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Para Tidsch e Sherry Baby

Se você está lendo isso, deve estar se perguntando quem você é. Vou dar três dicas.
Dica 1: você acabou de passar a noite em claro para terminar um trabalho de literatura avançada
sobre A Bíblia envenenada. Caiu no sono rapidamente enquanto escrevia e sonhou que estava
beijando James Monroe, quinto presidente e proclamador da Doutrina Monroe.
Dica 2: estou escrevendo isso para você do sótão, perto da pequena janela redonda, você sabe
qual é, na extremidade leste da casa, onde o teto quase encontra o chão. As Montanhas Verdes
voltaram a ficar verdes recentemente, depois de um degelo tardio de neve lamacenta na primavera, e
você mal consegue ver o Cachorrinho no amanhecer ainda escuro, dando suas voltas matutinas,
subindo e descendo a lateral de nossa encosta do seu jeito alegre e à toa. Parece que as galinhas
precisam comer.
Acho que eu deveria ir alimentá-las. Galinhas idiotas.
Dica 3: você ainda está viva.
Já sabe quem você é?
Você sou eu, Samantha Agatha McCoy, em um futuro não muito distante. Estou escrevendo para
você. Dizem que minha memória nunca mais será a mesma, que vou começar a esquecer as coisas. Só
um pouco no início, depois muito. Então estou escrevendo para lembrar.
Não vai ser um diário nem nada parecido. Em primeiro lugar, é um arquivo de Word no pequeno
notebook que levo comigo para todos os lugares, então, vamos deixar o sentimentalismo de lado. Em
segundo, já imagino que, quando eu terminar de escrever (talvez nunca), o conteúdo vai exceder o
tamanho de um diário comum. É um livro. Tenho uma capacidade natural para escrever demais. Por
exemplo, o trabalho sobre A Bíblia envenenada devia ter cinco páginas e acabou com dez. Outro
exemplo: respondi a todas as perguntas descritivas possíveis no formulário de inscrição da
Universidade de Nova York para que o comitê de admissões tivesse opções. (Deu certo: eu entrei.)
Outra coisa: escrevi e edito com frequência a página da Wikipédia do colégio Hanover,
provavelmente a página de escola da Wikipédia mais longa e abrangente do país, o que é engraçado,
porque, tecnicamente, eu nem deveria estudar no Hanover pois, como você sabe (eu espero), não
moro em New Hampshire, e sim em Vermont, mas, como você também sabe (eu também espero),
South Strafford é uma cidade com quinhentos habitantes e não posso estudar na lojinha que é a escola
local. Então comprei a antiga picape do papai a prestação e encontrei algumas brechas na política
distrital.
Estou escrevendo este livro para você. Como pode esquecer qualquer coisa tendo este arquivo
conveniente como referência? Considere isso como seu verbete de enciclopédia. Não, considere
como seu dicionário.
Samantha (substantivo próprio, nome): Samantha é um nome americano e hebraico. Em inglês,
significa “aquela que ouve”. Em hebraico, significa “ouça, nome de Deus”.
Ouça, nome de Deus… isso não deveria ser sentimentaloide, mas talvez tenha que ser. Tentamos
trabalhar com sentimentos no ensino fundamental e não demos a mínima, mas eles deram um jeito de
aparecer em nossa vida de novo.
Os sentimentos voltaram ontem, na sala da sra. Townsend.
Sra. Townsend (substantivo próprio, pessoa): orientadora escolar que permitiu que você fizesse as
provas para cursar todas as matérias avançadas que você quis cursar, mesmo sem tempo em sua
agenda, e informou sobre todas as bolsas existentes, de modo que não teve de levar seus pais à
falência. Ela parece uma versão mais cansada da Oprah e, à exceção da senadora Elizabeth Warren, é
sua heroína.
Bem, eu estava na sala da sra. Townsend, me certificando de que não havia perdido nenhum prazo,
porque mamãe e eu tivemos que ir a um geneticista em Minnesota duas vezes no último mês. Eu nem
tive férias de verdade na primavera. (Escrevendo assim, até parece que eu sempre aproveitava as
férias de primavera. Mas realmente esperava conseguir me preparar bem com Maddie para a etapa
nacional do torneio de debates, que é no mês que vem.)
Vou tentar reconstruir a cena:
Paredes brancas cobertas de cartazes antigos com os dizeres “LEITE: FAZ BEM PARA A SAÚDE”,
herança do último orientador, porque a sra. Townsend esteve tão ocupada desde que começou, cinco
anos atrás, que não teve tempo de trocá-los. Eu, sentada em um bloco acarpetado que deveria ser uma
versão descolada e moderna de uma cadeira, mas, na verdade, não passa de um bloco. À minha
frente, a sra. Townsend vestindo um suéter amarelo, com cabelo volumoso com muitos cachos pretos.
Eu estava pedindo uma prorrogação de vinte e quatro horas no prazo de entrega do trabalho sobre
A Bíblia envenenada.
Sra. T: Por que você precisa de uma prorrogação?
Eu: Eu tenho uma coisa.
Sra. T (olhando fixamente para a tela do computador): Que coisa?
Eu: Procure “Niemann-Pick tipo C” no Google.
A sra. Townsend digita e começa a ler.
Sra. T (murmurando): Como assim?
Vi seus olhos se movimentando pela tela. Direita, esquerda, direita, esquerda. Eu me lembro disso.
Eu: É muito raro.
Sra. T: O que é isso, “Neeber Pickens”? É uma piada?
Tive que rir, apesar de ela estar franzindo o rosto, ainda lendo.
Eu: Niemann-Pick tipo C. É demência, basicamente.
A sra. Townsend desvia o olhar do computador, boquiaberta.
Sra. T: Quando você recebeu o diagnóstico?
Eu: Há dois meses, inicialmente. Foi um processo de idas e vindas para confirmar. Mas, sim, eu
com certeza tenho isso.
Sra. T: Você vai ter perda de memória? E alucinações? O que aconteceu?
Eu: É genético. Minha tia-avó morreu disso quando ela era muito mais nova do que sou agora.
Sra. T: Morreu?
Eu: É comum entre franco-canadenses, e minha mãe é franco-canadense, então…
Sra. T: Desculpe… morreu?
Eu: Eu não vou morrer.
Acho que ela não ouviu a parte em que eu disse que não ia morrer, mas pode ter sido melhor assim,
porque, a essa altura, é algo que não posso confirmar nem negar. O que eu sei e esqueci de contar à
sra. Townsend (desculpe, sra. T) é que é muito raro pessoas da minha idade apresentarem sintomas
(sem tê-los apresentado quando eram mais novas). Normalmente, crianças têm isso quando são muito
novas e seu corpo não consegue lidar com a deformação. Então, estamos lidando com uma
“cronologia diferente”, disse o médico. Perguntei se isso era bom ou ruim. “No momento, acredito
que seja bom.”
Sra. T (mão na testa): Sammie, Sammie.
Eu: Estou bem por enquanto.
Sra. T: Ai, meu Deus. Sim, mas… você está se consultando com alguém? Como seus pais estão
lidando com isso? Precisa ir para casa?
Eu: Sim. Bem. Não.
Sra. T: Peça para eles me ligarem.
Eu: Está bem.
Sra. T ( jogando as mãos para o alto): E você me diz isso pedindo prorrogação do prazo de
entrega do trabalho de literatura? Você nem precisa fazer o trabalho, pelo amor de deus! Posso ligar
para a srta. Cigler agora.
Eu: Não, tudo bem. Vou fazer hoje à noite.
Sra. T: Eu ligaria para ela com prazer, Sammie. Isso é sério.
É, acho que é sério. A Niemann-Pick (são três tipos — A, B e C — e eu tenho o C, comumente
chamado de NP-C, o único C que já recebi, ha-ha-ha) acontece quando o tipo errado de colesterol se
acumula no fígado e no baço e, como consequência, ocasiona uma série de obstruções no cérebro. O
acúmulo atrapalha a cognição, a função motora, a memória, o metabolismo — tudo e mais um pouco.
Ainda não tenho nada disso, mas venho apresentando sintomas há mais ou menos um ano,
aparentemente. É interessante o nome que eles dão a coisas que eu achava que não passavam de
tiques estranhos. Às vezes, tenho uma sensação de sonolência depois que dou risada: é cataplexia. Às
vezes, quando tento pegar o saleiro, eu não consigo: é ataxia.
Mas isso não é nada se comparado à perda de memória. Como você sabe (a esperança é a última
que morre!), sou da equipe de debate. A memória é meio que o meu forte. Eu nem sempre fui
debatedora, mas, se não tivesse entrado para a equipe quatro anos atrás, falando sério,
provavelmente estaria viciada em maconha. Ou em fan fiction erótica. Ou em algo do tipo. A história
é a seguinte:
Era uma vez você com catorze anos, Sam do Futuro. Você não era nada popular (continua não
sendo) e se sentia alienada, como se não houvesse lugar para você no colégio. Seus pais não te
compravam roupas legais, você era a primeira a perder nos jogos de queimada, não sabia que era
preciso se desculpar depois de arrotar e tinha se transformado em uma enciclopédia humana de feras
míticas e veículos espaciais cientificamente impossíveis. Simplificando: você se importava mais
com o destino da Terra Média do que com o da Terra de verdade.
Então, sua mãe te obrigou a participar de algum clube, e a equipe de debate era a primeira mesa na
feira de clubes. (Gostaria que tivesse sido um clube mais interessante.) Bem, tudo mudou. O cérebro
que você usava para memorizar espécies de alienígenas passou a ser usado para memorizar o
desenvolvimento do pensamento humano, acontecimentos, linhas de pesquisa que conectavam sua
casa minúscula no meio das montanhas a uma imensa cronologia, tão cheia de injustiça e triunfo
quanto as histórias que você adorava, só que real.
Além do mais, você era boa nisso. Tantos anos devorando livros serviram para que você se
tornasse capaz de olhar para um trecho e repeti-lo palavra por palavra só dez minutos depois. Sua
falta de delicadeza era uma vantagem, porque não é necessário ser educado para mostrar seu ponto
de vista. Os debates fizeram você perceber que não era preciso se perder em mundos inventados para
conhecer a vida fora do Upper Valley. Eles te deram a esperança de que poderia ser você mesma e
ainda fazer parte do mundo real. Eles te fizeram se sentir cool (apesar de ainda não ser popular).
Eles te fizeram querer melhorar na escola para que, quando chegasse ao mundo real, pudesse
trabalhar de fato com todas as questões que debatia.
Desde então, eu me incluí com orgulho entre as pessoas que perambulam pelos corredores da
escola aos fins de semana, falando consigo mesmas e sem parar sobre questões de justiça social.
Sim, os esquisitos que acham legal ler todos os resultados de uma busca na internet, com milhares de
artigos sobre Roe versus Wade, e recitá-los num púlpito de frente para outra pessoa, em uma batalha
que dura até a morte retórica. Os que se consideram advogados adolescentes, os que usam ternos. Eu
adoro.
E é por isso que não saí da equipe, embora agora gagueje um pouco nos treinos, dê desculpas
quando preciso faltar às sessões de pesquisa para ir a consultas médicas e tenha que, você sabe,
incentivar a mim mesma em frente ao espelho para os torneios. Antes de tudo isso acontecer, minha
memória era meu bilhete premiado. Minha capacidade de memorizar coisas me rendeu bolsas de
estudo. Minha memória me fez vencer o Concurso de Soletrar do Condado de Grafton quando eu
tinha onze anos. E agora ela vai desaparecer. Isso é, tipo, inconcebível para mim.
ENFIM.

De volta à sala, de onde posso ouvir pessoas no corredor gritando umas com as outras sobre
alguma idiotice.
Eu (me sobrepondo ao barulho): Tudo bem. Ah, e a senhora pode me dar o nome daquele
aconselhamento para o curso preparatório de direito de novo? Sei que só alunos do terceiro ano da
faculdade podem participar, mas acho que eu poderia…
A sra. T solta um engasgo abafado.
Eu: Sra. T?
A sra. T tira lenços de papel da gaveta e começa a secar os olhos.
Eu: A senhora está bem?
Sra. T: Eu simplesmente não consigo acreditar.
Eu: É. Tenho que ir para a aula de cerâmica agora.
Sra. T: Sinto muito. Isso é chocante. (pigarreando) Você vai precisar perder mais aulas?
Eu: Não até maio, perto das provas finais. Vou fazer uma viagem rápida para uma consulta com o
especialista. Provavelmente só um checkup.
Sra. T: Você é muito forte.
Eu (começando a pegar minhas coisas e me preparando para sair): Eu tento ser.
Sra. T: Eu conheço você desde que era uma garotinha de catorze anos com seus pequenos óculos (
posiciona os dedos em forma de círculo ao redor dos olhos).
Eu: Eu ainda uso óculos.
Sra. T: Mas são óculos diferentes. Mais sofisticados. Você parece uma jovem mulher agora.
Eu: Obrigada.
Sra. T: Sammie, espere.
Eu: Está bem.
Sra. T: Você é muito forte, mas… Mas, considerando tudo isso… (sua voz começa a falhar
novamente)

A essa altura, comecei a sentir um desconforto no fundo da garganta que na hora atribuí aos efeitos
colaterais do analgésico. A sra. T realmente sempre me apoiou desde o início do ensino médio. Ela
era a única adulta que me escutava de verdade.
É claro, meus pais tentavam, mas não conseguiam nem durante cinco minutos, uma vez que
precisavam trabalhar, alimentar meus irmãos mais novos e consertar algum buraco na porcaria de
casa que tínhamos ao lado de uma montanha. Eles não se importam com nada que eu faça, contanto
que não deixe meus irmãos definharem e cumpra minhas tarefas. Quando eu disse à sra. Townsend
que ia vencer o torneio nacional de debate, entrar na NYU e ser advogada especializada em direitos
humanos, a primeira coisa que ela disse foi: “Vamos fazer isso acontecer”. Ela era a única que
acreditava em mim.
Então, o que ela disse em seguida, correndo o risco de ser melodramática, foi como enfiar a mão
pelo meu esôfago e apertar meu coração.
Sra. T: Você acha que vai dar conta da faculdade?
Explosões dentro da minha cabeça.
Eu: O quê?
Sra. T (apontando para a tela do computador): Isso… bem, vou ler mais sobre a doença, mas…
parece que afeta tudo. Pode causar danos sérios.
Eu: Eu sei.
E essa é a questão. Eu conseguia lidar com a parte da saúde, mas não tire meu futuro. Meu futuro
tinha sido tão bem planejado às custas de muito trabalho. Eu me esforcei durante anos para entrar na
NYU e agora estava na reta final. Só de pensar que a sra. Townsend podia considerar minha
desistência, mesmo de leve, ficava tomada de raiva.
Sra. T: E, além de tudo, sua memória vai piorar. Como você vai para a aula com tudo isso? Você
pode…
Eu: Não!
A sra. T deu um salto. Então foi a minha vez de começar a lacrimejar. Meu corpo não estava
acostumado a chorar, então as lágrimas não eram gotas límpidas como as de uma modelo, como achei
que seriam. Eu tremi muito e a água salgada se acumulou nos meus óculos. Fiquei surpresa com o
barulho estranho que saiu do fundo da minha garganta.
Sra. T: Ah, não. Não, não. Sinto muito.
Eu devia ter aceitado as desculpas e seguido em frente, mas não consegui. Gritei com ela.
Eu: Eu NÃO vou deixar de ir para a faculdade.
Sra. T: É claro que não.
Eu ( fungando): Eu NÃO vou ficar em Strafford, andando por aí em um quadriciclo motorizado,
trabalhando em uma estação de esqui e fumando maconha e indo à igreja e tendo toneladas de filhos e
cabras.
Sra. T: Eu não disse isso…
Eu (com o nariz escorrendo): Eu consegui vir para Hanover, não consegui? Entrei na NYU, não
entrei? Sou a oradora da turma!
Sra. T: Sim, sim, mas…
Eu: Então vou dar conta da faculdade.
Sra. T: É claro! É claro.
Eu (limpando meleca de nariz na manga da camisa): Meu deus, sra. Townsend.
Sra. T: Use um lenço, querida.
Eu: Vou usar a superfície que quiser!
Sra. T: É claro que vai.
Eu: Eu não chorava desde que era bebê.
Sra. T: Isso não pode ser verdade.
Eu: Eu não chorava há muito tempo.
Sra. T: Bem, não tem problema chorar.
Eu: É.
Sra. T: Se precisar conversar comigo de novo, pode vir. Não sou apenas um recurso acadêmico.
Eu (saindo): É, legal. Tchau, sra. T.
Saí da sala da Sra. Townsend (de maneira perfeitamente normal, obrigada), faltei à aula de
cerâmica e fui direto para casa fazer meu trabalho até me livrar dos sentimentos. Ou pelo menos até
que os sentimentos e eu nos distanciássemos alguns quilômetros.
Eu chorei porque nunca estive tão assustada na vida. Temo que a sra. Townsend tenha razão.
Visualizo uma vaga forma cinzenta, que suponho ser meu cérebro dentro da minha cabeça, mas, em
vez disso, ele vai ser como uma bolha que está fora de mim, vazia, que não vou ser capaz de usar.
E estou cansada.
Tipo, quer levar meu corpo? Tudo bem, eu não estava usando mesmo. Tenho uma bunda enorme
sobre pernas de avestruz, cabelo típico de uma foto de “antes” de uma transformação e olhos
estranhos cor de café com leite, como um frappuccino. Mas não meu cérebro, minha verdadeira
ligação com o mundo.
Por que não posso definhar lentamente e andar por aí em uma cadeira de rodas automática,
declamando meu brilhantismo por meio de uma caixa de voz computadorizada, como Stephen
Hawking?
Argh! Só de pensar já fico…
g;sodfigs;ozierjgserg
Não sei outra forma de expressar. E não gosto de não saber. Nada. Não gosto de não saber em
geral. Eu deveria sempre ser capaz de saber.
E é aí que você entra, Sam do Futuro.
Preciso que você seja a manifestação da pessoa que eu sei que vou ser. Posso vencer isso, sei que
posso, porque quanto mais registro para você, menos vou esquecer. Quanto mais escrevo para você,
mais real você se torna.
Então tenho muito a fazer hoje. É quarta-feira de manhã. Tenho que ler sete artigos sobre as
condições de vida de quem recebe salário mínimo. Tenho que ligar para Maddie e lembrar que ela
precisa ler esses artigos também, porque, durante os três anos em que fomos parceiras de debate, ela
sempre teve o péssimo hábito de “improvisar” porque acha que tem um dom divino para iniciar
argumentações. (Ela tem, às vezes.) As galinhas idiotas ainda precisam comer. A janela está meio
aberta. Sinto cheiro de orvalho e ar fresco vindo das Montanhas Verdes. Ninguém acordou em casa,
mas logo todos vão estar de pé. E, veja, o sol está nascendo! Pelo menos disso eu sei.
SAM DO FUTURO

Atende por “Sam” ou “Samantha”.


Só come oleaginosas e frutas vermelhas.
Usa óculos modernos (ou talvez lentes de contato?).
Usa roupas sob medida, apenas em cores neutras, azul ou preto.
Só ri de vez em quando e sempre em volume baixo.
Sai para tomar um drinque toda semana com um grupo de mulheres espirituosas e
profissionalmente competentes.
Lê o New York Times na cama, vestindo um roupão branco macio.
É reconhecida por pessoas na rua, que dizem que aquele artigo sobre desenvolvimento
internacional mudou suas vidas.
SAMMIE DO PRESENTE

Atende por “Sammie” porque ninguém em casa/ na escola vai se acostumar a me chamar de
Sam (exceto Davy, mas, com a língua presa, parece “Tham”).
Come qualquer coisa que coloquem na sua frente, incluindo uma fruta falsa, por acidente,
em um evento da igreja.
Os óculos não são ruins, apenas “dourados”, “gigantescos” e possivelmente muito anos 70.
Usa qualquer camiseta grátis de eventos da escola que não tenha sido visivelmente babada
por um dos organismos menores da casa.
Ri do Bob Esponja e de piadas de peido, mesmo quando contadas por pessoas idiotas (não
consigo evitar, acho engraçado de verdade).
Minha melhor amiga é Maddie, mas não tenho certeza se somos amigas de verdade ou se,
depois de passar tanto tempo na sala de política, viramos amigas por tabela. E, cá entre
nós, o ego dela é muito acima da média.
Lê o New York Times no Lou’s quando outras pessoas jogam fora porque meu pai e minha
mãe se recusam a comprá-lo.
Ganha cumprimentos entusiasmados da equipe de debate, o que é um começo, pelo menos.
O que provavelmente a sra. Townsend leu

Página da Wikipédia sobre NP-C:


Entre os sinais neurológicos estão ataxia cerebelar (andar instável com movimentos
descoordenados dos membros), disartria (fala arrastada), disfagia (dificuldade para engolir),
tremores, epilepsia (parcial e generalizada), paralisia vertical supranuclear (paralisia dos
movimentos oculares verticais, paralisia dos movimentos sacádicos), inversão do sono, cataplexia
gelástica (perda repentina do tônus muscular, que leva a quedas), distonia (movimentos ou posturas
anormais causados pela contração dos músculos agonistas e antagonistas nas articulações) —
normalmente começa quando um pé vira ao caminhar (distonia de ação), podendo se espalhar e se
tornar generalizada —, espasticidade (aumento velocidade-dependente no tônus muscular), hipotonia,
ptose (queda da pálpebra superior), microcefalia (cabeça menor do que o padrão), psicose,
demência progressiva, perda de audição progressiva, transtorno bipolar, transtorno depressivo maior
e psicótico — pode incluir alucinações, delírios, mutismo ou estupor.
Página da Wikipédia sobre NP-C depois que eu editei:
Você está fodido.

(Foi retirado logo em seguida e todos os meus direitos de edição foram suspensos, mas valeu a
pena.)
Filósofos brancos do sexo masculino que eu/ você
beijaria (com base em seus retratos)

Søren Kierkegaard: aqueles lábios.


René Descartes: nunca disse não a um homem de cabelo comprido.
Ludwig Wittgenstein: o penteado, o nariz reto, os olhos profundos e sábios.
Sócrates: aquela barba…
Shah dolce vita

Quando eu disse que isso não seria sentimentaloide, eu menti. Você provavelmente deveria saber,
Sam do Futuro, mas talvez já tenha conseguido domar seus sentimentos no momento em que estiver
lendo isso.
Eu tenho uma queda por Stuart Shah. Eu tenho uma queda enorme por Stuart Shah.
Stuart Shah (substantivo próprio, pessoa): ah, quem se importa? Vou contar tudo de uma vez.
Imagine isto: dois anos atrás. Para criticar o capitalismo, você começou a usar muitas roupas
vintage (certo, de segunda mão), principalmente camisetas enormes do seu pai, shorts feitos de
calças cortadas e tamancos de borracha da sua mãe, que você pegava sem permissão. Está lendo
muitos artigos da National Geographic sobre como as calotas polares estão derretendo e os ursos-
polares estão sendo expulsos de seus hábitats naturais, e assistindo muito aos antigos DVDs da série
The West Wing: Nos bastidores do poder da sua mãe. Certo dia, a srta. Cigler (na época, essa era sua
professora de inglês avançado do segundo ano) pediu para você responder a um questionário no fim
de um conto de Faulkner, “Uma rosa para Emily”, sobre uma senhora que passa a noite com o
cadáver do marido. Enfim…
De repente, uma pessoa passa por sua carteira. Ela tem um cheiro de ar livre, sabe? É uma
combinação de transpiração e ar úmido e grama e terra e, quando você fica no ar-condicionado o dia
todo, dá para saber de cara que a pessoa esteve fazendo alguma coisa ao ar livre.
Você levanta os olhos e vê que é Stuart Shah.
Você já tinha visto Stuart por ali antes — você está no segundo ano e ele, no último, uma daquelas
pessoas que sempre está comendo um sanduíche enquanto anda, a caminho do próximo compromisso.
Ele é alto, tem um corte de cabelo antiquado, como o de um homem da década de 50, e olhos escuros
que parecem úmidos como pedras de rio. Parece que ele usa a mesma roupa todos os dias,
exatamente como você, só que ele veste camiseta preta e jeans pretos e fica incrível. É amigo de todo
mundo e de ninguém em especial. Fez o papel de Hamlet na peça da primavera.
Agora, está abaixado ao lado da srta. Cigler, falando com ela em voz baixa. Os cantos do lábio
dele formam um sorriso enquanto fala. Você observa seus dedos longos se contorcendo enquanto
apoiam os braços esguios sobre a mesa.
A srta. Cigler fica surpresa e cobre a boca com a mão. Toda a turma olha. Stuart endireita o corpo
e cruza os braços, olhando para baixo mantendo um meio sorriso tímido no rosto.
— Posso contar a eles? — a srta. Cigler pergunta, olhando para ele.
Stuart dá de ombros, olhando para a turma, depois, por algum motivo, para você.
— Um conto do Stu acabou de ser publicado. Em uma revista literária de verdade. Um aluno do
ensino médio. Quero dizer, minha nossa!
Stuart deu uma risadinha, olhando para a srta. Cigler.
— A Ploughshares é uma publicação em que eu gostaria de ter trabalhos publicados, pessoal.
Aplaudam este jovem!
As pessoas aplaudem com indiferença, exceto você. Você não aplaude. Porque está olhando
fixamente para ele, segurando uma mecha de cabelo. Você se movimenta na cadeira, inclinando o
corpo na direção dele. Percebe que o está examinando por completo: desde os sapatos, passando
pelo jeans, pela cintura, até seu pescoço moreno, os lábios macios, as sobrancelhas negras que
parecem pinceladas, seguindo para os olhos, que encaram você novamente.
Você fica quente e olha sua lista de afazeres.
Ele sai da sala de aula e, em vez de ouvir a srta. Cigler, você se pega desenhando a letra S.
Mais tarde, comenta sobre ele com Maddie no treino de debate, e ela nota seu olhar perdido, seus
dedos correndo superfícies aleatórias, seus suspiros.
— Sammie McCoy está apaixonada — Maddie diz.
— Estou apenas curiosa. Você sabe, profissionalmente. Fico imaginando como deve ser ter um
texto publicado. — Aquela palavra, “publicado”. Sai da boca como uma bebida adulta, como licor
de cereja açucarado. Significa que o modo como Stuart enxerga o mundo é tão completo, tão
aguçado, tão fascinante, que pessoas importantes querem compartilhá-lo.
Você quer que suas palavras sejam importantes assim. Bem, não em uma história de ficção, você
nunca seria capaz disso, mas no geral. Você quer ser debatedora (e depois advogada) para olhar o
mundo em perspectiva, de modo que possa organizá-lo em partes manejáveis e ajustar problemas e
soluções como um quebra-cabeça, tornando-o justo para todos. Você quer dizer às pessoas o que é
correto, o que é real. Stuart já está fazendo isso do jeito dele e ele só tem dezoito anos.
Durante o ano seguinte, aonde quer que ele vá pelos corredores do Hanover, ele brilha. Você
inventa desculpas para trocar os horários de almoço e poder vê-lo levar sushis à boca com os dedos,
tirando-os da marmita que trouxe de casa. Na outra mão, ele segura a New Yorker ou outras
publicações renomadas, como The Paris Review, além de pequenos romances surrados de todas as
cores possíveis. Você anota os títulos e os lê também, para saber um pouco do que se passa na
cabeça dele. Uma ou duas vezes, ele percebe que você está lendo o mesmo livro que ele, no
refeitório ou em outro lugar, e acena com a cabeça em reconhecimento, o que faz seu almoço se
revirar no estômago.
Mas, com o tempo, ele fica cada vez menos pelos corredores e mais no banco de trás de jipes a
caminho do lago, festas da Dartmouth ou viagens a Montreal com os amigos. Como deveria estar,
você pensa, porque ele é descolado. Você chega cedo à escola para estudar e fica até mais tarde para
fazer as tarefas de casa. Não vai às festas que ele frequenta nem participa da revista literária do
colégio, da qual ele é editor, tampouco faz amizade com meninas que poderiam chamar a atenção
dele por rirem alto e usarem roupas curtas e decotadas.
No dia da formatura de Shah, você o observa das arquibancadas, parado entre os pais, usando
óculos escuros, apertando a mão de todos os professores, sorrindo mais do que nunca, tentando
impedir que o chapéu caia. Você ficou sabendo que outra revista, a Threepenny Review, havia visto o
trabalho dele e escolhido um conto para publicar. A srta. Cigler disse à sua turma que ele escrevia
contos desde que tinha a sua idade e esperava publicar uma coletânea, depois um romance e depois,
quem sabe? Ele está em Nova York agora porque os pais têm um apartamento lá. Não vai fazer
faculdade. Vai apenas escrever, porque já descobriu o que quer fazer e no que é bom, e não vai
deixar de fazer por nada. Pensar nele ainda acende uma chama dentro de você e, antes que ele vá
embora da escola de vez, você dá uma última olhada nele tirando a beca e a pendurando no braço,
depois desaparecendo no meio da multidão.
Até hoje de manhã. Isso mesmo, Sam do Futuro. Depois de dois anos, eu o vi hoje de manhã.
Estava dando comida para as galinhas idiotas com Harrison e Bette e Davy (porque, mesmo
quando é a vez de um deles fazer as tarefas, automaticamente volta a ser minha vez) quando, de
repente, o Cachorrinho largou o que quer que estava fazendo no quintal e deu a volta na casa
correndo, passando por nós e descendo a encosta da frente. Segui o cachorro por um tempo e vi que
foi na direção da estrada principal. Ele começou a pular ao lado de uma pessoa, o que não era
incomum. Nossa estradinha sinuosa de mão dupla fica no meio das montanhas e é intrincada demais
para permitir que carros circulem muito rápido, então as pessoas andam de bicicleta, correm e
caminham por ali o tempo todo, às vezes vindas de locais a vinte minutos de distância, em Hanover.
Mas essa pessoa vestia camiseta preta e jeans preto. Essa pessoa tinha cabelo escuro e usava sapato
marrom. Apertei os olhos, mas não consegui ter certeza.
Então o Cachorrinho voltou, e Davy e Harrison e Bette e eu nos amontoamos na picape e partimos
para a escola, onde eu os deixaria antes de ir para a cidade. No caminho, passamos pelo cara de
preto que andava pela estrada. Diminuí a velocidade e esticamos o pescoço para trás. Stuart, de
óculos escuros, acenou. Todos os meus irmãos acenaram de volta. Eu só fiquei olhando fixamente
para a frente e tentei não gritar.
Segurei o grito na garganta o dia inteiro e agora estou com dificuldade de reprimi-lo enquanto
Maddie repassa sua abertura. Certo, eu estou engolindo o grito, mas continuo vendo o rosto dele de
manhã no Upper Valley, acenando, com um sorriso no rosto, como se tivesse me reconhecido.
Stuart Shah está de volta.
A sala de espera

Dois dias, nenhum sinal de Stuart em lugar nenhum. Procurei por ele de novo no caminho para a
escola, na ida e na volta, na curva de Center Hill, em todas as entradas de carro escondidas por
carvalhos, bétulas e bordos. Em todos os carros pelos quais passamos ao longo do rio Connecticut.
Procurei por ele nas ruas de Hanover, saindo do Lou’s ou talvez sentado em algum banco perto da
Dartmouth, lendo um livro. Não há muitos caras de origem indiana e jeans preto na cidade, mas
cheguei a encontrar dois, e nenhum deles era Stuart.
Agora, minha família está no consultório médico, exceto meu pai, que está trabalhando.
Especificamente, estamos no consultório da dra. Nancy Clarkington, pediatra, na Lyme Road, número
45, e eu já tomei cinco copinhos descartáveis de água daqueles bebedouros. Existe a possibilidade
de eu ter que sair daqui e ir esvaziar meu armário na escola, vivendo o resto de meus dias como uma
doente que estuda em casa. A não ser que eu consiga o atestado da médica exigido pelo diretor
Rothchild. Nem quero pensar na possibilidade de sair do consultório sem a assinatura da dra.
Clarkington naquele maldito atestado.
Minha mãe está ao meu lado, lendo uma revista horrível sobre pessoas horríveis. Uma fotografia
ampliada de uma selva cobre as paredes. Bette e Harrison e Davienne estão ajoelhados na frente do
aquário, observando os peixes, porque ainda são crianças e ainda não sabem como é ter a vida nas
mãos hidratadas de uma pediatra de cidade pequena.
Mãe (substantivo, mulher, 42): pessoa de baixa estatura com cabelo fino e escuro que deu à luz
você. Parece um elfo de Tolkien com linhas de expressão. Se não está no trabalho, pode ser
encontrada no quintal de casa, de galochas, colhendo legumes, xingando coelhos por entrar na horta,
consertando rachaduras no barracão e/ ou em casa jogando gravetos para o Cachorrinho buscar. No
inverno, pode ser encontrada no sofá de couro, enrolada em um cobertor.
Harrison (substantivo, irmão, 13): garoto enorme, com braços e pernas finos bons para escalar
árvores, cabelo castanho e cacheado como o meu, e a barriga cheia de macarrão com queijo. Pode
ser encontrado no sexto ano, jogando Minecraft ou ao ar livre, emburrado por não poder jogar
Minecraft.
Bette (substantivo, irmã, 9): versão miniatura da mamãe, mas, até onde sabemos, foi deixada por
alienígenas para examinar nossa espécie. Pode ser encontrada no limite do bosque, construindo
estruturas estranhas com gravetos, no fundo da sala de aula do quarto ano emitindo barulhos
estranhos ou fazendo a lição de casa de matemática do Harrison em troca de balas.
Davienne (substantivo, irmã caçula, 6): outra miniatura da mamãe, mas de estrutura mais robusta,
como Harry e eu. Pode ser encontrada no primeiro ano, a garota mais popular, colando adesivos com
pedrinhas coloridas em tudo. Felizmente para ela, ainda não sabe que o hábito de seus irmãos de
gritar “Surpresa!” toda vez que ela entra em um cômodo tem a ver com o dia em que bisbilhotamos
nossos pais bem quando descobriram que esperavam outro bebê.
Estamos todos aqui porque a dra. Clarkington precisa determinar se estou apta ou não a fazer uma
viagem durante a noite para Boston e participar do torneio nacional de debate no mês que vem, além
de terminar o ano escolar.
A resposta, obviamente, é sim, porque… olhe para mim! Bem, você não pode olhar para mim, Sam
do Futuro, mas não tem nada de excessivamente errado. Claro, às vezes tenho que sacudir as mãos e
as pernas porque ficam dormentes. E meus olhos doem. Mas acho que é só porque leio muito. Além
disso, ninguém precisa de mãos e pernas em um torneio de debate. Apenas memória e voz.
Se a dra. Clarkington disser que estou doente demais, há duas grandes consequências:
1. Se eu não for ao torneio de debate, não posso vencer e,
2. Se eu não vencer, o texto que enviei com a inscrição da NYU (sobre trabalhar com persistência
até a vitória) terá sido uma mentira, e então eu entraria na NYU como uma mentirosa.
Sem contar que toda a minha trajetória no ensino médio terá sido um desperdício. Se não tivesse
passado horas depois das aulas e nos fins de semana na sala de política, a essa altura eu poderia ser
uma garota popular com vida sexual ativa. Além disso, já nasci com esse sangue de competidora.
Sempre quis vencer. Na primeira vez em que Harrison ganhou de mim no xadrez (este ano), me
obriguei a jogar apenas damas como castigo. Bom, não é só isso.
Se eu não puder terminar as aulas, minhas notas vão cair.
Se minhas notas caírem, Hanover vai reconsiderar meu status como oradora da turma.
Se não me deixarem ser oradora da turma, meus pais vão se dar conta de que estou perdendo o
controle das coisas… e podem não me deixar ir para a faculdade.
Se eu não puder ir para a faculdade, eu… Na verdade, nem cheguei a considerar essa
possibilidade. Nem imagino o que vou fazer. Provavelmente vou fazer a Trilha dos Apalaches só com
um casaco e um pouco de carne seca com a esperança de começar uma vida nova em alguma parte do
Canadá.
Tem uma parte de mim que quer ser extraordinária. Como se eu quisesse acreditar que, com
empenho e boas ideias, cada um pode ser o que quiser. Como Stuart, por exemplo.
Imagine o horror que seria se eu fosse proibida de ir à escola e o encontrasse em algum lugar e,
por algum milagre, falasse com ele sem cair em devaneios psicodélicos.
Sammie: Ah, oi, Stuart. O que é isso? O livro novo da Zadie Smith?
Stuart: Oi, Sammie. Uau, sim. É incrível. E olhe só para você! Você está maravilhosa. Parece mais
madura com esses óculos.
Sammie: Obrigada. Você também não está nada mal.
Stuart: O que anda fazendo? Vai debater em um dos torneios de maior prestígio do país, não é?
Sammie: Não, não vou.
Stuart: Ah, sério? Que pena! E o que vai fazer então?
Sammie: Ah, só vou, você sabe… Ficar doente. Ficar doente por aí.
Isso não pode acontecer.
Acabei de propor que parássemos na cooperativa para comprar um grande buquê de flores para a
dra. Clarkington, mas minha mãe simplesmente me encarou como se dissesse: “Não era para você ser
a inteligente da família?”.
Também me sinto meio idiota porque estamos com nossas roupas boas para ir à crisma do Harrison
em seguida. Eu disse à minha mãe que parece que nos arrumamos para ir ao médico e que isso era
idiota.
Minha mãe suspirou:
— Você pode, por favor, me deixar em paz para sair em público sem uniforme?
— Mas é como se você usasse pijama o dia todo, isso é legal — eu respondi.
E ela retrucou:
— Algum senhor já te mostrou uma verruga nas costas na fila do mercadinho por achar que você
era enfermeira?
— Touché.
A mamãe ainda não é enfermeira, por sinal, Sam do Futuro. Ela continua trabalhando na recepção
do Centro Médico Dartmouth.
Ainda esperando.
Mensagem de texto da Maddie: Onde você está?
Eu: Volto a tempo do treino.
Lembro vagamente de uma citação de um dos meus teóricos preferidos, Noam Chomsky — algo
sobre otimismo como uma estratégia, não apenas um sentimento. Se você não acreditar que o futuro
vai ser melhor, então não vai agir para melhorá-lo. Parece piegas, mas existe outra palavra para
pieguice: sinceridade.
E, além disso, Maddie já gastou o dinheiro que tinha ganhado de aniversário para comprar
terninhos em cores correspondentes para usarmos no torneio nacional de debate — azul-marinho para
mim, lilás para ela —, e eles são incríveis. (Vou pagar o meu quando vender uns livros do Platão
para algum calouro da Dartmouth com cara de chapado que possa acreditar que eles são necessários
para a aula de introdução à filosofia.)
Também ganhamos uma matéria no jornal da escola. O jornal oficializa tudo. O que eles teriam que
fazer? Publicar uma errata dizendo que Sammie McCoy não vai mais competir e será substituída por
Alex Conway?
Sim, é exatamente isso que fariam.
Ai, meu deus, quero dar um soco na parede.
O Debate da Costa Leste, principal blog de notícias sobre debate nas escolas da Costa Leste,
disse que eu e Maddie somos “a dupla a ser vencida”. Quem forma essa dupla sou eu e a Maddie e
não a Maddie e Conway.
Alex Conway nem tinha começado a estudar política até o ano passado! Aquela idiota era a
Dinamarca nas simulações da ONU.
Eu disse que sou competitiva.
Ai, meu Deus, a enfermeira acabou de chamar meu nome. Tchau.
(Harrison, eu te amo, mas se você pegar meu notebook e ler isso, vou contar para a mamãe e o
papai que você acorda às duas da manhã todo dia para jogar Minecraft.)
Não tão doente assim, ou como evitar aparecer na
internet usando camisa de estampa tropical

Oi.
No momento, estamos indo para a igreja, e minha mãe está completamente calada.
Depois de me examinar, a dra. Clarkington ligou para o especialista de Minnesota no viva-voz
enquanto falávamos sobre o futuro. Ele é geneticista. É um homem de meia-idade, natural de
Minnesota, afável e esquecível, como maionese. Ou talvez isso seja só o que digo a mim mesma,
porque quero esquecê-lo. Sua voz no alto-falante parecia uma daquelas gravações de aeroporto.
Olhamos juntos o site para famílias que precisam lidar com Niemann-Pick tipo C. Há clubes para
crianças pequenas que têm a doença, onde elas fazem coisas divertidas. Vi fotos de seus rostos
felizes e retorcidos em um encontro na Pensilvânia, todas vestindo camisas com palmeiras e tomando
bebidas tropicais, algumas em cadeira de rodas.
Agi de maneira um pouco babaca, dizendo que nada daquilo parecia muito divertido e que
divertido mesmo seria vencer o torneio de debate. Em seguida, fizeram praticamente um
interrogatório para determinar se deveriam permitir que eu continuasse indo à escola.
E se a fala arrastada te impedir de falar durante as aulas? A incapacidade de formar palavras
está entre os riscos neurológicos da NP-C.
Eu posso escrever. Vocês sabiam que o poeta Tomas Tranströmer ia tocar piano em vez de fazer um
discurso de aceitação do Prêmio Nobel porque um AVC prejudicou as funções de seu córtex frontal?
E se não conseguir lembrar como voltar da escola para casa?
Até uma criança de dois anos sabe usar o Google Maps.
E se você começar a ter convulsões?
Sem comentários. Não, espere: posso colocar uma colher de pau na boca.
Epilepsia?
Pareço alguém que chegaria perto de luz estroboscópica?
Sintomas de falência do fígado?
Ah, isso poderia acontecer com qualquer um. É só ligar para as autoridades.
E se acontecer no meio do torneio de debate?
Não existem médicos em Boston?
etc.
etc.
Eles cederam com a condição de que houvesse um socorrista presente em todos os lugares em que
eu estivesse, incluindo a escola e o torneio. A maioria dos sintomas — falta de controle muscular e
dores nas pernas (e, de acordo com um vídeo que vi no site, incapacidade de julgar a distância de um
copo de água a sessenta centímetros de mim a ponto de derrubá-lo, como um ator ruim em uma peça
da escola instruído a “derrubar o copo, tentando fazer parecer um acidente”) — vai acontecer de
maneira gradual no decorrer do ano. No entanto, eu poderia ter uma “convulsão” ou “um piripaque” a
qualquer momento (como se minha interação social no ensino médio já não fosse difícil o bastante) e
precisar de assistência médica imediata. Na escola, vai ser fácil, já que toda enfermeira escolar é
socorrista também. Nos outros lugares, o médico disse em tom monótono:
— Você corre um risco.
— Tipo um paramédico com colete fluorescente? O tempo todo? — perguntei, rindo. Eu me
imaginei pedindo para ele guardar meu lugar na biblioteca com as pás do desfibrilador ou para usar a
ambulância no trânsito da região das pousadas no verão quando os nova-iorquinos tiram férias.
— Não, apenas alguém treinado em reanimação cardiopulmonar — respondeu o especialista.
É como se toda vez que eu fosse ao médico aparecesse uma coisa nova com a qual eu tivesse que
lidar. Fiquei me perguntando se alguma daquelas crianças debilitadas teve que passar por isso
também ou se já estavam em estágio tão avançado da doença que os médicos não podiam fazer nada.
Era exaustivo, como se eu tivesse que tentar justificar a droga da minha existência.
Além de tudo, ele lembrou a todos: NP-C é sempre fatal. A maioria das crianças com NP-C morre
antes dos vinte anos (muitas morrem antes dos dez).
(Vamos parar para absorver a profunda e completa tragédia que é tudo isso.)
Certo, perfeito. O que as pessoas que estão completamente ferradas precisam fazer? Ficar olhando
pela janela, sem esperança? Não sou boa com sentimentalismo. Vamos em frente.
Então. Então, agora as coisas começam a ficar interessantes. O especialista disse que o
aparecimento tardio dos sintomas pode levar a uma expectativa de vida mais alta. É extremamente
raro alguém da minha idade ter a doença. Ou, pelo menos, ele nunca havia tratado nenhum caso até
então. Isso significa que, por eu ser mais velha, meu corpo consegue combater a doença com mais
facilidade. Mesmo os médicos menos especializados concordavam com isso. Que sorte. Bem, ele já
tinha dito esse lance sobre a expectativa de vida para mim e para a minha mãe na Clínica Mayo. Eu
só queria que a dra. Clarkington ouvisse da boca dele.
Antes de voltar para a sala de espera, onde meus irmãos estavam, minha mãe e eu nos abraçamos
apertado no corredor. Eu a espremi com todos os meus músculos. Depois, ironia das ironias, vomitei.
Acho que não teve nada a ver com a NP-C, mas com o meu nervoso.
Mas, de qualquer modo, conseguimos a aprovação. Conseguimos o atestado. Estávamos de volta à
ativa. Expectativa de vida maior, meu amor! E agora, hein? Qual o seu argumento? PODE MANDAR.
Eu realmente preciso superar tudo isso até chegar à NYU. Se sou a única da família a acreditar que
posso me recuperar, então tenho que me afastar da negatividade dos outros. Meus pais estão
pensando pequeno, Sam do Futuro. Minha mãe está perguntando à médica sobre opções de
“cuidadora” e compra de medicamentos controlados. Eles estão se preparando para o pior. Como o
sr. Chomsky diz, o otimismo gera responsabilidade. Não estou me iludindo: sei que estou doente.
Mas não vou me preparar para o fracasso.
Vou conseguir fazer tudo, vencer o torneio, ir para Nova York e pensar no que fazer depois.
E você precisa me ajudar.
A vingança de Cooper Lind

A igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro fica em Bradford, a apenas trinta minutos de carro
de Hanover, em uma das regiões mais planas do Upper Valley. É angulosa e bela e branca, como a
maior parte de seus frequentadores. Ali, nesta mesma noite, Harry se declarou soldado de Cristo para
o resto da vida, o que faz muito sentido ser declarado por alguém que tem treze anos (só que não).
Principalmente por alguém que tem treze anos e escolhe são Tiago (também conhecido como
Santiago) como santo padroeiro porque Santiago é o personagem principal do Rainbow Six, jogo de
videogame de tiro. Muito cristão.
A pequena Taylor Lind assumiu seu lugar ao lado dele no negócio de veludo para ajoelhar durante
a cerimônia do sacramento, com seus fios de cabelo loiro presos num delicado rabo de cavalo lado a
lado com os cachos de Harrison, no canto próximo à prateleira cheia de velas com a imagem da
Virgem Maria. Exatamente como seu irmão, Cooper, e eu, cinco anos antes. Enquanto assistia ao
padre Frank tocar as bochechas cerimoniais de todos os são Patrícios e santas Cecílias pré-
adolescentes, sacramentando sua condição de católicos, minha mãe pegou minha mão e a apertou.
Aquilo me fez pensar na minha própria crisma…
Eu usei um dos vestidos da minha mãe de sua adolescência nos anos 90, curto, com colarinho e
estampa de margaridas num fundo verde-limão. Meu cabelo estava preso com vários grampos. Os
óculos antigos caíam sobre o nariz, aqueles com armação retangular pequena demais para o meu
rosto redondo e que deixavam meus olhos esbugalhados.
Cooper havia escolhido santo Antônio de Pádua porque era o primeiro nome em uma lista de
santos padroeiros sugeridos.
Eu havia escolhido santa Joana D’Arc, porque sim.
Já estava me perguntando quais santos Bette e Davy escolheriam na vez delas quando, de repente, a
versão musicada da oração de agradecimento soou do enorme órgão no canto, e vi meu pai em pé na
primeira fila com os outros padrinhos, vestindo blazer por cima da camisa de funcionário da
prefeitura de Lebanon. Todos os “e se” que eu tinha ouvido dos médicos começaram a pipocar na
minha cabeça, por exemplo, “e se algo der errado antes que Bette e Davy sejam crismadas?”. Minha
garganta liberou uma tensão que nem eu sabia que estava segurando, e a água salgada se acumulou
nos meus óculos de novo. Tive que abaixar a cabeça para tentar segurar o choro, mas as lágrimas
continuaram caindo, então pedi licença para ir ao banheiro. Bem ali no saguão, por falar no diabo e
em santo Antônio de Pádua, estava Coop.
Cooper Lind (substantivo, pessoa): já foi praticamente um irmão, mas agora estava mais para
irmão distante. Não, mais para um vizinho qualquer. Adônis com as bochechas eternamente
vermelhas. Pode ser encontrado do outro lado da montanha, envolto numa nuvem de fumaça de
maconha, ou na cama com qualquer humano do sexo feminino com idade entre quinze e dezenove
anos. Coop é a outra pessoa de Strafford que conseguiu driblar o sistema e estudar no colégio
Hanover, mas só porque queriam que ele jogasse beisebol.
Eu o cumprimentei com um aceno rápido de cabeça ao passar por ele a caminho do banheiro,
enxuguei as últimas lágrimas e lavei o rosto.
Quando fomos a Hanover pela primeira vez, Coop e eu fomos juntos de carona, inocentes e
preparados e extremamente nervosos, sentados lado a lado no carro da mãe dele, e eu sei lá. Alguma
coisa aconteceu, gradualmente e de uma vez só. Talvez não tivéssemos nada em comum além dos
jogos imaginários de mágica que costumávamos inventar. Talvez tenhamos nos afastado porque Coop
passou a ter pernas longas e musculosas em vez de joelhos gorduchos cobertos de curativos, e porque
seus ombros se alargaram sob a camiseta do Batman, e as maçãs do rosto despontaram em suas
bochechas, e esse desenvolvimento adolescente não aconteceu comigo. Eu era muito esquisita e feia
para ficar perto dele, uma pequena moita ao lado de um carvalho imponente. Coop virou um grande
arremessador e fez amizade com os garotos populares; eu virei debatedora e não fiz amizade com
ninguém. Acho que era para ser assim mesmo, provavelmente. Eu lia livros de fantasia durante os
jogos da Liga Infantil de Beisebol.
No primeiro ano do ensino médio, Coop entrou para a seleção estadual depois de quatro jogos com
arremessos não rebatidos. Então, pouco tempo antes do campeonato interestadual, foi expulso do
time principal de Hanover por fumar maconha. Tenho quase certeza de que sou a única pessoa que
sabe dessa história. No dia em que aconteceu, eu o encontrei na fronteira entre os terrenos de nossas
casas, jogando em seu negócio da Nintendo e com o boné da Hanover. Dava para ver que tinha
chorado.
— O que aconteceu? — perguntei.
Ele tirou a carta de advertência do bolso e me entregou.
— Bem, essa é a consequência — eu disse. Eu tinha dito a mesma coisa quando ele quebrou a
perna depois de pular de um muro alto aos sete anos. Eu ria enquanto lia a carta, como se fôssemos
esquecer daquilo no dia seguinte e voltar a brincar.
Mas, quando tentei olhar para ele e dizer “Ei, estou só brincando, não é nada de mais, sinto muito”,
lembro que não consegui. Seus olhos estavam lá, mas era como se algo tivesse afundado atrás das
pupilas.
Até cheguei a dizer:
— Ei, foi só uma brincadeira. Você vai ficar bem…
Mas ele já estava me dando as costas. Eu me lembro de ter pensado: “Acho que não somos mais
amigos o bastante para esse tipo de brincadeira”.
— Isso é seu! — eu disse em voz alta, ainda segurando a carta. — Acho que você precisa entregar
para os seus pais.
Ele se virou, arrancou o papel da minha mão e saiu andando para o outro lado da montanha. Não
respondeu quando eu chamei, até que parei de chamar.
Na escola, o rumor geral era que ele havia desistido do time, e eu não desmenti. Com o tempo, a
distância entre nós só aumentou: ele mudou de lugar na única aula que fazíamos juntos, comprou sua
Blazer pouco tempo depois e eu fiquei com a picape do meu pai, assim não dividíamos mais carona
para a escola.
Quando saí do banheiro da igreja, não esperava encontrar Coop esperando por mim.
— Você está bem? — ele perguntou, e fiquei meio sem saber se ele estava falando comigo. Ele
olhava para o celular.
— Aham! Tudo ótimo.
Continuei andando, mas ele não voltou para a cerimônia. Olhei para trás e respondi rapidamente:
— Obrigada!
— Ei, espere — Coop disse. — Vou tomar um pouco de ar. Quer ir junto?
— Ah, hum…
Fiquei paralisada e o observei. Coop parecia deslocado na igreja — bem, eu também, mas era
diferente. Pelo menos eu estava de vestido (que, na verdade, parecia uma camisa enorme). Ele vestia
uma camiseta regata com os dizeres CURTINDO A BRISA (e vai saber o que significa “curtindo a
brisa”?) que deixava seus braços de sr. Músculo à mostra e parecia que não penteava ou cortava o
cabelo cor de mel havia tempos, pois estavam altura dos ombros. Mas era o mesmo Cooper cuja casa
eu costumava visitar na hora do almoço depois de brincar a manhã inteira no verão, nadando no lago
e brigando pelo último refrigerante de baunilha na lojinha de Strafford.
— Temos uns… — Coop olhou o celular — vinte minutos.
— Legal.
Fui com ele para fora e seguimos até um círculo de bancos em frente à igreja, à sombra da enorme
cruz branca de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Coop tirou um baseado do bolso.
— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo… — comecei a dizer.
— Amém — Coop completou, acendeu o baseado e rimos um pouco.
Ficamos em silêncio enquanto ele fumava.
Eu não sabia muito bem o que dizer.
— E então, como você está, caramba? — ele perguntou, depois de uma tragada.
— Hum, bem.
— Quer? — ele perguntou, aproximando o baseado de mim.
— Não!
— Tudo bem, não sei, de repente você começou a relaxar um pouco, sei lá… — Coop disse, com
uma risada que saía daquele lugar entre o peito e a barriga, como ele faz quando sabe que ninguém
está achando a piada engraçada.
— Não preciso de erva para relaxar — eu respondi, citando uma propaganda do departamento de
saúde pública, mas também dizendo a verdade.
— Então o que Sammie McCoy faz para relaxar? — ele perguntou.
— Assisto a The West Wing: Nos bastidores do poder. Também gosto de arrumar meu quarto. Às
vezes eu…
— Por que você estava chorando? — ele interrompeu.
— Em primeiro lugar, não me interrompa. Você, de todas as pessoas, devia saber disso.
— O que você quer dizer com… — ele tentou perguntar, mas percebeu que estava me
interrompendo de novo e calou a boca.
— Quanto à sua pergunta, eu estava chorando porque… — Lembrei de tê-lo visto nos corredores
da escola mais cedo, embaixo de uma pirâmide humana de meninas do segundo ano. — Você não vai
querer saber.
— Vou sim.
— Está bem… — Tentei decifrar a expressão dele. — Mas não posso contar.
— Por quê?
— Porque você vai achar que eu, sei lá, estou de TPM ou algo assim.
Coop riu. Mesmo à sombra de refletores, dava para saber que ele estava ficando corado.
É por isso que eu não tenho facilidade para fazer amigos. Jogar conversa fora e coisas do tipo me
dão vontade de abrir um buraco no chão. Então, quando eu falo, minha intenção é que aquilo
realmente signifique alguma coisa. Não sei se, depois de quatro anos, Coop quer realmente saber por
que eu estava chorando ou se quer apenas uma versão mais leve. Mas eu não ia dar uma versão leve.
Não naquele dia.
— Agora eu deixei o clima estranho — afirmei.
— Eu moro com mulheres. Sei o que é TPM.
— Não estou de TPM.
— Você não precisa me dizer.
— Não, eu não preciso.
— Mas eu perguntei.
— Por quê? — questionei.
— Porque tem alguma coisa acontecendo.
— Como você sabe?
Coop deu de ombros e sorriu.
Talvez ele tenha percebido porque já me viu fazer xixi na calça nessa mesma igreja uma vez que o
sermão demorou demais. Talvez porque eu já o vi fazer xixi nas calça uma vez, no carro dos meus
pais, voltando do parque aquático.
Ou talvez porque acabei de sair de uma consulta médica, na qual a doutora apertou todas as partes
do meu corpo com tanta força que deu para sentir sua aliança fria na minha pele, e eu tive que dizer a
ela que, sim, doía quando você apertava aqui e ali e lá. A dra. Clarkington tocou meu pescoço e
minha coluna e minha bunda e meus peitos e meu umbigo e a parte macia entre os ossos do meu
quadril, e me disse como cada parte ia dissolver ou derreter ou endurecer como massinha de modelar
esquecida fora da embalagem, e também disse que já podia ver mudanças no meu corpo.
— Vamos sentar — eu disse. — Podemos sentar?
— É claro que podemos sentar.
Nós nos sentamos e encostamos na cruz.
Eu contei a ele sobre meu dia.
Eu contei sobre o que tinha acontecido dois meses antes, quando descobri que não conseguia
movimentar os olhos para cima, e fui ao médico pensando que era algum tipo de enxaqueca. Contei
sobre as seis semanas de exames, quando estudei a matéria do curso de história europeia avançada
enquanto esperava no asfalto gelado, porque a Clínica Mayo era muito longe, em Minnesota, e
quando disse a Maddie que tinha perdido o treino de debate porque minha tia-avó estava morrendo e
isso era o mais próximo da verdade: minha tia-avó realmente morreu e ela tinha o que eu tenho.
Maddie também não pode saber que estou doente porque, se ela pensar que vou morrer, vai ficar
desconcertada e começar a me dizer que estou fazendo um bom trabalho mesmo que não esteja, e a
opinião dela sobre debate é uma das poucas em que posso confiar. Eu contei a ele que ver Harrison
sendo crismado trouxe à tona todas aquelas lembranças e curiosidade e temor sobre o futuro, que
parecia limitado e difícil, mas não impossível. Contei como agora me sinto mais determinada do que
nunca para conseguir o que quero e quero conseguir logo.
Os olhos de Coop estavam bem vermelhos quando terminei. Para deixar claro: não porque estava
emocionado, mas porque estava chapado, tenho certeza absoluta.
— Que merda, cara — ele disse. Tenho que reconhecer que ele não havia me interrompido
nenhuma vez.
— Então, é isso — afirmei. Eu estava com a sensação de que tinha acabado de vomitar. Talvez
estivesse suando. Mas estava vazia e calma.
Coop assentiu por um segundo, formando palavras.
— Sammie, eu sinto muito.
Ele ficou olhando para o chão. A tela de seu celular acendeu em seu bolso e ele pegou o aparelho.
Li o nome “Katie Gostosa”. Ele ignorou. Mas aquilo bastou para me lembrar de quem éramos agora.
Ele não teria ignorado a ligação se eu não estivesse ali. Não estaríamos naquele lugar se ele não
quisesse fumar maconha. Não era assim que a noite dele deveria ser, nem a minha. Éramos apenas
asteroides chocando-se um contra o outro temporariamente nesse pequeno e estranho vácuo no Upper
Valley, mas nossas trajetórias ainda eram distintas. Não éramos amigos.
— Está tudo bem. — Eu queria que ele fosse embora. Queria que levasse tudo o que eu havia
despejado sobre ele para nunca mais ter que falar sobre aquilo novamente. Katie Gostosa piscou na
tela do celular pela segunda vez.
Apontei para o bolso dele.
— Você pode atender.
— Tá bom — Cooper respondeu, destravando a tela. — Já volto — acrescentou, jogando a ponta
do baseado, de modo que tive que dar um pulo para não ser atingida.
— Desculpe! — ele disse, voltando correndo com o celular na orelha. Ele enterrou a ponta com
seu tênis Adidas.
Enquanto ele ronronava para Katie Gostosa, entrei para acompanhar o fim da cerimônia, e, quando
saímos para ir embora, Cooper não estava mais lá. Foi bom encontrar com ele, porém. O bom e
velho Coop.
Ah, merda. Realmente espero que ele não conte para ninguém sobre o lance da doença.
Ele não vai contar.
Bem, agora já era…
Ele não vai contar.
Argumento positivo para ir à festa de Ross Nervig
na sexta-feira à noite: exploração de hábitos
sociais adolescentes sob o disfarce de preparação
para debate

Boa tarde, Sam do Futuro. O tópico para debate é que Sammie vai a uma festa na casa de Ross
Nervig, sexta-feira, 29 de abril. Definimos os tópicos da seguinte maneira: uma festa é uma reunião
de adolescentes em uma casa onde os pais estão ausentes e o álcool está presente. “Sammie” é uma
garota de dezoito anos que nunca foi a uma festa. “Ross Nervig” é um ex-aluno da Hanover que
sempre dá festas, já previamente definidas. Nós, como equipe de defesa, acreditamos que a
afirmação é verdadeira, e que Sammie vai a uma festa pela primeira vez.
Como primeira e única oradora, vou discutir os benefícios profissionais de frequentar a referida
festa, a possibilidade dos pais de Sammie deixarem que ela vá e a probabilidade de que Stuart Shah
esteja presente na referida festa.
Meu primeiro argumento aborda as condições sob as quais a presença de Sammie na festa foi
solicitada e como o cumprimento da solicitação vai favorecer os objetivos profissionais de Sammie.
Ela almeja vencer o torneio nacional de debate. Durante o treino de debate, Maddie Sinclair
mencionou a festa como recompensa pelo empenho das duas.
Definimos “Maddie Sinclair” como parceira de debate de Sammie há três anos, frequentadora
regular de festas na casa de Ross Nervig e futura aluna da Universidade Emory. Pode ser encontrada
em todas as peças da escola, na Associação LGBT (da qual é líder) e no centro de um círculo de
pessoas envolvidas com teatro e cinema. (Uma vez ela me disse que é como Rufio em Hook: A volta
do Capitão Gancho, o antigo remake de Peter Pan, e todos os seus amigos são Garotos Perdidos.
Para registro, eu procurei no Google, e o cabelo dela — atualmente um moicano vermelho — é bem
parecido mesmo.)
Hoje, Maddie e Sammie estão no banheiro feminino ao lado da sala de política, experimentando os
terninhos que vão usar no torneio nacional de debate. Agora vou disponibilizar a transcrição literal
da conversa delas, em prol do argumento positivo:
Maddie: A forma como minha bunda fica nessa calça me faz querer transar comigo mesma.
Eu: É como se eu finalmente entendesse o que as pessoas querem dizer com “corpo violão”.
Maddie: É verdade! Você está linda, Sammie.
Eu: Estava falando de você. Eu pareço uma caixa.
Maddie: Até parece!
Eu: Sua réplica positiva está incrível. Alex ficava fingindo que ia espirrar, mas você sabe que ela
só estava tentando ganhar tempo.
Maddie: Não é? (olhando para Sammie) Sua conclusão também está perfeita. Estamos prontas.
Eu: Não estamos prontas…
Maddie: Estamos prontas na medida do possível para esse estágio. Acho que podemos cancelar o
treino de sexta-feira.
Eu ( prevenida): Maddie…
Maddie: Tudo bem.
Eu: Você pode. Eu não.
Maddie: Não, tudo bem.
Eu: Por quê? Você tem algum outro compromisso?
Maddie: Ross Nervig vai dar uma festa e quero fazer um esquenta.
Eu: Tudo bem. Você pode ir. Posso estudar outras coisas amanhã.
Maddie: Você quer ir?
Eu: Não.
Maddie: Vamos.
Eu: Não, obrigada.
Maddie (me encarando com os olhos quase fechados, pensando em um argumento): Precisamos
criar laços de amizade.
Eu: Isso é amizade.
Maddie: Isso é um banheiro na escola, perto da sala de política. Precisamos ser menos
institucionalizadas. Precisamos estar no nível uma da outra. Precisamos sentir o ritmo uma da outra.
Eu: …
Maddie: Você discorda?
Eu: Não discordo, mas meus pais nunca vão me deixar ir.
Maddie: E se deixarem?
Eu: Eles não vão deixar.
Maddie: Ignore as condições e reconheça o desejo.
Eu: Você está parecendo um pôster motivacional.
Maddie: Está vendo? Isso! Seus comentários! Você, no fundo, é engraçada.
Eu: Não sou engraçada só “no fundo”. Sou engraçada na superfície.
Maddie: Pessoas que precisam se rotular de “engraçadas” não são engraçadas.
Eu: Não é verdade.
Faz-se um silêncio entre nós, em que reconhecemos que era verdade.
Maddie: Eu quero te ver beber! É sério, você provavelmente não acredita nisso, mas pessoas
inteligentes são as que mais sabem se divertir.
Eu: Prove.
Maddie: Não! Sabe por quê? (Fingindo limpar o ombro.) Só quero relaxar com você. Só quero
que a gente relaxe para que eu não fique com a sensação de que sempre tenho que estar superbem
preparada perto de você. Entende o que quero dizer?
Eu: Acho que sim. Eu te deixo estressada?
Maddie ( pausa): Mais ou menos. Você é muito intensa.
Eu: Não é problema meu.
Maddie: Vai ser se eu começar a te odiar e quiser largar a equipe de debate.
Eu: É verdade.
Maddie: Além disso, posso falar para a minha mãe que vou passar a noite com você, assim não
vou ter hora para voltar.
Eu: Fale que vai ficar na casa da Stacia!
Eu entro em um cubículo para trocar de roupa.
Maddie (do lado de fora): Você sabe que não posso dizer para a minha mãe que vou passar a noite
na casa da Stacia porque ela nunca acreditaria. Stacia é como um ratinho que mora em uma cabana de
ratinho, e acho que ela nunca se assumiu para os pais.
Eu: Ah.
Maddie: Você não precisa ir à festa. Eu só falei por falar.
Eu saio do cubículo. Maddie nunca me pediu esse tipo de favor. Estou curiosa e não quero que
ela me odeie ou fique estressada perto de mim. (Nota: só espero que interação social forçada não
piore essa situação.)
Eu: Tudo bem, nós vamos.
Maddie: OBA!
Maddie dá um tapinha na própria bunda e depois na minha.
FIM DA CENA.
Conforme evidenciado, Maddie deseja a presença de Sammie para fortalecer sua parceria e,
assim, aprimorar suas habilidades de debate. A aquiescência de Sammie à questão fará dela uma
debatedora mais eficiente, deixando-a, dessa forma, mais perto de seu objetivo de vencer a etapa
nacional do torneio. Isto posto, ela irá à festa de Ross Nervig.
Meu segundo argumento afirma que os pais de Sammie lhe darão permissão para ir à festa porque
Maddie é socorrista, assim como companheira de debate. Devido à situação de saúde de Sammie,
para conseguir a permissão dos pais para ir a qualquer lugar, ela precisa pensar em condições e
precauções para evitar a própria morte (obrigada, dra. Clarkington!).
Sammie também pode dizer a seus pais que vai a uma festa da equipe de debate. Historicamente,
festas da equipe de debate significam refrigerante e jogos de tabuleiro no porão de Alex Conway, o
que não representa uma ameaça de morte tão evidente como uma festa tradicional “sem pais e com
álcool”. No entanto, como Sammie vai à festa de Ross Nervig com Maddie, tecnicamente é uma festa
da equipe de debate, então ela não estaria mentindo.
Porque vai estar na presença de uma salvadora de vidas treinada e vai, para todos os efeitos, a
uma “inofensiva festa da equipe de debate”, Sammie terá a bênção de seus pais e, dessa forma,
Sammie irá à festa de Ross Nervig.
Meu terceiro e último argumento é simplesmente uma cópia da mensagem de texto que Maddie me
mandou há apenas alguns minutos:
Maddie Sinclair: Eeeeeeeeee
Maddie Sinclair: Adivinha o que fiquei sabendo?
Maddie Sinclair: Seu antigo crush vai estar lá
Eu: Quem?
Maddie Sinclair: Stuart Shah
Assim, Sammie vai à festa de Ross Nervig na sexta-feira, 29 de abril.
A festa inesperada

É por isso que estou arrependida:


Stuart Shah está vindo para cá, para a casa de Maddie, para este mesmo quarto, para irmos todos
juntos para a festa. Ela simplesmente decidiu soltar essa pequena bomba quando sua mãe saiu com o
carro da garagem.
Stuart é amigo de um amigo, Maddie me disse.
Stuart ficou superpróximo de Dale quando Dale foi o Rosencrantz do Hamlet de Stuart.
E Dale é amigo de Maddie.
E Dale e Stuart estão vindo para cá.
Meu estômago está girando como uma máquina de lavar.
Mais cedo, pegamos meus irmãos na escola e esperamos meu pai chegar de seu trabalho como
podador de árvores. Enquanto eu preparava um espaguete rápido para o jantar, Maddie ficou
brincando com minhas irmãs no quintal.
Bette perambulava ao redor, gritando perguntas, e Maddie gritava as respostas ao mesmo tempo
que jogava um frisbee para Davy e/ ou para o Cachorrinho, quem conseguisse pegar primeiro.
Depois veio a questão do certificado de socorrista. Maddie ainda não sabia que eu estava doente
e, como ela podia pensar que eu não seria capaz de participar do torneio nacional, era preciso que
continuasse sem saber.
Então eu dei uma de James Bond. Enquanto Maddie estava lá fora, perguntei se ela tinha um
chiclete. Ela apontou para a bolsa e disse que eu mesma podia pegar. Mexi na bolsa dela. Em vez do
chiclete, peguei o cartão de socorrista certificada pela Cruz Vermelha em sua carteira e o guardei no
bolso da calça. Enquanto o espaguete cozinhava, fui até o computador da família, fiz uma cópia do
cartão e o guardei de volta na bolsa dela.
Meu pai chegou. Fui até o quarto com ele, contei meus planos e mostrei a cópia do certificado.
Ele fingiu analisar com muita atenção, como se realmente soubesse o que estava fazendo. Até
colocou os óculos bifocais, levou o papel até a mesa onde eles guardam as contas e o observou sob a
luz. Eu fiquei meio “que bonitinho, pai”.
Depois de mandar uma mensagem para a minha mãe, fomos para a casa de Maddie em Hanover,
onde eu disse para a mãe dela, Pat, que, sim, Maddie passaria a noite comigo e, dessa forma,
chegaria em casa depois do horário combinado.
Maddie estava atrás dela, e ergueu os polegares para mim sem que a mãe pudesse ver, o que me fez
sentir descolada e rebelde. Pat nos deu um beijo na bochecha e saiu para jantar com os amigos de seu
clube do livro.
O quarto de Maddie tem o cheiro que eu acho que deve ter em Lothlórien, o reino dos elfos em O
Senhor dos Anéis. Tipo madeira queimando e lavanda e um pouco de terra. Ela tem plantas
penduradas em todo canto, suculentas em pequenos terrários de vidro enfileirados perto das janelas,
em cima da mesa e na cômoda, além de uma árvore pequena em um grande vaso de cerâmica. Os
alto-falantes de seu aparelho de som ocupam quase um terço da parede. O som de sintetizadores
domina o ambiente e ela vai e volta do banheiro descalça, usando short e regata, de toalha na cabeça.
O plano era fazer um esquenta e sair para a festa antes das dez, quando Pat voltaria para casa. Esse
era o plano. Stuart não fazia parte do plano. Eu só ia observá-lo de longe na festa e, se ele me visse,
já seria o suficiente. Agora ele vai estar no mesmo cômodo que eu. Onde sou uma das outras três
pessoas. Onde não posso simplesmente esperar que ele me note. Onde ele vai ter que me notar, e vou
ter que reconhecer que ele me notou. Vou ter que fingir que não tenho uma queda por ele desde a
primeira vez em que o vi. Talvez até tenha que descobrir se realmente quero que ele também tenha
uma queda por mim ou se só quero incluí-lo em uma lista de pessoas inteligentes com quem eu ficaria
se tivesse a oportunidade.
Uma vez, logo depois que o primeiro texto dele havia sido publicado, eu tinha ficado na escola até
mais tarde para falar com a srta. Cigler sobre um trabalho, e Stuart entrou na sala para assistir à aula
seguinte. Ele sentou e começou a rabiscar rapidamente em uma folha de caderno, olhando toda hora
para um livro que segurava aberto, fazendo a tarefa de casa no último minuto.
Eu poderia ter dito alguma coisa bem simples. Tipo “oi”. Ou “parabéns”. Em vez disso, disse em
voz alta para a srta. Cigler:
— Obrigada, srta. Cigler. Eu não tinha considerado interpretar essa passagem desse jeito.
Acho que esperava que ele levantasse os olhos e perguntasse: “Que passagem?”.
E eu diria qual era, e ele comentaria: “Você tem uma beleza pouco convencional. Vamos conversar
sobre isso algum dia”.
Mas eu queria que ele achasse que eu era inteligente antes de me achar bonita, porque eu sabia que
ninguém me acharia bonita, então simplesmente continuei falando sobre o livro cada vez mais alto,
até que a srta. Cigler disse:
— Minha próxima aula vai começar.
E ele nem tirou os olhos da tarefa.
Era nesse nível que eu estava preparada para interagir com Stuart. Falando alto com outras pessoas
enquanto ele estivesse na sala. Ai, meu Deus.
Pulsão de morte

Quando Maddie saiu do banheiro, voltou com o cabelo molhado preso numa toalha e uma garrafa de
vidro verde com gim.
— De que cor está o seu cabelo agora? — perguntei.
— Vermelho um pouco mais escuro — ela respondeu. — Menos Ariel, mais Rihanna na época do
Loud.
Juntei meus cachos em um rabo de cavalo e me olhei no espelho atrás dela.
— Que música é essa? Isso não é Rihanna.
Maddie riu.
— Não, não é. — Ela tirou a toalha da cabeça e jogou de lado. — É The Knife.
Soltei o cabelo de novo.
— Quanto tempo eles vão demorar para chegar?
Ela pôs um pouco de gel nas mãos.
— Sei lá. Talvez uma hora.
— Quem vai dirigir?
Maddie arrepiou os cabelos.
— Dale não bebe e vai dirigir meu carro.
A imagem de Stuart caminhando na estrada passou pela minha cabeça. Desabotoei um botão da
camisa para mostrar um pouquinho da parte de cima do peito. Depois, a ideia de sentar ao lado de
Stuart, encostando as pernas nas dele, me deixou paralisada. Fechei o botão.
— Sammie — Maddie chamou e eu olhei para ela. — Relaxe.
— Esse é o pior jeito de fazer alguém relaxar.
— Dá para ouvir você rangendo os dentes.
— Faço isso quando estou me concentrando! — eu argumentei, e é verdade. — Você não quer que
eu me concentre na tarefa que vem aí?
— Sabe de uma coisa? — Ela abriu uma gaveta do criado-mudo e tirou um baralho. — Vamos
jogar.
Senti meus músculos relaxarem um pouco. Jogos significavam competir. Eu gosto de competir. E
de vencer.
— Que jogo?
Maddie dispôs as cartas de baralho à minha frente, no chão, e me entregou a garrafa de gim.
— Chama “Enfiando o pé na jaca”.
— Como se joga?
Maddie apontou.
— Puxe a primeira carta.
— Rainha de copas.
— Pode beber.
Eu bebi.
— E agora?
— Puxe outra.
— Só isso?
— O jogo é assim.
— Isso não é…
Ela levantou as mãos.
— Muita falação sobre o jogo acaba com o objetivo dele.
Maddie é a única pessoa que deixo me interromper. Não sei por quê. Porque sempre gostei de
escutar o que ela tem a dizer. Revirei os olhos e bebi.
— A Stacia também vem? — perguntei.
Maddie encolheu o abdômen diante do espelho.
— É melhor que venha.
Stacia é “alguma coisa” da Maddie. Maddie me disse que não chama Stacia de namorada porque
não acredita em monogamia, mas eu acho que também é porque Stacia não tem certeza absoluta de
que gosta só de meninas. Stacia é baixinha, tem lábios vermelhos, olhos enormes e uma voz
sussurrada. Ela pinta os cenários de todas as peças, e todos já se apaixonaram por ela em algum
momento. Incluindo um professor, que foi demitido por isso.
Maddie — por ser Maddie — foi a única que conseguiu fazer Stacia retribuir o sentimento.
Ela vestiu uma regata preta sobre um top esportivo. Eu fiquei ao lado dela. Eu estava usando uma
camisa do meu pai, uma legging preta e Keds. Olhei meus lábios pálidos, minhas coxas grossas,
minha bunda, minha cintura invisível por baixo da camisa larga.
— Eu gostaria de ter características consideradas atraentes.
— De acordo com quem?
— De acordo com… — Eu ri um pouco. Ela estava solicitando fontes.
Maddie puxou a carta seguinte do baralho.
— Três de ouros! Não importa. — Ela jogou a carta de lado e tomou uma dose de bebida. Nós
rimos. Eu tinha que admitir: “Enfiando o pé na jaca” fazia jus ao nome.
— Bem, então… — comecei a dizer, ainda pensando nas fontes que daria a ela. A beleza de
Maddie era evidente e nada tradicional e ia contra o que eu estava dizendo. Então, concluí: — … de
acordo com a aparência média das pessoas por quem outras pessoas se sentem atraídas.
Abertamente. Quer dizer, daria para fazer uma pesquisa na Hanover…
— Você pode passar o dia discorrendo sobre o que há de errado em você ou simplesmente mandar
todo mundo à merda e aproveitar a vida.
— Para você, é fácil dizer — murmurei.
— O que foi?
— Eu disse que, para você, é fácil dizer. Você é segura como um elefante em uma loja de
porcelana — respondi. Maddie franziu a testa. — Mas um elefante bem, bem, bem coordenado.
Ela gargalhou e tomou outro gole direto da garrafa, passando-a para mim. Puxei uma carta.
— Ás de espadas.
— Legal! — disse Maddie. Eu joguei a carta do outro lado do quarto. Ela continuou: — Você já
parou para pensar que posso parecer segura porque você praticamente só me viu em situações que
exijam que eu seja segura?
Era verdade. Treino de debate. Rodadas de debate. Peças da escola. Escola em geral.
— Entendo o que você quer dizer — respondi, levando a garrafa à boca. Dei alguns goles,
sentindo a queimação na garganta.
Enquanto eu bebia, ela voltou para a frente do espelho para passar delineador.
— Tipo, para mim, toda situação exige toneladas de segurança, sabe?
— Claro.
Maddie havia raspado a cabeça aos catorze anos. Quando nos conhecemos, ela tinha acabado de
ser suspensa por dar um soco num cara que a chamou de sapatão. Tinha entrado para o grupo de
debate porque sua mãe disse que precisava diversificar as atividades extracurriculares e não se
dedicar só ao teatro. Em uma semana, ela já estava na equipe principal. Ah! Depois acabou fazendo
amizade com o cara que tinha socado e o convenceu a participar da Associação LGBT como aliado.
Ela tinha namorado pelo menos duas meninas da nossa escola e também uma aluna da Dartmouth.
Depois de tirar uma carta, Maddie bebeu e entregou o baralho para mim.
— E você também está em uma batalha com forças externas. Então tenha coragem.
— Nove de paus. Mas eu não sei, Maddie. Acho que é diferente. — Bebi da garrafa e devolvi o
baralho e a bebida para ela.
— Bem, estamos lutando contra forças um pouco diferentes, é verdade. Você não é lésbica. Mas
estou falando sério, Sam. Você está se criticando sem motivo.
Bem, eu não estava me criticando sem motivo. Pensei nos analgésicos que havia deixado de tomar
porque sabia que ia beber. Pensei em sacudir as mãos quando ela virou de costas, para amenizar a
dormência.
— Mas…
Ela se levantou.
— Já cansei de discutir com você. Dale, Stuart e Stacia estão a caminho. Então, se quiser ir
embora, vai ter que voltar para casa sozinha.
Maddie foi até o aparelho de som, tomou um gole de bebida e começou a dançar. Ela levantava os
joelhos e jogava o quadril para o alto e balançava o moicano de um lado para o outro. Era como se
eu nem estivesse ali. Minha cabeça começou a se agitar. Eu evitava essas situações por um motivo:
era fácil estragar tudo. Não havia resposta certa e, à exceção daqueles filmes românticos idiotas para
adolescentes, não havia regras sobre como as coisas deveriam acontecer e eu não tinha controle
sobre nada do que acontecia fora do meu corpo.
Na verdade, naquelas circunstâncias, eu nem tinha controle sobre meu corpo. Ele me odiava.
Maddie havia aumentado a música até o volume máximo. Minha boca estava com gosto de
pinheiro.
Comecei a pensar na teoria de Freud sobre a pulsão de morte, a ideia de que organismos poderiam
se opor à vida intencionalmente — a ideia de que a evolução poderia andar para trás — e, em vez de
amar e viver, as pessoas poderiam querer se autodestruir. Mas eu, por acaso, conheço uma forma
diferente segundo a qual a morte pode agir na vida das pessoas.
Eu sei que isso é sombrio, Sam do Futuro, mas há algo de libertador em pensar na morte. Eu não
achava que ia morrer bem naquela hora, no quarto da Maddie, e não tinha nenhuma vontade de
morrer, mas, quando você se dá conta de que está perto da morte — quando ela é muito real —,
sentir medo de coisas muito menores, como pessoas e festas e Stuart Shah… tudo isso parecia bobo.
Eu tenho uma oponente maior e mais impiedosa.
— Certo — eu disse, e Maddie se virou. Peguei a garrafa da mão dela e tomei um gole, seguido de
um pouco de água com gás. — Vou fazer isso. E sabe o que mais?
Maddie estava dando socos no ar.
— O quê?
Eu me levantei.
— Nós vamos ganhar o torneio nacional.
— Isso! Vamos!
Comecei a me mexer de um lado para o outro com ela, na minha melhor tentativa de dançar.
Então senti uma onda de carinho por Maddie, Sam do Futuro. Um tipo de carinho que eu só tinha
sentido antes pelos meus irmãos, pelos meus pais e por pessoas em quem eu confiava. Eu não ia
voltar para casa sozinha. E eu não ia ser um peso morto. Como Maddie havia dito, nós precisávamos
uma da outra.
Peguei as cartas do chão e as joguei para o ar.
— Eu ganhei?
Maddie sorriu. Seus olhos castanhos se iluminaram sob os cabelos vibrantes.
— Todo mundo ganhou.
Roy, Roy, Roy

Depois de mais algumas músicas, quando eu estava começando a me sentir leve e quente e mais ou
menos bonita, ouvi que eles subiam as escadas, rindo. Desabotoei o botão de cima. A porta abriu e lá
estava Stacia, uma fada pálida de macacão, lá estava Maddie, agora de cabelo vermelho vivo seco,
puxando Stacia pelas mãos com seus braços esguios, lá estava Dale, com suas sardas vibrantes e
camisa vintage por dentro da calça de poliéster, e lá estava Stuart.
Ele não estava de preto como sempre. Estava de cinza. Jeans cinza e moletom cinza. A pele
parecia mais escura do que eu lembrava, marrom-escuro, e o cabelo preto estava igual, curto e
antiquado.
— Oi! — ele disse de imediato.
— Oi! — respondi. Mimetismo, lembro de ter pensado. Basta imitar o modo de falar de todo
mundo e você vai se sair bem.
— Oi, Sammie — Stacia disse quase em um sussurro, sentando no chão do quarto de Maddie.
— Samantha — Dale disse com um tom robótico, um sotaque meio britânico. — Samantha McCoy,
a governante do colégio Hanover.
— Governante? Como assim? — Então, para parecer um pouco mais simpática, eu soltei um
“haha”.
— A imperadora! — Dale respondeu, retorcendo os dedos.
A oradora. Contive o instinto de corrigi-lo e lembrei a mim mesma o que significava uma piada e
que as pessoas faziam piadas.
Maddie olhou para mim com o esboço de um sorriso e disse:
— Stu, você conhece a Sammie?
— Na verdade, não — Stuart disse, sentando ao lado de Stacia e estendendo a mão. — Lembro de
você, mas acho que nunca fomos apresentados.
“Lembro de você”, ele disse. Apertei sua mão. Tinha o formato e a textura de uma mão humana,
mas quase me queimou.
— Verdade — eu disse e, quando recolhi o braço, senti o sangue pulsar com força.
Ele ainda estava olhando para mim. Maddie e Stacia passaram a garrafa. Dale foi trocar a música.
— Lembrei! — ele continuou. — Você era aluna da srta. Cigler quando eu estava no último ano.
Ela leu seu ensaio sobre As aventuras de Huckleberry Finn para nossa turma. Ela falou: “Vejam só
essa aluna do segundo ano. É melhor vocês se dedicarem mais”.
— Hum — eu murmurei, acenando com a cabeça. Lembrava vagamente da srta. Cigler ter pedido
para ler o ensaio, mas achei que seria para a outra turma do segundo ano. A ideia de que Stuart podia
admirar meu trabalho me dava arrepios. Eu queria perguntar para ele sobre o que andava escrevendo
ou se estava gostando de estar de volta a Hanover, mas, quando decidi a pergunta e comecei a
elaborá-la corretamente, Maddie já estava passando a garrafa para ele.
Stacia começou a se mexer no ritmo da música, balançando os brincos compridos. Maddie puxou
cada um deles de leve.
— Ai! — Stacia exclamou e riu. Ela deu um peteleco no moicano de Maddie. Maddie levantou as
sobrancelhas e olhou para mim. Eu descruzei os braços.
Stuart examinou o quarto.
— Quem está tocando? — ele perguntou a ela.
— The Knife — respondi antes de qualquer um.
Stuart assentiu e deu um sorrisinho, como o que os atendentes da cooperativa dão para minha mãe
quando ela pergunta como está o dia deles num período muito movimentado. Queria dizer: “Apenas
me deixe fazer meu trabalho”. Quando ele voltou a olhar para mim, apenas por um segundo, eu
aproveitei a deixa.
— Você está morando em Nova York? — perguntei.
— Estou. Eu amo aquele lugar. Talvez até demais.
— Eu também — eu disse. — Bem, vou morar lá também, ano que vem.
— Ah, é?
— Vou estudar na NYU.
Ele arregalou os olhos.
— Parabéns.
Quando ele terminou de falar, não consegui evitar e fui intensa.
— O que você ama em Nova York?
Ele inclinou a cabeça.
— Meu Deus, que pergunta! Bem, tem as coisas que todo mundo ama, tipo a história, a vida
noturna, sei lá. Mas tenho a impressão de que você quer saber o que eu, especificamente, amo na
cidade, mas não paro para pensar nisso há muito tempo.
— Sim, é exatamente o que quero saber — eu disse, e tomei um gole de bebida. Ele estava
correspondendo à minha intensidade. Talvez também não gostasse de jogar conversa fora.
Ele olhou para o teto, pensando. Tinha um pescoço longo e liso. Finalmente, levantou a mão, como
se segurasse a resposta.
— Eu amo tudo e todos de uma vez. Amo ficar na parte elevada da linha Q ou R do metrô. As
janelas dos andares mais altos dos prédios ficam na mesma altura, a poucos metros de você, e você
está bem ali, tão perto da vida de outra pessoa. Ou quando as pessoas brigam ou se beijam no metrô,
bem do seu lado. Acho que gosto de estar perto da vida de outras pessoas.
— Sem ter que se envolver com elas — completei.
Ele riu.
— Exatamente. — Fazer Stuart rir era como fazer alguma coisa explodir, como aquela sensação
gostosa de estourar plástico-bolha ou uma bola de chiclete.
Naquele instante, Dale deu um pulo e bateu palmas.
— Certo, últimas doses, seus bêbados. Estou pronto para ir para a casa de Nervig.
No pequeno Toyota de duas portas de Maddie, como num sonho, Stuart e eu acabamos no banco de
trás, um ao lado do outro. A música estava alta, então não dava para conversar. Nossas pernas se
tocavam apenas nas curvas, quando ele estendia o braço no encosto do meu assento e dizia:
— Desculpe.
— Tudo bem — respondia, e olhava pela janela, sentindo a presença do corpo dele ao meu lado.
Eu desfrutaria daquilo enquanto fosse possível. Ele havia passado por muitos lugares. Mas se
lembrava de mim. Eu não tinha feito as melhores perguntas, as perguntas certas para flertar com
alguém. Mas ele se lembrava de mim. O que Stuart havia dito sobre Nova York ficou dando voltas na
minha cabeça: o trem correndo por entre luzes e prédios e um mundo enorme repleto de histórias.
No último semáforo antes de sair de Hanover, a caminho de Norwich, Dale abaixou a música para
pegar as coordenadas com Maddie.
Stuart se inclinou para a frente para olhar pela janela e perguntou:
— Então, onde você mora?
Fiquei tensa, como um coelho que ouve um barulho na horta. Perigo. Mas era um tipo de perigo
bom.
— Strafford — respondi, e notei que não conseguia virar a cabeça sem ficar insuportavelmente
perto da cabeça dele.
— E? — ele perguntou enquanto o carro seguia em frente.
— E? — repeti, esperando que, no escuro, ele não pudesse ver meu sorriso enorme.
— O que você ama em Strafford?
— Ah! — exclamei de imediato. — Não é para tanto.
— Nada?
Acho que ninguém me perguntava algo como aquilo fazia muito tempo também. Pensei no assunto,
sentindo o pico de adrenalina, e abri a janela para respirar o ar que vinha das montanhas. Tinha
cheiro de pinheiro e nuvens e fogueira no quintal. Eu amava aquele cheiro, mas era mais do que
aquilo, era o que ele representava: a ideia de que o ar tinha o mesmo cheiro desde que as montanhas
se formaram e, ainda assim, conseguia ser fresco daquele jeito. Era uma sensação difícil de
compartilhar, não apenas com Stuart, mas com qualquer um. Respirei fundo.
— Isso — eu disse, e apontei para a noite.
— Hum — Stuart murmurou, fechando os olhos conforme o vento chegava ao banco de trás. A
expressão em seu rosto dizia que ele sabia exatamente do que eu estava falando, e o prazer de ser
reconhecida e entendida era como o de dedos descendo pelas minhas costas.
— É. Isso é legal — ele concordou.
Quando entramos no acesso para a casa de Ross Nervig, já dava para ouvir a batida da música
vinda lá de dentro, depois das árvores. Estacionamos atrás de uma fila de carros e seguimos andando
pelo resto do caminho. Dale acendeu um cigarro, Stacia e Maddie deram os braços. A casa ficou
visível: havia pessoas sentadas nas grades da varanda, em grupos no gramado, entrando e saindo da
casa colonial ao lado de uma colina verde, como a minha. Só que dez vezes maior. E cheia de gente
que eu não conhecia.
Comecei a ficar nervosa de novo e tentei estabilizar a respiração.
— Lá vamos nós — murmurei.
Ao meu lado, Stuart escutou o que eu tinha dito.
— Essas festas, né?
— Pois é — falei, balançando a cabeça como se já tivesse estado em um milhão de festas, a ponto
de balançar a cabeça de maneira atônita ao falar delas.
Ele pôs a mão nas minhas costas, apenas por um instante, e eu me contorci com a surpresa.
— Não se preocupe, vai ser divertido.
Ele estava dando em cima de mim? Aquilo era dar em cima de alguém? Ou era apenas interação
humana normal? Eu estava morrendo para perguntar para a Maddie, mas ela já estava correndo pelo
pátio, seguida por Stacia, pulando nas costas de um amigo e rindo enquanto ele a girava.
— Stu-ey, Stu-ey, Stu-ey. — O lendário Ross Nervig nos saudou do centro da varanda, um cara
enorme com uma barba cheia e alaranjada, segurando um copo plástico. — Como está a cidade,
idiota?
Stuart se juntou a ele. Eu encontrei um canto para ficar e fiquei escutando, apertando vagamente a
mão das pessoas a quem Dale me apresentava.
Pelo que pude entender da conversa, Ross era da turma de Stuart na Hanover e lá tinha jogado
rúgbi até se machucar no último ano. Agora, trabalhava na empresa de construção do pai, cultivando
fãs de sua música drone, popular entre os hipsters da Dartmouth. Um eterno residente do Upper
Valley.
Stuart, eu descobri, voltou para cá para finalizar uma coletânea de contos e cuidar da casa dos pais
em Hanover no verão, enquanto eles visitavam a família na Índia.
— Você está saindo com alguém? — Ross perguntou a Stuart. — Ainda está com aquela
dramaturga de pernas peludas?
Quase literalmente estiquei as orelhas até a varanda.
— Não exatamente — ele respondeu.
“Não exatamente” não significa “não”. Significa “sim”, de certo modo. É claro que ele tinha
namorada.
Afastei a ideia da cabeça. Passei os olhos pela multidão em busca de outras pessoas conhecidas,
para quem poderia ficar olhando de maneira desagradável. Eu já havia feito o que tinha que fazer, o
que Maddie me havia desafiado a fazer. Tinha falado com ele.
Mas ainda não sentia que tinha vencido.
Segui Dale até o interior da casa, olhei para trás rapidamente, para Stuart, que me viu, mas logo
desviei o olhar. Tudo bem, tudo bem, repeti para mim mesma e observei a gigantesca sala de
madeira, repleta de garotas magricelas e jogadores de beisebol tirando fotos de si mesmos. É isso
que as pessoas fazem em festas? Ficam por aí tirando fotos de si mesmas para provar que estiveram
em uma festa? Eu estava com meu notebook na bolsa e, por um instante, considerei pedir a senha do
wi-fi para Ross.
Uma cadeira perto da estante ficou vaga, mas, antes que eu pudesse sentar, ouvi meu nome em meio
aos sons agudos e graves.
— SAMMIE MCCOY!
Coop, o bom e velho Coop, estava se debatendo contra outros corpos, com um copo de plástico na
mão e o cabelo loiro escuro preso num coque suado.
— SAMMIE MCCOY! — ele gritou novamente, e então as pessoas seguiram seus olhos na minha
direção. — A MULHER DOS MEUS SONHOS.
Nossa.
— Um simples “oi” bastaria — murmurei.
Pensei em quando éramos mais novos, quando ele enlouquecia sempre que uma de nossas mães
fazia cachorro-quente. Toda vez que tinha cachorro-quente no almoço, Coop subia na cadeira,
fechava os punhos e gritava: “Cachorro-quente! Cachorro-quente! Cachorro-quente!”, como se
tivesse ganhado na loteria. Ele se empolgava com facilidade.
Ele me envolveu em um abraço desagradável. Sua fala estava arrastada.
— Nunca, em toda a minha vida, pensei que veria Samantha Agatha McCoy em uma festa. Nunca
na vida.
— Bem, aqui estou eu! — Eu me desvencilhei do abraço. — E você lembra qual é meu segundo
nome — acrescentei, mas ele não ouviu.
— Sabe… — ele começou a dizer para mim, depois se dirigiu à multidão. — Sabiam que eu
sempre quis ficar bêbado com essa garota?
— Que coincidência — eu disse, revirando os olhos.
— A vida toda — ele disse de maneira quase solene. — Essa garota é minha amiga de infância.
Somos da mesma montanha — ele disse a um aluno do primeiro ano desinteressado que passava por
nós. — Minha amiga de infância! — ele repetiu e me pegou pelos ombros, arregalando os olhos azul-
escuros.
— É bom te ver também, Coop. — Eu sorri.
Percebi que Stuart e Ross entravam pela porta principal e dei um passo para trás.
Coop continuou.
— E, na primeira vez que conversamos depois de anos, você me diz que está doente!
— Ei — eu disse, e coloquei um dedo em frente à boca.
— Ah… — Coop disse, imitando meus movimentos, levando o dedo à boca. — Certo. — Eu não
sabia se estava imaginando, mas os olhos dele pareciam um pouco marejados, como se ele estivesse
prestes a chorar.
— Ainda não quero que as pessoas saibam — disse a ele em voz baixa. Eu não estava olhando
para Stuart, mas sabia que ele ainda estava lá, porque estava começando a perceber que, quando
alguém de quem você gosta te toca, você se conecta com o corpo dessa pessoa como se fosse
ecolocalização e, quando Stuart se aproximava, meu corpo também começava a ficar mais quente.
— Mas você me contou — Coop disse num tom alto demais, com um orgulho estranho por trás.
— É, e agora estou me perguntando por que fiz isso — respondi, me virando.
— Não fala assim — ele disse.
— Coop! — alguém gritou.
Uma menina, que imaginei que fosse a Katie Gostosa, veio em nossa direção. Suas pernas longas e
bronzeadas saíam de shorts justos e desbotados, e sua barriga chapada à mostra graças ao top
brilhava com gotas de suor, cerveja ou algum outro líquido. Vi os olhos de Coop, e de todos os
outros, percorrerem o corpo dela. Eu sabia que não era de propósito, mas garotas como ela faziam eu
me sentir um lixo. Tipo, por que existir com garotas como ela por perto?
— Coop. — Katie Gostosa se apoiou no ombro dele e sussurrou em seu ouvido, rindo. — Vem
comigo — ela disse, e eles se foram. Era fácil assim? Era fácil assim. Carvalhos ficavam com
carvalhos.
Dava para ver Stacia e Maddie dividindo uma cadeira na sala ao lado, com as pernas entrelaçadas.
Peguei um livro chamado Anagramas e comecei a ler. Senti os olhos de alguém sobre mim e
levantei a cabeça. Stuart. Segurei o livro como alguém seguraria uma taça. Saúde. Essas festas, né?
Haha. Não é que eu não saiba o que fazer ou dizer, é que já fui a tantas festas que estou cansada
delas e prefiro ler este livro, haha, então não se preocupe comigo que vou ficar por aqui.
Então ele veio na minha direção. Voltei a olhar para o livro, com os olhos imóveis, mas, de algum
modo, sabia que ele tinha acabado de desviar de uma cadeira, pedido licença a uma garota que
estava dançando e agora estava ali, ao meu lado. Ele pegou um livro também, de capa dura, chamado
Vida de escritor.
— Ei — ele disse, folheando as páginas.
— Ei — eu respondi, lendo a mesma frase repetidas vezes, com a pele queimando sob a roupa.
— Os pais de Ross têm uma boa biblioteca.
— Ainda bem — eu disse, e rimos um pouco.
— Desistindo tão cedo, é?
Em vez de responder, balancei minha bebida. Foi quando me dei conta do motivo pelo qual não
dominava a arte da conversa fiada. Quando havia um propósito, eu era capaz de perguntar e
responder coisas até derrubar alguém. Quando não havia, era como se eu golpeasse uma parede.
Estava cansada da parede. Uma ideia ou talvez um ímpeto ou talvez apenas eu imitando as Katies
Gostosas do mundo. Bem, de qualquer jeito, algo aconteceu.
As belas sobrancelhas dele começaram a se juntar, ponderando.
Quando eu quero alguma coisa, eu quero de verdade. E eu queria Stuart Shah.
Olhei para ele, bem no fundo de seus olhos negros e lindos, e disse:
— Queria falar que sempre fui muito a fim de você.
Então, pus o livro de volta na estante e saí.
Que tipo de árvore eu sou, se é que faço parte da
floresta?

E agora estou aqui, sentada no capô do carro da Maddie, rindo comigo mesma no escuro. Não
acredito que disse aquilo para Stuart Shah. Estou me sentindo como um super-herói deve se sentir.
Sinto que posso ouvir tudo, ver tudo, ainda sinto a vibração do ar entre nós e o barulho do livro que
fechei e a ponta da manga da camiseta dele em que esbarrei ao sair. Não me lembro da última vez em
que me senti tão eufórica.
Provavelmente tinha sido quando descobrimos que havíamos conseguido nota suficiente para nos
qualificar para o torneio nacional. Ou não, talvez quando a sra. Townsend me disse que eu estava na
disputa para ser oradora da turma.
Ai, meu Deus, fui impulsiva.
Fui impulsiva, mas senti que venci. Maddie me disse para ser corajosa, e eu fui.
E, o mais engraçado de tudo, Sam do Futuro, foi que, quando fiz aquilo, pensei em você. Pensei em
você lembrando de mim naquele momento e me vendo derreter na multidão ou indo para casa com
pena de mim mesma, e fiquei irritada.
Se você sou eu mais tarde, digamos, ano que vem, depois de ter concluído seu primeiro semestre
de sucesso na faculdade, quero que você seja descolada. E não descolada como na foto perfeita e
feliz de alguém se divertindo com perfeição, o tipo de coisa que vejo quando as pessoas
compartilham fotos de festas como esta. Não uma pessoa definida pela legenda que escolhe para a
vida. Acho que, em fotos, muitas vezes as pessoas fingem que estão se divertindo porque querem que
outras pessoas pensem que estão se divertindo. Bem, isso não é a vida real, é?
Às vezes a vida é só terrível. Às vezes a vida te dá uma doença estranha.
Às vezes a vida é muito boa, mas nunca de um jeito simples.
E, quando eu olhar para trás, vou saber que tentei.
Mas agora estou meio abandonada no carro da Maddie. Já deve fazer mais ou menos uma hora.
Ela me mandou uma mensagem de texto: Onde vc tá?
Eu respondi, mas, quando fui mandar outra mensagem para perguntar quando íamos embora, a
bateria do meu celular acabou. E não tenho internet. Também não consegui contar para Maddie o que
disse para Stuart.
Merda, vai ser solitário ficar aqui fora, Sam do Futuro.
Certo, tudo bem. Estou ouvindo passos. Provavelmente é a Maddie para me dar uma bronca e me
fazer entrar de novo. “De jeeeeeito nenhum”, vou dizer a ela. Eu disse o que queria dizer.
Posso não ter aptidão social, mas tenho noção de que não devo voltar para a festa. Vou fingir que
estou digitando alguma coisa no notebook, porque estou muito ocupada para ignorar Maddie direito.
Ai, meu Deus.
Não é a Maddie. É uma pessoa vestida de cinza, olhando para todos os carros.
É o Stuart.
Ai, meu Deus

Quando me encontrou sentada no capô do carro da Maddie, Stuart disse simplesmente:


— Eeei. — E começou a rir, e eu comecei a rir. A ecolocalização era impressionante.
— Maddie me pediu para ver se você estava bem — ele disse finalmente.
— Sim. Estou bem — respondi. — Você está bem?
— Por que não estaria? — ele perguntou.
Antes que ele pudesse continuar, eu desembestei:
— Porque eu acabei de jogar, tipo, uma granada emocional em cima de você. Eu simplesmente
arranquei o pino da granada, joguei e a deixei explodir.
Me dei conta de que não estava encarando-o nos olhos, apenas um ponto fixo em seu peito largo e
cinza.
— É, você podia pelo menos ter gritado “Cuidado!” ou algo assim. — Ele imitou sons explosivos
com a boca. Eu ri, o que tento nunca fazer a menos que esteja no conforto da minha própria casa, e
isso diz algo muito importante sobre Stuart e sobre como ele fazia eu me sentir.
— É — eu disse. — Devia ter feito isso.
Então ficamos em silêncio. E todo o peso do que eu havia feito começou a se manifestar, como, por
exemplo, o fato de que eu provavelmente ficava olhando muito para ele, não apenas quando
estávamos na escola, mas durante esta noite, sem dizer muita coisa além de que a) eu era obcecada
por ele, e b) moraríamos na mesma cidade no ano seguinte.
Eu disse:
— Desculpa se foi muito esquisito.
Stuart disse:
— Não! Não se preocupe com isso. — E a essa altura, felizmente, ouvimos Dale, Maddie e Stacia
atrás de nós, caminhando em direção ao carro, então não tivemos mais que conversar.
Sentei na frente de propósito, tentando ignorar tudo aquilo. Tentando esquecer o que eu havia dito,
acredite ou não. Eu me lembro de pensar que, droga, eu poderia simplesmente apagar toda aquela
noite de sua memória, Sam do Futuro.
Quando chegamos na minha casa, gritei:
— É aqui!
Depois que fechei a porta, Stuart gritou pela janela do banco de trás:
— Sammie!
E eu, é claro, respondi:
— O quê?
— Vem cá — ele disse.
Eu me virei, pensando que tinha esquecido alguma coisa — provavelmente um pedaço de
sanduíche de manteiga de amendoim devia ter caído da minha bolsa ou algo assim.
Então ele pegou meu braço — isso mesmo, você leu certo — ele pegou meu braço e o virou, como
se fosse me dar uma injeção. Pegou uma caneta do bolso, tirou a tampa com os dentes e escreveu seu
e-mail. Cada curva de cada letra do nome dele era como, sei lá, fazer sexo. Eu nunca fiz sexo, mas
alguém já escreveu em você? Algum escritor já escreveu em você? Era quase como se ele tivesse
feito aquilo com a ponta do dedo.
— Não sou bom com mensagens no celular — ele disse.
Já se passou um dia depois da festa e ainda estou com as letras desbotadas do e-mail de Stuart no
braço. Tenho o e-mail dele porque ele me deu, e agora ele tem o meu porque eu escrevi para ele.
Meu. Maldito. São. Tiago. Santiago. Joana. D’Arc.
Ainda não consigo acreditar.
Espere um pouco. Ele está on-line. ELE ME ESCREVEU.
Sammie,
Ei, estou feliz por você ter sobrevivido. Como eu disse ontem à noite, não se preocupe. Nós dois estávamos no modo “festa
estranha”. Na verdade, foi até interessante. Quero dizer, não nos conhecemos muito bem, mas acho que sempre senti uma ligação
estranha com você quando estudava na Hanover. Não era exatamente a fim de você (haha), porque, para ser sincero, eu estava
sempre ocupado demais com as peças, as lições de casa e escrevendo para ter tempo de estar a fim de alguém. Mas lembro de ver
você no refeitório. E quando a srta. Cigler leu seu ensaio em voz alta, fiquei impressionado de verdade. Talvez devesse ter ido atrás
de você à noite, mas parecia que você queria dar o fora dali. Acho que simplesmente não estou acostumado a ser tão sincero com
ninguém. Mas fiquei feliz quando a Maddie me pediu para te procurar. E estou feliz por ter me contado aquilo.
Stu

Certo: escrevi de volta perguntando se ele tinha namorada. Não vou ficar atualizando a página e
vendo se a resposta chegou. Tenho muitas outras coisas para fazer. Não fico esperando ninguém. AH,
ESPERE UM POUCO! VEJA:
Haha! Não, eu não tenho namorada. Se vamos continuar o jogo da sinceridade, eu respondi “não exatamente” para o Ross porque
ele sempre me enchia o saco por não estar namorando. Eu tive uma namorada em Nova York, mas nós terminamos no ano passado.
Meu Deus, você realmente vai direto ao ponto, não? Haha. Hum… Por que te dei meu e-mail? Porque te acho inteligente e bonita.
Stu

P.S.: Sabe aquele livro que você fingiu que estava lendo? Era o Anagramas, da Lorrie Moore. Quando tiver uma chance (talvez
quando sua agenda ficar mais livre), leia. É um dos meus favoritos.

Fiquei checando minha caixa de entrada nos intervalos da lição de casa, esperando talvez que os e-
mails desaparecessem, mas nunca desapareciam.
Principalmente esta parte: “Porque te acho inteligente e bonita”.
“Porque te acho inteligente e bonita.”
“Porque te acho inteligente e bonita.”
^^^ Ele disse isso. Stuart Shah disse isso!
Pensamentos

Certo, são duas da manhã, mas isso acabou de me ocorrer: Maddie gosta muito mais de planos
simplificados do que de delinear a plataforma política completa em 1RP (primeira réplica positiva,
caso tenha esquecido), mas acho que é só porque ela está estressada e quer ter menos coisas para
memorizar.
Além disso, se considerarmos apenas os registros, provavelmente vamos enfrentar a Academia
Preparatória Hartford, e aqueles malditos apostam em plataformas completas como se não houvesse
amanhã. Mais uma vez, não se preocupe se esquecer as plataformas — são exatamente o que diz o
nome: declarações superficiais sobre “o que pretendemos fazer a respeito do problema”, seguidas de
outras em uma ordem bem específica. Planos simplificados são muito mais fáceis e mais naturais de
se dizer, mas plataformas são mais eficientes para evitar que algo fique de fora ou que (cof ) você
esqueça algo.
Então vou dizer para ela deixar as plataformas comigo, tanto na 1RP quanto na 2RP. Eu dou os
cartões para ela, e ela pode fingir que está tendo cada uma das ideias no momento em que fala.
Sabe de uma coisa? Vou mandar isso para Maddie por e-mail.
Ainda acordada às quatro. Ouço um carro subindo a montanha — minha mãe voltou de seu turno.
Eu desci para ver minha mãe antes que ela fosse para a cama, e ela estava fazendo chá. Seu uniforme
azul-turquesa contrastava com os azulejos vermelhos e amarelos dos balcões e das paredes. Coop
costumava dizer que nossa cozinha e sala de jantar pareciam um McDonald’s. A casa estava toda
escura, exceto por uma luz sobre a mesa da cozinha. Enquanto enchia a chaleira, minha mãe tirava os
tênis brancos.
Quando eu disse “oi”, ela deu um pulo. Dei um belo susto nela.
— O que você está fazendo acordada? — ela perguntou quando se recuperou, sentando à mesa.
Eu sentei de frente para ela.
— Faltam dois dias para o torneio nacional, mãe, o que você acha?
Ela balançou a cabeça sobre a xícara fumegante.
— Ah, Sammie. Você precisa dormir. Não pode exigir tanto de si mesma.
— E quem é você para falar? Está trabalhando bastante depois do horário.
Ela murmurou:
— Bem, as contas dos médicos não vão se pagar sozinhas — ela murmurou. Depois disse
imediatamente: — Ai, meu Deus! — E colocou a mão sobre meu braço. Eu sabia que ela estava
arrependida. E a perdoei. Havia olheiras em volta de seus grandes olhos.
— E então, qual é o problema com esse torneio nacional? — ela perguntou. — É o grande show,
certo?
— Sim, senhora.
— E vai parar depois disso, certo?
Suspirei. Eu não tinha parado para pensar naquilo direito.
— É, acho que sim.
Minha mãe sorriu um pouco, relaxando.
— E isso significa que você vai passar mais tempo em casa?
— Depende. Por quê? Bem, Harrison já vai fazer catorze anos, ele pode muito bem tomar conta
das crianças. Além disso, paguei para ele fazer minhas tarefas do próximo fim de semana, quando
não vou estar…
— Não, querida. Era só para saber se você passaria mais tempo com a gente. Só para ver um filme
ou algo do tipo, de vez em quando. — Ela acariciou meu braço. Fiquei arrepiada.
Ela usava muito a culpa como tática. Ela cochichava para Bette e Davy gritarem pela casa para me
fazer parar de estudar enquanto a família assistia ao jogo dos Patriots na TV. Quando o Cachorrinho
precisava sair, ela o mandava para o meu quarto até que ele praticamente me arrastava para longe da
escrivaninha. Enquanto ele corria em círculos, batendo na porta de tela de tanta empolgação, eu a
ouvia rindo sozinha, encolhida na sala.
Eu respondi:
— Sim, claro. Talvez depois da formatura.
— Hum — minha mãe disse baixinho.
Depois de um pequeno silêncio, ela tocou meu rosto.
— Posso… — ela começou a perguntar e, depois de anos verificando dores de garganta, dentes
escovados e doces escondidos, abri a boca automaticamente.
— Hum — ela disse. — Como está sua língua?
Fechei a boca e me afastei.
— Está ótima. Por quê?
Ela olhou para mim e deu de ombros, abrindo um sorriso.
— Nada.
Levei a mão ao queixo.
— O que foi? Eu estava falando arrastado?
— Não! Não — ela respondeu rápido. — Você já arrumou a mala?
Ela estava tentando mudar de assunto. Amanhã Maddie me diria se minha voz estava estranha.
Bem, claro que eu teria que inventar uma desculpa, como, por exemplo, ter tomado uma raspadinha
rápido demais e congelado a língua. Mas, de qualquer jeito, nada que uns trava-línguas do teatro não
resolvessem.
— Já — eu disse. Havia arrumado a mala na noite anterior. Provavelmente ia desarrumar e
arrumar de novo, só pelo gosto.
— Pegou seus remédios?
— Peguei.
— Até o Zavesca?
Eu resmunguei.
(“O que é Zavesca?”, você deve estar se perguntando. Não te contei sobre o Zavesca, Sam do
Futuro? É mais ou menos como um refrigerante de laranja, só que não tem nada a ver com
refrigerante de laranja, porque, na verdade, é um comprimido horrível! Entre os efeitos colaterais
estão: perda de peso! Dor de estômago! Gases! Náuseas e vômito! Dor de cabeça, incluindo
enxaqueca! Câimbras nas pernas! Tontura! Fraqueza! Dor nas costas! Constipação!)
— O atestado da médica?
— Sim.
— Quer levar algum dinheiro?
Agora era a minha vez de mudar de assunto.
— Não, não. Não se preocupe, mãe.
— Tem certeza?
— Sim, arrecadamos o bastante com a rifa para cobrir todas as despesas este ano.
— Uhummm — ela disse novamente, do jeito que só a minha mãe é capaz de fazer. O som do M.
Seu mantra. Sua força. Se um furacão começasse a derrubar as janelas, minha mãe respiraria pelo
nariz e diria: “Uhummm”. Uma vez, quando eu tinha nove anos, escorreguei exatamente no lugar onde
estava sentada agora e cortei a cabeça na quina da bancada. Minha mãe foi do quintal até a cozinha
em menos de cinco segundos sem dizer nada, envolveu minha cabeça em uma camiseta e ligou para a
emergência, o tempo todo me balançando e dizendo: “Uhummm, uhummm, uhummm”.
Eu me levantei, tocando a cicatriz no couro cabeludo.
— Sabe, mãe, algum dia vou te devolver esse dinheiro. Quando eu for uma advogada de sucesso
ou algo assim. Vou pagar por todas essas despesas médicas.
— Ah, querida — minha mãe disse e deu a volta na mesa só de meias para me abraçar. Envolvi
seu corpo pequeno. Sua cabeça só ia até meu pescoço.
— Estou falando sério! Pode começar a anotar…
— Você só precisa melhorar — ela disse, com a voz abafada pela minha camiseta. — É só disso
que eu preciso. Você só precisa melhorar.
— Certo, vou melhorar — eu disse a ela.
E vou mesmo.
Sem sombra de dúvidas, eis como o torneio
nacional deveria ser:

ALGUMAS PREVISÕES DE SAMMIE MCCOY

Maddie e eu chegamos ao Sheraton de Boston. Fazemos o check-in, penduramos os terninhos e


comemos salgadinhos. Ouvimos música eletrônica alemã. Repassamos as cópias de todos os artigos
sobre salário mínimo e destacamos tudo o que precisamos saber com a mesma cor. Com a mesma
cor. Isso é muito importante.
Com o sol nascendo, deslizamos pelo saguão, não só figurativamente porque chegamos com tudo,
mas também porque levamos um carrinho cheio de documentos que vão servir de evidência. Nos
inscrevemos e encontramos um lugar para praticar longe das outras equipes.
Arrumamos as coisas sobre uma plataforma, sob luzes, atrás da mesa da nossa equipe, na sala
maior. Observamos a outra equipe se ajeitar com expressões sérias no rosto.
Cumprimentamos os juízes.
Então a batalha começa.
Maddie sobe ao púlpito e apresenta os argumentos positivos. Maddie apresenta um plano. Ela diz
por que tal plano vai funcionar. Como eu disse, ela é muito boa nisso. As emoções que ela consegue
contemplar em oito minutos, sem dizer nada além de fatos em uma ordem específica… é bonito de
ver. Imagine os discursos motivacionais que aparecem na metade de todos os filmes sobre esportes,
mas já no início do filme, com menos lágrimas, menos gritos e mais lógica.
A outra equipe faz a réplica. Eles declaram sua filosofia. Dizem por que nosso plano não vai
funcionar. Presto tanta atenção nos argumentos que posso ouvir a saliva deles.
Segunda rodada de argumentos positivos: sou eu. Reúno todos os furos no argumento, MAS. Mas.
Tenho que formulá-los como se nosso plano já previsse todos eles. É aí que o terninho é útil. Não por
alguma razão prática, apenas para me fazer lembrar que sou malandra e fodona e nunca sou
surpreendida por nada.
Eles apontam as desvantagens deste novo e excepcional plano.
Maddie volta e tenta falar sobre como eles são idiotas por argumentarem contra nosso plano
perfeito (sem perder o plano original de vista).
Eles pegam novos furos em nosso argumento e enchem mais a bola do argumento deles. É seu
último grito de vitória.
Sou a última a falar. Encontro os melhores fatos para o nosso ponto, os piores fatos contra o deles
e reafirmo com alguma poesia. É minha função afundar os argumentos deles de uma vez por todas e
levantar nossa bola até o céu. Sou, em essência, Robin Williams em Sociedade dos poetas mortos.
Não, sou Théoden na Batalha do Abismo de Helm, e os juízes da rodada são os guerreiros de Rohan,
levantando suas perguntas como se fossem lanças. Eu cavalgo por eles montada no corcel da retórica
e derrubo suas lanças com minha espada de fatos, deixando-os sem nenhuma alternativa além de me
seguir.
Desculpe, me empolguei um pouco nessa parte.
De qualquer modo, voilà! Convencemos o mundo de que o salário mínimo deveria ser aumentado.
Fazemos o mesmo na segunda rodada.
Fazemos o mesmo na terceira.
Depois, se conseguirmos fazer mais uma vez, ganhamos o campeonato nacional.
Vida em tempos de guerra

Último treino de debate de nossas carreiras na escola. Fizemos algumas rodadas de simulação contra
Alex Conway e Adam Levy e, perto das considerações finais, Alex estava pronta para arrancar meus
olhos. Ela adoraria me ver derrotada uma última vez. Não nessa vida, Conway. Maddie e eu somos
feitas de aço. Não… de mercúrio! Somos fluidas e venenosas.
Repasso os cartões como uma freira rezando o rosário, repetindo baixinho cada frase.
Maddie anda de um lado para o outro com a jaqueta sobre a cabeça, recitando sua abertura.
Stacia passa pela sala de política e dá uma espiada. Maddie está dizendo:
— Mas, nos Estados Unidos…
— Maddie! — Stacia chama, apoiando-se no batente da porta.
Maddie faz uma pausa e tira a jaqueta.
— Oi, Stac — ela diz.
— Quer fazer um intervalo? — Stacia pergunta.
— Não posso — Maddie responde. — Sinto muito.
Stacia dá de ombros.
Maddie põe a jaqueta de volta na cabeça.
E essa, senhoras, senhores e Sam do Futuro, é nossa vida em tempos de torneio.
E começa

No Sheraton, depois de nossa primeira rodada, Maddie sublinha trechos enquanto dou um descanso
para os olhos. O baixo soa pelas caixas de som. Ela está debruçada sobre o chão, perto de três pilhas
de sessenta centímetros de altura com análises econômicas, nomes de projetos de lei obscuros e
porcentagens. Só mais um pouco e estaremos prontas para dormir. Nós duas estamos vestindo os
roupões do hotel. Os terninhos estão pendurados no canto.
Um silêncio momentâneo quando a música acaba.
— Deutschland, Deutschland! De novo! — ela grita, erguendo a caneta marca-texto cor-de-rosa.
— De novo?
— De novo!
Estamos ouvindo a mesma música nas caixas de som portáteis que Maddie trouxe há uma hora. São
basicamente três notas violentas e pesadas sob vozes de gêneros indiscerníveis, gritando em alemão.
Isso nos deixa motivadas. Bem, deixa a Maddie motivada e, por isso, me deixa motivada também. É
nossa tradição.
A mãe dela, que está no quarto ao lado, já aprendeu a levar protetores de ouvido.
Três anos, mais de vinte torneios. Treze títulos de primeiro lugar, quatro de segundo. Quando está
tudo sublinhado e quando o relógio marca nove da manhã, não há mais nada a fazer. É isso.
Ano passado, assistimos à apresentação dos alunos do último ano e cerrei os punhos na
expectativa, falando sobre como não cometeria os mesmos erros, como passaria o ano seguinte me
concentrando em falar mais devagar, organizar as evidências e planejar o que ia vestir.
E agora faltam apenas algumas horas. Nossa reputação, o motivo pelo qual ganhamos bolsas de
estudo, os incontáveis “sinto muito, não posso ir”, agora concentrados em um quarto de hotel com
duas camas.
Stuart me mandou uma mensagem de texto: Boa sorte!
Eu respondi Obrigada! e desliguei o celular.
Se não fizesse isso, ele podia começar uma conversa e eu não ia conseguir parar de imaginá-lo
escrevendo um romance inteiro no meu corpo nu.
O que seria uma distração.
O.k., eu tinha que ir ao banheiro jogar uma água no rosto e dizer em voz alta para o meu próprio
reflexo: “Sammie, este não é o momento para pensar em amor. Este é o momento para pensar na
guerra”.

Bem, as canetas marca-texto já estão sem tinta. Maddie e eu tomamos alguns copos de água,
deitamos em nossas camas paralelas e ligamos a TV para assistir a alguma bobagem qualquer.
Quando desligamos os abajures, Maddie chamou:
— Sammie?
— Hum?
— Estou muito estressada.
Quando ela disse aquilo, me dei conta de que estava rangendo os dentes.
— Eu também.
A voz dela parecia diferente, um pouco mais aguda, um pouco mais suave.
— Tudo bem se a gente não vencer, não é?
Eu suspirei.
— Não quero nem pensar nisso.
— Nem eu — ela disse rapidamente. — Mas eu estava pensando no que você disse outro dia,
sobre minimizar o prejuízo.
— Hum?
— Tipo, quando ficamos em segundo ou terceiro, era meio que “Tanto faz, foi só um contratempo.
Só precisamos chegar ao torneio nacional”. Até você dizia coisas assim e você odeia perder.
— É verdade. — Eu dizia “Tanto faz, isso não importa. O que importa é o torneio nacional”.
— Nós não decidimos minimizar o prejuízo quando viemos até aqui, não é?
Prendi a respiração, olhando para o teto.
— Como assim?
— Apostamos todas as fichas.
Fiquei em silêncio. Ela continuou:
— Esse ano foi estranho. Eu… — Ela suspirou. — Eu sinto que posso fazer muitas das coisas que
eu faço porque normalmente vou atrás de coisas que sei que sou capaz de fazer. Sou capaz de atuar e
liderar a Associação LGBT e ficar com pessoas não só porque quero, mas porque sei que posso, sabe?
E, este ano, eu realmente comecei a querer coisas. E não só coisas que dependem da minha
capacidade. Quero coisas maiores, que não têm nada a ver comigo.
Eu entendi o que ela quis dizer, embora tenha ficado surpresa. Eu sabia por que queria aquilo, mas
nunca imaginei que Maddie pudesse estar tão envolvida quanto eu. Depois eu me lembrei daquele dia
no treino em que ela estava com a jaqueta na cabeça. Da semana passada, quando me convidou para
ir a lugares, mesmo não precisando fazer isso. Estávamos juntas naquilo.
— Eu percebi isso — eu disse.
— É?
Engoli em seco. Esperava que ela estivesse falando disso. Esperava não parecer idiota.
— Você costumava tirar sarro de mim por eu ser tão dedicada aos debates. Mesmo sendo tão boa.
Mas agora é tão louca por tudo isso quanto eu.
Ela riu, quase sua gargalhada de sempre, e eu ri junto. Acontece alguma coisa quando se ri deitado
que faz com que você continue mesmo quando já não acha mais graça. É como se algo sólido das
costas, dos ombros e do peito fosse liberado no ar para se dissolver.
Quando paramos de rir, tudo voltou a ficar silencioso. Dava para ouvir o barulho do elevador.
— Na verdade, o que quero é a Stacia — Maddie disse em voz baixa, quase como se falasse
consigo mesma. — Não só porque… deixa para lá.
— Eu entendo o que você quer dizer — eu disse, depois de um tempo. — Eu realmente quero
vencer. Não só porque sou competitiva. Isso nem tem mais a ver com ninguém. Só quero vencer por
mim mesma. Faz sentido?
— Faz — Maddie respondeu. — Quero isso também.
Logo depois, ela caiu no sono. Sou quase capaz de ver as coisas de que rimos pairando no ar,
elevando-se, movendo-se para outro lugar através das paredes, e acho que também vou dormir.
Toma essa!

PRIMEIRA RODADA

Madeline Sinclair e Samantha McCoy,


Colégio Hanover, Hanover, NH
vs.
Thuto Thipe e Garrett Roswell,
Colégio Stuyvesant, Nova York, NY
Colégio Hanover: 19 Colégio Stuyvesant: 17

Sim. Mantendo o foco. Almoço da vitória no restaurante de frutos do mar.


SEGUNDA RODADA

Madeline Sinclair e Samantha McCoy,


Colégio Hanover, Hanover, NH
vs.
Anthony Tran e Alexander Helmke,
Colégio St. Louis Park, St. Louis Park, MN
Colégio Hanover: 18 Colégio St. Louis Park: 16

Dois já foram. Tive uma dor de cabeça intensa na noite passada, então estávamos preocupadas,
mas passou na hora de entrarmos em ação. Normalmente estaria julgando Maddie neste exato
momento por sair para atender uma ligação da Stacia, mas não posso me irritar com isso.
Independentemente do que estamos fazendo, está funcionando.
Neste exato momento, entram no elevador dois debatedores eliminados cheirando a desodorante,
sem nem me ver.
— Você ouviu falar da dupla da Hanover? — um deles perguntou.
— A menina com um moicano? E a bunduda? Ouvi, cara.
— Elas foram para a final.
— Aposto na Hartford.
As portas se abriram.
Quando começaram a fechar, gritei:
— Vocês estão enganados! — E mostrei o dedo do meio.
Assistindo a Clube dos pilantras sem som na TV do hotel, fazendo gargarejo com água e sal.
Tentando manter a boca flexível. Estou inquieta, mas não nervosa. Estou me sentindo vazia, mas não
dispersa.
A terceira rodada é amanhã, às dez da manhã. Quando ganharmos, vamos para a etapa final do
campeonato.
Sem título

Lembre-se disso, Sam do Futuro, porque se Deus e Jesus e todos os santos quiserem, isso nunca mais
vai acontecer. Hoje de manhã, olhei para o relógio pela primeira vez exatamente às sete e cinquenta e
seis. Maddie arrepiou os cabelos como sempre e eu estiquei meus cachos o máximo possível e os
prendi em um coque. Descemos para o saguão do hotel e dividimos um pãozinho do bufê de café da
manhã. Saímos rapidamente para posar para uma foto em frente à placa que dizia BEM-VINDOS,
DEBATEDORES. Lembro que havia um Corolla marrom passando devagar em frente ao Sheraton, bem
em frente às portas de entrada. Lembro de um homem de jaqueta fumando um cigarro. Você entende o
que estou dizendo? Não sou louca. Meu cérebro ainda funciona. Era um pãozinho com gergelim e
cream cheese, eu lembro disso. E lembro que o carpete dos corredores cheirava a sabão, e o sol que
entrava pelas janelas grandes do saguão estava tão forte que as pessoas protegiam os olhos com as
mãos. Puxamos nossos carrinhos até a sala Paul Revere. A equipe de Hartford era formada por uma
nigeriana de rosto anguloso e uma garota rechonchuda — Grace Kuti e Skyler Temple,
respectivamente. As cadeiras estavam cheias de equipes eliminadas e suas famílias, alguns nos
encarando, outros rindo e bagunçando, aliviados por já estarem fora. As luzes do enorme salão
diminuíram, as luzes do palco foram acesas. Depois que a mulher de cabelo curto, calça social e
camisa de linho deu as boas-vindas a todos, houve cerca de SETE SEGUNDOS de aplausos. O nome do
moderador era SAL GREGORY. Ele era UM POUCO CARECA e tinha um RELÓGIO ROLEX. ESTOU
ESCREVENDO TUDO EM LETRAS MAIÚSCULAS PARA ENFATIZAR COMO ME LEMBRO DE TUDO NITIDAMENTE.
MADDIE PIGARREOU ANTES DE SE LEVANTAR E FEZ O MESMO ANTES DE SUBIR NO PÚLPITO. OLHOU PARA
BAIXO E, QUANDO LEVANTOU OS OLHOS, DISSE: “SENHORAS E SENHORES, DE ACORDO COM UMA ANÁLISE
RECENTE DO CENTRO DE PESQUISAS ECONÔMICAS E POLÍTICAS, TRINTA E SETE POR CENTO DOS NORTE-
AMERICANOS QUE TÊM COMO ÚNICA FONTE DE RENDA UM SALÁRIO MÍNIMO TÊM ENTRE TRINTA E CINCO E
SESSENTA E QUATRO ANOS. SALÁRIOS BAIXOS NÃO SÃO APENAS PARA ADOLESCENTES QUE QUEREM GANHAR
ALGUM DINHEIRO PARA GASTAR CONSIGO MESMOS. ESSAS PESSOAS SÃO MÃES, PAIS…”.
Lembro que tinha acabado de terminar o segundo argumento positivo. Maddie subiu, me deu um
tapinha nas costas quando passamos uma pela outra e eu sentei. Lembro de apertar os olhos por causa
das luzes do palco e de coçar a panturrilha. Estávamos indo bem. Alguém estava falando. Tudo
estava correndo perfeitamente bem. E, de alguma forma, logo em seguida não estava. Não foi como
um momento ou um vislumbre, simplesmente foi. Foi como acordar, só que eu já estava com os olhos
abertos e estava tentando me lembrar de um sonho. Maddie olhava para mim e, sem saber o que eu
estava fazendo, meio que comecei a rir, porque era engraçado o fato de estarmos lá, de manhã,
depois de eu ter acabado de acordar. Meu primeiro pensamento foi: “O que Maddie está fazendo
aqui?”.
Então ela disse:
— E minha parceria agora vai alguma coisa, alguma coisa. — Estava meio distorcido, então
pensei que estávamos praticando, mas depois lembro de ter olhado bem para ela e me perguntado por
que as luzes estavam tão claras se estávamos apenas praticando.
Olhei para nossas oponentes e não soube dizer quem eram. Olhei para a multidão e foi quando me
dei conta de que estávamos no meio do torneio nacional, e era para eu estar fazendo alguma coisa,
mas não sabia ao certo em que parte da rodada estávamos ou em qual rodada. Olhei para meus
cartões, e olhei novamente para Maddie, que agora estava ao meu lado, sinalizando para eu levantar.
— Tempo! — eu disse.
Os juízes nos deram trinta segundos.
— O que foi? — Maddie sussurrou. Sua voz demonstrava certa irritação.
Minha garganta estava tão seca que doía.
— Não sei onde estamos. Bem, agora eu sei, mas não sei… É. Não sei onde estamos.
— Que merda é essa? Do que você está falando?
Eu tinha a sensação de que estava piscando a oito quilômetros por hora. As pontas dos meus dedos
começaram a formigar.
— Só me diga se estamos na 2RP ou na conclusão.
— O quê?
— 2RP ou conclusão? Só me diga isso!
— Conclusão! O que está acontecendo? Você está pálida. Quer água?
— Sim.
Maddie me entregou sua garrafa d’água, que estava pela metade, e eu bebi em grandes goles.
Os trinta segundos terminaram.
Eu levantei. Meus joelhos tremiam, minhas mãos tremiam; tentei mantê-las fechadas. Sabia os
pontos principais. A conclusão não era o problema: o problema era não saber o que nossas oponentes
haviam dito na rodada inteira ou o que Maddie tinha acabado de dizer ou até mesmo o que eu tinha
acabado de dizer. Respirei fundo.
Eu não sabia, então chutei.
Resumi, de forma vaga, fria e entrecortada.
Nem cheguei a usar os quatro minutos.
Quando voltei a sentar e elas concluíram a rodada, não olhei para Maddie.
Não olhei para ninguém.
Apenas saí do salão, peguei o elevador até o nosso quarto, tranquei a porta do banheiro e chorei.
Passei as últimas três horas chorando tanto que Maddie e a mãe dela bateram na porta, perguntando
se eu estava engasgada. Eu estraguei tudo. Tudo mesmo.
Sempre sonhei com esse dia.
Passei meus aniversários de quinze, dezesseis e dezessete anos pensando nesse quarto, nesse hotel,
nesse torneio na hora de apagar as velas do bolo.
E nós perdemos porque eu esqueci onde estava.
TERCEIRA RODADA

Madeline Sinclair e Samantha McCoy,


Colégio Hanover, Hanover, NH
vs.
Grace Kuti e Skyler Temple,
Academia Preparatória Hartford, Hartford, CT
Colégio Hanover: 14 Academia Preparatória Hartford: 19

Sabe, às vezes é bom lembrar que você não passa de um saco de ossos fracos em um terninho de
poliéster, que fala consigo mesma em um notebook minúsculo dentro de uma banheira de hotel.
Você não é a melhor debatedora da Costa Leste, você não faz parte da “dupla a ser vencida”, você
não é a oradora, você não é Ninguém do Futuro, você não é uma jovem forte e, na verdade, você
parece a mesma garota pré-adolescente que sempre foi, com seus óculos enormes. Você se lembra
especificamente do dia em que estava sentada à mesa da cozinha com quatro litros de leite
achocolatado, lendo um livro grosso de Terry Goodkind, tomando um copo atrás do outro enquanto
lia durante horas, até que chegou a hora do jantar, mas você não queria parar de ler. Disseram que
não havia espaço suficiente para todo mundo sentar, e ficaram irritados, mandando você para fora
com o que sobrou do leite, seu único prazer no mundo. E, à primeira vista, você pensou consigo
mesma: “Uau, você terminou um livro e tomou quatro litros de leite achocolatado de uma vez só. Que
legal”.
Mas depois se deu conta de que todo mundo estava dentro de casa, sendo normal, e nem mesmo a
sua família te suportava, e você estava completa e profundamente sozinha.
Os outros perdedores, os que foram derrotados, aqueles pelos quais você passou se sentindo o
máximo, eles vão voltar para casa e seguir a vida. Vão voltar no ano seguinte ou vão se formar, como
a Maddie, e olhar para trás e dizer: “Bem, não passou de um fim de semana ruim”.
Há apenas seis meses, eu achava que também estaria dizendo isso.
Mas agora tenho que me preocupar se o fim de semana mais cagado da minha vida, meu pior
fracasso, vai ser, na verdade, o melhor fim de semana de que consigo me lembrar.
E se for apenas o começo de uma série de fracassos?
E se for tudo o que sou?
E se for o fim?
Foda-se

Quando ouvi a porta se fechar e as vozes de Maddie e Pat desapareceram no corredor, voltei para
minha cama e deixei as luzes apagadas. Vamos embora amanhã de manhã.
Maddie havia me deixado sozinha, exceto pelo breve momento em que me chamou para jantar,
então acho que estou desculpada. Embora minha mãe tenha contado a Pat sobre a NP-C antes de
sairmos para o torneio, Pat não havia contado a Maddie.
Para Maddie, o que acontecera mais cedo tinha sido apenas um colapso. Acontece que — e, Sam
do Futuro, eu tive um tempo para pensar sobre isso enquanto me cobria de lágrimas e catarro durante
o dia todo — esta não foi uma infelicidade destinada a Maddie e a mim. Era parte de uma
infelicidade maior. Uma enorme, vazia e injusta cartada que, se eu não tomar cuidado, vai durar pelo
resto da minha vida. Mas não é culpa da Maddie. Ela merece saber que nada disso, de modo algum,
deveria acontecer com ela.
E, minha nossa, se os humanos supostamente sabem como o tempo funciona, como pode ser
possível acabar com quatro anos de trabalho em trinta segundos? Não é justo. Não é nem um pouco
justo.
Sério, foda-se

Eu queria que estivéssemos indo para casa de limusine — não pelo glamour, mas para que Maddie e
eu pudéssemos sentar em lados opostos. Estou escrevendo isso com a tela virada para o lado oposto
de Maddie, dentro do carro.
No elevador, a caminho da piscina, eu havia ensaiado como contaria a ela o porquê de ter
esquecido tudo. Eu pediria desculpas e diria que, se pudesse voltar atrás, nem tentaria ir ao torneio.
Deixaria Alex Conway ficar no meu lugar, para Maddie poder vencer.
Eu a encontrei na banheira de hidromassagem, usando um top esportivo e uma bermuda de
basquete. Outros debatedores riam e jogavam água uns nos outros. Sentei ao lado dela e pus os pés
na água borbulhante. Meu rosto ardia como se estivesse coberto por uma camada de sal. O rosto dela
também estava vermelho e seu cabelo, liso e escorrido. Ela não disse nada.
— Bem — eu disse. — Acabou.
Ela tentou sorrir para mim.
— É. Fizemos o melhor possível.
Eu aproveitei a deixa:
— Na verdade, não, eu não fiz.
— Sim, é que… — Maddie franziu o rosto, tentando manter a calma. — Agora não é a melhor
hora. Podemos não falar sobre isso?
— Preciso contar uma coisa. Na verdade, algumas coisas. Você foi incrível. Eu estraguei tudo. —
Respirei fundo. — Quando estávamos conversando outro dia, antes do torneio começar, antes da
festa, na verdade, eu devia ter contado uma coisa muito importante que descobri a meu respeito
recentemente. Na verdade… Nossa, estou dizendo “na verdade” toda hora.
— Vou te interromper por um segundo — Maddie disse, rangendo os dentes. — Estou pedindo
como amiga. Não tem nada a ver com você, está bem? Eu te deixei em paz com seus pensamentos.
Pode me deixar em paz com os meus?
— Posso, mas isso tem a ver com o motivo de termos perdido…
Maddie elevou o tom de voz, que ecoou pela piscina.
— Eu não me importo! Você não se importa. As pessoas fazem coisas. Vamos simplesmente não
nos importar.
Eu não sabia muito bem sobre o que ela estava falando. Estava prestes a chorar novamente, porque
sabia que o que ela estava dizendo não era verdade. E o que havíamos dito antes de dormir naquela
primeira noite? Queria que pelo menos ela reconhecesse aquilo.
— Mas nós duas queríamos…
— Querer não é poder! Querer nem sempre é poder! — Ela já estava gritando.
Os debatedores na outra ponta riam e olhavam para nós.
— O que vocês estão olhando? — Maddie gritou.
Eles ficaram quietos.
Ela saiu da banheira e foi embora, batendo na parede de vidro com tanta força que a fez
estremecer. Senti como se aquele soco tivesse sido no meu estômago. Levantei e vi a tela de um
celular piscando sobre uma das mesas de plástico. Peguei o aparelho, pensando que alguém o havia
esquecido ali. A tela mostrava várias mensagens de texto.
Stacia: Precisamos dar um tempo
Stacia: Nem tínhamos um relacionamento sério
Maddie: Pelo menos me diga o motivo. O que eu fiz?
Stacia: Sei lá. Enquanto você estava fora eu tive tempo para pensar
Stacia: Não é nada que você fez
Stacia: Só preciso ficar sozinha
Era o celular de Maddie.
Alguns outros destaques importantes dessa viagem de quatro horas para casa, até agora:

Eu dizendo que sinto muito sobre a Stacia.


Maddie dizendo que eu não sei do que estou falando.
A mãe de Maddie pedindo para pararmos de discutir e dizendo que os últimos dias foram
muito estressantes.
Eu dizendo que, pelo menos, chegamos à final.
Um cervo correndo pelo meio da estrada.
Maddie dizendo que queria ser um cervo para poder ser atingida por um carro e morrer.
Eu dizendo para ela não brincar com a morte.
Maddie me dizendo para parar de ser tão intensa pelo menos uma vez na vida.
A mãe de Maddie dando bronca em nós duas.
Maddie desejando nunca ter entrado para a equipe de debate.
Nós tomando sorvete.
Bombas reveladoras

Quando estávamos a uns oitocentos metros da minha casa, eu estava prestes a chorar de novo porque,
como você sabe, quando tentei contar a Maddie sobre a NP-C, ela não quis escutar, então, como
qualquer ser humano sensato, tentei mais uma vez.
O carro estava meio silencioso porque Pat havia desligado o rádio para eu poder explicar o
caminho a ela, e estava tranquilo ouvir apenas o ar-condicionado e ver as árvores passarem, ENTÃO,
PODE ME PROCESSAR, EU ACHEI QUE ERA UM BOM MOMENTO.
— Maddie, eu tenho uma doença que me faz esquecer as coisas — eu disse. — Foi por isso que
tive um branco durante a rodada final.
Maddie ficou em silêncio, o que achei que era uma coisa boa, até olhar para ela no banco de trás e
ver que ela estava olhando para a frente.
Ela perguntou:
— O quê?
Pat suspirou e eu continuei:
— Fui diagnosticada com Niemann-Pick tipo C, uma doença degenerativa no cérebro. Quando
esqueci onde estava, era um sintoma da doença.
Eu a vi franzir as sobrancelhas pelo espelho retrovisor.
— Mãe?
— O quê?
— Isso é verdade?
Pausa.
— É.
Maddie fez contato visual comigo pelo espelho.
— Há quanto tempo isso está acontecendo?
— Desde as férias de inverno. — Pegamos o acesso para a minha casa, e o carro de Pat começou a
jogar cascalho para trás na encosta íngreme. — Aqui está bom, pode parar. Eu subo a pé.
— Sammie, minha nossa. Sinto muito. — Maddie não parecia triste. Ela parecia irada. — Por que
não disse nada antes?
Tirei o cinto de segurança e peguei minha mala. Todos os papéis caíram: folhas impressas com os
horários das rodadas, pontuação, um mapa de Boston…
— Achei que você não ia querer ser minha parceira — murmurei, recolhendo a pilha.
Maddie fez um ruído intermediário entre indignação e tristeza.
— Que tipo de pessoa você acha que eu sou?
— Não tem a ver com você me rejeitar como amiga nem nada do tipo, mas pensei que você podia
achar que eu não seria capaz de lidar com tudo — eu disse, ajeitando as pilhas de papel sobre o
assento.
— Não é essa a questão! — Maddie gritou, depois disse em voz mais baixa: — Você mentiu para
mim.
Pat levou o braço para trás e tocou o joelho de Maddie.
— Meninas, por que não dão um tempo uma para a outra?
— Bem… — Maddie fez outro ruído, soltando ar pelo nariz. — É bem conveniente.
— O quê? — eu perguntei, quase rasgando a mala ao fechar o zíper. — O que eu fiz dessa vez?
— Você simplesmente lança bombas e vai embora — ela estava dizendo baixinho pela janela. — É
o estilo de Sammie McCoy. Simplesmente sai jogando bombas. Quem se importa com o que acontece
depois?
— Obrigada, Pat — eu disse para a mãe de Maddie, forçando um sorriso, e bati a porta.
Enquanto me afastava, ouvi a janela de Maddie se abrir.
— Sinto muito por você estar doente, mas você não pode fingir que não esperou de propósito para
me contar justo quando chegamos na sua casa!
— Maddie… — ouvi Pat dizer atrás de mim.
Eu me virei.
— Que diferença faz? Contei agora! É um assunto meu! Sou eu que decido!
— Exatamente! — Maddie gritou enquanto o carro saía de ré. — Você controla tudo!
— Ah, tá! — eu disse para ninguém. — Pode acreditar, eu bem que gostaria. — Ela não tem ideia
do quanto está errada.
Quasímodo volta para a torre do sino

Depois de brigar com Maddie, só quero me afundar na cama com West Wing: Nos bastidores do
poder e não sair até a formatura, mas eu ainda ia ter que ouvir um sermão pelo que aconteceu.
Quando cheguei em casa, minha mãe parou de cortar a grama.
Eu havia deixado uma mensagem de voz para ela na noite anterior. Ela tinha ligado três ou quatro
vezes, até que mandei uma mensagem de texto. Eu preferia conversar sobre o que acontecera quando
chegasse, e queria me recuperar depois de perder o torneio.
— Ei — minha mãe gritou do outro lado do quintal quando me aproximei da porta da frente. — Ei!
— Só preciso de um minuto — eu disse a ela, quase correndo para dentro.
Agora, lá estávamos, cara a cara, e não dava para evitar. Eu podia sentir a energia dela vibrando
como um navio em uma tempestade. Bette e Davy estavam montando um quebra-cabeça no chão. Meu
pai estava na cozinha e largou a louça que lavava quando me ouviu no corredor.
Eles me seguiram e ficaram parados na porta do meu quarto, vestindo roupas de ficar em casa.
Minha mãe de jeans rasgado e camiseta do Mickey, meu pai com um boné do Patriots e moletom.
— O que aconteceu? — meu pai perguntou.
Enquanto desfazia as malas, resumi a história com cuidado, deixando de fora os xingamentos e a
choradeira. Antes de eu terminar, minha mãe se aproximou e me deu um abraço.
— Eu não devia ter deixado você ir — ela disse em voz baixa.
— Não foi tão ruim — afirmei, enquanto meu coração tentava decidir se estava triste ou zangado.
— Não ir teria sido pior.
— Mas nós não estávamos lá, Sammie — ela disse, se afastando para olhar para mim. Alguns fios
de seu cabelo estavam se soltando e caindo na frente do rosto e dos olhos molhados. Ela parecia
jovem e insegura. Eu não gostava daquilo. Meu estômago estava doendo. Eu não gostava de deixá-la
daquele jeito.
— Certo. — Tentei me soltar dela lentamente. — Temos que ser fortes. Vamos fazer um plano…
— Sammie, tenha um pouco mais de calma — meu pai disse em um tom de voz mais agudo que o
normal.
Olhei para eles, esperando.
— O quê? O que querem que eu faça?
Meu pai engoliu em seco.
— Não, eu só… nada. Você entende o que estou dizendo?
Não, eu não entendia. Principalmente quando ele falava comigo com aquela voz de quem diz:
“Coitadinha, Papai Noel não existe”. Joguei uma camiseta dentro do guarda-roupa.
— Não posso ir com calma. Não posso parar. Não posso voltar no tempo e não ir para o torneio.
Meu pai falava rápido, levantando o boné e passando as mãos no cabelo encaracolado.
— E se você estivesse no meio da rua, Sammie? E se você esquecesse onde estava e fosse parar
em um lugar perigoso? E se você se perdesse?
— Só precisamos garantir que vamos poder te ajudar! — Minha mãe deu um sorriso doce em meio
às lágrimas. Ela tinha a mesma expressão e o mesmo tom de Davy quando ela tentava convencer uma
galinha a voltar para a gaiola: “Vem aqui, galinhazinha! Vamos, galinhazinha!”.
Eu não estava gostando daquela conversa. Não gosto de situações hipotéticas, principalmente
considerando que eu já havia superado tudo. Já havia chorado ao pensar em como aquilo era uma
droga e agora não queria que os mesmos sentimentos voltassem à tona só porque meus pais queriam
chorar. Não, muito obrigada.
— Sammie? Terra para Sammie? — meu pai perguntou.
Joguei uma calça dentro do guarda-roupa. Nem sei por que me dava ao trabalho de desfazer a
mala, estava apenas erguendo a mesma pilha de roupas em outro lugar.
— Vocês precisam de mais informações, é isso que estão dizendo?
— Nós precisamos ter certeza de que não vamos perder você — meu pai respondeu.
Aquilo me fez parar.
Minha mãe cruzou os braços e pigarreou.
— Essa foi a primeira vez que você saiu sem que tivéssemos certeza de qual seria seu estado ao
voltar.
Certo, agora ela estava falando mais como a minha mãe e menos como uma criancinha, mais com
os “uhummms” e o cansaço e o trabalho que fez em casa o dia todo, quase nunca perdendo a
paciência.
Acho que eu estava começando a entender o que eles queriam dizer. Mas não significava que
concordava com eles.
Fui até minha mãe e segurei a mão dela, depois segurei a mão do meu pai e sentamos no chão do
meu quarto. Aquilo pareceu certo, calmo e estável. Costumávamos sentar assim quando eles liam
para mim, com uma pilha de livros da biblioteca no meio. Depois, mais tarde, quando eu lia para
meus irmãos, pendurados sobre meus pais.
— E então, como é esse plano, Sammie? — Meu pai pegou uma cópia de Uma dobra no tempo,
folheando-a enquanto falava. — Como vamos ter certeza de que você receberá cuidados se algo
como isso acontecer novamente?
Muito melhor. Com isso eu conseguia lidar. Quer dizer… eu poderia lidar se eles me ouvissem,
não discutissem comigo e me deixassem fazer o que eu quisesse.
— Se a perda de memória continuar no mesmo ritmo, posso ter um pequeno surto a cada quatro
meses. Presumindo que eu vá ter outro surto. Com essas probabilidades, vejo pouca necessidade de
entrar em pânico.
Minha mãe deu uma risada seca.
— Rá.
Meu pai disse:
— A dra. Clarkington disse…
— A dra. Clarkington não tem informações suficientes sobre alguém da minha idade com a doença.
Meu pai sacudiu a cabeça.
— O fato de haver a probabilidade de você ficar desnorteada é informação suficiente para mim.
Minha mãe concordou.
— Poder acontecer mais uma vez já é demais.
— Que droga! — Pensei que já tivéssemos passado dessa fase. Soltei a mão deles. — Eu amo
muito vocês dois, mas vocês conseguem ser tão burros às vezes.
— Olha só como fala… — minha mãe disse.
— O especialista disse tudo o que sabia à dra. Clarkington. O que mais vocês querem? Querem
que eu me mude para Minnesota para poder apodrecer na Clínica Mayo?
— Não fique nervosa — meu pai alertou.
— É isso que vocês querem? — Eu não conseguia encarar a expressão quase chorosa deles, então
mantive meu olhar no teto.
Ouvi minha mãe murmurar:
— Essa é a última coisa que se deve dizer para Sammie quando ela está nervosa.
— Sei que é tudo muito assustador, mas sou eu que estou passando por isso, está bem? E sou eu
quem decide como devo me sentir. E decidi ser muito… prática. E racional. Vocês deveriam estar
felizes por eu não estar deprimida, como aquela garota de… — voltei a olhar para os dois — …
Michigan que descobriu que estava com leucemia e quis se matar!
— Minha nossa, Sammie… — meu pai disse.
Minha mãe olhou para o corredor para ter certeza de que Bette e Davy não estavam escutando.
— Eu li sobre isso no Detroit Times! É verdade! Estou feliz, estou focada e vou fazer de tudo para
melhorar. Menos comprometer meus objetivos. Ralph Waldo Emerson disse uma vez… — eu estava
aturdida. — Ele disse…
— Samantha — minha mãe me interrompeu. — Ouça o que vou dizer.
— Está bem! — Meus punhos estavam cerrados. Ela esperou. — Está bem.
— Não podemos estar por perto o tempo todo para monitorar sua saúde… — Abri a boca para
protestar. — … e, de qualquer jeito, nem sempre sabemos o que fazer — minha mãe disse,
levantando as mãos. — Então você vai ter que… você vai ter que nos ajudar. Você vai ter que ser
esperta.
— Você está brincando?
— Ser esperta nem sempre quer dizer tirar boas notas, ter um bom vocabulário e essas coisas,
Sammie. Precisamos que você seja realista.
Meu pai entrou na conversa.
— Você precisa começar a se preparar para o futuro.
— O que acha que fiz nos últimos dezoito anos da minha vida?
— Não, não estou falando disso, estou falando de um futuro em que… — De repente, ele parou, e
eu não soube por quê.
Minha mãe estava olhando para a frente, mas notei que um de seus braços estava atrás dele.
Beliscando-o, provavelmente. Ela não queria que ele continuasse. Agora mais essa. Aquilo mexeu
comigo. Talvez por trabalharem muito e raramente estarem juntos, eu não estava acostumada ao
magnetismo de seus poderes combinados. Júpiter e Marte alinhados. Aqueles cretinos. As duas
fontes biológicas de toda a minha força e fraqueza em um só lugar. Eles acham que estão me
protegendo. Mas eu os conheço tão bem quanto eles pensam que me conhecem.
— Bem — eu disse. Engoli em seco e prossegui: — Não vou mais competir com a equipe de
debate, então vou poder concentrar meus esforços em terminar o ano sem incidentes.
— Ótimo. E descansar — minha mãe disse.
— E manter meu posto de oradora da turma.
Meu pai arrumou uma das minhas sandálias ao lado da outra, formando um par.
— E ir ao médico.
— E encontrar um novo médico de confiança em Nova York.
Meu pai assentiu.
— Vamos viver um dia de cada vez.
— Sim — concordei. — Um dia de cada vez, rumo ao ano que vem. Eu concordo.
Minha mãe pôs a mão sobre a minha.
— Certo — ela disse. Sorriu mais com os olhos do que com a boca. — Isso.
E foi isso.
Mas agora estou aqui, de volta à janela do sótão, e as coisas parecem escuras. Não sou idiota, Sam
do Futuro. Não estou alheia ao tom com que meus pais falam comigo nem à inocência infantil com
que respondo. “Ano que vem! Vou melhorar! Estou bem! Posso superar isso!”
Eu falo de maneira estratégica até mesmo com você.
Porque na verdade minha perda de memória foi muito pior do que descrevi aqui. Antes de lembrar
quem era a Maddie, eu estava prestes a começar a babar, segurar a mão dela na plataforma de debate
como uma criancinha perdida no parquinho, pedindo para ela me levar para casa, para minha mãe e
meu pai.
Não sei por quanto tempo fiquei em silêncio lá em cima, piscando e olhando à minha volta, antes
de gritar “Tempo”. Pareceram horas.
Independentemente dos planos que eu faça, do quanto eu ajude meus pais, sinto que meu corpo está
me decepcionando e não sei como impedir.
Falando em poços de desespero, não fale

Eu só fui pegar um copo d’água (obrigada por me lembrar de me manter sempre hidratada, Zavesca!)
e pude ouvi-los conversando no andar de baixo.
— Não tem como — meu pai disse.
— Mas qual é a vantagem de dizer isso a ela? — minha mãe sussurrou em resposta. — Você sabe o
que isso provocaria.
— Eu estou do lado dela! Estamos todos do lado dela! Quero que ela viva a vida dela e seja feliz.
Mas, Gia, como podemos ignorar a porra da ciência?
— Pare de falar palavrão.
— Estou falando sério! — A voz do meu pai estava quase elevada.
Minha mãe fez “shhh”.
— Ela está ótima agora. Acho que nada vai piorar por um bom tempo. Ela pode simplesmente…
ser ela mesma. Eu me recuso a tratá-la de outra forma.
— Isso não é câncer, G. Só de pensar que ela pode… esquecer de fazer as coisas ou esquecer onde
está ou esquecer quem nós somos.
— Eu sei.
Longo silêncio. Algumas fungadas. Fiquei me perguntando se eles podiam ouvir que eu estava
ouvindo. Prendi a respiração.
— Faltam apenas algumas semanas para as aulas acabarem — minha mãe disse finalmente. —
Acho que podemos deixar as coisas seguirem seu curso.
— Você tem razão — meu pai disse.
— Sério?
— Sim. Tomamos todas as precauções de segurança, mas não… Você sabe… Não podemos
obrigá-la a viver numa bolha. O especialista disse que é melhor se ela não tiver depressão.
— Exatamente.
Odeio aquela palavra. Ouvir aquilo era como ter duas mãos gigantescas me pressionando para
baixo. Eu não tenho depressão. Posso estar sob pressão, é claro. O meu tempo é limitado, tenho
muita coisa para fazer, e às vezes a pressão é muito grande, e às vezes parece que estou me
empurrando para a frente simplesmente para seguir em frente, mas não tenho depressão.
Meu pai continuou:
— Mas precisamos concordar que ela não está em condições de ir para Nova York no ano que
vem.
— Sim, concordo — minha mãe respondeu.
Soltei o ar. Uma luz vermelha piscou no escuro, e me dei conta de que estava com os olhos
fechados.
— Obrigada — ouvi minha mãe dizer.
— Por quê?
— Por ficar do meu lado.
Depois ouvi os dois se beijando. Eca.
Quase desci para discutir com eles, mas logo me impedi. Me lembrei de uma parte fundamental.
Meu pai disse: “Ela não ESTÁ em condições de ir para Nova York no ano que vem”. Está. É claro que
vão dizer isso logo depois de um surto. Estão pensando apenas no presente. Você e eu sabemos, Sam
do Futuro, que o presente não passa de um caminho que leva a outro lugar. Para o que vem depois.
Outra coisa boa para se concluir disso tudo é que, pelo que parece, eles não vão tentar me tirar da
escola de novo. Então, isso se chama barganha, Sam do Futuro.
É assim que eles cedem um centímetro e, centímetro por centímetro, você consegue um quilômetro.
“Bem, é claro que a Sammie consegue terminar o ano escolar, mas será que consegue manter as
boas notas?”, eles vão se perguntar.
“Bem, é claro que a Sammie consegue manter as boas notas, mas será que pode ser oradora da
turma?”
“Bem, é claro que a Sammie pode ser oradora da turma, mas será que pode passar um semestre na
NYU?”
E assim por diante. Então simplesmente vou mostrar a eles que sou capaz de fazer essas coisas.
Que posso fazer todas elas. E eles não vão poder me impedir de ir para a faculdade, não depois que
eu provar que sou capaz.
Eles vão ver.
Força-tarefa

Para me sentir menos pressionada e conquistar meus objetivos sem mais nenhum surto, reuni uma
força-tarefa para NP-C, formada por meus ícones feministas preferidos, cada um deles encarregado de
me inspirar de uma forma diferente. Recortei fotos e organizei no meu mural, escrevendo citações em
pequenos balões de fala. Ainda bem que ninguém entra no meu quarto, porque essa é a coisa mais
sentimental desde a composição de “I Will Always Love You” (em 1973, pela Dolly Parton e não
pela Whitney Houston).
A força-tarefa para NP-C inclui:
ELIZABETH WARREN
Propósito: pesquisar o máximo possível sobre a doença e garantir que os funcionários da área de
saúde estejam passando todas as informações corretas para os meus pais e não tirando vantagem da
gente para embolsar o dinheiro do plano de saúde.
BEYONCÉ
Propósito: me lembrar de que sou perfeita e uma mulher independente. Ou melhor, uma garota.
Mesmo que Stuart não queira nada comigo, vou me amar. (Ele ainda não respondeu quando,
exatamente, quer sair para tomar um café. Não importa. Garota independente.)
MALALA YOUSAFZAI
Propósito: ajudar a me lembrar de ser menos egoísta e de que jovens mulheres podem fazer muita
coisa. Sempre penso no que vou fazer quando for mais velha, mas ela pensou: “Não, vou fazer o bem
para o mundo agora, mesmo sendo apenas uma adolescente”.
SERENA WILLIAMS
Propósito: aprender algo novo (tênis) que supostamente faz bem para pessoas com perda de
memória. Cuidar melhor do meu corpo e não ter medo de ser “atleta”. Provavelmente vou precisar de
novos músculos se os antigos ficarem mais fracos.
NANCY CLARKINGTON
Propósito: bem, essa mulher é a minha médica, então preciso confiar em sua qualificação e escutar
tudo o que ela tem a dizer. Pedi o número do celular dela para mandar mensagens com perguntas a
qualquer momento, só por precaução. Isso é estranho?
Não importa o que aconteça, não posso ter nenhum outro surto como tive no torneio, pelo menos
não até que minhas notas saiam e minha posição de oradora da turma permaneça intacta.
Já que vou ter que lidar com tudo isso, vou precisar estar mais do que inspirada, vou ter que ser
ainda mais estratégica. Vou precisar de diferentes métodos além dos que funcionavam antes. Preciso
dar o meu melhor e espero que ele não se esgote cedo demais.
Sim, sim, sim

Stuart Shah: Quer sair na quarta-feira?


Ninguém se importa tanto quanto nós

Alguns dias depois, o sol está entrando pelas janelas, os narcisos estão florescendo, os pássaros
estão cantando e parece que cavalos estão galopando dentro do meu estômago — o que presumo ser
a reação biológica que acontece quando sua química combina com a de outra pessoa. Stuart tinha
pedido para eu me encontrar com ele do lado de fora da escola depois da aula, nos bancos, porque
ele aparentemente mora lá perto e imaginou que podíamos ir caminhando até o centro.
Eu estava usando minha roupa preferida (depois do terninho de debate): um vestido de algodão
azul-claro e decote em V que minha mãe tinha comprado para eu usar na igreja há dois anos. Tinha
deixado o cabelo secar naturalmente pela manhã, então estava solto e cacheado sobre os ombros. Eu
não sabia se estava bonita, mas, depois de uma conversa imaginária com Maddie, resolvi não me
importar. Me lembrei de quando ela se olhara no espelho e tinha dito: “De acordo com quem?”.
Eu tinha acabado de terminar a lição de cálculo, e Stuart se aproximou bem quando fechei o livro.
Estava de preto, como sempre, e usava óculos escuros. Caminhava com rapidez.
— Sammie! — ele exclamou. — Oi!
Levantei, guardando o material na bolsa.
— Oi.
Quando estava perto o bastante, ele parou, tirou os óculos, e percebi que observava meu vestido.
Segui a direção de seu olhar, esperando que não tivesse derramado nada na roupa. Quando nos
encaramos de novo, ele parecia nervoso.
— Faz um tempo que não nos vemos — ele disse.
— Uma semana — comentei.
Ele sorriu. Eu também sorri.
— O que você quer fazer? — ele perguntou.
— Caminhar até algum lugar?
— Está bem.
E então não paramos mais de falar. Caminhamos lado a lado, primeiro pelas trilhas, depois no
centro, com os braços se tocando de vez em quando. Stuart acenava ocasionalmente para as pessoas
que conhecia. Ele fazia uma pergunta atrás da outra, como um bom repórter. “Que escolas você
enfrentou? Em que hotel ficou? Já tinha ido a Boston antes?”
Quando contei a ele que tínhamos perdido (deixando de fora alguns detalhes importantes), ele
recuou. Pôs a mão rapidamente em volta do meu ombro e o apertou, o que me causou uma estranha
mistura de sensações: algo como um soco que eu sentia sempre que pensava sobre a derrota no
torneio e uma agitação que acontecia sempre que Stuart chegava a quinze centímetros de mim.
— Nossa, que pena — ele disse, e me contou que, na última noite da temporada de Hamlet, ele
tinha esquecido um solilóquio inteiro. — Na última noite de apresentação! Eu já tinha feito aquilo
mil vezes!
— Eu não soube disso — comentei, tentando pensar se não sabia mesmo.
— É porque ninguém notou.
— Não? — perguntei.
— Não! E, mesmo que alguém notasse, não ia se importar.
— Você simplesmente continuou com a apresentação?
— Sim, e ninguém percebeu. Mas vou me lembrar para sempre. Porque fracassei.
— É. Também vou me lembrar do torneio de debate para sempre. — Eu acho, pensei.
Stuart e eu saímos da trilha para dar passagem a dois estudantes da Dartmouth que desciam pela
calçada.
— Talvez a gente dependa demais de outras pessoas para definir o que é sucesso — Stuart disse.
— Tipo, talvez a gente compartilhe demais as coisas. Talvez seja por isso que coisas boas perdem
um pouco a graça, porque sempre revelamos tudo.
— Você quer dizer que o sucesso pode depender do fato de as pessoas notarem ou não algumas
coisas que fazemos?
— Isso mesmo. Essa é a parte engraçada de nos importarmos tanto com as coisas — ele disse. —
Temos que nos acostumar com a ideia de que ninguém se importa tanto quanto nós porque…
adivinha? Ninguém se importa. Sucesso, fracasso, tanto faz! Ninguém vai te dar um tapinha nas costas
por passar todas as horas do dia estudando ou pesquisando ou desistindo de tudo para escrever.
Então o ideal seria fazer todas essas coisas por nós mesmos, não pelos outros.
Quando terminou de discorrer, Stuart estava parado no meio da calçada. Ele parecia não conseguir
andar e falar ao mesmo tempo, principalmente se estivesse empolgado com o assunto. Era fofo.
Então me dei conta de que ele estava se contradizendo.
— Mas você ganhou seu tapinha nas costas! — exclamei. — Você foi publicado!
Ele parou de andar de novo e estava mais sério dessa vez.
— Mas e se eu não tivesse sido publicado?
— Você… — engoli em seco. — É, só restaria aquilo de que você gostou durante o processo.
— Exato. E agora provavelmente estaria me empenhando muito mais — ele murmurou.
— Sei o que você quer dizer — respondi. Pensei na minha mãe e no meu pai e naquela frase
terrível: “reconhecer suas limitações”. Talvez o contrário do que ele queria dizer também fosse
válido. Todas as limitações de que meu pai e minha mãe falavam não passavam, por enquanto, de
hipóteses impostas sobre mim por outras pessoas. Eu estava indo atrás de meus próprios objetivos.
Continuamos a caminhar em silêncio. Pesado, acho.
Eu estava tentando manter o clima supercasual, Sam do Futuro. Tipo, tranquiiila. Nada de mais.
Mas não era eu. E eu queria derreter de alívio quando descobri que ele também não era assim.
Ele rompeu o silêncio e perguntou:
— O que você está lendo? — E, é claro, a conversa voltou ao normal, porque estou lendo um livro
sobre uma alternativa incrível ao capitalismo chamada “economia heterodoxa”, que diz basicamente
que a encomia, da maneira que a conhecemos, está ligada a… Ah, desculpe. Deixa pra lá.
Paramos para tomar um café gelado e sentamos no gramado do campus da Dartmouth. Vi que as
pessoas quase exalavam a primavera e pensei na palavra lânguido.
— Como você anda por Nova York? — perguntei.
— Se estou com tempo, vou a pé para todos os lugares. O metrô só é mais rápido se você tiver que
ir para outro bairro.
— Sério? Isso não parece fisicamente possível.
Ele levantou as mãos, como se estivesse se rendendo.
— O.k., nem sempre é verdade. É que eu gosto de andar.
— Mas você consegue chegar a todos os lugares na hora certa?
— Não tenho uma, hum, agenda muito rígida.
— Você só escreve o dia todo?
Ele apertou os olhos, como se minha pergunta tivesse doído.
— Eu tento. Também trabalho como assistente de barman algumas noites por semana. Basicamente,
tenho que usar roupa preta e ouvir conversas de rico, então é ideal. É o que eu faria de qualquer jeito
— ele disse e riu. Stuart começou a imitar uma mulher esnobe pedindo um coquetel: — E certifique-
se de que o suco de limão-taiti é de um limoeiro local, não quero nem saber se aqui não tem limão-
taiti.
— E o gelo deve ser feito com a água de um riacho glacial… — acrescentei.
— E o vidro deve ser de um vidreiro sueco…
Rimos tanto que até perdi o fôlego.
Estava sentindo aquilo que parecia ecolocalização outra vez, as ondas de energia emanando do
corpo de Stuart enquanto ele se inclinava para trás e eu mantinha a postura ereta, consciente dos
pequenos cortes que fiz ao raspar as pernas.
O nariz dele era todo reto, exceto por uma curva perto da ponta, que deve ter sido resultado de uma
fratura.
Ele tinha uma manchinha na clavícula.
Me deu um gole de seu café gelado e eu tomei — simplesmente levei a boca ao canudo, e ele não
se importou.
Estou aprendendo:
Não há uma linguagem secreta que você precisa falar para conversar com alguém de quem gosta,
Sam do Futuro. Basta falar. É melhor ainda se essa pessoa é capaz de falar de maneira inteligente
sobre a vida, o trabalho e os melhores cafés de Manhattan.
Eu já tinha imaginado Stuart caminhando pelas calçadas de Nova York, com seus passos largos,
passando por todo mundo, cabeça baixa, pensando em cenários e diálogos e personagens. Mas aqui
estava ele agora, bem diferente. Mais suave. Mais relaxado.
E talvez exista uma versão mais suave de mim também.
Você não precisa ser um robô, Sam do Futuro. As coisas que você faz não precisam
obrigatoriamente seguir na direção de um objetivo. Às vezes você pode parar ou fazer uma pausa,
pelo menos. Às vezes você pode simplesmente ser.
De qualquer modo, depois de um tempo Stuart teve que ir para o trabalho no Clube de Canoagem,
onde fazia uns turnos como barman enquanto estava em Hanover.
Nos levantamos.
Ele ficou me observando por um bom tempo com aqueles olhos negros e se aproximou lentamente
do meu rosto. Ai, meu Deus, ele estava chegando muito perto. Queimaduras radioativas iminentes.
Fiquei sem fôlego.
Ele se afastou rapidamente.
— Desculpa. Posso te dar um beijo no rosto? — ele perguntou.
— É o padrão? — perguntei e corei no mesmo instante.
— Padrão de quê? — ele perguntou de volta.
— Uma despedida padrão do que nós… do que acabou de acontecer, talvez? — Lembra que você
acabou de decidir que não precisa ser um robô?
Ele não respondeu logo. Agora estava nervoso. Ficou mexendo no cabelo na nuca, olhando ao
redor.
— O que acabou de acontecer?
— Bem… o que fizemos hoje. Sair.
— Hum… — Stuart tentou conter um sorriso. Ele deu de ombros, observando o horizonte, e depois
olhou para mim. — Não precisamos categorizar nossa saída.
— Vamos categorizar — eu disse rapidamente e esperei. Stuart abriu a boca, constrangido, e me
senti um pouco culpada por pressioná-lo, mas passou logo.
Um beijo sem contexto ou significado é equivalente a uma conversa fiada. E o que poderia
acontecer se ele não quisesse categorizá-lo e simplesmente fosse embora para sempre e não falasse
mais comigo? Eu voltaria para o meu trabalho, para o meu quartinho sobre o sótão, desejando-o a
distância. Grande coisa. Estou acostumada com isso. Qual era a novidade?
— Sinto muito — continuei. — É que tem muita coisa acontecendo agora e não quero estragar
tudo.
— Você não… — ele disse, rindo e balançando a cabeça. — Você não estragou nada.
Ele pôs os óculos escuros e olhou para o pôr do sol. As lentes refletiram duas esferas ardentes. Ele
segurou a minha mão e disse:
— Quero te dar um beijo no rosto porque acho que tivemos um encontro legal.
Encontro. Encontro. Assenti.
Ele se aproximou novamente e encostou a boca no meu rosto, bem perto da minha boca — um
segundo, dois segundos, três segundos — e foi embora.
Aaaaaarrrrrrgghhhhhhhh

Então aconteceu o inevitável. Quando cheguei em casa, vi um e-mail da sra. Townsend pelo celular.
Sammie,
Fiquei chateada ao saber que vocês perderam o torneio de debate. Não se preocupe com isso, garota! Espero que esteja bem de
saúde e descansada. Também gostaria que você soubesse: embora não saibam de nenhum detalhe, informei a seus professores sobre
as circunstâncias de força maior e pedi que viessem diretamente a mim se tivessem qualquer questão ou preocupação.
Sei que esteve muito ocupada nos últimos dias, então queria deixá-la ciente dos trabalhos que você pode ter perdido na semana do
torneio nacional:

Química avançada

Fichamento dos capítulos 14 e 15


Fichamento do capítulo 16
Pré-avaliação dos capítulos 14 a 16

Cerâmica

Tigela com verniz

Como estamos nos aproximando do fim do ano, principalmente das provas finais, por favor, me avise como posso ajudar. NÃO
TENHA PRESSA.
E venha me visitar. Sinto sua falta.
Sra. T

Como eu tinha perdido aqueles prazos? Estavam anotados no meu calendário, neste mesmo
computador, na mesma pasta deste arquivo. Verde para biologia, azul para literatura avançada,
laranja para história europeia avançada, marrom para cerâmica e amarelo para química. Estavam
bem ali, droga! Olhei tanto para eles que abriram um buraco na minha retina!
É bizarro! Não estou gostando nada disso.
Observei cada cor nos dias que restavam no calendário — apenas algumas semanas — e registrei
duas vezes cada tarefa e cada prova, no computador e na agenda.
Quando terminei, percebi outra cor, roxo-escuro, que aparecia uma hora por dia na semana anterior
à formatura. No dia da formatura, ocupava o dia todo.
Dizia: “Discurso de oradora da turma”.
Lembrei daquela conversa que ouvi dos meus pais. “Concordo”, eles diziam, e me perguntei
quanto eu havia percorrido no longo caminho para fazer com que eles acreditassem em mim. Eu
estava mesmo conseguindo enganar alguém? Lembrei de mim mesma piscando contra as luzes na
escuridão do Sheraton, de Maddie me encarando zangada e de um medo tão cortante que me dá
vontade de chorar.
Eu podia estragar tudo em um segundo e, se isso acontecer, a NYU já era.
Merda.
Recursos alternativos, fase um

Eu estava no canto do estúdio de cerâmica, matando a hora de almoço, e raspava e amassava com
empenho a argila úmida, suando com o esforço. Minha tarefa de química estava aberta sobre uma
banqueta ao meu lado. Fazia intervalos para escrever as respostas e logo voltava a moldar a maldita
tigela, que está mais para o primo alcoólatra de uma tigela, confuso e simpático, mas nada funcional.
Bem como o primo do meu pai, Tim, que em toda reunião de família me pergunta quando vou fazer
algo de útil com meu cérebro e participar de algum programa de perguntas e respostas na TV e ganhar
dinheiro para ele: motivo número cinco mil pelo qual preciso manter o referido cérebro intacto e dar
o fora daqui.
Bem, então o Coop entrou e fechou a porta. Tirou do bolso um saquinho e um pacotinho de papel
de seda.
— Sammie?
Desliguei o torno.
— Oi. O que você está fazendo?
— Oi — ele disse, sem responder à minha pergunta. Depois riu e se aproximou. Além do bolso
com a parafernália da erva, Coop ainda tinha num bolso de trás um caderno dobrado e, no lateral,
várias lapiseiras.
— Bom lugar para armazenamento — eu disse, apontando a calça dele com o dedo cheio de argila.
Ele sentou de frente para mim, puxou uma banqueta entre as pernas e começou a trabalhar,
debruçado como um artesão, espalhando delicadamente pequenos galhinhos verdes. Uma mecha de
cabelo caiu sobre seus olhos e ele assoprou para trás, franzindo a testa.
— É — ele murmurou. — Está muito calor para carregar mochila nessa época do ano.
— Você veio mesmo até aqui só para bolar um baseado?
— É a minha rotina da hora do almoço — ele respondeu, lambendo a beirada do papel e dando de
ombros. — Daí eu te vi. E então, o que está fazendo?
— Compensando o tempo perdido.
— Por causa do torneio, né?
— Como você sabe?
— Você me contou naquele dia na igreja. Além disso, todo mundo estava falando sobre isso. Bem,
não sobre vocês terem perdido, mas todo mundo ficou, tipo: “Uau, nossa escola foi classificada para
o torneio nacional de debate!”. As pessoas se empolgam com essas coisas. Eu fiquei me gabando,
tipo: “Eu conheço aquela menina”.
Eu ri. Coop rolou o pequeno cilindro impecável entre as pontas dos dedos.
— Mas agora estou ferrada. — Apontei para minha tarefa de química, também suja de argila. —
Não ferrada, mas… Você lembra… — Fiz uma pausa, me perguntando se deveríamos falar sobre isso
novamente. Mas Coop não tinha contado para ninguém depois que pedi que ficasse de bico fechado
na festa. O que foi bem legal. — Você lembra que uma das consequências da doença é a perda de
memória?
— Lembro — Coop disse. — Como estão as coisas? Você está bem?
— Esqueci de todos esses trabalhos. Eu nunca esqueço de nenhum trabalho. Nunca. E agora estou
com medo de esquecer as coisas no meio de uma prova ou de esquecer meu discurso na formatura
ou…
Coop deu um sorriso preguiçoso e pôs o baseado atrás da orelha.
— Você está com medo de virar uma pessoa normal.
Dei um soquinho nele.
— Não…
— São coisas com as quais eu me preocupo o tempo todo.
Parei para pensar naquilo por um minuto e olhei para o baseado.
— É, mas você poderia simplesmente, sei lá, parar de fumar tanto.
Ele olhou para cima, fingindo pensar, e voltou a olhar para mim, dando de ombros.
— Mas se a oradora da turma está preocupada com as mesmas merdas que eu, por que faria isso?
Então tive uma ideia.
— Posso te perguntar uma coisa?
Coop apoiou os antebraços na banqueta e me encarou como se não houvesse mais nada no mundo
que ele preferisse fazer a responder minha pergunta.
— Manda, Samantha.
— Como você sobrevive na escola sem ser reprovado?
— Hum — ele murmurou, tamborilando os dedos sobre o bíceps.
— Quer dizer, como você tem certeza de que vai passar de ano mesmo quando está, tipo… —
Olhei novamente para o baseado. — Mentalmente alterado?
— Bem, em primeiro lugar, eu não simplesmente “sobrevivo”. Eu tiro notas razoáveis.
— Eu sei.
— Como você sabe? — ele perguntou, e já fazia um tempo que eu não via uma expressão de
surpresa dele. Provavelmente desde que éramos crianças.
— Sempre procuro os nomes das pessoas que conheço na lista dos melhores alunos.
— Ah — Coop retomou. Certo, ele devia estar chapado, mas continuou o assunto. — Bem, não
“faço” muita “coisa”. — Ele fez aspas com os dedos. — Aprendo o que precisa ser aprendido, que é
basicamente comunicar de maneira eficaz que aprendi alguma coisa, sem ter aprendido de verdade.
Está acompanhando?
— Estou. — Eu observava admirada essa faceta dele. Estava longe de ser a pessoa chapada que
achei que ele tivesse virado, alguém que “não dava a mínima” para nada.
— Por exemplo — ele continuou —, esse seu lance de memória. Eu não memorizo as coisas.
Demora muito. Em vez disso, preparo oportunidades para… recursos alternativos. Como celulares
ou provas de simulado ou outras almas gentis que possam estar perto de mim.
Enquanto ele falava, pensei nas cores do meu calendário se misturando — todas as datas, todos os
trabalhos, todos os momentos em que talvez tivesse que tirar os olhos do papel e, ao olhar de volta,
não visse nada além de números ou palavras que não significavam nada para mim, sem ter a quem
recorrer para pedir “tempo”, indo mal em uma prova atrás da outra, até que a escola fosse obrigada a
deixar eu me formar por pena.
Coop ainda estava debruçado, observando enquanto eu divagava.
— Que expressão é essa? — ele perguntou.
— Você pode me mostrar essas coisas?
— Que coisas?
— Esses recursos alternativos que você tem.
Ele inclinou a cabeça.
— Está me perguntando como trapacear?
Eu suspirei. Não queria dizer sim, mas, como minha mãe sempre diz, temos que “dar nome aos
bois”. Eu havia tentado fazer do jeito antigo, Sam do Futuro, do jeito honesto, segundo o qual eu me
esforço, estudo, memorizo e veja só onde vim parar. Além disso, são só duas semanas em quatro
anos. A balança da moralidade ainda está a meu favor, não está?
— Sim.
Coop sorriu e piscou e naquele momento percebi por que as garotas queriam que ele fosse a base
de sua pirâmide humana.
— Certo — ele disse, guardando cada objeto no bolso certo. — Apareça em casa quando quiser.
Uma cena da vida provinciana na qual minha mãe
muda de time (por enquanto)

Minha mãe está servindo espaguete enquanto faço anotações sobre Ensaio sobre a cegueira, de José
Saramago, para a aula de literatura avançada, e tento não pensar no fato de que Maddie ainda não
está falando comigo. Meu pai está voltando do trabalho. Harrison está no computador. Bette está
embaixo da mesa, recortando cartolina sabe-se lá para quê. Davy também está embaixo da mesa,
brincando do que ela chama de “pequena sereia”: ela veste um sutiã da minha mãe, pega todos os
garfos e não fala, apenas indica as coisas com os olhos arregalados, a não ser que alguém dê água em
sua boca.
Davy puxa minha calça jeans, apontando para seu prato de espaguete, depois para minha mãe,
perto do fogão, e para mim em seguida.
— O quê? — pergunto. — Esse é o seu espaguete.
Ela aponta para o meu, coberto de molho, e faz um sinal negativo com a cabeça.
— Sem molho?
Ela assente com bastante intensidade.
— Mãe, a Davy quer ter certeza de que você não vai pôr molho no espaguete dela.
— Eu não brinco de pequena sereia — minha mãe diz, sentando-se para começar a comer. — Não
depois do incidente com o vaso sanitário.
Uma vez, Davy estava levando a brincadeira tão a sério que não quis dizer a Harrison onde estava
a pasta de dentes, então ele jogou água da privada nela. Davy ficou me encarando com olhos pidões.
Peguei um pouco de água do meu copo e joguei na cabeça dela. Davy falou.
— Sem molho, por favor! — Davy disse, rindo enquanto secava as gotas que haviam caído em
seus olhos.
— Posso usar um garfo da sua coleção? — perguntei.
Ela pegou um do chão. Limpei na calça. Limpo o suficiente.
A voz de Bette surgiu de baixo da mesa:
— Quem é Stuart?
Eu me abaixei. Ela estava de pernas cruzadas, segurando meu celular da forma mais casual
possível.
— Me devolve isso. — Estiquei o braço.
Bette riu, balançando o aparelho.
— Stuart diz — ela começou a ler, olhando para a tela. — O que acha de ir ao Clube…?
— Quem é Stuart? — minha mãe perguntou.
— Me devolve! — gritei.
— Você não precisa levantar a voz — minha mãe disse.
— Está bem… — Bette disse e jogou o celular no chão.
Guardei o celular no bolso. Comemos em silêncio por um tempo. Achei que tinham esquecido, até
que Harrison gritou de outro cômodo.
— Quem é Stuart?
Stuart: O que a acha de ir ao Clube de Canoagem enquanto eu trabalho amanhã à noite? É
terça-feira, então não vai ter muito movimento. Vc pode sentar no bar e fazer a lição de casa. E
me fazer companhia.
Eu: Sim!
Mais tarde, perguntei aos meus pais enquanto liam na sala, minha mãe com os pés sobre o colo do
meu pai:
— Posso ir ao Clube de Canoagem amanhã à noite?
Minha mãe virou a cabeça para olhar para mim.
— Vai ter algum socorrista treinado no recinto?
Parei para pensar. Tecnicamente, a maior parte das pessoas que trabalham em restaurante
precisam, por lei, ser socorristas.
— Sim — respondi.
— Quem?
Sou uma péssima mentirosa. Meu Deus, um horror. Sempre que tento mentir, fico com a boca seca.
Sou uma versão piorada do Pinóquio. Espero que você supere isso, Sam do Futuro. Sei muito bem
que mentir faz parte da carreira jurídica. Só que sempre tive a esperança de não precisar chegar a
esse ponto.
— Quem quer que seja o gerente do Clube de Canoagem — respondi.
— E quem é ele? — meu pai rebateu.
— Eu não sei. Mas, seja quem for, essa pessoa precisa, por lei, ser socorrista. — Depois
acrescentei “eu acho”, em voz bem baixa, porque minha boca estava começando a ficar seca
novamente.
— Eu acho que não — meu pai disse, voltando para o romance de Stan Grumman.
— Por quê? Você acha que vou ter uma convulsão no meio do Clube de Canoagem? Me poupe!
— Sim — meu pai disse sem tirar os olhos do livro. — Esse é o risco.
Não foi meu melhor momento, admito. Mas me recompus.
— Sammie… — Minha mãe suspirou. — Você não quer se concentrar na escola?
— Sim, mas não quero ser um robô que tem só mais uma semana no ensino médio e vai se formar
sem nunca ter tido um encontro.
Dessa vez, os dois viraram a cabeça. Minha mãe estava sorrindo. Meu pai não.
Tudo que falo em seguida parece sair de um comercial de modelador de cachos que passa de
madrugada na TV.
— Só vou ficar fazendo a lição de casa enquanto meu amigo trabalha! Ele disse que na terça-feira
não tem muito movimento! Eu ia andando até lá depois da aula! Vocês podem me pegar logo em
seguida!
— Tudo bem — minha mãe disse e começou a cutucar meu pai com o cotovelo.
— Sério?
— Sim!
— Gia… — meu pai cochichou para minha mãe.
Limpei a garganta. É claro que guardei um argumento final.
— Caso aconteça alguma coisa, o centro médico é mais perto do Clube de Canoagem do que da
nossa casa.
— É verdade! — minha mãe disse, cutucando meu pai com o cotovelo novamente.
— Ai! — Meu pai olhou para mim. — Tudo bem.
Qual é?

Hoje, a caminho da escola, passei por três pescadores que caminhavam pelo mato perto da rodovia
89, vestindo macacões, com galochas de cano alto penduradas nos ombros e carregando caixas
térmicas vermelhas com iscas. Deviam estar a caminho de Connecticut e, quando cruzei a ponte para
Hanover, senti o ímpeto de parar e tirar os sapatos. Não fiz isso porque tinha que terminar a tarefa de
cálculo, mas me dei conta de que não entrava no riacho perto de casa desde que tinha uns oito ou
nove anos.
Bem, eu estava flutuando pelos corredores da escola, pensando na vida e em Stuart e em como
funciona realmente a pesca quando vi que Maddie estava sentada no chão perto de seu armário com
algumas pessoas, e me senti descontraída como eles. Fui até lá e disse “oi”, como se sempre tivesse
feito isso, como se não tivéssemos brigado na última vez em que nos vimos.
Eles estavam rindo, e Maddie acenou com a cabeça, sorrindo.
— Oi — ela respondeu, com um ar amigável o suficiente.
Supercasual. Tranquiiiila.
— Adivinha o que aconteceeeeu? — perguntei.
— O quê? — ela perguntou, olhando para as pessoas à sua volta.
— Stuart me chamou para sair!
— Legal — ela disse num tom monótono e sorriu sem mostrar os dentes.
Eu não sei o que esperava. Acho que alguma forma de reconhecimento, talvez um ponto de
exclamação, considerando que ela estava lá no dia em que falei com ele pela primeira vez e que tinha
sido a principal responsável por isso.
— É… — eu disse. — É mesmo!
Maddie pegou o celular, o que, como se sabe, significa que a conversa estava encerrada. Mas eu
não estava pronta para encerrá-la. As coisas finalmente estavam melhorando para mim. Eu queria que
ela estivesse presente. Queria compartilhar com ela.
Eu me abaixei, chegando mais perto.
— Então, tipo… podemos conversar?
Maddie ainda estava vendo fotos no celular.
— Acho que sua mãe estava certa — comecei a dizer. Minha boca estava seca por causa do
remédio. — Precisávamos de espaço, e queria pedir desculpas.
Sem resposta. O polegar dela se movimentava com mais rapidez. Talvez eu não estivesse sendo
clara.
— Estou tentando dizer que sinto muito por não ter contado sobre… — Olhei para os amigos dela,
que também mexiam no celular. — Você sabe.
— Nossa, garota — Maddie disse de repente, apoiando os braços sobre os joelhos. — Você não
consegue interpretar sinais de comportamento?
Endireitei a postura. Lembro de ter feito um ruído que detesto, como uma criança que ficou
sabendo que não vai poder comer sobremesa.
— Eu consigo… — comecei a dizer, mas logo parei. E meio que simplesmente fiquei lá,
encarando-a.
Maddie levantou e me fez andar alguns metros para o lado. Obviamente ainda estava brava
comigo, mas era um alívio que pelo menos estivesse reagindo.
— Vou dizer direto na sua cara: você me magoou por não me contar.
Tentei dar um sorriso.
— E sinto muito! Acho que você tem razão! É isso que estou tentando dizer!
— Sammie, eu ainda não terminei.
— Tudo bem — eu disse. Ela podia ficar falando para sempre, contanto que voltássemos a ser
amigas. Dei um suspiro de alívio (prematuramente, pelo que se constatou em seguida).
— Não sei lidar com o fato de você estar doente.
Inspirei, tentando assimilar as palavras dela. Mas elas não faziam sentido.
— Como assim?
Maddie juntou as mãos como se fosse rezar. Suas unhas estavam pintadas de roxo.
— De repente viramos amigas, justo quando você fica doente? Você nunca quis andar comigo fora
do âmbito do debate. Mas agora parece que precisa de alguém para quem contar todas as suas
angústias, tristezas e percepções sobre a vida, e sou a mais conveniente amiga instantânea.
— Isso não é…
— Só estou dizendo que eu me esforcei muito para sermos amigas de verdade, e você nem é capaz
de me dizer a verdade sobre o que está acontecendo na sua vida. Não, você é obcecada com suas
próprias coisas, ocupada demais com o show da Sammie.
Joguei as mãos para o alto.
— Show da Sammie? — Eu? A pessoa que mal conseguia sair de perto da parede em uma festa? A
pessoa que falava com um computador em vez de falar com pessoas? De que merda ela estava
falando?
— Bem, você não é assim sempre, Sammie — Maddie disse, fechando os olhos rapidamente. Ela
os abriu novamente. — Eu estava exagerando. Mas te evitei porque tive medo de ser usada como uma
espécie de apoio emocional sempre que fosse conveniente, sem receber nada em troca. É claro, eu
nunca poderia questionar nada, porque você está doente e não deve ser contrariada…
— Eu nunca faria isso — eu disse em voz baixa.
— As pessoas fazem isso sem perceber — ela respondeu. — E não é culpa delas.
Apenas fiquei olhando para ela, esperando. Agora estava com medo de falar, por receio de
despejar qualquer coisa sobre ela.
Maddie levou as mãos ao rosto e suspirou, olhando para mim.
— O que estou dizendo faz sentido? Sei lá. Talvez eu esteja projetando minhas próprias merdas
com isso.
Engoli em seco e disse a frase mais curta em que pude pensar:
— Estou muito confusa.
— Eu também estou — ela disse. Ouvimos o sinal da primeira aula.
Uma terça-feira como qualquer outra

ESTOU EM PÂNICO. Stuart mandou outra mensagem de texto dizendo que sai do trabalho às seis, então
eu iria para lá depois da aula para ficar até o fim de seu turno. Eu ficaria com ele por três horas, pelo
menos. PELO MENOS.
Está bem, respondi.
Que horas você vai chegar?, ele perguntou.
Se eu responder em cinco minutos, vou parecer muito desesperada?
E se eu estiver fazendo com Stuart o que Maddie disse que eu fazia com ela?
Mas eu não estava fazendo aquilo com ela. Juro por todos os santos, Sam do Futuro, que nunca
tentei usar a Maddie.
Não posso contar ao Stuart sobre a NP-C. Quem sabe como ele vai reagir? Se ele entrar em pânico
como a Maddie, não vai me restar ninguém.
Dez minutos é tempo demais? Como se eu não estivesse interessada e fosse mais um lance de
amizade?
Vou optar por oito minutos, porque ele teve a iniciativa de mandar a primeira mensagem, mas eu
praticamente o obriguei a dizer que a última vez que saímos tinha sido um encontro. Então fica bem
no meio. Estatisticamente seguro.
Ai, meu Deus, só tenho uma roupa legal, e eu já usei. Meus óculos estão manchados. Estou usando
chinelo, um short jeans rasgado e um moletom gigantesco porque o Cachorrinho vomitou em cima da
roupa lavada hoje de manhã e a única outra opção era uma camiseta que meu pai comprou de
brincadeira e diz “GOSTA DE LEITE ACHOCOLATADO?”. Ela, claro, está com uma mancha de leite
achocolatado na gola porque, sim, eu realmente “gosto de leite achocolatado”.
Esta é uma roupa que diz: “Sou uma jovem normal, ambiciosa, desencanada, que não tem uma
doença incapacitante”. Certo?
Não é tradicionalmente feminina, mas, se Elizabeth Warren se preocupasse com o que vestia, não
teria tempo para condenar as práticas de corrupção nos bancos. Ai, meu Deus. Ele disse: “Te vejo
daqui a pouco”. Certo, vou vê-lo daqui a pouco. Vou vê-lo daqui a pouco no segundo encontro de
toda a minha vida, talvez o último, porque aposto que vou esquecer meu próprio nome. Aposto que
vou entrar no Clube de Canoagem e todo mundo que conheço vai estar lá, como se fosse uma
intervenção. E todo o Clube do NP-C (comecei a chamá-los assim depois de receber duas
newsletters) vai estar lá com as cadeiras de roda e as camisas de estampas tropicais e vai dizer:
“Surpresa! Pagamos para o menino de quem você é a fim fingir que gosta de você e você não se
sentir mais socialmente alienada do que já é! Mas agora você é uma de nós! Você é uma estrela
cadente!”.
Talvez eu devesse ser mais legal com as pessoas.
Talvez devesse ter vestido a camiseta do leite achocolatado.
Ai, meu Deus. Que me foda. Não, que se foda. Desculpe. Eu quis dizer “que se foda”. Ato falho.
Os humanos fazem isso há séculos: uma lição de
anatomia

O Clube de Canoagem era um lugar pelo qual eu apenas passava, onde meus pais só iam em festas de
aniversário de casamento, onde os alunos da Dartmouth levam os avós quando vêm na cidade. Mas
agora parece que é meu para sempre.
A calçada da frente parece ser minha para sempre.
A curva que fizemos para chegar à casa de Stuart é minha.
A entrada de sua casa é minha.
Vou começar do princípio.
Quando entrei, Stuart estava limpando o bar de madeira laqueada com um pano, diante de fileiras e
mais fileiras de garrafas dentro de uma canoa gigantesca e oca pendurada na parede. Ele estava de
camisa social preta com as mangas dobradas. Quando percebeu que eu estava lá, deu a volta no bar e
me abraçou. Eu me lembro de quanto o abraço durou e da sensação da ponta de meus dedos sobre os
músculos de suas costas. Eu nunca tinha estado tão perto de outro ser humano. Pelo menos não dessa
forma. Nunca havia contemplado os ossos da coluna de alguém.
Pus a mochila no banquinho ao meu lado, a um banquinho de distância de uma mulher de meia-
idade que lia um livro e tomava cerveja escura sob as luzes esverdeadas, a única outra cliente do
bar.
— Como foi seu dia? — Stuart perguntou.
— Foi tudo bem — respondi, tentando não ranger os dentes de nervosismo. Talvez só estivesse
frio: por que todos os lugares precisam deixar o ar-condicionado em uma temperatura tão
congelante? Observei as mãos dele girando um copo sob a água da torneira, balançando-o para secar,
adicionando-o a uma pilha.
— Como foi o seu?
— Só fiz isso — ele disse, olhando para mim e sacudindo outro copo para secar. — E tentei
escrever.
— Você tem um prazo? — perguntei, encarando-o nos olhos novamente quando começou a cortar
uns limões e jogar as fatias em potes plásticos.
— Sempre — ele respondeu, dando um sorrisinho, o que, por algum motivo, me deixou aliviada.
— E você anda fazendo o quê? Estudando para as provas finais?
— Quase — eu disse. — Estou me preparando.
— Deve ser difícil quando o tempo está bom assim — ele disse.
— Não faz muita diferença para mim — eu disse, fingindo brincar com o porta-copos.
— Nada de festas?
— Rá! Não. A do Ross foi minha primeira e última. — Lembre-se, eu disse a mim mesma, você
não precisa ser um robô. — Provavelmente.
Stuart terminou e secou as mãos no avental.
— E a formatura? Fiquei tão louco na noite anterior à minha que quase perdi a hora. Tive que
correr para o estádio sem nada debaixo da beca além da cueca porque não tive tempo de me vestir!
— Bem. — Engoli em seco. — Eu certamente não tenho essa opção. Preciso vestir mais do que
roupas íntimas sob a beca…
Nós dois ficamos vermelhos. Stuart olhou para o meu moletom.
— … porque vou fazer o discurso — concluí.
— É verdade — ele disse, balançando a cabeça devagar.
— O que foi? — perguntei, olhando para ele.
— Nada — ele disse, sem tirar os olhos negros dos meus. — Isso é tão legal.
Aquelas palavras saindo da boca dele, do corpo dele sob as roupas dele… era como se tivesse
escrito na minha pele outra vez.
A mulher de meia-idade pigarreou.
— Você faria a gentileza de me servir mais um, Stu?
— Ah, sim! Claro! — Enquanto enchia o copo da mulher, Stuart disse: — Você veio no dia certo,
Sammie, porque também… bem, esta é Mariana Oliva.
— Olá — eu disse, e nos cumprimentamos. Ela tinha mechas grisalhas no longo cabelo castanho e
linhas de expressão na pele acobreada.
Stuart apontou para ela, que tomava um gole da bebida.
— Ela é uma das minhas ídolas.
— Ah, você dá aula na Dartmouth?
— Não, moro na Cidade do México — Mariana disse. — Só estou aqui para fazer uma pequena
leitura no final da semana.
Stuart olhava alternadamente para mim e para ela.
— O livro dela, Sob a ponte, deve ser um dos meus preferidos de todos os tempos.
— Obrigada — Mariana disse, levantando o copo na direção de Stuart. — Você é muito gentil.
Stuart e Mariana engrenaram em uma conversa sobre narrativa em primeira pessoa versus em
terceira pessoa, e me senti como acho que os fãs de esporte devem se sentir quando assistem a um
jogo de seu time preferido, mas o esporte muda a cada minuto, e a bola muda, e o estádio.
Mariana e Stuart tinham algo a dizer sobre todas as coisas do mundo.
Sobre Shakespeare: “Ele não era um homem. Era um grupo de amigos sexualmente confusos que
tentavam superar uns aos outros”.
Sobre cachorros pequenos: “Ratinhos. Ratinhos neuróticos”.
Sobre a ida do homem à Lua: “Eu acredito que tenha acontecido. Mas também acredito em
astrologia, então considere com reserva”.
Sobre romances como uma arte decadente: “Romances refletem a consciência de um país. Se
dissermos que eles estão à beira da morte, estaremos admitindo o fracasso. Depende de você estar ou
não preparado para fazer isso”.
— Não estou — Stuart respondeu.
— Nem eu — ela respondeu, e eles apertaram a mão um do outro.
Eles me incluíram na conversa, e eu falei quando pude, mas, na maior parte do tempo, apenas
escutei.
— O que você acha, Sammie? — Stuart perguntava.
Num determinado momento, simplesmente tive que dizer que havia muitas coisas que eu não sabia.
— Sou uma espécie de esponja — eu disse e senti minha boca ficar seca. — Tenho algumas
opiniões fortes, mas elas podem mudar. Só quero aprender tudo o que puder.
Mariana esticou o braço e pegou na minha mão.
— É uma atitude muito sábia — ela disse, me apertando de leve. — Muito sábia para uma garota
da sua idade.
Dava para sentir Stuart sorrindo para mim, e nos encaramos. Seus olhos percorriam meu rosto.
Mariana continuou, tomando um gole de sua cerveja.
— Eu adoraria voltar a ter a sua idade. Passaria muito menos tempo atrás de homens e muito mais
tempo absorvendo coisas.
Stuart tossiu um pouco e senti meu rosto esquentar.
— Ah! — Mariana riu, olhando para nós. — Sinto muito. Não, o amor é uma coisa linda. Nunca o
evitem. E não me arrependo de nada. Mas meu trabalho é meu amor no momento. — Ela se virou
para mim. — O que você quer estudar?
— Economia e políticas públicas. E depois direito — respondi, endireitando o corpo no
banquinho.
— Ótimo. Mas não se prenda. Estude de tudo.
— Como o quê? — perguntei e quase peguei meu bloco, para tomar nota de tudo.
Logo nós três estávamos falando de política e das condições de quem vive com um salário mínimo,
sobre o quê, como você sabe, tenho muito a dizer. Quando levantamos os olhos, o gerente de Stuart
estava com as mãos nas costas dele, dizendo que o turno havia terminado.
Stuart contou o dinheiro do caixa e limpou o bar.
Mariana se despediu de mim com dois beijos no rosto e disse a Stuart que o veria na leitura.
Finalmente, ele saiu do banheiro vestindo uma camiseta e óculos escuros, com a camisa social
pendurada no ombro.
— Está pronta? — ele perguntou.
— Sim — respondi. Minhas mãos estavam trêmulas, meus passos eram largos e meus pensamentos
não se aquietavam enquanto caminhávamos durante o pôr do sol, e é assim que espero me lembrar de
Stuart para sempre, como ele estava na noite passada, pele quase alaranjada sob o sol, os raios mais
uma vez refletidos nas lentes.
Espero que o resto da minha vida seja assim, lembro de ter pensado. Simplesmente batendo papo
com escritores famosos, conversando sobre livros e política.
— Quero ser um escritor como a Mariana — ele disse depois de algum tempo em silêncio.
O sol já havia desaparecido atrás das árvores. Paramos no meio de uma ruazinha secundária, a rua
dele.
— Aposto que vai ser — eu disse.
— É, isso não… tanto faz. Eu perco o foco. Eu tenho problemas para… terminar as coisas. Quero
apenas ser um escritor que escreve o tempo todo, que escreve essas histórias plenas, ricas e
profundas. Não apenas coisas sem importância.
— Você vai conseguir — eu disse a ele, tocando seu braço de uma forma que esperava ser
encorajadora.
— É bom mesmo que eu consiga — ele disse. Até esse momento, ele estava esperançoso. Ansioso,
sim, mas esperançoso. A partir de então, parecia tenso.
— Como assim?
Ele levantou as mãos.
— Eu desisti de tudo para fazer isso. Não fui para a faculdade. Posso morar na casa dos meus pais
agora, é claro, mas não por muito tempo. Preciso ser bem-sucedido. É tipo aquilo sobre o que
falamos da última vez. Minha própria definição de sucesso. Eu só quero terminar.
Continuamos caminhando até uma casa antiga, pintada de amarelo com detalhes em branco.
— É. — Levei a mão entre as costelas, perto do esterno. — É tipo… aqui. Essa pressão constante
que vem de dentro, não de fora.
— Posso sentir isso em você — Stuart disse. — Você tem esse impulso. É bom estar perto.
— É bom estar perto de você também — eu disse em voz baixa e suave, muito diferente do meu
jeito. Porque era o tipo de coisa que eu nunca havia dito antes. E aquilo teria sido o bastante para
mim, ouvi-lo dizer que gostava da minha inquietação.
— E então, o que você vai fazer agora? — Stuart olhou para trás, para a casa de seus pais, tirando
os óculos escuros. — Quer entrar?
— Quero — respondi. Olhei para o celular. Minha mãe tinha mandado uma mensagem perguntando
se devia me pegar no Clube de Canoagem na volta do trabalho. — Mas não posso. Sinto muito. Eu
quero…
— É claro — ele disse e se aproximou, me encarando com seus olhos negros meio sonolentos.
Ele pôs a mão na minha cintura, pressionando através do agasalho.
— Tudo bem? — ele perguntou.
— Sim, mas eu nunca… — Eu não sabia como formular a frase. Então, simplesmente disse: —
Não sei muito bem como fazer isso.
Stuart sorriu.
— Quer tentar?
Para responder, levei minha boca até a dele e seus lábios se movimentaram um pouco, suavemente
no início, depois com mais firmeza, diferente de qualquer outro toque que eu já tinha sentido. Senti a
língua dele, então abri um pouco a boca. Os humanos fazem isso há séculos, lembro de ter pensado.
Depois não pensei em mais nada, porque a boca dele estava quente, úmida e tinha gosto de limão.
Foi como se alguém jogasse água morna sobre mim, lentamente, o que me fez querer abraçá-lo com
mais força. Passei as mãos pelos braços dele, depois pelos ombros e pelo rosto.
Queria continuar.
Meu celular vibrou no bolso. Eu o soltei. Ele me soltou.
— Tchau — eu disse. Depois tentei manter a boca fechada, porque minha respiração estava
pesada.
— Tchau — ele disse, e fechou a boca também, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas
não pudesse.
Voltei andando para o Clube de Canoagem, entrei no carro da minha mãe e fingi que estava tudo
normal.
Mas não consigo parar de pensar no que aconteceu. Não sabia que queria sentir aquilo até que
aconteceu. Eu acabei de beijar Stuart Shah. Eu acabei de beijar Stuart Shah.
Sinto que sou uma pessoa diferente do que era há doze horas, como se minha pele grossa e rachada
estivesse se soltando e deixando uma camada nova de pele rosada, tipo uma transformação. Como a
sra. Queé em Uma dobra no tempo, quando ela deixou a Terra, atravessando diferentes dimensões,
para ir a um planeta roxo-acinzentado com duas luas. Ela era um amontoado de trapos e botas na
Terra e, no novo planeta, virou uma criatura brilhante com um corpo poderoso e asas, quase
indescritível. Eu ainda estava usando chinelo e moletom, ainda sentindo o cheiro da noite neles, mas
pareço diferente. Estou diferente.
Sei como o amor funciona, Sam do Futuro, li sobre isso na National Geographic. É um disparo de
neurônios e uma descarga de dopamina, o que os neurocientistas chamam de “química da atração”. E
isso, combinado com a necessidade evolutiva de se reproduzir, cria um padrão condicionado de
comportamento. Você procura seu objeto de amor pelo mesmo motivo que procura um chocolate:
porque quer sentir novamente aquele sabor doce.
Mas ninguém nunca me disse como seria fácil, como seria bom. Bem… disseram. Tentaram.
Shakespeare tentou. Os Beatles tentaram. Mas eu ainda não sabia que seria assim.
Guia Cooper Lind de recursos alternativos

Fui ao quintal do Coop para pegar seu “guia de recursos alternativos”, que na prática era só um
bloquinho velho cheio de rabiscos do Garfield fazendo enterradas de basquete e algumas ideias
intercaladas, mas tinha coisa boa. Sentamos na cerca que separava nossas casas, como
costumávamos fazer. Eu anotava mais coisas e Coop jogava uma bola na árvore mais próxima,
tentando acertá-la bem no meio.
Certo. Se este for um registro oficial, que fique claro que só usarei essas anotações se necessário.
Sendo que a definição de “necessário” é: apenas se houver risco de fracasso. Notas ruins nas provas
finais podem fazer minhas médias baixarem para oito ou sete, o que pode ameaçar minha posição de
oradora da turma na colação de grau. Se não fosse por isso, eu jogaria limpo até o fim.
(A lista foi severamente editada para excluir o item “seduzir pessoas da classe para que me
passem todas as respostas”.)

“A impressão está borrada, não dá para ler.” Enquanto o professor verifica o papel, dar
uma espiada na prova do vizinho. Eficaz principalmente em provas de matemática. (USAR
NA PROVA DE CÁLCULO.)
Ir ao banheiro segundos antes ou assim que as pessoas começarem a virar as provas, para
evitar suspeitas. Chegando lá, ler as colas no celular. (USAR NAS PROVAS DE LITERATURA
AVANÇADA, especialmente em questões de múltipla escolha.)
Fugir das datas oficiais das provas para fazê-las em “datas alternativas”, como sozinho
depois da aula, quando é possível consultar os livros. (HISTÓRIA EUROPEIA AVANÇADA.)

Depois de copiar tudo o que achei que valia a pena, disse exatamente isso para mim mesma: “Bom,
tenho tudo o que acho que vale a pena”. Então, lembrei o que Maddie tinha me dito no outro dia e
perguntei:
— Coop, não estou te usando, estou?
— Tipo… espera aí, o quê?
— Tipo, exigindo demais de você sem dar nada em troca.
— Não! Não — ele se apressou em dizer, correndo para pegar a bola de futebol na frente da
árvore. Quando voltou, disse: — Confie em mim, já fui usado antes e não é assim. Você pediu o que
queria sem rodeios e eu disse sim.
— Quem te usou?
Coop deu de ombros.
— Garotas.
Eu pulei da cerca.
— Ah, certo.
Ele jogou a bola de novo.
— Elas dão em cima de mim para entrar em festas, conseguir bebida, drogas e novos amigos. É
assim que é.
— Não é só isso.
— Às vezes, não.
Eu levantei o bloquinho.
— Elas dão em cima de você por causa dos seus desenhos do Garfield.
Coop bufou.
— Você desenhava aqueles personagens do Senhor dos Anéis que pareciam cocôs. É surpreendente
que não tenha um namorado a essa altura já que tem essa habilidade.
Eu ri, olhando para minhas mãos, pensando na boca do Stuart colada na minha.
— Que cara é essa? — Coop me encarava com os olhos arregalados.
— Cara nenhuma.
Ele diminuiu o tom de voz.
— Você está namorando?
— Não…
— Quem é?
— Ninguém.
Coop correu para pegar a bola. Quando voltou — dessa vez mais rápido — perguntou:
— Ninguém quem?
Era difícil resistir à vontade de contar a ele. Também era difícil não falar num tom que desse a
entender: “Viu? Não sou uma perdedora, haha”.
— Ninguém é Stuart Shah.
— Ah — Coop disse e desviou o olhar. — Legal.
Dessa vez a bola foi parar atrás daquela árvore e atrás da árvore seguinte também.
Enquanto corria, ele gritou, olhando para trás:
— A gente se vê.
— Eu não estava… — comecei a dizer, mas lembrei que ele fazia isso sempre que queria ficar
sozinho. Ele sempre se despedia antes mesmo de eu pensar em ir embora.
Olha, mensagens de Stuart Shah

Puta merda, que loucura. Passei xampu três vezes ontem sem querer porque fiquei pensando nele e…
em repetir o que já tínhamos feito.
Stuart: A Mariana vai fazer uma leitura hoje à noite na biblioteca da Dartmouth e me convidou
para participar!!!
Eu: Uau! Parabéns!
Stuart: É às cinco. Vamos?
Eu: Se conseguir terminar a análise de Ensaio sobre a cegueira para amanhã, vou.
Stuart: Bom, então o que está fazendo no celular? Escreve, escreve, escreve!
Eu: Hahaha!
Stuart: Te vejo às cinco ;)
Eu: Se Deus quiser
Stuart: Não sabia que vc era religiosa.
Eu: Desculpa, quis dizer se Zeus quiser.
Stuart: VAI ESCREVER PARA EU PODER TE VER!
Framboesa azul

Terminei o trabalho às quinze para as cinco e, em todo caminho até a biblioteca, andei daquele jeito
estranho, meio correndo, como as pessoas andam quando atravessam a rua e o semáforo de pedestre
está prestes a fechar. Quando cheguei, a biblioteca estava lotada, havia fileiras de cadeiras no saguão
cheias de pessoas quase invadindo o espaço das estantes. Mariana estava no microfone, já fazendo a
leitura.
Stuart estava na fileira da frente, com a cabeça abaixada, e olhava atentamente para o chão,
escutando.
Por fim, Mariana olhou para o Stuart, e acompanhei os olhos dela. De perfil, os longos cílios dele
se curvavam na direção do nariz e sua boca estava aberta.
— Como aqueles que já me viram lendo antes sabem — Mariana disse —, adoro fazer com que
duas obras dialoguem. Para os dois últimos trechos, gostaria de chamar um jovem escritor que me
mandou alguns textos ontem à noite. Acho que ele não esperava que eu fosse ler… — A multidão deu
risada. — Mas, depois de manter meu copo de cerveja cheio, é o mínimo que eu poderia fazer por
ele. — Todos riram de novo. — E fiquei muito impressionada. Então, leremos trechos curtos em
forma de conversa.
Quando Stuart pigarreou e abaixou a cabeça para ler a página impressa, quis saber tudo que não
sabia sobre ele.
Que marca de pasta de dentes ele usava?
Será que sonhava com frequência?
Os sonhos eram vívidos?
Qual era sua bala favorita?
O texto dele era bom. Todos reconheciam que era bom, porque ninguém estava impaciente.
Queria dizer para todo mundo ali: “Eu conheço ele. Eu já beijei ele”. Quando Stuart começou a ler,
grudei os olhos nele. Mas ele não olhou para mim. Talvez não tenha me visto. Talvez o calor que eu
senti tenha sido alarme falso ou uma febre, e ele na verdade não queria que eu viesse.
A leitura terminou. Bati palmas o mais forte que pude, e todos se levantaram.
Sam do Futuro, eu tinha começado a ficar acordada à noite, pensando nas nossas conversas, rindo
sozinha das coisas que Stuart tinha dito e lembrando daquela sensação de pequena explosão que eu
sentia sempre que o fazia rir. Mas, desde a conversa com a Maddie, fiquei me perguntando se não
tinha simplesmente dado muita importância para as horas que passamos no gramado da Dartmouth,
jogando ideias para o alto, tirando palavras da boca um do outro.
Stuart foi para trás da mesa onde Mariana autografava livros e esticou o pescoço. Estava
procurando por alguém. Talvez por mim, talvez não.
Talvez ele só estivesse esperando pelo momento em que pudesse dizer algo parecido com o que
Maddie tinha dito, algo como “Mas agora parece que precisa de alguém para quem contar todas as
suas angústias, tristezas e percepções sobre a vida, e sou a mais conveniente amiga instantânea” e
tivesse apenas decidido me beijar no meio-tempo.
Uma grande fila se formou. Passei por entre as estantes.
Mas minha intenção não era levar todas as minhas angústias a ele. Isso era o oposto do que eu
queria fazer. Eu queria ouvir o que ele tinha a dizer e, claro, falar de vez em quando — tudo bem,
talvez quisesse falar bastante —, mas queria que ele gostasse do que eu dissesse. Queria conversar
sobre ideias e livros e coisas sobre as quais pessoas inteligentes conversam, coisas sobre as quais
pessoas como Stuart conversam.
Dois alunos da Dartmouth entraram na fila perto de onde eu estava entre as estantes, dizendo:
— … e Stuart Shah, uau! Também li o texto dele na Threepenny Review. Ele é um prodígio…
Eu estava bem certa de que aquele não era o meu lugar. Estava bem certa de que alguém cujo futuro
dependia tanto de colar nas provas finais quanto de um discurso de formatura de dez minutos não
deveria estar ali, ao lado de Stuart Shah e de todas as pessoas que o admiravam.
Ouvi a voz dele perto de mim, e uma multidão de pessoas rindo.
Eu me refugiei na seção de filosofia e tentei acalmar o coração, respirando devagar e olhando para
o chão, como a dra. Clarkington havia me ensinado. Aquilo era horrível. Gostar de alguém é
horrível, eu pensava. Eu deveria voltar a ficar trancada na torre do sino, de onde não consigo
atirar nenhuma bomba emocional. De repente, vi sapatos marrons.
— Aí está você — ouvi Stuart dizer tão baixo que senti que era para mim.
Senti as mãos dele tirarem as minhas da cintura e ele se curvou para me dar um beijo na bochecha.
Eu não conseguia olhar para ele.
— Stuart… — Eu saí na direção de onde estava a plateia. — Você foi muito bem.
— Obrigado — ele disse. — Está tudo bem com você?
— Eu só queria dizer… — comecei. Dei um passo para trás e o encarei nos olhos. — Tudo bem se
não gostar de mim tanto quanto eu gosto de você. Pode me dizer.
— Bem… — ele começou a falar e inclinou a cabeça. — Você nunca disse o quanto gosta de mim.
Inspirei, esperando que fosse a última respiração profunda da sequência.
— Posso dizer?
Ele abriu um sorriso devagar.
— Sim, eu gostaria de ouvir.
— Desculpe se isso é estranho. Nossa. Meu traquejo social é o de um… de um Neandertal.
Ele riu, seus olhos negros deram uma espiada em mim e ele inclinou a cabeça para trás, o que me
fez sentir uma onda de descontração passar por mim, pela seção de filosofia, por toda a biblioteca.
Os livros pareciam estar um pouco mais brilhantes. Eu ri com ele.
— Eu gosto muito de você — disse.
— Eu também gosto muito de você — ele disse. — Se é que você já não percebeu.
— Não consigo — eu disse, balançando a cabeça. — Não sou muito boa em ler sinais de
comportamento. Me disseram isso há pouco tempo.
Então ele me deu um beijo demorado, o que foi perfeito. Porque foi muito bom, claro, mas também
porque parece que entendi tudo e, para ser sincera, talvez tenha sido a primeira vez que essas duas
coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Recursos alternativos, fase dois

Deitada na enfermaria, olhando para o relógio. Eu “vomitei” meu café da manhã no lixo da sala de
aula, com a ajuda de um gole de vitamina de frutas que segurei na boca por dez minutos. A escola
queria ligar para os meus pais, mas eu disse que era um efeito colateral do Zavesca e listei todos
eles, até a enfermeira ficar enojada e desistir. Todos os meus colegas de turma estavam fazendo a
prova final de história europeia avançada. Quando a prova acabar, vou me “recuperar” e fazer a
prova na biblioteca, mais tarde, onde ninguém vai me ver consultando minhas anotações se (e apenas
SE) eu precisar delas.
Provavelmente conseguiria ter feito a prova, mas não queria arriscar ter outro branco,
principalmente porque minha cabeça ia e voltava do Stuart para a escola para o Stuart de novo.
Depois da leitura, achamos um lugar no campus da Dartmouth onde podíamos nos beijar e
conversar e beijar mais um pouco. Ele tentou passar os dedos pelo meu cabelo, mas não conseguiu
porque meus cachos são muito grossos e emaranhados. Nós rimos e ele beijou meu pescoço, o que
fez cavalos galoparem no meu estômago de novo — não quaisquer cavalos, mas Scadufax, senhor de
todos os cavalos — e eu pus a mão debaixo da camisa dele e, na verdade, não importa, é estranho
demais escrever sobre isso na enfermaria.
Quase acabando.
Toda vez que a sra. Dooley, a enfermeira, olha para mim, tento parecer desolada e tomo um golinho
de água.
E quem entra na enfermaria senão Cooper Lind em pessoa, usando seu próprio método! Aceno para
ele, mas ele põe um dedo sobre os lábios, aponta para a enfermeira, senta ao meu lado e solta um
enorme e falso suspiro de dor.
Finjo que estou escrevendo algo importante neste arquivo do Word.
E aí, Coop?
“desmaiei” na prova de ciências da computação
Esse sistema é doido. Meu coração está batendo tão rápido.
mas está funcionando direitinho
Nem acredito que está funcionando.
bem-vinda aos últimos quatro anos da minha vida
Haha
está sentada do meu lado, não precisa escrever haha, pode rir mesmo
Tenho medo de rir e acharem que não estou doente.
o que quer que faça, não ria agora
DROGA agora estou rindo
hahahahaha :)
Fenda do biquíni

Assistindo a Bob Esponja com a família no sábado à noite, porque foi a vez da Davy escolher o
filme. Fingi reclamar com Harrison e Bette, mas, como você sabe (em segredo), eu acho esse
desenho hilário. E, para ser sincera, o Lula Molusco parece muito comigo.
Mandei uma mensagem para Maddie, por sinal. Pedi desculpas de novo e perguntei se ela queria
me encontrar. Ela só respondeu “tudo bem” e ignorou a segunda parte. É provável que esteja
ocupada. Toda vez que a vejo na escola, ela está com um grupo de pessoas felizes e barulhentas, indo
para algum lugar. Fiquei pensando se ela ouviu alguma coisa sobre Stuart e eu estarmos, tipo, juntos.
Mas, até aí, não sei se Stuart contou para alguém sobre nós e, caso tenha contado, o que contou
exatamente.
Isso me faz pensar.
Eu: Trabalhando?
Stuart: Siiiim e aí?
Eu: Eu sou sua namorada?
Stuart: O título da sua biografia será Sammie McCoy: direto ao ponto
Eu: Mas, sério, eu sou?
Stuart: Vamos falar sobre isso pessoalmente. Mais tarde, quando eu sair?
Olhei para o meu pai e a minha mãe, Davy esparramada no colo deles, Bette entre as pernas da
minha mãe, que escova o cabelo dela. Lembro de como minha mãe parecia triste quando me pediu
para passar mais tempo com eles. Lembro da minha força-tarefa para NP-C e de como estou tentando
ser menos egoísta.
Eu: Não dá, estou com a minha família hoje.
Stuart: Ah, beleza. Amanhã?
Eu: Combinado. Mas… se fosse dar uma resposta rápida agora, qual seria?
Olho para a tela. Stuart está digitando. Merda. Talvez tenha forçado demais. Por que não consigo
ser desencanada e fria e tal? Porque não sou desencanada e fria e tal, por isso. E fiquei dois anos
esperando por ele. Não quero perder nenhum minuto a mais. Deixo o celular debaixo de uma
almofada e decido nunca mais olhar para a tela de novo.
Jogam um balde de água na cabeça do Lula Molusco no Siri Cascudo.
Bob Esponja tenta tirar o balde e acaba puxando com tanta força que vai parar na cabeça do
Patrick.
Olho o celular.
Stuart: Resposta rápida? Sim.
O relógio está pendurado na selva

Minha língua estava pesada ontem, Sam do Futuro. Dormente, como se eu tivesse tomado anestesia
no dentista. Percebi quando estava escovando os dentes. Era como ter um pedaço enorme de carne na
boca, que eu não podia mastigar nem cuspir. Uma onda de medo tomou conta de mim, e comecei a
chorar.
Eu ia só ficar na cama e esperar passar, grata por ser domingo e por não ter que falar com ninguém,
mas a maldita força-tarefa para NP-C, composta por ícones feministas, praticamente piscava na
parede sobre a escrivaninha. Eu tinha prometido a mim mesma que, incorporando Elizabeth Warren,
eu descobriria tudo sobre a doença e falaria sobre ela em conversas diretas. Mesmo que uma
conversa direta fosse impossível porque eu tinha um bife no lugar da minha língua.
Então hoje eu não fui à escola, e minha mãe vai chegar atrasada ao trabalho para me levar ao
consultório da dra. Clarkington.
— Você ligou para ela? — pergunto à minha mãe.
— Liguei.
— Tem um remédio para isso, não tem? — Meu coração ainda não tinha desacelerado desde o
acontecido, porque fiquei pensando que teria que cancelar meu discurso. Ou, pior ainda, fiquei
pensando em tentar fazê-lo assim mesmo e deixar meus colegas com a impressão de que me enchi de
raspadinha antes da formatura e meu cérebro congelou.
— Sim, tem um remédio para isso.
— Estou parecendo um cachorro que começou a falar de repente?
Minha mãe ri.
— Não, não está parecendo um cachorro que começou a falar de repente.
— É como eu me sinto.
— Sinto muito, querida — minha mãe diz. — Sua voz estava muito melhor hoje de manhã. E, ei,
fiquei feliz por ter me contado. Você sempre pode me contar quando estiver se sentindo mal.
— E quando eu estiver me sentindo bem? — pergunto, pensando na mensagem que Stuart havia
mandado no sábado à noite.
— Também.
Ficamos em silêncio por um instante, observando uma criança pequena bater bloquinhos no chão.
Stuart e eu trocamos e-mails ontem o dia inteiro, falando sobre nosso passado romântico (ou melhor,
sobre o passado dele), sobre nossas impressões sobre namoro e como achávamos que deveriam ser,
sobre nossos medos, essas coisas…
— Ei, mãe.
— Hum?
— Adivinha?
— O quê?
— Estou namorando.
Ela se virou para mim com os olhos arregalados.
— O mesmo garoto com quem você foi ao Clube de Canoagem?
— Stuart Shah.
Minha mãe ficou boquiaberta, com um sorriso maroto no rosto, embora eu tenha percebido que ela
estava em dúvida se achava que aquilo seria ou não uma boa ideia.
— Você sempre teve uma queda enorme por ele!
Sorri com ela.
— Como você sabe?
— Querida, você nos fez assistir a Hamlet três vezes. E não conseguia tirar os olhos dele.
— Ah, é. — Eu ri, pensando na minha pobre família três anos atrás, sofrendo ao ter que ver Alex
Conway fazendo um sotaque britânico falso como Ofélia. Maddie estava fantástica como a mãe de
Hamlet. Não dava para perceber que tinha só quinze anos. — O tempo está passando tão rápido.
Minha mãe pôs a mão sobre meu joelho e o apertou de leve.
— Pode me contar tudo.
— Então, nesse caso… — comecei a dizer, tentando engolir a saliva para poder falar da forma
mais clara possível. — Eu gostaria de, você sabe, poder passar um tempo com ele sem vocês se
preocuparem…
Minha mãe fez seu barulho característico:
— Uhummm. Hum.
— Mãe?
— Estou pensando — ela respondeu. E depois: — Ele sabe?
Ela estava se referindo à NP-C.
— Não. Mas vou contar.
— Está bem.
— Vou tomar muito cuidado — afirmei.
— Uhummm. — Minha mãe deitou a cabeça para trás e fechou os olhos. Ela tinha passado a noite
em claro ajudando Harrison a terminar um trabalho de ciências.
— Ele é uma boa pessoa.
— Tenho certeza disso — minha mãe disse, ainda de olhos fechados. — Vou me preocupar com
você de qualquer jeito, Sammie. Apenas tenha cuidado. Não vá a nenhum lugar sem me avisar ou sem
pensar nas possíveis repercussões médicas. — Ela sorriu consigo mesma. — Proteja seu coração
também. É seu primeiro romance de verdade. Não se jogue de cabeça. Mas, provavelmente, nem
precisa se preocupar com isso. Você nunca foi muito impulsiva. Prefere planejar.
Pensei na festa de Ross Nervig e em como falei para Stuart o que estava pensando sem planejar.
Pensei em agarrá-lo de repente e beijá-lo. Talvez houvesse uma parte de mim que minha mãe não
conhecia. Talvez houvesse uma parte de mim que nem eu conhecia.
— Não sei, mãe. Agora que estou prestes a me formar, pretendo ser mais espontânea.
Minha mãe abriu os olhos e começou a gargalhar.
— Marquei espontaneidade no calendário para terça-feira que vem — eu disse.
Ela dobrou o corpo para a frente mais uma vez, gargalhando muito. Me juntei a ela e fiquei rindo
até a enfermeira chamar meu nome.
QUEM VAI A-JU-DAR TODO MUNDO A SE FORMAR?
SAMANTHA!
SAMANTHA!
SAMANTHA!
NÃO VAI FA-LHAR, O DISCURSO VAI LEMBRAR!
ANSIEDADE!
ANSIEDADE!
ANSIEDADE!
Mas fiz mesmo assim. Escrevi o discurso e o copiei em fichas de anotação. Eu preferiria
memorizar e dizer sem nenhuma ajuda, mas, você sabe… Pelo menos não vou ler em um papel, como
se fosse uma amadora. Optei pelo tema “superação de obstáculos”. Estou me divertindo. Alguns
destaques, para a posteridade (para que pelo menos alguém possa vivenciar isso se eu tiver outro
“branco” no palco no próximo fim de semana e tiver que ser carregada como uma inválida):
“Acho que é fácil juntar todos os obstáculos que aparecem no caminho em um grande mural:
dinheiro, raça, sexualidade, relacionamentos, saúde, tempo. Essas são as forças sobre as quais
(supostamente) não temos controle, que conspiram contra nós. Mas nunca as superaremos se
olharmos para elas dessa forma. À medida que ficamos mais velhos, temos a oportunidade de
aprender onde, exatamente, esses obstáculos estão arraigados.
“Se continuarmos estudando a história de nossos obstáculos, teremos a oportunidade de banir o
que há de tóxico no mundo. Teremos um propósito. Sejam os obstáculos pessoais, como uma doença,
ou algo maior, como a injustiça social. Uma vez que passamos por cima deles, abrimos lugar para a
esperança.
“O otimismo não precisa ser cego.”
etc.
Simplesmente escrevi o discurso que gostaria de ouvir, sabe? Depois de a dra. Clarkington me
dizer que eu poderia começar a piorar mais rápido, eu meio que, apenas… sei lá. Quis escrever
sobre otimismo. Quis escrever o discurso de que preciso.
Porque, sinceramente, quem pode dizer que não vou melhorar?
Não podemos eliminar essa possibilidade.
Eu poderia ficar bem melhor em vez de piorar. É provável? Não. É possível? Com certeza. Bem, o
fato de eu ter essa doença já foi contra todas as probabilidades. Um em cento e cinquenta mil. Era
provável? Não. Eu namoro um autor publicado. Era provável? Não.
Muitas coisas não são prováveis. Tudo é possível.
Demonstrações públicas de afeto

Estou jantando com Stuart (bem, tecnicamente estou no banheiro, no celular — não consegui esperar
para registrar isso). Comendo comidas vietnamitas, discordamos sobre se o advento do capitalismo
era ou não uma etapa inevitável da história humana.
Quando a discussão ficou tão acalorada que bati na mesa, fazendo os molhos de pimenta voarem
um centímetro de seus suportes, Stuart disse:
— Desculpe. Não tive a intenção de discutir.
Ele realmente parecia preocupado, como se eu fosse sair correndo ou algo assim, e segurou minha
mão sobre a mesa.
— Você ficou muito abalada com o assunto — ele continuou. — É melhor pararmos.
Ele estava tão bonitinho. Usava uma camisa social branquíssima que destacava sua pele morena e
o brilho de seus olhos.
Eu me inclinei sobre a mesa e sussurrei:
— Você está brincando? — Eu não discutia desse jeito desde antes do torneio nacional. Podia
sentir o sangue correndo nas minhas bochechas quentes, e minha cabeça ainda estava processando a
posição dele, pronta para duelar com um oponente de valor. — Essa é a coisa mais romântica que
poderíamos estar fazendo.
— Sério?
— Eu quero… — Olhei à minha volta. O lugar estava cheio de famílias. — Eu quero te agarrar no
meio desse restaurante.
Stuart recostou na cadeira e arregalou os olhos.
— Então faça isso — ele disse, me desafiando.
E eu fiz.
Bem, apenas por alguns segundos. Mas fiz.
Última prova, último dia de aula

Eu tive um branco.
Não foi tão grave quanto o do torneio nacional, mas, de repente, no meio de uma equação, esqueci
o que estava fazendo. E, mais uma vez, Sam do Futuro, foi muito estranho, porque, sim, eu fiquei
confusa e chateada, mas havia também uma espécie de felicidade insana que não fazia sentido, como
se eu tivesse acabado de acordar de uma longa soneca. E, novamente, quase gargalhei. Ou sorri
diante do absurdo da situação. Tipo, hum, o que eu vim fazer aqui? O que eu estava fazendo? Eu
estava multiplicando alguma coisa? Hum, bem, não importa.
Quando a névoa mental se dissipou, refiz meus passos. Voltei ao início do problema e tentei
novamente. Mas eu não conseguia localizar onde, no meio dos números, eu tinha me perdido. Não
conseguia retomar sem apagar tudo e começar do zero, e não havia tempo para isso. Eu estava
começando a entrar em pânico.
Então eu colei. Pensei em qual dos métodos de Coop funcionaria e colei de verdade. Me
certifiquei de que ninguém estava vendo, lambi o polegar e o passei sobre a impressão do problema
seguinte até os números estarem irreconhecíveis.
Enquanto a sra. Hoss olhava a folha mais de perto, desviei os olhos para a carteira de Felicia
Thompson, na primeira fileira. Ao voltar para o meu lugar com uma nova prova, entoei as respostas
para mim mesma em voz baixa: A, A, B, D, C, C, A…
Na hora do almoço, estava me sentindo tão culpada que fiz um simulado inteiro só para provar que
teria conseguido se não fosse pela NP-C. (Acertei tudo, mas ainda assim…)
Na última hora do ensino médio, quando todo mundo no corredor do último ano rasgava os papéis
e os livros dos armários com uma alegria perversa, encontrei Coop e contei a ele.
— Ah, a primeira crise de culpa da jovenzinha — ele disse, pondo a mão no alto da minha cabeça
e bagunçando meu cabelo. — Acabou! Quem se importa? Você teria arrasado, não teria? Não fez
nada errado. Às vezes é uma questão de não ser um bom momento.
— É claro — respondi. Para Coop, era.
Ele parou no meio do corredor, ao meu lado.
— O que você vai fazer agora?
— Vou embora — respondi meio sem pensar, porque estava pensando em um milhão de outras
coisas.
— O pessoal vai para a minha casa fazer um churrasco.
— Legal! — eu disse e me despedi.
Só mais tarde me dei conta de que ele devia estar me convidando. Ah, bom… Eu e os indícios
sociais!
Quando cruzamos as portas da Hanover pela última vez como alunos do ensino médio, eu não
estava relembrando nada, não estava chorando, não estava comemorando. Estava rezando. Deus,
Jesus, Maria e todos os santos, repeti várias vezes. Por favor, por favor, por favor, façam com que
no dia da formatura eu esteja em um bom momento.
Mas e se eu não estiver?

São três da manhã e acabei de acordar suando frio, depois de um pesadelo em que eu subia no palco
para fazer o discurso, mas um urso andava no meio da multidão, e ninguém ficava com medo, só eu.
Ele vinha correndo, e todos abriam espaço para ele, sendo que ele ia diretamente na minha direção,
devagar, e, um pouco antes de o bicho ficar em pé para me atacar, acordei. E me dei conta: os
métodos do Coop podem funcionar para provas e atividades em classe, mas não funcionariam para
discursos. Vou estar lá em cima, sem ter para onde fugir e sem nenhuma maneira de evitar problemas.
Sem título, no bom sentido

Hoje de manhã, me levantei quando o sol nasceu. Recitei meu discurso enquanto tomava um longo
banho quente. É um lindo dia de primavera, praticamente verão. Minha mãe e eu escolhemos um
vestido em liquidação no início da semana, branco, simples, com renda grossa, e minha mãe apertou
a cintura e soltou um pouco nos ombros para o caimento ficar perfeito. Ela também comprou alguns
produtos para deixar meus cachos menos rebeldes, que passei nas madeixas úmidas, e até passei um
pouco do rímel dela nos cílios.
Logo minha avó e meu avô (apenas os do lado do meu pai — minha outra avó não aguenta a
viagem do Canadá até aqui) vão nos encontrar para almoçar antes da cerimônia. Stuart perguntou se
poderia me levar para sair antes de começar toda a loucura familiar, e minha mãe disse que sim, já
que era uma ocasião especial.
Fomos à lanchonete 4 Aces, em Lebanon, e sentamos a uma mesa com sofá. Como eu estava muito
nervosa e meu estômago não aguentaria alimentos sólidos, e, oras, como hoje era o primeiro dia do
resto da minha vida, pedi um milk-shake de Oreo de café da manhã. Stuart gargalhou e pediu um
também.
— Você está linda — ele disse enquanto tomávamos no canudinho.
— Sinto que vou vomitar nesse copo em dois segundos.
— Vômito bom ou vômito ruim?
— Os dois.
— Você não deve ser a primeira pessoa a perder a cabeça com um milk-shake aqui. Eles são muito
gostosos.
— Mal consigo perceber.
Stuart começou a comer de colher.
— Que tragédia.
— Temos que voltar aqui depois que tudo isso acabar — eu disse.
— Dois milk-shakes em um dia? Vivendo como se não houvesse amanhã.
Eu ri.
— Não, eu quis dizer depois, no verão.
Então ficamos em silêncio por um minuto. Mesmo conversando constantemente sobre o futuro —
Stuart quer terminar sua coletânea de contos, eu quero ir para a NYU —, nunca chegamos a conversar
sobre como seria o nosso futuro ou mesmo se sequer existiria um futuro nosso. Eu havia me
apressado tanto para deixar as coisas claras entre nós que não pensei direito no porquê.
Talvez tivesse muito a ver com o fato de que eu pensava que tudo era bom demais para ser
verdade. Que eu queria aproveitar a presença dele o máximo possível, antes que voltasse para um
mundo onde havia milhares de garotas tão inteligentes quanto eu, tão encorajadoras e dez vezes mais
bonitas, onde ele poderia partir para outra.
Fiquei me perguntando se ele estava pensando na mesma coisa.
— Stuart… — comecei a dizer.
— Sim? — ele respondeu, ainda com a colher dentro do copo.
— Olhe para mim — eu pedi.
Um pouco confuso, ele parou e segurou minha mão sobre a mesa. Eu amava quando ele fazia
aquilo. Sempre sentia o ímpeto de observar ao redor para ver se alguém estava olhando para nós
enquanto estávamos de mãos dadas, uma espécie de vaidade boba de ver que as pessoas podiam
olhar e pensar: “Ah, aquele casal está apaixonado!”.
Mas tudo o que eu ia dizer ficou preso na minha garganta. Talvez não fosse a melhor ocasião para
ter aquela conversa, um pouco antes de um dos maiores momentos da minha vida até agora. E, de
qualquer jeito, nunca falamos sobre amor ou dissemos que estávamos “apaixonados”. Eu disse agora,
mas sei que conheço muito pouco sobre o assunto. Um conhecimento muito verdadeiro, mas muito
pequeno.
Respirei fundo e disse:
— Eu devia ter pedido uma tortinha de manteiga de amendoim.
— Rá! — ele disse, sacudindo a cabeça e voltando a comer. — Ah! Sabe de uma coisa?
— O quê?
— Acabei de lembrar: tem uma sorveteria no Brooklyn, não consigo lembrar o nome, mas eles têm
os melhores milk-shakes. Talvez sejam até melhores que os daqui. Vou ter que te levar lá.
Eu tomei outro gole.
— Me levar lá? — Meu coração começou a ficar acelerado. Ainda mais do que estava, que já era
bastante.
— Sim, no outono — ele disse, e meus batimentos começaram a diminuir gradualmente. Senti um
alívio do topo da cabeça até os dedos do pé. No outono. O que significava que estaríamos juntos.
Juntos o bastante para ir à sorveteria. De repente, fiquei com muita fome.
— Vai fundo, garota — ele disse ao me ver mergulhar minha colher.
Engoli uma colherada de milk-shake e não tentei conter o sorriso.
— O que foi? — ele perguntou, sorrindo para mim.
— Nada — respondi. — Só estou feliz.
Tive que secar o suor da palma das mãos para
conseguir digitar

Estou me escondendo de todo mundo no vestiário feminino. Minha beca de formatura arrasta no chão,
então está pendurada em um gancho na porta.
Depois que minha mãe, meu pai e meus irmãos me deixaram na porta do ginásio para estacionar o
carro, achei que tinha esquecido tudo até dizer a primeira palavra em um sussurro: “Oliver
Goldsmith disse…”. E o resto veio. Fiquei repetindo aquilo — Oliver Goldsmith disse, Oliver
Goldsmith disse, Oliver Goldsmith disse —, como se em cada uma das vezes eu fosse salva de um
afogamento.
Quando todos os professores e funcionários da administração se agruparam na frente, vi a sra.
Townsend, com seu cabelo negro armado se destacando entre os outros.
— Oi, sra. T — eu disse, e ela se virou.
— Sammie — ela disse calmamente, com um sorriso suave, e me deu um abraço. Seu cheiro era de
muitos produtos misturados, hidratante, xampu e perfume, mas de um jeito bom, de um jeito que
combinava.
— Obrigada por tudo — eu disse, contendo as lágrimas que tinha segurado o dia todo.
— Você vai se sair muito bem — ela disse.
Quando não consegui mais segurar, o choro veio com tudo. Ela havia me dito aquilo muitas vezes
nos últimos quatro anos: antes da minha primeira semana nas matérias avançadas, antes do meu
primeiro torneio, antes do início do último ano, antes da doença chegar e tentar estragar tudo e
depois também. Eu sabia que provavelmente era a última vez que ela diria aquilo. Antes que ela
saísse para se despedir de outra pessoa, segurei seu braço.
Ela se virou para mim.
— Você poderia me apresentar ali? Quer dizer… o discurso?
— Ah! — ela exclamou, ponderando.
— Sei que o diretor Rothchild deveria fazer isso, mas significaria muito para mim… você sabe…
porque você é a única que sabe como é importante… — Segurei o choro outra vez. — … como é
importante para mim fazer isso.
A sra. T sorriu novamente, determinada. Ela assentiu.
— É claro que sim — ela disse. — Vou falar com o sr. R.
Agora só há espaço para pessoas em pé no ginásio, e a voz de todos serpenteia no ar como um
grande rugido.
É melhor eu ir. Estão organizando os alunos por ordem de sobrenome. Vou ficar entre William
Madison e Lynn Nguyen. Todos estão tirando fotos uns com os outros e eu estou aqui, digitando no
banheiro. Se der errado, que fique registrado que eu estava aqui, em um cubículo do banheiro,
repassando meu discurso mais uma vez. Eu tentei.
É estranho eu estar pensando no Coop agora, mas não consigo tirar da cabeça o que ele disse outro
dia no corredor: “Às vezes é uma questão de não ser um bom momento”.
Falando no diabo, acabaram de enfiar a cabeça aqui e gritar:
— Samantha Agatha McCoy! É melhor você arrastar sua bunda até aqui!
É, tinha que ser o Coop.
Lá vamos nós, rumo ao nada.
Pode assumir a partir de agora

Por um minuto, tudo o que aconteceu no torneio nacional pareceu se repetir em uma demonstração
aterrorizante de humilhação. Torneio nacional: a continuação. Torneio nacional 2: o retorno da
demência. Fileiras e fileiras de holofotes fluorescentes substituíam as luzes do palco, e o público se
multiplicava, passando de alguns estudantes desinteressados e suas famílias a um mar de rostos, meus
colegas de turma agrupados de azul, pontuados pelos flashes de centenas de câmeras, todos
aguardando em silêncio.
Eu estava a postos.
A sra. Townsend foi até o palco. O som de seus saltos ecoava, e ela assumiu o lugar atrás do
púlpito, com uma fita marrom sobre os ombros.
— Senhoras e senhores, familiares e formandos — ela disse, pausando para os gritos e assobios
dos alunos. — Sua oradora, Samantha McCoy.
Eu caminhei. Não, deslizei. Não, flutuei. Para me estabilizar, apoiei os cotovelos sobre o púlpito e
entrelacei as mãos.
Para todas aquelas pessoas importantes que estavam ali e que pareciam borrões para mim, bradei:
— Oliver Goldsmith disse: “Nossa maior glória na vida não é nunca cairmos, mas nos levantarmos
sempre que isso acontecer”.
Então meu cérebro desligou, mas de uma maneira diferente. Desligou de quaisquer outras palavras,
sensações ou pensamentos além dos que saíam da minha boca. Era como se eu soubesse que aquele
não era o momento de questionar e dissesse a mim mesma: “Certo, agora já estamos aqui. Vou
assumir a partir de agora”.
Enquanto falava, em vez de pensar, eu vi. Vi muitas coisas aleatórias, Sam do Futuro. Os olhos de
Stuart sob cílios escuros na mesa do restaurante, saboreando seu milk-shake e rindo; o rosto tranquilo
da sra. Townsend em frente ao computador; o brilho azul do aquário do consultório médico no rosto
de Davy enquanto ela observava os peixes nadando.
Dez minutos depois, eu estava dizendo:
— Então, quando sentir que tudo está muito pesado, não há problema em se perguntar em que ponto
você caiu, por que caiu e dizer a si mesmo que nunca mais cairá da mesma forma. É para isso que
nossa educação, tanto na vida quanto na escola, vai servir. Mas o trabalho não termina aí. Use o
conhecimento adquirido para a alegria e, caramba… — A multidão caiu na gargalhada.
Eu não havia planejado aquela parte, mas simplesmente saiu. Olhei para os professores, alguns
estavam rindo, outros sacudindo a cabeça.
— Caramba — continuei, sem conseguir conter o riso. — Volte a se levantar.
Focalizei os rostos de meus colegas de turma.
— Obrigada — eu disse, e eles vibraram.
Mas a verdadeira recompensa veio depois. Tipo, agora. Bem, não exatamente agora.
Exatamente agora estou no carro. Mas logo depois da cerimônia.
Certo, você sabe como eu estava triste e irritada com o fato de que trinta segundos podiam mudar
quatro anos de trabalho? Talvez eu tenha me apressado em relação a isso, porque o oposto também
pode acontecer.
Quando vibramos juntos como alunos do ensino médio pela última vez, e jogamos nossos capelos
para cima, foi como se a turma do último ano da Hanover não passasse de uma torre de blocos de
brinquedo que ruiu naquele instante.
Lynn Nguyen se virou para mim e me abraçou como se fôssemos antigas conhecidas, e nós duas
cumprimentamos Will Madison, e pessoas que eu só conhecia pelo nome e pela parte de trás da
cabeça vieram até mim, dizendo que minha fala “tinha sido ótima”. Mas essa nem foi a melhor parte:
a melhor parte foi ter lembrado de repente o que eles tinham de bom, como se, o tempo todo, eu
tivesse absorvido tudo sem perceber. Queria contar tudo a eles e saber tudo sobre eles. Não coisas
como seus desejos mais profundos e o que eles achavam sobre a desigualdade de renda, mas
simplesmente quem eles eram. O que eles pretendiam fazer.
— Lynn, você vai ficar pelo Upper Valley? Ouvi dizer que vai tentar um estágio naquela revista.
— Elena, seu solo foi incrível. Onde você comprou esse tênis com salto? Eu nem sabia que
existiam tênis com salto!
— Will, você vai jogar futebol na Universidade de Vermont no ano que vem?
Sam do Futuro, eu estava jogando conversa fora.
E logo todos estavam fazendo planos de ir para a casa de Ross Nervig à noite (não fui convidada,
especificamente, mas ninguém me excluiu — bem, eles disseram que eu devia ir, mas… enfim…). E
eu realmente quero ir.
Sem contar que Maddie vai estar lá. Ela havia ziguezagueado por entre as filas de cadeiras e,
quando chegou perto o bastante de mim, não abriu a boca, apenas me abraçou. E eu retribuí,
abraçando-a com força.
— Sinto muito — disse no ouvido dela. A parte raspada de seu cabelo estava num tom escuro de
marrom, para combinar com as cores da Hanover. Como os outros membros da Associação LGBT, sua
beca estava amarrada com barbantes das cores do arco-íris.
— Sente muito por quê? — ela perguntou, e nos soltamos.
— Se usei você.
Ela deu um sorriso triste.
— Eu também sinto muito. Eu estava tendo que lidar com um monte de merda.
— Tem um fundo de verdade no que você disse, acho.
— Mas agora… — Ela gesticulou para a multidão de pessoas felizes no ginásio iluminado. —
Agora não tem muita importância. Nós nos formamos. O ensino médio não tem mais importância.
Principalmente para você.
— Você está certa! — exclamei e deixei escapar um suspiro, porque um nó havia se desfeito dentro
de mim. Era um nó que amarrava muita coisa, então levou um tempo, mas ela tinha razão. O ensino
médio não tinha mais importância.
— Mas sabe do que me arrependo? — comentei, engolindo em seco.
— Do quê? — Maddie disse, franzindo um pouco a testa.
— Me arrependo de não termos ficado mais amigas antes.
— Bem — ela disse, jogando o capelo para cima e o agarrando —, vamos ter muito tempo agora!
— Maddie! — Stacia chamou o nome dela, perto de seus pais. Pat estava com eles também. Eu não
sabia se Maddie e Stacia estavam juntas de novo, mas, como todo o resto, não importava. Maddie
parecia feliz.
— Preciso ir — ela disse.
Agarrei-a pela manga.
— Te vejo na casa do Ross Nervig hoje à noite?
Enquanto andava de costas na direção de Stacia, Maddie abriu a boca, depois fechou.
— Sammie McCoy quer ir a uma festa! — Ela fez um gesto como se fechasse a boca com um zíper.
— Não vou estragar isso. Não vou falar nada. Mas, sim. Te vejo à noite.
Quando a multidão se dissipou um pouco, minha mãe, meu pai, minha avó e meu avô me
encontraram, seguidos por Harrison, Bette e Davy, todos arrumados, penteados e vestidos com as
roupas de igreja.
— Estamos orgulhosos de você — minha mãe disse ao me abraçar com um de seus abraços quase
apertados demais.
— Muito orgulhosos — meu pai repetiu, e se juntou ao abraço.
Bette e Davy pegaram cada uma de um lado da minha cintura com seus bracinhos magros com
cheiro da pipoca que ganharam na entrada, enquanto Harrison tocou a cabeça de Bette e disse:
— Este sou eu te abraçando. — Já era bom o suficiente.
Minha avó e meu avô também me abraçaram, e suas cabeças brancas estavam exatamente na
mesma altura. Minha avó me entregou um envelope grosso dentro de uma cópia de Caddie
Woodlawn, meu livro preferido, que eu pedia para ela ler para mim quando eu era pequena, e isso me
fez chorar de novo.
Em meio a todo mundo, vi Stuart parado a várias fileiras de distância. Ele parecia ter saído de uma
capa da GQ (na minha opinião): usava minha camisa social branca preferida, que brilhava sob uma
gravata preta e fina.
Fizemos contato visual e abrimos um sorriso enorme e empolgado, e juro que meu coração
disparou como se fosse a primeira vez que eu o via. Só que, dessa vez, não fiquei paralisada; muito
pelo contrário, estava lutando contra o ímpeto de sair correndo e pular nos braços dele. Ele desviou
o olhar por um instante e tentei limpar o rímel que devia estar escorrendo pelo meu rosto.
Quando voltei a olhar, ele fez um gesto que dizia “espere um minuto” — parece que Dale e os pais
queriam falar com ele do outro lado do ginásio. Fiz um sinal positivo com o polegar e voltei para
minha família com o sorriso mais doce que conseguia dar.
— Ei, mãe, pai, posso ir a uma festa hoje à noite?
— Boa tentativa, Sammie. Aproveitando que estamos de bom humor — meu pai disse, fingindo que
dava uma gravata em Harrison.
— Mas é sério! Por favor?
— Hum — minha mãe disse. — Você pode chamar alguns amigos para irem à nossa casa, se
quiser!
— Mas…
— Acho que não vai dar, querida — meu pai respondeu.
— Ah, Mark, deixe a menina ir! — minha avó disse, pondo a mão nas minhas costas e sorrindo
para mim. — Ela merece comemorar.
— Rá! — meu pai exclamou. — Como se você me deixasse ir a uma festa de formatura.
— Não, mas seu pai deixava — minha avó disse, lançando um olhar para meu avô.
— É verdade, eu deixava — meu avô confirmou e piscou para mim.
Minha mãe suspirou.
— Você vai me deixar de cabelos brancos — ela disse, olhando para mim. Depois olhou para o
meu avô: — Sem querer ofender.
— Sua amiga do moicano vai? — meu pai perguntou. — Aquela que tem certificado de socorrista?
— Maddie? Sim! — Foi mais do que um sim. Tive que me conter para não bater palmas de
empolgação. Maddie ainda estava do outro lado do ginásio. — Maddie! — gritei.
— O que foi? — ela respondeu.
— Você vai lá na festa hoje à noite, não vai? — A encarei com um olhar penetrante.
— Vou! — ela gritou. — Certeza!
Eu disse a eles que encontraria Stuart ou Maddie no estacionamento e que iríamos juntos. Depois
de toneladas de fotos e beijos de despedida e um último “seja esperta” dos meus pais, todos foram
embora.
Então agora estou aqui sentada no estacionamento, no carro que meus pais me deixaram usar
contanto que chegasse em casa até meia-noite.
O que aconteceu no torneio nacional foi apenas um engano. Um mau momento. E, mesmo que
aconteça de novo quando eu estiver na NYU, poderei explicar minha condição. “Acontece raramente”,
posso dizer a eles. Nunca vou ficar tão mal a ponto de chegar à pior das previsões.
Estou escrevendo agora, mesmo que pudesse estar comemorando, porque percebi o fator comum
entre todas as vezes em que consegui fazer direito o que precisava fazer: escrever para você, Sam do
Futuro. Deve estar funcionando. Alguma coisa, pelo menos, está funcionando. Para compensar todas
as noites que passei em casa, na biblioteca, dando bronca nas pessoas, todas as noites que passei
estudando… quero comemorar hoje e quero que a noite dure por um bom tempo.
O único problema: Stuart já saiu para me deixar com minha família e agora está a uns vinte minutos
de distância. Maddie também foi embora. Eu disse para o Stuart que não havia problema, para ele ir
com o Dale e nos encontrarmos lá. ENTÃO. Tenho certeza de que meus pais não vão se importar se eu
for sozinha. Coop me mandou uma mensagem com o endereço. É só um trajeto de carro, afinal, e
minha cabeça está mais forte do que nunca.
Estou tão constrangida. Estou meio perdida. Não consigo lembrar por quê. Então estou relendo isso
e, é claro, lembro que estou indo para essa festa na casa de Ross Nervig e que Coop me mandou uma
mensagem com o endereço, mas estou olhando para o endereço e não consigo lembrar como chegar
lá. Vou colocar logo no GPS, dã, mas esqueci o nome da própria rua onde estou! Então, é. Estacionei o
carro até isso passar.
É a formatura. Dã. Olhei para o que havia escrito antes. MAS agora estou, tipo… PARA ONDE ESTOU
INDO MESMO?
Isso não é um bom sinal.
Eu deveria ligar para a minha mãe, mas ela ia me matar, então só vou esperar passar.
Certo, eu li antes que estava indo à formatura, eu sei disso, porque já li DUAS VEZES e porque isso é
muito constrangedor.
Bem, não para a formatura, é para a festa DEPOIS da formatura.
oi está tudo bem está muito escuro e pelo menos está claro e iluminado eu fechei o carro não se
preocupe
estou bem acho que não cheguei lá ainda mas minhas mãos estão um pouco trêmulas
sam do futuro tudo bem estou me sentindo um pouco melhor mas não consigo me lembrar para onde
estava indo! andei um pouco perto do carro. há outros carros indo para algum lugar e eu quase fiz
sinal para um deles parar mas ninguém me viu, os faróis são brilhantes demais e parecem maus e têm
olhos malvados
eu estava indo para a escola eu estava voltando da escola
O.K. O.k. Isso é idiota.
Nossa, estou muito perdida. Essa parte parece familiar, essa parte parece a minha rua.
uma vez eu li uma história sobre um gigante um gigante amigável em Londres que soprava sonhos
no quarto das pessoas em pequenas bolhas e a garota o viu mas ele a pegou e a colocou sobre seu
ombro e a levou para a terra dos gigantes
o gigante amigo é bonzinho e esse foi um capítulo inteiro do livro
por que eu estava falando sobre gigantes ah é
coop e eu costumávamos construir casas com fohlas de pinheiros e brincar de gigante pisando nas
casas eu já falei que a escuridão praece a sombra de um gigante na estrada vindo na minha direção e
pisando nos carros malvados
Eu liguei para o Coop? Não estou me saindo muito bem. Estou me saindo muito bem. Vou ligar para o
COop novamente ants que is so piore
hum vixe estou me sentindo estranha novamnete ESTOU ME SENTINDO ESTRANHA ESTRANHA ESTNHARA
ESTRANHA só vou sentar um pouco até mesen tir melhor
escreva sobre coisas que você sabe
quando você está com medo pode escrever sobre coisas que você sabe
Correndo

Sou um monstro de Frankenstein, deitada no quarto mais limpo que já vi. Acabei de acordar e tem um
cartão da Bette sobre a mesa perto da cama do hospital, com apenas um círculo grande que ela
desenhou e escreveu “melhoras”.
Flores dos Townsend
Flores de Maddie
Flores de Stuart
Mas o cartão me fez chorar, porque me fez lembrar constantemente do que havia esquecido
Eu me perdi na estrada que circunda a montanha, depois da cidade
Isso me faz lembrar dos mapas que costumávamos desenhar
Quando ela e Harry e Coop e eu (Davy era muito pequena) passávamos o dia rodando por
Strafford, primeiro correndo montanha abaixo, depois correndo para o riacho, depois correndo para
Strafford, dizendo “oi” para o Eddy Ligeiro em frente à loja — Eddy Ligeiro, o autointitulado
policial que também era carteiro — e entrando na loja para comprar refrigerante de cereja e
baunilha, depois correndo de volta para o riacho para almoçar, depois correndo montanha acima até
o quintal para brincar de gigantes, depois jantar
Uma vez, desenhamos um mapa de nosso mundo e esquematizamos nossa rota e, claro, foi muito
simples
Era só um círculo, e era suficiente
Por favor

Coop me encontrou no acostamento da estrada e me levou para casa. Fiquei indo e voltando para o
hospital durante uma semana. Há atualizações sempre que entro lá, todas ajudando a transformar
minha mãe e meu pai em sacos de pano com olheiras ao lado da cama de hospital, todas ruins. Eu
tenho:
sintomas parecidos com icterícia
fígado aumentado
baço aumentado
Tudo isso contribui para o grande prêmio: também estou em processo de “retardo moderado”! Foi
por isso que vi gigantes no acostamento da estrada e digitei como uma criança.
Não escrevi muita coisa para você até agora porque não queria ficar lembrando muito de nada
disso, Sam do Futuro, e você, como eu havia concebido inicialmente, não existe mais. Faça um
estoque de camisas com estampa de palmeiras. Aceite os lábios inchados, a pele amarelada, os olhos
caídos. Você vai ter um diploma inútil do ensino médio e uma perna manca. Você vai babar muito.
Não consigo nem imaginar como estou agora. Fazer todas as minhas funções fisiológicas em uma
cama já me enoja, mas felizmente não vi mais ninguém.
Eu disse a Stuart que meus pais haviam mudado de ideia na noite da formatura e me obrigado a
ficar em casa, e meu celular ficou sem bateria. Depois, quando descobri que praticamente moraria no
hospital, disse a ele que estava doente, um caso grave de infecção por estreptococos e que era
melhor ele não me visitar porque era contagioso. Queria que Stuart viesse atrás de mim mesmo
assim, que me encontrasse dormindo e me desse um beijo para me despertar, como em um filme da
Disney, e nunca mais saísse do meu lado. Mas minha boca estaria com gosto de gelatina de hospital e
ressecada por eu estar dormindo de boca aberta e mal conseguir escovar os dentes, então talvez não
fosse uma boa ideia. E isso nunca mais vai acontecer.
Estamos esperando para descobrir se vou pelo menos poder ir para a faculdade, pelo menos para o
primeiro semestre, antes que toda essa merda piore.
A resposta inicial foi não, mas eu fiquei, tipo: “Por favor, por favor, isso não vai durar para
sempre, apenas me deixem ir, podem me colocar em uma turma para pessoas burras, só me deixem
sair daqui”. A única coisa que ainda posso ter, por favor. Por favor por favor por favor por favor por
favor.
Eles me deram algum tipo de remédio para dormir, porque acordei no meio da noite e tenho quase
certeza de que não deveria estar acordada
Tenho quase certeza de que tem alguma coisa no canto do quarto. Não sei ao certo se é uma
enfermeira, porque está muito escuro, mas meu monitor ainda está apitando, o que significa que ainda
estou viva, e posso digitar, o que significa que meu cérebro ainda está conectado às minhas mãos.
Mas sinto como se adagas espetassem minha garganta toda vez que engulo, e posso sentir um
machucado fundo e marrom latejando quando a intravenosa bombeia alimento para dentro ou sangue
para fora, não sei bem a essa altura
Lembro de alguém enfiando uma agulha longa e fria na minha nádega
Este cobertor pinica muito, mas quando eu tiro parece que tem gelo no ar, frio demais
Não consigo fechar a boca totalmente, não sei o que tem aqui dentro
Meus olhos doem
Tentei ler alguma coisa na internet, mas esse troço não está conectado, e devo estar acordada aqui
há horas, só tentando descobrir o que é aquela coisa branca no canto
Ela não some, então não são aquelas coisas flutuantes que atravessam a visão
Ela não se move, então não é um ser humano
É grande demais para ser uma cortina ou um cabideiro
Tudo o que posso fazer é esperar o sol, e não tenho ideia se ele está para nascer ou se pôr, porque
alguém ferrou com a bateria do meu computador e o relógio está piscando 12, 12, 12
Então me pergunto se eu deveria lembrar a que horas fui dormir
Talvez não tenham me dado remédio nenhum
Talvez eu simplesmente não saiba
Já pode me matar.
Aqui vai uma informação chocante: segundo meus médicos, uma pessoa com retardo moderado não
pode ir para a faculdade, não pode morar numa cidade longe dos pais e, com o tempo, mal vai ser
capaz de pensar com a própria cabeça. Não importa se ainda tenho a capacidade de me comunicar e
andar e pensar, porque, aparentemente, além de serem médicos, eles são ADIVINHOS e sabem essas
coisas. Então resolveram acabar com meus sonhos e tornar minha vida completamente insignificante.
Eu questionei:
— Como vocês sabem? Os surtos ainda podem ser muito raros! — O QUE ESTÁ CORRETO, DE
ACORDO COM A PROBABILIDADE LÓGICA. TER TRÊS SURTOS EM CINCO MESES NÃO SIGNIFICA PERIGO
IMINENTE. É, LITERALMENTE, UMA TAXA DE DOIS POR CENTO A CADA DIA.
Quase dei um soco na cara da dra. Clarkington com aquela expressão maldita e repugnante, como
se estivesse, simultaneamente, chorando e soltando um peido:
— Sinto muito, Sammie. Não podemos fazer nada.
Se vocês não podem fazer nada, então por que estão me ferrando, hein? Existem muitas coisas que
EU AINDA POSSO FAZER. COMO IR PARA A FACULDADE. Ótimo, agora estou chorando.
Agora estão me dizendo que nada disso vai acontecer. Se o mantra da minha mãe é “uhummm,
uhummm”, então meu novo mantra é “isso nunca vai acontecer”.
Eu adoro listas de tarefas! Que tal uma lista das coisas que eu nunca vou fazer? O que acha disso?
Posso listar tudo o que sempre quis e, ao lado de cada uma, escrever: “Isso nunca vai acontecer”.
NYU: isso nunca vai acontecer.
Stuart Shah: isso nunca vai acontecer
Direito em Harvard: isso nunca vai acontecer
Tudo chegou ao fim e eu vou morrer.

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Não morri

Bette e Davy estão construindo um forte de almofadas à minha volta enquanto escrevo, o que faz
sentido. Mal saio do chão agora, então sou uma estrutura de suporte ideal.
Eis o que eu vejo: meus pés estirados sob um cobertor azul felpudo, a mesa da cozinha/ sala de
jantar coberta das sobras de dois sanduíches de manteiga de amendoim. No parapeito da janela sobre
a pia, uma fileira de frascos laranja com tampa branca cheios de comprimidos.
Pequenos comprimidos brancos redondos para dor.
Comprimidos azuis ovais para paralisia vertical supranuclear.
Comprimidos vermelhos em formato de comprimido para dormência.
Prozac para depressão.
etc.
O último da lista eu ainda não tomei. Mas, a esta altura, estou prestes a tomar.
— Brinque com a gente, brinque com a gente! — Davy está repetindo. O forte é abandonado
quando ela e Bette correm em volta do sofá. Procuro por Harrison, esperando que ele possa distraí-
la, mas me lembro de que está no acampamento.
— Não posso — digo a elas. Estou ocupada demais vendo um programa péssimo sobre pessoas
que competem para encontrar itens de valor em depósitos.
— Por quê? — Bette pergunta.
— Não consigo me mexer — eu digo.
— Não é verdade — Bette diz. — Você levanta para ir ao banheiro e pegar comida! Eu acabei de
ver!
Ela estava certa. Consigo me mexer. Só não quero. Vou me mexer para ir aonde? Para fora? Até o
limite da nossa casa?
Os únicos dois confortos que tenho são duas ficções: a ficção de qualquer coisa que esteja
passando na televisão e a ficção de trocar mensagens com Stuart, que agora acha que minha infecção
por estreptococos se transformou em mononucleose. (É mais fácil mentir por escrito, principalmente
quando sua língua está seca devido aos efeitos colaterais dos remédios.)
E nenhum desses dois tipos de conforto demanda movimento. Então…
Falando em Stuart, onde está meu celular?
Argh.
Eu deixo por perto para não ter esse problema. Sério, não estou tendo nenhum lapso de memória.
Eu não tirei ele daqui.
Então ouço Bette e Davy rindo embaixo da mesa da cozinha.
Ai, meu Deus.
— Está vendo? Você consegue se mexer! — Bette gritou com um sorriso triunfante no rosto quando
fui para cima dela e peguei o aparelho de volta. As duas correram para fora.
Ufa, não mandaram mensagem e nem ligaram para Stuart.
Mandaram uma mensagem para Coop. O nome dele deve ter sido o único que elas reconheceram.
Coop às vezes brinca com elas de “helicóptero” na igreja.
Abri as portas corrediças e gritei para elas:
— NÃO FAÇAM MAIS ISSO!
Bette respondeu de perto das árvores, ainda rindo:
— ELE MANDOU UMA MENSAGEM PARA VOCÊ PRIMEIRO! EU SÓ DIGITEI “O.K.”!
Ah, então ele mandou.
Coop: Ei garota, só queria saber como vc está. Posso passar aí? Minha mãe fez uma tonelada
de comida para vocês, então vou levar.
Eu: O.k.
Então acho que Coop vai passar aqui. Preciso pôr uma senha no meu celular.
O que aconteceu

Eu estava fora pela primeira vez em uma semana e meia, sentada numa cadeira de plástico e me
dando conta de que o verão tinha chegado a Vermont enquanto eu estava dentro de casa. O céu estava
carregado de nuvens de chuva, mas os narcisos tinham aberto espaço para lírios-do-vale e trevos-
roxos, os tomates da horta da minha mãe marcavam o solo de vermelho e havia beija-flores no
bebedouro.
Bette e Davy observavam os pássaros, agachadas nos arbustos próximos à casa, tentando não fazer
barulho.
Quando Coop se aproximou carregando duas sacolas em cada mão, vindo da parte baixa da
montanha, levei o dedo à boca e apontei para os borrões coloridos.
Posso ser um saco inútil, mas todos nós da família McCoy gostamos de observar os pássaros.
Principalmente beija-flores. Eu costumava saber muitas coisas sobre beija-flores.
Coop deixou devagar as sacolas no chão e começou a andar feito um bobo, como se fosse um
espião.
Bette e Davy riram, estragando o disfarce, e os pássaros foram embora.
— Muito bem — eu disse enquanto ele pegava as sacolas.
— Fiz o melhor que pude — ele disse, dando de ombros. Quando me aproximei, segui meus
instintos e verifiquei se não havia um baseado atrás da orelha dele. Ele era capaz de esquecer algo
assim, principalmente no verão. Não havia nada.
— Deixo essas coisas na cozinha? — ele perguntou. Eu indiquei para ele entrar.
Ouvi o barulho da geladeira se abrindo e fechando que vinha lá de dentro pela fresta da porta.
— Vocês mudaram as xícaras de lugar?
— Sim — gritei. — Agora estão no outro armário.
Era estranho que Cooper Lind entrasse na nossa casa do modo como eu o conhecia agora, sempre
cercado de um grupo de pessoas mais baixas que ele, penduradas nele, com um sorriso enorme e
dopado no rosto.
Mas, também, nunca mais nos veríamos dessa forma nos corredores da escola, com um monte de
gente em volta.
E havia as proporções, nas quais eu sempre confiava: Coop também se enquadrava numa regra de
proporção. Catorze anos para quatro. Quatro anos passados em uma nuvem de festas e maconha,
catorze anos passados naquela casa. Ele ainda era setenta por cento o garoto que sabia onde ficavam
as xícaras.
Acho que não era tão estranho, se parasse para pensar.
Então ele saiu, puxou a outra cadeira de jardim que estava virada perto da calha e sentou. Me
preparei para as perguntas que já não eram mais relevantes para mim.
Você está mesmo muito doente?
Vai poder ir para a faculdade?
O que vai fazer agora?
Como ele não disse nada, interrompi o som da brisa, dos pássaros e dos insetos para podermos
acabar logo com aquilo.
— Obrigada por ir me buscar naquela noite — eu disse.
— Não precisa agradecer.
Olhei para ele.
— Você já me agradeceu um milhão de vezes — Coop afirmou.
— Agradeci?
— Sim. — Ele estava com os olhos semicerrados por causa do sol, que tinha acabado de dar o ar
da graça. — Você lembra o que aconteceu?
Eu tinha uma ideia a partir do que tinha escrito, mas grande parte não fazia sentido. Fiz que não
com a cabeça.
Ele começou a me contar, mas, enquanto falava, senti uma mistura de vergonha e medo que chegava
até minhas entranhas e fazia minha cabeça doer.
Pedi para ele parar.
Entrei, peguei meu notebook e entreguei a ele. Disse que preferia ler depois. Não disse o porquê.
Preferia que ele escrevesse, porque palavras escritas pareciam mais maleáveis e distantes do que
palavras que saíam da boca. Ele foi a única pessoa que realmente me viu naquele momento e a única
pessoa, até agora, que tinha me visto tão mal. Por causa dele, eu ficaria aqui, presa, deteriorando
para o resto da vida.
Mas, se Coop não tivesse visto minhas ligações, se não tivesse saído da festa, talvez eu não tivesse
mais vida para deteriorar. A essa altura, não sei o que é pior, mas não vou entrar nesse assunto.
E havia outro motivo: dessa forma, se eu não gostasse de ler o que tinha acontecido, poderia
deletar essa parte do meu livro de memórias. Parecia mais razoável do que arriscar esquecer as
coisas ditas em voz alta.
Ele foi passando os olhos pelo arquivo até que eu disse:
— Espera aí! Não… não é para você ler nada disso. Só comece numa página nova. — Ele olhou
para mim, franzindo a testa. — Por favor — acrescentei.
— Você está escrevendo um diário ou algo assim?
— Algo assim.
bem eu cheguei na casa do nervig umas sete da noite, mas ele já estava muito bêbado para pegar os
barris de chope, então eu voltei para norwich para pegar. quando voltei, já eram umas oito horas e as
pessoas tinham começado a chegar. tive que ajudar a carregar e ajeitar dois barris sozinho, então,
mais uma vez, eu não estava bêbado. lá pelas nove eu vi que tinha perdido sua primeira ligação.
liguei de volta, mas você não atendeu. então você me ligou de novo uns quinze minutos depois e eu
atendi. você não estava falando diretamente no microfone do celular, então eu não conseguia
entender, mas você ficava repetindo é o coop, é o coop, e eu ficava respondendo sim, sim. chegou
uma hora que você pegou o celular direito e deu para entender. você disse que estava perdida e eu
perguntei se não tinha te mandado uma mensagem com o endereço e você disse que sim, mas que não
conseguia lembrar onde estava. sua voz estava muito trêmula e não parecia feliz. então eu perguntei
se você queria que eu fosse te buscar, você disse que sim, por favor, e depois pareceu ter voltado a
seu estado normal. você ficou dizendo, tipo, coop, estou bem. só estou perdida. eu vou dar um jeito, e
desligou.
mas eu achei aquilo muito estranho, então liguei de volta e você não atendeu. eu liguei de novo e
de novo e a essa altura já estava considerando a hipótese de deixar para lá, para ser sincero.
desculpe se isso é difícil de ouvir, mas essa é uma coisa meio terapêutica para mim também.
escrever isso. dá para entender por que você faz isso. foi muito difícil te ver daquele jeito e é meio
difícil relembrar agora, mas é bom.
bem, eu estava considerando isso porque a katie ficava tentando me levar de volta para a festa,
mesmo a gente não estando tecnicamente juntos, é só um lance físico. todos os seus amigos também
estavam lá. perguntei para a maddie se ela tinha notícias suas, e ela disse que não, e eu pensei em
perguntar para aquele tal de stuart que sempre está com você, mas não tive vontade, e parecia que ele
ficava olhando para o celular o tempo todo e, se você tivesse ligado para ele, ele teria saído da festa.
mas não saiu e, quando você me ligou de novo e eu só ouvi o som de carros passando, saí na
mesma hora.
você estava a apenas oitocentos metros da festa. eu te encontrei chorando no banco do motorista.
achei que você só estava bêbada ou algo assim, então ri da sua cara e me sinto mal por isso.
desculpe.
eu consegui fazer você passar para o banco do passageiro e achei melhor te levar para casa.
então percebi que tinha mais alguma coisa errada, porque às vezes você me chamava de cooper, às
vezes me chamava de senhor e às vezes você lembrava que deveria ir para uma festa e às vezes me
perguntava como eu estava e dizia que não me via há um tempão.
eu levei você para casa e, enquanto caminhávamos até a porta, você meio que voltou a si e me
perguntou o que eu estava fazendo ali. eu te contei e você me agradeceu muitas vezes e me deu um
abraço, o que foi muito legal. :)
nós acordamos seus pais e eles te levaram para o hospital, e é basicamente isso.
agora você está sentada ao meu lado mandando uma mensagem de texto para alguém.
provavelmente stuart, eu suponho. espero que esse cara saiba no que se meteu.
^^^ O que isso quer dizer?
por que ainda estamos digitando?
Porque eu quero te xingar, seu idiota, e Davy está sentada bem ali.
eu quis dizer que você não é uma garota comum, sammie, era para ser um elogio
Ah, porque eu sou uma pessoa enferma ou algo assim. Como se alguém não pudesse gostar de mim
normalmente porque eu tenho o fígado aumentado e toda essa merda.
bem, faz sentido
É verdade, Coop, mas você podia pelo menos me deixar para cima enquanto tenho o primeiro
relacionamento real de toda a minha vida; provavelmente o último. Por que não pode simplesmente
ser legal?
ah então vocês estão firmes né
É, acho que posso estar apaixonada por ele.
tá bom
É só isso que você tem a dizer?
é, eu não vou me meter nesse assunto
Por quê?
eu acabei de dizer que não vou me meter nesse assunto
Você não gosta dele ou algo assim?
ele é meio babaca
O quê??? Não é.
alguém que tem três casas e finge ser um humilde cara literário é meio cansativo. tipo, seja real,
cara
Você está procurando pelo em ovo.
haha, você parece minha avó falando
Você apenas não o conhece.
nem pretendo
Tudo bem.
tudo bem. ele também deve estar romantizando você como uma pessoa doente, pode apostar
Eu não contei a ele.
ah é? hum
Por que você está com esse sorriso idiota no rosto?
sei lá. por que tem medo de contar para alguém por quem está supostamente apaixonada uma coisa
tão importante sobre você?
Até que o Cooper tinha razão

Ele estava sendo um babaca em relação ao Stuart, mas estava certo sobre o resto. Se quero mesmo
que Stuart goste de mim pelo que sou, ele precisava saber como era este “o que sou” de verdade. Ele
precisava saber sobre a NP-C. Então foi por isso que, alguns dias depois, quando descobri que Davy e
Bette iam para um acampamento de artes e que a mãe do Coop é que ia passar para dar uma olhada
em mim naquele dia, mandei uma mensagem para ele pedindo um favor.
Eu: Pode dizer para a sua mãe que ela não precisa vir hoje e me dar uma carona até Hanover
por algumas horas?
Coop: sim por quê?
Eu: Para me encontrar com alguém, é bem rápido
Coop: beleza, na verdade vou para a cidade à uma, eu passo aí, o que quer fazer?
Eu: Ah, só vou passar um tempo c/ Stuart
Coop: ah tá bom.
Eu: Pode também me trazer de volta às quatro? Ou já vai ter ido embora a essa altura?
Coop: tão exigente
Eu: Estou doente :(
Eu: Eu faço alguma coisa gostosa para você comer!
Coop: tá então vc tá com sorte pq ia voltar essa hora para strafford mesmo
Não conversamos muito no caminho, só sobre o tipo de brownie de que ele mais gostava (“Não”,
disse a ele, “não vou por maconha na massa.”) e sobre onde nos encontraríamos depois.
Coop me deixou na casa do Stuart e lá estava ele, emitindo ondas de calor que iam e vinham: meu
namorado. Ele me levantou até a altura do rosto e nos beijamos como se fizesse dois anos que não
nos víamos, não duas semanas. Eu tinha esquecido que ele tinha aquele cheiro característico
misturado com sabão em pó.
— Você está melhor — ele sussurrou no meu pescoço. — Estou tão feliz por você estar melhor!
— Não totalmente — eu disse e fiquei um pouco tensa, mas a tensão foi embora quando ele
segurou minha mão e andamos juntos até a porta.
Enquanto andávamos, Stuart virou o pescoço para trás, na direção da rua e perguntou:
— Quem te deu carona?
— Ah, foi o Cooper Lind — eu disse.
Stuart abriu a porta pintada de branco.
— Ah, sim. Vi ele por aí. Qual é a dele?
O nervosismo na voz dele me pareceu confuso no início, mas quando ele olhou para mim no
enorme hall de entrada, com seus longos e magros braços cruzados diante do peito, percebi: ele
estava com ciúmes.
— Ah! Ah, não, Stuart. Coop é só meu vizinho imbecil.
Isso pareceu deixá-lo um pouco mais relaxado, e o sorriso voltou ao seu rosto. Estendi o braço e
encostei no ombro dele, tocando a pintinha que ele tinha na clavícula. Ele pôs as mãos em volta da
minha cintura, e seu nariz tocava o meu nariz.
— É, só o maconheiro amigão da vizinhança. Ele jogava beisebol em Hanover até tirarem ele do
time por estar chapado demais o tempo todo. Ele disse para todo mundo que pediu para sair — eu
disse e ri, para mascarar a culpa que imediatamente revirou meu estômago.
Eu sabia que não deveria contar aquilo para ninguém. Na verdade, tinha certeza de que não deveria
contar aquilo para ninguém. Mas momentos desesperados exigem medidas desesperadas.
Stuart riu junto. Ele inclinou o queixo para me beijar e, quando o beijo acabou, nós dois já
tínhamos esquecido sobre o que estávamos falando.
Andamos pela casa dele devagar, e ele me contava as histórias por trás de cada objeto: o tapete
feito à mão que seus pais esperaram por um ano enquanto era costurado por artesãos na Índia, a sala
cheia de instrumentos onde só pudemos ficar por um segundo para garantir que a temperatura
permanecesse adequada, a prateleira de temperos que a mãe usava para fazer seu próprio chai. Eu ri
das fotos escolares de Stuart ao longo dos anos: uma de aparelho nos dentes, outra sem, uma de
cabelo comprido, as outras, não. E os livros… uma sala inteira com paredes preenchidas por livros.
Uma seção de ficção.
Uma seção de poesia.
Uma seção de biografias, filosofia, ensaios.
Depois de comermos sanduíches, fomos andando até o campus da Dartmouth. A cada esquina,
ficava preocupada se tinha esquecido alguma coisa, esquecido sobre o que eu estava falando,
esquecido onde estava. Tentava não me distrair, mas, depois de tudo que eu dizia, perguntava a mim
mesma: “E se eu ferrar com tudo?”.
— O que você quer fazer? — Stuart perguntou.
Eu dei de ombros.
— Como andam seus textos? — perguntei.
— É muita pretensão da minha parte, mas, na verdade, prefiro não falar sobre isso. Se falar
demais, eles… perdem o brilho. Tomam uma forma diferente. Ou algo assim.
— Tudo bem — eu disse. Pelo menos um de nós tinha um trabalho empolgante. — Entendo
totalmente — eu disse, tentando dar um sorriso.
Nós nos enfiamos no saguão da sala de concertos da Dartmouth. Na última vez que tínhamos ido
perto dali, ficamos nos beijando no gramado logo atrás. Nossos passos ecoavam no lustroso piso
preto e branco. Eu nunca tinha entrado lá.
— Que horas são? — Stuart perguntou.
— Duas e meia — eu disse. Verificava o celular sempre que possível, para o caso de minha mãe
ter chegado em casa e visto que eu não estava lá ou caso Coop resolvesse voltar mais cedo.
Pela sequência de portas de madeira fechadas escapavam os sons abafados de uma orquestra.
Stuart bateu à porta da bilheteria.
De repente, um homem calvo abriu. Quando viu Stuart, sorriu.
— Glen, podemos entrar um pouco?
— Err… — Glen olhou para as portas. — Tudo bem. Mas entrem pela porta lateral.
Enquanto Glen nos acompanhava pelo corredor, perguntei a ele só movendo os lábios: “Quê? Você
conhece ele?”.
— Meus pais são do conselho — Stuart sussurrou.
Levantei as sobrancelhas e me segurei para não responder, sussurrando: “Que chique!”.
Entramos na sala de concerto sem que ninguém nos visse. Os músicos da orquestra estavam de
roupas normais, ensaiando. Era de uma beleza sobrenatural. Encontramos assentos perto do fundo, no
escuro.
— Então seus pais… — comecei a dizer.
— Eles doam o quanto podem para manter isso aqui funcionando. É uma época difícil para
orquestras.
— Imagino — eu disse, observando os violinistas cortando o ar de forma sincronizada com seus
arcos.
— Meus pais eram músicos também. Sempre me dizem que não eram tão bons assim e que se
conheceram porque os dois eram terceiros substitutos — Stuart riu um pouco. — Eles perceberam ao
mesmo tempo que não chegariam a lugar algum. É uma espécie de paradoxo para eles, mas sempre
foram apaixonados por música… Desculpa, estou falando demais.
— Não, não — eu disse, pegando a mão dele. — Não sabia que seus pais eram músicos — Fechei
os olhos. — Parece um conto de fadas.
— Parece a minha infância — Stuart sussurrou, se aproximando de mim.
Pensei na casa dele, cheia de livros e música, que devia ser assim todos os dias. Suspirei.
— Não consigo parar de desejar que a minha infância tivesse sido igual à sua.
— Como assim?
Eu quase disse “rica”, mas não tinha a ver com o dinheiro.
— Uma vida em que livros e música e filosofia me aproximassem dos meus pais, não afastassem.
Pensei na única estante de livros que tínhamos em casa, na sala de estar, ao lado da TV: uma
mistura de romances policiais do meu pai, revistas descartáveis da minha mãe e, na maior parte,
livros infantis que os dois leram para nós ao longo dos anos. Os meus próprios livros estavam todos
empilhados no chão do meu quarto.
E eu nunca tinha ouvido uma orquestra profissional antes. Não é que meus pais não fossem gostar
de ver uma orquestra, tenho certeza de que gostariam, mas estava tão fora do radar deles que era
como se não existisse. O mais perto que chegavam de algo musical era ouvir Johnny Cash enquanto
separavam as contas. Eu ri sozinha ao lembrar da imagem.
— Pode acreditar em mim, não foi tudo isso — Stuart sussurrou. — Eu também queria ser mais
próximo dos meus pais. Quero dizer, eles me apoiam em tudo o que faço, mas sinto como se eles
soubessem muita coisa a respeito de livros e música e escritores. Eles sabem muito mais do que eu
sobre escrever bem — ele deixou escapar um sorriso amarelo. — Tipo, como é possível
impressionar pessoas assim?
Fiquei surpresa.
— Eu imaginei vocês todos sentados para jantar, tomando vinho e falando sobre Kierkegaard.
— Rá! Estava mais para cada um sentado à mesa vazia, numa casa vazia, numa cidade diferente.
Está certo, lembrei. A família dele tinha uma casa aqui, uma em Nova York e uma na Índia. A
orquestra retomou a música do início.
Stuart me abraçou.
— Minhas partes favoritas, na verdade, são assim: quando a orquestra erra, quando estão fora do
tom, quando tocam a mesma nota várias vezes.
Eu virei para olhar o rosto dele.
— Por quê?
— Não gosto de muita perfeição. Me assusta.
— Não me assusta — eu disse, imediatamente.
— Por quê? — Stuart me ecoou.
Pensei em todos os meus planos, que agora estavam arruinados, e engoli a tristeza que subia pela
minha garganta. Contaria para ele em breve.
— Porque sei que ela não existe.
A orquestra tocou mais alto. Stuart olhou para mim.
— Isso parece bem perto — ele disse, e nossos lábios se encontraram por bastante tempo e
devagar. Eu não soube como reagir, porque logo eu estaria muito longe de ser perfeita, eu estaria
irreconhecível.
Stuart tinha que lidar com suas próprias coisas, com um livro para escrever, não precisava de outra
pessoa com mais dúvidas além das que ele já tinha. Ainda mais uma pessoa que poderia desaparecer
lentamente antes mesmo que ele tivesse a chance de conhecê-la melhor. Naquele momento, eu estava
cansada demais para contar a ele tudo o que se passava comigo.
Depois que Coop me deixou em casa, escrevi um e-mail para Stuart contando sobre a NP-C. E que
não estaria em Nova York no ano seguinte. E que talvez fosse melhor não nos vermos mais. Queria
que tivéssemos tido a chance de estar juntos em Nova York, pelo menos. Até digitar aquilo era difícil
para mim. Queria que ele ficasse comigo até o fim do verão, mas vou tentar ser forte e não pensar
nele pegando o metrô abraçado com outra garota, atravessando a cidade.
Também vou dizer o seguinte: não sei muita coisa sobre namorados e encontros e, agora, não vou
saber muito sobre o amor. Mas, em se tratando de um último encontro, Sam do Futuro, eu diria que
esse foi ótimo.
Três novas mensagens

Meu Deus, Sammie, por que você não me disse nada? Quero dizer, essa é minha reação inicial, mas entendo que provavelmente teve
seus motivos. Quanto a nós dois: está brincando? É claro que isso não muda nada! Quero te ajudar a passar por esse período. Quero
estar presente. Não quero simplesmente fugir. Quando podemos nos encontrar?

Acho que seu celular está desligado, por sinal, porque só cai na caixa postal. Mas, falando sério, adoraria passar aí e conversar sobre
isso.

Bem, passei a noite toda pesquisando sobre Niemann-Pick. É muito terrível e não consigo te imaginar passando por isso sozinha.
Queria ajudar de qualquer forma que puder. É óbvio que sim, o rumo da minha vida é incerto agora, mas não consigo pensar em
simplesmente deixar você. Me ligue quando estiver preparada.

Então, por um lado, estou dançando no quarto só de calcinha e sutiã gritando “ALELUIA!” com toda
a minha força. Só quero APROVEITAR esse momento pra caramba porque nem tudo precisa fazer
sentido. Por outro lado, Stuart me conhece há dois meses e está se comprometendo comigo quando
poderia aproveitar um verão sem-namorada-doente e isso não faz muito sentido.
De qualquer forma, ele está vindo para cá.
Gratidão

Algumas horas depois, abri a porta e Stuart me envolveu com os braços e apertou minhas costas
como se eu fosse fugir para longe.
— Oi — ele disse com a boca no meu cabelo.
— Oi — repeti e, quando ele me soltou, vi seus olhos úmidos, ainda meio com sono. Parece que
não tinha dormido muito. — Obrigada por ser tão maravilhoso — eu disse e, enquanto isso, dava
para ouvir uma pancada no fim do corredor. Minha família estava agitada.
Com Stuart e meus pais no mesmo cômodo — um cômodo, imagine só, cheio de pratos com
manteiga de amendoim e travesseiros de todo mundo e cobertores repletos de migalhas —, me senti
uma garotinha de novo, olhando de uma pessoa para outra, tentando acompanhar uma conversa que
não entendia muito bem.
Stuart olhou ao redor de nossa sala ampla e com pé-direito baixo, com as cores do McDonald’s na
cozinha, a mesa cromada, a estante de livros repleta de revistas e livros infantis. Eu me perguntei
exatamente a mesma coisa que Coop naquele dia: será que Stuart sabe no que está se metendo?
— Então, você e Sammie se conhecem há quanto tempo? — minha mãe perguntou depois de se
aconchegar no sofá, vestindo seu uniforme, ao lado do meu pai. Harrison ficou no quarto e meu pai
pediu para Bette e Davy saírem para brincar com o Cachorrinho. Todos nós estávamos tomando chá
verde.
— Alguns anos, mais ou menos — Stuart disse, olhando para mim. — Mas estamos saindo juntos
só há alguns meses.
— Você entende que a Sammie está passando por uma situação de saúde complicada? — meu pai
disse, encarando Stuart nos olhos sem piscar.
Ele assentiu.
Senti um aperto no peito. Segurei a xícara com força e tomei um gole escaldante.
Stuart não quis sair de fininho para conversar, como era a minha vontade. Foi ele quem quis
conversar com meus pais. Uma pequena parte de mim se perguntava: por que ele não podia
simplesmente conversar comigo? Tipo, por que temos que envolver os adultos logo de cara? Como
de costume, os McCoy sempre deixam as coisas muito intensas. Tentei dar um jeito de tirar Stuart
daquela situação.
— Bem — comecei —, agora que todos já foram apresentados, pai, mãe, sei que vocês têm que
trabalhar.
Olhei para o Stuart, procurando por sinais de pânico no rosto dele. Mas suas mãos estavam
calmas, segurando a xícara com leveza, e o olhar ainda era firme. Parecia que eu estava entrando em
pânico por nós dois.
— Antes que saiam, sr. e sra. McCoy, não consigo imaginar pelo que estão passando — Stuart
disse, deixando a xícara sobre o tapete para poder colocar a mão nas minhas costas. — Quando
Sammie me contou, eu… — ele respirou fundo, refletindo, mudando um pouco de expressão.
Minha mãe sorriu, confiante. Ele se importava mesmo. Eu também derreti um pouco.
— Eu pesquisei sobre o que está em jogo e não quero que ela… — Ele se virou para mim,
provavelmente percebendo que eu tinha tensionado a mão e que estava falando de mim como se eu
não estivesse ali. — Como eu te disse, não quero que tenha que passar por tudo isso sozinha.
— Nós também não queremos — minha mãe disse com a voz embargada. — E planejamos
diminuir a carga de trabalho se as coisas piorarem, como a Sammie sabe bem.
— Mas, por enquanto, está difícil — meu pai resmungou. — Com as outras crianças e tudo mais.
Fiquei ali paralisada. Estava muito confusa, mas não sabia bem o porquê.
Stuart voltou a falar:
— Talvez eu tenha que voltar para Nova York em algum momento, mas ficarei o máximo que puder
e posso ajudar com as crianças enquanto seus pais estiverem trabalhando.
— Não, não precisa exagerar — eu disse, mas o suspiro de alívio dos meus pais foi perceptível.
Eu até já sabia disso tudo, mas senti como se estivesse sendo discutida como um conceito, não uma
pessoa. Um conceito com o qual todos no cômodo se importavam profundamente, mas, ao mesmo
tempo, uma não pessoa. Um gerador de consequências.
No fim da conversa, meu pai acompanhou Stuart até a saída, com uma mão nas costas dele, para
mostrar a ele onde guardávamos a comida das galinhas. Eles saíram do barracão; meu pai levava um
saco novinho com vinte quilos de comida no ombro e apontava com a outra mão para o galinheiro.
Ei, hoje é noite de filme e é minha vez de escolher mas a Bette não para de falar que é vez dela o que
NÃO É VERDADE então tudo bem estamos assistindo Toy Story 3
a vovó me levou com harry e bette para assistir quando estreou acho que era meu aniversário
era meu aniversário e comemos cupcakes do lou’s e lembro que fomos ao cinema e asepar de harry
e bette terem gostado eu não gostei
minha mãe não para de perguntar o que você está escrevendo
num é da sua cotna
Estamos assistindo a Toy Story 3? É minha vez de escolher.
Eles não param de dizer que é a vez da beette mas não é ou é minha ou do harry não é assim que
funciona
começaram o filme
a vovó me levou com bette e harry para ver toy story 3 ano passado no meu aniversário e
compramos cupcakes no lou’s e entramos com eles no cimena escondidos na bolsa da vó
OPA olha essa garotinha aqui
Ela é uma graça
eles falam para largar o computador e assistir ao filme mas não quero não gosto de toy story 3
quem é essa garotinha
eu perguntei para ela quem ela era e ela começou a chorar desculpa
estão falando para lrgar isso
ah conheço ela
acho que é uma das amigas da bette da pré-escola
ela está chorando
não obrigada prefiro digitar
não obrigada prefiro digitar
não conheço aquela garotinha
Como deveria ser

Na noite passada tive um dos sintomas padrão da demência: voltei à idade que tinha quando
começamos com a tradição da noite de filmes, talvez antes disso até. A memória de curto prazo
desapareceu e mergulhei fundo no subconsciente; eu era uma criança novamente. Uma criança que
ainda não havia conhecido sua irmã mais nova, Davienne.
Pobrezinha, doce Davy. Quando voltei a mim e minha mãe e meu pai contaram o que tinha
acontecido, eu a abracei e a balancei e disse que era óbvio que me lembrava dela, claro, claro. Eu só
me sentia mal, e meu cérebro não funcionava direito.
Ela entendeu depois de um tempo. Para compensar, deixei que ela colasse adesivos no meu corpo
todo.
A noite de filmes começou quando eu tinha onze anos e minha mãe estava grávida de Davy. Foi no
ano em que compramos nossa primeira TV. Minha mãe e meu pai sempre acreditaram que olhar para
telas era ruim para crianças. Foi por isso que tive que guardar todo o dinheiro que ganhei de
aniversário e de Natal para comprar esse notebook e por isso meus pais ainda usam celulares
antigos. (Minha avó e meu avô me deram um smartphone na primavera passada porque sabiam que eu
precisava para pesquisar para os debates.) De qualquer forma, é muito compreensível a razão de
terem cedido. Três crianças, um bebê por vir, dois empregos em tempo integral e nenhuma opção de
babá em uma cidade de quinhentas pessoas.
Os filmes que lembro:
WALL-E: escolha do Harrison. Primeira noite de filmes. Meu pai queimou a pizza por acidente,
mas minha mãe comeu assim mesmo. Na verdade, minha mãe estava enorme grávida e comeu tudo
sozinha. Minha mãe e meu pai já estavam dormindo perto do fim do filme, então eu e Harrison
voltamos o DVD para o começo. Quando eles acordaram, à meia-noite, ficaram perplexos ao ver
como o filme era longo. Até hoje eles ainda acham que WALL-E tem quatro horas de duração, sem
diálogos, apenas com robôs bipando um para o outro, e nunca nos deixam assistir.
Star Wars: A ameaça fantasma (episódio I): alguns anos depois, tenho quase certeza de que Davy
estava com uns dois ou três anos. Era a vez do meu pai escolher, e ele estava empolgado em “assistir
a uma versão contemporânea da franquia clássica de ficção científica”. Quando Jar Jar Binks
começou a falar, ele perguntou baixinho: “Que merda racista é essa?”. Primeiro fingimos não ouvir,
mas aí minha mãe começou a rir e Davy gritou: “Merda!”. Harry riu tanto que até chorou.
Meu amigo Totoro: escolha da Bette. Ela tinha uns seis anos. Coop veio ver esse porque adorava o
cineasta Hayao Miyazaki. Ele ensinou todo mundo como se pronunciava o nome do diretor. Foi a
animação mais estranha e bonita que eu já vi, cheia de cores e criaturas e não era toda alegrinha.
Falava sobre morte e amizade e magia negra. Tenho certeza de que foi nesse dia que Bette descobriu
que podia ser de outro planeta. Durante um mês depois do filme, todos os dias ela usou orelhas de
Totoro de cartolina e alargou todas as camisetas por enfiar almofadas embaixo delas, repetindo:
“Totoro! Totoro!”. Um dia cheguei da escola e a encontrei brincando de cavalinho com o Coop no
jardim. Ele também tinha almofadas debaixo da camiseta.
A princesa e o sapo: escolha minha. (Bem, escolha da Davy. Naquela época, tinha descoberto que
ninguém queria assistir aos documentários políticos de que eu gostava.) Na verdade, acabamos não
terminando de ver o filme, porque Davy insistia em assistir à parte com a música “Quase lá” várias
vezes, o que irritou tanto meus irmãos que eles esconderam o DVD uma noite assim que Davy dormiu.
Mesmo agora, enquanto faz alguma coisa, tipo a lição de casa ou pintar, ela repete a canção várias
vezes: “Muita gente vindo de todo lugar porque estou quase lá, estou quase lá, muita gente vindo de
todo lugar porque estou quase lá…”. Uma vez perguntei se ela queria aprender o resto da música ou,
pelo menos, a letra certa. “Não!”, ela respondeu.
Orgulho e preconceito: escolha da minha mãe. Estávamos só ela e eu porque meu pai tinha levado
as crianças para a casa dos meus avós em New Hampshire. Havíamos acabado de descobrir que eu
tinha Niemann-Pick e, na verdade, não sabíamos o que isso significava, ou por quanto tempo eu teria
que me consultar com o geneticista. Nos aconchegamos no sofá e comemos meu petisco preferido,
que quase nunca comprávamos: amêndoa coberta com chocolate amargo. Rimos demais com a sra.
Bennet, obcecada por casar as filhas, como se fossem gado, uma personagem nervosa, irritante e
boba. Quando acabou e Elizabeth e o sr. Darcy haviam finalmente se beijado e se casado, eu disse:
— Fico feliz por você ser minha mãe, não alguém como aquela mulher.
Minha mãe me abraçou e segurou minha cabeça junto ao seu peito.
— Fico feliz por você ser minha filha — ela disse.
— Mesmo eu estando doente? — perguntei.
— Principalmente porque está doente — ela respondeu e a vibração da voz dela ressoou na minha
bochecha. — Não acredito que ninguém menos forte seria capaz de lidar com isso.
— Obrigada, mãe — eu disse e me aninhei mais.
— Meu primeiro bebê — ela disse e beijou o topo da minha cabeça.
Lembro disso muito bem.
Se noites como a passada voltarem a acontecer, fico feliz por registrar tudo isso. A noite de filmes
não é só para olhar para a tela, também é para rir e chorar e brigar e se aconchegar.
E estou feliz por escrever sobre as coisas boas e as ruins. Feliz por não ter apagado nada. E todos
os momentos entre as coisas boas? Se você só consegue lembrar suas aspirações, não terá ideia de
como foi do ponto A para o ponto B.
É por isso que estou escrevendo para você, acho, e não tirando um monte de fotos. Uma foto não
vai tão fundo. E o antes e o depois? E tudo que não coube no enquadramento?
E todas as coisas?
A vida não é só uma série de conquistas.
Eu me pergunto quantas noites de filme perdi para estudar ou debater ou só reclamar. Não quero
perder mais nenhuma.
Sonhos lúcidos

Os dias são assim: minha mãe abre uma fresta da porta do meu quarto e eu abro os olhos e espero um
segundo para conseguir focalizar tudo. É como se eu tivesse uma espécie de tecido pesado e molhado
sobre os olhos, porque, se não tomar um comprimido antes de dormir, acordo com dores
excruciantes, então durmo bem, quase bem demais. Mas logo minha mãe entra para abrir as cortinas e
sinto seu cheiro usual de óleo de melaleuca, e de manjericão — sempre manjericão no verão, porque
ela corta várias folhas na horta para usar em omeletes e sanduíches que leva para o trabalho.
Ao lado da cômoda eu tomo um copo de iogurte (porque não posso ficar de estômago vazio) e
engulo onze comprimidos.
Meu pai entra — ele tem cheiro de desodorante Mitchum, um cheiro antiquado de menta — e me
dá um beijo no rosto.
Cheiros deixam tudo mais claro do que qualquer outra coisa. Então, depois que sinto todos esses
cheiros, tudo começa a fazer sentido.
Algum amigo de Harry vem chamá-lo para acampar ou jogar videogame.
Bette e Davy às vezes vão para a casa dos Lind, às vezes ficam aqui e a sra. Lind traz o almoço, às
vezes Coop traz o almoço (mas nunca fica nem diz nada, talvez por Stuart estar presente e, da última
vez que conversamos de verdade, ele ter dito todas aquelas maldades). Às vezes quem vem é uma
enfermeira aleatória de plantão, quando mais ninguém pode vir, e ela basicamente fica sentada na
sala olhando para o celular. Às vezes minha mãe me leva para a cidade com ela e eu fico na sala de
espera até o turno dela terminar, lendo ou assistindo a O Senhor dos Anéis no notebook.
Às vezes vou com Stuart para a sala de leitura de uma das maiores bibliotecas da Dartmouth, o que
meus pais me deixam fazer porque é perto o bastante do trabalho da minha mãe, no Centro Médico
Dartmouth. Stuart e eu gostamos de dividir uma poltrona grande de couro na varanda enquanto ele lê
o que estiver lendo e eu leio o que estiver lendo.
Uma vez, contei a ele que eu lia todos os livros que o via lendo no colégio, porque era muito a fim
dele.
Ele disse que amava a ideia de que ele e eu passávamos pelos mesmos lugares fictícios ao mesmo
tempo e sugeriu que tentássemos sonhar com o mesmo lugar para nos encontrarmos enquanto
dormíamos. Então, naquela noite, Stuart me ligou e tentamos fazer exatamente aquilo.
— Certo, para onde podemos ir? — ele perguntou.
Eu já sentia o remédio me dando sono.
— Que tal montanhas? — perguntei.
— Qual delas?
— No alto da minha montanha — respondi.
— Como é lá?
Não lembro o que respondi, mas Stuart me contou que descrevi em detalhes: o caminho de pedras,
que quase nem é um caminho, e o matinho que nasce nas fendas e a camada de nuvens que fica nos
picos. Ele disse que foi para aquele lugar naquela noite e que eu estava lá. Eu queria ter podido estar
lá.
Nos dias em que nos sentamos juntos e não sinto vontade de ler, fico folheando livros de fotografia
ou leio tirinhas antigas ou simplesmente fico observando as pessoas no gramado pelas enormes
janelas arqueadas.
Às vezes eu choro, mas tudo bem.
A princípio eu ficava constrangida por fazer isso na frente do Stuart, mas ele me disse que também
chora, às vezes sem nem ter um bom motivo.
Enquanto lê, Stuart acaricia minha mão com o polegar. São dias bons.
Capitão Graveto

Maddie veio me pegar outro dia em seu Toyota de duas portas, levantando poeira na montanha e
buzinando para o Cachorrinho sair do caminho e não ser atropelado. Era fim de junho e tudo era bem
característico dessa época: tempo quente e céu claro, abelhas por todo lado, açúcar grudento
pingando do bebedouro dos beija-flores. Era sábado e Maddie cumprimentou Harry, Bette e Davy em
sequência, dizendo “toca aqui!”, acenou para a minha mãe, que arrancava ervas daninhas da horta, e
me tirou da montanha.
Paramos na casa dela, onde seus parentes — que eram versões de Maddie com diferentes idades e
cortes de cabelo — tomavam limonada sob uma faixa que dizia PARABÉNS, MADELINE. Por estar entre
pessoas que não eram da minha família, mesmo que fossem estranhos, eu poderia ter cantado como
Davy: “Muita gente vem de todo lugar porque estou quase lá”.
Ao ar livre. Ninguém me fez perguntas. Apenas sentei no balanço da varanda e comi biscoitos com
gotas de chocolate. De vez em quando Maddie passava por lá e fazíamos alguma brincadeira ou ela
me contava sobre como estava bisbilhotando a página do Facebook de sua nova colega de quarto na
Universidade Emory, uma amante de lagartos.
Quando ela começou a falar sobre as matérias que ia cursar, tive que morder minha língua.
Assuntos de faculdade. Eu não conseguia lidar com assuntos de faculdade.
Acenei com a cabeça para não deixá-la chateada, mas qualquer menção ao ensino superior parecia
um beliscão para mim. Lembrei o que Mariana Oliva tinha me dito, palavras que pareciam um
fantasma: “Estude de tudo”. Não que eu ainda sonhasse que seria possível. Eu não podia, sabia que
não podia.
Mas, droga. Toda a esperança que eu tinha sentido exibindo-se como um pavão nas cartas que
recebemos do setor de matrículas da NYU, com todos os logos e todas as menções.
Depois que uma tia de Maddie a chamou, vi que Coop e o cara que Maddie tinha socado anos atrás
se serviam de limonada.
Quando Coop me viu, eu acenei e ele veio sentar no balanço. Não dissemos nada por um tempo.
Lembrei que tinha esquecido de fazer os brownies de agradecimento por ele ter me dado carona.
— Qué pasa, Sammie? — Ele bateu com o copo no meu. Uma das últimas matérias que cursamos
juntos foi espanhol I, no primeiro ano. Ele me cumprimentava assim toda aula.
— Nada, zanahoria.
Coop virou para mim, confuso.
— Você acabou de dizer: “Nada, cenoura”?
Eu ri.
— Não consegui lembrar da palavra para “idiota”.
— Ainda está zangada comigo por eu ter falado aquelas coisas sobre o tal Stuart?
— Você pode chamá-lo apenas de Stuart.
Coop revirou os olhos.
— Ainda está zangada comigo por eu ter falado aquelas coisas sobre o Stuart?
— Bem, talvez eu tenha ficado, mas você também tinha razão. — Respirei fundo. — Eu contei para
ele.
— E? — Coop levantou as sobrancelhas, preparando-se para outro golpe.
— Stuart vai continuar por perto. — Engoli em seco. — Bem, pelo menos por enquanto. Ele até
está ajudando com as coisas de casa. É por isso que faz um tempo que meus pais não pedem ajuda
para a sua mãe.
— Uau.
— Bem, não é o tempo todo — eu disse. — Ele ainda precisa escrever. E trabalhar no Clube de
Canoagem.
Coop assentiu, deu de ombros e não disse nada por um instante.
— Ótimo — ele finalmente disse.
Nós sorrimos, mas havia um pouco de tristeza no sorriso dele, não sei bem por quê.
De qualquer jeito, a briga tinha terminado como fogo de palha, porque sabíamos que era o fim. Foi
simplesmente como deixá-lo entrar na cozinha depois de tantos anos. Podíamos estar brigando sobre
quem ia lamber a tigela da massa de bolo.
No quintal, Maddie gritou de alegria. Coop e eu olhamos na direção dela.
Pat e uma tia tinham acabado de entregar a ela um dos presentes de formatura: um agasalho com
capuz e um bordado que dizia UNIVERSIDADE EMORY.
Tentei não ficar com inveja, tentei ficar feliz, mas devo ter me encolhido. Não conseguia deixar de
pensar que isso poderia estar acontecendo comigo também.
— Qué pasa? — Coop perguntou outra vez, observando meu rosto.
Indiquei Maddie com a cabeça, esperando que ele entendesse.
E ele entendeu.
— Estou indo para casa — Coop disse. — Quer uma carona?
— Ah, acho que a Maddie pode me levar mais tarde.
Coop olhou para Maddie.
— Você quer mesmo esperar?
Ela estava arrancando as mangas do moletom da Emory, porque odiava mangas. Quando terminou,
sua tia pegou as mangas e ficou balançando sobre a cabeça. Maddie vestiu o capuz e fingiu dar uns
golpes de boxe na tia. A tia acertou-a com a manga e elas ficaram correndo uma atrás da outra no
quintal.
— É, parece que vai ser uma noite longa. — Me virei para Coop, e nós rimos.
Deixei o presente que tinha levado para Maddie sobre a mesa da sala de jantar — uma máquina de
cortar cabelo quase indestrutível da marca Remington que comprei pela internet — e saímos pela
porta dos fundos.
Coop e eu entramos na Blazer.
— Até que horas você precisa chegar em casa? — ele perguntou ao girar a chave na ignição.
— Ainda tenho algumas horas — eu disse. Ainda tínhamos mais ou menos uma hora de luz do dia,
aquelas horas opacas em que ainda estava quente sob o sol e frio na sombra. Apenas mais algumas
horas de liberdade. Pus o cinto de segurança.
Coop olhou para mim quando pegamos a estrada.
— Quer ir até os lagos?
Parei para pensar. Mas ir ao lago com Coop provavelmente significava ir ao lago com todo mundo.
Além disso, ele provavelmente queria “relaxar”, e eu não queria mais correr riscos com pessoas
mentalmente lesadas operando veículos motorizados.
— Não — respondi. — Chega de festa. Comi biscoitos demais. — Coop soltou uma gargalhada.
— Estou acabada — acrescentei, imitando voz de bêbada, o que o fez rir mais ainda.
— Bem, pensei só em dar uma passada. Ficar de boa. Em nome dos velhos tempos.
O cheiro do ar estava tão bom, tão limpo, quase úmido. Eu não estava mentindo quando disse a
Stuart que isso era o que eu mais amava aqui.
— Está bem — eu disse, e Coop desacelerou para dar a volta com a Blazer. — Posso chamar o
Stuart?
Coop não respondeu de imediato.
— Você ia gostar dele se o conhecesse — eu disse, dando uma pancadinha de leve em seu ombro.
— Claro — Coop disse e sorriu para mim com os lábios cerrados.
Quando saímos da rodovia 89 e estacionamos perto das margens do lago, Stuart mandou uma
mensagem dizendo que não podia ir porque estava trabalhando, mas ia me ligar mais tarde.
— Bem, parece que somos só você e eu, Coop — eu disse a ele.
Eu me apoiei nele para escalar de uma pedra a outra, até que chegamos ao meio das pequenas
quedas d’água, onde os riachos se dividiam e se reencontravam ao longo das pedras. Falamos de
quando éramos crianças, de quando não tínhamos celular e não existiam redes sociais, quando
sabíamos o que era tédio. Foi antes de nossos pais terem dinheiro para nos mandar para
acampamentos de verão e basicamente nos usavam como babás. Ficávamos tão entediados que
fazíamos umas merdas estranhas. Bem, coisas de criança, mas coisas estranhas mesmo assim.
Estávamos morrendo de rir, lembrando quando dissemos a Bette que ela era, na verdade, um
fantasma. Então Coop me perguntou:
— Quando deixamos de ser amigos?
— Hum… — Respirei fundo. — Além do dia em que você foi expulso do time de beisebol? —
Lembro do olhar dele naquele dia, o que havia afundado ali dentro.
— Ah, é — ele disse rapidamente. — É — repetiu. — Obrigado por… — Ele fez uma pausa e
pigarreou. — Obrigado por não contar a ninguém.
Engoli em seco. Algo me disse: “agora não”.
— Eu nunca… É. Nunca contei para ninguém da escola — respondi uma meia mentira.
— Mas antes disso. — Ele tinha razão. Aquilo tinha sido apenas a gota d’água.
— Acho que foi meio gradual, mas uma vez… — eu comecei a dizer. Cooper se virou para mim,
braços apoiados nos joelhos, escutando. — No primeiro ano. Mesmo antes de você ser… de você
sair do time. Lembro que você ia para a minha casa para me ajudar a tomar conta das crianças, mas
não apareceu. E nunca se desculpou. Não atendeu minhas ligações por, tipo, um mês. E eu pensei
“que se dane!”.
— Hum… — Coop olhou para as mãos, procurando uma sujeira invisível.
— E você mudou de lugar na aula de espanhol, foi sentar perto da Sara Gilmore. Então era
estranho tentar falar com você na escola.
Coop deu de ombros, retorcendo um pouco a boca, pensando em algo para dizer. Esperei pelas
desculpas que pensei que ele podia inventar: estava ocupado ou eu era metida e sabe-tudo (eu era).
Mas ele podia pelo menos ter dito alguma coisa.
— Eu fui um babaca — ele disse.
— Você foi. — Concordei, e ri um pouco por triunfo. — Desculpe, mas é bom te ouvir admitir
isso.
Ele abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas logo fechou. Levantou e saltou para outra
pedra. Pôs as mãos na cintura e ergueu o punho na direção do céu.
— Você se lembra disso? — ele perguntou.
Eu lembrava. Quando Coop fazia aquele gesto, se transformava no CAPITÃO GRAVETO! O Capitão
Graveto era amigo de todos os humanos e animais. Seu poder especial era… bem, ter um graveto.
Mas o graveto podia ser usado como espada, bengala, bandeira para marcar território ou varinha
capaz de transformar qualquer coisa em qualquer coisa.
— CAPITÃO GRAVETO! — gritei, dando risada. — Mas está faltando o graveto!
Eu me estiquei sobre a pedra e procurei um galho na água. Só encontrei uma lata de cerveja.
Atirei-a em Coop, mas não chegou nem perto.
Ele deitou e conseguiu pescá-la.
— CAPITÃO GRAVETO! — ele gritou e sua voz ecoou pela cachoeira.
Eu me juntei a ele tentando imitar a voz de um anunciante, como fazia quando éramos crianças.
— AMIGO DE TODOS OS HUMANOS E ANIMAIS!
— AMIGO DE TODOS OS HUMANOS E ANIMAIS, INCLUINDO SAMMIE MCCOY! — ele berrou.
Sorri para ele. Ele amassou a lata de cerveja com as duas mãos.
— É ISSO MESMO? — ele perguntou, apontando a lata amassada para mim. — SINTO MUITO POR TER
SIDO UM BABACA. SOMOS AMIGOS DE NOVO?
— Sim — respondi. — É claro. — Eu não sabia ao certo o que aquilo significava, principalmente
agora. Além de falar bobagem no lago, eu não sabia muito bem o que Coop e eu faríamos juntos.
Ainda assim, ele parecia mais meu amigo do que nunca, sem fôlego, com o cabelo no rosto,
empolgado sem motivo.
— VOCÊ TEM QUE GRITAR PARA VALER — ele disse.
Juntei as mãos diante da boca.
— CAPITÃO GRAVETO É AMIGO DE TODOS OS HUMANOS E ANIMAIS, INCLUINDO SAMMIE MCCOY.
O Capitão Graveto ergueu mais uma vez o punho na direção do céu e depois saltou novamente para
a pedra onde eu estava, voltando a ser Coop.
Entramos na Blazer. Falamos sobre a vez em que o Capitão Graveto foi ambicioso demais com
suas habilidades, tentou descer de uma árvore pulando com um pé só e quebrou a perna. Depois,
como a muleta era uma ferramenta ideal para substituir o graveto, o Capitão Graveto outra vez
confiou demais em suas habilidades e quebrou a outra perna. Estávamos quase morrendo de rir
quando ele parou na entrada da minha casa.
— Espere um pouco — Coop disse assim que soltei o cinto de segurança. Ele ficou olhando para a
minha casa. — Teve um momento para mim também.
— Momento de quê? — perguntei.
— Em que achei que não éramos mais amigos. Bem, eu tive um pouco de culpa. Mas… você sabe
do que estou falando? — Ele se virou para mim, agarrando o volante.
Parei para pensar.
— Daquela vez que te corrigi na frente de todo mundo na aula de espanhol?
— Não, antes disso.
Pensei no ensino fundamental.
— Quando não acreditei que você era alérgico a abelhas?
Coop riu um pouco.
— Não.
— Então conta.
— Quando… — ele começou a falar e limpou a garganta. — No verão depois do oitavo ano,
quando eu te liguei. E te chamei para jantar no Molly’s comigo. Era uma sexta à noite. E eu disse que
pagaria com a minha mesada. E você disse… Lembra disso?
— Ah! — Eu lembrava. Mais ou menos. Lembro que ele estava meio estranho no telefone e que
ficou me evitando nas semanas seguintes, mas depois passou. — Pensei que você só estava tramando
alguma coisa, tipo uma pegadinha. E achei que ficou bravo porque eu não quis ir.
— Eu não fiquei bravo, Sammie. — Coop voltou a olhar para a minha casa. — Mas você feriu
meus sentimentos. — Ele pigarreou mais uma vez. — Meus sentimentinhos. Sentimentos de oitavo
ano — ele acrescentou. — Haha.
— Ah! — eu disse e saí do carro, me apoiando na porta aberta. Achei que sabia do que ele estava
falando, mas não tinha certeza. Então eu disse: — Bem… droga, Coop. Sinto muito.
Ele balançou a cabeça, rindo.
— Tudo bem. Eu só estava lembrando. Fazendo uma viagem pela memória.
Minha mãe já tinha aberto a porta e estava me esperando.
— A gente se vê depois? — perguntei, porque nós dois estávamos desconfortáveis.
— A gente se vê depois — ele respondeu.
Aaaaaaaaaah

Ah. Aquele convite do Coop era um encontro! Ai, meu Deus, que fofo! Se você soubesse como o
Coop era naquela época… O garoto tinha uma cor diferente de conjunto de moletom para cada dia da
semana. Ele era esse tipo de menino. Que usava conjunto de moletom. Como todos usávamos. Bem,
mas o Coop cresceu e parou de usá-los e eu não, hahaha. Mas, de qualquer jeito, eu não fazia ideia.
Vou zoar ele depois por isso.
Ou talvez não. Não gosto da ideia de deixá-lo constrangido. Não gosto de vê-lo… você sabe,
magoado.
Mas, cá entre nós, é tão engraçado! Eu não sabia que ele podia ter sentido alguma coisa por mim.
Talvez tenha sido porque eu era a única pessoa com vagina que conversava com ele regularmente.
Como diz a National Geographic, esse tipo de sentimento se desenvolve quando, no mesmo cômodo,
há duas pessoas heterossexuais que não têm relação de parentesco. E Coop e eu ficávamos no mesmo
cômodo por muito tempo.
Mais tarde ele esteve no mesmo cômodo com várias outras vaginas e superou tudo.
É estranho usar “Cooper Lind” e “vagina” na mesma frase?
Bem, mesmo que eu tivesse me dado conta na época, acho que não teria topado um encontro com
Cooper Lind. Eu estava ocupada demais enfiando a cara no travesseiro e lendo sobre Guerras
Druidas.
Nossa, agora me lembrei de tudo. De como achei estranho ele ter me ligado e me convidado para ir
ao Molly’s em vez de simplesmente aparecer aqui, abrir a geladeira e esquentar duas salsichas no
micro-ondas, como costumava fazer.
Sra. Townsend: parte dois

A sra. Townsend apareceu do nada de trás do aquário do consultório da dra. Clarkington hoje, usando
um vestido azul, e primeiro achei que fosse coisa da minha imaginação. Mas não, era mesmo a sra.
Townsend, com seu cheirinho-bom-de-limpeza e o cabelo entrelaçado em longas tranças negras.
Quando nos abraçamos, percebi que havia uma barriga ali.
— Mini sra. T? — eu quase gritei, porque sou discreta como um palhaço.
— Sim, mini sra. T — ela disse, às gargalhadas. — O nome dele vai ser Solomon.
— Por causa de Song of Solomon?
— O livro de Toni Morrison, não o Cântico de Salomão da Bíblia.
— Ótimo.
— Prometo que ele não vai virar uma criança metida de Nova York. Então, que Deus me ajude,
vou garantir que ele coma glúten como todo mundo.
— Por que ele seria uma criança metida de Nova York?
— Greg e eu vamos para Manhattan. Ele vai fazer doutorado na Hunter.
Todo mundo de quem eu gosto vai para Nova York. Decidi não me importar com isso.
— E o que você vai fazer?
A sra. T observou ao redor, como se estivesse em pânico.
— Não vou ter uma Sammie como pupila. O que vou fazer?
— Sei, quem-quem-quem vai mandar e-mails às três da manhã pedindo uma carta de referência?
— finalmente consegui falar. Estava começando a não ficar tão envergonhada por falar gaguejando.
Você só precisa escavar o caminho para as palavras.
A sra. Townsend encostou o cotovelo no aquário do peixe-beta e batucou acompanhando o caminho
que ele fazia ao nadar.
— Vou te dizer o que vou fazer: vou ter esse bebê e depois vou trabalhar no departamento de
admissão da universidade. Então vou criar esse bebê e aí vou me aposentar. Quer dizer, a não ser que
o clima mude de forma tão drástica quanto dizem que vai nos próximos vinte anos. Nesse caso, Greg
e eu vamos voltar a morar no topo das Montanhas Verdes e plantar laranjeiras.
— Laranjeiras em New England?
— Você vai querer ficar acima do nível do mar, acredite.
— Posso ir junto?
A sra. T pôs as mãos sobre meus ombros.
— Se tiver uma habilidade útil, sim.
— Consigo beber mais de três litros de achocolatado de uma vez só.
— Fechado — ela disse, e nós rimos.
Mensagens de Stuart Shah, versão NP-C

Você tem que dar o braço a torcer, o cara é um escritor nato. Apesar de fazer a mesma pergunta todas
as manhãs, nunca recebi duas mensagens iguais de Stuart.
Stuart: como está se sentindo hoje?
Stuart: está se sentindo mais animada hoje?
Stuart: está tendo um bom dia hoje?
Stuart: como vai minha gatinha?
Stuart: hoje está sendo um bom dia?
Stuart: como vai de saúde?
Stuart: se sentindo mais disposta?
Stuart: o sol está te tratando bem esta manhã?
Stuart: precisa de alguma coisa de mim hoje?
Stuart: o que está acontecendo?
Stuart: como está, menina?
Stuart: qual é a boa hoje, querida?
Stuart: como vai a vida nesse dia chuvoso?
Stuart: como vai a sammie?
Stuart: como está a minha garota?
Stuart: como vai?
Stuart: ça va?
Stuart: tudo bem?
Aquela mulher monstruosa que escondem no sótão
naquele livro

Hoje não é um dia muito bom para o meu cérebro. Minhas mãos não estão boas para digitar. Meus
lábios estão repuxando. E não foi legal ser uma pessoa hoje. Mas tenho uma ideia.
Tenho que fazer isso para parecer que não tem problema eu ter esquecido a palavra para “forno”
no outro dia e ter acordado no meio da noite pensando que precisava me arrumar para ir à escola.
Numa outra vez eu poderia jurar que vi minha avó e meu avô no jardim. Não contei porque não há
muito mais a dizer e não é legal para mim pensar sobre esses momentos. São apenas estranhos.
Assim como respondi a mensagem diária de Stuart dizendo que “nunca estive melhor”, porque,
quando digo a verdade a ele, ele fica muito triste e vem para cá para me fazer cafuné.
E na maior parte do tempo é bom. Tipo, não se preocupe, sempre vou dizer quando estiver tudo
bem. Ou quando estiver ruim o bastante a ponto de você precisar saber. Você também deve saber que
não apaguei nada daqui. Tenho certeza de que já disse isso. Porque eu gosto de reler e isso deixa
tudo mais empolgante. Mas, como eu disse, não estou num bom dia hoje.
Eu sempre disse como achava que eu ia terminar, então vou contar como acho que meu irmão e
minhas irmãs vão terminar também. Eles têm tanto… não sei… tempo a mais. Têm muito mais coisas
pela frente.
Também não vou mais usar a internet para procurar palavras quando as esquecer, porque este livro
é meu e o Google não é meu cérebro e este livro deve ser um reflexo do meu cérebro. Entende o que
eu quero dizer? Quero que este livro tenha as MINHAS PALAVRAS, mesmo que sejam palavras erradas.
Então lá vai. Vamos começar pelo Harry.
OS IRMÃOS MCCOY: UMA BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA

Capítulo Um: Harrison


Harrison George McCoy nasceu em um dia escuro de dezembro, mas muitos diriam que o choro
dele soou como os sinos de Natal. Na verdade, ninguém disse isso, mas ele nasceu perto do Natal.
Quando criança, Harrison era obcecado por moedas antigas. Sempre que a minha mãe visitava a mãe
dela no Canadá, trazia moedas canadenses, moedas da França e às vezes da Inglaterra e da Espanha.
Stuart trouxe moedas da Índia para ele outro dia e não consigo lembrar o nome delas, mas foi muito
legal da parte do Stuart.
De qualquer forma, onde eu estava? Em um dia importante, porém, Harrison foi à casa de seu
amigo Blake e descobriu o mundo empolgante e infinito do videogame. No início não fiquei feliz com
isso porque sou filha dos meus pais, que não gostam de telas. Mas, depois de ver como ele fica
animado quando joga e como fala mais com você do que jamais falou na vida caso faça uma pergunta
sobre Minecraft, mudei de ideia.
Tudo isso para dizer que Harrison McCoy encontrou sua vocação no movimento de blocos sobre
outros blocos digitais. Com esse conhecimento Harrison vai se destacar em geometria e física. Vai
passar o ensino médio em meio a muitos amigos com os mesmos interesses. Tipo um clube do
videogame! Harrison McCoy entrará para um clube de videogame lá pelo, digamos, nono ano.
Logo esse clube de videogame vai deixar de ser um clube e vai parecer mais com uma coleção.
Não, um coletivo! Eles combinaram suas ideias sobre jogos e criaram seu próprio jogo. Chamado
Geobloco ← nada mal, hein? Tenho que contar essa ideia para ele.
À medida que vão amadurecendo, as personalidades dos integrantes do coletivo passam a se
combinar de maneira perfeitamente equilibrada. Eles criam uma empresa para vender o jogo.
Harrison vai ser o maior criador de jogos de videogame. O chefe. E, por causa de sua tranquilidade e
de sua paixão pelo Geobloco, vai ser um grande líder. Seu negócio vai ser um sucesso muito maior
do que ele jamais sonhou.
Um dos membros do coletivo vai ser uma mulher ou um homem de quem Harrison sempre
discorda, mas respeita muito, porque suas discussões sempre chegam a uma boa solução. Depois de
terem dado conta dos negócios e terem se tornado pessoas plenas, vão perceber que podem ser
parceiros perfeitos na vida também. Vão adotar um filhote de cachorro e dar a ele o nome de
Cachorrinho, em homenagem ao Cachorrinho original. E vão viver por muito tempo depois disso,
como uma família feliz.
(NÃO É O) FIM
Ainda quente, Dia da Independência dos Estados
Unidos

Exatamente como todo ano, bloquearam todas as ruas de Hanover, e as pessoas andavam por lá de
roupas curtas, sendo queimadas pelo sol, bebendo direto do gargalo de garrafas de água ou cerveja.
Foi um bom dia para meu cérebro e meu corpo e outras coisas, então, enquanto meus pais e as
crianças foram andar nos brinquedos, eu me encontrei com Stuart.
— Minha pequena norte-americana — ele disse, acariciando meus ombros quando encontrei com
ele na rua principal. Eu o beijei. Ele tinha um gosto amargo e doce na boca.
— Andou tomando cerveja?
— É, eu só… — Ele esfregou o rosto com a mão. — Às vezes eu preciso de um tempo.
— Ótimo! Sim! Você precisa relaxar. — Ele tinha passado na minha casa quase todos os dias
daquela semana, ajudando com a louça, dando longos passeios com o Cachorrinho, levando Bette e
Davy para o acampamento.
— Como andam seus textos? — perguntei.
— Blé — ele disse. — Estados Unidos! — ele gritou em vez de responder, e pôs o braço em volta
dos meus ombros.
Eu ri.
— De acordo!
Eu contei a ele sobre as biografias. Ele me contou sobre um cliente do Clube de Canoagem que o
fez lembrar de um conto. Quando chegamos na casa dele, pude ouvir vozes, mas não conseguia ver as
pessoas. Tentei olhar para cima, mas meus globos oculares não conseguiam fazer isso muito bem
ultimamente, então fiquei só ouvindo.
— Stu-ey voltou! — ouvi Ross Nervig gritar.
— Eles estão na cobertura? — perguntei a Stuart.
— Estão!
Dentro da garagem abri e fechei as mãos várias vezes e inclinei o pescoço para olhar para cima,
de modo que não precisasse virar os olhos.
— Ah! — Stuart exclamou. — Não precisamos subir. Eu falo para eles descerem aqui.
— Não precisa — eu disse.
— Não, querida — ele disse, pondo as mãos nas minhas bochechas. — É melhor eles descerem
aqui. Sou tão idiota. Não vou permitir que você faça muito esforço.
— Não tem problema — eu disse a ele, e acrescentei “Não vou permitir que você…” a uma longa
lista de coisas que não havia dito a Stuart. Ela incluía o seguinte:
Por favor, não me chame de “querida”.
Por favor, não fique me lembrando de tomar meus remédios. Se eu esquecer, prefiro que minha
família me lembre.
Por favor, não me faça cafuné e fique triste, porque isso me deixa triste.
Eu não gostava dessa parte de mim mesma, a parte que censurava, e Stuart fazia tudo por amor, e
fazia muita coisa. Ele nunca me culparia por isso, mas eu me culpo. Toda vez que eu repetia alguma
coisa, toda vez que esquecia onde tinha deixado o celular, toda vez que não conseguia levar o
Cachorrinho para passear, eu me culpava.
Mas eu ainda conseguia fazer a maioria das coisas. Quase tudo. Só que não sempre. Entende, Stu?
Engoli em seco. Pensei em mim mesma há alguns meses apenas, andando por aí como se não fosse
nada sério, pensando que ia morar sozinha em Nova York.
Mas o importante não é não cair, e sim conseguir levantar, certo? Certo. Stuart esperou eu me
animar um pouco, com um sorriso de incentivo no rosto.
— Tem certeza? — perguntou.
— Quero fazer isso.
Agarrei as barras da escada como se estivesse escalando uma encosta. Stuart perguntou se eu
queria ajuda, com as mãos a postos perto da minha panturrilha. Eu respondi que não e, embora
tivesse que esperar um instante a cada degrau, consegui impulsionar meu corpo com força. Subi as
duas escadas e, quando me sentei no piso plano e morno, estava respirando e estava feliz, como se
tivesse vencido uma maratona. Me dei conta de que faria tudo de novo só pela sensação, como se eu
estivesse de volta ao mundo e o mundo fosse bom. Mesmo que eu estivesse cansada.
Stuart foi até um isopor que estava no centro e abriu uma cerveja.
— Minha amiga Sammie! — Coop estava com uma menina que vestia um biquíni com estampa da
bandeira dos Estados Unidos. Ele usava sua regata preferida, com a frase CURTINDO A BRISA. Vi um
círculo de pessoas que eu provavelmente conhecia, de bandanas vermelhas, brancas e azuis na
cabeça, envoltos por fumaça de cigarro e, nossa, foi ótimo ver Coop. É difícil descrever a sensação
de alívio que senti, Sam do Futuro, por realmente conhecer outra pessoa naquela cobertura. Ele era
simplesmente tão… sei lá, o oposto de um borrão na multidão. Então percebi que a última vez em
que tinha sentido a sensação de estar livre no mundo havia sido nos lagos, com Coop. O que fazia
sentido.
— Ei, Coop — eu disse, ainda recuperando o fôlego. Apontei para a abertura no telhado. —
Consegui subir as duas escadas.
— Muito bem, parabéns para você! — ele disse, inclinando a cabeça, com uma cerveja na mão.
Ele tomou um gole e se desfez da garrafa vazia.
— Sim, parabéns para você! — Stuart disse, perto do isopor, e voltou a falar com Ross Nervig,
que o havia puxado para uma discussão sobre poesia.
— Alguém quer uma água? — Coop perguntou, se levantando. — Vou trocar a cerveja por água.
— Eu quero uma água — respondi.
Coop me trouxe uma garrafa gelada e voltou a sentar ao lado da Katie Gostosa. Katie Gostosa, que
supostamente não era sua namorada.
Depois de um minuto, notei uma forma escura pousar sobre a perna dela. Ela gritou e se levantou.
Coop, que conversava com uma garota sentada do outro lado, se virou.
— Fique longe dele! — gritei para Katie.
— O quê? — ela berrou, perplexa, ainda dando tapas no ar.
— Por favor, saia! — Fiz sinal para ela se afastar de Coop.
Coop percebeu o que estava acontecendo e saiu correndo para o outro lado da cobertura.
— Ele tem alergia a abelha — eu disse com a voz mais baixa.
— Ela já foi embora? — Coop me perguntou.
— Já foi — eu disse a ele.
Pude ler um “obrigado” em seus lábios.
Durante a hora seguinte, tentei pôr em prática minha recém-descoberta habilidade de jogar
conversa fora com as pessoas, fazendo um esforço para lembrar coisas sobre elas.
A cada momento de silêncio, eu fazia um teste: Becca está em Washington, Lynn acabou resolvendo
não fazer aquele estágio, Jeff está trabalhando na empresa de construção do pai de Ross Nervig.
Becca: DC, Lynn: nada de estágio, Jeff: pai do Nervig.
Logo comecei a ficar meio zonza. Tinha tomado remédios para dor depois de subir a escada, e a
sonolência começou a bater.
Quando Stuart se abaixou para me beijar, eu sussurrei.
— Ei.
— Ei — ele disse. Seus olhos pareciam sonolentos também, mas por outro motivo.
— Acho que preciso ir — eu disse.
— Não — ele disse, franzindo a testa.
— Meu… como chama aquela coisa com gasolina? Meu tanque está vazio — afirmei.
— Está bem, espere um segundo e vamos para casa.
— Você está na sua casa!
Stuart falou com calma no meu ouvido.
— Você pode ficar aqui. Vou trazer um pouco de água.
Segurei a camisa dele e o puxei para mais perto.
— Não. Pode ficar com seus amigos, pode relaxar. É sério.
— E se eu simplesmente te beijar? — ele disse, colando os lábios nos meus, molhados e salgados,
até que fui obrigada a rir.
— Stu-ey, chegou a hora! — Ross estava gritando, apontando para o céu segurando um livro como
um viking e seu machado.
Os fogos de artifício haviam começado.
— Só um segundo, querida, prometi ao Ross que leria um poema do Ginsberg — ele disse meio
arrastado e cambaleou até o amigo. Ri sozinha outra vez. Coop estava olhando para mim. Dei de
ombros e sorri.
— Pessoal! Eu queria ler uma coisa! — Stuart gritou com as faixas de luz dourada estourando ao
fundo. Ele olhou para o livro. Ele olhou para o livro, e versos de “América” saíram bem do fundo,
intensos. Versos sobre desesperança, sobre doar-se completamente e ainda assim não ter nada.
A silhueta de Stuart estava destacada pelas cores, todos olhavam para ele. Seus braços se debatiam
enquanto ele lia, e Ross ficou atrás dele, assentindo, aplaudindo nas partes que lhe agradavam.
Fiquei me perguntando no que ele estava trabalhando, se algum dia ia ler sua própria obra daquele
jeito, como se sentisse cada palavra. Stuart estava sublime. Stuart estava bêbado.
Pensei em cinco verões atrás, na primeira e única vez em que tinha ficado bêbada daquele jeito.
Coop disse naquela festa em abril que sempre quis “ficar bêbado comigo”, mas, na verdade, já tinha
ficado uma vez.
Nas férias de verão antes do primeiro ano do ensino médio, antes do incidente do “encontro”, ele e
uns amigos do time de beisebol tinham roubado uma garrafa de uísque dos pais de alguém, e Coop
me convenceu a experimentar, misturado com refrigerante de baunilha e cereja. Isso foi, é claro, antes
de eu saber que queria sair do Upper Valley, antes de fazer parte do time de debate, antes de querer ir
para a NYU, antes de conhecer Stuart.
Foi divertido no começo, e eu tomei tudo de uma vez como se fosse refrigerante puro.
Coop e eu ficamos nos empurrando e rindo. Ele tinha tirado meus óculos e saído correndo com
eles, e eu fui atrás e pulei nas costas dele. Ele me levou de cavalinho até o limite das árvores, onde
desci das costas dele e, depois de balançar um pouco, comecei a vomitar.
Coop segurou meu cabelo enquanto eu vomitava e repetia:
— Ah, não… Ah, não…
Comecei a rir, ainda limpando o vômito da boca, e disse:
— Nunca mais vou fazer isso!
— Nunca mais vai vomitar? — Coop perguntou, e àquela altura nós dois já estávamos rindo. Foi
um ataque de riso idiota e feliz.
Lembro que ele se abaixou ao meu lado, sem medo de ficar perto de mim depois de um
acontecimento tão nojento. Lembro da sensação da mão dele nas minhas costas, segurando meus
cachos.
Vi a garota do biquíni de bandeira passar um baseado para Coop, mas ele recusou.
Olhou para mim, quase como se estivesse lembrando da mesma coisa, mas isso não era possível.
De qualquer modo, nos entreolhamos. Não sei o que cada um de nós estava pensando exatamente,
mas ficamos nos olhando por um bom tempo.
Hoje, o jeito de Stuart lembrava mais o do dia da leitura na biblioteca, quando me dei conta de que
o amava ou estava começando a amá-lo. Fazia um tempo que não o via daquele jeito, na verdade. Ele
fica mais feliz quando está fazendo o que quer, não apenas o que sente que precisa fazer. Todos
estaríamos melhor fazendo isso, acho.
Pedi para Coop me dar uma carona até em casa. Desde que ele tinha me levado para casa depois
da festa da Maddie, meus pais começaram a me deixar sair e pegar carona com ele, o que é legal. O
fato de que ele está do outro lado da montanha é um pequeno alívio para eles, acho, e ele passa mais
tempo em casa do que sua mãe. Além disso, a enfermeira é cara.
Minha mãe o convidou para entrar e comer um pedaço de torta, e acabamos comendo no meu
quarto porque Bette estava tendo um chilique por causa da torta. Bem, Coop viu as fotos da força-
tarefa para NP-C no meu mural e me perguntou sobre elas.
Depois de morrer de vergonha e voltar à vida, eu disse:
— Ai, meu Deus, foi uma coisa meio boba. De quando eu achava que poderia, tipo, fazer a NP-C
desaparecer. Quando pensei que ainda poderia fazer todas as coisas que tinha planejado.
— Bem, e por que esquecer essas coisas? — Coop perguntou. — Não há momento melhor que o
agora. Essas coisas não importam menos só porque não fazem parte de um esquema grandioso. Você
só precisa… ajustar o plano.
— Ajustar o plano como?
— Acho que eu quis dizer “se livrar do plano de uma vez”. Faça as coisas que tinha planejado
porque são legais de fazer. Faça essas coisas porque sim.
E eu fiz

Hoje, como tributo a Beyoncé e a todas as mulheres independentes, liguei para Maddie e dei
parabéns a ela mais uma vez.
— Posso dizer uma coisa melosa? — perguntei.
— Eu adoro mel — Maddie disse, séria, e nós rimos.
— Não, é sério!
— Sério — ela disse. — Mel.
— Aham, aham. Todas as mulheres fortes são aliadas e, já que não posso dominar o mundo, você
deveria fazer isso e deve saber que estou ao seu lado.
Maddie ficou em silêncio por um instante.
— Isso significa muito para mim, Sammie. De verdade.
— Bem, você significa muito para mim. Eu vou te ver antes de você ir embora? — perguntei.
— Eu já vim para o litoral com as minhas tias. Mas volto antes das aulas começarem. Vamos nos
ver em breve.
— Espero que sim — eu disse e, quando desligamos, lembrei que tinha comparado nossa tática de
debate com o estouro de um balão. E talvez seja a NP-C falando, mas algo dentro de mim inflou, só
que, felizmente, não estourou.
OS IRMÃOS MCCOY: UMA BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA

Capítulo dois: Bette


Como já sugeri ao longo deste livro, Bette Elise McCoy pode não ter nascido neste planeta. Vamos
apenas dizer que minha mãe e meu pai a “trouxeram do hospital” no fim de fevereiro. Quando bebê,
ficava a maior parte do tempo quieta, exceto quando tinha a coisa que bebês têm quando a barriga
deles dói. Até hoje, ela não come banana, limão ou qualquer coisa com limão, abacaxi, bolacha
salgada, laranja, manga, mamão, cenoura, massas, milho, abóbora, minimilho e pão de cachorro-
quente.
Bette tinha um papagaio invisível que chamava de Babagaio. Ela alega poder conversar com todos
os tipos de pássaros. Devo esclarecer que essa alegação vem do fato de que ela corre na direção de
qualquer grupo de pássaros dizendo: “Voem, voem!”. Então, é claro, os pássaros “ouvem” o que ela
diz.
De qualquer forma, Bette chegou ao quarto ano como um prodígio em matemática. Ela também tem
imaginação fértil, como você pode perceber, e não tem medo do que as pessoas pensam sobre ela.
Vamos dizer que, por muitos anos, essas duas habilidades não vão se misturar, e talvez Bette não faça
muitos amigos. Posso dizer isso com muita propriedade porque vejo muito de mim em Bette e deve
ser por isso que sou tão dura com ela. Espero que ela não passe todo seu tempo falando sozinha,
como eu.
Mas este é meu livro. Então resolvi que, em vez de passar a adolescência trancada e estudando,
Bette vai ficar amiga de alguém como a Maddie logo de cara. Vai saber que não está sozinha e que
não é a única pessoa diferente.
Digamos que a melhor amiga dela toca guitarra muito bem e Bette é ótima com palavras e com
matemática e escreve músicas ótimas (porque boa parte disso é matemática, principalmente em
músicas-tortuosas-longas-cheia-de-sons, Stuart me disse). Juntas elas formam uma banda chamada
BABAGAIO. HAHA, é.
Então a BABAGAIO fica famosa fazendo shows no Upper Valley, e logo elas vão para Nova York.
Vão surpreender a todos com seu pop-ópera maluco. Vão usar fantasias e ter cenários enormes no
palco, tipo Alice no país das maravilhas. Vão tocar no Canadá, na Europa, na África, na Índia e na
Ásia. Vão fazer músicas como os dois caras dos Beatles droga droga qual o nome deles com a
diferença de que nunca vão se separar.
Elas vão morar a dois andares de distância em um prédio. As duas amigas, Bette e Sejaquemfor,
vão criar pássaros de todo tipo no telhado e escrever músicas e gravar discos juntas pelo resto da
vida.
O milagre da ciência

Como tributo ao meu empenho de falar abertamente sobre a doença, à la Elizabeth Warren, fui me
consultar com a dra. Clarkington com meus pais e pedi para falar com o especialista no viva-voz.
Descrevi meus sintomas aos dois médicos e contei que estava escrevendo este livro.
— Isso é ótimo — disseram. — A ideia do livro é ótima.
— Faça palavras-cruzadas também — o especialista disse ao telefone.
Palavras-cruzadas. Ótimo.
— E quanto aos sintomas? — minha mãe perguntou.
— As coisas parecem estáveis — eles disseram. — Mas não estão muito boas.
Estáveis, mas não muito boas. Ótimo.
Os Lind ficaram com as crianças enquanto minha mãe, meu pai e eu fomos ao Molly’s depois da
consulta. Disseram que eu podia pedir o que quisesse. Isso era raro. O Molly’s era para dias como
aniversários, e aniversários significavam pizza, porque pizza era mais barato. Acho que nunca fomos
ao Molly’s e pedimos pratos individuais.
— Vocês têm certeza? — perguntei.
— Claro — meu pai respondeu. — Que se dane, vamos pedir uma garrafa de vinho.
— Não precisamos fazer isso — minha mãe disse, pondo a mão sobre a do meu pai.
— Mas eu quero — meu pai disse, olhando para nós duas com um sorriso forçado. — Peça o que
você quiser, Sammie-bo-bammie.
Então eu escolhi fettuccine. Minha mãe pediu um hambúrguer e meu pai, salmão. Ainda parecia
errado. Como se estivéssemos comemorando algo que não era digno de comemoração.
— Por que não pedimos uma pizza?
— Não — meu pai disse rapidamente. — Já escolhemos.
— Falei por falar — eu disse, dando de ombros. Só estava tentando dizer a eles: “Ei, não
precisamos ficar gastando dinheiro só porque o meu cérebro não funciona”.
— Se você quiser pizza, vamos pedir pizza — minha mãe afirmou.
— Eu não quero pizza. Só estava dizendo que poderíamos…
— Vamos encerrar esse assunto — meu pai disse num tom de voz mais alto.
Minha mãe se virou para ele com a boca bem fechada.
— Estou cansado, Gia. — Ele se virou para mim, com suas bochechas vermelhas de irlandês e fez
uma pausa. — Só quero que todos fiquem gratos por poder comer uma boa refeição.
Por “todos”, ele quis dizer “eu”, tenho quase certeza. Então o agradeci. Juntei as mãos em posição
de oração.
— Obrigada, pai, por esta boa refeição.
— Não comece com esse comportamento, Sammie. Não hoje.
Senti meus olhos se estreitarem, automaticamente, e meu peito ficar apertado.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei, mas sabia o que ele queria dizer.
Ele ia dizer que queria que eu simplesmente parasse de falar sobre isso, porque eles tinham que se
matar todos os dias para pagar minhas consultas, meus remédios, minhas internações e queria que eu
fosse uma anjinha dourada e agradecida.
Bem, eu também, droga! Estava tentando ser grata. Também estava cansada.
— Eu disse que a gente deveria pedir uma pizza! Você não me ouviu?
— Não é essa a questão… — ele começou a dizer, e percebi que estava considerando as palavras.
— Não quis dizer…
— Pai, tipo… você acha que eu quero isso?
— Eu sei, mas…
— Acha que eu queria estar no Upper Valley agora?
— Você queria estar em Nova York, eu sei. — A essa altura, meu pai estava tapando os olhos com
as mãos.
— Se eu pudesse escolher, sem dúvida alguma, eu não estaria dependendo do seu dinheiro.
— Então vá! — meu pai disse, fazendo um gesto de dispensa com a mão.
— Parem com isso, os dois — minha mãe disse.
— Com prazer — respondi. — Na verdade, acho que vou para o Canadá.
— Ai, Jesus… — minha mãe murmurou, e deu um tapinha no ombro do meu pai.
— Ela está brincando, G.
— Vou a pé até a droga do Canadá — eu disse, e enfiei o canudo em um copo cheio de gelo. —
Vou ficar na casa da vovó. Aprender a pescar.
Fiquei imóvel na cadeira, deixando o sangue quente ser bombeado pelo meu corpo todo errado.
Todos estavam brincando, certo? Mas a verdade por trás das palavras ficou pairando sobre a mesa.
— Não faça brincadeiras sobre Sammie ir embora — minha mãe disse em voz baixa. — Nenhum
dos dois.
— Não, claro que não — meu pai disse, estendendo a mão. — Querida.
Minha mãe começou a chorar. Ela segurou meu braço.
— Não teve graça — minha mãe choramingou.
— Eu sei — afirmei e peguei a mão do meu pai.
— Sinto muito. — Os lábios do meu pai estavam trêmulos. — Não importa.
— Eu sei — repeti.
As lágrimas da minha mãe provocaram o deslocamento de uma pedra enorme que estava no meu
estômago, e tentei não chorar, mas as lágrimas começaram a escorrer rapidamente e não consegui
segurá-las a tempo. Meu pai de repente soltou um suspiro que logo se transformou em choro, e
ficamos tentando não desmoronar. Tentando não olhar para os outros clientes do restaurante, que nos
encaravam.
A garçonete se aproximou como se pisasse em ovos. Meu pai levantou as mãos, implorando.
— Sou um adulto bem crescido — ele disse, dando de ombros e fungando. — O que vou fazer?
A família da mesa ao lado desviou os olhos, encarando a comida e tentando fingir que não estava
nos encarando.
— Dane-se — minha mãe disse. — As pessoas podem chorar.
Fizemos o pedido. Não comemos pizza.
Depois de um tempo, o peso que havia sobre nós se dissipou. No lugar dele, tudo parecia claro e
nítido. Meus pais enxugaram o rosto nos guardanapos do restaurante. Nós comemos. Estava
delicioso.
Minha mãe falou sobre uma colega de trabalho, uma moça grávida chamada Denise, que tinha se
oferecido para ir à nossa casa e nos ensinar a criar abelhas.
Meu pai e eu concordamos que Davy seria uma excelente assistente de apicultor. Bette
provavelmente soltaria todas as abelhas, e Harrison ficaria entediado.
Minha mãe perguntou o que meu pai ia achar se ela fizesse uma tatuagem, um hexágono para
representar nós seis. Eu fui contra, meu pai foi a favor. Minha mãe disse que era tarde demais,
porque ela já tinha feito, mas nós percebemos que estava mentindo porque ela começou a rir antes de
terminar a frase.
Meu pai passou para o meu lado da mesa, assim minha mãe, ele e eu ficamos no mesmo banco.
Suas pernas robustas ficaram para fora.
Minha mãe deitou a cabeça no meu ombro.
Meu pai disse que achava que ia pedir para Stuart parar de alimentar as galinhas, já que sempre
encontrava a comida amontoada num único canto, como se Stuart corresse para o galinheiro, jogasse
a comida de qualquer jeito e saísse o mais rápido possível. Eu ri e disse que era uma boa ideia, que
Stuart provavelmente gostava da ideia de alimentar as galinhas mais do que da realidade.
Minha mãe disse que também tinha uma confissão a fazer: ela estava um pouco “alegre”. E o
hambúrguer que comera a fez soltar um pum.
— Que nojo! — meu pai e eu dissemos ao mesmo tempo.
— Mas não está fedido! — minha mãe disse.
— É realmente um milagre da ciência — meu pai disse, caindo na gargalhada, com o rosto
enrugado de alegria como o de Harrison quando falamos sobre puns. — Que os puns da mamãe não
sejam fedidos.
Depois que paramos de gargalhar, ficamos um pouco em silêncio.
Até que eu perguntei:
— Alguém vai pedir sobremesa?
Meu pai respondeu:
— Duvido que eles tenham garrafões de leite achocolatado, Sammie, se é isso que você está
pensando.
Minha mãe e eu rimos. Provavelmente não tinham, mas meu pai perguntou para a garçonete assim
mesmo.
Saímos abraçados do Molly’s: os braços deles sobre meus ombros, meus braços em volta da
cintura deles. Senti necessidade de me pendurar neles como fazia quando era criança, com as pernas
suspensas enquanto me carregavam. Mas tive a sensação de que, depois de tudo o que tínhamos
passado naquela noite, estávamos todos nos sentindo um pouco velhos demais para isso.
OS IRMÃOS MCCOY: UMA BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA

Capítulo três: Davy


Surpresa! Hahahahahaha. Agora falando sério, Davienne Marie McCoy não foi uma filha
planejada, mas, até aí, eu também não fui. Todas as coisas amarelas e laranja que Bette nunca vai
comer, Davy come. Isso não é para dizer que ela tem um estômago grande, mas que ela absorve o
amarelo, entende o que quero dizer? Ela é alegre e ensolarada e doce.
Davy é a única dos irmãos que acho que pode ser o que quiser. É como se todas as partes da minha
mãe que, de alguma forma, não “pegaram” nos outros quando saímos tivessem ficado com Davy. Eu
não estava qual a palavra aumentando-mas-não inventando quando disse que ela é popular na turma.
Muitos de seus amigos vêm aqui. Ela se dá bem com adultos, também. Ela e o padre Frank são
melhores amigos. Ela e a dra. Clarkington são melhores amigas.
Então, digamos que ela seja popular o tempo todo, até chegar ao ensino médio. Digamos que, no
ensino médio, ela vai ser tão legal com todo mundo e todos vão achar que ela é sua melhor amiga que
ela vai começar a se perguntar quem é mesmo seu amigo de verdade. Tipo, é possível que ela tenha
uma crise se perceber que talvez ninguém saiba o que realmente se passa com ela. E eu vejo mesmo
Davy fazendo isso, porque não sei onde um coração tão bom e doce poderia chegar sem pessoas
enchendo seu saco.
Digamos que ela tenha uma visão de Deus. Tudo bem, sei que é loucura, mas continue comigo.
Tipo uma visão de Deus, mas não Deus na forma de um homem branco de barba, mas como uma força
que vem até ela em uma luz amarela e diz que seu propósito é usar sua bondade para ajudar as
pessoas.
Então ela abre um lugar onde pessoas podem ter aula de graça se não tiverem dinheiro. Ela junta
todos os seus amigos da cidade que são bons em coisas diferentes e eles criam um tipo de escola
gratuita. Todos podem frequentar e aprender coisas que vão ajudá-los a conseguir um emprego, mas
ninguém tem que ficar devendo para o governo ou para os bancos.
Mesmo quando as coisas estiverem difíceis para as pessoas, ou para ela — porque não vai ser
fácil —, ela vai ser uma luz para todos, para que se mantenham no caminho.
E ela vai ajudar todas as pessoas daqui que eu normalmente vejo com tanto desdém, todas as
pessoas que passam a vida inteira aqui e essas pessoas vão se ajudar umas às outras também. E
ninguém nunca vai querer sair daqui, porque as pessoas vão aprender e crescer e ser gentis umas com
as outras, tudo por causa da Davy.
bem hoje não é um bom dia porque esqueci o nome de todas as nossas galinhas então estou me
sentindo meio idiota stuart acabou de sair e espero que ele não tenha desanimado ao ver como estou
meio que engolindo demais e tremendo quando tento pegar as coisas e tentei sorrir muito e dizer tudo
bem tudo bem e ele foi muito gentil mas é claro que fiquei brava por não saber o nome de nenhuma
galinha e ele também não sabia então não é culpa dele
harry e bette e davy saíram do bosque e davy apontou para a pintada, para a preta, para a marrom,
para a marrom e branca e para a branca e passamos e repassamos os nomes e talvez stuart tenha
ficado entediado
eu o abracei muito antes de ele ir embora espero que não tenha ficado assustado comigo ou me
achado estranha ele disse que não queria ir mas eu pedi que ele fosse porque eu não estava bem
para referência futura…
A PINTADA É CLARKY
A PRETA É MARGIE
A MARROM É CELESTE
A MARROM E BRANCA É POOPSIE
A BRANCA É MOONY
OS IRMÃOS MCCOY: UMA BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA
[COMENTÁRIOS DOS PERSONAGENS]

Capítulo um: Harrison


É, provavelmente vou ser programador.
Sammie, você esqueceu a parte em que estou num helicóptero e eu desço por uma corda e pulo nos
prédios. E a parte onde sou uma estrela de sussesso no YouTube e ganho um milhão de dólares só
porque sei fazer barulho de peido com a barriga. Haha.

Capítulo dois: Bette


Hum.
Acho que sim, sou uma alienígena. Não paro de dizer isso para vocês. Hehe.
Meu tio é de Marte.
Gosto muito de cães e de outros animais.
Só estou brincando quando digo que posso falar com pássaros.
Acho que isso parece bem legal, mas não canto muito bem!!!!!!
Obrigada por escrever isso irmã querida.
Pode por favor me ensinar a fazer trança mais tarde?????

Capítulo três: Davy


gosto de crever nesse cmptodor mamae sinou como fazer cara :) eu num sei como fazer letras
gandes mas tamo prndendo na aula sammie é a melhor irmã
Todos os dias desse verão têm um clima muito
bom, mesmo quando chove

Queria que Stuart não tivesse que ir embora em um dia tão bonito. O céu lá fora estava praticamente
roxo, e a chuva caíra como grandes gotas de diamante.
— Não parava de imaginar você indo embora com uma pilha enorme de papel debaixo do braço
— disse a ele enquanto esperávamos embaixo do meu guarda-chuva, no ponto de ônibus da
Dartmouth. Ele tinha vestido o capuz do casaco e estava com os cílios úmidos.
— Você tem uma visão muito romântica dos escritores — ele disse.
— Não consigo evitar — eu disse, levantando o queixo para beijá-lo.
Ele apenas tocou meus lábios suavemente.
— Está triste? — perguntei.
— Estou triste — ele disse e engoliu em seco. — Não gosto de ficar tanto tempo longe de você. —
Ele voltaria em alguns dias. Ia encontrar com seu agente e seu editor, e ficaria no apartamento dos
pais.
— Vou ficar bem — eu disse.
— Eu sei. É que… — ele começou a dizer, depois suspirou. — Também estou nervoso porque vou
me encontrar com essas pessoas.
— Mas eles te adoram!
— Não, não adoram — ele disse e desviou o olhar.
— Ei — eu disse, pegando na mão dele. Apertei com força. — Você está bem?
— Não — ele disse.
— Não?
— Não quero falar sobre isso agora. — Stuart forçou um sorriso.
— Tudo bem — eu disse. — Sei que esse mês não tem sido fácil. Não deve ter sido fácil, tipo,
quando eu meio que perdi o controle na sua frente. — Eu me obriguei a fazer contato visual. — Sei
que deve ser estranho.
— Não tem a ver com você — Stuart disse.
— Então tem a ver com o quê? — eu falei sem pensar e torci para que não tivesse parecido tão
cortante quanto a verdade por trás daquilo.
— O que quer dizer?
— Passamos todo nosso tempo juntos — eu disse devagar. — Não consigo deixar de pensar que,
se você está agitado, deve ser pelo menos em parte pelo estresse que a minha… condição te causou.
— Não, não… — ele respondeu. Sempre “não, não”.
— É, mas se precisar, você sabe, de um espaço, eu entendo.
— Sammie — ele disse, sério, e repetiu: — Não tem a ver com você. — A aspereza de sua voz me
pegou de surpresa.
— Bem — eu disse —, estava tentando…
— Desculpe — ele se apressou em dizer.
— Não gosto que me interrompam — eu disse. Respirei fundo. — Estava tentando descobrir. Mas
fico feliz por poder eliminar essa opção.
— Sim — ele disse, com a voz mais suave. — É só que vai ser um grande choque de realidade.
Pais, agente e todo mundo na mesma semana. — Ele levou a mão ao meu rosto.
Peguei a mão dele e a beijei.
— Tome um milk-shake por mim — eu disse.
— Vou tomar — ele disse, e nos beijamos.
— Diga a todos na NYU que não vou poder ir.
— Ah, Sammie…
— Tenho certeza de que eles vão ficar com o coração partido. Todas as pessoas que inventei nos
quatro anos em que fingi morar lá — minha voz falhou. Parecia que meu cérebro também falhava. Era
loucura pensar que, se pegasse o ônibus, em oito horas poderia estar lá com ele, com tudo o que eu
queria. E se eu arranjasse um emprego como garçonete? E se eu apenas aparecesse lá?
— Ei — ele disse suavemente. — A gente vai em algum momento.
— Mas não agora — eu disse, observando o penúltimo passageiro embarcar, um aluno
universitário voltando para casa no fim do verão.
— Logo — ele disse. E subiu no ônibus sem mim.
A tentativa de Coop pelo chat de me fazer achar
que perder a memória não é tão ruim assim

Cooper: ei!
Eu: Ei
Cooper: ei estava pensando em você agora
Cooper: sobre o negócio da sua força-tarefa para a np-c
Cooper: e de como você queria conhecer alguém com np-c
Eu: É?
Cooper: lembra da minha avó?
Eu: Lembro que ela era muito legal.
Cooper: é, ela é muito legal, mas tem demência, infelizmente, e eu estava pensando se você
gostaria de conversar com ela. não é np-c mas é parecido e pensei que talvez fosse legal para você
ver que ela não ficou totalmente fora de si
Cooper: ela ainda é feliz, quer dizer
Eu: É, acho que vai ser bom!
Cooper: legal
Cooper: bom me avisa quando quiser ir
Cooper: sei como gosta de agendar as coisas :)
Eu: É, gosto mesmo, haha.
Eu: Mas
Eu: Quer saber?
Eu: Que tal irmos agora?
Cooper: beleza!
FRIEDA LIND, 87, TRANSCRIÇÃO DO ÁUDIO QUE GRAVEI
COM O CELULAR

Frieda: Os McCoy? Ah sim, claro que conheço os McCoy. Eles moram aqui quase há tanto tempo
quanto os Lind. Chegaram na mesma época. Vieram de Boston para começar a plantar. Nossas
famílias vivem uma de cada lado da montanha há quase cem anos. A melhor história é que as
famílias, bem, criaram juntas um bode albino chamado Francis.
Sammie (ri e pergunta para Cooper): Foi daí que veio seu nome do meio?
Cooper: Minha mãe diz que não, mas a coincidência é perturbadora.
Frieda: Acredito que isso foi lá pela virada do século. A história que se conta é… Deixe-me
pensar… Francis era um bode albino, e era tão esquisito que as pessoas vinham de toda a cidade
para vê-lo, e acho que foi um dos McCoy que teve a ideia de cobrar para verem o bode.
Cooper: É claro que foram os McCoy.
Sammie: Ei!
Frieda: Um centavo por visita ou algo assim. A parte complicada disso era, desculpe (tosse). A
parte complicada disso era que os bodes andavam livremente entre as duas propriedades. Um dos
Lind, acho que foi Geoffrey Lind, alegou que os McCoy não tinham direito de fazer dinheiro com o
Francis porque o Francis era cria de suas cabras. Então Patrick McCoy, claro, disse que não,
absolutamente não, pois Francis era filhote de seu bode Freddie. O que era engraçado é que Francis
nem era mais filhote. Era um bode crescido! Então, durante boa parte da vida desse bode eles nem se
importaram com sua procedência, mas, depois que descobriram que dava para fazer dinheiro com
ele, os dois alegavam ser seu dono. Eles brigavam mesmo com uma fila de pessoas do lado de fora
para ver o Francis e, no fim, Colleen McCoy, que era uma mulher religiosa…
Sammie: Nenhuma novidade.
Cooper: Rá!
Frieda: Colleen McCoy teve uma ideia abusada de que essa história era igual à história da Bíblia
com o sábio rei Salomão. Lembra disso, Jerry?
Cooper: É Cooper, vovó.
Frieda: Você é igualzinho ao Jerry.
Cooper: Jerry é o meu pai.
Frieda: É claro que é!
Sammie: Então, a senhora estava contando sobre o sábio rei Salomão…
Frieda: O que eu estava dizendo, querida?
Sammie: Francis, o bode. Colleen McCoy.
Frieda: Então, deu na cabeça da Colleen que só se ela ameaçasse cortar Francis ao meio é que seu
dono verdadeiro se revelaria. Ela era muito dramática.
Cooper: Nenhuma novidade.
Frieda: Colleen levantou a faca sobre a cabeça ( finge levantar uma faca) e foi descendo devagar,
descendo, descendo na direção do pobre bode Francis, e ninguém disse uma palavra!
Sammie: O quê?!
Cooper: Espere, fica melhor.
Frieda: Então, nem Geoffrey Lind nem Patrick McCoy eram os verdadeiros donos do Francis. Até
onde sabiam, Francis podia ter descido a montanha vindo da propriedade de outra pessoa. Ou, mais
provável, tinham esquecido.
Sammie: Mas o Francis morreu?
Frieda: Sim, ele morreu.
Sammie: Ai! Como?
Cooper: Eles assaram o bode, porque a cidade toda já estava lá mesmo!
Sammie: Eles assaram o Francis?
Frieda: Sim, e reza a lenda que estava delicioso.
Um cabra que não muda (um trocadilho com o
bode)

Frieda contou a história do bode Francis mais duas vezes. E, umas quatro ou cinco vezes, contou que
seu marido a levou para passear de carro no primeiro encontro.
As histórias mudavam cada vez que ela contava — não os detalhes, mas quais detalhes ela decidia
incluir. Em uma versão de Francis, o bode, ela revelou que tinham amarrado uma fita azul no pescoço
dele. Em outra, disse que, depois que o povo da cidade tinha comido o Francis, Patrick McCoy
contou que, na verdade, o bode era dele, e a discussão recomeçou.
A avó do Coop tinha cabelo tingido de castanho e uma pele branquinha e macia, com um monte de
veias visíveis, tipo um mapa de rios e afluentes. Ela e Coop têm os mesmos olhos azul-escuros e
arregalados, embora os dela sejam um pouco mais turvos.
— Jerry, não quero te aborrecer, mas sugiro que corte o cabelo — ela dizia para Coop e era
engraçado ver as bochechas dele ficarem vermelhas, por causa do jeito que sempre passa a mão no
cabelo quando está perto de garotas. Acho que a avó era a única garota que não gostava de seu
cabelo.
— Não sou o Jerry, sou o Cooper — Cooper repetia. — E essa é a Sammie.
— Olá — eu dizia, pela sétima vez.
— Ela é sua namorada? — ela perguntava, sorrindo para mim.
— Não sou namorada dele — eu repetia. — Sou só amiga.
Toda vez que dizíamos aquilo, Coop fingia dizer “desculpe”, mas lá pela quinta vez, ele escondeu
o sorriso.
Quando Coop me deixou em casa, agradeci por ter me levado para visitá-la.
— Foi bom? — ele perguntou, virando para mim.
— Sim — eu disse, saindo do carro. — Ela é maravilhosa.
Coop observou o jardim.
— Ela é mesmo. E pense em como ela conta bem aquela história! É porque ela conta várias vezes.
Não é tão ruim assim, certo?
Enquanto Coop falava, notei pela primeira vez que ele tinha se vestido bem. O cabelo, agora
descolorido pelo sol, estava penteado para trás. Ele vestia uma camisa polo com cinto e jeans e
estava de mocassim. Resolvi não provocá-lo por se vestir bem para ver a avó. Parei um pouco na
porta da Blazer, com o cotovelo apoiado no banco da frente.
— Não, acho que não — eu disse. Lembrei de quando Coop tinha me visto esquecer onde eu
estava ou de quando esqueci o nome das galinhas. — Mas ela continua tão meiga, né? Quando eu…
tenho um surto… a única coisa que consigo fazer é entrar em pânico.
Coop pôs uma mecha de cabelo que tinha se soltado atrás da orelha.
— Você foi legal toda vez que te lembrei de quem eu era — ele disse, e olhou para mim, franzindo
a testa.
— Que bom — eu disse.
— Talvez seu cérebro relaxe quando está com alguém próximo.
— Mas eu posso ser má também — disse, mexendo nas costuras do banco. — Fui meio que
malcriada com a minha família.
— Às vezes a vovó é meio malcriada também — ele respondeu. — Quando está cansada ou se não
está confortável.
Eu ri um pouco.
— É melhor eu começar a usar túnica para garantir o máximo de conforto o tempo todo.
Coop concordou, fingindo seriedade.
— Seria um bom visual para você.
Ficamos em silêncio por um instante.
— A chuva parou — comentei.
— Ah, sim — ele disse, olhando para o céu pelo para-brisa.
— Tem que ir para casa agora? — perguntei.
Coop deu de ombros, olhando para mim, e depois para o relógio no painel.
— Não.
Olhei de novo para casa. Minha mãe e meu pai chegariam logo com as crianças. Mas, por alguma
razão, eu não queria mesmo que ele fosse embora. Suponho que pela mesma razão pela qual tinha
ficado feliz ao vê-lo na cobertura no Dia da Independência.
— Quer ficar para jantar?
Coop desafivelou o cinto imediatamente.
— Vai ter cachorro-quente?
— Provavelmente.
— Vou tentar a sorte.
Fechamos as portas e Coop deu a volta na Blazer.
— Eu me pergunto que histórias vou ficar repetindo.
— Quem sabe? — Coop disse, e sorriu enquanto andávamos até a casa. — Mas o que importa é
que acho que devíamos arranjar um bode.
Eu: Como foram as reuniões?
Stuart: bem
Stuart: como vai a vida aí?
Eu: estranha e boa
Stuart: estranha e boa?
Eu: explico quando você voltar.
Davy me perguntou por que eu queria deixar os dentes tão limpos. Ela me viu escovar os dentes três
vezes no período de uma hora antes de deitar. Acho que esqueci que já tinha escovado. Então criei
um sistema: deixo a escova na pia se já escovei, então meus pais podem guardá-la à noite, depois
que as crianças estão prontas para dormir. E deixei um bilhete que diz: “Se a escova de dentes está
na pia, você já escovou os dentes. Se está no armário, precisa escová-los”.
Ufa!

Novo dia. Novamente nublado, mas o sol apareceu mais ou menos às dez e Coop veio para a minha
casa com raquetes de tênis porque… o que mais poderia ser? Nós íamos tentar jogar tênis. Não sei
por que escolhi tênis para a minha força-tarefa para a NP-C, mas infelizmente Coop viu o mural e
lembrou. Então, querida Serena Williams, estraguei seu esporte.
Mas você sabe que pessoas com problemas de memória precisam aprender coisas novas, é bom
para elas, mas não sei por que escolhi tênis. Desculpe por não estar escrevendo bem meus
analgésicos estão fazendo efeito mas sinceramente escrever sob o efeito de analgésicos é mais fácil
porque não fico tão preocupada em deixar bonito sabe?
Mas vou contar tudo de que me lembro, como sempre.
Mas estou meio dopada.
Então Coop subiu a montanha e juro que quase morri de rir, porque ele usava um shortinho
vermelho e meias até o joelho e, é claro, a regata com a frase CURTINDO A BRISA. O cabelo estava
preso num rabo de cavalo, havia uma faixa na testa e aqueles óculos tipo aviador. Quando abri a
porta, ele viu que Harrison estava jogando Minecraft com fone de ouvido, então se posicionou com
cuidado atrás dele, bem ao seu lado no computador, até meu irmão perceber que ele estava lá e dar
um pulinho de susto e tirar o fone.
— Que droga é essa? — ele exclamou.
E então Coop disse bem baixinho:
— Sou Pete Sampras.
Achamos um espaço plano o suficiente no quintal e Coop amarrou entre duas árvores uma corda
que encontrou no barracão, pendurando nela umas camisetas velhas minhas e do meu pai.
— Tênis! — ele disse.
— Não vou durar cinco minutos — afirmei.
— Não importa a duração, mas o jeito — ele disse. Ou alguma outra piadinha de duplo sentido. —
Está pronta? — Ele jogou a bola para o alto e bateu na minha direção.
Não acertei por poucos centímetros.
— Estou muito distraída por suas coxas brancas — eu disse.
— Concentre-se na bola de tênis — Coop disse, e eu ri. Eu já estava ofegante. Rebati com um
solavanco desajeitado.
Ele tentou mais uma vez. Errei de novo. Coop correu até a rede de camisetas.
— Vem cá — disse. Ele sorriu para mim entre uma camiseta cinza da PREFEITURA DE LEBANON do
meu pai e meu moletom. Me entregou a bola para que eu pudesse sacar. Acertei a cabeça dele e, pela
primeira vez naquele dia, gostei de tênis.
— Certo! — Coop disse. — Lá vai ela — ele disse, correndo atrás da bolinha.
Quando voltou, eu estava sentada no chão. Meu coração estava bem acelerado.
— Tive outra ideia — eu disse a ele.
— O quê? — Coop perguntou, sentando na grama de frente para mim.
— Chama feministênis. Você rola a bola de tênis para a frente e para trás e faz perguntas sobre
mulheres importantes da história.
Eu não esperava que Coop fosse topar, mas logo afastamos um pouco as pernas e ficamos jogando
a bola de tênis no meio delas. A regra era: canelas eram pós-1970, coxas eram pré-1950 e joelhos
eram o coringa.
Eu ganhei de lavada, mas ele não fez feio, principalmente sobre a vida de Harriet Tubman e,
surpreendentemente, me deixou completamente desconcertada com essa artista japonesa radical
chamada Yayoi Kusama. Eu o fiz anotar o nome dela. Acontece que ela também tinha problemas com
a mente e começou a ter alucinações com bolinhas quando ficou mais velha. Eu contei que não tinha
visto nenhuma bolinha, mas tinha visto gigantes, e ele também se lembrou daquela brincadeira em que
construíamos casas com pedras e gravetos e fingíamos ser gigantes ao pisarmos nelas.
Então, quando minhas irmãs chegaram do acampamento, ensinamos a brincadeira para elas, que
construíram casinhas com palito de sorvete. Antes de destruir as casinhas, Davy disse:
— Espere! — Ela perguntou qual era o nome do jogo, e Coop e eu nos entreolhamos, tentando
lembrar o nome, mas concordamos que provavelmente só chamávamos de “jogo do gigante”. Bette e
Davy adoraram a brincadeira. Bem, a Bette adorou muito, demais. A Davy eu acho que gosta mesmo
é de colar adesivos de pedrinha na casa inteira.
Depois foi a vez de Cooper escolher um jogo, mas já estávamos bem cansados, então ele deitou no
quintal, longe das árvores e ficou observando as nuvens.
— Hoje foi um bom dia de tênis — eu disse.
— É, tênis é um jogo ótimo — ele afirmou.
Então nossa sei lá nossos ombros estavam a poucos centímetros um do outro e eu simplesmente
precisava dizer a ele obrigada de certa forma por ter vindo e obviamente éramos apenas amigos mas
era um agradecimento mais significativo do que apenas “obrigada pela carona” ou “obrigada pela
comida”, então levei minha mão sobre a mão dele e segurei por um segundo. Ele virou a mão para
ajeitá-la sob a minha e a segurou por um segundo também e depois soltamos.
— Você podia mostrar a elas o Capitão Graveto — eu disse depois de um tempo, observando uma
nuvem em formato de peixe.
— Agora? — ele perguntou.
— Não, não precisa ser agora — respondi.
— Que tal amanhã? — ele sugeriu.
— É — respondi e fechei os olhos por causa do sol. — Amanhã.
Amanhã

Os dias são assim: às vezes acordo e penso: O que tenho que entregar? O que tenho que fazer
hoje? O que devo escrever? O que vem depois? Quem está no meu caminho? Tento deixar a
tranquilidade da manhã me envolver aos poucos. Estou na cama, acho, estou respirando e algumas
partes doem, outras não.
Primeiro ponho uma perna para fora da cama, depois a outra e apoio os pés no chão. Minha mãe
chega com seu perfume de manjericão e seu jeito, e meu pai com seu perfume de menta e seu beijo, e
hoje, enquanto me olho no espelho, tomando o iogurte e os comprimidos, me pergunto por que é tão
prazeroso acordar. Me pergunto como posso ter desejado tanto saber sobre tudo o que há lá fora e
por que tudo que está perto de mim é tão fascinante agora. Me pergunto como o cérebro pode
funcionar tão bem devagar quanto acelerado. Um milhão de coisas acontecem ao mesmo tempo só
para assimilar uma casa e um jardim e uma montanha.
Já disse que há um ninho de passarinhos na frente da minha janela?
Já disse que às vezes meu pai toca violão no quarto dele quando acha que todo mundo está
dormindo?
Como um corpo pode conter tantas pessoas diferentes? Me pergunto como alguém pode querer
coisas tão diferentes em tão pouco tempo. Me pergunto por que todos são tão bons comigo.
Stuart volta amanhã. Estava tentando não pensar nisso porque não quero que as coisas voltem a ser
como eram. Não que ele tenha feito algo de errado, ele era legal, eu só ainda não sabia muito bem
onde ele se encaixava nessa combinação mágica que encontrei com o Coop e os jogos e todas as
pessoas próximas que tinham me ajudado a encontrar essa versão de mim, uma versão que nunca
existiu, mas que poderia ter existido desde sempre. Não sabia o quanto ele ia gostar de fingir jogar
tênis ou de construir casinhas de palito. A namorada do Stuart era a Sam do Futuro e a Sammie
tentando ser a Sam do Futuro, e eu não sabia o quanto ele ia gostar da Sammie normal, como eu era
agora. Eu estava aprendendo a gostar de mim desse jeito. Enfim.
Fui com a minha família para fora de casa para me despedir e esperar a sra. Lind e, ao longe, vi
Coop vindo na minha direção com uma tigela de morangos do jardim da mãe dele.
— Olá, Samantha.
— Olá, Cooper.
Ele jogou um morango para mim. Estendi a mão, mas não consegui pegar, claro.
— Meu Deus, desculpe — Coop disse, e no mesmo instante foi pegar a fruta do chão. Ele esfregou
o morango na camiseta e comeu. — Perguntei para os seus pais se podíamos sair para uma aventura.
Uma última aventura, pensei, embora talvez não fosse verdade. Mas eu não estava melhorando.
Estava ficando mais calma, mas nem sempre melhor. Nós dois sabíamos disso, acho.
— Tudo bem?
— Tudo muito bem. — Sinalizei para ele se aproximar para que eu pudesse pegar um morango. Ele
veio. Comemos a tigela toda, um por um. Às vezes eu levantava a cabeça para olhar para ele, às
vezes não.
— Vamos até o riacho — eu disse por fim e assobiei para chamar o Cachorrinho. Enquanto ele
corria até nós, decidi que queria sentir a grama entre os dedos do pé, então sentei e tirei os sapatos.
Demorou um pouco. Coop ficou jogando um graveto na descida para o Cachorrinho pegar até que eu
terminasse. Estendi a mão para ele e estávamos prontos.
O riacho é logo do outro lado da estrada, uma pequena interrupção no terreno sob as árvores
tortas, quase invisível até que já esteja bem na sua frente. Sentamos com os pés num trecho de água
iluminado pelo sol.
— Eu odeio estar mais lenta — eu disse.
— Mas talvez você não esteja — Coop disse. — Nós dois éramos crianças cheinhas, então
provavelmente você tem a mesma velocidade que tínhamos há uns anos atrás.
Eu caí na gargalhada, lembrando de nós dois indo para o riacho, desajeitados, com bochechas e
cabelos ao vento, que zunia.
— Correr montanha abaixo faz você realmente se sentir mais rápido do que é, não?
— É só a gravidade! — Coop disse, rindo comigo. Ele ria com a barriga e se virou para mim com
o sorriso sereno de volta no rosto. — É.
— É o quê?
— Só estava pensando e falei a última parte alto.
— Faço isso também — eu disse.
— Vamos para a loja! Essa era a minha ideia.
— Mas podemos ficar aqui mais um pouco — eu disse. Queria que cada parte do dia durasse o
máximo possível.
— Sammie, como… — Coop começou e então disse: — Deixa pra lá.
— O quê? — perguntei.
— O que você acha de mim? — ele perguntou, apressado.
Ele virou o rosto na direção da água, então não entendi exatamente o que ele queria dizer com
aquilo.
Olhei para os meus pés.
— Acho que você é o Coop — eu disse. — Apenas… é.
— Acha que só estou aqui com você porque você está doente? Porque não é só por causa disso. —
Ele segurava os tornozelos com as mãos e se mexia, nervoso. Era uma coisa estranha para se fazer
com todos aqueles músculos, mas parecia que o garoto que havia dentro dele estava se revelando.
— Não — eu disse, e ele se virou. — Só acho que você tem sido um bom amigo.
— Que bom — ele disse, balançando a cabeça.
Um inseto pousou no cabelo dele. Por pouco não consegui pegá-lo, mas o espantei. Ele tocou o
cabelo no lugar onde eu tinha mexido.
— Um inseto — eu disse. — Já foi embora.
Ajeitei os óculos sobre o nariz.
— Senti sua falta — ele disse de repente e deu de ombros como se fosse a coisa mais óbvia do
mundo.
— Também senti a sua — eu disse, também rápido. Rápido demais para o tamanho do que eu
sentia, pelo tanto de tempo que ficamos longe um do outro. Eu torcia para que Coop voltasse todos os
dias dali em diante para que pudéssemos viver outras aventuras, apesar de ele não gostar do Stuart.
Ou só para dar um oi, pelo menos. Fiquei pensando no que aquilo significava. Respirei fundo e disse:
— Fomos pessoas diferentes por um tempo, mas agora não somos mais, certo?
— Certo. Bem, mais ou menos. — Ele estava olhando para mim, mas não diretamente para o meu
rosto. Fiquei vermelha.
Nós nos levantamos. O sol tinha começado a esquentar a água e as pedras.
E então demos a volta que eu tinha falado, a que sempre fazíamos em dias de verão como aquele.
Descemos a montanha, fomos até o riacho e depois até a saída da loja local para falar com o Eddy
Ligeiro (ele disse que era legal ver a gente de novo, que tinha visto a Blazer do Coop correndo
várias vezes, mas que ia fingir não ter visto — valeu, Eddy). Nossas camisetas estavam suadas
quando entramos.
Só restavam dois refrigerantes.
— Que bom — Coop disse, abrindo a porta da geladeira. — Não precisamos brigar.
— Me deixe ficar aí com você, estou derretendo.
Ficamos o mais perto possível das prateleiras, com os ombros colados, quase enfiando a cara
dentro da geladeira.
Então fomos até o riacho para beber. O meu tinha chacoalhado no bolso do Coop, então, quando
ele abriu a lata para mim, o líquido espirrou em nós dois. Limpamos com água do riacho e depois
voltamos a subir a montanha. Coop me deu carona de cavalinho. Encostei meu rosto nas costas dele.
Ele estava suado de novo, mas não me importei.
Quando chegamos em casa, ele mostrou para Bette e Davy todas as façanhas do Capitão Graveto
no jardim da frente.
Ele se ajoelhou e deu gravetos compridos que achamos perto das árvores para as duas.
— Passo, neste momento, o manto do Capitão Graveto para você, Davienne McCoy, e para você,
Bette McCoy. Amém.
— Lembrem: vocês podem ser as Capitãs Graveto, não precisam ser Capitães Graveto — disse a
elas.
— Amigas de todos os humanos e animais — Coop disse.
— Amém — eu repeti.
— Aaaaaaaamém! — Davy disse e pegou seu graveto.
— Aaamenina — Bette disse e também pegou o dela.
— Isso — eu disse.
Então nós entramos e, quando usou o banheiro, Coop viu meu bilhete para mim mesma e perguntou:
— O que é aquilo?
Contei para ele sobre o truque da escova de dentes e ele teve uma ideia, que acho que ele mesmo
pode explicar melhor.

olá estimado livro de memórias, é cooper lind aqui, pegador e apreciador de uma erva boa. bom
estive pensando depois de ver que sammie colava coisas na parede, bilhetes para si mesma, que
talvez fosse uma ideia legal colar coisas pela casa toda, para ajudar ela a lembrar. não só etiquetas,
mas tipo um livro de memórias da casa? talvez as memórias de longo prazo ajudem sammie a acessar
melhor as de curto prazo? não sei, não sou médico, mas veja o exemplo do banheiro: ela pode ter
bilhetes práticos para si mesma, mas também sobre histórias que aconteceram lá. tipo, na banheira:
“uma vez, sammie e cooper jogaram suco aqui dentro quando tinham seis anos porque queriam tomar
banho de suco, e ficaram de castigo sem poder se ver por duas semanas”. esse tipo de coisa.

Sammie de volta. Alguns exemplos de bilhetes:


Na porta da geladeira: que horas são? Se são onze e meia, é hora do almoço e você pode comer o
que quiser! Se for mais cedo que isso, você já tomou café da manhã. Se for mais tarde que isso,
espere um pouco, seus pais vão fazer o jantar para você. Leite achocolatado: a qualquer hora!
Uma vez, Harry usou uma caixa de achocolatado da Sammie para misturar uma pasta de farinha que
usaria como cola em sua “máquina do tempo” para o projeto de ciências. Ele deixou uma etiqueta
visível que dizia PASTA DE FARINHA NÃO BEBA, mas Sammie estava com a cara enfiada em um livro,
não prestou atenção e tomou um belo gole de pasta de farinha! Ela cuspiu e sujou a porta da geladeira
inteira. Enquanto tinha ido buscar um pano para limpar, Davy achou que estava bonito e jogou
purpurina por cima de tudo. É por isso que parece que um unicórnio vomitou na porta da geladeira!
Em cima da tigela de comida do Cachorrinho: o Cachorrinho não precisa de comida! Harry já o
alimentou de manhã e vai dar mais comida à noite.
Você lembra quando Coop achou que seria uma boa ideia fazer uma “caça aos ovos de Páscoa com
o Cachorrinho”, mas, em vez de ovos de Páscoa, usou salsichas cruas? Ele escondeu salsichas cruas
em volta da casa para ver se o Cachorrinho conseguiria encontrá-las. E o Cachorrinho achou todas,
menos uma, que a minha mãe achou mais tarde na máquina de lavar. Coop pede desculpas por isso.
No meu espelho: Bom dia, Sammie! Seus pais logo vão chegar para dar um oi.
Você lembra quando escolheu este espelho e a penteadeira aos seis anos? Dividia o quarto com
Harry e, no seu aniversário, todos concluíram que era hora de você ter seu próprio quarto. Então
fomos à feira de antiguidades em Lebanon, só você, mamãe e papai, enquanto as crianças ficaram
com a sra. Lind. Você encontrou esta penteadeira e o espelho depois de alguns minutos. Mamãe e
papai tentaram convencer você de que eles pareciam desajeitados e antiquados para uma menininha,
mas você sabia o que queria, então confiaram em você e puseram o móvel e o espelho na caçamba da
picape e deixaram você ir lá atrás com ele o caminho todo. Com exceção dos livros, foram as
primeiras duas coisas da casa exclusivamente suas.

Agora estávamos apenas descansando no meu quarto depois do jantar. Coop estava lendo o manual
de treinamento para seu novo emprego como reparador de equipamentos em uma estação de esqui,
fora de temporada, que começaria na semana seguinte.
Ele foi pegar um copo d’água na cozinha.
Não esqueci nada hoje.
Na verdade, estive muito bem desde que Coop passou a ficar por perto.
Sinto algo estranho na barriga, mas não um estranho ruim, e sim tipo um frio na barriga, com a
ideia de Coop estar no meu quarto tão tarde da noite. Não é meio meloso? Certo, ele está voltando.
Então…
então
Como está a água?
uma delícia. quer um pouco
Quero.
Obrigada.
O que foi?
haha
Agora é você que está digitando “haha” quando poderia simplesmente rir.
é mas seus pais acabaram de entrar para ver como você está, o que quer dizer que não devíamos
rir
Não quer dizer isso.
quer dizer que você tem que dormir e eu tenho que ir para casa
Não! Não vá ainda.
você vai dormir
Sem chance.
parece que está com sono
É porque estou olhando para a tela do computador, cabeção.
olhe para mim

Viu?
não, parece que está com sono
Estou bem acordada.
o que quer fazer agora?
Não sei, o que você quer fazer?
como está se sentindo?
Bem disposta, na verdade. Muito bem.
está a fim de fazer outra expedição?
Para onde?
adivinhe
Lagos?

Isso.
tem certeza? vai ficar bem?
Sim, tomei todos os remédios. E você sabe o que fazer se eu não conseguir lembrar as coisas.
sim e além disso sou socorrista
Quê?? Sério? Sabe RCP e tal?
sério
Quando foi isso?
fiz um curso
Quando?
naquela noite que te busquei na estrada e te levei para casa seus pais disseram que você não
deveria sair a não ser que estivesse com alguém capacitado. então fiz um curso. tenho até um cartão!
sou um associado com cartão
Não sei o que dizer. Obrigada, Coop.
:)
:)
Vamos nessa.
pronta?
Sim.
Rodovia 89 revisitada

Só tenho que dizer uma coisa enquanto estou sentada ao lado do Coop no carro e estamos indo para
os lagos e não sei bem como dizer, mas estou olhando para o cabelo dele ao vento, que também sopra
o meu, e não há música, só o som dos grilos e das folhas e dos pneus na estrada, e ele está falando
para eu largar o celular, e é o que vou fazer, mas só me deixe escrever isso, só quero que se lembre
disso, Sam do Futuro.
Coop está dormindo ao meu lado em um cobertor no chão.
Estávamos deitados lado a lado, contando piadas e, quando acabaram as piadas, ficamos meio
estremecidos e estranhos, não do jeito normal. Os grilos estavam por toda a parte. Sapos pulavam na
água ali perto. Coop me perguntou se podia me contar uma coisa.
E eu disse que sim.
Ele disse que eu não precisava responder, mas que tinha que me contar, principalmente com tudo o
que estava acontecendo.
Ele chegou mais perto de mim e senti cheiro de morango. Os sapos ficaram mais barulhentos.
Comecei a gargalhar, porque estava muito nervosa, e ele me perguntou por que eu estava rindo.
Porque estou nervosa.
Por que está nervosa?
Você não está nervoso?, eu perguntei.
Estou, mas eu sei por que estou nervoso. Por que você acha que estou nervoso?
Sei lá, eu disse, mas posso imaginar, porque posso estar nervosa pelo mesmo motivo.
Bem, nesse caso, Coop disse, e se apoiou no braço, me encarando, e não estávamos mais apenas
dizendo palavras para o céu. Ele abriu e fechou a boca algumas vezes e engoliu em seco.
Eu gosto de você, ele disse.
Ah, é?
Não só como amiga.
Como é estranho não fazer ideia do que é o amor até ele acontecer e depois ficar, tipo, é isso, uau,
aí está! Estava ali o tempo todo. Como uma imagem escondida em um daqueles livros de ilusão de
ótica. Quando peguei na mão dele. Quando ele sentou na minha frente no estúdio de cerâmica,
olhando para mim. Quando éramos gigantes.
Não precisamos falar sobre isso, ele disse. Eu só queria dizer, pelo menos.
Não, fico feliz por você ter dito.
Coop engoliu em seco outra vez e encostou a mão inteira no meu queixo e depois tirou. Eu queria
que ele não tivesse tirado.
Acho que sinto a mesma coisa, disse a ele.
Quando aconteceu para você?, ele perguntou.
No quarto, agora há pouco, respondi. Quando aconteceu para você?
Quando eu tinha doze anos, ele disse.
E você ainda gosta de mim?, perguntei e me aproximei mais dele.
Ainda gosto, ele respondeu.
E você tem certeza disso?, ele me perguntou.
Tenho certeza, respondi.
Eu te amo, Sammie, ele disse. Eu te amo há muito tempo.
Eu também te amo.
E a essa altura nossos lábios estavam basicamente roçando um no outro enquanto as palavras
saíam da boca, e estávamos quase nos beijando, mas, quando realmente nos beijamos, eu tive a
sensação de estar engolindo mel quente que caía direto no estômago, derramando sobre mim.
Ele pôs a mão na minha barriga, logo abaixo das costelas, e a deslizou para cima e eu senti cada
milímetro e mais uma vez me perguntei como o cérebro era capaz de funcionar tão bem e se
movimentar tão devagar ao mesmo tempo.
Ajeitamos meu corpo sobre o dele e meu cabelo caiu sobre seu rosto, e ele afastou os fios, e eu
beijei seu pescoço, e ele me rolou de costas e beijou meu pescoço e depois mais para baixo, por
cima da camisa, até minha cintura, e na faixa de pele entre minha camisa e minha calça jeans, e
desabotoou meu jeans, e havia mais, havia mais.
Enquanto Coop me tocava, era como se meus músculos subissem grandes degraus, e eu comecei a
respirar muito rápido, e Coop perguntou se eu estava bem, se eu queria continuar e, sim, eu queria
continuar. De repente, eu estava no topo dos degraus. Eu sabia que estava no topo porque entre
minhas pernas havia algo que só consigo descrever como uma sensação tão forte como a dor, mas
exatamente ao contrário dela. Ou talvez pudesse dizer que os dedos de Coop transformaram meu
corpo no flash de uma câmera, quente e rápido e brilhante, algo que você sabe que está por vir, mas
que te surpreende da mesma forma.
Depois, me senti grata por ter subido até lá com ele, por ter encontrado o que devia encontrar, pelo
que fizemos sobre o cobertor ter sido verdadeiro e correto e só nosso. Só meu e do Coop.
Essa é a história que vou contar várias vezes.
Estou cansada, mas só no corpo.
Não estou cansada em mais nenhum outro lugar.
Foi mal

Adormeci ao lado de Coop e foi a coisa mais idiota que já fiz. Bem, não o que tínhamos feito antes,
porque foi a melhor noite da minha vida. Eu queria que tivéssemos entrado na Blazer logo depois,
mas foi muito bom adormecer com os braços sobre seu peito firme e quente
Então eu não estava em casa quando minha mãe entrou no meu quarto de manhã e encontrou a cama
vazia, ela disse que quase desmaiou
Ligou para o Coop mas é claro que ele não respondeu porque estávamos dormindo
Então ela presumiu que eu tivesse ido a algum lugar com o Stuart porque ele ia voltar na noite
anterior
Ela ligou para o Stuart e ele disse que, sim, estava em casa, mas que eu não estava com ele
Ela ligou para a polícia
A polícia disse para minha mãe que eles só poderiam começar a procurar depois de quarenta e oito
horas de desaparecimento, e ela não podia sair atrás de mim porque meu pai já tinha ido trabalhar e
ela não podia deixar as crianças sozinhas
Então ligou novamente para Stuart e ele saiu para me procurar em todos os lugares, primeiro na
casa da Maddie, depois na escola, depois pela cidade
Enquanto isso, Coop e eu acordamos
Bem, ele acordou, eu não sabia onde estava
Sabia que estava nos lagos e sabia quem era Coop, mas, a princípio, não lembrava o que tínhamos
feito ou como tínhamos chegado ali, mas estava me sentindo muito bem por alguma razão, disso me
lembro, e o abracei, e ele tentou me trazer de volta e me contou tudo
Enquanto ele fazia isso Stuart me ligou e eu atendi porque é isso que as pessoas fazem quando
alguém liga
Eu não devia ter atendido
ONDE VOCÊ ESTÁ
Eu disse a ele onde eu estava porque é o que as pessoas fazem quando alguém pergunta
Eu só estava sendo burra e não a Sammie que costuma ser muito esperta
FIQUE ONDE ESTÁ lembro que ele disse
Quando Stuart chegou aos lagos, Coop e eu estávamos sentados juntos sobre o cobertor e minha
memória estava voltando, principalmente a parte em que eu o amava, e ele estava com as mãos nas
minhas costas, acariciando minhas costas, e tudo estava bem até
Que vimos Stuart e nos levantamos
Seus olhos se alternaram entre nós, o cobertor, nossos cabelos despenteados e as meias e sapatos
ao lado
Stuart fechou a mão
Ele acertou Coop com tanta força
Ele acertou Coop com tanta força no rosto que sua boca e seu nariz começaram a sangrar e
lágrimas saíram de seus olhos
Lágrimas saíram dos meus olhos
QUE PORRA É ESSA Stuart gritou
Por favor, não grite, eu pedi
Desconte em mim, Coop disse, vamos, pode me bater de novo
Não faça isso! Não faça isso, eu disse, e fiquei entre os dois
Nós podemos conversar, eu disse, quando os detalhes começaram a reaparecer na minha cabeça
Stuart estava com a respiração pesada
Por quê?, ele perguntou
Eu não respondi
No que você estava pensando?
Por quê?
Por que você fez isso?
Porque a gente se ama, Cooper respondeu
Eu perguntei para a Sammie, Stuart disse
Eu não sei, eu disse
E, de todas as pessoas com quem poderia fazer isso, escolhe o cara que chamou de imbecil?, Stuart
perguntou e apontou para Coop
O quê?, Coop disse olhando para mim, limpando e espalhando o sangue no rosto
É, o maconheiro que você disse que foi expulso do time de beisebol
Coop me encarou com os olhos apertados e me perguntou se eu havia contado a Stuart o que tinha
acontecido no primeiro ano
Sim, nas não foi de propósito, eu justifiquei
Você contou para ELE uma coisa que eu pedi para você não contar para ninguém
E nunca vou esquecer da postura arqueada de Coop olhando para mim
Como se eu tivesse quebrado seu pescoço
Como se ele tivesse me entregado seu coração e eu o tivesse quebrado
Ele não precisava dizer que nós dois estávamos relembrando aquele dia em que ele me disse que
foi expulso do time, e como eu tinha me esforçado para fazer vista grossa, mas ele podia sentir, e ele
tinha pedido, por favor, não me julgue
Mas eu julguei, e ele podia sentir
Então não tinha sido no dia em que ele me convidou para jantar e não tinha sido no dia em que ele
não apareceu para me ajudar a tomar conta das crianças
O dia em que tínhamos deixado de ser amigos tinha sido o dia em que ele cometera um erro e eu o
havia encarado com desprezo por isso
E agora ele estava me encarando como se estivesse prestes a retribuir o que eu havia sentido
aquele dia
Que merda é esta, Stuart perguntou para ninguém
Vai se foder, cara, Coop disse
Tentei pegar na mão de Cooper, mas ele a puxou, escorregadio como um peixe, e foi embora
Acho que você é melhor do que isso, Stuart me disse
Ele se sentou no chão e disse: você é egoísta, agora sei disso
Talvez não seja culpa sua
Mas você é egoísta
Você escondeu sua doença de mim porque era mais fácil para você, você decidiu terminar comigo
porque era mais fácil para você e você dormiu com esse idiota porque era mais fácil para você
É difícil para mim te reconhecer assim, da forma como é agora
Nunca fui ninguém além de mim mesma, eu disse, sinto muito pelo que fiz, mas é verdade
Então eu não conhecia você de verdade, ele disse, e não quero te conhecer
Stuart ficou onde estava até minha mãe me buscar
Coop foi embora sem se despedir
Agora Coop não responde minhas mensagens há quatro dias
Exceto para dizer “talvez fosse melhor você ficar com sua família e com seu namorado e pensar
nas coisas”
Stuart precisa de espaço, ele me disse
Eu não preciso de espaço nenhum
Só preciso que Coop me diga alguma coisa
Qualquer coisa
Mesmo que seja apenas adeus
Mundo grande

Tive alguns dias vazios. Apenas perambulando, resmungando. Não sei distinguir a NP-C da tristeza
pura. A falta de vontade de sair da cama é a mesma. Os espaços em branco no meu cérebro são os
mesmos. Assim como acordar no meio da noite, me perguntando o que está acontecendo, o que deu
errado.
Minha mãe e meu pai dizem que eu deveria esquecer Coop e Stuart por um tempo agora e ser
positiva. Coop vai voltar, eles me dizem. Também disseram que nenhum dos dois nem ninguém
poderia “entender completamente pelo que eu estava passando”. Mas eu entendi. Eu sabia o que
estava fazendo e quis fazer e sentir aquelas coisas. Talvez eu soubesse desde o início que estava
tentando acelerar antes do meu ritmo diminuir.
Eu só não sabia que diminuir o ritmo podia ser tão bom. E também não sabia o quanto seria
sofrido. Ou talvez soubesse, mas fui em frente mesmo assim.
Agora meus pais ficam em casa.
Eu gravei a conversa deles durante o jantar outro dia, depois que todo mundo tinha ido dormir.
Eles estavam me contando sobre como se conheceram.
MARK MCCOY, 45, E GIA TURLOTTE MCCOY, 42,
GRAVAÇÃO DE ÁUDIO TRANSCRITA

Mãe: Estávamos trabalhando na estação de esqui depois do fim do ensino médio. Seu pai estudava
na West Leb, eu estudava na Hanover.
Pai: E tinha uma gatinha cinco estrelas trabalhando no balcão de café.
Mãe: E você nem tomava café!
Pai: Comecei a tomar naquele verão, só para ter uma desculpa para falar com a ( faz a forma de
um coração com as mãos) Gia.
Mãe: Continuando…
Pai: Então… Nós ficamos loucos um pelo outro. Não conseguíamos nos separar. Mudamos para
Nova York depois de seis meses. Adivinha o que eu queria ser? Sammie nunca vai adivinhar.
Mãe: Estou curiosa para saber se você vai adivinhar, Sammie. Ele não queria ser um funcionário
da prefeitura.
Sammie: Palhaço?
Mãe: O quê? Eca!
Sammie: Contem de uma vez.
Pai: Eu queria ser ( finge que está tocando guitarra) integrante de uma banda de punk. Até
cheguei a morar no Brooklyn, quando ainda era barato e sujo.
Mãe: Então eu me mudei para lá com ele logo depois, mas a cidade era cruel e nunca dava para
ficar muito tempo em um bairro, muito menos em um apartamento, por um motivo ou outro. Não
tínhamos empregos de verdade e não sabíamos ao certo se queríamos ter.
Sammie: Mas o tempo que moraram juntos em Nova York deve ter sido divertido.
Mãe: Hum. Estávamos sempre muito tristes. E quando ficávamos tristes, ficávamos muito
dependentes um do outro.
Pai: E então aquele gato fugiu.
Mãe: Nosso gato da conciliação.
Sammie: O quê?
Mãe: Encontramos um gatinho lindo e demos leite para ele e, sempre que um de nós ficava zangado
com o outro, pegávamos o gato e dávamos ao outro como uma oferta de paz.
Pai: Era um gato feio e bravo, vamos ser sinceros.
Mãe: Mas sempre funcionou para nos acalmar.
Pai: Aquele gato da conciliação era nosso único amigo. Não conseguíamos nos enquadrar em
nenhum grupo. Acabamos odiando o lugar porque odiamos as pessoas que nos tornamos.
Mãe (imitando voz de roqueira): Fumar, beber, roubar discos.
Pai: Sua mãe trabalhava em um cinema e nós roubávamos pipoca para o jantar.
Mãe: Eu roubava a pipoca.
Pai: É, sua mãe roubava a pipoca.
Mãe: Bem, nós tivemos uma briga feia. Uma briga muito, muito séria. Ainda não consigo acreditar.
Sammie: Por que brigaram?
Pai: Hum, por nada.
Mãe: Também não consigo lembrar.
Pai: E ninguém encontrava o gato.
Mãe: Ai, meu Deus, Sammie, seu pai procurou aquele bicho em tudo quanto era lugar. Ele tinha
desaparecido por três dias, só voltou para comer alguma coisa e depois saiu de novo.
Pai: E a pior parte é que o gato não tinha nome. Então eu ficava gritando “Gatinho! Gatinho!”,
esperando que ele aparecesse.
Sammie: Por que vocês não deram um nome para ele?
Mãe: Sabe o que eu acho?
Pai: O quê? Estou realmente curioso para ouvir isso.
Mãe: Acho que, inconscientemente, não demos nome para o gato porque sabíamos que ele não nos
pertencia. Tipo, não queríamos que ele fosse nosso, porque significaria que ficaríamos lá
permanentemente.
Pai: Eu só sei que… (olha para cima)
Sammie: Ah, pai!
Pai: Aquele gato idiota me fez perceber que eu queria me casar com a sua mãe. E que queria ter
filhos com ela. Sabe, você sai pelas ruas do Brooklyn por três dias e se pergunta o que está fazendo
ali. E então percebe… ( funga)
Mãe: Ele só queria alguém para amar. Alguém de quem cuidar.
Sammie: Então vocês voltaram?
Mãe: Ele escreveu uma música sobre o gato.
Sammie: Quero ouvir as músicas punks do papai.
Pai (se recompondo): Bem, então voltamos e nos estabelecemos aqui, entre rostos conhecidos.
Sammie: Esperem aí, voltando um pouco… Foi por isso que deram o nome de Cachorrinho para o
Cachorrinho?
Pai (afundando o rosto nos pelos do Cachorrinho): Siiim.
Mãe: Vejamos… quando voltamos e viemos morar nesta casa, os pais do Cooper estavam aqui, e o
padre Frank era apenas Frank, ainda não tinha ido para o seminário, e a sra. T trabalhava na pré-
escola, na verdade…
Sammie: A sra. T?
Mãe: A Beverly, sim.
Pai: Foi estranho no início, tão cheio de pessoas que conhecíamos, mas com tanto espaço ao
mesmo tempo.
Mãe: Seu pai arrumou um emprego logo de cara porque conhecia um cara que trabalhava na
prefeitura de Lebanon e com isso eu tive tempo de me formar e então você chegou! Bem, eu me
pergunto, Sammie, com toda essa sua conversa sobre sair daqui, você acha que só ficamos no Upper
Valley porque não tínhamos dinheiro para ir embora?
Sammie: Sei lá. Acho que sim.
Mãe: Temos sorte de estar aqui. Talvez seja porque as montanhas são maiores do que todos e dão
perspectiva às pessoas. Ouça, você pode ir para onde quiser, você pode conquistar o mundo, você
poderia ter ido para Nova York e ter tido muito sucesso lá, e sei que teria. (voz falha, fungando)
Mas, quanto mais você ganha, quanto mais pessoas precisa derrotar ou deixar para trás, menor o seu
mundo fica.
Pai: É isso mesmo.
Mãe (apontando para o quintal e para as montanhas): Temos um grande mundo aqui, Sammie.
Sammie: Eu sei. Agora eu sei.
Uma carta que não enviei

Querido Coop,
Posso esquecer algumas palavras, então continue lendo e tente encontrar um sentido. Primeiro,
sinto muito por Stuart ter dado um soco em você. Espero que seu nariz e sua boca estejam bem. Não
consegui pensar em mais nada desde a manhã passada. Quer dizer, pensei em mais do que seu nariz e
sua boca, mas você tem mesmo um nariz e uma boca muito bonitos e espero que não estejam
arruinados.
Acima de tudo, espero que nossa amizade não esteja arruinada. Lembra do dia em que ficamos
amigos? Provavelmente foi quando tínhamos quatro ou cinco anos. Eu sempre te via e lembro de ficar
observando seu cabelo porque você tinha o cabelo com a cor mais gritante que eu já tinha visto e
sempre corria pelado pelo jardim. Talvez não seja o melhor momento, mas teve uma vez que você
correu desde a sua casa para ver até onde a mangueira do jardim chegava. Você correu por todo o
caminho puxando a mangueira verde e parou bem quando chegou ao nosso jardim. Acho que eu
provavelmente estava tentando pegar aquelas borboletinhas amarelas com dois copos, como sempre
fazia. De qualquer forma, levantei os olhos e lá estava você com a mangueira, puxando, tentando
fazê-la chegar mais longe, mas ela não saía do lugar. Então você a deixou no chão e correu de volta
para casa. Você deixou a mangueira e eu fiquei olhando para ela e de repente a água começou a sair.
Foi mágico. Eu não tinha ideia de como você tinha feito aquilo ou se tinha sido mesmo você. Eu
cheguei perto da mangueira e fiquei vendo a água sair cada vez mais forte e então você voltou
correndo. Você estava rindo porque aquilo era incrível. Você pegou a mangueira e a girou e eu fui e
pulei na água com você e acho que desde então começamos a brincar juntos.
Fiquei pensando por onde tinha estado aquela pessoa nos últimos quatro anos, quando podíamos
ter sido amigos. A pessoa que percebia coisinhas assim e achava que eram especiais. Estava tão
ocupada pensando em como eu poderia ser melhor que todo mundo que não conseguia ver mais
ninguém. Achei que sabia do que precisava, e talvez precisasse mesmo de um pouco disso. Fico feliz
por ter me esforçado tanto na escola. Fico feliz por ter participado dos debates e feito um discurso.
Mas agora, o que isso significa? E o espaço entre as coisas que risquei na minha lista? E quando a
lista tiver que ser jogada fora?
O que quero dizer é que poderíamos ter tido quatro mil e sessenta dias em vez de só catorze ou
sete ou as seis horas que tivemos no lago. Vou passar o resto da vida triste se não pudermos passar
mais tempo juntos.
Sinto muito por ter contado seu segredo. Não julgo você e não penso que sou melhor que você, e
qualquer um que acha que é pode ir se ferrar. Eu estava tentando ser uma versão melhor de mim, mas
não me importei com as pessoas em que estava pisando para chegar lá. Estava tentando fingir que
teria um futuro que nunca ia existir e nunca vai existir. Mas eu preferia voltar e ter você comigo, não
importa qual fosse meu futuro.
Eu vivi o agora com você e esses agoras estão em todos os lugares, o tempo todo, na minha casa,
na sua casa, na montanha…
Eu te amo. Lar é onde está o amor. Você é meu lar.
Sammie
P.S.: E não acho você um imbecil.
P.P.S.: Pelo menos não o tempo todo.
Stuart Shah na lista dos mais vendidos do New
York Times

Stuart e eu nos encontramos de manhã cedo antes de ele pegar o ônibus para voltar para Nova York.
Ele veio e sentamos nas cadeiras de plástico do jardim. Ele estava de roupa cinza de novo, com uma
mochila cheia de coisas nas costas. A ecolocalização que havia entre nós dois não existia mais, tinha
sido substituída por um tipo de almofada que parecia abafar tudo. Eu tomei chá; ele, café, e nos
encaramos com os olhos inchados. Ele veio num dia bom.
— Você parece bem — Stuart disse.
— Não minta — eu disse e sorri para ele, apesar de a minha boca não subir totalmente de um lado.
— Não estou mentindo — ele disse. — Como você está?
Eu não esperava que ele fosse ser tão civilizado. Mas acho que já tinha exteriorizado toda a raiva.
— Estou bem. E você?
— De volta à vida na cidade.
— Estou feliz por você — eu disse.
— Não deveria — Stuart disse, num tom quase amargo.
Lá estava ela, a raiva.
— Sinto muito — eu disse, respirando fundo. — Já disse isso antes e ainda sinto o mesmo: sinto
muito pelo que fiz.
— Isso ainda me desconcerta — Stuart disse. — Eu estava disposto a ir longe por você, e você
jogou tudo fora.
— Eu nunca… — Tentei lembrar a palavra, e fiquei constrangida. — Eu nunca entendi por que
você estava disposto a se entregar tão completamente sem me conhecer tão bem.
— Eu gosto de você! Estava tentando fazer a coisa certa!
— Eu sei. Eu gosto de você também. Isso sempre foi verdade.
— Talvez gostasse da ideia de quem eu sou. — Ele fez aquela coisa no ar, apontando para nada. —
Você gostava da ideia de que sempre gostou de mim e depois ficamos juntos e gostava do fato de que
eu ia me tornar um escritor de sucesso.
— Hum… — eu disse.
— Admita.
— Era isso, em parte. Mas havia mais também. A parte de você que lê poesia em voz alta quando
está bêbado e que brinca com qualquer cachorro. E também uma outra parte de você que eu queria…
simplesmente…
Ele fez um gesto com a mão.
— Já entendi.
— Está tão recatado esses dias!
Ele caiu na gargalhada, mas não durou muito.
— Esses dias! Faz uma semana.
Eu tinha que continuar brincando, senão ia perder o chão. Tinha magoado essa pessoa que estava
ao meu lado, dava para sentir no ar, do mesmo jeito que eu um dia sentira a conexão entre nós. E
tinha me magoado. Eu queria voltar atrás, mas quis isso tantas vezes nos últimos meses que as
palavras não significavam mais nada para mim. Não sobraram mais lágrimas.
— Parece uma eternidade.
— Parece uma eternidade porque você quer voltar para mim? — Stuart disse. Não entendi se
estava falando sério. Ele ainda olhava para a montanha.
— Por quê? Você me quer de volta? — provoquei.
— Não sei. Não que você não… eu só… — ele disse.
— Eu estava brincando. Eu não era fácil. Mesmo antes da NP-C.
— Você foi a primeira e última garota que me arrastou para uma DR por mensagem. Você tem a
paciência de um peixinho dourado.
Eu respondi rápido:
— É, sem dúvida.
— Ah! Certo!
Minha mãe saiu de chinelo, jogou uma toalha em uma das cadeiras vazias e entrou.
Stuart apoiou o queixo na mão.
— É só que… o timing foi péssimo.
— Rá! Ensinando o padre a rezar a… hum…
— Missa.
— Missa — repeti.
Ele bufou.
— Acho que vou contar de uma vez. Meu agente desistiu de mim. Era por isso que eu estava em
Nova York. — Ele olhou para o chão.
— Ah.
— Não escrevi nem uma única página enquanto estive aqui.
— Sinto muito. — Então era por isso que ele nunca queria falar no que estava trabalhando. O
futuro dele também não existia da forma que ele tinha pensado. — E aquele texto que tinha escrito
para a Mariana Oliva?
— Aquilo era antigo. Já tinha sido publicado em um jornalzinho de Portland.
Olhei para ele, sua cabeça abaixada. Stuart continuou. Aparentemente, só tinha ido para Nova York
implorar para a editora não cancelar seu contrato. Estava muito envergonhado.
Também disse que não deveria ter mentido para mim.
— Tudo bem, Stu — eu disse. — Voltou a escrever?
— Estou tentando.
— Lembro do conto que você leu com o texto da Mari e dos que foram selecionados antes disso.
Até reli alguns recentemente, mesmo depois que brigamos, e as histórias ainda me tocaram. Você tem
talento.
— Não sei se é bem assim — Stuart murmurou.
Eu quase ri.
— Lembra como você é jovem? Tem uma razão para estar fazendo o que está fazendo. Tem que
continuar.
Finalmente, um sorriso. Um sorriso real. O primeiro que vi nele em muito tempo e que iluminou
seus olhos negros.
— Pode discutir comigo o quanto quiser, pode dar desculpas, mas sabe que vou ganhar — eu falei,
retribuindo o sorriso.
— Eu sei — ele disse.
As palavras mal saíam da minha boca, saíam mais do meu coração, explodindo.
— Queria ter dado mais a você, a todos, só não sabia como — eu disse. Os olhos de Stuart se
encheram de lágrimas, e os meus também. — Estou aprendendo a ser menos egoísta agora. Estou
mesmo. Só quero que saiba disso, mesmo que seja tarde demais.
— Você não precisa ser nada além de você mesma.
— Às vezes ser eu mesma é demais para dar conta. — Meu lábio inferior estava tremendo. — Eu
queria tudo de uma vez.
Stuart segurou minha mão, como fazia sempre. Os soluços de choro diminuíram um pouco.
— Você tem uma doença terrível. Coisas muito menores já transformaram pessoas em monstros
egocêntricos.
Gargalhei.
— Nascer transforma pessoas em monstros egocêntricos — ele acrescentou.
Rimos juntos, entre fungadas.
Ele levantou, me ajudou a levantar e nos encaramos. Ficamos abraçados por um bom tempo
enquanto molhávamos o ombro um do outro. Passei os dedos pelas costas dele.
Ele olhou para o relógio.
— Hora de ir?
— Hora de ir.
— Você foi muito importante para mim — eu disse.
— Não fale assim, no pretérito — ele respondeu com a voz sumindo.
— Você é muito importante para mim — corrigi, porque era verdade.
— Acho que teríamos dado certo se as coisas tivessem sido diferentes — ele disse no meu ouvido.
— Sei que teríamos. — Mas as coisas eram. Para mim não existem mais “serão” ou “seriam”. As
coisas apenas são.
— Avise se precisar de qualquer coisa.
— Tem uma coisa de que preciso.
— O quê?
— Continue tentando.
Nós nos afastamos.
— Tudo bem — ele disse, assentindo. — Tudo bem.
Missa

Fui à missa na igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro com meus pais pela primeira vez em
seis anos
Não falei com Deus, mas foi um consolo ouvir as vozes juntas, recitando orações tão bem
memorizadas que nem precisam mais pensar
Agora me agarro com muita força a cada memória
Fico feliz por Harry e Bette e Davy terem essa capacidade de resgatar elementos tão profundos de
suas memórias e é muito bonito, algo que os transcende
Minha mãe e meu pai seguram minhas mãos, um de cada lado
Quando cheguei em casa, pedi para que me ajudassem a fazer uma coisa
Eu tinha guardado um pouco do dinheiro que meus avós tinham me dado e um pouco do que meus
pais tinham juntado para mim para me ajudar a ir para Nova York. A maior parte se foi por causa da
doença
Pedi que, se não tivesse acabado tudo, que a maioria fosse usada para pagar a faculdade dos meus
irmãos, claro
Mas se sobrasse pelo menos um pouco
Minha mãe e meu pai podiam ligar para o Clube do NP-C, daquelas crianças de camisas com
estampas tropicais e comprar um livro para cada uma delas, o livro que quisessem
Histórias fazem bem em momentos como esse, seja contá-las ou ouvi-las
Lembrei de Coop e dos bilhetes que espalhamos pela casa
Histórias são sempre boas
Queria ter feito isso quatro anos atrás

Fazia quase uma semana e eu estava de saco cheio


Continuava inventando desculpas para passear com o Cachorrinho pela rodovia para ver a casa do
Cooper, mesmo quando era quase impossível andar
Meus pais arranjaram uma cadeira de rodas para mim, mas não gosto dela
O carro do Coop sempre estava na garagem, mas ele nunca saía
Não sei quando ele chega ou sai
Talvez não tenha feito nada disso
Talvez estivesse na casa da Katie Gostosa
Ou talvez tenha ido embora para outra cidade também
Cada opção fazia meus ossos parecerem frágeis como serragem
No dia seguinte acho que foi no dia seguinte nos apertamos no carro do meu pai para ir à estação
de esqui porque, ah, sem motivo, sabe, apenas para dar uma passada, não eu implorei para eles por
favor, por favor, e acabei mostrando para minha mãe a carta que escrevi para o Coop, que ainda não
tinha enviado porque estava com muito medo de que não fizesse diferença. Disse a eles que sentia
falta dele como sentia falta de um dos meus sentidos, um sexto ou sétimo sentido que nem sabia que
tinha até ele ir embora
Eu nem sabia se ele estava trabalhando então fomos devagar do estacionamento até o chalé
Meu pai perguntou para minha mãe se o lugar trazia lembranças
Fizeram uma reforma, minha mãe disse, e por alguma razão os dois olharam para algum tipo de
depósito no fundo do estacionamento
Eca
Então fui até o chalé e tinha um homem raspando a sujeira do balcão com uma lâmina de metal
Com licença senhor Cooper Lind está trabalhando aqui?
Ele está no teleférico, o homem disse sem nem olhar para mim
Meu coração saltou para fora
Posso falar com ele?
Pode chamá-lo pelo meu rádio que ele vem até aqui
Ou talvez não se soubesse que era eu
Eu tinha que tentar
O homem me deu o aparelho mas tive dificuldade para segurá-lo com minhas mãos entrevadas
então Harrison as segurou firme e eu estava prestes a apertar o botão quando meu irmão apontou para
um interruptor bem do lado
No interruptor estava escrito “anúncio”
Olhamos ao redor e vimos um alto-falante branco preso do lado de fora do chalé
Alto-falantes idênticos se enfileiravam nos postes rampa acima, até o topo
Harrison perguntou baixinho anúncio?
Olhei para o homem, que ainda raspava a sujeira, e assenti
Harrison ligou o interruptor
Pigarreei e um estrondo saiu da minha boca direto para a montanha, ecoando tão alto que cada
pessoa que trabalhava por ali olhou para cima
Nenhuma delas era o Coop
Então eu disse da forma mais clara que pude, tentando não rir, IMBECIL FAVOR COMPARECER AO
CHALÉ
Harrison teve um ataque, minha mãe cobriu as orelhas de Bette e meu pai, as de Davy, mas
estávamos todos morrendo de rir
IMBECIL COMPAREÇA AO CHALÉ POR FAVOR repeti
O homem que raspava a sujeira balançou a cabeça e estendeu a mão pedindo o rádio
Eu olhei para a rampa
Três vultos estavam trabalhando e continuaram trabalhando
Talvez ele não viesse
Talvez pensasse que eu estava tentando humilhá-lo
Pensei em pegar o rádio de volta e gritar EU TE AMO, COOPER LIND, DESCULPA, POR FAVOR, VOLTE PARA
MIM
Mas então um vulto saiu de trás da base do teleférico segurando uma chave inglesa, girando-a
como se não fosse grande coisa, andando devagar, como se estivesse indo almoçar
Ele estava de boné, mas eu sabia que era o Coop, ele tirou o boné e seu cabelo ficou à mostra
Eu saí da recepção, minha família ficou lá dentro
Percebi que estive com o coração na mão o tempo todo então o pus de volta no peito, onde
continuou a bater
Quando ele me viu começou a andar mais rápido
E depois a correr
Ele se conteve, hesitando por um momento, e eu pus a mão no peito e parei meu coração
Coop, eu chamei e nunca fiquei tão feliz ao ver alguém em toda a minha vida
Ele abriu um sorriso e desceu correndo o resto do caminho
olá livro de memórias é o cooper lind. só queria que soubesse que sammie mccoy é o amor da minha
vida e fui burro por passar mais de uma hora longe dela. tinha medo de que ela tivesse voltado com o
stuart. mesmo quando recebi as mensagens dela fiquei com esse medo doentio de que ela só queria se
encontrar comigo para dizer que estava tudo acabado, que ela tinha se deixado levar pelo momento
ou que tinha cometido um erro. não devia ter ficado com medo. na verdade eu nem sabia o que era
sentir medo até as últimas oito horas que passei acordado na sala de espera do centro médico de
dartmouth.
sammie teve uma convulsão que a deixou em estado de choque. agora a situação é estável, mas
antes não era e, se ela tivesse partido tão rápido, sem que eu conseguisse me despedir, ia querer
deitar no meio da rua. ela está acordada agora e conversando com a família.
alguns dias antes da convulsão sammie e eu estávamos deitados na cama dela e ela me deu
permissão para ler isso. suponho que eu queira me explicar um pouco. quer dizer, não como sammie
me via, porque essas são as palavras dela e ela é que tem que escrever a própria história, então não
vou me referir a nada que ela tenha citado. mas gostaria de dizer a você, sam do futuro, por que nunca
tinha contado a ela que a amava até agora:
não faço a mínima ideia.
acredite, tive oito horas para remoer isso, mas ainda não sei.
meu melhor chute é que é porque sou humano.
ela se dá muito crédito no departamento da inteligência, como deveria fazer mesmo, mas não sei o
que ela estava pensando quando disse que não era atraente. garotas como a sammie confundem os
homens comuns. garotas como a sammie embaralham a cabeça de qualquer um que está acostumado a
ouvir que certo tipo de mulher é o mais bonito que existe, porque ela não é desse jeito, mas ainda
assim é inegavelmente espetacular. sammie tem a boca delicada levemente rosada, olhos castanho-
claros que mudam de cor sob o sol, esse cabelão maluco e o jeito que a parte de cima do corpo dela
se move a partir da parte de baixo pode deixar um cara passando mal. ela começou a exibir essas
características (ou pelo menos eu comecei a notá-las) quando tinha doze anos e eu tinha doze anos.
mas não é tudo isso que torna sammie atraente para mim. você pode achar um milhão de garotas com
essas características. o que é, é que…
acho que é pela mesma razão pela qual não contei antes que a amava. é porque ela tem uma luz que
vem de algum lugar misterioso e que só pessoas muito fortes podem suportar sem se sentir
intimidadas ou com inveja ou querer sugá-la para si. tipo confiança ou algo assim. e talvez essa luz
seja apenas amor, e é isso que a faz tão atraente para mim, esse ciclo infinito de amor e desejo, amor
e desejo, mas não acho que seja só isso.
então eu admito, só engatei a marcha quando percebi que uma doença ia tentar acabar com tudo
isso. e depois foi um belo chute na bunda quando pensei que outra pessoa estava tentando ficar com
aquela luz. porque eu fui estúpido e sempre pensei que ela ia acabar indo para outro lugar e, quando
eu estivesse pronto, sei lá quando seria, talvez aos cinquenta, caramba, sei lá. mas, quando eu
estivesse pronto, simplesmente conseguiria um emprego perto dela e nos reconectaríamos e
passaríamos o resto da vida juntos. estava “guardando” ela para mais tarde. como um babaca de
merda.
eu me arrependo disso. eu me arrependo com cada fibra do meu ser. estou pronto agora. sempre
estive pronto.

Ei, Cooper Francis Lind,


Obrigada por dormir aqui comigo. Estou indo ao médico. Você é o melhor. Acho que tem algumas
salsichas de café da manhã na geladeira que, como você sabe, são só salsichas normais que se
comem no café da manhã. Eu te amo.
Sammie

sammie, querida,
tenho que trabalhar hoje mas volto à tarde para passear com você e o cachorrinho se quiser. ou
pelo menos pode ficar sentada com a gente do lado de fora brincando de capitã graveto. mas saiba
que a davy está mesmo querendo que eu seja uma baleia ultimamente e essa não é uma imitação
agradável. porém, nenhuma perna será quebrada. acho.
eu te amo.
cooper

fui ao médico de novo coop. Odeio essas coinsltas tão cedo mas te amo.

samantha,
sou eu, francis, o bode! voltei dos mortos para expressar meu amor eterno por você.
não me coma,
francis
cooper lind está na minha cama? acho que estou sonhando mas provavelmente é melhor acordá-lo
não o vejo desde o ano passado
talvez ele tenha passado aqui depois de uma festa ou coisa assim
cooper lind passou aqui?
acho melhor dormir no chão

SAMMIE! MEU AMOR! sempre me acorde. sempre, sempre, sempre me acorde. sei que não é tão fácil
para você se lembrar mas achei bom pelo menos digitar isso aqui no caso de você decidir escrever à
noite de novo. sou seu namorado agora. sempre me acorde, sempre me acorde, sempre me acorde.

COOPER. FRANCIS. LIND.


você fumou unzinho no barracão de casa antes de ir trabalhar???
sem brincadeira, espero não estar imaginando esse cheiro
ou é isso ou temos gambás aqui
culpado

sammie,
espero que tenha dormido bem depois da noite passada. tenho que trabalhar, mas se estiver se
sentindo um pouco cansada, saiba que teve um pequeno surto. você se saiu bem.
eu te amo.
coop

Coop, não sei o que faria sem você


Estou feliz de verdade
Sammie
Oi, Zam Zam! Minha memória favorita de nós duas só pode ser a do outono do segundo ano do ensino
médio quando você começou a usar esse tipo muito estranho e barato de hidratante labial, que no
começo você passava do jeito normal e depois foi como se seus lábios tivessem se viciado nele sem
você perceber. Lembra? E isso foi antes de ficarmos amigas, então eu não sabia se devia ou não falar
alguma coisa, mas, tipo, você vinha pro treino e, enquanto tentava fazer uma exposição positiva,
passava o hidratante sem nem perceber, andando de um lado para o outro, e seus lábios começavam a
ficar tingidos daquele roxo azulado. Acho que foi só quando a sra. Townsend parou você no corredor
e perguntou se você estava com frio que você percebeu que tinha que parar com aquilo. Você veio até
mim como uma viciada em heroína e me entregou o tubo e ficou, tipo “Maddie, ESCONDA ISSO DE
MIM”. Foi então que eu soube: você não era só uma nerd com uma enorme capacidade de fazer
examinação-cruzada, você era uma esquisitona igual a mim. E você sempre, sempre estará no meu
coração esquisitão, onde é o seu lugar. Você me fez ser melhor de toda maneira possível por causa da
sua força e da sua ferocidade e da sua pura compreensão de cada momento.
Você é demais, Samantha McCoy. Você mudou minha vida. Vou tentar ligar para você amanhã sem
perder a cabeça. Obrigada à sua mãe e ao seu adorável Cooper por me acharem aqui em Atlanta.
(Por sinal, COOPER LIND? Seu vizinho? Eu sabia! Você sabia que ele ia a todos os torneios de debate
de que participávamos em Hanover? Eu sempre ficava, tipo, quem é aquele mano maconheiro no
fundo da sala?)
Sempre vou te amar.
Sua parceira para sempre,
Maddie

Oi irmãzinha,
Mamãe está digitando para mim porque quero que as palavras fiquem certas. Minha memória
favorita é de quando assistiu A princesa e o sapo comigo e cantamos “Quase lá” juntas. Vou ver você
no hospital e te dar todas as joias.
TE AMO.
DAVY

Oi irmãzinha,
Minha memória favorita com você é provavelmente algo que talvez você nem imagine. Na verdade
foi há pouco tempo quando você não estava indo tão bem mas estava mais ou menos. A gente estava
no jardim e você começou a olhar em volta e eu percebi que você não se lembrava. Então peguei sua
mão e te levei até o bebedouro dos beija-flores e disse “ei, irmã, olha, lembra”. Você disse “ah,
legal, Bette, é temporada de beija-flor”. Então disse “shhh” e apontou e nós observamos. É minha
favorita porque não importa que não tenha lembrado que já tinha passado a temporada de beija-flor,
mas porque foi legal ver você se empolgar e querer compartilhar comigo! E essa é minha irmã para
sempre! Te amo muito.
Bette

Oi, Sammie,
Não sei fazer isso muito bem. Perguntei para o papai se não tinha problema se falasse com você ao
vivo porque não me sinto bem digitando. Sei que você gostava de escrever aqui mas eu já digito
muito (haha) e fico muito no computador (haha), então só queria te dizer ao vivo. A gente se vê.
Te amo,
Harry

Oi, querida,
Harry e eu estamos meio que no mesmo barco. O melhor momento da minha vida foi quando
segurei você em meus braços pela primeira vez. Converso com você em breve.
Com amor,
Papai

Meu primeiro bebê,


Palavras não são capazes de transmitir minha tristeza por ver você definhando aos poucos. Mas
suponho que, ao perder algumas camadas, seu núcleo dourado veio à tona. Você é carinhosa,
compassiva, determinada, talentosa e linda e será assim para sempre, seja de corpo presente, em
nossas memórias ou neste livro.
É muito difícil escolher minha memória favorita, porque amei cada minuto de nossas vidas juntas,
desde o instante em que chutou minha barriga por dentro até este momento, em que vejo o papai
segurar sua mão.
Lembro de quando tinha onze anos, em seu primeiro concurso de soletrar no condado de Grafton.
Você derrotou trinta alunos mais velhos, e eu fiquei muito orgulhosa. Você desceu do palco correndo
e estava completamente radiante e com os braços abertos. Sei que nem todo mundo se identifica com
isso, mas, na vida de uma mãe, sempre chega um momento em que os “eu te amo” se tornam escassos
e estranhos para os dois lados. Às vezes você tem medo de que seu filho só vá dizer isso quando
quiser alguma coisa ou por obrigação, talvez eles te odeiem, mas, naquele momento, quando você
correu na minha direção e as primeiras palavras que disse foram “eu te amo, mamãe!”, meu coração
quase explodiu de alegria.
Porque tenho muita sorte por ser a pessoa com quem você queria estar e a quem quis expressar
afeto no momento de maior orgulho de sua jovem vida. Eu explodi da mesma forma em cada um
desses momentos e sei que estaria presente em outros milhares.
Espero que agora seja um deles também. Porque estou ansiosa para explodir de alegria e você
deve sentir muito orgulho de si mesma pela forma graciosa com que caminhou por esta longa jornada.
Eu te amo, te amo, te amo, infinitas vezes.
Mamãe
ei sammie,
você acabou de partir. minha memória favorita é este livro inteiro porque ele é você. obrigado por
registrar sua vida. deveria ter sido mais longa. acho que deve saber que antes de partir, no pôr do
sol, você pediu para ficar perto da janela para poder ver o seu lado da montanha. você disse: “para
eu poder ver meu lar”.
eu te amo,
Cooper
Agradecimentos

Ah, cara. Esse livro significa tanto para mim. Sabendo disso ou não, muitas pessoas da Alloy —
Joelle Hobeika, Josh Bank, Sara Shandler — acompanharam meu crescimento. Há cinco anos entrei
no velho escritório deles logo depois de uma noite em que dormi num sofá no Brooklyn, com uma
camiseta com manchas embaixo dos braços. Não tinha ideia do que estava fazendo. Tenho que
admitir: por toda a melancolia que adiciono às suas incríveis histórias, sempre acho uma surpresa
boa que eles me mantenham por perto. Designers… uau, três sucessos! Stephanie Abrams, por
responder a todos os meus e-mails em pânico. Romy Golan, por seu pente fino. E o aplauso de pé vai
para minha editora, Annie Stone. Annie, obrigada por permitir que eu esticasse a sua história, por
deixar Sammie ser estranha como precisava ser. No mar da literatura, sua criatividade e perspicácia
e paciência foram âncoras e faróis e tempestades, tudo de uma só vez. (Você provavelmente cortaria
esta frase.)
Pam Garfinkel, que prazer foi trabalhar com você duas vezes seguidas! E como é estranho receber
tanta compreensão de alguém que nunca conheci pessoalmente. Você sustentou os alicerces dessa
história e nunca me deixou evitar as consequências de nada. Isso é inestimável. Obrigada.
Leslie Shumate, obrigada por correr comigo no trecho final. E para todos na Little Brown —
Farrin Jacobs, Kristina Aven —, Poppy ganhou uma fã dedicada para a vida inteira.
Às ótimas pessoas que moram no muito real e muito verde Upper Valley, obrigada por me
deixarem passear por aí e romantizar o lugar. Obrigada, Charlie — é, camarada.
Mandy, Emma: vocês, também, e tudo o mais. Por estarem presentes durante o pior e o melhor.
Minnesota, meu doce e inesperado lar. Anthony, Hannah, Ian, Luke, Patrick, Ross, Sally: eu laçaria a
lua para vocês, vocês sabem disso. Às vezes queria que todos morássemos em cavernas
interconectadas e colhêssemos frutinhas para comer e ficássemos acordados a noite toda contando
histórias e piadas.
A todos que sofreram com uma doença fatal como Niemann-Pick (ou a qualquer um que tenha se
relacionado com alguém que as teve), obrigada pela liberdade de viver em seu lugar por algumas
centenas de páginas. Perdoem-me pelas inconsistências e pelos exageros. Se a forma como contei a
história de Sammie não parecer correta, me escrevam. Ou, melhor ainda, escrevam-na do jeito que
gostariam de vê-la.
Vovó Sally e vovô Buck, vovó Hazel e vovô Bill, e tia-avó Margaret, obrigada por contarem as
histórias que importam. Por último, mas nunca menos importantes, mãe, pai, Wyatt, Dylan, Puppy e
Lucy. Obrigada por me deixarem partir para construir meus mundinhos e por estarem presentes
quando voltei.
JEREMIAH SATTERTHWAITE

LARA AVERY nasceu em Topeka e estudou cinema no Macalester College. Autora de livros
infantis e de mais duas obras de literatura jovem adulta — Anything But Ordinary e A Million
Miles Away —, atualmente mora em St. Paul, Minnesota.
Copyright © 2016 by Alloy Entertainment
Publicado mediante acordo com Rights People, Londres.

O selo Seguinte pertence à Editora Schwarcz S.A.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
A citação original de Poemas, de W. B. Yeats, foi retirada da edição da Companhia das Letras (1992), com tradução de Paulo Vizioli.
TÍTULO ORIGINAL The Memory Book

CAPA Alceu Chiesorin Nunes


PREPARAÇÃO Paula Lima
REVISÃO Lasissa Lino Barbosa e Renato Potenza Rodrigues
ISBN 978-85-438-0690-7

Todos os direitos desta edição reservados à


EDITORA SCHWARCZ S.A.
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 — São Paulo — SP
Telefone: (11) 3707-3500
Fax: (11) 3707-3501
www.seguinte.com.br
www.facebook.com/editoraseguinte
contato@seguinte.com.br
Sumário

Capa
Rosto
O livro de memórias
Agradecimentos
Sobre a autora
Créditos
A sereia
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