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Gravidez na Adolescência

Maria Sylvia de Souza Vitalle*

Olga Maria Silverio Amancio**

*Doutora em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina


(UNIFESP/EPM); médica do Laboratório de Pesquisa da Disciplina de Gastroenterologia do
Depto de Pediatria da UNIFESP/EPM.

a
** Prof . Adjunto Doutora do Depto de Pediatria da UNIFESP/EPM

RESUMO

Revisão da literatura sobre gravidez na adolescência contendo dados


referentes às suas causas, repercussões e epidemiologia.

Palavras-chave: Adolescência, gravidez

Introdução

A gravidez na adolescência tem sérias implicações biológicas, familiares,


emocionais e econômicas, além das jurídico-sociais, que atingem o indivíduo
isoladamente e a sociedade como um todo, limitando ou mesmo adiando as
possibilidades de desenvolvimento e engajamento dessas jovens na
sociedade. Devido às repercussões sobre a mãe e sobre o concepto é
considerada gestação de alto risco pela Organização Mundial da Saúde (OMS
1977, 1978), porém, atualmente postula-se que o risco seja mais social do que
biológico.

A atividade sexual na adolescência vem se iniciando cada vez mais


precocemente, com conseqüências indesejáveis imediatas como o aumento da
freqüência de doenças sexualmente transmissíveis (DST) nessa faixa etária; e
gravidez, muitas vezes também indesejável e que por isso, pode terminar em
aborto (Basso et al, 1991; Mimica & Piato, 1991; Taquete, 1992; Oh et al, 1993;
Crespin, 1998; Chabon et al., 2000). Quando a atividade sexual tem como
resultante a gravidez, gera consequências tardias e a longo prazo, tanto para a
adolescente quanto para o recém-nascido. A adolescente poderá apresentar
problemas de crescimento e desenvolvimento, emocionais e comportamentais,
educacionais e de aprendizado, além de complicações da gravidez e
problemas de parto. Há inclusive quem considere a gravidez na adolescência
como complicação da atividade sexual (Creatsas et al., 1991; Piyasil, 1998;
Wilcox & Field, 1998).
Causas

A gravidez na adolescência é multicausal e sua etiologia está relacionada a


uma série de aspectos que podem ser agrupados em:

Fatores Biológicos

Que envolvem desde a idade do advento da menarca até o aumento do


número de adolescentes na população geral. Sabe-se que as adolescentes
engravidam mais e mais a cada dia e em idades cada vez mais precoces.
Observa-se que a idade em que ocorre a menarca tem se adiantado em torno
de quatro meses por década no nosso século. De modo geral se admite que a
idade de ocorrência da menarca tenha uma distribuição gaussiana e o desvio-
padrão é aproximadamente 1 ano na maioria das populações,
conseqüentemente, 95% da sua ocorrência se encontra nos limites de 11,0 a
15,0 anos de idade (Marshal & Tanner, 1969; Bezerra et al, 1973; Sedenho &
Souza Freitas, 1984; Colli, 1988; Chompootaweep et al., 1997).

Sendo a menarca, em última análise, a resposta orgânica que reflete a


interação dos vários segmentos do eixo neuroendócrino feminino, quanto mais
precocemente ocorrer, mais exposta estará a adolescente à gestação. E nas
classes econômicas mais desfavorecidas onde há maior abandono e
promiscüidade, maior desinformação, menor acesso à contracepção, está a
grande incidência da gestação na adolescência (Behle, 1991).

Fatores de Ordem Familiar

O contexto familiar tem relação direta com a época em que se inicia a atividade
sexual. Assim sendo, adolescentes que iniciam vida sexual precocemente ou
engravidam nesse período, geralmente vêm de famílias cujas mães também
iniciaram vida sexual precocemente ou engravidaram durante a adolescência
(Newcomer et al, 1983; Davis, 1989). De qualquer modo, quanto mais jovens e
imaturos os pais, maiores as possibilidades de desajustes e desagregação
familiar (Baldwin & Cain, 1980; Young et al, 1991; Dadoorian, 1996). O
relacionamento entre irmãos também está associado com a atividade sexual:
experiências sexuais mais cedo são observadas naqueles adolescentes em
cuja família os irmãos mais velhos têm vida sexual ativa.

Fatores Sociais

As atitudes individuais são condicionadas tanto pela família quanto pela


sociedade. A sociedade tem passado por profundas mudanças em sua
estrutura, inclusive aceitando melhor a sexualidade na adolescência, sexo
antes do casamento e também a gravidez na adolescência. Portanto tabus,
inibições e estigmas estão diminuindo e a atividade sexual e gravidez
aumentando (Hechtman, 1989, Block et al., 1981; Lima et al, 1985; Almeida &
Fernandes, 1998; McCabe & Cummins, 1998; Medrado & Lyra, 1999 ).

Por outro lado, dependendo do contexto social em que está inserida a


adolescente, a gravidez pode ser encarada como evento normal, não
problemático, aceito dentro de suas normas e costumes (Necchi, 1998).

A identificação com a postura da religião adotada se relaciona com o


comportamento sexual. Alguns trabalhos mostram que a religião tem
participação importante como preditora de atitudes sexuais. Adolescentes que
têm atividade religiosa apresentam um sistema de valores que os encoraja a
desenvolverem comportamento sexual responsável (Glass, 1972; Werner-
Wilson, 1998). No nosso meio, nos últimos anos as novas religiões evangélicas
têm florescido, e são , de modo geral, bastante rígidas no que diz respeito à
prática sexual pré-marital. Alguns profissionais de saúde que trabalham com
adolescentes têm a impressão de que as adolescentes que freqüentam essas
igrejas iniciam a prática sexual mais tardiamente, porém, não há pesquisas
comprovando essas impressões (Guimarães, 2001).

Fatores psicológicos e contracepção

A utilização de métodos contraceptivos não ocorre de modo eficaz na


adolescência, e isso está vinculado inclusive aos fatores psicológicos inerentes
ao período pois a adolescente nega a possibilidade de engravidar e essa
negação é tanto maior quanto menor a faixa etária; o encontro sexual é
mantido de forma eventual, não justificando, conforme acreditam, o uso
rotineiro da contracepção; não assumem perante a família a sua sexualidade e
a posse do contraceptivo seria a prova formal de vida sexual ativa (American
Academy of Pediatrics, 1979; Zelnick & Kartner, 1979; McAnarney & Hendee,
1989; Stevens-Simon et al., 1996). A gravidez e o risco de engravidar podem
estar associados a uma menor auto-estima, ao funcionamento intrafamiliar
inadequado ou à menor qualidade de atividades do seu tempo livre. A falta de
apoio e afeto da família, em uma adolescente cuja auto-estima é baixa, com
mau rendimento escolar, grande permissividade familiar e disponibilidade
inadequada do seu tempo livre, poderiam induzi-la a buscar na maternidade
precoce o meio para conseguir um afeto incondicional, talvez uma família
própria, reafirmando assim o seu papel de mulher, ou sentir-se ainda
indispensável a alguém. A facilidade de acesso à inforrmação sexual não
garante maior proteção contra doenças sexualmente transmissíveis e gravidez
não desejada (Sumano, 1998; Campos, 2000).

Estudo realizado na emergência obstétrica de hospital em Porto Alegre revelou


que das adolescentes com vida sexual ativa que usavam algum método
contraceptivo, 41% o faziam de forma incorreta ou realizavam trocas
indadequadas. Apenas 18% relataram o uso de condom. Entre aquelas que
não utilizavam nenhum método anticoncepcional, como justificativa
argumentavam: o desconhecimento dos métodos; não quere usar e desejar
engravidar; não acreditavam que pudessem engravidar; não ter condições para
comprar; ser alérgica; ter medo que os pais decubram; o parceiro não querer
usar (Gobbatto et al., 1999).

Repercussões da Gravidez na Adolescência

Sobre a mãe adolescente

Existem relatos de que complicações obstétricas ocorrem em maior proporção


nas adolescentes, principalmente nas de faixa etária mais baixa. Há
constatações que vão desde anemia, ganho de peso insuficiente, hipertensão,
infecção urinária, DST, desproporção céfalo-pélvica, até complicações
puerperais (Rubio et al, 1981; Sismondi, et al, 1984; Black & Deblassie, 1985;
Stevens-Simon & White, 1991; Zhang & Chan, 1991). Porém, devemos ter o
cuidado de nos lembrar que esses achados se relacionam também com os
cuidados pré-natais e desde que haja adequado acompanhamento pré-natal,
não há maior risco de complicações obstétricas quando se comparam mulheres
adultas e adolescentes de mesmo nível socioeconômico (Felice et al, 1981;
McAnarney & Thiede, 1981; Madi et al, 1986).

Outro ponto doloroso dessa questão é a morte da mãe decorrente de


complicações da gravidez, parto e puerpério; sendo que na adolescência, em
estudo realizado no nosso meio, verificou-se ser esta a sexta causa de morte
(Siqueira & Tanaka, 1986).

No tocante à educação, a interrupção, temporária ou definitiva, no processo de


educação formal, acarretará prejuízo na qualidade de vida e nas oportunidades
futuras. E não raro com a conivência do grupamento familiar e social a
adolescente se afasta da escola, frente a gravidez indesejada, quer por
vergonha, quer por medo da reação de seus pares (McGoldrich, 1985; Aliaga et
al, 1985; Fernadéz et al., 1998; Souza, 1999).

As repercussões nutricionais serão tanto maiores quanto mais próxima da


menarca acontecer a gestação, já que nesse período o processo de
crescimento ainda está ocorrendo. O crescimento materno pode sofrer
interferências por que há uma demanda extra requisitada para o crescimento
fetal (American Dietetic Association, 1989). A inundação hormonal da gestação
promoverá soldadura precoce das epifíses naquelas adolescentes que
engravidaram antes de ter completado seu crescimento biológico, podendo ter
portanto, prejuízo na estatura final. Lembramos ainda que na adolescência há
necessidades maiores de calorias, vitaminas e minerais e estas necessidades
somam-se àquelas exigidas para o crescimento do feto e para a lactação.
Dada sua imaturidade e labilidade emocional podem ocorrer importantes
alterações psicológicas, gerando extrema dificuldade em adaptar-se à sua nova
condição, exarcebando sentimentos que já estavam presentes antes da
gravidez, como ansiedade, depressão e hostilidade (Friedman & Phillips, 1981).
As taxas de suicídio nas adolescentes grávidas são mais elevadas em relação
às não grávidas (Foster & Miller, 1980; Hechtman, 1989), principalmente nas
jovens grávidas solteiras (Cabrera, 1995).

Sobre o pai adolescente

De modo geral, o pai costuma ser dois a três anos mais velho que a mãe
adolescente. A paternidade precoce se associa com maior freqüência ao
abandono dos estudos, à sujeição a trabalhos aquém da sua qualificação, a
prole mais numerosa e a maior incidência de divórcios (OPAS, 1995).

Sobre o Concepto

Existem riscos, tanto fisícos, imediatos, quanto psicossociais, que se


manifestam a longo prazo, nos filhos de adolescentes. Devido a dificuldade em
adaptar-se à sua nova condição a mãe adolescente pode vir a abandonar o
filho, dando-o à adoção, e quando o recém-nascido não é abandonado, está
mais sujeito, em relação à população geral, a maus tratos.

A literatura mostra que há maior freqüência de prematuridade, de baixo peso


ao nascer, Apgar mais baixo, doenças respiratórias, trauma obstétrico, além de
maior freqüência de doenças perinatais e mortalidade infantil. Deve-se
considerar que estes riscos se associam não só a idade materna, mas
principalmente a outros fatores, como a baixa escolaridade, pré-natal
inadequado ou não realizado, baixa condição socioeconômica, intervalos
interpartais curtos (< de 2 anos) e estado nutricional materno comprometido.
Estas complicações biológicas tendem a ser tanto mais freqüentes quanto mais
jovem a mãe (< 15 anos) ou quando a idade ginecológica for menor de 2 anos
(Correa & Coates, 1993).

Epidemiologia da Gravidez na Adolescência

O aumento das taxas de gravidez na adolescência se deve, principalmente, às


custas das faixas etárias mais jovens, em todo mundo.

Em 1980 o Brasil possuía 27.8 milhões de adolescentes entre 10 e 19 anos de


idade, o que representava 23% da população geral. A taxa de fecundidade
entre os 15 e 19 anos era de 11% . Nessa época, dos partos realizados pela
rede do INAMPS, 13% eram de menores de 19 anos (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, 1980).

Conforme dados da Organização Panamericada da Saúde -OPS (1992), no


começo da década de 80, 12,5 % dos nascimentos da América Latina eram de
mães menores de 20 anos. A população de 15 a 24 anos (de alto risco para
engravidar) chegou a 71 milhões em 1980. Estima-se que chegou a 86 milhões
em 1990 e que no ano 2000 estaria em torno de 100 milhões de adolescentes.
Isso indica que durante o período 1980 - 2000 a população de adolescentes na
América Latina aumentaria aproximadamente 41,6%. A adolescente
representaria, no ano 2000, 19% da população latino-americana. Na América
Latina nascem 3.312.000 filhos de mães adolescentes por ano. A nível
mundial, de cada 100 adolescentes entre 15 e 19 anos, 5 se tornam mães
anualmente, o que eleva a 22.473.600 nascidos de mães adolescentes.

No Brasil, é no estrato social mais pobre que se encontram os maiores índices


de fecundidade na população adolescente. Assim, no estrato de renda familiar
menor de um salário mínimo, cerca de 26% das adolescente entre 15 e 19
anos tiveram filhos, e no estrato de renda mais elevado, somente 2,3% eram
mães (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1988). Nas regiões
faveladas do Recife, de cada dez mulheres que são mães uma é menor de 15
anos, sendo que 60% das mulheres têm menos de 20 anos de idade (Lima et
al., 1990).

Em nosso meio, as taxas de gravidez na adolescência variam de serviço para


serviço, mas estima-se que de 20% a 25% do total de mulheres gestantes
sejam adolescentes, apontando que há uma gestante adolescente em cada
cinco mulheres (Santos Júnior, 1999).

Estudo realizado em 1985, por Nóbrega et al. em nosso meio, mostrava que a
distribuição de partos entre adolescentes de baixo nível socioeconômico-BNSE
se dava da seguinte forma: 1,4% nas < 15 anos; 18,5% entre 15 e 19 anos,
sendo que a população adolescente representava 14,4% do total e as menores
de 15 anos 0,2% do total. Em trabalho retrospectivo realizado no ano de 1991
no Amparo Maternal (SP), entidade filantrópica que assiste basicamente a
população de BNSE encontrou-se: 6.316 partos com recém-nascidos vivos no
período, sendo que a população adolescente representava 24,4% do total e as
menores de 15 anos 2,6% do total (Vitalle, 1993; Vitalle et al., 1997). Há,
portanto, aumento da freqüência de gravidez na adolescência quando
comparamos os dois trabalhos.

Rocha (1991), no Recife, encontrou 24,5% de partos na adolescência, em


amostra de 5940 recém-nascidos vivos de BNSE, sendo que as menores de 15
anos representavam 0,5% do total e as de 15 a 19 anos 23,9% do total, dados
muito semelhantes aos do Amparo Maternal (Vitalle, 1993), exceto pelas mães
menores de 15 anos onde se observam percentuais maiores na população
estudada em São Paulo, confirmando assim que a gravidez na adolescência
está aumentando às custas, inclusive, das gestantes mais jovens.
Estudo de fatores de risco para verificar o surgimento de prematuridade e baixo
peso, realizado no Município de São Paulo, mostrou que a adolescência não
influencia a ocorrência de baixo peso, porém aumenta em 1,3 vezes o risco de
ocorrência de prematuridade. Pode-se responsabilizar a inadequada condição
econômica como o fator de risco mais importante na determinação de
prematuridade e baixo peso, pois, controladas as demais variáveis (idade
materna, tabagismo, cuidado pré-natal) encontrou-se o risco aumentado de 1,8
vezes de prematuridade e 2,1 vezes de baixo peso ao nascimento quando a
parturiente provinha do baixo nível econômico (Vitalle, 2001).

A Organização Panamericana de Saúde atribui o aumento do número de filhos


de mães menores de 20 anos de idade ao fato de que "o conhecimento sobre a
relação sexual livre se difunde mais rapidamente entre os adolescentes, que o
conhecimento sobre os efeitos biológicos e psicológicos adversos da gravidez
nessa idade, tanto para a mãe quanto para o filho".

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