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29/08/2015 Einstein foi o primeiro a deduzir que E = mc²?

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Notícias Einstein foi o primeiro a deduzir que E = mc²?
O grande físico não foi o primeiro a relacionar massa e energia, nem foi o primeiro a provar definitivamente a equação

Por Tony Rothman  SHUTTERSTOCK

Nenhuma  equação  é  mais  famosa  que  E  =  mc2,  e  poucas  são  mais  simples.  De  fato,  a
fama da equação imortal se deve principalmente à sua absoluta simplicidade: a energia E
de um sistema é igual à sua massa m multiplicada por c2, a velocidade da luz ao quadro. A
mensagem da equação é que a massa de um sistema é uma medida de seu conteúdo de
energia. No entanto, E = mc2 traduz alguma coisa mais fundamental. Se pensarmos em
c, a velocidade da luz, como um ano­luz por ano, o fator de conversão c2 torna­se igual a
1. O que faz com que a equação se reduza a E = m. Energia e massa são iguais.

De  acordo  com  o  folclore  científico,  Albert  Einstein  formulou  sua  equação  em  1905  e  de
uma  estocada  só,  explicou  como  a  energia  é  liberada  em  estrelas  e  em  explosões
nucleares.  Essa  é  uma  simplificação  exagerada.  Einstein  não  foi  a  primeira  pessoa  a
considerar a equivalência entre massa e energia, na verdade, nem foi ele quem a provou.

Qualquer pessoa que passou por um curso básico de eletricidade e magnetismo sabe que
corpos  carregados  conduzem  campos  elétricos,  e  que  cargas  em  movimento  também
criam  campos  magnéticos.  Portanto,  partículas  eletrizadas  em  movimento  carregam
campos eletromagnéticos.

No  fim  do  século  19,  filósofos  da  natureza  acreditavam  que  o  eletromagnetismo  era  mais  fundamental  que  as  leis  do  movimento  de  Isaac  Newton,  e  que  o
próprio  campo  eletromagnético  forneceria  a  origem  da  massa.  Em  1881  J.  J.  Thomson,  que  mais  tarde  viria  a  descobrir  o  elétron,  tentou  demonstrar  pela
primeira  vez,  que  isso  seria  possível  calculando  explicitamente  o  campo  magnético  gerado  por  uma  carga  esférica  em  movimento  e  mostrando  que  o  campo
induzia uma massa no interior da própria esfera.

O efeito é totalmente análogo ao que ocorre quando deixamos cair uma bolinha de frescobol no solo. A força da gravidade puxa a bola para baixo. Forças de
flutuação e de arraste do ar impedem a queda da bola. Mas isso não é tudo. Com arraste ou sem arraste, para a bolinha cair ela precisa empurrar para fora de
seu caminho o ar que está à sua frente e esse ar tem massa.

A massa “efetiva” da bolinha em queda é, consequentemente, maior que sua massa em repouso. Para Thomson o campo da esfera agiria como o ar na frente da
bolinha, e nesse caso a massa efetiva da esfera seria toda a massa induzida pelo campo magnético.

O  resultado  ligeiramente  complicado  de  Thomson  dependia  da  carga,  do  raio  e  da  permeabilidade  magnética  do  corpo,  mas  em  1889,  o  físico  inglês  Oliver
Heaviside simplificou os cálculos de Thomson e mostrou que a massa efetiva deveria ser m = (4∕3) E/c2, onde E é a energia do campo elétrico da esfera. Os físicos
alemães Wilhelm Wien — famoso por suas pesquisas sobre a radiação do corpo negro — e Max Abraham, obtiveram o mesmo resultado: que se tornou conhecido
como  “massa  eletromagnética”  do  elétron  clássico  (o  que  nada  mais  era  que  uma  minúscula  esfera  carregada).  Apesar  de  que,  para  haver  massa
eletromagnética era preciso que o corpo estivesse carregado, e em movimento, o que claramente não se aplicava a todos os corpos, essa foi a primeira tentativa
séria de relacionar massa e energia.

Tampouco foi a última. Quando, em 1884, o inglês John Henry Poynting enunciou o famoso teorema sobre conservação da energia do campo eletromagnético,
outros cientistas tentaram rapidamente estender as leis da conservação para massa mais energia.

De  fato,  em  1900,  o  sempre  presente  Henri  Poincaré  declarou  que  se  supusermos  que  o  momentum  de  quaisquer  partículas  presentes  num  campo
eletromagnético mais o  momentum  do  próprio  campo  são  ambos  conservados,  então  o  teorema  de  Poynting  previa  que  o  campo  deve  agir  como  um  “fluido
fictício” com massa tal que E = mc2. Poincaré, no entanto, não conseguiu relacionar E com a massa de qualquer corpo real.

O escopo das investigações foi ampliado novamente em 1904 quando Fritz Hasenöhrl criou um experimento mental envolvendo energia térmica numa cavidade
em  movimento.  Relegado  ao  esquecimento  nos  dias  atuais,  exceto  pelos  detratores  de  Einstein,  Hasenöhrl  era  na  época  mais  famoso  que  o  analista
desconhecido do registro de patentes.

Hasenöhrl escreveu uma excelente trilogia de artigos — “Sobre a teoria da radiação de corpos em movimento”. Os dois últimos foram publicados no periódico
Annalen  der  Physik,  em  1904,  e  no  início  de  1905.  No  primeiro  ele  imaginou  uma  cavidade  cilíndrica  perfeitamente  refletora  na  qual  as  duas  calotas  das
extremidades — que serviam de aquecedores — eram ligadas, enchendo a cavidade com calor comum, ou em linguagem da física, com radiação de corpo negro.
A  terceira  lei  de  Newton  (“toda  a  ação  gera  uma  reação  igual  e  oposta”)  afirma  em  linguagem  moderna  que  qualquer  fóton  emitido  por  um  aquecedor  deve
exercer uma força externa contra cada um deles (podemos supor que essas forças externas sejam o que mantém as calotas presas ao cilindro). Mas como fótons
idênticos são emitidos de cada extremidade, as forças têm a mesma intensidade. Pelo menos, quando vistas por observador localizado no interior da cavidade.

Hasenöhrl, então perguntou, a seguir, como o sistema seria visto ao se deslocar com velocidade constante em relação a um observador situado no laboratório.

A física básica afirma que a luz emitida por uma fonte que se aproxima de um observador se desloca para o lado azul do espectro visível, e se a fonte se afasta do
observador  a  luz  se  desloca  para  a  extremidade  vermelha  do  espectro.  É  o  famoso  desvio  Doppler.  Fótons  emitidos  por  uma  das  calotas  das  extremidades
sofrerão então desvio Doppler para o azul para o observador localizado no referencial do laboratório e os da outra extremidade serão desviados para o vermelho.
Fótons azuis transportam mais momentum que vermelhos, por isso, para manter a cavidade se deslocando a uma velocidade constante as duas forças externas

http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/einstein_foi_o_primeiro_a_deduzir_que.html 1/2
29/08/2015 Einstein foi o primeiro a deduzir que E = mc²? | Scientific American Brasil | Duetto Editorial
agora  precisam  ser  diferentes.  Uma  aplicação  simples  do  “teorema  do  trabalho­energia”,  que  relaciona  a  diferença  de  trabalho  produzida  pelas  forças  com  a
energia cinética da cavidade, permitiu que Hasenöhrl concluísse que a radiação do corpo negro tem massa m = (8∕3) E / c2. Em seu segundo artigo, Hasenöhrl
considerou  uma  cavidade  cheia  de  radiação  em  movimento  lentamente  acelerado  e  obteve  a  mesma  resposta.  Depois  de  uma  comunicação  de  Abraham,  no
entanto, ele descobriu um erro algébrico e em seu terceiro artigo ele corrigiu o resultado para m = (4∕3) E / c2.

Ao considerar uma massa inerente ao calor, Hasenöhrl estendeu suas especulações anteriores além do campo eletromagnético de corpos eletrizados, até chegar
a um experimento mental mais amplo, muito semelhante ao do próprio Einstein do ano seguinte que deu origem a E = mc2.  Obviamente,  Hasenöhrl  estava
escrevendo a pré­relatividade, e alguém poderia imaginar que um resultado incorreto seria inevitável. Porém, a questão não era assim tão simples. O astrônomo
Stephem Boughn e eu analisamos detalhadamente a trilogia de Hasenöhrl e a alegação comum, “ele se esqueceu de levar em conta as forças que a própria
cavidade exerce para manter as calotas das extremidades no lugar”, não é o problema. O maior erro no primeiro experimento mental de Hasenöhrl foi ele não ter
percebido que se as calotas das extremidades emitiam calor, elas precisavam perder massa — um lapso irônico, visto que essa é exatamente a equivalência entre
massa e energia que ele tentava obter. Apesar disso, Hasenöhrl estava bastante correto, a ponto de Max Planck chegar a dizer em 1909, “que a radiação do
corpo negro possui inércia, foi mostrado pela primeira vez por F. Hasenöhrl”. A radiação do corpo negro — calor — tem massa.

O mais surpreendente é que no segundo experimento, no qual a cavidade já está cheia de radiação e as calotas não estão irradiando, a resposta de Hasenöhrl
não está obviamente errada, mesmo de acordo com a relatividade. O famoso artigo de Einstein, E = mc2, de 1905, “A inércia de um corpo depende da energia
nele contida?” considera somente uma partícula pontual emitindo uma explosão de radiação e pergunta — tal como Hasenöhrl também perguntou — como um
observador  em  movimento  vê  o  sistema.  Ao  considerar  uma  cavidade  de  comprimento  finito,  Hasenöhrl  estava  sendo  muito  mais  audacioso,  ou  negligente.
Corpos extensos têm produzido várias e longas dores de cabeça para a relatividade especial, como o fato de a massa do elétron clássico também sair da equação
m = (4∕3) E / c2. Ou seja, usando matemática relativisticamente correta obtém­se um resultado que aparentemente contradiz a reposta que qualquer um espera
e quer. Argumentos sobre como resolver adequadamente a questão persistem até hoje.

Igualmente surpreendente foi o fato de que embora Einstein tenha sido o primeiro a propor a equação correta, E = mc2, ele, na verdade, não a provou, pelo
menos, de acordo com sua própria relatividade especial. Einstein começou utilizando relações relativísticas (efeito Doppler relativístico) que tinha deduzido alguns
meses antes, mas finalmente chegou bem perto dos bits relativísticos, deixando uma resposta que se pode tirar da física puramente clássica e que pode ou não
permanecer verdadeira em velocidades mais altas onde a relatividade começa a ter efeito. Além disso, embora ele tenha afirmado que sua conclusão se aplica a
todos os corpos e a todas as formas de energia, Einstein certamente não fez nenhuma tentativa para prová­la. Ele sabia dos pontos fracos de suas deduções e
escreveu  mais  alguns  artigos  ao  longo  dos  40  anos  seguintes  tentando  consertar  as  coisas,  mas  provavelmente  jamais  conseguiu.  Obviamente,  desde  então
inúmeros experimentos nos convenceram de como os resultados de Einstein estavam corretos.

É natural especular se Einstein sabia do trabalho de Hasenöhrl. É difícil acreditar que não, pois a maior parte da trilogia imbatível de Hasenöhrl apareceu nas mais
renomadas revistas científicas na época. Certamente, em algum momento ele conheceu Hasenöhrl: uma fotografia famosa da primeira Conferência Solvay de
1911 mostra os dois juntos em torno da mesa com outros ilustres participantes.

Assim, embora Einstein tenha atingido um definitivo avanço conceitual ao relacionar a massa de um corpo com a energia total nele contida — quer esteja ou não
em movimento, quer tenha ou não um campo eletromagnético associado — é preciso atribuir também os devidos créditos a Hasenöhrl, por ter descoberto, sem
ambiguidade, que o próprio calor possui uma massa equivalente, e aos físicos que o precederam por terem fornecido a estrutura que lhe serviu de apoio. E  =
mc2 é o final surpreendente de uma longa e intrincada história científica.

O artigo foi originalmente publicado sob o título “Einstein realmente criou E = mc2?"

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