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REVISÃO FINAL

DELEGADO DE
POLÍCIA CIVIL – BA
Com base no Edital de Abertura de Inscrições
SAEB/01/2018, de 18 de janeiro de 2018
• Revisão ponto a ponto •

Polícia Civil do Estado da Bahia

COORDENAÇÃO
Leandro Bortoleto
Paulo Lépore
Rogério Sanches Cunha

AUTORES
Alan Martins, Alexandre Medeiros, Bruno Del Preti,
Brunno Lima, Cleyson Brene, Daniel Messias da Trindade,
Diego Senna, Dimas Yamada Scardoelli, Duda Nogueira,
Henrique Hoffmann, Jaime Barreiros Neto,
Luciano Alves Rossato, Ricardo Beck, Ricardo Ferracini,
Ricardo Silvares, Rodolfo Gracioli, Rodrigo Borges,
Tatiana Scaranello Carreira, Tatiana Scaranello Carreira

2018
Criminologia

1. O CONCEITO, MÉTODO, OBJETO, SISTEMA E FUNÇÕES DA CRIMINOLOGIA


Conceito
A criminologia traduz a ciência empírica (baseada na realidade) e interdisciplinar (que
congrega ensinamentos de sociologia, psicologia, filosofia, medicina e direito) que possui
como objeto de estudo o crime, o criminoso, a vítima e o comportamento social.
Como instância superior, não cabe à criminologia se identificar com nenhum dos sabe-
res parciais criminológicos, pois todos têm a mesma importância científica. Adota-se um
modelo não piramidal.1
Logo, criminologia analisa a gênese e dinâmica do crime contemplando-o não como
problema meramente individual, mas também social. Estuda a questão criminal sob o pon-
to de vista biopsicossocial (métodos biológicos e sociológicos), investigando as causas do
crime, a personalidade do delinquente, a vitimização e as formas de prevenção e ressocia-
lização no contexto do controle social.
Funções
A função da criminologia é reunir conhecimentos sobre o crime, o criminoso, a vítima e
o controle social para compreender cientificamente o fenômeno criminal, para assim pos-
sibilitar que possa ser prevenido e reprimido com eficiência, intervindo no delinquente.
A criminologia se presta a fornecer um diagnóstico sobre o delito e permitir a atuação
sobre o homem criminoso. Não se cuida de um estudo causalista com leis universais exatas,
ou tampouco mera fonte de dados ou estatística. Trata-se de ciência prática que tem a mis-
são de resolver problemas concretos. Daí o papel da criminologia de controle e prevenção
do fenômeno criminal.
Destarte, a criminologia deve orientar a política criminal possibilitando a prevenção de
crimes, e influenciar o Direito penal na repressão das condutas indesejadas que não foram
evitadas.
Em resumo, a criminologia deve compreender e prevenir o delito, intervir na pessoa do
delinquente e valorar os diferentes modelos de resposta ao fenômeno criminal.

1 CALHAU, Lélio Braga. Resumo de criminologia. Niterói: Impetus, 2009, p. 13.


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1.1. Métodos: empirismo e interdisciplinaridade


Método consiste no instrumento por meio do qual o raciocínio entende um fato relativo
ao homem, sociedade e natureza. Quanto à criminologia, o método precisa estar fincado
em estudos científicos.
Baseia-se no empirismo (que não é mero achismo), calcado no tripé análise-observa-
ção-indução. O método experimental não se confunde com método empírico. O método
experimental traduz um processo científico que consiste em construir uma hipótese com
apoio na observação de fatos, pondo-os à prova por meio de um artefato experimental
construído para esse fim. Portanto, o método experimental é um método empírico, de ob-
servação, mas nem todo método empírico é experimental.2
A criminologia qualifica-se por ser ciência empírica de observação da realidade, que
opera no mundo do ser, e emprega o método indutivo. Diferentemente do Direito penal,
ciência cultural que atua no plano do dever ser, por meio do método dedutivo.
A criminologia pretende primeiro conhecer a realidade para depois explica-la.
Além disso, a criminologia se baseia na interdisciplinaridade. Busca mais que a multidisci-
plinaridade (saberes parciais trabalhando lado a lado em distintas visões sobre um determina-
do problema), por abranger a interdisciplinaridade (saberes parciais se integram e cooperam
entre si). Em outras palavras, a visão interdisciplinar é mais profunda que a multidisciplinar.

1.2. Objetos da Criminologia: delito, delinquente, vítima, controle social


Os objetos de estudo da moderna criminologia estão divididos em 4 vertentes.

Objeto da criminologia
Delito Delinquente Vítima Controle social

Delito
O crime é estudado pela criminologia sob os seguintes pontos de vista3:
a) fato reiterado na sociedade;
b) incidência aflitiva, pois o delito produz dor à vítima e à sociedade;
c) persistência espaço-temporal do fato, que se distribui no território nacional ao lon-
go de certo tempo;
d) consenso sobre etiologia e técnicas de intervenção para seu enfrentamento.
O crime é um fenômeno humano e cultural, só existe em nosso meio; na natureza não
há a figura do delito. É dizer, para a criminologia o crime é um fenômeno social, a exigir
ampla observação para ser compreendido em seus diversos prismas.

2 CALHAU, Lélio Braga. Resumo de criminologia. Niterói: Impetus, 2009, p. 31.


3 SUMARIVA, Paulo. Criminologia: teoria e prática. Niterói: Impetus, 2017, p. 7.
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Delinquente
Com a criminologia moderna, o criminoso deixa de ser figura principal e se desloca para
plano secundário, sendo analisado sob o viés biopsicossocial e não mais biopsicopatológico.
A visão sobre o delinquente depende do enfoque dado por cada escola da criminologia:4
a) Escola Clássica: criminoso era ser pecador que escolheu o mal apesar de poder optar
pelo bem;
b) Escola Positivista: criminoso era reflexo de sua deficiência patológica (caráter bioló-
gico – hereditário ou não) ou formação social (caráter social);
c) Escola Correcionalista: criminoso era ser inferior e incapaz de se autodeterminar, a
merecer do Estado resposta pedagógica e piedosa;
d) Escola Marxista: criminoso era vítima da sociedade e das estruturas econômicas (de-
terminismo social e econômico); essa visão se desenvolveu por estudiosos de Marx,
e seus conceitos convergiram na chamada criminologia crítica;
e) Escola atual: criminoso é homem real e normal que viola a lei penal por razões diver-
sas que merecem ser investigadas e nem sempre são compreendidas.
A classificação dos criminosos se dá por diferentes critérios, a depender do estudioso
que se tenha em perspectiva.
A principal divisão foi proposta por Lombroso, expoente da Escola Positiva, ao desen-
volver a teoria do criminoso nato, formulada após a realização de dezenas de autópsias em
delinquentes mortos e presos. Foi seguida em grande parte por Ferri.
a) criminoso nato: possui influência biológica, estigma e extinto criminoso. É um sel-
vagem na sociedade. Tem características físicas peculiares: cabeça pequena, de-
formada, sobrancelhas salientes, maçãs afastadas, orelhas malformadas, braços
compridos, face enorme.
b) criminoso louco: alienado mental, perverso, devendo ser internado em manicômio.
c) criminoso de ocasião: tem predisposição hereditária, adotando comportamentos
criminosos por influência das circunstâncias.
d) criminoso por paixão: irrefletido, exaltado e nervoso, emprega violência para come-
ter o crime passional.
Vítima
A vítima historicamente foi colocada em segundo plano, tendo em vista que o objetivo
principal da persecução penal era a punição do criminoso. Com o avanço dos estudos cri-
minológicos, o ofendido é revalorizado e passa a ter papel de destaque.
A vítima desempenha papel importante pois influencia no fato delituoso, toma atitudes
que a colocam como potencial sujeito passivo e possui características pessoais (cor, sexo,
condição social) relevantes.

4 SUMARIVA, Paulo. Criminologia: teoria e prática. Niterói: Impetus, 2017, p. 8.


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Controle Social
Controle social é o conjunto de instituições e sanções da sociedade para submeter os
indivíduos às normas de convivência em comunidade.
Classifica-se em formal ou informal.
O controle social formal é formado pelos órgãos estatais (Polícia, Judiciário, Ministério
Público, Administração Penitenciária, etc). Os agentes do Estado atuam de forma subsidiá-
ria (ultima ratio), quando o controle informal não foi capaz de evitar o crime.
O controle social informal é aquele exercido de forma difusa pela sociedade, através da
família, escola, associações, igreja, opinião pública, etc.

Controle social
Formal Informal
1ª seleção Polícia Judiciária (investigação)
família, escola, associações,
2ª seleção Ministério Público (acusação)
igreja, opinião pública
3ª seleção Judiciário (julgamento)

Nesse contexto, o controle social alternativo é uma forma de reação popular ao sistema
penal vigente, de modo a combater suas injustiças e disparidades. Segundo Baratta (1989),
o controle social alternativo é o processo através do qual a maioria dos membros de uma
sociedade organiza defesas públicas eficazes frente à negatividade social e à violência exer-
cida pelas minorias que detêm o poder. Deve ter características opostas em relação às que
são próprias do sistema da justiça criminal, a fim de evitar a injustiça e a ineficácia típicas
das intervenções desse sistema.

2. FUNÇÕES DA CRIMINOLOGIA
A função da criminologia é reunir conhecimentos sobre o crime, o criminoso, a ví-
tima e o controle social para compreender cientificamente o fenômeno criminal, para
assim possibilitar que possa ser prevenido e reprimido com eficiência, intervindo no
delinquente.
A criminologia se presta a fornecer um diagnóstico sobre o delito e permitir a atuação
sobre o homem criminoso. Não se cuida de um estudo causalista com leis universais exatas,
ou tampouco mera fonte de dados ou estatística. Trata-se de ciência prática que tem a mis-
são de resolver problemas concretos. Daí o papel da criminologia de controle e prevenção
do fenômeno criminal.
Destarte, a criminologia deve orientar a política criminal possibilitando a prevenção
de crimes, e influenciar o Direito penal na repressão das condutas indesejadas que não
foram evitadas.
Em resumo, a criminologia deve compreender e prevenir o delito, intervir na pessoa do
delinquente e valorar os diferentes modelos de resposta ao fenômeno criminal.
Criminologia 1433

2.2. Criminologia e controle social


As instâncias formais de controle social (Polícia, Ministério Público, Judiciário) provocam
a vitimização secundária. Deriva do tratamento conferido pelas consistindo em sofrimento
adicional causado à vítima por órgãos estatais. Pode emanar do mau atendimento dado
pelo agente público, que leva a vítima a se sentir como um objeto nas mãos do Estado, e
não um sujeito de direitos.
As instâncias informais de controle social (familiares e grupo social da vítima) acarretam
a vitimização terciária. Segregam e humilham a vítima em virtude do crime por ela sofrido.
Pode resultar em desestímulo para a formalização da notitia criminis, ocasionando a cifra
negra (diferença entre a criminalidade real e a registrada pelos órgãos policiais).

2.3. Direito Penal


O gênero ciências criminais (ciências penais) possui como espécies o Direito penal, a cri-
minologia e a política criminal. São ciências autônomas e coexistentes, cada qual com sua
vertente. A criminologia, a política criminal e o Direito penal são os 3 pilares do sistema das
ciências criminais, inseparáveis e interdependentes.
A criminologia investiga as causas do fenômeno da criminalidade segundo o método
experimental, isto é, analisando o mundo do ser. Aborda de maneira científica os fatores
que podem levar o homem a delinquir.
O Direito penal analisa os fatos humanos indesejados e os tipifica criminalmente por
meio de normas penais, no plano do dever ser. Essa dogmática penal abrange a sistemati-
zação, interpretação e aplicação das leis penais. Tem as normas positivadas como ponto de
partida para a solução dos problemas.

3. MODELOS TEÓRICOS DA CRIMINOLOGIA


Criminologia clássica e neoclássica
A criminologia clássica não se preocupa com a ressocialização ou reintegração do delin-
quente. Ocupa-se da dissuasão penal, residindo nesse efeito inibitório da pena a essência
da prevenção.
O que distingue o modelo clássico do neoclássico é o fato de o primeiro concentrar
a prevenção em torno da pena e seu rigor, enquanto no último o poder dissuasório está
conectado mais ao funcionamento do sistema normativo (e sua percepção pelo criminoso
em potencial).5
Criminologia positiva
Funda-se a criminologia positiva nos fatos decorrentes do empirismo, ou seja, observa-
ção e experimentação (e não mera especulação, que não tem valor científico).

5 LIMA JÚNIOR, José César Naves de. Criminologia. Salvador: Juspodivm, 2017, p. 78.
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O objeto da criminologia é o delinquente, e não o delito (considerado mera abstração


advinda da lei). O crime é apenas o sintoma do criminoso, este sim devendo ser examinado.
A criminologia deve explicar as diferenças (físicas, psicológicas e sociais) entre delin-
quentes e não delinquentes, sujeitando então os comportamentos criminais ao determi-
nismo (nega-se o livre-arbítrio). 6
Criminologia moderna
Com a criminologia moderna o núcleo investigativo migrou do homem delinquente
para a conduta criminosa, a vítima e o controle social. Consiste em ciência explicativa do
crime como fenômeno individual e social, examinando o criminoso por sua unidade biop-
sicossocial.
São as principais características da criminologia moderna:7
a) caracterização do crime como problema;
b) ampliação do objeto do estudo da criminologia (examinando não só o crime e o
criminoso, mas também a vítima e o controle social);
c) o saber criminológico tem seu enfoque na prevenção e não exclusivamente na ob-
sessão de repressão;
d) preocupação com tratamento é substituída pela intervenção, por consistir em no-
ção mais dinâmica e complexa do fenômeno delitivo;
e) não renuncia a uma análise etiológica do delito (de investigação da criminogênese,
ou seja, das causas do delito).

3.1. Teorias sociológicas


A abordagem sociológica da criminalidade atinge altos níveis de influência na gênese
delitiva, sendo preciso estudar os fatores mesológicos que repercutem na criminalidade.8
a) Pobreza
Estatísticas criminais evidenciam que existe uma relação de proximidade entre pobreza
e criminalidade.
Evidentemente não se trata de fator determinista ou condicionante extremo, caso contrá-
rio não existiriam crimes de colarinho branco praticados por integrantes do alto estrato socioe-
conômico. Mas não se pode negar que em certas categorias delitivas, a exemplo dos crimes
contra o patrimônio, a imensa maioria dos delinquentes é pobre e com formação deficiente.
Nesse sentido, a má distribuição de renda atua como fator potencializador da delin-
quência. É indubitável que, no Brasil, o desemprego e subemprego representam um estí-
mulo ao incremento da criminalidade.

6 LIMA JÚNIOR, José César Naves de. Criminologia. Salvador: Juspodivm, 2017, p. 79.
7 GOMES, Luiz Flávio; MOLINA, Antonio Garcia-Pablos de. Criminologia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008, p. 40.
8 PENTEADO FILHO, Nestor Sampaio. Manual esquemático de criminologia. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 124.
Criminologia 1435

b) Meios de comunicação
Os meios de comunicação em massa, sobretudo televisão, acabam por banalizar a vio-
lência e ignorar a função pedagógica que deveria exercer nos sentido de reforçar os pre-
ceitos éticos.
c) Habitação: condições desfavoráveis de moradia, com proliferação de favelas, em na-
da contribuem para o controle da criminalidade.
d) Migração: o movimento interno populacional pode ocasionar dificuldades de adap-
tação em face da diferença de costumes, usos, hábitos, valores, etc.
e) Crescimento populacional: o aumento desordenado da população não deve ser ig-
norado, pois o aumento das taxas criminais por áreas geográficas é proporcional ao
crescimento da respectiva densidade demográfica.
f) Preconceito: o estereótipo negativo, fundado em ideia equivocada preconcebida
sobre raça, cor, etnia, religião ou outros aspectos, acaba por fomentar animosidades
e a desarmonia, culminando na prática de crimes.
g) Educação: educação e ensino são fatores inibitórios da criminalidade, de maneira
que assumem relevância especial tanto a educação formal quanto a educação in-
formal.
h) Mal-vivência: o estabelecimento de um grupo polimorfo de indivíduos à margem da
sociedade, em situação de parasitismo sem aptidão para o trabalho, representa um
perigo social e um fator a ser considerado pela criminologia.

3.2. Prevenção na infração penal no Estado Democrático de Direito

Princípios da criminologia prevencionista


a) existencialismo absoluto da relação causa-efeito (nada existe sem uma causa);
b) prevenção é a única responsável pela neutralização das causas criminógenas;
c) solução para o problema criminal está na transformação do mau caráter em bom caráter

Modelos teóricos de prevenção do delito


a) Modelo clássico: centra os olhares na pena, isto é, na suposta eficácia preventiva decorrente do caráter inti-
midador da sanção penal em relação ao criminoso.
b) Modelo neoclássico: fixa-se em torno da efetividade do ordenamento jurídico, especialmente como é perce-
bido pelo infrator.

Prevenção situacional
Cuida-se de método de prevenção do crime que busca diminuir as oportunidades que influenciam na concre-
tização do delito. Pressupõe a seletividade do crime.

Espécies de prevenção
a) Prevenção primária:
b) Prevenção secundária:
c) Prevenção terciária:
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3.3. Prevenção primária


Conscientização social através de políticas públicas, especialmente educação, saúde, mora-
dia, emprego e lazer (enfoque etiológico), formando cidadãos para que não compactuem com
tentações que levam a uma vida desregrada. Atua na origem da criminalidade, neutralizando
o delito antes que aconteça. Diz respeito a instrumentos preventivos de médio a longo prazo.

3.4. Prevenção secundária


Conjunto de ações policiais e políticas públicas dirigidas aos grupos da sociedade (e
não a indivíduo determinado) que apresentam o maior risco de sofrer ou praticar o delito.
Atua no momento posterior ao crime ou em sua iminência. Refere-se a instrumentos pre-
ventivos de curto a médio prazo.

3.5. Prevenção terciária


Medidas voltadas à população carcerária, com caráter punitivo e com desiderato na
recuperação do recluso para evitar sua reincidência por meio da ressocialização.

3.6. Modelos de reação de crime


a) Modelo dissuasório clássico: tem o foco na punição do criminoso, mostrando que
o crime não compensa. Prima pelo caráter implacável da resposta punitiva estatal,
suficiente para a reprovação e prevenção de futuros crimes.
b) Modelo ressocializador: joga luzes na recuperação do delinquente, atribuindo à pe-
na a finalidade de ressocialização (prevenção especial positiva) para que o criminoso
possa ser reintegrado à sociedade.
c) Modelo integrador (consensual): baseia-se no acordo, subdividindo-se em
– modelo de Justiça Restaurativa: visa à pacificação do conflito e reparação do da-
no à vítima (Justiça Restaurativa), com a menor intervenção estatal possível e
deixando o sistema carcerário como última opção.
– modelo de Justiça Negociada: busca a confissão do delito com assunção da cul-
pa, para celebração de acordo que envolva a quantidade e qualidade da pena.

4. CONCEITOS DE CRIME, DE CRIMINOSO E DE PENA NAS DIVERSAS CORRENTES


DO PENSAMENTO CRIMINOLÓGICO (NAS ESCOLAS CLÁSSICA, POSITIVA E TÉC-
NICO-JURÍDICA E NA CRIMINOLOGIA CRÍTICA)9
Escola clássica
Origem
As ideias do Iluminismo no século XVIII, que influenciaram Beccaria em sua obra Do De-
lito e Das Penas, na qual apresenta princípios básicos de tratamento do fenômeno criminal.

9 SUMARIVA, Paulo. Criminologia: teoria e prática. Niterói: Impetus, 2017, p. 39-46.


Criminologia 1437

Autores
Beccaria, Carrara, Bentham, Feuberbach
Teorias
Jusnaturalismo: decorria da natureza eterna e imutável do homem
Contratualismo: Estado surge do pacto social dos homens, em que cedem parcela de
sua liberdade e direitos em prol da paz social
Princípios
a) crime é um ente jurídico; b) punibilidade deve se basear no livre-arbítrio; c) pena deve
ter caráter de retribuição; d) método lógico-dedutivo
Escola positiva
Origem
Criminologia científica dos séculos XIX e início do XX, inaugurada por Lombroso e sua
obra O Homem Delinquente
Autores
Lombroso, Garófalo, Ferri
Princípios
a) o Direito penal é obra humana; b) responsabilidade decorre do determinismo social;
c) defende o tratamento do criminoso; d) delito é fenômeno natural e social; pena é instru-
mento de defesa social (prevenção geral); e) uso do método do empirismo (especulação
não tem valor científico)
Teses de Lombroso
a) existência de criminosos natos, seres mal acabados; b) criminosos natos são antro-
pologicamente diferentes, apresentam características de mongoloides e africanoides;
c) epilepsia é fator dominante na gênese da criminalidade; d) criminoso exteriormen-
te reconhecível (atávico) é homem menos civilizado; e) prostituição feminina equivale à
criminalidade masculina; f) crime é fenômeno biológico e não ente jurídico; g) método in-
dutivo-experimental
Teses de Garófalo
a) crime é sintoma de anomalia moral ou psíquica do indivíduo; b) criminosos possuem
características fisionômicas especiais; c) delito é a lesão ao senso moral; d) temibilidade é o
propulsor do delinquente, e portanto a justificativa para o tratamento; e) intervenção penal
deve se dar também pela medida de segurança
Teses de Ferri
a) delito é resultado de fatores antropológicos ou individuais, físicos e sociais (possuin-
do estes a maior relevância na determinação do delito); b) criminoso não é moralmente
responsável pela sua conduta; c) determinismo deve se chamar periculosidade, que deve
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ser neutralizada pelo poder público; d) para se proteger da criminalidade a sociedade deve
deixar de apenas reagir tardiamente, mas prevenir o delito.
Escola técnico-jurídica
Origem
Reação à Escola Positivista no início do século XX
Autores
Manzini, Massari, Conti
Princípios
a) delito como relação jurídica, de conteúdo individual e social; b) pena é uma reação e
consequência do crime, com finalidade de prevenção (geral e especial); c) previsão de me-
dida de segurança para sancionar inimputáveis; d) responsabilidade moral (livre-arbítrio)
Criminologia crítica
A Criminologia Crítica é uma vertente de base marxista. Em linhas gerais, pode-se dizer
que propõe a negação do capitalismo e apresenta o delinquente como vítima da socie-
dade. Sua principal teoria criminológica, denominada teoria crítica, sustenta que os fatos
criminosos não são definidos de acordo com o sentimento moral do povo, mas apenas para
favorecer os interesses das classes dominantes. Desse modo, o sistema penal se destina a
atender unicamente aos ditames do capitalismo, e no lugar de combater a criminalidade,
serve de mola propulsora para ela.

5. VITIMOLOGIA
Vitimologia é a disciplina que estuda a vítima enquanto sujeito passivo do crime, sua
participação no delito e os fatores de vulnerabilidade.
Vítima é a pessoa que sofre a ação criminosa e tem seu bem jurídico atingido, figurando
como sujeito passivo da infração penal.
Classificação das vítimas
As vítimas podem ser classificadas em:10
a) vítima nata: possui predisposição para ser vítima;
b) vítima potencial: apresenta comportamento, temperamento ou estilo de vida que
atrai o criminoso, facilitando o desfecho do delito (na legislação brasileira, o com-
portamento do ofendido só configura atenuante caso consista em injusta provoca-
ção seguida de violenta emoção do criminoso – art. 65, III, c do CP);
c) vítima eventual (real ou inocente): não contribui em nada para a ocorrência do cri-
me, é a verdadeira vítima;

10 SUMARIVA, Paulo. Criminologia: teoria e prática. Niterói: Impetus, 2017, p. 109.


Criminologia 1439

d) vítima agressora (imaginária ou putativa): em decorrência de anomalia psíquica,


acredita ser vítima de crime;
e) vítima falsa (simuladora): consciente de que não foi vítima de delito, imputa a al-
guém a prática de crime contra si por vingança ou interesse pessoal – na legislação
brasileira, pode configurar crime de denunciação caluniosa, comunicação falsa de
crime ou calúnia (arts. 339, 340 ou 138 do CP);
f) vítima voluntária (provocadora): consente com o crime, exercendo papel participa-
tivo no evento delitivo (na legislação brasileira, o consentimento do ofendido pode
excluir o crime se o dissentimento for elementar do tipo penal, ou atuar como causa
supralegal de exclusão da ilicitude se o bem jurídico for disponível);
g) vítima acidental: é vítima de si mesma, dando causa ao fato por culpa;
h) vítima ilhada: afasta-se das relações sociais e se torna solitária;
Complexo criminológico delinquente e vítima
Síndrome de Estocolmo é o estado psicológico desenvolvido por algumas vítimas de
sequestro ou de ações que envolvam restrição da sua liberdade, que criam laços afetivos
com seu algoz, decorrente do próprio instinto de sobrevivência.
Síndrome da mulher de Potifar traduz a figura criminológica a mulher que, rejeitada afeti-
vamente, imputa falsamente a quem a ignorou o delito de estupro ou outra conduta ofensiva
à dignidade sexual. Esse termo decorre de uma passagem bíblica, que noticia um episódio
no qual a esposa de Potifar, por não ter sido correspondida por José, acusou-o falsamente de
tê-la estuprado. A mentira da suposta vítima é particularmente perigosa nos crimes sexuais,
que não raras vezes são praticados na clandestinidade, sem a presença de testemunhas ocu-
lares. E por isso mesmo a palavra da ofendida ganha especial relevo, considerado que é meio
de prova (art. 201 do CPP) e possui força para sustentar uma condenação.11
Política criminal de tratamento da vítima
As ações afirmativas de tutela de vítimas historicamente foram tímidas. Sempre se prio-
rizou a justiça retributiva, com foco em punir o infrator, em vez da justiça restaurativa que
é norteada por reparar o dano à vítima.
Todavia, recentemente foram criados institutos penais e processuais penais sob o en-
foque da vítima, fruto de estudos criminológicos e da mudança da política criminal. Es-
se papel crescente da vítima no âmbito criminal é denominado de privatização do Direito
penal. Busca-se uma terceira via que rompa a anterior dicotomia limitada à retribuição e
prevenção, incluindo a reparação. 12
Um marco no Brasil foi a criação da Lei 9.099/95, que evita a pena privativa de liberdade
ao possibilitar a composição dos danos e a transação penal, além de prever a suspensão
condicional do processo que pressupõe a reparação do dano (arts. 74, 76 e 89).

11 STJ, AgRg no REsp 1.346.774, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, DJ 18/12/2012.
12 CUNHA, Rogério Sanches. Manual de direito penal: parte geral. Salvador: Juspodivm, 2015, p. 40.
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Posteriormente a Lei  9.714/98 estabeleceu a prestação pecuniária (art.  45,§1° do CP)


como pena alternativa à prisão, tendo a vítima como possível destinatário.
Na sequência, a Lei 11.719/08 autorizou o juiz criminal, no momento da sentença con-
denatória, a fixar o quantum mínimo indenizatório para reparar os danos causados pela
prática do crime (art. 387, IV, CPP).
Merece destaque também a edição da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), ação afirma-
tiva em prol das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
Andou bem, de igual forma, a Lei 11.690/08, que alterou o art. 201 do CPP para estabe-
lecer a obrigação de comunicar o ofendido dos atos processuais relativos ao ingresso e à
saída do acusado da prisão, a reserva de espaço separado para a vítima em audiências, o
encaminhamento do ofendido para atendimento multidisciplinar, além da preservação de
sua intimidade, vida privada, honra e imagem.
Mais recentemente a Lei 13.431/07 (em vacatio legis) trouxe proteção adicional a víti-
mas crianças e adolescentes.

Justiça Retributiva Justiça Restaurativa


O crime é ato contra a sociedade O crime é ato que afeta autor, vítima e a sociedade
O interesse na punição é público O interesse maior é reparar o dano
Predomina a indisponibilidade da ação penal Predomina a disponibilidade da ação penal
O foco é punir o infrator O foco é reparar o dano
Predomina a reparação do dano e das penas alternati-
Predominam as penas privativas de liberdade
vas à privativa de liberdade

Privatização do Direito penal ou Terceira via do Direito penal


Mudança de foco da Justiça Retributiva para a Justiça Restaurativa

Processos de Vitimização (vitimização primária, secundária e terciária)


Os processos de vitimização são pontos centrais no estudo da vitimologia, e são classi-
ficados da seguinte forma:
a) Vitimização primária: causada pelo cometimento do crime, acarretando danos ma-
teriais e psicológicos.
b) Vitimização secundária: deriva do tratamento conferido pelas instâncias formais de
controle social (Polícia, Ministério Público, Judiciário), consistindo em sofrimento
adicional causado à vítima por órgãos estatais. Pode emanar do mau atendimento
dado pelo agente público, que leva a vítima a se sentir como um objeto nas mãos do
Estado, e não um sujeito de direitos.
c) Vitimização terciária: decorre de familiares e do grupo social da vítima (instâncias in-
formais de controle social), que segregam e humilham a vítima em virtude do crime
por ela sofrido. Pode resultar em desestímulo para a formalização da notitia criminis,
ocasionando a cifra negra (diferença entre a criminalidade real e a registrada pelos
órgãos policiais).
Criminologia 1441

Merecem destaque ainda:


a) Vitimização indireta: consiste no sofrimento de pessoas ligadas à vítima do delito.
b) Revitimização: processo emocional no qual o ofendido torna-se vítima novamente,
podendo se relacionar com outras pessoas ou instituições (heterovitimização) ou
com sentimentos autoimpositivos de culpa (autovitimização).
Parte da doutrina conceitua heterovitimização como a autorrecriminação da vítima em
decorrência do crime, passndo a buscar razões que a tornaram responsável pelo delito (exs:
deixar o veículo com a chave na ignição, não trancar a porta de casa).
Vale sublinhar também que a chamada vitimodogmática é o estudo da contribuição
da vítima na ocorrência do crime, de modo que essa influência no evento delitivo possa
repercutir na dosimetria da pena.

6. CRIMINOLOGIA CIENTÍFICA E OS SEUS MODELOS TEÓRICOS


A criminologia é ciência que apresenta função, método e objeto próprios, reunindo in-
formações válidas sobre o fenômeno criminal baseada na observação do mundo.
O saber criminológico diferencia-se do conhecimento leigo ou popular, ligado tão so-
mente a experiências práticas carentes de base científica. A investigação criminológica, en-
quanto atividade científica, reduz ao máximo a intuição e o subjetivismo, ao submeter o
fenômeno criminal a uma análise rigorosa e com técnicas adequadas.
Sua metodologia interdisciplinar permite coordenar os conhecimentos obtidos nos
distintos campos de saber pelos respectivos especialistas, eliminando contradições e com-
pletando as lacunas. Oferta, portanto, um diagnóstico qualificado e de conjunto do fato
criminal mais confiável.13
A autonomia da criminologia frente a outras ciências, como o Direito Penal, comprova-
-se, por exemplo, pelo caráter crítico que a primeira desenvolve em relação ao segundo.
Pode-se dizer que a criminologia é uma ciência que dispõe de normas (não jurídicas)
evolutivas e flexíveis.

7. O HOMEM DELINQUENTE. TEORIAS BIOANTROPOLÓGICAS, PSICODINÂMICAS


E PSICOPSICOLÓGICAS
Cesare Lombroso, em seu livro “O Homem Delinquente”, considerou o crime como um
fenômeno natural, sendo possível determiná-lo por causas biológicas que se originariam,
sobretudo, de hereditariedade, criando assim sua teoria do atavismo, que significava a he-
rança genética trazida dos antepassados mais remotos e aflorada através da inclinação pa-
ra a prática delituosa.
Entre as teorias que compuseram o estudo etiológico dado às ciências criminológi-
cas, destaca-se a teoria bioantropológica, que mantinha o foco no estudo individual do

13 MOLINA, Antonio García-Pablos de. Tratado de Criminologia. Valencia: Tirant Io Blanch, 1999, p. 212.
1442 Revisão Final – Delegado de Polícia Civil/BA

criminoso, privilegiando as questões de seu âmbito pessoal, em detrimento das questões


que permeiam o ambiente em que vive.
Essa teoria atribui ao crime fatores que fazem parte da composição orgânica do crimi-
noso, tentando explicar o crime através de uma predeterminação que não vinha delineada
pelo meio ao que o criminoso pertence, mas por fatores biológicos que o impedem de
tomar decisão contrária ao delito, demonstrando assim o caráter determinista da crimi-
nologia bioantropológica. Para a bioantropologia, o criminoso era um ser diferente e que
também seria vitima do crime, uma vez que fugiria ao seu alcance lutar contra sua própria
natureza criminosa. Lombroso foi um grande representante dos defensores desta teoria
juntamente com outros frenologistas, fisionomistas e alienistas.
Também pertencente à escola etiológica positivista, as teorias psicodinâmicas passa-
ram a atribuir o delito muito mais aos fatores educacionais do indivíduo do que aos fatores
genéticos, como fazia a teoria bioantropológica.
O que diferenciaria o criminoso do sujeito normal, não seria mais a árvore genealógi-
ca menos ou mais presente nas instituições carcerárias, mas toda a questão psicológica
que teria levado esse indivíduo a ser mais ou menos educado para cumprir as normas
sociais.
As teorias psicodinâmicas do comportamento defendiam que a personalidade de al-
guém forma-se a partir dos conflitos psicológicos e a forma como são solucionados, o que
geralmente ocorrerá durante a infância. Diversas forças internas vão formar os motivos pe-
los quais alguém age ou deixa de agir de acordo com as normas sociais.
Levanta-se a hipótese na qual o questionamento que deve ser feito diante do problema
do delito é “por que não delinquimos” ao invés de “por que delinquimos?”
A inversão trazida pela criminologia com enfoque psicossociológico se baseia em um
retorno aos ensinamentos de Plauto, mais tarde reproduzidos por Hobbes quanto à mal-
dade natural do homem (homo homini lupus). A proposta é compreender o que leva o
homem a abandonar sua característica naturalmente delitiva e cumprir as normas sociais.
Nessa perspectiva, quem deve ser estudado é o não criminoso, pois ele é o ser que foge a
normalidade de sua espécie para se adaptar a uma forma de vida social.

8. A SOCIEDADE CRIMINÓGENA. SOCIOLOGIA CRIMINAL E DESORGANIZAÇÃO


SOCIAL. TEORIAS DA SUBCULTURA DELINQUENTE E DA ANOMIA. A PERSPEC-
TIVA INTERACIONISTA
Vejamos as principais classificações e teorias criminológicas.14
a) Escola de Chicago
Foi criada no início do século XX por membros da Universidade de Chicago, tendo co-
mo precursores Robert Park.

14 LIMA JÚNIOR, José César Naves de. Criminologia. Salvador: Juspodivm, 2017, p. 111-130.
Criminologia 1443

O contexto social era de grande desenvolvimento econômico e industrial nos Estados


Unidos. Milhares de migrantes e imigrantes habitavam as periferias em condições precárias
de estrutura (como falta de higiene, segurança e iluminação pública).
Nesse meio de miséria e desigualdades sociais, uma parcela da população não conse-
gue se adaptar aos valores daquele corpo social dominante, gerando criminalidade.
Nesse cenário, atribuíram à sociedade (e não ao indivíduo) as causas da criminalidade.
Apontaram a influência do entorno urbano sobre a conduta humana, concebendo o meio
urbano como um organismo dividido em zonas de trabalho, moradia, lazer, dentre outros.
A importância da Escola foi compreender a criminalidade urbana, desenvolvendo mé-
todos de estudo como a observação participante; bem como definir o conceito de ecologia
urbana (segundo a qual a causa da criminalidade são as cidades).
b) Teoria da Associação Diferencial
Baseou-se no pensamento de Sutherland. Para essa corrente de estudo, o delito não
consiste apenas em inadaptação de pessoas pertencentes a classes menos favorecidas,
porquanto o crime não é sua exclusividade.
O comportamento humano tem origem social, e o homem aprende a conduta desviada
a partir de valores predominantes desviantes em seu rupo social. O delito acontece quando
as considerações favoráveis ao proceder desviante superam as desfavoráveis.
c) Teoria da Anomia
Anomia significa ausência de lei. Baseia-se essa teoria em noções de ciências biológicas,
conhecimento este transposto para as ciências sociais.
A sociedade é vislumbrada como um organismo humano, que necessita realizar certas
funções vitais para manter a própria sobrevivência. Quando isso não ocorre, surge a disfun-
ção, falha no sistema de funcionamento da sociedade. Nesse caso, deve a sociedade reagir
para saná-la.
Com efeito, caso os mecanismos reguladores da vida em sociedade não consigam cum-
prir sua função, instala-se a anomia, ou seja, a ausência ou decomposição das normas sociais.
O enfrentamento da criminalidade não reside na prevenção especial ou prevenção ge-
ral, mas na satisfação da consciência coletiva. Assim fazendo, a sanção preserva o corpo
social e secundariamente castiga o culpado, desestimulando o cometimento de novas in-
frações penais.
O crime pode ser considerado fenômeno cultural dentro da sociedade, mas deve per-
manecer dentro de certos níveis de tolerância. Caso contrário, instala-se o caos, estado de
desorganização generalizada que chega a comprometer valores e desacreditar o sistema
normativo de conduta.
d) Teoria da Subcultura Delinquente
Em uma sociedade competitiva, as desigualdades entre seus membros podem defla-
grar um sentimento de humilhação e fracasso entre os menos aptos.
1444 Revisão Final – Delegado de Polícia Civil/BA

Essa percepção recrudesce nas escolas, onde os jovens de famílias menos abastadas
submetem-se a uma espécie de desestruturação cultural em que o padrão de valores trans-
mitidos no ambiente educacional pertence às classes mais favorecidas.
Neste panorama, surgem as subculturas delinquentes, que nada mais são do que uma
reação das minorias e dos menos favorecidos, para sobreviver dentro de uma cultura social
de escassas possibilidades.
e) Teoria Crítica (Radical)
O delito está diretamente associado à estrutura política e econômica da sociedade. As-
sim, o rótulo de criminoso atribuído a uma pessoa não decorre da prática de um fato into-
lerável pelo corpo social, mas por servir aos interesses da classe dominante.
Essa teoria parte da ideia de que a divisão de classes no sistema capitalista gera desi-
gualdades e violência, contida pela legislação penal. Desse modo, a norma busca assegurar
uma provisória estabilidade, contendo as confrontações violentas entre classes de uma de-
terminada sociedade.
f) Teoria do Etiquetamento (Labelling Approach)
Também denominada teoria da rotulação social, etiquetagem, interacionista ou reação
social. Funda-se na ideia de que a intervenção da justiça na esfera criminal pode acentuar
a criminalidade.
A prisão e o contato com os outros presos constituem condição favorável para a criação
de mais criminosos. Ou seja, a criminalidade é criada pelo próprio controle social.
g) Teoria do Delito como Eleição
Origina-se essa teoria na Escola Clássica do século XVIII, cuja premissa é o livre-arbítrio
(liberdade de escolha entre praticar ou não um delito).
Não estuda as causas do comportamento criminoso, ignorando os possíveis fatores que
influenciaram o delinquente nesta escolha.
Trata-se de decisão livre e soberana de infringir a norma penal, mesmo considerando a
existência da pena (instrumento de dissuasão no sentido de que o benefício atingido com
o crime é inferior ao mal advindo com sua prática).
h) Teoria das Predisposições Agressivas
Originária da Escola Biológica da criminologia (que teve Lombroso como seu represen-
tante), acredita que o atavismo (caracteres físicos e morais de antepassados, e que podem
reaparecer em seus descendentes) é causa da existência de criminoso nato.
O delinquente nato é caracterizado por sinais físicos e psíquicos, como a forma do crâ-
nio, da face, do maxilar, sobrancelhas, dentre outros sinais.
i) Teoria Behaviorista
A prática do delito é resposta às causas que o levaram a agir daquela forma.
Trata-se da teoria do comportamento, desenvolvida por John Watson, cuja finalidade
está na previsão e controle da conduta humana sob a lógica do estímulo e resposta.
Criminologia 1445

j) Teoria das Janelas Quebradas


Defende a repressão a delitos menores para inibição dos mais graves.
Essa teoria criou o movimento da Tolerância Zero, implementado em Nova Iorque pelo
prefeito Giuliani.

9. A CRIMINOLOGIA E O PARADIGMA DA REAÇÃO SOCIAL


Criminologia de Reação Social estuda os processos de criação de normas penais e so-
ciais que estão relacionados com o comportamento desviante.
A teoria da reação social também é conhecida como teoria do etiquetamento, interacio-
nismo simbólico, teoria da rotulação. A teoria surge nos Estados Unidos, na década de 60, e
tem suas bases na obra de Émile Durkhein.
Essa teoria induz que, a partir do momento em que o sujeito delinque, a sociedade já
passa a estigmatizá-lo como delinquente. Aquele que praticou o delito já começa a ser
reconhecido por ele próprio como marginal. Uma vez adquirido o status de desviado ou de
delinquente, é muito difícil modificá-lo, por duas razões: a) pela dificuldade da comunidade
aceitar novamente o indivíduo etiquetado; b) porque a experiência de ser considerado de-
linquente, e a publicidade que isso comporta, culminam em um processo no qual o próprio
sujeito se concebe como tal.
Ocorre o chamado mergulho ao papel desviado (role engulfment). É uma das mais per-
versas consequências do processo de desviação, pois à medida que o mergulho no papel
desviado cresce, há uma tendência para que o autor do delito defina-se como os outros o
definem.
Em síntese, a ideia dessa teoria é demonstrar que a partir do momento que o agente
pratica o primeiro crime, passa a personificar a figura do “bandido”, “ladrão”, “drogado”,
“assassino” perante os olhos da sociedade.
A etiqueta ou rótulo (por meio do atestado de antecedentes e a divulgação nos meios
de comunicação, notadamente, nos jornais sensacionalistas) acaba por afetar o indivíduo,
gerando a expectativa social de que a conduta venha a ser praticada, perpetuando o com-
portamento delinquente e aproximando os indivíduos rotulados uns dos outros.
O estigma que permeia a vida do criminoso afeta não só a sua percepção sobre si mes-
mo, mas também gera rejeição social, que geralmente se manifesta como descrença na
recuperação e ressocialização desse indivíduo. Assim, criam-se circunstâncias que impelem
o agente à mantença do comportamento criminoso, pois, em grande parte das vezes, ainda
que tente seguir um estilo de vida lícito após os fatos, continuará sendo etiquetado como
criminoso, o que dificultará sua reinserção em sociedade.

10. CRIMINOLOGIA NA AMÉRICA LATINA E AS AGÊNCIAS DE CONTROLE


As teorias da reação social explicam a de atuação do sistema penal a partir da atuação
das agências de controle social do Estado – leia-se a Polícia, o Ministério Público, o Poder
1446 Revisão Final – Delegado de Polícia Civil/BA

Judiciário – que selecionam determinadas condutas e pessoas para lhes atribuir um rótulo,
o de criminoso, marcando uma mudança paradigmática nos estudos criminológicos.
Sob essa perspectiva, são as agências de controle social que produzem o crime, e não
o crime que dá origem ao controle social, uma vez que podem ser rotuladas as pessoas
que sequer tenham quebrado uma regra, de acordo com fatores da personalidade ou sua
condição pessoal de vida.
O homem é rotulado quando pratica um ato qualificado como desviante, processo chama-
do de criminalização primária, ou seja, dá-se a criação de uma norma penal que qualifica o ato
como criminoso, enquanto a criminalização secundária ocorre quando os agentes de controle
social enquadram um ato praticado por um sujeito nas condições da criminalização primária.
O objeto de estudo da criminalidade pode ser alterado dos meios de criminalização pa-
ra as agências de controle social, pois elas são os agentes de criminalização de condutas e
pessoas pela seleção de qualidades atribuídas por meio dos processos de interação social,
segundo a distribuição de poder na sociedade.
A criminalidade deve ser reconhecida como um bem negativo, desigualmente distribuí-
do na sociedade, segundo uma hierarquia de interesses estabelecidos pelo sistema socioe-
conômico e a desigualdade social.

11. CRIMINOLOGIA E POLÍTICA CRIMINAL E 12. CRIMINOLOGIA E CIÊNCIA CRI-


MINAIS
O gênero ciências criminais (ciências penais) possui como espécies o Direito penal, a
criminologia e a política criminal. São ciências autônomas e coexistentes, cada qual com
sua vertente. A criminologia, a política criminal e o Direito penal são os 3 pilares do sistema
das ciências criminais, inseparáveis e interdependentes.
A criminologia investiga as causas do fenômeno da criminalidade segundo o método
experimental, isto é, analisando o mundo do ser. Aborda de maneira científica os fatores
que podem levar o homem a delinquir.
O Direito penal analisa os fatos humanos indesejados e os tipifica criminalmente por
meio de normas penais, no plano do dever ser. Essa dogmática penal abrange a sistemati-
zação, interpretação e aplicação das leis penais. Tem as normas positivadas como ponto de
partida para a solução dos problemas.
A política criminal tem por objetivo criar estratégias concretas de controle da criminali-
dade, a fim de manter seus índices em níveis toleráveis.15 Toma como base o fundamento
científico fornecido pela criminologia, e por meio de juízo de valor busca criticar e apresen-
tar propostas para a reforma do Direito penal. Nesse sentido, representa uma ponte entre
a realidade e a teoria jurídico-penal.16.

15 GOMES, Luiz Flávio; MOLINA, Antonio Garcia-Pablos de. Criminologia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008,
p. 163.
16 GARCIA, Basileu. Instituições de direito penal. v. 1. t. I. São Paulo: Max Limonad, 1975. p. 37.
Criminologia 1447

Ciências penais (Ciências criminais)17


Criminologia Direito penal Política criminal
Analisa fatos humanos inde-
Estuda o crime, o criminoso, a
sejados, tipificando infrações Traça meios de controle
Finalidade vítima e o comportamento so-
penais e cominando sanções social da criminalidade
cial
penais
Crime enquanto fato Crime enquanto norma Crime enquanto valor
Objeto
(o que é) (o que deve ser) (como deve ser)
Analisa o fenômeno do homicí-
Estuda formas de dimi-
Exemplo dio, o homicida, o ofendido e o Define o crime de homicídio
nuir o homicídio
comportamento da sociedade

Em outras palavras, são incumbências:


17

a) criminologia: fornecer o substrato empírico do sistema (fundamento científico);


b) política criminal: transformar a experiência criminológica em opções e estratégias
concretas de controle da criminalidade.
c) Direito penal: converter em proposições jurídicas, gerais e obrigatórias, o saber cri-
minológico fornecido pela política criminal.
A criminologia não se limita a investigar as causas da criminalidade, possuindo papel
bem mais importante de analisar as condições da criminalização que abrangem não só a
infração penal, mas o delinquente, o ofendido e o controle social.

13. CRIMINOLOGIA E O SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL


O sistema de justiça criminal se posiciona dentro do sistema formal de controle social.
É formado pelo Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia Judiciária e Administração Pe-
nitenciária.
Os órgãos públicos exercem um papel expressivo na condução do controle do fenôme-
no criminal. O funcionamento dessas 4 instâncias (separadas e organizadas) é de fundamen-
tal importância para a criminologia, pois são aplicadores natos do controle social formal.
A atuação integrada entre as Instituições, respeitando obviamente a divisão constitu-
cional de atribuições (o papel e os limites de cada órgão), é crucial para o controle da delin-
quência, tanto em sua faceta de prevenção quanto de repressão.
Vale a pena destacar, por oportuno, que diferente modelos de justiça emergiram ao
longo da história para lidar com o fenômeno criminal, sendo os principais o modelo clássi-
co (justiça retributiva) e o moderno (justiça restaurativa).

Justiça Retributiva Justiça Restaurativa


O crime é ato contra a sociedade O crime é ato que afeta autor, vítima e a sociedade.

17 CUNHA, Rogério Sanches. Manual de direito penal: parte geral. Salvador: Juspodivm, 2015, p. 34.
1448 Revisão Final – Delegado de Polícia Civil/BA

Justiça Retributiva Justiça Restaurativa


O interesse na punição é público O interesse maior é reparar o dano
Predomina a indisponibilidade da ação penal Predomina a disponibilidade da ação penal
O foco é punir o infrator O foco é reparar o dano
Predomina a reparação do dano e das penas
Predominam as penas privativas de liberdade
alternativas à privativa de liberdade

14. CRIMINOLOGIA E O PAPEL DA POLÍCIA JUDICIÁRIA


A segurança pública consiste em dever do Estado, direito e responsabilidade de todos,
sendo exercida para a preservação da ordem pública (art. 144 da CF). Os órgãos policiais
são os incumbidos de garantir a paz social, dividindo-se basicamente em Polícia Adminis-
trativa e Polícia Judiciária.
Nesse panorama, a Polícia Ostensiva desenvolve atividade de cunho preventivo, visan-
do preservar a ordem pública, impedindo a prática de infrações penais (exs: Polícia Militar,
Polícia Rodoviária Federal, Guarda Municipal).
Já a Polícia Investigativa realiza função de caráter repressivo, apurando crimes e auxi-
liando o Poder Judiciário. Sua atuação ocorre depois da prática de uma infração penal e
tem como objetivo precípuo colher evidências da materialidade e autoria do delito (exs:
Polícia Civil e Polícia Federal).
A tarefa de investigar infrações penais exercida pela Polícia Judiciária possibilita que a
materialidade e autoria do crime sejam desvendadas (art. 2º da Lei 12.830/13). Evidencia as
circunstâncias delitivas, demonstrando o crime e o criminoso, e desse modo protegendo
a vítima.
Nesse sentido, a Polícia Judiciária faz parte do chamado controle social formal, mais
especificamente na primeira seleção, responsável pela investigação criminal do crime que
não foi evitado pelo controle social informal. Dessa maneira possibilita a acusação e o jul-
gamento pelo Ministério Público e Judiciário, respectivamente, somando esforços para
submeter os indivíduos às normas de convivência em sociedade.

15. A CRIMINOLOGIA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO


No Estado Democrático de Direito, o saber criminológico prima pela prevenção, partin-
do-se da premissa que é melhor prevenir o crime do que reprimi-lo.
Reparar o dano, ressocializar o delinquente e reprimir o crime são focos centrais do con-
teúdo científico da criminologia no cenário atual. Nesse panorama, a prevenção do delito é
um assunto recorrente em todas as esferas do poder público.
Estudam-se os fatores inibidores e estimulantes da criminalidade para elaboração de
programas prevencionista. Fatores como desemprego, miséria, falta de assistência social,
desigualdade e corrupção estimulam o fenômeno criminal, enquanto trabalho, educação,
saúde, democracia, igualdade e justiça social inibem o crime.