ar alegre) Ai, como lhe EUFROSINA- Garanto-vos, senhor, que nunca o vosso
agradareis! E esse vosso colarinho à moda antiga, ai alívio viria em maior apuro.
HARPAGÃO- Darei ordem para que o meu coche esteja
vai produzir no seu espírito um efeito profundo. Mas
sobretudo, serão os vossos calções que a encantarão, pronto para vos levar à feira.
assim, apertados ao colete com atacadores" .Vai ficar EUFROSINA- Não vos importunaria se a isso me não
doidinha por vós! Um noivo atado com atacadores forçasse a necessidade.
há-de parecer-lhe um maravilhoso petisco. HARPAGÃO- E providenciarei para que se jante cedo,
HARPAGÃO- Encantas-me com o que me dizes. para que não faça mal a ninguém.
EUFROSINA- Não me recuseis o pedido que vos faço. Não
EUFROSINA- Na verdade, senhor, este processo tem
podereis imaginar, senhor, o prazer que ...
graves consequências para mim. (Retoma o ar car-
HARPAGÃO- Vou-me embora. Estão a chamar-me. Até
rancudo) Ficarei arruinada se o perder e o mais
pequeno auxíliojá me recompunha o negócio. Muito mais logo.
EUFROSINA,só - Que a febre te aperte, cão avarento; pró
diabo! O ladrão resistiu a todos os meus ataques;
20 Jogo com a moda de usar laços e fitas para esconder os cordões
mas não me convém abandonar o negócio, e em todo
que seg~ra~am e apertavam os calções e no qual, obviamente o caso, tenho o outro lado, de onde pela certa tirarei
Harpagao nao entra. '
boa paga.
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59
ACTOIII

CENA I

HARPAGÃO, CLEANTO, ELISA, VALÉRIO,


SR.a CLÁUDIA, MESTRE TIAGO,
OPALHAD'AVEIA,
° CARAS DE BACALHAU
HARPAGÃO - Ora vinde cá todos que vos quero dar
ordens para esta noite e distribuir o trabalho por
cada um. Aproximai-vos, Sr." Cláudia. Comecemos
por vós. (Segura uma vassoura) Bem.já vos vejo de
armas em punho. Encarrego-vos de limpar tudo, e
sobretudo cuidado, não esfregueis os móveis com
muita força para os não gastar. Para além disso e
durante o jantar, ficareis responsável pela gestão
das garrafas; e se alguma desaparecer ou se partir
descontá-la-ei no vosso salário.
MESTRE TIAGO, aparte - Castigo de político!
HARPAGÃO - Vá ... Vós, Palha d'Aveia, e vós Caras de
Bacalhau, ficais encarregados de lavar os copos e
servir as bebidas, mas só quando houver sede e não

61
o Avarento
Moliêre

HARPAGÃO- E vós, meu filho, a quem tenho a bondade


segundo o costume de certos lacaios impertinentes
de perdoar a história de há pouco, não penseis em
que se põem a provocar as pessoas e a dizer-lhes que
mostrar-lhe má cara.
bebam quando nem sequer sonham com isso. Esperai
CLEANTO - Eu, meu pai? Má cara? E por que razão?
que vos peçam mais de uma vez, e não vos esqueçais
HARPAGÃO - Meu Deus! Todos nós sabemos bem como
de trazer sempre muita água.
costumam comportar-se os filhos dos pais que se
MESTRE TIAGO, aparte - Oh sim, que o vinho puro sobe
voltam a casar e com que olhos costumam olhar
à cabeça.
aquela a quem chamam de madrasta. Mas, se dese-
O CARAS DE BACALHAU - Tiramos os nossos aventais ,
jais que eu perca a lembrança da vossa última estroi-
senhor?
nice, recomendo-vos que mostreis boa cara a essa
HARPAGÃO - Claro, quando virdes as pessoas chegar e
jovem e que lhe façais o melhor acolhimento possível.
cuidai de não estragar os vossos fatos.
CLEANTO - Para dizer a verdade, meu pai, não vos posso
O PALHA D'A VEIA- Bem sabeis, senhor, que na parte da
prometer que a ideia de que venha a ser minha
frente do meu gibão há uma grande nódoa de azeite
madrasta me agrade. Mentiria se vos dissesse o
da lamparina.
contrário; mas no que respeita a bem recebê-Ia, a
O CARAS DE BACALHAU - E eu, senhor, que tenho os
mostrar-lhe boa cara, prometo, nesse capítulo,
meus calções todos esburacados atrás e que se me
obedecer-vos à letra.
vê, para vos falar com o devido respeito ...
HARPAGÃO - Tomai cuidado, ao menos.
HARPAGÃO- Paz! Sus! Virai isso para o lado da parede
CLEANTO- Vereis que não haveis de ter razão de queixa.
e apresentai-vos sempre de frente para as pessoas.
HARPAGÃO - Procedereis sensatamente. Valério,
(Harpagão põe o chapéu diante do seu gibão para
ajuda-me a isto. Ah, mestre Tiago, vinde cá;
mostrar a Palha d'Aveia como ele deve fazer para
guardei-vos para o fim.
esconder a nódoa de azeite) E vós, segurai sempre
MESTRE TIAGO - É ao vosso cocheiro ou ao vosso cozi-
assim o vosso chapéu quando andardes a servir.
nheiro' senhor, que quereis falar? Porque eu sou um
(Dirigindo-se a Elisa) E vós, minha filha, tende olho
e outro.
em tudo o que sair da mesa, e cuidado que não haja
HARPAGÃO - É a ambos os dois.
desperdícios. Isto fica bem às donzelas. Mas
MESTRE TIAGO - Mas a qual dos dois em primeiro lugar?
entretanto preparai-vos para receber a minha noiva ,
HARPAGÃO - Ao cozinheiro.
que deverá vir-vos visitar e levar-vos com ela à feira.
MESTRE TIAGO - Esperai então um bocadinho, por favor.
Compreendestes tudo o que vos disse?
ELISA - Sim, meu pai.
(Tira a casaca de cocheiro e aparece vestido de cozinheiro)
63
62
Moliere o Avarento

HARPAGÃO- Mas que diabo de cerimonial é este? MESTRE TrAGO- Está aí o senhor secretário que vos
MESTRETIAGO- Já podeis falar. servirá bem por pouco dinheiro.
HARPAGÃO- Comprometi-me, mestre Tiago, a dar um HARPAGÃO- Mau! Mau! Mau! Quero que me respondas.
jantar esta noite. MESTRETrAGO- Quantos sereis à mesa?
MESTRETrAGO- Mas que grande milagre!. .. HARPAGÃO- Oito ou dez; mas basta fazer a conta a oito
HARPAGÃO - Ora diz-me, és capaz de nos fazer coisa boa? porque onde comem oito comem dez.
MESTRETrAGO- Claro, se me derdes bom dinheiro. VALÉRIO- É óbvio.
HARPAGÃO- Que diabo! Sempre dinheiro! Dinheiro! MESTRETrAGO- Bem, será preciso quatro espécies de
Parece que não sabem dizer mais nada: dinheiro, sopa e cinco pratos. Sopa de perdiz, sopa saúde, sopa
dinheiro, dinheiro! Ah! É que só têm esta palavra na de pato com nabos, sopa de legumes. Entradas: tarte
boca, dinheiro! Sempre a falar de dinheiro! É o de borrachos, morcela e salpicão, fricassé de frango".
cavalo de batalha deles: dinheiro! HARPAGÃO- Que diabo! Isso dá para tratar comple-
VALÉRIO- Nunca vi resposta mais impertinente. Olha tamente uma cidade inteira!
que espanto, fazer boa comida com muito dinheiro! MESTRETrAGO- Assad ...
É a coisa mais fácil do mundo e não haveria pobre de HARPAGÃO,pondo-lhea mão na boca- Meu grande patife,
espírito que não fosse capaz de o fazer; agora quem queres comer-me a massa toda?
queira mostrar-se homem habilidoso, que fale em a MESTRETrAGO- E depois do assad ...
fazer com pouco dinheiro. HARPAGÃO- Ainda?
MESTRETrAGO- Servir bem com pouco dinheiro? VALÉRIO- Quereis fazer rebentar toda a gente? E o
VALÉRIO- Sim. senhor, nosso amo, terá convidado as pessoas para
MESTRETrAGO- Palavra de honra, senhor secretário, as assassinar à força de tanto comer? Ide mas é ler
muito lhe agradeceremos se ocupar o meu oficio de alguma coisa sobre preceitos a observar para se
cozinheiro e nos quiser ensinar o seu segredo, até manter saudável e perguntai aos médicos se há
porque gostais de ser o faz-tudo" nesta casa ... alguma coisa de mais prejudicial que comer
HARPAGÃO- Calai-vos! De que é que vamos precisar? excessivamente.

21 No original, factoton, grafia da pronúncia de factóctum.


22 Segundo a edição de 1682.

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65
(I /\ varemo - J
Moliêre o Avarento

HARPAGÃO- Ele tem razão. vontade de comer muito e que enchem logo: um
VALÉRIO- Aprenda, mestre Tiago, o senhor e os que feijão com chispe e carne gorda, um paté qualquer
assim pensam, que uma mesa demasiado cheia de numa terrina bem cheia de castanhas. E isso que
comida é um matadouro; para nos mostrarmos abunde.
amigos de quem convidamos é bom que a frugalidade VALÉRIO- Confiai em mim.
reine e que seguindo um antigo ditado deve-se comer HARPAGÃO- E agora, mestre Tiago, é preciso limpar o
para viver e não viver para comer+. coche.
HARPAGÃO - Ah! Como tudo isso é bem dito! Chega-te cá MESTRETIAGO- Esperai. Isso agora é com o cocheiro.
quero abraçar-te por essas palavras. Eis a mais bela (Torna a pôr a casaca) Dizíeis ...
sentença que jamais ouvi em toda a minha vida. HARPAGÃO- Que é preciso limpar o meu coche e ter os
Deve-se viver para comer e não comer para vi ... Não, cavalos prontos para ir à feira.
não é nada disto. Como é que disseste? MESTRETIAGO- Os vossos cavalos, senhor? Não estão
VALÉRIO- Deve-se comer para viver e não viver para em estado de andar. Não vos direi que. se não
comer. levantam da palha porque os pobres bichos nem
HARPAGÃO- Isso mesmo. Ouviste? Quem foi o grande palha têm; mas vós fazei-los passar jejuns tão
homem que disse isso? austeros que se tornaram irreais, fantasmas ou
VALÉRIO- Agora não me estou a lembrar do nome. hi póteses de cavalos.
HARPAGÃO- Lembra-te de me escrever essas palavras. HARPAGÃO- Olha que grandes doentes. Não fazem
Quero mandá-Ias gravar em letras de ouro sobre a nada!
lareira do meu gabinete. MESTRETIAGO- E porque não fazem nada, senhor, não
VALÉRIO- Não me esquecerei. E quanto ao jantar, devem comer? Mais lhes valia, pobres animais,
deixai cá comigo. Resolverei tudo como desejais. trabalhar muito, e assim muito comer. Despeda-
HARPAGÃO- Faz então como entenderes. ça-me o coração vê-los assim extenuados, porque,
MESTRETIAGO- Tanto melhor, menos trabalho para enfim, tenho uma grande ternura pelos meus cavalos,
mim. quando os vejo sofrer, até parece que sou eu; todos
HARPAGÃO- Convém pôr dessas coisas que não dá os dias tiro da minha boca para lhes dar, e é preciso
ser muito duro, senhor, para não ter nenhuma
piedade pelo próximo.
23 Frase atribuída a Cícero. HARPAGÃO- Não será grande trabalho, o de ir à feira.

66 67
Moliêre o Avarento

MESTRETIAGO- Não, meu senhor, não terei coragem de MESTRETIAGO- Perdoai-me, sei muito bem que isso vos
os levar e teria remorsos de os chicotear no estado danaria.
em que estão. Como quereis que puxem um carro se HARpAGÃo-Absolutamentenada;aocontrário,dar-me-á
nem a eles se conseguem puxar? muito prazer saber o que dizem de mim.
VALÉRIO- Senhor, pedirei ao vizinho Picardo'" que se MESTRETIAGO- Bem, meu amo, uma vez que assim o
encarregue de os conduzir: até porque mestre Tiago quereis, dir-vos-ei, com toda a franqueza, que troçam
vai fazer-nos falta para preparar ojantar. de vós por toda a parte; de tudo quanto é sítio
MESTRETIAGO- Seja. Prefiro que morram às mãos de chovem em cima de nós chalaças a vosso respeito e
outro. não há nada que lhes dê mais gozo do que vos pisar
VALÉRIO-Mestre Tiago gosta de se armaremresmungão! o rabo e inventam constantemente histórias da
MESTRETIAGO- E o senhor secretário de se armar em vossa sovinice. Olhe, um, diz que mandais imprimir
indispensável! para vosso uso, agendas particulares com as
HARPAGÃO- Paz! têmporas e as vigílias a dobrar, para aproveitar dos
MESTRETIAGO- Senhor, não suporto aduladores; e bem jejuns a que obrigais a vossa família; olhe, o outro,
vejo como tudo o que ele faz, o perpétuo controlo que tendes sempre uma queixa pronta contra os
sobre o pão, ovinho, a lenha, o sal, as velas, é só para vossos criados, por altura da consoada ou de quando
vos lisonjear, para vos fazer a corte. Mete-me raiva, se despedem, para ter uma razão para lhes não dar
e todos os dias me aborreço ao ouvir o que dizem de nada. Aquele outro conta que uma vez pusestes em
vós: porque enfim, sempre sinto porvós certa ternura, justiça o gato de um vizinho por vos ter comido os
apesar de tudo; e depois dos meus cavalos sois a restos de uma perna de carneiro; olhe, este que vos
pessoa de quem mais gosto. surpreenderam uma noite a roubar a aveia dos
HARPAGÃO - E poderei saber, mestre Tiago, o que dizem vossos próprios cavalos; e que ovosso cocheiro, o que
de mim? esteve cá antes de mim, vos deu na escuridão umas
MESTRETrAGO- Sim, se tivesse a certeza de que isso não não sei quantas pauladas, de que nunca vos
vos iria zangar ... queixastes ... Enfim, quereis que vos diga? Não se
HARPAGÃO- Oh, não, de modo nenhum. pode ir a lado nenhum que não mofem de vós. Sois
a anedota e a galhofa de toda a gente e nunca falam
de vós senão como o avarento, o unhas-de-fome, c
24 No original, Le Picard. mesquinho, o usurário.
68 69
Moliere

HARPAGÃO,batendo-lhe - E vós sois um imbecil, um


malandro, um velhaco e um desavergonhado.
MESTRETIAGO- Eu não estava mesmo a adivinhá-Ias?
Não me quis estes crer. Bem vos disse que vos
zangaríeis se vos dissesse a verdade.
HARPAGÃO- Aprendei a falar.
CENA II

MESTRE TIAGO, VALÉRIO

VALÉRIO- Pelo que pude ver, mestre Tiago, pagam mal


a vossa franqueza.
MESTRE TIAGO- Arre diabo! Não é da vossa conta,
senhor recém-chegado que vos armais em
importante. Ide-vos rir das vossas pauladas quando
vo-las derem e não das minhas.
VALÉRIO- Ah, mestre Tiago! Nãovos zangueis, peço-vos.
MESTRETIAGO,aparte - Ah! Pia baixinho!... Vou-me
fazer de duro e se ele for burro que baste para me
acreditar, dou-lhe uma coçazita. (Alto) Não sabeis,
senhor trocista, que a mim não me dá nenhuma
vontade de rir e que se me sobe a mostarda ao nariz,
as vossas gargalhadas serão outras?
(Mestre Tiago empurra Valério até ao fundo do palco,
ameaçando-o)
VALÉRIO- Hei! Devagar!
MESTRETIAGO- Devagar, o quê? Eu cá não gosto de
brincadeiras!

71
70
Moliere

VALÉRIO- Por favor!


MESTRETrAGO- Sois um impertinente.
VALÉRIO- Senhor mestre Tiago!
MESTRE TrAGO - Qual senhor, qual mestre, qual
carapuça. Se apanho um cacete, coço-vos a
importância.
VALÉRIO- Com que então um cacete, hã? (Fá-lo recuar CENAIII
até ao outro extremo do palco)
MESTRETrAGO- Não, não era bem isso. EUFROSINA, MARIANA, MESTRE TIAGO
VALÉRIO- Sabereis por acaso, senhor imbecil, que eu é
que sou homem para vos coçar?
MESTRETrAGO- Não duvido. EUFROSINA- Mestre Tiago, sabeis se o vosso amo está
VALÉRIO- Que não passais de um cozinheiro de meia em casa?
tigela? MESTRETrAGO- Ai est!. .. ai está, está, que eu bem o
MESTRETrAGO- Bem sei. senti ...
VALÉRIO- E que ainda não sabeis quem sou? EUFROsrNA- Ide dizer-lhe, por favor, que já chegámos.
MESTRETrAGO- Perdoai-me.
VALÉRIO- Então desancais-me, não é?
MESTRETrAGO- Estava a dizê-Ia a brincar.
VALÉRIO- Pois não lhe tomo gosto, à vossa brincadeira.
(Dá-lhe pauladas) E ficai sabendo que sais um
péssimo brincalhão.
MESTRE TrAGO - Maldita seja a sinceridade! É um
péssimo oficio.De agora em diante, acabou -se, nunca
mais torno a dizer a verdade. Lá o meu amo ainda
vá, sempre tem algum direito em me bater ... agora
quanto a este senhor secretário, ai, hei-de vingar-me,
só se não puder.

72 73
o Avarento

imenso para ver neste esposo que me querem dar


um horrível tormento.
EUFROSINA - Deus meu, todos esses loiraços são
agradáveis e debitam muito bem as suas cantigas,
mas na sua maior parte são pobres como Job, e é
melhor para vós arranj ar um marido velho, que vos
dê fortuna. Confesso-vos que os sentidos não
CENA IV
encontrarão grande felicidade no que digo e haverá
alguns desgostos com tal esposo; mas isso não há-de
MARIANA, EUFROSINA
durar muito, e a sua morte, acreditai em mim,
deixar-vos-á em estado de arranjar outro mais
agradável que tudo recompensará.
MARIANA- Ai, Eufrosina, estou de tal maneira! Para vos
MARIANA- Meu Deus, Eufrosina, é uma coisa estranha
dizer o que sinto, inquieta-me este encontro!
ser preciso desejar ou esperar a morte de alguém
EUFROSINA- Mas porquê? O que é que vos inquieta?
para se ser feliz, e além disso, a morte nem sempre
MARIANA- Ai, ainda perguntais? Não sois capaz de
segue os projectos que fazemos.
imaginar o tem:or de alguém prestes a ver o suplício
EUFROSINA- Estais a brincar? Só casais com ele na
a que querem amarrá-Ia.
condição de vos deixar viúva em breve; e isso deve
EUFROSINA - Bem sei que para morte agradável,
ser uma das cláusulas do contrato nupcial. Seria
Harpagão não é propriamente o suplício que vos
muito impertinente da sua parte não morrer nos
agradaria abraçar; e leio, no vosso rosto que ojovem
próximos três meses! Ei-Io em pessoa.
louro de que me falastes não vos sai do pensamento.
MARIANA- Ai, Eufrosina, que figura!
MARIANA- Éverdade, Eufrosina. É uma coisa de que me
não quero defender; e as visitas respeitosas que fez
a nossa casa, produziram, confesso-vos alguma
perturbação na alma.
EUFROSINA- Mas chegastes a saber quem ele era?
MARIANA- Não, não sei nada dele; mas sinto que foi feito
para ser amado; que se me fosse dado a escolher ,
preferi-lo-ia a qualquer outro e que ele contribui
75
74
CENA V CENA VI

HARPAGÃO, EUFROSINA, MARIANA ELISA, HARPAGÃO, MARIANA, EUFROSINA

HARPAGÃO- Não vos ofendais, beldade minha, se venho MARIANA-Já estou tão em atraso, minha senhora, no
com óculos ao vosso encontro. Bem sei que os vossos cumprimento desta visita ...
encantos dão bem nas vistas, que são por si mesmos ELISA - Fizestes, senhora, o que eu deveria ter feito,
muito visíveis, e que não são precisos óculos para os competia-me a mim ser a primeira.
descobrir; mas, enfim, é com lentes que se observam HARPAGÃO - Estais vendo como está crescida: erva ruim
os astros, e eu mantenho e garanto que vós sois um medra muito.
astro, mas um astro, o mais belo astro que existe no MARIANA,baixo, a Eufrosina - Mas que homem mais
país dos astros. Eufrosina, ela não diz palavra e desagradável!
parece que não manifesta qualquer alegria em HARPAGÃO- O que diz a beleza?
ver-me. EUFROSINA- Que vos acha admirável.
EUFROSINA- É que ainda está surpreendida; e depois, HARPAGÃO-Masémuitahonraquemefazeis, adorável.
as jovens donzelas têm sempre vergonha de mostrar MARIANA,aparte - Que animal!
logo o que lhes vai na alma. HARPAGÃo-Sinto-memuitogratoporessessentimentos.
HARPAGÃO- Tens razão. (AMariana) Graciosa preciosa, MARIANA,aparte - Não suporto mais.
ali vem a minha filha que vos vem cumprimentar. HARPAGÃO- Aqui está também o meu filho que vos vem
apresentar as suas homenagens.
MARIANA,baixo, a Eufrosina - Ai, Eufrosina, que
encontro! É precisamente aquele de quem te falei.

76 77
Moliere

EUFROSINA- o acaso é uma coisa espantosa.


HARPAGÃO- Vejo que vos admirais de me ver filhos tão
grandes; mas em breve me despacharei quer de um
quer de outro.

CENA VII

CLEANTO, HARPAGÃO, ELISA,


MARIANA, EUFROSINA

CLEANTO- Minha senhora, para vos falar verdade, eis


uma coincidência que de forma alguma esperava e
o meu pai surpreendeu-me bastante quando há
pouco me informou dos seus intentos.
MARIANA- Posso dizer o mesmo. É um encontro impre-
visível que me surpreendeu tanto quanto a vós e não
estava nada preparada para uma coincidência assim.
CLEANTO- É verdade, senhora, que o meu pai não podia
ter escolhido melhor, e que a honra de vos ver me
enche de uma profunda alegria; mas não posso
dizer-vos que me regozijo desse intento pelo qual
podereis vir a ser minha madrasta. Tal cortesia,
confesso-vos, é demasiado difícil para mim; e é um
título que, com a vossa permissão, vos não desejo.
Este discurso poderá parecer brutal, aos olhos de
alguns; mas tenho a certeza que vós o entendereis
como deve ser entendido; que é um casamento,

78 79
, I
I
I

Moliêre o Avarento

senhora, que facilmente compreendeis que me HARPAGÃO- É muita bondade vossa, querer assim
repugna; que vós não ignorais, sabendo quem eu perdoar-lhe as faltas. O tempo fá-lo-á mais sensato,
sou, como ele colide com os meus interesses' , e que , e vereis que mudará de sentimentos.
enfim, se quereis que vos diga, e com a permissão de CLEANTO- Não, meu pai, sou incapaz de mudar; e peço
meu pai, se as coisas dependessem de mim, este a esta senhora, com muita insistência, que me creia.
himeneu nunca se realizaria. HARPAGÃO - Mas vejam só que extravagância! Continua
HARPAGÃO- Mas que reverência mais impertinente! e pior!
Mas que bela confissão! CLEANTO- Queríeis que traísse o meu coração?
MARIANA- E eu, para vos responder, digo-vos que HARPAGÃO-Ainda?Nãopretendeismudardeconversa?
pensamos do mesmo modo, e que se sentis CLEANTO- Pois bem, uma vez que quereis que fale de
repugnância em ver-me como madrasta eu não outro modo, permiti, senhora que me ponha no
lugar de meu pai, e que vos confesse que nunca vi
tenho menos em ver-vos como meu enteado. Não
nada no mundo tão encantador, que não concebo
acrediteis, peço-vos, que sou eu quem procura dar-vos
nada que se iguale ao prazer de vos agradar, e que
esta inquietação. Desagradar-vos põe-me muito
o título de vosso esposo é uma glória, uma felicidade,
triste e se eu me não visse forçada por um poder
que eu preferiria aos destinos dos maiores príncipes
absoluto, posso dar-vos a minha palavra de que
da Terra. Sim, minha senhora, a felicidade de vos
nunca consentiria num casamento que vos
possuir é em meu entender a mais belas de todas as
amargura.
riquezas; é nela que concentro toda a minha ambição.
HARPAGÃO- Ela tem razão. A cumprimento imbecil há
Não há nada que eu não seja capaz de fazer por uma
que responder de igual modo. Peço-vos perdão,
tão preciosa conquista; e os mais poderosos
minha bela, pela impertinência do meu filho. É um
obstáculos ...
jovem palerma que ainda não mede as consequências HARPAGÃO- Mais devagar, meu filho, por favor.
do que diz.
CLEANTO- É um cumprimento que faço em vosso nome.
MARIANA- Asseguro-vos que o que ele me disse não me HARPAGÃO- Graças a Deus, tenho boca para falar por
ofendeu nada; antes pelo contrário, deu-me um mim, não preciso de um procurador como vós. Vá,
enorme prazer que assim me tenha explicado os tragam as cadeiras.
seus verdadeiros sentimentos. Nele gosto de uma EUFROSINA- Não. É melhor irmos já à feira para
confissão assim; e se ele tivesse falado de outra podermos voltar mais cedo e assim já terá todo o
maneira, estimá-lo-ia bem menos. tempo para conversar.
80 81
Moliere o Avarento

HARPAGÃO - Que atrelem então os cavalos ao coche. HARPAGÃO, baixo, ao seu filho - O quê?
Peço que me perdoeis, formosura, por não ter pensado CLEANTO - Belo pedido! Está a fazer-me sinais para que
em mandar preparar-vos alguma coisa antes da vos obrigue a aceitá-lo.
vossa partida. MARIANA- Mas eu não quero, de modo nenhum ...
CLEANTO - Mas eu tomei essas providências, meu pai, CLEANTO - Troçais? Ele não quer voltar a pegar nele.
e disse para trazerem aqui umas bandejas com HARPAGÃO, aparte - Enraiveço!
laranjas da China, limões doces e compotas= que MARIANA- Seria ...
mandei buscar em vosso nome. CLEANTO, continuando a impedir Mariana - Não, asse-
HARPAGÃO, baixo, a Valério - Valério! guro-vos, seria ofendê-lo.
VALÉRIO, a Harpagão - Perdeu o juízo. MARIANA- Por favor ...
CLEANTO - Será que vos parece que não seja o bastante, CLEANTO - De modo nenhum.
meu pai? A senhora terá a bondade de nos perdoar, HARPAGÃO, aparte - A peste o ..,
por favor. CLEANTO - Está a ficar escandalizado com a vossa
MARIANA - Não era preciso nada ... recusa.
CLEANTO- Senhora,já vistes diamante com mais brilho HARPAGÃO, baixo, ao filho - Ah, traidor!
do que aquele ali, no dedo de meu pai? CLEANTO - Bem vedes que desespera.
MARIANA - De facto brilha muito. HARPAGÃO, baixo, ao filho, ameaçando-o - És um car-
CLEANTO, tirando o anel do dedo de seu pai e dando-o a rasco!
Mariana - Tendes de vê-lo de perto. CLEANTO - Meu pai, a culpa não é minha. Faço o que
MARIANA - É muito belo, sem dúvida, até parece que posso para a obrigar a aceitá-Io, mas é obstinada.
deita estrelas. HARPAGÃO, baixo, ao filho, com arrebatamento - Cele-
CLEANTO, pondo-se em frente de Mariana, que quer rado!
entregá-lo- Não, não, senhora, está em muito belas CLEANTO - Sois a causa, senhora, de que o meu pai se
mãos. É um presente que meu pai vos faz. zangue comigo.
HARPAGÃO - Eu? HARPAGÃO, baixo ao filho com os mesmos trejeitos - O
CLEANTO - Não é verdade, meu pai, que quereis que a tratante!
senhora o guarde por amor de vós? CLEANTO - Ides pô-lo doente. Por favor, minha senhora,
não resistais mais!
EUFROSINA - Credo, Jesus, Maria, tanta cerimónia!
25 Produtos de luxo na época. Ficai com ajóiajá que o senhor assim quer.

82 83
Moliêre

MARIANA- Para não vos aborrecer mais, fico agora com


ela, mas procurarei outro momento para vo-la
devolver.

CENA VIII

HARPAGÃO, MARIANA, EUFROSINA,


CLEANTO, O PALHA D'AVEIA, ELISA

o PALHAD'AVEIA- Senhor, está lá fora um homem que


vos quer falar.
HARPAGÃO- Diz-lhe que não posso, estou ocupado, que
volte noutra altura.
O PALHAD'AVEIA- Ele diz que vos traz dinheiro.
HARPAGÃO- Desculpai-me. Volto já.

84 85
o Avarento

de me salvar o mais que puderes, para se devolver


outra vez ao comerciante.
VALÉRIO - Não precisais de dizer mais nada.
HARPAGÃO,só - Ó filho impertinente! Quererás arrui-
nar-me?

CENA IX

HARPAGÃO, MARIANA, CLEANTO, ELISA,


EUFROSINA, o CARAS DE BACALHAU

O CARASDE BACALHAU,entra a correr efaz cairHarpagão


-Senhor ...
HARPAGÃO- Ai, que já morri!
CLEANTO - Que foi, meu pai? Feristes-vos?
HARPAGÃo-De certeza que este traidor recebeu dinheiro
dos meus devedores para me quebrar os ossos.
CLEANTO - Não há-de ser nada.
O CARAS DE BACALHAU - Perdoai-me, senhor, pensei
que fazia bem em vir depressa.
HARPAGÃO- O que vens aqui fazer, carrasco?
O CARAS DE BACALHAU- Dizer-vos que os cavalos não
estão ferrados.
HARPAGÃO- Que os levem imediatamente ao ferrador.
CLEANTO - Enquanto esperamos que os ferrem, vou
fazer as honras da casa por vós, meu pai, e levar a
senhora ao jardim, onde mandarei que nos sirvam.
HARPAGÃO- Valério, tem olho nisso tudo e peço-te, trata

86
87
ACTON

CENA I

CLEANTO, MARIANA, ELISA, EUFROSINA

CLEANTO- Entremos para aqui, que estaremos muito


melhor. Já não haverá ninguém suspeito à nossa
volta e poderemos falar à vontade.
ELISA - Sim, minha senhora, o meu irmão confiden-
ciou-me a paixão que por vós sente. Conheço os
tormentos e os desgostos que dificuldades como as
vossas podem causar, e é com uma enorme ternura,
asseguro-vos, que me interesso pelo vosso caso.
MARIANA- É uma doce consolação ver interessar-se por
nós uma pessoa como a senhora; e imploro-vos, que
conserveis por mim essa generosa amizade, que tão
bem suaviza a crueldade do destino.
EUFROSINA- Sois uns desgraçados, um e outro, por não
me terdes advertido do que se passava entre vós
antes de tudo isto acontecer! Ter-vos-ia poupado
este desassossego e não teria conduzido as coisas até
este ponto.

89
Moliere o Avarento

CLEANTO- Que queres? Foi a minha má ventura que o CLEANTO- Eufrosina, minha pobre Eufrosina, quererás
quis assim. Mas, bela Mariana, quais são as vossas tu ajudar-nos?
decisões?
EUFROSINA- Ora, ainda é preciso perguntar? Quero-o
MARIANA- Ai de miml Mas estou eu em condições de de alma e coração. Olhem, no fundo sou bastante
alguma coisa poder decidir? E na dependência em
humana. O céu não me talhou nenhuma alma de
que me encontro, posso form ularmais do que desejos?
pedra, e quando vejo pessoas que se amam com
CLEANTO- Não há para mim, em vosso coração, outro
bondade e virtude, sinto é uma enorme ternura em
apoio senão simples desejos? Nem um pouco de
ajudá-Ios. Que poderíamos fazer com tudo isto?
complacente piedade? Um pouco de protectora
CLEANTO- Pensa um pouco, peço-te.
bondade? De reivindicativa afeição?
MARIANA- Traz um pouco de luz às nossas vidas.
MARIANA- Que poderia eu dizer-vos? Ponde-vos no meu
ELISA - Inventa qualquer coisa para destruir o que
lugar e vede o que eu posso fazer. Sugeri, ordenai: a
vós me entrego, sei que possuis sensatez bastante fizeste.
EUFROSINA- Não é nada fácil. (A Mariana) Em relação
para nãoexigirdes de mim senão oqueme é permitido
pela honra e pela decência. a vossa mãe, ela não é propriamente uma pessoa
CLEANTO- Ai de miml A que me limitais quando me insensata e talvez pudéssemos conquistá-Ia e levá-Ia
remeteis para o que os incómodos sentimentos de a passar para o filho o que queria dar ao pai. (A
uma rigorosa honra e de uma escrupulosa virtude Cleanto) O mal de tudo isto é que ovossopai é vosso pai.

me queiram permitir? CLEANTO- É verdade.


MARIANA- Mas que quereis vós que eu faça? Quando EUFROSINA- Quero eu dizer que se lhe mostrarmos que
poderia passar por cima de uma quantidade de é rejeitado, há-de guardar despeito, e não estará
cuidados a que o nosso sexo está obrigado, defron- com disposição para em seguida consentir no vosso
to-me com o respeito pela minha mãe. Sempre me casamento. Seria preciso, para fazer bem as coisas,
educou com extrema ternura ejamais seria capaz de que a recusa partisse dele e para isso tratar de, por
lhe causar desgosto. Fazei, agi junto dela; utilizai qualquer meio, fazê-lo sentir aversão por vós.
todos os vossos recursos para conquistar o seu CLEANTO- Tens razão.
afecto. Podeis fazer e dizer tudo o que quiserdes, EUFROSINA- É claro que tenho razão, bem o sei. Está aí
dou -vostoda a liberdade para isso; e se tudo depender o que seria preciso fazer; mas o diabo é conseguir
de que eu me declare a vosso favor, consentirei de encontrar os meios. Esperai: se arranjássemos uma
boa vontade em confessar-lhe o que por vós sinto. mulher já entrada em idade, que tivesse o meu
90
91
Moliere o Avarento

talento e representasse bem de modo a parecer uma por conquistar a vossa mãe; não é fazer pouca coisa
dama fina, através de um séqui to arranj ado à pressa romper este casamento. Fazei da vossa parte,
e dum bizarro apelido de marquesa ou viscondessa imploro-vos,todososesforçosque consigais.Servi-vos
que suporíamos da baíxa-bretanha=, eu teria habi- de todo o poder que sobre ela vos dá essa amizade
lidade bastante para fazer acreditar ao vosso pai que por vós sente; fazei brilhar sem reservas a
que se tratava de uma pessoa rica, com cem mil eloquente graciosidade, o todo-poderoso encanto
escudos em dinheiro, fora as casas; que estaria que o céu colocounos vossos olhos e na vossa boca e
perdidamente apaixonada por ele e desejava não esqueçais, por favor, nenhuma dessas ternas
tornar-se sua mulher ao ponto de lhe dar toda a palavras, dessas meigas preces e dessas enterne-
fortuna por contrato de casamento, e não duvido que cedoras carícias às quais, estou persuadido, nada se
ele não arrebitasse as orelhas para esta proposta, saberá recusar.
porque enfim, ele gosta muito devós, sei-obem, mas MARIANA - Farei tudo o que puder, sem nada esquecer.
gosta um pouco mais do dinheiro· , e quando ,
atarantado com esta armadilha, tivesse consentido
no que vos interessa,já não importava que depois se
desenganasse quando quisesse passar a pente fino
os enfeites da nossa marquesa.
CLEANTO- Tudo isso está muito bem pensado.
EUFROSINA- Deixai-me cá trabalhar. Acabo de me
lembrar de uma das minhas amigas que vai ser a
nossa salvação.
CLEANTO- Se conseguires levar a coisa a bom termo ,
podes ficar certa, Eufrosina, domeu reconhecimento.
Mas, encantadora Mariana, comecemos, peço..vos,

, 26 No original ~as~e-~retagne. Há um tom irónico na origem deste


~Itulo e uma referência a usurpação de títulos nobres para fuga aos
Impostos.

92 93
.r'~~~~-----------_··_-~----"

CENA II CENAIlI

HARPAGÃO, ELISA, MARIANÁ, CLEANTO HARPAGÃO, C LEANT O

HARPAGÃO,aparte - Ora, ora ... Que vejo eu?! O meu filho HARPAGÃO- Olha cá, negócio de madrasta à parte, que
a beijar a mão da sua futura madrasta e a sua futura te parece a ti esta moça, hem?!
madrasta que não demonstra grande resistência. CLEANTO- O que ela me parece?
Haverá ali algum mistério? HARPAGÃO- Sim, o seu ar, a sua figura, a sua beleza, o
ELISA- Vem aí o meu pai. seu modo de ser.
HARPAGÃO- O coche está pronto. Podeis partir quando CLEANTO- Pois, pois, pois ...
vos aprouver. HARPAGÃO- Esta agora?
CLEANTO- Como não ides à feira, meu pai, irei eu CLEANTO- Para vos falar assim francamente, aqui ao
levá-Ias. perto não é nada como eu imaginava. O seu ar é
HARPAGÃO- Não, ficai. Irão muito bem sozinhas , e vou leviano; a sua figura é bastante maljeitosa, a sua
precisar de vós. beleza muito vulgar, e o seu carácter muito comum.
Não penseis que vos digo isto, meu pai, para que vos
desgosteis dela; porque madrasta por madrasta,
gosto tanto desta como de outra qualquer.
HARPAGÃO- Mas ainda à pouco lhe dizias, no entanto ...
CLEANTO- Disse-lhe algumas amabilidades em vosso
nome, mas era para vos agradar.
HARPAGÃO- Então quer dizer que não sentes por ela
nenhuma inclinação?

94 95
Moliêre o Avarento

CLEANTO - Eu? Absolutamente nenhuma. terias desposado em meu lugar, mas uma vez que
HARPAGÃO - Isso aborrece-me porque vem dar cabo de isso não aconteceu, seguirei o meu projecto inicial e
uma ideia que me tinha vindo à cabeça. Ovê-Ia aqui, casarei eu com ela.
fez-me reflectir sobre a minha idade, e defrontei-me CLEANTO - Pois bem, meu pai, uma vez que as coisas
com o que poderão por aí dizer ao verem-me casar tomaram este rumo, tenho de abrir-vos o meu
com tão jovem pessoa. Estas considerações leva- coração, e revelar-vos o nosso segredo. A verdade é
vam-me abandonar omeu projecto; mas com a tinha que a amo desde o dia em que a vi num passeio; que
mandado pedir e como já tinha dado a minha o meu desejo era, ainda há pouco, o de vos pedir que
palavra, ter-ta-ia dado, não fosse essa aversão que ma désseis por esposa, e que nada me tem retido
demonstras. senão a declaração dos vossos sentimentos e oreceio
CLEANTO - A mim? de vos desagradar.
HARPAGÃO -A ti. HARPAGÃO - Fostes visitá-Ia?
CLEANTO - Em casamento? CLEANTO - Sim, meu pai.
HARPAGÃO - Em casamento. HARPAGÃO - Muitas vezes?
CLEANTO - Escutai; é verdade que ela não é muito do CLEANTO - Bastantes, se considerarmos que o nosso
meu gosto; mas para vos agradar, meu pai, posso conhecimento é recente.
decidir-me a casar com ela, se quereis. HARPAGÃO - E fostes bem recebido?
HARPAGÃO - Eu? Sou mais sensato do que tu pensas: não CLEANTO - Muito bem, mas sem saberem quem eu era,
quero de modo nenhum forçar a tua inclinação. e foi isso que há pouco surpreendeu Mariana.
CLEANTO - Por favor, sacrificar-me-ei por amor de vós. HARp AGÃO - Declarastes-lhe a vossa paixão e a intenção
HARPAGÃO - Não, não: onde não há inclinação, não há de casar com ela?
casamento feliz. CLEANTO - Sem dúvida, e cheguei mesmo a dá-lo a
CLEANTO - Mas é uma coisa, meu pai, que talvez venha entender a sua mãe.
depois; diz-se que o amor é muitas vezes fruto do HARPAGÃO - E ela deu atenção à vossa proposta?
casamento. CLEANTO - Sim, com muita amabilidade e cortesia.
HARPAGÃO - Não, do lado do homem nunca se deve HARPAGÃO -- E a filha corresponde totalmente ao vosso
correr esse risco, são sempre consequências amor?
desagradáveis de queme quero defender. Se tivesses CLEANTO - Se devo acreditar nas aparências,julgo, meu
sentido alguma inclinação por ela, em boa hora a pai, que terá por mim alguma afeição.
96 97
o A varemo - 4
Moliere o Avarento

HARPAGÃO,baixo, aparte - Estou bem contente por ter HARPAGÃO- Mas eu abro-te já esses olhos, com umas
descoberto um tal segredo, aí está exactamente o boas pauladas.
que eu queria saber. (Alto) Oh, sus, meu filho, sabeis CLEANTO- As vossas ameaças não servem de nada.
o que há a fazer? Tendes de pensar, se fazeis o favor, HARPAGÃO- Hás-de renunciar a Mariana.
em desfazer-vos do vosso amor, em cessar todas as CLEANTO- Nunca.
investidas junto de uma pessoa que eu pretendo HARPAGÃO- Dêem-me já um pau imediatamente.
para mim, e em casar-vos em breve com aquela que
vos destinam.
CLEANTO- Então é assim que me tratais, meu pai. Pois
bem! Uma vez que as coisas chegaram a este ponto,
declaro-vos, eu, que não abandonarei a minha paixão
por Mariana; que não há extremo a que me não
abandone para vos disputar a sua conquista e que se
tendes do vosso lado o consentimento de uma mãe,
eu terei talvez outros recursos que combaterão por
mim.
HARPAGÃO- O quê, patife! Terás a audácia de me
copiares os passos?
CLEANTO- Vós é que andais a copiar os meus, eu fui o
primeiro a chegar.
HARPAGÃO- Não serei eu teu pai? Não me deverás
respeito?
CLEANTO- Isto não são coisas que os filhos sejam
obrigados a ceder aos pais: o amor é cego".

27 No original, ['amour ne connait personne / Je te ferai bien me

connaitre auec de bons coups de batons. Optei por um outro jogo


semântico porque uma tradução literal não possibilitava a
compreensão do trocadilho de sentidos criado por Moliere.

98 99
o Avarento

MESTRETIAGO- Ah! Ele não tem razão.


HARPAGÃO- Pois não é uma coisa espantosa um filho
querer entrar em concorrência com o seu pai? E não
deverá por respeito abster-se de tocar nas minhas
inclinações?
MESTRETIAGO- Tendes razão. Deixai-me falar com ele
CENA IV
e aguardai aqui.
(Vai procurar Cleanto ao outro lado do palco)
MESTRE TIAGO, HARPAGÃO, CLEANTO
CLEANTO- Pois, sim senhor! Uma vez que ele te quer
escolher para juiz, eu também não vou dizer que
não, pouco me interessa quem possa fazê-lo, e
MESTRETIAGO- Hei, hei, hei! Meus senhores, que vem
portanto, posso muito bem entregar-me a ti neste
a ser isto? O que pretendeis?
CLEANTO- Rio-me disto tudo. diferendo, mestre Tiago.
MESTRETIAGO,a Cleanto - Então, senhor, calma. MESTRETIAGO- Muita honra me dais.
HARPAGÃO- Falar-me com tal insolência! CLEANTO- Estou apaixonado por uma jovem que me
MESTRE TIAGO, a Harpagão - Oh! meu senhor, por corresponde e recebe com ternura as provas da
favor! minha devoção, e o meu pai intenta vir perturbar o
CLEANTO- Jamais lhe renunciarei. nosso amor com o pedido que mandou fazer.
MESTRETIAGO- O quê?! A vosso pai? MESTRETrAGO- Não tem razão, à confiança.
HARPAGÃO- Deixa-me apanhá-lo. CLEANTO- Com aquela idade e não ter nenhuma
MESTRETIAGO- O quê?! Ao vosso filho? Ainda se fosse vergonha em pensar em casar? Ainda lhe fica bem
a mim. apaixonar-se? Não seria seu dever deixar essa
HARPAGÃO - Mestre Tiago, quero fazer- tej uiz deste caso ocupação para os mais novos?
para mostrar como tenho razão. MESTRETIAGO- Tendes razão, anda a brincar. Deixai
MESTRETIAGO- Consinto. (A Cleanto) Afastai-vos um que lhe diga duas palavras. (Volta para junto de
pouco. Harpagão) Ora bem, o vosso filho não é assim tão
HARPAGÃO- Amo uma donzela que pretendo desposar; esquisito com dizíeis e pôs a mão na consciência e
e o patife tem a insolência de também a amar e de caiu em si e quer ser razoável. Diz que está ciente do
a pretender contra as minha ordens. respeito que vos deve, que se deixou levar por um
100
101
Moliere o Avarento

momento de exal tação e que de modo algum recusará CLEANTO- Meu pobre mestre Tiago, ser-te-ei grato toda
submeter-se à vossa vontade, desde que queirais a vida.
tratá-lo melhor do que há pouco e dar-lhe em MESTRETIAGO- Não há de quê, senhor.
casamento alguém com quem possa ser feliz. HARPAGÃO- Deste-me muita alegria, mestre Tiago, e
HARPAGÃO-Ah! diz-lhe então, mestre Tiago que assim isso merece uma recompensa. Vá, asseguro-te que
sendo, pode esperar tudo de mim e que, à excepção jamais oesquecerei .(Puxa o lenço da algibe ira, o que
de Mariana, lhe deixo a liberdade de escolher quem faz mestre Tiago acreditar que ele lhe vai dar alguma
queira. coisa)
MESTRETIAGO- Deixai comigo. (Volta ao filho) Ora bem, MESTRETIAGO- Beijo-vos as mãos.
o vosso pai não é assim tão insensato como o pintais
e testemunhou-me que foram os vossos arrebata-
men tos que o enfureceram; que só está zangado com
ovosso modo de agir e que estará na total disposição
de vos conceder o que desejais, desde que o façais
delicadamente e lhe presteis a deferência, o respeito
e a submissão que um filho deve a seu pai.
CLEANTO- Oh, mestre Tiago! Podes assegurar-lhe que
se ele me concede Mariana terá em mim o mais
submisso dos homens, para sempre, e que nunca
mais farei nada que não responda às suas vontades.
MESTRETIAGO,a Harpagão - Está feito. Consente nas
vossas palavras.
HARPAGÃO- Corre tudo às mil maravilhas.
MESTRETIAGO, a Cleanto - Assunto encerrado. Está
contente com as vossas promessas.
CLEANTO- Deus seja louvado!
MESTRETIAGO- Meus senhores, tudo o que têm a fazer,
é conversar; agora estais de acordo, mas íeis-vos
desentendendo por falta de vos ouvirdes.

102 103
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o Avarento

HARPAGÃO- E eu prometo-te que não haverá nada que


não obtenhas de mim.
CLEANTO- Oh! Meu pai nada mais vos pedirei, é dar-me
muito o dar-me a Mariana.
HARPAGÃO- Como?
CLEANTO - Digo-vos, meu pai, que estou muitíssimo
CENA V contente convosco, e que tudo o que poderia pedir-vos
se encontra na bondade que tivestes em conceder-me
CLEANTO,HARPAGÃO Mariana.
HARPAGÃO-Quem é que falou em conceder-te Mariana?
CLEANTO - V ás, meu pai.
CLEANTO- Peço-vos perdão, meu pai, do arrebatamento HARPAGÃO - Eu?
que deixei transparecer. CLEANTO - Claro.
HARPAGÃO- Já lá vai. HARPAGÃO- O quê! Tu é que prometeste renunciar-lhe.
CLEANTO- Asseguro-vos que tenho todos os remorsos do CLEANTO - Eu, renunciar-lhe?
mundo. HARPAGÃO - Sim.
HARPAGÃO- E eu todas as alegrias do mundo em ver-te CLEANTO - De modo algum.
sensato. HARPAGÃO - Então não desististe da tua pretensão?
CLEANTO - Que bondade a vossa em esquecer tão CLEANTO - Pelo contrário, estou mais do que nunca
depressa o meu erro! agarrado a ela.
HARPAGÃO- Esquecemos facilmente os erros dos filhos HARPAGÃO - O quê?! Patife! Outra vez?
desde que eles retomem o caminho das suas obrigações. CLEANTO - Nada me pode fazer mudar.
CLEANTO-O quê! Não guardais nenhum ressentimento HARPAGÃO - Deixa isso comigo, traidor.
de todas as minhas extravagâncias? CLEANTO - Fazei o que vos apetecer.
HARPAGÃO- É algo a que tu me obrigas pela submissão HARPAGÃO - Proíbo-te de me voltares a ver.
e respeito em que te guardas. CLEANTO - Em boa hora.
CLEANTO - Prometo-vos, meu pai, que até à morte, HARPAGÃO - Abandono-te.
conservarei no meu coração a lembrança da vossa CLEANTO - Podeis abandonar-me.
bondade. HARPAGÃO - Não te reconheço como filho.

104 105
Moliêre

CLEANTO - Seja.
HARPAGÃO ~ Deserdo-te.
CLEANTO - Tudo o que quiserdes.
HARPAGÃO - E dou-te ... a minha maldição!
CLEANTO - As vossas ofertas não me interessam.

CENA VI

o FARPAS, CLEANTO

o FARPAS, saindo dojardim, com uma pequena caixa-


Ah, senhor, vindes mesmo a propósito! Segui-me,
depressa.
CLEANTO - Que se passa?
O FARPAS - Vinde comigo, estou-vos a dizer, estamos
com sorte.
CLEANTO - Como?
O FARPAS - Está aqui o que precisais.
CLEANTO - O quê?
O FARPAS -Andei todo o dia a espiá-lo.
CLEANTO - E o que é?
O FARPAS - O tesouro do vosso pai, que eu apanhei.
CLEANTO - Como é que fizeste?
O FARPAS -J á vos conto tudo. Safemo-nos, ouço-o gritar.

106 107
o Avarento

estou morto, já estou enterrado! Não haverá por aí


ninguém que me queira ressuscitar devolvendo-me
o meu querido dinheiro, ou dizendo-me quem o
levou? Hem? Que dizeis? Ah, não é ninguém. Quem
quer que seja que o tenha feito, teve de espiar o
momento com muito cuidado; e escolheram exacta-
CENA VII mente a altura em que eu falava com o traidor do
meu filho. O melhor é sair. Quero ir queixar-me à
HARPAGÃO justiça e mandá-los torturar a casa toda: criadas,
criados, filho, filha, e a mim também. Tanta gente
junta! Não olho para ninguém que me não venham
HARPAGÃO, vem a gritar por socorro desde ojardim e não logo suspeitas, e tudo me parece o meu ladrão. Hei!
traz chapéu - Agarra que é ladrão! Agarra que é De que é que estão a falar aí?
ladrão! Assassino! Homicida! Justiça, justo céu! De quem me roubou? Que barulho estão a fazer lá
Estou perdido, estou assassinado! Cortaram-me o em cima? Será que é o meu ladrão que lá está? Pela
pescoço, roubaram-me o dinheiro! Quem pode ter graça de Deus, se sabem novas do meu ladrão,
sido? Para onde terá ido? Onde se esconde? Que suplico que mas digam. Não estará ele escondido por
hei-de fazer para o encontrar? Para onde hei-de aí, entre vós? Olham todos para mim e desatam a
correr? Para onde não hei-de correr? Não está ali? rir. Haveis de ver que tomaram parte no roubo que
Não está aqui? Quem é? Agarra! (Agarra-se a si me fizeram. Vamos, depressa, comissários, sargen-
mesmo) Devolve-me o meu dinheiro, malandro!. .. tos, oficiais de justiça, instrumentos de tortura,
Ah! sou eu. Tenho o meu espírito perturbado e forcas e carrascos! Quero mandar enforcar toda a
ignoro onde estou, quem sou e o que faço. Ai! meu gente; e se por fim não encontrar o meu dinheiro,
pobre dinheiro, meu pobre dinheiro, querido amigo, enforcar-me-ei a mim mesmo.
privaram-me de ti! E desde que me foste arrancado,
perdi o meu amparo, a minha consolação, a minha
alegria; está tudo acabado para mim, nada mais
tenho a fazer neste mundo! Sem ti, é-me impossível
viver. Acabou-se, não posso mais, sinto-me a morrer,

108 109
ACTOV

CENA I

HARPAGÃO, o COMISSÁRIO, O ESCRIVÃO

COMISSÁRIO- Deixai-me trabalhar à minha maneira, o


meu ofício conheço eu, graças a Deus. Não é esta a
primeira vez que me meto a descobrir roubos, e só
gostava de ter tantos sacos de mil francos quantas
as pessoas quejá mandei enforcar.
HARPAGÃO- É do interesse de todos os magistrados
tomar este caso em mãos; e se não me ajudarem a
encontrar o meti dinheiro, mandarei fazer justiça à
Justiça.
COMISSÁRIO-Será preciso proceder a todas as diligências
necessárias. Dizíeis que havia nessa caixa'"?

28 No original, cassette. Este vocábulo perdeu hoje esse sentido

preciso de objecto onde se guardam valores pessoais, dinheiro, jóias


ou outros, para fazer parte do léxico do audio-visual. Entrou na
línguafrancesaatravésdoitalianocasseta.Éumapalavraimportante,
à volta da qual circula o texto de Moliere e a personagem de
Harpagão. E como um objecto fetiche, representa a avareza e
funciona como objecto de desejo. Moliere escolhe intencionalmente

111
,,------------ --~------- --

Moliere

HARPAGÃO- Dez mil escudos de ouro bem contados.


COMISSÁRIO- Dez mil escudos de ouro?
HARPAGÃO- Dez mil escudos de ouro.
COMISSÁRIO- O roubo é considerável.
HARPAGÃO- Não há suplício suficientemente grande
paraaenormidadedestecrime;eseeleficarimpune,
então já nem as coisas mais sagradas estão em CENA II
segurança.
COMISSÁRIO- Em que moeda estava essa quantia? MESTRE TIAGO, HARPAGÃO,
HARPAGÃO - Em ricos luíses de ouro e dobrões com peso ° COMISSÁRIO, ° ESCRIVÃO
de lei.
COMISSÁRIO- Quemjulgais capaz desse roubo?
HARPAGÃO- Toda a gente; quero que mandeis prender MESTRETIAGO,ao fundo da cena, virando-se para o lado
toda a cidade e arredores. de onde saiu - Vou-me embora, mas volto depres-
COMISSÁRIO- Se confiais em mim, o melhor é não sinha. Tratem de me cortar já esse pescoço,
espantar ninguém e tratar de apanhar algumas chamusquem-me esses pés, ponham-no em água a
provas sem fazer muito alarido, a fim de se proceder ferver e pendurem-no no tecto.
depois, pela força, à restituição dos dinheiros que HARPAGÃO- Quem? O que me roubou?
vos foram roubados. MESTRETIAGO- Estou a falar de um leitão que o vosso
intendente acaba de me mandar e que vos quero
arranjar à minha moda.
HARPAGÃO- Não se trata agora disso, e aqui está este
senhor a quem tens de falar sobre um outro assunto.
COMISSÁRIO- Não vos assusteis. Não sou homem para
vos ofender, e as coisas hão-de ir com calma.
uma palavra do género feminino, que lhe permite construir todo MESTRETIAGO- Este senhor também faz parte do vosso
aquele quiproquo do acto V onde se confundem os dois objectos de jantar?
desejo: Elisae a caixa com o dinheiro. A tradução para português tem
de respeitar estas regras dojogoe por isso escolhi, numapequenís sima COMISSÁRIO- Meu caro amigo, neste caso é preciso não
lista de possibilidades, caixa/caixinha.
esconder nada do vosso amo.

112 113
..,....---------------_._--

Moliere o Avarento

MESTRETrAGO- Claro meu senhor, hei -de mostrar tudo sei, julgo que foi o vosso querido secretário que fez a
o que sei fazer, e tratarei de vós o melhor que puder. coisa.
HARPAGÃO- Não se trata disso. HARPAGÃO- Valério?
MESTRETrAGO-Se não vos sirvo tão bem quanto queria, MESTRETrAGO- Sim.
a culpa é do senhor nosso secretário que me cortou HARPAGÃO- Ele, que me parece tão fiel?
as asas com a tesoura da sua poupança. MESTRETrAGO- Ele mesmo. Creio que foi ele quem vos
HARPAGÃO - Traidor, trata-se de outro assunto, não é do roubou.
jantar. Quero é que tu me digas coisas sobre o HARPAGÃO- E crês baseado em quê?
dinheiro que me apanharam. MESTRETrAGO- Em quê?
MESTRETrAGO- Apanharam-vos dinheiro? HARPAGÃO- Sim.
HARPAGÃO- Sim, malandro! E se tu não mo devolves MESTRETrAGO- Creio baseado ... no que creio.
mando-te já pendurar. COMrssÁRro- Mas torna-se necessário dizer os indícios
COMrssÁRIO- Meu Deus, não o maltrateis assim. Vejo que tendes.
pela cara dele que é um homem honesto, e que, sem HARPAGÃO- Viste-o rondar à volta do local onde tinha
ser preciso metê-lo na prisão ele revelar-vos-á o que posto o meu dinheiro?
quereis saber. Sim, meu amigo, se nos confessais a MESTRETrAGO- Sim, concerteza. Onde estava o vosso
coisa, nenhum mal vos acontecerá e sereis recom- dinheiro?
pensado como deveis pelo vosso amo. Roubaram -lhe HARPAGÃO- No jardim.
hoje o seu dinheiro, e concerteza que não deixais de MESTRETrAGo-Exactamente. Vi-oa rondar pelojardim.
saber qualquer coisa sobre este assunto. E esse dinheiro estava dentro de quê?
MESTRETrAGO,aparte - Ora aqui está precisamente o HARPAGÃO- De uma caixa.
que me faltava para me vingar do nosso secretário: MESTRETrAGO- Era isso mesmo. Vi-o com uma caixa.
desde que entrou para esta casa, é o favorito, não HARPAGÃO- E essa caixa, como é ela? Logo verei se era
ouvem senão os seus conselhos; e também me lembro a minha.
muito bem das cacetadas de há bocado. MESTRETrAGO- Como é?
HARPAGÃO- Que estás a ruminar? HARPAGÃO- Sim.
COMISSÁRIO- Deixai-o. Prepara-se para vos satisfazer, MESTRETIAGO- É...é exactamente como uma caixa.
bem vos disse que era um homem honesto. HARPAGÃO- Claro. Mas descreve-a um pouco, para ver.
MESTRETrAGO- Senhor, se quereis que vos diga o que MESTRETrAGO- É uma caixa grande.

114 115
Moliêre

HARPAGÃO- A que me roubaram é pequena.


MESTRETrAGO- Pois claro! É pequena se a quisermos
ver por esse lado; mas chamo-lhe grande pelo que
contém.
COMISSÁRIO- E de que cor é?
MESTRETrAGO- De que cor?
COMrssÁRIO- Sim. CENAIII
MESTRETIAGO- É cor de .... de uma certa cor... Não
sereis capaz de me ajudar a dizer? VALÉRIO, HARPAGÃO, O COMISSÁRIO,
HARPAGÃO- Hã?! O ESCRIVÃO, MESTRE TIAGO
MESTRETrAGO- Não será vermelha?
HARPAGÃO- Não, é cinzenta.
MESTRETrAGO- Exacto, cinzento-vermelha; era o que HARPAGÃO-Aproxima-te. Vem confessar a mais negra
eu queria dizer. acção, o mais horrível atentado que jamais foi
HARPAGÃO- Não há qualquer dúvida. É ela com toda a cometido.
certeza. Escrevei, senhor, escrevei oseu depoimento. VALÉRIO- Que desejais, senhor?
Céus, doravante, a quem se confiar? Não se pode HARPAGÃO- O quê, traidor, não coras pelo teu crime?
mais jurar sobre nada; aliás creio, depois disto, que VALÉRIO- Mas de que crime pretendeis falar afinal?
sou homem para me roubar a mim mesmo. HARPAGÃO - De que crime pretendo falar, infame! Como
MESTRETIAGO- Senhor, ei-lo que volta. Pelo menos não se tu não percebesses o que estou a dizer! É em vão
lhe vades dizer que fui eu que vos contei tudo. que possas pretender disfarçá-lo: ocaso foidescoberto
e acabam de me revelar tudo. Mas como? Abusar
assim da minha bondade e introduzir-se de propósito
em minha casa para me trair, para me pregar uma
partida assim!
VALÉRIO- Senhor, uma vez que tudo vos revelaram, não
quero estar com rodeios e negar-vos os factos.
MESTRETrAGO,aparte - Oh! Oh! Teria adivinhado sem
querer?

116 117
Moliere o Avarento
VALÉRIO-Era minha intenção falar-vos e queria apenas VALÉRIO- Um deus que traz consigo o perdão de tudo o
esperar uma conjuntura favorável; mas, uma vez que manda fazer: o Amor.
que assim é, peço-vos que vos não zangueis e que HARPAGÃO- O Amor?
queirais ouvir as minhas razões. VALÉRIO- Sim.
HARPAGÃO- E que belas razões podes apresentar-me, HARPAGÃO - Belo amor, rico amor, ora bolas! O amor aos
ladrão infame? meus luíses de ouro!
VALÉRIO- Ah! meu senhor, não sou merecedor desses VALÉRIO- Não, meu senhor, não foram de modo algum
nomes. É verdade que cometi contra vós uma ofensa; as vossas riquezas que me tentaram, não foram elas
mas, afinal, a minha falta é perdoável. que me ofuscaram, e declaro nada pretender dos
HARPAGÃO- Perdoável? Como? Uma emboscada? Um vossos bens, desde que me deixeis com aquele que já
assassínio como este? tenho.
VALÉRIO- Por favor, não vos encolerizeis. Depois de me HARPAGÃO- Nunca, com mil diabos! Não to deixarei.
terdes ouvido, vereis que o mal não é assim tão Mas ora vejam só a insolência de querer guardar o
grande como o fazeis crer. roubo que me fez!
HARPAGÃO- O mal não é assim tão grande como o faço VALÉRIO- Chamais a isso um roubo?
crer! O quê?! O meu sangue, as minhas entranhas, HARPAGÃO- Se lhe chamo um roubo! Um tesouro como
patife! aquele!
VALÉRIO- O vosso sangue, senhor, não caiu em más VALÉRIO- É um tesouro, é verdade, e omais precioso que
mãos. Pertenço a uma condição que a não ofende e tendes, sem dúvida; mas confiar-mo, não será
não há nada em tudo isto que eu não possa reparar. perdê-lo. E é de joelhos que vo-lo peço, esse tesouro
HARPAGÃO- É bem essa a minha intenção, e que tu me cheio de encantos; e para bem-fazer deveis
restituas o que me roubaste. conceder-mo.
VALÉRIO- A vossa honra, senhor, será integralmente HARPAGÃO- Não farei nada disso. Que vem a ser isso?
respeitada. VALÉRIO-Prometemos fidelidade um ao outroejurámos
HARPAGÃO- Não se trata de honra nenhuma, nesta nunca mais nos separarmos.
história. Mas diz-me, quem te arrastou para este HARPAGÃO- O juramento é admirável e a promessa
acto? divertida!
VALÉRIO- Ai, deveras mo perguntais? VALÉRIO- Sim, comprometemo-nos a ser um do outro
HARPAGÃO- Sim, pergunto-te deveras. para sempre.
118
119
Moliere o Avarento

HARPAGÃo-Bemvos hei-de impedir disso, asseguro-vos. com ela como comigo; por ela ardi num fogo puro e
VALÉRIO- Só a morte nos poderá separar. respeitador.
RARPAGÃO - Olha que é estar completamente HARPAGÃO - Queimou-se por causa da minha caixinha!
endemoinhado pelo meu dinheiro. VALÉRIO- Preferiria morrer a deixar-lhe transparecer
VALÉRIO- Já vos disse senhor, que não foi o interesse algum pensamento ofensivo: a sua sensatez e a sua
que me levou a fazer o que fiz. O meu coração não pureza não o permitiriam.
agiu pelos impulsos que imaginais e uma razão HARPAGÃO,aparte - A minha caixinha muito virtuosa!
mais nobre me inspirou esta resolução. VALÉRIO- Todos os meus desejos se limitaram a gozar
HARPAGÃO- Quereis ver que é por caridade cristã que a sua contemplação e nada de pecaminoso profanou
quer ficar com o meu tesouro. Mas eu ponho já tudo a paixão que os seus belos olhos me inspiraram.
em boa ordem e a justiça, patife desavergonhado, HARPAGÃO- Os belos olhos da minha caixinha! Fala
dar-me-á toda a razão. dela como um amante da sua amada.
VALÉRIO- Podereis usá-Ia como quiserdes; eis-me aqui VALÉRIO- A Sr." Cláudia, meu senhor, sabe a verdade
pronto a suportar todas as violências que vos desta aventura e poderá testemunhar-vos ...
aprouver. Mas peço-vos que ao menos acrediteis, HARPAGÃO- O quê! A minha criada é cúmplice no caso?
que se pecado há, só a mim devem acusar, e que a VALÉRIO- Sim, meu senhor, foi testemunha do nosso
vossa filha não tem em tudo isto culpa alguma. compromisso; e foi depois de ver a sinceridade da
HARPAGÃO- Bem o creio, realmente; seria demasiado minha ardente paixão que me ajudou a persuadir
estranho que a minha filha estivesse neste crime. vossa filha a prometer-me a sua fidelidade e a
Mas quero reaver o que me interessa e que me aceitar a minha.
confesses para que lugar a levaste. HARPAGÃO - Será que o medo dajustiça o faz delirar? (A
VALÉRIO- Eu? Mas eu não a levei, ela ainda está em Valério) Que misturada nos estás para aí a fazer
vossa casa. com a minha filha pelo meio?
HARPAGÃO, aparte - Aminha querida caixinha! (Alto) Ela VALÉRIO- Estou a dizer, senhor, que muito me foi
não saiu mesmo de minha casa? preciso penar para que o seu pudor consentisse no
VALÉRIO- Não, senhor. que o meu amor reclamava.
HARPAGÃO- Rã, e diz-me cá uma coisita: não lhe HARPAGÃO- O pudor de quem?
tocaste? VALÉRIO- Da vossa filha; só ontem pode decidir-se a
VALÉRIO- Eu, tocar-lhe! Ah! Como sois injusto tanto assinar uma promessa mútua de casamento.

120 121
Moliere

HARPAGÃO - A minha filha assinou-te uma promessa de


casamento?
VALÉRIO- Sim, meu senhor, assim como da minha parte
lhe assinei uma.
HARPAGÃO- Oh céus! Uma desgraça nunca vem só!
MESTRE TIAGO, ao comissário - Escrevei, senhor,
escrevei. CENA IV
HARPAGÃO- Mal redobrado! Desespero acrescido!
Vamos, senhor, cumpri a vossa obrigação e ELISA, MARIANA, EUFROSINA, HARPAGÃO,
instruí-me-lhe um processo por banditagem e VALÉRIO, MESTRE TIAGO, COMISSÁRIO,
sedução. ESCRIVÃO
VALÉRIO- São epítetos que de modo algum me são
devidos; e quando souberem quem sou ...
HARPAGÃO- Ah, filha celerada, filha indigna de um tal
pai! É assim que pões em prática as lições que te dei!
Deixas-te seduzir por um ladrão infame, e
prometes-lhe fidelidade sem meu consentimento!
Mas estais enganados, um e outro. (AElisa) Quatro
bons muros me responderão pela tua conduta; (A
Valéria) e uma boa forca far-me-ájustiça da tua
audácia.
VALÉRIO- Não será o vosso arrebatamento que julgará
este caso; e antes de me condenarem hão-de pelo
menos escutar-me.
HARPAGÃO- Enganei-me quando disse forca, irás vivo
para a roda.
ELISA,dejoelhos diante de seu pai - Ai, meu pai, sede um
pouco mais humano nos vossos sentimentos,
peço-vos, e não leveis as coisas até uma violência

122 123
Moliere

extrema do poder paternal. Não vos deixeis arrastar


pelos primeiros impulsos do vosso arrebatamento e
dai-vos um tempo para considerar o que pretendeis
fazer. Tende o cuidado de olhar melhor aquele por
quem vos sentis ofendido; ele é muito diferente
daquilo que os vossos olhos julgam, e achareis
menos estranho que eu me tenha entregue quando
CENA V
souberdes que sem ele há muito me não teríeis. Sim,
ANSELMO, HARPAGÃO, ELISA, MARIANA,
meu pai, é aquele que me salvou desse grande perigo
EUFROSINA, VALÉRIO, MESTRE TIAGO,
que sabeis ter corrido nas águas, e a quem deveis a
COMISSÁRIO, ESCRIVÃO
vida desta mesma filha cujo...
HARPAGÃO- Nada disso tem importância e para mim,
mais valia que ele te tivesse deixado afogar do que
ANSELMO- Que se passa Sr. Harpagão? Vejo-vos todo
fazer o que fez.
perturbado.
ELISA- Meu pai, rogo-vos pelo amor paternal que me ... HARPAGÃO- Ah! Sr. Anselmo, vindes encontrar-me o
HARPAGÃO- Não, não, não quero ouvir mais nada! É mais desgraçado dos homens e no contrato que
preciso que a justiça cumpra o seu dever. vindes fazer há muita perturbação e desordem.
MESTRETIAGO,aparte - Vais pagar-me as cacetadas. Assassinam-me na fortuna, assassinam-me na
EUFROSINA,aparte - Ora aqui temos um complicado honra; e ali está o traidor, o celerado que violou os
imbróglio. mais sagrados direitos, que aqui se introduziu sob a
capa de secretário para me roubar o meu dinheiro e
me subornar a filha.
VALÉRIO- Quem pensa no vosso dinheiro, com que me
pretendeis confundir?
HARPAGÃO-Sim, eles fizeram um ao outro uma promessa
de casamento. Esta afronta diz-vos respeito,
Sr. Anselmo, e sois vós quem deveis assumi-Ia
contra ele e usar todos os recursos da justiça para
vos vingardes da sua insolência.

124 125
Moliere o Avarento

ANSELMO - Não é minha intenção fazer-me casar pela ANSELMO - Sem dúvida que sei. E poucas pessoas o
força, e nada pretendo de um coração que se entregou; conheceram melhor do que eu.
mas, quanto aos vossos interesses, estou pronto a HARPAGÃO- Não quero saber nem de D. Tomás, nem de
tomá-los a peito como se fossem meus. ' D. Martinho ...
HARPAGÃO-Olhe, senhor, tem aqui umhonradocomis- ANSELMO - Por favor, deixai-o falar; já veremos o que
sário, que nada esquecerá, tanto quanto me disse, quer dizer.
dos deveres do seu oficio. (Ao comissário) Carregai -lhe VALÉRIO - Quero dizer que foi ele quem me deu a vida.
bem e pintai as coisas bem criminosas. ANSELMO - Ele?
VALÉRIO - Não vejo que crime me possam apontar pela VALÉRIO - Sim.
paixão que sinto pela vossa filha, e o suplício a que ANSELMO - Vá, estais a troçar! Procurai uma qualquer
credes que possa ser condenado pelo nosso outra história que consigais contar melhor, e não
compromisso, assim que se saiba quem eu sou ... pretendais salvar-vos a coberto desta impostura.
HARPAGÃO - Rio-me dessas histórias todas; o mundo VALÉRIO - Pensai em falar com mais cuidado. Não é
está hoje cheio desses gatunos de títulos de nobreza,
nenhuma impostura e nada adianto que me não seja
desses impostores que pretendem tirar benefício e
fácil provar.
se vestem com o primeiro nome il ustre que decidem
ANSELMO - O quê! Ousais dizer-vos filho de D. Tomás
ter.
d'Alburcy?
VALÉRIO- Ficai sabendo que o meu sangue é demasiado
VALÉRIO - Sim, ouso, e estou pronto a sustentar essa
nobre para me aproveitar de algo que me não
verdade contra quem quer que seja.
pertença, e que Nápoles inteira pode testemunhar o
ANSELMO - A audácia é uma coisa espantosa. Ficai
meu nascimento, a minha genealogia.
então sabendo, para vos baralhar que já lá vão pelo
ANSELMO - Devagar. Tende cuidado com o que ides
menos dezasseis anos que esse homem de quem nos
dizer. Arriscais nesse assunto bem mais do que
falais pereceu no mar com os seus filhos e mulher, ao
podereis p,ensar, falais diante de um homem que
querer salvar as suas vidas das cruéis perseguições
conhece Nápoles como a palma da sua mão e que
que acompanharam os tumultos de Nápoles'" e que
pode facilmente avaliar se inventais uma história.
V ALÉRIO,pondo orgulhosamente o seu chapéu - Sou um obrigaram ao exílio muitas famílias nobres.

homem que nada receia e se conheceis Nápoles


assim tão bem, deveis saber quem era D. Tomás 29 Referência aos tumultos de Nápoles de 1647. Revolta fomentada

d'Alburcy. por Masaniello que se torna depois em rebelião contra a dominação

126 127
Moliere o Avarento

VALÉRIO - Sim; mas ficai sabendo, vós, para vos MARIANA- Ai de mim! Às vossas palavras, posso eu aqui
desconcertar, que o seu filho de sete anos de idade, responder que em nada mentis; e tudo o que dizeis
juntamente com um criado, foi salvo desse naufrágio me faz reconhecer claramente que vós sois meu
por um navio espanhol e que esse filho salvo é este irmão.
que vos fala. Ficai sabendo que o capitão desse VALÉRIO- Vós, minha irmã?
navio, tocado pelo meu infortúnio, tomou-se de MARIANA- Sim, o meu coração comoveu-se desde o
amizade por mim, e educou-me como se fosse seu momento em que a vossa boca se abriu; e a nossa
próprio filho e que segui a carreira das armas assim mãe, que tanto ireis alegrar, contou-me vezes sem
que a idade mo permitiu; que soube pouco depois conta as desgraças da nossa família. O céu também
que o meu pai não morrera, como sempre houvera não nos fez perecer nesse triste naufrágio; mas
acreditado; que passando por aqui em sua demanda, salvou-nos a vida em troca da nossa liberdade, e
o destino, concertado pelo céu, me fez ver a eram corsários os que nos recolheram, a mim e a
encantadora Elisa; que essa contemplação me tornou minha mãe, sobre os restos do nosso barco. Depois
escravo dos encantos da sua beleza e que a violência de dez anos de cativeiro, um feliz acaso restituiu-nos
do meu amor e a severidade de seu pai me fizeram a liberdade e regressámos a Nápoles onde
tomar a decisão de me introduzir em sua casa e de encontrámos todos os nossos bens vendidos, e onde
mandar outra pessoa em busca da minha família. não conseguimos descobrir notícias do nosso pai.
ANSELMO- Que outros testemunhos, para além das Passámos para Génova onde minha mãe foirecolher
vossas palavras, nos podem provar que não se trata uns tristes restos de uma herança desbaratada e de
de uma fábula que teríeis construído sobre uma lá, fugindo à bárbara injustiça dos seus parentes,
verdade? veio para estes 1ugares, onde não tem levado mais do
VALÉRIO- O capitão espanhol, um sinete de rubis que que uma existência de sofrimento.
pertencia a meu pai, um bracelete de ágata que ANSELMO- Oh, céus! Assim são os desígnios do teu
minha mãe me houvera posto no braço, o velho poder! E como sabes fazer ver que só a ti pertence
Pedro, esse criado que comigo se salvou do na ufrágio. fazer milagres! Abraçai-me, meus filhos, e uni,
ambos, as vossas emoções às do vosso pai.
VALÉRIO- Sois vós nosso pai?
espanhola. Assinale-se, de novo,esta inserção da História na história
curvando-a às necessidades do texto: a data da revolta é alterada MARIANA- Sois vós por quem minha mãe tanto chorou?
para 1652, se tivermos em conta os dezasseis anos referidos por
Anselmo. ANSELMO- Sim, minha filha, sim, meu filho, eu sou

128 129
(I Avarento -:"
Moliére

D. Tomás d'Alburcy, que o céu salvou das ondas com


todo o dinheiro que levava, e que, depois de durante
mais de dezasseis anos vos ter tido como mortos, se
preparava, após longas viagens, para procurar num
enlace com uma pessoa delicada e sensata a
consolação de uma nova família. A pouca segurança
que vi no meu regresso a Nápoles fez-me a isso CENA VI
renunciar para sempre e tendo conseguido encontrar
um meio de vender tudo o que aí tinha, instalei-me CLEANTO, VALÉRIO, MARIANA, ELISA,
aqui, onde, sob o nome de Anselmo, vi afastarem-se EUFROSINA, HARPAGÃO, ANSELMO,
de mim os desgostos desse outro nome que tantos MESTRE TIAGO, FARPAS, °
desaires me trouxe. °
COMISSÁRIO, ESCRIVÃO °
HARPAGÃO- Aquele é o vosso filho?
ANSELMO- Sim.
CLEANTO- Não vos atormenteis mais, meu pai, e não
HARPAGÃO- Vou processar-vos para que me pagueis os
acuseis ninguém. Tenho novidades sobre o vosso
dez mil escudos que ele me roubou.
caso e venho aqui para vos dizer que, se vos quiserdes
ANSELMO- Ele? Roubou-vos?
resolver a deixar-me casar com Mariana, o vosso
HARPAGÃO- Ele mesmo!
dinheiro ser-vos-á devolvido.
VALÉRIO- Quem vos disse isso?
HA.RPAGÂO - Onde está ele?
HARPAGÃO- Mestre Tiago.
CLEANTO- Não vos inquieteis. Respondo pelo lugar em
VALÉRIO- És tu que o dizes?
que está guardado e tudo depende apenas de mim.
MESTRETrAGO- Bem vedes que não digo nada. Agora tendes de me dizer o que quereis fazer; e
HARPAGÃO- Mas sim. Está ali o senhor comissário que podeis escolher, ou dar-me Mariana, ou perder a
recebeu o seu depoimento. vossa caixa.
VALÉRIO- Podereisjulgar-me capaz de uma tão cobarde HARPAGÃO- Não tiraram de lá nada?
acção? CLEANTO- Absolutamente nada. Vede então se é vosso
HAr{PAGÃO - Capaz ou não capaz, quero reaver o meu intento subscrever este casamento e assimjuntar o
dinheiro. vosso consentimento ao de sua mãe, que lhe deixa a
liberdade de escolher entre nós dois.

130 131
Moliêre
o Avarento
MARIANA- Mas não sabeis que esse consentimento não
HARPAGÃO,indicando-lhe mestre Tiago - Como paga-
é suficiente e que o céu,juntamente com este irmão,
mento, tendes ali aquele homem que vos ofereço
que estais vendo, acaba de me devolver um pai de
para a forca.
quem tendes de obter permissão.
MESTRETIAGO- Ai de mim! Como é que se deve fazer
ANSELMO- O céu não me devolveu a vós para ser
afinal? Por dizer a verdade apanho pancada, por
contrário aos vossos desejos. Sr. Harpagão,
dizer mentiras querem-me enforcar.
facilmente compreendeis que a escolha de uma
ANSELMO- Sr. Harpagão, temos de lhe perdoar essa
jovem recairá antes sobre filho que sobre o pai.
impostura!
Vamos, não me obrigueis a dizer-vos o que não é
HARPAGÃO- E pagareis então ao comissário?
necessário ouvir e consenti, tal como eu, neste duplo
ANSELMO- Seja. Vamos depressa partilhar a nossa
enlace.
alegria com a vossa mãe.
HARPAGÃO - Para decidir, é preciso que eu veja a minha
HARPAGÃO- E eu vou ver a minha querida caixinhal. ..
caixinha.
CLEANTO- Vê-Ia-eis sã e salva.
HARPAGÃO-Nãotenhodinheiroabsolutamentenenhum
para o dote dos meus filhos.
ANSELMO- Bem, eu ponho por eles, que isso vos não
inquiete mais.
HARPAGÃO -Comprometei-vos a pagar todas as despesas
destes dois casamentos?
ANSELMO - Comprometo-me, sim senhor. Estais
satisfeito?
HARPAGÃO - Estou ... desde que para a boda me mandeis
fazer um fato novo.
ANSELMO- De acordo. E agora, vamos usufruir da
alegria que este feliz dia nos oferece.
COMISSÁRIO- Eh, lá, senhores, eh, lá! Mais devagar, se
têm a bondade. Quem é que me vai pagar as
escrituras?

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