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Quando começa a vida?

por

Heitor De Paola

Com a aproximação da votação da Lei que pretende legalizar


o assassinato de fetos, julguei oportuno republicar, com
atualizações, este artigo anterior.

Tentando desfazer alguns mitos

Desde o início um dever se impõe, já que estaremos falando


de algo que se situa na muitas vezes tênue fronteira entre
ciência e religião, que freqüentemente divergem, outras
vezes convergem. O autor tem o dever, pois, de explicitar de
qual ponto de vista está falando.

É muito fácil cair na armadilha de dizer que “falo em nome


da ciência” ou das “mais recentes descobertas científicas”
como se a ciência existisse num vácuo, não fosse, e aqui não
difere tanto da religião, produto dos mesmos seres humanos
que pretende estudar ou da Natureza que os circunda. É
muito comum as pessoas pensarem na ciência como um
conhecimento apartado do mundo dos seres humanos, algo
assim como um árbitro definitivo a respeito da realidade.
Nada mais falso. A ciência é produto da mente humana e,
portanto, é influenciada pela imaginação, fantasias e desejos
dos pesquisadores. Há uma diferença sim, mas é outra: uma
hipótese científica pode e espera-se que seja testada
independentemente por outros cientistas. Não é, ou não
deveria ser, dogmática.

Há evidentemente entre a explicação científica e a religiosa


uma tensão natural e que jamais será resolvida, nem sendo
desejável que desaparecesse, se isto fosse possível. A
tentativa mais séria e danosa de negar esta tensão foi erigir
uma “religião científica” como no positivismo e no marxismo.
Neste último atingiu-se as raias do absurdo: tudo se fez para
que a natureza coubesse nas explicações do “materialismo
dialético”, até as mais estapafúrdias teorias de Engels
expostas em seu “Dialética da Natureza” que os marxistas
gostariam de esquecer, pois até eles se sentem
envergonhados de tantas bobagens de um dos membros de
sua “santíssima trindade”. Da mesma forma, a história, o
simples relato de fatos, foi distorcida para se enquadrar no
“materialismo histórico”. Apesar de alegarem que seu
socialismo era “científico” tudo o que conseguiram foi fundar
uma nova religião, a qual resiste menos do que as outras a
uma atmosfera de liberdade, e só se mantém sob o jugo do
totalitarismo.

Portanto, não tenho uma posição materialista porque os


fenômenos humanos, mormente os mentais, transcendem
meras operações materiais das ondas elétricas cerebrais,
embora as “neurociências” – a mais moderna versão
materialista sobre a mente - venham tentando esta redução a
todo custo.

Se é verdade que as religiões foram arrogantes em dar


explicações antes da observação, a ciência não o tem sido
menos, por acreditar que se pode saber tudo através da
observação e da dedução. Este é outro mito a respeito da
ciência, de que as teorias são “produtos da observação”. A
ciência depende de alguns indivíduos excepcionais, que
podemos chamar gênios, que intuem algo de forma direta e
inexplicável e daí partem para tentar provar o que
perceberam. O exemplo claro é o de Einstein: ele não baseou
sua teoria na observação do desvio da luz pela atração
gravitacional; ele intuiu a característica corpuscular da luz
sem nenhuma observação, e disse que, se ele estivesse certo,
a luz seria desviada. Somente anos depois se deram as
condições favoráveis para esta observação, durante um
eclipse solar, e não deu outra: a luz desviou conforme
Einstein predissera.

No assunto que vou tratar a seguir teremos uma explicação


de como surge um novo ser, mas não pretende ser uma
resposta para as perguntas “o que é a vida, por que
morremos?”. Estes limites da ciência fazem com que alguns
cientistas se satisfaçam com a explicação de que é apenas
uma cadeia de aminoácidos organizados de maneira
específica que um dia fenece.

Um ponto que tende a aproximar as teorias científicas das


religiosas é que, hoje, não se considera que o processo vital
sofra descontinuidade, isto é, que a vida recomece a cada
novo ser. Acredita-se que a vida teve um impulso inicial –
sopro vital, (divino?) - e passou a fluir constantemente de uns
seres para outros. Pode-se dizer que a vida, após o impulso
inicial, continua fluindo porque os gens se recusam a morrer
e se perpetuam neste fluir. As células que conduzem os gens,
o espermatozóide e o óvulo, são obviamente células vivas e
portanto a vida se continua desde o momento da fecundação.

Embora não me considerando religioso, não me considero


materialista pelas razões expostas acima e nem ateu, pois a
meu ver estes combatem a idéia de Deus por não admitirem
concorrência. Depois de séculos com as religiões perseguindo
as ciências não deixa de ser curioso, até mesmo irônico, que
haja uma reação tão violenta nos EUA cada vez que um
Governo Republicano sugere que a explicação bíblica da
Criação volte a ser ensinada junto com a darwinista. Medo de
quê? Não deveria ser próprio dos cientistas este medo pois a
verdade pré-existe a alguém que a descubra e a pense; a
grande contribuição do ser humano é a mentira, esta sim,
não existe sem um pensador.

Embriologia

Todos os seres vivos possuem duas molas propulsoras: a


defesa da própria vida e a tendência à preservação da sua
espécie. Não parece haver nada anterior a isto; simplesmente
é assim. Ao mesmo tempo, o único destino previsível de um
ser vivo é a morte, o que faz supor que exista além do
impulso vital, um outro impulso que pode genericamente ser
chamado de “tendência de retorno ao inorgânico”, como
sugere a expressão latina revertere ad locum tuum.
Trataremos aqui de como esta coisa começa.

Fecundação: penetração do espermatozóide no óvulo


resultando no ovo que precisa de uma série de circunstâncias
favoráveis para se dividir e crescer, entre elas a situação
físico-química presente dentro da cavidade uterina, sendo a
principal a condição do endométrio (parede interna do útero)
para permitir a formação do “ninho”.

Nidação: no período fértil da mulher todo o aparelho genital


sofre uma série de modificações no endométrio. Estas são
resultado das alterações hormonais que preparam a mulher
para a gravidez. A principal é o aumento dos progestágenos e
a diminuição relativa dos estrogênios. Como o próprio nome o
diz, pró–gestar, quer dizer “a favor da gestação”. Há um
aumento da vascularização do endométrio deixando o terreno
preparado para a imediata fixação de um óvulo
eventualmente fecundado. Caso isto não ocorra voltam a se
inverter as quantidades hormonais relativas, o endométrio
descama e “solta-se” junto com o óvulo não fecundado no
fluxo menstrual.

Caso o óvulo tenha sido fecundado ele tende a nidar, fazer


seu ninho, a predominância de progesterona aumenta e a
partir daí começa a se dividir e iniciar a fase embrionária.
Note-se desde aqui algo que, ao menos do meu ponto de
vista, já é uma primeira ação do novo ser, pois são as
informações recebidas pelo aparelho glandular da mãe por
parte deste óvulo fecundado que impedem a reversão
hormonal que levaria inevitavelmente à expulsão menstrual,
isto é, o novo ser já luta pela sua vida e pela
preservação da espécie.

O primeiro “lago” placentário: no local onde ocorreu a


nidação e começa a se reproduzir o ovo iniciam-se mudanças
histológicas e anatômicas importantes. Vai-se formando um
novo tecido e um novo órgão que não é nem embrião nem
mãe, mas a interface entre ambos, a placenta. Sabiamente a
natureza fez com que esta não seja parte da mãe, mas possa,
no momento adequado, permanecer ligando a mãe com o feto
que poderá então permanecer usando ainda o sangue
proveniente da mãe e que lhe dá tempo de passar pelo canal
do parto e sobreviver, até que possa respirar por si mesmo e
adquirir o oxigênio vital através dos pulmões e não mais via
glóbulos vermelhos maternos. Se a placenta pudesse “se
soltar” antes de cortado o cordão umbilical, o feto morreria
imediatamente após o “desgarre” do endométrio, por falta
deste combustível vital.

O segundo “lago” placentário: acreditava-se que o


aumento do aporte sanguíneo à placenta com a constante
criação de novos vasos que possam suprir a demanda cada
vez maior do embrião em crescimento, fosse um processo
contínuo. Mas a patologia (estudo das doenças), como em
outras vezes, veio em socorro da fisiologia (estudo do
funcionamento normal) e percebeu-se que não era bem
assim. O que vai a seguir é fundamental para minha tese, por
isto peço paciência com alguns termos talvez não familiares
mas que tentarei colocar nas palavras mais simples possíveis.

Há uma doença conhecida desde a Antigüidade que acomete


mulheres grávidas e freqüentemente leva à morte. Ela se
caracteriza por três sinais principais (em propedêutica
chama-se sintoma o que o paciente relata espontaneamente e
sinal aquilo que é encontrado pelo exame médico ou
laboratorial): aumento contínuo da pressão arterial podendo
atingir níveis mortais, edema (inchaços) e presença de
proteínas na urina. Por esta última razão as comadres diziam
“fulana, coitada, morreu de albumina”, porque esta é uma
das séries de proteínas que aparecem na urina nesta doença.
O nome médico era eclampsia ou toxemia gravídica.
Usualmente as proteínas não saem pela urina, não são
excretadas, pois são os principais compostos químicos do
organismo. Exatamente por isto a principal demanda do
embrião é exatamente protéica e, mais uma vez, a troca de
mensagens feto-mãe faz com que a última “fabrique” mais
proteínas, usando às vezes as suas próprias se o suprimento
não estiver satisfatório. Na gravidez há, portanto, um
aumento das proteínas circulantes que devem chegar ao feto
e não ao rim. Se isto ocorre, há algo errado.

Com o refinamento dos métodos de investigação chegou-se às


seguintes conclusões: 1 - o aumento do “lago” placentário
não é de crescimento contínuo e linear; 2 - em algum
momento, o embrião, que já produz alguns hormônios, deve
“enviar” alguns deles para o organismo da mãe para ajudar
na ampliação do “lago”, formando um verdadeiro segundo
lago que permita o aumento de suprimento protéico e de
oxigênio. É assim como se numa lagoa o aumento do número
de peixes forçasse o aumento da extensão para não
morrerem de inanição.

Se esta contribuição fetal não ocorre, o organismo da mãe,


seguindo as leis da natureza, tenta de algum modo
compensar mandando mais sangue, só que este, por falta de
vasos mais calibrosos, fica “represado” (como se os afluentes
da hipotética lagoa encontrassem resistência), o
bombeamento cardíaco materno aumenta, aumentando
continuamente a pressão arterial e da mesma forma que
ocorreria com os afluentes, estes transbordam para os
tecidos (edema), e pressionam sua saída pelos rins. E aí está
a explicação da eclampsia, que hoje tem outro nome, Doença
Hipertensiva Específica da Gravidez por causa exatamente da
participação fetal que não ocorre em nenhuma outra
circunstância.

Mesmo que alguns possam achar que estou sendo demasiado


poético ou idealista, estas contribuições do embrião e mais
tarde do feto – e muitas outras mais – já são expressão de
impulsos básicos, herdados, uma espécie de “conhecimento a
priori” ou pré concepções, que já o identificam como pessoa.

Considerações finais

Embora seja polêmico, considera-se que tal herança,


transmitida pelos genótipos (contribuição genética, em
oposição aos fenótipos, do ambiente) não se limita a
características físicas mas inclui também uma espécie de
“lembrança da história da evolução da espécie”, um registro
de toda a filogênese que já deixa o novo ser apto a enfrentar
o ambiente, primeiramente intra-uterino, posteriormente o
externo. E é óbvio também que, sendo milhões de
espermatozóides e só um – ou uma quantidade mínima em
casos de gêmeos – cada um carrega consigo uma carga
genética com um certo grau de individualidade. O ovo,
portanto, não é apenas mais um novo ser, mas um novo ser
específico, individualizado desde o início.

Alessandra Piontelli, pediatra e psicanalista infantil italiana,


tem trabalhos pioneiros na área de observação pré, peri e
pós-natal imediata com o uso de Ultra-som, Raios X e,
posteriormente, da observação direta do bebê com a mãe.
Publicou uma vastíssima obra na qual fica comprovado que a
vida do feto não se limita a executar atos puramente reflexos,
mas desenvolve até atividades tão complexas como chupar o
dedo, reagir a estímulos químicos – como a modificação da
dieta materna - ou mecânicos - como sons, batidas na barriga,
etc. Mostraram-se reações emocionais intensas, como
expressões de dor ou prazer. A continuidade da observação
durante o parto e nos primeiros meses de vida, comprovaram
que o feto já tem, potencialmente, uma “personalidade”
própria e intransferível que vai desabrochando aos poucos no
contato com o ambiente. Este, para ajudar, tem que ser um
“ambiente de expectativas médias” que permitam aflorar as
características físicas e mentais que o novo ser já traz dentro
de si. Não atrapalhar é o melhor que os pais podem fazer.

Como disse Graça Salgueiro quando leu o texto original: o


feto é um "hóspede" que acabado o período de "aluguel",
parte, livre e relativamente independente do "hospedeiro".
Relativamente porque ainda dependerá em muito do
ambiente que o circunda, mas não mais daquele hospedeiro
específico. Embora seja melhor que a relação com a própria
mãe seja mantida, o bebê já não morre mais se este morrer,
pois poderá ser socorrido por qualquer outra pessoa que o
ame. O amor é uma expressão específica do ser humano, mas
acredita-se que tenha por base o impulso instintivo de vida e
preservação da espécie, embora o transcenda.
***

Termina aqui minha exposição, que teve a intenção somente


de apontar razões científicas para a identificação do feto
como um ser humano em formação, com características
próprias, que não permitem conceituá-lo como “parte do
corpo da mãe”, mas que apenas partilha com ela a interface
placentária, enquanto isto for uma necessidade. Deste ponto
de vista, portanto, é inevitável concluir que o aborto é uma
espécie de homicídio, ou filicídio, de um ser já com
individualidade que tem, in potentia, todas as condições de se
desenvolver plenamente. Qualquer decisão, seja pessoal, seja
jurídica, não pode evitar este conhecimento.

Será necessário, mesmo assim, abortar fetos que ameacem a


vida da mãe gestante? Ou de fetos com reconhecidas
anomalias físicas ou psíquicas que, se deixados nascer,
tornarão suas vidas e a de seus pais um verdadeiro inferno?
Não cabe ao cientista dar estas repostas, que pertencem ao
campo da ética, da moral, da ciência jurídica e das
convicções religiosas de cada um. Filósofos e cientistas não
têm vocação administrativa, como pode-se deduzir da
fracassada tentativa de Platão de levar à prática política sua
idéia dos Reis Filósofos.

Mas seria desejável que toda a decisão fosse tomada com


base na verdade e não em invenções falaciosas com a
finalidade de eliminar os sentimentos de culpa de todos os
envolvidos. Não dá certo, e disto tenho uma longa prática de
atendimento psicológico: a culpa está sempre presente, por
mais eficiente que seja a racionalização consciente.

O autor é escritor e comentarista político, membro da


International Psychoanalytical Association e ex-Clinical
Consultant, Boyer House Foundation, Berkeley, Califórnia,
Membro do Board of Directors da Drug Watch International,
e Diretor Cultural do Farol da Democracia Representativa
(www.faroldademocracia.org) . Possui trabalhos nas áreas de
psicanálise e comentários políticos publicados no Brasil e
exterior. E é ex-militante da organização comunista
clandestina, Ação Popular (AP).