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DIGAO FRACO:

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RODOLFO BEUTTENMÜLLER
©1995 RODOLFO BEUTTENMÜLLER
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Impreso en Colombia
por Editorial Buena Semilla
DIGAO ERACQ

RI SW
( J d 3:10)
índice

Introdução 7
I- A fortaleza do fraco 11
II- Paulo: O fraco transformado em forte 23
III- Os apóstolos 35
IV- Jesus e os fracos 51
V- Jesus inigualável 65
VI- A fraqueza de Adão 77
VII- Noé, o justo e perfeito 89
VIII- Abraão e sua amizade com Deus 103
IX- Moisés 115
X- O rei Davi 127
XI- O profeta Elias 141
XII- Jesus de Nazaré 153
Introdução

K igreja de Jesus Cristo existe a crença generalizada


de que Deus, para utilizar um homem e transformá-lo
em um instrumento eficaz, requer que este seja quase
perfeito, isto é, sem a mínima sombra de fraqueza. Se crê
que ao descobrir o mais insignificante defeito, naqueles
que Deus tem escolhido como canais de bênçãos para os
demais homens, têm que ser abandonados ou deixados
de lado, pois os fracos não têm parte na Obra de Deus.
Essa crença tem trazido como conseqüência, que muitos
servos do Senhor, ao notar em suas vidas qualquer
sintoma de debilidade ou imperfeição, envergonhados
com eles mesmos e com Deus, abandonam a luta, con­
vencidos pela errônea convicção de haverem sido rejei­
tados por quem os chamou a servir de instrumento para
sua glória.
Porém, mais triste ainda, é a atitude assumida pelos
líderes e demais ministros que, ao somente escutar um
leve comentário acerca da falha de um companheiro, o
exclui sem nenhuma misericórdia.
Os repetitivos quadros de homens valiosos, com dilata­
dos ministérios, abandonados ou excluídos de suas or-

7
Rodolfo Beuttenmiiller

ganizações, isolados por seus antigos companheiros de


milícia e com a tristeza de sentirem-se sem valor por
serem vítimas de um espinho enviado por satanás para
esbofeteá-los à causa de suas fraquezas, me tem motiva­
do a publicar o presente trabalho, tratando de conseguir
neles o despertar e por de presente a realidade: Deus
ama aos fracos e neles aperfeiçoa seu poder.
Não é meu desejo que este livro seja tomado como uma
apologia à vida leviana, distanciada de Deus, tão pouco
como apoio ou aprovação ao fraco. Me refiro àqueles
que, atuando em forma similar ao apóstolo Paulo, lutam
incessantemente para desarraigar de suas vidas uma
fraqueza da carne e que, com súplicas e sinceras orações
enfrentam a Deus uma e outra vez, sem conseguir for­
talecer essa parte vulnerável de sua existência.
Trato de destacar a atitude que Deus tem com a maioria
dos homens distinguidos pela estreita relação que man­
tiveram com Ele. Poucos foram considerados perfeitos.
Pelo contrário, quase todos, eram portadores de alguma
fraqueza ou defeito.
E que a suposta perfeição, muitas vezes vem a conver­
ter-se em maior impedimento que Deus encontra para a
utilização de um homem.
Jesus Cristo em sua condição de imagem do Deus invi­
sível e de primogênito de toda criação (Colossenses
1:15), manteve seus braços abertos para receber o fraco,
mostrando sua misericórdia para com aqueles que eram
considerados pelos líderes religiosos e pela sociedade,
como pessoas inaceitáveis.
A mulher samaritana que havia sido abandonada por
cinco maridos diferentes, foi transformada em missio­
nária. Não lhe indagou sua vida passada nem presente,
na qual estava ligada a um homem que não era seu. Essa
fraca mulher se converteu em uma fortaleza divina so­
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

mente em ter conversado com o Mestre durante alguns


minutos.
O apóstolo Paulo, este grande intérprete das coisas eter­
nas e das profundidades espirituais nos fala do fraco,
utilizando a figura do rústico, frágil e inacabado vaso de
barro no qual se deposita um tesouro. É dessa maneira
que ilustra a relação de Deus com os homens a quem Ele
chama e os constitui em seus instrumentos.
Paulo se põe como exemplo de fraqueza ao descrever
sua experiência acerca de suas súplicas para que o liv­
rasse de um espinho em sua carne. Era algo que o
atormentava, pois lhe fazia ver continuamente sua im­
perfeição.
Em três ocasiões enfrentou a Deus em incessantes e
prolongadas orações sem conseguir o desaparecimento
de sua fraqueza. Mas a voz de Deus o tranqüilizou
quando lhe disse:

"Basta-te a minha graça, porque meu poder se


aperfeiçoa na fraqueza." (2 Coríntios 12:9)

Daí a conclusão do apóstolo no sentido de que quanto


maior fosse sua fraqueza, maior seria seu poder.
Neste trabalho analiso, em forma superficial, a vida e
ministério de vários homens destacados na Bíblia, por
terem sido chamados e utilizados por Deus de maneira
mui especial, deixando exemplos dignos de serem imi­
tados pela posteridade. Não obstante é de singular im­
portância assinalar que, com escassas exceções, todos
mostraram sinai de fraqueza que se fossem manifesta­
das em alguns de nossos ministros, seguramente, seriam
expulsos de suas respectivas organizações, e ainda per­
deriam a amizade de seus companheiros.

9
Rodolfo Beuttenmiiller

Um desses exemplos encontramos na atitude e compor­


tamento do bem chamado amigo de Deus e pai de nossa
fé, a saber, o patriarca Abraão.
Dominado pelo medo de que lhe matassem no Egito,
para apropriar-se de Sara, sua mulher, que era mui
formosa, mentiu deliberadamente, afirmando que era
sua irmã (Gênesis 12:10-20). Quase de imediato foi leva­
do diante de Faraó, quem ficou com ela, enquanto a seu
suposto irmão, cobria de dádivas.
Porém, uma atitude tão censurável, desde o ponto de
vista humano, não foi considerada assim por Deus. Em
vez de reprovar seu comportamento, saiu em seu auxí­
lio, indo ao rei para evitar que Sara se converter-se em
mulher deste e a restitui-se a seu amigo Abraão.
Por que Deus fez isto? Para apoiar a mentira e passivi­
dade de seu amigo? De maneira nenhuma.
Sensivelmente, Deus compreendeu a fraqueza de
Abraão. Entendeu seu medo e o estado de impotência,
ao saber que nada podia fazer contra o monarca.
Entendendo a fraqueza de seu servo, sua impotência e
seu medo, Deus interviu. Ele sempre atua dessa maneira
em favor de um filho fraco que só depende dele.
Mostrar este Deus, tem sido minha grande inquietação,
transmitindo deste modo ao crente, a certeza de que
assim como Deus chamou e utilizou alguns homens,
cujas vidas e ministérios foram destacados pela grande­
za, não estiveram isentos de grandes fraquezas. Hoje Ele
continua atuando do mesmo modo. Ele não muda!
Que o estudo da vida de cada um destes homens nos
ajude a compreender que por maiores que sejam nossas
fraquezas, maior será a manifestação do poder de Deus.
Diga o fraco: Eu sou forte!
O Autor

10
I
A fortaleza dofraco

"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro,


para que a excelência do poder seja de Deus,
e não^hós".
(2 Coríntios 4:7)

e positar um tesouro de incalculável preço em um


estojo insignificante seria considerado pela maioria das
pessoas como um ato contraditório ou carente de toda
lógica, pois quem chega a possuir um tesouro, ainda que
seja de pouca significação ou de exíguo valor, cuidam
dele zelosamente.
Os grandes tesouros terrenos são guardados em inex­
pugnáveis fortalezas e as valiosas jóias se encontram
colocadas em formosos estojos. Esta é a regra geral e
dificilmente alguém se arrisca a atuar de maneira dife­
rente.

11
Rodolfo Beuttenmiiller

Entretanto, Paulo, em sua carta aos irmãos de Corinto,


lhes fala de um tesouro superior à conjunção de todos
os tesouros terrenos, mas que não obstante a seu inigua­
lável valor, se encontra depositado em um insignificante
estojo.
O normal seria que dissesse: temos este tesouro guarda­
do em um estojo, cofre de ouro maciço, ou talvez em uma
fina caixa de cerâmica, em alguma peça de precioso
metal ou algo assim, mas não, o valioso tesouro se
encontra depositado em vasos de barro. Um vaso de
barro! Que contraste! Absurdo! Diria um entendido na
matéria.
E do ponto de vista humano teria toda a razão, pois um
vaso de barro é uma peça rústica, ordinária, inacabada
e frágil. Seria muito difícil que uma pessoa utilizasse
semelhante recipiente para guardar, digamos por exem­
plo: um anel de ouro com incrustações de pedras precio­
sas.
É que a vistosidade, o brilho e o exibicionismo são
parte das máscaras que necessita o ser humano para
ocultar sua mediocridade, pequenez e superficialida­
de. O estojo ou a máscara conseguem, muitas vezes,
deslumbrar, impedindo que se veja a verdadeira situa­
ção interior. Deus, pelo contrário, não necessita de au­
xílios deslumbradores, pois para Ele, o importante é o
real e o autêntico.
Porém, se resulta contraditório depositar um tesouro em
um estojo tão rústico e frágil, maior é a surpresa, ao
descobrir que o tesouro aludido por Paulo é o ministério
do Novo Pacto e os vasos de barro são os homens
escolhidos por Deus para levá-lo à realização.

12
Diga o fraco: «/Em sou forte!»

O ministério do novo pacto

Este novo convênio, que substitui ao antigo, consiste


basicamente em: "Se fizeres estas coisas vivereis por
elas". Era um pacto de lei, de letras escritas sobre pedra,
e que ninguém era capaz de cumprí-lo e, em conseqüên­
cia, não podiam alcançar a Vida. Por essa razão, Paulo
chama ao ministério do Novo Pacto, um tesouro, pois
era um convênio de vida.
Paulo escreve aos coríntios em um momento de grandes
dificuldades. A igreja fundada por ele se encontrava
dividida, fracionada. Um grupo de judaizantes pertur­
bava a congregação tratando de persuadir aos crentes
da necessidade de guardar a lei. Nem se quer o mesmo
apóstolo escapava ao questionamento dos legalistas. É
nesta nova circunstância, que Paulo lhes escreve para
falar do Novo Pacto.
Assim é destacada a diferença desse novo ministério, o
qual se baseava na presença do Espírito Santo no coração
do homem. O antigo, ou seja, o velho pacto, se havia
estabelecido com letras esculpidas sobre pedra, mas no
novo, a pedra se substituía pelo coração e em vez de
tinta, o Espírito Santo era o encarregado de escrever, não
leis impossíveis de cumprir, pois a vida já não seria
alcançada pela competência legalista.
O ministério do Novo Pacto, em contraposição ao de
Moisés, é espiritual e glorioso. De maneira que se o
velho ministério, gravado com letras sobre pedra foi
glorioso, tanto que os filhos de Israel não puderam fixar
a vista no rosto de Moisés pela glória de seu rosto (2
Coríntios 3:6), como não seria mais glorioso o ministério
do Espírito Santo? Ou seja, este ministério é espiritual e
glorioso.

13
Rodolfo Beuttenmilller

O grande tesouro

É tão grande, espiritual e glorioso, que o apóstolo Paulo


o define como um tesouro, já que não é outra coisa que
a excelência do poder de Deus.
Mas este grandioso poder não se alcança por méritos,
perfeição imaculada ou por cumprimento de cada um
dos artigos da lei. Nem pode ser adquirido pela mais
elevada quantidade de dinheiro. Tudo é por graça. Ou
seja, a excelência do poder é posta por Deus, e aqueles
chamados a serem utilizados como instrumentos se
apresentam a Ele, com suas rústicas e inacabadas vasil­
has de barro, para serem cheias e manifestar neles toda
a excelência desse poder.
Deus emprega esses simples canais com o fim de que a
glória seja dele e não do homem a quem esta utilizando.
Aí esta o motivo que conduz o Senhor a não utilizar
quem são considerados super homens ou superdotados
espirituais, como via de comunicação de seu poder à
humanidade , pois poderia fixar o olhar no estojo e
deixar de perceber a grandeza do tesouro.
A excelência da Graça consiste precisamente nisso: que
o homem somente traz sua vida vazia para ser cheia por
Deus. Algo totalmente diferente ao que ocorria no velho
pacto, no qual o homem lutava insistentemente tratando
de cumprir uma série de mandatos, normas e leis; Pois
só assim poderia chegar a ser aceito ante os olhos de
Deus, coisa esta impossível, pois a fraqueza do homem
o impedia de cumprir com a enorme carga que lhe
impunha a lei.
Mas, agora, com a entrada na ação do Novo Pacto, nada
tinha que fazer, pois era Ele, quem fazia tudo. Sua graça
se estendia a todos os homens, que unicamente teriam
que se pôr à disposição do Doador desse excelente

14
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

poder. Os méritos ficavam sujeitos à fé, pois o requisito


inequívoca para ser cobiçado por essa maravilhosa gra­
ça é a fé.
Paulo o descreve de maneira mais eloqüente, quando
escreve a seu discípulo Tito, dizendo-lhe:

"Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo


salvação a todos os homens". (Tito 2:11)

Nesta passagem, o apóstolo deixa demonstrado que o


sacrifício do calvário não tinha limitações quanto a seu
alcance. Todos estavam incluídos, pois era uma manifes­
tação de Graça, que permitia receber algo mui grandioso
à troca de nada.
O pai entregava seu filho unigénito:

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira


que deu o seu Filho unigénito, para que
todo aquele que nele crê não pereça,
mas tenha a vida eterna". (João 3:16)

Repetimos, Deus o Pai, entregava seu Único Filho para


que o homem fosse salvo, e este somente tinha que crer.
Jesus Cristo, o Filho se entregava sem exigência alguma,
como bem o disse Paulo:

"O qual se deu a si mesmo po nós para remir


de toda a iniqüidade, e purificar para
si um povo seu especial, zeloso
de boas obras". (Tito 2:14)

O ato da graça manifestado por Deus, o Pai e, por Jesus


Cristo, o Filho, na cruz do Calvário não se limitava a um

15
Rodolfo Beuttenmüller

grupo em particular nem colocava exigência alguma


como no velho pacto. Não nos disse que essa morte
salvava a uns poucos privilegiados ou beneficiava a
alguns, cujas vidas ao estarem cheias de virtudes os fazia
aptos para ganhar a bênção de Deus. Não! A Graça se
estende a todo aquele que crer.
Paulo, em sua carta a Tito, ao dizer-lhe que Jesus Cristo
se deu a si mesmo por todos nós para redimir-nos de
toda iniqüidade (Tito 2:14), acrescenta:

“e purificar para si um povo seu".

Ou seja, o ato de graça não era feito para salvar a um


povo virtuoso, pelo contrário, era feito para salvar a um
cheio de impureza. Por isso nos disse João:

"Àquele que nos ama, e em seu sangue nos lavou


dos nossos pecados." (Apocalipse 1:5),

dando-nos a entender que seu amor se manifestou en­


contrando o homem em seu estado de necessidade.
De maneira que o Novo Pacto, ou seja, a extensão de sua
graça a todos os homens, tem que ser dado a conhecer
não por anjos nem por superdotados espirituais, senão
por homens comuns e simples, que igual a Paulo, se
sentem fracos, mas sem permitir que esse lado vulnerá­
vel de suas vidas lhe impeça de cumprir com o grande
mandato de dar a conhecer o Novo Pacto de Deus com
o homem.
O mesmo apóstolo vem nos confirmar esta asseveração
quando diz:

"Deus estava em Cristo reconciliando consigo o


mundo, não lhes imputando os seus pecados;

16
Diga o fraco: «/£« sou forte!»

e pôs em nós a palavra da reconciliação. De sorte


que somos embaixadores da parte de Cristo,
como se Deus por nós rogasse, por nós rogasse.
Rogamo-vos pois da parte de Cristo que vos
reconcilieis com Deus". (2 Coríntios 5.19,20)

Desta passagem se destacam duas coisas: a primeira


ocorreu quando se manifestou a graça de Deus, ou seja,
quando o Pai entregava o Filho no sacrifício da cruz, em
um ato que acolheu a todos os homens sem deixar isento
a ninguém.
Em segundo lugar, destacamos deste ato de amor com o
qual a humanidade foi salva por Graça, que era além
disso, o momento da reconciliação. A inimizade existen­
te entre o Criador e seus filhos produzida no mesmo
momento em que o homem pecou pela primeira vez no
jardim do Éden, ficava eliminada e a partir de então se
restabeleciam os canais de comunicação entre Deus e o
homem.
Mesmo que aparentemente Cristo se encontrava só ao
morrer na cruz, Paulo nos disse que Deus estava com
Ele, reconciliando consigo o mundo. Não devemos es­
tranhar que o Pai estivesse acompanhado o Filho nessa
hora suprema, pois Cristo em outra passagem havia
dito:

"E aquele que me enviou está comigo; o Pai não me tem


deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada."
(João 8.29)

E se no momento do martírio na cruz, Ele cumpria a


parte culminante do plano de Deus para a salvação da
humanidade, é lógico que o Pai o acompanhava nessa
hora crucial, que concluía a batalha com a qual redimiria
o homem.

17
Rodolfo Beuttenmüller

Mas o apóstolo Paulo não se limita a descrever o ato com


o qual se manifestou a graça de Deus, que salvava o
homem e o reconciliava com seu Criador. Ele acrescenta:
"Nos deu o ministério da reconciliação". A esse ministério,
um dos maiores privilégios dados por Deus aos homens,
Paulo chama de tesouro, quando disse:

"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro,


para que a excelência do poder seja de Deus,
e não de nós." (2 Coríntios 4.7)

Ou seja, que o definido por Paulo como um tesouro, é a


encomenda dada por Deus ao homem, para transmitir aos
demais mortais tudo concernente ao novo convênio
estabelecido pelo Senhor através da morte de Jesus Cris­
to na cruz, já que essa manifestação de amor não podia
ficar aí, no calvário, tinha que ser dada a conhecer àque­
les por quem o Mestre morreu,, para que eles refugias­
sem no Plano da Salvação e reconciliassem com seu
Criador.
Mas se grandiosa é a manifestação da graça, não o é
menos, a atitude de Deus na escolha dos instrumentos
encarregados de dar a conhecer esta manifestação salva­
dora da humanidade. Homens comuns, simples e fracos
foram os encarregados de levar essa mensagem tão
grandiosa. Não se equivocou o apóstolo Paulo ao dizer
que o tesouro era depositado em vasos de barro.
Agora, por que Deus encomendou aos homens fracos a
transmissão da mensagem do Novo Pacto? A razão é
muito simples, pois se dependesse dos chamados super­
homens, seria impossível a realização de sua obra reden­
tora por meio do sangue de Jesus Cristo nesta terra, já
que o maior impedimento de Deus para comunicar-se
com o homem, se encontra naqueles que crêem ser
superdotados. Além disso, unicamente os que são capa­
zes de reconhecer suas limitações, fraquezas, imperfei­

18
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

ções, falhas e debilidades, aceitariam que suas próprias


ações não eram o fruto de suas grandes atitudes, senão
do poder de Deus.
Os chamados grandes homens resistiriam a admitir suas
condições de instrumentos se convencendo, erronea­
mente, de que as coisas realizadas devem-se à sua capa­
cidade ou inteligência. Conheci a um desses "engrande­
cidos homens", que um dia tomou a Bíblia e, em uma
ostentação de sabe tudo, a afastou para o lado, dizendo:
"Este livro nada me pode ensinar
Enquanto isso, Paulo nos diz:

"Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são


muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os
poderosos, nem muitos os nobres que são chamados.
Mas Deus escolheu as coisas loucas desse mundo
para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas
fracas deste mundo para confundir as fortes.
E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as
desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são".
(1 Coríntios 1.26-28)

O apóstolo é mui claro ao dizer-nos que Deus escolhe


pessoas consideradas como loucas para confundir e en­
vergonhar os sábios e entendidos, enquanto que os fra­
cos são utilizados para persuadir os fortes. Homens e
mulheres vis e menosprezados pela sociedade, foram
convertidos em instrumentos valiosos na mão de Deus,
prevalecendo sobre aqueles, adornados com títulos,
cheios de conhecimentos, com mentes analíticas e pre­
cioso léxico, terminaram como sucatas humanas.
Todas aquelas pessoas que, de alguma maneira, tiveram
contato com Cristo e se puseram à sua disposição para
serem utilizados como canais de bênçãos, transcende­

19
Rodolfo Beuttenmiiller

ram seu presente e penetraram na eternidade. A história


os recorda e suas vidas continuam vigentes, não obstan­
te haverem passado séculos desde o momento que par­
tiram deste mundo. O mesmo tem acontecido com os
profetas. Mas, que aconteceu com os sábios, nobres e
fortes daquele tempo? Quem os recorda? Muito poucos.
Suas vidas foram extinguidas no mesmo momento em
que deixaram de existir.
A realidade é que Deus busca os fracos para utilizá-los
como instrumentos, enquanto os fortes e poderosos são
deixados ao lado do caminho.
Paulo recalca dizendo:

"Porque a loucura de Deus é mais sábia do que


os homens; e a fraqueza de Deus é mais
forte do que os homens". (1 Coríntios 1.25)

Homens fracos transformados em


fortalezas pelo poder de Deus

Recordo de uma ocasião, quando um ancião de escassa


educação pregava frente a um grupo pessoas com certo
grau de preparação acadêmica e pertencentes a um
status social superior ao do pregador. Se riam e zomba­
vam por sua forma de expressão, que não era melhor.
Repentinamente deteve sua pregação e lhes disse:
"Vocês zombam por minha exígua preparação acadêmi­
ca, mas sabem porque Deus me escolheu para pregar?
Porque vocês, os instruídos, se negam a serví-lo como
instrumento".

20
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Seus interlocutores, inclinando as cabeças, se puseram a


chorar.
Em outra ocasião um fraco irmãozinho de uma igreja
pentecostal tratava de convencer a uns doutores, da
necessidade de buscarem a Deus, ao que estes respon­
diam com escárnio e com o argumento de que o Evan­
gelho era uma filosofia somente aceita por pessoas de
mentalidade escassa e de baixo nível educativo. Porém,
o fogoso irmão insistia e continuava pregando a estes
senhores. Um deles, para o ofender, lhe disse:
"Olha, bruto, só gente como você pode crer em um livro
como a Bíblia, cheio de erros e exageros."
Mas o fraco irmão não se desanimou nem se deu por
vencido, e respondeu ao doutor dizendo:
"Mostre-me um desses erros ou alterações".
O doutor, sem perder tempo, lhe disse:
"Vê, a Bíblia destaca o grande milagre de Moisés quando
dividiu as águas do Mar Vermelho para que os filhos de
Israel passassem em terra seca, e resulta, que a parte por
onde passaram os israelitas, nessa época do ano estava
seca. E natural que não havendo água, passaram por ali
sem problema algum".
Mas, para surpresa do doutor, o irmão em vez de desa­
nimar se pôs a sorrir e gritar: "Glória a Deus, aleluia, glória
a Deus, aleluia!
"Não te dá conta o ignorante que és, que não obstante
mostrar-te semelhante exagero te poens a brincar e a dar
glória a Deus..."
O fraco irmão respondeu:
"Não é por ser bruto que louvo a Deus, é que me
pergunto, se o mar estava seco, de onde apareceu tanta

21
Rodolfo Beuttenmiiller

água para afogar o exército de faraó e destruir os carros


e os cavalos"?
Deste modo, Deus usa um fraco para envergonhar um
forte.
Que seria da pobre humanidade se não existisse os vasos
de barro? Como se salvaria o homem se, em vez desses
rústicos e inacabados vasos somente se encontrassem
finas peças de porcelana ou formosas peças de ouro? O
plano de Deus haveria fracassado.

22
II
Paulo: ofraco
transformado emforte
"Porque quando estou fraco então sou forte”.
(2 Coríntios 12.10b)

H aqui rim fraco transformado em forte. O apóstolo


Paulo foi um grande instrumento de Deus para salvação
de muitos povos. Mas antes de chegar a ser essa fortale­
za divina, primeiro teve que descobrir sua fraqueza. Até
convencer-se de que a existência do poder de Deus se
manifestava por meio de condutores fracos, o apóstolo
dos gentios se encontrava entre os sábios e entendidos
do povo judeu.
Já convertido em um vaso de barro, nos diz o seguinte:

"Porque a palavra da cruz é loucura para os que


perecem; mas para nós, que somos salvos,

23
Rodolfo Beuttenmiiller

é o poder de Deus. Porque está escrito:


Destruirei a sabedoria dos sábios, e
aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde
está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o
inquiridor deste século? Porventura não tornou
Deus louca a sabedoria deste mundo?"
(1 Coríntios 1.18-20)

E logo nos diz:

"Visto como na sabedoria de Deus o mundo


não conhece a Deus pela sua sabedoria,
aprouve a Deus salvar os crentes
pela loucura da pregação".
(1 Coríntios 1.21)

Insensatos e fracos, aí está a chave do êxito! Os judeus


busca dores de sinais e os gregos em seu afã de sabedoria
não podiam entender a loucura da pregação; lhes pare­
cia ilógico que um ato de fraqueza como o manifestado
na cruz fora a maior evidência do poder de Deus. Os
sábios e os entendidos não podiam entendê-lo, mas os
fracos e insensatos conseguiam captar toda magnitude
e significado do quadro do calvário.
Ainda hoje, para muitos parece inteligível que para ser
forte em Deus, temos que ser fracos. Por este motivo se
confundem ao escutar Paulo dizer:

"Quando estou fraco então sou forte; porque o poder de


Deus se aperfeiçoa na fraqueza (2 Co 12.10,9)

Esta realidade ficou plenamente ilustrada na experiên­


cia vivida por um pastor venezuelano ao assistir a um
seminário de Morris Cerullo. Ele se achava importante

24
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

e poderoso por dirigir uma congregação de duzentos


crentes.
No Seminário conheceu a vários ministros de diferentes
lugares do mundo. Em um desses dias lhe apresentaram
a um pastor africano, pequeno, magro e fisicamente
insignificante. Sua educação era muito limitada, pois
quando Deus o chamou era um simples e ordinário
agricultor. Estava no dito seminário pelo desejo de se­
guir aprendendo para servir melhor. Depois da sauda­
ção e das poucas palavras introdutórias, surgiu a per­
gunta:
"Onde está sua igreja e quantos membros tem? - Per­
guntou o pastor venezuelano.
A resposta do africano foi apenas perceptível: "Sou
pastor de uma congregação de 47.000 membros.
O ministro venezuelano branco, forte e com voz gros­
sa, ficou estupefato. Parecia inacreditável que este
negrinho, diante do qual estava parado, fraco e com
voz apagada, fosse um poderoso instrumento de Deus
em uma nação situada no coração da África, enquanto
ele, achando-se o máximo, apenas contava com um
pequena igreja. A lição era clara: se queres ser forte,
tens que ser fraco.

Primeiro fraco, depois forte

Recordo-me de um jovem evangelista considerado por


muitos e por si mesmo como um supersanto. Ninguém
jejuava como ele. Isto o fazia pensar que tinha, garanti­
do, o poder de Deus, e que seus méritos pareciam sufi­
cientes.

25
Rodolfo Beuttenmiiller

Em uma ocasião, ao concluir um jejum de trinta dias, foi


à sua primeira pregação. Enquanto dirigia-se ao templo,
pensava em que maneira iriam sair os demônios naque­
la tarde, pois somente sua presença seria suficiente para
que os demônios fugissem, os enfermos fossem sarados
e os milagres se produzissem aos montes. Iniciou sua
pregação e sucedeu tudo ao contrário do que esperava.
Aos dez minutos de sua pregação muitos dormiam,
outros se levantavam e saiam, não houve cura de enfer­
mos nem houve milagres e os demônios se acomodaram
tranqüilamente a escutá-lo.
Que sucedeu? Simplesmente Deus não podia usar a
alguém tão santo como ele. Necessitava de um instru­
mento mais frágil, um homem fraco para manifestar a
excelência de seu poder.
Algo parecido sucedia a outro jovem que jejuava e orava
muito, até que um dia um companheiro chegou até ele
e lhe disse:
"Com o que jejuas e oras, poderias parar-te frente ao
cemitério e chamar os mortos e estes saltariam de suas
tumbas".
Mas não era assim, sua vida, não obstante seus muitos
jejuns, carecia de frutos. Seu ministério era um total
fracasso. O que sucedia em realidade? Por que a falta de
frutos? Porque essa suposta perfeição impedia que Deus
atuasse. Deus busca uma vasilha de barro, mas ele era
uma preciosa jóia. Deus necessitava de um rústico vaso,
imperfeito e inacabado para nele manifestar o seu poder,
não em uma formosa peça de ouro.
Em contraposição, outro evangelista, cheio de debilida-
des e inseguro em grau superlativo, ao chegar no púlpito
se transformava. A mudança que experimentava era
fenomenal. Subia ao púlpito cheio de insegurança, qua­
se cambaleando e consciente de sua fraqueza e insufi­

26
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

ciência, mas poucos minutos depois, sua voz se escutava


forte, suas palavras eram precisas e fluía uma mensa­
gem ungida. Era como se Deus o tirasse e se colocasse
em seu lugar.
O público, assentado nas escadarias ou nas cadeiras se
comovia, multidões aceitavam a Jesus Cristo, os enfer­
mos eram sarados e os milagres nunca faltavam.
Onde está a diferença? Um deles era uma jóia formosa
brilhando por seus próprios méritos e não é isso que
Deus necessita, o outro, transformado em vaso de barro,
frágil, imperfeito e inacabado, estava disponível para ser
utilizado por Deus. A um polido e perfeito brilhante,
nada se pode fazer, mas um tosco pedaço de madeira
pode ser modelado. Isso é o que Deus busca: um pedaço
de madeira ou um pouco de barro, para ser modelado a
seu gosto e vontade.
Não duvidemos que a grandeza do poder de Deus se
manifesta na simplicidade do estojo. Por mais brilhante
e importante que seja o vaso, jamais poderá superar o
produto que leva dentro. Mas hoje, existem muitos va­
sos formosos, mas vazios de conteúdo. Homens elo­
qüentes, porém carentes do poder e da graça de Deus.
São finas vasilhas, peças brilhantes, capazes de deslum­
brar e causar uma grande impressão a qualquer despre­
venido viajante. Estas finas peças de porcelana chegam
a ocupar os púlpitos de diferentes igrejas e dizem coisas
eloqüentes que ficam nas mentes de seus ouvintes sem
penetrar no coração. Um caro brilhante nada significa
para um faminto andarilho do deserto. Ele necessita pão
e água para acalmar sua fome e saciar sua sede. Esta é a
grande desgraça de nossos dias: o surgimento de prega­
dores que falam como diamantes, entretanto a humani­
dade necessita de pão.
O que realmente salva o homem não são as diamantífe-
ras palavras saídas desses finos estojos, senão a loucura

27
Rodolfo Beuttenmüller

da pregação. As finas porcelanas não são a necessidade


do momento, pois disso há uma grande abundância, o
que hoje se requer urgentemente é o surgimento de
muitos vasos de barro.

Paulo: o fraco forte

Paulo nasceu na cidade de Tarso, região da Cicília, na


Ásia menor. Tendo nascido em uma família judia, se
criou dentro das exigências da Lei de Deus. Recebeu sua
formação básica, como era costume, em sua casa pater­
na, na sinagoga de seu bairro e na escola anexa à sina­
goga. Essa formação compreendia: aprender a ler e a
escrever; o estudo da lei de Deus, a história de Israel;
assimilar e aprender as tradições religiosas, as orações e
os salmos.
Mas à parte desta formação básica, Paulo estudou na
escola de formação superior dirigida pelo prestigioso
mestre Gamaliel (Atos 22.3). Ali se estudava a Lei de
Deus, chamada Torá, que compreende os primeiros cin­
co livros da Bíblia. Era um estudo baseado nas intensas
leituras até chegar a memorizar os cinco primeiros livros
da Bíblia.
Se estudava também a tradição dos antigos, e como
viver e levar a vida de acordo com a lei e direção de Deus.
Todos estes estudos formaram em Paulo um homem
perfeito, segundo seu ponto de vista e dos líderes reli­
giosos.
Entretanto, por mais que se esforçava, para alcançar o
ideal do antigo pacto, descobria sua incapacidade. A
observação ou cumprimento da lei se tornava mais difí­
cil conseguir, porque como ele mesmo descreve muito
bem:

28
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

"Mas vejo nos meus membros outra lei


que batalha contra a lei áo meu entendimento,
e me prende debaixo da lei do pecado que
está nos meus membros".
(Romanos 7.23)

Essa luta para alcançar a justificação por meio da obser­


vação, o levava a descobrir sua imperfeição e sua impos­
sibilidade de agradar a Deus por seus próprios méritos,
pois querendo fazer o bem, se chocava com uma lei que
o conduzia a praticar o mal que não queria. Era a lei do
pecado, a qual o impedia de deleitar-se em sua perfeição.
O conflito que se desenrolava no interior deste homem
chegava ao ponto culminante quando sua impotência
para alcançar seus ideais o levava a exclamar:

"Miserável homem que eu sou! quem me livrará


do corpo da morte? Dou graças a Deus por
Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo
com o entendimento sirvo à lei
de Deus, mas com a carne à lei do pecado".
(Romanos 7.24,25)

Paulo, depois de seu fracasso em alcançar a justifica­


ção por seus próprios méritos, teve um encontro com
Cristo (Atos 9.1-6), pois querendo agradar a Deus
chegava até a perseguir os seguidores do Mestre. De­
pois de sua transformação, começa uma vida de pro­
fundidade espiritual, porém, ainda teria que passar
por uma experiência maior que o levaria a compreen­
der o que posteriormente expõe em sua Carta aos
irmãos de Corinto.

29
Rodolfo Beuttenmüller

O fraco forte

"Pelo que sinto prazer nas fraquezas,


nas injúrias, nas necessidades,
nas perseguições, nas angústias
por amor de Cristo. Porque quando
estou fraco então sou forte".
(2 Coríntios 12.10)

Esta passagem se encontra dentro de um contexto muito


importante. Paulo, inicia o capítulo doze falando de um
homem, que era ele mesmo, que há quatorze anos atrás
(2 Coríntios 12.2), havia sido arrebatado até o terceiro
céu e ali, havia escutado palavras inefáveis, impossíveis
de ser expressado pelo homem.
O terceiro céu é o lugar onde está o trono de Deus, e ao
dizer-nos que as palavras escutadas ali eram humana­
mente inexprimíveis, dá a entender a grandeza da dita
comunicação. Em diferentes ocasiões Deus tem revelado
ao homem coisas grandiosas ou o tem enviado a trans­
mitir uma mensagem à humanidade. Mas aqui, o após­
tolo nos diz que o escutado por ele, permaneceria como
uma confidência, pois era algo que se escapava ao do­
mínio da linguagem humana.
Se é um grandioso privilégio que Deus utilize a um
homem como conduto de transmissão de uma mensa­
gem aos demais homens, imaginemos, que no mesmo
trono, um homem levado ali, escute algo humanamente
impronunciável. É natural que esse homem chegue a
sentir-se o máximo. Mas como Deus não usa a quinta
essência da natureza humana, senão ao fraco, Paulo,
teria que passar por outra experiência.
E assim o expressa:

30
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

"E, para que me não exaltasse pelas excelências


das revelações, fo i me dado um espinho na carne,
a saber, um mensageiro de Satanás para me
esbofetear, afim de me não exaltar".
(2 Coríntios 12.7)

O espinho de paulo

Qual era esse espinho? Paulo o identifica como um


mensageiro de satanás.
Uma deficiência visual, produto do esforço de demasia­
da leitura com pouca luz, chegou a afetar-lhe os olhos.
Não! De maneira nenhuma, pois ele não era ator de
telenovela ou de cinema para que dependesse de sua
bonita aparência ou formosura física. Um defeito ou
deformação corporal não consideraria como mensagei­
ro de Satanás, um homem da profundidade espiritual
de Paulo.
Nem sequer uma enfermidade, pois em sua recomenda­
ção a Timóteo, de que não tomasse água, senão vinho,
por causa de suas contínuas enfermidades estomacais (1
Timóteo 5.23), em nenhum momento se refere a um
espinho ou mensageiro do diabo, pelo contrário viu esta
enfermidade como algo natural.
Paulo se referia, a algo que estava ali, pronto a baixar os
vapores de grandeza quantas vezes sentisse a tentação
de se considerar como um ser único, que ao pé do
mesmo trono escutou a Deus dizer coisas impossíveis
de serem pronunciadas pelos humanos. Era então quan­
do o mensageiro de Satanás vinha com seu pontiagudo
espinho e lhe mostrava sua fraqueza.

31
Rodolfo Beuttenmüller

Era uma vulnerabilidade em sua carne, não em seu


corpo. Para entender qual era esse espinho, é necessário
entender o termo carne na linguagem do apóstolo.
No capítulo 5 de Gálatas, expõe seu conceito de maneira
mui clara:

"Digo, -porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a


concupiscência da carne. Porque a carne cobiça
contra o Espírito, e o Espírito contra a
carne; e estes opõem-se um ao outro:
para que não façais o que quereis".
(Gálatas 5.16,17)

Dizemos, que o conceito carne empregado por Paulo, é


algo em aberta oposição ao Espírito. E claro que sua
referência ao espinho na carne não se relaciona com um
tumor em alguma parte de seu corpo. Induvidavelmen-
te este espinho seja algo diferente de qualquer enfermi­
dade corporal.
Voltamos a seu conceito de carne:

"Porque as obras da carne são manifestadas, as quais


são: Prostituição, impureza, lascívia, idolatria,
feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas,
dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices,
glutonarias, e coisas semelhantes a estas".
(Gálatas 5.19-21 a)

Então: qual, ou quais dessas manifestações carnais era o


espinho de Paulo?
Ele mesmo disse que era similar a um mensageiro de
Satanás que o esbofeteava quantas vezes tratava de
exaltar-se sobremaneira. Era um chantageador satânico

32
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

que o atormentava e lhe recordava essa parte vulnerável


ou ponto fraco de sua vida.

Basta-me a graça

E assim como em Romanos 7.24, sua impossibilidade de


guardar a lei o levava a exclamar: "Miserável de mim"!
Paulo, oprimido pela persistente espinhada, em três
ocasiões, com prolongadas orações pede a Deus que
elimine esse ponto fraco, mas o Senhor em vez de tirar
o sinal que impedia sua perfeição responde dizendo-lhe:

"A minha graça te basta, porque o meu poder se


aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade pois
me gloriarei nas minhas fraqueza, para
que em mim habite o poder de Cristo".
(2 Coríntios 12.9)

O texto é mui claro. Diante da preocupação pelo espinho


na sua carne, Deus lhe comunica que essa fraqueza é o
requisito indispensável para nele aperfeiçoar seu poder.
Se Deus o houvesse dito: Uso-te porque és perfeito,
super santo, por haver sido levado ao céu e escutado
palavras de tão grande magnitude que a um humano é
impossível pronunciar, a glória haveria sido de Paulo e
não de Deus.
Mas, quando o homem usado por Deus é alguém com
tantas fraquezas, que ele mesmo se sente envergonhado
de sua débil situação, toda a glória é para Deus.
O experimentado por Paulo o levava à conclusão de
que quanto maior fosse sua fraqueza mais forte ele
seria.

33
Rodolfo Beuttenmüller

Em vasos de barro

De maneira que este tesouro, ou seja, o ministério do


Novo Pacto, o Evangelho da Graça, o qual Paulo chamou
de Poder de Deus, quando disse:

"Porque não me envergonho do evangelho de Cristo,


pois é o poder de Deus para salvação de todo
aquele que crê; primeiro do judeu, e também
do grego " (Romanos 1.16),

tem sido depositado em frágeis vasos de barro.


De homens cheios de fraquezas depende Deus para
transmitir esse tesouro com o qual o homem é salvo e
reconciliado com seu Criador.
Por este motivo, não buscou o Senhor a seus discípulos
entre as classes alta ou média da sociedade, nem saiu a
escolher seus apóstolos entre a elite de Israel.
Desde o conduto escolhido para que o Verbo se fizesse
carne e se manifestasse à humanidade, ou seja, Maria,
até o chamado dos seus primeiros seguidores, todos
foram pessoas fracas, no sentido pleno da palavra...
porque é precisamente nos fracos onde se aperfeiçoa o
poder de Deus.

34
III
Os apóstolos

"E subiu ao monte, e chamou para si os que ele quis, e


vieram a ele. E nomeou doze para que estivessem
com ele e os mandasse a pregar; e para que
tivessem o poder de curar as enfermidades
e expulsar os demônios".
(Marcos 3.13-15)

É notório que Jesus Cristo, ao escolher o grupo de cola­


boradores que logo constituiria em apóstolos, não in­
cluía a nenhum membro da elite de Jerusalém ou do
povo de Israel. Nesse círculo exclusivo de seguidores
que o acompanhariam durante seu ministério, somente
incluiu homens comuns, com escassa preparação acadê­
mica e carente de virtudes.
Foi algo similar ao seu nascimento, que ao invés de
ocorrer em um palácio, aconteceu em um casebre. Po­
rém, era surpreendente o cenário, não menos surpresa
causava ao instrumento através do qual o Criador do

35
Rodolfo Beuttenmiiller

universo se fazia carne para manifestar-se ao mundo.


Não foi à elevada classe, nem aos sacerdotes, escribas ou
mestres da lei, para escolher dali a mulher que utilizaria
como conduto para trazer, através dela, o Salvador da
humanidade.
Pelo contrário, a pessoa escolhida, foi uma jovem per­
tencente a uma humilde família. Parecia incompreensí­
vel que o Salvador do mundo, o esperado Messias, o Rei
dos reis e Senhor dos senhores, fosse depositado pelo
Espírito Santo no ventre da jovem Maria.
Aqui encontramos novamente o tesouro em vaso de
barro. Se houvesse escolhido uma jovem princesa, ou a
filha de uma vaidosa família da alta sociedade israelita,
possivelmente, a glória teria sido do condutor escolhido
e não de Deus. Mas a ele agradou tomar como instru­
mento uma pessoa fraca, desde o ponto de vista social.

Os primeiros discípulos

Os primeiros seguidores de Jesus eram pessoas de baixo


nível social, entre os quais se encontravam os publica-
nos, pecadores, prostitutas, pescadores, etc.
A Palestina, região onde nosso Senhor Jesus Cristo nas­
ceu, cresceu e desenrolou seu ministério, era por aquele
tempo, parte do território romano e muitas de suas
cidades estavam habitadas por um proletariado desocu­
pado e faminto.
À parte desses empobrecidos e desesperados habitan­
tes, existia uma classe média economicamente estável,
além de uma pequena aristocracia composta por pes­
soas enriquecidas. De maneira que a composição social
da Palestina nos dias em que Jesus Cristo inicia seu
ministério, se compunha de três classes sociais mui

36
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

claramente demarcadas política, religiosa e economica­


mente: saduceus, fariseus e um baixo estrato formado
por proletários urbanos, camponeses oprimidos e os
chamados gente da terra.
Os saduceus representavam a rica classe alta. Por debai­
xo dessa classe exclusiva, se encontravam os fariseus,
representantes da cidadania urbana. Da classe mais bai­
xa, composta pelos pobres analfabetos, proletários de
Jerusalém e lavradores do campo, surgiram os primeiros
discípulos de Jesus Cristo. Entre eles, a maioria carecia
de propriedades significativas, em vez disto, ficavam
mais pobres, oprimidos, sofredores e desprezados.
Isto significa que seus primeiros discípulos eram os mais
fracos da sociedade. Porém, não obstante a situação de
deprimente pobreza e fraqueza foi a estes, quem o Sen­
hor escolheu não só para que o acompanhassem, mas
também dentre esses seguidores, chamou a doze e os
converteu em apóstolos. Marcos nos disse que, esse
pequeno círculo de íntimos companheiros não chegou à
elevada posição por mera casualidade, somente foram
apóstolos aqueles a quem Ele chamou.
Era um privilégio pertencer ao grupo dos doze, pois não
somente lhes concedia que saíssem a pregar, sarar enfer­
midades e expulsar os demônios (Marcos 3.13-15), como
também estariam com o Senhor durante todo o tempo
de seu ministério.
Esses privilegiados que não só acompanharam ao Sen­
hor, mas que também tiveram a ordenança de continuar
sua obra depois de sua partida ao céu, eram homens
fracos em todo ponto de vista. A Jesus não interessou
chamar à seus filhos aqueles considerados virtuosos,
escribas, fariseus, mestres da lei, nem aos membros da
elite, da média ou alta sociedade.

37
Rodolfo Beuttenmiiller

Pedro e André

Pedro e seu irmão André não foram encontrados em


uma biblioteca, nem ocupando elevados cargos no pa­
lácio ou gerenciando alguma empresa. Mateus nos fala
do encontro de Cristo com estes dois irmãos, da seguinte
maneira:

"E Jesus, andando junto ao mar da Galiléia,


viu a dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André,
os quais lançavam as redes ao mar, porque
eram pescadores; e disse-lhes: Vinde após mim,
e eu vos farei pescadores de homens." (Mateus 4.18,19)

Dois rudes e iletrados pescadores, se achavam em seu


rotineiro labor. Repentinamente se encontram com o
Mestre que, sem medir palavras, lhes faz a inigualável
oferta de transformar-lhes em pescadores de homens.
Lhes dá o privilégio de fazê-los participantes de sua
missão, brinda sua amizade, e lhes dá a oportunidade
de abandonarem seu trabalho de toda a vida, e de acom­
panhá-lo na busca de homens perdidos a fim de resga­
tá-los e introduzi-los no reino dos céus.
E assim como Jesus, sem medir palavras, lhes fez a
proposta, eles, sem parar para pensar e sem fazer per­
guntas, o aceitaram e o seguiram.

Tiago E João

Estes filhos de Zebedeu e Salomé, como Pedro e André,


eram pescadores iletrados. Desde sua infância seguiam

38
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

os passos de seu pai, dono de um barco equipado com


uma rede capacitada para arrastar muitos peixes.
Deixemos que Mateus nos narre como se efetuou o
chamado destes dois irmãos:

"E, adiantando-se dali, viu outros dois irmãos, Tiago,


filho de Zebedeu, e João seu irmão, num barco com seu
pai Zebedeu, consertando as redes; e chamou-os; eles,
deixando imediatamente o barco e seu pai,
seguiram-no''. (Mateus 4.21,22)

Eis aqui os quatro primeiros apóstolos de Jesus Cristo:


ignorantes, fracos e iletrados, ocupados no rotineiro
labor da pesca. Um trabalho que se iniciava à meia-noite
e se estendia até o amanhecer. Uma atividade que os
obrigava a desafiar o perigo, cultivar a solidão e a pa­
ciência. Eram sim, os perfeitos vasos de barro e, conse­
qüentemente, aptos para servir como recipientes da
excelência do poder de Deus.
Por esse motivo são chamados por Jesus Cristo para
fazerem parte do círculo exclusivo de seus apóstolos.

Mateus

E, que dizer deste cobrador de impostos?


Se chamava Levi, porém Jesus lhe mudou o nome para
Mateus, cujo significado é dom de Deus. Investido em
Capernaum, sua profissão era desprezada, já que os
publicanos eram vistos como "sanguessugas" ao serviço
do tetrarca de Roma. O povo expressava seu repúdio a
estes homens, igualando-os a ladrões, ímpios e prostitu-

39
Rodolfo Beuttenmiiller

tas. Porém, não obstante a situação moral e espiritual de


Mateus, Jesus decidiu chamá-lo.
No dia do seu chamado, Jesus, acabava de realizar o
milagre da cura de um paralítico, que em um ato de fé,
foi trazido a Ele por uns amigos, que para alcançarem
seu objetivo tiveram que remover um pedaço do telhado
da casa onde Jesus se encontrava (Marcos 2.1-12). Logo,
saiu daquele lugar seguido pela multidão que viu o
milagre. De repente, se deteve rente ao lugar onde o
publicano cobrava os tributos.
Marcos, nos narra o episódio da seguinte maneira:

"£, passando, viu Levi filho de Alfeu, sentado


na alfândega, e disse-lhe: Segue-me.
E, levantando-se, o seguiu".
(Marcos 2.14)

Um homem desprezível, carente de princípios, inescru-


puloso, unicamente interessado em fazer dinheiro sem
importar com os prejuízos que sua atividade acarretaria,
em pleno desempenho de seu trabalho, vê aproximar-se
uma multidão que seguia o Mestre.
Quem sabe, Mateus, chegou a pensar que Jesus viria
censurá-lo ou repreendê-lo. Porém, grande seria sua
surpresa quando em lugar de escutar alguma palavra
que reprovasse sua atitude tão criticada pelo povo, vê
como o olhar de Jesus penetrava no seu, e logo, escutava
sua voz dizendo-lhe: "Segue-me".
Foi um dia de grande festa para Mateus, pois não
somente seguiu o Mestre, lhe preparou um banquete
onde foram convidados muitos de seus companheiros
publicanos. Ali estava Jesus compartindo com eles,
pois muitos dos publicanos haviam se transformados
em seus seguidores (Marcos 2.15). Isto, logicamente,

40
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

provocou ácidos comentários entre os escribas e os fari­


seus, considerados por si mesmos como santos e virtuo­
sos.

"E os escribas e fariseus, vendo-o comer.com


os publicanos e pecadores, disseram, aos seus
discípulos: Por que come e bebe ele com os
publicanos e pecadores?"
(Marcos 2.16)

Confundidos e surpresos, estes religiosos não podiam


entender que, quem horas havia manifestado seu poder
sanador a um paralítico, em prova de que era o Filho de
Deus, com autoridade até para perdoar pecados, se
sentava à mesa e compartilhava com o mais vil da
sociedade.
Jesus, ao escutar a pergunta que faziam a seus discípu­
los, lhes respondeu da seguinte maneira:

"Os sãos não necessitam de médico, mas sim, os que


estão doentes; eu não vim chamar os justos,
mas sim os pecadores". (Marcos 2.17)

Os escribas e fariseus se sentiam justos e limpos, e em


tal condição, se supunha que era com eles que nosso
Senhor Jesus Cristo deveria compartilhar a mesa; pois
se na verdade era o Filho de Deus, não lhe era lícito estar
contaminando-se com esses pecadores. Como estavam
errados! Pois o Mestre não havia vindo para utilizar
finas vasilhas de ouro, prata ou porcelana, senão rústi­
cos vasos de barro.
Por esse motivo, muitos anos depois Paulo escreveu
dizendo:

41
Rodolfo Beuttenmüller

tas. Porém, não obstante a situação moral e espiritual de


Mateus, Jesus decidiu chamá-lo.
No dia do seu chamado, Jesus, acabava de realizar o
milagre da cura de um paralítico, que em um ato de fé,
foi trazido a Ele por uns amigos, que para alcançarem
seu objetivo tiveram que remover um pedaço do telhado
da casa onde Jesus se encontrava (Marcos 2.1-12). Logo,
saiu daquele lugar seguido pela multidão que viu o
milagre. De repente, se deteve rente ao lugar onde o
publicano cobrava os tributos.
Marcos, nos narra o episódio da seguinte maneira:

"E, passando, viu Levi filho de Alfeu, sentado


na alfândega, e disse-lhe: Segue-me.
E, levantando-se, o seguiu".
(Marcos 2.14)

Um homem desprezível, carente de princípios, inescru-


puloso, unicamente interessado em fazer dinheiro sem
importar com os prejuízos que sua atividade acarretaria,
em pleno desempenho de seu trabalho, vê aproximar-se
uma multidão que seguia o Mestre.
Quem sabe, Mateus, chegou a pensar que Jesus viria
censurá-lo ou repreendê-lo. Porém, grande seria sua
surpresa quando em lugar de escutar alguma palavra
que reprovasse sua atitude tão criticada pelo povo, vê
como o olhar de Jesus penetrava no seu, e logo, escutava
sua voz dizendo-lhe: "Segue-me".
Foi um dia de grande festa para Mateus, pois não
somente seguiu o Mestre, lhe preparou um banquete
onde foram convidados muitos de seus companheiros
publicanos. Ali estava Jesus compartindo com eles,
pois muitos dos publicanos haviam se transformados
em seus seguidores (Marcos 2.15). Isto, logicamente,

40
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

provocou ácidos comentários entre os escribas e os fari­


seus, considerados por si mesmos como santos e virtuo­
sos.

"E os escribas e fariseus, vendo-o comer.com


os publicanos e pecadores, disseram aos seus
discípulos: Por que come e bebe ele com os
publicanos e pecadores?"
(Marcos 2.16)

Confundidos e surpresos, estes religiosos não podiam


entender que, quem horas havia manifestado seu poder
sanador a um paralítico, em prova de que era o Filho de
Deus, com autoridade até para perdoar pecados, se
sentava à mesa e compartilhava com o mais vil da
sociedade.
Jesus, ao escutar a pergunta que faziam a seus discípu­
los, lhes respondeu da seguinte maneira:

"Os sãos não necessitam de médico, mas sim, os que


estão doentes; eu não vim chamar os justos,
mas sim os pecadores". (Marcos 2.17)

Os escribas e fariseus se sentiam justos e limpos, e em


tal condição, se supunha que era com eles que nosso
Senhor Jesus Cristo deveria compartilhar a mesa; pois
se na verdade era o Filho de Deus, não lhe era lícito estar
contaminando-se com esses pecadores. Como estavam
errados! Pois o Mestre não havia vindo para utilizar
finas vasilhas de ouro, prata ou porcelana, senão rústi­
cos vasos de barro.
Por esse motivo, muitos anos depois Paulo escreveu
dizendo:

41
Rodolfo Beuttenmiiller

"E Deus escolheu as coisas vis deste


mundo, e as desprezíveis, e as que não Recorde
são, para aniquilar as que são”.
(1 Coríntios 1.28)

Jesus, no seu afrontamento com os es­ "Os sãos não


cribas e fariseus que reprovavam sua necessitam
atitude na casa de Mateus, ao comer de médico,
com ele e outros publicanos, deixou es­ mas sim, os
tabelecido que para a formação de sua que estão
equipe de colaboradores, chamaria pes­ doentes; eu
soas consideradas como pecadores. não vim
Além disso, deixou claro que mui pou­ chamar os
co lhe importava a suposta santidade justos, mas
daqueles que criam ter o monopólio de sim os
Deus, por haver aprendido de memória pecadores''.
a lei, ou por assistirem pontualmente
nos sábados à sinagoga, orar publica­
mente para serem vistos ou flagelar
seus corpos com prolongados jejuns.
O critério com o qual o Mestre cataloga­
va o homem, nada tinha a ver com os
conceitos dos escribas e fariseus. Por
esse motivo escolheu seus discípulos,
com fundamento em parâmetros dia­
metralmente opostos aos dos líderes re­
ligiosos de seu tempo.

Os outros apóstolos

Ainda que se fale mais extensamente de


alguns apóstolos, todos foram homens
fracos que ao invés de destacar-se por

42
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

suas grandes virtudes, se caracterizavam mais por seus


defeitos.
Com tudo isso, Jesus lhes dotou de autoridade para que
pregassem, sarassem enfermos e expulsassem demô­
nios (Marcos 6.7-13). Suas fraquezas e defeitos não lhes
impediram de fazer a obra que o Senhor lhes havia
encomendado. Assim expõe o evangelista Marcos:

"£, saindo eles, pregavam que se


arrependessem. E expulsavam muitos
demônios, e ungiam muitos enfermos
com óleo, e os curavam".
(Marcos 6.12,13)

Que os apóstolos eram fracos, se demonstra naquela


ocasião quando o Mestre, depois de ensinar-lhes que o
Filho do Homem seria entregue nas mãos dos homens
e que estes o matariam, mas após três dias ressuscitaria
(Marcos 9.30,31), os encontra discutindo a quem corres­
pondia a posição mais elevada.
Porém, Jesus não reagiu destituindo a nenhum deles,
pois compreendeu suas fraquezas. Se sentou, os chamou
e se pôs a explicar que para ser o primeiro, teria que ser
o último e o servo de todos (Marcos 9.35).
Quão fracos eram estes homens! Em um momento tão
crucial, quando se aproximava a hora em que o Filho do
Homem teria que ir a batalha decisiva na cruz para
salvar a humanidade, eles perdiam tempo em discus­
sões estéreis a respeito de postos e hierarquias. Não
obstante, Jesus não se surpreendeu, pois conhecia as
fraquezas desses doze homens e por esse motivo os
havia chamado.
E que dizer daquela ocasião, na qual, ao enviar mensa­
geiros a uma aldeia samaritana para fazer certos prepa­

43
Rodolfo Beuttenmiiller

rativos, Tiago e seu irmão João, ao não serem recebidos,


propuseram:

"Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os


consuma, como Elias também fez? (Lucas 9.54)

Jesus os olhou, ao escutar semelhante proposta nascida


de uma personalidade fraca e intolerante. Consumir
com fogo do céu toda uma aldeia, composta de homens,
mulheres e crianças! Um massacre de tal maldade não
havia no coração do mais cruel criminal; não obstante,
agora, dois discípulos do Salvador do mundo, que fun­
damentou sua missão no amor e que estava prestes a
morrer pelo mesmo, propunham semelhante barbarida­
de.
Ele havia dotado seus apóstolos de grande poder, mas,
somente deviam utilizá-lo com propósito de fazer o
bem, nunca o mal. É compreensível que eles atuaram
desse modo, pois eram homens fracos e cheios de defei­
tos. A reação de Jesus não poderia ser outra.

"Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse:


Vós não sabeis de que espírito sois. Porque,
o Filho do homem não veio para destruir as almas
dos homens, mas para salvá-las".
(Lucas 9.55,56)

Porém não obstante a repreensão, Tiago e João continua­


ram formando parte dos doze. Jesus não os expulsou,
pois sabia que os que havia chamado não eram homens
cheios de virtudes, nem de bons sentimentos. Sua tole­
rância chegou a tal grau, que nem sequer a Judas expul­
sou, mesmo sabendo que o entregaria, e estando à mesa,
naquela ceia inesquecível, lhe disse unicamente:

44
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

"O que fazes, faze-o depressa", (foão 13.27)

A fraqueza humana a fortaleza de Deus

A maior representação desta combinação encontramos


em Pedro. Este obscuro, rude, forte e decidido homem
a quem o Senhor encomendaria a missão de apascentar
suas ovelhas, é o mais fiel símbolo do aperfeiçoamento
do poder de Deus na fraqueza de um homem. Sua
ousadia o leva a pedir que Jesus o permitisse andar sobre
as águas e logo que conseguiu, afundou. A narração
encontramos em Mateus 14.22,23. Nesta ocasião a fra­
queza volta a manifestar-se nos discípulos, quando ao
verem-se diante do perigo de se afundarem no mar, pois
as grandes ondas ameaçavam destruir a embarcação na
qual navegavam, caem na presa do pânico.
Em meio da desesperada situação, o terror aumentou,
ao ver que alguém, andando sobre as águas se aproxi­
mava do barco. Um fantasma! Gritaram em uníssono.
Mas o Senhor, ao perceber que sua presença, em vez de
animar, lhes aumentava o medo lhes falou:

'‘Tende bom ânimo, sou eu, não temais”. (Mateus 14.27)

Ainda que sua voz era conhecida, o medo era tanto que
permaneciam crendo estar frente a um fantasma. E aí
quando surge a ousadia de Pedro.

"E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me


ir ter coittigo por cima das águas”. (Mateus 14.28)

Ante a resposta de Jesus, dizendo-lhe que fosse até ele,


Pedro sai do barco e anda sobre as águas para encontrar

45
Rodolfo Beuttenmüller

o Mestre. Nenhum mortal fez coisa se­


melhante. Andar sobre as águas! Não
obstante, Pedro conseguiu. É certo que
depois de uns quatro passos começou a
Reflexione
afundar e Cristo teve que estender-lhe a
mão para impedir, mas o fez.
Como se sentiu o Senhor ao ver o fraco
Pedro em tão grande manifestação de
fortaleza? Quem você
diz ser o
Cristo?
Outra vez, Pedro

Já havia passado algum tempo desde


aquele dia em que Jesus chamou os doze
e os constituiu como apóstolos. Quando
o Senhor lança a pergunta: Quem dizem
os homens ser o Filho do homem? A
resposta foi variada, pois uns diziam ser
João Batista, outros Elias e outros Jere­
mias ou um dos profetas (Mateus
16.13,14).
Então Jesus dirige a pergunta diretamen­
te a eles e diz:
"E vós, quem dizeis que eu sou?"

Surge novamente Pedro e, sem consultar


seus companheiros, responde:

"Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo".

Quem sabe, para entender a fragilidade


e a grandeza de Pedro, seria bom vê-lo
naquele momento quando Jesus foi pre­

46
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

so para ser julgado e crucificado. Em um


ato de braveza, tirou sua espada e cortou
uma orelha do servo do sumo sacerdote
(João 18.10). Porém, umas horas depois
Observe
o encontramos negando ser discípulo de
Jesus (João 18.15-18).
Porém muitas das críticas que se fazem
a este homem fraco-forte são injustas.
Não esqueçamos que poucos persona­ Jesus não
gens da Bíblia têm sido solicitados por repreendeu
Satanás para atacá-los de maneira direta. os apóstolos
Em Lucas, Jesus falando com ele disse: por seus
temores nem
suasfraquezas,
"Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu
ao contrário,
para vos cirandar como trigo; mas eu
os animou e
roguei por ti, para que a tua fé não
lhes enviou o
desfaleça; e tu, quando te converteres,
Espírito
confirma teus irmãos". (Lucas 22.31,32)
Santo.

Ião importante era Pedro que o diabo


pede a Deus que lhe dê permissão espe­
cial para peneirar como se fosse trigo.
Jesus, consciente da magnitude do ata­
que satânico que suportaria este ho­
mem, fez rogos a seu favor para que sua
fé não se desfaleça.
Ainda que somente se destaca a negocia­
ção de Pedro, os demais apóstolos, tam­
bém acovardados fugiram ou se escon­
deram. Assim estavam no dia da ressu­
rreição. Mas o Senhor, conhecendo que
homens fracos não podiam atuar de ou­
tra maneira, foi buscá-los. Assim narra
João:

47
Rodolfo Beuttenmiiller

"Chegada pois a tarde daquele dia, o


primeiro da semana, e cerradas as portas onde
os discípulos, com medo dos judeus,
se tinham ajuntado, chegou Jesus,
e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja
convosco". (João 20.19)

Não houve reprovação e nem repreensão. Ali estavam


assustados e medrosos, desanimados e desorientados.
Pensavam que tudo se havia acabado. Por isso o Mestre
foi buscá-los. As fraquezas e as faltas não foram mencio­
nadas. Pelo contrário, lhes injetou ânimo. Quando viu
que a condição anímica estava restabelecida e que ha­
viam recobrado o regozijo por sua presença no meio
deles, a esses mesmos fracos e covardes que três dias
atrás fugiram e se esconderam atemorizados, lhes disse:

"Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio


a vós. E havendo dito isto, assoprou sobre eles
e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo".
(João 20.21,22)

O Mestre nos disse que: Porquanto os doze que escolhi,


chamei e constitui como apóstolos são uns fracos e
covardes que na hora suprema foram impulsionados,
pelo medo, a fugir e a esconder-se, buscarei outros ho­
mens perfeitos, sem defeitos nem fraquezas e a esses
encomendarei a missão de levar minha mensagem por
todo o mundo; não! Foi buscar seus fracos apóstolos, os
animou, os consolou, os enviou a continuar seu labor, e
como se tudo isso não fosse suficiente, soprando, lhes
deu o Espírito Santo.
Se enganou o Senhor? De nenhuma maneira, pois não
muitos dias depois, o fraco Pedro, transformado em
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

forte, em base, diante do povo e com uma voz como de


trovão lhes disse:

"Varões judeus, e todos os que habitais em


Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas
palavras. Estes homens não estão embriagados,
como vós pensais, sendo a terceira hora do dia.
Mas isto é o que foi dito pelo profeta Toei:..."
(Atos 2.14,16)

Depois desta introdução, a poderosa voz do, outrora,


rude pescador, retumbava por todos os cantos de Jeru­
salém. Suas palavras tinham a força de um trovão e com
a mensagem baseada no cumprimento de uma grandio­
sa profecia conhecida por todo o povo. O fraco se havia
transformado em forte. O rústico estojo desaparecia e se
manifestava o tesouro.
Foi um dia memorável e inesquecível. O fluir do Espírito
Santo através das palavras de Pedro penetraram nas
profundezas dos corações dos presentes, dos quais três
mil aceitaram o chamado e passaram a formar parte da
nascente igreja.
Porém, o apóstolo não se limitou a esse sermão, já que
desde esse momento sua vida foi uma constante de­
monstração do poder de Deus.
Não obstante, não foi Pedro o único usado por Deus de
maneira poderosa. Os demais discípulos, em cumpri­
mento do grande mandado de ir por todo o mundo a
pregar o Evangelho, nos diz Marcos que:

"E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes,


cooperando com eles o Senhor, e confirmando
a palavra com os sinais que se seguiram. Amém".
(Marcos 16.20)

49
Rodolfo Beuttenmüller

Ou seja, aqueles poucos homens pertencentes a classe


mais baixa da sociedade da Palestina, se transformaram
de fracos e medíocres, em gigantes espirituais, e como
evidência disto, os frutos do labor realizado por eles,
permanecem até o dia de hoje.

50
IV
Jesus e osfracos

"Porque nos regozijamos de estar fracos,


quando vós estais fortes;
e o que desejamos é a vossa perfeição''.
(2 Coríntios 13.9)

N o capítulo anterior se faz referência aos doze após­


tolos escolhidos por Jesus Cristo e dotados de autorida­
de para pregar o Evangelho, curar enfermos e expulsar
demônios. Se destacou o procedimento desses compan­
heiros do Senhor, pois todos eles foram chamados das
classes mais baixas da sociedade palestina.
Não obstante, além desse estreito círculo de colaborado­
res, Jesus se identificou com muitas outras pessoas dessa
mesma classe social, a quais estendeu a mão, tirando-
lhes do estado de impotência e desesperança. Ou seja,
mostrou uma grande preocupação pelo fraco, despreza­
do e discriminado social.

51
Rodolfo Beuttenmiiller

Essa atitude com relação aos fracos e desprezados não


foi algo excepcional, mas uma conduta constante duran­
te todo o tempo de seu ministério, ligando sua missão
ao resgate do fraco e perdido pecador. Por isso disse:

"Porque o Filho do homem veio salvar o


que se tinha perdido''. (Mateus 18.11)

Desde seu nascimento até sua morte e ressurreição,


encontramos a vida de Jesus Cristo identificada com o
fraco. E não somente ao fraco físico; pois Ele também
esteve identificado com o desvalorizado social e espiri­
tual. Porém com sua preferência pelos pobres e discri­
minados daquela sociedade excludente, não se poderia
catalogar sua atitude como reprovação a alta sociedade
e aos verdadeiramente espirituais.
O que Ele realmente atacou foi a hipocrisia e a falsa
santidade dos fariseus e escribas, os mestres da lei e os
demais líderes religiosos, que impunham cargas que
eles mesmos não eram capazes de levar.
Quando se encontrou com uma pessoa de uma espiri­
tualidade autêntica, como a de João Batista, a aceitou de
maneira pública. Deste profeta disse:

"E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres,


não há maior profeta do que João Batista; mas o
menor no reino de Deus é maior do
que ele". (Lucas 7.28)

Criticou os ricos pela falta de solidariedade e insensibi­


lidade com seus semelhantes e seu apego demasiado aos
bens materiais, ignorando que um dia chegaria o fim de
suas vidas e de que então as riquezas para nada lhes

52
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

servirão. Por essa razão se refere a pará­


bola do pobre Lázaro e um homem pos­
suidor de muitas riquezas.
Nela, marca uma grande diferença entre Não duvide
estes dois personagens, destacando a
enorme riqueza de um, e a carência total
do outro. Mas como era natural, o fim
chegou a ambos, demonstrando que a
acumulação de bens materiais não ser­ Nem o céu,
viu para salvar a descuidada alma da­ nem Deus
quele homem rico, que terminou no tor­ podem ser
mentoso Hades; entretanto Lázaro, não comprados
obstante haver vivido em uma absoluta com dinheiro.
e total miséria, ao morrer, chegou aos
braços do pai Abraão (Lucas 16.19-31).
Muitos ricos e poderosos chegam a pres­
cindir de Deus, movidos pela crença de
que todas as coisas são adquiridas por
meio do dinheiro. Porém nem o céu, nem
Deus podem ser comprados com dinhei­
ro.
Para ser aceito por Deus, e em conse­
qüência entrar no céu, o homem somente
tem que se cobrir com o sangue de Jesus
Cristo, sem importar qual seja sua condi­
ção econômica.
Aos "super-espirituais" sucede o mesmo
que a alguns ricos, com a diferença de
que se sentem com suficientes ações es­
pirituais acumuladas para merecer uma
quota no céu. Não obstante, a vida espi­
ritual não consiste na acumulação de
atos, digamos que bons, mas na contínua
e renovada experiência com Deus. Paulo
assim compreendeu quando expressou:

53
Rodolfo Beuttenmiiller

"Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão,


para que, pregando aos outros, eu mesmo não
venha dalguma maneira a ficar reprovado".
(1 Coríntios 9.27)

Em contraposição do rico e do "super-espiritual", o


fraco se aproxima do Mestre em busca dessa força que
não tem. Era o sedento buscando a fonte de água ou o
faminto em busca deste pão, com o qual saciaria sua
fome. Jesus compreendia a sincera petição do pobre e
desvalorizado, e por isso não somente recebia com agra­
do, como respondia, suprindo suas necessidades, fos­
sem materiais ou espirituais.

Jesus e o jovem rico

Em Mateus 19.16-24 se narra o encontro de Jesus Cristo


com um jovem rico que além de se considerar espiritual­
mente perfeito, se aproximou do Senhor e falou da
seguinte maneira:

"Bom Mestre, que bem farei, para conseguir


a vida eterna ?" (Mateus 19.16)

Ao responder-lhe, o primeiro que fez Jesus foi rejeitar o


qualificativo de bom, dizendo-lhe que existia somente
um bom e esse era Deus. Porque o Senhor não aceitou o
qualificativo tão apropriado como esse? Possivelmente
percebeu a falta de sinceridade de seu interlocutor.
Logo, quando já havia rejeitado o elogio, lhe disse:

54
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

"Se queres, porém, entrar na vida, guarda os


mandamentos". (Mateus 19.17)

Então, o jovem responde: "Quais mandamentos"? Jesus


Cristo, com toda paciência, lhe recorda os mandamentos
aos quais se referia, como: não matarás; não cometerás
adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; hon­
ra teu pai e tua mãe, e amarás a teu próximo como a ti
mesmo (Mateus 19.18,19).
E, sem perturbar-se, o jovem responde ao Mestre que
todos esses mandamentos tem guardado desde sua ju­
ventude (Mateus 19.20). Como se sua manifestação de
auto-suficiência fosse pouca, lança a desafiante pergun­
ta: Que me falta ainda?
Eis aqui um homem imensamente rico, jovem e espiri­
tualmente perfeito, a seu parecer. Não existe nele falta
alguma, pois desde sua mocidade guardava todos os
mandamentos. Então, para que veio a Jesus? Para fazer
ostentação de sua perfeição? Ou para mostrar que ele
não era como esses pecadores, prostitutas e publicanos
que o acompanhavam? Imagino o Senhor, reconhecer
com seu olhar este jovem auto-suficiente, super-espiri-
tual, desde os pés até os olhos.
Alguns segundos de espera, enquanto Jesus olhava di­
retamente em seus olhos para responder-lhe sua última
pergunta: Que me falta ainda? E com toda tranqüilidade
lhe diz:

"Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens


e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem,
e segue-me". (Mateus 19.21)

É bom assinalar que Cristo, em nenhum momento, lhe


fechou a porta do céu. Simplesmente lhe disse o que

55
Rodolfo Beuttenmüller

tinha que fazer para ter a vida eterna, e


logo lhe respondeu sua última pergunta
quanto ao que mais lhe faltava.
Nem sequer o contradiz por sua suposta Observe
fidelidade em guardar todos os manda­
mentos desde sua juventude. Tudo esta­
va bom, unicamente ficava um pequeno
ponto ou detalhe que lhe faltava para
que realmente fosse perfeito. Vender Ou seja, já
tudo o que tinha e repartí-lo entre os em estado de
pobres, aliviando a carga de miséria de perfeição e
uma grande quantidade de pessoas, e com a vida
assim, fazer um grande depósito no ban­ eterna
co do céu. Ali encontraria seu tesouro ao assegurada,
chegar na eternidade. não
Havendo recebido respostas às suas in­ necessitaria
terrogações e com o convite de seguir a tanta
Jesus, o jovem rico somente tinha que riqueza
atuar. Poucos têm estado tão perto do senão no
reino dos céus que têm deixado escapar céu.
tal oportunidade.
Muitos têm estado perto do reino dos
céus e têm desprezado a oportunidade
de entrar.Porque se certamente Pilatos
desperdiçou algo similar, Jesus nunca
lhe disse: "Vem e segue-me". Não obs­
tante, em vez de seguir ao Mestre, o jo­
vem fez tudo ao contrário:

"E o mancebo, ouvindo esta palavra,


retirou-se triste, porque possuía muitas
propriedades". (Mateus 19.22)

56
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

O jovem rico desprezou a oportunidade de entrar na


vida eterna, porque suas propriedades eram muitas e
não estava disposto a desprender-se delas. Anos depois
envelheceria e logo morreria sem poder levar nada con­
sigo. Tudo ficaria aqui. Não poderia ficar com sua rique­
za aqui na terra, e tão pouco entrar na vida eterna no
céu.
E nos perguntamos: Não seria demasiado o que Jesus
Cristo pedia? Não, pois outro homem rico, sem que o
Mestre o pedisse, ofereceu dar parte de seu dinheiro aos
pobres. Então, onde está a diferença entre estes dois
endinheirados? Enquanto o jovem se achava perfeito e
pensava que não necessitava nada do Senhor, Zaqueu
estava consciente de sua fraqueza. Sabia que seu dinhei­
ro não lhe abriria a porta do reino dos céus. Por isso
recorreu ao único que o introduziria à vida eterna.

Z a q u eu o publicano

A história é narrada por Lucas no capítulo 19 de seu


evangelho. Jesus entrava em Jericó, e Zaqueu, chefe dos
publicanos e possuidor de uma grande riqueza, infor­
mado da visita do Mestre, sentiu que havia chegado o
momento de encontrar-se com Ele, ou ao menos vê-lo.
Quão grande era sua fraqueza! Pois apesar de estar
consciente de sua condição como publicano, não se sen­
tiu com direito de ser recebido por Jesus Cristo. Não
pensava que seu dinheiro podia cobrir sua vida despre­
zível e pecaminosa.
Sem seu séquito de aduladores e sem acompanhantes de
nenhuma natureza, somente com sua consciência, saiu,
depois de descobrir a rota por onde passaria o Mestre.
Subiu em uma árvore, e se colocou em um lugar preciso,

57
Rodolfo Beuttenmüller

de onde veria o Senhor. Não pedia mais, que somente


pudesse vê-lo, ainda que fosse à distância, lhe bastava.
O ato de poder dizer que havia visto Jesus Cristo com
seus próprios olhos era algo mais que suficiente para um
pobre pecador.
Do seu improvisado palco, Zaqueu o via aproximar-se.
Seu coração palpitava com maior velocidade que de
costume. O "pobre rico", com seus olhos bem abertos
para não perder o mínimo detalhe, observa-o crendo ser
a última oportunidade que teria de ver o Mestre. Mas,
repentinamente Jesus se detém, levanta a cabeça e olha
para cima. Logo, o chama por seu nome, como se fossem
velhos conhecidos.

"E, quando Jesus chegou àquele lugar, olhando


para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce
depressa, porque hoje me convém pousar
em tua casa". (Lucas 19.5)

Já na casa de Zaqueu, o povo assombrado murmurava


pela atitude de Jesus. Não entendiam o porque de sua
entrada na casa de um pecador. Porém, em verdade, já
este homem não era um pecador, pois desde o momento
em que, consciente de sua fraqueza, saiu a ver o Senhor,
uma transformação se evidenciou em sua vida.
Agora, com Jesus bem próximo, frente a ele, se compra­
zia em olhá-lo. Não acreditava que estava ali, em sua
casa, a quem umas horas antes, somente desejava ver,
ainda que fosse à distância. Por isso nada perguntou,
nem pediu. Ião pouco lhe importava as murmurações
do povo. Era indescritível o que era sentido por este
homem desprezado e tido como escória pela sociedade.
Não foi ele quem convidou Jesus, não porque não qui­
sesse fazê-lo, mas porque não se sentia com direito a um

58
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

privilégio que considerava exclusivo


para alguém nobre. O Mestre o escolheu,
mesmo sendo desprezado e tido como
vil. E foi nessa casa, diante de muita
Recorde
gente, quando Zaqueu, pondo-se em pé,
disse:

"Senhor, eis que eu dou aos pobres metade


dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho A partir ão
defraudado alguém, o restituo nosso encon­
quadruplicado". (Lucas 19.8) tro com
Jesus, come­
çamos a de­
De maneira que Zaqueu, sem que Cristo
positar nos­
lhe pedisse que se desprendesse de sua
sas riquezas
riqueza, em demonstração da transfor­
no céu.
mação experimentada em sua vida, es­
pontaneamente decide presentear a me­
tade de seus bens aos pobres. E como
estava consciente de haver enganado a
muitos, toma a outra metade para repa­
rar os danos causados, devolvendo a
todo aquele que havia sido usurpado ou
roubado por ele, não somente a quanti­
dade arrebatada de maneira fraudulen­
ta, mas ainda, alguns grandes interesses.
Zaqueu, a partir desse momento, ficaria
unicamente com o necessário para viver,
pois desde então, sua riqueza seria depo­
sitada no céu.
A este o Senhor respondeu:

"Hoje veio a salvação a esta casa, pois


também este é filho de Abraão. Porque o

59
Rodolfo Beuttenmiiller

Filho do homem veio buscar e salvar


o que se havia perdido". (Lucas 19.9,10)

A samaritana

Uma das maiores transformações, em uma pessoa fraca


passando a ser forte, achamos na mulher do poço de
Samaria. Seu encontro com Jesus Cristo é narrado por
João 4.3-42. Jesus ia de Judéia a Galiléia, e o texto nos diz
que era necessário passar por Samaria. Então, ao deter-
se junto ao poço de onde a mulher de nossa história
tirava água, se produz o encontro. Depois de uma pro­
longada conversação, se realiza a grande transformação,
que deixou como resultado, que uma mulher despreza­
da pela sociedade, se converteu em um instrumento do
Senhor, para a salvação de muita gente.
Esta formosa história enfatiza a tese de que para ser
utilizado por Jesus Cristo tem que ser fraco, pois a
mulher escolhida por ele para levar sua mensagem ao
povo de Samaria, não era um depósito de virtudes nem
pertencia à elite daquela sociedade, nem sequer contava
com uma vida estável. Era, na realidade, um desprezo
humano. A região de onde era procedente, Samaria, cuja
a cidade do mesmo nome, constituiu-se como capital de
Israel quando, depois da morte de Salomão, o reino foi
dividido. Sua população foi a primeira a se entregar à
idolatria e em rebelar-se contra Deus ao seguir um ca­
minho contrário ao ensinado por Ele e ao deixar de lado
suas leis, normas, estatutos e mandamentos.
Judá, com sua capital em Jerusalém, ou seja, a outra
parte da divisão do antigo reino, continuou, por um
tempo, fiel a Deus e aos seus princípios, mas logo,

60
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

imitando as dez tribos separadas de Israel, também se


corrompeu, pagando muito caro por sua rebelião.
Por esta razão, judeus e samaritanos não se comunica­
vam, pois os integrantes da tribo de Judá se considera­
vam bons, enquanto que os das tribos separadas, cuja
capital era Samaria, eram vistos como maus.
Não obstante, Jesus, cuja missão era reconciliar o ho­
mem com Deus, buscar e salvar o que se havia perdido,
tinha como parte de seus objetivos, alcançar as ovelhas
afastadas de Israel. A eles se referiu quando disse:

"Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco;


também me convém agregar estas, e elas ouvirão
a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor''.
(João 10.16)

O texto de João nos diz que era necessário que Jesus


passasse por Samaria, ainda que não aclare a razão, já
que a rota de Judá a Galiléia era transitada freqüente­
mente por Ele e seus discípulos. Parecia que o Mestre,
nesta ocasião, tinha um interesse especial em parar ali
para fazer o que fez, levar a mensagem de reconciliação
àquelas ovelhas perdidas da casa de Israel.
E aqui volta a destacar-se a fraqueza do instrumento
escolhido para a realização de tão importante missão.
Não escolheu uma nobre princesa ou uma virgem sem
mancha nem contaminação. Uma vez mais, escolhe o vil,
impuro, fraco e pecaminoso. E neste contexto onde se
produz a bela história de Jesus e a samaritana.
Detém sua caminhada e se instala ao lado do poço de
Jacó. Como nenhum de seus atos era fruto do azar,
seguros estamos de que sabia que a samaritana não
tardaria em chegar, como em efeito sucedeu.

61
Rodolfo Beuttenmüller

Uma mulher pobre, com seu cântaro no


ombro se aproxima do poço. Vê ali um
judeu, o que a levou a pensar no incômo­
do do encontro com o estranho persona­
Não esqueça
gem. Chega com seu cântaro tão vazio
como sua triste e pobre existência. Pare­
cia que o judeu a estivesse esperando,
suspeita que confirmou quando, ao re­
solver tirar água e sair o mais rápido Jesus
possível, rompe com sua voz o silêncio, conhece
com um pedido que não somente a dete­ nossa
ve, assim como deu uma revira-volta no condição,
que até agora era sua vida. Ele sabe que
somos barro.
"Disse-lhe fesus: Dá-me de beber".
(João 4.7)

Surpresa de que um homem judeu não


somente lhe falara, como também lhe
pedira água, lhe respondeu com uma
pergunta:

"Como, sendo tu judeu, me pedes de beber


a mim, que sou mulher samaritana?"
(João 4.9)

Da resposta de Jesus e da conversa que


tiveram surge o oferecimento, por parte
do Mestre, de uma água diferente da do
poço, com estas palavras:

"Qualquer que beber desta água tornará a


ter sede; mas aquele que beber da água
que eu lhe der nunca terá sede, porque a

62
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

água que eu lhe der se fará nele uma fonte d'água


que salte para a vida eterna".
(João 4.13,14)

A mulher, sem perder tempo, lhe disse:

"Senhor, dá-me dessa água, para que não mais


tenha sede, e não venha aqui tirá-la". (João 4.15)

Abandonada e rechaçada por cinco maridos distintos, e


amante, no momento do encontro, de um homem que a
utilizava com o único propósito de satisfazer seus ape­
tites carnais, esta mulher não tinha a mínima esperança
de uma vida decente ou de ser aceita pela sociedade.
Nessa situação, e como se inesperadamente lhe apare­
cesse esse estranho judeu, não para se oferecer como seu
sexto marido nem seu amante de turno, senão como
solução imperecível a seu problema: transformar sua
vida e tirar-lhe de sua triste e humilhante situação. O
que o Senhor lhe dava, era a oportunidade de dar vida
a uma existência mais vazia que o cântaro com que
pretendia tirar água do poço.
A água que o Senhor lhe ofereceu não era um líquido
tirado de um poço semelhante ao que usualmente ela
utilizava, ele se referia ao Espírito Santo, que corria pelo
seu interior, a transformaria e lhe daria a vida eterna.
Ao aceitar a água, ela experimentou a grandiosa mudan­
ça. Não era nada casual nem momentâneo, pois tudo foi
produto de uma larga conversação ne qual discutiram
até quanto ao lugar onde deveriam adorar. Que grande
privilégio! A nenhum escriba, fariseu, sacerdote ou mes­
tre da lei, Jesus Cristo concedeu coisa parecida.
Como deve ter se sentido, a até então desprezada sama-
ritana, nessa infreqüente fraternidade! Se deu ao luxo de

63
Rodolfo Beuttenmüller

dialogar com o Mestre a respeito de profundidades


espirituais e depois de tudo isso, escutou de seus pró­
prios lábios, que Ele era o Messias (João 4.25). Com razão
deixou seu cântaro e foi correndo até a cidade para dar
a mensagem de seu encontro com o Cristo.
Sua mensagem foi contundente, pois para que o povo
cresse nas palavras de uma mulher com os seus antece­
dentes, tinha que operar o poder de Deus em toda sua
magnitude. E assim sucedeu, pois João nos disse:

“E muitos dos samaritanos daquela cidade creram


nele, pela palavra da mulher, que testificou:
Disse-me tudo tudo quanto tenho feito".
(João 4.39)

Eis aqui uma das maiores transformações de uma mul­


her extremamente fraca. Em poucas horas, passou de
sua condição de desprezada e abandonada pela socieda­
de e pelos homens, a ser um instrumento de Jesus Cristo
para a conversão de muitas pessoas.

64
V

Jesus inigualável

"E o que vem a mim de maneira


nenhuma o lançarei fora".
(João 6.37b)

Jesus é inigualável não se admite discussão al­


guma. Desde seu nascimento, tendo como mãe uma
virgem, até sua morte, sua vida foi diferente da de todos
os demais homens, pois estando na cruz, com o poder
suficiente para pedir que uma miríade de anjos inter­
viessem em seu favor, se absteve de fazê-lo, já que
através de sua morte, salvaria o homem de seu pecado.
Porém antes de chegar ao sacrifício, percursou durante
mais de três anos, os caminhos poeirentos da Palestina,
fazendo bem e curando a todos os oprimidos pelo diabo
(Atos 10.38). Seu labor não se restringia a um grupo em
particular, pois estava aberto a todo tipo de pessoa.
Leprosos, cegos, coxos, surdos e outros que padeciam

65
Rodolfo Beuttenmüller

de diversos males, foram curados por


seu inigualável poder.
Não obstante, não se limitou a curar uni­
camente seus males físicos. Também cu­
Recorde
rou a muitos, cujas vidas estavam liga­
das por forças demoníacas e a outros
tantos oprimidos pelo pecado.
Não obstante, é bom destacar sua singu­
lar manifestação de apreço por aqueles a Os excluídos
quem a sociedade assinalava e margina­ sociais
lizava. Os excluídos sociais, sempre en­ sempre
contraram nele, a compreensão que ou­ encontrar
tros lhes haviam negado. Os defendia e am nele
lhes oferecia apoio e amizade. (Jesus), a
compreens
ão que
outros lhes
A mulher adúltera haviam
negado.
Um dos casos mais destacados com res­
peito da atitude de Jesus Cristo para de­
fender e proteger os marginais, encon­
tramos na mulher adúltera. O relato é
registrado por João 8.3-11. Uns escribas e
fariseus lhe trazem uma mulher, testifi­
cando que a haviam surpreendido em
ato de adultério. Ou seja, estando casada,
foi encontrada mantendo relações ínti­
mas com um homem que não era seu
marido.
A lei de Moisés era clara e específica em
casos como este: devia ser apedrejada.
Não existia atenuante. Aí estão os escri­
bas e fariseus, conhecedores da lei, e tam­
bém esta pobre e indefesa mulher. Não

66
Diga o fraco: «/Em sou forte!»

tem direito nem sequer de uma palavra em sua defesa,


somente aceitar estocada todas as pedras que lançarem
sobre sua fraca humanidade.
Enquanto os acusadores apresentavam seus testemun­
hos e uma matilha de desalmados esperava o sinal para
começar o apedrejamento, Jesus fazia como se estivesse
escrevendo na terra. Nada podia fazer pensar que de­
fenderia a mulher. Por isso continuava com sua cabeça
inclinada e sem pronunciar palavra, até que, rompendo
seu silêncio, disse:

"Aquele que dentre vós está sem pecado seja o


primeiro que atire pedra contra ela''.
(João 8.7)

U Mestre continuou com sua cabeça inclinada simulan­


do que escrevia sobre a terra e, enquanto isto sucedia
que os acusadores e os que estavam prontos a executar
a sentença, atormentados por suas consciências foram
desaparecendo até não restar nenhum.
Agora, sozinhos, Jesus e a mulher, o Mestre levanta a
cabeça, olha para ela e lhe pergunta:

"Mulher, onde estão aqueles teus acusadores?


Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém,
Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também
te condeno: vai-te, e não peques mais".
(João 8.10,11)

Não eram estas palavras uma licença para continuar


com sua vida devassa, mas sim, uma demonstração de
compreensão à fraqueza humana e um gesto de solida­
riedade com seu estado de impotência.

67
Rodolfo Beuttenmiiller

Da cruz ao céu

Quem poderá igualar-se a um homem tão poderoso que,


mesmo estando crucificado, abriu a porta do reino dos
céus a um ladrão que se encontrava na cruz?
Este é um dos casos mais maravilhosos no qual Jesus se
identifica de uma maneira direta com o fraco. Ele havia
sido levado a cruz, moribundo, carregando os pecados
da humanidade. Uma grande multidão o havia seguido
até o lugar do sacrifício, não para acompanhá-lo em sua
dor ou como um gesto de solidariedade. Pelo contrário,
estavam ali para zombar dele.
Ali se encontravam muitos dos beneficiados com seus
milagres, os que saciaram sua fome na multiplicação dos
pães e dos peixes, e os que o receberam em sua entrada
triunfal em Jerusalém.
Lucas o sintetiza da seguinte maneira:

"E o povo estava olhando...'' (Lucas 23.35)

Seus discípulos, impulsionados pelo medo, rapidamen­


te o abandonaram, e Ele sozinho, enfrentou esse mo­
mento decisivo, para dar a última batalha com a qual
resgataria o homem.
Mas, na realidade, não estava só. Dois acompanhantes
circunstanciais morriam juntamente com Ele, também
crucificados, um a sua direita e o outro a sua esquerda.
Mas estes dois malfeitores nada tinham a ver com a
morte do Senhor. Morriam por seus feitos e por seu mal
viver.
Um deles, se uniu ao povo e lançando-lhe injúrias e
insultos, lhe dizia:
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

"Se tú és o Cristo, salva-te a ti mesmo,


e a nós". (Lucas 23.39)

Porém o outro, repreendendo-o, incre- Reflexione


pou:

"Tu nem ainda temes a Deus, estando


na mesma condenação? E nós,
Muilo-^ o
na verdade, com justiça,
: ti 0? ' -
-porque recebemos o que os nossos
como seu
feitos mereciam; mas este nenhum malfez".
líder...
(Lucas 23.40,41)
porém: o per­
verso da
Depois desta repreensão a seu compan­ cruz o viu
heiro, disse a Jesus Cristo: como Rei.
Como você o
"Senhor, lembra-te de mim, quando vê?
entrares no teu reino”. (Lucas 23.42)

Que grandioso reconhecimento! Crava­


do na cruz, sozinho e abandonado, frente
a uma turba vociferante que lhe escarne­
cia, escutando as palavras escarnecedo-
ras de governantes e soldados, e supor­
tando a atitude ingrata daqueles por
quem morria, de repente, escuta a fraca
voz de um moribundo, crucificado por
suas maldades, reconhecendo-o como
Rei.
Nem os sacerdotes, escribas, mestres da
lei, nem seus discípulos sequer, nem
mesmo seus familiares puderam detec­
tar a grandeza do que morria. Muitos o
reconheciam como seu líder; outros

69
Rodolfo Beuttenmüller

viam nele um dos tantos mestres que, periodicamente,


apareciam em Israel, mas o perverso da cruz o viu como
Rei.
Não o via na condição em que antecipadamente o havia
visto o profeta Isaías quando disse que "seria visto sem
nenhum atrativo para desejar-lo" (Isaías 53.2). O cum­
primento dessa profecia se evidenciava na multidão
que, em atitude de desprezo e rechaço, aglomerava,
esperava seu fim. Mas, o ladrão se excetuava da multi­
dão e contrariamente ao dito pelo profeta, ele sim o viu
atrativo para desejá-lo.
A este fraco e ensangüentado homem que agonizava a
seu lado, viu como Rei dos reis e, logo deste singular
reconhecimento, no qual pede que o tenha em conta,
recebe como uma demonstração de poder e grandeza, a
resposta:

"Em verdade te digo que hoje mesmo estarás


comigo no Paraíso". (Lucas 23.43)

Uns minutos depois, nesse mesmo dia, Jesus abriria a


porta do céu ao ladrão que esteve a seu lado no momen­
to que morria pela humanidade. Esse ex-marginal, hoje
está no céu, de onde regressará a reinar quando Cristo
vier estabelecer seu império na terra.

A fraca forte

Muitos conhecedores e analistas da vida e ministério de


Jesus Cristo, catalogam Maria Madalena como a mais
fiel entre todos os discípulos do Senhor.

70
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Quem era esta privilegiada mulher, primeira a ver a


Jesus Cristo depois de sua ressurreição e que, enviada
por Ele, correu em busca dos discípulos para dar-lhes a
notícia de que o Mestre havia ressuscitado? Foi uma
princesa, filha de um rei, uma nobre ou uma virgem
imaculada? Não! Nada disso, era tudo ao contrário.
Seus antecedentes a definiam como pecadora e endemo­
ninhada. Mas, apesar de sua fraqueza, foi ela a quem foi
concedido a honra de ver a Jesus, pouco depois de haver
saído da tumba, falar com Ele e servir de mensageira ou
contato com seus assustados apóstolos.
Maria, que nasceu em Magdala, um povoado de pesca­
dores junto a margem do mar da Galiléia. Por seu porte,
formosura e atrativo, se transformou na cortesã mais
solicitada por príncipes, artistas e pessoas afortunadas,
que prostrados a seus pés, adoravam sua irresistível
sensualidade.
Os demônios, em quantidade perfeita de sete, se abriga­
ram no centro do seu ser, fazendo dela, uma fonte de
prazeres apetecíveis atrás dos quais corriam todos aque­
les com capacidade financeira para pagá-los.
Essa solicitação desmesurada de homens e os olhares
invejosos das mulheres, a levaram a crer ser o máximo
e, compelida por um espírito vanglorioso, se deixou
possuir pelo demônio da sensualidade. Sua luxúria sem
limite, era semelhante a um diabo desbocado que domi­
nava seus clientes, que mais que cliente eram seus ado­
radores. Consciente de seu poder dominador, de ser
uma fonte de prazeres por sua formosura e da sede
insaciável que despertava, pois qualquer príncipe era
capaz de arriscar sua cabeça em troca das doçuras que
destilava seu corpo nu, se encheu de orgulho.
Não obstante todos estes atributos, também estava cons­
ciente de que não era outra coisa que uma vendedora de
carícias. Daí nascia sua amargura e sua tristeza, já que

77
Rodolfo Beuttenmiiller

depois de enlouquecer a cada um de seus homens,


somente lhe ficava uma casca vazia, solidão. O encanto
de sua nudez não conseguia encher o vazio de sua
desgraçada existência. Era como uma pedra à beira do
mar que, mesmo sendo continuamente lavada pelas
águas, permanece seca.
De nada serviram as mentiras de seus lábios que enga­
nosamente sussurravam aos ouvidos de seus amantes
um amor inexistente, quando na realidade somente sen­
tia ódio até por si mesma. Madalena era simplesmente
uma mulher frustrada que se sentia devorada paulati­
namente pela melancolia.
Foi assim que em um dia, quem sabe cansada de que por
seu corpo passaram homens de todas as condições, e de
oferecer prazer a muitos, sem conhecer o amor de nen­
hum em particular, sua mente se abriu à mensagem que
algum conhecido lhe levara, acerca de um homem muito
diferente dos que ela havia tratado.
Este não viria a ela em busca de prazeres, mas estaria
sim, disposto a dar-lhe paz e tranqüilidade que tanto
desejava e que parecia haver-lhe escapado com cada um
de seus amantes. Decidida, saiu a sua busca. Quem sabe
a dúvida de que seria recebida, a levou investigar e foi
assim que soube de sua intenção favorável com a mulher
adúltera, levada a Ele por escribas e fariseus; da cura do
paralítico, da limpeza dos leprosos e de seus contínuos
defrontes com os mestres da lei.
Estes testemunhos a convenceram de que o Mestre não
a rejeitaria por ser o que era: uma fraca e enferma mulher
que, ainda que buscada por muitos compradores de
prazeres sem compromisso, no fundo era desprezada
pela sociedade. Foi assim que se dispôs a chegar ao lugar
onde Ele se encontrava.
Lucas 7.36-50 nos descreve o encontro entre quem nunca
cometeu pecado e a mais famosa pecadora.

72
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Jesus havia sido convidado a comer na casa de Simão o


fariseu e estava ali sentado à mesa, quando de repente
entra uma mulher que, chorando, sem pronunciar pa­
lavras, começa a regar com lágrimas seus pés e a enxu-
gar-los com seus cabelos; logo derrama o frasco de ala­
bastro e o unge com seu perfume (Lucas 7.38).
Ao ver semelhante manifestação de amor, Simão, como
bom fariseu disse para si mesmo: "Se este fora profeta,
bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois
é uma pecadora" (Lucas 7.39).
Era natural que Simão conhecera a Madalena, pois a
desprezada e em sua concepção do que tinha que ser um
profeta, não podia aceitar que uma mulher assim, fosse
nem sequer saudada, e menos ainda, que alguém per­
mitisse ser tocado ou acariciado por ela publicamente.
Quão errado estava o fariseu, pois Jesus sabia perfeita­
mente que quem o ungia com seu perfume era Maria, a
pecadora.
E para tirar as dúvidas deste fariseu, lhe mostrou quão
profeta era, que até lhe pode dizer qual era seu pensa­
mento. Então lhe disse:

"Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me


deste água para os pés; mas esta regou-me os pés
com lágrimas, e mos enxugou com os seus cabelos.
Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou,
não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste
a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com
ungüento. Por isso te digo que os seus muitos pecados
lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele
a quem pouco é perdoado pouco ama".
(Lucas 7.44-47)

E depois de haver disto isto ao fariseu, disse a mulher:

73
Rodolfo Beuttemniiller

"Os tens pecados te são perdoados (Lucas 7.48)

Apartir desse momento, seguiu a Jesus, juntamente com


os doze e outras mulheres que, como ela, haviam sido
curadas de enfermidades e de maus espíritos (Lucas
8.1-3). De maneira que uma mulher com antecedentes
tão obscuros foi a escolhida por Jesus para manifestar-se
pela primeira vez, depois de sua ressurreição, e enviar
a vitoriosa mensagem a seus apóstolos.

Maria, a fiei e persisten te

Porém este privilégio não foi gratuito, pois Maria se


transformou em uma ativa discípula que, paulatina­
mente, assimilou os ensinamentos de seu Mestre. Por
esse motivo, quando o Senhor é cravado na cruz e todos
os demais discípulos assustados se escondem, ela per­
manece no Calvário (João 19.25), nada conseguiu assus-
tar-la nem movê-la. Ali esteve presenciando tudo. Além
do mais, foi testemunha de seu sepultamento; quando
José de Arimatéa, depois de obter a permissão, o sepul­
tou em uma tumba de sua propriedade, ela estava diante
do sepulcro (Mateus 28.57-61).
Por esse motivo, quando chegou a manhã do primeiro
dia da semana, estando ainda escuro no sepulcro onde
puseram o Senhor, ao notar que a pedra que cerrava a
entrada havia sido removida, se dirigiu a seu interior,
mas em vez do corpo de seu Mestre, encontra dois anjos
com vestiduras brancas, que cuidavam do lugar.
A fiel discípula sai e ainda perplexa pelo acontecido, se
senta sobre a erva em frente ao sepulcro e uns momentos
depois escuta passos que interpreta como os do jardinei-
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

ro. Os passos cessam e um silêncio sepulcral se apodera


do ambiente. É aí que escuta uma voz que lhe pergunta:

"Mulher, por que choras?"

Ao qual ela responde:

"Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram".


(João 20.13)

Havendo dito isto, ao voltar seu rosto viu quem falava


com ela, se deu conta de que era Jesus.
Havia ressuscitado e ela era a primeira a saber, ver e
escuta-lo. Que privilégio! Uma pessoa fraca, enferma,
endemoninhada e tida como lixo da sociedade, chegar a
ser testemunha de tudo ocorrido ao redor do Calvário,
da morte, sepultura e ressurreição de Jesus Cristo e,
além disso, ser a portadora da inigualável notícia.

75
VI
A fraqueza de Adão

"E criou Deus o homem à sua imagem;


à imagem ãe Deus o criou".
(Gênesis 1.27a)

K s capítulos anteriores destaquei a benevolência do


Senhor com aqueles que chamou para que o acompan­
hasse em seu ministério, e para que continuassem sua
obra depois de seu regresso ao céu. Todos foram pessoas
fracas e com grandes defeitos. Fiz notar o agrado que
sentia o Mestre ao tratar com os marginalizados da
sociedade e com os desprezados pelos líderes religiosos,
com os quais se identificou, protegeu e utilizou.
Porém, qual foi o comportamento de Deus com aqueles
homens que utilizou de maneira especial ao descobrir
suas fraquezas? Mais ainda: Como foram esses homens?
Perfeitos? Fracos?
Não é meu propósito falar ou comentar a vida e o
comportamento de todos os homens que a Bíblia destaca

77
Rodolfo Beuttenmüller

por sua estreita relação com Deus, mas sim me referir a


vários deles com o fim de demonstrar que, não obstante
suas fraquezas e imperfeições, foram instrumentos efi­
cazes na mão de Deus, como ensina Paulo: o poder de
Deus se aperfeiçoa na fraqueza do homem.
Começarei com o primeiro homem, pois nele encontra­
mos a particularidade de não haver saído do ventre de
uma mulher. Foi o mesmo Deus que, depois de conce­
bê-lo mentalmente, o formou, utilizando pó da terra, e
soprando em seu nariz, alento da vida.

Adão

Eis aqui o primeiro homem, perfeito, pois ao haver sido


criado a imagem e semelhança de Deus e formado por
Ele mesmo, não podia ter nenhuma imperfeição. Não
apareceu Adão naquele formoso jardim de maneira aci­
dental, nem por sua própria vontade, pois nada concer­
nente a criação foi produto de uma mente ociosa. Foi
Deus, em seu pleno domínio, que foi criando cada parte
do universo. Logo criou as diversas espécies de animais.
Havendo criado todas as coisas faz uma visita e encontra
tudo bem. O escritor do livro de Gênesis, sintetiza da
seguinte maneira:

"E viu Deus que era bom”. (Gênesis 1.25b)

Já concluirá sua obra da maneira mais excelente, é que


Deus decide criar o homem. No registro de Gênesis
1.1-25 observamos como cria todas as coisas somente
ordenando ou dizendo as palavras: "Haja ou produza".
Mas quando chega o momento de criar o homem, pri­

78
Diga o fraco: «/Em sou forte!»

meiro pensa em um modelo que não parecesse com


nenhuma das coisas nem animais que havia criado e
escolhe a si mesmo, ou seja, decide que esse homem seja
semelhante a Ele. Havendo chegado a essa conclusão,
toma um pouco de pó, e faz uma formosa figura que,
poderíamos dizer, ser sua auto-imagem, pois Deus disse:

"Façamos o homem à nossa imagem, conforme


à nossa semelhança; e domine sobre os peixes
do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado,
e sobre toda a terra e sobre todo o réptil que se
move sobre a terra". (Gênesis 1.26)

Ou seja, a criação do homem, não foi unicamente algo


novo ou complementar. Foi uma criação distinta feita
pela intervenção de Deus, pois a essa auto-imagem so­
prou alento no nariz e o ser que Ele havia formado do
pó, veio a ser homem vivente.
De maneira que a Adão, essa figura saída da mão de
Deus e posta no universo para que o dirigisse, Deus
entrega sua criação, lhe dá poder e domínio para que a
controle. Maior privilégio que esse é impossível, como
impossível seria supor que existisse nele alguma falta
ou defeito, pois sua criação, não foi algo apressado nem
com o propósito de cumprir um rol transitório.
Adão é o produto do pensamento, desenho e feitura de
Deus, quem depois de fazer a sua imagem e semelhança,
ao ver que era o que havia determinado, lhe põe o hálito
de vida:

"E formou o Senhor Deus o homem do pó


da terra, e soprou em seus narizes o fôlego
da vida; e o homem foi feito alma vivente”.
(Gênesis 2.7)

79
Rodolfo Beuttenmiiller

O perfeito habitat

Adão, já convertido em homem, não tem que perambu­


lar errante sobre a terra, perdido ou confundido, buscan­
do que fazer e como se alimentar. Aquele que o havia
criado o estabelece num formoso jardim ou horta, com
todas as coisas necessárias para seu sustento. Além do
mais, lhe dá um trabalho que consistia em exercer auto­
ridade sobre todo o universo, cuidar, ordenar e por
nome a todas as coisas.
Mas, Deus considerando que não era bom que Adão
estivesse só, utilizando como base uma se suas costelas,
lhe fez uma mulher (Gênesis 2.18; 21-23). Assim comple­
ta Deus a perfeição de sua obra. Um universo onde tudo
o que havia feito, estava bem, um jardim como lugar de
habitação de Adão, criado a imagem e semelhança de
seu Criador, funcionando como máxima autoridade,
uma mulher para que servisse de companheira e para
que entre ambos, multiplicassem a raça humana. Então,
se tudo era perfeito, onde aparece a fraqueza do primei­
ro homem? Se houve fraqueza em Adão, criado por
Deus, tomando Ele mesmo como modelo, que mais
podia esperar dos demais homens?
Porque na realidade, Adão, formado por Deus, ao tomar
pó da terra, conforme a um desenho preconcebido, era
um homem totalmente perfeito, completo e acabado
maravilhosamente.
Nada depois dele, teve o privilégio de surgir da mão de
Deus. Se Deus achou boas as demais coisas criadas no
universo, quanto mais Adão, criado conforme si mesmo.
Por isso dizemos que esse primeiro homem foi perfeito,
terminado e sumamente bom.

80
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

Sua tragédia

Sua tragédia se inicia no momento em que quer dar um


salto e alcançar algo mais elevado e chegar a ser Deus.
Ele havia sido feito a imagem e semelhança de Deus,
mas não se conformava com isso. Ião pouco com os
privilégios de dominar sobre o universo e de ter um
poder único sobre tudo criado. Agora queria ser Deus.
Como homem, havia escalado o mais alto que podia
aspirar. Daí em diante teria que invadir a esfera proibida
que somente a Deus correspondia. É aí que surge a
astuta serpente, insinuando à mulher, a possibilidade de
chegar a ser como Deus. O "sereis como Deus" (Gênesis
3.5), penetrou ao mais profundo do ser da mulher de
Adão. Tudo começou com a pergunta:

"É assim que Deus disse: Não comereis de toda


a árvore do jardim?'' (Gênesis 3.1)

Deus, em nenhum momento lhes havia proibido de


comer das árvores do jardim. A proibição era sobre uma
específica, ou seja, a árvore da ciência do bem e do mal
(Gênesis 2.17).
Assim Eva o faz saber ao responder-lhe, acrescentou
ainda, que no dia em que comessem dessa árvore mo­
rreriam (Gênesis 3.2,3). Mas a serpente, logo ao escutar
a explicação da mulher, a responde:

"Certamente não morrereis. Porque Deus


sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão
os vossos olhos, e sereis como Deus,
sabendo o bem e o mal". (Gênesis 3.4,5)

81
Rodolfo Beuttenmüller

A sugestão satânica é que o homem não tinha que per­


manecer indefinidamente sendo o mesmo, que a atitude
de Deus era egoísta e que, como tal, não admitia compe­
tição e por esse motivo havia inventado o conto da
morte, para mantê-los afastados da possibilidade de
chegarem a ser como Ele.
Como foi possível crer em semelhante mentira? Como
podiam crer que Deus fosse tão egoísta que até podia
chegar a mentir para manter o homem assustado,
evitando assim que este o alcançasse? É precisamente
aí onde se descobre a fraquezà do primeiro casal.
Creram numa monumental mentira e desse modo,
iniciam um processo extraordinariamente sutil, dirigi­
do por Satanás, com o fim de desestabilizar ao homem
e precipitá-lo a uma tragédia da qual não se recobraria
jamais.
Primeiramente, semeia a dúvida sobre o dito por Deus,
introduzindo um elemento enganoso, com o qual induz
ao homem a duvidar da veracidade e do sã propósito do
Criador. Logo, desperta a curiosidade e a ansiedade do
homem para comer o fruto proibido, concluindo que era
mentira de Deus, que se produziria tal morte, mas que
o Criador estava escondendo o que na realidade suce­
deria, que não outra coisa que ao comer desse fruto, eles,
Adão e Eva, seriam como Deus.
Mas, como era possível que existisse semelhante fraque­
za em um homem saído da mão de Deus totalmente
acabado por Ele e conseqüentemente perfeito? De que
maneira se deixa enganar para buscar uma imortalidade
que já tinha e que poderia preservá-la somente absten-
do-se do fruto proibido?
Como se deixa convencer e aspira a ser Deus, se como
homem foi feito à imagem e semelhança desse Ser que
agora tratava de alcançar?
Sua fraqueza consistiu em duvidar de Deus.

82
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Em crer na serpente que Deus era um


mentiroso e egoísta. Como duvidar dos
desígnios e da palavra que escutou dire­
tamente de Deus?
Recorde
As conseqüências experimentou de ime­
diato, já que tão prontos comeram, des­
cobriram que estavam nus.

"Então foram abertos os olhos de ambos, Afraqueza


e conheceram que estavam nus; de Adão
e coseram folhas de figueira, e fizeram consistiu em
para si aventais". (Gênesis 3.7) duvidar de
Deus.

De tudo dito pela serpente o único que


se cumpriu foi que os olhos do primeiro
casal se abriram, conhecendo o bem e o
mal, sendo a vergonha a primeira em
descobrir. A consciência de sua nudez fez
que se sentissem envergonhados, estado
que trataram de, diminuir, abrandar, co­
brindo seus corpos com umas insignifi­
cantes folhas de figueira.
Além da vergonha, o medo se apoderou
deles, escondendo-se de Deus ao escutar
sua voz. Medo! Essa foi a segunda des­
coberta. Tal como havia dito a serpente,
seus olhos foram abertos, mas não se
transformaram em Deus, e além disso
perde seus privilégios de homem.
"E chamou o Senhor Deus a Adão, e
disse-lhe: Onde estás? E ele disse:
Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi,
porque estava nu, e escondi-me".
(Gênesis 3.9,10)

83
Rodolfo Beuttenmiiller

Desde este trágico momento, o homem


se enche de medo, não por estar nu, pois
se escondiam de quem o havia visto as­
sim desde sua criação. Seu verdadeiro
Reflexione
medo é a morte. Pois tão pronto Adão
comeu do fruto proibido, uma estranha
sensação se apoderou dele. Deus o criou
para que vivesse eternamente, mas ele,
perdeu esse privilégio ao rebelar-se con­ Adão se
tra seu Criador; e produzindo sua pró­ transformou
pria tragédia, busca, sem encontrar, uma em um
explicação para seu medo. cadáver,
Uma estranha sensação lhe disse que já ainda que
não era mais o mesmo que antes de co­ continuara
mer do fruto. E assim tinha que ser, pois caminhando
se cumpria a sentença de Deus, que o dia e respirando.
que comesse da árvore morreria. Adão se
transformou em um cadáver, ainda que
continuara caminhando e respirando.
Mas Adão também teme ao diálogo e por
isso se transforma em um ser silencioso.
Se aterra ante a idéia de ir a uma conver­
sação com Deus, a quem teria que falar
com toda sinceridade. Sabe que esta nu
e nada pode ocultar. O peso da culpa o
leva a ocultar-se, tratando de confundir-
se em meio da vegetação, um anteparo
muito vulnerável para os olhos de quem
o busca. Logo trata de iludir-lo com a
frágil vestimenta feita de folhas de fi­
gueira, e mais adiante se esconde atrás
de uma desculpa.
Pobre Adão! Fugindo vertinosamente e
tratando de esconder-se de um esconde­

84
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

rijo a outro. Seus olhos foram abertos


somente para ver sua tragédia.
E quando não encontra lugar onde se
ocultar, é encontrado por Deus e o único
que se atreve a dizer é: "Ouvi tua voz e
Não esqueça
me escondi, porque tive medo".
Deus trata de que Adão ponha em claro
sua situação, mas este prefere seguir
ocultando-se, simulando e buscando
desculpas. Quando Deus lhe pergunta se Toda a
comeu da árvore proibida, em vez de criação
responder afirmativamente, se descul­ sofreu a
pa, pondo a culpa em sua mulher. conseqüência
da fraqueza
"A mulher que me deste por companheira, de Adão.
ela me deu da árvore, e comi". (Gênesis 3.12)

Ainda que essa era a verdade, Deus queria


a total franqueza de Adão, mas ele nada
disse da serpente, o que faz é seguir escon­
dendo-se inutilmente, pois nem as descul­
pas, nem as frágeis vestimentas de folhas
de figueira podiam ocultar sua tragédia.
Não obstante, Deus suaviza um pouco a
tragédia provocada pela fraqueza deste
homem, não o deixa só, se situa a seu lado,
o compreende e trata de ajuda-lo.

A maldição cósmica

A tragédia de Adão não se limitou so­


mente a ele, pois toda a criação sofreu a
conseqüência de sua fraqueza.

85
Rodolfo Beiittenmiiller

"Maldita é a terra por tua causa".


(Gênesis 3.17)

Tudo se transtornou por causa dessa de­


cisão errada de nosso primeiro pai. Os Regozije-se
grandes males que padece o homem se
deve ao engano satânico do qual Adão
foi vítima. Assim diz o apóstolo Paulo
em sua carta aos Romanos:
Mesmo
com sim
"Pelo que, como por um homem entrou o
fraqueza...
pecado no mundo, e pelo pecado a morte,
Adão... é
assim também a morte passou a todos
usado por
os homens por isso que todos pecaram. ”
Deus para
(Romanos 5.12)
enchera
terra.
O belo jardim do Éden, lugar criado por
Deus para estabelecer suas primeiras
criaturas humanas, onde nada faltava,
existindo além disso, uma perfeita har­
monia entre Deus e o casal Adão e Eva,
teve que ser fechado e nossos primeiros
pais expulsos.
Não obstante, Deus não destruiu nem a
Adão, nem a Eva. Os expulsou do Éden,
mas os permitiu que desfrutassem do
resto da criação.
Com toda sua fraqueza, Adão foi utiliza­
do por Deus para encher a terra. Depois
da desgraça produzida pela morte de
Abel, pelas mãos de seu irmão Caím (Gê­
nesis 4.1-16), Adão e Eva tiveram seu
terceiro filho, Sete e deste nasceu Enos e
a partir de então, os homem começaram
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

a invocar ao nome de Jeová (Gênesis 4.25,26).


Então, que diremos disto? O primeiro homem, desenha­
do e criado por Deus à sua imagem e semelhança, é
levado por sua fraqueza a aceitar a insinuação de Sata­
nás.
Mesmo com sua fraqueza e posterior fracasso, Adão é o
pai da raça humana, e é usado por Deus para encher a
terra.

87
VII
Noé, ojusto e perfeito

“Noé era varão justo e reto em suas


gerações; Noé andava com Deus".
(Gênesis 6.9)

T J ma das mais belas experiências que homem algum


havia vivido é a de Noé. O último dos dez patriarcas
antes do dilúvio, filho de Lameque e neto de Metusala,
teve o privilégio de haver escutado dos lábios de seu avô
toda a história de seu bisavô Enoque, de quem nos diz
a Bíblia que, por seu justo comportamento e sua proxi­
midade com Deus, foi arrebatado para que não passasse
pela morte como os demais mortais.

"E andou Enoque com Deus; e não se viu mais;


porquanto Deus para si o tomou".
(Gênesis 5.24)

89
Rodolfo Beuttenmüller

É natural que um feito como esse, influís­


se sobremaneira em Noé desde sua in­
fância, pois quando os habitantes daque­
le pequeno mundo se corromperam até
o ponto de que Deus não teve outra saída
Recorde
que destruir-los por meio do dilúvio,
arrependendo-se de haver feito o ho­
mem (Gênesis 6.1-7), nos diz:

"Noé porém achou graça aos Noé era


olhos do Senhor". (Gênesis 6.8) diferente dos
demais
homens que
Desse texto tiramos como conclusão que
povoavam a
em meio de uma situação tão má, que
terra.
leva a Deus arrepender-se de haver cria­
do o homem pela corrupção e maldade
na qual haviam caído, encontra um que
era a exceção do comportamento geral.
Noé era diferente dos demais homens
que povoavam a terra.
Desde seu nascimento, se transformou
na esperança de sua família, pois o nome
Noé, posto por seu pai Lameque, sugeria
alívio ante a tristeza e a maldição a qual
estava condenada a terra. Assim mani­
festa o escritor de Gênesis, ao falarmos
do nascimento deste patriarca.

"E viveu Lameque cento e oitenta e dois


anos; e gerou um filho. E chamou o seu
nome Noé, dizendo: Este nos consolará
acerca de nossas obras, e do trabalho de
nossas mãos, por causa da terra que o
Senhor amaldiçoou". (Gênesis 5.28,29)

90
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

O comportamento de Noé e sua atitude ante a vida era


diferente dos homens de seu tempo, de tal maneira que
encontra graça diante de Deus, ou seja, sua vida agrada­
va ao Senhor, graças aos ensinamentos de seu pai Lame-
que e de seu avô Matusala.
Este último havia passado pela experiência de escutar a
seu pai Enoque, e era a maior testemunha do reto camin­
har e do apego às atitudes e da devoção a Deus, desse
singular homem cuja vida tão reta é premiada com a
imortalidade. Muito jovem, Deus decide transladar a
Enoque, sem que passasse pelo transe da morte.
Matusala, viveu em primeiro plano, ou seja, mui próxi­
mo de tudo concernente a vida, conduta e translado de
seu pai, transmitindo a seu filho Lameque, a já aludida
experiência. Daí a crença, ou melhor, a convicção deste,
de que a situação moral e espiritual e o consequente
desagradável comportamento do homem, eram frutos
de uma terra que ainda arrastava a maldição primogê­
nita.
Lameque era consciente de que o pecado de Adão con­
tinuava gravitando sobre seus descendentes, assim
como seu avô Enoque havia vivido uma vida tão agra­
dável a Deus, seu filho Noé, ao fazer o mesmo, poderia
conseguir que o Criador levantasse a maldição que pe­
sava sobre a terra. Por isso disse: "Este nos consolará
acerca de nossas obras, e do trabalho de nossas mãos,
por causa da terra que o Senhor amaldiçoou".
A esperança de Lameque era que Noé, seu filho, tomasse
o exemplo de Enoque que, em contrário de Adão, agra­
dou a Deus, ao caminhar retamente diante dele, e por
isso o exonerou do fatídico decreto de: "Porquanto és pó,
e em pó te tornarás".
Por esse motivo lhe põe o nome de Noé, como esperança
da redenção, confiando em que ele continuaria pelo

91
Rodolfo Beuttenmiiller

caminho traçado por Enoque, e com ele, também agra­


daria Deus.
É lógico supor que, desde mui pequeno, Lameque trans­
mitiria a seu filho a vida agradável a Deus que viveu
Enoque e que nesse labor continuaria com a ajuda de
Matusala, seu pai. Portanto, nós imaginamos a Noé
sentado aos pés de seu avô, o homem de mais larga vida
sobre a terra (viveu 969 anos), escutando todas essas
experiências acumuladas pelos anos e, sobre tudo, o que
viveu ao lado de seu pai Enoque, qual foi a relação deste
com Deus e da maneira como foi transposto para que
não visse a morte.
De maneira que o crescimento de Noé se produz em
meio esse ambiente único e irrepetível, tendo um pai e
um avô que lhe dizem, desde sua mocidade, que ele é a
esperança da redenção do homem e da terra, mas que
para consegui-lo teria que seguir o exemplo de seu
bisavô Enoque.
Por esse motivo Noé, entende perfeitamente que a situa­
ção vivida pelos habitantes da terra, em uma aberta
rebeldia contra Deus, era uma continuidade da primeira
ação da desobediência protagonizada por Adão.
Porém sabia ainda, que em conseqüência desse pecado,
a terra havia sido maldita e que os amargos frutos dessa
maldição ainda estavam sendo colhidos. Mas Noé, não
se limitava ao acabado de ser exposto. Tinha a convicção
de que, não obstante o castigo de Deus pelo pecado do
homem, tudo poderia mudar e que, inclusive, a máxima
pena, ou seja, a morte, seria esquecida se os homens se
comportassem de maneira diferente. Aí tinha o exemplo
de seu bisavô Enoque, com quem Deus atuou de manei­
ra distinta a seu próprio decreto, quando naquele nefas­
to dia disse:

92
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

"No suor do teu rosto comerás o teu pão,


até que te tornes à terra; porque dela foste
tomado; porquanto és pó, e em
pó te tornarás". (Gênesis 3.19)
Reflexione
Lameque, convencido de que ainda que
Deus em sua sentença havia determina­
do que a terra seria maldita por causa do
pecado de Adão, e crendo também que
alguém poderia chegar a agradar ao Jesus...
Criador de tal maneira que conseguiria redimiu ao
que esse decreto fosse revogado e em homem e lhe
conseqüência, se levantaria o castigo que restaurou a
pesava sobre o homem, pôs por nome a vida eterna.
seu filho: Noé, esperançoso que fosse ele,
esse homem, cuja vida agradável a Deus
conseguisse, pelo menos, aliviar esse
castigo.
Ainda que assim parecia, não estava La­
meque divorciado da realidade, pois ain­
da que seu filho conseguiu materializar
sua esperança, muitos séculos depois
apareceu Jesus Cristo e não somente ali­
viou a maldição do pecado de Adão,
como também redimiu ao homem e res­
taurou-lhe a vida eterna.
E assim que ensina o apóstolo Paulo,
quando diz:

"Pois assim como por uma só ofensa veio o


juízo sobre todos os homens para
condenação, assim também por um só ato
de justiça veio a graça sobre todos os
homens para justificação de vida. Porque,

93
Rodolfo Beuttenmüller

como pela desobediência de um só homem,


muitos foram feitos pecadores, assim pela
obediência de um muitos serão feitos justos".
(Romanos 5.18,19)

E escrevendo aos Coríntios acerca da ressurreição lhes


diz:

"Porque, assim como todos morrem em Adão,


assim também todos serão vivificados
em Cristo". (1 Coríntios 15.22)

Noé e Enoque

A vida de Noé, ainda que não foi cópia perfeita de seu


bisavô Enoque, foi semelhante em muitos aspectos, com
a diferença de que, no contexto social no qual teve que
destacar-se foi totalmente distinto. O mundo de Enoque
era ainda pequeno, enquanto que a Noé correspondeu
viver uma explosão demográfica que traz como conse­
qüência a multiplicação dos homens.
Os dois grupos humanos que existiam, ou seja, os de­
scendentes de Caím, e os do terceiro filho de Adão e Eva,
se mesclam, pois os filhos de Deus, atraídos pela formo­
sura das filhas dos homens, as tomou como companhei­
ras (Gênesis 6.1,2).
É lógico que os chamados pelo escritor de Gênesis, como
filhos dos homens, são os descendentes de Caím, pois
desde o dia em que em um arrebatamento de inveja
matou seu irmão Abel, foi expulso do território onde se
haviam instalado Adão e Eva; originando-se, não muito
distante dali, outro grupo familiar, o qual crescia para­

94
Diga o fraco: «/Em s o u forte!»

lelamente aos descendentes de Sete, terceiro filho de


Adão e Eva.
Porém como os filhos de Caím não viviam conforme os
cânones divinos, mas davam rédea solta a seus instintos
carnais e mundanos, eram considerados como filhos dos
homens.
Pelo contrário, os filhos de Sete, começando pelo primei­
ro, Enos, começaram a invocar o nome de Deus (Gênesis
4.26), convencidos de que os males que padeciam eram
conseqüências do pecado do pai Adão, pelo que trata­
ram de imendar este mal, deixando ser conduzidos por
Deus.
Passado o tempo, os descendentes das duas vertentes de
Adão, se uniram, formando um só bloco ou grupo social.
Foi então quando se produziu a maior rebeldia contra
Deus, o que trouxe como conseqüência a crise do dilú­
vio.
Nesse contexto de decomposição social, se desenrolava
a vida de Noé e, ao dizer-nos Gênesis 6.8 que achou
graça diante dos olhos de Deus, é lógico concluir que
pode preservar-se da influência maligna imperante na­
queles dias.
Era tal o grau de maldade e degeneração, que a única
saída viável encontrada por Deus foi o extermínio da
raça.

"Então disse o Senhor: não contenderá o meu


Espírito para sempre com o homem; porque ele
também é carne; porém os seus dias serão
cento e vinte anos". (Gênesis 6.3)

O decreto de Deus, requeria um tempo antes de execu­


tar-se. Ainda que a maldade era muita e, todo desígnio
do pensamento e do coração do homem era continua­

95
Rodolfo Beuttenmüller

mente ao mal, tanto que até arrepende-se Deus de haver


criado o homem na terra e de sentir dor em seu coração
(Gênesis 6.5,6), não atuou de uma maneira desbocada,
ainda teve paciência e esperou cento e vinte anos, depois
dos quais, decidiu executar a sentença que dizia:

"Destruirei, de sobre a face da terra, o homem que


criei, desde o homem até ao animal, até ao réptil,
e até à ave dos céus; porque me arrependo
de os haver feito". (Gênesis 6.7)

Quão grande era sua desilusão! Chega a sentir dor em


seu coração e até a arrepender-se de haver criado o
homem. Adão se deixa seduzir, crendo mais em uma
serpente que nele. Não obstante essa ofensa, concede ao
primeiro casal a oportunidade de sobreviver, e dos dois
primeiros filhos, um mata ao outro. Ou seja, Deus tem
que passar pela triste experiência de ver a um de seus
netos morto e expulsar o outro condenando-lhe a andar
errante e solitário pela terra.
Porém sua bondade não tem limite, e por isso, dá a Caím
a oportunidade de levantar uma cidade e formar um
povo, e aos filhos de Sete, terceiro filho de Adão, concede
que se multipliquem.
Porém quando ambos grupos crescem e se multiplicam,
se unem e se rebelam contra Ele. E aí quando Deus pensa
que não vale a pena seguir lutando com o homem, e
então diz: "Não contenderá o meu Espírito para sempre
com o homem; e decide exterminá-los.
Se havia perdido o trabalho de Deus? Havia sido em vão
sua invenção? Que restaria daquele primeiro projeto?
Que sucedeu com esse homem criado a imagem e semel­
hança sua? Não ficaria algo resgatável?

96
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Ainda restava Noé

Deus, depois de reflexionar sobre todas estas interroga­


ções, descobre que nem tudo estava perdido. Pelo me­
nos restava um homem que a maldade e a corrupção não
haviam contaminado e mantinha uma vida de acordo
com suas aspirações. Era o filho de Lameque.

"Noé porém achou graça aos olhos do Senhor".


(Gênesis 6.8)

Ainda nos é dito dele:

"Noé era varão justo e reto em suas gerações;


Noé andava com Deus". (Gênesis 6.9)

Em primeiro lugar, nos é dito que este homem era


justo; e em segundo lugar, que era perfeito; e a isto se
acrescenta que caminhou com Deus. Ou seja, utiliza o
mesmo termo empregado para referir-se ao compor­
tamento de Enoque. Por "andava com Deus" se enten­
de que todas suas ações se embarcavam dentro da
vontade e desígnio de Deus. Caminharam pela senda
traçada pelo Criador!
Por essa razão, quando viu a terra cheia de violência,
corrompida e dominada pela maldade, fala com o único
resgatável que ainda restava dizendo:

"O fim de toda a carne é vindo perante a minha face;


porque a terra está cheia de violência;
e eis que os desfarei com a terra".
(Gênesis 6.13)

97
Rodolfo Beuttenmüller

Com sua decisão tomada, antes de executá-la, chama a


Noé e não somente informa sua drástica determinação,
como estabelece um pacto com ele e lhe dá as instruções
para que edifique uma arca na qual refugie-se com toda
sua família, pois a destruição da terra se levaria a cabo
através do dilúvio (Gênesis 6.22).

"Assim fez Noé; conforme a tudo o que Deus


lhe mandou, assim o fe z ”. (Gênesis 6.22)

Quando tudo estava pronto para executar a sentença,


Deus ordena a Noé que entre na arca, juntamente com
toda sua família e os pares de animais de diferentes
espécies (Gênesis 7.1-21). As portas da arca se cerraram
e começou o dilúvio que se estendeu por quarenta dias,
inundando toda a terra e matando a todos os seu habi­
tantes.

"Tudo o que tinha fôlego de espírito de vida


em seus narizes, tudo o que havia no seco,
morreu. Assim foi desfeita toda a substância
que havia sobre a face da terra, desde o homem
até ao animal, até ao réptil, e até a ave dos céus;
e foram extintos da terra; e ficou somente Noé,
e os que com ele estavam na arca".
(Gênesis 7.22,23)

Que grande diferença

São mui poucos os homens com experiências similares


à de Noé. Educados por seus pais no conhecimento de
Deus. Com uma plena consciência de qual era a causa

98
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

da tragédia humana. Escutando, desde sua mocidade,


tudo o concernente à vida de seu bisavô Enoque, que
agradou a Deus tanto que este não permitiu que visse a
morte e o levou. Logo, em meio a uma degeneração total,
uma maldade asfixiante, uma corrupção coletiva e um
estado de violência insuportável, Deus decide extermi­
nar toda a raça humana, porém antes o exonera, e o deixa
na terra como base de um novo mundo.
Lhe entrega um desenho para que construa uma arca e
se refugie ali com sua família e com animais de diversas
espécies, e logo desata um dilúvio arrasador.
Como se sentiria Noé ao sair da arca e encontrar uma
terra vazia? Como enfrentaria a responsabilidade de
repovoar a terra? O primeiro que fez foi dar graças a
Deus pelo privilégio concedido a ele.

"E edificou Noé um altar ao Senhor; e tomou


de todo o animal limpo, e de toda a ave limpa,
e ofereceu holocaustos sobre o altar".
(Gênesis 8.20)

A atitude de agradecimento de Noé, agradou a Deus,


quem ao perceber o grata oferta se sentiu tão satisfeito
que determinou não voltar a maldizer a terra por causa
do homem (Gênesis 8.21,22).

"E abençoou Deus a Noé e a seus filhos,


e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos,
e enchei a terra". (Gênesis 9.1)

E da mesma maneira que, no princípio, havia entregado


o universo a Adão, agora entregava a terra a Noé para
que cuidasse, frutificasse, se alimentasse dos animais,
das aves e dos peixes.

99
Rodolfo BeuttenmiXller

Tudo entregava nas mãos deste homem justo e perfeito


(Gênesis 9.1-17). Aparte dessa grande autoridade, esta­
belece com ele um pacto, comprometendo-se a não ex­
terminar o homem nem a terra por meio de dilúvios.
Com Noé, a harmonia regressa a terra, e a repovoamento
do universo se inicia com ele e seus três filhos.

A fraqueza de Noé

Não obstante as qualidades, experiências vividas e es­


treita relação com Deus, este homem justo e perfeito, a
quem o Criador entrega o universo para que reinicie um
novo mundo, não tardou muito tempo em manifestar
sua fraqueza.
Havendo iniciado o labor de cultivar a terra, Noé plan­
tou uma vinha e de seu fruto elaborava vinho. O fez tão
bom que se excedeu consumindo-o e embriagou de tal
forma que até se põe nu (Gênesis 9.20,21). Em meio de
seu disparate, nu em sua tenda, Cão, um de seus filhos,
o vê e avisa a seus irmãos Sem e Jafé, os quais tomando
a roupa do pai, caminhando de costas viradas para não
ver a nudez do patriarca, o cobrem. Porém o dano já
estava feito e em conseqüência veio a maldição de seu
neto Canaã, filho de Cão.
Que vergonha! O justo e perfeito, ao que Deus falava, o
que agradava ao Criador, que conhecia o propósito di­
vino de exterminar o homem; o que era preservado por
Deus por ser diferente e a quem, além do mais, entregou
a terra para que a dominasse, a esse personagem que
parecia tão adequado, não lhe ocorre outra coisa que
semear uma vinha e com o fruto dela dar um disparate
tão grande que o leva até a perder a razão.

100
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Porém em contraposição à fraqueza de


Noé, encontramos o amor e a grandeza
de Deus, pois nada nos diz a Bíblia de Regozije-se
castigo, censura a crítica ao patriarca, e
Noé continuou conduzindo o universo,
mesmo com sua fraqueza pelo vinho e A fraqueza
de Noé não
por haver passado a vergonha de ser
visto nu pelo seu filho Cão. reduziu a
capacidade
Sua fraqueza não reduziu a capacidade
de perdão de
de perdão de Deus nem sua aceitação
Deus.
ante Ele.

101
VIII
Abraão e sua amizade
com Deus

"E disse o Senhor: Ocultarei eu a


Abraão o que faço...?"
(Gênesis 18.17)

P
M. ara muitos intérpretes, Abraao é um dos homens
que mais perto esteve de Deus. Este singular persona­
gem, conhecido como o pai da fé, sai desde Ur dos
Caldeus, levado por seu pai Terá, com o propósito de
chegar à terra de Canaã, mas a caravana na qual vão se
detém na metade do caminho em um lugar chamado
Harã.
Depois de um tempo morre seu pai (Gênesis 11.29-32) e
é quando Deus entra em contato com este homem, e
através dos anos sustenta uma bela amizade com ele.

103
Rodolfo Beuttenmüller

"Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra,


e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra
que eu te mostrarei. Efar-te-ei uma grande nação,
e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome e tú
serás uma bênção. E abençoarei os que te
abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem;
e em ti serão benditas todas as famílias da terra.
Assim partiu Abrão, como o Senhor lhe tinha dito".
(Gênesis 12.1-4)

Abraão vivia tranqüilo, com a comodidade necessária.


Dispunha de bens e pessoas a seu serviço. Gozava de
prestígio e estabilidade para viver em Harã o resto de
sua vida sem sobressaltos nem apuros. Porém uma voz,
que pode reconhecer como a voz de Deus, lhe disse que
deixasse sua comodidade, sua terra e sua família e saísse
ao que se poderia considerar como uma aventura. Assim
manifesta Paulo quando disse:

"O qual, em esperança, creu contra a esperança


que seria feito pai de muitas nações, conforme
o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência".
(Romanos 4.18)

Do ponto de vista humano ou natural, a atitude de


Abraão poderia catalogar-se como uma loucura. Deixar
o lugar de sua habitação e sair até o desconhecido, tendo
como guia uma voz que cria ser a de Deus.
Saiu crendo na promessa de que teria uma descendência
mui grande, sendo ele, velho e Sara, sua mulher, estéril.
Mas estas realidades não conseguiram desanimá-lo,
pelo contrário, fortalece sua fé e glorifica a Deus, plena­
mente convencido de que aquele que lhe havia falado

104
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

era suficientemente poderoso para cum­


prir o que lhe havia prometido (Roma­
nos 4. 19-21).
Ainda que sai sem rumo fixo, depois de
uma larga caminhada, chega com os seus
Recorde
na terra de Canaã, logo ao passar por
Siquém e chegar ao carvalho de Moré.
Deus lhe aparece e novamente lhe diz:

“À tua semente darei esta terra". O patriarca


(Gênesis 12.7) (Abraão)
marca seu
Naquele lugar, onde acontece o reencon­ caminho
tro com quem lhe havia dito que saísse edificando
de sua terra, Abraão edifica um altar. altares a
Logo prossegue a um monte ao oriente Jeová.
de Betei, e novamente edifica um altar a
Jeová e invoca seu nome. E assim o pa­
triarca marca seu caminho edificando al­
tares a Jeová.
Abraão, permite que Deus ocupe o cen­
tro ou núcleo de seu ser e mantém um
contato permanente com Ele por onde
quer que vá. E uma relação estreita entre
dois grandes amigos. Por essa razão,
Deus sempre estava disposto a intervir
para defender a Abraão em qualquer cir­
cunstância.

Abraão no Egito

Mas depois de um tempo desfrutando


uma relação tão íntima, se manifesta a

105
Rodolfo Beuttenmiiller

fraqueza do amigo de Deus. Perseguido pelo homem,


Abraão decide emigrar ao Egito, e antes de entrar ali, se
detém, olha sua mulher e ao perceber que era muito
formosa, pensa que os egípcios se apaixonariam por ela
e, para tê-la, seriam capazes até de matá-lo.
Então, sem pensar mais, diz a sua mulher:

"Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me


vá bem por tua causa, e que viva a minha alma
por amor de ti". (Gênesis 12.18,19)

Que barbaridade! O amigo de Deus desprendendo-se de


sua mulher para salvar sua vida. De maneira premedi­
tada inventa uma mentira, e entrega a sua mulher para
não correr o risco de que algo mal lhe sucederia. Será
que o chamado pai de nossa fé não podia crer que Deus
poderia protegê-lo de qualquer perigo?
Abraão se assustou, o medo se apoderou dele e o único
que lhe ocorreu foi deixar que lhe tomassem a mulher e
que lhe tratassem como cunhado. "Dize que és minha
irmã para que me vá bem por tua causa".
E tal como pensou, sucedeu (Gênesis 12.14,15). Nem
bem entraram no Egito, a beleza de Sara chamou a
atenção e a notícia chegou aos ouvidos de Faraó, quem,
sem perder tempo, ordenou que fosse levada a sua casa,
enquanto que Abraão, recebia ovelhas, vacas, asnos,
servos e camelos, tudo isso em troca de uma irmã tão
bela. Abraão, de simples emigrante, passou a ser o cun­
hado de Faraó, e como tal, gozava de todos os privilé­
gios.
Desfrutando de todos os privilégios que correspondiam
a um cunhado de do monarca, um dia a tranqüilidade
do amigo de Deus e pai de nossa fé, se interrompeu ao

106
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

ser chamado por Faraó, e ao chegar ali é que se informa


do motivo pelo qual foi chamado.
O rei, sem muito protocolo, não o recebe de mui boa
maneira.

"Que é isto que me fizeste? Por que não me


disseste que ela era tua mulher Por que disseste:
E minha irmã? De maneira que a houvera
tomado por minha mulher; agora, pois,
eis aqui tua mulher; toma-a e vai-te".
(Gênesis 12.18,19)

Com estas perguntas recebeu o rei a nosso pai Abraão,


já que ao tomar a Sarai como mulher, crendo que era
irmã do patriarca, Faraó se dispôs a iniciar as normais
relações maritais, mas não pôde. Uma inesperada praga,
atingiu seu solo, e também sua casa. Ao indagar qual
seria a causa do castigo enviado por Deus, descobre que
a bela mulher que está a ponto de possuir, pertencia a
Abraão. O conto de que Sarai era sua irmã, não foi mais
que uma mentira de Abraão inventada por medo.
Com sua mulher, seu sobrinho Ló, todos seus criados e
também pertences, os quais eram muitos, já que Abraão
era imensamente rico, é expulso do Egito e regressa ao
lugar de onde havia saído fugindo de homem.
Porém o mais significativo desta história é a atitude de
Deus. Em nenhum momento critica a seu amigo, nem
tão pouco o castiga ou censura, menos ainda, se arre­
pende de tê-lo chamado. Com tudo e seu ato de covar­
dia, mentira premeditada, entrega da mulher, de sorte
que Deus tem que intervir para impedir que Faraó a
acrescente a seu harém, Abraão segue sendo amigo de
Deus.

107
Rodolfo Beuttenmüller

Este homem fraco, em vez de ser censu­


rado ou castigado, recebe de Deus a con­
firmação e ampliação da promessa quan­
do lhe diz:
Reflexione
"Levanta agora os teus olhos, e olha desde o
lugar onde estás, para a banda do Norte, e
do Sul, e do Oriente, e do Ocidente; porque
toda esta terra que vês, te hei de dar a ti, e a
tua semente, para sempre. E farei a tua se­ Deus usa a
mente como o pó da terra; de maneira que quem Ele
se alguém puder contar o pó da terra, quer. Você
também a tua semente será contada". deseja ser
(Gênesis 13.14-16) usado por
Deus?
Se grande é a promessa e maior ainda é
quem a está fazendo, o surpreendente é
a quem se faz. O Deus Todo-Poderoso
falando a um homem cuja fragilidade
acaba de manifestar mentindo, fugindo
e entregando sua mulher a um pagão
malvado sem importar a sorte que ela
correria ou a o que seria vista exposta,
afim de não arriscar sua vida e viver
comodavelmente. Deus usa a quem Ele
quer.

O fraco Abraão

Porém a fraqueza de Abraão não se limi­


tou ao feito recém exposto, a manifesta
novamente quando depois de expressar

108
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

a Deus sua tristeza por não ter filho e crê que seria
herdado por seu mordomo, Deus lhe disse:

"Este não será o teu herdeiro; mas aquele


que de tuas entranhas sair, esse será o teu herdeiro.
Então o levou fora, e disse: Olha agora
para os céus, e conta as estrelas, se as pode contar.
E disse-lhe: Assim será a tua semente".
(Gênesis 15.4,5)

Mas como Sarai era estéril, pensaram que a maneira


como poderia se cumprir essa promessa era tendo filhos
com outra mulher, por tanto, determinaram que entras­
se em contato com Hagar, criada de Sarai, e foi assim
como esta passou a ser mulher de Abraão (Gênesis
16.1-3).
Foi uma decisão apressada, motivada pela falta de fé e
seus frutos foram colhidos imediatamente. Pois ao ficar
Hagar grávida, começaram os problemas com Sarai, já
que a criada a olhava com desprezo. Os problemas
chegaram a tal ponto que a própria Sarai expulsou sua
criada Hagar (Gênesis 16.4-14).
Uma fraqueza compartilhada entre Abraão e sua mulher
provoca um novo problema. Pois Hagar grávida, pres­
sionada por Sara se vê obrigada a fugir. E em meio a essa
circunstância que nasce Ismael, primeiro filho de
Abraão.
E os problemas causados pela fraqueza de Abraão se­
guem acontecendo. Vivendo como forasteiro em Gerar,
apela ao mesmo conto de apresentar a Sarai como sua
irmã.
"E havendo Abraão dito de Sara sua mulher:
E minha irmã, enviou Abimeleque, rei de Gerar,
e tomou a Sara". (Gênesis 20.2)

109
Rodolfo Beuttenmiiller

E novamente Deus tem que intervir para impedir que


Sara se transforme em mulher de outro homem, pois
quando Abimeleque se preparava para deitar-se com
ela, o Senhor lhe aparece em sonho e lhe diz:

"Eis que morto és por causa da mulher que tomaste;


porque ela está casada com marido". (Gênesis 20.3)

Nenhuma culpa tinha o pobre Abimeleque por tomar a


Sara, pois foi seu marido Abraão quem praticamente a
entregou ao dizer que era sua irmã; e ainda que assim
reconhece Deus, recalcou ao rei:

"Agora pois restitui a mulher ao seu marido,


porque profeta é, e rogará por ti, para que vivas;
porém se não lha restituíres, sabe que certamente
morrerás, tu e tudo o que é teu".
(Gênesis 20.7)

Abraão o profeta

A intervenção de Deus para impedir que Sara se trans­


forme em mulher de Abimeleque foi firme, determinan­
te e com ameaça de morte, não obstante admitir que
nenhuma culpa tinha o rei; assim manifesta ao dizer-lhe:

"Bem sei eu que na sinceridade do teu coração


fizeste isto; e também eu te tenho impedido
de pecar contra mim; por isso te não
permiti tocá-la". (Gênesis 20.6)

110
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Ainda que toda a culpa recaia sobre Abraão, Deus, como


na ocasião anterior, nada lhe censurou. Pelo contrário,
disse a Abimeleque que lhe devolvesse sua mulher, e
pedisse que orasse por ele, porquanto Abraão era profeta.
Agora encontramos que este homem com tanta fraque­
za, capaz de negar e entregar sua mulher, é um profeta.
É a primeira vez que esta designação se aplica a alguém
nas Escrituras. Daí a pergunta: O que é um profeta?
Ainda que muitos consideram como profeta a quem faz
predições, o profeta é um receptor e/ou portador de
uma mensagem de Deus. Essa mensagem, se considera­
va como uma profecia, independentemente de seu cará­
ter específico, já que se tratasse de uma verdade impor­
tante, transmitir um dever inescusável, ou a predição de
algum acontecimento futuro.
Abraão, não era em si um mensageiro que se deslocava
de um lugar a outro transmitindo uma comunicação da
parte de Deus ou fazendo predições acerca de fatos
futuros, mas sim, havia sido elevado a um lugar de
amizade com Deus. Gozava de um enorme privilégio,
como o de ter contato e intercâmbio com as coisas celes­
tiais.
Era tal o grau de amizade e confiança que, quando Deus
determina consumir com fogo a Sodoma e Gomorra,
Abraão ia acompanhado dos dois varões encarregados
de executar a sentença; e Deus lhe diz:

"Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que


Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa
nação, e nele serão benditas todas as nações
da terra?" (Gênesis 18.17,18)

E como que nada oculto tinha Deus para seu amigo


Abraão e, por esse motivo, não tinha nenhuma dificul­

111
Rodolfo Beuttenmüller

dade em explicar-lhe o que faria com Sodoma e a razão


pela qual o fazia (Gênesis 18.20). Abraão intercedeu
diante de Deus pelos justos que viviam em Sodoma e
Gomorra, mas na realidade não havia nenhum. Foi uma
conversa entre os dois grandes amigos, ao final da qual
Deus desaparece e Abraão regressa a seu lugar (Gênesis
18.23-33).
A sentença foi executada, derramando Deus uma chuva
de fogo e enxofre, destruindo as duas cidades. Mas antes
que isso acontecesse, dois anjos chegaram a Sodoma
com a missão expressa de tirar Ló e sua família. Nada
podia acontecer até que ló não saísse da cidade. Por essa
razão os dois anjos lhe disseram:

"Apressa-te, escapa-te para ali; porque nada poderei


fazer, enquanto não tiveres ali chegado. Por isso
se chamou o nome da cidade Zoar. Saiu o sol sobre
a terra, quando ló entrou em Zoar". (Gênesis 19.22,23)

Entrando ló na pequena cidade de refúgio, o fogo de


Deus foi derramado sobre Sodoma e Gomorra, destruin­
do-as em sua totalidade.
Qual foi a razão pela qual Deus deteve seu juízo, execu­
tando somente quando Ló estava a salvo e seguro em
uma pequena cidade?
Eis aqui a resposta:

"E aconteceu que, destruindo Deus as cidades da


campina, Deus se lembrou de Abraão, e tirou a
Ló do meio da destruição derribando aquelas
cidades em que Ló habitara". (Gênesis 19.29)

De modo que Deus não somente impediu que a mulher


de Abraão fosse tomada, primeiro por Faraó e logo por

112
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

Abimeleque; agora, antes de destruir


duas cidades corrompidas extremamen­
te, percebe que ali habitava o sobrinho
de seu amigo, e retarda o juízo até que Ló
seja tirado e estivesse a salvo e seguro.
Recorde
De maneira que Abraão foi considerado
como amigo de Deus por seu contato
permanente com Ele, sustentando largas
conversas e com o privilégio de inteirar-
se dos propósitos e dos desígnios do Cria­ Temos
dor, o qual saía em sua defesa, mesmo acesso à
consciente dos erros cometidos por ele. presença de
Abraão foi um privilegiado, teve acesso Deus como a
à presença de Deus como mui poucos teve Abraão.
homens o haviam tido.
Não obstante, sua fraqueza foi uma cons­
tante em todo o tempo de sua vida. En­
tão: Onde residia seu poder e sua gran­
deza? Precisamente em sua fraqueza.
Abraão era semelhante a um fraco cor­
deiro a quem Deus cuidava e do qual
estava pendente constantemente. Por
isso disse:

"Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo,


o teu grandíssimo galardão".
(Gênesis 15.1)

Em Abraão encontramos uma clara evi­


dência da fortaleza baseada na fraqueza.
Mesmo mantendo uma relação íntima
com Jeová, sempre sucumbia ante a fra­
queza de sua condição humana.

113
IX
Moisés
"Então disse o Senhor a Moisés: Eis que te
tenho posto por Deus sobre Faraó, e Arão,
teu irmão, será o teu profeta".
(rZBviocic ~7 7 )

J L j is aqui um homem excepcional. Dos nascidos de


mulher, mui poucos têm tido os privilégios que ele teve.
Sua relação com Deus foi algo sem comparação na his­
tória da humanidade.
Não obstante, poderíamos encontrar em Moisés algum
ponto fraco? Induvidavelmente sim. Sua vida, ainda que
maravilhosa, nunca esteve isenta de fraquezas.
Moisés, nasce em um contexto social muito complexo.
Os filhos de Israel, haviam emigrado ao Egito, quando
um deles, José, governava naquela nação. Cresceram, se
multiplicaram e prosperaram, e o que no princípio foi
um grupo familiar, se transformou em um povo.

115
Rodolfo Beuttenmüller

Enquanto José governou, tudo marcha­


va perfeitamente, mas ao morrer e surgir
posteriormente, um novo monarca, as
coisas foram dificultando para o povo de
Israel (Êxodo 1).
Recorde
Temerosos de uma revolta dentro de seu
próprio território, o rei do Egito, tratou
de frear o crescimento dos israelitas, che­
gando ao extremo de decretar a morte de
todos os varões que nascessem entre A
eles. providência
Nessa situação é que nasce, de um casal de Deus se
da tribo de Levi, um filho chamado Moi­ manifesta no
sés; ao vê-lo a mãe, e considerar sua be­ impossível.
leza como algo excepcional, trata de im­
pedir sua morte e o esconde. Passados
uns meses, sem nenhuma outra opção, o
põe em uma arca de junco calafeteada
com asfalto e breu, e o coloca no rio
(Êxodo 2.1-3).
Desde esse momento Deus começa a
protegê-lo, pois o menino é encontrado
pela filha de Faraó, que ao descobrir sua
procedência, ou seja, que era dos filhos
dos hebreus, teve compaixão dele e o
recolheu, já que chorava insistentemen­
te.
A providência de Deus se manifesta no
impossível.
Uma vez que a filha de Faraó recolhe a
Moisés, aceita a proposta da menina que
o havia posto no rio (a qual era irmã de
Moisés), que o havia seguido até o mo­
mento de seu resgate, e chamou a uma
mulher hebréia para que lhe servisse

116
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

como ama de leite. A pessoa encarregada de seu cuidado


foi sua própria mãe.
Ao chegar o tempo adequado, foi entregue à filha de
Faraó, quem o adotou e o pôs por nome Moisés, dizendo:
"Porque das águas o tenho tirado" (Êxodo 2.4-10).
Se a história acabasse aí, já seria suficientemente mara­
vilhosa, mas isto é somente o princípio de uma série de
milagres protetores realizados por Deus a favor deste
menino.
Moisés foi criado com o maior cuidado e esmero, como
correspondia ao filho da filha do rei do Egito. Sua edu­
cação esteve a cargo dos melhores mestres da corte. Mas
não obstante a cuidadosa educação recebida, continuava
sendo hebreu, e sentia a dor de seu povo, o qual era
oprimido pelos governantes egípcios. O trabalho lhes
era aumentado de maneira arbitrária e os abusos se
faziam mais freqüentes a cada dia.
Foi assim que um dia, ao visitar seu povo, Moisés não
somente se entristeceu ao ver seus irmãos desempen­
hando as duras tarefas que abusivamente lhes haviam
imposto, como também viu a um egípcio golpear sem
misericórdia a um hebreu e, percebendo de que nin­
guém o olhava, o matou e o enterrou logo na areia
(Êxodo 2.11,12).
Ainda que, aparentemente, o incidente não teve teste­
munhas, não foi assim. Ao dia seguinte, quando tratou
de atuar como árbitro na disputa entre dois israelitas,
se deu conta de que seu homicídio não estava oculto
e, atemorizado pelo que pudesse ocorrer, fugiu, sal­
vando-se, desse modo, da morte, pois já inteirado o rei
do que Moisés havia feito, decidiu matá-lo (Êxodo
2.13-15).

117
Rodolfo Beuttenmüller

A dupla vida de Moisés

É natural que a dupla vida levada por


Moisés o mantivesse angustiado, pois
Reflexione
um grande conflito se desenrolava em
seu interior. Desfrutava de todos os pri­
vilégios como príncipe da corte de Faraó,
seu avô postiço; mas seu sentimento era
como o de um hebreu. E não somente seu Afraqueza
sentimento, pois na realidade era he­ de Moisés o
breu, ainda que vivia em palácio do go­ levou ao
vernante que oprimia ao povo de Israel. fratricídio.
E assim que se desenrola nele uma dupla Aonde a sua
personalidade, produzindo em seu inte­ fraqueza te
rior um choque entre o dever e o senti­ fará chegar?
mento. Tinha que ser fiel ao rei, mas seu
sentimento o compelia a sofrer as pena­
lidades de um povo oprimido. Entre esse
que suportavam a opressão dos gover­
nantes do povo do Egito se encontravam
os familiares de Moisés, ou seja, seus
irmãos e sua verdadeira mãe.
Pobre Moisés, desfrutava das doçúras do
poder opressor e ao mesmo tempo, so­
fria a dor das vítimas desse poder. Sua
fraqueza o leva a atuar de maneira irra­
cional, constituindo-se em juiz, por sua
própria conta, e executando sentença de
morte contra um egípcio que golpeava a
um hebreu.
Seu sentimento prevaleceu ante o respei­
to a seu dever e lealdade. Importava
mais sua condição de israelita que sua
posição de príncipe egípcio.

118
Diga o fraco: «jEu souforte!»

O desencadeamento dessa crise produz a perca de seu


privilégio na corte de Faraó e também o separa de seus
irmãos.

A so lid ã o de m oisés

Agora, despojado de tudo, em uma situação quase simi­


lar à que viveu quando foi posto na arca e depositado
no rio, caminha pelo deserto, sozinho, sem nada para
comer, sem família e sem saber aonde ir. A mão miseri­
cordiosa de Deus o conduz à terra de Midiã. Ali encontra
trabalho, albergue e mulher.
Porém seu trabalho, já não é entre as reluzentes paredes
do palácio de Faraó. Ião pouco desfrutará de uma mãe
que, ainda que não era a verdadeira, o cuidava com
esmero e dedicação; nem de sua corte de aduladores e
servidores, nem sequer poderia mitigar sua consciência,
visitando a seus irmãos hebreus oprimidos. Agora, Moi­
sés é o simples, rude e solitário pastor de ovelhas de seu
sogro.

Uma sarça que arde sem se consum ir

Um homem fraco, produto de sua dupla personalidade;


fugitivo, por causa de um homicídio; queimado pelo sol
e curtido pelas areias do deserto, É o pastor de ovelhas
a quem Deus chama e encomenda a difícil tarefa de tirar
seu povo escravo e conduzi-lo à terra prometida.
Estando no monte Horebe, em seu labor de pastor de
ovelhas de seu sogro, observa uma chama de fogo em
meio de uma sarça, a qual ardia sem se consumir. Intri­

119
Rodolfo Beuttenmüller

gado, decide indagar o motivo que produzia o fogo


contínuo da sarça (Exodo 3.1-3). Mas ao dar os primeiros
passos, é detido por uma potente voz que o chama por
seu nome:

"Moisés, Moisés. E ele disse: Eis-me aqui". (Êxodo 3.4)

Se detém e sem dar um passo, ainda olhando a sarça que


arde sem se queimar, continua escutando a voz que o
tem chamado por seu nome, dizendo-lhe:

"Não te chegues para cá; tira os teus sapatos


de teus pés; porque o lugar em que tu estás
é terra santa". (Êxodo 3.5)

Moisés fica paralisado e, logo em instantes, escuta nova­


mente a voz:

"Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão,


o Deus de Isaque e de Jacó. É Moisés encobriu
o seu rosto, porque temeu olhar para Deus".
(Êxodo 3.6)

A transformação

Agora, o rude pastor de ovelhas, o fraco e fugitivo, o que


havia vivido a dupla vida de príncipe egípcio e escravo
hebreu, recebe a missão de regressar ao Egito, à nação
de onde teve que sair fugindo e, primeiro, convencer ao
povo de Israel de que Deus o havia enviado a libertá-los;
e além disso, enfrentar a Faraó. Atarefa não era fácil, pois
ir aos israelitas e dizer-lhes que Deus lhe havia apareci-

120
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

do e o havia enviado a eles para tirá-los


da escravidão e levá-los a uma terra onde
fluía leite e mel, e que eles aceitassem, era
um empreendimento quase impossível.
O primeiro a duvidar foi o próprio Moi­
Não duvide
sés; pois sua fraqueza o fazia magnificar
sua insuficiência. Se via rechaçado ante­
cipadamente e tinha toda a razão pois,
como reagiriam os filhos de Israel se,
depois de muitos anos regressa dizendo A fraqueza o
que tudo o que havia feito esse tempo era fará
cuidar de ovelhas no monte, e que com magnificar
tudo isso era o enviado de Deus para sua
tirá-los da escravidão? Seriam mui pou­ insuficiência.
cos os que creriam nele.
Porém se acaso tivesse êxito com seus
irmãos, como aparecer ante Faraó e pe­
dir-lhe que, em nome de Deus, deixasse
seu povo ir? É natural que o rei, ainda
que não era o mesmo de quem teve que
fugir, em vez de libertar o povo, o apri­
sionasse. Por esse motivo é que Moisés
se dirige a Deus e como resposta lhe diz:

"Quem sou eu, que vá a Faraó, para que


tires o meu povo (os filhos de Israel) do
Egito". (Êxodo 3.11)

Porém suas dúvidas são aplacadas quan­


do Jeová lhe diz:

"E ele falará por ti ao povo; e acontecerá


que ele te será por boca, e tu lhe serás por
Deus". (Êxodo 4.16)

12 1
Rodolfo Beuttenmüller

Havendo sido convencido, se dispõe a regressar ao Egito


pelo mesmo caminho, por onde anos atrás, havia saído
fugindo daquela nação. Moisés empreende seu regresso,
não como o jovem fugitivo, agora é um hebreu, um
homem maduro e transformado.
Quão grande é Deus! Como se compraz em escolher um
fraco! Pois a quem escolhe para tirar o povo da escravi­
dão não é um vitorioso guerreiro, ambicioso político ou
exitoso e laureado intelectual, dotado de sabedoria.
Não! Chama a um homem fraco, inseguro, conflito e
incrédulo, cheio de dúvidas e tão seguro de sua insufi­
ciência que diz não saber nem expressar-se.
Esse é o homem que chega ao Egito. Um libertador que
não crê nem mesmo em si, mas chega; e o mais impor­
tante é que DEUS chega com ele. Moisés é um simples e
insignificante estojo sem brilho nem vistosidade. Toda a
grandeza está no tesouro que leva dentro. Seu aspecto
continua sendo o de um pastor de ovelhas. Até carrega
sua mesma vara. Porém já não é o mesmo que saiu do
Egito nem tão pouco o que por vários anos cuidou das
ovelhas de seu sogro, agora é um depósito do poder de
Deus, uma fortaleza divina.
Faz sua entrada no Egito para cumprir sua missão de
tirar o povo de Israel e levá-lo à terra que Deus prometeu
dar à descendência de seu amigo Abraão com sua única
arma, sua vara de pastor. Não é acompanhado por um
exército nem por gente a cavalo, pois não necessita outra
coisa além de sua VARA e da companhia de Deus que o
falou e enviou. Não era ele quem tiraria o povo, ele era
um simples instrumento através do qual Deus atuaria.
O primeiro obstáculo é superado quando, ao reunir-se
com seu povo e mostrar-lhes os sinais que evidenciavam
a autenticidade de sua missão, este creu que Deus, real­
mente, o havia enviado.

122
Diga o fraco: «/Em sou forte!»

Moisés o libertador

Revestido da autoridade divina e convencido de que


Deus está a seu lado, inicia sua missão libertadora,
apresentando-se diante de Faraó. Não se assusta ante a
reação negativa do rei, pois Deus lhe havia antecipado
que endureceria o coração do monarca (Êxodo 4.21), mas
que depois, essa dureza cederia paulatinamente quando
começasse a ver os sinais e sofresse o castigo que viria
por meio das pragas.
Moisés, não teria porque desanimar-se, pois atrás dele,
estaria Deus respaldando-lhe em tudo o que fizesse. A
promessa de Deus ia mais além de sua permanência ao
lado de Moisés, pois lhe disse:

"Eis que te tenho posto por Deus sobre Faraó,


e Aarão, teu irmão, será o teu profeta. Tú falarás
tudo o que eu te mandar; e Aarão teu irmão
falará a Faraó, que deixe ir os filhos de Israel
da sua terra". (Êxodo 7.1,2)

Ou seja, agora Moisés, o antigo fugitivo, o pastor de


ovelhas, a quem Deus teve que convencer com sinais
sobrenaturais, a quem teve que destruir todos os argu­
mentos contraditórios; esse fraco e incapaz, agora é
constituído como deus diante de Faraó. Algo assim
como entregar um cheque assinado ou um cartão de
crédito sem limite, para que ponha a quantidade que
necessite. Com razão Paulo, escrevendo aos Romanos,
exclamou:

"O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria,


como da ciência de Deus! Quão insondáveis são

123
Rodolfo Beuttenmüller

os teus juízos, e quão inescrutáveis os


seus caminhos! Porque quem compreendeu
o intento do Senhor? Ou quem fo i seu conselheiro?
Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que
lhe seja recompensado?" (Romanos 11.33-35)

"Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel


que marchem. E tu, levanta a tua vara, e estende
a tua mão sobre o mar, e fende-o, para que os
filhos de Israel passem pelo meio do mar seco".
(Êxodo 14.15,16)

É notório que Deus não intervém. Diz a Moisés que atue.


"Fenda o mar", lhe diz. Por que não lhe disse que Ele o
dividiria? Porque Moisés havia recebido o suficiente
poder quando foi constituído como deus sobre Faraó e
agora somente tinha que atuar. Por isso lhe disse que era
ele (Moisés), quem tinha que dividir o mar.
Ao atuar Moisés, um forte vento oriental dividiu as
águas do mar e os filhos de Israel passaram sobre terra
seca. Ao chegar a outra beira, observam como os carros
e cavalos do exército de Faraó entram do mar, seco por
ordem de Moisés, atrás deles, e agora, ao estender no­
vamente a mão, as águas regressam à sua normalidade,
afogando o exército que os perseguia e destruindo seus
carros e seus cavalos (Êxodo 14.21-28).
Ao outro lado do mar, os filhos de Israel, livres em fim,
puderam interpretar um cântico de vitória e louvor a
Deus.
Porém o realizado por Deus através de Moisés, não se
limitou às pragas do Egito e a proeza do Mar Vermelho,
já que à frente do povo, em sua caminhada até a terra
prometida, tem que vencer muitos obstáculos, o primei-

124
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

ro deles, a falta de água (Êxodo 15.22-27)


e a carência de alimentos (Êxodo 16).
Recorde
Seu contato com Deus foi permanente e
a cada dia mais direto, destacando-se no
A mão de
momento quando recebe as tábuas da lei.
Deus
A relação que existiu entre ele e Deus foi
sempre está
única e inrrepetível.
com seus
filhos.

125
X

O rei Davi
"Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos,
a lua e as estrelas que preparaste; que é o homem
mortal para que te lembres dele? e o filho do homem,
para que o visites? Contudo, pouco menor o fizeste
do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste".
(Salmos 8.3-5)

A perfeição do poder de Deus na fraqueza do homem,


encontra em Davi um de seus melhores representantes.
Pastor de ovelhas, músico e poeta, é mencionado de
maneira especial, quando Deus, ao rechaçar a Saul, pri­
meiro rei de Israel, envia Samuel à casa de Jessé, em
Belém, para ungir como novo rei a um de seus filhos (1
Samuel 16.1-13).
Ao chegar ali, Jessé apresenta seus filhos diante do
profeta para que este ungisse ao que Deus lhe apontasse,
mas nenhum preenchia os requisitos divinos. Diante da
pergunta de Samuel, se esses eram todos os seus filhos,

127
Rodolfo Beuttenmüller

Jessé lhe responde que o mais novo não


havia sido apresentado, pois se encon­
trava no compo pastoreando as ovelhas,
e sem demora, manda buscá-lo.
Tão pronto fez sua entrada, Jeová disse
Recorde
ao profeta: "Levanta-te, e unge-o, por­
que este mesmo é. Então Samuel tomou
o vaso do azeite, e ungi-o no meio dos
seus irmãos; e desde aquele dia em dian­
te o espírito do Senhor se apoderou de Deus
Davi" (1 Samuel 16.12,13). somente
Foi surpreendente para Jessé que, sendo olha o que há
Davi um menino ainda fraco, fosse o no coração
escolhido sobre os seus demais irmãos, do homem.
homens adornados e corpulentos. O pro­
feta Samuel, conhecedor de Deus desde
sua infância, já havia sido advertido para
que não pusesse os olhos no aspecto ex­
terno, pois Ele, Deus, somente olha o que
há no coração do homem.

Um homem conforme
o coração de Deus

Davi era esse homem a quem se referia


Samuel, quando comunicou a Saul que
Deus o havia deixado porque havia bus­
cado um homem conforme seu coração
(1 Samuel 13.14). Muitos séculos depois,
o apóstolo Paulo, falando aos crentes em
Antioquia acerca de que Jesus Cristo era
descendente de Davi, disse que Deus ha-

128
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

via dado testemunho do salmista, dizendo:

"Achei a Davi filho de Jessé, varão conforme


o meu coração, que executará toda a minha vontade".
(Atos 13.22b)

O homem conforme o coração de Deus, de que falava o


profeta Samuel, não era outro que esse jovem de bom
aspecto, belos olhos e cabelo ruivo; o mais novo dos
filhos de Jessé.
Se Davi preenchia todos os requisitos do coração de
Deus, é natural que nele existisse qualidades e faculda­
des extraordinárias não fáceis de encontrar no comum
dos homens; e o que era que o fazia diferente? Davi era
sensível, humano fiel e extremamente fraco. Seu poder
residia na sua fraqueza.
Mas mesmo com tudo isso e haver sido buscado, encon­
trado e ungido como príncipe de seu povo, continuou
sendo simples e humilde. Era quase impossível que esse
menino ruivo que cuidava das ovelhas de seu pai hou­
vesse sido ungido como rei de Israel.
Porém, mais que rei, era um homem segundo o coração
de Deus.

Davi e Golias

No capítulo 17 de 1 Samuel, nos é narrado a primeira


proeza deste jovem. Muito se é falado do desigual en­
contro entre o gigante e o jovenzinho, destacando o
diferente tamanho, armamento, escudo protetor e a ex­
periência do guerreiro filisteu, ante a insignificância de
seu contendedor; não obstante, o desigual do combate

129
Rodolfo BeuttenmüUer

consistia em que Golias, por maior que


fosse, não era mais que um homem, po­
rém o fraco Davi, tinha atrás de si, todo
o poder de Deus. O poder de Deus se
aperfeiçoava na fraqueza de Davi. Essa
Não esqueça
realidade era desconhecida pelo gigante
e pelos filhos de Israel.
Saul e seu exército, atemorizados e im­
potentes ante o desafio do gigante Go­
lias, suportam toda classe de insultos O poder de
durante quarenta dias. Ninguém se atre­ Deus se
via a enfrentar a esse guerreiro. aperfeiçoa
Davi havia sido enviado por seu pai a na sua
levar algumas coisas a seus irmãos mais fraqueza.
velhos, que formavam parte do atemori­
zado exército de Israel. Ao chegar ao
acampamento, se encontra com o espe­
táculo que por quarenta dias se havia
apresentado, onde o guerreiro insultava
e desafiava aos esquadrões de Israel. A
primeira reação de Davi foi perguntar:

"Quem é pois este incircunciso filisteu,


para afrontar os exércitos do Deus vivo?"
(1 Samuel 17.26)

A o inteirar-se do assunto, o pequeno


Davi se apresentou ao rei e disse:

"Não desfaleça o coração de ninguém por


causa dele; teu servo irá, e pelejará contra
este filisteu". (1 Samuel 17.32)

130
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Saul, ante a evidente inferioridade de Davi, trata de


convencê-lo do inútil que resultaria seu intento. Tinha
razão, quando se olhava a questão do ponto de vista
natural. Mandar um menino ao sacrifício, sem nenhuma
possibilidade de êxito, era algo superior a um crime.
Porém nesse momento se descobre em que consistia a
fortaleza desse fraco menino do cabelo ruivo, quando
disse ao rei:

"Teu servo apascentava as ovelhas de seu pai;


e vinha um leão e um urso, e tomava uma ovelha
do rebanho; e eu saí após ele, e o feri, e livrei-a
da sua boca; e levantando-se ele contra mim,
lancei-lhe mão da barba, e o feri, e o matei. Assim
feriu o teu servo o leão como o urso; assim
será este incircunciso filisteu como um deles;
porquanto afrontou os exércitos do Deus vivo".
(1 Samuel 17.34-36)

Logo desta exposição, acrescenta:

"O Senhor me livrou da mão do leão, e da do urso;


ele me livrará da mão deste filisteu".
(1 Samuel 17.37)

Era evidente que a confiança não dependia de sua força


nem de sua habilidade. Dependia do poder de Deus. Por
esse motivo não temia a nada e não conhecia impossibi­
lidade. Sabia que em suas confrontações com leões ou
com ursos não saia vencedor por ser sua força, superior
à dessas feras; era Deus que neutralizava a força do urso
e do leão, e cada golpe seu, ainda que com pequenas
mãos, surtiam um efeito devastador, pois atrás estava
Deus.

131
Rodolfo Beuttenmüller

Por esse motivo deixou a armadura e não quis utilizar a


espada, pois nada disso necessitaria para vencer a Go-
lias. Equipado com seu saco pastoril, cinco pedras recol­
hidas do ribeiro e sua funda, saiu a enfrentar o gigante,
que ao ver este menino que vinha combater com ele, o
desprezou. Pensaria o experimentado guerreiro que se
trataria de uma brincadeira. Porém Davi, falando com
grande segurança lhe disse:

"Tu vens a mim com espada, e com lança,


e com escudo; porém eu venho a ti em nome
do Senhor dos exércitos, o Deus dos exércitos
de Israel, a quem tens afrontado''.
(1 Samuel 17.45)

A desigual peleja foi muito rápida. Uma pedra lançada


com a funda acertou o gigante no centro de sua testa,
fazendo que Golias desfalecesse. Ali imóvel, com uma
pedra cravada na testa, Davi, rapidamente, foi e lhe
cortou a cabeça (1 Samuel 17.49-51).
Logo após esta ressonante vitória, começou a fazer parte
dos combatentes do rei Saul. Foram tantas as vitórias
conseguidas que o rei, ao se ver sobressaído pelo seu
jovem servidor, se encheu de ciúmes e buscou uma
maneira de eliminá-lo fisicamente. Diante desse perigo,
a Davi não ficou outra alternativa que fugir para salvar
sua vida.

Davi o guerrilheiro

Um homem conforme o coração de Deus, buscado e


ungido como rei de Israel, depois de conseguir destaca­

132
Diga o fraco: «/Eu sou forte!»

das vitórias em benefício de seu povo, se vê obrigado a


transformar-se em guerrilheiro.
Davi, agrupa homens desgostosos, endividados e afligi­
dos, e forma com eles um pequeno exército, e vai para o
deserto (1 Samuel 22.2).
Tendo que escapar da perseguição de Saul, Davi e seus
homens deslocam-se de um lugar a outro, sobrevivendo
de qualquer maneira. Não pelejavam por um ideal ou
por causa alguma, lutavam para sustentarem-se, pas­
sando por cima de quem fosse.
Sendo perseguido cada vez mais com os dias, se trans­
ladava ao território dos filisteus, montando seu quartel
general em Siclague, de onde ele e seus 600 foragidos,
invadiam aos gesuritas, gersitas e amalequitas, aos quais
assolavam, deixando sem vida a homens e mulheres e
levando-se ovelhas, vacas, asnos, camelos e até as rou­
pas (1 Samuel 27.8,9).
Onde passavam, deixavam as marcas como de um de­
vastador furacão, pois nada ficava em pé: roubavam,
saqueavam e matavam. Mas apesar de sua vida de
delitos, não perdia sua condição de "VARÃO CONFOR­
ME O CORAÇÃO DE DEUS", em quem repousava o
Espírito de Jeová. Para muitos é possível que isto resulte
em contradição, pois somente têm escutado acerca do
Davi cantor, músico, salmista, profeta e rei, ignorando
que este homem, por muitos anos teve que VIVER do
assalto, do roubo e do saqueamento, e com tudo isso, a
mão protetora de Deus nunca se apartou dele. Por isso
podia dizer: "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará",
porque em meio a suas angústias e sua vida pecaminosa,
sempre estava disposto a consultar Deus, que nunca lhe
negou seu auxílio.

133
Rodolfo Beuttenmüller

Davi o rei

E depois de vários anos andando pelos montes e asso­


lando cidades e povos, finalmente, Davi é proclamado
rei de Judá, pois depois da morte de Saul (1 Samuel
31.1-9), consulta a Jeová e recebe sua aprovação, então
regressa a Judá, e em Hebrom acompanhado de seus
seiscentos foragidos é proclamado rei (2 Samuel 2.1-3).
Seu reinado, como era de se esperar, pois contava com
o total respaldo de Deus, foi exitoso em todos os aspec­
tos. sua vida passada, em nenhum momento influenciou
negativamente nem em seu reinado nem em sua relação
com Deus.
Por sete anos reinou sobre uma parte de Israel, ou seja,
Judá, e logo ao morrer o filho de Saul, que reinava na
outra porção (2 Samuel 4.7), o caminho fica aberto e Davi
é proclamado rei de toda a nação (2 Samuel 5.1-4).
Consolidado seu trono, faz seu primeiro intento trazen­
do a arca de Jeová, sobre a qual se invocava seu nome (2
Samuel 6.1-23).
Depois de vencer alguns inconvenientes, a arca é trazida
à cidade de Davi em meio de júbilo e louvores de todo
o povo. Quem maior regozijo manifestava era o próprio
Davi, marchando diante da multidão e dançando com
todas as suas forças. A festa foi grande e prolongada, até
que a arca foi colocada em uma tenda preparada pelo
rei.
Foi tão grande a alegria manifestada por Davi que uma
de suas mulheres, Mical filha de Saul, ao ver seu marido
brincando e bailando com todas as suas energias, o
menosprezou em seu coração. Por esse motivo, ao che­
gar em casa, Mical o recebeu com uma dura crítica,
dizendo-lhe:

134
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

"Quão honrado fo i o rei de Israel, descobrindo-se


hoje aos olhos das servas de seus servos,
como sem pejo se descobre qualquer dos vadios".
(2 Samuel 6.20)

Era aí, precisamente onde estava a grandeza de Davi. Na


realidade, se sentia como um qualquer diante de Deus,
pois quando era um "dos nada", ou seja, um insignifi­
cante e fraco pastor de ovelhas, Deus pôs seus olhos nele
e o escolheu para que fosse príncipe de Israel.
Por esse motivo, mui pouco lhe importou a crítica de
Mical, já que diante de quem brincava e dançava, era o
Deus Todo-Poderoso.

"Disse porém Davi a Mical: Perante o Senhor


me tenho alegrado. E ainda mais do que isto
me envilecerei, e me humilharei aos meus olhos;
e das servas, de quem falaste, delas serei honrado".
(2 Samuel 6.21b,22)

Nisso constituía sua grande virtude, e por essa razão sua


vida era tão agradável diante de Deus, pois o colocava
sobre todas as coisas. Que importava o conceito da
vaidosa Mical, se Deus via com agrado a atitude de seu
servo; essas criadas as quais se referia sua mulher, eram
vistas por Davi como suas companheiras de júbilo e lou­
vores pelo acontecimento e o significado de trazer a arca.

Deus faz um pacto com Davi

Havendo consolidado seu trono e trazido a arca, Davi


reinava tranqüilo, pois não existiam inimigos que o

135
Rodolfo Beuttenmiiller

perturbavam. O único que o intranqüilizava era que


enquanto habitava comodavelmente em sua casa, a arca
estava entre cortinas. Assim expressa o profeta Natã,
quem lhe disse que fizesse o que sentisse em seu coração
porque Deus estava com ele (2 Samuel 7.1-3).
mas sua inquietude é acalmada quando o mesmo profe­
ta lhe leva uma mensagem da parte de Deus, que depois
de recordar-lhe que a arca sempre havia estado em
barracas, e de sua escolha para que reinasse em Israel,
quando cuidava das ovelhas de seu pai e a maneira em
que o protegeu nas circunstâncias mais difíceis, lhe re­
calcava:

"Efui contigo, por onde quer que foste, e destruí


a teus inimigos diante de ti; efiz para ti um
grande nome, como o nome dos grandes que
há na terra". (2 Samuel 7.9)

A mensagem de Deus era clara, pois mostrava que Davi


não era um oportunista assaltante do trono. Foi escolhi­
do por Deus como príncipe de Israel porque encontrou
nele, qualidades e faculdades únicas, pelo qual conside­
rou que era um homem que satisfazia os anelos de seu
coração.
Mas Deus não se limita a recordar-lhe de onde o havia
tirado, pois acrescenta que, não obstante suas andanças
e sua vida no monte, no deserto e no pequeno povo
filisteu, Ele (Deus) sempre o acompanhou e protegeu,
destruindo a todos os seus inimigos. Seus delitos e
assaltos não impediram a presença permanente de
Deus, nem tão pouco que este lhe desse um nome.
Depois dessa mensagem recordatória, o profeta conti­
nua dizendo-lhe que a casa que ele desejava construir
para Deus, não poderia fazer durante o tempo de seu

136
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

reinado, mas quando seus dias fossem cumpridos, em


de sua linhagem, o qual procederia de suas entranhas,
ou seja, um filho seu, edificaria a casa (2 Samuel 7.12,13).
Com isto, Deus estabelecia um pacto com Davi, mos­
trando-lhe que seu reinado não terminaria com sua
morte, mas que se prolongaria através de sua descen­
dência.

A fraqueza de Davi

Uma mensagem como essa, é natural que produzisse em


um homem tão sensível como Davi, um enorme regozi­
jo, o qual manifestava, dirigindo-se a Deus da seguinte
maneira:

"Quem sou eu, Senhor Jeová, e qual é a minha casa,


que me trouxeste até aqui? E ainda fo i isto pouco
aos teus olhos, Senhor Jeová, senão que também falaste
da casa de teu servo para tempos distantes; e isto
o costume dos homens, ó Senhor Jeová? E que mais te
falará ainda Davi? Pois tu conheces bem a teu servo,
ó Senhor Jeová". (2 Samuel 7.18-20)

Seu reino seguiu estendendo-se e seu nome foi engran­


decido sobremaneira, pois Deus estava com ele. Não
obstante, com todo isso e seus ressonantes triunfos e a
grandeza de seu reinado, a fraqueza continuou como
uma constante em sua vida.
Assim demonstra essa parte tão triste de sua história,
quando ao ver desde seu terraço uma mulher que se
banhava, deixando descoberto todos os seus formosos
encantos, Davi não pôde conter seu desejo, e logo de

137
Rodolfo Beuttenmüller

indagar quem era e, de saber que seu marido se encon­


trava ausente, a manda chamar e sustém relações se­
xuais com ela. Havendo satisfeito seu desejo, regressa
novamente a sua casa como se nada houvesse ocorrido.
Porém, a conseqüência desse momento prazeiroso, a
mulher fica grávida e, é aí quando as coisas começam a
complicar ao rei. Desesperado para encontrar a forma
de ocultar erro, manda buscar o marido de Batseba, o
qual se encontrava no campo de batalha. Davi pensou
que ao regressar, a primeira coisa que faria era visitar a
sua mulher, deitar-se com ela e, dessa maneira, quando
a gravidez se manifestasse coincidiria com o tempo de
sua visita, eliminando assim, qualquer suspeita de que
o filho fosse de outro homem.
Urias, chegou do campo de batalha, e Davi, depois de
escutar os pormenores da situação da guerra que se
livrara, o enviou a sua casa, mas este não se foi, ficou
dormindo com os servos à porta da casa do rei. Todos os
esforços de Davi para conseguir que fosse a sua casa e
dormisse com sua mulher, terminaram em fracasso. En­
tão, dominado por sua fraqueza, o regressou às tropas,
com uma mensagem ao comandante para que o pusesse
em um lugar onde pudesse ser ferido e morresse no
primeiro combate que se efetuasse. E assim aconteceu (2
Samuel 11.1-24).
Morto Urias, o caminho estava livre, pois Batseba, agora
viúva, podia ser tomada por mulher e, quando o menino
nascesse, tudo seria visto como um feito normal.
Como definir semelhante mistura de luxúria, concup-
cência, abuso de poder, adultério e homicídio, em um
homem conforme o coração de Deus?
Porém mesmo a repreensão de Deus através do profeta
Natã (2 Samuel 12.1-10), o castigo que teve que suportar,
os problemas que se precipitaram sobre sua casa, seus
sofrimentos e a morte do menino nascido como fruto de

138
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

seu repudiável ato, Davi seguiu contanto


com a ajuda de Jeová, que o abençoou de
tal maneira, que chegando-se novamen­
te a Batseba, esta concebeu e deu à luz
um filho a quem pôs por nome Salomão,
Regozije-se
e ao qual amou Jeová (2 Samuel 12.24).
Foi precisamente este menino, filho de
Davi e Batseba, quem chegado o tempo,
o substituiu no trono e deu cumprimento
ao pacto que Deus havia estabelecido Deus...
com Davi ao construir este, o templo. consolidou o
A vida de Davi é uma das melhores evi­ reino do
dências que demonstram que o poder de fraco Davi e
Deus se aperfeiçoa na fraqueza do ho­ o premiou.
mem e que, quanto maior for essa fra­
queza, maior será a manifestação de
Deus nele. Ao pequeno e fraco Davi bus­
cou Deus, e ao encontrar-lo disse:

"Achei a Davi... varão conforme o meu


coração". (Atos 13.22)

E em nenhuma parte nos é dito que Deus


se arrependeu de seu sua escolha ou de
sua seleção, pelo contrário, consolidou o
reino do fraco Davi e o premiou, dando-
lhe um filho chamado Salomão, e ainda
mais, sua descendência foi o canal atra­
vés do qual manifestaria à humanidade
o nosso Senhor Jesus Cristo.

139
XI
Oprofeta Elias

"Elias era homem sujeito às mesmas


paixões que nós". (Tiago 5.17a)

í / m dos maiores privilégios recebidos por um ho­


mem é chegar a ser profeta, já que este, é o canal de Deus
para levar sua mensagem aos demais homens. Ainda
que alguns os dividem entre menores e maiores, na
realidade, todos os profetas são iguais do ponto de vista
de sua importância para Deus. É por isso que o apóstolo
Pedro nos disse:

"Porque a profecia nunca fo i produzida por vontade


de homem algum, mas os homens santos de Deus
falaram inspirados pelo Espírito Santo".
(2 Pedro 1.21)

141
Rodolfo Beuttenmüller

Não existe nada tão dignificante como o ministério do


profeta, cujo serviço consistia em manter uma estreita
relação com Deus, de quem recebia uma comunicação,
para que fosse transmitida a um homem, um grupo,
uma cidade ou a toda a nação. Para entender este eleva­
do labor, diríamos que o profeta era um instrumento
através do qual Deus enviava uma mensagem, ou al­
guém que atuava no lugar de Deus.
Como instrumento, tinha que estar em ótimas condições
para que a mensagem transmitida, chegasse a seu des­
tinatário sem nenhuma distorção. Uma flauta, um pia­
no, em trompete, ou qualquer outro instrumento musi­
cal, não emitiria sons sem a ação do artista. Da mesma
maneira, o profeta, não pronunciava palavras de sua
própria colheita, somente falava quando o Espírito San­
to o inspirava. Ou seja, era o Espírito Santo que falava
através dele.
O ofício ou ministério de profeta, não se herdava, nem
se adquiria por meio de alguma recomendação ou no-
meamento, somente se chegava a essa posição quando
Deus o chamava e o ungia.
Daí, a importância dos profetas, cuja dupla função con­
sistia em receber uma mensagem de Deus e transmiti-la
aos homens. O profeta tinha que ser chamado, baseado
em uns parâmetros que somente Deus conhecia, mas
também tinha que gozar de credibilidade entre os ho­
mens, a quem levaria a mensagem recebida.
E nos perguntamos: Estes homens eram perfeitos ou
tinha fraquezas como os demais mortais? Em resposta a
esta pergunta, o apóstolo Tiago, referindo-se a um dos
profetas mais destacados nos diz:
"Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós, e,
orando, pediu que não chovesse, e, por três anos e seis
meses, não choveu sobre a terra". (Tiago 5.17)

142
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Este profeta que, juntamente com Enoque, foram os


únicos seres humanos que não passaram pelo transe da
morte, segundo o que nos diz o apóstolo, estava sujeito
às mesmas paixões que os demais mortais. Não obstan­
te, se diferenciava do homem comum por ser um ho­
mem de fé e de uma vida disponível para Deus. Os
obstáculos que lhe eram apresentados, eram vencidos
não por ele, mas por Deus, que era quem atuava por
meio de Elias.

Elias diante do rei Acabe

O profeta se apresenta ao rei Acabe, quem no momento


reinava sobre Israel e, o fazia mal diante de Deus, como
nenhum dos outros reis que o antecederam, servindo e
adorando Baal e provocando a ira de Deus (1 Reis 16.29-
34) e Elias disse ao rei:

"Vive o Senhor, Deus de Israel, perante cuja


face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva
haverá senão segundo a minha palavra".
(1 Reis 17.1)

Logo depois desta mensagem, se afastou e se escondeu


conforme lhe havia dito Jeová, no ribeiro de Carite, que
estava diante do Jordão. Ali o alimentou o Senhor en­
viando-lhe pão e carne pela manhã e noite, usando como
mensageiros os corvos e tomando água do riacho. Assim
esteve por uns dias até que o riacho secou (1 Reis 17.2-7).
O mais significativo deste milagre de provisão, é o ins­
trumento utilizado por Deus para suprir de alimento ao
profeta. Uns corvos lhe traziam comida!

143
Rodolfo Beuttenmiiller

E aqui voltamos a destacar a grandeza de Deus em


contraste com a insignificância do homem, pois nin­
guém além de Deus podia fazer um milagre como esse:
conseguir carne cozida e impedir que os corvos a comes­
sem. Todas as vezes em que chegavam os corvos e
serviam a comida ao profeta, a mensagem recebida era:
"EU SOU QUEM MANDA ISTO".
Chegado o tempo, o profeta teve que se transportar a
outro lugar, e foi assim que chegou a Sarepta, encontran­
do na porta da cidade, uma viúva recolhendo lenha, a
qual chamou e lhe pediu que trouxesse um pouco de
água, e chamando-a novamente lhe pediu que também
trouxesse um bocado de pão.

Elias e a viúva (1 Reis 17.8-24)

Ante esta última petição, a viúva lhe respondeu que não


tinha pão, pois somente dispunha de um punhado de
farinha e um pouco de azeite, e que precisamente recol­
hia lenha para cozinha-la e comer junto com seu filho.
"Não temas", lhe disse Elias, "vai, faze conforme à tua
palavra; porém faze disso primeiro para mim um bolo
pequeno e traze-mo para fora; depois farás para ti e para
teu filho. Porque assim diz o Senhor Deus de Israel: A
farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não
faltará, até o dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra"
(1 Reis 17.13,14).
Então ela foi e fez como lhe disse Elias e assim comeu
ele, e ela e sua casa muitos dias (1 Reis 17.15).
Aqui, Deus demonstra novamente ao profeta seu poder
protetor, de uma maneira milagrosa, pois em um mo­
mento de grande escassez, provê de suficiente alimento
à casa onde ele é albergado. Foi nessa mesma casa onde

144
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

morreu o único filho desta viúva (1 Reis 17.17-24). Amãe


desesperada, crendo que essa morte era fruto de suas
iniqüidades, se aproxima do profeta e lhe pergunta a
razão da morte de seu filho, a qual ele responde dizendo
que lhe traga o pequeno morto.
Quando ela o traz, ele, clamando a Jeová, diz:

"Ó Senhor meu Deus, rogo-te que torne a alma deste


menino a entrar nele. E o Senhor ouviu a voz de Elias;
e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu".
(1 Reis 17.21,22)

Ao analisar a oração do profeta encontramos que pri­


meiro reclama a Deus por haver afligido o instrumento
através do qual o sustentava. Com sua reclamação de­
monstrava três coisas: que Deus o havia enviado a essa
casa, e que ele pôde impedir a morte do menino.
A segunda conclusão que tiramos da reclamação de Elias
é saber em que consiste a morte, que não é outra coisa
que a separação da alma e do corpo. Ou seja, ao levar
Deus a alma do menino, este morre.
A terceira realidade tirada da reclamação e oração de
Elias é que, como Deus pode levar a alma e deixar o
corpo sem vida, também pode fazer que a alma volte ao
corpo e fazer que este VIVA novamente. E assim suce­
deu, pois Deus, escutando a voz de Elias, repôs a alma
no menino morto e este reviveu.

Elias regressa ao rei (1 Reis 18.1-19)

Passados os dias e havendo-se cumprido a profecia com


uma devastadora seca, o profeta regressa e se apresenta
ao rei de Israel, quem ao vê-lo disse:

145
Rodolfo Beuttenmüller

"És tu o perturbador de Israel? Então disse ele:


Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a casa
de teu pai, porque deixastes os mandamentos do
Senhor, e seguistes a Baalim". (1 Reis 18.1-9)

Depois desta pouca amistosa saudação, Elias diz ao rei


Acabe que congregue a todo o povo no monte Carmelo
e que traga também aos quatrocentos e cinqüenta pro­
fetas de Baal e aos quatrocentos profetas de Asera.
Já congregados ali, Elias lança um desafio a todo o povo
de Israel para que escolhesse entre Deus e os deuses
falsos e para isso se submete a uma prova com os qua­
trocentos e cinqüenta profetas de Baal (1 Reis 18.20-40).
A prova consistia em tomar um bezerro, cortá-lo em
pedaços e colocá-lo sobre a lenha e, sem por-lhe fogo,
orassem e o Deus que respondesse com fogo, esse seria
o Deus.
Os quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal, havendo
aceitado o desafio, prepararam seu bezerro e invocaram
o nome de seu deus. Desde a manhã e, estendendo-se
até o meio-dia, invocavam e nada acontecia. Entretanto,
Elias se dava ao luxo de zombar dos profetas de Baal,
dizendo-lhes que gritassem mais forte porque talvez seu
deus meditava ou dormia.
Porém nem os gritos frenéticos nem o sangue que lhes
corria por seus corpos à causa das feiras das facas e das
lancetas, os saltos e as danças, conseguiram que o fogo
descesse sobre a lenha e queimasse o bezerro ali coloca­
do.
Já vencidos, esgotados, feridos e sem ter conseguido os
resultados que buscavam, tiveram que abandonar e
aceitar que Baal não poderia responder com fogo.
Então Elias pediu ao povo que se aproxima-se e, repa­
rando o altar de Jeová que se encontrava arruinado,

146
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

tomou doze pedras conforme as doze tribos de Israel e


edificou o altar a Jeová.
Logo fez um rego, em redor do altar, segundo a largura
de duas medidas de semente. Preparou a lenha e cortou
o bezerro em pedaços e o pôs sobre a lenha. Para não
deixar dúvidas e magnificar o milagre, mandou encher
quatro cântaros de água e a derramou sobre a lenha. Três
vezes repetiu a operação para que tudo ficasse bem
ensopado de água.
Enquanto Elias fazia isto, o povo ali congregado se
mantinha em expectativa, até que chegou a hora de
oferecer o holocausto. Então, Elias, aproximando-se dis­
se:

"Ó Senhor, Deus de Abraão, de Isaque e de Israel,


manifeste-se hoje que tu és Deus em Israel, e que
eu sou teu servo, e que conforme à tua palavra fiz
todas estas coisas. Responde-me, Senhor, responde-me,
para que este povo conheça que tu, Senhor, és Deus,
e que tu fizeste tornar o seu coração para trás".
(1 Reis 18.36,37)

Então caiu fogo de Jeová e, consumiu o holocausto, a


lenha, as pedras e o pó, e ainda lambeu a água que estava
no rego, o que vendo todo o povo, se prostraram e
disseram:

"Só o Senhor é Deus! Só o Senhor é Deus!" (1 Reis 18.39)

Nesse momento, Elias mandou que prendessem aos


profetas de Baal sem que escapasse nenhum, os toma­
ram e junto ao ribeiro de Quisom, o profeta os degolou
(1 Reis 18.40).

147
Rodolfo Beuttenmüller

Logo, Elias disse ao rei que subisse, comesse e bebesse,


porque uma grande chuva se aproximava. Ainda que
não se vislumbrava nada que pressagiasse alguma chu­
va, o profeta estava seguro de que não tardaria a chover
de maneira torrencial. Havendo subido ao monte Car-
melo, prostrando-se em terra, pôs seu rosto entre os
joelhos, mandou a um de seus criados que olhasse para
o mar, mas nada se via. Quando à sétima vez, o criado
lhe disse que via uma pequena nuvem subindo do mar,
como a palma da mão de um homem, lhe disse que fosse
e dissesse ao rei que tomasse seu carro e descesse à
cidade para que a chuva não o alcançasse.
Ao momento, os céus se escureceram com nuvens e
ventos e uma grande chuva se precipitou sobre Israel (1
Reis 18.41-460.

A fraqueza de Elias

Ao estudar a vida e os milagres realizados através deste


profeta, se poderia dizer que,foi uma contínua demons­
tração do poder de Deus, sem que existisse o mínimo
indício de fraqueza. Assim demonstra em sua apresen­
tação diante de Acabe e sue desafio aos profetas de Baal.
Sua segura atitude manifestava um pleno conhecimento
de Deus e a segurança de que não falharia. Além disso,
estava seguro de que Jeová dispunha do fogo necessário
para queimar não somente o holocausto mas a todo
Israel. Por isso pediu que o fogo caísse especificamente
sobre o holocausto.
Ele conhecia a história da chuva de fogo derramada por
Deus para consumir Sodoma e Gomorra e que agora,
somente necessitava de uma potente chama, como a
qual, o povo se convenceria de quem era o verdadeiro

148
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

Deus. A segurança e o conhecimento demonstrado por


Elias, eram frutos de uma prolongada e estreita relação
com Deus.
Não obstante, poucas horas depois de seu prodígio,
Elias, como um covarde qualquer, assustado, sai fugin­
do, pois Jezabel, a mulher do rei, se inteirou do aconte­
cimento e enviou uma mensagem ao profeta dizendo
que não chegaria com vida ao dia seguinte, que se desse
como homem morto (1 Reis 19.1,2).
E nos perguntamos: Não podia Elias enfrentar a perver­
sa Jezabel? Podia ter pedido a Deus que o protegesse
dela e que a fulminasse com um raio? Mas ele, pensou
unicamente em fugir, atemorizado pelas palavras amea­
çadoras da perversa mulher do rei Acabè.
Agora vemos, não ao valente e poderoso profeta, mas a
um insignificante espiritual, caminhando todo um dia
pelo deserto, detendo-se em um arbusto debaixo do
qual se assentou, deprimido, triste e abatido, desejando
unicamente a morte. E assim manifestou a Deus.

"Já basta, ó Senhor; toma agora a minha vida, pois


não sou melhor do que meus pais". (1 Reis 19.4)

Nessa situação anímica e, motivado pelo cansaço, dor­


miu, sendo despertado por um anjo que logo ao tocá-lo
disse:

"Levanta-te, come". (1 Reis 19.5)

Ao abrir seus olhos, à sua cabeceira estava um pão


cozido sobre as brasas e uma vasilha com água. Comeu,
bebeu e voltou a dormir. Porém o anjo novamente o
desperta e lhe diz:

149
Rodolfo Beuttenmüller

"Levanta-te e come, porque mui comprido te será


o caminho". (1 Reis 19.6)

Depois de comer e beber, já fortalecido, caminhou du­


rante quarenta dias e quarenta noites até chegar a Hore-
be, o monte de Deus.
Duas coisas destacamos aqui:
1. A situação anímica na qual repentinamente cai Elias,
transformando-se em questão de hora, de bravo e valen­
te, a um homem fraco e covarde que foge temendo as
ameaças de uma mulher.
2. A atitude solidária de Deus, que envia um anjo para
que o cuide e o alimente.
Nada de críticas, repreensões nem reprovações. E como
se Deus dissesse; Está bem que conheça a sua fraqueza;
que entenda que meu poder se aperfeiçoa na fraqueza,
que nada é o homem, e por mais elevado que se encon­
tre, carece de minha ajuda e de meu poder.

Elias em Horebe

Ao chegar ao monte de Deus, seu esforço continua pelo


solo. Uma caverna lhe serve de albergue para passar a
noite e ocultar seu medo. Por ali está Jeová que não o
tem deixado nem um momento, sem se importar de que
maneira covarde este fugiu de Jezabel. Nada disso im­
porta para Deus! O importante para Deus é Elias, seu
servo, seu profeta, que ao estar passando por um mo­
mento de apuros, é quando mais o necessita.
Que fazes aqui, Elias? - lhe pergunta Deus. O chama por
seu nome, em gesto de paternidade, familiaridade e

150
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

confiança. Sua presença não lhe põe medo, mas o trans­


mite solidariedade.
Era como se dissesse: "Não estás sozinho, aqui está teu
amigo, venho te seguindo para te proteger, meu afeto
por ti não tem variado no mínimo.
A essa pergunta com ausência de reprovações e bem
carregada de solidariedade e calor afetivo, o profeta
responde:

"Tenho sido muito zeloso pelo Senhor Deus dos Exércitos,


porque os filhos de Israel deixaram o teu concerto,
derribaram os teus altares, e mataram os teus profetas
à espada, e eu fiquei só, e buscam a minha vida para
ma tirarem". (1 Reis 19.10)

Depois de escutar sua resposta, o Senhor pede para que


ele saia da caverna e se ponha diante dele. Logo após um
vento, um terremoto, um fogo e uma voz mansa e deli­
cada, Elias ouviu ao Senhor e cobriu o seu rosto com sua
capa e se pôs à entrada da caverna, de onde escutava
novamente a voz de Deus que repetia a pergunta: "Que
fazes aqui, Elias? Respondendo-lhe uma vez mais que o
buscavam para matá-lo (1 Reis 19.13,14).
E como sinal de que ainda estava com ele, lhe disse que
regressasse para ungir a Hazael como rei de Síria, e a Jeú
como rei de Israel e a Eliseu, para que o substituísse
como profeta.
Ou seja, em vez de censurar sua fraqueza e covardia, o
premiava, encomendando-lhe uma tão elevada missão
como era a de ungir dois reis e um profeta.
A vida e o ministério de Elias foi de tão grande magni­
tude que Deus não lhe permitiu que morresse, mas que,
como narra o segundo capítulo de segundo aos Reis,
fosse arrebatado ao céu:

151
Rodolfo Beuttenmüller

"E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis


que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou
um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.
O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai,
carros de Israel e seus cavalheiros! E nunca
mais o viu". (2 Reis 2.11,12)

152
XII
Jesus de Nazaré

"Responderam os servidores: Nunca homem


algum falou assim como este homem". (João 7.46)

 través deste estudo, tenho analisado a vida de al­


guns dos homens que mais se destacaram, segundo o
que foi registrado no Sagrado Livro, pela estreita relação
com Deus, a eficácia de seus ministérios e as proezas,
milagres e prodígios, que realizaram como evidência de
haverem sidos chamados por Deus.
Como fruto desta análise, tenho chegado a uma conclu­
são de que cada um destes homens se caracterizou por
suas fraquezas e defeitos, ou seja, por suas imperfeições.
Porém, o mais importante é que Deus não tomou essas
fraquezas como impedimento nem para sua ação e me­
nos ainda, para a utilização destes recipientes de seu
poder.

153
Rodolfo Beuttenmiiller

Ao invés de serem abandonados, as fraquezas destes


conotados servos do Senhor foram a base para o aper­
feiçoamento do poder de Deus neles.
Poderíamos dizer que, com algumas exceções, os ho­
mens usados por Deus, de maneira tão especial, que
seus feitos ficaram impressos indelevelmente para que
a posteridade soubesse até onde está disposto a chegar
o Senhor em sua ação com os humanos, que foram
homens fracos, com falhas e defeitos e não podia ser de
outra maneira, já que a perfeição absoluta só se encontra
em Deus.
Se Deus houvesse requerido uma absoluta e total perfei­
ção no instrumento que utilizaria para comunicar-se
com o homem, poderia fazer uso dos anjos, porém a ele
agradou usar os homens para estabelecer comunicação
com os demais homens, mesmo sabendo das falhas e dos
defeitos destes condutos humanos.
De maneira que, Deus teir. se utilizado de recipientes
imperfeitos, para comunicar uma mensagem ou trans­
mitir uma verdade, advertência, bênção e até castigar os
seres humanos.
Aí está o caso de Jesus Cristo. Deus poderia ter se
manifestado ao mundo sem ter que utilizar um instru­
mento humano. Porém, estando na condição de homem,
ou seja, com todas as fraquezas e em semelhança de
homem, é que ele poderia levar os pecados do homem
e salvá-lo através de sua morte na cruz.
João nos diz da aparição de Jesus Cristo, que este, não
era outro se não o Verbo er.carnado. Ele o apresenta da
seguinte maneira:

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com


Deus, e o Verbo era Deus." (João 1.1).

154
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

O que o Apóstolo nos quer dizer é que esse Deus homem


que caminhou pelos caminhos empoeirados da Palesti­
na, era aquele Verbo que no princípio era Deus; que
havia tomado forma humana. Assim esclarece mais
adiante quando disse:

"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós..." (João 1.14)

E logo acrescenta:

"Deus nunca fo i visto por alguém. O Filho unigénito


que está no seio do Pai, este o fez conhecer".
(João 1.18)

O Apóstolo Paulo fez seu comentário a respeito do


conceito de João com relação a Jesus Cristo, quando ao
escrever aos colossenses lhes diz:

"O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito


de toda a criação; porque nele foram criadas todas
as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis,
sejam tronos, sejam dominações, sejam principados,
sejam potestades: tudo fo i criado por ele e para ele".
(Colossenses 1.15,16)

De maneira que Jesus de Nazaré era a encarnação do


Verbo de Deus, do qual João nos diz que estava com
Deus e que era Deus, e continua dizendo que esse Verbo
se fez carne, ou seja, que Deus tomou forma de homem
e se manifestou aos homens, e disse João: "...E vimos sua
glória, como a glória do Unigénito do Pai..." (João 1.14a).
Agora, como foi essa manifestação? De que maneira se
encarnou o Verbo de Deus? A Bíblia nos diz que foi

155
Rodolfo Beuttenmiiller

através de um instrumento humano, ou seja, uma mul­


her. Não chegou por meio de um anjo. A Ele agradou
escolher uma jovem e fraca mulher e pôs em seu ventre
esse Verbo, para que tomasse forma humana e em con­
dição humana morresse pelo homem e, deste modo o
salvasse de todos os seus pecados.

E...como foi esse Jesus?

Fisicamente, tinha um aspecto comum dos judeus, tanto


assim que, quando foram prendê-lo, para ser identifica­
do, Judas teve que estampar um beijo em sua face,
dando a entender que se podia cometer um engano e
levar a outro do grupo que o acompanhava.
Porém, seu físico é o que menos importa quando quere­
mos conhecer como era esse homem sem igual, que
segundo João, veio dar a conhecer como era Deus (João
1.18). Daí surgem as perguntas: Como reagia ante a dor,
o perigo, a morte ou as fraquezas dos homens?
Estas e outras interrogações poderão encontrar respos­
tas ao estudar minuciosamente os quatro Evangelhos.
Vejamos por exemplo, como se comportou naquela
grande festa dos tabernáculos, segundo o que se narra
em João 7.10-39. A festa dos tabernáculos era uma das
sete grandes festas ordenadas por Jeová (Levítico 23.24).
Se iniciava no dia 15 do sétimo mês e concluía-se uma
semana depois. Durante sete dias o povo de Israel se
congregava para adorar ao Senhor; oferecer sacrifícios,
cerimônias e holocaustos, recordando sua redenção da
escravidão egípcia.
De todo Israel vinham à Jerusalém para participarem
numa série de cerimônias vazias e sem sentido, pois

156
Diga o fraco: «]Eu sou forte!»

essas festas há muito tempo haviam perdido seu signi­


ficado e em vez de bênção o que produziam era cansaço.
Jesus estava ali, não porque houvesse sido convidado
como o Grande Mestre. Não! Ele estava como mais um
do povo judeu, com a diferença de que não estava cala­
do, nem se limitou a participar no ritualismo carente de
espiritualidade. Se dedicou a ensinar aos ali congrega­
dos, sendo aceitos seus ensinamentos por muitos, coisa
que incomodava aos dirigentes, já que quem o escutava
não somente cria em sua doutrina, como também uma
grande quantidade começou a crer nele (João 7.25-32).
Assim esteve durante toda a semana, culminando sua
participação ao chegar o último e grande dia da festa,
quando pondo-se de pé, tomou a palavra e elevando a
voz para que todos o escutassem, disse:

"Se alguém tem sede, venha a mim, e beba.


Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios d'água
viva correrão do seu ventre". (João 7.37,38)

E acrescenta dizendo que isto disse do Espírito que


haveriam de receber os que nele cressem, pois ainda não
havia vindo o Espírito Santo, porque Jesus não havia
sido glorificado (João 7.39), ou seja, ele estava oferecen­
do algo totalmente diferente de uma festa que somente
deixava cansaço.
Este ato esgotou a paciência dos principais dos sacerdo­
tes e dos fariseus, os quais decidiram matá-lo. De ime­
diato, ordenaram a alguns servidores que o prendessem,
mas quando estes chegam onde Ele estava, não podem
cumprir a ordem, não o arrastam, mas ficam paralisados
ao escutá-lo falar. Quando regressam a seus superiores
com suas mãos vazias e sem o prisioneiro, diante da

157
Rodolfo Beuttenmüller

pergunta do porque não haviam cumprido a ordem,


responderam:

"Nunca homem algum falou assim como este homem".


(João 7.43)

Jesus inigualável!

Desde seu nascimento, tendo como mãe uma mulher


que não havia conhecido homem algum, foi diferente de
todo os homens, até sua morte, perdoando aos que o
crucificaram. Não ensinava como os mestres comuns,
cujos ensinamentos ficavam na periferia, Ele, pelo con­
trário, quando ensinava, suas palavras penetravam até
o núcleo do ser. Assim manifestam os dois discípulos a
caminho de Emaús.

"Porventura não ardia em nós o nosso coração


quando, pelo caminho, nos falava, e quando nos
abria as Escrituras?" (Lucas 24.32)

Sua vida foi uma contínua demonstração de amor. Difi­


cilmente podia se encontrar alguém disposto a morrer
por seus amigos, mas Jesus dá sua vida para salvar a
seus inimigos. Antes, como parte de seus ensinamentos,
havia dito: "Amai a vossos inimigos, bendizei aos que
vos maldizem".
Era tão diferente dos demais, que seus discípulos depois
de três anos acompanhando-o e, sendo testemunhas de
seus prodígios e de sua magnificência, ainda não o
conheciam, pois suas mentes finitas eram insuficientes
para captar em toda sua magnitude, seu poder, grande­

158
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

za e majestade. Por esse motivo, se surpreendiam com


os milagres e as proezas que, para Ele resultavam feitos
normais.
Assim sucedeu naquele dia quando uma tormenta
ameaçava afundar o barco em que navegavam (Mateus
8.23-27). Deve-se destacar que entre os que estavam na
embarcação, se encontravam alguns homens com expe­
riência nos assuntos de mar, e com o suficiente conheci­
mento para diferenciar entre um forte vento e uma
tormenta. Não eram uns improvisados marinheiros que
se assustaram diante de qualquer perigo, mas a tempes­
tade foi aumentando até o ponto de ondas cobrirem o
barco.
E enquanto os desesperados discípulos eram vítimas do
pânico ao crer que se encontravam ante a iminência da
morte, Jesus dormia placidamente como se nada estives­
se acontecendo. Frente a esta situação, foram despertar
o Mestre.

"Senhor; salva-nos, que perecemos". (Mateus 8.25)

Ele, muito tranqüilo, se levanta, olha para eles e diz:

"Por que temeis, homens de pouca fé? ” (Mateus 8.26)

Logo, mantendo sua tranqüilidade, repreendeu aos ven­


tos e ao mar; e fez uma grande bonança. Ao ver semel­
hante demonstração de poder, maravilhados, os discí­
pulos se perguntaram:

"Que homem é este, que até os ventos e o


mar lhe obedecem?" (Mateus 8.27)

159
Rodolfo Beuttenmüller

E não é surpreendente que fizessem esta pergunta, por­


que todavia, no dia de hoje, os homens continuam se
perguntando, quem é esse homem que ainda depois de
quase dois mil anos continua vigente e seus ensinamen­
tos se vigorizam com o transcorrer dos dias?

H um ano e so lid á rio

Para muitos é incompreensível que Jesus seja o Verbo


encarnado, ao vê-lo atuar de maneira tão humana e
manifestando sua solidariedade ao comover-se com a
dor de duas mulheres que haviam perdido seu irmão.
Seu amigo Lázaro estava enfermo e ao ser notificado por
suas irmãs Marta e Maria, Jesus, ao invés de ir imedia­
tamente, respondeu que essa enfermidade não era de
morte. Ao passar os dias e chegar a casa de seus amigos,
se encontra com a desolação causada pela morte de
Lázaro e a sua duas irmãs acompanhadas por conheci­
dos amigos que as consolavam nesse momento de dor
(João 11.1-44).
É recebido por Marta que, entre lágrimas lhe diz: "Sen­
hor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.
Mas também agora sei que tudo quanto pedires a Deus,
Deus te concederá". O Mestre diante de uma atitude
como esta, lhe responde: "Teu irmão há de ressuscitar".
Porém Marta, não obstante a fé que demonstrava suas
palavras, não entendeu que Jesus se referia a uma res­
surreição imediata, ela pensava que Ele falava do mo­
mento quando todos os mortos saltariam de seus sepul­
cros.
Jesus estava seguro de que ressuscitaria Lázaro, como já
havia dito aos discípulos (João 11.11-15), entretanto, ao
ver a Maria e Marta que choravam e que o mesmo

16 0
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

faziam os judeus que o acompanhavam, se comove e,


como um menino, se põe a chorar. Porém, suas lágrimas
não eram fruto de impotência, mas de solidariedade, ou
seja, se unia à dor destas duas mulheres, suas amigas.
Alguns minutos depois deste gesto solidário, parado
frente ao túmulo de seu amigo, dá graças a Deus anteci­
padamente e logo, clamando em grande voz, diz:

"Lázaro, sai para fora". E o defunto saiu,


tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o
seu rosto envolto num lenço". (João 11.43,44)

Quatro dias esteve Lázaro no sepulcro quando Jesus o


ressuscitou. E nos perguntamos:
Quem é este homem, tão humano e solidário que é capaz
de comover-se e chorar juntamente com duas mulheres,
que perderam seu irmão, mas também divino, com um
poder tão grande que até ressuscita mortos?
Este mesmo lado humano manifesta naquele dia, quan­
do os discípulos, tendo fome, entram em um terreno e
começam a arrancar espigas e a comer, sem importar que
seja sábado, isto é, dia de repouso (Mateus 12.1-8). Os
fariseus que nunca faltavam na hora de criticar, imedia­
tamente dizem-lhe que seus discípulos estavam fazendo
algo ilícito ao violar o dia de repouso.
A resposta de Jesus foi contundente, pois os lembrou de
um fato histórico, quando Davi, fugindo do rei Saul, (1
Samuel 21.1-9), chegou à casa de Deus em busca de
comida e somente havia o pão sagrado e desse pão
comeram ele e seus acompanhantes.
Ou seja, Jesus Cristo ao responder aos fariseus, referin­
do-se ao que fez Davi, avalia dita atitude. Não esqueça­
mos que quando Davi entra na casa de Deus em busca
de ajuda, porque fugia do rei, tem que mentir ao sacer­

161
Rodolfo Beuttenmüller

dote Aquimeleque, dizendo que andava em uma missão


secreta. Porém, apesar de tudo isso, Jesus Cristo deixa
estabelecido que o mais importante é o homem. Que está
certo cumprir com o sagrado, mas não em prejuízo do
ser humano. Por isso disse:

"Mas se vós soubésseis o que significa:


Misericórdia quero, e não sacrifício, não
condenaríeis os inocentes. Porque o Filho do homem
até do sábado é Senhor”. (Mateus 12.7,8)

"Porque eu quero misericórdia e não sacrifício;


e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos".
(Oséias 6.6)

Essa foi a mensagem enviada por Deus ao povo de


Israel, cansado de tanto cerimonial carente de espiritua­
lidade.
Quem é este homem capaz de dar importância ao pro­
fundo e verdadeiro e deixar o supérfluo?

Jesus e o social

Jesus, contrário ao que crêem muitos, não foi um homem


que assumiu uma posição monástica, vivendo fora de
seu contexto social. Foi convidado a comer na casa de
Simão o fariseu, aceitou, mas também se assentou à
mesa de Mateus o publicano, e Ele mesmo se convidou
a pousar na casa de Zaqueu, outro publicano.
Manifestava sua sociabilidade ao aceitar o convite das
bodas de Caná (João 2.1). Ali realizou seu primeiro
milagre... e de que maneira!

162
Diga o fraco: «\Eu sou forte!»

Quando se esgota o vinho e sua mãe lhe informava do


acontecido, Jesus ordena que encham com água umas
talhas e transforma a água em um delicioso vinho, de
uma qualidade tão alta que deixa surpresos todos os que
ali estavam.
E novamente surge a pergunta, quem é este homem
capaz de combinar tantas coisas de uma só vez?

,
Jesus o valente

Jesus Cristo não foi como o pinta a tradição que, depois


de cerca de dois mil anos, o mantem crucificado e san­
grando. Nem tão pouco aquele que aparece pintado com
rosto maquiado e lábios pintados, como se estivesse
acabado de sair de um salão de beleza. Não! Ele não foi
assim.
Durante três anos e meio caminhou pelas ruas e camin­
hos empoeirados da Palestina, fazendo bens e curando
e libertando a todos os oprimidos pelo diabo (Atos
19.38), de maneira que pouco tempo lhe restava para
frivolidades.
Porém, o mais significativo de sua personalidade foi sua
VALENTIA, como demonstrou ao tirar os mercadores
do templo (João 2.13-22), ou quando foram prendê-lo
para julgá-lo e condená-lo à morte na cruz. Quando
chegaram os soldados, em vez de esconder-se, Ele mes­
mo foi quem perguntou:

"A quem buscais? Responderam-lhe:


A Jesus Nazareno. Disse-lhes Jesus:
Sou eu (João 18.4-8)

163
Rodolfo Beuttenmilller

O impacto foi tão grande que os soldados retrocederam


e caíram por terra. Esse momento de confusão poderia
ser aproveitado por ele para se esconder, mas não, se pôs
à vista e lhes disse que era Ele.
Tao pouco se acovardou quando um dos guardas o
esbofeteou, nem ainda diante de Pilatos. Com grande
valor afrontou o juízo e enfrentou a morte.

Jesus, o homem

Porém, como homem, manifestou alguma fraqueza?


Não esqueçamos que o PODER DE DEUS se aperfeiçoa
na fraqueza e Jesus, como substituto do homem não
podia ser a exceção, Paulo, nos fala a seu respeito:

"E, achando na forma de homem,


humilhou-se a si mesmo, sendo obediente
até à morte, e morte de cruz”.
(Filipenses 2.8)

Quem morria na cruz era um homem que carregava a


soma de todos os pecados da humanidade. Em conse­
qüência, todas as fraquezas eram depositadas sobre Ele,
como expressa o profeta Isaías, visualizando seu martí­
rio com vários séculos de antecipação, dizendo:

"Mas ele fo i ferido pelas nossas transgressões,


e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo
que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas
suas pisaduras fomos sarados".
(Isaías 53.5)

164
Diga o fraco: «/Em sou forte!»

O rei Ezequias é muito específico quando, depois de


uma grave enfermidade que quase o leva à morte, se
expressa da seguinte maneira:

"Eis que para minha paz, eu estive em grande


amargura; tu porém tão amorosamente abraçaste
a minha alma, que não caiu na cova da corrupção,
porque lançaste para trás das tuas costas todos os
meus pecados". (Isaías 38.17)

Então, é lógico que como homem que era, na condição


que devia estar para salvar a humanidade, sua fraqueza
se manifestava sobremaneira, como ocorreu no Getsê-
mani (Mateus 26.36-45).
A hora decisiva da batalha do calvário se aproximava.
Jesus chega àquele lugar e tomando consigo a Pedro e
aos dois filhos de Zebedeu, se afasta para orar. Então,
começa a entristecer-se e angustiar-se de grande manei­
ra e disse aos três discípulos que o acompanhavam:

"A minha alma está cheia de tristeza até à morte".


(Mateus 26.38)

E já, quando estava a sós com Deus, sua oração é o vivo


reflexo da fraqueza.

"Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice;


todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres".
(Mateus 26.39)

Como pedir ao Pai que se possível, passasse dele aquele


cálice se não havia outra forma de salvar a humanidade?

165
Rodolfo Beuttenmiillér

Somente um instante de fraqueza poderia levá-lo a fazer


dita proposta. Dizemos que um instante, porque imedia­
tamente se repõe e decide fazer o que o Pai havia dito,
pois não podia ser de outra maneira, pois se o amargo
cálice houvesse passado de Jesus, o plano de salvar o
homem por meio de seu sacrifício, haveria fracassado.
Já na cruz, ao chegar o momento supremo, em meio de
sua intensa agonia, a fraqueza volta a aflorar quando
reclama ao Pai:

"Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?"


(Mateus 27.46)

O Pai não o havia desamparado, só que nesse momento,


Ele se constituía no maior pecador, já que carregava os
pecados de toda a humanidade.
Nesse mesmo momento, Ele era o cordeiro de Deus que
tirava os pecados do mundo e como tal, em cumprimen­
to do plano de redenção, tinha que ser sacrificado. En­
tretanto, sua fraqueza se transformou na maior demons­
tração de poder, pois uns minutos depois, ao entregar
seu espírito, o véu do templo se rasgou de cima a baixo;
a terra tremeu; se partiram as rochas; os sepulcros foram
abertos e muitos corpos de santos que haviam dormido
se levantaram (Mateus 27.50-53).
Estes eventos tão contundentes, levaram o Centurião e
os que com ele estavam guardando ao crucificado, a
dizerem:

"Verdadeiramente este era Filho de Deus".


(Mateus 27.54)

O fraco que, minutos antes se sentia abandonado até


pelo Pai, se transformou em forte e vitorioso, de tal

166
Diga o fraco: «jEu sou forte!»

maneira que até a natureza é comovida no momento de


sua morte. Mas isto não foi tudo, pois ao terceiro dia,
estando a porta do sepulcro, onde o haviam posto, fe­
chada por uma enorme pedra, e selada com o selo do
império romano, e ainda, custodiada pelos soldados, o
fraco transformado em forte, saiu de seu encerro. O
Senhor Ressuscitado!
E depois de aparecer a seus fracos discípulos, regressou
ao Céu e se assentou a destra do Pai e, dali continua
repartindo força a seus fracos seguidores, transforman­
do-os em poderosos e VALENTES...
Pois antes de seu regresso ao Céu, Jesus, aproximando-
se de seus discípulos, lhes disse:

"É me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto


ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome
do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as
a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado;
e eis que eu estou convosco todos os dias, até à
consumação dos séciãos. Amém".
(Mateus 28.18-20)

167
a igreja de Jesus Cristo existe a ideia gene­

N ralizada de que Deus, para utilizar um hom­


em e convertê-lo em um instrumento eficaz,
requer dele que seja quase perfeito, isto, é que não
tenha o mínimo indicio de fraqueza. O autor desta
obra está convencido de que Deus restaura aqueles
que tém sido instrumentos; de maneira que o demons­
tra com o fundamento bíblico mais apropiado.
•Conheço a Rodolfo Beuttenmüller há m itos anos. Seu amplo ministério internacional
como evangelista, assim como sua paixão pelas almas, que o tem levado a ministrar em
muitos paises, guiando milhares a uma norn vida em Cristo. É basicamente o tema geral
deste impactante livro. Estou seguro que será de grande ajuda e edificação para os crentes
interessados em servir como instrumentos do Senhor, consolando e restaurando aos que
fraquejam».
Rev. José Silva. Pastor, evangelista e conferencista,
com um ministério dirigido à família e à liderança crista'.

Rodolfo Beuttenmüller,
autor e evangelista com um a vasta
experiência na evangelização
mundial; é conhecido tam bém
pelo êxito de seu livro 1 estados
do coração.