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FUNCIONÁRIO PúBLICO - CONCURSO - NOMEAÇÃO

- A demissão, por justa causa, de emprego público, não im-


pede a readmissão do dispensado em cargo que conquistou por con-
curso público a que se submeteu. Tampouco é impeditivo dessa read-
missão o fato de o interessado ter-se envolvido, em concurso ante-
rior, como beneficiário da "quebra de sigilo" da prova, por isso
que, aprovado em primeiro lugar naquele concurso, viu anulada a
sua prova e dispensado da função pública que ocupava. Foi, assim,
punido, exemplarmente. Impedir o seu reingresso no serviço público
em cargo conquistado em novo concurso público seria puni-lo duas
vezes por uma mesma falta e impor-lhe uma sanção perpétua, que
a Teoria Geral do Direito repele.

TRIBUNAL FEDERAL DE RECURSOS


Mandado de Segurança n9 111. 183
Requerente: Cosme Augusto Rebelo de Amorim
Requerido: Sr. Ministro de Estado do Trabalho
Litisconsorte passivo necessário: Sebastião Ferreira da Costa
Relator p/ac6rdão: Sr. Ministro CAiu.os M. VELLOSO

ACÓRDÃO tora-Geral do Departamento do Pessoal do


Ministério do Trabalho, perante o Juiz Fe-
Vistos e relatados os autos, em que são deral da 31!- Vara, do Distrito Federal,
partes as acima indicadas, decide o Tribu- queixando-se de haver sido preterido pela
nal Federal de Recursos, em Sessão Plená- nomeação de candidatos, ao arrepio de me-
ria, por maioria, conceder a segurança, nos lhor classificação em concurso público para
termos do relatório e notas taquigráficas Fiscal do Trabalho.
anexas, que ficam fazendo parte integrante Notificada a autoridade impetrada, argúiu
do presente julgado. preliminar de incompetência do juízo, vis-
Custas, como de lei. to estar provado não ter sido ela a res-
Brasília, 9 de outubro de 1986. - Lauro ponsável pelo ato impugnado, pois o pra-
Leitão, Presidente. - Carlos M. Velloso, ticou em estrita obediência a determinação
Relator. do Sr. Ministro do Trabalho. O Dr. Juiz,
após ouvir o Ministério Público, determi-
RELATÓRIO nou a vinda dos autos ao Tribunal (fls.
188-91).
O Sr. Ministro Gueiros Leite (Relator): Sem liminar, foram requisitadas informa-
Cosme Augusto Rebelo de Amorim impe- ções e admitido o ingresso nos autos de
trou mandado de segurança contra a Dire- Sebastião Ferreira da Costa, como litiscon-

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sorte passivo necessário,· por ser aquele can- 22, V), exigido com rigor para o exercício
didato pretendidamente nomeado em lugar do cargo de Fiscal do Trabalho (fls.
do impetrante. Ele compareceu às fls. 214-5, 125-6).
sustentando a legalidade de sua nomeação Também foi ouvida a Consultoria-Geral
e a inexistência de antagonismo entre tal da República que, sem ingressar no mé-
ato e a situação do impetrante. rito da questão, se limitou a opinar no
O Sr. Ministro de Estado do Trabalho sentido de que a competência para o jul-
prestou informações às fls. 205-11, esclare- gamento do writ seria do Tribunal Federal
cendo que de fato dois candidatos classi- de Recursos e não da Justiça Federal de
ficados posteriormente ao impetrante foram primeira instância, razão que pesou tam-
nomeados por decisão sua, pois ele não bém no desaforamento deste processo.
poderia admitir a nomeação de pessoa que Vale ressaltar ainda que, paralelamente
não reunia os requisitos de moralidade exi- ao curso dessa matéria, tramitava pedido
gíveis para o cargo de Fiscal do Trabalho. do impetrante visando à reconsideração da
Eis o histórico dos fatos. decisão proferida no inquérito administra-
O impetrante ocupava a Função de As- tivo, com vistas à sua exclusão do rol dos
sessoramento Superior (FAS), no Dasp, culpados. Apresentou o requerente, como
quando prestou a primeira prova de Fis- argumento, o fato de não haver sido indi-
cal do Trabalho, em 22 de maio de 1983. ciado no inquérito policial, nem ter sido
Em conseqüência de denúncia de fraude, denunciado pelo Ministério Público. O pe-
apurou-se em sindicância a sua implicação dido foi indeferido (fi. 207, item 9).
como beneficiário da quebra de sigilo, esta Chamada a falar nos autos, a ilustrada
provocada pelos executores do concurso. Subprocuradoria-Geral da República deu
O Ministro aprovou as conclusões da parecer no sentido de que o candidato dis-
sindicância e anulou o primeiro concurso. pensado de emprego anterior, por justa
Em seguida determinou a instauração de causa, mas que conquistou outro cargo, em
inquérito para apurar a responsabilidade concurso público, não pode ver impedida,
dos envolvidos. Mas enquanto prosseguia por isso, a sua posse, país a tanto equiva-
o inquérito foi aberto novo concurso, em leria a penalidade acessória convertida em
8 de abril de 1984, do qual também par- sanção de caráter perpétuo (Dr. Nelson Pa-
ticipou o impetrante, como todos os ou- rucker, com aprovação do Dr. Paulo A. F.
tros originariamente inscritos. Sollberger, fls. 218-20).
Concluído o inquérito, restou configura- B o relatório.
da a culpa do impetrante na quebra de
sigilo. A essa altura estava ele novamente VOTO
aprovado, surgindo a dúvida do Departa-
mento de Pessoal do Ministério quanto à O Sr. Ministro Gueiros Leite (Relator):
sua nomeação e iniciando-se uma série de Os fatos revelam que o impetrante, na qua-
consultas, cujas conclusões, embora diver- lidade de candidato ao provimento de va-
gentes, levaram o Sr. Ministro a impedir gas no emprego de Fiscal de Trabalho (LT-
a admissão do candidato. NS-933. A) e, como tal, inscrito em con-
A divergência se deu entre o Dasp (Pa- curso público, ter-se-ia envolvido, em be-
recer n9 763/75) - que era favorável à nefício próprio, na quebra do sigilo das
admissão do impetrante, porquanto a ale- provas, infração funcional de responsabili-
gada violação de sigilo não impediria o dade dos organizadores do certame, Nori-
ingresso do candidato (fi. 82) e o parecer val Nunes da Silva (Diretor-Geral do DP
do Consultor Jurídico, que o Ministro do MT) e Edy de Oliveira Chaves (Diretor
aprovou, fulcrando-se na falta de preenchi- da Divisão de Recrutamento e Seleção), os
mento, pelo candidato, do requisito do quais, agindo isoladamente, prejudicaram a
"bom procedimento" (Lei n9 1.711/52, art. regularidade do concurso.

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Em inquérito administrativo, o Ministério foi composta por três delegados da Polícia
do Trabalho, em face do pedido de sindi- Federal e não discrepou dos resultados co-
cância, apurou que Norival Nunes da Silva lhidos na primeira, com acréscimo da ne-
foi o responsável pela prévia divulgação cessidade de instauração do inquérito poli-
de questões integrantes das provas, passa- cial. Contra o impetrante constam as de-
das a alguns dos candidatos inscritos. Mas clarações do indiciado Edy de Oliveira Cha-
Edy de Oliveira Chaves, subordinado a No- ves, perante a Comissão de Sindicância Po-
rival Nunes e co-responsável na realização licial, muito embora à Comissão de Sindi-
do concurso, enviou, também, através de cância Administrativa tenha ele declarado
malote do Ministério, cadernos de provas apenas conhecer o impetrante. Mas a co-
de direito público e de direito do trabalho, missão de inquérito, concluiu, à fi. 105,
preparados para aplicação nas provas, ao que
seu filho Carlos Roberto dos Santos Cha- " ( ... ) os depoimentos do Sr. Edy de
ves. E deu conhecimento de questões, entre Oliveira Chaves, se analisados nas suas se-
outros, ao impetrante Cosme Augusto Rebe- qüências, levam a concluir que, realmente,
lo Amorim. Todos os beneficiários da frau- o Sr. Cosme Augusto Rebelo de Amorim
de obtiveram excelente classificação. foi beneficiado pelo vazamento do sigilo"
Conforme consta de trechos do inquérito (fi. 1. 178).
administrativo, do inquérito policial e da Sobre o mesmo leia-se mais o seguinte:
denúncia na ação penal, esta última envol- "( ... ) ele compareceu perante a Comis-
vendo apenas Norival Nunes, Tierson Alves são de Sindicância Policial, de livre e es-
e Edy Oliveira, o primeiro deles confessou pontânea vontade, porque 'após prestar as
a fraude perante a Comissão de Sindicância. declarações anteriores', pensando melhor,
E o segundo também, constatando-se os fa- entendeu que deveria falar tudo o que sa-
tos, quanto a ele, através do auto de apre- bia a respeito do concurso de Fiscal do
ensão constante do inquérito administrati- Trabalho, realizado no dia 22 de maio de
vo. Os três foram denunciados como incur- 1983, no que diz respeito ao vazamento do
sos no art. 325, do CP, por violação de sigilo da prova'. Na oportunidade, citou
sigilo profissional: revelar fato de que nominalmente todos aqueles a quem o de-
tinham ciência em razão do cargo e que clarante havia passado as questões das pro-
devia permanecer em segredo. Os benefi- vas do referido concurso. O nome do Sr.
ciários foram arrolados, porém, como tes- Cosme Augusto Rebelo de Amorim foi
temunhas da acusação (fls. 58), muito em- também citado com a complementação de
bora, na qualidade de candidatos envolvi- que havia lhe passado as questões da pro-
dos e que lograram êxito no concurso, tives- va, por telefone, da residência do declaran-
sem sido demitidos dos seus cargos de ser- te para a casa do beneficiado, o qual pres-
vidores do Ministério do Trabalho. O im- tou o concurso em Brasília, obtendo o 1C?
petrante era ocupante da Função de Asses- lugar (fi. 1. 178). Perante esta comissão de
soramento Superior (FAS), do Dasp, de inquérito, o Sr. Edy de Oliveira Chaves
onde também foi afastado. declarou que conheceu o Sr. Cosme Au-
Os autos dão conta, ainda, de que além gusto Rebelo de Amorim, funcionário do
da sindicância foram constituídas duas co- Dasp, em razão de suas constantes idas
missões de inquérito administrativo, pois àquele departamento e, nos contatos que fez
embora a primeira delas tivesse concluído com aquele servidor, fez comentários gene-
pela anulação do concurso, por violação do ralizados a respeito da prova e especial-
princípio da moralidade administrativa e da mente sobre cálculos que seriam objeto de
lealdade do ato administrativo, o Ministro, várias questões. Acrescentou que Cosme
em razão de parecer do seu Secretário-Ge- Augusto Rebelo de Amorim foi ao seu ga-
ral, designou outra para apurar, com maior binete insistindo em saber informações
amplitude, os fatos delituosos. Esta última sobre a prova (fls. 1 . 464/5). Declarou ter

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ocorrido um entendimento entre ele, o Prof. somente ser dito que Edy de Oliveira Cha-
Norival Nunes da Silva, e o próprio Cosme ves havia comentado com Cosme Augusto
Augusto Rebelo de Amorim, quando os três Rebelo de Amorim alguns 'tópicos' sobre
se reuniram na casa do Prof. Norival Nu- as provas do concurso de Fiscal do Tra-
nes da Silva (fi. 1 . 465). A referência à balho. Veja-se o depoimento do indiciado
conclusão da Comissão de Sindicância Poli· à fi. 1.294, onde afirma que Edy de Olivei-
dai não condiz com a realidade, porque ra Chaves com ele havia comentado 'alguns
se não houvesse atribuição de culpa a Cos- tópicos sobre questões de direito do traba-
me Augusto Rebelo de Amorim, não teria lho e de direito público privado, cujos títu-
havido solicitação da remessa de depoimen- los' deveriam ser estudados, acrescentando
tos ao Sr. Diretor-Geral do Dasp, com a que os tópicos comentados por Edy de Oli-
finalidade de dar-lhe conhecimento 'da irre- veira Chaves efetivamente foram objeto da
gularidade atribuída ao servidor daquele prova relativa ao concurso público para
Departamento'. Logo, no entender daquela Fiscal do Trabalho, a que se submeteu, lo-
comissão policial, o indiciado também es- grando a primeira colocação em Brasília.
tava comprometido com as irregularidades O entendimento entre Norival Nunes da
relativas ao Concurso de Fiscal do Traba- Silva, Edy de Oliveira Chaves e o indiciado
lho, porque, de acordo com a confissão do deixou caracterizado o seu envolvimento
Sr. Edy de Oliveira Chaves, havia recebi- com as irregularidades ocorridas no con-
do, com antecedência, as questões da prova curso de Fiscal do Trabalho. Concluiu-se,
do referido concurso. O fato do Sr. Edy portanto, que o indiciado tomou antecipa-
de Oliveira Chaves ter confessado, de livre damente conhecimento das questões da pro-
e espontânea vontade, a falta cometida com va de Fiscal do Trabalho e se beneficiou
relação ao vazamento do sigilo da prova, em detrimento de outros candidatos, se con-
citando nominalmente cada pessoa que se duzindo de maneira repreensível e desleal"
beneficiou com o seu ato, leva à convicção (fls. 106-8).
de que não havia nenhum motivo para en- A Comissão de Inquérito Administrativo
volver o nome do indiciado, se realmente concluiu que o impetrante, entre outros, te-
o mesmo não estivesse envolvido. As con- ria infringido o art. 482, letras a e b, da
tradições e fato narrados pelo Sr. Edy de CLT, e as cláusulas 1.• e 8.• dos respectivos
Oliveira Chaves dão mais elementos sobre contratos de trabalho, porque, na condição
o envolvimento do indiciado, porque, em de servidor público, agira com improbidade
virtude do cargo que ocupava no Ministé- e incontinência de conduta, ensejando a res-
rio do Trabalho, Edy de Oliveira Chaves cisão contratual por justa causa, pelo em-
estava em contato direto com o Dasp, onde pregador. No caso do impetrante, porém,
Cosme Augusto Rebelo de Amorim ocupava mesmo ocupando ele, no Dasp, a Função
um cargo junto ao Diretor-Geral daquele de Assessoramento Superior (FAS), já ha·
Departamento. Lógico que se conheciam via sido dispensado antecipadamente, sem
bastante, ao ponto de o indiciado lhe pedir justa causa e mediante o recebimento de
ajuda para a realização do concurso (fis. alentada importância em dinheiro, como
1. 464/5). Edy de Oliveira Chaves, tanto pagamento de seus alegados direitos traba-
atendeu ao indiciado que depois combina- lhistas na rescisão contratual (fi. 67). Isso
ram em dizer que as informações recebidas porque a consultoria jurídica do órgão, em-
foram somente sobre 'tópicos' da prova de bora reconhecendo haver depoimento pres-
Fiscal do Trabalho. Mas, em suas declara- tado pelo infrator confesso, de que o im-
ções à Polícia, resolveu confessar que de petrante recebera as questões anteriormen-
fato havia lhe passado as questões da refe- te à realização da prova, opinou favoravel-
rida prova. O combinado entre Edy de Oli- mente à dispensa dele sem justa causa, por-
veira Chaves, Norival Nunes da Silva e que o contrário exigiria a comprovação in-
Cosme Augusto Rebelo de Amorim era para dubitável da prática do ilícito (fi. 80).

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Com apoio nesse parecer e em outros pro- força para obscurecer, porém, os fatos co-
nunciamentos da mesma origem, o impe- lhidos na instância administrativa, os quais
trante, após inscrever-se no segundo con- revelam que o impetrante recebera de Edy
curso e obter classificação, pretendeu to- de Oliveira Chaves as questões da primeira
mar posse no cargo, sendo impedido por ato prova. Outro consultor jurídico do Dasp
do Ministro do Trabalho, após ouvir a sua já admitira antes que "na espécie há de-
consultoria jurídica, o Dasp e a Consulto- poimento prestado por infrator confesso de
ria-Geral da República, por achar que a que o interessado recebera as questões an-
matéria era inédita, a requerer uniforme ceriormente à realização da prova" (fl. 50).
pronunciação. O ineditismo do caso repou- Não foi por outro motivo que esse pa-
saria no fato de haver sido o impetrante recer serviu de base à demissão do impe-
dispensado de suas funções no Dasp, pos- trante da sua função no Dasp, pouco im-
sibilitando-se a sua inscrição no segundo portando o argumento da existência ou não
concurso. A Coordenadoria de Legislação de justa causa, porquanto é sabido ocupava
de Pessoal daquele órgão sustentou então o ele mera função de confiança, cujo titular
seguinte: é demissível ad nutum da autoridade com-
"O servidor que forneceu a vários candi- petente.
datos as questões da prova de que se trata Essa orientação do Dasp no caso dos
afirma as haver concedido ao interessado. autos não se impôs, porém, na área minis-
Este, à sua vez, assevera haver, apenas, terial.
comentado tópicos do programa com aquele De fato, baseado no Parecer nQ 66/85,
servidor. de sua assessoria jurídica, que, examinando
A comissão de inquérito concluiu que o consulta feita pelo Departamento de Pes-
referido candidato teria infringido o art. soal, manifestou-se contrário à nomeação
482, alíneas a e b (ato de improbidade e do candidato embora classificado no segun-
incontinência de conduta ou mau procedi- do concurso, o Ministro do Trabalho deci-
mento, respectivamente), da CLT. diu aprová-lo e, em conseqüência, determi-
Não resultou qualquer aplicação de pe- nar àquele departamento que o candidato
nalidade ao interessado, que somente ocupa- Cosme Augusto Rebelo de Amorim não
va função de assessoramento superior neste fosse admitido como Fiscal do Trabalho,
órgão, e da qual foi dispensado, sem justa por não preencher o requisito exigido no
causa. art. 22, V, da Lei nQ 1. 711/52, a saber:
Na ação criminal impetrada, em virtude "Art. 22 . Só poderá ser empossado em
da quebra de sigilo do processo seletivo, cargo público quem satisfizer os seguintes
não houve denúncia do candidato. requisitos:
Em face do exposto e ainda que o inte- (O míssis)
ressado houvesse recebido as questões da V - Ter bom procedimento."
prova, não estaria caracterizada a prática Conforme acentuam as informações, não
de uma infração infamante, que de)]l{)ns- se pode imputar ilegalidade ao ato do Sr.
trasse grau de periculosidade de molde a Ministro, quando no uso de suas atribui-
implicar incompatibilidade para o exercício ções e em nome da moralidade adminis-
da função pública. trativa impediu a admissão de um candi-
Portanto, a alegada violação de sigilo de dato envolvido em falcatruas, tanto mais
que se cuida não impede que o candidato que para ocupar cargo onde se exige do
seja admitido e assuma o exercício de suas servidor o máximo de idoneidade (fl. 208).
atribuições" (fi. 82). Usou ele, pois, sem qualquer desvio, o po-
lê: certo que o impetrante não foi denun- der discricionário de que é detentor, em
ciado criminalmente ou sequer indiciado no defesa da pública administração (fi. 209).
inquérito policial, mas apenas ouvido como Disse-o bem o parecerista de fls. 72-6.
testemunha. Essa possível lacuna não teria No serviço público a prova do bom proce-

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dimento ou da boa conduta era, antes da do fundadas razões de dúvida quanto à ve-
política de desburocratização, aferida por racidade das declarações do candidato, ser-
meio de certidões negativas civis e crimi- lhe-ão logo solicitados esclarecimentos, ano-
nais. Tal prova encontra-se atualmente tando-se a circunstância no processo.
substituída por declaração do próprio can- Claro está, porém, que isso não inibe a
didato, usualmente nos termos de que não administração de procurar elucidar o as-
respondeu ou não responde a processo ou sunto por livre iniciativa, como fez no caso
inquérito nas esferas judiciais e administra- dos autos. Se for apurado que o fato cons-
tivas (fi. 73). tante do inquérito ou processo é incompa-
Está no art. 1Q, Decreto n9 83 . 936/79 . tível com a natureza das atividades do car-
Na CLT, diversamente e do Estatuto, na- go, é lógico e jurídico que se impeça a ad-
da há que preceitue estar o candidato obri- missão do candidato.
gado a comprovar, previamente, o bom pro- Ante o exposto, denego o mandado de
cedimento, o que significa ser conveniente, segurança.
sob o aspecto jurídico, mencionar esse re- E como voto.
quisito, entre outros, no edital de concurso,
ainda que de forma genérica e a ser exigido EXTRATO DA ATA
em fase posterior ao certame.
Consta do edital de concurso, no item MS n9 111.183-DF (7877471) - Relator:
11.2, que a classificação no processo sele- Ministro Gueiros Leite. Requerente: Cosme
tivo não assegura ao candidato o direito à Augusto Rebelo de Amorim. Requerido:
admissão, mas apenas a expectativa de ser Sr. Ministro de Estado do Trabalho. Litis-
admitido segundo rigorosa ordem classifi- consorte passivo necessário: Sebastião Fer-
catória, ficando a concretização desse ato reira da Costa. Advogados: Guaracy da Sil-
condicionada à observância da administra- va Freitas e outro (Reqte.) e Helder Soares
ção. de Almeida (Litisc.).
Sustentou oralmente o Dr. Guaracy da
Em sendo assim, os candidatos deverão
Silva Freitas.
receber tratamento igual, isto é, têm de de-
clarar se já responderam ou se respondem Decisão: o Plenário, após os votos dos
a processo ou inquérito, pois falsearão a Srs. Ministros Relator, Washington Bolí-
verdade se afirmarem negativamente. O var e Torreão Braz, denegando a seguran-
crivo da administração abrangerá a conduta ça, pediu vista dos autos o Sr. Ministro
remota, ou seja, a existência de indiciamen- Carlos M. Velloso. Aguardam os Srs. Mi-
to, e a conduta atual, ou seja, a prestação nistros Otto Rocha, William Patterson,
de declaração falsa. Bueno de Souza, Sebastião Reis, Miguel
Ferrante, José Cândido, Pedro Acioli, Amé-
Verificada, em qualquer tempo, a ocor-
rica Luz, Pádua Ribeiro, Flaquer Scartezzi-
rência de fraude ou falsidade, em prova do-
ni, Geraldo Sobral, Costa Leite, Nilson Na-
cumental ou declaração do interessado, a
ves, Eduardo Ribeiro, limar Galvão, Dias
exigência será considerada como não satis-
Trindade, José de Jesus, Geraldo Fonteles,
feita e sem efeito o ato praticado, devendo
Armando Rollemberg e José Dantas. Au-
o órgão ou entidade dar conhecimento do
sentes, por motivo justificado, os Srs. Mi-
fato à autoridade competente, para a ins-
nistros Costa Lima e Carlos Thibau. Pre-
tauração, inclusive, de processo criminal
sidiu o julgamento o Exmo. Sr. Ministro
(Decreto n9 83.936/79, art. 10, parágrafo
Lauro Leitão. T. Pleno, 11 . 9. 86.
único).
No presente caso a autoridade foi infor-
VOTO (VISTA)
mada da existência de inquérito e do en-
volvimento do candidato, devendo seguir, O Exmo. Sr. Ministro Carlos M. Velloso:
como seguiu, o comando do art. 39, De- O eminente Ministro Gueiros Leite, Rela-
creto n9 83.936/79, onde se lê que, haven- tor, assim sumariou a espécie:

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"Cosme Augusto Rebelo de Amorim im- rito foi aberto novo concurso, em 8 de
petrou mandado de segurança contra a Di- abril de 1984, do qual também participou
retora-Geral do Departamento do Pessoal o impetrante, como todos os outros origi-
do Ministério do Trabalho, perante o Juiz nariamente inscritos.
Federal da 3~ Vara, do Distrito Federal, Concluído o inquérito, restou configura-
queixando-se de haver sido preterido pela da a culpa do impetrante na quebra de
nomeação de candidatos, ao arrepio de me- sigilo. A essa altura estava ele novamente
lhor classificação em concurso público pa- aprovado, surgindo a dúvida do Departa-
ra Fiscal do Trabalho. mento de Pessoal do Ministério quanto à
Notificada a autoridade impetrada, ar- sua nomeação e iniciando-se uma série de
gúiu preliminar de incompetência do juízo, consultas, cujas conclusões, embora diver-
visto estar provado não ter sido ela a res- gentes, levaram o Sr. Ministro a impedir
ponsável pelo ato impugnado, pois o prati- a admissão do candidato.
cou em estrita obediência a determinação A divergência se deu entre o Dasp (Pa-
do Sr. Ministro do Trabalho. O Dr. Juiz, recer nQ 763/75) - que era favorável à
após ouvir o Ministério Público, determi- admissão do impetrante, porquanto a alega-
nou a vinda dos autos ao Tribunal (fls. da violação de sigilo não impediria o in-
188-91). gresso do candidato (f!. 82) e o parecer do
Consultor Jurídico, que o Ministro apro-
Sem liminar, foram requisitadas informa-
vou, fulcrando-se na falta de preenchimen-
cães e admitido o ingresso nos autos de
to, pelo candidato, do requisito do "bom
Sebastião Ferreira da Costa, como litiscon-
procedimento" (Lei nQ 1.711/52, art. 22, V),
sorte passivo necessário, por ser aquele can. exigido com rigor para o exercício do cargo
didato pretendidamente nomeado em lugar de Fiscal do Trabalho (fls. 125-6).
do impetrante. Ele compareceu às fls. 214-5,
Também foi ouvida a Consultoria-Geral
sustentando a legalidade de sua nomeação
da República que, sem ingressar no mérito
e a inexistência de antagonismo entre tal
da questão, se limitou a opinar no sentido
ato e a situação do impetrante.
de que a competência para o julgamento
O Sr. Ministro de Estado do Trabalho do writ seria do Tribunal Federal de Re-
prestou informações às fls. 205-11, esclare- cursos e não da Justiça Federal de primeira
cendo que de fato dois candidatos classifi- instância, razão que pesou também no de-
cados posteriormente ao impetrante foram saforamento deste processo.
nomeados por decisão sua, pois ele não po-
Vale ressaltar ainda que, paralelamente
deria admitir a nomeação de pessoa que
ao curso dessa matéria, tramitava pedido
não reunia os requisitos de moralidade exi-
do impetrante visando à reconsideração da
gíveis para o cargo de Fiscal do Trabalho.
decisão proferida no inquérito administra-
Eis o histórico dos fatos. tivo, com vistas à sua exclusão do rol dos
O impetrante ocupava a Função de As· culpados. Apresentou o requerente, como
sessoramento Superior (FAS), no Dasp. argumento, o fato de não haver sido indi-
quando prestou a primeira prova de Fiscal ciado no inquérito policial, nem ter sido
do Trabalho, em 22 de maio de 1983. Em denunciado pelo Ministério Público. O pe-
comeqüência de denúncia de fraude, apu- dido foi indeferido (fi. 207, item 9).
rou·se em sindicância a sua implicação co- Chamada a falar nos autos, a ilustrada
mo beneficiário da quebra de sigilo, esta Subprocuradoria-Geral da República deu
provocada pelos executores do concurso. parecer no sentido de que o candidato dis-
O Ministro aprovou as conclusões da sin- pensado de emprego anterior, por justa
dicância e anulou o primeiro concurso. Em causa, mas que conquistou outro cargo, em
seguida determinou a instauração de inqué- concurso público, não pode ver impedida,
rito para apurar a responsabilidade dos en- por isso, a sua posse, pois a tanto equiva-
volvidos. Mas enquanto prosseguia o inqué- leria a penalidade acessória convertida em

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sanção de caráter perpétuo (Dr. Nelson denúncia na ação penal, esta última envol-
Parucker, com aprovação do Dr. Paulo vendo apenas Norival Nunes, Tierson Alves
A. F. Sollberger, fls. 218-20)." e Edy Oliveira, o primeiro deles confessou
S. Ex: votou, em seguida, denegando a a fraude perante a Comissão de Sindicân-
segurança, ao argumento básico seguinte: cia. E o segundo também, constatando-se
somente pode ser empossado em cargo pú- os fatos, quanto a ele, através do auto de
blico, na forma do disposto no art. 22, V, apreensão constante do inquérito adminis-
da Lei n<? 1. 711/52, quem tiver bom pro- trativo. Os três foram denunciados como
cedimento. Ora, tendo o impetrante sido mcursos no art. 325, do CP, por violação
beneficiário, no concurso anterior, da "que- de sigilo profissional: revelar fato de que
bra do sigilo" das provas, podia ser impe- tinham ciência em razão do cargo e que
dida a sua admissão no serviço público. devia permanecer em segredo. Os benefi-
Os Srs. Ministros W. Bolívar e Torreão ciários foram arrolados, porém, como teste-
Braz acompanharam o voto do Sr. Minis- munhas da acusação (fi. 58), muito embo-
tro Relator. ra, na qualidade de candidatos envolvidos
Assim o voto de S. Ex:, o Sr. Ministro e que lograram êxito no concurso, tivessem
Gueiros Leite, Relator: sido demitidos dos seus cargos de servido-
"Os fatos revelam que o impetrante, na res do Ministério do Trabalho. O impe-
qualidade de candidato ao provimento de trante era ocupante da Função de Assesso-
vagas no emprego de Fiscal de Trabalho ramento Superior (FAS), do Dasp, de onde
(L T-NS-933. A) e, como tal, inscrito em também foi afastado.
concurso público, ter-se-ia envolvido, em Os autos dão conta, ainda, de que além
benefício próprio, na quebra do sigilo das da sindicância foram constituídas duas co-
provas, infração funcional de responsabili- missões de inquérito administrativo, pois
dade dos organizadores do certame, Nori- embora a primeira delas tivesse concluído
val Nunes da Silva (Diretor-Geral do DP pela anulação do concurso, por violação do
do MT) e Edy de Oliveira Chaves (Diretor princípio da moralidade administrativa e da
da Divisão de Recrutamento e Seleção), os lealdade do ato administrativo, o Ministro,
quais, agindo isoladamente, prejudicaram a em razão de parecer do seu Secretário-Ge-
regularidade do concurso. ral, designou outra para apurar, com maior
Em inquérito administrativo, o Ministério amplitude, os fatos delituosos. Esta última
do Trabalho em face do pedido de sindi- foi composta por três delegados da Polícia
cância, apurou que Norival Nunes da Sil- Federal e não discrepou dos resultados co.
va foi o responsável pela prévia divulgação Ihidos na primeira, com acréscimo da neces-
de questões integrantes das provas, passa- sidade de instauração do inquérito policial.
das a alguns dos candidatos inscritos. Mas Contra o impetrante constam as declara-
Edy de Oliveira Chaves, subordinado a ções do indiciado Edy de Oliveira Chaves,
Norival Nunes e co-responsável na realiza- perante a Comissão de Sindicância Policial,
ção do concurso, enviou, também, através muito embora à Comissão de Sindicância
de malote do Ministério, cadernos de pro-
Administrativa tenha ele declarado apenas
vas de direito público e de direito do tra·
conhecer o impetrante. Mas a comissão de
balho, preparados para aplicação nas pro-
inquérito concluiu, à fi. 105, que
vas, ao seu filho Carlos Roberto dos San-
tos Chaves. E deu conhecimento de ques- '( ... ) os depoimentos do Sr. Edy de
tões, entre outros, ao impetrante Cosme Oliveira Chaves, se analisados nas suas se-
Augusto Rebelo Amorim. Todos os bene. qüências, levam a concluir que, realmente,
ficiários da fraude obtiveram excelente clas- o Sr. Cosme Augusto Rebelo de Amorim
sificação. foi beneficiado pelo vazamento do sigilo
Conforme consta de trechos do inquérito (fi. 1.178).'
administrativo, do inquérito policial e da Sobre o mesmo leia-se mais o seguinte:

119
'( ... ) ele compareceu perante a Comis- do, com antecedência, as questões da prova
são de Sindicância Policial, de livre e es- do referido concurso. O fato do Sr. Edy
pontânea vontade, porque 'após prestar as de Oliveira Chaves ter confessado, de livre
declarações anteriores', pensando melhor, e espontânea vontade, a falta cometida com
'entendeu que deveria falar tudo o que relação ao vazamento do sigilo da prova,
sabia a respeito do concurso de Fiscal do citando nominalmente cada pessoa que se
Trabalho, realizado no dia 22 de maio de beneficiou com o seu ato, leva à convicção
1983, no que diz respeito ao vazamento de que não havia nenhum motivo para en-
do sigilo da prova'. Na oportunidade, citou volver o nome do indiciado, se realmente
nominalmente, todos aqueles a quem o de- o mesmo não estivesse envolvido. As con-
clarante havia passado as questões das pro- tradições e fato narrados pelo Sr. Edy de
vas do referido concurso. O nome do Sr. Oliveira Chaves dão mais elementos sobre
Cosme Augusto Rebelo de Amorim foi o envolvimento do indiciado, porque, em
também citado com a complementação de virtude do cargo que ocupava no Ministé-
que havia lhe passado as questões da pro- rio do Trabalho, Edy de Oliveira Chaves
va, por telefone, da residência do declaran- estava em contato direto com o Dasp, onde
te para a casa do beneficiado, o qual pres- Cosme Augusto Rebelo de Amorim ocupa-
tou o concurso em Brasília, obtendo o 1Q va um cargo junto ao Diretor-Geral daque-
lugar (fl. 1 . 178). Perante esta comissão de le Departamento. Lógico que se conheciam
inquérito, o Sr. Edy de Oliveira Chaves bastante, ao ponto de o indiciado lhe pe-
declarou que conheceu o Sr. Cosme Au- dir ajuda para a realização do concurso
gusto Rebelo de Amorim, funcionário do (fls. 1 .464/5). Edy de Oliveira Chaves,
Dasp, em razão de suas constantes idas tanto atendeu ao indiciado que depois com-
àquele departamento e, nos contatos que binaram em dizer que as informações re-
fez com aquele servidor, fez comentários cebidas foram somente sobre 'tópicos' da
generalizados a respeito da prova e espe- prova de Fiscal do Trabalho. Mas, em suas
cialmente sobre cálculos que seriam objeto declarações à Polícia resolveu confessar que
de várias questões. Acrescentou que Cos- de fato havia lhe passado as questões da
me Augusto Rebelo de Amorim foi ao seu referida prova. O combinado entre Edy de
gabinete insistindo em saber informações Oliveira Chaves, Norival Nunes da Silva e
sobre a prova (fls. 1. 464/5). Declarou ter Cosme Augusto Rebelo de Amorim era pa-
ocorrido um entendimento entre ele, o Prof. ra somente ser dito que Edy de Oliveira
Norival Nunes da Silva, e o próprio Cosme Chaves havia comentado com Cosme Au-
Augusto Rebelo de Amorim, quando os três gusto Rebelo de Amorim alguns 'tópicos'
se reuniram na casa do Prof. Norival Nu. sobre as provas do concurso de Fiscal do
nes da Silva (fi. 1 . 465). A referência à Trabalho. Veja-se o depoimento do indi-
conclusão da Comissão de Sindicância Po- ciado à fl. 1 . 294, onde afirma que Edy
licial não condiz com a realidade, porque de Oliveira Chaves com ele havia comen-
se não houvesse atribuição de culpa a Cos- tado 'alguns tópicos sobre questões de di-
me Augusto Rebelo de Amorim, não teria reito do trabalho e de direito público pri-
havido solicitação da remessa de depoimen- vado, cujos títulos' deveriam ser estudados,
to ao Sr. Diretor-Geral do Dasp, com a acrescentando que os tópicos comentados
finalidade de dar-lhe conhecimento 'da irre- por Edy de Oliveira Chaves efetivamente
gularidade atribuída ao servidor daquele foram objeto da prova relativa ao concurso
Departamento'. Logo, no entender daquela público para Fiscal do Trabalho, a que se
comissão policial, o indiciado também es- submeteu, logrando a primeira colocação
tava comprometido com as irregularidades em Brasília. O entendimento entre Norival
relativas ao Concurso de Fiscal do Traba- Nunes da Silva, Edy de Oliveira Chaves e
lho, porque, de acordo com a confissão do o indiciado deixou caracterizado o seu en-
Sr. Edy de Oliveira Chaves, havia recebi- volvimento com as irregularidades ocorridas

---· '--,-i --;-i


120
no concurso de Fiscal do Trabalho. Con- Este, à sua vez, assevera haver, apenas, co-
cluiu-se, portanto, que o indiciado tomou mentado tópicos do programa com aquele
antecipadamente conhecimento das questões servidor.
da prova de Fiscal do Trabalho e se bene- A comissão de inquérito concluiu que o
ficiou em detrimento de outros candidatos, referido candidato teria infringido o art.
se conduzindo de maneira repreensível e -t82, alíneas a e b (ato de improbidade e
desleal' (fls. 106-8). incontinência de conduta ou mau procedi-
A Comissão de Inquérito Administrativo mento, respectivamente), da CLT.
concluiu que o impetrante, entre outros, te- Não resultou qualquer aplicação de pena-
ria infringido o art. 482, letras a e b, da lidade ao interessado, que somente ocupava
CLT, e as cláusulas 1." e 8." dos respectivos função de assessoramento superior neste ór-
contratos de trabalho, porque, na condição gão, e da qual foi dispensado, sem justa
de servidor público, agira com improbidade causa.
e incontinência de conduta, ensejando a
Na ação criminal impetrada, em virtude
rescisão contratual por justa causa, pelo
da quebra de sigilo do processo seletivo,
empregador_. No caso do impetrante, po-
não houve denúncia do candidato.
rém, mesmo ocupando ele, no Dasp, a Fun-
ção de Assessoramento Superior (FAS), já Em face do exposto e ainda que o inte-
havia sido dispensado antecipadamente, sem ressado houvesse recebido as questões da
justa causa e mediante o recebimento de prova, não estaria caracterizada a prática
alentada importância em dinheiro, como de uma infração infamante, que demons-
pagamento de seus alegados direitos traba- trasse grau de periculosidade de molde a
lhistas na rescisão contratual (fi. 67). Isso implicar incompatibilidade para o exercício
porque a Consultoria Jurídica do órgão, da função pública.
embora reconhecendo haver depoimento Portanto, a alegada violação de sigilo de
prestado pelo infrator confesso, de que o que se cuida não impede que o candidato
impetrante recebera as questões anterior- seja admitido e assuma o exercício de suas
mente à realização da prova, opinou favo- atribuições' (fi. 82).
ravelmente à dispensa dele sem justa causa, É certo que o impetrante não foi denun-
porque o contrário exigiria a comprovação ciado criminalmente ou sequer indiciado
indubitável da prática do ilícito (fi. 80). no inquérito policial, mas apenas ouvido
Com apoio nesse parecer e em outros como testemunha. Essa possível lacuna não
pronunciamentos da mesma origem, o im- teria força para obscurecer, porém, os fatos
petnmte. após inscrever-se no segundo con· colhidos na instância administrativa, os
curso e obter classificação, pretendeu tomar quais revelam que o impetrante recebera
posse no cargo, sendo impedido por ato do de Edy de Oliveira Chaves as questões da
Ministro do Trabalho, após ouvir a sua con- primeira prova. Outro consultor jurídico
sultoria jurídica, o Dasp e a Consultoria- do Dasp já admitira antes que 'na espécie
Geral da República, por achar que a ma- há depoimento prestado por infrator con-
téria era inédita, a requerer uniforme pro- fesso de que o interessado recebera as ques-
nunciação_ O ineditismo do caso repousa- tões anteriormente à realização da prova'
ria no fato de haver sido o impetrante dis- (fi. 50).
pensado de suas funções no Dasp, possi- Não foi por outro motivo que esse pare-
bilitando-se a sua inscrição no segundo con- cer serviu de base à demissão do impetrante
curso_ A Coordenadoria de Legislação de da sua função no Dasp, pouco importando
Pessoal daquele órgão sustentou então o o argumento da existência ou não de justa
seguinte: causa, porquanto é sabido ocupava ele me-
'O servidor que forneceu a vários candi- ra função de confiança, cujo titular é de-
datos as questões da prova de que se trata, missível ad nutum da autoridade compe-
afirma as haver concedido ao interessado. tente.

121
Essa orientação do Dasp no caso dos au- concurso, ainda que de forma genenca e a
tos não se impôs, porém, na área ministe- ser exigido em fase posterior ao certame.
rial. Consta do edital de concurso, no item
De fato, baseado no Parecer nQ 66/85, 11 . 2, que a classificação no processo sele-
de sua assessoria jurídica, que, examinando tivo não assegura ao candidato o direito à
consulta feita pelo Departamento de Pes- admissão, mas apenas a expectativa de ser
soal, manifestou-se contrário à nomeação admitido segundo rigorosa ordem classifi-
do candidato embora classificado no segun- catória, ficando a concretização desse ato
do concurso, o Ministro do Trabalho deci- condicionada à observância da administra-
diu aprová-lo e, em conseqüência, determi- ção.
nar àquele Departamento que o candidato Em sendo assim, os candidatos deverão
Cosme Augusto Rebelo de Amorim não fos- receber tratamento igual, isto é, têm de
se admitido como Fiscal do Trabalho, por declarar se já responderam ou se respon-
não preencher o requisito exigido no art. dem a processo ou inquérito, pois falsea-
22, V, da Lei nQ 1. 711/52, a saber: rão a verdade se afirmarem negativamente.
'Art. 22. Só poderá ser empossado em O crivo da administração abrangerá a con-
cargo público quem satisfizer os seguintes duta remota, ou seja, a existência de indi-
requisitos: ciamento, e a conduta atual, ou seja, a
(O míssis) prestação de declaração falsa.
V - Ter bom procedimento.' Verificada, em qualquer tempo, a ocor-
Conforme acentuam as informações, não rência de fraude ou falsidade, em prova
se pode imputar ilegalidade ao ato do Sr. documental ou declaração do interessado,
Ministro. quando no uso de suas atribui- a exigência será considerada como não sa.
ções e em nome da moralidade administra- tisfeita e sem efeito o ato praticado, deven-
tiva impediu a admissão de um candidato do o órgão ou entidade dar conhecimento
envolvido em falcatruas, tanto mais que do fato à autoridade competente, para a
para ocupar cargo onde se exige do servi- instauração, inclusive, de processo criminal
dor o máximo de idoneidade (fl. 208). (Decreto nQ 83.936/79. art. 10, parágrafo
Usou ele. pois, sem qualquer desvio, o po- único).
der discricionário de que é detentor, em No presente caso a autoridade foi infor-
defesa da pública administração (fi. 209). mada da existência de inquérito e do envol-
Disse-o bem o parecerista de fls. 72-6. vimento do candidato, devendo seguir, como
No serviço público a prova do bom proce- seguiu, o comando do art. 3Q, Decreto nQ
dimento ou da boa conduta era, antes da 83.936/79, onde se lê que, havendo funda-
política de desburocratização, aferida por das razões de dúvida quanto à veracidade
meio de certidões negativas civis e crimi- das declarações do candidato, ser-lhe-ão lo-
nais. Tal prova encontra-se atualmente go solicitados esclarecimentos, anotando-se
substituída por declaração do próprio can- a circunstância no processo.
didato, usualmente nos termos de que não Claro está, porém, que isso não inibe a
respondeu ou não responde a processo ou administração de procurar elucidar o assun-
inquérito nas esferas judiciais e administra- to por livre iniciativa, como fez no caso
tivas (fi. 73). dos autos. Se for apurado que o fato cons-
Está no art. 1Q, Decreto nQ 83 . 936/79. tante do inquérito ou processo é incompa-
Na CLT, diversamente e do Estatuto, tível com a natureza das atividades do car-
nada há que preceitue estar o candidato go, é lógico e jurídico que se impeça a
obrigado a comprovar, previamente, o bom admissão do candidato.
procedimento, o que significa ser conve- Ante o exposto, denego o mandado de
niente, sob o aspecto jurídico, mencionar segurança.
esse requisito, entre outros, no edital de Iô como voto. "

122
Pedi vista dos autos e os trago, a fim de deverá ele, certamente, contrariar a decisão
retomarmos o julgamento do mandado de interna do Sr. Ministro que não cometeu
segurança. nenhuma ilegalidade ao obstar a admissão,
Em resumo, o que aconteceu foi o se- como não cometeu nenhuma ilegalidade o
guinte: o impetrante, então ocupante de Departamento de Pessoal deste Ministério,
Função de Assessoramento Superior (FAS), ao executar a ordem ministerial.
no Dasp, inscreveu-se no concurso de Fis- 14. O candidato Cosme Augusto Rebelo
cal do Trabalho e prestou a prova, no dia de Amorim redimiu-se intelectualmente ao
22 de maio de 1983. Em conseqüência de fazer a segunda prova e habilitar-se em 299
denúncia de fraude, foram instauradas sin- lugar, com a nota 69 (sessenta e nove),
dicâncias, que concluíram no sentido de muito embora não seja uma posição equiva-
que o impetrante fora beneficiado na "que- lente à primeira prova, em que habilitou.
bra de sigilo" das provas, "quebra de sigi- se em 19 lugar com a nota 97 (noventa e
lo" essa provocada pelos executores do con- sete). Relativamente, porém, ao aspecto
curso, o então Diretor-Geral do Departa- moral, restou comprovado o seu mau pro-
mento do Pessoal e o Diretor do Departa- cedimento, ainda não justificado.
mento de Recrutamento e Seleção. A pro-
15. Finalmente, com a aprovação no cer-
va foi, então, anulada, convindo esclarecer
tame, convém seja observado que o Impe-
que o impetrante fora aprovado em 19 lu-
trante gerou, tão-somente, uma expectativa
gar. Realizou-se, então, um segundo con-
de direito, mas nunca um direito adquirido.
curso, no qual o impetrante foi aprovado
Para tanto, seria necessário o preenchimen-
em 291? lugar. Esclareça-se que, tendo em
to dos demais requisitos exigidos para a
vista o ocorrido no primeiro concurso, o
função, notadamente o da honestidade, e
impetrante foi dispensado da Função de
que o candidato não conseguiu atender"
Assessoramento Superior (F AS) que deti-
(fls. 208-9).
nha, no Dasp, por justa causa. Esclarece,
em seguida, o Ministro de Estado, nas in- Assim posta a questão, peço vênia ao Sr.
formações: Ministro Gueiros Leite, Relator, para diver-
gir do seu respeitável entendimento.
"6. Com a proximidade da classificação
do candidato Cosme Augusto Rebelo de A uma, porque, conforme ficou esclare-
Amorim, aprovado quando da realização do cido, o impetrante, por ter sido beneficiá-
segundo certame, o Departamento de Pes- rio da "quebra do sigilo" ocorrida no pri-
soal deste Ministério alçou à instância do meiro concurso, foi punido: tendo sido
Sr. Ministro a indagação se não haveria aprovado em I!? lugar, teve anulada a sua
óbice à admissão do candidato na catego- prova e a sua classificação; ocupante da
ria de Fiscal do Trabalho, face ao seu en- Função de Assessoramento Superior (FAS),
volvimento no rumoroso episódio do vicia- no Dasp, foi dispensado PIOr justa causa
do concurso." ( ... ) (fls. 206-7) . (v. informações dirigidas ao MM. Juiz Fe-
Concluiu-se, então, que. diante do ocor- deral. fls. 150-1, des~es autos).
rido no primeiro concurso, no qual o im- Foi exemplar, portanto, a punição que
petrante fora beneficiado com a "quebra do sofreu.
sigilo". deveria ser obstada a sua admissão A duas, porque não deve a administra-
como Fiscal do Trabalho. ção e o Poder Judiciário assentar as suas
Está nas informações: decisões em motivos puramente éticos e
"13. O titular da Pasta, ao impedir a ad- morais, já que as pessoas não são todas
missão do candidato, usou do poder discri- elas puras e boas, certo que a ética de
cionário de que é detentor, em defesa dos uns costuma ser diferente da ética de ou-
princípios morais que devem reger a ativi· tros. Por isso, para a segurança dos indi-
dade administrativa. E por todo o respeito víduos, há o Direito, há a lei. Em nome
que goza e merece o Poder Judiciário, não dessa segurança, deve a administração e o

123
Judiciário observar o Direito, observar a mera resctsao de contrato de trabalho, por
lei. Em termos puramente éticos, acho que 'justa causa'. Acresce que no inquérito po-
alguém que foi beneficiário da "quebra de licial mandado instaurar, o ex-servidor ape-
sigilo" de um concurso não poderia ocupar nas foi ouvido como testemunha e não co-
um cargo público de fiscal. A questão, en- mo indiciado (fi. 16).
tretanto, diante do Direito, deve ser assim Além disso, o pleiteante apresentou cer-
decidida? Penso que não. Com proprieda- tidão negativa (fi. 7) expedida pela Justiça
de, a questão foi equacionada no parecer Federal de Brasília, DF, comprovando ine.
da douta Subprocuradoria-Geral, no pare- xistência da interdiçiio prevista na lei penal
cer lavrado pelo Dr. Nelson Parucker, com (art. 67 do Código Penal).
aprovação do Dr. Paulo Sollberger, Sub-
Enfim, a penalidade administrativa, con-
procurador-Geral, ao escrever:
sistente na rescisão do contrato por justa
"4. Todavia, quanto ao mérito, tem ra- causa, não vai além de pôr termo qualifi-
zão o impetrante, no particular. Assim. cado à relação empregatícia, não existindo
embora não resolvendo a matéria na esfera texto de lei que a torne perpétua e defini-
administrativa, visto como o litígio já se tivamente inabilitante, sobretudo:
encontrava pendente de decisão judicial, o
a) porque o cargo foi conquistado por con-
Parecer n<? SR-002, de 23 de fevereiro de
curso público;
1986, da E. Consultoria-Geral da Repúbli-
ca (fls. 198-A-199), evidencia a ilegitimi- b) porque está previsto o estágio probató-
dade do procedimento inquinado, na espé- rio para aferir, na prática, as condições
cie. exigidas in abstractu (Lei n<? 1. 711, de 28
de outubro de 1952, art. 15) .'
5. Com efeito, a transformação da res.
ctsao do anterior contrato de trabalho, 7. Assim, é de prosperar o writ de que
mantido pelo impetrante, em 'por justa cau- se cuida" (fls. 219-20).
sa', ainda que equiparável fosse à nota 'a No parecer do ilustre Consultor-Geral da
bem do serviço público', não é, por si só, República, à fi. 199, foi invocada lição do
capaz de impedir a nomeação de candidato saudoso Victor Nunes Leal, então Consul-
aprovado em concurso público para outro tor-Geral, no sentido de que "a própria de-
cargo, até por inexistir penalidade perpé- missão 'a bem do serviço público', decor-
tua, no ordenamento jurídico brasileiro. rente de 'falta grave' (art. 209 do Estatu-
6. Nesse sentido, merece transcrito parte to), não constitui impedimento absoluto pa-
do supracitado parecer da E. Consultoria- ra que o demitido volte a exercer outro
Geral da República: cargo público". Assim a lição de Victor
'Em síntese, a orientação emanada do Pa- Nunes Leal, transcrita no parecer do Con-
recer CGR B-5, relativamente ao tema em sultor-Geral da República, que vale a pena
exame, é a seguinte: ser transcrita também aqui:
'Tratando-se de cargo a ser conquistado "9. Se não há, confessadamente, dispo-
em concurso público, a nota de demissão sição legal que institua a interdição de di-
a bem do serviço público não pode consti- reitos que ora discutimos, não pode essa
tuir obstáculo. Impedimento desta nature- conseqüência ser derivada por via adminis-
za terá lugar, apenas na interdição de di- trativa. Basta considerar que nos casos in-
reitos constantes da lei penal. Aquela nota dicados, além da demissão, o servidor cul-
será levada em conta, como peso negativo, pado é passível de pena criminal. Se isto
no conjunto das provas do requisito do bom ocorrer, isto é, se ele vier a sofrer penali-
procedimento, previsto no art. 22, item V. dade mais severa que a demissão, em con-
do Estatuto. Isto não exclui. contudo, a seqüência da gravidade da falta, ainda as-
possibilidade de reabilitação.' sim a sua incapacidade para o serviço não
Ora, no caso presente, sequer houve de- será permanente, mas temporária, na con-
missão 'a bem do serviço público'. mas formidade do que dispõe o Código Penal.

124
Como seria possível criar, por via admi- 13. É este, aliás, o entendimento do ilus-
nistrativa, um caso de incapacidade defi- tre Themístocles Cavalcanti. Como Consul-
nitiva ou permanente em função pública, tor-Geral da República, ao opinar pela re-
quando a própria lei penal só contempla admissão de determinados funcionários, ob.
esta hipótese por prazo determinado? servou: 'Assim entendo porque não vejo
10. A questão é da maior importância, como prolongar indefinidamente os efeitos
porque envolve, não somente a readmis- da expulsão a bem do serviço, pena, a meu
são, que é ato voluntário da administração ver, demasiadamente rigorosa' (Parecer
pública, mas também as situações em que 94-X).
um servidor demitido a bem do serviço pú- O seu pensamento entá expresso coni
blico pretenda competir, em concurso para mais nitidez na segunda edição da obra o
obtenção de outro cargo. Funcionário público e o seu regime jurídi-
( ... ) (omissis) co, 1958, tomo II, p. 266: 'Quanto às con-
11. Pelos motivos expostos, não podemos seqüências desta nota para a readmissão
concordar com essa interpretação extensiva. do funcionário ou a sua nomeação para ou-
Tratando-se de cargo a ser conquistado em tro cargo, é preciso esclarecer que, embora,
concurso, a nota de demissão a bem do ser- tenha havido opinião oficial no sentido de
viço público não pode constituir obstáculo obedecer uma conseqüência maior, a ver-
absoluto. Impedimento desta natureza terá dade é que não há nenhuma limitação legal
lugar apenas na hipótese de interdição de à readmissão. Deve-se, porém, observar que
direitos constantes da lei penal. Aquela a própria nota constitui uma orientação
nota será levada em conta, com peso nega- para a administração no sentido de maior
tivo, no conjunto das provas do requisito cautela no ato da nomeação. A não ser
do 'bom procedimento', previsto no art. 22, que haja demonstração de uma reabilitação
V, do Estatuto. Isto não exclui, contudo, e um lapso razoável de tempo, não se jus-
a possibilidade de reabilitação. tifica a readmissão. O caminho para a
Tratando-se, porém, de readmissão, que é reabilitação efetiva é a revisão e o reexame
do processo . '
ato facultativo, embora não haja impedi-
mento jurídico, a nota de demissão a bem ( ... ) (omissis)
do serviço público, exprimindo a gravidade 18. A doutrina administrativa do cance-
da falta cometida, impõe à administração lamento da nota de demissão a bem do ser-
pública o dever de proceder com extrema viço público, independentemente de proces-
cautela, de modo a só fazer voltar ao servi- so de revisão, foi uma construção que se
ço, mormente na mesma função anterior, o tornou necessária em virtude da tese de
funcionário que tiver dado demonstração que o servidor demitido a bem do serviço
inequívoca de se haver reabilitado (ou nos público não poderia ser beneficiado pela
casos de revisão do processo em que haja readmissão. Verificado, porém, que este en-
desclassificação da falta). tendimento não tem base legal, o cancela-
12. Em conseqüência, os despachos pre- mento da nota é uma complicação burocrá-
sidenciais, referidos pelo Dasp, deverão ser tica, perfeitamente inútil.
entendidos, não como tendo criado uma Nem cabe, aqui, a nosso ver, a conside.
norma jurídica nova, mas como instrução ração de que o texto constitucional veda
de serviço dirigida aos órgãos administra- as penas perpétuas (art. 141, § 31). Há
tivos, no sentido de não processarem read- penas que produzem um efeito permanente,
missão de servidores demitidos a bem do mas que não se incluem no conceito de pe-
serviço público. Essa instrução, entretan- nas perpétuas, vedadas pela Constituição .
to, não obriga o próprio Chefe de Estado, Isto ocorre nos casos em que a permanên-
que julgará cada caso segundo o seu pru- cia dos efeitos resulta, não diretamente da
dente critério. pena, mas do rompimento, por ela deter-

125
minado, de um vínculo-jurídico. Se a pen2 V - Os despachos presidenciais, que
de demissão põe termo à relação de serviço declararam a nota de demissão a bem do
público que existe entre o servidor e o Es- serviço público impeditiva da readmissão,
tado, é óbvio que tais efeitos se produzem devem ser interpretados como instrução de
de uma vez para sempre, e, portanto, em serviço no sentido de não ser processada
caráter permanente. O servidor deixa para qualquer readmissão naquelas condições,
sempre de ser funcionário, a menos que, sem prévia autorização presidencial. Essa
por outro título, venha a adquirir, de novo, providência equivale, para o efeito prático
aquela situação. Nem por isso a pena de de facultar a readmissão, ao cancelamento,
demissão pode ser considerada perpétua e formaliza a cautela indispensável em tais
para os efeitos da vedação constitucional. casos" ( ... ) (DOU de 31.3.86, p. 4.538-9).
Se da nota de demissão a bem do serviço Em verdade, impedir o reingresso do im-
público resultasse incapacidade permanente petrante no serviço público, com base no
para o exercício de função pública só en- ocorrido no famigerado concurso em que
tão teria lugar o exame do assunto sob se viu envolvido como beneficiário da "que-
aquele ângulo porque haveria, em tal caso, bra do sigilo", equivaleria, bem lembra a
uma pena acessória permanente. Entretan- douta Subprocuradoria-Geral da Repúbli-
to, a nota referida apenas exprime que o ca, a impor-lhe uma sanção perpétua, o que
servidor foi afastado por um motivo grave, a Teoria Geral do Direito repele.
e esta circunstância é mencionada no ato Em conclusão, com a vênia do eminente
demissório para conhecimento de todos, Ministro Relator, defiro o writ.
através da sua publicidade oficial. Trata-
VOTO
se, sem dúvida, de uma pena diversa da
demissão - por que acessória - mas seu O Sr. Ministro Otto Rocha: Sr. Presi-
efeito, que consiste em tornar ostensiva a dente, com a devida vênia do eminente Mi-
qualificação da falta, nos termos da lei, é nistro Carlos Velloso, acompanho o voto
inseparável do próprio ato demissório. do eminente Ministro Gueiros Leite, uma
19. Com base nas considerações prece- vez que este bem demonstrou em seu voto
dentes, assim conclui esta Consultoria: não preencher o impetrante o requisito
I - A nota indicativa de que a demis- constante do art. 22, item V, da Lei n9
são se deu a bem do serviço público não I . 711, de 1952.
tem o efeito de inabilitar o servidor atin-
VOTO (VOGAL)
gido para o serviço público, nem impede
a sua readmissão. O Sr. Ministro William Patterson: Sr.
Il - Impõe-se, porém, a maior cautela Presidente, segundo depreendi, o impetran-
na apreciação das circunstâncias e fatos te teve sua admissão obstada sob o funda-
comprobatórios da reabilitação do servidor, mento legal de "mau procedimento" (art.
condição do seu reingresso no serviço pú- 22, item V, da Lei n9 1. 711/52), acusado
blico. de ser beneficiário da quebra de sigilo em
ITI - Não é necessário o cancelamento relação à primeira prova.
da nota referida como formalidade prévia Examinei, rapidamente, as peças que
da readmissão, podendo a reabilitação do compõem os presentes autos e fiquei estar-
servidor ser apreciada no próprio processo recido em ver que inexistem provas con-
de readmissão. cretas a respeito da imputação feita ao inte-
IV - Esse cancelamento só é possível ressado. Da cópia do processo criminal
em processo de revisão, no qual se prove juntada vê.se, apenas, leve referência à cen-
a inocência do servidor, ou se desclassifi- surada atitude. Com efeito, o Diretor da
que a falta para um dos incisos legais que Divisão de Seleção e Aperfeiçoamento, ao
não acarretam a imposição obrigatória da ser reinquirido em juízo, afirmou que en-
nota de demissão a bem do serviço público. tregou ao seu filho, no Rio de Janeiro, um

126
dos concorrentes, um exemplar da prova, que se possa admitir ser bom ou mau o
aludindo, ainda, a conhecimento que dera seu procedimento. A transgressão isolada
de "questões" a servidores do Dasp, entre de preceitos de conduta não pode indicar
os quais o impetrante. Não trouxe maiores por si só um mau proceder."
esclarecimentos, vale dizer, não informou In casu, sequer há a certeza desse mau
quantas questões forneceu, nem se indicara procedimento e muito menos há notícia de
a certeza de sua inclusão nas provas, bem precedentes que levariam a considerar ha-
assim não especificou a maneira e as cir- bituais maneiras não recomendáveis de pro-
cunstâncias de seu oferecimento. Tudo leva ceder.
a crer que pretendeu não deixar seu filho A própria administração, através do Pa-
isolado como único beneficiário. recer n9 B-5, do saudoso Ministro Victor
O impetrante não foi indiciado e foi ou- Nunes Leal, quando ocupava o cargo de
vido, tão-somente, como testemunha. Por Consultor-Geral da República, definiu que
outro lado, não houve qualquer procedi- a demissão com a anotação "a bem do Ser-
mento específico onde lhe fosse assegurado viço Público" não poderia constituir obstá-
o direito de ampla defesa. Ora, se se cui- culo ao retomo de quem, mais tarde, vies..
dasse de funcionário em pleno exercício, a se a ser habilitado em seleção pública, pois,
ocorrência de tais fatos ensejariam uma se assim não fosse, estar-se-ia concebendo
sindicância ou mesmo um inquérito para uma penalidade perpétua, o que não é pos-
sua apuração, e neste o acusado teria opor- sível. A situação sob exame é bem menos
tunidade de se defender. A demissão só grave e, no entanto, estão dando o trata-
seria possível após cumprimento desse ri- mento condenado na citada manifestação.
tual. Sintomático, parece-me, ainda, que todos
Na espécie, é verdade, o impetrante não os pronunciamentos administrativos que ins-
tinha, no momento, qualquer vínculo com truem o processo são favoráveis ao supli-
o Serviço Público, e, portanto, não pode-- cante. O Dasp, a Consultoria-Geral da Re--
riam ser observadas essas cautelas. Contu- pública e até a própria Subprocuradoria-
do, teria e tem o direito de não ver impedi- Geral da República, ao falar nestes autos,
da sua admissão por força de meras insi- opinaram pela admissão do candidato.
nuações ou acusações de co-réus . Não teve Sua capacidade não pode ser contestada.
ele a oportunidade de refutá-las, porquanto Aprovado na primeira prova, que foi anu-
só com a sua exclusão da lista de classifi. lada, também obteve aproveitamento na se-
cados no concurso veio a perceber que gunda, sendo que sobre esta não recaiu
aquela leve referência teria ocasionado o qualquer suspeita.
prejuízo. Ante o exposto, acompanho o voto do
Corno se sabe, a doutrina é cáustica ao Sr. Ministro Carlos Mário Velloso.
analisar a cláusula estatutária "ter bom pro-
EXTRATO DA ATA
cedimento". O subjetivismo da expressão
conduz à sua rejeição toda vez que o prin- MS n9 111.183-DF (7877471) - Relator:
CIPIO é aplicado negativamente sem a Ministro Gueiros Leite. Requerente: Cosrne
observância de certo concretisrno, isto é, sem Augusto Rebelo de Arnorim. Requerido:
a prova de um fato real e objetivo. Não Sr. Ministro de Estado do Trabalho. Litis-
basta dizer, também, que determinado pro- consorte passivo necessário: Sebastião Fer-
cedimento é mau. Há necessidade de apu- reira da Costa. Advogados: Guaracy da
rar-lhe as causas, as conseqüências e os Silva Freitas e outro (Reqt.) e Helder Soa-
reflexos. Contreiras de Carvalho (in Esta- res de Almeida (Litisc.).
tuto dos funcionários públicos interpretado, Decisão: o Plenário, prosseguindo no jul-
vol. I, p. 171) diz: gamento, após os votos dos Srs. Ministros
"~ necessário que a pessoa tenha o há- Relator, Washington Bolívar, Torreão Braz
bito de agir desta ou daquela forma, para e Otto Rocha, denegando a segurança, e

127
os votos dos Srs. Ministros Carlos M. Vel- Dentre os responsáveis pelas irregulari-
loso e William Patterson, deferindo-a, pe- dades que viciaram o concurso, encontrava-
diu vista dos autos o Sr. Ministro Miguel se o então Diretor da Divisão de Seleção
Ferrante. Aguardam os Srs. Ministros José e Aperfeiçoamento do Ministério do Tra-
Cândido, Pedro Acioli, Américo Luz, Pá- balho que confessou ter enviado a seu fi-
dua Ribeiro, Flaquer Scartezzini, Geraldo lho, residente no Rio de Janeiro, as ques-
Sobral, Costa Leite, Nilson Naves, Eduar- tões das provas. Posteriormente, veio a
do Ribeiro, limar Galvão, Dias Trindade. acrescentar que também dera conhecimen-
José de Jesus, Geraldo Ponteies, Armando to dessas questões a outros candidatos, en-
Rollemberg e José Dantas. Não participa- tre os quais citou o impetrante. Vale acen-
ram do julgamento os Srs. Ministros Bue- tuar que à Comissão de Sindicância Admi-
no de Souza, Sebastião Reis (ausentes na nistrativa esse funcionário simplesmente de-
sessão de 25.9.86), Costa Lima e Carlos clarou conhecer o impetrante. Perante a
Thibau (não assistiram à leitura do relató- Comissão de Inquérito é que adiantou que
rio). Presidiu o julgamento o Exmo. Sr. em contato com o mesmo, no Dasp, "fez
Ministro Lauro Leitão. T. Pleno, 25.9.86. comentários generalizados a respeito da
prova e especialmente sobre cálculos que
VOTO (VISTA) seriam objeto de várias questões da prova•·
(sic, fl. 11). Declarou, também, que o im-
O Sr. Ministro Miguel Ferrante: A di- petrante fora procurá-lo, em seu gabinete,
vergência que se estabeleceu em torno da "certa vez, insistindo em saber informações
questão em julgamento levou-:nc a pedir a respeito da prova, oportunidade em que
vista dos autos, para exame ma:s detido, lhe foi informado que as questões esta·
de minha parte, dos elementos fáticos que vam prontas e já se encontravam no Dasp''
informaram o ato ministerial atacado. (sic, fls. 114-5). Não disse quando isso ocor-
O impetrante, aprovado em concurso reu, nem esclareceu que informações eram
público para o cargo de Fiscal do Trabalho, essas que o impetrante queria saber, ou se
teve sua posse obstada sob fundamento de as prestou.
não preencher o requisito do "bom proce· Esse testemunho isolado, feito sem maio-
dimento", previsto, para o efeito, no art. res explicitações a respeito do conteúdo
22, item V, do Estatuto dos Funcionários das questões comentadas. das circunstânc;as
Públicos Civis da União (Lei n9 1.711/52). de seu oferecimento e do fato de terem ou
Acusam-no de ser beneficiário da quebra não sido incluídas na prova, constitui todo
de sigilo da prova do concurso anterior- o fomento do ato impugnado.
mente realizado para preenchimento de O impetrante negou a imputação.
vagas da mesma categoria funcional, com Perante a Comissão de lnquério reafir·
o que estaria caracterizado, no entender da mou não ter tido "qualquer participação na
administração, o "mau procedimento'" im- quebra de sigilo" das provas (fls. 112).
peditivo de sua admissão no serviço pú. O órgão do Ministério Público Federal,
blico. em sua denúncia, arrolou-o somente como
Os fatos, colhidos à vista dos elementos testemunha.
trazidos à colação, são os seguintes: Eis tudo.
ocupante de Função de Assessoramento Diante desse quadro, compreende-se a
Superior no Dasp, o impetrante concorreu censura do ilustre Ministro William Patter-
ao primeiro concurso e logrou aprovação son de que, ao breve exame dos autos,
em primeiro lugar. As provas, contudo, fo- ficara "estarrecido em ver que inexistem
ram anuladas ante à comprovação, em sin- provas concretas a respeito da imputação
dicância, de quebra de sigilo, instaurando- feita ao interessado".
se, em conseqüência, processo administra- Essa é, igualmente, a minha opinião,
tivo e inquérito policial correlato. data venia.

128
Não houve, como observa o ilustre Mi- de Carvalho de que "a transgressão isolada
ni~tro, "qualquer procedimento onde lhe de preceito de conduta não pode indicar
fosse assegurado o direito de ampla defe- per si um mau proceder".
sa". Ao invés, concluiu-se do episódio, sem Do episódio em que se viu envolvido o
maiores indagações, pela configuração do impetrante não há como inferir-se, objeti-
"mau procedimento" que estaria a incom. vamente, a existência de "mau procedi-
patibilizá-lo com o exercício da função pú- mento".
blica. No caso, não se imputa ao impetrante,
Não se discute que o "bom procedimen- em nenhum passo, o fato de haver violado,
to" é condição indispensável para o ingres- ou tentado violar, o sigilo das provas anu-
so no serviço público. Evidentemente, quem ladas, de ter induzido alguém a fazê-lo, de
não tem boa conduta, quem carece de ido- se ter apropriado, concretamente, das ques-
neidade moral, não pode aspirar ao exer- tões, ou ainda de qualquer prática direta,
cício de cargo público. tendente a macular o concurso. Informa, a
Todavia, em contrapartida, não se afigu- propósito, a autoridade impetrada: "Con-
ra lícito atribuir a alguém a pecha de "mau cluído o Inquérito Administrativo, ficou
procedimento", como se fez neste caso, sem configurada a culpa do candidato, não na
lhe abrir a oportunidade de qualquer jus· 'quebra de sigilo', mas como beneficiário
tificativa. da mesma ( ... )" (fi. 151). Assim, acusam-
O bom procedimento se refere à conduta no, tão-somente, de ser beneficiário da in.
moral e civil da pessoa. E sua maneira de confidência de um dos executores do cer-
se conduzir, de se portar na vida pública tame, em comentários generalizados sobre
e privada. E a idoneidade moral. Ao tra- possíveis questões da prova, acusação que
tar desse requisito em matéria de naturali- ele peremptoriamente nega e que de resto
zação, sustentei, alhures, que o fato de ha· somente tem a respaldá-la a declaração de
ver o naturalizando respondido a proc~so quem a fez. Através de comentários deste,
ou de ter sido, eventualmente, condenado, teria tomado conhecimento, com outros
a rigor não induz a sua falta. A denúncia candidatos, do conteúdo de certas questões
ou a punição em juízo criminal não é, ne- da prova.
cessariamente, pressuposto de "mau proce- Esse quadro não sofreu alteração. Prova
dimento", embora do quadro delituoso se concreta não foi apurada contra o impe-
possa inferir, não raro, o comportamento trante, no âmbito da administração ou no
moral e a conduta. O razoável é perquirir. inquérito policial que se instaurou, além
com profundidade, largo período do passa· das declarações do citado coordenador do
do do interessado, para que se tenha a cer. concurso. Com base nessas declarações, a
teza de que o fato criminoso constitui um dispensa do impetrante que originariamente
acidente na sua vida, sem conotação com a se fizera sem justa causa foi transmudada
sua idoneidade moral. em justa causa.
Essas considerações, pautadas na doutri- Frágil, assim, é a prova oferecida, e in-
na mais abalizada e na lição reiterada da certa, de tal sorte que, a meu ver, data ve-
jurisprudência dos Tribunais, vêm a propô· nia dos que pensam contrariamente, não
sito na apreciação da espécie posta nos au- serve para sustentar um juízo exato sobre
tos, obviamente de muito menor gravidade. a capacidade moral do impetrante, levando
Aliás, o ilustre Ministro William Patter· antes a uma valoração subjetiva a esse res-
son salienta, com propriedade, que o "mau peito que pode não ser correta. Deveras,
procedimento" requer prova objetiva e real. entre ouvir comentários, espontaneamente
não bastando dizer que determinado proce- feitos, sobre pontos que eventualmente po-
dimento é mau, sem que se lhe apure as deriam ser objeto das questões, e concor-
causas, as conseqüências e os reflexos. E rer para a quebra do sigilo da prova, me-
lembra o lúcido magistério de Contreira~ deia um abismo.

129
Na realidade, em sã consciência, não vejo idoneidade moral. ~ pelo menos o que se
como ponderar, com justeza, o grau de en- pode concluir do que diz o Estatuto dos
volvimento do impetrante no fato denun- Funcionários ao dispor sobre o estágio pro-
ciado e as implicações éticas de seu com- batório (art. 59, inciso I).
portamento. Em tal situação, não me aba- No caso dos autos, parece-me que o im-
lanço à formulação de um juízo de valor petrante ainda é beneficiário da fraude, no
sobre sua conduta moral para criar óbice segundo concurso, por uma razão muito
<.o seu legítimo direito à posse do cargo simples. ~ que, normalmente, esses órgãos
que, livre e corretamente, conquistou em não renovam todos os quesitos de provas
concurso público. Na conjuntura, prefiro, de um concurso para o outro. Se ele teve
como o fez o ilustre Ministro Carlos Vello- conhecimento, no primeiro concurso de to-
so, superar os aspectos puramente éticos da dos os quesitos porque alguém lhe passou
questão para ater-me, exclusivamente, à se- o segredo, é evidente que ele se beneficiou
gurança do direito posto em confronto. no segundo concurso .
Lembro que a condição do "bom proce- De modo que, Sr. Presidente, sem que-
dimento"', exigida para a admissão no ser- rer discutir e prolongar mais o meu voto,
viço público, é preenchida pelo funcioná- estou de acordo com o Senhor Ministro
rio, segundo a legislação vigente, no perío- Gueiros Leite.
do de estágio probatório, durante o qual
VOTO (VENCIDO)
se procede à apuração de sua idoneidade
moral e de suas aptidões para o desempe- O Sr. Ministro José de Jesus Filho: Sr.
nho do cargo. Presidente, ouvi com a maior atenção os
Em remate, assim como o fez o Ministro votos elucidativos do Sr. Ministro Relator,
Patterson, permito-me anotar que o Dasp, e dos Ministros Carlos Velloso, Miguel Fer-
a Consultoria-Geral da República e a Sub- rante e William Patterson. Peço vênia para
procuradoria-Geral da República, ao exame acompanhar o eminente Ministro Relator e
do caso, opinaram favoravelmente à posse o faço porque tenho em mãos um memorial
do impetrante. A Consultoria-Geral da Re- que me foi entregue pelo advogado. Dr.
pública conclui com acerto que a nota de Guaracy da Silva Freitas.
"justa causa", atribuída à rescisão do seu Nesse memorial, o próprio impetrante diz
contrato de trabalho, e invocada como obs- que a comissão, após o devido relatório e
táculo à pleiteada posse, "não vai além sob o título "Responsabilidade" assegurou
de pôr termo qualificado à relação empre- que o comportamento do impetrante é pu-
gatícia, não existindo texto de lei que a nível disciplinarmente, verbis:
torne perpétua e definitivamente inabili- "Apesar de não tipificar crime capitula-
tante, sobretudo: (a) porque o cargo foi do no Código Penal, o comportamento de
conquistado por concurso público; (b) por- diversos outros funcionários, inclusive o im-
que está previsto o estágio probatório para petrante, é punível disciplinarmente."
aferir, na prática, as condições exigidas in E o memorial diz mais:
abstractu (Lei n9 1. 711, de 28 de outubro "A seguir, em conclusões, a comissão de-
de !952, art. 15)". finiu a situação do impetrante: Cosme Au-
De quanto foi exposto, portanto, com a gusto Rebelo de Amorim infringiu o art.
devida vênia do eminente Ministro Relator, 482, letras a e b da Consolidação das Leis
adiro ao voto do Sr. Ministro Carlos Vel- do Trabalho e as cláusulas t.• e 8.' dos res-
loso. pectivos contratos de trabalho, porque, na
VOTO (VENCIDO) condição de servidores públicos, agiram
com deslealdade à instituição pública a que
O Sr. Ministro José Cândido: Sr. Presi- serviram e, com manifesta desonestidade,
dente, a lei estabelece como condição míni- com relação aos demais candidatos inscri-
ma para o exercício da função pública, a tos no Concurso Público de Fiscal do Tra-

130
balho, realizado no dia 22 de maio de 1983, Devo acrescentar que deveras me impres-
dando, desse modo, ensejo a rescisão con- sionou um ponto do voto do eminente Mi-
tratual por justa causa pelo empregador nistro William Patterson. Foi o de que esta
(Processo Administrativo) etc ... " punição se perpetuaria. Se não fosse esse
Ressalto que o ato de improbidade, le- aspecto real de uma punição altamente in-
tra a do art. 482, é a pena capital do direi- justificada, eu votaria de pleníssimo acordo
to do trabalho. Incontinência de conduta com o eminente Ministro Relator e os que
e mau procedimento também criam obstá- o acompanharam. Mas esse aspecto, como
culo à posse. disse, que foi enfocado no voto do Minis-
Mas, Sr. Presidente, o próprio memorial tro Patterson, impressionou-me vivamente.
alega que não desconhece que as portas do Em razão disso, concedo a segurança.
Judiciário estão abertas para fazer a revi-
são do processo administrativo. Dispunha VOTO (VENCIDO)

ele de dois anos para fazê-lo. Foi exone-


rado da função pública no dia 2 de feve- O Exmo. Sr. Ministro Armando Rollem-
reiro de 1984. Já se passaram dois anos e berg: Data venia, fico de acordo com o
meio; está alcançado pela prescrição. voto do Sr. Ministro Relator.
Tivesse ele ingressado em juízo, pedindo
EXTRATO DA ATA
a revisão do processo que o dispensou, não
teria dúvida em votar diferente, mas com
MS n9 111.183-DF (7.877471) - Relator
esses argumentos, acompanho o eminente
p/acórdão: Ministro Carlos M. Velloso.
Ministro Relator.
Relator originário: Ministro Gueiros Leite
Requerente: Cosme Augusto Rebelo de
VOTO Amorim. Requerido: Sr. Ministro de Es-
tado do Trabalho. Litisconsorte passivo ne-
O Sr. Ministro Geraldo Fonteles: Sr. cessário: Sebastião Ferreira da Costa. Ad-
Presidente, também recebi o memorial e o vogados: Guaracy da Silva Freitas e outro
li com a devida atenção, bem como dispen- (Reqte.) e Helder Soares de Almeida (Li-
sei o mesmo interesse na discussão do caso. tisc.).
Justifico, até certo ponto, o entendimen- Decisão: o Plenário, prosseguindo no jul-
to do eminente Ministro Relator, porque gamento, por maioria, concedeu a seguran.
entendo que, além do aspecto ético na con- ça, vencidos os Srs. Ministros Gueiros Lei-
duta do autor, há um emolduramento desse te, Washington Bolívar, Torreão Braz, Otto
aspecto na norma estatutária, quando exige Rocha, José Cândido, Dias Trindade, José
certas características de probidade moral de Jesus e Armando Rollemberg. Impedido
do habilitando ao cargo público. o Sr. Ministro limar Galvão. Lavrará o
De outra parte, há que se considerar, acórdão o Sr. Ministro Carlos M. Velloso.
ainda, que a imputação atribuída ao impe- T. Pleno, 9.10.86.
trante foi facilitada pelo exercício da fun- Os Srs. Ministros William Patterson, Se-
ção pública, que constitui, até, no caso de bastião Reis, Miguel Ferrante, Pedro Acioli,
matéria penal, agravamento da pena. Américo Luz, Pádua Ribeiro, Costa Lima,
Esse é um aspecto . Geraldo Sobral, Costa Leite, Nilson Naves,
Depois, já tinha até rascunhado dados Eduardo Ribeiro, Geraldo Fonteles e José
que o eminente Ministro José de Jesus trou. Dantas votaram de acordo com o Sr. Mi-
xe à colação, do ponto de vista de que, nistro Carlos M. Velloso. Não participa-
apesar de tudo isso, nada fez o impetrante ram do julgamento os Srs. Ministros Bue-
para limpar a sua honorabilidade na san- no de Souza, Flaquer Scartezzini e Carlos
ção sofrida, nem administrativa. nem judi- Thibau. Presidiu o julgamento o Exmo.
cialmente. Sr. Ministro Lauro Leitão.

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