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Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina

1. A América e o novo padrão de poder mundial


A ideia de raça, em seu sentido moderno, não tem história conhecida antes da
América. Ela se tratava de uma referência às diferenças fenotípicas entre colonizador e
colonizado, e foi construída na ideia de estruturas biológicas diferenciais entre os grupos.
Com a formação de relações sociais baseadas nessa ideia de raça surgiram novas identidades
sociais, e a consequente redefinição de outras. Com o tempo, a cor tornou-se uma
característica emblemática da categoria racial.
Além da ideia de raça, a América fez o mundo conhecer um padrão global de controle
do trabalho, de seus recursos e de seus produtos. Enquanto se constituía em torno de e em
função do capital, o caráter de conjunto desse controle de trabalho também se estabelecia
como característica capitalista. Dessa maneira, o capitalismo mundial foi visto como uma
nova, original e singular estrutura de relações de produção na experiência histórica do mundo.
As novas identidades históricas produzidas sobre a ideia de raça foram associadas à
natureza dos papéis e lugares na nova estrutura global de controle do trabalho, e, os
elementos de raça e divisão do trabalho, foram estruturalmente associados. Nesse processo
iniciou-se uma sistêmica divisão racial do trabalho. Houve associação de branquitude social
com salário e postos de administração. A distribuição racista de novas identidades, então, foi
combinada com uma distribuição racista do trabalho e das formas de exploração do
capitalismo colonial.
A visão dos brancos como uma raça superior os outorgou uma vantagem decisiva para
disputar o controle do comercio mundial, permitindo-lhes concentrar o controle do capital
comercial, do trabalho e dos recursos de produção no conjunto do mercado mundial. A
classificação racial resultou em uma associação das novas identidades raciais dos colonizados
com as formas de controle não pago. Essa colonialidade do controle de trabalho resultou na
determinação da distribuição geográfica de cada uma das formas integradas no capitalismo
mundial, ou seja, determinou a geografia social do capitalismo.
Ao implantar o capitalismo como modelo econômico mundial, os europeus também
implementaram o domínio colonial, por meio da reestruturação cultural dos povos
dominados. Assim, a Europa passa a concentrar a hegemonia sobre todas as formas de
conhecimento ou desenvolvimento. O racismo se mostra presente ao ponto que o “Oriente”
foi o único considerado a altura para ser um contraponto ao “Ocidente”. Os povos indígenas e
os negros eram considerados “primitivos”, não estando a altura dos europeus. Dessa maneira,
a Europa transformou o sistema mundial em um sistema binário com fundamentação no
eurocentrismo, a partir da ideia de que os povos “primitivos” (negros e indígenas)
culminaram posteriormente nos europeus, sendo assim “antecessores” e “inferiores”, e de que
esse sistema dualista criou-se a partir de uma perspectiva de raça e não de poder.
A questão da modernidade perpassa a discussão sobre a quem esse avanço pertence.
Porém, de acordo com o autor, existe um efetivo conceito de modernidade diferente do
discutido em outras épocas. Ele argumenta que o atual poder mundial é o primeiro global,
sendo formado pela interdependência dos fatores e aplicado a toda população mundial. Essa
homogeneidade criou o primeiro sistema-mundo global, adotando um novo padrão comum do
poder, a nova modernidade não pertencendo a um grupo específico. Assim, os processos de
modernização da Europa e da América Latina são diferentes. A diferença está ligada às
mudanças proporcionadas pela entrada da América como fator de mudança estrutural e ao
processo capitalista mundial, que mostrou a modernidade como conflito de interesses sociais.
Na Europa, com a modernidade, as relações capital-trabalho quebram o padrão histórico e
estabelecem uma nova ordem e estrutura social, abrindo espaço para novos padrões, como o
liberalismo. Na América Latina, por outro lado, as relações de trabalho se davam por meio de
trabalhos não-salariais, uma característica colonial, e mesmo após a independência, o
retrocesso nas relações capitalista já existentes fez com que esses Estados fossem fortemente
dependentes. Essa relação marca a diferença entre a modernidade na Europa e no resto do
mundo.
2. Colonialidade do poder e eurocentrismo
A colonialidade do poder é discutida à partir da perspectiva de conhecimento
eurocentrista, e se apresenta por meio da secularização burguesa do pensamento europeu,
experiência e o padrão mundial de poder: colonial/moderno, capitalista e eurocêntrico. Três
relações são importantes para esse entendimento: capital e capitalismo, eurocentrismo e
dualismo e homogeneidade/continuidade e heterogeneidade/descontinuidade.
O capital e o capitalismo, exibe divergência à teoria de uma sequência histórica
unilinear. Percebe-se que as questões de escravidão e servidão são vistas como propósitos
capitalistas. Em um sentido histórico, o capital já existia, mas o capitalismo em si, com as
relações de produção e controle do trabalho, veio apenas após a ascensão da América na
economia mundial, quando pode se desenvolver em escala mundial. Com essa perspectiva,
traduz-se a escravidão, a servidão e até redefinição de instituições de reciprocidade, como
meio de servir aos propósitos e necessidades do capitalismo.
O evolucionismo, caracterizado por outra sequência histórica unilinear passa a ser
associado a uma classificação racial da população do mundo infundada. Ao se unir ao
conceito de dualismo desenvolve-se a expressão de etnocentrismo, impondo a ideia de raça
“como critério básico de classificação social universal da população do mundo.” A conquista
da América pelos colonizadores reduziu povos completamente diversos a uma única
identidade, a de índios e escravos. Estabeleceram-se assim duas identidades: os
conquistadores superiores, e os povos da América como primitivos inferiores. A partir da
dualidade concebida entre culturas, houve a naturalização das diferenças de grupos humanos
com base em raça, que acarretou na distorção temporal de não-europeus, atestando a
predominância da colonialidade de poder.
A relação de homogeneidade/continuidade e heterogeneidade/descontinuidade,
exemplifica a América em si. A base estrutural em que padece a América não prescreve um
capitalismo ou uma história homogênea e contínua, e sim fundamentalmente heterogêneo e
descontínuo, com base em elementos da relação de produção quanto dos povos e histórias
articulados.
O novo dualismo, busca abrir a questão do “corpo” e “não-corpo” sendo dois
elementos inseparáveis do ser-humano. Tentativas de separação dos elementos é de longa
data prescrita pelo mundo cristão, com a separação de “alma” e “corpo”. Logo, a ideia inicial
passa por um processo de mutação com sentido posto por Descartes como sendo o da
razão/sujeito, que advém da noção da alma, e o corpo, que se entende como sendo apenas
“objeto” de conhecimento. Como dito por Conde de Gobineau, esse dualismo era refletido no
eurocentrismo ao determinar como inferiores os vistos como “corpo”, negando-lhes
racionalidade e que os convertendo a domináveis exploráveis, sendo apenas “objetos” de
estudo. Além das relações raciais de dominação também se vê a relação de dominação sexual,
o que custou a mulheres sua imagem na sociedade. Com a vinda do século XVIII, o mundo
passou a ser caracterizado com visão de modernização do primitivo para o civilizado.
3. Eurocentrismo e experiência histórica na América Latina
O conceito de Estado-nação tem de ser analisado a fim de observar como a
democratização da sociedade é necessária para se formar uma organização política. Um
Estado-nação expressa uma identidade, uma vez que é formado por uma sociedade que é uma
estrutura de poder. Essa identidade não será naturalmente homogênea, já que as sociedades
são heterogêneas. Para alcançar essa homogeneidade,a fim instituir uma estrutura de poder
hegemônica dentro do Estado-nação, o melhor meio é a democratização da sociedade. Essa
ideia pode ser justificada ao observar a Espanha e a França. No caso espanhol, houve uma
imposição e perseguição dos grupos não hegemônicos, fazendo com que os mesmos
deixassem o país, enquanto que no caso francês, as estruturas sociais e políticas foram
modificadas na Revolução Francesa, promovendo uma inserção dessas minorias no
pensamento majoritário, evoluindo o colonialismo para um “afrancesamento” efetivo das
minorias.
No caso dos Estados Unidos, o país já se mostrava no caminho de um Estado-nação.
As novas políticas atendiam a maioria da população, que era branca, além de haver grande
quantidade de terra, proveniente das lutas contra os indígenas. A terra era distribuída entre
grandes latifúndios e pequenas e médias propriedades. Parecia existir uma inserção da
população e o Estado-nação representava essa mentalidade da maioria. Porém, não pode-se
considerar que esse Estado era completamente democrático, uma vez que as populações
indígenas, além de massacradas, foram colocadas como subgrupo social da sociedade, o que
também aconteceu com os negros. Essas eram as limitações do sistema americano.
A situação dos países no Cone Sul foi em alguns aspectos parecida com a dos Estados
Unidos. Os índios não faziam parte da sociedade colonial e os negros eram minoria,
receberam milhões de imigrante da Europa, o que influenciou na branquitude da população.
A diferença é que nos Estados Unidos a distribuição de terras foi feita de forma
desconcentrada, o que não aconteceu no Cone Sul. Isso não tornou possível relações sociais
democráticas entre os próprios brancos e então, a sociedade não criou uma estrutura e
identidade. A homogeneização da população no Cone Sul não ocorreu por meio da
descolonização da sociedade e sim pela eliminação massiva de índios, negros e mestiços e
pela exclusão de uma parte da população.
No restante dos países latino-americanos, se mostrou, até o momento, impossível
chegar em direção ao Estado-nação, o que mais se aproximaram foram o México e a Bolívia.
A diferença da ex colônia britânica para os países da América latina, é que no primeiro, a
maioria era branca e no segundo, mais de 90% da população era de negros, índios e mestiços.
Nos Estados Unidos, a maioria era de trabalhadores assalariados e o mercado interno era
preservado, existia portanto, interesses comuns entre todos, sendo possível um Estado-nação.
Já nas colônias latina-americanas, a minoria branca assumiu o controle e deixou de fora a
participação política e social da maioria, dessa forma, se tinha um Estado independente com
uma sociedade colonizada.
Nas colônias ibero-americanas, os interesses dos brancos eram antagônicos aos dos
não brancos e mais parecidos com o da burguesia européia e por isso, eram dependentes dela.
A minoria latino-americana consumia produtos da Europa, para não deixar suas condições de
senhores. Com a crise nos anos 30, deu início a uma industrialização dependente, para
substituir as importações e assim perpetuou-se a colonialidade do poder. A ideia de
Estado-nação da Europa, expressão de uma população homogênea com experiências
históricas comuns, não existiu na maioria da América. Ele só ocorreria com um processo
radical e global de democratização da sociedade.
No debate latino-americano periodicamente fala-se de duas revoluções. A revolução
democrático-burguesa é a ideia da burguesia organizar a classe operária e camponesa e tirar
dos senhores feudais o controle do Estado. Entretanto, a sociedade latino-americana é
fundamentalmente feudal, sendo essa revolução uma impossibilidade histórica. As únicas
revoluções democráticas que já aconteceram, além dos Estados Unidos, foi no México e na
Bolívia onde realmente foi uma revolta popular. Nos outros países foi um processo lento,
desigual e parcial. Para essa revolução ser possível, deve-se ocorrer a democratização da
sociedade e redistribuição do poder. A revolução socialista também não ocorreria, porque
para isso, a classe operária assalariada deveria ser a maioria da população. Não é um acaso
que essas revoluções têm sido derrotadas na América e no mundo, o que se conquistou em
termos de direitos, com uma lenta redistribuição de poder, está sendo afetado por um
processo de reconcentração do poder pelo capitalismo e com os mesmos atores responsáveis
pela colonialidade do poder. É necessário desprender-se da visão eurocêntrica, onde a
imagem latino-americana é distorcida e diferente do que se realmente é.

Referências
QUIJANO, A. “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”. In: LANDER,
Edgardo. (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Colección Sur
Sur. Buenos Aires: CLACSO, 2005, p. 107-130.

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