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Martin Weingaertner

Deus
e a Família
Roteiro de Estudos Bíblicos Sobre Família

Subsídios elaborados para a


Aliança Cristã Evangélica Brasileira
Copyright © Aliança Cristã Evangélica Brasileira, 2016

SOBRE O AUTOR

Material de publicação exclusiva digital e de livre


distribuição pela internet, sendo permitida a
reprodução parcial ou total deste guia de estudos, desde
que preservado o conteúdo e citada a sua fonte.
Martin Weingaertner,
natural de Rio do Sul, SC
(1949). Estudou teologia
em São Leopodo e Erlangen
(1969-1974). De 1974 a 1991
pastoreou igrejas luteranas
na serra catarinense. Desde
1992 é professor de teologia
na FATEV em Curitiba
e editor desde 1998 do
devocionário Orando em FAÇA O DOWNLOAD DESTA CARTILHA EM
Família. Casado com Ursula, aliancaevangelica.org.br/deus-e-a-familia
tem cinco filhos e nove netos.
Contatos:
weingaertner.martin@gmail.com

Diagramação e Capa:

.com.br

Foto da Capa: Felipe Lima


Sumário
01O propósito do Criador
é a união entre o homem e a mulher 07

02Homem e mulher – iguais e diferentes? 11

03O que causa estrago


no relacionamento de um casal 17

04O que une um casal? 23

05Da poligamia à monogamia 31

06Até que a morte os separe? – o divórcio 37

07O casamento como parábola


do mistério de Cristo 43

08Filhos são herança do Senhor 51

09Relacionamento entre pais e filhos 57

10Ensinando e aprendendo
a confiar em Deus 63

11O lugar da disciplina 69

12Pais fracassados
e a paternidade de Deus 75

13Filhos rebeldes
e a acolhida graciosa de Deus 81

14Abuso em dose tripla 89

15Qual é a violência mais perigosa? 99


Foto: Felipe Lima
Deus quer o bem da família
No evangelho de João, capítulo 6, versículo 45, Jesus lembra que
o profeta Isaías (Is 54.13) anunciou que “todos serão ensinados por
Deus”. O profeta Jeremias explica como aconteceria este ensino recebido
diretamente de Deus: “Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei
nos seus corações. Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. Ninguém
mais ensinará ao seu próximo nem ao seu irmão, dizendo: ‘Conheça ao
Senhor’, porque todos eles me conhecerão, desde o menor até o maior”,
diz o Senhor. “Porque eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei
mais dos seus pecados” (Jeremias 31.33-34)1 .
Esta profecia cumpriu-se em Jesus que disse: “Todos os
que ouvem o Pai e dele aprendem vêm a mim (João 6.45)”. Assim,
quem se achega a Jesus experimenta o privilégio de ser ensina-
do por Deus. Esta verdade nivela todos os cristãos no estudo
das Sagradas Escrituras. Deus usa-as para ensinar seus filhos e
filhas. O Espírito Santo capacita cada um pessoalmente a cap-
tar a voz de Deus no testemunho bíblico.
Assim sendo, desafio o irmão a não lançar mão das mi-
nhas reflexões sem antes refletir sobre os textos bíblicos aqui
mencionados e descobrir o que o Senhor quer lhe ensinar so-
bre o tema família. Esta leitura pessoal é muito importante. A
riqueza das Escrituras poderá lembrá-lo de passagens que não
me ocorreram. Desta forma, Deus ampliará seu horizonte de tal
forma que este caderno se tornará apenas um singelo auxílio no
desafio de extrair da Bíblia orientações para a sua vida familiar.
Que Deus o abençoe nele, a fim de que sua graça e seu amor se
reflitam mais e mais no seu lar!
Os esboços elaborados podem servir de subsídio tanto
para o estudo individual como em grupo. Em ambas as situações
recomendo seguir os seguintes passos:
1. Leia e releia pausadamente as palavras bíblicas indicadas.
2. Separe um tempo em silêncio para meditar e descobrir o que a
palavra bíblica tem para lhe ensinar sobre o assunto em pauta. A Bíblia é
a fonte primária, as nossas interpretações sempre serão secundárias. Por isso
é mais importante fazer suas próprias descobertas na Bíblia do que apenas
assimilar o que os outros compreenderam!
3. Compartilhe as conclusões tiradas dos textos bíblicos.
4. Por fim, leia as respostas que formulei para cada pergunta. Elas
pretendem apenas complementar o que o leitor descobriu por si mesmo.
5. Encerre o estudo com um tempo de oração sobre o ensino assimila-
do e os propósitos tomados.

1 Versão da Bíblia utilizada neste roteiro é a Nova Versão Internacional (NVI)


01

Foto: Marcelo Silva (http://pt.freeimages.com/)


O propósito do Criador
é a união entre o homem e a mulher
1.1 Em que situações surgem desigualdades entre
homens e mulheres?

Desigualdade e discriminação estão presentes em várias situações


cotidianas do relacionamento entre homens e mulheres. Elas se
manifestam em ocorrências que vão desde os maus tratos e as
brutalidades noticiados nas reportagens policiais até as agressões
sutis e requintadas percebidas somente pelas pessoas afetadas.
Na convivência diária essa desigualdade se manifesta mui-
tas vezes no fato de que as mulheres, de modo geral, cumprem
uma segunda jornada de trabalho, tendo que cuidar sozinhas
dos afazeres domésticos.
A Bíblia, no entanto, nos ensina que Deus, o Criador,
tinha e continua tendo outros planos para a vida conjugal. Veja-
mos o que ela nos ensina.
Gênesis 2
18 Então o Senhor Deus declarou: “Não é bom que o homem esteja só; farei
para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”. 19 Depois que formou da
terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, o Senhor Deus os
trouxe ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem
desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. 20 Assim o homem deu nomes a
todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens.
Todavia não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe
correspondesse. 21 Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo
sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar
com carne.22 Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez
uma mulher e a levou até ele. 23 Disse então o homem: “Esta, sim, é osso
dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque
do homem foi tirada”. 24 Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se
unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. 25 O homem e sua
mulher viviam nus, e não sentiam vergonha.
8

1 Coríntios 7
3O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mu-
lher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido.4A mulher não
tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma
forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a
mulher.5Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e
durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo,
para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio.

1.2 O que Deus nos ensina sobre a igualdade entre


homens e mulheres?

As passagens acima citadas nos ensinam aspectos fundamentais


da vontade de Deus para a vida do casal. Ao avistar Eva, Adão re-
conhece que ela é igual a ele ao exclamar: “Esta, sim, é osso dos meus
ossos…” Assim o relato de como Deus criou a mulher nos ensina
a respeitar esta igualdade elementar entre homem e mulher. O
apóstolo Paulo explica que este respeito abrange inclusive a inti-
midade da vida conjugal ao dizer que “a mulher não tem autoridade
sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o ma-
rido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher”.
Mais adiante, veremos que toda a desigualdade entre
homem e mulher não tem sua causa no Criador, mas, sim, no
nosso coração egoísta e orgulhoso. Por ora é importante gravar
que Deus não colocou homem e mulher em dois patamares di-
ferentes, um mais elevado e outro inferior. Deste modo, a fé no
Criador compromete-nos a respeitar esta igualdade como sinal
de nossa submissão ao propósito daquele que nos criou.
Gênesis 1
26 Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre
os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se
movem rente ao chão”. 27 Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem
de Deus o criou; homem e mulher os criou. 28 Deus os abençoou, e lhes disse:
“Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem
sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se
movem pela terra”..31 E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia
ficado muito bom. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o sexto dia.
9

1.3 Qual é a posição do homem e da mulher diante


de Deus?

Em Gênesis 1.27 a igualdade entre homem e mulher é apresen-


tada de maneira ainda mais profunda e fundamental. Nesta pas-
sagem é descrita a posição de ambos diante do próprio Criador.
Nesse versículo, a palavra de Deus afirma literalmente: “Criou
Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho
e fêmea os criou”.
Tanto o homem como a mulher foram criados à imagem
de Deus, isto é, ambos foram criados para se relacionarem com
o Criador e para representá-lo no mundo em que vivem. Esta
condição privilegiada diante de Deus distingue-os das demais
criaturas! Isto significa concretamente que ambos receberam a
capacidade (1o) de ouvir e entender a palavra de Deus;(2o) de
dirigir-se a ele em oração; (3o) de fazer sua vontade e (4o) de
testemunhá-la no ambiente em que vivem. Por isso o apóstolo
Paulo declara que entre o povo de Deus: “Não há judeu nem
grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são
um em Cristo Jesus”. (Gl 3.28)

Questionamento final: Deus nos chama para vivenciar esta


igualdade nobre, maravilhosa e libertadora. Ele a concede a seus
filhos e filhas para que também a exercitem no dia a dia de seu
convívio conjugal, inclusive na cama. Estamos dispostos a lidar
assim com nosso cônjuge? Há tarefas em nosso lar que recaem
somente sobre um dos cônjuges? Dividimos a responsabilidade
do trabalho doméstico e da educação dos filhos? Queremos edu-
car nossos filhos e filhas neste respeito mútuo?

Oração: Senhor, tire as vendas do orgulho de nossos olhos para


percebermos o teu propósito para conosco. Todo desrespeito e
discriminação são contrários à tua boa vontade. Conceda e ensi-
ne-nos a viver em nosso lar esta igualdade nobre, maravilhosa e
libertadora, como teus filhos e filhas.
02

Fotos: Malik Bhai e Jesse Therrien (http://pt.freeimages.com/)


Homem e mulher
– iguais e diferentes?
Gênesis 1
26 Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre
os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se
movem rente ao chão”. 27 Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem
de Deus o criou; homem e mulher os criou. 28 Deus os abençoou, e lhes disse:
“Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem
sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se
movem pela terra”. ...31 E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia
ficado muito bom. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o sexto dia.

2.1O que Gênesis 1.27 nos diz sobre a diferença


entre homem e mulher

A igualdade entre homem e mulher diante de si mesmos e dian-


te de Deus já foi mencionada no estudo anterior. Isso, no entan-
to, não anula as diferenças entre ambos, pois Deus os criou “ma-
cho e fêmea”. O Criador registrou essas diferenças no DNA de
cada uma de nossas bilhões de células. Os cromossomos XX e
XY definem o nosso sexo desde o momento em que fomos con-
cebidos no ventre materno. Deles resultam o desenvolvimento
de órgãos genitais distintos, bem como toda nossa constituição
física e emocional. É importante notar aqui que nenhuma inter-
venção cirúrgica, nenhuma aplicação de hormônios ou mudança
de comportamento pode alterar este fato. Tudo isto pode mudar
a aparência, mas não a realidade estabelecida pelo Criador.
Portanto, a distinção entre os sexos não é uma escolha
pessoal, como pensam aqueles que acham que podem escolher
o seu “gênero”. Deus tem um propósito ao nos fazer mulher ou
homem. A nossa sexualidade é uma dádiva boa e irrevogável do
próprio Criador. Ao concluir sua obra no sexto dia, “Deus viu
12
tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom". Esta
avaliação positiva inclui a sexualidade. Precisamos reconhe-
cê-la e aceitá-la com gratidão e em obediência.
Nesse sentido, a Palavra de Deus se distingue dos concei-
tos humanos que ou idolatram a sexualidade ou a desprezam e
demonizam. Aos olhos de Deus, porém, ela é a boa dádiva que
nos habilita a participar da sua obra ao possibilitar a procriação.
Assim vale também para nós hoje o que Deus ordenou ao pri-
meiro casal:“Sejam férteis e multipliquem-se".
Justamente por causa deste propósito maior de parti-
cipar da obra do Criador, cada casal precisa aprender a so-
mar as diferenças advindas de sua sexualidade e não descon-
tá-lasno outro. Este aprendizado de apoiar-se mutuamente,
no entanto, pressupõe uma descoberta prévia. Adãorepassou
toda a fauna à sua volta “todavia não se encontrou para o
homem alguém que o auxiliasse e lhe correspondesse” (des-
cobertaque também precisa ser feita hoje por quem espera
que animais de estimação possam ser seus parceiros, o que
nunca serão).
Ao dizer “farei para Adão alguém que o auxilie e lhe
corresponda”, Deus intencionou criar alguém que estivesse
no mesmo nível do homem, que o completasse e lhe possi-
bilitasse compartilhar a sua vida. Este auxílio e esta corres-
pondência devem ser mútuos. O propósito de Deus é que o
casal aprenda a somar seus dons diferentes (Adão + Eva) e
não descontá-los um no outro (Adão - Eva ou Eva - Adão).
Quem reconhece que foi criado por Deus como ho-
mem ou mulher expressará sua gratidão a ele. Compreen-
derá que a sexualidade e todas as diferenças entre os sexos
são dádivas de Deus para habilitar o casal a participar da
obra criadora. Aceitar de bom grado esse propósito divino
implica disposição para compartilhar a vida com dedicação
e responsabilidade.
13

2.2 Como Deus planejou inserir o homem e a


mulher na sua obra?

Deus uniu o casal através do casamento: “Por essa razão, o ho-


mem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão
uma só carne"(Gn 2.24). Neste versículo a Palavra de Deus des-
creve sucintamente o propósito do Criador para o casal através
do verbo “unir”. Já vimos que homem e mulher são iguais diante
de Deus ( “criados à sua imagem”) e em relação um ao outro
(“carne da minha carne”). Ao mesmo tempo eles se distinguem
um do outro (“macho e fêmea”). Mas esta diferença não os colo-
ca em oposição um ao outro, ao contrário, visa o auxílio e a com-
plementação mútuos. Ao compartilhar a vida,o casal aprende a
conjugar intensa e profundamente o verbo “unir”. Este aprendi-
zado deve levar em conta dois aspectos importantes:
O primeiro é “deixar pai e mãe”. Casamento implica cortar
o cordão umbilical da dependência paterna a fim de estabelecer
um relacionamento novo, independente, exclusivo e maduro.
Como se costuma dizer: “É preciso soltar a mão da barra da saia
da mãe e da carteira do pai!” Pois, sem abrir mão da dependên-
cia dos pais ninguém será capaz de doar-se ao seu cônjuge! Mais
tarde, ao nascerem os filhos, o casal também precisa preservar
seu relacionamento evitando a interferência indevida destes. Os
filhos não fazem parte deste relacionamento exclusivo dos pais,
mas usufruem dele.
O segundo aspecto é decorrência do primeiro: a união do
casamento implica uma partilha completa da vida. O “tornar-se
uma só carne” inclui – como expressão máxima – a intimida-
de conjugal, mas também engloba os demais aspectos da vida
conjugal, suas lutas e dificuldades, suas vitórias e alegrias. Neste
aprendizado importa compartilhar os dons que cada um rece-
beu bem como os fardos que cada um traz consigo. Para tanto,
Deus, em sua sabedoria, deu a cada casal a capacidade de con-
versar e dias com 24 horas. A maneira como eles usarão estas
dádivas é fundamental para a união conjugal.
14
Questionamento final: Somos capazes de perceber que as dife-
renças entre os cônjuges expressam os dons que Deus lhes deu?
Estamos dispostos a aprender a conjugar este difícil verbo “unir”
em todas as dimensões do convívio conjugal? Quanto do nosso
tempo usamos para conversar e compartilhar? Sobre que assun-
tos evitamos conversar? Isso não sinaliza que há áreas em nossa
união que precisam ser aprofundadas?

Oração: Agradeça ao Criador pelo seu maravilhoso propósito e


pelos dons que ele lhe concedeu! Peça ao Senhor que o ensine a
lidar com o outro e com suas diferenças! Que ele os ajude a al-
cançar a união para que possam “levar as cargas uns dos outros”
(Gl 6.2) e somar os dons que nos deste, a fim de nos comple-
mentarmos mutuamente.
15
03

Foto: Glenda Otero (http://pt.freeimages.com/)


O que causa estrago
no relacionamento de um casal
2 Samuel 13
1 Depois de algum tempo, Amnom, filho de Davi, apaixonou-se por Ta-
mar; ela era muito bonita e era irmã de Absalão, outro filho de Davi. 2
Amnom ficou angustiado ao ponto de adoecer por causa de sua meia-ir-
mã Tamar, pois ela era virgem, e parecia-lhe impossível aproximar-se
dela. 3 Amnom tinha um amigo muito astuto chamado Jonadabe, filho
de Simeia, irmão de Davi.4 Ele perguntou a Amnom: “Filho do rei, por
que todo dia você está abatido? Quer me contar o que se passa?” Amnom
lhe disse: “Estou apaixonado por Tamar, irmã de meu irmão Absalão”. 5
“Vá para a cama e finja estar doente”, disse Jonadabe. “Quando seu pai
vier visitá-lo, diga-lhe: Permite que minha irmã Tamar venha dar-me
de comer. Gostaria que ela preparasse a comida aqui mesmo e me servisse.
Assim poderei vê-la.” … 9…Então Amnom deu ordem para que todos
saíssem e, depois que todos saíram, 10 disse a Tamar: “Traga os bolos e
sirva-me aqui no meu quarto”. Tamar levou os bolos que havia preparado
ao quarto de seu irmão.11 Mas quando ela se aproximou para servi-lo, ele
a agarrou e disse: “Deite-se comigo, minha irmã”. 12 Mas ela lhe disse:
“Não, meu irmão! Não me faça essa violência. Não se faz uma coisa dessas
em Israel! Não cometa essa loucura. 13 O que seria de mim? Como eu
poderia livrar-me da minha desonra? E o que seria de você? Você cairia
em desgraça em Israel. Fale com o rei; ele deixará que eu me case com você”.
14 Mas Amnom não quis ouvi-la e, sendo mais forte que ela, violentou-a.
15 Logo depois Amnom sentiu uma forte aversão por ela, mais forte que a
paixão que sentira. E lhe disse: “Levante-se e saia!” 16 Mas ela lhe disse:
“Não, meu irmão, mandar-me embora seria pior do que o mal que você já
me fez”. Ele, porém, não quis ouvi-la 17 e, chamando seu servo, disse-lhe:
“Ponha esta mulher para fora daqui e tranque a porta”. 18 Então o servo
a pôs para fora e trancou a porta.

Gênesis 3
6: Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era
atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento,
tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também. 7
Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então junta-
ram folhas de figueira para cobrir-se. 8 Ouvindo o homem e sua mulher
os passos[c] do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a
brisa do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do
18
jardim. 9 Mas o Senhor Deus chamou o homem, perguntando: “Onde está
você?” 10 E ele respondeu: “Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo,
porque estava nu; por isso me escondi”. 11 E Deus perguntou: “Quem lhe
disse que você estava nu? Você comeu do fruto da árvore da qual lhe proibi
comer?” 12 Disse o homem: “Foi a mulher que me deste por companheira
que me deu do fruto da árvore, e eu comi”. 13 O Senhor Deus perguntou
então à mulher: “Que foi que você fez?” Respondeu a mulher: “A serpente
me enganou, e eu comi”.

3.1 O que aconteceu com os filhos do rei Davi?

A história dos filhos de Davi, Amnom e Tamar, tem quatro


cenas distintas:
1. Amnom apaixona-se por Tamar. Foi paixonite aguda
mesmo: ele não conseguia deixar de pensar nela; andava angus-
tiado e abatido; perdeu o apetite e emagrecia a olhos vistos! O
filho do rei não consegue tudo que quer? Normalmente sim,
mas não neste caso, pois Tamar também era filha do rei!
2.Surge um terceiro personagem: Jonadabe. Como bom
observador, ele logo desconfia do que está acontecendo. Torna-
se confidente do segredo do seu primo, e por ser “muito astu-
to”, ele tem uma solução para o dilema do príncipe na ponta da
língua. Amnon acolhe o seu conselho. A arapuca é montada e
Tamar é encurralada de acordo com o planejado!
3.Tamar adverte Amnom: “Não se faz uma coisa dessas
em Israel! Não cometa essa loucura!” Isso não significa que Ta-
mar não estivesse interessada no príncipe herdeiro, pois ela re-
comenda a Amnom: “Fale com o rei; ele deixará que eu me case
com você!” Ao contrário de seu meio-irmão ela sabia que nossos
desejos são avaliados por Deus, que revela ao seu povo o que é
bom. Por isso ela diz que agir contra a boa vontade de Deus é
“loucura”!
4. Amnom não lhe dá ouvidos. Depois de estuprá-la, ele
"sente uma forte aversão por ela, mais forte que a paixão que
sentira”, e ordena que ela seja expulsa da sua casa. A paixão se
transforma em nojo e desolação.
19

3.2 Por que a paixão vira aversão e violência?

A história de Amnom e Tamar retrata uma realidade que – a


qualquer tempo – se repete nos relacionamentos entre homens
e mulheres: paixão associada à violência vira aversão e gera de-
solação. Por isto é preciso ir a fundo nesta questão e indagar por
que isto acontece.
A resposta que a Bíblia nos dá é simples e clara: paixão
não é amor. O amor “não procura seus interesses” (1Co 13.5) e
a paixão nada mais é do que puro interesse próprio. Uma pessoa
apaixonada pode aprender a amar esse amor que “tudo sofre,
tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Co 13.7). Mas este ca-
minho não tem atalhos! O atalho que Amnom e muitos outros
depois dele escolheram foisatisfazer o seu próprio desejo, e esse
caminho sempre acaba em frustração e dor!
Gênesis 3
6 Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era
atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento,
tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também. 7
Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então junta-
ram folhas de figueira para cobrir-se. 8 Ouvindo o homem e sua mulher
os passos[c] do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a
brisa do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do
jardim. 9 Mas o Senhor Deus chamou o homem, perguntando: “Onde está
você?” 10 E ele respondeu: “Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo,
porque estava nu; por isso me escondi”. 11 E Deus perguntou: “Quem lhe
disse que você estava nu? Você comeu do fruto da árvore da qual lhe proibi
comer?” 12 Disse o homem: “Foi a mulher que me deste por companheira
que me deu do fruto da árvore, e eu comi”. 13 O Senhor Deus perguntou
então à mulher: “Que foi que você fez?” Respondeu a mulher: “A serpente
me enganou, e eu comi”.

3.3 Semelhanças entre as histórias de Amnom e


Tamar e Adão e Eva

Quando deixamos a história dos filhos de Davi e voltamos para


as primeiras páginas da Bíblia, descobrimos algumas semelhan-
ças com o que se passou entre Adão e Eva. No estudo anterior,
vimos que o primeiro homem, Adão, assim como Amnom, ficou
20
encantado ao ver a mulher, declarando: “Esta, sim, é osso dos
meus ossos…” Mas logo entra em cena um terceiro personagem,
alguém “mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor
Deus tinha feito” (Gn 3.1). Como Jonadabe, a serpente sugeriu
algo que contraria a vontade de Deus. Uma vez cometido o pe-
cado, vem a decepção. A paixão virou aversão e Adão e Eva se
descobriram nus, desprotegidos. O primeiro homem deixa de di-
zer: “Esta, sim, é osso dos meus ossos…” , e, sem rodeios, culpa a
Deus, dizendo:“Foi a mulher que me deste por companheira que
me deu do fruto da árvore e eu comi".
Em ambas as histórias percebe-se que o afastamento de
Deus gerou o afastamento entre o casal. A nudez, a intimida-
de sem malícia que Adão e Eva desfrutavam antes da queda,
é exposta em sua fragilidade: “Os olhos dos dois se abriram, e
perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira
para cobrir-se”. A paixão de Amnom fez com que ele cometesse
a “loucura” que o levaria à morte dois anos mais tarde.

3.4 A origem dos conflitos conjugais

Assim como Adão e Eva e Amnom e Tamar, nossos confli-


tos conjugais estão relacionados com o nosso DNA de pecador.
Na queda, a rebelião contra Deus abriu espaço para o "eu" se
projetar. Assim, o egoísmo humano transformou o equilíbrio e
a harmonia do Éden num potencial para muitos conflitos. Na
conversa que Deus tevecom o primeiro casal, logo depois da
queda, ele lhes anunciou: “Multiplicarei grandemente o seu so-
frimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu
desejo será para o seu marido, e ele te dominará. … maldita é
a terra por sua causa: com sofrimento você se alimentará dela
… Com o suor do teu rosto comerá o teus pão, até que volte à
terra"(Gn 3.16-19).
A Bíblia nos ensina a não cultivar a ilusão de que somos
pessoas sem pecado: “Se afirmarmos que estamos sem pecado,
enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1 Jo
21
1.8). Nós podemos nos rebelar contra o Criador, mas jamais po-
deremos nos livrar das consequências dessa opção. Isto vale para
todas as dimensões da vida, inclusive para o casamento. Quem
ignora sua própria inclinação para o mal e persegue o ideal ro-
mântico de que é capaz de construir sua própria felicidade fica-
rádecepcionado. A principal causa de divórcios reside no fato
de casais ignorarem ou não saberem lidar com esta dimensão
egoísta da culpa em seu relacionamento.
Pensar que nossa pecaminosidade contamina também o
nosso relacionamento conjugal certamente não é um diagnós-
tico agradável. No entanto, a Bíblia insiste em fazê-lo porque,
como na medicina, somente a identificação correta da enfer-
midade permite tratá-la com sucesso. Por isso não faz sentido
medicar apenas os sintomas! O diagnóstico bíblico nos desafia a
encarar nossa própria culpa nos conflitos e resistir à tentação de,
como Adão, culpar o cônjuge ou a Deus(“a mulher que me deste
por companheira”). Isso só piora as coisas.
Além disso, os relatos da Bíblia indicam que, em nossos
desentendimentos, o inimigo de Deus sempre atua por detrás
dos panos, agindo como a “serpente” ou como o “amigo muito
astuto” ,atiçando e induzindo ao pecado. Por isso, é indispensá-
vel que percebamos como o inimigo de Deus tem interesse em
promover a desunião no casamento. O Diabo quer sempre o
contrário do propósito do Criador.
Questionamento final: Costumo culpar meu cônjuge? Estou dis-
posto a reconhecer a minha culpa em nossos conflitos conjugais?
Percebo onde e quando dou ouvidos ao inimigo que está pondo
lenha na fogueira? Tenho coragem para, diante de Deus, sentar e
conversar com meu cônjuge sobre nossos pontos fracos e feridas?

Oração: Reconheça diante de Deus os estragos que causou em seu


casamento, admitindo sua culpa e clamando pelo perdão através do
sangue derramado por Jesus. Não há ferida que ele não queira ou
possa curar! Agradeça por Deus ouvir sua oração e peça-lhe que o
ajudeobedecê-lo e a viver conforme o seu propósito.
04

Foto: Armando Riera (http://pt.freeimages.com/)


O que une um casal?

Os motivos que levam as pessoas a se casar variam de acordo


com as diferentes culturas. Por isso, é necessário conhecer os
costumes dos templos bíblicos para poder detectar e entender o
que une um casal.

Juízes 14
1 Sansão desceu a Timna e viu ali uma mulher do povo filisteu. 2 Quando
voltou para casa, disse a seu pai e a sua mãe: “Vi uma mulher filisteia em
Timna; consigam essa mulher para ser minha esposa”. 3 Seu pai e sua mãe
lhe perguntaram: “Será que não há mulher entre os seus parentes ou entre
todo o seu povo? Você tem que ir aos filisteus incircuncisos para conseguir
esposa?” Sansão, porém, disse ao pai: “Consiga-a para mim. É ela que me
agrada”.

Juízes 15
1 Algum tempo depois, na época da colheita do trigo, Sansão foi visitar a
sua mulher e levou-lhe um cabrito. “Vou ao quarto da minha mulher”, disse
ele. Mas o pai dela não quis deixá-lo entrar. 2 “Eu estava tão certo de que
você a odiava”, disse ele, “que a dei ao seu amigo. A sua irmã mais nova
não é mais bonita?

1 Coríntios 7
36 Se alguém acha que não está tratando sua filha como é devido e que ela
está numa idade madura, pelo que ele se sente obrigado a casá-la, faça como
achar melhor. Com isso não peca. Deve permitir que se case. 37 Contudo, o
que se mantém firme no seu propósito e não é dominado por seus impulsos,
mas domina sua própria vontade, e resolveu manter solteira sua filha, este
também faz bem. 38 De modo que aquele que dá sua filha em casamento
faz bem, mas o que não a dá em casamento faz melhor.
24

4.1 Quem, nos tempos bíblicos, decidia sobre o


casamento?

Sansão tomou a decisão de casar-se com uma moça filisteia que


encontrara em suas andanças e constrangeu seus pais a apoiá-lo
no seu propósito. Mas o pai da moça deu-a em casamento a
um amigo de Sansão. Mais tarde, ele ofereceu-lhe a filha mais
nova como compensação. O apóstolo Paulo, cerca de mil anos
depois, recomendaria em sua carta aos coríntios que os pais de-
veriam decidir se deveriam ou não dar suas filhas em casamento.
Por mais estranho que isto possa nos parecer, nos tempos
bíblicos o normal era deixar que os pais decidissem com quem
os filhos deveriam se casar. O exemplo mais conhecido desse
costume é a história de Labão. Na noite de núpcias, ele entregou
a Jacó sua filha Lia, no lugar de Raquel, por quem este lhe havia
servido por sete anos (Gn 29.14). Este costume ainda vigora em
muitos lugares do mundo, como em algumas regiões da China.
Na cultura ocidental ele persistiu até o século 19!
Gênesis 24
7 “o Senhor, o Deus dos céus, que me tirou da casa de meu pai e de minha
terra natal e que me prometeu sob juramento que à minha descendência
daria esta terra, enviará o seu anjo adiante de você para que de lá traga
uma mulher para meu filho. 8 Se a mulher não quiser vir, você estará livre
do juramento. Mas não leve o meu filho de volta para lá.” 9 Então o servo
pôs a mão debaixo da coxa de Abraão, seu senhor, e jurou cumprir aquela
palavra. 10 O servo partiu, com dez camelos do seu senhor, levando tam-
bém do que o seu senhor tinha de melhor. Partiu para a Mesopotâmia, em
direção à cidade onde Naor tinha morado.11 Ao cair da tarde, quando as
mulheres costumam sair para buscar água, ele fez os camelos se ajoelharem
junto ao poço que ficava fora da cidade. 12 Então orou: “Senhor, Deus do
meu senhor Abraão, dá-me neste dia bom êxito e seja bondoso com o meu
senhor Abraão.13 Como vês, estou aqui ao lado desta fonte, e as jovens do
povo desta cidade estão vindo para tirar água.14 Concede que a jovem
a quem eu disser: Por favor, incline o seu cântaro e dê-me de beber, e ela
me responder: ‘Bebe. Também darei água aos teus camelos’, seja essa a que
escolheste para teu servo Isaque. Saberei assim que foste bondoso com o meu
senhor”.
15 Antes que ele terminasse de orar, surgiu Rebeca, filha de Betuel, filho
de Milca, mulher de Naor, irmão de Abraão, trazendo no ombro o seu
cântaro. 16 A jovem era muito bonita e virgem; nenhum homem tivera
25
relações com ela. Rebeca desceu à fonte, encheu seu cântaro e voltou. 17 O servo
apressou-se ao encontro dela e disse:: “Por favor, dê-me um pouco de água do
seu cântaro”. 18 “Beba, meu senhor”, disse ela, e tirou rapidamente dos ombros o
cântaro e o serviu. 19 Depois que lhe deu de beber, disse: “Tirarei água também
para os seus camelos até saciá-los”. 20 Assim ela esvaziou depressa seu cântaro
no bebedouro e correu de volta ao poço para tirar mais água para todos os ca-
melos. 21 Sem dizer nada, o homem a observava atentamente para saber se o
Senhor tinha ou não coroado de êxito a sua missão. 22 Quando os camelos aca-
baram de beber, o homem deu à jovem um pendente de ouro de seis gramas[b]
e duas pulseiras de ouro de cento e vinte gramas[c], 23 e perguntou: “De quem
você é filha? Diga-me, por favor, se há lugar na casa de seu pai para eu e meus
companheiros passarmos a noite”. 24 “Sou filha de Betuel, o filho que Milca deu
a Naor”, respondeu ela; 25 e acrescentou: “Temos bastante palha e forragem, e
também temos lugar para vocês passarem a noite”.

4.2 Quem decidiu com quem Isaque deveria se casar?

A história narrada em Gênesis 24 nos remete a este assunto.


Abraão provavelmentegostado de ter podidoescolher uma es-
posa para o filho. Mas, aos 140 anos de idade, já não estava em
condições de fazer a longa viagem até Harã. Por isso, incumbiu
seu escravo de confiança para desempenhar este papel.
Ao chegar em Harã, Eliezer ficou apavorado ao se dar con-
ta da quantidade de moças casadouras que havia naquela grande
cidade. Então ele orou e pediu para Deus lhe indicar a moça
certa por meio de um sinal. Aquela que atendesse seu pedido por
um copo d'água e que, além disto – sem ser solicitada – desse de
beber aos 10 camelos da sua caravana, seria a indicada. Para en-
tender este sinal é preciso lembrar que um camelo sedento pode
beber 40 litros de água para ficar saciado. As mulheres costuma-
vam buscar água no poço descendo as escadarias até chegar à lâ-
mina d'água. O sinal que Eliezer havia pedido também revelaria
o caráter da jovem, pois para corresponder a ele, ela precisaria ser
atenciosa com um forasteiro desconhecido, demonstrar compai-
xão pelos animais e disposição para uma tarefa penosa!
Rebeca atendeu ao pedido do viajante idoso e espontane-
amente fez tudo o que este pedira a Deus. Ao observá-la silen-
ciosamente,Eliezer reconheceu na atitude prestativa e abnegada
da moça que Deus havia atendido sua oração.
26

4.3 O que esta história tem para nos ensinar?

É importante lembrar que este foi o primeiro casamento da era


dos patriarcas! Ele nos ensina como a decisão de casar deve ser
vista entre o povo de Deus. A Bíblia relata que não foi Abraão,
nem seu servo que decidiram com quem Isaque deveria se ca-
sar, como era costume na época. Também não foi Isaque. É
evidente que esta história nos diz que unir um casal, entre o
povo de Deus, não é atribuição nem dos pais (conforme o cos-
tume daquela época), nem dos nubentes (como se convencionou
na sociedade ocidental). Eliezer observou que o próprio Deus
guiou essa decisão. Ao ouvirem o relato de Eliezer, tanto Rebe-
ca como Isaque reconheceram e acolheram o agir de Deus.
Assim, por meio deste episódio da vida dos patriarcas,
Deus revelou a seu povo, de todas as épocas, que a fé no Criador
implica a crença no fato que ele continua criando uma parcei-
ra idônea para cada homem, e vice-versa, assim como fez com
Adão e Eva.
Portanto, a questão crucial não é “Com quem casare-
mos nossos filhos?”, nem, “Com quem eu quero casar?”, mas,
sim, “Com quem Deus quer que eu me una?”. Esta não é uma
pergunta retórica. Jesus confirmou este propósito fundamental
do Criador para com cada casal quando afirmou: “O que Deus
uniu…" (Mt 19.6).

4.4 O que significa “ser unido por Deus”?

Isaque não teve nenhuma participação na escolha de sua esposa.


No entanto, ao ouvir o relato de Eliezer, ele reconheceu que
Deus havia conduzido tudo. Por isso “levou Rebeca para a ten-
da da sua mãe Sara; fez dela sua mulher e a amou" (Gn 24.67).
Quando esta passagem foi traduzida do hebraico para o gre-
go, os tradutores não fizeram uso da palavra grega para o amor
conjugal (“eros”), mas usaram a palavra que descreve o amor
abnegado de Deus (“ágape”). Somente este amor “que não busca
27
os seus interesses” preserva o amor conjugal, impedindo-o de
afundar no egoísmo. No casamento, o amor de Deus molda o
amor conjugal (“eros”), o amor fraternal (“filia”) e o amor pater-
no (“storge”)2.
Ser unido por Deus no casamento, portanto, não se refere
a algo que nós podemos fazer. Também não se refere a uma
cerimônia realizada em uma igreja, mas, sim, à aceitação de que
Deus nos criou e nos guia para partilharmos a vida. Assim, é
fundamental que o casal reconheça que o casamento deve ser
guiado por Deus. Faz bem o casal que já começa seu relacio-
namento buscando a vontade de Deus! Da história de Isaque e
Rebeca depreendemos que os sinais da direção divina tem a ver
com o caráter! Eliezer observou em silêncio a dedicação presta-
tiva de Rebeca, qualidade que faria dela uma boa esposa. O es-
critor sagrado menciona que Isaque estava voltando do campo,
onde fora meditar, quando conheceu Rebeca. Isto indica que ele
não se achava dono do seu nariz, mas vivia na dependência de
Deus, outra qualidade indispensável para a vida do casal!

4.5 Deus guia todos os casais?

Deus é e continua sendo o Criador e tem um bom propósito


para cada pessoa, incluindo o casamento! Assim, podemos crer
que seu plano também inclui unir o casal. Essa união não é ini-
ciativa nossa! Por isso, mesmo aquele que se casou sem antes
perguntar se era essa a vontade divina, pode descobrir os sinais
do guiar divino e do seu propósito gracioso ao olhar para trás.
O exemplo a seguir ilustra bem esse fato.
Certa mulher veio me procurar,angustiada com o seu ca-
samento. Ela e o marido se davam bem e viviam em harmonia.
Amboshaviam abraçado a fé em Jesus havia pouco tempo, mas-
debatiam-se com a dúvida: “Será que foi mesmo Deus que nos
uniu?”. O motivo deste questionamento era que a esposa, quando

2 Ravi Zacharias: https://www.youtube.com/watch?v=g526Frm-_kE sitio consultado em


26/10/2015.
28
solteira, havia consultado uma cartomante que lhe dissera para ir
a um determinado baile pois ali encontraria o homem com quem
se casaria. Ela foi ao baile, conheceu um moço e acabou se casan-
do com ele. Anos mais tarde, os dois se converteram e passaram
a ter dúvidas se de fato fora Deus que os unira ou a cartomante.
É certo quefoi Deus que os uniu e não a cartomante! Com
os “olhos do coração” iluminados pela fé esse casal aprendeu a
perceber que, mesmo quando ainda viviam errantes pela vida,
o Criador já estava conduzindo seus passos. Para realizar o seu
propósito Deus pode usar até mesmo o caminho equivocado da
busca por uma cartomante. Mas ambos só vieram a perceber
isso depois que entregaram suas vidas a Jesus. Eles reconhece-
ram que o propósito de Deus ao uni-los era conduzir ambos à
fé em Jesus!

Questionamento final: Você é capaz de detectar os sinais de


que Deus está guiando sua vida conjugal? O fato de Deus guiar
sua vida o compromete com atitudes e comportamentos especí-
ficos? Quais?

Oração: Agradeça pelos sinais do guiar gracioso de Deus em


sua vida. Renove, juntamente com seu cônjuge, o compromisso
com o propósito divino para o casamento.
29
05
Da poligamia à monogamia

O objetivo desse estudo é procurar compreender como Deus


quer moldar o casamento, entre o seu povo, em meio aos mode-
los corrompidos de vida matrimonial que nos cercam.

Gênesis 30
1 Quando Raquel viu que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã.
Por isso disse a Jacó: “Dê-me filhos ou morrerei!” 2 Jacó ficou irritado e dis-
se: “Por acaso estou no lugar de Deus, que a impediu de ter filhos?” 3 Então
ela respondeu: “Aqui está Bila, minha serva. Deite-se com ela, para que
tenha filhos em meu lugar e por meio dela eu também possa formar famí-
lia”. 4 Por isso ela deu a Jacó sua serva Bila por mulher. Ele deitou-se com
ela, 5 Bila engravidou e deu-lhe um filho. 6 Então Raquel disse: “Deus
me fez justiça, ouviu o meu clamor e deu-me um filho”. Por isso deu-lhe o
nome de Dã. 7 Bila, serva de Raquel, engravidou novamente e deu a Jacó
o segundo filho. 8 Então disse Raquel: “Tive grande luta com minha irmã e
venci”. Pelo que o chamou Naftali. 9 Quando Lia viu que tinha parado de
ter filhos, tomou sua serva Zilpa e a deu a Jacó por mulher. 10 Zilpa, serva
de Lia, deu a Jacó um filho. 11 Então disse Lia: “Que grande sorte!” Por
isso o chamou Gade. 12 Zilpa, serva de Lia, deu a Jacó mais um filho.13
Então Lia exclamou: “Como sou feliz! As mulheres dirão que sou feliz”.
Por isso lhe deu o nome de Aser. 14 Durante a colheita do trigo, Rúben saiu
ao campo, encontrou algumas mandrágoras[c]e as trouxe a Lia, sua mãe.
Então Raquel disse a Lia: “Dê-me algumas mandrágoras do seu filho”. 15
Mas ela respondeu: “Não lhe foi suficiente tomar de mim o marido? Vai to-
mar também as mandrágoras que o meu filho trouxe?” Então disse Raquel:
“Jacó se deitará com você esta noite, em troca das mandrágoras trazidas
pelo seu filho”. 16 Quando Jacó chegou do campo naquela tarde, Lia saiu ao
seu encontro e lhe disse: “Hoje você me possuirá, pois eu comprei esse direito
com as mandrágoras do meu filho”. E naquela noite ele se deitou com ela.
32

5.1 Quais as semelhanças entre a família de Jacó e a


realidade das famílias à nossa volta?

No mundo atual, são tantos os modelos de família que já não


sabemos mais definir o que é de fato uma família! Quando olha-
mos à nossa volta, podemos distinguir diferentes tipos de fa-
mília: famílias sem pai, com dois pais ou com duas mães, com
filhos vindo de relacionamentos anteriores, e muitos outros mo-
delos. Essa situação causa desconforto às pessoas que vêm de
um ambiente familiar “tradicional”, mas não é uma novidade
exclusiva do nosso tempo.
Lemos em Eclesiastes 1.9 que “o que foi tornará a ser, o
que foi feito se fará novamente; não há nada de novo debaixo
do sol”! Quem relê a história do patriarca Jacó a partir desta
perspectiva conclui que ela não é muito diferente da confusão
reinante nas famílias de hoje. Jacó teve filhos com quatro mu-
lheres. Seus relacionamentos familiares eram deveras conflitu-
osos e tensos, como se pode deduzir das palavras de Lia a Jacó:
“Hoje você me possuirá, pois eu comprei esse direito com as
mandrágoras do meu filho”.

5.2 Qual a influência do ambiente na vida conjugal


dos patriarcas?

Para entender o que a Bíblia ensina sobre o casamento preci-


samos lembrar que Deus chamou o patriarca Abraão para a fé
dentro de um contexto pagão e idólatra. Em um ambiente onde
ninguém conhece ao Senhor, ninguém pergunta pela vontade do
Criador. Isto forçosamente se reflete nos relacionamentos huma-
nos, a começar pelo casamento. A cultura do antigo orienteera
marcada pela poligamia, pela prostituição (inclusive religiosa!) e
pelas práticas homossexuais (vide Sodoma e Gomorra!).
Deus chamou seu povo para fora desta realidade. Eles
continuariam a viver neste mundo, mas não deveriam perten-
cer mais a ele! Mas, o povo eleito de Deus sempre volta para a
33
sarjeta: Abraão teve um filho com a escrava por desconfiar da
promessa de Deus; Jacó tornou-se polígamo porque seu passado
de mentiras o alcançou; Elcana, o pai de Samuel, vivia atormen-
tado pelas intrigas de suas mulheres (1Sm 1.1-10); o rei Davi
começou um harém e seu filho Salomão chegou a ter 700 mu-
lheres e 300 concubinas, igualando-se aos reis pagãos da época!

Provérbios 5
15 Beba das águas da sua cisterna, das águas que brotam do seu próprio
poço.
16 Por que deixar que as suas fontes transbordem pelas ruas, e os seus ri-
beiros pelas praças?
17 Que elas sejam exclusivamente suas, nunca repartidas com estranhos.18
Seja bendita a sua fonte! Alegre-se com a esposa da sua juventude. 19 Ga-
zela amorosa, corça graciosa; que os seios de sua esposa sempre o fartem de
prazer, e sempre o embriaguem os carinhos dela.20 Por que, meu filho,
ser desencaminhado pela mulher imoral? Por que abraçar o seio de uma
leviana?

Malaquias 2
13 Há outra coisa que vocês fazem: Enchem de lágrimas o altar do Senhor;
choram e gemem porque ele já não dá atenção às suas ofertas nem as aceita
com prazer. 14 E vocês ainda perguntam: “Por quê?” É porque o Senhor é
testemunha entre você e a mulher da sua mocidade, pois você não cumpriu
a sua promessa de fidelidade, embora ela fosse a sua companheira, a mulher
do seu acordo matrimonial. 15 Não foi o Senhor que os fez um só? Em
corpo e em espírito eles lhe pertencem. E por que um só? Porque ele desejava
uma descendência consagrada. Portanto, tenham cuidado: Ninguém seja
infiel à mulher da sua mocidade. 16 “Eu odeio o divórcio”, diz o Senhor, o
Deus de Israel, “e também odeio homem que se cobre de violência como se
cobre de roupas”, diz o Senhor dos Exércitos. Por isso, tenham bom senso;
não sejam infiéis.

1 Timóteo 3
2 É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mu-
lher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; …4
Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele,
com toda a dignidade. 5 Pois, se alguém não sabe governar sua própria
família, como poderá cuidar da igreja de Deus? … 12 O diácono deve ser
marido de uma só mulher e governar bem seus filhos e sua própria casa.
34

5.3 Como entender as histórias de poligamia no


Antigo Testamento

Ficamos admirados ao notar que nos relatos da Bíblia sobre fa-


mílias polígamas não há juízos morais. Os autores bíblicos não
expressam nenhuma condenação porque eles sabiam que não
eram juízes! Reconheciam que cabia somente a Deus julgá-los.
Eles simplesmente relatam os fatos, e ao fazê-lo não deixam
dúvidas de que Deus continuou cuidando destas famílias sem
discriminação. Vejamos alguns exemplos: o Senhor cuidou de
Hagar e Ismael no deserto; os filhos das quatro mulheres de Jacó
se tornaram os ancestrais das doze tribos de Israel; Deus conce-
deu um filho a Ana que mais tarde se tornou líder do seu povo;
Salomão, o segundo filho de Davi com Bate-Seba, sucedeu seu
pai no trono.
Destes relatos aprendemos uma lição importante: Não
importa quão confusa possa ser a história de uma família, Deus
não deixará de se importar com cada um de seus membros. Nós
somos chamados não para julgar essas pessoas, mas para ajudá
-las a experimentar o cuidado divino.
Ainda que os autores bíblicos não emitam juízos morais
sobre a poligamia, eles não se omitem de descrever a infelici-
dade que esse modelofamiliar gera no convívio familiar. O ser
humano pode fazer escolhas erradas, mas nunca poderá escolher
as consequências de suas escolhas! Por isso os autores bíblicos
descrevem com detalhes as angústias e amarguras dolorosas ge-
radas pelo desprezo da vontade do Criador quanto ao casamen-
to: Abraão ficou de coração partido ao ter de abandonar Hagar
e Ismael no deserto; Jacó assistiu o conflito entre suas mulheres
se perpetuar na vida deseus filhos, sem reagir. Além disso, Davi
teve que enfrentar a rebelião de seus filhos Absalão e Adonai.
O rei Salomão, ao final da sua vida, reconhece que perdera a
chance de ser feliz, e recomenda: “Alegre-se com a esposa da sua
juventude” (Pv 5.18).
Assim os autores bíblicos mostram que quem ignora a
35
vontade do Criador se priva da felicidade, isto é, o modelo de
família concebido por Deus, desde o início, é o do casamento
monogâmico. A Bíblia ensina claramente que "o homem deve
deixar pai e mãe e se unir à sua mulher (singular!!!), e eles se
tornarão uma só carne" (cf. Gn 2.24).
Portanto, ignorar esta vontade explícita de Deus no rela-
cionamento conjugal gera infelicidade. Através desse exemplo
negativo, a Bíblia nos induz a descobrir o propósito divino. Por
outro lado, o livro de Cantares descreve em termos positivos a
beleza e as alegrias de um relacionamento conjugal de acordo
com a vontade de Deus.
No desfecho do Antigo Testamento, o profeta Malaquias
afirma que os líderes espirituais do povo de Israel deveriam vi-
ver um relacionamento monogâmico exemplar (2.13-16). Da
mesma forma, o apóstolo Paulo recomenda aos líderes na igreja
que sejam “marido de uma só mulher” (1Tm 3.2,12). Desta ma-
neira, no decorrer da história, a fé no Criador moldou o perfil
do casamento monogâmico, predominante na cultura ocidental
por mais de um milênio.Por isso não podemos esquecer que o
alicerce de um casamento monogâmico abençoado é a fé obe-
diente ao Criador.

Questionamento final: Você entende que o chamado para o


casamento monogâmico se alicerça na fé obediente ao Criador?
Reconhece que não devemos julgar aqueles que não experimen-
tam esta dádiva preciosa? Entende que o nosso relacionamento
conjugal deve ajudar as famílias enfermas e desintegradas à nos-
sa volta? O mundo em que vivemos não precisa de juízo, mas de
exemplos práticos de amor e fidelidade!

Oração: Peça a Deus que ele o fortaleça a viver seu amor fiel no
matrimônio, de modo que você possa abençoar as famílias à sua
volta que estão em crise.
06

Foto: Pierre Amerlynck (http://pt.freeimages.com/)


Até que a morte os separe?
– o divórcio

6.1 Principais causas de divórcio:

Infidelidade, dinheiro, falta de comunicação, maus tratos, ví-


cios, expectativas não cumpridas, falta de tempo para cultivar o
relacionamento, distância física etc.
A revista Veja listou 5 motivos que levam homens e mulhe-
res à separação3:
Homens Mulheres
1. Relacionamento extraconjugal 1.Problemas de relacionamento entre os
2. Problemas de relacionamento entre o ca- cônjuges – desgaste da vida em comum e
sal – desgaste da vida em comum e falta de falta de respeito mútuo.
respeito mútuo. 2. Problemas de relacionamento com a fa-
3. Problemas de relacionamento com a fa- mília do cônjuge.
mília do cônjuge. 3. Problemas de relacionamento com os filhos.
4. Falta de dinheiro. 4. Falta de dinheiro.
5. Problemas de relacionamento com filhos 5. Relacionamento extraconjugal.

Um conselheiro matrimonial escreveu: “Estou convencido


de que a principal causa de divórcio não é o adultério, nem os
problemas financeiros, nem as diferenças irreconciliáveis. Esses
são na maioria das vezes os sintomas de um problema mais pro-
fundo. Embora esses problemas possam ser reais, eu acredito
que há um problema maior. O problema mais comum que eu
vejo com os casais que estão lutando no casamento é a falta de
investimento intencional em seu casamento"4.
3 http://www.infomoney.com.br/minhas-financas/planeje-suas-financas/noticia/2509147/
veja-motivos-que-levam-homens-mulheres-separacao Acessado em 15/9/2015
4 Kevin A. Thompson em http://familia.com.br/casamento/a-causa-numero-um-do-divorcio
Acessado em 15/9/2015
38
Deuteronômio 24
1 “Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por
encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e
a mandará embora.

Malaquias 2
16“Eu odeio o divórcio”, diz o Senhor, o Deus de Israel …

Mateus 19
3Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova. E pergunta-
ram-lhe: “É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer
motivo?” 4 Ele respondeu: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador
‘os fez homem e mulher’ 5 e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e
mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’?6 Assim,
eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu,
ninguém separe”. 7 Perguntaram eles: “Então, por que Moisés mandou dar
uma certidão de divórcio à mulher e mandá-la embora?” 8 Jesus respondeu:
“Moisés permitiu que vocês se divorciassem de suas mulheres por causa da
dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio. 9 Eu lhes
digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade
sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério”. 10 Os
discípulos lhe disseram: “Se esta é a situação entre o homem e sua mulher, é
melhor não casar”. 11 Jesus respondeu: “Nem todos têm condições de aceitar
esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado. 12 Alguns são eunu-
cos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros
ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar
isso, aceite”.

6.2 Por que os fariseus perguntaram a Jesus sobre o


divórcio?

Os fariseus conheciam a Bíblia muito bem. Sabiam que a lei


de Moisés permitia o divórcio, apesar de o profeta Malaquias
anunciar que Deus “odeia o divórcio”. Eles questionaram Jesus
para ver como ele se posicionaria diante desta contradição. Na
sua resposta, Jesus lembrou seus interlocutores do propósito
que o Criador expressou claramente em Gênesis 1 e 2, e que-
continua valendo para todos os casais: “…o que Deus uniu,
ninguém separe!"
Diante da vontade declarada do Criador, a lei de Moisés
não passa de uma concessão à fraqueza humana. Jesus explicou
que Moisés apenas permitira o divórcio por causa da nossa “du-
39
reza de coração”. Com isto, ele diagnosticou com precisão que a
causa mais profunda está no nosso coração endurecido.
O profeta Jeremias explica a relação entre a dureza de
coração e a rebeldia contra Deus: “Desde a época em que tirei os
seus antepassados do Egito até hoje, repetidas vezes os adver-
ti, dizendo: Obedeçam-me. Mas eles não me ouviram nem me
deram atenção; ao contrário, seguiram os seus corações duros e
maus” (Jr 11.7). Quem opta por seguir seus próprios planos cul-
tiva seu egoísmo, fica cego para a sua própria culpa e, ao mesmo
tempo, passa a culpar seu cônjuge. Já vimos que Adão, depois
da queda, agiu desta maneira ao reclamar: “Foi a mulher que me
deste por companheira”(Gn 3.12).
Em resumo: as causas de divórcio têm suas raízes mais
profundas na “dureza do nosso coração” que leva ao divórcio,
pois nos cega para a própria culpa e amplia a do outro!

6.3 Como preservar o casamento em meio às


tempestades

Se a “dureza de coração” é a raiz do problema, não adianta tratar


os sintomas. É preciso atacar pela raiz o mal que contamina a
vida do casal. O único tratamento eficaz é o evangelho de Je-
sus Cristo. Somente ele nos encoraja e nos capacita a lidar com
nossa pecaminosidade, porque só ele é capaz de nos livrar do
pecado. Vejamos como isto se aplica aos problemas do nosso
relacionamento conjugal:
1º Passo: aquietar-se! Em Efésios 4.26 Paulo recomen-
da: “Quando vocês ficarem irados, não pequem. Não se po-
nha o sol sobre a sua ira e não deem lugar ao Diabo”. Neste
conselho o apóstolo está interpretando o Salmo 4.4, que diz:
“Quando vocês ficarem irados, não pequem; ao deitar-se refli-
tam nisso, e aquietem-se”.
Este conselho leva em conta o fato de que enfrentaremos
dificuldades e problemas no relacionamento conjugal que nos fa-
rão ficar irados. Para “não devolver mal com mal” (Rm 12.17) é
40
preciso tirar um tempo para nos acalmarmos. Isto somente acon-
tece se a presença de Deus permanecer acima dos nossos proble-
mas – assim como o sol continua a brilhar por sobre as nuvens
mais escuras. O salmista canta: “O Senhor Deus é sol e escudo; o
Senhor concede favor e honra; não recusa nenhum bem aos que
vivem com integridade” (Sl 84.11). Quem não der ao seu coração
a oportunidade de aquietar-se diante de Deus, acabará cedendo
espaço ao inimigo, e então, tudo irá de mal a pior!
2º Passo: conversar! Tiago recomenda em sua carta que
tratemos nossa enfermidade maior, o pecado: “A oração feita
com fé curará o doente; o Senhor o levantará. E se houver co-
metido pecados, ele será perdoado. Portanto, confessem os seus
pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem cura-
dos. A oração de um justo é poderosa e eficaz" (Tg 5.15-16).
Trocando em miúdos: O casal deve conversar diante do
Senhor sobre suas feridas até que aquele que errou reconheça a sua
falta e o outro se disponha a pedir para Deus perdoá-lo. Quando
um confessa sua falta e o outro pede a Deus que o ajude a per-
doá-lo, ambos estão pedindo a mesma coisa. Neste caso, vale a
promessa de Jesus que diz: “Se dois de vocês concordarem na
terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso lhes será
feito por meu Pai que está nos céus”.(Mt 18.19).
Estes dois passos somente se tornam possíveis porque
Jesus assumiu nossa culpa e morreu pelos nossos pecados na
cruz, capacitando-nos a perdoar. Somente a graça de Deus é
eficaz para impedir que a vida do casal acumule lixo, poluindo
assim seu relacionamento.
Mateus 5.31-32
Foi dito: ‘Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de
divórcio’. Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher,
exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar
com a mulher divorciada estará cometendo adultério.

1 Coríntios 7.10-11
Aos casados dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: Que a esposa não se
separe do seu marido. Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então,
reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher.
41

6.4 Quando o divórcio é permitido?

Jesus só admite o divórcio numa situação bem específica: quando


o cônjuge insiste em não abandonar a “imoralidade sexual”. O
propósito de Jesus aqui é proteger o cônjuge que teme a Deus da-
quele que optou pela imoralidade, já que com sua persistência no
erro ele atesta que não se submete à vontade de Deus. O apósto-
lo Paulo menciona uma situação semelhante, em que o cônjuge
descrente decide separar-se do crente por causa de sua fé. Neste
caso, o crente deve consentir, porque não pode impor ao des-
crente o que somente a fé em Jesus compreende e possibilita.
Jesus nunca aprovou o divórcio, mas nunca tratou os di-
vorciados com desdém, como podemos conferir no seu encontro
com a mulher samaritana (Jo 4). Essa mulher teve cinco mari-
dos, e atualmente nãoestava casada com o homem com quem
convivia. Com delicadeza, Jesus lhe revela a fonte do amor de
Deus. O evangelho não registra o que Jesus disse à mulher, mas
o que ele disse à mulher adúltera vale também para esta mulher:
“Vá e abandone sua vida de pecado!” (Jo 8.11)

Questionamento final: Estamos dispostos a nos submeter


ao tratamento que a Palavra de Deus recomenda para que a
experiência do perdão renove nosso amor e fortaleça nossa
fidelidade e parceria?

Oração: Agradeça a Deus pelas crises conjugais que ele o


ajudou a superar e pela renovação do amor por meio de seu
perdão. Peça a ele que continue a conduzi-lo no aprendizado
prático da sua graça.
07

Foto: Zsuzsa N.K. (http://pt.freeimages.com/)


O casamento como parábola
do mistério de Cristo
Marcos 10
35 Nisso Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se dele e disseram:
“Mestre, queremos que nos faças o que vamos te pedir”. 36 “O que vocês
querem que eu lhes faça?”, perguntou ele. 37 Eles responderam: “Permite
que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquer-
da”. … 41 Quando os outros dez ouviram essas coisas, ficaram indignados
com Tiago e João. 42 Jesus os chamou e disse: “Vocês sabem que aqueles que
são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas impor-
tantes exercem poder sobre elas. 43 Não será assim entre vocês. Ao contrá-
rio, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; 44 e
quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. 45 Pois nem mesmo
o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida
em resgate por muitos”.

7.1 Como Jesus entende a autoridade ?

Ao responder ao pedido dos discípulos Tiago e João, Jesus inverte


os conceitos humanos de autoridade. De acordo com o sistema
desse mundo, aqueles que têm autoridade estão hierarquicamente
acima dos demais e “detêm o poder”, mas no Reino de Deus o lí-
der é aquele que está por baixo de todos e disposto a servir: “Quem
quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos”. Jesus inverte
não só a posição do líder, mas também o papel desempenhado
por ele, como podemos conferir na maneira de agir do próprio
Jesus. Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus desafiou-os a seguir
seu exemplo. Seu gesto aponta para o penoso caminho que ele
deveria percorrer até morrer na cruz. Sua paixão por nos redimir é
um serviço humilhante. A ordem para os discípulos seguirem seus
passos requer disposição para sofrer e tomar sobre si “a sua cruz”
(Mt 14.24). Só assim eles poderiam “seguir a verdade em amor” e
“crescer em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”. (Ef 4.15)
44
Somente quem assimilou essa lição elementar do Reino
de Deus é capaz de entender o que Paulo escreveu à igreja de
Corinto: “Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo
homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de
Cristo é Deus” (1Co 11.3) O apóstolo não está se referindo ao
modelo de hierarquia humano, nem recomendando que o ho-
mem se coloque acima da mulher para dominá-la. Ao contrário,
assim como Cristo se humilhou e veio até nós para nos servir,
assim o homem é o “cabeça” ao humilhar-se e servir à esposa e a
se dispor a sofrer para beneficiá-la!
Aprender a se humilhar e a servir em vez de “mandar” é
uma atitude desafiadora, pois exige que o orgulho natural dos
homens seja quebrado! Desde a queda os homens buscam “do-
minar” as mulheres. Somente aqueles que reconhecem o ma-
chismo como fruto da rebelião pecaminosa contra Deus, permi-
tem que o amor de Jesus opere neles esta transformação!
Efésios 5
21 Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo. 22 Mulheres, sujeite-se
cada uma a seu marido, como ao Senhor,23 pois o marido é o cabeça da
mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual
ele é o Salvador. 24 Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também
as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos. 25 Maridos, ame
cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por
ela 26 para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante
a palavra, 27 e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem
mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. 28 Da
mesma forma, os maridos devem amar cada um a sua mulher como a seu
próprio corpo. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo. 29 Além do mais,
ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida,
como também Cristo faz com a igreja, 30 pois somos membros do seu corpo.
31 “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os
dois se tornarão uma só carne.” 32 Este é um mistério profundo; refiro-me,
porém, a Cristo e à igreja. 33 Portanto, cada um de vocês também ame a
sua mulher como a si mesmo, e a mulher trate o marido com todo o respeito.
45

7.2 O que o relacionamento de Cristo com sua


igreja ensina ao casal?

Esse texto da carta aos Efésios tem provocado muita confusão.


Quem deixa de relacioná-lo com a ordem expressa de Jesus,
vê nesta afirmação uma justificativa para atitudes machistas de
dominação. Por isso, Paulo é visto por muitos como machista.
Mas esta confusão acontece apenas quando não se leva em conta
a inversão de hierarquia no Reino de Deus, ensinada e vivida
por Jesus. Por isso precisamos ter atenção dobrada para compre-
endermos o que o mistério da relação de Cristo com sua igreja
tem para ensinar aos casais cristãos.
No vs. 21 Paulo conclui sua admoestação anterior sobre
como devemos conviver na família de Deus. Ao mesmo tem-
po este versículo introduz uma aplicação deste ensino à vida do
casal cristão: "Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo".
Esta deve ser a característica fundamental no convívio entre ir-
mãos, tanto na igreja como no relacionamento conjugal. O casal
que pratica a submissão mútua torna visível e palpável o mistério
do amor entre Cristo e sua igreja. A seguir o apóstolo explica
pormenorizadamente como isto acontece.
Nos vs. 22-24, vemos como essa sujeição se aplica ao pa-
pel da mulher no casamento. Paulo de fato recomenda às mu-
lheres que se sujeitem aos seus maridos. Mas, ele não se refere
a uma sujeição imposta pelo marido. O complemento “como
ao Senhor” faz toda a diferença! Pois a submissão ao Salvador é
sempre voluntária. A mulher crente submete-se a Jesus esponta-
neamente, porque ela o ama. Agradecida pelo amor divino que
Jesus lhe concedeu, ela voluntariamente abre mão do seu “eu” e
aceita, em fé obediente, que ele transforme a sua vida! Assim a
fé em Jesus confere um caráter totalmente novo à submissão da
mulher ao marido, transformando a submissão voluntária em
uma expressão do amor divino (“ágape”) que não procura os seus
próprios interesses, mas serve com alegria!
Os vs. 25-31 aplicam a sujeição mútua do vs.21 ao marido.
Note que o apóstolo precisa argumentar mais demoradamente
para explicar a transformação que a fé precisa operar no homem!
Pela lógica do mundo, Paulo deveria concluir sua argumentação
afirmando: “mulheres, sejam submissas; maridos, mandem”. Mas
não é isto que ele escreve. Ao contrário, o apóstolo surpreende
os homens dizendo: “maridos, amem suas mulheres". Paulo usa
a mesma palavra grega “ágape” que descreve o amor abnegado
de Deus, que se dispõe a sofrer em prol do outro (veja 1 Co 13).
Portanto, para corresponder à atitude de Jesus, o marido é cha-
mado a espelhar-se no amor sacrificial dele! Sim, como Cristo, o
marido deve ser o cabeça, isto é, o primeiro a amar, o primeiro a
sofrer, o primeiro a perdoar, o primeiro a buscar a reconciliação.
Para isso, ele terá que negar a si mesmo, enfrentar e dominar a
sua natureza egoísta e adquirir a natureza de servo.
Mas alguém pode perguntar: “É realmente necessário que
alguém seja o primeiro responsável pelo amor no casamento?”
Uma comparação moderna pode ajudar-nos a compreen-
der o que o apóstolo está dizendo aqui. Num voo comercial,
sempre há um piloto e um copiloto. O copiloto é tão qualificado
quanto o piloto, mas como ainda precisa acumular horas de voo,
o copiloto muitas vezes passa mais tempo conduzindo a aero-
nave do que o comandante. Ambos receberam o mesmo treina-
mento e são igualmente capazes de pilotar o avião em condições
favoráveis em um "céu de brigadeiro". No entanto, nas situações
de emergência alguém precisa ser o primeiro a tomar decisões e
a conduzir o avião em segurança. Por isso o piloto é o coman-
dante da aeronave. Para que a parceria entre piloto e copiloto
funcione, é imprescindível que haja uma boa comunicação entre
eles e ambos estejam em sintonia. Esta sintonia é posta à prova
na hora da crise, mas é cultivada quando voam em céu claro!
Assim, na hora da crise, o casal precisa ter bem claro quem
é o primeiro responsável pelo amor, pelo perdão e pela reconci-
liação. A palavra de Deus não deixa dúvidas: o marido é o pri-
meiro responsável pelo amor, ele deve ser o “cabeça da mulher”.
Isso significa que no juízo final Deus vai perguntar ao homem
47
se ele tomou a iniciativa de amar, suportar, perdoar e reconciliar
nos momentos de crise! À mulher, ele irá perguntar se ela aco-
lheu e aceitou o amor e lhe correspondeu. A mulher é a segunda
responsável pelo amor! Se o primeiro responsável falhar, o se-
gundo – como num avião – deve assumir a liderança no amor.

7.3 Para crescer no amor é preciso exercitar a mutualidade

A explicação do apóstolo começa com a recomendação: “Sujei-


tem-se uns aos outros, por temor a Cristo”. Esta expressão “uns
aos outros” aparece em muitas outras recomendações. Não há
lugar melhor para exercitar a mutualidade do que o casamento.
Todo casal fará bem em conversar sobre os conselhos abaixo e
avaliar como está sua mutualidade! Isso irá ajudá-los a crescer
neste amor que espelha o amor de Cristo:
• Não provocar uns aos outros (Gl 5.26)
Não ter inveja uns dos outros. (Gl 5.26)
Ser humilde uns para com os outros (1 Pe 5.5)
Considerar uns aos outros (Hb 10.24)
Preferir e dar honra ao outro (Rm 12;10)
Saudar uns aos outros com beijo santo (Rm 16.16; 1Co 16.20;
2 Co 13.12; 1 Pe 5.14)
• Não mentir uns aos outros(Cl 3.9)
• Não julgar uns aos outros (Rm 14.13)
Suportar uns aos outros (Ef 4.2; Cl 3.13)
Perdoar uns aos outros (Mt 6.15; Cl 3.13)
• Ensinar uns aos outros (Cl 3.16)
• Aconselhar uns aos outros (Rm 15.14; Cl 3.16)
Exortar uns aos outros (1 Ts 5.11)
Confessar ospecados uns aos outros (Tg 3.16)
Orar uns pelos outros (Tg 3.16)
Consolar uns aos outros (1 Ts 4.18)
Encorajar uns aos outros (Hb 3.13; 10.25)
Edificar uns aos outros(1 Ts 5.11)
• Aceitar uns aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou (Rm 15.7)
Amar uns aos outros (Jo 13.34.; 15.12; 1 Ts 4.9; 1 Pe 1.22; 4.8;
1 Jo 2.11,23; 4.7,11; 2 Jo 1.5)
Dedicar-se uns aos outros com amor fraternal (Rm 12.10)
Ter uma mesma atitude uns para com os outros (Rm 12.16)
Servir uns aos outros (Gl 5.13; 1 Pe 4.10)
48

7.4 A vida de casal testemunha a obra de Cristo!

No v. 32 Paulo menciona oque acontecequando o casal tem um


rerelacionamento semelhante ao de Cristo com a sua igreja. Ao
se sujeitarem mutuamente neste amor que se doa e que serve,
marido e mulher testemunham o mistério da obra da salvação.
O amor sofredor que Deus tem pela humanidade perdida é in-
compreensível, mas ao observar um casal que “leva as cargas
pesadas um do outro” (Gl 6.2) o mundo tem diante de si uma
comparação palpável – ainda que frágil – do amor divino.
O v. 33 conclui o ensino, repetindo mais uma vez a atitu-
de recomendada.

Questionamento final: Estamos dispostos a abrir mão


dos esquemas de poder e dominação que regem o mundo? Es-
tamos prontos a permitir que Cristo molde o nosso casamento
com o seu amor abnegado, de modo a nos tornarmos uma pará-
bola viva do mistério do amor divino?

Oração: Senhor, tu sabes que minha vontade é dominar


sobre os outros e mandar neles, e sabes também como isto afeta
o casamento. Por isto louvo a Deus pelo seu amor incompará-
vel, que me liberta desta avidez de poder! Peço que seu Espírito
Santo me ajude a vivenciá-lo mais e mais no casamento e, assim,
testemunhar o mistério da sua salvação.

7.5 Deus os abençoe5


Deus lhes guarde as lembranças dos tempos altos e sublimes,
quando tiverem de caminhar por baixadas.
Que ele os aproxime um do outro por caminhos sempre renovados,
quando os poderes do mundo ameaçarem separá-los.

5 Bênção judaica – autor desconhecido: Tradução do alemão de Lindolfo Weingärtner


49
Que Deus inflame seus corações com amor primaveril,
quando a frieza e a monotonia outonal se alastrarem.
Que Deus lhes dê fantasia
para não perderem a capacidade de surpreender um ao outro
e lhes revele que jamais todas as portas estarão fechadas.
Que Deus presenteie vocês com o dom de gerar paz;
paz que não necessita sempre ficar com a razão.

Que Deus mantenha a capacidade de rir,


de modo que em tempos de cansaço
o vigor de vocês seja resguardado.
Que ele os mantenha dentro do redil do amor,
concedendo-lhes a distância e o respeito mútuos,
de modo que cada um possa continuar a ser
um mistério vivo para o outro,
E lhes dê paciência quando o outro fizer algo impensado,
e os ilumine com sabedoria para discernir
o que importa e o que não importa.

Que Deus lhes dê sensatez


para discernir o momento certo para dizer a palavra certa.
Vos revista de força e compaixão para perdoar um ao outro
quando a culpa os quiser separar.
Que Deus os guarde da crença de que nós humanos
tudo podemos ter e tudo podemos fazer,
e lhes conceda a serenidade e a sensatez para suportar as dificuldades.

Mas, antes de tudo,


Deus lhes dê percepção para enxergar os sinais da felicidade,
de modo que possam resguardar ternura e carinho até o final.

E assim os abençoe o Altíssimo,


o Eterno abençoe o seu caminho
de modo que, ao fim, um leve o outro ao reino celestial.
08

Foto: Samantha Villagran (http://pt.freeimages.com/)


Filhos são herança do Senhor
Gênesis 18
1 O Senhor apareceu a Abraão perto dos carvalhos de Manre, quando
ele estava sentado à entrada de sua tenda, na hora mais quente do dia.2
Abraão ergueu os olhos e viu três homens em pé, a pouca distância. Quando
os viu, saiu da entrada de sua tenda, correu ao encontro deles e curvou-
se até o chão. 3 Disse ele: “Meu senhor, se mereço o seu favor, não passe
pelo seu servo sem fazer uma parada. 4 Mandarei buscar um pouco d’água
para que lavem os pés e descansem debaixo desta árvore. 5 Vou trazer-
lhes também o que comer, para que recuperem as forças e prossigam pelo
caminho, agora que já chegaram até este seu servo”. “Está bem; faça como
está dizendo”, responderam. 6 Abraão foi apressadamente à tenda e disse
a Sara: “Depressa, pegue três medidas da melhor farinha, amasse-a e faça
uns pães”. 7 Depois correu ao rebanho e escolheu o melhor novilho, e o deu a
um servo, que se apressou em prepará-lo. 8 Trouxe então coalhada, leite e o
novilho que havia sido preparado, e os serviu. Enquanto comiam, ele ficou
perto deles em pé, debaixo da árvore. 9 “Onde está Sara, sua mulher?”,
perguntaram. “Ali na tenda”, respondeu ele. 10 Então disse o Senhor:
“Voltarei a você na primavera, e Sara, sua mulher, terá um filho”. Sara
escutava à entrada da tenda, atrás dele. 11 Abraão e Sara já eram velhos,
de idade bem avançada, e Sara já tinha passado da idade de ter filhos. 12
Por isso riu consigo mesma, quando pensou: “Depois de já estar velha e
meu senhor[c] já idoso, ainda terei esse prazer?” 13 Mas o Senhor disse a
Abraão: “Por que Sara riu e disse: ‘Poderei realmente dar à luz, agora que
sou idosa?’ 14 Existe alguma coisa impossível para o Senhor? Na prima-
vera voltarei a você, e Sara terá um filho”. 15 Sara teve medo, e por isso
mentiu: “Eu não ri”. Mas ele disse: “Não negue, você riu”.

Gênesis 1
27 Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem
e mulher os criou. 28 Deus os abençoou, e lhes disse: “Sejam férteis e mul-
tipliquem-se!”
52

8.1 Por que Abraão e Sara tiveram de esperar tanto


por um filho?

Quando Deus se revelou a Abraão e chamou-o para confiar nele,


ele já estava com 65 anos. Até o nascimento de Isaque se passa-
riam mais 35 anos! Durante esta longa espera Abraão tentou um
atalho, tendo um filho com a escrava Hagar (Gn 16.1-4). Quan-
do, enfim, o anjo anunciou-lhe que teria um filho, Sara riu e não
acreditou. Aos 90 anos achava isto impossível. Mas Abraão creu
e Deus os surpreendeu, cumprindo o que prometera.
Assim, Deus lhes ensinou a confiar em suas promessas:
“Sem se enfraquecer na fé, reconheceu que o seu corpo já estava
sem vitalidade, pois já contava cerca de cem anos de idade, e que
também o ventre de Sara já estava sem vigor. Mesmo assim não
duvidou nem foi incrédulo em relação à promessa de Deus, mas
foi fortalecido em sua fé e deu glória a Deus, estando plenamen-
te convencido de que ele era poderoso para cumprir o que havia
prometido”. (Rm 4.19-21) Apesar das evidências contrárias que
sempre querem se impor, nós também somos chamados a crer
que não “existe alguma coisa impossível para o Senhor”.
Através de Abraão e Sara Deus ensinoua todos que os
seguiriam na fé que filhos são um presente do Senhor. Ao se
tornarem pais, o homem e a mulher passam a desfrutar do pri-
vilégio de participar da maravilhosa obra do Criador! A comu-
nhão no casamento é o ambiente em que Deus dá continuidade
àobra de criação. As palavras que o Senhor disse ao primeiro
casalcontinuam valendo para os nossos dias: “Sejam férteis e
multipliquem-se".
Este propósito de Deus evidencia que o relacionamento
conjugal não é um fim em si mesmo. Não é um egoísmo a dois,
pois por meio dele somos inseridos pelo Criador no propósito
divino de dar continuidade à vida. Por isso a dedicação à próxi-
ma geração é um privilégio honroso concedido a cada casal. É
uma tarefa que jamais deve ser ignorada. Ao participar da obra
da criação os pais tornam-se instrumentos do milagre da vida.
53
E ao presenteá-los com filhos, o Senhor também os incumbe de
educá-los e ajudá-los a conhecer e amar a Deus. Esta uma tarefa
que não pode ser delegada nem à escola nem à igreja: é uma
tarefa que cabe aos pais!

8.2 A ordem “Sejam férteis e multipliquem-se!” é


válida também para nós?

Nas últimas décadas a família brasileira tem passado por pro-


fundas transformações, entre elas a diminuição de tamanho. Os
dados do IBGE6 mostram que até 1970 a mulher brasileira ti-
nha, em média, seis filhos. De lá para cá – como mostra a tabela
abaixo – este número decresceu para menos de dois filhos. Nos
estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais o índice é
de apenas 1,7 filhos por mulher.
Censos de número de filhos por mulher através dos anos
1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010
6,16 6,21 6,28 5,76 4,35 2,89 2,38 1,90
Esta tendência é consequência do aumento da urbaniza-
ção e da facilidade de acesso aos meios de controle da natalidade.
As dificuldades para sustentar uma família grande também con-
tribuem para essa diminuição no número de filhos, bem como
a priorização do consumo, o desejo por um estilo de vida mais
confortável e o sucesso profissional. O movimento feminista
também influi neste processo ao não valorizar a maternidade7 e
menosprezar a mulher que fica em casa cuidando dos filhos (ela
não “produz”!).
Poucos percebem que esta diminuição drástica da natali-
dade pode trazer dificuldades no futuro. Quando a média de fi-
lhos por mulher é inferior a 2,1 a população diminui e envelhece.
6 Sitio do IBGE: http://7a12.ibge.gov.br/vamos-conhecer-o-brasil/nosso-povo/nupcialidade
-e-fecundidade
7 Veja um diagnóstico secular desta influência na fala de Camille Paglia - Permissão para ser
mãe em https://www.youtube.com/watch?v=9PF59sI-jvk&feature=em-subs_digest
54
Assim, na próxima geração haverá uma quantidade menor de
pessoas responsável pelo sustento de um número maior de apo-
sentados. Quanto menor o númerode filhos, maiores serão os
encargos que eles terão de carregar quando seus pais ficarem
idosos! Além disso, o aumento da expectativa de vida contribui
ainda mais para o aumento desse ônus. A China incentivou por
40 anos a política de um filho por casal, e agora enfrenta os
problemas decorrentes dessa política, pois um único filho tem
que arcar pelo sustento dos pais e muitas vezes dos avós idosos!
Esta tendência também tem sidoamplamente difundida
nas igrejas. Numa pesquisa com jovens casais, cada entrevistado
precisava indicar quantos filhos desejava ter. O resultado foi re-
velador: enquanto que os maridos queriam 2 ou 3 filhos, as mu-
lheres, em média, não chegaram a um, e algumas delas sequer
pensavam em ter filhos.
Salmo 127
1 Se não for o Senhor o construtor da casa (da família),
será inútil trabalhar na construção.
Se não é o Senhor que vigia a cidade,
será inútil a sentinela montar guarda.
2 Será inútil levantar cedo e dormir tarde,
trabalhando arduamente por alimento.
o Senhor concede o sono àqueles a quem ele ama.
3 Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá.
4 Como flechas nas mãos do guerreiro são os filhos nascidos na juventude.
5 Como é feliz o homem que tem a sua aljava cheia deles!
Não será humilhado quando enfrentar seus inimigos no tribunal.

8.3 O que este salmo nos ensina sobre a vida em


família?

Este salmo nos oferece dois ensinamentos muito importantes:


Primeiro: Em hebraico, a palavra para “casa” também sig-
nifica “família”. Assim, o salmista aqui não está se referindo
a um prédio, mas às pessoas que vivem dentro dele! Por isso
essa passagem é melhor traduzida assim: “Se não for o Senhor
o construtor da família, será inútil trabalhar na construção”.
55
O convívio familiar não é obra nossa, pois é Deus quem une
o casal e lhe concede filhos! Quem, portanto, estabelece sua
família, ignorando o seu Criador, acabará frustrado, pois nin-
guém pode gerar sua própria felicidade! Sem a bênção divina
lhe "será inútil levantar cedo e dormir tarde"! Nosso Criador
deseja abençoar a família. Quando é ele que edifica e guia a
família, experimentamos verdadeira felicidade, que ele nos pre-
senteia por amor.
Segundo: O salmista nos lembra que “filhos são herança
do Senhor, uma recompensa que ele dá”. Criar filhos não é um
fardo, mas “uma recompensa”. Ao participar da obra do Criador
os pais se sentem realizados. Quem se sabe guiado e sustentado
pelo amor de Deus assume esta tarefa com alegria e disposição.
Não lamenta pelas renúncias nem pelos sacrifícios que tem que
fazer. Quando o casal não pode gerar seus próprios filhos, pode
e deve pedir a Deus que lhes dê disposição para adotá-los, para
também experimentarem esta bênção divina. Há muitas crian-
ças que carecem provar do amor de Deus que seus pais naturais
não puderam ou não quiseram lhes dar.

Questionamento final: O que deve nos influenciar como cris-


tãos, em nosso modo de pensar sobre filhos: as tendências da
sociedade em que vivemos ou a ordem divina que diz: “Sejam
férteis e multipliquem-se”? Reconhecemos que nossos "filhos
são herança do Senhor, uma recompensa que ele nos dá"? Nos-
sos filhos percebem que são prioridade para nós, e que estão
acimado trabalho ou do sucesso profissional?

Oração: Agradeça pelo privilégio de participar da obra da cria-


ção e pela dádiva dos filhos! Peça perdão por não levar a sério
as prioridades de Deus! Clame por ajuda paranos tornamos pais
que representam o Criador na vida dos filhos!
09

Foto: Benjamin Earwicker (http://pt.freeimages.com/)


Relacionamento entre pais e filhos
Êxodo 20
12 “Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que
o Senhor, o teu Deus, te dá.

Mateus 15
3 Respondeu Jesus: “E por que vocês transgridem o mandamento de Deus
por causa da tradição de vocês? 4 Pois Deus disse: ‘Honra teu pai e tua mãe’
e ‘Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe terá que ser executado’.5 Mas vocês
afirmam que se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: ‘Qualquer ajuda que
vocês poderiam receber de mim é uma oferta dedicada a Deus’, 6 ele não
está mais obrigado a ‘honrar seu pai’ dessa forma. Assim, por causa da sua
tradição, vocês anulam a palavra de Deus.7 Hipócritas! Bem profetizou
Isaías acerca de vocês, dizendo: 8 “‘Este povo me honra com os lábios, mas
o seu coração está longe de mim. 9 Em vão me adoram; seus ensinamentos
não passam de regras ensinadas por homens".

9.1 O que Deus nos ensina neste mandamento?

O amor dos pais pelos filhos é algo natural, que pode ser ob-
servado em todo o reino animal. Os canais de TV Discovery
e Animal Planet transmitem emocionantes documentários de
animais alimentando suas ninhadas e arriscando a própria vida
para protegê-las. Porém, o mesmo não acontece com o amor e
o respeito dos filhos pelos pais. Jamais veremos um animal ali-
mentando e honrando seus pais idosos.
Honrar pai e mãe, portanto, é um mandamento que con-
traria a natureza. O que ele ordena não faz parte da nossa natu-
reza e nos distingue dos outros animais Embora tenhamos muito
em comum com os animais, esse mandamento revela que o fato
de termos sido criados à “imagem de Deus” nos diferencia do
reino animal! No livro de Provérbios encontramos muitos conse-
lhos sobre como devemos honrar os pais: "O filho sábio acolhe a
58
instrução do pai, mas o zombador não ouve a repreensão". (13.1)
Uma das incumbências que Deus deu aos pais é ensinar
os filhos a respeitar pai e mãe. Inicialmente, o respeito aos pais
é uma proteção para os filhos, pois os ajuda a submeter-se a
eles enquanto ainda não são capazes de discernir os perigos do
mundo. Mas essa ordem divina não se aplica apenas às crianças
e jovens! Ela também vale para os filhos adultos no trato com-
pais idosos.
E, à medida que a expectativa de vida aumenta, essa res-
ponsabilidade cresce ainda mais, tornando-se cada vez mais
complexa. Até recentemente, o Brasil era um país com uma po-
pulação relativamente jovem. Mas o aumento do percentual de
idosos representa um desafio paraos filhos adultosdemonstrarem
esta atitude que corresponde ao ser criado à imagem de Deus.
Honrar os pais não é uma opção, mas sim um compromisso do
qual ninguém está dispensado. Por isto Jesus repreendeu aque-
les que desamparavam seus pais doando à igreja o dinheiro que
deveria ser usado para sustentá-los. Ao agir assim, eles revela-
vam que seus corações estavam longe de Deus.

9.2 Por que devemos respeitar e honrar nossos pais?

A resposta é muito simples: devemos respeitar e honrar nossos


pais porque Deus nos criou por meio deles! Não importa se eles ti-
nham consciênciadisto ou não. Fato é que atenderam ao mandato
de Deus: “Sejam férteis e multipliquem-se!” Assim, ao honrá-los,
nós reconhecemos que Deus nos criou através deles! Através de
nossos pais o Pai Eterno se faz presente em nós. Este fato jamais
pode ser anulado! Os pais podem cometer muitos erros, mas nada
desfaz o fato de que Deus, em seu amor, nos criou através deles.
Por isso, honrar e respeitar os pais é expressar temor e
respeito a Deus. O apóstolo Paulo escreveu em sua Carta aos
Efésios: “Por essa razão, ajoelho-me diante do Pai, do qual re-
cebe o nome toda a paternidade nos céus e na terra”. ( 3.14-15)
Paulo está ensinando que por detrás da paternidade de nossos
59
pais terrenos está a paternidade do Criador. Quem descobriu
Deus Pai e experimentou seu amor inigualável, aprende a olhar-
para as falhas dos seus pais com misericórdia, pois percebe que
o amor de Deus não foi impedido pelos erros deles.
Efésios 6
4Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o con-
selho do Senhor.

Lucas 2
41Todos os anos seus pais iam a Jerusalém para a festa da Páscoa.42Quan-
do ele completou doze anos de idade, eles subiram à festa, conforme o cos-
tume.43Terminada a festa, voltando seus pais para casa, o menino Jesus
ficou em Jerusalém, sem que eles percebessem.44Pensando que ele estava
entre os companheiros de viagem, caminharam o dia todo. Então começa-
ram a procurá-lo entre os seus parentes e conhecidos.45Não o encontrando,
voltaram a Jerusalém para procurá-lo.46Depois de três dias o encontraram
no templo, sentado entre os mestres, ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas.
47Todos os que o ouviam ficavam maravilhados com o seu entendimento
e com as suas respostas.48Quando seus pais o viram, ficaram perplexos.
Sua mãe lhe disse: “Filho, por que você nos fez isto? Seu pai e eu estávamos
aflitos, à sua procura”. 49Ele perguntou: “Por que vocês estavam me pro-
curando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?” 50Mas eles
não compreenderam o que lhes dizia.

Marcos 3
31Então chegaram a mãe e os irmãos de Jesus. Ficando do lado de fora,
mandaram alguém chamá-lo. 32Havia muita gente assentada ao seu re-
dor; e lhe disseram: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te procuram”.
33“Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?”, perguntou ele. 34En-
tão olhou para os que estavam assentados ao seu redor e disse: “Aqui estão
minha mãe e meus irmãos! 35Quem faz a vontade de Deus, este é meu
irmão, minha irmã e minha mãe”.

Mateus 10
32“Quem, pois, me confessar diante dos homens, eu também o confessarei
diante do meu Pai que está nos céus.33Mas aquele que me negar diante
dos homens, eu também o negarei diante do meu Pai que está nos céus.
34“Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas es-
pada.35Pois eu vim para fazer que “‘o homem fique contra seu pai, a filha
contra sua mãe, a nora contra sua sogra; 36os inimigos do homem serão os
da sua própria família’. 37“Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a
mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a
mim não é digno de mim;38e quem não toma a sua cruz e não me segue,
não é digno de mim.39Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua
vida por minha causa a encontrará.
60

9.3 A autoridade dos pais tem limite?

Muitos pais cristãos esquecem que sua autoridade é delegada e


subordinada a Deus! Ela não é absoluta nem ilimitada! Por ter
sido conferida por Deus, ela tem limites claros. Por isto Paulo
sublinha: “Pais,não irritem seus filhos”. (Ef 6.4) Obviamente o
apóstolo não está se referindo à irritação equivocada dos filhos
quando seus pais os contrariam. Pais irritam seus filhos quando
ignoram a instrução e o conselho do Senhor. Irritam os filhos
quando são incoerentes e hipócritas (dizendo uma coisa e fa-
zendo outra) ou quando exigem algo que contraria a Deus. Para
que isso não aconteça os pais primeiramente devem se submeter
à Deus, reconhecer sua própria insuficiência e que carecem da
graça perdoadora. Esse tipo de atitude deixa transparecer que os
pais também erram e querem apenas ajudá-los.
José e Maria também tiveram dificuldade com isso. Eles
procuraram seu filho pré-adolescente por três dias, em Jerusa-
lém. Quando o encontraram, eles não entenderam oque Jesus
estava fazendo na casa de seu Pai ! Anos mais tarde, Maria e
os irmãos de Jesus tentaram impedi-lo de exercer seu ministé-
rio. Mais uma vez, ele precisou lembrá-la que a autoridade dela
estava subordinada à vontade de Deus. Foi nessa ocasião que
Jesus afirmou: “Quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão,
minha irmã e minha mãe” (Mc 3.33), lembrando aos discípulos
essa prioridade:"Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a
mim não é digno de mim”.(Mt 10.37)

Questionamento final: Você reconhece que seus pais foram


instrumentos do Criador? Como podemos honrar nossos pais?
Estamos dispostos a entregar as falhas deles à misericórdia de
Deus e perdoá-los?

Oração: Agradeça por seus pais terem sido instrumentos do Cria-


dor na sua vida! Agradeça pelo cuidado que seus pais tiveram com
você e clame pela misericórdia de Deus sobre os seus erros.
61
10

Foto: M Nota (http://pt.freeimages.com/)


Ensinando e aprendendo
a confiar em Deus
Deuteronômio 6
1 “Esta é a lei, isto é, os decretos e as ordenanças, que o Senhor, o seu Deus,
ordenou que eu lhes ensinasse, para que vocês os cumpram na terra para a
qual estão indo para dela tomar posse.2Desse modo vocês, seus filhos e seus
netos temerão o Senhor, o seu Deus, e obedecerão a todos os seus decretos
e mandamentos, que eu lhes ordeno, todos os dias da sua vida, para que
tenham vida longa. 3Ouça e obedeça, ó Israel! Assim tudo lhe irá bem
e você será muito numeroso numa terra onde manam leite e mel, como
lhe prometeu o Senhor, o Deus dos seus antepassados. 4“Ouça, ó Israel:
o Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor. 5Ame o Senhor, o seu Deus, de
todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças. 6Que todas
estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração. 7 Ensine-as com
persistência a seus filhos. Converse sobre elas quando estiver sentado em
casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando
se levantar. 8Amarre-as como um sinal nos braços e prenda-as na tes-
ta. 9Escreva-as nos batentes das portas de sua casa e em seus portões. …
20“No futuro, quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘O que significam
estes preceitos, decretos e ordenanças que o Senhor, o nosso Deus, ordenou a
vocês?’ 21 Vocês lhes responderão: ‘Fomos escravos do faraó no Egito, mas
o Senhor nos tirou de lá com mão poderosa. 22 O Senhor realizou, diante
dos nossos olhos, sinais e maravilhas grandiosas e terríveis contra o Egito
e contra o faraó e toda a sua família. 23Mas ele nos tirou do Egito para
nos trazer para cá e nos dar a terra que, sob juramento, prometeu a nossos
antepassados. 24 o Senhor nos ordenou que obedecêssemos a todos estes de-
cretos e que temêssemos o Senhor, o nosso Deus, para que sempre fôssemos
bem-sucedidos e que fôssemos preservados em vida, como hoje se pode ver.
25E, se nós nos aplicarmos a obedecer a toda esta lei perante o Senhor, o
nosso Deus, conforme ele nos ordenou, esta será a nossa justiça’.

Provérbios 4
3Quando eu era menino, ainda pequeno, em companhia de meu pai, um fi-
lho muito especial para minha mãe, 4 ele me ensinava e me dizia: “Apegue-
se às minhas palavras de todo o coração; obedeça aos meus mandamentos, e
você terá vida. 5 Procure obter sabedoria e entendimento; não se esqueça das
minhas palavras nem delas se afaste. 6 Não abandone a sabedoria, e ela o
protegerá; ame-a, e ela cuidará de você. 7 O conselho da sabedoria é: Procure
obter sabedoria; use tudo o que você possui para adquirir entendimento. 8
Dedique alta estima à sabedoria, e ela o exaltará; abrace-a, e ela o honrará.
64

10.1 Quem é responsável pela educação dos filhos?

Educar os filhos não é uma tarefa dasbabás ou das escolas emui-


to menos das igrejas! É tarefa dos pais! Esta incumbência é mais
importante do que suas profissões e carreiras. A família jamais
pode ficar subordinada à carreira. Os pais devem zelar para que
suas carreiras profissionais e demais compromissos não venham
a ocupar uma posição indevida em suas vidas.
Escola e igreja podem apoiar, mas nunca substituir os
pais por um motivo bem simples: o ensino que elas oferecem é
dado coletivamente, para grupos de dez ou mais crianças numa
sala de aula. Além disso, é comum ocorrer trocas de professores
e orientadores no decorrer do ano! Cada criança precisa receber
atenção individual e contínua, que somente os pais podemdar.

10.2 Como devemos educar nossos filhos?

A palavra de Deus fala de uma questão que tem prioridade ab-


soluta na educação de uma criança: “Ouça, ó Israel: o Senhor, o
nosso Deus, é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de
todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças".
Se Deus ocupar o primeiro lugar em nossas vidas, então todas
as outras coisas estarão em seus devidos lugares. Se, no entanto,
ele for relegado a segundo plano, então tudo irá se subverter.
Por isto Jesus recomendou: “Busquem, pois, em primeiro lugar
o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão
acrescentadas”. (Mt 6.33)
Antes de tudo, porém, esta prioridade suprema precisa
estar no coração dos pais. Antes de ouvir as palavras dos pais,
os filhos observarão suas atitudes, pois estas endossam o que os
pais lhes “ensinam com persistência”. E persistir implica reser-
var tempo para “conversar” sobre o que Deus tem feito por nós
e o que ele quer de nós “quando estivermos sentado em casa, ou
andando pelo caminho, quando nos deitarmos” ou “ levantar-
mos”. Ao ensinar os filhos, os pais descobrirão que eles próprios
65
são ensinados por Deus neste processo! Pois o Espírito Santo
usa o testemunho do que Deus fez para que os filhos “adquiram
sabedoria e entendimento” e os pais se tornem maduros na fé,
de modo que todos cresçam e aprendam a confiar, a comparti-
lhar, a ouvir e acolher a palavra de Deus e, ao mesmo tempo,
ousem derramar o coração diante dele em oração.

10.3 Um conselho prático para compartilhar

Quando nossos filhos ainda eram pequenos um tio da minha


esposa compartilhou quatro conselhos sábios que muito nos aju-
daram e que podem muito bem ajudar outros pais8:
1. Uma criança de sete ou oito anos ainda não está em con-
dições de prever as consequências de suas ações. Por isto precisa
ser protegida. Se ficar à mercê de suas próprias decisões, ela se
tornará uma pessoa autoritária e tiranizará seus pais; ou, então,
ficará tímida e insegura pelas muitas decisões erradas que tomar.
Por isto cabe aos pais tomar decisões por ela, com clareza,
transparência e firmeza. Aqui aplica-se a palavra de Jesus: “Seja
o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do
Maligno”. (Mt 5.37) Os filhos pequenos devem aprender a obe-
decer respeitosamente aos pais, mesmo quando eles tomam uma
decisão que não lhes grada! Salomão testemunha: “Quando eu
era menino, ainda pequeno, em companhia de meu pai, um fi-
lho muito especial para minha mãe, ele me ensinava e me dizia:
'Apegue-se às minhas palavras de todo o coração; obedeça aos
meus mandamentos, e você terá vida'”. (Pv 4.1-4)
2. Conforme os filhos vão crescendo, eles precisam enten-
der os motivos que levam os pais a tomar determinadas decisões
e descobrir suas conexões com a vontade do Senhor. É funda-
mental que os filhos pré-adolescentes (de 8 a12 anos) percebam
que os pais servem ao Pai celeste. Nesta fase, os pais ainda to-
mam decisões pelos filhos, procurando explicar a eles o motivo
8 Condensado de WEINGAERNTER, Martin: Orando em Família 2004, pg 276ss. União
Cristã/Encontro – S.Bento do Sul/Curitiba, 2003
66
de suas decisões! Uma boa conversa os ajudará a discernir o que
é certo e o que é errado no emaranhado da vida. Para que isso
aconteça, os pais precisam entender claramente qual é a vontade
de Deus. Só a Palavra de Deus pode ajudá-los a descobrir isso!
O propósito da conversa é fazer com que os filhos entendam por
que devem obedecer aos pais. Isto pode parecer severo demais,
mas na verdade os protegerá de serem manipulados por terceiros!
3. Na adolescência (12-16 anos) os filhos devem mostrar
que o ensino ministrado pelos pais surtiu efeito. Os pais pre-
cisam aprender a deixá-los ensaiar seus próprios passos. Antes
porém, os filhos devem expor claramente aos pais suas decisões.
Quando o filho toma uma boa decisão, os pais devem elogi-
á-lo e encorajá-lo! Se estiver equivocado, a conversa deve ser
retomada. Esta supervisão pode ser cansativa, pois requer que
pais e filhos argumentem e avaliem suas decisões em conjunto!
Mas certamente todo este esforço vale a pena! Quando filhos e
pais descobrem que estão equivocados, tornam-se cada vez mais
próximos. É assim que os filhos ensaiam sua autonomia(o prin-
cípio da mutualidade que estudamos na lição 7 também pode
ser aplicado aqui).
4. A influência dos pais deve ir diminuindo aos poucos
A juventude é o tempo das grandes decisões da vida. Os filhos
precisam tomar uma decisão consciente sobre a vida profissio-
nal, escolher um parceiro de vida e definir-se pelo caminho da
fé. Depois dos 16 anos, os pais deveriam dar opiniões sobre a
vida dos filhos só quando solicitados! Pais que sempre dialoga-
ram com seus filhos e lhes deram oportunidade de apreciar sua
sabedoria, verão que os filhos não deixarão de consultá-los e de
lhes pedir conselhos diante de decisões importantes!
Este passo pode ser muito difícil principalmente para as
mães. Mas elas terão de ousá-lo, confiando em Deus. Os pais
podem e devem entregar os filhos em oração aos cuidados do
Pai celeste e recorrer sempre a ele, quando ficarem angustiados
e aflitos!
67
Questionamento final: Estamos dispostos a assumir a respon-
sabilidade de educar nossos filhos de acordo com a vontade de
Deus? Queremos ajudá-los a adquirir autonomia?

Oração: Senhor, a tarefa de educar filhos excede nossas forças e


capacidades! Vem e ajuda-nos, guiando-nos dia após dia! Con-
cede-nos crescer em sabedoria, a fim de que possamos compar-
tilhá-la com nossos filhos.
11
O lugar da disciplina

Provérbios 14
2 Quem anda direito teme o Senhor, mas quem segue caminhos enganosos
o despreza. 3A conversa do insensato traz a vara para as suas costas, mas
os lábios dos sábios os protegem

Provérbios 29
15 A vara da correção dá sabedoria, mas a criança entregue a si mesma
envergonha a sua mãe. 16Quando os ímpios prosperam, prospera o pecado,
mas os justos verão a queda deles.

Provérbios 26
3 O chicote é para o cavalo, o freio, para o jumento, e a vara, para as costas
do tolo! 4Não responda ao insensato com igual insensatez, do contrário
você se igualará a ele.

11.1 Que experiências você teve com a disciplina


quando criança?

Antigamente as experiências com disciplina eram muito seme-


lhantes para todas as crianças. Por isso os mais velhos contam
tantas histórias parecidas sobre sua educação. As variações ficam
por conta da severidade dos pais: um puxão de orelha, tapa ou chi-
nelada etc. Mesmo nas escolas, no passado, o castigo físico era co-
mum e não faltavam reguadas, tabefes e ajoelhar-se sobre grãos de
milho! Aliás, tudo isto era preferível a ser levado à sala do diretor.
A partir de 1970, no entanto, este cenário mudou. Os cas-
tigos físicos passaram a ser questionados e até mesmo conside-
rados crimes. A “lei da palmada”, promulgada em 2014 estabe-
lece: "A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e
cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou
degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou
70
qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família
ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores
de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada
de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los. Parágrafo
único. Para os fins desta Lei, considera-se: I - castigo físico:
ação de natureza disciplinar ou punitiva aplicada com o uso da
força física sobre a criança ou o adolescente que resulte em: a)
sofrimento físico; ou b) lesão; II - tratamento cruel ou degra-
dante: conduta ou forma cruel de tratamento em relação à crian-
ça ou ao adolescente que: a) humilhe; ou b) ameace gravemente;
ou c) ridicularize"9.
Provérbios 3
11 Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor nem se magoe com a sua
repreensão, 12pois o Senhor disciplina a quem ama, assim como o pai faz
ao filho de quem deseja o bem.

Provérbios 23
12Dedique à disciplina o seu coração, e os seus ouvidos às palavras que dão
conhecimento. 13 Não evite disciplinar a criança; se você a castigar com a
vara, ela não morrerá. 14Castigue-a, você mesmo, com a vara, e assim a
livrará da sepultura. 15Meu filho, se o seu coração for sábio, o meu coração
se alegrará.

11.2 Qual é o propósito do ensino bíblico sobre


disciplina?

O propósito da disciplina é proteger a criança da morte, "livrá-la


da sepultura". Isto pode parecer exagerado, mas não é. Lembre-
mos alguns exemplos: a cada ano, dezenas de milhares de pessoas
morrem em acidentes no trânsito por causa da indisciplina da-
queles que não aprenderam a obedecer as regras elementares de
trânsito. Assim a indisciplina causa mortes, como dirigirembria-
gado. Mas a falta de disciplina também afeta muitas outras áreas
9 LEI No- 13.010, de 26 de junho de junho de 2014 altera a Lei no 8.069, de 13 de julho
de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), para estabelecer o direito da criança e do
adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel
ou degradante, e altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União
Nº 121, sexta-feira, 27 de junho de 2014, pg. 2.
71
da vida. A profissão de professor torna-se cada vezmais difícil,
porque ele tem de lidar com turmas sempre mais indisciplinadas.
A disciplina que encontramos nas Escrituras não promove
a violência. Vejamos algumas características desta disciplina: 1)
A disciplina dos pais deve estar subordinada à “disciplina do
Senhor", que repreende e “disciplina a quem ama”. Assim a dis-
ciplina dos pais não deve jamais ser motivada pela raiva ou por
vingança, mas por eles desejarem o bem de seus filhos. 2) Antes
de disciplinar a criança, os pais devem "dedicar-se a disciplinar
o seu próprio coração". Isto é, eles precisam deixar-se disciplinar
por Deus em tudo. Para tanto seus ouvidos devem estar aten-
tos “às palavras que dão conhecimento”. Somente a palavra de
Deus pode ajudá-los a discernir a vontade de Deus e a agir em
conformidade com ela. Os filhos percebem quando seus pais
se submetem a esta disciplina! 3) Ao seguirem estes passos, os
pais aprenderão a aplicar a disciplina de Deus, amando-os! E
quem ama, aconselha, previne, repreende, priva e, como último
recurso, usa a vara, isto é: algo que causa dor, mas não machuca!
Esta é uma tarefa intransferível: “é você quem deve castigar seu
filho”, diz a palavra de Deus.
Provérbios 22 15
A insensatez está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina
a livrará dela.

Provérbios 10 12
O ódio provoca dissensão, mas o amor cobre todos os pecados. 13A sabedoria
está nos lábios dos que têm discernimento, mas a vara é para as costas da-
quele que não tem juízo. 14Os sábios acumulam conhecimento, mas a boca
do insensato é um convite à ruína.

11.3 Como posicionar-se diante da “lei da palmada”?

É preciso reconhecer a boa intenção da “lei da palmada”. Ela


quer coibir os maus tratos e a violência contra crianças, que não
podem ser tolerados. Pais crentes também podem abusar da au-
toridade paterna! O apóstolo Paulorecomenda aos pais que "não
irritem seus filhos” (Ef 6.4). A violência contra a criança pra-
72
ticada por adultos não pode ficar impune. A Bíblia inclui todo
tipo de violência e agressão no mandamento “Não matarás” (Êx
20.13; Dt 5.17 e Mt 5.21). É uma forma de Deus proteger a
vida, como bem explicou o reformador Martinho Lutero: “De-
vemos temer e amar a Deus e, por isso, não agredir nem ferir o
nosso próximo, masajudá-lo para que tenha tudo de que precisa
para viver”10.
Isto posto, é preciso constatar que a “lei da palmada” pro-
move dois equívocos: 1) Ela parte do princípio de que o ser huma-
no é bom por natureza, e não leva em consideração a inclinação
do ser humano para a rebeldia e para o mal. Esta é uma caracte-
rística que pode ser vista desde a infância, como bem confessa o
rei Davi: “Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me
concebeu minha mãe” (Sl 51.5). Salomão observa: “A insensatez
está ligada ao coração da criança”. Quando esta tendência ina-
ta não é corrigida pela disciplina, a criança tenderá a ultrapassar
todos os limites! O aumento da criminalidade juvenil é um bom
exemplo. 2) Esta lei garante direitos, mas omite deveres. Amarra
as mãos dos pais e professores, mas não diz o que fazer com as
crianças e jovens que passam dos limites. Por isso as instituições
governamentais que acolhem menores infratores não reeducam,
ao contrário, incentivam a criminalidade dos seus internos.
Se desejarem de fato proteger seus filhos do mal, os pais
cristãos precisam ser mais obedientes a Deus do que aos homens
(At 4.19). Assim, quando realmente for necessário, eles não se
submeterão às leis humanas e recorrerão à disciplina com a vara
como último recurso para proteger os filhos da insensatez e de
cometer loucuras. Os filhos aprenderão a obedecer com mais fa-
cilidade se perceberem antes, no convívio familiar, que seus pais
são gratos pela disciplina que receberam de seus próprios pais.

10 LUTERO, Martinho: Catecismo Menor, Explicação do quinto mandamento.


73
Questionamento final: Estamos prontos a deixar que Deus nos
corrija antes de disciplinarmos nossos filhos? Nossa motivação
para disciplinar os filhos é realmente o amor ou nossa irritação?

Oração: Pai de amor, agradeço por tua paciência. Ensina-


me a ser paciente. Obrigado pelo ensino da tua palavra e
ensina-me a falar o que corresponde à tua vontade. Agrade-
ço por tua repreensão e ensina-me a repreender com amor.
Obrigado pelas vezes que me disciplinaste, e ensina-me a
disciplinar com compaixão.
12

Foto: Joakim Buchwald (http://pt.freeimages.com/)


Pais fracassados
e a paternidade de Deus

2 Samuel 12
7“Você é esse homem!”, disse Natã a Davi. E continuou: “Assim diz o Se-
nhor, o Deus de Israel: ‘Eu o ungi rei de Israel e o livrei das mãos de Saul.
8Dei-lhe a casa e as mulheres do seu senhor. Dei-lhe a nação de Israel e
Judá. E, se tudo isso não fosse suficiente, eu lhe teria dado mais ainda. 9Por
que você desprezou a palavra do Senhor, fazendo o que ele reprova? Você
matou Urias, o hitita, com a espada dos amonitas e ficou com a mulher dele.
10Por isso, a espada nunca se afastará de sua família, pois você me despre-
zou e tomou a mulher de Urias, o hitita, para ser sua mulher’. 11“Assim
diz o Senhor: ‘De sua própria família trarei desgraça sobre você. Tomarei
as suas mulheres diante dos seus próprios olhos e as darei a outro; e ele se
deitará com elas em plena luz do dia. 12Você fez isso às escondidas, mas eu
o farei diante de todo o Israel, em plena luz do dia’”. 13Então Davi disse
a Natã: “Pequei contra o Senhor!” E Natã respondeu: “O Senhor perdoou
o seu pecado. Você não morrerá. 14Entretanto, uma vez que você insultou
o Senhor, o menino morrerá”.

Efésios 3
14 Por essa razão, ajoelho-me diante do Pai,15do qual recebe o nome toda
a família nos céus e na terra.16Oro para que, com as suas gloriosas rique-
zas, ele os fortaleça no íntimo do seu ser com poder, por meio do seu Espí-
rito,17para que Cristo habite no coração de vocês mediante a fé; e oro para
que, estando arraigados e alicerçados em amor,18vocês possam, juntamente
com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a
profundidade,19e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento,
para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus. 20Àquele que é
capaz de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos,
de acordo com o seu poder que atua em nós,21a ele seja a glória na igreja e
em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre! Amém!
76

12.1 Qual foi o desempenho do rei Davi como pai?

As lutas do rei Davi são bem conhecidas,assim como o seu


temor a Deus. Mas seu desempenho como pai de família é
pouco lembrado. Davi era polígamo, como todos os reis anti-
gos, e teve muitas mulheres. Mas mesmo assim teve um caso
extraconjugal com Bate-Seba, mulher de Urias. Para ocultar
seu envolvimento o rei ordenou que Urias fosse colocado na
frente de batalha, a fim de ser morto pelo inimigo. Davi foi
repreendido pelo profeta Natã, que lhe anunciou as consequ-
ênciasde seu pecado: “De sua própria família trarei desgraça
sobre você. Tomarei as suas mulheres diante dos seus próprios
olhos e as darei a outro; e ele se deitará com elas em plena luz
do dia. Você fez isso às escondidas, mas eu o farei diante de
todo o Israel, em plena luz do dia”.
Ao adulterar e tramar a morte de Urias, Davi rolou
como uma pedra ladeira abaixo. Apesar de ter se arrepen-
dido do seu pecado, ele teve que enfrentar as consequências
dos seus atos. Não podemos controlar as consequências das
escolhas que fazemos. Uma pedra colocada numa ladeira irá
correr ladeira abaixo até chegar ao vale. A Bíblia diz que o
pecado dos pais afetará até “a terceira e quarta geração” da-
queles que desprezam a Deus (Êx 20.5).
Assim, vemos que esta profecia de Natã começou a se
cumprir com o estupro de Tamar por Amnom, o filho mais ve-
lho do rei. Tamar era irmã de Absalão, que também era filho de
Davi (2 Sm 13). Davi, quando soube do ocorrido, ficou "indig-
nado", mas não fez nada. Dois anos depois, Absalão mandou
matar Amnom, para vingar sua irmã, e fugiu para o exterior.
Davi mais uma vez, ainda que irado, se omitiu. Anos mais tarde
pai e filho se reencontraram, mas não se reconciliaram de verda-
de. Depois disso, Absalão passoua conspirar secretamente para
depor seu pai. Ao conquistar Jerusalém, ele seguiu o conselho
de um correligionário e manteve relações com as concubinas de
Davi à vista de todo povo, no terraço do palácio. Fez isto para
77
se tornar repugnante e romper publicamente com seu pai (2 Sm
16.21). Nem a morte de Absalão fez parar a pedra que Davi
pôsa rolar com seu adultério. Quando já estava em seu leito de
morte, seu filho Adonias tentou outro golpe e, mais tarde, re-
petiu seu intento ao pretender casar-se com Abisague, a última
concubina de Davi, e acabou sendo executado por isto (1Rs 1.1-
10 e 3.13-25).
A Bíblia relata esta triste história para nos lembrar como
as atitudes dos pais estão conectadas ao seu próprio passado e,
ao mesmo tempo, interferem na vida dos filhos. De fato, é mais
fácil omitir-se do que repreender os filhos que repetem nossos
pecados. Mas a omissão de Davi só fez piorar as coisas.

12.2 Qual é o padrão legítimo de paternidade?

A maneira como desempenhamos a paternidade é influenciada


pelo modo como nossos pais agiram conosco, assim como nossas
atitudes tem influência sobre o modo de agir dos nossos filhos.
Como todos somos pecadores, não é difícil imaginar que o mal
se perpetua com facilidade. A lei de causa e efeito do mal afeta
a todos nós. Por isso necessitamos de um modelo de paternida-
de que não seja afetado e distorcido pelo mal! Mesmo quando
tentamos ser bons pais, o conflito entre justiça e amor persiste.
Se tentamos ser pais justos, certamente falharemos no amor. Se
optamos pelo amor, deixamos de ser justos.
Jesus nos revelou que só Deus exerce a paternidade sem
distorções. Nele “o amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e
a paz se beijarão” (Sl 84.10). Seu “amor leal… está com os que o
temem, e a sua justiça com os filhos dos seus filhos” (Sl 103.17).
Por isto Jesus nos ensinou a invocá-lo como “Abba”, papai!
O apóstolo Paulo aponta para o verdadeiro padrão de
paternidade ao escrever: “Por essa razão, ajoelho-me diante do
Pai, do qual recebe o nome toda a família nos céus e na terra". A
palavra grega traduzida aqui por “família” literalmente significa
“paternidade”. Deus é o Pai por excelência. Só ele é o verdadeiro
78
padrão de paternidade e, consequentemente também de família.
Isto significa que pais só podem exercer a paternidade de
modo legítimo quando permitem que a paternidade de Deus
molde seu modo de agir. É por esta transformação que o apóstolo
nos ensina a orar. Podemos e devemos pedir a Deus que,“com
as suas gloriosas riquezas, nos fortaleça no íntimo do nosso ser
com poder, por meio do seu Espírito, para que Cristo habite no
nosso coração mediante a fé”. Assim, “arraigados e alicerçados em
amor", conheceremos “o amor de Cristo que excede todo conhe-
cimento” e seremos preenchidos de “toda a plenitude de Deus”.
Só nesta dependência do Pai celeste podemos aprender
a ser bons pais e mães, apesar de nossa humanidade marcada
por erros e fraquezas. Deus aperfeiçoa quem o busca, pois “é
capaz de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou
pensamos”.Deus capacita pessoas como nós a se tornarem ins-
trumentos do seu amor e da sua justiça. Pais que foram perdo-
ados por Deus podem admitir suas faltas e erros e pedir perdão
aos filhos. Disciplinados e corrigidos pelo Pai Eterno, os pais
aprenderão a disciplinar seus filhos com amor e justiça!
Para os filhos, o padrão de paternidade de Deus significa
que os erros e equívocos de seus pais não são a última palavra.
O filho ou a filha que prova a paternidade de Deus, aprende a
distinguir entre o desamor dos pais terrenos e o amor divino.
Quem provou o coração paternal de Deus, aprende a olhar com
misericórdia as faltas dos pais terrenos. O Espírito Santo irá
guiá-los nesse processo de cura e reconciliação!

12.3 Como lidar com nosso passado na educação


dos filhos

Quando o padrão de paternidade divino é a verdadeira referên-


cia dos pais, eles não se apresentarão diante dos filhos como in-
falíveis. O fato de terem mais experiência do que seus filhos sig-
nifica apenas que já erraram mais na vida! Assim, os pais devem
admitir os erros que cometeram e as culpas que acumularam
79
no decorrer da vida. Pais perdoados podem compartilhar suas
experiências com a graça de Deus. Pais que desfrutam do per-
dão de Deus e estão sendo moldados por ele podem admitir sua
culpa diante dos filhos, pois pecados confessados e perdoados o
Diabo nunca poderá usar como arma secreta na vida dos filhos!

Questionamento final: Quem é o nosso padrão de paternidade,


nós mesmos ou Deus?

Oração: Papai do céu, obrigado porque és o modelo perfeito de


paternidade! Molda-nos para nos tornarmos semelhantes a ti!
Permita que nossos filhos percebam que o Senhor, e não nós, é
o nosso padrão!
13

Foto: Kelly S (http://pt.freeimages.com/)


Filhos rebeldes
e a acolhida graciosa de Deus

13.1 A família perfeita existe?

Quando conversamos sobre o tema família, não é difícil ouvir


comentários que idealizam o passado em contraste com os dias
de hoje. Mas isto é um equívoco. Basta olhar para a maneira
como os autores bíblicos retratam algumas famílias. Eles são
muito realistas. Não retratam uma única família perfeita. Os
conselhos que a Bíblia oferece aos cônjuges, aos pais e aos filhos
indicam que todos precisam aprender a deixar de lado suas ati-
tudes egoístas para desfrutar da bênção que Deus lhes quer dar.
Os problemas que desafiam o convívio familiar nos dias
de hoje certamente não são os mesmos de 30 ou 40 anos atrás.
A geração passada enfrentou seus próprios dilemas e nós, os
nossos. Aqueles que em tempos passados, moravam na roça ti-
nham que aprender a lidar com animais xucros ou com cobras
venenosas. No ambiente urbano atual, é preciso tomar cuidado
com o trânsito e com a internet. Mas tanto no passado como
nos dias de hoje, continua valendo o diagnóstico bíblico de que
toda família padece das consequências da queda. Cada geração
peca e amarga as consequências de suas escolhas. Este realis-
mo bíblico é doloroso, mas também consolador. Ao revelar que
Deus conhece nossas feridas e nosliberta da tentação de cultivar
aparências, a palavra de Deus nos encoraja a (1) encarar a rea-
lidade marcada pela culpa, e (2) aceitar a ajuda que Deus nos
oferece por meio de Jesus Cristo.
82

13.2 Como devemos lidar com um filho rebelde?

Certamente todos conhecemos uma ou mais famílias que en-


frentam esse problema. São muitas as situações de aflição e de-
sespero. Famílias com dependentes químicos deparam-se com
graves problemas na área de comportamento, que afetam a so-
ciabilidade, o lazer e o relacionamento com amigos e desestru-
turam o sistema familiar,abalando a saúde e gerandodistúrbios
psiquiátricos11.
Em situações como essas, os pais, bem como toda a so-
ciedade, vivem a tensão entre justiça e amor que podemos ver
retratada em duas passagens do Antigo Testamento:
Deuteronômio 21.18-21
Se um homem tiver um filho obstinado e rebelde que não obedece a seu pai
nem à sua mãe e não os escuta quando o disciplinam, o pai e a mãe o leva-
rão aos líderes da sua comunidade, à porta da cidade, e dirão aos líderes:
“Este nosso filho é obstinado e rebelde. Não nos obedece! É devasso e vive
bêbado”. Então todos os homens da cidade o apedrejarão até à morte. Eli-
minem o mal do meio de vocês. Todo o Israel saberá disso e temerá.

Oseias 11.1-4
Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei o meu filho. Mas,
quanto mais eu o chamava, mais eles se afastavam de mim. Eles ofereceram
sacrifícios aos baalins e queimaram incenso aos ídolos esculpidos. Mas fui
eu quem ensinou Efraim a andar, tomando-o nos braços; mas eles não per-
ceberam que fui eu quem os curou. Eu os conduzi com laços de bondade hu-
mana e de amor; tirei do seu pescoço o jugo e me inclinei para alimentá-los.

A lei mosaica não tolerava o desrespeito aos pais e reco-


mendava que os filhos rebeldes fossem tratados com severidade.
Em casos extremos, até mesmo com a morte. A lei de Moisés,
como toda justiça humana, era regida pelo princípio da retri-
buição, expresso na frase “olho por olho, dente por dente” (Êx
21.24; Lv 24.20 e Dt 19.21). Esta frase sintetiza a justiça huma-
na. Como não podemos desfazer o mal, punimos os malfeitores
de acordo com o mal que causaram. Foi baseado nesse princípio

11 Neliana FIGLIE, Andrezza FONTES, Edilaine MORAES e Roberta PAYÁ: Filhos de


dependentes químicos com fatores de risco bio-psicossociais: necessitam de um olhar especial?
Fonte: http://www.scielo.br/pdf/rpc/v31n2/a01v31n2
83
que o general Joabe executou Absalão, ainda que o rei Davi lhe
tivesse implorado para poupá-lo.
Já o profeta Oseias, ao descrever a paciência paternal de
Deus para com o povo de Israel, traça um perfil muito diferente
da atitude de um pai para com seu filho rebelde. Oseias descre-
ve Deus conduzindo seu povo “com laços de bondade humana
e de amor” e tirando do seu “pescoço o jugo” e se inclinando
para “alimentá-lo”. O profeta Isaías tem essa mesma percep-
ção da paternidade de Deus ao orar: “Tu, Senhor, és o nosso
Pai, e desde a antiguidade te chamas nosso Redentor”(Is 63.16).
Jesus revogou expressamente o conceito da retribuição ao afir-
mar: “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por
dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém
o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra” (Mt 5.38).
Na parábola do pai e seus dois filhos, ele retrata de modo insu-
perável como a paternidade de Deus reage à rebeldia dos filhos:

Lucas 15
11 Jesus continuou: “Um homem tinha dois filhos.12O mais novo disse
ao seu pai: ‘Pai, quero a minha parte da herança’. Assim, ele repartiu sua
propriedade entre eles. 13“Não muito tempo depois, o filho mais novo reu-
niu tudo o que tinha, e foi para uma região distante; e lá desperdiçou os
seus bens vivendo irresponsavelmente.14Depois de ter gasto tudo, houve
uma grande fome em toda aquela região, e ele começou a passar necessi-
dade.15Por isso foi empregar-se com um dos cidadãos daquela região, que
o mandou para o seu campo a fim de cuidar de porcos.16Ele desejava en-
cher o estômago com as vagens de alfarrobeira que os porcos comiam, mas
ninguém lhe dava nada. 17“Caindo em si, ele disse: ‘Quantos empregados
de meu pai têm comida de sobra, e eu aqui, morrendo de fome!18Eu me
porei a caminho e voltarei para meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o
céu e contra ti.19Não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me
como um dos teus empregados’.20A seguir, levantou-se e foi para seu pai.
“Estando ainda longe, seu pai o viu e, cheio de compaixão, correu para seu
filho, e o abraçou e beijou. 21“O filho lhe disse: ‘Pai, pequei contra o céu
e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho’. 22“Mas o pai
disse aos seus servos: ‘Depressa! Tragam a melhor roupa e vistam nele.
Coloquem um anel em seu dedo e calçados em seus pés.23Tragam o novilho
gordo e matem-no. Vamos fazer uma festa e alegrar-nos.24Pois este meu
filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado’. E começa-
ram a festejar o seu regresso. 25 “Enquanto isso, o filho mais velho estava
no campo. Quando se aproximou da casa, ouviu a música e a dança. 26
Então chamou um dos servos e perguntou-lhe o que estava acontecendo.
84
27 Este lhe respondeu: ‘Seu irmão voltou, e seu pai matou o novilho gordo,
porque o recebeu de volta são e salvo’. 28 “O filho mais velho encheu-se de
ira, e não quis entrar. Então seu pai saiu e insistiu com ele. 29 Mas ele
respondeu ao seu pai: ‘Olha! todos esses anos tenho trabalhado como um
escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens. Mas tu nunca me
deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos. 30 Mas quando
volta para casa esse teu filho, que esbanjou os teus bens com as prostitutas,
matas o novilho gordo para ele!’ 31 “Disse o pai: ‘Meu filho, você está
sempre comigo, e tudo o que tenho é seu. 32 Mas nós tínhamos que celebrar
a volta deste seu irmão e alegrar-nos, porque ele estava morto e voltou à
vida, estava perdido e foi achado’”.

13.3 O que a paternidade de Deus nos ensina?

O pai desta parábola nos ensina diversos aspectos importantes


da paternidade:
1. Ele é um pai justo. Quando o filho mais novo exige sua
herança, ele a “reparte” entre ambos os filhos! Não entrega-a so-
mente ao filho mais novo, talvezpor ser o filho predileto, como
Jacó fez com José (Gn 37.3). O pai reparte seus bens entre os
dois filhos, seguindo o costume judaico do “direito do filho mais
velho”,que estabelecia que o primogênito devia receber porção
dupla de tudo que o pai possuía (Dt 21.17).
2. Ele não manipula os filhos para impedi-los de errar. Ele
deixa que o filho mais novo vár embora e desperdice seus bens.
Também não impede que o filho mais velho registre e contabi-
lize os pecados do irmão, nem o obriga a participar da festa de
reconciliação.
3. Ele espera pela volta do filho mais novo com misericór-
dia, sem guardar ressentimento da dor e do prejuízo que este lhe
causara. Também vai ao encontro do filho mais velho e convida
-o a participar da festa, não se sentindo ofendido ao ser acusado
injustamente por ele (“tu nunca me deste nem um cabrito!”).
Nosso aprendizado como pais precisa contemplar esta pa-
ternidade de Deus, pois Jesus disse: “Sejam perfeitos como per-
feito é o Pai celestial de vocês” (Mt 5.48). Precisamos admitir
que não conseguimos ser misericordiosos e justos como Deus.
Mas, quando reconhecemos nossa imperfeição, ele nos capacita:
85
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Con-
forme a sua grande misericórdia, ele nos regenerou para uma
esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre
os mortos” (1Pe 1.3). Podemos então olhar para o filho rebelde
com o olhar misericordioso de Deus e aprender a interceder por
ele e a esperar pela sua regeneração. É um caminho longo, mas
precisamos perseverar nele, sem manipulação, aguardando uma
oportunidade de ir ao encontro dos filhoscom um amor gracioso.
Malaquias 4
5 “Vejam, eu enviarei a vocês o profeta Elias antes do grande e temível dia
do Senhor. 6Ele fará com que os corações dos pais se voltem para seus filhos,
e os corações dos filhos para seus pais; do contrário, eu virei e castigarei a
terra com maldição.”

João 1
10 Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por inter-
médio dele, mas o mundo não o reconheceu.11Veio para o que era seu, mas
os seus não o receberam. 12Contudo, aos que o receberam, aos que creram
em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, 13os quais
não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem
pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus. 14Aquele que é a
Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como
do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.

13.4 Como Jesus Cristo faz “com que os corações


dos pais se voltem para seus filhos, e os corações dos
filhos para seus pais” ?

Em Malaquias 4.5-6, Deus promete enviar um novo “Elias” que


promoveria a reconciliação plena das famílias: “Ele fará com que
os corações dos pais se voltem para seus filhos, e os corações dos
filhos para seus pais”.
Este novo “Elias” é Jesus Cristo! Só ele pode reconciliar
homens e mulheres, pais e filhos com Deus, por meio da fé e, as-
sim, integrá-los em sua família. A todos quantos “o receberam,
aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem
filhos de Deus” (Jo 1.12). Somente Jesus pode restituir em nós a
imagem de Deus perdida na queda. Ao morrer por nós na cruz
86
ele levou toda a nossa culpa, sofrendo o castigo que merecíamos.
Por isto, ao ressuscitar, ele obteve a vitória que liberta do mal e
possibilita vida nova.
Esta vida reconciliada começa já, possibilitando que tanto
cônjuges como pais e filhos exercitem o perdão e a reconciliação
e levem “as cargas uns dos outros” (Gl 6.2). Esta é uma longa jor-
nada, e requer paciência e perseverança para andarmos a “segunda
milha” com um filho ou filha, com o pai ou com a mãe, com um
irmão ou uma irmã (Mt 5.41). Ainda assim é um caminho das
trevas para a luz. Um dia provaremos com grande alegria a festa
da reconciliação plena e perfeita no Reino eterno de Deus.

Questionamento final: A nova vida em Cristo alterou seu rela-


cionamento familiar? Estamos dispostos a andar a segunda milha
com um filho “rebelde” mesmo que esta seja muito longa?

Oração: Pai celestial, graças te dou por tua paternidade inigua-


lável! Vista-nos com tua justiça e misericórdia para que nossos
filhos vejam teu modo de ser pai espelhado em nós. Obrigado
Jesus, por que vieste para nos reconciliar com o Pai e com nossas
famílias. Sem ti, ninguém poderia nos livrar da culpa! Obrigado
porque tomaste sobre ti a cruz e nos presenteaste com teu amor
restaurador.
87
14

Foto: Ophelia Cherry (http://pt.freeimages.com/)


Abuso em dose tripla
Juízes 19.1-20.7
1 Naquela época não havia rei em Israel. Aconteceu que um levita que vivia
nos montes de Efraim, numa região afastada, tomou para si uma concubi-
na, que era de Belém de Judá. 2 Mas ela lhe foi infiel. Deixou-o e voltou
para a casa do seu pai, em Belém de Judá. Quatro meses depois, 3 seu marido
foi convencê-la a voltar.
Ele tinha levado o seu servo e dois jumentos. A mulher o levou para dentro
da casa do seu pai, e quando seu pai o viu, alegrou-se. 4 O sogro dele o
convenceu a ficar ali; e ele permaneceu com eles três dias; todos comendo,
bebendo e dormindo ali. 5 No quarto dia, eles se levantaram cedo, e o levita
se preparou para partir, mas o pai da moça disse ao genro: “Coma alguma
coisa, e depois vocês poderão partir”. 6 Os dois se assentaram para comer e
beber juntos. Mas o pai da moça disse: “Eu lhe peço que fique esta noite, e
que se alegre”. 7 E, quando o homem se levantou para partir, seu sogro o
convenceu a ficar ainda aquela noite. 8 Na manhã do quinto dia, quando
ele se preparou para partir, o pai da moça disse: “Vamos comer! Espere até a
tarde!” E os dois comeram juntos.
9 Então, quando o homem, sua concubina e seu servo levantaram-se para
partir, o pai da moça, disse outra vez: “Veja, o dia está quase acabando, é
quase noite; passe a noite aqui. Fique e alegre-se. Amanhã de madruga-
da vocês poderão levantar-se e ir para casa”. 10 Não desejando ficar outra
noite, o homem partiu rumo a Jebus, isto é, Jerusalém, com dois jumentos
selados e com a sua concubina.
11 Quando estavam perto de Jebus e já se findava o dia, o servo disse a
seu senhor: “Venha. Vamos parar nesta cidade dos jebuseus e passar a noite
aqui”. 12 O seu senhor respondeu: “Não. Não vamos entrar numa cidade
estrangeira, cujo povo não é israelita. Iremos para Gibeá”. 13 E acrescentou:
“Ande! Vamos tentar chegar a Gibeá ou a Ramá e passar a noite num desses
lugares”.
14 Então prosseguiram, e o sol se pôs quando se aproximavam de Gibeá
de Benjamim. 15 Ali entraram para passar a noite. Foram sentar-se na
praça da cidade. E ninguém os convidou para passarem a noite em sua casa.
16 Naquela noite um homem idoso procedente dos montes de Efraim e que
estava morando em Gibeá (os homens do lugar eram benjamitas), voltava
de seu trabalho no campo. 17 Quando viu o viajante na praça da cidade, o
homem idoso perguntou: “Para onde você está indo? De onde vem?” 18 Ele
respondeu: “Estamos de viagem, indo de Belém de Judá para uma região
afastada, nos montes de Efraim, onde moro. Fui a Belém de Judá, e agora
estou indo ao santuário do Senhor. Mas aqui ninguém me recebeu em casa.
90
19 Temos palha e forragem para os nossos jumentos, e para nós mesmos, que
somos seus servos, temos pão e vinho, para mim, para a sua serva e para o
jovem que está conosco. Não temos falta de nada”. 20 “Você é bem-vindo
em minha casa”, disse o homem idoso. “Vou atendê-lo no que você precisar.
Não passe a noite na praça.” 21 E os levou para a sua casa e alimentou os
jumentos. Depois de lavarem os pés, comeram e beberam alguma coisa.
22 Quando estavam entretidos, alguns vadios da cidade cercaram a casa.
Esmurrando a porta, gritaram para o homem idoso, dono da casa: “Traga
para fora o homem que entrou em sua casa para que tenhamos relações com
ele!” 23 O dono da casa saiu e lhes disse: “Não sejam tão perversos, meus
amigos. Já que esse homem é meu hóspede, não cometam essa loucura. 24 Ve-
jam, aqui está minha filha virgem e a concubina do meu hóspede. Eu as tra-
rei para vocês, e vocês poderão usá-las e fazer com elas o que quiserem. Mas,
nada façam com esse homem, não cometam tal loucura!” 25 Mas os homens
não quiseram ouvi-lo. Então o levita mandou a sua concubina para fora, e
eles a violentaram e abusaram dela a noite toda. Ao alvorecer a deixaram.
26 Ao romper do dia a mulher voltou para a casa onde o seu senhor estava
hospedado, caiu junto à porta e ali ficou até o dia clarear. 27Quando o seu
senhor se levantou de manhã, abriu a porta da casa e saiu para prosseguir
viagem, lá estava a sua concubina, caída à entrada da casa, com as mãos na
soleira da porta. 28Ele lhe disse: “Levante-se, vamos!” Não houve resposta.
Então o homem a pôs em seu jumento e foi para casa.
29Quando chegou, apanhou uma faca e cortou o corpo da sua concubina em
doze partes, e as enviou a todas as regiões de Israel. 30Todos os que viram
isso disseram: “Nunca se viu nem se fez uma coisa dessas desde o dia em
que os israelitas saíram do Egito. Pensem! Reflitam! Digam o que se deve
fazer!” 201 Então todos os israelitas, de Dã a Berseba, e de Gileade, saíram
como um só homem e se reuniram em assembleia perante o Senhor, em Mis-
pá. 2Os líderes de todo o povo das tribos de Israel tomaram seus lugares na
assembleia do povo de Deus, quatrocentos mil soldados armados de espada.
3(Os benjamitas souberam que os israelitas haviam subido a Mispá.) Os
israelitas perguntaram: “Como aconteceu essa perversidade?”
4Então o levita, marido da mulher assassinada, disse: “Eu e a minha con-
cubina chegamos a Gibeá de Benjamim para passar a noite. 5 Durante a
noite os homens de Gibeá vieram para atacar-me e cercaram a casa, com a
intenção de matar-me. Então violentaram minha concubina, e ela mor-
reu.6 Peguei minha concubina, cortei-a em pedaços e enviei um pedaço a
cada região da herança de Israel, pois eles cometeram essa perversidade e esse
ato vergonhoso em Israel. 7 Agora, todos vocês israelitas, manifestem-se e
deem o seu veredicto”.

1Samuel 11
6 Quando Saul ouviu isso, o Espírito de Deus apoderou-se dele, e ele ficou
furioso. 7 Apanhou dois bois, cortou-os em pedaços e, por meio dos mensa-
geiros, enviou os pedaços a todo o Israel, proclamando: “Isto é o que aconte-
cerá aos bois de quem não seguir Saul e Samuel”. Então o temor do Senhor
caiu sobre o povo, e eles vieram unânimes.
91

14.1 Quais as situações de abuso que detectamos


nestes relatos?

A Bíblia relata uma história terrível. Mas assim como no estudo


sobrea poligamia, o autor bíblico não emite juízo de valor, li-
mitando-se a narrar os fatos ocorridos, de modo a fazer o leitor
refletir, à luz da vontade revelada de Deus.
Como muitas histórias de abuso, esta também começa
de modo inofensivo: “Um levita … tomou para si uma concu-
bina”. Certamente não faltaram juras de amor por parte dele,
mas estas, ao que tudo indica, não parecem ter durado muito.
Mas ela “lhe foi infiel”, deixou-oe “voltou para a casa do seu
pai”. Alguns meses depois, o marido vai atrás dela e consegue
convencê-la a voltar. O narrador bíblico não dá detalhes de
como ele conseguiu que ela voltasse, mas certamente não fal-
taram juras de amor.
O texto relata a seguir que o levita e seu sogro “se as-
sentaram para comer e beber juntos”. Percebemos aqui a pri-
meira situação de abuso. Trata-se de um abuso emocional
gerado pela atitude do marido, que não é condizente com a
promessa feita. O levita havia prometido amá-la, mas logo
demonstra indiferença.
A seguir vemos umacena terrível ocorrida em Gibeá, mar-
cadapela atitude covarde tanto do hospedeiro como do marido,
ao enfrentar os homens depravados daquele lugar. Para prote-
ger seus hóspedes, o dono da casa, como Ló em Sodoma (Gn
19.7s.), não hesita emoferecer sua própria filha: “Vejam, aqui
está minha filha virgem e a concubina do meu hóspede. Eu as
trarei para vocês, e vocês poderão usá-las e fazer com elas o que
quiserem". Diante da ameaça real, o levita pôs "sua concubi-
na para fora”. Aindiferença que o marido havia manifestado na
casa do sogro se transforma em um desprezo cruel.
A mulher acabou sendo violentada e abusada durante toda
a noite, e só a deixaram ao alvorecer. O que mais choca no relato
bíblico é que o autor conta que “a mulher voltou para casa, caiu
92
junto à porta e ali ficou até o dia clarear". Podemos ler nas entre-
linhas que ninguém a socorreu! O marido dormiu, e ao acordar,
não se comoveu com “sua concubina, caída à entrada da casa,
com as mãos na soleira da porta”. Nem percebeu que ela estava
morta, pois ordenou-lhe que levantasse.Assim, o desprezo levou
ao descaso. – Esta segunda cena descreve o abuso praticado pelos
homens de Gibeá e pelo marido, ao expor sua mulher.
O terceiro abuso foi póstumo, pois o levita levou o cadáver
damulher para casa e convocou o povo de Israel para a guerra, à
semelhança do que Saul faria anos mais tarde. Este cortou dois
bois em pedaços e, por meio de mensageiros, os enviou a todo o
Israel, proclamando: “'Isto é o que acontecerá aos bois de quem
não seguir Saul e Samuel”. Todo o povo entendeu orecado, pois
“o temor do Senhor caiu sobre o povo, e eles vieram unânimes”
(1 Sm 11.6-7). A atitude do levita, no entanto, difere da de
Saul num aspecto significativo. Para evitar prejuízo, o levita não
sacrificou um animal do seu rebanho. Em vez disso, esquartejou
sua mulher e enviou os pedaços docorpoàs tribos. Todos ficaram
horrorizados e, então, o levita contou-lhes o que havia aconteci-
do, omitindo, porém sua covardia e insensibilidade e fazendo-se
de vítimapara impressionar: “Eu e a minha concubina chegamos
a Gibeá … para passar a noite. Durante a noite os homens de
Gibeá vieram para atacar-me e cercaram a casa, com a intenção
de matar-me. Então violentaram minha concubina, e ela mor-
reu". Este último abuso consiste em valer-se da desgraça dos
outros para se sair bem.
Juízes 19 conta a história desse levita, alguém que, entre
todos os israelitas, tinha o privilégio e a obrigação de conhecer
a palavra de Deus, para mostrar que o ser humano, inclusive os
líderes religiosos, é capaz de cometer abusos, pois toda a huma-
nidade carece da glória de Deus (Rm 3.23).
Mateus 18
15 “Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o
erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. 16 Mas se ele não o ouvir,
leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja
confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’. 17 Se ele se re-
93
cusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja,
trate-o como pagão ou publicano. 18 “Digo-lhes a verdade: Tudo o que
vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que vocês desliga-
rem na terra terá sido desligado no céu. 19 “Também lhes digo que se dois
de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem,
isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus. 20 Pois onde se reunirem
dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles”. 21 Então Pedro
aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes deverei per-
doar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” 22 Jesus
respondeu: “Eu lhe digo: Não até sete, mas até setenta vezes sete.21 Então
Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes deverei
perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” 22
Jesus respondeu: “Eu lhe digo: Não até sete, mas até setenta vezes sete. 23
“Por isso, o Reino dos céus é como um rei que desejava acertar contas com
seus servos. 24 Quando começou o acerto, foi trazido à sua presença um que
lhe devia uma enorme quantidade de prata[f]. 25 Como não tinha condi-
ções de pagar, o senhor ordenou que ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que
ele possuía fossem vendidos para pagar a dívida. 26 “O servo prostrou-se
diante dele e lhe implorou: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo’. 27
O senhor daquele servo teve compaixão dele, cancelou a dívida e o deixou
ir. 28 “Mas quando aquele servo saiu, encontrou um de seus conservos, que
lhe devia cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Pague-
me o que me deve!’ 29 “Então o seu conservo caiu de joelhos e implorou-lhe:
‘Tenha paciência comigo, e eu lhe pagarei’. 30 “Mas ele não quis. Antes,
saiu e mandou lançá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. 31 Quando
os outros servos, companheiros dele, viram o que havia acontecido, ficaram
muito tristes e foram contar ao seu senhor tudo o que havia acontecido. 32
“Então o senhor chamou o servo e disse: ‘Servo mau, cancelei toda a sua
dívida porque você me implorou. 33 Você não devia ter tido misericórdia
do seu conservo como eu tive de você?’ 34 Irado, seu senhor entregou-o aos
torturadores, até que pagasse tudo o que devia. 35 “Assim também lhes fará
meu Pai celestial, se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão”.

14.2 O que dizer a quem sofreu abuso?

Quando Tamar foi abusada por Amnom, seu irmão Absalão


procurou consolá-la dizendo: “Acalme-se, minha irmã; ele é seu
irmão! Não se deixe dominar pela angústia”. Mas, essas palavras
não foram de grande ajuda, pois ela continuou “muito triste”
e solitária em sua vergonha e dor (2 Sm 13.20). Jesus propõe
algo diferente. Ele convida: “Venham a mim, todos os que estão
cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem
sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e
94
humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas
almas" (Mt 11.28-30).
O Filho de Deus promete dar alívio a todos aqueles que
o buscam, tirando o peso que os oprime e sobrecarrega e co-
locando em seu lugar uma canga leve. Ele tira a opressão su-
focante do medo, da amargura, do ódio e da raiva e coloca
sobre nós o “jugo” do amor divino, que nos capacita a per-
doar até mesmo o inimigo que nos maltrata. Este jugo pode
parecerpesado, mas, na verdade, é leve e proporciona alívio.
Quem experimentou a canga do amor divino pode confirmar.
Na oração do Pai-Nosso Jesus ensina-nos a pedir sempre que
nos renove a capacidade de perdoar, que somente Deus pode
nos dar: “Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos
aos nossos devedores” (Mt 6.12).
Quando uma pessoa abusada corre perigo é nosso dever
encorajá-la a denunciar o agressor e ajudá-la a encontrar gua-
rida e proteção. Mas promover apenas a denúncia não basta,
pois esta, por si só, muitas vezes apenas piora a situação da ví-
tima de abuso. Acolhimento e proteção, no entanto, implicam
envolvimento e custos. A disposição de envolver-se e assumir
responsabilidade revela se de fato amamos a pessoa ou se são
meras palavras. Mais trabalhoso ainda é ajudar a pessoa abusada
a olhar para sua situação com o olhar misericordioso de Deus.
Somente pela intervenção do Espírito Santo a pessoa é capaz de
perdoar quem a feriu.

Mateus 5
27 “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. 28 Mas eu lhes digo:
Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério
com ela no seu coração. 29 Se o seu olho direito o fizer pecar, arranque-o
e lance-o fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ser todo ele
lançado no inferno. 30 E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lan-
ce-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para
o inferno.
95

14.3 Como devemos tratar o abusador?

É grande a tentação de assumirmos uma atitude moralista e olhar-


mos para o abusador com um olhar altivo. Jesus identificou esta
atitude quando judeus piedosos lhe trouxeram uma mulher flagra-
da em adultério,dizendo-lhes: “Se algum de vocês estiver sem pe-
cado, seja o primeiro a atirar pedra nela”. Então todos eles foram
se afastando,“começando pelos mais velhos” (Jo 8.1-11), porque
estes logo perceberam que Jesus via além das aparências piedosas.
A transformação que Deus quer operar em nós interfere em
nossa maneira de pensar e desejar! Esta luta interior é marcada por
muitos fracassos! Para disfarçá-los, tentamos apontar o erro dos
outros. Mas Jesus bloqueia este subterfúgio: “Por que você repara
no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga
que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu ir-
mão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no
seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá
claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão”. (Mt 7.3-5).
Para podermos repreender e chamar outros ao arre-
pendimento, precisamos primeiro reconhecer o nosso peca-
do! Podemos aprender isso com o apóstolo Paulo, que no
final da sua vida escreveu: “Esta afirmação é fiel e digna de
toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os
pecadores, dos quais eu sou o pior. Mas por isso mesmo al-
cancei misericórdia, para que em mim, o pior dos pecadores,
Cristo Jesus demonstrasse toda a grandeza da sua paciência,
usando-me como um exemplo para aqueles que nele have-
riam de crer para a vida eterna”. (1 Tm 1.15).
Quando permitimos que o Senhor trate nossa própria
natureza contaminada pelo mal, começamos a convalescer.
Como convalescentes, ainda não estamos curados, mas estamos
“melhorando no Senhor”, e podemos convidar e ajudar outras
pessoas a experimentarem os cuidados deste médico. Somente
neste espírito podemos e devemos chamar o abusador ao arre-
pendimento e à mudança de atitude.
96
Tiago 2
1 Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não
façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade.2 Supo-
nham que na reunião de vocês entre um homem com anel de ouro e roupas
finas, e também entre um pobre com roupas velhas e sujas. 3 Se vocês derem
atenção especial ao homem que está vestido com roupas finas e disserem:
“Aqui está um lugar apropriado para o senhor”, mas disserem ao pobre:
“Você, fique em pé ali”, ou: “Sente-se no chão, junto ao estrado onde ponho
os meus pés”, 4 não estarão fazendo discriminação, fazendo julgamentos
com critérios errados?
5 Ouçam, meus amados irmãos: Não escolheu Deus os que são pobres aos
olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que ele prometeu
aos que o amam? 6 Mas vocês têm desprezado o pobre. Não são os ricos
que oprimem vocês? Não são eles os que os arrastam para os tribunais? 7
Não são eles que difamam o bom nome que sobre vocês foi invocado? 8 Se
vocês de fato obedecerem à lei do Reino encontrada na Escritura que diz:
“Ame o seu próximo como a si mesmo”, estarão agindo corretamente. 9 Mas
se tratarem os outros com parcialidade, estarão cometendo pecado e serão
condenados pela Lei como transgressores.

14.4 Qual deve ser a postura adequada de quem


segue a Jesus?

O contrário do abuso é o respeito! A Bíblia afirma muitas vezes


que Deus não faz acepção de pessoas! O apóstolo Paulo é enfático
quando afirma: ”Pois em Deus não há parcialidade” (Rm 2.11;
cf. Dt 10.16 e At 10.34). Se Deus é assim, aqueles que se deixam
moldar por ele também não discriminarão! O apóstolo resume a
postura coerente do discípulo nas palavras: “Uma vez que vocês
chamam Pai aquele que julga imparcialmente as obras de cada
um, portem-se com temor durante a jornada terrena de vocês”
(1Pe 1.17). Tiago, o irmão de Jesus, em sua carta, exemplifica as
implicações da fé em um mundo dividido entre ricos e pobres.
Assim o respeito a todas as pessoas é um compromisso inalienável
que decorre da fé. Para o cristão, “não há judeu nem grego, escra-
vo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo
Jesus”. (Gl 3.28) Este respeito se estende até para aqueles que nos
hostilizam e nos agridem. Só o Espírito Santo pode gerar em nós
este comportamento e fazer com que perseveremos nele.
97
Questionamento final: Percebemos o sofrimento à nossa volta?
Sentimos compaixão real pelas vítimas de abuso? Reconhece-
mos nosso potencial de maldade (como o “pior dos pecadores”),
antes de chamarmos quem abusa ao arrependimento? Nossa
postura é semelhante à imparcialidade de Deus, que não discri-
mina ninguém?

Oração: Pai, muitas vezes nós temos uma visão limitada do


abuso, mas tu conheces esta dor em toda a sua dimensão. Reco-
nhecemos que não estamos imunes ao mal, por isso clamamos a
ti por socorro. Preserva-nos do mal e capacita-nos a aliviar a dor
dos que sofreram abuso e dá-nos coragem para chamar aqueles
que abusam ao arrependimento. Capacita-nos a sermos respei-
tosos para com todas as pessoas, e que através de nossas atitudes
todos percebam o teu amor.
15

Foto: Serkan GUL (http://pt.freeimages.com/)


Qual é a violência mais perigosa?
Gênesis 4.1-20
1 Adão teve relações com Eva, sua mulher, e ela engravidou e deu à luz
Caim. Disse ela: “Com o auxílio do Senhor tive um filho homem”. 2 Voltou
a dar à luz, desta vez a Abel, irmão dele. Abel tornou-se pastor de ovelhas,
e Caim, agricultor. 3 Passado algum tempo, Caim trouxe do fruto da terra
uma oferta ao Senhor. 4 Abel, por sua vez, trouxe as partes gordas das
primeiras crias do seu rebanho. O Senhor aceitou com agrado Abel e sua
oferta, 5 mas não aceitou Caim e sua oferta. Por isso Caim se enfureceu
e o seu rosto se transtornou. 6 O Senhor disse a Caim: “Por que você está
furioso? Por que se transtornou o seu rosto? 7 Se você fizer o bem, não será
aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja
conquistá-lo, mas você deve dominá-lo”. 8 Disse, porém, Caim a seu irmão
Abel: “Vamos para o campo”. Quando estavam lá, Caim atacou seu irmão
Abel e o matou. 9 Então o Senhor perguntou a Caim: “Onde está seu irmão
Abel?” Respondeu ele: “Não sei; sou eu o responsável por meu irmão?” 10
Disse o Senhor: “O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu
irmão está clamando. 11 Agora amaldiçoado é você pela terra, que abriu
a boca para receber da sua mão o sangue do seu irmão. 12 Quando você
cultivar a terra, esta não lhe dará mais da sua força. Você será um fugitivo
errante pelo mundo”. 13 Disse Caim ao Senhor: “Meu castigo é maior do
que posso suportar. 14 Hoje me expulsas desta terra, e terei que me escon-
der da tua face; serei um fugitivo errante pelo mundo, e qualquer que me
encontrar me matará”. 15 Mas o Senhor lhe respondeu: “Não será assim;
se alguém matar Caim, sofrerá sete vezes a vingança”. E o Senhor colocou
em Caim um sinal, para que ninguém que viesse a encontrá-lo o matasse.
16 Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de
Node, a leste do Éden.

15.1 O que aconteceu com Caim e Abel ?

A história de Caim e Abel começa bem! Quando Caim nas-


ceu, sua mãe declarou: “Com o auxílio do SENHOR tive um
filho homem”. Eva reconheceu que a vida é uma dádiva divina.
Com suas ofertas, Caim e Abel expressam que o sustento diário
também é providência divina. Nós muitas vezes esquecemos de
agradecer pelas refeições, mas eles ofereceram os frutos da terra
e as primeiras crias do seu rebanho.
100
O que é surpreendente neste relato é que o Senhor aceitou
com agrado a oferta de Abel, mas não a de Caim. Para entender
isto, é preciso lembrar que:1) o problema não está na oferta, pois
o sacrifício de um animal não é superior à oferenda de frutos da
terra. 2) a diferença está nas pessoas que ofereceram as ofertas
e está relacionada ao propósito com que fazem as ofertas, isto
é, em agradecimento ou com a intenção de obter algo de Deus.
A gratidão verdadeira não espera nada em troca. A diferença é
sutil. Nãosomos gratos porque, mas para quê! 3) o verdadeiro
agradecimento reconhece que Deus é totalmente livre para acei-
tar ou rejeitar nossas ofertas.
Esta liberdade soberana de Deus nos incomoda. Quem
olha com superioridade para Caim ainda não descobriu o quan-
to se parece com ele! Quem já não agradeceu a Deus com se-
gundas intenções, esperando ser recompensado? A liberdade de
Deus também nos irrita. Achamos que Deus tem obrigação de
nos atender, afinal de contas somos seus filhos! Esta contrarie-
dade pode esconder-se sob o manto da piedade. Na parábola
do filho pródigo, o irmão mais velhoalimenta sentimentos de
amargura. Quando o pai exerce sua liberdade de amar e acolhe o
irmão mais novo, a máscara do filho mais velho cai e ele despeja
uma série de acusações contra o pai (Lc 15.28-30)!
O que cultivamos dentro de nós não passa despercebido
a Deus. Por isso Deus perguntou a Caim: “Por que você está
furioso? Por que se transtornou o seu rosto?" Deus não está
acusando-o, o que ele deseja é levá-lo a sondar o seu próprio
coração: "Se você fizer o bem, não será aceito?” Deus quer que
sejamos gratos, mas sem exigências, sem querer comprar o nos-
so amor! Ele quer ser amado pelo que é, não pelo que ele nos dá.
Ele certamente nos ama, e nos acolhe gratuitamente.

15.2 Quem maquina violência fica sem advertência?


Deus não deixa de advertir a Caim: “Mas se não fizer (o
bem), saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá
-lo”. Um poder estranho se aloja no nosso coração, insinuando
101
que somos injustamente preteridos por Deus. No entanto, deve-
mos dominá-lo. O diabo pode induzir e lograr, mas a responsa-
bilidade pelo pecado é nossa, e cabe a nós dominá-lo!

15.3 Quem saiu vitorioso, o mal ou Caim?

O mal e sua violência venceram: Caim disse a Abel: “Vamos


para o campo”. Quando chegaram lá, "Caim atacou seu irmão
Abel e o matou”. A manifestação mais profunda do maligno é
a violência cometida em nome de Deus! O primeiro homicídio
é resultado de uma adoração equivocada! O inimigo de Deus
não sai vitorioso apenas quando consegue induzir à violência,
mas também quando gera a indiferença conformistaou ignora
a violência. Ele nos induz a pensar que não temos nada a ver
com isso, assim como o sacerdote e o levita na parábola do Bom
Samaritano. (Lc 10.31)

15.4 Esse mal afeta os discípulos de Jesus?

A violência em nome de Deus revela a força do Diabo e a pro-


fundidade da corrupção humana! Esta não afeta apenas a Caim
e aos muçulmanos fanáticos, ela também contamina os cristãos!
Quando um povoado samaritano recusou-se a acolher Jesus,
os irmãos Tiago e João, lembrando do que Elias fizera (2 Rs
1.10-12), sugeriram: "Senhor, queres que façamos cair fogo do
céu para destruí-los?" A resposta de Jesus nos ajuda a entender
como Deus tratou Caim: “Vocês não sabem de que espécie de
espírito vocês são, pois o Filho do homem não veio para destruir
a vida dos homens, mas para salvá-los”. (Lc 9.51-56)
A nossa natureza é cega para o mal que está dentro de
nós, mas é impiedosa com o pecado dos outros. Por isso os dis-
cípulos não entendiam o propósito do Salvador. Esta intenção
divina se manifestou logo depois do crime de Caim! O Senhor
foi conversar com ele mansamente, perguntando-lhe onde es-
tava Abel, desejando que Caim confessasse seu pecado. Deus
102
não tem “prazer na morte dos ímpios”. Antes quer “que eles se
desviem dos seus caminhos e vivam”. (Ez 33.11)
Quando Caim se negou a abrir o jogo, o Senhor expôs sua
ferida:“O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu
irmão está clamando. Agora amaldiçoado é você pela terra…”
Deus não omitiu nem abrandou o mal cometido, porém, mes-
mo assim, não retribuiu a Caim com base no “olho por olho”,
como ele bem merecia. Apenas colocou barreiras para tolher seu
orgulho: limitou o resultado do seu cultivo da terra e privou-o
de achar um aconchego verdadeiro – ele passaria a ser “um fu-
gitivo errante”.
Quem agradece com segundas intenções e insiste em ne-
gar seu pecado, está acusando a Deus de tê-lo castigado demais.
Compare as palavras de Caim com o que Deus disse. Como
Caim não queria se arrepender, distorceu o que Deusdisse:"…
me expulsas desta terra,e terei que me esconder da tua face;qual-
quer que me encontrar me matará”. Diante desses temores in-
fundados de Caim e projetados a partir da sua autocomiseração,
Deus lhe afiançou que “Não será assim!”
O final do relato sobre Caim revela o quanto a história
da humanidade está longe da presença do SENHOR! Neste
progressivo distanciamento de Deus o mal tem aumentado. A
fala de Lameque em Gênesis 4.23 indica que se trata de um
crescimento geométrico .É fácil perceber que todos nós já ar-
quitetamos em nossas mentes vinganças terríveis e vis! Se não as
implementamos, é porque nos faltou oportunidade…
Mateus 5. 21-26+38-48
21 “Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e
‘quem matar estará sujeito a julgamento’. 22 Mas eu lhes digo que qualquer
que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qual-
quer que disser a seu irmão: ‘Racá’, será levado ao tribunal. E qualquer que
disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno. 23 “Portanto, se
você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que
seu irmão tem algo contra você, 24 deixe sua oferta ali, diante do altar, e
vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua ofer-
ta. 25 “Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo
ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele a caminho, pois, caso
contrário, ele poderá entregá-lo ao juiz, e o juiz ao guarda, e você poderá
103
ser jogado na prisão. 26 Eu lhe garanto que você não sairá de lá enquanto
não pagar o último centavo.
38 “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. 39 Mas
eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita,
ofereça-lhe também a outra. 40 E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe
a túnica, deixe que leve também a capa. 41 Se alguém o forçar a caminhar
com ele uma milha, vá com ele duas. 42 Dê a quem lhe pede, e não volte as
costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado.
43 “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo[l] e odeie o seu ini-
migo’. 44 Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que
os perseguem, 45 para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos
céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre
justos e injustos. 46 Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa
vocês receberão? Até os publicanos fazem isso! 47 E se saudarem apenas os
seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! 48
Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês.

15.5 Como devemos nos portar diante do


diagnóstico divino da violência?

Uma leitura atenta da história de Caim e Abel revela que a vio-


lência está muito mais próxima de nós do que imaginamos. O
inimigo de Deus sabe tirar proveito da nossa fragilidade. Ele faz
isso inclusive na igreja! Na parábola do pai e seus dois filhos, o
irmão mais velho cultivou ressentimentos, mesmo convivendo
na casa do pai. Como Caim, ele não reconheceu seu erro. Pelo
contrário, passou a acusar o pai. A parábola termina abrupta-
mente, deixando que o leitor responda pelo filho mais velho (Lc
15). Se formos sinceros como o apóstolo Paulo, admitiremos
que não fazemos o bem que desejamos, mas o mal que não que-
remos fazer, esse continuamos fazendo (Rm 7.19).
Jesus veio justamente para nos livrar deste círculo vicioso e
desta escalada do mal! Ao morrer na cruz por nós ele derrotou o
poder do pecado e da morte (1 Co 15.26) e com sua ressurreição
ele concedeu vida nova a todos que nele creem. Jesus não nos
ensinou apenas a amar o inimigo, ele viveu este amor até o fim.
Na cruz ele orou pelos seus carrascos e pediu: “Pai, perdoa-lhes,
pois não sabem o que estão fazendo” (Lc 22.34). Pelo Espírito
104
Santo Jesus assiste quem nele confia e capacita-o pelo “fruto do
espírito” (Gl 6.22) a ser diferente.

Um exemplo
O filme “Homens e Deuses” conta a vida do francês
Christian de Chergé. Desde criança ele queria ser padre. Em
1959 prestou serviço militar na Argélia, na época uma colônia
francesa. Lá teve sua "experiência de Damasco" ao ser salvo
da fúria dos fanáticos por um amigo muçulmano, que acabou
sendo assassinado por ajudá-loo. Este sacrifício do amigo foi
a experiência de amor que levou Christian a se tornar monge.
Em 1971 ele ingressou no convento Notre-Dame de l'Atlas, na
Argélia. Em 1996 ele e mais seis monges que serviam nos povo-
ados muçulmanos próximos como médicos e professores, foram
sequestrados e, posteriormente, decapitados por um bando de
muçulmanos fanáticos.
Pressentindo este desfecho, Christian, ao visitar seus pais
pela última vez, deixou uma “Carta a Deus” para ser aberta no
caso dele sofrer o martírio. Essa carta retrata o espírito do perdão:

“Seum dia – e poderia ser hoje – eu me tornar vítima do terrorismo que


parece pronto a engolir todos os estrangeiros que vivem na Argélia, gosta-
ria que minha comunidade, minha Igreja e minha família se lembrassem
que dei minha vida a Deus e a este país. Peço-lhes que aceitem que o Único
Mestre de toda vida não desconheceu esta partida brutal. Peço-lhes que
rezem por mim, pois como poderia ser eu digno de tal oferta? Peço-lhes que
consigam ligar esta morte às muitas outras mortes igualmente violentas,
mas esquecidas pela indiferença e pelo anonimato. Minha vida não vale
mais do que qualquer outra, nem menos. Seja como for, ela não tem a ino-
cência da infância. Vivi bastante para saber que sou também um cúmplice
no Mal que parece, infelizmente, prevalecer no mundo. Espero que, quan-
do chegar a minha hora, eu tenha um momento de lucidez que me permita
pedir perdão a Deus e a todos os seres humanos, meus amigos, e ao mesmo
tempo perdoar com todo meu coração aquele que me matará”.
105
Questionamento final: Agradecemos a Deus por que ou para
quê? Reconhecemos que sozinhos não conseguimos extirpar o
mal que habita em nós? Permitimos que o Espírito Santo nos
revista com o caráter perdoador de Cristo?

Oração: Pai, agradecemos pela tua paciência conosco! Obriga-


do por teres vindo ao encontro de Caim e por desejares que
ninguém sucumba ao mal! Tu sabes o que acontece dentro de
nós. Ajuda-nos e molda-nos à imagem do teu filho.
SOBRE A ALIANÇA CRISTÃ EVANGÉLICA BRASILEIRA
Juntos podemos fazer mais e melhor!
Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão
em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como
tu estás em mim e eu em ti que eles também estejam em nós, para que o
mundo creia que tu me enviaste. João 17.21, 22

A Igreja Evangélica Brasileira representa cerca de 22,2%


da população brasileira, segundo dados do Censo IBGE 2010.
No entanto, essas mais de 42 milhões de pessoas estão dispersas
em inúmeros grupos e subgrupos diferentes, com articulação-
quase nula, sem coesão e sem influência coletiva a nível nacional.
Neste contexto, em todo o Brasil, a Aliança Evangélica
associa denominações, igrejas, organizações, ministérios, movi-
mentos e pessoas evangélicas (que se identificam com sua pro-
posta, crenças e princípios) para manifestar os valores do Reino
de Deus, na unidade do Espírito, através da vida e expressão de
serviço em missão.
O que fazemos
» Somos um testemunho visível de unidade e manifesta-
ção de amor e serviço ao evangelho de Jesus Cristo.
» Incentivamos o compartilhamento de experiências, po-
tencializamos ações e facilitamos parcerias em diferentes áreas
da vida da igreja.
» Exercemos um papel de informação e comunicação entre
os participantes da Aliança e entre estes e a sociedade brasileira.
» Representamos nossos filiados perante a sociedade em
questões relevantes à Igreja, sempre respeitando a diversidade
denominacional e a autonomia de seus membros.
10 MOTIVOS PARA FILIAR-SE
1. Identifique seu ministério ou organização com outros cristãos
evangélicos na promoção de campanhas de oração, de testemu-
nho público da fé evangélica, de atuações em ministérios impor-
tantes à vida e missão da Igreja, em suas mais diferentes áreas.
2. Participe da construção de uma voz cristã evangélica respeita-
da e de bom senso, perante a mídia e os líderes governamentais,
apresentando respostas aos temas atuais baseados numa pers-
pectiva bíblica.
3. Promova a cooperação e colaboração entre ministérios, au-
mentando a eficácia da Igreja para que sirva mais e melhor à
nação.
4. Aumente o impacto do testemunho da Igreja através de par-
cerias com outros líderes filiados e seus ministérios.
5. Enriqueça seu ministério pela troca de experiências, recursos,
seminários e workshops disponíveis.
6. Amplie seu network: nossos filiados incluem denominações,
igrejas, organizações ministeriais e educacionais, redes, associa-
ções e movimentos, sempre em busca de unidade e cooperação.
7. Incremente sua tecnologia social: nossos filiados compõem
um quadro enorme de recursos, incluindo líderes de ministérios,
acadêmicos e profissionais com larga experiência em campo.
8. Conte com nossa assessoria, comprometida em promover
relevância bíblica na esfera pública e parcerias efetivas entre a
comunidade evangélica.
9. Engaje-se no Corpo de Cristo ao redor do mundo: a Aliança
é membro da WEA (Aliança Evangélica Mundial), que reúne
600 milhões de cristãos evangélicos em 129 países, com o alvo
de demonstrar a unidade do Corpo de Cristo e fortalecer o tes-
temunho público da Igreja e os valores do Reino de Deus.
10. Nossas decisões são colegiadas. Contamos com um grupo
de líderes evangélicos de diferentes lugares do Brasil e de dife-
rentes igrejas e organizações, que emprestam de sua experiência
e compromisso cristão para que a Aliança Evangélica caminhe
com sabedoria, discernimento e solidez.
Junte-se a nós!
1. Filie-se! Preencha a ficha de adesão disponível no site.
2. Inscreva-se no site para receber notícias da Aliança Evangélica.
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Telefone: (19) 2513-1483 das 9h às 15h
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