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Caderno de

Referência de
Conteúdo

CRC

1. INTRODUÇÃO
Seja bem-vindo ao estudo da disciplina Fundamentos Filo-
sóficos, disponibilizada para você em ambiente virtual (Educação
a Distância).
Em nome do Centro Universitário Claretiano, damos-lhe as
boas-vindas, pois é um prazer para nós recebê-lo para iniciarmos
esta caminhada de estudo da filosofia. Desejamos que você em-
preenda com muito ânimo este itinerário.
O que é filosofia? Para que serve filosofia? Por que estudar
filosofia? Com certeza, você já deve ter feito este tipo de pergunta,
especialmente se já teve algum contato com filosofia. Nesta apos-
tila, tem-se por objetivo principal construir com você respostas
para estas questões, mostrando como a filosofia pode nos ajudar
a compreender as coisas de modo mais crítico. Além disso, filoso-
fia e religião têm, desde sua origem, uma íntima relação. Ao lado
da arte, elas são tidas como caminhos que levam à verdade. No
14 © Fundamentos Filosóficos

entanto, cada qual trilha sua própria senda de maneira peculiar.


A contribuição da filosofia para o estudioso da religião e para o
teólogo se dá em vários âmbitos. Ao atentarmos para a história
da filosofia, podemos notar como a religião foi influenciada por
ela nas suas elaborações de fé. Por outro lado, o pensamento fi-
losófico traz consigo conteúdos da religião, trabalhados num dis-
curso lógico, argumentativo e demonstrativo. A filosofia também
nos auxilia a ser mais rigorosos com conceituações, organizando o
pensamento de modo mais lógico e encadeado.
Para responder às perguntas anteriores, esta apostila busca
articular elementos sistemáticos da filosofia com elementos histó-
ricos. Assim, em cada unidade é importante que você esteja aten-
to a estes dois aspectos. Ao se tratar de um período da história
da filosofia, aborda-se também uma característica do pensamento
filosófico. Para auxiliá-lo, segue um resumo das unidades, indican-
do o período da história da filosofia tratado em cada unidade e o
tema abordado:
a) A Unidade 2 trata do nascimento da filosofia, abordan-
do os filósofos conhecidos como pré-socráticos. Nesta
unidade, a discussão será o movimento de transição da
linguagem mitológica (mithós) para a linguagem filosófica
(lógos).
b) A Unidade 3 aborda o pensamento de Sócrates, Platão
e Aristóteles. Nesta unidade, vamos ver como a filosofia
aspira ao conhecimento que seja universal, necessário e
verdadeiro.
c) A Unidade 4 discute a filosofia de Santo Agostinho e São
Tomás de Aquino. O tema que subjaz à abordagem des-
tes dois filósofos é a relação entre filosofia e religião na
Idade Média.
d) A Unidade 5 debate a filosofia moderna. Em especial,
busca-se mostrar como se constitui a ideia do ser huma-
no como centro do universo e as implicações disso para
a sociedade atual. Ao final, trata da crítica da moderni-
dade e o problema do relativismo.

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Esperamos que este programa atenda às suas expectativas


em relação ao estudo desta disciplina.
Bons estudos!

2. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA DISCIPLINA

Abordagem Geral da Disciplina


Neste tópico, apresenta-se uma visão geral do que será es-
tudado nesta disciplina. Aqui, você entrará em contato com os as-
suntos principais deste conteúdo de forma breve e geral e terá a
oportunidade de aprofundar essas questões no estudo de cada uni-
dade. No entanto, essa Abordagem Geral visa fornecer-lhe o conhe-
cimento básico necessário a partir do qual você possa construir um
referencial teórico com base sólida – científica e cultural – para que,
no futuro exercício de sua profissão, você a exerça com competên-
cia cognitiva, ética e responsabilidade social. Vamos começar nossa
aventura pela apresentação das ideias e dos princípios básicos que
fundamentam esta disciplina.
Prof. Ms. Artieres Estevão Romeiro

Apresentaremos uma introdução imprescindível para o estu-


do de qualquer tipo de saber.
Convidamos você, nesta disciplina, a empregar o rigor e a
profundidade da filosofia na análise da realidade. Com a filosofia,
os seus trabalhos, suas atividades, sua forma de pensar e olhar
o mundo alcançará maior coerência, criticidade, reflexibilidade, e
assim você será capaz de superar ideologias, vencer preconceitos
e propor novos paradigmas de libertação e emancipação, percebe-
rá a realidade de maneira mais crítica.
Inúmeras vezes, a filosofia é identificada com situações com-
plexas. Isso acontece porque ela não se contenta com qualquer
resposta e, mesmo que aceite uma resposta como válida, jamais
16 © Fundamentos Filosóficos

deixa de fazer perguntas. É na continuidade da pergunta, na inda-


gação, na crítica que a filosofia se estabelece enquanto reflexão e
análise de todas as coisas. Portanto, é um convite para que você
reflita, analise e reveja todas as suas concepções.
A filosofia é uma atividade que exige muito de quem se pro-
põe a estudá-la, assim, ao entrar em contato com ela, irá se apro-
ximar de um universo apaixonante do qual não é possível mais sair.
É válido estudar filosofia! Não se contente apenas com o que verá
em sua apostila, busque mais, continue lendo, se aproxime de no-
vas obras. Isso dará maior rigor e profundidade a sua pesquisa e
vida acadêmica.
Para iniciar nosso estudo, será preciso saber para que serve
o conhecimento filosófico. Precisamos inicialmente responder às
perguntas: o que é filosofia? Para que ela serve? Perguntar pela
utilidade de algo é uma atitude muito frequente em nossa socie-
dade, em nossa cultura, em nossa vida. Isso ocorre porque busca-
mos sempre perceber a razão das coisas.
A palavra filosofia vem do grego Philos (amigo) e Sophia (sa-
bedoria). Assim, filosofia quer dizer: "amigo da sabedoria". A filo-
sofia surgiu na Grécia há cerca de 4 séculos antes de Cristo, com os
filósofos denominados pré-socratianos.
Esses filósofos promoveram um processo de superação da
atitude mitológica e questionaram as várias teogonias que expli-
cavam o mundo e todos os acontecimentos da vida. Assim, eles
passaram a procurar a phisis, ou a causa, o elemento gerador de
todas as coisas.
Como você pode notar, na antiguidade, a filosofia propunha
uma explicação da realidade, diferente daquela convencionada
e apresentada pelo mito. Em outras palavras, a filosofia não se
contentava com as respostas dadas. Nesse contexto, todo conheci-
mento matemático, linguístico, retórico, algébrico, geométrico, as-
tronômico, musical, enfim, todos os tipos de conhecimentos eram
ramos da filosofia.

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Você pode se perguntar: mas como a filosofia surge efetiva-


mente? A filosofia surge com base em questionamentos e dúvidas
acerca da realidade. No mundo mitológico marcado por certezas
não há espaço para a filosofia. Mas a partir do momento em que
se estabelece uma atitude negativa, ou seja, um duvidar do que
é proposto pelo senso comum, pelas explicações cotidianas, pe-
los preconceitos, pelos fatos irrefletidos, ou seja, pelos mitos, aí
sim nasce a filosofia. Resumindo, a postura filosófica rompe com o
contentamento, com a aceitação do que está estabelecido. A filo-
sofia, em sua essência, é pergunta que não quer se calar, que não
se contenta com repostas, por melhor que sejam.
A filosofia surge não enquanto combate ao mito, pois o mito
é também uma maneira de racionalizar a realidade, pois é uma
explicação narrativo-alegórico-simbólica, intuitivo-fantástica-pe-
dagógica. Assim, é dotada de sentido. A filosofia irá se contrapor
ao senso comum, ou seja, à visão simplista e reducionista da rea-
lidade. A filosofia evitará respostas rápidas, evitará o que poderá
aparentemente ser evidente. O mundo é complexo.
Julian Marias, ao apresentar o nascimento da filosofia, faz a
seguinte descrição (1960, p. 6):
Segundo Demerval Saviani, passar do senso comum à consciência
filosofia, significa passar de uma concepção fragmentária, incoe-
rente, desarticulada, implícita, degradada, mecânica, passiva e
simplista a uma concepção unitária, coerente, articulada, explícita,
original, intencional, ativa e cultivada.

Diante dessa resposta, surge outra pergunta: mas como a fi-


losofia age? Como ela investiga a realidade?
Buscando caracterizar a filosofia, poderíamos dizer que a
atividade filosófica é eminentemente teorética, por isso, às vezes,
encontramos referências aos filósofos como pessoas loucas, que
ficam apenas pensando, pensando.... e que muitas vezes não che-
gam a lugar nenhum. Ou ainda, a imagem do filósofo que parece
estar distraído que parece estar em outra dimensão, no "mundo
da lua".
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Tal identificação soa irônica, contudo, aponta para o ser do


filósofo, que é aquele que introspectivamente busca desvelar a re-
alidade. Note bem, a filosofia é a atividade teorética e justamente
nisso está seu diferencial, seu transformador.
Alguns acreditam que o pensamento não é efetivamente
atividade transformadora do mundo. Lançamos uma pergunta.
Você conhece atitude mais revolucionária, mais subversiva, mais
transformadora que pensar? Pensar numa sociedade onde impera
a alienação, pensar num mundo marcado pelo senso comum ou
demasiadamente perigoso. Toda teoria está de alguma maneira
articulada com a prática. Só quem pensa criticamente pode trans-
formar a sociedade e romper com as amarras de dominação e alie-
nação.
Há mais algumas características da filosofia que quero res-
saltar. Demerval Saviani afirma ainda que a reflexão filosófica ca-
racteriza-se por ser radical, rigorosa e de conjunto. O que significa
isso?
• Radical: vem de radix, radicis, que no latim significa fun-
damento, base. Assim, radical é quem busca examinar e
explicitar os conceitos que fundamentam o pensar, o agir
e todos os campos do conhecimento. Radical, portanto,
não tem o mesmo sentido utilizado cotidianamente, iden-
tificado como inflexível. Esse tipo de atitude é identifica-
do ao dogmatismo, ou seja, é antifilosófico.
• Rigorosa: ela dispõe de um método coerente que permite
levar as conclusões até as últimas consequências, justi-
ficando, de forma racional e por meio da reflexão críti-
ca, tudo o que se apresenta. Por isso, usa de linguagem
rigorosa e clara, evitando a ambiguidade das expressões
cotidianas, portando, abandona as generalizações ou su-
perficialidades.
• De conjunto: enquanto as ciências se preocupam em exa-
minar as parte, ou o particular; a filosofia é totalmente,

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examina a parte, porém buscando enxergar melhor o


todo. O conjunto jamais pode ser desprezado, todos os
elementos estão relacionados, por isso, tudo é objeto de
análise da filosofia, nada escapa de seu interesse, ela visa
a totalidade, a filosofia se relaciona com todas as formas
do saber humano.
Como já vimos, a filosofia surge procurando explicar a reali-
dade de maneira diversa à do mito. O mito explicava o mundo por
meio de teogonias, símbolos e imagens mitológicas. A filosofia,
por sua vez, colocará em dúvida a explicação dada pelo mito, pro-
curando conhecer a realidade por meio da razão, do pensamento
e da reflexão. Estudiosos, influenciados pelo positivismo, afirmam
que o mito era uma visão mágica da realidade, um tipo de fantasia,
uma mentira da infância da razão e da humanidade.
Tal afirmação é adequada, pois o mito é uma abordagem
aberta que explica o mundo e o homem de maneira simbólica,
com método e forma distintos da ciência. O mito não é algo falso,
mentiroso, enganador, é apenas um nível de explicação e conheci-
mento diferente da ciência, ou seja, um nível simbólico.
Note que o mito fala das coisas de maneira profunda e am-
pla, apresentando um nível de conhecimento do ser humano mui-
tas vezes não alcançado pela filosofia e pela ciência. É importante
notar que a explicação mitológica é válida, porém é insuficiente.
Isso quer dizer que precisamos da razão, da atividade teorética, do
pensamento, dos vários tipos de conhecimento, todos articulados
com a filosofia. Mas como filosofar?
Veja bem, só faz filosofia quem é capaz de filosofar, e filo-
sofar é romper com a preguiça, com os preconceitos, é sair da
minoridade da qual cada ser humano é responsável. Pensar por
si é descortinar as supostas "verdades", romper com a aparência,
romper com os esquemas mentais estreitos arraigados numa ma-
neira narcisista de ver o mundo, questionar nossas verdades é o
primeiro passo para filosofar. Não se trata de ser cético, ou seja,
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não acreditar em nada, mas sim de saber por que se acredita, bus-
car os fundamentos de nossas "verdades".
A filosofia exigirá audácia, rigor e abertura para uma realida-
de mais complexa, mais abrangente, mais global rumo à verdade
que se encontra dispersa em meio a um emaranhado de formas
provindas das ideias, da cultura e dos preconceitos coletivos.
Filosofar é um ato de liberdade. Só é livre quem filosofa,
quem pergunta, quem decide tomar nas mãos a condução do pen-
samento, sem deixar conduzir por outrem. Na universidade trilha-
mos conjuntamente o caminho do conhecimento, contudo cada
um deverá caminhar com suas próprias pernas.
Agora iremos prosseguir identificando alguns ramos ou es-
pecificidades da filosofia. Incialmente, apresento:
a) Ontologia ou Metafísica: tem início desde a filosofia an-
tiga, procura o conhecimento dos fundamentos do ser,
das coisas, a busca dos fundamentos últimos de toda re-
alidade, o que faz com que uma coisa seja ela mesma e
não outra.
b) Lógica: foi desenvolvida, sobretudo, por Aristóteles, tra-
ta do conhecimento das leis que regem o pensamento
correto, verdadeiro, independentemente de seu conteú-
do. A lógica preocupa-se com as regras de verificação da
verdade no discurso. Pode ser dividida em lógica formal
que se preocupa com o desenvolvimento do pensamen-
to, forma e a não formal, com seu conteúdo.
c) Epistemologia: tal concepção é desenvolvida por Augus-
to Comte, o pai do positivismo. A epistemologia analisa
e critica as ciências, avalia seus métodos e resultados,
relaciona as ciências e procura refletir sobre seu desen-
volvimento.
d) Ética: estuda os valores morais, a liberdade, a vontade, a
responsabilidade, a obrigação, um fundamento racional
que justifica o que é bom e o que é mau. É o debruçar da
filosofia sobre os procedimentos e convenções morais.

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e) Filosofia Política: tem seus fundamentos na filosofia


antiga, contudo, desenvolve-se de maneira mais con-
siderável na modernidade. Estuda o direito, a lei, a au-
toridade, a justiça, os regimes políticos e as formas de
dominação, bem como as ideologias que regem a ideia
de estado.
f) Filosofia da História: desenvolve-se, sobretudo, nas dé-
cadas de 1960 e 1970. Estuda as relações entre ética e
política, analisa as tendências sócio-político-culturais.
g) Estética: a arte já era estudada desde a filosofia antiga.
A estética ou filosofia da arte estuda a criação, o belo,
a forma, o conteúdo, o sublime. Na estética, a filosofia
racionaliza a obra de arte e ao mesmo tempo procura
compreender as limitações da razão frente ao belo.
h) Filosofia da Linguagem: foi desenvolvida por Wittgens-
tein no século 20. Trata dos signos, das significações, da
comunicação, da oralidade, dos conceitos, da escrita, das
manifestações ou modalidade de linguagem, expressões
e comunicação.
i) Antropologia Filosófica: tem por objeto de estudo o ho-
mem, busca compreender o ser humano por meio da fi-
losofia. A discussão sobre o que é homem está presente
em todas as concepções filosóficas.
j) Cosmologia: presente desde a filosofia antiga, é o estu-
do que procura compreender o mundo (terra, planetas,
espaço), ou seja, o cosmos.
k) Teodiceia: trata-se do problema religioso, da existência
e da natureza de Deus, Seus atributos e Suas relações
com os homens e com o mundo. É diferente de teologia,
pois não parte de uma fé revelada, não parte do dogma,
apenas da metafísica e do discurso filosófico.
l) História da Filosofia: reflete sobre os grandes períodos,
escolas e correntes filosóficas, relaciona temas de filo-
sofia por meio da história, como vão se desenvolvendo.
Estuda o pensamento filosófico e suas relações com a
economia, política, cultura e sociedade. Aborda, ainda, a
filosofia buscando uma visão de totalidade da produção
filosófica.
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Existem vários métodos e modos de agir e pensar filosofica-


mente. Apresentamos a você rapidamente os primeiros métodos
de abordagem filosófica da antiguidade. O primeiro deles é a Iro-
nia, trata-se da postura de automenosprezo, ou seja, um aparente
não saber, um exemplo disso é Sócrates, que fingia nada conhe-
cer para colocar seus adversários à prova. A ironia é um artifício
de descontrução, que desarma o sujeito, aponta suas fragilidades
para depois instruí-lo. Ironia mantém o respeito pelo outro, não é
o mesmo que sarcasmo, que ridiculariza e destrói.
Segundo Newton Ramos de Oliveira (Ensaios Frankfurtianos,
p. 80-83):
Maiêutica é o método socrático de fazer parir idéias, ou seja, é pro-
posição de perguntas que gera um processo de indução do pen-
samento. Com esse artifício o filósofo questiona seu interlocutor,
conduzindo seu pensamento a resposta desejada.

Dialética era o conteúdo utilizado por Platão para buscar a


verdade por meio do diálogo, da contraposição de ideias. O méto-
do dialético de Platão está baseado na busca das contradições dos
discursos. Com Hegel e posteriormente com Marx, a dialética ga-
nha novo significado, tornando-se um processo de compreensão
da realidade histórica constituída por meio da luta entre opostos
(tese, antítese, rumo a uma síntese que, por sua vez, converte em
tese, refutada por uma antítese e sucessivamente gerando uma
síntese).
Você deve estar se perguntando: mas como aprender filo-
sofia? Como usar a filosofia no cotidiano? Kant dirá que não se
ensina a filosofar, mas para isso devemos nos aproximar dos textos
clássicos dos filósofos, não podemos desprezar a tradição que nos
antecede, senão corremos o risco de redescobrir a roda, reinven-
tar o que há muito foi inventado. Assim, se queremos conhecer
filosofia, só há um caminho, a leitura dos filósofos. Mas para ler os
filósofos devemos estar preparados para trocar certezas por dúvi-
das.

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Como já vimos, a filosofia está fundamentada desde seu nas-


cimento na busca da verdade, do bem e do belo. Seu modo de
existir se fundamenta na razão, ou seja, na atividade teorética que
jamais se contenta com as repostas dadas. É próprio da filosofia
questionar, duvidar.
Descartes, no Discurso do Método, fundamenta sua reflexão
na dúvida que se torna o pressuposto de seu sistema filosófico.
Para ele, a dúvida é o que motivará toda discussão filosófica. O
filósofo é aquele que é capaz de perguntar o óbvio, procurando
esclarecer todos os fundamentos de seu conhecimento. Assim, a
troca de certezas por dúvidas e de respostas é um pressuposto
fundamental para quem quer fazer filosofia ou pensar filosofica-
mente.
Você provavelmente irá se perguntar se filosofar é apenas fa-
zer perguntas. Isso é fato; contudo, não basta fazer perguntas, não
se trata de qualquer tipo de pergunta. É a pergunta inteligente,
profunda, rigorosa e fundamentada que desconstrói o pensamen-
to para gerar uma nova percepção da realidade ainda não contem-
plada, ou esquecida.
A filosofia promove, assim, uma desconstrução. É uma ativida-
de que eminentemente questiona, pergunta. Entretanto, não para
aí, pois nos ajuda a tirar conclusões e lançar pressupostos capazes
de satisfazer, ainda que parcialmente e provisoriamente, a razão.
Durante toda a história da filosofia, a dúvida foi a grande
companheira dos filósofos, e a busca da verdade é o que dá força
para o caminhar da filosofia.
Para concluir, convido você a se aproximar das ideias dos fi-
lósofos e depois aplicá-las nas diversas situações da vida.
Foi um grande prazer refletir sobre a filosofia com você. Es-
pero que se aproxime dos textos filosóficos e que possa alcançar
um nível interpretativo e crítico da realidade rumo a uma vida e
um mundo melhor.
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“Somos mortos insepultos apodrecendo debaixo de um céu imen-


so e vazio” Marshal Berman

Glossário de Conceitos
O Glossário permite a você uma consulta rápida e precisa
das definições conceituais, possibilitando-lhe um bom domínio
dos termos técnico-científicos utilizados na área de conhecimento
dos temas tratados na disciplina Fundamentos Filosóficos. Veja a
seguir a definição dos principais conceitos desta disciplina:

Para composição deste glossário, utilizamos os seguintes dicio-


nários de filosofia: ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São
Paulo: Martins Fontes, 1999. BACKBURN, S. Dicionário Oxford de
Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

1) Antropocentrismo: concepção segundo a qual o homem


é situado e explicado como o centro do universo.
2) Antropomorfismo: concepção que explica os fenômenos
físicos, biológicos ou religiosos por meio de motivações,
sentimentos e imagens humanas. Aparece, por exemplo,
na representação de deuses ou animais como dotados
de forma humana. Religiões que concebem os deuses a
partir da analogia ou comparação com comportamentos
e feições humanas são denominadas de antropomórfi-
cas. No filósofo pré-socrático Xenófanes já aparece críti-
cas a esta concepção: "Os homens crêem que os deuses
tiveram nascimento e que têm voz e corpo semelhantes
aos deles” (B16).
3) Arché: termo grego que significa princípio, entendido
como ponto de partida, fundamento e causa de um pro-
cesso qualquer. No pensamento pré-socrático arché é o
princípio subjacente e fundamental do ser de todas as
coisas.
4) Caos: do grego, significa abismo. Refere-se ao que é sem
ordem e sem forma. Na mitologia grega, há oposição en-
tre caos e cosmos (universo ordenado).

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5) Devir ou vir-a-ser: aquilo que está submetido à mudan-


ça. Em filosofia, o devir e sua relação com o tempo se
constitui como importante questão. Ainda que a mudan-
ça seja aquilo que de modo mais fundamental se mostra
aos nossos sentidos, ela é motivo de estranheza da filo-
sofia, que sempre buscou o imutável. Isso leva, muitos
vezes, à oposição entre ser (imutável) e devir (mutável).
No platonismo e no cristianismo, a mudança é um dos
elementos que indica a corruptibilidade do mundo. De-
vir pode ser empregado também para se referir ao mun-
do sensível, uma vez que este é sujeito à mudança inces-
sante.
6) Donatismo: movimento surgido na África no século 4º e
considerado herético pela igreja católica, tendo por líder
Donato. Era rígido e defendia que as pessoas que haviam
abandonado a igreja em virtude das perseguições sofri-
das pelos cristãos não deveriam ser perdoadas e readmi-
tidas. Defendia também que os sacramentos administra-
dos por sacerdotes infiéis eram inválidos.
7) Dualismo: vide monismo.
8) Essência: derivada do latim esse, cuja origem etimológi-
ca refere-se ao ser. Essência refere-se elemento básico
de uma coisa, à natureza de coisa, sem a qual ela não se-
ria o que é. Algo não pode perder sua essência sem dei-
xar de existir. Assim, essência é um caráter necessário de
alguma coisa. Na história da filosofia, pode-se encontrar
inúmeras propostas para se chegar à essência das coi-
sas. Por fim, cabe lembrar que essência se relaciona à
pergunta o que é...? Exemplo: O que é o homem? Um
animal racional.
9) Forma: traduz o grego morfé. Em Platão, a forma (sinô-
nimo de ideia) determina as coisas no mundo sensível,
conferindo a elas sua natureza. Em outros termos, as coi-
sas sensíveis adquirem sua natureza ao participarem das
formas puras, acessíveis apenas por meio da razão. Para
ele, o mundo das formas é perfeito e imutável, ao passo
que o mundo sensível é imperfeito e sujeito à mudança.
Em Aristóteles, a forma é a "estrutura" que se impõe à
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matéria indiferenciada, constituindo os diferentes mo-


dos das coisas no mundo.
10) Ideia: traduz eidos do grego, que etimologicamente sig-
nifica "visão". Em Platão, é a essência ou forma inteligí-
vel, eterna e imutável da qual participam as coisas sen-
síveis, imperfeitas e finitas. Platão defende a teoria das
ideias argumentando que os conceitos universais (ideias)
existem num mundo à parte (mundo inteligível), separa-
do da realidade sensível. Na Idade Média, ideia refere-se
ao pensamento do ser divino. A partir de Descartes, é a
representação mental de um objeto de pensamento ou
da experiência por qualquer ser pensante. Descartes fala
também de ideias inatas, ou seja, ideias que nos foram
dadas por Deus e que nos permitem conhecer as leis na-
turais de modo evidente. É importante notar que para
Platão as ideias possuem existência objetiva e atempo-
ral. Em Descartes e na filosofia moderna, as ideias são
apenas representações da mente humana.
11) Lógos: palavra de origem grega, sendo possível traduzi-
la por: asserção, princípio, lei, razão, proporção, discur-
so. No latim medieval, houve redução do sentido de lo-
gos para ratio (razão). Em Heráclito, significa o princípio
cósmico que concede unidade, ordem e racionalidade
ao cosmos, ordenando também a ação humana. Lógos
também é tido como aquilo que nos permite apreender
os princípios e as formas, colocando-se como intermedi-
ário entre Deus e os homens. É daqui que o cristianismo
retira a ideia de que o logos se revela como instrumento
de salvação (cf. João 1.1).
12) Matéria: do grego Hylé. No uso comum do grego, indi-
cava bosque ou floresta onde o construtor poderia re-
tirar madeira para a construção de barcos. Disto, pode-
se indicar o sentido de "material apropriado para". Em
termos aristotélicos, é o elemento que se dá à ação da
forma. Na modernidade, a matéria é tida como aquilo
que ocupa espaço, possuindo tamanho, forma, massa e
solidez, constituindo-se como objeto privilegiado da fí-
sica.

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13) Metafísica: denominada por Aristóteles como ciência


primeira, por ter por objeto as causas primeiras e os prin-
cípios de todas as coisas. Em Aristóteles não aparece o
termo metafísica, sendo utilizados termos como filosofia
primeira, teologia ou sabedoria. Em geral, aceita-se que
o termo metafísica tem sentido editorial. Ao organizar
os escritos aristotélicos, Andrônico de Rodes (primeiro
século d.C.) cria o termo ao chamar de metà tà physicá o
texto de Aristóteles que seguia a physicá. No entanto, há
alguns críticos desta adoção do nome metafísica como
mera consequência de organização editorial. Para estes
o termo indica a via do conhecimento natural que, por
sua vez, é uma inversão de ordem objetiva. Em suma, a
metafísica de Aristóteles estuda os princípios e as causas
primeiras, compreendendo as coisas divinas, os princí-
pios do conhecimento e da ação (política). Já em Tomás
de Aquino, a metafísica aparece como distinta teologia,
revelando-se como razão comum a todos os homens e
que lhes permite chegar ao conhecimento da existência
de Deus. Em geral, designa doutrinas filosóficas que par-
tem da experiência e que para explicar racionalmente as
coisas se vale de realidades absolutas e transcendentes.
14) Modernidade: concepção de mundo característico do
período moderno, que se inicia no século 16, encontran-
do na revolução industrial e nas revoluções burguesas
suas realizações mais plenas. Esta concepção de mundo
tem as seguintes características: destaca o sujeito, con-
fiando na razão humana; ênfase no conhecimento cien-
tífico como capaz de conhecer e dominar a natureza por
meio da matematização; a religião deixa de ser o ele-
mento aglutinador central para se tornar apenas mais
um âmbito de ação social (secularização).
15) Monismo: doutrina que busca um único princípio para
todas as coisas, concebendo a realidade a partir de um
termo singular. A filosofia de Parmênides e de Espinosa
são consideradas monistas. É oposto ao dualismo, que
concebe a realidade a partir de dois gêneros de coisas. A
divisão entre corpo e alma, mundo sensível e mundo in-
28 © Fundamentos Filosóficos

teligível são exemplos de filosofias dualistas, encontrada


em Platão, por exemplo.
16) Mundo sensível: é o mundo tal qual se apresenta aos
nossos cinco sentidos: tato, olfato, visão, paladar e au-
dição. Assim, refere-se ao mundo das cores, dos gostos,
dos sons etc. Em Platão, aparece como mundo finito, im-
perfeito e mutável. Opõe-se ao mundo das ideias, em
que se encontra as formas (ou ideias), tidas por Platão
como perfeitas e imutáveis, revelando-se como paradig-
ma do mundo sensível.
17) Neoplatonismo: derivação das doutrinas platônicas que
enfatizam a distância entre mundo sensível e mundo
inteligível. Plotino, importante representante desta ten-
dência, defendia que o mundo emana do uno, enfatizan-
do de tal modo a distância entre sensível e inteligível a
ponto de recusar qualquer representação de seu corpo,
considerado como prisão da alma. Em Alexandria, surgi-
ram importantes sínteses do cristianismo com o neopla-
tonismo, encontrando na figura de Boécio o nome mais
proeminente.
18) Ontologia: termo de origem grega que significa estudo
do ser. A partir do século 17, é utilizado para se referir
à parte central da filosofia que estuda o ser enquanto
ser, ou seja, tudo aquilo que existe. Em sua abordagem,
a ontologia busca pelos fundamentos do ser, sua razão
e suas causas. Grande parte da tradição filosófica conce-
beu Deus como esta causa primeira.
19) Razão: faculdade humana que permite compreender as
coisas. Muitos filósofos compartilham que a razão di-
ferencia o ser humano dos demais seres: somente nós
possuímos a razão, sendo nossa essência "animal racio-
nal". Aceitar algo como racional significa dizer que faz
sentido, ou que é necessário, ou que é apropriado para
se atingir determinados objetivos. Em Descartes, razão
é o poder de julgar e de distinguir o verdadeiro do falso.
Nos escritos cartesianos, a razão é denominada também
de bom senso, sendo inata igual a todos os homens.
20) Ser: tudo aquilo que é real, tudo aquilo que existe, tudo
aquilo que possui ser. Na filosofia de Parmênides, o ser

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© Caderno de Referência de Conteúdo 29

exclui de si o nada (não ser), sendo que o ser se consti-


tui como aquilo que pode ser dito e pensado pelo ser
humano.
21) Somático: aquilo que é corpóreo; aquilo que se refere à
nossa natureza corpórea.
22) Substância: é a tradução do termo grego ousia. O sen-
tido comum do termo no grego é um "bem que per-
tence a alguém", "propriedade de alguém". Em Aris-
tóteles, substância é o indivíduo concreto, o ente ou a
coisa, aquilo que é um e separado. Em segundo lugar,
a substância é associada à forma (eidos ou morfe) que
permite dizer: "isto que a coisa é". Por fim, substância
significa o gênero ou espécie a que pertence um indiví-
duo concreto. Substância pode ser a essência, ou seja,
o que faz de uma coisa aquilo que ela é. Em segundo
lugar, substância é aquilo que pode existir por si e não
requer nenhum outro para existir. Por fim, é aquilo que
tem propriedades, sendo sujeito de predicação. Assim,
por exemplo, Sócrates é substância: ele é autônomo e é
sujeito sobre o qual posso predicar: posso dizer que ele
é filósofo, grego etc. Platão também é outra substância.
Dele posso dizer que era filósofo, matemático, fundador
da academia. Prova de que ambos são substâncias, no
sentido de que são sujeitos de predicados, é que não faz
sentido dizer: Sócrates é Platão, uma vez que aqui faço
de Platão um predicado.

Esquema dos conceitos-chave


Além do cronograma que você deverá seguir para desenvol-
ver suas atividades e interatividades propostas pelo professor res-
ponsável, você poderá valer-se de outros tipos de aprendizagem,
como, por exemplo, a aprendizagem de conceitos, de princípios
(uma cadeia de vários conceitos) que poderão levá-lo à resolução
de problemas quando, mediante à combinação desses princípios,
é produzido um novo conhecimento. Daí a importância de um
mapa conceitual para se ter clareza das ideias e dos princípios que
fundamentam um saber científico.
30


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© Fundamentos Filosóficos


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Figura 1 – Esquema dos conceitos-chave: Fundamentos Filosóficos.



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© Caderno de Referência de Conteúdo 31

Como é possível observar, a Figura 1 apresenta uma visão


geral dos conceitos mais importantes deste estudo. Seguindo esse
esquema, você poderá transitar entre um e outro conceito da dis-
ciplina e descobrir o caminho para construir seu processo ensino-
aprendizagem.
No mapa conceitual, observe os diversos momentos históri-
cos da filosofia e sua relação com os temas e questões tratadas em
cada momento.
Observamos que o Esquema de Conceitos-chave é mais um
dos recursos de aprendizagem que vem somar-se àqueles dispo-
níveis no ambiente virtual com suas ferramentas interativas, bem
como as atividades didático-pedagógicas realizadas presencial-
mente no polo. Lembre-se de que você como aluno na modalidade
a distância, pode valer-se de sua autonomia na construção de seu
próprio conhecimento.

Questões Autoavaliativas
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas sobre os conteúdos ali tratados. Responder, dis-
cutir e comentar estas questões e relacioná-las com a Teologia,
pode ser uma forma de você medir o seu conhecimento, ter con-
tato com questões pertinentes ao assunto tratado e de lhe ajudar
na preparação para a prova final, que será dissertativa. Mais ainda:
é uma maneira privilegiada de você adquirir uma formação sólida
para a sua prática profissional.

Bibliografia Básica
É fundamental que você use a bibliografia básica em seus
estudos, mas não se prenda só a ela. Consulte também as apresen-
tadas no Plano de Ensino e no item Orientações de estudo para a
unidade.
32 © Fundamentos Filosóficos

Figuras (Ilustrações, Quadros...)


As ilustrações neste material instrucional fazem parte inte-
grante dos conteúdos; não são meramente ilustrativas. Elas esque-
matizam e resumem conteúdos explicitados no texto. Não deixe de
observar a relação dessas figuras com os conteúdos da disciplina,
pois relacionar aquilo que está no campo visual com o conceitual
faz parte de uma boa formação intelectual.

Dicas (Motivacionais)
O estudo desta disciplina convida você a um olhar mais apu-
rado da educação como processo de emancipação do ser huma-
no. Procure ficar atento para as explicações teóricas, práticas (do
senso comum) e científicas presentes nos meios de comunicação,
e partilhe com seus colegas seus comentários. Ao compartilhar o
que observamos com outras pessoas, temos a oportunidade de
perceber o que nós e os outros ainda não sabemos, aprendendo
a ver e notar o que não tínhamos percebido antes desenvolvendo
discriminações. Observar é, portanto, uma capacidade que nos im-
pele à maturidade.
Você como aluno do curso de Graduação na modalidade EAD
necessita de uma formação conceitual sólida e consistente. Para
isso você contará com a ajuda do tutor a distância, do tutor pre-
sencial e, principalmente da interação com seus colegas. Sugeri-
mos que organize bem o seu tempo, realize as atividades nas datas
estipuladas.
É importante que você anote suas reflexões em seu caderno
ou Bloco de Anotações, pois no futuro poderá utilizá-las na elabo-
ração de sua monografia ou futuras produções científicas. Mesmo
que suas reflexões não tenham uma utilização imediata, elas o aju-
darão a fixar os conteúdos na memória, a aprofundar as questões
em sua mente e a guardar suas intuições no coração.
Leia os livros da bibliografia indicada, para que você amplie
seu conhecimento, corrija seus preconceitos e se lance a horizon-

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© Caderno de Referência de Conteúdo 33

tes mais amplos. Coteje com o material didático, discuta a unidade


com seus colegas e com o tutor e assista às videoaulas.
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas, que são importantes para a assimilação pessoal
dos conteúdos apresentados. Indague, reflita, conteste, elabore
resenhas, construa suas próprias opiniões. Estes procedimentos
serão importantes para o seu amadurecimento intelectual.
Lembre-se que: o segredo do sucesso em um curso na moda-
lidade Educação a Distância é Participar, ou seja, Interagir, procu-
rando sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores.
Caso você precise de ajuda sobre algum assunto relacionado
a esta disciplina, entre em contato com seu tutor. Ele estará pronto
a ajudar você.
EAD
O que é filosofia? Para
que filosofia?

1
1. Objetivos
• Introduzir o debate acadêmico sobre o que é filosofia.
• Compreender a relação entre filosofia, poesia e política.
• Refletir sobre as principais tendências da história da filo-
sofia.
• Identificar e interpretar filosofia e senso comum.

2. Conteúdos
• O que é filosofia.
• Filosofia, poesia e política.
• Filosofia e senso comum.
• Filosofia e sua história.
36 © Fundamentos Filosóficos

3. Orientações para o estudo da unidade


1) Tenha sempre à mão o significado dos conceitos explici-
tados no Glossário e suas ligações pelo Mapa Conceitual
para o estudo de todas as unidades deste CRC. Isso po-
derá facilitar sua aprendizagem e seu desempenho.
2) Leia os livros da bibliografia indicada, para que você am-
plie seus horizontes teóricos.
3) Ao ler a unidade, busque relacionar os conteúdos estu-
dados com exemplos retirados de seu cotidiano. Escreva
estes exemplos, sempre justificando a relação existente
entre eles e o conteúdo estudado.

4. Introdução À UNIDADE
Estamos prestes a iniciar um estudo que o levará a conhecer
uma área específica do conhecimento humano muito falado, mas
pouco conhecida e aprofundada pela maioria das pessoas: a filo-
sofia.
Faremos uma viagem pelas principais ideias e implicações
dessa área do conhecimento, procurando defini-la, entender suas
relações com as demais áreas, passando pelos principais filósofos,
desde o nascimento até à consolidação da filosofia como atividade
humana racional, crítica e fundamentada pela busca da verdade.
Você estudará, nesta unidade, a definição de filosofia, com
toda a sua implicação problemática, a sua relação com a poesia e
a política. Em seguida, você conhecerá a conceituação de senso
comum, em contraposição à proposta filosófica, pois, em sentido
filosófico, são contrárias. Por fim, você entrará em contato breve
com os períodos históricos da filosofia, pois é sabido que ela só
tem sentido de existir quando propõe questões e respostas que
estejam em sintonia com o momento histórico em que ela é exer-
citada e vivida.
Vamos, então, ao nosso estudo!

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© O que é filosofia? Para que filosofia? 37

5. O QUE É FILOSOFIA?
O termo filosofia tem origem grega e é composto por duas
palavras: “philo” e “sophia”. “Philo” significa amizade, amor entre
iguais. “Sophia”, por sua vez, significa sabedoria. Assim, etimolo-
gicamente, filosofia é amor e respeito pela sabedoria. O filósofo é
aquele que ama a sabedoria, o que tem amizade pelo saber, aque-
le que deseja o saber.

Etimologia significa “raiz, origem da palavra”.

É interessante, pois, observar que o filósofo não possui a sa-


bedoria, mas a deseja e a busca. Se ele já possuísse a sabedoria,
não faria sentido dizer que ainda a busca, afinal, apenas deseja-
mos aquilo que ainda não temos. Em poucas palavras, pode-se di-
zer que filosofia é a busca pela sabedoria, mas não sua posse. E a
desejamos justamente porque não a possuímos integralmente.
Você pôde observar que a etimologia do termo filosofia in-
dica mais uma deficiência do que propriamente uma definição
positiva do que ela seria. Vamos, então, tentar definir filosofia de
modo mais positivo:
Segundo Marilena Chauí (1996, p. 17), filosofia é:
[...] a decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas,
as idéias, os fatos, as situações, os comportamentos de nossa exis-
tência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e
compreendido.

Filosofia não é apenas um conjunto de conhecimentos sobre


o mundo e o ser humano. Também não se reduz a inúmeros posi-
cionamentos que tentam explicar o mundo. Ela não pode ser com-
preendida apenas como visões de mundo de determinado povo,
cultura ou época. Antes, filosofia é uma atitude frente ao mundo,
aos outros e a nós mesmos.
38 © Fundamentos Filosóficos

O que significa dizer que a filosofia é uma postura?


Em primeiro lugar, a filosofia implica em estranhamento do
mundo, de nossas crenças, de nossos sentimentos, de ações e de
pensamentos. Principalmente nos dias atuais, tendemos a assu-
mir as coisas como se elas fossem naturais, como se fossem assim
mesmo e não pudessem ser de outro modo. Estamos tão imersos
no cotidiano, com sua velocidade estonteante, que raramente fa-
zemos perguntas sobre coisas que realmente são importantes e
que determinam o modo como nos encaramos, como concebe-
mos nossa relação com as outras pessoas e com o mundo.
Quando observamos, por exemplo, uma criança em deter-
minada idade, percebemos que ela sempre se pergunta pelo “por-
quê” das coisas. Todos nós já passamos por essa fase; no entanto,
vamos crescendo e as coisas vão se tornando normais e cotidianas
para nós. Perdemos a capacidade de olhar o mundo de outra for-
ma, com certo estranhamento. Também deixamos de questionar e
passamos a aceitar explicações, visões de mundo, crenças, opini-
ões e verdades sem questioná-las.
Ao lado do espanto, a dúvida é fundamental para a filoso-
fia. Quando assumimos a postura de olhar as coisas de um ponto
de vista que não seja marcado apenas pelas preocupações mais
imediatas, logo colocamos em dúvida verdades e certezas que tí-
nhamos por certo. O espanto é, desse modo, seguido da dúvida.
Podemos, com essa postura, libertar-nos do ”cárcere” do senso
comum e das preocupações imediatas e colocar questões que são
fundamentais, tais como: por que existo? Por que há algo em vez
de nada? Como posso saber algo? Que devo fazer?
Lembro-me de quando cursava a faculdade de história, na
entrada do prédio havia uma frase pichada que revelava bem a
postura filosófica: “duvide de seus princípios”. No início, aquela
frase havia me chamado a atenção, mas não era capaz de perce-
ber seu alcance. Com o passar do tempo, aquela frase passou a
fazer cada vez mais sentido. À medida que ia estudando, percebia

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© O que é filosofia? Para que filosofia? 39

a importância de se espantar diante das coisas e de duvidar. Essa


dúvida não era superficial: ela tocava em princípios que antes eu
tinha por certos e verdadeiros.
Isso não significava duvidar por duvidar simplesmente: nota-
va como era importante levantar questionamentos fundamentais
que, muitas vezes, são calados pela correria cotidiana. Duvidar dos
princípios não significou que todos eles foram abandonados. Al-
guns, evidentemente, não resistiram a perguntas e argumentações
mais profundas. No entanto, outros foram reafirmados. Assim, du-
vidar dos princípios indica a necessidade de se olhar as coisas de
outro modo, colocando-os em dúvida para ver se são suficiente-
mente sólidos para se manterem.

Para resumir o que dissemos até aqui, poderíamos definir filosofia


de modo bastante simples. Filosofia é: ! ? . O ponto de exclamação
aponta para o espanto; o de interrogação significa a dúvida.

Assim, filosofia significa uma postura crítica diante do mun-


do. Num primeiro momento, esta postura assume aspecto ne-
gativo. Trata-se de suspender os preceitos do senso comum que
assumimos. É colocar em dúvida nossos conceitos prévios, pré-
conceitos e pré-juízos. No entanto, a atitude filosófica crítica tam-
bém tem algo de positivo, uma vez que ela envolve a interrogação
sobre as coisas, sobre as ideias, os fatos, valores, comportamen-
tos, nós mesmos, as relações interpessoais: O que é? Por que é?
Como é? Todas essas são questões que nos levam a considerar as
coisas de outro modo.
Observe as tirinhas da figura 1 e identifique como a falta de
crítica diante da realidade se mostra, indicando a necessidade do
espanto e da dúvida. Note como, às vezes, empregam-se ironias.
40

© Fundamentos Filosóficos


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Figura 1 Clube da Mafalda

 Além disso, a atitude filosófica implica reflexão. Ela se inicia


com perguntas sobre o mundo e as coisas. Gradativamente, chega
à conclusão de que, antes de se tratar dessas questões, é preciso
também questionar sobre nossa capacidade de conhecer. Isso por-
que conhecer envolve operações muito mais complexas do que
simplesmente assimilar aquilo que nos é passado. Conhecer não é
somente perceber algo pelos sentidos e dizer como esse objeto é.
Um simples exemplo pode ilustrar essa ideia: quando obser-
vo a mesa de um professor numa sala de aula, eu não percebo
apenas uma mesa. Ela já aparece para mim a partir de um con-
junto de significações. Ao ver a mesa, associo a ela sentimentos,
lembranças, valores, ideias, que determinam o modo como eu a
percebo. Isso certamente é fundamental na representação que
crio dessa mesa.

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© O que é filosofia? Para que filosofia? 41

Se esse simples fato é assim num episódio cotidiano, imagi-


ne um pesquisador. Quando ele vai desenvolver algum estudo, já
pressupõe algumas noções, traz consigo certa concepção de natu-
reza, de ser humano, de ciência que, apesar de não ser colocada
em dúvida, é determinante para o estudo que pretende empreen-
der. Deste modo, a ciência não é apenas algo técnico. Ela pressu-
põe elementos que vão muito além do mero aplicar de fórmulas.
Assim, a filosofia também se pergunta: o que é o pensar?
Como conhecemos as coisas? Por que há o pensar? Em outros ter-
mos, a filosofia também implica reflexão. Segundo Chauí:
Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movi-
mento de retorno a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual
o pensamento volta sobre si mesmo, interrogando a si mesmo. A
reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do
pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para
indagar como é possível o próprio pensamento (1996, p. 20).

É importante ressaltar que a filosofia também é marcada


por um caráter sistemático. Ainda que tenha relações com a arte e
com a religião, tem sua marca na necessidade de fundamentação
do que é dito. Não basta apenas que se dê respostas para os ques-
tionamentos. É preciso que as respostas trabalhem com enuncia-
dos precisos e rigorosos, que busquem encadeamentos lógicos e
argumentos plausíveis e convincentes. Assim, filosofia não é mera
opinião, pois também trabalha com rigor conceitual.

6. FILOSOFIA, POESIA E POLÍTICA


Para analisar outros elementos do que é filosofia, vamos ob-
servar a pintura da figura 2:
42 © Fundamentos Filosóficos

Figura 2 Aristóteles e Homero

O quadro anterior foi pintado pelo grande artista plástico


Rembrant (1606-1669). Nele, o artista representa Aristóteles em
pé, com a mão sob o busto de Homero. Estudaremos que Aristóte-
les foi um dos mais importantes filósofos da antiguidade. Homero,
por sua vez, é conhecido por ter redigido (ou copilado) obras poé-
ticas de imensa importância, como Ilíada e Odisséia.
Mas o que o quadro nos diz sobre a filosofia? Em primeiro
lugar, o filósofo (representado por Aristóteles) aparece em pé, ao
passo que o poeta (Homero) é representado por um busto. Isso
poderia indicar que o filósofo está sempre vivo, sempre interpre-
tando e interrogando. Por outro lado, o poeta representado no
busto está recolhido em sua obra, imóvel. Esse elemento é refor-
çado pelo fato de Aristóteles utilizar roupas contemporâneas, indi-
cando que a filosofia é sempre contemporânea, é sempre atual.
No entanto, Aristóteles está com a mão sobre o busto de Ho-
mero, o que pode significar que a filosofia tem como ponto de par-

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© O que é filosofia? Para que filosofia? 43

tida a poesia e está, de certo modo, sempre em contato com ela.


Assim, a poesia não é menos ou mais importante que a filosofia,
apenas representa um caminho diverso para se alcançar a verdade.
Há ainda outro detalhe importante: ao contrário do título
do quadro, Aristóteles não contempla Homero. Se observarmos
bem, Aristóteles está olhando para outra direção, concentrado em
outra coisa. O que será que Aristóteles observa? Para onde dirige
seu olhar? Para a verdade? Para a substância? Para o divino? Não
o sabemos. Ele está em contato com a poesia, mas se ocupa de
outra coisa, de um assunto mais claramente filosófico.
A pintura de Rembrant tem ainda outro elemento que passa
quase despercebido. No quadro não há apenas dois personagens,
mas três. Na cinta de Aristóteles há uma medalha. Nela, está re-
presentado o rosto de Alexandre, o Grande. Alexandre foi impor-
tante político da antiguidade, tendo conquistado vários territórios.
A partir disso, pode-se dizer que Alexandre representa o elemento
político. Ele aparece de modo discreto, quase imperceptível. No
entanto, o elemento político está presente. Se observarmos ain-
da mais, vemos que a medalha, com a figura do político, aparece
numa posição intermediária entre o filósofo e o poeta. Isso sig-
nifica que a política se mostra como mediadora da relação entre
filosofia e política.
Melhor dizendo, a relação entre filosofia e poesia é interme-
diada pela política, mesmo quando ela pareça estar ausente. Des-
se modo, a filosofia, por mais abstrata que pareça, está inserida
num contexto político e interfere nessa situação, seja para mantê-
la ou para mudá-la.

7. FILOSOFIA E SENSO COMUM


O que é senso comum? Como a filosofia se relaciona com
ele? Essas questões são importantes para compreender a contri-
buição da filosofia para a sociedade na qual se insere.
44 © Fundamentos Filosóficos

Em poucas palavras, pode-se dizer que senso comum é um


conjunto de opiniões, geralmente aceitas em determinada época,
de modo que as opiniões contrárias aparecem como aberrações
individuais. O problema do senso comum não é ser aceito pela
maioria, como alguns podem pensar. Seu limite se encontra no
fato de simplificar a explicação de fenômenos extremamente com-
plexos.
Vamos exemplificar: na sociedade atual, valoriza-se muito
o sucesso. Os livros de autoajuda sempre estão no topo das lis-
tas dos mais vendidos. Em geral, eles expõem regras simples que,
se seguidas, levam qualquer pessoa ao sucesso. Um autor de um
destes livros afirmou, certa vez, que a diferença entre a pessoa
pobre, de classe média e rica, está na forma como encaram a vida.
Os empobrecidos se conformam com sua situação e pensam que
nunca enriquecerão. Aqueles que pertencem à classe média pen-
sam: “Ah! Quem me dera um dia ganhar na Mega-sena”. Os que
enriquecem desejam fortemente ser ricos e agem para isso.
Esse tipo de explicação é reducionista por não levar em con-
sideração diversos fatores. As diferenças sociais acabam determi-
nando condições de estudo, inserção no mercado de trabalho e
perspectiva de vida. Imagine uma pessoa que trabalhe desde os 15
anos de idade e outra que teve oportunidade de estudar em um
bom colégio. Pessoas mais pobres trabalham muito. No entanto,
elas não trabalham para si próprias, mas na empresa de alguém
que possui o maquinário e as condições necessárias para se fa-
bricar um produto. Este provavelmente vai enriquecer, enquanto
aquele permanece recebendo um salário muito inferior à sua pro-
dutividade. Por mais que trabalhe, a pessoa pobre dificilmente se
tornará rica.
A mídia, por sua vez, expõe inúmeros exemplos de pessoas
que venceram na vida, lutando contra todos os obstáculos. Recen-
temente, veiculava-se um slogan que fez muito sucesso: “Sou bra-
sileiro e não desisto nunca!”. No entanto, devemos nos perguntar:

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© O que é filosofia? Para que filosofia? 45

esses casos são regra ou exceção? Há de se concordar que são mui-


to raros, ainda que a mídia os coloque como regra, como exemplos
que, se seguidos, mostram como se pode obter sucesso. Olhe ao
se redor: quantas pessoas, que trabalham para outras, subiram na
vida somente com seu trabalho, de modo honesto? Quando se diz
enriquecer, não é melhorar um pouco de vida, mas realmente ter
um salto como vemos na mídia. No caso do Brasil, muitos jovens
enxergam no futebol ou na música caminho de ascensão social.
Nesse exemplo, percebemos que o senso comum tende a simplifi-
car as coisas, não levando em consideração todas as determinan-
tes para se explicar os fenômenos. A tirinha a seguir se mostra
como importante exemplo de como o senso comum evita certas
questões ou a responde de modo simplista:

Fonte: ARANHA.; MARTINS. Introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1993. P.38.

O senso comum tem um grande poder sobre a forma como


nós nos vemos, nos relacionamos uns com os outros e com o mun-
do. Neste sentido, inclusive o conhecimento científico pode ser
tornar senso comum, na medida em que a ciência assume tons
dogmáticos, não permitindo ser questionada. O caso de Galileu
Galilei (1564-1642) é um claro exemplo de como o conhecimento
científico pode se tornar dogmático além de mostrar a força que o
senso comum possui em modelar as mentes. Quando Galileu pas-
sou a defender que a terra não era o centro do universo, mas o sol
ocupava esse lugar, muitos não acreditaram nele. As pessoas ha-
viam aprendido, desde crianças, que a Terra é o centro do universo
e que o sol girava em torna dela. Os próprios sentidos constatavam
46 © Fundamentos Filosóficos

isso: no decorrer do dia, podemos perceber como o sol sai do les-


te para oeste, dando-nos a nítida impressão de que ele se move.
Para muitas pessoas, as conclusões de Galileu eram absurdas. Ele
era tido como um louco e sua teoria, uma aberração. Elas contra-
riavam a ciência da época e os sentidos. Agora imaginem o que
teria acontecido se Galileu tivesse dado ouvidos ao senso comum?
Até quando ainda acreditaríamos que a Terra é o centro do univer-
so? Outro problema do senso comum é que na maioria das vezes
não está aberto para colocar em dúvida aquilo que desde muito
acredita como certo. Como a atitude filosófica implica no duvidar
do que é comumente aceito, não raramente se concebe o filósofo
como um lunático, alguém que vive em outro mundo. No entanto,
várias pessoas que fizeram teorias hoje comumente aceitas foram,
inicialmente, tidas como loucas.

Galileu Galilei–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Galileu Galilei (em italiano Galileo Galilei, Pisa, 15 de fevereiro de 1564 — Flo-
rença, 8 de janeiro de 1642) foi um físico, matemático, astrônomo e filósofo ita-
liano que teve um papel preponderante na chamada revolução científica. Ele
desenvolveu os primeiros estudos sistemáticos do movimento uniformemente
acelerado e do movimento do pêndulo. Descobriu a lei dos corpos e enunciou
o princípio da inércia e o conceito de referencial inercial, idéias precursoras da
mecânica newtoniana. Galileu melhorou significativamente o telescópio refrator
e terá sido o primeiro a utilizá-lo para fazer observações astronômicas. Com ele
descobriu as manchas solares, as montanhas da Lua, as fases de Vênus, quatro
dos satélites de Júpiter, os anéis de Saturno, as estrelas da Via Láctea. Estas
descobertas contribuíram decisivamente na defesa do heliocentrismo. Contudo
a principal contributo de Galileu foi para o método científico, pois a ciência as-
sentava numa metodologia aristotélica. Desenvolveu ainda vários instrumentos
como a balança hidrostática, um tipo de compasso geométrico que permitia me-
dir ângulos e áreas, o termômetro de Galileu e o precursor do relógio de pêndulo.
O método empírico, defendido por Galileu, constitui um corte com o método aris-
totélico mais abstrato utilizado nessa época, devido a este Galileu é considera-
do como o "pai da ciência moderna (Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/
Galileu_Galilei>. Acesso em: 20 ago. 2010).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Outra característica do senso comum é sua atitude prática
diante do mundo. Especialmente em nossa época, vivemos sobre
o império daquilo que é útil. As coisas que não têm utilidade práti-
ca e imediata são logo descartadas. Não muito raramente, algumas
pessoas afirmam que a teoria somente atrapalha e o que interessa

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© O que é filosofia? Para que filosofia? 47

são as coisas práticas, como se a prática bastasse a si mesma. No


entanto, quando paramos para pensar um pouco melhor, notamos
que as coisas não são bem assim, pois toda prática se fundamenta
ou pressupõe uma teoria. O ponto é que muitas pessoas apenas
querem aprender o “how to do” (como fazer), deixando de lado a
teoria em que são alicerçados os aspectos práticos.
Ignorar a teoria apenas facilita a perpetuação de uma rede de
preconceitos, de verdades estereotipadas e, em alguns casos, até mes-
mo superstições. Aqueles que detêm o poder sobre a produção inte-
lectual apenas reforçam sua dominação com essa forma de se encarar
as coisas, uma vez que as pessoas não se perguntam pelo porquê,
mas apenas pelo como. Se, por exemplo, ao invés de nos perguntar-
mos como fazer para ficar rico, questionássemos por que a sociedade
é tão desigual? Qual seria a conclusão a que chegaríamos?
A postura filosófica, com sua atitude de espanto e de dúvida,
suspende a ação do senso comum, podendo, por isso, ser conside-
rada uma atividade crítica.
Em geral, a primeira batalha que temos de travar para ques-
tionar o senso comum é ir contra a nós mesmos. Nós também as-
sumimos e compartilhamos das opiniões do senso comum. Assim
vale a pena ouvir o que afirmou o filósofo Bachelard (1972, p. 14)
“[...] o que se crê saber claramente ofusca o que se deveria saber”.
É preciso estar atento e aberto para questionar o que se tem por
verdadeiro. O poeta Fernando Pessoa (s/d, p. 50) também afirma
algo parecido: “Homem culto é aquele que, de tudo a que assiste,
aumenta não os seus conhecimentos, mas o seu estado de alma”.

Fernando Pessoa––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888 em Lis-
boa. Em 1893 morre seu pai e em 1894, seu irmão, Jorge. No ano seguinte, sua
mãe casa-se com João Miguel Rosa, cônsul português em Durban, na África
do Sul. Em 1896, a família parte para Durban onde Fernando Pessoa estuda e
aprende o inglês. Em 1905, ele regressa definitivamente a Lisboa, com intenção
de se inscrever no Curso Superior de Letras. (Disponível em: <http://www.netsa-
ber.com.br/biografias/ver_biografia_c_861.html>. Acesso em: 20 ago. 2010).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
48 © Fundamentos Filosóficos

8. A FILOSOFIA E SUA HISTÓRIA


A postura filosófica foi assumida e desenvolvida na história
por vários e importantes precursores de nossa época, sempre em
diálogo com problemas que cada momento histórico levantou.
Neste sentido, é importante retomar o que já foi pensado. Caso
contrário, correríamos o risco de redescobrir as velhas invenções a
cada geração. Para a filosofia, é fundamental olhar para o passado
por duas razões. Em primeiro lugar, as ideias e ideais de muitos
filósofos do passado determinam o modo como pensamos sobre
nós mesmos, os outros e o mundo. Em segundo lugar, questões do
presente podem ser respondidas a partir do olhar para o passado.
Ao contrário das ciências exatas, para as quais importa o desenvol-
vimento tecnológico recente, para a filosofia é de extremo interes-
se o que se pensou desde os seus primórdios.
A seguir, veja um resumo da história da filosofia. Em breve,
teremos oportunidade de observar com mais detalhes alguns des-
ses períodos.

Filosofia na Grécia Antiga (século 5º a.C. – 5º d.C.)


Esse momento é compreendido por três movimentos distintos:
1) Pré-socráticos: são considerados os primeiros filósofos.
Sua principal preocupação era descobrir o fundamento
da natureza, bem com as causas das transformações so-
fridas por ela (“arché”).
2) Período socrático: a filosofia passa a se ocupar de ques-
tões humanas: ética, política, além de tentar explicar o
mundo e seu movimento. Nesse período aparecem filó-
sofos considerados fundamentais para a filosofia: Sócra-
tes, Platão e Aristóteles.
3) Período helenístico: a pergunta principal da filosofia
nesse período era sobre a ética: o que devo fazer para
ser feliz? Surgem várias escolas filosóficas que muito se
assemelhavam a grupos religiosos: estóicos, epicureus e
cínicos.

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© O que é filosofia? Para que filosofia? 49

Os pré-socráticos –––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Os pré-socráticos são filósofos que viveram na Grécia Antiga e nas suas colô-
nias. Assim são chamados, pois são os que vieram antes de Sócrates, conside-
rado um divisor de águas na filosofia. Muito pouco de suas obras está disponível,
restando apenas fragmentos. O primeiro filósofo do qual temos uma obra siste-
mática e com livros completos é Platão, depois Aristóteles.
São chamados de filósofos da natureza, pois investigaram questões pertinen-
tes a esta, como de que é feito o mundo. Alguns se propuseram a explicar as
transformações da natureza. Tinham preocupação cosmológica. A maior parte do
que sabemos desses filósofos é encontrada na doxografia de Aristóteles, Platão,
Simplício e na obra de Diógenes Laércio (século 3º d. C.), Vida e obra dos filó-
sofos ilustres. A partir do século 7º a.C., há uma revolução monetária da Grécia,
e advêm a ela inovações científicas. Isso colaborou com uma nova forma de
pensar, mais racional. Os pré-socráticos inspiraram a interpretação de filósofos
contemporâneos como Nietzsche, que nos iluminou com a sua obra A filosofia na
época trágica dos Gregos e Hegel, que aplicou seu sistema na história da filoso-
fia. São eles: Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Pitágoras, Xenófanes,
Heráclito, Parmênides, Zenão de Eléia, Empédocles, Anaxágoras, Leucipo de
Mileto e Demócrito. (Disponível em: <http://www.consciencia.org/pre_socraticos.
shtml>. Acesso em: 20 ago. 2010).
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Sócrates–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Sócrates nasceu em Atenas em 470/469 a. C. e morreu na mesma cidade em
399 a.C., condenado devido a uma acusação de "impiedade": ele foi acusado de
ateísmo e de corromper os jovens com a sua filosofia, mas, na realidade, estas
acusações encobriam ressentimentos profundos contra Sócrates por parte dos
poderosos da época. Ele era filho de um escultor, chamado Sofronisco, e de uma
parteira chamada Fenarete. Desde a juventude, Sócrates tinha o hábito de de-
bater e dialogar com as pessoas de sua cidade. Ao contrário de seus predeces-
sores, Sócrates não fundou uma escola, preferindo também realizar seu trabalho
em locais públicos (principalmente nas praças públicas e ginásios), agindo de
forma descontraída e descompromissada (pelo menos na aparência), dialogan-
do com todas as pessoas, o que fascinava jovens, mulheres e políticos de sua
época. (Disponível em: http://br.geocities.com/carlos.guimaraes/socrates.html>.
Acesso em: 20 ago. 2010).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Filosofia Patrística (séculos 1º d.C. - 7º d.C.)


Esse momento histórico da filosofia coincide com o surgimen-
to e o desenvolvimento do Cristianismo. Partindo, principalmente,
das cartas de Paulo e do evangelho de João, buscava-se conciliar a
fé cristã com a filosofia grega. Os historiadores da filosofia dividem
a reflexão em patrística grega (desenvolvida por teólogos ligados
à Igreja de Bizâncio) e a patrística latina (ligada à Igreja de Roma).
50 © Fundamentos Filosóficos

Neste período, a filosofia se confunde com a teologia.

Filosofia Medieval (séculos 8º - 14)


Envolve pensadores árabes, judeus e cristãos. Ainda que se
observe importante variedade na reflexão filosófica, pode-se no-
tar como eixo comum a tentativa de articular pensamento filosófi-
co grego com o monoteísmo, o que foi feito por filósofos segundo
a tradição religiosa à qual pertenciam: Islamismo, Judaísmo e Cris-
tianismo. Na Europa, a Igreja Romana tem grande domínio, dando
início às primeiras universidades.

Filosofia do Renascimento (século 14 –16)


Foi um período marcado pela redescoberta de textos gregos
e latinos cujos valores foram perdidos durante a Idade Média. Nes-
se momento, a arte é extremamente importante. Começam tam-
bém a serem lançadas as sementes que frutificarão no desenvol-
vimento da ciência moderna. Os temas principais desse momento
na reflexão filosófica são: o ser humano, a política e a natureza.

Filosofia Moderna e Iluminismo (século 17 – 19)


A Filosofia moderna nasce com as reflexões de Renè Descar-
tes. As principais mudanças são: a razão humana passa a assumir
centralidade no discurso filosófico e na concepção de mundo (an-
tropocentrismo); a natureza é um sistema racional de mecanismos
físicos e a matemática é a chave para a compreensão desse gran-
de mecanismo; o ser humano, por meio do uso correto da razão,
pode compreender e dominar as leis eternas que regem o univer-
so, obtendo controle sobre a natureza.
O Iluminismo foi um movimento decorrente dessas concep-
ções. Ele aparece no século 18, perdurando até o final do século
19. Esse período é também chamado de “época das luzes”, pois se
acreditava que a razão poderia dissipar as trevas da superstição.
Por meio da razão, o homem poderia conquistar a liberdade, a fe-
licidade social e política.

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© O que é filosofia? Para que filosofia? 51

Filosofia Contemporânea (séculos 19 – 21)


É marcada pela ruptura com os temas da filosofia moderna.
Em especial, a filosofia contemporânea se mostra crítica das no-
ções centrais da modernidade, uma vez que o projeto de socieda-
de e racionalidade moderno não se realizou. Os temas recorrentes
desse período são: história, ciência, política, cultura, linguagem,
ética e metafísica.
O sobrevoo que fizemos pela história da filosofia tem apenas
por objetivo mostrar como ela se desenvolveu no decorrer do tem-
po. Esse resumo pode nos auxiliar nas unidades seguintes, quando
teremos oportunidade de desenvolver mais detalhadamente cada
período histórico.

9. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAs
Sugerimos, neste tópico, que você procure responder às
questões a seguir, que tratam da temática desenvolvida nesta uni-
dade, bem como que as discuta e as comente.
A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para
testar seu desempenho. Se encontrar dificuldades em responder
a essas questões, procure revisar os conteúdos estudados para
sanar suas dúvidas. Este é o momento ideal para você fazer uma
revisão do estudo desta unidade. Lembre-se de que, na Educação
a Distância, a construção do conhecimento ocorre de forma coo-
perativa e colaborativa. Portanto, compartilhe com seus colegas
de curso suas descobertas.
Confira, na sequência, as questões propostas para verificar
seu desempenho no estudo desta unidade:
1) O que é filosofia?
2) O que é senso comum? Quais suas principais características?
3) Faça uma autoanálise e também observe ao seu redor.
Como o senso comum aparece? Cite exemplos de ati-
52 © Fundamentos Filosóficos

tudes do senso comum adotadas por você e por outras


pessoas do seu convívio.
4) Redija, com suas próprias palavras, um texto mostrando
qual é a finalidade central desta unidade e quais foram
os argumentos utilizados para fundamentar esta ideia
central.

10. CONSIDERAÇÕES
Nesta unidade, você pôde compreender a filosofia não
apenas como conjunto de saberes teóricos que nada têm a ver
com a realidade, com a verdade. Antes, a filosofia é uma pos-
tura. É atitude de espanto e de dúvida. O espanto e a dúvida se
dão em relação ao senso comum. No entanto, não podemos nos
esquecer de que ela sempre ocorre num mundo marcado pela
política, relacionando-se também com as outras áreas do saber,
tais como a poesia.
Prosseguindo, na Unidade 2, estudaremos a transição do
“mithós” para o “logos” a partir do exame de algumas escolas pré-
socráticas.
Até lá!

11. E-REFERÊNCIAs
CLUBE DA MAFALDA <http://clubedamafalda.blogspot.com>. Acesso em: 20 ago. 2010.
HEIDEGGER, M. Que é isso – a filosofia? Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br>.
Acesso em: 20 ago. 2010. 12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Lista de figuras
Figura 1 - Clube da Mafalda. Disponível em:<http://clubedamafalda.blogspot.com>.
Acesso em: 20 ago. 2010.
Figura 2 - Aristóteles e Homero: Disponível em: <http://www.uah.edu/colleges/liberal/
philosophy/heikes/302/time/rembrant/aristotle.html>. Acesso em: 20 ago. 2010.

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12. referÊncias bibliográficas


BACHELARD, G. La formation de l’esprit scientific. Paris: Vrin, 1972.
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1996.
______. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2004.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 1992.
PESSOA, F. Obra em prosa de Fernando Pessoa: Portugal, sebastianismo e quinto império.
Lisboa: Publicações Europa-América, s/d.

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