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política c&T  Biodiversidade y

As etapas do processo

Modos de
1

restaurar as raio x
Pesquisadores
fazem o diagnóstico
da área devastada

florestas
para levantar
as causas do
desmatamento
e compreender as
características do
ecossistema local

Iniciativas testam soluções para recuperar


a vegetação de áreas degradadas

Bruno de Pierro

O
s primeiros resultados de um à pecuária de corte, a propriedade tinha priedades rurais. Com a conclusão do 4 secretaria da agricultura sp / flickr 5 Ville de Montréal / Flickr
fotos 1 Wilson Dias / Agência Brasil 2 esalq-usp  3 john liu / flickr

projeto de restauração ecoló- 17 hectares em situação irregular em cadastro, prevista para 2016, terá início
gica da fazenda Marupiara, no 2011. Essas terras deveriam funcionar o Programa de Regularização Ambien-
município de Paragominas, no como áreas de preservação permanente tal, que obrigará proprietários rurais a
Pará, começam a aparecer quatro anos (APPs), protegendo os rios, o solo e a restaurar áreas desmatadas ilegalmen-
depois de isoladas as áreas degradadas biodiversidade local. O programa de re- te no passado. “Isso deverá aumentar a
e plantadas as primeiras mudas de es- cuperação também ajudou a diversificar demanda por projetos de restauração de
pécies nativas, como açaí e andiroba. a produção da fazenda: açaí e madeira formação natural no país”, diz o biólogo
Com emprego de técnicas como o enri- serão comercializados em breve. Ricardo Ribeiro Rodrigues, professor da
quecimento artificial de florestas, que Casos como esse têm potencial para se Escola Superior de Agricultura Luiz de
acrescenta novas espécies à vegetação multiplicar nos próximos anos. Em maio Queiroz da Universidade de São Paulo
em crescimento, conseguiu-se recuperar de 2014, o governo federal regulamen- (Esalq-USP).
cerca de 60% do território parcialmente tou o Cadastro Ambiental Rural (CAR), Um dos principais polos da pecuária
destruído pela exploração madeireira instrumento criado para regularizar e na Amazônia, Paragominas encabeçou
realizada nas últimas décadas. Dedicada monitorar cerca de 5,6 milhões de pro- a lista negra do desmatamento do Mi-

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fase 1  0 a 3 anos fase 2  a partir de 3 anos

2
3

Cobertura
enriquecimento
natural
natural
Se a capacidade de
Se espécies de outras
recuperação for alta,
reavaliação áreas chegam
opta-se pela
Após três anos, os naturalmente, trazidas
resistência regeneração natural
pesquisadores pelo vento ou por
Avalia-se, em seguida, da vegetação, sem
verificam se sementes animais, apenas
a resiliência local, necessidade de
de espécies nativas monitora-se a região
ou seja, o potencial intervenção
de outras áreas
de autorrecuperação
estão sendo trazidas
da área desmatada
à floresta em
recuperação

5
4

Cobertura enriquecimento
artificial artificial
Se a capacidade de Se a dispersão
regeneração for baixa, não acontece
é feito o plantio de naturalmente, é
mudas e sementes de realizada uma segunda
espécies capazes de etapa de plantio de
atrair a fauna mudas ou sementes na
Fonte: esalq-usp área em recuperação

nistério do Meio Ambiente entre 2008 riência em estudos de restauração flores- nascentes, rios, córregos, lagos e repre-
e 2010. Após pressões do Ministério Pú- tal. “Nossos resultados de pesquisa são sas que protege as águas do assoreamen-
blico, a cidade conseguiu sair da lista oriundos de estudos feitos no âmbito do to causado principalmente pela erosão,
com o apoio da organização não gover- programa Biota-FAPESP”, diz Ricardo além de atuar como núcleo de dispersão
namental norte-americana The Nature Ribeiro Rodrigues, referindo-se à ini- de sementes e corredores ecológicos.
Conservancy, que ajudou a registrar 80% ciativa lançada em 1999 para mapear a Havia um desafio extra: convencer os
das propriedades no cadastro ambiental biodiversidade paulista. Rodrigues foi o produtores de Paragominas avessos a
rural do estado do Pará. Fora da lista, o coordenador do programa entre 2004 e mudanças. “O engajamento da maioria só
dilema passou a ser outro: como evitar 2009. Um dos resultados foi um docu- aconteceu quando se viu que os projetos
que o município voltasse para o rol dos mento de 2008 que apresenta diretrizes de restauração eram viáveis e poderiam
grandes desmatadores? “A resposta não para conservação e restauração da biodi- diversificar a produção, gerando lucro”,
poderia ser outra: deveríamos adotar téc- versidade no estado de São Paulo, tendo diz Costa. Na fazenda Marupiara foram
nicas modernas capazes de transformar como base o conhecimento produzido plantadas 12 espécies nativas em áreas
a pecuária praticada na região”, recorda- pelo Biota-FAPESP. O trabalho reco- de reserva legal, nas quais é permitido
-se Mauro Lucio Costa, dono da fazenda menda, por exemplo, que os fragmen- o manejo sustentável para o aproveita-
Marupiara e ex-presidente do Sindicato tos remanescentes de vegetação nativa mento econômico. Entre elas estão o ipê,
dos Produtores Rurais de Paragominas. sejam considerados em projetos de re- o freijó, o jatobá, plantas medicinais e
O sindicato pediu ajuda a pesquisa- cuperação, enfatizando as matas ciliares também madeireiras, como a andiroba.
dores da Esalq-USP, que acumula expe- – a vegetação localizada às margens de Também foi realizado um trabalho de

pESQUISA FAPESP 238  z  33


melhoramento das áreas de pastagem, Com pecuária arbustos, lianas, ervas, entre outros. “A
que abrigam cerca de 2 mil cabeças de intensiva, foi possível floresta não é feita apenas de árvores.
liberar mais espaço
gado. O pasto foi melhorado e adensa- para a restauração
O sucesso da restauração depende da
do nos terrenos mais planos e férteis. florestal em áreas biodiversidade envolvida e da variabili-
Com isso, foi possível colocar mais bois degradadas há décadas dade genética”, diz Luiz Mauro Barbosa,
em menos espaço. Enquanto em 2003 em Paragominas, no Pará diretor do instituto. Em 2001, a maioria
a propriedade registrou 0,9 cabeça de das áreas de recuperação utilizava no
gado por hectare, em 2015 a taxa subiu máximo 30 espécies, quase sempre as
para 3 cabeças por hectare. A recuperação florestal em fazendas mesmas. E os viveiros concentravam a
Atualmente, Ricardo Rodrigues co- do interior paulista é uma das iniciativas produção em poucos tipos de árvores.
manda um projeto de restauração de realizadas no âmbito do Pacto. Em 2012, Atualmente, há no estado 207 viveiros
florestas ciliares, florestas nativas de pro- foram selecionadas três fazendas em Itu, responsáveis pela produção anual de
dução econômica e fragmentos flores- nas quais têm sido feitas ações de restau- cerca de 40 milhões de mudas de 800
tais degradados. O objetivo é simular e ração voltadas para a compensação am- espécies arbóreas.
compreender os efeitos da aplicação do biental. Funciona assim: o proprietário

A
novo Código Florestal. O estudo quer, de uma plantação de cana-de-açúcar que ampliação da lista de espécies
por exemplo, identificar o potencial de não tenha áreas nas quais possa fazer re- será estratégica para o Progra-
utilização e comercialização de produtos cuperação florestal em reserva legal pode, ma Nascentes, iniciativa de con-
madeireiros e não madeireiros de espé- por exemplo, investir em áreas naturais servação de rios a partir da restauração
cies nativas e desenvolver métodos de remanescentes localizadas em outra pro- florestal lançada pelo governo do estado
baixo custo para a restauração. Parale- priedade. “Também estamos colocando de São Paulo em 2015. O objetivo é pro-
lamente aos estudos acadêmicos, grupos à venda terrenos de 10 mil metros qua- teger 6 mil quilômetros de cursos d’água
de pesquisa, como o da Esalq, também se drados em parte das fazendas. Metade e restaurar cerca de 20 mil hectares de
esforçam para testar na prática diversas da área é de vegetação nativa restaura- matas ciliares. Três plantios já foram
técnicas disponíveis. Parte do que vem da. O objetivo é formar um corredor de realizados nas cidades de Joanópolis,
sendo feito no país está reunida no livro florestas em meio às construções”, diz Piracaia e Jacareí, utilizando mais de 270
Restauração florestal, organizado por a empresária e socióloga Neca Setubal, mil mudas. A organização não governa-
Rodrigues junto com Sergius Gandolfi proprietária de duas fazendas na região. mental Iniciativa Verde, que participará

fotos  reprodução do livro restauração florestal / editora oficina de textos


e Pedro Brancalion, também professo- O atual Código Florestal permite a de projetos do programa paulista, é uma
res da Esalq-USP. O livro foi lançado na exploração controlada de APPs em pe- das entidades que já atuam na região do
6ª edição do Simpósio de Restauração quenas propriedades, desde que sejam sistema Cantareira, que abastece parte
Ecológica realizado entre os dias 9 e 13 utilizadas espécies da região. Já em áreas da capital paulista e outras cidades. A
de novembro em São Paulo. em que é permitido o manejo sustentá- participação da ONG se dá pelo Progra-
A obra atualiza o referencial teórico vel, a lei autoriza o plantio de até 50% ma Produtor de Água, da Agência Nacio-
elaborado em 2010 para dar suporte téc- de espécies exóticas, como o eucalipto, nal de Águas (ANA), por meio do edital
nico ao Pacto pela Restauração da Mata em meio às nativas. No estado de São Iniciativa BNDES Mata Atlântica. “Em
Atlântica, esforço que reúne 350 insti- Paulo, a primeira resolução editada pela três anos, conseguimos perceber que o
tuições públicas e privadas, empresas, Secretaria Estadual do Meio Ambiente plantio de mudas melhorou a qualidade
órgãos de governos e proprietários. A indicava 247 espécies de árvores para da água”, diz Pedro Barral de Sá, diretor
meta é restaurar 15 milhões de hectares serem usadas em projetos de restaura- florestal da Iniciativa Verde.
de Mata Atlântica até 2050. “Muitas ini- ção. O Instituto de Botânica, entidade O município de Machadinho, no Rio
ciativas não tinham garantias de sucesso, responsável pela catalogação, anunciou Grande do Sul, também desenvolve há
em função de os projetos estarem sendo recentemente a lista revisada e amplia- três anos um programa para aumentar a
implementados de maneira equivocada”, da para 2.315 espécies, incluindo não qualidade e a produção da água por meio
diz Ricardo Rodrigues. só árvores, mas também samambaias, da proteção de nascentes. Parte da ini-

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Riacho protegido pela
mata ciliar em Lucas do
Rio Verde, em Mato
Grosso, e outro
desprotegido em
Piracicaba, no interior
paulista: vegetação
impede assoreamento
dos cursos d’água

ciativa consiste em associar a produção propriedades que são referência no uso as dificuldades são no sentido de fazer as
de erva-mate com florestas em nascentes desse sistema em trabalhos realizados experiências ganharem escala”, observa.
de rios e córregos. O projeto mobiliza di- pela Embrapa em parceria com o Insti- Ricardo Rodrigues, da Esalq-USP, con-
versos atores, entre eles a prefeitura da tuto de Assistência Técnica e Extensão corda com esse diagnóstico. “Os projetos
cidade e a Embrapa Florestas. “São mais Rural do Paraná. colocados em prática no país até agora
de 50 propriedades envolvidas. Já con- ainda são muito pontuais”, avalia. A am-

E
seguimos recuperar algumas nascentes m São Paulo, experiências que in- pliação das iniciativas, afirma Rodrigues,
e o caso se tornou uma referência para tegram plantio de cana-de-açúcar depende de estratégias para reduzir os
a proteção de nascentes e restauração com preservação de mata nativa custos dos projetos de restauração flo-
ecológica, inclusive com a capacitação indicam uma via para que a produção restal e permitir ganhos econômicos.
de técnicos”, diz Emiliano Santarosa, de bioenergia e florestas convivam no Em Itu, por exemplo, a recomposição
analista da Embrapa Florestas, respon- mesmo espaço. Um estudo feito em 2012 florestal nas três fazendas custou cerca
sável por ações de transferência de tec- por pesquisadores brasileiros e norte- de R$ 20 mil por hectare. Em função do
nologia na região. -americanos mostrou que a mata nativa elevado grau de degradação foi necessá-
Outro método de recuperação im- tem capacidade de armazenar 18 vezes rio fazer o plantio total de sementes ou
plementado pela Embrapa é o sistema mais carbono do que a cana. Já em um le- mudas. “São projetos caros, que precisam
agrossilvipastoril, que integra lavoura, vantamento mais recente, pesquisadores ser barateados com uso do conhecimento
pecuária e florestas e é capaz de aumen- da USP junto com colegas do Instituto científico”, diz Rodrigues. n
tar a produtividade no campo sem ne- Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
cessidade de expansão da área agrícola mostraram que o estado de São Paulo
sobre a mata virgem. A Embrapa desen- tem um déficit de 800 mil hectares de Projeto
volve projetos desse tipo principalmente florestas que deveriam ser recuperadas. Restauração ecológica de florestas ciliares, de florestas
com pecuaristas de leite ou de corte, que “Uma saída é fazer o plantio da cana no nativas de produção econômica e de fragmentos flores-
tais degradados (em APP e RL), com base na ecologia
plantam árvores no pasto. O sombrea- entorno de florestas, ou vice-versa”, su- de restauração de ecossistemas de referência, visando
mento parcial oferece conforto aos ani- gere Marcos Buckeridge, um dos autores testar cientificamente os preceitos do Novo Código Flo-
mais e, quando bem planejado, resulta da pesquisa e coordenador do Instituto restal Brasileiro (nº 2013/50718-5); Modalidade  Auxílio
à Pesquisa – Programa Biota – Projeto Temático; Pesqui-
em ganhos de produtividade de leite, Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) sador responsável Ricardo Ribeiro Rodrigues (Esalq-USP); 
por exemplo. No Paraná, há mais de 40 do Bioetanol. “Em restauração florestal, Investimento R$ 1.115.645,02.

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