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XI Encontro de Recursos Hídricos em Sergipe - 02 a 06 de abril de 2018, Aracaju/SE

SISMOS INDUZIDOS POR ESCAVAÇÃO DE ROCHAS: O CASO DA


BARRAGEM GOVERNADOR JOÃO ALVES FILHO, ITABAIANA/SE

José Douglas Júnior Pereira de Andrade1 & João Carlos Santos da Rocha 2

RESUMO: Desde a fase da construção em 1985, a Barragem Poção da Ribeira (oficialmente


chamada de Barragem Governador João Alves Filho), localizada entre os municípios de Campo
do Brito e Itabaiana, em Sergipe, e a casa de bomba que abastece um perímetro de irrigação
público estadual estão constantemente submetidos aos efeitos de pequenos tremores. A fase que
antecedeu a construção da barragem foi marcada por vários estudos de viabilidade, que faziam
menção aos impactos e abalos sísmicos gerados pela explotação mineral e que deveriam ser
controlados de modo a não prejudicar a integridade das obras no entorno. Dessa maneira foi
estabelecida uma carga máxima por espera como segurança. O controle desse monitoramento
ocorreu nos primeiros 5 anos da construção das obras e não vem sendo realizado atualmente,
colocando em risco as construções e a vida das pessoas localizadas à jusante do barramento,
caso venha ocorrer o rompimento da barragem. O presente trabalho objetiva analisar os
resultados das velocidades de vibração da partícula, para cargas crescentes, na casa de bomba.
Os valores obtidos foram comparados com diversas normas internacionais e a praticada no Brasil.

Palavras-chave: Vibração, Desmonte de Rocha, Barramento

INTRODUÇÃO
As vibrações no terreno se originam a partir de diversas situações naturais ou produzidas
pelo homem. O entendimento dos fenômenos que as originam, do comportamento do terreno e,
principalmente, das obras construídas sobre o substrato geológico constituem um interesse
particular para o ramo da engenharia civil, especialmente no estudo dos reforços necessários
para que tais estruturas sejam capazes de, mesmo após um evento de elevada magnitude,
permanecerem intactas.
Em Sergipe, a presença de uma barragem de terra (Governador João Alves Filho) e obras
civis localizadas a menos de 300 metros da Pedreira Cajaíba, em intensa atividade de explotação
de pedra para a produção de brita, constitui uma circunstância singular que deve merecer a
atenção de estudiosos e das autoridades responsáveis. Especialmente na questão de
monitoramento, já que a barragem em questão convive constantemente com as vibrações
advindas da pedreira.
Adicionalmente a um possível prejuízo causado pelas vibrações derivadas da pedreira ao
patrimônio público e aos irrigantes, ocorre uma elevação ao dano potencial associado da
barragem, que é considerado alto pela existência de diversas moradias, rodovias e infraestruturas
construídas a jusante do barramento.
No caso da exploração mineral, a intensidade das vibrações produzidas pode ser controlada
através do correto dimensionamento das cargas detonadas e do intervalo de tempo, geralmente
expresso em milésimos de segundos, entre as sucessivas detonações em um mesmo plano de
fogo.
Assim, este trabalho justifica-se à medida que aborda as vibrações produzidas pela
exploração mineral de uma pedreira localizada nas cercanias da barragem Poção da Ribeira e
procura demonstrar o risco elevado para as obras que compõem o distrito de irrigação público
estadual existente, além da segurança das populações residentes à jusante do barramento.

1Engenheiro Civil, Faculdade Pio Décimo, E-mail: josedouglasjunior@yahoo.com.br (apresentador do trabalho);


2Mestre em Geologia de Engenharia e Meio Ambiente, UFRJ, Superintendência de Recursos Hídricos (SRH) da
Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), jcsdrocha@gmail.com.
XI Encontro de Recursos Hídricos em Sergipe - 02 a 06 de abril de 2018, Aracaju/SE

MATERIAIS E MÉTODO
Segundo Tecnosolo (1985), a Barragem Governador João Alves Filho está localizada na
divisa entre os munícipios Campo do Brito e Itabaiana. O barramento situa-se no rio das Traíras,
afluente do rio Vaza Barris, próximo ao povoado Bernadinho ou Cajaíba.
As coordenadas UTMs dos principais alvos do estudo em questão, obtidas através do Atlas
Digital sobre Recursos Hídricos de Sergipe (SEMARH, 2016) e utilizando o Sistema de Referência
Geocêntrico para as Américas - SIRGAS 2000, são:

a) Barragem (centro do maciço): 669.449m L e 8.805.831m N; FUSO: 24S;


b) Casa de Bombas da COHIDRO (Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e
Irrigação de Sergipe): 669.630m L e 8.805.710m N FUSO: 24S;
c) Pedreira (centro da bancada): 669.840m L e 8.805.474m N FUSO: 24S.

Os dados obtidos levam em consideração a análise de estudos realizados na época da


construção da barragem, além de entrevistas e visitas de campo para a verificação in loco das
obras, onde se buscou identificar possíveis consequências das constantes detonações, tais como
fissuras nas obras de concreto e abatimentos no coroamento e taludes da barragem.
As distâncias entre as obras e a origem das vibrações foram obtidas através da
interpretação de imagens Google Earth, pelo software QGIS, versão 2.14.11.
A metodologia utilizada buscou integrar diversos campos do conhecimento cientifico,
consolidado em um cuidadoso levantamento bibliográfico, juntamente com as prescrições
definidas pelas normas nacionais e internacionais e recomendações (NBR 9653/2005 e CETESB
D.7; USBM RI 8507 e OSMRE; DIN4150 e NP2074), de forma que fosse possível envolver o
estudo sismológico, suas causas, consequências e fatores que induzem a vibração no solo,
juntamente com seu efeito nas obras submetidas a esse fenômeno.
O cálculo de vibração máxima foi determinado através da lei de atenuação proposto por
Berta (1994), usando a seguinte equação:

(Eq. 1)
Onde: V = máxima velocidade da partícula (mm/s); K = Coeficiente numérico
relativo à rocha e ao local (Baixo confinamento: 500; Confinamento normal: 1.140;
ou Confinamento alto: 5.000); D = Distância da carga (m); Q = carga instantânea
máxima (kg); B = constante relativa à rocha e ao local de valor aproximado (-1,6).

O tipo de confinamento (K) foi considerado normal, tendo em vista que o maciço rochoso do
Complexo Gnaissico-Migmatítico do Domo de Itabaiana apresenta-se medianamente fraturado.
A distância da carga (D) considerada foi de 309,1m, correspondente entre a casa de
bombas e a frente da bancada de explotação da Pedreira Cajaíba.
Para o cálculo da velocidade de vibração das partículas (V) foram consideradas as cargas
instantâneas (Q) de 80kg, conforme sugerida em estudos prévios como forma de garantir a
segurança da barragem, além das cargas de 1.000kg e 2.000kg.
Tendo em vista que cada tipo de solo filtra as vibrações de forma e frequência diferentes,
como a barragem está apoiada sobre um maciço rochoso estável, propõe-se a faixa de
frequência de vibração para rochas pouco competentes entre 30 e 80 hertz (Hz) (GOMES, 2016).
Entretanto, estudo realizado in loco por Fernandes (1991) encontrou o espectro de frequência
dominante variando entre 25 e 75 Hertz (Hz) e velocidade de pico da rocha de 4.680 m/s (metros
por segundo). Para melhor determinação do modelo, a faixa será delimitada no intervalo de 25 a
80Hz.
Finalmente, os resultados calculados foram então comparados com as normas
regulamentadoras nacionais e internacionais em questão.
XI Encontro de Recursos Hídricos em Sergipe - 02 a 06 de abril de 2018, Aracaju/SE

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na visita de campo, observou-se a falta de manutenção da casa de bombas, com vários
indícios de estragos derivados de fragmentos de rocha lançados pelo desmonte de rocha, e do
maciço da barragem, que apresentava uma grande quantidade de arbustos no coroamento e
paramento de jusante.
A instrumentação da barragem, composta de piezômetros Casagrande e pneumáticos, além
de tassômetros superficiais, estava inoperante no momento da visita.
Segundo informações dos moradores locais, aparentemente, não se evidencia o uso de
retardos para o desmonte de rocha, uma vez que não é percebido intervalos de tempo entre as
detonações dos furos da bancada.
Dessa forma, aplicando-se a Eq. 1 foram obtidas as velocidades das partículas para a
distância equivalente entre a pedreira e as obras, correspondendo às cargas de 80kg, 1.000kg e
2.000kg (Tabela 1).
A comparação das velocidades obtidas para a distância entre a casa de bombas e a
pedreira, situação mais crítica, para as diferentes normas existentes, está apresentada nos
gráficos da Figura 1.
Finalmente, a Tabela 2 expõe uma comparação do efeito da velocidade da partícula de pico
para a casa de bombas para as diferentes cargas inicialmente estabelecidas. Consideraram-se as
seguintes categorias de risco: Verde - não oferece risco e se enquadra na norma; Amarelo - risco
moderado e Vermelho -: risco elevado.

CONCLUSÕES
1. A existência de uma pedreira em funcionamento próxima à barragem Governador João
Alves Filho constitui uma situação singular e que acrescenta um fator de risco
extremamente elevado.
2. A falta de monitoramento, de manutenção das obras e do controle das vibrações
derivadas da pedreira por parte do poder público provoca uma real situação de perigo
para a integridade do barramento, das infraestruturas e das vidas dos habitantes
localizados a jusante da barragem.
3. Os resultados apresentados demonstram que o valor de carga máxima por espera,
indicado nos estudos sísmicos inicialmente elaborados, equivalente a 80kg, está
adequado. Por outro lado, cargas de 1.000kg e 2.000kg, que podem estar sendo
empregadas pela pedreira, uma vez que não ocorre uma fiscalização do Estado, coloca
em risco moderado a elevado às obras existentes e aos moradores localizados a jusante;
4. A carga de 2.000kg oferece um risco substancialmente elevado chegando a mais do
limite em boa parte das normativas;
5. Assim, é oportuno que se recomende a continuidade no acompanhamento dos
instrumentos, além do controle e monitoramento das vibrações de forma a se obter
constantes informações das condições de estabilidade da barragem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BACCI, Denise La Corte; LANDIM, Paulo Milton Barbosa; ESTON, Sérgio Médici de;
IRAMINA, Wilson Siguemasa. Principais normas e recomendações existentes para o
controle de vibrações provocadas pelo uso de explosivos em áreas urbanas – parte II.
Artigo na Revista Escola de Minas, Ouro Preto/MG, p.131-137, 2003.
BERTA, G. (1994). BLASTING INDUCED VIBRATION IN TUNNELING. TUNNELLING
AND UNDERGROUND SPACE TECHNOLOGY.VOL.9 N.2. P.175-187.
FERNANDES, Carlos Eduardo de M. Desempenho da Barragem Poção da Ribeira face aos
abalos sísmicos Oriundos de uma pedreira próxima em exploração. XIX Seminário Nacional de
Grandes Barragens, Aracaju/SE, v. 1, n. 4, p.35-42, mar. 1991.
GOMES, José Pedro Moreira Andrade. METODOLOGIA PARA ANÁLISE DE
VIBRAÇÕES PROVOCADAS POR DESMONTES COM RECURSO A EXPLOSIVOS. 2016. 89 f.
Dissertação (Mestrado) - Curso de Engenharia de Minas, Universidade de Porto, Porto/PT, 2016.
XI Encontro de Recursos Hídricos em Sergipe - 02 a 06 de abril de 2018, Aracaju/SE

SEMARH. Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado de Sergipe.


Atlas Digital Sobre Recursos Hídricos de Sergipe, 2016. CDROM
TECNOSOLO. Relatório Executivo Poção da Ribeira. [itabaiana]: Tecnosolo Engenharia
S.a., 1985. 482 p.
Tabela 1. Parâmetros e Valores da Velocidade da partícula.

Tabela 2. Classificação de carga de risco relacionada à vibração.

Limite de velocidade de vibração da particula NBR-9653/2006 Limite de velocidade de vibração da particula CETESB D7.013
Velocidade de Particula(mm/s)

100
25; 51,7095 80; 51,7095 100
Velocidade de Particula(mm/s)

50 25; 51,7095 80; 51,7095


40, 50
15, 20
25; 29,6993 80; 29,6993
25; 29,6993 80; 29,6993
4, 15
10 10

25; 3,9375 80; 3,9375 4,2

25; 3,9375 80; 3,9375

1
1 1 10 100
1 10 100 1000
Frequência (Hz) limite de velocidade de vibração da particula Frequência (Hz) velocidade para a carga de 80 kg
limite de velocidade de vibração da particula velocidade para a carga de 80 kg
velocidade para a carga de 1000 kg velocidade para a carga de 2000 kg velocidade para a carga de 1000 kg velocidade para a carga de 2000 kg

(a) (b)
Limite de velocidade de vibração da particula OSMRE- USBM 8507 Limite de velocidade de vibração da particula NP- 2074
100
40; 60
Velocidade de Particula(mm/s)

100 25; 51,7095 80; 51,7095


Velocidade de Particula(mm/s)

80; 51,7095
25; 51,7095
40; 50
4; 19 19 25; 29,6993 80; 29,6993
2,8; 12,5 25; 29,6993 10,1; 12 40; 12
80; 29,6993 10
10 10; 6
6 25; 3,9375 40,1; 6 80; 3,9375
25; 3,9375 80; 3,9375
3
10,1; 3 40; 3
1,5
1 10; 1,5
1
1 10 100
1 10 100
Frequência (Hz)
Frequência (Hz)
USBM OSMRE velocidade para a carga de 80 kg Edificações Sensíveis Edificações comuns Edificações Reforçadas
velocidade para a carga de 1000 kg velocidade para a carga de 2000 kg velocidade p ara a carga de 80 kg velocidade p ara a carga de 1000 kg velocidade p ara a carga de 2000 kg

(c) (d)
Limite de velocidade de vibração da particula DIN- 4150
100
25; 51,7095
80; 51,7095
Velocidade de Particula(mm/s)

100, 50
80; 29,6993
20 25 50, 40
10, 20 100, 20
50, 15
10

50; 8 100; 10
5
10, 5
3 25; 3,9375 80; 3,9375
10; 3

1
1 10 100 1000
Frequência (Hz)
Edifica ções his tórica s Edifica ções Industriais
Edifica ções ha bita cionais velocida de p ara a carga de 80 kg
velocida de p ara a carga de 1000 kg velocida de p ara a carga de 2000 kg

(e)
Figura 1. Gráficos das normativas nacionais e internacionais - (a) NBR 9653/2005; (b) CETESB
D.7; (c) USBM RI 8507 e OSMRE; (d) NP2074 e (e) DIN4150.

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