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DIREITO FALIMENTAR

A palavra falência pode ter vários sentidos.

Um dos sentidos é o de falência técnica. Um devedor, pessoa singular


ou pessoa coletiva (sociedade comercial, por quotas, unipessoal por
quotas ou sociedade anónima, associação, fundação, etc) encontra-se em
situação de falência técnica quando o seu passivo é superior ao seu
activo.

Falência / insolvência:

A palavra falência também pode ser usada como sinónimo de


insolvência. Aliás, tradicionalmente, a insolvência tinha a designação de
falência.

A falência consistia na impossibilidade de o comerciante solver os seus


compromissos por ter existido cessação de pagamentos; a
insolvência definia-se como a inferioridade do activo patrimonial do
devedor em relação ao seu passivo.

De facto, na fase inicial da evolução do regime jurídico do Direito da


insolvência vigorava um sistema de falência - liquidação. Este sistema
assentava na ideia de que o fim do processo de falência era o de assegurar
aos credores a satisfação dos seus direitos, procedendo à liquidação
integral do património do falido, e simultaneamente punir o falido por se
ter envolvido nessa situação, lesando assim a confiança daqueles que lhe
tinham concedido crédito.

Por outro lado, este sistema tinha como traços essenciais a


consagração da falência como instituto exclusivo dos comerciantes, em
nome individual ou sociedades comerciais, enquanto que a insolvência
se aplicava aos devedores não comerciantes, sobretudo pessoas
singulares.

A declaração do estado de falência resultava de vários elementos


como a cessação de pagamentos, a fuga ou ausência do comerciante sem
deixar substituto e a dissipação ou extravio de bens com o propósito de
não cumprir as suas obrigações. As sociedades de responsabilidade
limitada (sociedade por quotas e sociedades anónimas) podiam ser
declaradas falidas apenas com base na manifesta insuficiência do activo
em relação ao passivo.

Quanto à insolvência pessoal, aplicável aos não comerciantes, a


mesma era presumida quando contra o devedor corressem duas
execuções não embargadas, ou quando lhe tivesse sido feito arresto com
fundamento no justo receio de insolvência.

A declaração de falência implicava a penhora de bens do falido, a


inibição do falido para administrar e dispor dos seus bens presentes e
futuros, a inibição para o exercício do comércio, e a inibição para o
desempenho de funções de gerente, administrador ou director de
sociedades comerciais ou civis.

A sentença de declaração de insolvência dos não comerciantes


implicava a incapacidade do insolvente para administrar e dispor dos seus
bens até à liquidação total da massa. Após o pagamento aos credores, o
insolvente continuava obrigado ao pagamento das dívidas. Não vigorava,
pois, o actual regime da exoneração do passivo restante.

Em caso de insolvência culposa, o insolvente era punido com pena de


prisão de um a dois anos.

O processo de insolvência é um processo de execução universal, que tem


como finalidade a satisfação dos credores pela forma prevista num plano
de insolvência, baseado, nomeadamente, na recuperação da empresa,
compreendida na massa insolvente, ou, quando tal não se afigure
possível, na liquidação do património do devedor insolvente e a repartição
do produto obtido pelos credores.

Ora, esta definição do processo de insolvência é a que está consagrada


logo no Código de processo civil.

Assim, em primeiro lugar, o processo de insolvência é um processo de


execução universal uma vez que visa a satisfação de todos os credores de
um só devedor.
De facto, com este processo pretende-se repartir o produto da
liquidação do património do devedor por todos os seus credores em
igualdade de circunstâncias.
Ora, o processo de insolvência pessoal e de insolvência de empresas é
também um processo cada vez mais frequente nos dias de hoje,
sobretudo depois da grave crise económica que o país actualmente
atravessa.

O processo de insolvência constitui uma sequência encadeada de actos


e formalidades que se inicia com a apresentação à insolvência por parte
do devedor ou com o pedido de insolvência por parte de um credor e que
termina com o pagamento aos credores ou com qualquer outra causa de
extinção do processo.

Porém, o processo de insolvência em sentido amplo compreende ainda


todos os incidentes que surgem na pendência do processo, como por
exemplo, a oposição à insolvência, a verificação e graduação de créditos,
a exoneração do passivo restante, a resolução em benefício da massa
insolvente, a restituição e separação de bens, entre outros.

Por outro lado, o processo de insolvência é também um processo


de execução genérica ou total, uma vez que abrange todo o património
do devedor e não apenas os bens necessários para fazer face a algum ou
alguns créditos. Porém, excepcionalmente, é possível que o processo
termine com a satisfação integral dos créditos de todos os credores sem
que tenha sido liquidado todo o património do devedor.

Ora, o processo de insolvência tem carácter urgente e goza de


precedência sobre o serviço ordinário do Tribunal.

Por visar a obtenção de providências adequadas à reparação efectiva


de direitos de crédito, constitui também uma acção executiva. Todavia, é
uma execução com muitos elementos declarativos.

É também um processo especial uma vez que se afasta do regime


jurídico geral das execuções estabelecido no Código de Processo Civil.
Falências e Insolvências no ordenamento jurídico Angolano

As disposições relativas à falência dos comerciantes estavam inicialmente


inseridas no Código Comercial, tendo passado, em virtude de
sucessivas reformas legislativas ocorridas ainda no tempo
colonial, para o Código de Processo Civil (de 1939). Ainda que
este diploma seja de cariz iminentemente processual, nele
encontramos todo o regime substantivo da falência.

A falência apresenta-se como um instituto privativo dos


comerciantes, que corresponde à impossibilidade permanente
destes cumprirem as suas obrigações perante os respectivos credores;
este instituto coexiste com o instituto da insolvência, aplicável aos
devedores não comerciantes.

Deste modo, apenas podem ser declarados falidos os comerciantes em


nome individual, as sociedades comerciais e os sócios de
responsabilidade ilimitada das sociedades comerciais.

A filosofia inerente a este instituto aponta a falência como


liquidação, circunscrevendo em larga medida a possibilidade do
comerciante ver a sua empresa ainda a funcionar após o
processo de falência estar concluído.

Na verdade, o levantamento da inibição do falido administrar os


seus bens só ocorre em duas situações:
No caso do falido propor uma concordata, que é aprovada por 75% dos
seus credores.

No caso de os credores chegarem a acordo quanto à constituição de uma


sociedade de responsabilidade limitada da qual eles são sócios, que deva
continuar a actividade comercial do falido, assumindo os respectivos
direitos e obrigações.

Neste último caso, como facilmente se conclui, ocorre uma verdadeira


expropriação da empresa por parte dos credores do falido.
Consoante a causa que motivou a falência, esta pode ser
classificada como casual, culposa ou fraudulenta, repercutindo-se
esta classificação nas penas a aplicar ao falido.

(a falência culposa e fraudulenta convocam também sanções de


natureza penal).

A reabilitação do falido pode ocorrer no termo do processo, no caso


de a falência ser casual; sendo culposa ou fraudulenta, só há lugar à
reabilitação depois do falido ter cumprido a pena que lhe foi
aplicada.

Este sistema tem sido objecto de diversas críticas por parte da doutrina
angolana, que considera necessário a instituição de mecanismos que
permitam o saneamento do falido, permitindo-lhe recuperar a saúde
financeira da sua empresa e continuar com a sua actividade comercial.