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Para cuidar da água é

Preciso tratar o esgoto.


Quando se fala na Copasa, a gente logo pensa na água pura e saudável que chega todos os dias
à nossa casa. Mas esse serviço não para por aí. É que depois que você utiliza a água, a Copasa
faz um trabalho ainda mais importante. É o tratamento dos esgotos industriais e domésticos,
que vai devolver essa água para a natureza livre de resíduos e poluentes, preservando o meio
ambiente e ajudando a trazer a vida de volta para os nossos rios. Imagine o que isso significa para
as cidades, em termos de saúde, trabalho, turismo, desenvolvimento e, acima de tudo, qualidade
de vida. Como você pode ver, quando se trata de garantir a vida, a Copasa trabalha com muita
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recuperar sua área e conservar o meio ambiente. É o Governo de
Minas tornando Minas mais verde. Outras informações: ief.mg.gov.br

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Informe Agropecuário
Uma publicação da EPAMIG
v.32 n.263 jul./ago. 2011
Belo Horizonte-MG

Sumário

Editorial .......................................................................................................................... 3

Entrevista . ...................................................................................................................... 4

Bacias hidrográficas: conceitos e definições


Marcos Antonio Gomes, João Luiz Lani e Antônio de Pádua Alvarenga ................................ 7

Sistema de Informações Geográficas como ferramenta para o manejo de bacias


hidrográficas
Apresentação
Thiago Dannemann Vargas, Marcos Antonio Gomes, João Luiz Lani, Daniel Fernandes Novaes
Entender sobre a utilização e preservação do Pimenta, Rafaella Silva Nogueira e Rita Maria de Souza ...................................................... 12
recurso hídrico, é praticamente obrigatório em
nosso país, principalmente, na região considerada
a “caixa d’água do Brasil”, que é Minas Gerais. Qualidade da água em bacias hidrográficas
Este Estado é um dos maiores fornecedores de Antonio Teixeira de Matos, Paola Alfonsa Vieira Lo Monaco e Marcos Alves de Magalhães ...... 22
água potável no País e, ainda, um divisor de várias
bacias hidrográficas, inclusive internacionais. Incentivo ao manejo de bacias hidrográficas pelo Pagamento por Serviços Ambientais
A bacia hidrográfica é uma unidade natural que
Mariana Barbosa Vilar, Laércio Antônio Gonçalves Jacovine, Ana Carolina Campanha de
recebe influência da região onde a água é drenada,
urbana e/ou rural. É um coletor de todas as interfe- Oliveira, Aline Daniele Jacon, Marcelo de Oliveira Santos e Agostinho Lopes de Souza ........ 30
rências que ocorrem no ecossistema, um depósito
de informações e recurso fundamental para o desen- Sistemas Agroflorestais como prática de manejo em bacias hidrográficas
volvimento. Diante dessas características ganham Lucas Machado Pontes, Eduardo de Sá Mendonça, Lucas Teixeira Ferrari, Joana Junqueira
relevância o manejo e a conservação das bacias,
principalmente aquelas que servem de abastecimen- Carneiro, Adriellem Lídia Marta Soares da Silva e Irene Maria Cardoso ................................ 42
to público, com o objetivo de manter a qualidade, a
quantidade e a regularidade da água para seus diver- Planejamento estratégico de propriedades rurais para a conservação dos recursos
sos usos. A Lei das Águas 9.433, concede à bacia naturais
primazia de unidade básica de planejamento.
João Luiz Lani, Marcos Antonio Gomes, Eufran Ferreira do Amaral, Rita Maria de Souza,
Em consequência do mau uso e manejo ina-
dequado do solo, adotados desde a colonização do Rodrigo de Almeida Silva e Antônio de Pádua Alvarenga .................................................. 54
Brasil, tem-se como reflexo a contínua diminuição
de vazão dos mananciais hídricos no período de es- Técnicas de manejo e conservação do solo para a revitalização de nascentes
tiagem e de enchentes, com frequência e volumes Marcos Antonio Gomes, Daniel Fernandes Novaes Pimenta, João Luiz Lani, Rita Maria de Souza
de água cada vez maiores nos períodos de chuva.
e Antônio de Pádua Alvarenga .......................................................................................... 68
Soma-se à indisponibilidade quantitativa, a deterio-
ração da qualidade da água por lançamento de re-
síduos advindos do meio rural, industrial e urbano. Recuperação e conservação de Matas Ciliares
Com ênfase na revitalização das nascentes, Marcos Antonio Gomes, João Luiz Lani, Rita Maria de Souza, Daniel Fernandes Novaes Pimenta
esta edição do Informe Agropecuário aborda te- e Antônio de Pádua Alvarenga .......................................................................................................... 78
mas relevantes sobre a adequação ambiental de
propriedades rurais e técnicas de manejo e con-
servação do solo, com vistas a assegurar a dis- Sustentabilidade do eucalipto e confrontos com os recursos hídricos
ponibilidade de água em quantidade e qualidade Vanessa Pataro Maffia, Maria Cristina Martins, Wellington Avelar de Souza Silva e Camila
satisfatórias. Soares Braga . ......................................................................................................................... 86

Antônio de Pádua Alvarenga


Marcos Antonio Gomes

ISSN 0100-3364

Informe Agropecuário Belo Horizonte v.32 n.263 p. 1-96 jul./ago. 2011

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A

© 1977 EPAMIG Informe Agropecuário é uma publicação da


Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais
ISSN 0100-3364
INPI: 006505007
EPAMIG
É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem
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Plínio César Soares Os artigos assinados por pesquisadores não pertencentes ao quadro
Maria Lélia Rodriguez Simão
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Vânia Lacerda para conveniência do leitor, não havendo preferências, por parte da
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COMISSÃO EDITORIAL DA REVISTA INFORME AGROPECUÁRIO
técnicos seguiu a nomenclatura proposta pelos autores de cada artigo.
Plínio César Soares
Diretoria de Operações Técnicas O prazo para divulgação de errata expira seis meses após a data de
Maria Lélia Rodriguez Simão publicação da edição.
Departamento de Pesquisa

Alberto Marcatti Neto Esta edição do Informe Agropecuário tem o apoio da FAPEMIG,
Divisão de Produção Animal por meio do projeto CAG 3737-10 - Revitalização da estrutura
Marcelo Abreu Lanza de produção editorial da revista Informe Agropecuário.
Divisão de Produção Vegetal

Trazilbo José de Paula Júnior Assinatura anual: 6 exemplares


Chefia de Centro de Pesquisa Aquisição de exemplares
Vânia Lacerda Divisão de Gestão e Comercialização
Departamento de Publicações
Av. José Cândido da Silveira, 1.647 - União
CEP 31170-495 Belo Horizonte - MG
EDITORES TÉCNICOS
Antonio de Pádua Alvarenga e Marcos Antonio Gomes Telefax: (31) 3489-5002
www.informeagropecuario.com.br; www.epamig.br
CONSULTORES TÉCNICO-CIENTÍFICOS E-mail: publicacao@epamig.br
João Luiz Lani (UFV) CNPJ (MF) 17.138.140/0001-23 - Insc. Est.: 062.150146.0047
Juliana Sialino Müller (IEF)
Rita Maria de Souza Executivo de Negócios - DPET
Décio Corrêa
PRODUÇÃO Telefone: (31) 3489-5088 - deciocorrea@epamig.br
DEPARTAMENTO DE PUBLICAÇÕES
EDITORA-CHEFE
Informe Agropecuário. - v.3, n.25 - (jan. 1977) - . - Belo
Vânia Lacerda
Horizonte: EPAMIG, 1977 - .
REVISÃO LINGUÍSTICA E GRÁFICA v.: il.
Marlene A. Ribeiro Gomide e Rosely A. R. Battista Pereira
Cont. de Informe Agropecuário: conjuntura e estatísti-
NORMALIZAÇÃO ca. - v.1, n.1 - (abr.1975).
Fátima Rocha Gomes e Maria Lúcia de Melo Silveira ISSN 0100-3364
PRODUÇÃO E ARTE
1. Agropecuária - Periódico. 2. Agropecuária - Aspecto
Diagramação/formatação: Maria Alice Vieira, Ângela Batista P.
Econômico. I. EPAMIG.
Carvalho, Fabriciano Chaves Amaral, Débora Nigri (estagiária) e
Taiana Amorim (estagiária)
CDD 630.5
Coordenação de Produção Gráfica
Fabriciano Chaves Amaral
O Informe Agropecuário é indexado na
Capa: Ângela Batista P. Carvalho
AGROBASE, CAB INTERNATIONAL e AGRIS
Foto da capa: Marcos Antonio Gomes
Governo do Estado de Minas Gerais
Impressão: EGL Editores Gráficos Ltda. Secretaria de Estado de Agricultura,
Pecuária e Abastecimento

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Governo do Estado de Minas Gerais
Antonio Augusto Junho Anastasia
Governador
Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento
Elmiro Alves do Nascimento
Secretário

Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais


Água e agricultura sustentável
Conselho de Administração O crescimento populacional e o desenvolvimento
Elmiro Alves do Nascimento
Antônio Lima Bandeira
Sandra Gesteira Coelho
Elifas Nunes de Alcântara
socioeconômico são, muitas vezes, acompanhados pela
Pedro Antônio Arraes Pereira
Adauto Ferreira Barcelos
Vicente José Gamarano
Joanito Campos Júnior
degradação descontrolada e pela transformação do uso
Osmar Aleixo Rodrigues Filho
Décio Bruxel
Helton Mattana Saturnino
da terra e dos recursos hídricos. Por isso, uma das maiores
Conselho Fiscal preocupações da atualidade é com a falta de água, recurso
Carmo Robilota Zeitune Evandro de Oliveira Neiva
Heli de Oliveira Penido Márcia Dias da Cruz natural de fundamental importância para todos os seres vivos.
José Clementino Santos Celso Costa Moreira
Cerca de 97% de toda a água do mundo está nos oceanos,
Presidência
Antônio Lima Bandeira e somente 3% são água doce, e, destes, apenas 1% está
Vice-Presidência
Mendherson de Souza Lima disponível em rios, lagos e aquíferos subterrâneos. O Brasil
Diretoria de Operações Técnicas detém 11% de toda a água doce do mundo, e 40% desse
Plínio César Soares
Diretoria de Administração e Finanças volume encontra-se na Região Norte do País.
Aline Silva Barbosa de Castro
A escassez de água tem-se tornado evidente em diversas
Gabinete da Presidência
Reginaldo Amaral regiões do mundo e vem gerando discussões sobre alternativas
Assessoria de Comunicação
Roseney Maria de Oliveira
que garantam sua disponibilidade a longo prazo. Diversos estudos
Assessoria de Desenvolvimento Organizacional vêm sendo realizados, com o intuito de minimizar os impactos
Felipe Bruschi Giorni
sobre os recursos hídricos, com destaque para a agricultura, que,
Assessoria de Informática
Silmar Vasconcelos mundialmente, consome cerca de 70% de água.
Assessoria Jurídica
Nuno Miguel Branco de Sá Viana Rebelo A busca por uma agricultura sustentável, que consiga
Assessoria de Negócios Tecnológicos alta produtividade e seja ao mesmo tempo socialmente justa e
Sebastião Alves do Nascimento Neto
Assessoria de Planejamento e Coordenação ecologicamente correta, aponta para a necessidade de práticas
Renato Damasceno Netto
que garantam a produtividade dos agroecossistemas de forma
Assessoria de Relações Institucionais
Luiz Carlos Gomes Guerra sustentada. Os Sistemas Agroflorestais apresentam-se como
Assessoria de Unidades do Interior
Júlia Salles Tavares Mendes alternativa tecnológica promissora nesse processo e importantes
Auditoria Interna para o manejo de bacias hidrográficas e recuperação de áreas
Márcio Luiz Mattos dos Santos
Departamento de Compras e Almoxarifado degradadas. Há vários resultados de pesquisa que apontam os
Sebastião Alves do Nascimento Neto
Sistemas Agroflorestais como produtivos e potencializadores de
Departamento de Contabilidade e Finanças
Warley Wanderson do Couto importantes serviços ambientais nos agroecossistemas.
Departamento de Engenharia
Luiz Fernando Drummond Alves Outra vertente desses estudos aponta para o
Departamento de Transferência Tecnológica gerenciamento de propriedades rurais como prática fundamental
Juliana Carvalho Simões
Departamento de Patrimônio e Serviços Gerais para a sustentabilidade dos agroecossistemas. A ausência de um
Mary Aparecida Dias
planejamento pautado em informações temáticas compatíveis
Departamento de Pesquisa
Maria Lélia Rodriguez Simão com o tamanho da área e com as variáveis existentes, como
Departamento de Publicações
Vânia Lúcia Alves Lacerda solo, declividade, clima etc., é responsável pela degradação dos
Departamento de Recursos Humanos recursos naturais dentro das bacias hidrográficas, especialmente
Flávio Luiz Magela Peixoto
Departamento de Eventos Tecnológicos os hídricos, que têm apresentado variações acentuadas nas
Mairon Martins Mesquita
vazões com o decorrer dos tempos.
Departamento de Transportes
José Antônio de Oliveira Esta edição do Informe Agropecuário visa levar aos
Instituto de Laticínios Cândido Tostes
Luiz Carlos G. C. Júnior, Gérson Occhi e Nelson Luiz T. de Macedo produtores rurais e aos demais segmentos da agropecuária
Instituto Técnico de Agropecuária e Cooperativismo informações e tecnologias capazes de garantir sustentabilidade,
Luci Maria Lopes Lobato e Francisco Olavo Coutinho da Costa
EPAMIG Sul de Minas produtividade e preservação dos recursos hídricos.
Rogério Antônio Silva e Ana Paula de M. Rios Resende
EPAMIG Norte de Minas
Polyanna Mara de Oliveira e Josimar dos Santos Araújo
Antônio Lima Bandeira
EPAMIG Zona da Mata Presidente da EPAMIG
Trazilbo José de Paula Júnior e Giovani Martins Gouveia
EPAMIG Centro-Oeste
Édio Luiz da Costa e Waldênia Almeida Lapa Diniz
EPAMIG Triângulo e Alto Paranaíba
José Mauro Valente Paes e Marina Lombardi Saraiva

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Produtor rural é fundamental na
conservação dos recursos hídricos
Osvaldo Ferreira Valente é engenheiro florestal e mestre
em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa
(UFV), na área de Conservação de Água e Solo. É professor
titular aposentado da UFV e especialista em hidrologia e
manejo de bacias hidrográficas, com dedicação especial às
pequenas bacias, formadoras e mantenedoras de aquíferos
e nascentes.

Foi chefe do Departamento de Engenharia Florestal,


Diretor Administrativo da Sociedade de Investigações
Florestais, Assessor de Assuntos Internos da Reitoria,
Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Ciência
Florestal e membro de vários colegiados na UFV. Como
parte dos primeiros grupos de professores de engenharia
florestal no Brasil, lecionou várias disciplinas de graduação,
com destaque para Ecologia Florestal, Fotogrametria e
Fotointerpretação, Conservação de Recursos Naturais Renováveis, Incêndios Florestais, Tecnologia de Produtos
Energéticos da Madeira e Hidrologia Florestal e Manejo de Bacias Hidrográficas. Esta última criada por Osvaldo
Valente e é a primeira com tal denominação a ser lecionada no Brasil.
Atualmente, vem trabalhando na implantação de pequenas bacias hidrográficas experimentais, para estudos
de comportamentos hidrológicos e testes de tecnologias de conservação de aquíferos e nascentes. Tem atuado,
também, na área de Divulgação Científica relacionada com o tema, por acreditar que a conservação dos recursos
hídricos passa pela capacidade de a população entender os caminhos da água pelo planeta.

IA - O Brasil é detentor de potencial tros países, algumas regiões brasileiras Osvaldo Valente - Em algumas ba-
aquífero que pode colocá-lo em já sofrem com baixas ofertas. A própria cias, como as dos Rios São Francisco,
posição de destaque em relação a Lei Federal 9.433, a Lei das Águas, já Doce e Paraíba do Sul, por exemplo, as
outros países? Esse potencial tem reconheceu isso, considerando a água concentrações populacionais, com as
sido usado racionalmente? como um recurso escasso. Como essa respectivas necessidades de produção e
Osvaldo Valente - Esse propalado escassez vem aumentando em muitas de consumo, têm pressionado os recursos
potencial está muito influenciado por regiões, ela tem mostrado, também, que naturais, provocando degradações que
dados estatísticos que colocam o País ainda convivemos com o desperdício e a vêm causando aumentos nas amplitudes
como detentor de valores que variam pouca racionalidade de consumo. de vazões dos rios e consequentes cheias
de 9% a 12% dos recursos hídricos e inundações dos períodos de chuvas e
terrestres. Mas não podemos nos esque- IA - Qual a situação dos recursos hí- baixas ofertas de água nos períodos de
cer das grandes diferenças internas de dricos brasileiros, em especial das estiagens. As pressões populacionais
distribuição de água. Se no total a nossa bacias hidrográficas, em relação à também são responsáveis pelo lança-
situação é confortável em relação a ou- quantidade e à qualidade da água? mento de resíduos sólidos e líquidos
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diretamente nos cursos d’água, causando de água em aquíferos subterrâneos e em Quem tem condições de tomar conta
as indesejáveis perdas de qualidade. corpos d’água superficiais, mas com qua- da esmagadora maioria das nascentes
lidade diferente daquela recebida pelas e dos pequenos córregos, origens de
IA - O que o motivou a lecionar e a chuvas. Essa transformação de qualidade todos os grandes rios, são os produtores
realizar os primeiros estudos sobre da água na bacia hidrográfica justifica a rurais. Então eles são os componentes
manejo de bacias hidrográficas no afirmação de que houve a produção de principais dos procedimentos de gestão
Brasil? um novo produto. Esse conceito reforça dos recurhsos hídricos. Sem a inclusão
a importância da bacia hidrográfica deles, não haverá salvação de nossos
Osvaldo Valente - O pontapé inicial como unidade básica de planejamento mananciais.
foi dado na disciplina de Hidráulica de recursos hídricos.
Agrícola, quando cursava Engenharia
IA - Os custos de revitalização são
Florestal em Viçosa, na década de 1960.
altos. Existem opções simples e
Nela o professor Alberto Daker, com
excelente visão de futuro, já demonstrava “Quem tem condições baratas que o próprio produtor
rural possa utilizar?
preocupações com o comportamento de
de tomar conta da
nossas bacias hidrográficas e já tinha Osvaldo Valente - Em certos as-
o hábito de acompanhar as vazões dos esmagadora maioria pectos, sim. Os custos são altos, pois a
cursos d’água que abasteciam Viçosa e revitalização inclui qualidade de água
a então Universidade Rural do Estado
das nascentes e dos
e os nossos rios estão poluídos pelos
de Minas Gerais (Uremg). Depois, numa pequenos córregos, esgotos das cidades. E os sistemas de
viagem aos Estados Unidos, tive contato tratamentos são caros. Na salvação da
com a hidrologia e o manejo de bacias origens de todos os qualidade, as Matas Ciliares, tão decan-
hidrográficas, como atividade de ensino
grandes rios, são os tadas como salvadoras da pátria, podem
e pesquisa. Contratado como professor muito pouco e caracterizam muito mais
da Escola Superior de Florestas, tive a produtores rurais.” uma tendência urbana de jogar toda a
oportunidade de criar a primeira dis- responsabilidade de conservação para o
ciplina sobre o assunto em uma escola meio rural. Revitalizar o Rio São Fran-
brasileira, que passou a ser lecionada a cisco, por exemplo, é uma operação que
IA - Qual o papel do produtor rural
partir de 1967. Naquele tempo, a água tem de começar pelo tratamento de todo
no processo de revitalização dos
ainda era considerada um bem livre e o esgoto da região metropolitana de Belo
mananciais?
abundante. Daí as dificuldades para ins- Horizonte. Não adianta nada a presença
talar bacias experimentais, já comuns nos Osvaldo Valente - Pelo menos, uns da Mata Ciliar, se a tubulação de esgo-
Estados Unidos, desde a primeira década 80% das nascentes dos rios que drenam to passa por ela e despeja os resíduos
do século 20. as regiões mais habitadas do País estão diretamente no curso d’água. Quanto
em propriedades rurais. Só por isso o à produção de quantidade de água, há
IA - O que significa produção de água e produtor rural merece lugar de desta- opções de execução simples que podem
quais ações estão envolvidas neste que nas legislações e nos programas de ser usadas pelos produtores rurais, tais
processo?
conservação de recursos hídricos. Mas como: plantio em nível, plantio direto,
Osvaldo Valente - A bacia hidro- a legislação, por exemplo, parece ter-se terraços de base estreita, caixas de cap-
gráfica é uma unidade processadora de contentado em definir a dominialidade tação de enxurradas em áreas torrenciais,
água, uma verdadeira fábrica natural. A pública dos recursos hídricos como a barraginhas e quaisquer outras que difi-
bacia recebe, como matéria-prima, água ferramenta básica de produção e de uso cultem a formação e o desenvolvimento
de chuva com determinada qualidade, de água. Parece que a pregação ao pro- de enxurradas. Se são baratas ou não,
ou seja, água com componentes físicos dutor rural, de que a água que nasce em isso depende das condições econômicas
e químicos incorporados da massa de ar suas terras e corre por elas não é dele e e financeiras dos produtores. Podem ser
de origem. E a interação dessa matéria- que ele vai precisar de autorização para baratas para programas governamentais
prima com os elementos naturais e artifi- usá-la é considerada suficiente para ga- voltados ao assunto, desde que haja dis-
ciais da bacia resulta em disponibilidade rantir suprimentos para toda a população. posição de aplicá-las.
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IA - Qual a sua opinião sobre progra- IA - Como minimizar as enchentes nos casos e que não provocavam desastres,
mas de incentivos aos produtores períodos de chuvas e a escassez hoje causam calamidades.
rurais, com Pagamentos por Ser- de água nos períodos de estiagens
viços Ambientais? em regiões que historicamente não IA - Neste momento de mudanças na
apresentavam esses problemas? legislação ambiental, qual a sua
Osvaldo Valente - Poderão ter lugar
importante na conservação ambiental, opinião e até sugestões em termos
mas ainda são tímidos, burocráticos, de de recursos hídricos?
abrangência muito limitada e propõem-
se a pagar muito pouco. Dão a impressão
“A primeira Osvaldo Valente - A origem latina
parece ter-nos deixado o costume de
de que o produtor rural é diferente do responsabilidade da tentar resolver todas as questões que nos
urbano, em termos de necessidades,
população urbana é afligem com leis detalhadas, seguidas de
e que a pureza da vida no campo é o
saber que ela ocupa inúmeras resoluções e portarias. O meio
bastante para compensar boa parte do
ambiente também vem sofrendo com esse
seu trabalho.
a área de uma bacia comportamento. O ideal, a meu ver, seria
IA - Com relação à área urbana, qual a hidrográfica e, portanto, uma legislação simples e que conduzisse
contribuição ou a responsabilida- a conservação ambiental para planos e
precisa saber conviver projetos onde as soluções tecnológicas
de da população desses ambientes
para as bacias hidrográficas? com o ciclo hidrológico seriam colocadas em prática. A Lei das
Águas, que criou os Comitês de Bacias
Osvaldo Valente - A primeira res- que se desenvolve no
Hidrográficas, chegou próximo disso,
ponsabilidade da população urbana é seu espaço.” faltando apenas algumas condições para
saber que ela ocupa a área de uma bacia
que estes Comitês realmente ganhem
hidrográfica e, portanto, precisa saber
autonomia, como dotações orçamen-
conviver com o ciclo hidrológico que
tárias por um período suficiente para a
se desenvolve no seu espaço. Se o meio Osvaldo Valente - Os ecossistemas organização e operação das Agências de
rural precisa segurar a água de chuva em hidrológicos das bacias hidrográficas Bacias, condição necessária para o pleno
seus aquíferos subterrâneos, para futu-
funcionam bem quando as superfícies funcionamento dos Comitês. Quanto à
ros abastecimentos das nascentes e dos
são permeáveis, permitindo que boa legislação ambiental, é evidente a sua
poços, não há razão para o meio urbano
parte dos volumes de água das chuvas interface com os recursos hídricos, mas
tentar sempre livrar-se dos volumes de
água que as chuvas colocam em seus infiltre no solo e acabe chegando aos ela comete o erro de dar excessiva impor-
domínios. O costume de construir no má- aquíferos subterrâneos, que funcionam tância às Matas Ciliares e às de topo, na
ximo permitido e cimentar o resto para como depósitos reguladores. Se vai mui- conservação da quantidade e qualidade
jogar logo a água na rua, ou usar blocos ta água para os aquíferos, acaba sobrando de água. Essas formações vegetais não
entremeados com alguns raminhos de pouca para as enxurradas, responsáveis resumem as bacias hidrográficas, as
grama para simular áreas permeáveis, pelas enchentes. O depósito cheio per- verdadeiras unidades hidrológicas para
são procedimentos que provocam gran- mite abastecimento garantido fora da estudos e planejamento. Nas discussões
des volumes de enxurradas e deixam os safra (períodos chuvosos), ou seja, boas da reforma do atual Código Florestal,
aquíferos subterrâneos com pouca água. fica-nos a impressão de que, mantidas as
nascentes e poços produtivos. Muitas
Há tecnologias disponíveis para que o florestas nas áreas ciliares e nos topos,
regiões vêm sendo historicamente im-
meio urbano possa ter bom comporta- as famosas Áreas de Preservação Perma-
permeabilizadas, pelas construções nas
mento hidrológico. Até hoje, a água no nente (APPs), as produções de água das
meio urbano tem sido tratada pela enge- cidades e pelo uso intensivo para produ-
ção agrícola, sem a adoção de práticas bacias hidrográficas estão garantidas, o
nharia hidráulica, mas precisa mudar de
que está longe de ser verdade.
foco, ficando sob a responsabilidade da corretas de manejo dos recursos naturais.
hidrologia e do manejo de bacias hidro- Além do mais, com os espaços mais
Por Vânia Lacerda
gráficas, o que é muito diferente. ocupados, as cheias, naturais em muitos Colaboração: Marcos Antonio Gomes

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Revitalização de nascentes para produção de água 7

Bacias hidrográficas: conceitos e definições


Marcos Antonio Gomes 1
João Luiz Lani 2
Antônio de Pádua Alvarenga 3

Resumo - Bacia hidrográfica de um manancial hídrico superficial designa uma região


cujas águas das chuvas escorrem para um curso d’água e seus afluentes. Cada afluente e
sua nascente têm como área de contribuição, responsável por abastecer o lençol freático,
uma sub-bacia ou microbacia hidrográfica. Independentemente do tamanho das bacias
ou do local onde está inserida, áreas urbanas ou rurais, essas unidades fisiográficas têm
grande importância dentro de um contexto hidrológico e devem ser revitalizadas e pre-
servadas sem distinção. A disponibilidade de água em quantidade e qualidade em cada
bacia hidrográfica depende fundamentalmente da atenção que recebe dos gestores mu-
nicipais, ambientalistas, pesquisadores etc., mas sobremaneira da população.

Palavras-chave: Bacia hidrográfica. Recurso hídrico. Manancial hídrico. Recuperação.


Revitalização.

INTRODUÇÃO da Terra, drenado por um curso d’água e Segundo esses autores, as variações inter-
delimitado, em seu perímetro, pela linha dependentes presentes na bacia hidrográfica
Depois da mais recente legislação – Lei
divisora de águas. oscilam em torno de um padrão e buscam
no 9.433, de 8 de janeiro de 1997 (BRASIL,
A Figura 1 apresenta a delimitação es- um novo equilíbrio dinâmico, após as altera-
1997) –, que veio modernizar as relações
pacial da bacia hidrográfica. As setas (cor ções provocadas pelas ações antrópicas. Isto
entre a produção e o consumo de água
vermelha) indicam as linhas divisórias de sugere que, por meio de um planejamento
no Brasil e nomear a bacia hidrográfica
águas, no topo, e, a partir de suas proximi- apropriado a cada caso, é possível encontrar
como unidade básica de planejamento de
dades, as enxurradas formadas pela chuva um razoável ponto de equilíbrio, para que a
recursos hídricos, o termo saiu das esferas
podem escoar para o curso d’água A ou B, bacia hidrográfica continue a apresentar um
acadêmicas e técnicas e passou a frequentar
dependendo do lado do topo em que forem bom comportamento hidrológico.
noticiários e conversas comuns do dia a
formadas. As linhas divisoras de água das A Figura 1 deixa claro que as bacias
dia. O que é muito bom, pois a conser-
bacias hidrográficas estão, portanto, ligan- hidrográficas sucedem-se ao longo de
vação da água ao nosso redor depende
do os pontos mais altos entre estas bacias. um curso d’água e de seus afluentes. O
essencialmente do entendimento popular,
Esse conceito de bacia hidrográfica curso d’água B, por exemplo, tem quatro
dos caminhos percorridos por ela na Terra.
tem base geomorfológica. Já Lima e Zakia afluentes ou tributários, como são também
(2000) usaram a abordagem sistêmica para conhecidos. Cada um deles, conforme o
BACIAS HIDROGRÁFICAS
conceituar a bacia hidrográfica. Para esses conceito geomorfológico, tem sua própria
Conceitos e definições de bacias hi- autores, trata-se de um sistema aberto, bacia. Tal conjunto espacial pode ser hie-
drográficas já foram emitidos por diversos que recebe energia por meio de fatores rarquicamente classificado pelas regras de
autores, mas podem ser resumidos, quanto climáticos e perde parte dessa energia pelo Strahler, conforme explicado por Valente
à sua ocupação espacial, no seguinte: bacia deflúvio, ou seja, pelos volumes de água e Gomes (2005), e exemplificado com o
hidrográfica é um espaço da superfície drenados pelo curso d’água correspondente. esquema apresentado na Figura 2.

1
Eng o Florestal, D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Pesq. Visitante EPAMIG Zona da Mata/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 216,
CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: marcos.gomes@ufv.br
2
Engo Agro, D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Prof. UFV - Depto. Solos, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: lani@ufv.br
3
Engo Agro, D.S., Pesq. EPAMIG Zona da Mata/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 216, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico:
padua@epamig.ufv.br

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8 Revitalização de nascentes para produção de água

Divisor de águas

Nascentes

Figura 1 - Delimitação espacial de bacias hidrográficas


FONTE: Lani et al. (2008).
NOTA: A e B - Unidades de cursos d’água.

Segundo Strahler (1957), todo curso


d’água sem ramificações é de ordem 1;
dois cursos d’água da mesma ordem, ao
B
1 1 se juntarem, formam outro de ordem ime-
1
A 1 1 diatamente superior, ou seja, dois cursos
1
1 de ordem 1 formam outro de ordem 2, e
2 dois de ordem 2 formam outro de ordem 3;
2
2
1 já um curso d’água que receber outro de
1 3 1
ordem menor, manterá sua própria ordem.
2 3
As bacias respectivas podem ser também
1
1 2 classificadas como de ordem 1, 2, 3 etc.
1
A Figura 2 representa a bacia de dre-
1
nagem de um curso d’água de ordem 4, ou
Osvaldo Ferreira Valente

1 2
1 4 simplesmente uma bacia hidrográfica de
1
ordem 4. Nela têm-se dezessete unidades
de ordem 1; seis unidades de ordem 2,
sendo uma formada pelas unidades A e B,
de ordem 1; duas unidades de ordem 3; e
Figura 2 - Divisão de bacias com base nas regras de Strahler (1957) uma de ordem 4, formada pelo somatório
NOTA: 1, 2 e 3 - Ordens dos cursos d’água; A e B - Unidades de cursos d’água. das de ordem 3.
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Revitalização de nascentes para produção de água 9

Analisando agora por outro ângulo,


pode-se dizer, portanto, que a bacia hidro-
1
gráfica da Figura 2 é composta por dezes-
sete bacias de ordem 1, seis de ordem 2 e
duas de ordem 3. Esta é uma classificação
puramente hidrológica, mas importante, Ts
3
porque cada unidade caracteriza muito bem
um ecossistema específico, facilitando as Tc
decisões de conservação.
2
Muitos autores preferem fazer a divisão
em sub-bacias, uma para cada afluente do

Osvaldo Ferreira Valente


curso principal, e qualificá-las por tamanho
de áreas. Para Faustino (1996), por exem-
plo, sub-bacias possuem áreas maiores do
que 100 km2. Para Rocha (apud MARTINS
et al., 2005), são áreas entre 20 mil e 30 mil
hectares. Já Santana (2003) prefere usar Figura 3 - Elementos para caracterização de pequena bacia hidrográfica
princípios semelhantes aos de ordens. NOTA: 1, 2 e 3 - Ordens de cursos d’água; Ts - Tempo de escoamento; Tc - Tempo de
Relata que a bacia pode ser desmembrada concentração.
em um determinado número de sub-bacias,
dependendo do ponto de saída ao longo
Se o tempo de escoamento superficial de planejamento para produção racional de
de seu eixo-tronco ou canal coletor. Cada
(Ts), do ponto 1 até o ponto 2, for maior bens e serviços.
bacia interligada à outra hierarquicamente
do que o tempo de percurso (Tc) no canal A bacia hidrográfica realiza o importante
superior constitui uma sub-bacia.
do manancial do ponto 2 ao 3, estar-se-á trabalho de receber água de chuva, em de-
Outra denominação comum na literatura
diante de uma pequena bacia hidrográfica. terminado volume e qualidade, processar a
é a de microbacia. Há divergências entre
Adaptando este conceito ao de ordens, para interação dessa água com os elementos do
diversos autores. Faustino (1996) relata que
facilitar o enquadramento como pequena meio e disponibilizá-la como produto utili-
uma microbacia tem área inferior a 100 km2,
bacia, sugere-se considerar como tal todas zável, por nascentes, cursos d’água e poços
enquanto Cecílio e Reis (2006) descrevem
aquelas de ordem 1 ou, no máximo, 2. Com freáticos e artesianos, com outro volume
áreas que variam de 0,1 a 200 km2. Calijuri
isso, é possível deixar de lado o empirismo e outra qualidade. Portanto, é uma fábrica
e Bubel (2006) usam as bases de Strahler
das classificações por tamanho de áreas e natural de água.
para relatar que microbacia é uma unidade
adotar o que se baseia na complexidade do Nem sempre há uma perfeita consciência
de ordem 1 e 2, podendo, em alguns casos,
sistema hidrológico envolvido. das quantidades de água envolvidas no pro-
chegar até a ordem 3. As discrepâncias
cesso. Se for feita uma análise, por exemplo,
parecem dar razão a Santana (2003) ao
MANEJO DE BACIAS suponha-se uma pequena bacia rural, com
dizer que, embora difundido no Brasil, a
HIDROGRÁFICAS 50 ha, recebendo chuva de 50 mm, em 4 h.
denominação é empírica, sugerindo que
Quanto ao conceito de manejo, há Ao imaginar a bacia como uma caixa quadra-
seja substituída por sub-bacia.
da de 50 ha de base, depois da chuva haverá
Para fins de manejo, com o objetivo de algumas versões como manejo de bacias
produzir água em quantidade e qualidade, hidrográficas, manejo integrado de bacias dentro dela uma lâmina d’água de 50 mm
deve-se dar preferência em trabalhar com hidrográficas e manejo sustentado de ba- de altura. Assim, fica fácil entender que a
pequenas bacias hidrográficas, que são cias hidrográficas. Mas quando o objetivo quantidade (Q) de água recebida terá sido de:
aquelas em que o tempo de escoamento, principal do manejo for a produção de Q = (50 ha x 10.000 m2/ha) x (50 mm x
sobre a superfície do solo (enxurrada), de água, é muito válido dizer: O manejo de 1 m/1.000 mm) = 25.000 m3
um pequeno volume de água que atinge o bacias hidrográficas tem por objetivo usar
ponto mais distante em relação ao canal do racionalmente os recursos naturais de uma A quantidade (Q), em litros (L) será de:
córrego que a drena for maior do que o de bacia hidrográfica, visando à produção de
Q = 25.000 m 3 x 1.000 L/m 3 =
escoamento ao longo do canal, até a saída água em quantidade e qualidade.
25.000.000 L
da bacia (HEWLETT, HIBBERT, 1967). Os outros dois conceitos não têm a pro-
A Figura 3 ilustra os elementos que carac- dução de água como prioridade, adotando O número impressiona, mas fica ainda
terizam uma pequena bacia hidrográfica. a bacia hidrográfica apenas como unidade mais interessante, quando, por exemplo, a
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10 Revitalização de nascentes para produção de água

mesma bacia receber, anualmente, 1.250 mm visa dar informações sobre drenagem de que apresenta perfis de uma casa em que os
de chuva. Ao refazer os cálculos anteriores, volumes recebidos pelas chuvas. Suponha, volumes d’água que atingem o telhado são
com o novo dado, encontra-se o volume cor- como exemplo, que uma bacia urbana tenha recolhidos por calhas (C) e lançados em um
respondente, que é de 625 milhões de litros. também 50 ha e receba a mesma chuva de reservatório (R). Se o reservatório encher,
Dos volumes anuais recebidos, nas 50 mm, em 4 h. A primeira diferença é que antes de terminada a chuva, o excesso sairá
regiões tropicais, as evaporações diretas de a bacia urbana tende a ter grandes áreas por uma tubulação ladrão (L), mostrada no
superfícies molhadas e de espelhos d’água, impermeabilizadas pelas construções. Além detalhe à direita, e, por meio do tubo de
somadas às quantidades retiradas dos solos das casas propriamente ditas, há também drenagem (D), conduzido até a galeria (G),
pelas plantas e transpiradas (evapotrans- as áreas cimentadas dos terreiros. É muito abaixo da rua. Depois de cessada a chuva e
piração) representam, aproximadamente, comum um lote de 400 m2 ter até 70% de se não for de interesse manter o armazena-
70%. Sobram, portanto, em torno de 30% sua área impermeabilizada. Quando isso mento, o mesmo poderá ser descartado para
para manejo (187,5 milhões de litros), o acontece, uma chuva de 50 mm, como a rede de drenagem, por meio da abertura
que continua sendo um grande volume. a citada, faz com que o lote coloque na da válvula (V). Como é difícil imaginar
Ao conseguir colocar 15% desse valor nos rua pelo menos 14 mil litros de água re- que todos os moradores farão o descarte
lençóis subterrâneos da bacia, o que é per- cebidos nas 4 horas. Se houver mil casas ao mesmo tempo, o sistema de drenagem
feitamente possível com um planejamento com tal comportamento, estas colocarão da rua terá mais possibilidade de executar
hidrológico adequado de uso dos recursos na rua um volume de 14 milhões de litros sua função a contento.
naturais, o córrego abastecido pelo lençol d’água. Se a chuva for mais ou menos uni- Se a área do telhado for de 150 m2,
freático poderá ter uma vazão (V), ao longo forme durante as 4 horas, a saída da bacia este recolherá 7.500 L (150 m2 x 0,050 =
do ano, bem próxima da média de 11,5 L/s: irá conviver com uma vazão de 972L/s 7,5 m3; 7,5 m3 x 1.000 L/m3 = 7.500 L) de
(14 milhões L/4 h / 14.400 s/4 h = 972 L/s), água durante a chuva de 50 mm. Se a área
V = 187.500.000 L/ano / 8.766 h/ano
com grande risco de alagamentos. E a impermeável gerar, como já foi calculado,
V = 41.600 L/h / 3.600 s/h
chuva de 50 mm em 4 horas (intensidade de 14 mil litros de água, o sistema de coleta
V = 11,5 L/s
12,5 mm/h) é muito comum e, mesmo assim, descrito evitará colocar 53,5% desse volume
Não há como evitar que a vazão seja demandaria galerias de drenagem de mais de diretamente na rua, durante a chuva, o que
um pouco maior nos meses chuvosos e um 1 m2 de secção. Imagine, então, galerias para já é uma ótima colaboração para prevenir
pouco menor nos meses secos. Por falta de drenagem de chuvas de intensidades muito alagamentos.
cuidados hidrológicos, as bacias guardam mais altas, quatro ou cinco vezes maiores. Mas dependendo do conhecimento
apenas 8% a 12% dos volumes recebidos Uma boa alternativa para a construção geológico da bacia, pode-se adotar uma
das chuvas em seus lençóis subterrâneos, de galerias imensas seria a adoção de reser- caixa de infiltração, conforme mostrado
produzindo uma grande amplitude entre as vatórios nas áreas dos lotes, quer para ar- na Figura 5. O reservatório (R) está po-
vazões de chuva e de seca. mazenar água de chuva para posterior uso sicionado no fundo do lote e tem 10 m
Nas bacias urbanas, o que acontece? Já na limpeza de áreas ou uso em sanitários, de comprimento, 2 m de largura e 1 m de
existe na hidrologia básica, ensinada nos com simples filtragem, quer para favore- profundidade. Tem laterais concretadas e
cursos de Engenharia Civil, principalmen- cer a infiltração. Um exemplo da primeira fundo poroso, constituído do próprio solo.
te literatura sobre hidrologia urbana, que hipótese está esquematizado na Figura 4, O reservatório deverá estar cheio de brita,

C
L
Osvaldo Ferreira Valente

R
R
V
D
G
D
Figura 4 - Aproveitamento da água de chuva
NOTA: C - Calha; R - Reservatório; D - Drenagem; G - Galeria; L - Ladrão; V - Válvula.

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Revitalização de nascentes para produção de água 11

para abastecimento da própria comunidade de planejamento. São Carlos: RIMA, 2006.


da bacia. p.45-59.
R
CECÍLIO, R.A.; REIS, E.F. dos. Apostila
CONSIDERAÇÕES FINAIS didática: manejo de bacias hidrográficas.
Alegre: Universidade Federal do Espírito
O conceito de bacia hidrográfica a Santo-Centro de Ciências Agrárias-Departa-
cada dia vem sendo associado aos ecos- mento de Engenharia Rural, 2006. 9p.
D T
sistemas rural e urbano, com ênfase ao FAUSTINO, J. Planificación y gestión de
desenvolvimento sustentável. Neste con- manejo de cuencas. Turrialba: CATIE, 1996.
texto, todas as características existentes 90p.
dentro das bacias hidrográficas constituem HEWLETT, J.D.; HIBBERT, A.R. Factors
elementos de grande importância para a affecting the response of small water-
Jardim avaliação do comportamento hidrológico, sheds to precipitation in humid areas. In:
totalmente distinto, entre os dois ecossis- SOPPER, W.E.; LULL, H.W. (Ed.). Forest
Osvaldo Ferreira Valente

Passeio hydrology. New York: Pergamon, 1967.


temas. Tais informações são de extrema
275-290.
G importância para traçar planos de geren-
LANI, J.L. et al. Atlas de ecossistemas do
ciamento, revitalização e conservação dos
Espírito Santo. Vitória: SEMA, 2008. v.1,
Rua recursos naturais existentes nas bacias 504p.
hidrográficas.
LIMA, W.P.; ZAKIA M.J.B. Hidrologia de ma-
Figura 5 - Esquema de uso de caixa de
infiltração AGRADECIMENTO tas ciliares. In: RODRIGUES, R.R.; LEITÃO
FILHO, H.F. (Ed.). Matas ciliares: conser-
NOTA: R - Reservatório; T - Telhado; À FAPEMIG pelo financiamento das vação e recuperação. 2.ed. São Paulo: USP,
D - Drenagem; G - Galeria.
pesquisas e pelas bolsas concedidas. 2000. p.33-43.
MARTINS, F.B. et al. Zoneamento ambien-
com porosidade em torno de 40% e ter REFERÊNCIAS tal da sub-bacia hidrográfica do Arroio
sua superfície gramada. Entre a brita e a BRASIL. Lei no 9.433, de 8 de janeiro de Cadena, Santa Maria (RS): estudo de caso.
grama poderá ser colocada uma manta de 1997. Institui a política nacional de Recur- Cerne, Lavras, v.11, n.3, p.315-322, jul./
set. 2005.
filtro geotêxtil, para evitar o entupimento sos Hídricos, cria o Sistema Nacional de
dos poros da camada de brita. Sua capa- Gerenciamento de Recursos Hídricos, regu- SANTANA, D.P. Manejo integrado de ba-
lamenta o inciso XIX do art. 21 da Constitui- cias hidrográficas. Sete Lagoas: Embrapa
cidade de armazenamento temporário de
ção Federal, e altera o art. 1o da Lei no 8.001, Milho e Sorgo, 2003. 63p. (Embrapa Milho
água é de 8 mil litros (10 m x 2 m x 1 m x
de 13 de março de 1990, que modificou a Lei e Sorgo. Documentos, 30).
1.000 L/m3 x 0,40 = 8.000 L). Terá capa-
nº 7.990, de 28 de dezembro de 1989. Diário STRAHLER, A.N. Quantitative analysis of
cidade, portanto, de recolher mais do que Oficial [da] República Federativa do Brasil, watershed geomorphology. Transactions of
os volumes do telhado (T), e poderá ter Brasília, 9 jan. 1997. American Geophysical Union, New Haven,
um sistema de drenagem (D) para levar v.38, p.913-920, 1957.
CALIJURI, M.C.; BUBEL, A.P.M. Concei-
excessos diretamente para a galeria (G) da tuação de microbacias. In: LIMA, W. de P.; VALENTE, O. F.; GOMES, M. A. Conserva-
rua. A vantagem desse procedimento é co- ZAKIA, M.J.B. (Org.). As florestas planta- ção de nascentes: hidrologia e manejo de
laborar para o enriquecimento dos lençóis das e a água: implementando o conceito bacias hidrográficas de cabeceiras. Viçosa,
subterrâneos que poderão ser explorados da microbacia hidrográfica como unidade MG: Aprenda Fácil, 2005. 210p.

Mudas frutíferas
Uvas Outras Citros
Bordo Oliveira Laranja-lima-verde
Niágara Rosada Pessegueiro Laranja-baia
Niágara Branca Ameixeira Laranja-baianinha

EPAMIG Sul de Minas Syrah Nectarineira


Marmeleiro
Laranja-campista
Laranja-natal
Figueira Laranja-pera-rio
Amora-preta Laranja-sanguínea
Caquizeiro Laranja-seleta
Atemoia Laranja-valência
Frutas nativas Lima-da-pérsia
Limão-tahiti
Tangerina-ponkan
Unidade Regional EPAMIG Sul de Minas Tangerina-cravo
Tel.: (35) 3821-6244 Tangerina-murcote
e-mail: uresm@epamig.br

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12 Revitalização de nascentes para produção de água

Sistema de Informações Geográficas como ferramenta


para o manejo de bacias hidrográficas
Thiago Dannemann Vargas 1
Marcos Antonio Gomes 2
João Luiz Lani 3
Daniel Fernandes Novaes Pimenta 4
Rafaella Silva Nogueira 5
Rita Maria de Souza 6

Resumo - O uso do Sistema de Informações Geográficas (SIG) desponta como uma


ferramenta poderosa no auxílio ao planejamento de uso dos recursos hídricos e naturais
em geral. Em ambientes de SIG, são criadas informações que podem ser sobrepostas,
gerando novos dados de grande relevância para um manejo eficiente dos recursos hídri-
cos. Várias análises são possíveis em ambiente SIG, quando se trata de manejo de bacias,
como o cálculo de parâmetros morfométricos e análises estatísticas diversas. Com sua
grande diversidade de funções e aplicações, o SIG, em conjunto com técnicas de Ge-
oprocessamento e Sensoriamento Remoto, vem-se mostrando de grande utilidade em
estudos ambientais, como o manejo de bacias hidrográficas.

Palavras-chave: Bacia hidrográfica. Recurso hídrico. Geoprocessamento. Sensoriamento


remoto. SRTM. SIG.

INTRODUÇÃO Assim, um planejamento criterioso rentes à água e a seus mais diferentes usos,
deve sempre ser considerado, quando se tornam-se questões essenciais na tomada
A temática dos Recursos Hídricos vem
trata de meio ambiente e recursos naturais, de decisão, trazendo novas perspectivas de
sendo discutida de forma intensiva pela
sociedade, que se preocupa com a rápida principalmente no manejo dos recursos hí- planejamento.
degradação dos recursos naturais. Este dricos, cuja disponibilidade em quantidade Neste contexto, o uso de técnicas
fato justifica-se, em parte, pelo crescente e qualidade afeta direta ou indiretamente de geoprocessamento e o de Sistema de
desenvolvimento econômico e pela expan- toda a sociedade. Na verdade, os planeja- Informações Geográficas (SIG) vêm-se
são dos centros urbanos, que exigem cada mentos ambientais são compostos de eta- tornando cada vez mais frequentes entre
vez mais recursos naturais do Planeta. Os pas distintas, e o conjunto de métodos a ser profissionais das mais diferentes áreas
processos de colonização e ocupação dos adotado depende do tipo de planejamento em todo o mundo, seja pelo avanço da
territórios, feitos em sua maioria de ma- que se está objetivando (ALVES, 2005). tecnologia, seja pela necessidade de criar
neira desordenada e inadequada e a partir Como subsídios para uma gestão alternativas funcionais que auxiliem no
da exploração predatória dos recursos eficiente de recursos hídricos, a coleta, processo de gestão da informação e de uso
naturais, vêm potencializando impactos o armazenamento, o gerenciamento e a sustentável dos recursos naturais (SANO
negativos aos ecossistemas. manipulação de informações e dados, refe- et al., 1993; ALVES, 2005).

1
Eng o Florestal, Consultor UFV-NEPUT, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: thiagodanvar@yahoo.com.br
2
Eng o Florestal, D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Pesq. Visitante EPAMIG Zona da Mata/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 216, CEP 36570-000
Viçosa-MG. Correio eletrônico: marcos.gomes@ufv.br
3
Eng o Agr o , D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Prof. UFV - Depto. Solos, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: lani@ufv.br
4
Graduando Engenharia Ambiental UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: pimenta.ambiental@gmail.com
5
Enga Agra, M.Sc. Solos e Nutrição de Plantas, Consultora UFV-NEPUT, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: rafaellanogueira@yahoo.com.br
6
Graduanda Tecnologia e Gestão Ambiental UNIVIÇOSA - Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio
eletrônico: rsouza136@hotmail.com

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Revitalização de nascentes para produção de água 13

No caso dos recursos hídricos, o uso bilidades para geração de informações de Dentro do conceito legal que consi-
do SIG possui importância singular, cujo qualidade, essenciais nos mais diversos dera a bacia hidrográfica como unidade
manejo adequado não depende somente processos de tomada de decisões. de planejamento básica para o manejo de
de variáveis ambientais (solos, geologia, Essas tecnologias vêm revolucionan- recursos hídricos − Lei no 9.433, de 8 de ja-
relevo, vegetação, água, dentre outros), do as análises ambientais e os sistemas neiro de 1997 (BRASIL, 1997) − diversos
mas também socioeconômicas, políticas e de localização, com o fornecimento de pesquisadores vêm-se dedicando à criação,
culturais, gerando uma gama de informa- dados confiáveis de forma praticamente por exemplo, de modelos hidrológicos inte-
ções muitas vezes fragmentadas. instantânea. O GPS, por exemplo, é um grados com o SIG, com previsões de vários
Dessa forma, o SIG desponta como sistema de posicionamento terrestre de fenômenos relacionados com os recursos
um sistema capaz de agregar de forma grande utilidade em recursos hídricos. É hídricos, como escoamento superficial e
organizada toda uma base de informação, composto por uma rede de satélites in- subterrâneo de água, áreas com potencial
de modo que esta possa ser facilmente terligados capaz de fornecer a posição de de inundações, potencial de erodibilidade
acessada e modificada, à medida que for um ponto em qualquer local da superfície de solos, dentre outros (BESKOW et al.,
demandada pelos usuários, tornando-se terrestre em curto período, com uma preci- 2009; CARVALHO, 2010).
um aliado na busca pela sustentabilidade são que vai de 30 m até alguns milímetros, Essas previsões são de suma impor-
de uso dos recursos hídricos. dependendo do GPS utilizado. Possui tância para uma gestão de qualidade dos
grande funcionalidade em trabalhos de recursos naturais por parte dos órgãos
SISTEMA DE INFORMAÇÕES campo, principalmente quando integrado responsáveis e possíveis pela grande ha-
GEOGRÁFICAS com técnicas de SIG, fornecendo dados bilidade de o SIG armazenar, manipular,
O geoprocessamento pode ser enten- como coordenadas geográficas e altitude, analisar e projetar vasta quantidade de
dido como um conjunto de tecnologias fundamentais para praticamente todo tipo informações. Assim, rapidamente se acessa
direcionadas para coleta e tratamento de in- de análise em ambiente SIG. Além de e se altera o banco de dados dos projetos,
formações espaciais para cumprir objetivos pontos, o GPS trabalha com a criação de realizando operações matemáticas e esta-
específicos. Já a execução das atividades rotas, fornecendo dados como distância tísticas complexas, que, antes, só seriam
demandadas pelo geoprocessamento é feita percorrida, velocidade média e máxima possíveis com horas de trabalho e com a
por sistema específico, denominado SIG do percurso, dentre outros. presença de vários técnicos.
(MACHADO, 2007). Deve-se trabalhar dentro dos concei-
O SIG deve possuir capacidade de USO DO SISTEMA DE tos de bacia hidrográfica, visto que são
INFORMAÇÕES GEOGRÁFICAS unidades criadas para facilitar o estudo de
entrada, armazenamento e processamento
NO MANEJO DOS RECURSOS variáveis interdependentes. Essas unidades
de dados espaciais e ter uma boa interface
HÍDRICOS
com o usuário, além de funções de proces- expressam características próprias, que
samento de imagens, georreferenciamento, O meio ambiente é um sistema com- permitem que sejam utilizadas para testar
visualização e plotagem de mapas digitais. plexo, cujo manejo adequado depende da os efeitos do uso da terra nos ecossistemas
Além disso, um SIG deve possuir um interação entre diversos fatores ambientais, (ALVES, 2005).
sistema de busca que propicie a rápida como solo, vegetação, relevo e clima. No O uso de SIG permite agilizar o pro-
localização de determinado dado espacial caso do manejo de recursos hídricos não cesso de gerar informações e obter dados.
no banco de dados geográficos. poderia ser diferente, sendo necessária a É o caso de digitalizar dados altimétricos
O SIG é capaz de gerar informações utilização de uma ferramenta que relacione coletados em campo, para gerar um Mo-
confiáveis de forma rápida e com grande diversas variáveis simultaneamente, a fim delo Digital de Elevação (MDE), técnica
economia de materiais e despesas com de gerar uma informação confiável que bastante difundida, mas que necessita
pessoal. Um técnico capacitado, com dados auxilie no gerenciamento do recurso. de mais tempo e de recursos para ser
de qualidade e um SIG apropriado, faz Assim, o uso de SIG em manejo de executada. Essa dificuldade vem sendo
praticamente sozinho o levantamento de recursos hídricos vem-se tornando uma vencida com técnicas de interferometria
uma área, trabalho que na ausência do SIG ferramenta de gestão cada vez mais impor- por radar, como as imagens Shuttle Ra-
demandaria a presença de vários técnicos tante e, em alguns casos, imprescindível. dar Topographic Mission (SRTM), que
em campo. O SIG é capaz de atuar de maneira ampla proporcionam, gratuitamente, a extração
A possibilidade de interação do SIG e transversal entre vários temas. Realiza o de dados altimétricos de grande parte da
com outras tecnologias e ciências, tais cruzamento de dados espaciais e produz superfície terrestre.
como Global Positioning System (GPS), informações que servirão de subsídio para A SRTM foi realizada para mapear o
Sensoriamento Remoto, Hidrologia, discussão de questões importantes referen- relevo da área continental da Terra com-
Pedologia, dentre outras, amplia as possi- tes a todo ecossistema de forma integrada. parando duas imagens de radar tomadas
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14 Revitalização de nascentes para produção de água

de pontos diferentes, para obter a elevação os métodos que calcularão os valores drenagem, o que gera não apenas dados
do terreno, fornecendo dados altimétricos desconhecidos. A escolha de um modelo morfométricos de grande confiabilidade,
de importante valia e informações sobre a apropriado, expresso por uma função mas também fisiográficos de difícil ob-
superfície terrestre (MELGAÇO; SOUZA matemática que se adapte à determinada tenção por meio de métodos manuais. A
FILHO; STEINMEYER, 2005). situação, é essencial para obter resultados bacia hidrográfica nesse caso, é a unidade
razoáveis. básica para um planejamento que busque
MODELO DIGITAL DE Normalmente, as bases SRTM são o desenvolvimento econômico, ao mesmo
ELEVAÇÃO interpoladas para determinada resolução tempo que preserva os recursos naturais.
Um tipo de modelagem muito útil em espacial de interesse, e existem vários mé- Dessa forma, a partir do MDE gerado,
estudos hídricos e que pode ser realizado todos de interpolação, que devem ser usa- extrai-se a rede de drenagem e calculam-
a partir de dados SRTM é o chamado dos para diferentes finalidades e resultados. se os principais parâmetros dos estudos
MDE, que visa representar a topografia do O SIG ArcGIS da Environmental Systems de morfometria, para bacias hidrográficas
terreno por meio da interpolação de dados Research Institute (ESRI), por exemplo, isoladas ou para várias bacias ao mesmo
altimétricos (curvas de nível e pontos oferece interpoladores como Distância In- tempo. Dentre as diferentes maneiras de
cotados), hidrográficos, além do limite da versa Ponderada − inverse distance weight construir um MDE, estão os Modelos Di-
área a ser trabalhada (Fig. 1). Os dados (IDW), Spline, Kriging, Natural Neighbor, gitais de Elevação Hidrologicamente Con-
necessários para criar o MDE podem ser Topo to Raster e Triangulated Irregular sistentes (MDEHC), que se caracterizam
obtidos em campo ou por fontes secundá- Network (TIN). O Topo to Raster é um por apresentar uma coincidência bastante
rias. É importante que esses dados sejam dos interpoladores mais utilizados atual- acentuada entre sua drenagem derivada e
de qualidade, pois ao inserir dados ruins no mente e trabalha com dados altimétricos a drenagem mapeada. Entretanto, alguns
modelo, ao final terá um MDE também de como entrada, incluindo a possibilidade de requisitos são exigidos para a geração
má qualidade. entrada de dados hidrográficos, corrigindo desse tipo de modelo, como a orientação
De maneira geral, interpolar significa imperfeições como depressões espúrias da drenagem no sentido do escoamento e
determinar valores desconhecidos ou não e sumidouros, gerando um modelo com dados altimétricos de confiança.
amostrados de um atributo, usando valores maior consistência e confiabilidade. Normalmente, nas análises de SIG
conhecidos ou amostrados. Basicamente, A partir dos dados interpolados, é aplicadas a recursos hídricos, há a fase
a interpolação pode ser dividida em duas possível automatizar os processos de ge- de pré-processamento dos dados, na qual
partes: reconhecer quais pontos podem ser ração de informações a respeito de bacias estes são refinados antes de ser inseridos no
considerados vizinhos confiáveis e definir hidrográficas e suas respectivas redes de interpolador, como, por exemplo, no caso

Figura 1 - Modelo Digital de Elevação (MDE) com sobreposição de imagem de satélite


FONTE: Lani et al. (2008).

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Revitalização de nascentes para produção de água 15

do MDEHC, a orientação da hidrografia no mais acentuadas, quando seu Kc for mais em que:
sentido do escoamento e a simplificação próximo da unidade. O Kc é determinado IC = índice de circularidade;
dos rios de margem dupla. com base na seguinte expressão: A = área de drenagem (km2);
Os estudos das características fisio- Equação 1: P = perímetro (km).
gráficas de uma bacia hidrográfica são
fundamentais para o conhecimento da P Ordem dos cursos d’água
Kc  0,28
água no ciclo hidrológico e sua interação A A ordem dos cursos d’água pode ser
com a paisagem. Em consórcio com o determinada seguindo os critérios introdu-
SIG, esses estudos trazem bons resultados em que:
zidos por Horton (1945) e Strahler (1957).
e podem prevenir prejuízos ambientais e Kc = coeficiente de compacidade; A classificação mais utilizada é a de Strah-
desastres naturais como desmoronamentos P = perímetro (km); ler, em que os canais sem tributários são
e enchentes. A = área de drenagem (km2). designados de primeira ordem. Os canais
de segunda ordem são os que se originam
CARACTERIZAÇÃO Fator de forma da confluência de dois canais de primeira
FISIOGRÁFICA DE BACIAS ordem, podendo ter afluentes também
O fator de forma (F) relaciona a forma
HIDROGRÁFICAS de primeira ordem. Os canais de terceira
da bacia com a de um retângulo, corres-
O conhecimento físico das bacias é de pondendo à razão entre a largura média e ordem originam-se da confluência de dois
grande importância, pois de acordo com o comprimento axial da bacia hidrográfica. canais de segunda ordem, podendo receber
estes parâmetros é que o técnico irá deci- A forma da bacia e a forma do sistema de afluentes de segunda e primeira ordens, e,
dir, juntamente com os agricultores, pelos drenagem podem ser influenciadas por assim, sucessivamente (SILVEIRA, 2001).
métodos de controle de erosão, técnicas algumas características, principalmente A junção de um canal de dada ordem a
de preservação do meio ambiente, bem pela geologia e pelo comportamento um canal de ordem superior não altera a
como pela comparação dessa bacia com hidrológico da bacia. Segundo Villela e ordem deste.
as demais em outras regiões. Mattos (1975), uma bacia com fator de
Densidade de drenagem
Tendo conhecimento desses aspectos, forma baixo é menos sujeita a enchentes
o técnico poderá contar com um acervo que outra do mesmo tamanho, porém com O sistema densidade de drenagem (Dd)
de informações relevantes, o que facilita fator de forma maior. O fator de forma é é formado pelo rio principal e seus tributá-
sobremaneira o planejamento dos trabalhos determinado utilizando-se a expressão: rios, e esta densidade reflete a influência da
e projetos técnicos. geologia, do relevo, do solo e da vegetação
Equação 2:
A seguir são apresentadas as caracterís- da bacia hidrográfica. Seu estudo indica a
A maior ou a menor velocidade com que a
ticas mais utilizadas para o planejamento F
em bacias hidrográficas. L2 água de escoamento superficial sai da bacia
hidrográfica, sendo expressa pela relação
em que:
Coeficiente de compacidade entre o somatório dos comprimentos de
F = fator de forma; todos os canais da rede − sejam perenes,
O coeficiente de compacidade (Kc) A = área de drenagem (km2); intermitentes, sejam temporários − e a área
relaciona a forma da bacia com um círcu- L = comprimento do eixo da bacia (km). total da bacia. Indica o grau de desenvol-
lo. Constitui a relação entre o perímetro vimento do sistema de drenagem. A Dd é
da bacia e a circunferência de um círculo Índice de circularidade determinada utilizando a expressão:
de área igual à da bacia. De acordo com
O índice de circularidade (IC), preconi- Equação 4:
Villela e Mattos (1975), esse coeficiente zado por Müller (1953) e Schumm (1956),
é um número adimensional que varia com tende para a unidade, à medida que a bacia Lt
a forma da bacia, independentemente de Dd 
se aproxima da forma circular, e diminui, A
seu tamanho. Quanto mais irregular for à medida que a forma tende a se alongar.
a bacia, maior será o coeficiente de com- Para isso, utiliza-se a expressão: em que:
pacidade. Um coeficiente mínimo igual
à unidade corresponderia a uma bacia
Equação 3: Dd = densidade de drenagem (km/km2);
circular e, para uma bacia alongada, seu Lt = comprimento total de todos os
12,57 × A canais (km);
valor é significativamente superior a um. IC 
P2
Uma bacia será mais suscetível a enchentes A = área de drenagem (km2).
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16 Revitalização de nascentes para produção de água

Declividade média Equação 6: Dn = diferença de nível;


PH = projeção da hipotenusa;
A declividade média de uma bacia L
Sin = D = declividade da área considerada (%).
determina a maior ou a menor velocidade Lb
de escoamento superficial da água e está Tempo de concentração
relacionada com a magnitude dos picos em que:
de enchentes e de infiltração, ao maior L = comprimento do rio principal (km); O tempo de concentração é calculado
ou ao menor grau de erosão associados Lb = comprimento da bacia (km). segundo Giandotti (apud EUCLYDES,
à cobertura vegetal, ao tipo de solo e ao 1987), pela expressão:
Curva hipsométrica
seu uso e ocupação. Neste contexto, a Equação 8:
determinação das classes de declividade Curva hipsométrica é a representação
(4 x A + 1,5 x L)
(Quadro 1) é fundamental no planejamento gráfica do relevo médio da bacia. Determi- TC =
(0,8 x (Hm - Ho))
das atividades a serem desenvolvidas nas nam-se as áreas entre as curvas de nível.
bacias hidrográficas.
Declividade de álveo em que:
A = área da bacia (km2);
QUADRO 1 - Classes de declividade em Obtém-se a declividade do curso
L = comprimento do talvegue (km)
relação ao relevo d’água principal, dividindo a diferença
(adota-se L igual ao comprimento
Classes Declividade total de elevação do leito pela extensão
do rio principal);
de relevo (%) horizontal do curso d’água entre os pontos
Hm = altitude média da bacia (m);
Plano 0–3 considerados.
Ho = altitude final do trecho (m).
Suave ondulado 3–8 Declividade da microbacia
Ondulado 8 – 20 CARACTERIZAÇÃO DE
Primeiramente, determina-se a área en- AMBIENTES
Forte ondulado 20 – 45 tre as curvas de níveis com uma diferença
Os dados SRTM possuem diversas
Montanhoso 45 – 75 homogênea de nível entre si. Em seguida,
aplicações em análises ambientais de
Escarpado > 75
determina-se o comprimento da projeção
solos, geologia, geomorfologia e análises
FONTE: Embrapa (1999).
das curvas de níveis subsequentes. De
qualitativas e quantitativas de relevo, re-
posse desses dados, realizam-se alguns
presentando uma boa alternativa de base de
cálculos.
dados, que, somada ao trabalho de campo
Extensão média do Considerando um valor X, em metros,
(checagem e levantamentos de novas
escoamento superficial a diferença de nível entre “a” e “b” e o
informações), permite a criação de mapas
O índice da extensão média do escoa- comprimento da linha “a”, igual a La, e da
temáticos do meio físico, biótico e social.
mento superficial (I) derivou da relação: linha “b”, igual a Lb, têm-se:
No manejo de bacias hidrográficas, o
(La + Lb) uso dos dados SRTM permite delimitar,
Equação 5: Área = xH
2 caracterizar e mapear diferentes ambien-
tes: solo, identificação e caracterização
I= A Dn = sen(α)
4L das classes de solo, uso atual e cobertura
H
vegetal, aptidão agrícola, delimitação das
em que: cos(α) x H = (PH) Áreas de Preservação Permanente (APPs)
A = área da bacia (km2); etc. São análises que também estão direta-
Conclui-se: mente relacionadas com a necessidade de
L = comprimento do curso de água
uso de produtos de sensoriamento remoto,
em km. Equação 7: como aerofotos e imagens de satélite de
alta resolução, além de dados de campo
Sinuosidade do curso D=
Dn
x 100 para a comparação entre resultados.
d’água PH
De forma resumida, por meio da iden-
Para determinar a sinuosidade do curso tificação e da demarcação das classes de
d’água (SIN), adotou-se a relação entre em que: uso sobre as imagens, é criada uma rede de
o comprimento do rio principal (L) e o H = hipotenusa do triângulo (compri- polígonos de uso, classificada e transfor-
comprimento da bacia (distância entre a mento da rampa); mada em mapa de uso e ocupação do solo,
foz e a nascente do rio principal): A = área entre as curvas de nível; que representará as principais atividades
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Revitalização de nascentes para produção de água 17

antrópicas e/ou não antrópicas presentes na e prevenção de incêndios, fiscalização, é a retirada da vegetação natural dessas
área (Fig. 2). A partir desse levantamento, estudos de inventário florestal, manejo áreas, para fins de ocupação e/ou outras
são identificadas as principais tipologias florestal e outros. atividades antrópicas. De acordo com a
florestais presentes na região, a fim de gerar Para identificação das principais tipolo- Resolução no 303, de 20 de março de 2002
o mapa de cobertura vegetal. gias florestais, podem ser usadas imagens (CONAMA, 2002), as APPs devem ser
Os mapas e estudos relativos à carac- gratuitas e/ou adquiridas. Vai depender do mantidas conservadas, a fim de cumpri-
terização e à quantificação da cobertura grau de precisão que se deseja alcançar no rem suas funções ambientais. Essas áreas
vegetal são igualmente importantes para levantamento e dos recursos disponíveis, possuem ligação estreita com a manuten-
o manejo de recursos hídricos. Áreas de sendo a China-Brazil Earth Resources Sa- ção da qualidade da água em uma bacia
floresta, que possuem papel essencial na tellite (CBERS) e a Landsat as imagens de hidrográfica e no ecossistema como um
conservação dos recursos naturais como satélite mais comuns, além das aerofotos todo, com funções de proteção de cursos
áreas de Reserva Legal (RL), Unidades de ortorretificadas em diversas escalas. d’água e nascentes, atuando diretamente na
Conservação e APPs são mapeadas para No caso das APPs, o SIG também pos- preservação dos recursos hídricos.
as mais diversas finalidades, como cum- sui papel estratégico, visto que a principal Assim, as análises em SIG permitem
primento da legislação, monitoramento causa do assoreamento de rios e córregos a identificação e a delimitação das APPs

Legenda
Estradas
Hidrografia
Floresta
Agricultura
Capoeira em regeneração
Espelho d’água
Pastagem
Limite do assentamento

490 245 0 490 980 1.470 1.960


Meters
1:10.000

Figura 2 - Uso do solo e cobertura vegetal no Assentamento Che Guevara, Mimoso do Sul, Espírito Santo - 2009
FONTE: Lani et al. (2008).

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18 Revitalização de nascentes para produção de água

de acordo com a Resolução no 303, de Essas análises podem ser realizadas a par- as imagens ajudar de maneira relevante
20/3/2002 (BRASIL, 2002), além de tir de informações obtidas do MDE, com na elaboração de mapas temáticos, o que
sua visualização e plotagem em mapas dados topográficos e hidrográficos, e, na facilita o trabalho para pedólogos e pes-
temáticos, que também podem ter suas maior parte dos estudos, contemplam as quisadores.
informações cruzadas com outros dados, APPs em torno de nascentes e ao longo de Assim, a partir das interpretações do
gerando, assim, nova informação de grande rios e cursos d’água, APP de topo de morro relevo, associadas aos dados altimétricos
utilidade, fortalecendo as ações ambientais e áreas com declividade maior do que 45o. (SRTM), são determinadas as unidades
de monitoramento, fiscalização e controle As imagens SRTM também são de de solos, gerando um modelo fisiográfico
dessas áreas (Fig. 3). grande relevância para o mapeamento da área de interesse. Com o auxílio de
Ao cruzar, por exemplo, o mapa de de solos, visto que suas classes possuem análises físicas, químicas, mineralógicas
uso do solo com suas respectivas classes estreita relação com os dados altimétricos e morofológicas é possível gerar o mapa
de uso, associadas com o mapa de APP, é que o SRTM fornece (Fig. 4). Segundo de aptidão agrícola (ou agroflorestal) das
possível inferir sobre conflitos que, por- Bardales (2009), as feições geológicas e terras, de acordo com o Sistema Brasileiro
ventura, estejam acontecendo nessas áreas geomorfológicas, assim como os solos, de Classificação dos Solos (SiBCS) (BAR-
e que deveriam estar sendo preservadas. têm relação direta com o relevo, podendo DALES, 2009).

Legenda
Limite do assentamento
Hidrografia
Área de Preservação Permanente (APP)

540 270 0 540 1.080 1.620 2.160


Meters
1:10.000

Figura 3 - Áreas de Preservação Permanente (APPs) no Assentamento Che Guevara, município de Mimoso do Sul, Espírito Santo -
2009
FONTE: Lani et al. (2008).

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Revitalização de nascentes para produção de água 19

PROJETO DE ASSENTAMENTO SÃO FELIPE - SOLOS

Serras Sítio Beija-Flor

Assentamento
São Pedro
RQ
CL

CL

CL CL
GX Fazenda São Felipe
(Acácio Franklin)
LVA CL
PVA CL
GX CL
PVA
CL LVA GX
PVA PVA
CL GX
GX LEGENDA
GX Área
Fazenda São Felipe Unidades de Mapeamento ha %
(José Rodrigues)
CL AR CL Cambissolo Latossólico 131,0029 51,54
LVA Área devoluta
LVA Latossolo Vermelho-Amarelo 97,5871 38,40
LVA GX Gleissolo Háplico 8,3769 3,30
CL RQ Neossolo Quartzarênico 5,6261 2,21
PVA Argissolo Vermelho-Amarelo 5,1845 2,04
PA Argissolo Amarelo 4,7771 1,88
AR
LVA AR Afloramento Rochoso 1,5995 0,63
CL

Sítio São Felipe CONVENÇÕES


CL (Washington) Estrada Área Social
LVA
Cursos d’água
Perímetro

PA SÃO FELIPE
Sítio São Felipe PVA GX
LVA MUNICÍPIO - GUAÇUÍ - ES
(Antônio Gonçalves)
ESCALA 1:10.000 PA ÁREA TOTAL: 254.1541 ha

200 0 200 400 m Sítio São Felipe


Projeção Universal Transversa de Mercador (Joaquim Qualhano)
0 a um Horizonte SAD - ZONA 245

Figura 4 - Principais classes de solos identificadas no Projeto de Assentamento São Felipe - município de Guaçuí, ES
FONTE: Lani et al. (2008).

CONSIDERAÇÕES FINAIS tados de uma análise, por meio de um SIG, versidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG,
possibilita um melhor entendimento dos 2009.
A análise espacial tem contribuído
problemas e, consequentemente, chega- BESKOW, S. et al. Estimativa do escoamen-
para subsidiar a tomada de decisões e a
se com mais agilidade a uma solução ou to superficial em uma bacia hidrográfica
consequente intervenção no espaço nas com base em modelagem dinâmica e dis-
a medidas mitigadoras para sua solução.
diversas áreas, em especial na gestão dos tribuída. Revista Brasileira de Ciência do
recursos hídricos. Assim, pela facilidade Solo, Viçosa, MG, v.33, n.1, p.169-178, jan./
AGRADECIMENTO fev. 2009.
da análise e da visualização a partir de
produtos, imagens e mapas, gerados por À FAPEMIG pelo financiamento das BRASIL. Lei no 9.433, de 8 de janeiro de
um SIG, evidencia-se que uma das grandes pesquisas e pelas bolsas concedidas. 1997. Institui a política nacional de Recur-
capacidades de análise de dados geor- sos Hídricos, cria o Sistema Nacional de
referenciados é a sua manipulação para REFERÊNCIAS Gerenciamento de Recursos Hídricos, regu-
produzir novas informações. Dessa forma, lamenta o inciso XIX do art. 21 da Constitui-
ALVES, M.R. Caracterização e uso da bacia
ção Federal, e altera o art. 1o da Lei no 8.001,
a análise espacial de uma bacia hidrográ- hidrográfica do Córrego Zerede, Timóteo-
de 13 de março de 1990, que modificou a
fica, independentemente do seu tamanho, MG. 2005. 95f. Tese (Mestrado em Ciência
Lei no 7.990, de 28 de dezembro de 1989.
é um dos aspectos mais importantes nos Florestal) – Universidade Federal de Viçosa,
Viçosa, MG. Diário Oficial [da] República Federativa do
processos de planejamento com vistas à Brasil, Brasília, 9 jan. 1997.
BARDALES, N.G. Estratificação ambiental,
sustentabilidade ambiental e social dessa CARVALHO, E.M. de et al. Utilização do
classificação, mineralogia e uso do solo
unidade fisiográfica. da microbacia de Igarapé Xiburema, Sena geoprocessamento para avaliação de riscos
Conforme se pode observar nos exem- Madureira, Acre. 2009. 228p. Tese (Douto- de erosão do solo em uma bacia hidrográ-
plos apresentados, a visualização dos resul- rado em Solos e Nutrição de Plantas) – Uni- fica: estudo de caso da Bacia do Rio Passa

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20 Revitalização de nascentes para produção de água

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22 Revitalização de nascentes para produção de água

Qualidade da água em bacias hidrográficas


Antonio Teixeira de Matos 1
Paola Alfonsa Vieira Lo Monaco 2
Marcos Alves de Magalhães 3

Resumo - Um dos principais problemas que têm contribuído para a degradação da qua-
lidade da água em bacias hidrográficas é o lançamento de águas residuárias domésticas
e oriundas de atividades agropecuárias e agroindustriais, sem tratamento, em corpos hí-
dricos receptores. Para avaliar a condição, em termos de qualidade, de um curso d’água,
tem sido utilizado o Índice de Qualidade da Água (IQA), que leva em consideração as
seguintes variáveis: oxigênio dissolvido, coliformes termotolerantes, pH, demanda bio-
química de oxigênio (DBO), nitrato, fosfato total, desvio da temperatura normal da água,
turbidez e resíduo total (sólidos totais). Além do IQA, outro índice utilizado é o da conta-
minação por tóxicos (CT) e, para sua obtenção, são considerados os seguintes componen-
tes: amônia não ionizável (NH3), arsênio, bário, cádmio, chumbo, cianetos, cobre, crômio
hexavalente, índice de fenóis, mercúrio, nitritos e zinco. Para minimizar a contaminação
de águas superficiais, torna-se essencial que as águas residuárias sejam tratadas, antes
de seu lançamento no corpo hídrico receptor. Nesse caso, a concepção e o dimensiona-
mento de sistemas de tratamento de águas residuárias devem-se basear no objetivo e
no nível do tratamento, sempre norteados ao atendimento das exigências da Legislação
Ambiental. Entretanto, caso a destinação final da água residuária seja o solo, o nível de
tratamento não necessita ser avançado, porém deve-se atentar para a aplicação de doses
que não coloquem em risco a qualidade do solo, das plantas e das águas subterrâneas.

Palavras-chave: Qualidade da água. Tratamento. Índices. Contaminação. Água resi-


duária.

INTRODUÇÃO colas, provocando poluição e assoreamento além da vazão do curso d’água receptor.
dos recursos hídricos. Quando há o lançamento de grande
Um dos principais problemas que têm
As atividades agropecuárias e agroin- quantidade de material orgânico oxidável
contribuído para a degradação da qualidade
da água em bacias hidrográficas é o lan- dustriais têm proporcionado sérios pro- no corpo hídrico, as bactérias aeróbias,
çamento de águas residuárias domésticas blemas de poluição no solo, em águas para estabilizarem o material orgânico
e oriundas de atividades agropecuárias e superficiais e em águas subterrâneas. Como presente, passam a utilizar o oxigênio
agroindustriais, sem tratamento, em corpos os resíduos de atividades agroindustriais e disponível no meio aquático, baixando
hídricos receptores. Além disso, é fato que agropecuárias apresentam, em geral, gran- sua concentração na água, e, com isso,
o manejo inadequado do solo também de concentração de material orgânico, seu provoca a morte de peixes e outros ani-
contribui para a degradação da qualidade lançamento em corpos hídricos pode pro- mais aquáticos aeróbios, por asfixia. Este
da água, pois, com a ocorrência da erosão porcionar grande decréscimo na concen- problema agrava-se, ainda mais, no verão
hídrica, são transportados materiais par- tração de oxigênio dissolvido nesse meio, e em países de clima tropical, uma vez
ticulados, fertilizantes químicos, matéria cuja magnitude depende da concentração que em elevadas temperaturas, a taxa de
orgânica (MO), sementes e pesticidas agrí- de carga orgânica e da quantidade lançada, degradação do material orgânico é maior

1
Eng o Agrícola, D.S., Prof. Associado UFV - Depto. Engenharia Agrícola, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: atmatos@ufv.br
2
Eng a Agrícola, Pós-Doutoranda, Prof a Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo, Campus Santa Teresa,
CEP 29660-000. Correio eletrônico: paolalomonaco2004@yahoo.com.br
Eng o Agr o , D.S., Prof. Centro Universitário de Caratinga (UNEC), CEP 35300-047 Caratinga-MG. Correio eletrônico: marcos@ufv.br

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e a capacidade do meio líquido em manter Além disso, a presença do íon amônio pode O grupo das águas doces, o mais comu-
o oxigênio dissolvido é menor. Em caso de ser considerada indicativa da ocorrência de mente encontrado em áreas territoriais, é
lançamento de grandes cargas orgânicas, poluição orgânica de origem recente. Por dividido em cinco classes:
além de proporcionar a morte de animais, outro lado, a presença de maior concen- a) especial: classe cuja principal carac-
pode provocar a exalação de odores fétidos tração de nitrato em relação ao amônio é terística é a ausência de coliformes
e de gases agressivos, causar eutrofização indicativa de condição oxidante no meio totais, em qualquer amostragem, e
de rios e lagos e dificultar o tratamento da e poluição mais remota. A contaminação o uso para fins mais nobres;
água para o abastecimento público. Além química decorrente de indústrias e de mi- b) classe 1: águas de boa qualidade,
desses problemas, proporciona perda na neração pode ser detectada pela presença nas quais não se verificam efeitos
biodiversidade do meio, possibilita a ocor- de metais pesados e organossintéticos nas tóxicos crônicos a organismos;
rência de floração de algas, cianobactérias águas. Estas indicações podem, porém, ser
c) classe 2: águas de qualidade igual
e macrófitas aquáticas, restrição aos usos enganosas, pois na agropecuária, em razão
à da classe 1, porém apresentam
múltiplos da água e efeitos sobre a saúde do uso de micronutrientes na fertilização
algumas dessas variáveis com valor
humana. do solo, uso como fungicidas e na ração de
acima do estabelecido para a classe
animais, alguns metais pesados podem ser
1; turbidez, ou cor, ou DBO5, cloro-
VARIÁVEIS MONITORADAS encontrados nas águas. Poluição com águas
fila a, densidade de cianobactérias,
EM ÁGUA residuárias domésticas ou agroindustriais
concentração de fósforo total, con-
As principais variáveis utilizadas para pode ser identificada pela presença de de-
tagem de coliformes totais e termo-
caracterização da qualidade da água, são: tergentes nas águas e poluição decorrente
tolerantes, ou menor concentração
de atividades agropecuárias, pela presença
temperatura, sabor e odor, cor, turbidez, de oxigênio dissolvido (OD);
concentração de sólidos em suspensão e de pesticidas, material fecal (coliformes
indicadores) e nutrientes nas águas. d) classe 3: as águas desta classe não
dissolvidos, condutividade elétrica, pH,
devem proporcionar efeito tóxico
alcalinidade, acidez, dureza e concentração Índices de qualidade da agudo a organismos, porém sua
de oxigênio dissolvido, demanda bioquími- água qualidade é bem inferior a das águas
ca de oxigênio (DBO), demanda química
Para consideração da ocorrência ou não da classe 2;
de oxigênio (DQO), nitrogênio (total, nitra-
de poluição na água, é fundamental uma e) classe 4: águas de pior qualidade,
to e amoniacal, fósforo, ferro e manganês,
análise prévia das concentrações normais devendo ser usadas para fins menos
óleos e graxas, detergentes (surfactantes),
na região, que deverão variar com o ma- nobres.
metais pesados, além da contagem de
terial geológico e características do solo
coliformes (fecais e termotolerantes). A Cada uma das classes apresentadas
e tipo da vegetação dominante na bacia
condutividade elétrica, alcalinidade e du- corresponde a uma determinada qualidade
hidrográfica de contribuição das águas
reza dão ideia do grau da concentração de a ser mantida no corpo d’água, sendo esta
superficiais e subterrâneas.
sólidos inorgânicos dissolvidos na água. qualidade expressa na forma de padrões,
O Conselho Nacional do Meio Ambien-
A avaliação da poluição orgânica pode ser te (Conama), em sua Resolução nº 357, de estabelecidos e apresentados na Resolução
obtida com a determinação da concentra- 17 de março de 2005 (CONAMA, 2005), nº 357, de 17/3/2005 (CONAMA, 2005).
ção de oxigênio dissolvido, DBO, DQO na classificou as águas do território nacional Além dos padrões de qualidade dos cor-
amostra, as quais indicam presença de ma- com os seguintes objetivos: assegurar pos receptores, esta Resolução apresenta
terial orgânico na água. A determinação das seus usos preponderantes; definir grau de padrões para o lançamento de águas resi-
formas do nitrogênio também pode auxiliar exigência para tratamento de efluentes; duárias nos corpos d’água, pois o controle
na avaliação do grau de mineralização do facilitar o enquadramento e o planejamen- efetivo das fontes poluidoras com base nos
material orgânico presente na água, já que to do uso de recursos hídricos, criando padrões de lançamento é mais fácil do que
a presença de formas inorgânicas (nitrato instrumentos para avaliar a evolução da na qualidade do corpo receptor.
e amônio), em detrimento das orgânicas qualidade das águas e preservar a saúde Os padrões de qualidade dos corpos
(nitrogênio orgânico), indica presença humana e o equilíbrio ecológico aquático. d’água e de lançamento de águas residu-
predominante de sólidos inorgânicos. A Estabeleceu-se a divisão das águas em árias em corpos hídricos receptores estão,
avaliação da condição trófica ou da riqueza três grandes grupos: Doces: salinidade intencionalmente inter-relacionados, ob-
de nutrientes nas águas pode ser obtida < 500 mg/L; Salobras: salinidade entre jetivando, com a aplicação em conjunto,
determinando-se, basicamente, as concen- 500 e 30.000 mg/L; Salinas: salinidade > preservar sua qualidade. O inter-relacio-
trações de nitrogênio e fósforo na amostra. 30.000 mg/L. namento entre os dois padrões dá-se para
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que a água residuária, além de satisfazer limites para a presença de MO e mineral elevada; secundário, cujo contato com a
os padrões de lançamento, proporcione em solução. Isso leva à necessidade de água é esporádico ou acidental e a possibi-
condições tais no corpo receptor, que a tratamento prévio da água, principalmente lidade de ingerir água é pequena (tais como
qualidade deste permaneça compatível para os consumos doméstico e industrial, pesca, navegação, iatismo). Segundo a Re-
com as exigências estabelecidas no seu que possuem requisitos de qualidade mais solução nº 274, de 29 de novembro de 2000
enquadramento. O padrão de lançamento exigentes. (CONAMA, 2001), as águas destinadas à
pode ser excedido, com permissão do órgão As variáveis de importância na avalia- balneabilidade (recreação de contato pri-
ambiental, caso os padrões de qualidade ção da qualidade da água para irrigação não mário) estarão impróprias, se apresentarem
do corpo receptor sejam resguardados, de são, necessariamente, as mesmas de qua- mais de 2.500 coliformes termotolerantes
acordo com resultados obtidos em estudos lificação ambiental de águas superficiais. (fecais) ou 2.000 organismos Escherichia
de impacto ambiental, e desde que fixados Aspectos químicos que possam causar coli por 100 mL.
o tipo de tratamento e as condições para o alterações físicas e químicas nos solos e/ Portanto, tornou-se necessário desen-
lançamento do efluente. ou prejuízos à produtividade agrícola, além volver um índice que pudesse expressar a
É importante ressaltar que tudo o que de aspectos microbiológicos, em razão dos qualidade da água em cursos d’água, como
está estabelecido na Resolução nº 357, de riscos sanitários, passam a ser referência. o Índice de Qualidade de Água (IQA) e a
17/3/2005 (CONAMA, 2005) são padrões Para a irrigação, a qualidade da água deve contaminação por tóxicos (CT). Apesar de
referenciais de qualidade para enquadra- ser avaliada em termos de problemas re- o primeiro focar, basicamente, a qualidade
mento de cursos d’água e que podem ser lativos à salinidade e permeabilidade do da água para abastecimento público, tem
utilizados na avaliação da água e nunca solo, toxicidade para plantas e riscos de sido aceito e utilizado para uma avaliação
como padrões referenciais de seu uso. A entupimentos ou desgaste para bombas, geral.
interpretação correta para o que está esta- tubulações e emissores de água. No cálculo do IQA, de acordo com o
belecido nessa Resolução é que a água de Águas altamente salinas, assim como estabelecido pelo IGAM (2004 apud MA-
corpos hídricos adquira a qualidade espera- aquelas que contêm elementos tóxicos, TOS, 2007), são consideradas as seguintes
da para um determinado uso. Para isso de- representam perigo para os animais e variáveis: oxigênio dissolvido, coliformes
verá apresentar qualidade compatível com podem afetar a qualidade da carne e do termotolerantes, pH, DBO, nitrato, fosfato
os padrões da referida classe em que o uso leite, a ponto de torná-los inadequados total, temperatura da água, turbidez e resí-
requerido está inserido na resolução. Os para consumo. Estas substâncias podem duo total (sólidos totais), considerados re-
padrões, por sua vez, foram estabelecidos afetar o sabor da água, aumentando a levantes para a avaliação da qualidade das
como referenciais de melhoramento a ser recusa pelo animal, serem tóxicas a estes, águas, tendo como determinante principal
alcançado ou de preservação da qualidade ou acumularem-se em seu organismo, até a utilização para abastecimento público.
da água da bacia hidrográfica. Entretanto, o ponto de seus produtos (carne e leite) A CT é avaliada considerando os
não estão implícitos esses padrões de tornarem-se inapropriados ao consumo seguintes componentes: amônia não io-
qualidade de água, para que possam ser humano. O consumo de água de qualidade nizável, arsênio, bário, cádmio, chumbo,
utilizados e servir como argumento legal inferior, durante vários meses, pode provo- cianetos, cobre, crômio hexavalente, índice
de uso adequado ou não da água. car desarranjos fisiológicos e até a morte de fenóis, mercúrio, nitritos e zinco. Em
Para ser considerada potável, ou seja, dos animais (normalmente os lactantes, função das concentrações observadas, a
com qualidade adequada ao consumo os mais jovens e os doentes são os mais contaminação pode ser caracterizada como
humano, a água deve atender a padrões de suscetíveis). baixa, média ou alta.
qualidade microbiológicos, físicos, quími- A qualidade da água, para uso na aqui-
cos e radioativos, definidos, no Brasil, pelo cultura, está próxima à potável, embora TRATAMENTO DE ÁGUAS
RESIDUÁRIAS
Ministério da Saúde, por meio da Portaria a turbidez possa ser um pouco maior. A
nº 518, de 25 de março de 2004 (BRA- qualidade química deve ser, entretanto, Para a concepção e o dimensionamento
SIL, 2004). Dessa forma, toda e qualquer muito bem preservada, sob pena de tornar de sistemas de tratamento de águas resi-
água destinada ao consumo humano deve inviável a atividade. duárias, devem-se definir, primeiramente,
obedecer ao padrão de potabilidade e está Uso da água para fins recreativos - o objetivo e o nível que se quer alcançar
sujeita à vigilância de sua qualidade. As considera-se primário, o contato direto e do tratamento e a destinação adequada
exigências contemplam ausência completa prolongado com a água (tais como nata- do efluente tratado. Caso o efluente seja
de contaminação por agentes patogênicos, ção, mergulho, esqui-aquático), no qual a lançado em corpo receptor, o tratamento
de substâncias tóxicas ou venenosas e possibilidade de o banhista ingerir água é deve atender às exigências da Legislação
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Ambiental; caso a destinação final seja   Primário nados conforme a vazão da água que será
o solo, deve-se atentar para a aplicação tratada. Para o adequado funcionamento
No tratamento primário, tem-se por
de doses que não coloquem em risco a do sedimentador, deve-se manter a vazão
objetivo remover os sólidos em suspensão,
qualidade do solo, das plantas e das águas o mais constante possível e remover o lodo
passíveis de sedimentação, e parte da MO
subterrâneas. sedimentado no prazo determinado no
em suspensão (redução da DBO). Para que
O aproveitamento agrícola de águas isso seja possível, podem ser utilizados projeto. Ao fundo do sedimentador deve
residuárias geradas no meio rural (em cria- processos de sedimentação e filtração. ser instalado um sistema de drenagem do
tório de animais e agroindústrias) tem sido No caso do aproveitamento agrícola lodo, que pode ser constituído por apenas
muito comum. Portanto, muitas vezes não o tratamento por disposição no solo, o uma tubulação, onde deverá ser instalada
tem sido necessário efetuar o tratamento efluente do tratamento primário, geral- uma válvula para possibilitar a remoção,
em grau elevado, tendo em vista que o inte- mente, já está em condições de ser utili- por gravidade, quando possível, a limpeza
resse passa a ser agrícola e não o lançamen- zado. Caso a opção seja pelo lançamento do sedimentador. O lodo removido de sedi-
to em corpo hídrico receptor. Sabe-se que, em corpos hídricos, para atendimento da mentadores deverá ser secado ao sol e pode
quanto maior o grau de tratamento da água legislação ambiental (CONAMA, 2005), ser disposto em áreas de cultivo, uma vez
residuária, mais pobre e desbalanceada o tratamento deverá ser, necessariamente, que são constituídos, preponderantemente,
esta ficará, em termos químicos, podendo continuado, sendo o efluente primário por material de solo e restos vegetais.
ocorrer perda de interesse quanto ao seu enviado para recebimento do tratamento A sedimentação pode ser a única
aproveitamento agrícola. Assim, muitas secundário. etapa de tratamento de águas residuárias,
vezes o grau de tratamento requerido para dependendo da forma escolhida para a
Sedimentadores disposição final desta água. No caso da
aproveitamento agrícola dessas águas é
apenas em nível preliminar e primário, Nessa operação, a remoção do material opção por disposição no solo pelo método
visando apenas facilitar a aplicação da água particulado suspenso, de menor dimensão da fertirrigação, utilizando-se sistemas de
ou de menor massa específica que os re- aplicação de média/alta pressão ou choru-
residuária no solo, não estando associado
movidos no desarenador, também ocorrerá meiras, a decantação da água residuária
à remoção de poluentes.
por sedimentação. Nos sedimentadores, a é, muitas vezes, suficiente. No caso de
água residuária deve fluir vagarosamente, aplicação na forma localizada (goteja-
SISTEMAS DE TRATAMENTO
possibilitando, com isso, que parte dos mento ou microaspersão), o efluente do
sólidos suspensos possa se sedimentar, decantador deverá passar por um filtro de
Preliminar 
gradualmente, no fundo do tanque. A ve- areia ou, preferivelmente, orgânico, onde
O tratamento preliminar constitui etapa locidade de escoamento da água residuária serão removidas partículas passíveis de
inicial de tratamento das águas residuárias, deve estar abaixo da velocidade de arraste, entupimento dos emissores.
com a qual visa a remoção de sólidos que não deve ser excedida para que não
grosseiros, óleos e graxas. Para este fim, haja risco de ressuspensão e carreamento Filtros orgânicos
têm-se utilizado grades, telas e peneiras, de material depositado no fundo do tanque.
Uma alternativa aos filtros convencio-
desarenadores ou caixas de areia e de gor- Para maior e mais rápida sedimentação
nais, necessários para remoção de sólidos
dos sólidos em suspensão, pode ser ne-
dura. No caso da presença de decantadores em suspensão, é a utilização dos filtros
cessária a adição de agentes coagulantes.
primários no sistema de tratamento, caixas orgânicos, cujo efluente pode ser aplicado
Estes servem para aproximar as partículas
de gordura são dispensáveis. via fertirrigação de culturas agrícolas, uti-
em suspensão, possibilitando a formação
As principais finalidades da remoção lizando-se sistemas de irrigação localizada
de flocos de maior velocidade de sedi-
dos sólidos grosseiros são a proteção dos
mentação. (gotejamento e microaspersão). Esses fil-
dispositivos de transporte das águas residu- tros utilizam materiais orgânicos, passíveis
Agentes coagulantes mais comuns são
árias (bombas e tubulações) e das unidades o sulfato de alumínio, sulfato ferroso e de frequente troca, possibilitando eficiente
de tratamento subsequentes ou, caso seja cloreto férrico. Coagulantes alternativos remoção de sólidos. O material filtrante
a única etapa de tratamento, minimizar também podem ser utilizados, dentre estes removido dos tanques pode ser submetido à
impactos em corpos receptores. A remoção o extrato de semente de Moringa. compostagem, proporcionando a produção
de óleos e gordura justifica-se, para evitar Os tanques de sedimentação podem de adubos orgânicos.
a formação de incrustações nas tubulações ser retangulares ou cilíndricos e devem Para que haja maior eficiência na
e estruturas, além de facilitar o tratamento ser construídos em concreto. A largura e o remoção dos sólidos em suspensão, sem
subsequente da água residuária. comprimento ou o raio devem ser determi- que ocorra decréscimo muito acentuado na
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velocidade de filtração da água residuária, No tratamento secundário, geralmen- biológica de microrganismos e o maior
a compressão dos materiais filtrantes deve te, se requer que a água residuária tenha tempo de exposição à luz e à oxidação
ser tal que promova redução em média recebido o tratamento preliminar, porém por meios naturais têm apresentado maior
de 5% a 10%, no caso de serragem, e de nem sempre é necessário ter sido antece- sucesso na remoção desses produtos.
10% a 15%, no caso de bagaço de cana- dido por tratamento primário. Enquanto
de-açúcar. Reduções de mais de 25% do no tratamento preliminar e primário há Disposição no Solo
volume devem ser feitas, se o filtro for a predominância de mecanismos físicos Sabe-se que, no solo, os poluentes pre-
constituído de pergaminho de grãos de de remoção de poluentes, no tratamento sentes na água residuária estão sujeitos a
café não triturados, já com o pergaminho secundário a remoção do material orgânico uma série de processos de degradação. Os
triturado reduções na faixa de 10% a dá-se pelas transformações bioquímicas sistemas de tratamento/disposição apre-
15% já foram suficientes para remoção proporcionadas pelos microrganismos. sentam grande potencial de aplicação, pelo
satisfatória de sólidos suspensos de água Por serem, no geral, águas residuárias baixo custo de implantação e operação.
residuária do descascamento/despolpa de relativamente bem balanceadas e ricas em Possibilitam, também, o aproveitamento
frutos do cafeeiro. termos nutricionais, as águas residuárias da água e dos nutrientes nela contidos na
O material filtrante a ser utilizado nos agroindustriais apresentam-se aptas para agricultura e na recarga de lençóis d’água
filtros orgânicos deverá ser retirado de tratamento biológico, sem qualquer alte- subterrâneos, além de contribuir com a pre-
tempos em tempos, em decorrência da ração química na sua composição. Grande servação do meio ambiente, concorrendo,
obstrução gradativa dos poros do filtro, parte da remoção de poluentes ocorre pela assim, para o aumento da produção de ali-
diminuindo a velocidade de filtração do decomposição aeróbia, processo essencial- mentos e a economia de água não servida.
líquido. mente inodoro, que possibilita a destruição A disposição no solo pode representar
de parte dos compostos orgânicos não uma complementação e ser feita após o
Primário/Secundário degradados ou parcialmente degradados tratamento preliminar ou primário. Além
Nesta etapa do tratamento, além da pelos organismos anaeróbios. dos possíveis benefícios ambientais e
remoção de sólidos sedimentáveis, po- Há grande variedade de métodos de agrícolas, estima-se que essa forma de
dem ser removidos sólidos flutuantes e tratamento secundário, sendo os mais tratamento/disposição oscila num custo
materiais orgânicos dissolvidos, por de- utilizados os sistemas de lodos ativados, de 30% a 50% das demais formas de tra-
gradação anaeróbia. Para conseguir este lagoas de estabilização, filtros biológicos tamento convencionais. Deve ser feita de
nível de tratamento, podem ser utilizados e métodos de disposição das águas residu- tal modo que não contribua para o aumento
digestores anaeróbios, filtros anaeróbios, árias sobre o solo. de problemas ao meio ambiente, bem como
lagoas anaeróbias ou reatores anaeróbios. No tratamento secundário, a eficiência para contaminações de águas subterrâneas
A digestão do material orgânico pre- na remoção de poluentes é variável, uma e superficiais com agroquímicos e outras
sente na água residuária pode ser realizada vez que depende de qual sistema se está uti- substâncias, a contaminação de plantas por
em lagoas, filtros e reatores anaeróbios. As lizando, de detalhes de dimensionamento e metais pesados e influências negativas nas
fases de degradação do material orgânico projeto e das condições climáticas locais. propriedades físicas e químicas do solo.
são definidas pela atividade metabólica, No entanto, a faixa de remoção de DBO Deve-se, em vista disso, ser estudada e
sequencial, das bactérias acidogênicas, no tratamento secundário encontra-se entre analisada, cuidadosamente, a definição
acetogênicas e metanogênicas. 60% e 99%. de taxas de aplicação, considerando-se
A eficiência de remoção de poluentes as peculiares capacidades de suporte de
no tratamento primário/secundário está Terciário
cada solo, resguardando a integridade dos
entre 65%-80%, para sólidos em suspensão No tratamento terciário, objetiva-se recursos naturais.
(SS), e entre 60%-75% para a DBO. apenas a remoção de poluentes específi- A remoção dos poluentes do solo ocorre
cos (nitrogênio, fósforo, metais pesados, por meio de vários mecanismos de ordem
Secundário
substâncias tóxicas, compostos não bio- física (sedimentação, filtração, radiação,
Nesta etapa, visa-se a remoção de degradáveis) ou a complementação do volatilização e desidratação), química
materiais orgânicos finos em suspensão tratamento secundário, quando este não (oxidação e reações químicas, precipitação,
(DBO em suspensão), os quais não foram remove suficientemente os poluentes. adsorção, troca iônica e complexação) e
removidos nas etapas anteriores, e o mate- Com essa finalidade, vários são os pro- biológica (biodegradação e predação).
rial orgânico na forma de sólido dissolvido cessos que podem ser utilizados. Porém, Conforme suas propriedades e condi-
(DBO solúvel). no caso de agrotóxicos persistentes, a ação ções climáticas, o solo tem menor ou maior
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capacidade de assimilar os compostos ser feita de maneira intermitente, de modo são capazes de retirar grandes quantida-
orgânicos complexos. De fundamental que possibilite períodos de pousio ao des de macro e micronutrientes do solo,
importância no uso do solo, como meio solo, proporcionando a este condições de diminuindo os riscos de contaminação dos
de degradação de resíduos orgânicos, estão secagem e restabelecimento das condições rios, lagos e águas subterrâneas. As águas
a taxa de infiltração e o tipo de cobertura aeróbias. A taxa de aplicação no terreno residuárias podem ser aplicadas em gran-
vegetal. Tal degradação requer, também, deve variar entre 15-30 cm/d, entretanto, des culturas, fruteiras, hortaliças, jardins,
boa aeração, pois condições insuficientes como águas residuárias agroindustriais áreas de pastejo e de silvicultura.
de oxigenação irão conduzir à menor ca- apresentam características químicas muito A taxa de aplicação destas águas no
pacidade de assimilação dos compostos diversas, são recomendadas aplicações de, solo deve ser determinada de tal modo
orgânicos pelo solo. no máximo, 750 kg/ha/d de DBO na área, que a quantidade de nutrientes aplicada
Em geral, todos os tipos de solo são taxa máxima para que o solo tenha condi- não suplante a capacidade absortiva da
capazes de remover e degradar os materiais ções de depurar, com eficiência, o material planta, senão, além do comprometimento
orgânicos, sendo isso resultado da ação orgânico, evitando grande acúmulo deste da produtividade, poderá poluir o solo
filtrante do solo, seguido pela oxidação no perfil. e as águas subterrâneas e superficiais.
biológica. Nos solos argilosos, de textura As vantagens desse sistema são os A aplicação da água residuária pode ser
fina, bem como naqueles com considerável pequenos requisitos de área, quando feita por sulcos, aspersão, gotejamento,
quantidade de MO, além da degradação, comparados ao de outros métodos de microaspersão ou com chorumeiras, sen-
reterão os constituintes da água residuária disposição no solo, requisitos energéticos
do definido o método conforme o tipo de
por meio dos mecanismos de adsorção, praticamente nulos; reduzida dependência
cultura, sua suscetibilidade às doenças, à
precipitação e troca iônica. da declividade do terreno; implantação,
capacidade de infiltração de água no solo
As águas residuárias podem ser operação e construção simples e de baixo
e à concentração de sólidos em suspensão
dispostas no solo nas seguintes formas: custo; possibilidade de aplicação, durante
na água residuária.
infiltração-percolação, escoamento super- todo ano e recarga de lençol freático ou
O método de disposição no solo por
ficial, fertirrigação e em sistemas alagados corpos hídricos superficiais. Todavia, pode
fertirrigação é o que requer a maior área
construídos (wetlands). gerar maus odores, desenvolvimento de
por unidade de água residuária a ser dis-
insetos e vermes, possível contaminação do
Infiltração-Percolação posta/tratada. As plantas são responsáveis
lençol freático com constituintes de maior
pela remoção de parte dos macro e micro-
No método de infiltração-percolação, mobilidade no solo e possibilidade de
nutrientes e, os microrganismos do solo,
também denominado, de maneira incorreta, influência negativa em suas propriedades
pela degradação ou mineralização das
infiltração rápida, o objetivo é utilizar o químicas e físicas. Além disso, o método
substâncias orgânicas presentes na água
solo como um filtro, para as águas residu- é dependente das características do solo.
residuária. Estima-se que o sistema solo-
árias, sendo o processo caracterizado pela
Fertirrigação planta seja capaz de remover mais de 90%
percolação da água residuária, que fica
do nitrogênio e mais de 99% do fósforo
sujeita à ação filtrante do meio poroso, de Na técnica da fertirrigação, prioriza-se
contido na água residuária.
forma que a purifique e sirva de recarga o aproveitamento dos nutrientes presentes
Dentre as desvantagens do método,
às águas freáticas ou subterrâneas. A água na água residuária, maximizando a recicla-
destacam-se a dependência climática e das
residuária, nesse caso, é disposta sobre gem dos nutrientes no sistema solo-planta.
necessidades das culturas, a necessidade de
bacias rasas ou canais de infiltração feitos O aproveitamento de águas residuárias, que
sobre solos de alta permeabilidade, onde contenham nutrientes, na fertirrigação de grandes áreas para disposição da água re-
fica sujeita à infiltração e à percolação, culturas agrícolas possibilita o aumento da siduária, a possibilidade da contaminação
pelo perfil do solo. produtividade e qualidade dos produtos co- dos trabalhadores (aplicação por aspersão)
Sistemas que utilizam esse método lhidos, por proporcionar melhoria nas ca- e a possibilidade de alterações químicas e
podem ser concebidos para proporcionar racterísticas físicas, químicas e biológicas físicas do solo.
a percolação do líquido, até que atinja as do solo, com o mínimo impacto ambiental.
Escoamento superficial
águas subterrâneas, ou para recuperação Na fertirrigação, é desejável que se
do líquido por drenagem subsuperficial utilizem espécies vegetais de crescimento No método de tratamento por esco-
ou por bombeamento do líquido de poços durante todo o ano. Algumas capineiras amento superficial, as águas residuárias
freáticos. que apresentam sistema radicular abun- são aplicadas em taxas superiores à da
As águas residuárias podem ser aplica- dante e profundo podem ser muito úteis, capacidade de sua infiltração do solo, em
das em altas taxas, devendo esta aplicação do ponto de vista ambiental, uma vez que terrenos declivosos, cultivados com ve-
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getações rasteiras, geralmente gramíneas, que possuem grande poder extrator de (Hemerocallis flava) e a helicônia (Heliconia
deslocando-se rampa abaixo, até canais nutrientes, denso sistema radicular, rápido rostrata), obtendo-se ótimos resultados.
dispostos transversalmente às rampas de crescimento, são adaptadas às condições As plantas proporcionam a depuração
forma que possibilite sua coleta. No es- de salinidade e ao excesso de água e são das águas residuárias por meio de sua ca-
coamento sobre o terreno, parte da água passíveis de cortes sucessivos e frequentes. pacidade de fitoestimulação, fitoestabiliza-
residuária será evapotranspirada, pequena No caso de águas residuárias que apresen- ção, fitoacumulação, fitodegradação e fito-
parte infiltrará no solo e o restante deverá tem concentrações relativamente altas de volatilização. Na fitoestimulação, as raízes
ser coletado nos canais. Durante o percur- metais pesados, torna-se relevante o uso de das plantas e a microbiota associada e/ou os
so, o sistema solo-planta, juntamente com espécies capazes de absorver esses metais. produtos excretados na rizosfera possibi-
os microrganismos, constituirá filtro natu- Como vantagem do método, estão a litam a decomposição do contaminante. A
ral, possibilitando a degradação de parte produção de massa verde, que pode ser fitoestabilização consiste na imobilização
do material orgânico e a retenção física e utilizada na alimentação animal ou até dos contaminantes no sistema solo-planta.
química de constituintes inorgânicos em mesmo para fertilização do solo (aduba- Neste caso, não há a remoção do contami-
solução na água residuária. A degradação ção verde), o baixo custo de implantação nante e, sim, sua imobilização no meio,
microbiana do material orgânico presente e de operação. Dentre as desvantagens, suporte, humificação e lignificação nos
na água residuária é decorrente da forma- citam-se a dependência de características tecidos vegetais. Na fitoacumulação, o
ção do biofilme, junto à superfície do solo do solo, como declividade e permeabilida- contaminante é absorvido, translocado e
e ao colo das plantas. de, a necessidade de áreas relativamente acumulado na parte aérea. A translocação
Para ser tratada, a água residuária grandes e a baixa eficiência na remoção do contaminante, da raiz para a parte aérea,
deverá ser aplicada no topo das rampas de microrganismos indicadores. facilita sua retirada, quando esta é colhida,
e coletada no seu final. No tratamento de Sistemas alagados construídos
devendo ser o material, posteriormente,
esgoto doméstico, quando o sistema estiver (wetlands) tratado (processos microbianos, físicos
corretamente dimensionado, geralmente ou químicos) ou conduzido para aterro
adquire qualidade tal que possibilita seu O tratamento de água em Sistemas sanitário. Na fitodegradação, as plantas
Alagados Construídos (SACs) tem sido absorvem e metabolizam o contaminante,
lançamento em corpos hídricos. O terre-
feito desde as décadas de 1960 e 1970,
no, onde o sistema será montado, deverá notadamente os compostos orgânicos. Na
na Europa, apresentando bons resultados.
apresentar declividade entre 2% e 15%, fitovolatilização, as substâncias tóxicas são
Os mecanismos atuantes no tratamento da
e o solo, baixa permeabilidade, de forma degradadas na região da rizosfera ou depois
água residuária são: filtração, degradação
que minimize os riscos de contaminação de absorvidas na própria planta, sendo os
microbiana da MO, absorção de nutrientes,
das águas freáticas. contaminantes liberados depois de sub-
adsorção no meio filtrante, entre outros.
A vegetação, cultivada nas rampas, metidos a transformações que ocorrem na
A escolha da espécie vegetal, como
tem influência na capacidade de o sistema superfície das folhas.
em todo sistema que envolve solo-planta,
depurar a água residuária, notadamente Os SACs são, geralmente, constituídos
como reator na depuração de água residu-
no que se refere à remoção de sólidos de tanques de concreto, com um leito de
ária, é de fundamental importância para
em suspensão, nas perdas de água por material poroso sobreposto a uma camada
o sucesso do sistema de tratamento. As
transpiração e na absorção de nutrientes plantas favorecem o desenvolvimento impermeável, necessária para prevenir a
disponibilizados pela decomposição do de filmes biologicamente ativos, que contaminação do lençol freático e equipa-
material orgânico. Além disso, podem pro- propiciam a degradação dos compostos dos com sistema de drenagem artificial no
porcionar hábitat mais ou menos adaptado orgânicos, depurando o meio. Dentre as fundo. Neste tipo de sistema, a água resi-
para a biota. Dessa forma, para obter su- espécies que são frequentemente usadas duária deve fluir através do meio poroso,
cesso no uso do método, é de fundamental em SACs estão as Phragmites sp. (carriço), sendo purificada no contato com a super-
relevância a escolha da espécie vegetal a Scirpus sp. (junco) e Thypha sp. (taboa). fície do material constituinte do substrato,
ser cultivada na rampa. Esta espécie deve Pesquisas têm sido realizadas no Depar- rizomas e raízes, local de concentração de
ser perene, tolerante a condições de baixa tamento de Engenharia Agrícola da UFV, bactérias degradadoras. A profundidade
oxigenação e elevada salinidade em nível utilizando gramíneas forrageiras, como o de água nos tanques deve estar entre 0,3
radicular. Deve apresentar elevada capaci- azevém (Lolium multiflorum), o capim- e 0,8 m.
dade de extração de nutrientes e ser pouco tifton-85 (Cynodon dactylon Pers.), capim- As principais vantagens dos SACs são
suscetível ao ataque de pragas e doenças. elefante (Pennisetum purpureum Schum.), o baixo custo da operação e implantação
Dentre as espécies vegetais que apresentam aveia-preta (Avena strigosa Schreb) e até e a alta eficiência na remoção de DBO e
essas características estão as forrageiras, plantas ornamentais, como o lírio-amarelo nutrientes em solução.
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Incentivo ao manejo de bacias hidrográficas pelo


Pagamento por Serviços Ambientais
Mariana Barbosa Vilar 1
Laércio Antônio Gonçalves Jacovine 2
Ana Carolina Campanha de Oliveira 3
Aline Daniele Jacon 4
Marcelo de Oliveira Santos 5
Agostinho Lopes de Souza 6

Resumo - A sociedade usufrui direta e indiretamente dos bens e serviços ambientais pro-
movidos pelos ecossistemas naturais. A degradação do ambiente natural afeta rapida-
mente os benefícios oferecidos pelos ecossistemas. Para que se tenha a provisão contínua
dos serviços ambientais é preciso estimular a sua conservação. Os sistemas de Pagamen-
to por Serviços Ambientais (PSA) surgem como propostas de compensação e como meio
de incentivar a conservação ambiental. São descritas iniciativas de PSA em diferentes
regiões do Brasil e em alguns países que já possuem esses programas bem consolidados.
O PSA serve como instrumento econômico de reconhecimento do produtor rural como
prestador de serviços ambientais. São protagonistas da recuperação e da preservação
ambiental e, por esse motivo, devem ser estimulados a manejar sua propriedade e a
contribuir para a prestação de serviços na bacia, onde estão inseridos. A simples adoção
de políticas públicas, que incentivem a conservação, pode ser considerada um grande
avanço na gestão de recursos naturais e no manejo de bacias hidrográficas do País.

Palavras-chave: Preservação ambiental. Proteção ambiental. Economia ambiental. Política


Ambiental. Programa Bolsa Verde. PSA.

INTRODUÇÃO a baixa rentabilidade da atividade rural, a De um lado, os ambientalistas defendem


descapitalização do produtor rural, a falta a manutenção das regras estabelecidas
A degradação ambiental ocorrida nos
últimos anos, em especial dos recursos hí- de assistência técnica e, especificamente, pelo código e, do outro, os produtores
dricos, demonstra que o manejo de bacias o descumprimento da legislação ambien- rurais que almejam alcançar alterações
hidrográficas não está ocorrendo de forma tal, que irá afetar diretamente a produção significativas na lei, incluindo a questão
satisfatória. Com isso, o fornecimento e a manutenção da qualidade da água na das Reservas Legais (RLs) e de Áreas de
dos serviços ambientais à sociedade está bacia hidrográfica. Preservação Permanente (APPs).
sendo comprometido. O descumprimento da legislação am- Sabe-se que as APPs e as RLs em
As razões ou explicações para a prá- biental remete a uma discussão cujo tema uma bacia hidrográfica são importantes
tica inadequada do manejo de bacias hi- tem despertado o interesse de toda a so- para manutenção das funções ecológicas
drográficas podem ser muitas, entre estas ciedade: a mudança no Código Florestal. dos ecossistemas e para o fornecimento

1
Eng a Florestal, M.Sc., Pesq. UFV - Depto. Engenheria Florestal - Polo de Excelência em Florestas, CEP 36570-000 Viçosa-MG.
Correio eletrônico: maribvilar@hotmail.com
2
Engo Florestal, D.S., Prof. Assist. UFV - Depto. Engenharia Florestal, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: jacovine@ufv.br
3
Enga Florestal, Pesq. UFV - Depto. Engenharia Florestal, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: carolviflo@yahoo.com.br
4
Graduanda Engenharia Florestal UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: alinejacon@hotmail.com
5
Engo Florestal, Instituto Xopotó, Praça Capitão Vilela, 44, CEP 36542-000 Brás Pires-MG. Correio eletrônico: marcelosantos.florestal@gmail.com
6
Engo Florestal, D.Sc., Prof. Tit. UFV - Depto. Engenharia Florestal, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: alsouzaal@gmail.com

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dos serviços ambientais. Entretanto, víduos obtêm dos ecossistemas naturais. lógico médio, ou, mais precisamente,
verifica-se que a maioria das regras esta- Estes serviços resultam das funções eco- como a descrição de quantidades rele-
belecidas para essas áreas é descumprida lógicas dos ecossistemas, que constituem vantes de mudanças do tempo meteo-
e alterações impactantes, que levam à na capacidade de os processos naturais rológico num período que vai de meses
degradação ambiental, são promovidas proverem bens e serviços que satisfaçam a milhões de anos. Essas quantidades
nas bacias hidrográficas. Assim, pode- às necessidades humanas, direta e indi- são, geralmente, variações de superfí-
se inferir que o sistema amplamente retamente. cie como temperatura, precipitação e
adotado pelos órgãos ambientais, no Qualquer componente de um ecos- vento. Fatores climáticos são elemen-
Brasil, de comando e de controle, em sistema tem valor de uso direto, nor- tos naturais capazes de influenciar as
que são estabelecidas regras e formas malmente reconhecido pelo mercado: características ou a dinâmica de um
de cumpri-las, não está obtendo êxito. alimentos, sementes, fibras, madeiras, ou mais tipos de climas. Exemplos de
Este sistema está dentro do princípio do resinas, medicamentos, entre outros. Já fatores climáticos: pressão atmosférica,
poluidor-pagador. os serviços ambientais, embora reco- órbita, latitude, altitude, maritimidade,
O manejo integrado de bacias hidro- nhecidos como essenciais à vida, geral- continentalidade, massas de ar, cor-
gráficas é uma proposta educativa que mente não são captados pelo mercado. rentes marítimas, relevo, vegetação,
visa recuperar o ambiente deteriorado por Apresentam outros valores econômicos, etc. Dentre os serviços ambientais
meio de proteção e preservação dos recur- como o de opção, motivado pelo inte- relacionados com o clima destacam-
sos hídricos. Melhora substancialmente a resse em preservar a biodiversidade para se: fixação e estocagem de carbono;
qualidade de vida do homem, permitindo o seu uso futuro, ou, ainda, o valor de regulação da temperatura e da umidade
existência, relacionado com atributos
o uso sustentável dos recursos naturais. do ar; qualidade do ar (controle da
culturais como a ética religiosa. Da
Ao adotar práticas de manejo integrado poluição); manutenção do microclima
de bacias hidrográficas, o produtor rural mesma forma que os valores de opção,
dos ecossistemas.
os de existência estão distantes do re-
beneficia a sociedade pela manutenção
dos serviços ambientais.
conhecimento do mercado econômico Biodiversidade
(KITAMURA, 2003).
Após o avanço para gerenciamento O termo biodiversidade, ou diversi-
de recursos hídricos, promovido pela Tipos de serviços dade biológica, descreve a riqueza e a
Lei no 9.433, de 8 de janeiro de 1997 ambientais variedade do mundo natural. As plantas,
(BRASIL, 1997), que instituiu a Política os animais e os microrganismos forne-
Entre as diferentes classificações de
Nacional de Recursos Hídricos, tornou- cem alimentos, remédios e boa parte da
serviços ambientais dadas por Millen-
se importante avaliar os instrumentos matéria-prima industrial consumida pelo
nium Ecosystem Assessment (2005), es-
essenciais ao manejo sustentável dos ser humano. Para entender o que é a bio-
tão os serviços funcionais prestados pelos
recursos hídricos. Além dos instrumentos diversidade, deve-se considerar o termo
ecossistemas, como provisão (produtos
previstos nesta Lei, é necessário avaliar em dois níveis diferentes: todas as formas
obtidos diretamente dos ecossistemas, por
as iniciativas mais recentes de incentivo de vida, assim como os genes contidos
exemplo, alimentos e água); regulação
à conservação dos recursos ambientais.
(controle de processos ecossistêmicos, em cada indivíduo, e as inter-relações
Este trabalho descreve algumas iniciati- por exemplo, controle de pragas e de ou ecossistemas, nos quais a existência
vas de Pagamento por Serviços Ambien- enchentes); culturais (benefícios não de uma espécie afeta diretamente muitas
tais (PSA), no Brasil, como instrumento materiais como cultural e espiritualida- outras.
econômico de reconhecimento do pro- de) e os de suporte (necessários para a Dentre os serviços ambientais rela-
dutor rural como prestador de serviços manutenção de todos os outros serviços). cionados com a biodiversidade, destaque
ambientais. Além disso, pretende-se Neste sentido, destacam-se os serviços é dado à manutenção da fauna silvestre
levantar questões relacionadas com as relacionados com a regulação do clima, (polinização); e da flora; à fonte de recur-
ações do manejo de bacias hidrográficas biodiversidade, solo e recursos hídricos, sos e informações; aos serviços culturais
e a ações de PSA. descritos a seguir. (recreação, turismo e religião).

SERVIÇOS AMBIENTAIS Regulação climática Solo


Os serviços ambientais podem ser Clima, em sentido restrito é geral- O solo tem grande importância na
definidos como os benefícios que os indi- mente definido como tempo meteoro- vida de todos os seres vivos do plane-
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ta, assim como o ar, a água, o fogo e áreas. No primeiro conjunto, estariam: nutrientes, poluentes e resíduos. Estas
o vento. Os alimentos são produzidos regulação hídrica, purificação da água, áreas costumam ter uma maior capa-
sobre o solo e sobre este constroem-se suporte aos processos ecológicos aquá- cidade de retenção de nutrientes e são
casas (EMBRAPA SOLOS, 200-). Os ticos e à água como bem. No segundo, efetivas na remoção de bactérias e
principais serviços ambientais rela- estariam: regulação climática, recursos micróbios. As plantas de áreas úmidas
cionados com os solos são: controle genéticos, controle de doenças, servi- eliminam poluentes física, química e
de erosão e sedimentação; capacidade ços culturais, controle de enchentes, biologicamente. Além disso, algumas
de retenção de água para abastecer o controle de erosão, manutenção da plantas de áreas úmidas possuem o po-
lençol freático; ciclagem de nutrientes, biodiversidade, sequestro de CO 2, pro- tencial de reter sedimentos.
manutenção da fertilidade; abrigo da dução de alimentos, produção florestal,
microbiota do solo. entre outros. Produtividade aquática
Os serviços ambientais relacionados As áreas úmidas ocupam um nicho
Recursos hídricos com a produção de água estão inti- importante na cadeia alimentar. Proveem
A água é um recurso natural reno- mamente ligados ao manejo da bacia uma rica fonte de nutrientes para todas as
vável, essencial à vida e ao equilíbrio hidrográfica e aos componentes desta formas de vida, incluindo peixes, e são
ecológico do planeta. O ciclo hidro- (nascentes, Matas Ciliares, topos de áreas de alimentação e procriação para
lógico é responsável pela renovação morro, várzeas). A relação entre água e espécies de água doce e marinha. Uma
da água existente na Terra. Pode ser floresta depende de uma diversidade de grande variedade de produtos é extraí-
entendido, como a circulação contínua variáveis específicas locais, incluindo da dessas áreas, como peixes e outras
de umidade e água no planeta, por meio o tipo de solo e de vegetação, a decli- espécies aquáticas, remédios, materiais
da energia solar que chega à superfície vidade do terreno, o regime de chuvas, de construção, alimento para homens e
terrestre. Os ecossistemas dependem os ventos, a diversidade biológica, o animais, combustíveis, etc.
da água para gerar e prover bens e tipo de manejo adotado, entre outros.
serviços para os seres humanos, tais A seguir são apresentados, segundo Florestas
como os peixes (e a fauna aquática em Whately e Hercowitz (2008), os princi-
geral), a madeira, os produtos flores- pais serviços ambientais, relacionados Oferta de água e
com a água, prestados por áreas úmidas regulação de vazão
tais não madeireiros (como castanhas,
seringa, sementes, etc.), combustíveis, e pelas florestas. A cobertura florestal ajuda a conter
alimentos, remédios, grãos e pastos, os impactos das chuvas nos solos. A ve-
entre outros. Ao mesmo tempo, os Áreas úmidas getação retém a água de forma que esta
ecossistemas são responsáveis por ser- infiltre no solo lenta e constantemente
Oferta de água e
viços importantes para a manutenção ou escoe para os rios gradualmente. Os
regulação de vazão
da qualidade e da quantidade de água solos de florestas têm, normalmente,
disponível, tais como: manutenção e Os rios, lagos e aquíferos subter- uma maior capacidade de armazenar
oferta dos fluxos de água; regulação râneos proveem uma fonte renovável água do que os de áreas sem florestas.
da qualidade da água; mitigação de de água doce. Grande parte das áreas As florestas minimizam enchentes e
desastres naturais relacionados com a úmidas armazena, regula e recarrega podem, eventualmente, aumentar as
água, como, por exemplo, enchentes os estoques de águas superficiais, os vazões mínimas durante as épocas de
e secas. lençóis freáticos e os aquíferos. Nas fun- seca.
ções de reservatórios, as áreas úmidas
Principais serviços ambientais regulam as vazões de água, atenuando Controle de erosão e
relacionados com a água enchentes a jusante em épocas de cheias. sedimentos

Whately e Hercowitz (2008) des- Em época de seca, armazenam água, A cobertura florestal protege o solo
tacam que é possível elencar serviços disponibilizada gradualmente. dos impactos da chuva que cai por entre
ambientais diretamente relacionados as copas das árvores. As raízes ajudam
Qualidade da água
com as áreas produtoras de água, bem a conter o solo e evitam deslizamentos
como aqueles que sofrem influência Muitos tipos de áreas úmidas ab- de terra, o que, geralmente, contribui
e que influenciam a qualidade dessas sorvem, filtram, processam e diluem para minimizar os efeitos das erosões
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Revitalização de nascentes para produção de água 33

hídricas, inclusive o carreamento de sua propriedade e, consequentemente, serviços ecossistêmicos pode tornar a
sedimentos e lodos para os rios. poderá adotar práticas eficientes do ma- conservação florestal uma opção atrativa
nejo integrado de bacias hidrográficas. para os manejadores dos ecossistemas e,
Qualidade da água O PSA é considerado um estímulo consequentemente, induzi-los a adotar
Os solos das florestas são mais úmi- concreto para alguns segmentos da esta nova opção (VILAR, 2009).
dos que a maioria dos outros tipos de sociedade realizarem algo que é de
interesse vital para toda a população. Experiências de Pagamento
solos e contêm mais nutrientes, possibi- por Serviços Ambientais
Essa relação pode ser de compensação
litando a filtragem de poluentes.
ou pagamento direto e pode ocorrer de Segundo Romano (2010), alguns
Pagamento por Serviços diversas formas: transferência direta instrumentos políticos podem viabilizar
Ambientais de recurso financeiro, favorecimento a estratégia de reconhecimento político
O conceito de PSA é definido como na obtenção de créditos, isenção de do produtor rural como protagonista
taxas e impostos, aplicação de receitas decisivo da recuperação e preservação
um sistema de compensação aos pro-
de impostos em programas especiais, ambiental. No plano federal, encontra-
vedores de um serviço ambiental por
disponibilização de tecnologia, capa- se em tramitação o Projeto de Lei que
parte dos usuários desse serviço. Para
citação técnica, subsídios a produtos, institui a Política Nacional e o Programa
Engel, Pagiola e Wunder (2008), PSA
fornecimento preferencial de serviços Federal de PSA.
pode ser definido como uma transação
públicos, garantia de acesso a merca- A seguir, são apresentadas as iniciativas
voluntária, onde um serviço ambien-
dos ou programas especiais (BORN; brasileiras e internacionais de PSA, que
tal bem definido (ou um uso da terra
TALOCCHI, 2002). mais se destacam.
que assegure um serviço ambiental) é
Pagiola (2008) descreve como ope-
comprado por, no mínimo, um com-
ram alguns mecanismos de mercado de Programa Produtor de Água
prador de no mínimo um provedor de
PSA nas Américas Central e do Sul. As
serviços ambientais. A condicionante Este Programa foi proposto pela
principais características dos estudos de
em que se baseia o PSA refere-se à Agência Nacional de Águas (2008) e
caso mencionadas evidenciam a neces-
provisão contínua dos serviços am- tem como objetivo melhorar a qualidade
sidade de existência de um produto: os
bientais pelo provisor ou produtor da água, por meio do incentivo à adoção
serviços fornecidos pelas florestas; de
destes. Além de auxiliar na preservação de práticas que promovam o abatimento
compradores deste produto – os benefici-
do meio ambiente, os mecanismos de da sedimentação. Além disso, pretende-
ários destes mesmos serviços gerados –,
PSA também podem contribuir para o se com este Programa, aumentar a oferta
e de vendedores do produto – os usuários
desenvolvimento econômico, sendo de água para os usuários, e conscien-
das terras que são responsáveis pelas
importantes na geração de renda aos tizar produtores e consumidores de
tomadas de decisões no gerenciamento
seus beneficiários. das florestas – e, portanto, na oferta dos água sobre a importância da gestão
O princípio orientador desta relação é serviços ambientais. Os manejadores integrada de bacias hidrográficas. O
o conservador-recebedor, que é o inverso dos ecossistemas, que podem ser fa- Programa visa à compra dos benefícios
do princípio do poluidor-pagador, na zendeiros, agricultores, madeireiros ou ou serviços ambientais gerados pelos
medida em que proporciona uma justa gestores de áreas protegidas, frequen- participantes, com base no princípio
compensação a todos que contribuem temente recebem poucos benefícios da do provedor-recebedor. Os pagamentos
para a conservação ambiental, com terra com a conservação das florestas. serão proporcionais ao abatimento da
suas condutas, ou seja, reconhece as Esses benefícios, com frequência, são erosão dos solos. O Programa ainda
externalidades positivas daqueles cujo menores que aqueles que receberiam, não é efetivo no Brasil, entretanto,
comportamento ambiental reduz os gas- caso fosse dado um uso alternativo ao alguns Estados já estão desenvolvendo
tos públicos e traz benefícios para toda a solo, como a conversão para pastagens atividades pioneiras relacionadas com a
coletividade (FURLAN, 2008). Aquele ou agricultura. No entanto, a retirada das implantação de sistemas de PSA.
produtor rural que maneja sua proprie- florestas pode impor custos ou externali-
dade de forma diferenciada deve receber dades às populações ribeirinhas que não Programa Produtor de
Água (Espírito Santo)
uma compensação por isto. Esta com- receberão os benefícios da infiltração
pensação ou benefício poderá auxiliar o da água no solo, da biodiversidade e do O governo do estado do Espíri-
produtor rural a aprimorar o manejo de estoque de carbono. O pagamento por to Santo criou o Fundo Estadual de
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Recursos Hídricos do Espírito Santo serviços ambientais nesse município é Projeto Mina D’água (São Paulo)
(Fundágua), que é gerenciado pelo remunerado em R$159,00/hectare/ano
O projeto Mina D’água está sendo
Instituto Estadual do Meio Ambiente (EXTREMA, 2005).
considerado uma forma eficiente de
(Iema). O Fundágua é destinado à
estimular a proteção das nascentes de
captação e à aplicação de recursos e, Projeto Oásis (Apucarana, PR)
mananciais de abastecimento público,
além disso, dará suporte financeiro Em Apucarana, PR, os proprietários conciliando atividades de preservação
e implementará a Política Estadual rurais que mantêm suas nascentes pre- com geração de renda principalmente
de Recursos Hídricos. Os recursos a
servadas de acordo com as normas am- no meio rural. O governo do estado de
serem utilizados por esse fundo serão
bientais e aqueles que iniciarem ações São Paulo reservou R$ 3,15 milhões
provenientes, em parte, dos royalties
de recuperação recebem apoio técnico para a fase piloto do projeto. A pre-
do petróleo, gás natural e setor elétri-
e financeiro da prefeitura municipal. visão é de que 150 nascentes sejam
co; capital adquirido em multas am-
O Projeto Oásis/Apucarana prevê o protegidas por município, num total
bientais; orçamento público municipal,
incentivo que é definido de acordo com de 3.150. O projeto foi instituído por
estadual e federal; doações e transfe-
a vazão da nascente. Para cada nascente meio do Decreto n o 55.947, de 24 de
rências (ESPÍRITO SANTO, 2008a).
será destinado o valor mensal de até junho de 2010, que regulamenta a
Esses recursos serão destinados ao
três Unidades Fiscais do Município Política Estadual de Mudanças Climá-
PSA aos produtores rurais, conforme
(UFM), sendo que, atualmente, cada ticas (SÃO PAULO, 2010). De acordo
a Lei n o 8.995, de 22 de setembro de
UFM equivale a R$35,00. Para uma com o documento, os financiamentos
2008 (ESPIRITO SANTO, 2008b).
nascente com vazão até 1,5 mil litros não reembolsáveis são para pessoas
Programa Conservador das por hora será pago uma UFM por mês; físicas de direito público. Os recursos
Águas (Extrema, MG) acima de 1,5 mil a 3 mil litros por hora, são do Fundo Estadual de Prevenção e
duas UFM por mês e com vazão acima Controle da Poluição (Fecop) e serão
A Lei Municipal n o 2.100, de 21 de
de 3 mil litros por hora, três UFM por repassados mediante convênios com
dezembro de 2005, instituiu o Progra-
mês ou o mesmo que R$105,00 por as prefeituras. O Projeto Mina D’água
ma Conservador das Águas, em Ex-
mês. Para pleitear o benefício, que é contemplará exclusivamente ações
trema, MG, com base no princípio do
de quatro anos, prorrogável por igual voltadas à proteção de nascentes situ-
conservador-recebedor, incentivando o
período, o proprietário rural precisa adas em mananciais de abastecimento
produtor rural a conservar os manan-
cadastrar-se no programa e proteger público, incluindo (SÃO PAULO, 2010) :
ciais por meio da remuneração, como
fator de estímulo e geração de renda. sua nascente adequadamente de acordo
com o Código Florestal. Ao aderir ao I - eliminação de fatores de degradação,
Este programa tem como objetivos au-
tais como presença de animais, fogo,
mentar a cobertura vegetal, implantar programa, o ruralista deverá averbar
focos de erosão, entre outros;
microcorredores ecológicos, reduzir a sua reserva legal, que terá que estar
reflorestada ou em processo de reflores- II - execução de ações que favoreçam a
poluição decorrente dos processos ero-
tamento, além de atender a outras me- regeneração natural da vegetação, tais
sivos e da falta de saneamento, garantir
didas devidamente regulamentadas. Os como eliminação de espécies compe-
a sustentabilidade socioambiental dos
recursos serão provenientes de dotações tidoras, implantação de técnicas de
manejos e práticas implantadas, por
nucleação, entre outras;
meio do PSA aos produtores rurais. próprias consignadas no orçamento
A remuneração direta é efetuada de municipal vigente, do Fundo Municipal III - plantio de mudas de espécies nati-
acordo com o alcance de metas pre- de Meio Ambiente, ICMS Ecológico vas de ocorrência regional;
estabelecidas, e os pagamentos são das unidades de conservação, Reserva IV - Monitoramento e vigilância.
feitos durante e após a implantação Permanente do Patrimônio Natural,
do projeto. Nesse município, é pago parte de multas ambientais aplicadas Este projeto, com foco na conserva-
ao produtor de serviços ambientais pelo Ministério Público e/ou órgãos ção de nascentes, apresenta uma meto-
um valor de 100 Unidades Fiscais de competentes, e mediante convênios dologia distinta para atribuição do valor
Extrema (UFEX), por hectare, por ano. a serem firmados com Organizações a ser pago aos provedores de serviços
Sendo o valor atual de uma UFEX Não Governamentais (ONGs) e outras ambientais, conforme apresentado na
R$1,59. Anualmente, o produtor de entidades (APUCARANA, 2009). Figura 1.
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Revitalização de nascentes para produção de água 35

preservação de valores socioculturais,


Valor do pagamento = V Ref x (F Prot + F Imp) x 0,2
em que: conservação do meio ambiente e presta-
ção de serviços ambientais. São objetivos
V Ref: Valor de Referência (definido com base no custo de oportunidade, varia regionalmente).
F Prot: Fator de Proteção da nascente (relacionado com o esforço do proprietário para a
do Programa: controle social da política
geração do serviço ambiental. Varia de 1 a 4 e representa 40% do peso). pública, inclusão social, orçamento ter-
ritorial, intensificação qualitativa do uso
Nascente protegida, vege- Nascente protegida, vegetação Nascente protegida,
econômico da terra, fortalecimento de
tação em estádio inicial em estádio médio de regenera- vegetação em estádio
de regeneração ção ou plantio de mudas avançado organizações sociais, assessoria técnica
1 2 4 e extensão rural, além da certificação e
F Imp: Fator de Importância (Relacionado com o impacto da ação sobre a produção de
remuneração por serviços ambientais.
serviço ambiental. Varia de 1,5 a 6 e representa 60% do peso). Os princípios do Proambiente passam
pela gestão compartilhada, pelo controle
F Imp = Fator uso + fator vazão + fator localização
social, pelo planejamento participativo
Fator uso
da unidade de produção, gestão dos
Abastecimento de comuni- Abastecimento da sede do recursos naturais e pela certificação de
Abastecimento regional
dade isolada município serviços ambientais. O Proambiente
0,5 1 2 opera por meio de Polos, que prestam
Fator vazão serviços ambientais em escala de paisa-
gem rural. Cada Polo é formado por um
Pequena Média Grande
conjunto de grupos comunitários, sendo
0,5 1 2
estes responsáveis pela elaboração dos
Obs.: considerar vazões observadas na microbacia.
Acordos Comunitários, os quais devem
Fator localização estar em consonância com os Planos de
Montante da captação Montante da captação
Utilização da Unidade de Produção e
Jusante da captação com o Padrão de Certificação de Ser-
(influência indireta) (influência direta)
0,5 1 2 viços Ambientais. A partir dos Acordos
Comunitários, certificadores designados
Figura 1 - Forma de cálculo dos valores a serem pagos no Projeto Mina D’água
pelo Instituto Nacional de Metrologia,
Normalização e Qualidade Industrial
Projeto Oásis controle de erosão, recebeu o valor de (Inmetro), selecionados por meio de
(Guarapiranga, SP) R$ 75,00/ha/ano; capacidade de produção e edital público, certificam o cumprimento
O Projeto Oásis foi lançado em 2006, armazenamento de água, R$ 99,00/ha/ano; destes, dando direito aos produtores ao
pela Fundação O Boticário. Sua área de manutenção da qualidade da água, uso do selo do Proambiente e a outros be-
atuação abrange a Bacia Hidrográfica de R$ 196,00/ha/ano. O somatório dos va- nefícios, como remuneração dos serviços
Guarapiranga e algumas APPs da região lores dos três serviços ecossistêmicos ambientais e fomento a projetos. O valor,
metropolitana de São Paulo. O Projeto totalizou R$ 370,00, que é a quantia má- inicialmente estipulado para ser pago a
premia, financeiramente, proprietários xima que os proprietários participantes do cada estabelecimento, é de meio salário
de áreas naturais localizadas na região, Projeto Oásis podem receber anualmente mínimo por mês, tomando por base o
com o objetivo de preservar mananciais por hectare de área natural conservada custo de eliminar o fogo dos sistemas
e contribuir para a manutenção da qua- (FUNDAÇÃO O BOTICÁRIO DE PRO- de produção. No total, foram alocados
lidade da água que abastece cerca de TEÇÃO À NATUREZA, 2009). R$ 1,6 milhão, beneficiando 1.768 famí-
4 milhões de pessoas na Grande São Pau- lias, em projetos de seis meses a um ano
Proambiente na Amazônia de duração (R$ 100,00/mês).
lo. A metodologia de valoração do Proje-
to Oásis estimou um valor de referência Segundo Fasiaben et al. (2009), o
Nova Iorque
para o Pagamento por Serviços Ecos- Proambiente apreende a nova funciona-
sistêmicos prestados pelas propriedades lidade dos produtores rurais, que, além Um dos exemplos mais famosos de
apoiadas pelo projeto. Como serviços de produzir alimentos e fibras, detêm PSA foi estabelecido na cidade de Nova
a serem valorados foram considerados: um caráter multifuncional, associando Iorque para proteção dos mananciais de
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água potável. O Projeto foi realizado, técnica. O tempo dos contratos varia de da regularização da Reserva Legal e
principalmente, por meio de um pro- 18 a 30 anos e o pagamento é feito de da proteção das Áreas de Preservação
grama de aquisição de terras e servidão acordo com os custos de oportunidade Permanente; e
para conservação, que ampliou a área da terra e com a qualidade da terra e da III - propriedades e posses que con-
protegida da Bacia Hidrográfica de água, que são constantemente monito- servem ou preservem áreas acima do
Catskills. Além disso, os agricultores e radas. Os custos totais, excluindo os de limite estabelecido pela legislação em
silvicultores receberam compensações transações intermediárias, foram de quase termos da regularização da Reserva
para melhorar as práticas de manejo do US$ 25 milhões, entre 1993 e 2000. O Legal e da proteção das Áreas de
uso do solo ou para retirar a produção monitoramento tem mostrado o aumento Preservação Permanente.
agrícola de áreas sensíveis. Esse mer- dos serviços hidrológicos, comparando-
Além disso, o benefício terá valor
cado de serviços ambientais surgiu de os com o declínio presente na linha de majorado nos casos de propriedades que
políticas públicas que padronizaram a base destes serviços. Além disso, está apresentarem balanço ambiental ade-
qualidade da água, por meio de novas demonstrado, por essa experiência, que o quado, conforme critérios estabelecidos
regulamentações sobre o tratamento da alto valor desse serviço ambiental torna os pelo Comitê Executivo do Bolsa Verde
água de superfície. Ao analisar o custo investimentos rentáveis economicamente (MINAS GERAIS, 2009).
relativo da construção de uma nova esta- (ASQUITH; WUNDER, 2008). No Bolsa Verde estão previstas duas
ção de tratamento de água e alternativas formas de apoio ao produtor rural: o
de manejo do solo, a cidade optou por O caso de Minas Gerais:
Programa Bolsa Verde apoio à manutenção da vegetação na-
estabelecer um amplo sistema de PSA tiva existente e o apoio a ações de re-
para melhorar o manejo da Bacia de Em agosto de 2008, o governo do composição, restauração e recuperação
Catskills, de onde a água potável é ob- estado de Minas Gerais promulgou a florestal. No primeiro ano do Programa
tida. A criação desse sistema permitiu à Lei no 17.727, de 13 de agosto de 2008 Bolsa Verde, 2010, os recursos foram
cidade de Nova Iorque cumprir a legisla- (MINAS GERAIS, 2008), que dispõe direcionados ao incentivo financeiro à
ção com custos correspondentes à quinta sobre a concessão de incentivo financeiro modalidade de manutenção da vege-
parte daquele implicado na construção de a proprietários e posseiros rurais, sob a tação nativa existente, bem como aos
uma nova estação de tratamento de água. denominação de Bolsa Verde. Esta Lei custos de administração do Programa. O
A economia no processo foi de mais de prevê que proprietários de áreas rurais e pagamento das ações de recomposição,
US$ 3 bilhões (ISAKSON, 2002). Por- urbanas que preservarem, em seus terre- restauração e recuperação florestal será
tanto, a proteção de mananciais tem nos, áreas necessárias à proteção dos re- efetuado a partir de 2011. O Comitê
sido preferida ao tratamento intensivo cursos hídricos, da biodiversidade e dos Executivo do Programa Bolsa Verde
da água, principalmente em resposta a ecossistemas, contarão com um incentivo estabeleceu critérios de pontuação para
legislações mais restritivas. financeiro do governo a ser pago anual- a avaliação técnica das propostas. Segun-
mente. A prioridade para a concessão do do o Manual de Procedimento do Bolsa
França benefício será dos agricultores familiares Verde (INSTITUTO ESTADUAL DE
Desde 1993, uma empresa de benefi- e dos donos de pequenas propriedades FLORESTAS, 2010), as propostas com
ciamento de água mineral, na França, vem rurais (área de até quatro módulos fiscais) maior número de pontos serão atendidas
conduzindo um programa de PSA, mais (MINAS GERAIS, 2008). Para efeito da prioritariamente. Os critérios e respecti-
especificamente de serviços hidrológicos, concessão do benefício será obedecida vas pontuações de ambas modalidades
em 5.100 ha da região das montanhas de uma gradação de valores em ordem cres- estão apresentados nas Quadros 1 e 2.
cente (MINAS GERAIS, 2009): Os recursos para a concessão do Bolsa
Vosges. O projeto remunera 27 produto-
Verde serão provenientes de:
res rurais da bacia hidrográfica, os quais I - propriedades e posses que ne-
adotam as melhores práticas em suas cessitem adequação aos critérios de a) consignação na Lei Orçamentária
atividades rurais diárias. Esses produtores regularização da Reserva Legal e de Anual e de créditos adicionais;
foram convencidos a converter suas práti- proteção das Áreas de Preservação b) 10% dos recursos do Fundo de
cas a técnicas de baixo impacto, incluindo Permanente;
Recuperação, Proteção e Desen-
o abandono de agroquímicos e utilizando II - propriedades e posses que conser- volvimento Sustentável das Bacias
técnicas como compostagem. O programa vem ou preservem áreas no limite es- Hidrográficas do Estado de Minas
combina remuneração direta e assistência tabelecido pela legislação em termos Gerais (FHIDRO);
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Revitalização de nascentes para produção de água 37

QUADRO 1 - Critérios de Análise da Modalidade de Manutenção da Cobertura Vegetal

Critérios Pontuação

(1)
Primeiro Critério: individual ou coletivo

Demanda individual 01

Demanda coletiva de propriedades ou posses, geograficamente próximas, observados os critérios de microbacias,


conforme pontuação
De 02 até 10 propriedades ou posses 03

De 11 até 20 propriedades ou posses 06

De 21 até 30 propriedades ou posses 08

Acima de 31 propriedades ou posses 10

Segundo Critério: somatória individual de pontos


Propriedade ou posse que possua área com cobertura vegetal nativa acima do limite mínimo estabelecido para Reserva Legal 06
(RL), excetuando-se as Áreas de Preservação Permanente (APPs).
Propriedade ou posse que possua área com cobertura vegetal nativa que atenda ao limite mínimo de RL, excetuando-se as APPs. 04
Propriedade que possua RL averbada ou posse que possua Termo de Compromisso de RL no cartório de Títulos e Documentos. 03

Propriedade ou posse que possua as APPs conservadas. 05


Propriedades ou posses nas quais a soma de áreas de cobertura vegetal de RLs com as de APPs seja superior a 50% da área 03
total do imóvel.
Propriedades ou posses nas quais não haja uso de agrotóxico. 01
Propriedades que utilizam controles biológicos ou agroecológicos. 03
Propriedades que utilizam sistemas de produção agroecológicas ou sistemas de produção integrada. 03
Propriedades ou posses que utilizam práticas de conservação do solo e da água e da fauna. 02
Propriedades ou posses inseridas em áreas de contribuição direta para o abastecimento público de água. 06
Propriedades ou posses objeto de aplicação de financiamento na linha de conservação ambiental ou agroecológica, a exemplo 03
do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar-Eco (Pronaf-Eco).
Propriedade vinculada a projetos públicos de inclusão social no campo, devidamente comprovadas pela instituição pública 03
responsável pelo projeto.
Propriedades ou posses que participam de projetos associativos de produção. 05
Propriedades ou posses pertencentes a povos tradicionais. 03
Propriedades ou posses vinculadas a políticas públicas destinadas à juventude rural. 04
Propriedades ou posses vinculadas a projetos de reassentamento ou assentamento rural. 03
Propriedades ou posses situadas em Unidades de Conservação de categorias de manejo sujeitas à desapropriação e em situação 06
de pendência na regularização fundiária.
Áreas de cobertura vegetal nativa em Reservas Particulares do Patrimônio Natural. 05

Propriedades ou posses situadas em Áreas de Proteção Ambiental (APA). 03

Propriedades ou posses particulares, situadas em áreas definidas pelo seu Plano Diretor ou aprovadas por lei municipal como 05
zonas urbanas e de expansão urbana, que possuam área de cobertura vegetal nativa de dimensão superior a um hectare e que
abranjam nascentes. Não se aplica às áreas destinadas à implantação de equipamento comunitário, conforme estabelecido
pela Lei no 9.785, de 29 de janeiro de 1999 (BRASIL, 1999).
Propriedades ou posses de particulares, situadas em áreas definidas pelo Plano Diretor ou aprovadas por lei municipal, como 03
zonas urbanas e de expansão urbana, que possuam área de cobertura vegetal nativa de dimensão superior a um hectare.
Não se aplica às áreas destinadas à implantação de equipamento comunitário, conforme estabelecido pela Lei no 9.785, de
29/1/1999 (BRASIL, 1999).
FONTE: Instituto Estadual de Florestas (2010).
(1) Além da pontuação do Primeiro Critério, consideram-se, tanto para as propostas individuais, como para as coletivas, por propriedade
ou posse, os pontos obtidos no Segundo Critério.

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QUADRO 2 - Critérios de Análise da Modalidade de Recuperação da Cobertura Vegetal

Critérios Pontuação

Primeiro Critério: individual ou coletivo


(1)

Demanda individual 01

Demanda coletiva de propriedades ou posses, geograficamente próximas, observados os critérios de microbacias,


conforme pontuação

De 02 até 10 propriedades ou posses 03


De 11 até 20 propriedades ou posses 06
De 21 até 30 propriedades ou posses 08
Acima de 31 propriedades ou posses 10

Segundo Critério: somatória individual de pontos

A proposta de recuperação atinge Áreas de Preservação Permanente (APPs) definidas nos incisos II, III e IV do Art. 10 da Lei 08
no 14.309, de 19 de junho de 2002 (MINAS GERAIS, 2002). Conforme Anexo 3, trata-se das áreas denominadas informal-
mente APPs úmidas, ou seja, aquelas situadas ao longo dos cursos d’água, no entorno de reservatórios naturais ou artificiais
e nascentes, mesmo que intermitentes.

A proposta de recuperação atinge APPs nos incisos V, VI e IX do Art. 10 da Lei no 14.309, de 19/6/2002 (MINAS GERAIS, 06
2002). Conforme Anexo 3, trata-se das áreas denominadas informalmente APPs secas, ou seja, aquelas situadas em topos de
morro, em áreas com declividade igual ou superior a 45 graus e áreas em altitude superior a 1.800 m.

A proposta de recuperação atinge áreas de Reserva Legal (RL) já averbadas. 05

A recuperação atinge áreas propostas para regularização de RL. 02

A proposta de recuperação atinge áreas com problemas erosivos ou de degradação do solo. 09

A proposta de recuperação atinge áreas dos incisos I, VII, VIII, IX, X do Art. 10 da Lei no 14.309, de 19/6/2002 (MINAS 04
GERAIS, 2002).

Propriedades ou posses nas quais não há uso de agrotóxico. 01

Propriedades que utilizam controles biológicos ou agroecológicos. 01

Propriedades que utilizam sistemas de produção agroecológicos ou sistemas de produção integrada. 01

Propriedades ou posses que utilizam práticas de conservação do solo e da água e da fauna. 01

Propriedades ou posses inseridas em áreas de contribuição direta para o abastecimento público de água. 06

Propriedades ou posses objeto de aplicação de financiamento na linha de conservação ambiental ou agroecológica, a exemplo 03
do Pronaf-Eco.

A propriedade está vinculada a projetos públicos de inclusão social no campo, devidamente comprovadas pela instituição 03
pública responsável pelo projeto.

Propriedades ou posses que participam de projetos associativos de produção. 05

Propriedades ou posses pertencentes a Povos Tradicionais. 03

Propriedades ou posses vinculadas a políticas públicas destinadas à juventude rural. 02

Propriedades ou posses vinculadas a projetos de reassentamento ou assentamento rural. 03

Propriedade ou posse localizada no entorno de UC de Proteção Integral, conforme definição oficial pelo órgão 06

Propriedade ou posse localizada no interior de Áreas de Proteção Ambiental (APA). 03


FONTE: Instituto Estadual de Florestas (2010).
NOTA: Pronaf-Eco - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar-ECO; UC - Unidades de Conservação.
(1) Além da pontuação do Primeiro Critério, consideram-se, tanto para as propostas individuais como para as coletivas, por propriedade ou
posse, os pontos obtidos no Segundo Critério.

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Revitalização de nascentes para produção de água 39

c) compensação pela utilização dos e) propriedades ou posses vinculadas de comando-controle, já pode ser consi-
recursos naturais; a políticas públicas destinadas à derada um grande avanço na gestão dos
juventude rural (2); recursos naturais do País.
d) convênios celebrados pelo Poder
f) propriedades ou posses vinculadas Os sistemas de PSA poderão ser
Executivo com agências de bacias
a projetos de reassentamento ou amplamente utilizados em sintonia com
hidrográficas ou entidades a estas
assentamento rural (3). os instrumentos de gestão e manejo de
equiparadas e com órgãos e enti-
dades da União e dos Municípios; Enquanto isso, critérios ambientais recursos hídricos de forma que garan-
de extrema relevância para a prestação tam a utilização sustentável das bacias
e) doações, contribuições ou legados hidrográficas, bem como a qualidade e a
de serviços ambientais receberam bai-
de pessoas físicas e jurídicas, pú- quantidade desse recurso, fundamental à
xa pontuação e não possuem grande
blicas ou privadas, nacionais ou sobrevivência humana.
expressividade na somatória total dos
estrangeiras;
pontos. A exemplo disso destacam-se
AGRADECIMENTO
f) dotações de recursos de outras os critérios:
origens. Aos produtores rurais, participantes
a) propriedades ou posses nas quais não
do Projeto Agente Ambiental do Insti-
Segundo dados do Instituto Estadual de haja uso de agrotóxico (01);
tuto Xopotó, que motivam a pesquisa e
Florestas (2011), o orçamento para 2011, b) propriedades que utilizam controles
os sistemas de Pagamento por Serviços
do Bolsa Verde, é de R$ 8,5 milhões. Cada biológicos ou agroecológicos (03);
Ambientais (PSA). Ao Instituto Xopotó,
proprietário receberá R$ 200,00 por ano c) propriedades que utilizam sistemas ao CNPq e à Fapemig, pelo apoio às pes-
para cada hectare coberto com vegetação de produção agroecológica ou sis-
quisas desenvolvidas pelo Departamento
nativa. temas de produção integrada (03);
de Engenharia Florestal da UFV.
d) propriedades ou posses que utilizam
Análise crítica ao Programa
práticas de conservação do solo e da REFERÊNCIAS
Bolsa Verde
água e da fauna (02).
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS. Manual
O conjunto de critérios adotados pelo
Entende-se que estes critérios deve- operativo do Programa Produtor de Água.
comitê executivo do Bolsa Verde leva em Brasília, 2008. 58p.
riam ser mais bem pontuados, pois exer-
consideração muitos fatores sociais, que
cem grande influência sobre a qualidade APUCARANA. Lei no 58, de 18 de março
apresentam grande peso na somatória total
e a quantidade dos serviços ambientais de 2009. Dispõe sobre a criação no Mu-
dos pontos. A exemplo disso destacam-se
prestados. nicípio de Apucarana, do “Projeto Oásis”,
os seguintes critérios com as respectivas
autoriza o Executivo Municipal a prestar
pontuações: CONSIDERAÇÕES FINAIS apoio técnico e financeiro aos proprietá-
a) propriedades ou posses objeto de rios rurais, conforme especifica e dá outras
A implementação de programas de
aplicação de financiamento na linha providências. Apucarana, PR: Câmara Mu-
PSA constitui um esforço positivo para
nicipal, 2009. Disponível em: <http://sapl.
de conservação ambiental ou agro- obter incentivos adequados àqueles que cma.pr.gov.br/sapl_documentos/norma_
ecológica, a exemplo do Programa mantêm uma relação sustentável com os juridica/5265_texto_integral>. Acesso em:
Nacional de Fortalecimento da recursos naturais. Esta forma de valo- 15 fev. 2011.
Agricultura Familiar-Eco (Pronaf-
rização do homem e do meio ambiente
Eco) (3); ASQUITH, N.; WUNDER, S. Payments for
pode proporcionar resultados mais har-
watershed services: the Bellagio conversa-
b) a propriedade está vinculada a pro- moniosos, tanto para os provedores desses tions. Santa Cruz de la Sierra, Bolívia: Fun-
jetos públicos de inclusão social no serviços, quanto para os usuários, refle- dación Natura, 2008.
campo, devidamente comprovadas tindo em benefícios sociais, ambientais
pela instituição pública responsável BORN, R. H.; TALOCCHI, S. Compensa-
e econômicos.
pelo projeto (3); Apesar das iniciativas apresentadas
ções por Serviços Ambientais: sustenta-
bilidade ambiental com inclusão social.
c) propriedades ou posses que parti- anteriormente estarem muitas vezes
In: ______; ______. (Org.). Proteção do
cipam de projetos associativos de distantes dos sistemas ideais de PSA, capital social e ecológico: por meio de
produção (5); pode-se concluir que a simples adoção Compensações por Serviços Ambientais
d) propriedades ou posses pertencentes de políticas públicas de incentivo à con- (CSA). São Paulo: Vitae Civilis, 2002.
a Povos Tradicionais (3); servação, em substituição às políticas p.27-45.

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40 Revitalização de nascentes para produção de água

BRASIL. Lei no 9.433, de 8 de janeiro de Pagamento por Serviços Ambientais na para a concessão de incentivo financei-
1997. Institui a Política Nacional de Re- floresta Amazônica brasileira. Ambiente ro a proprietários e posseiros rurais, sob
cursos Hídricos, cria o Sistema Nacional & Sociedade, Campinas, v.12, n.2, p.223- a denominação de Bolsa Verde, de que
de Gerenciamento de Recursos Hídricos, 239. jul./dez. 2009. trata a Lei n o 17.727, de 13 de agosto de
regulamenta o inciso XIX do art. 21 da 2008. Minas Gerais, Belo Horizonte, 6
FUNDAÇÃO O BOTICÁRIO DE PROTEÇÃO
Constituição Federal, e altera o art. 1o da
À NATUREZA. Projeto Oásis: água boa para jun. 2009.
Lei no 8.001, de 13 de março de 1990, que
São Paulo. São Paulo, [2009]. Disponível em:
modificou a Lei no 7.990, de 28 de dezem- ______. Lei no 14.309, de 19 de junho de
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1997. Gerais, Belo Horizonte, 20 de jun. 2002.
2011.
______. Lei n 9.785, de 29 de janeiro de
o
______. Lei no 17.727, de 13 de agosto de
FURLAN, M. A função promocional do di-
1999. Altera o Decreto-Lei no 3.365, de 2008. Dispõe sobre a concessão de incen-
reito no panorama das mudanças climáti-
junho de 1941 (desapropriação por uti-
cas: a idéia de pagamentos por serviços am- tivo financeiro a proprietários e posseiros
lidade pública) e as Leis nos 6.015, de 31
bientais e o princípio do protetor recebedor. rurais, sob a denominação de Bolsa Verde,
de dezembro de 1973 (registros públicos)
2008. 292p. Tese (Doutorado) – Pontifícia para os fins que especifica, e altera as Leis
e 6.766, de 19 de dezembro de 1979 (par-
Universidade Católica de São Paulo, São no 13.199, de 29 de janeiro de 1999, que
celamento do solo urbano). Diário Oficial
Paulo. dispõe sobre a Política Estadual de Recur-
[da] República Federativa do Brasil, Bra-
sília, 1 fev. 1999. INSTITUTO ESTADUAL DE FLORESTAS. sos Hídricos, e 14.309, de 19 de junho de
Bolsa Verde: manual de princípios, crité- 2002, que dispõe sobre as políticas flores-
EMBRAPA SOLOS. Mundo mirim: vamos
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pírito Santo - FUNDÁGUA. Diário Oficial
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2008a. 2002.
nho de 2010. Regulamenta a Lei no 13.798,
______. Lei no 8.995, de 22 de setembro de KITAMURA, P.C. Valoração de serviços de 9 de novembro de 2009, que dispõe so-
2008. Institui o Programa de Pagamento por ambientais em sistemas agroflorestais: bre a Política Estadual de Mudanças Cli-
Serviços Ambientais - PSA e dá outras pro- métodos, problemas e perspectivas. Jagua- máticas. Diário oficial [do] Estado de São
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42 Revitalização de nascentes para produção de água

Sistemas Agroflorestais como prática de manejo


em bacias hidrográficas
Lucas Machado Pontes 1
Eduardo de Sá Mendonça 2
Lucas Teixeira Ferrari 3
Joana Junqueira Carneiro 4
Adriellem Lídia Marta Soares da Silva 5
Irene Maria Cardoso 6

Resumo - A busca por uma agricultura sustentável, que consiga alta produtividade
e seja ao mesmo tempo socialmente justa e ecologicamente correta, aponta para a ne-
cessidade de práticas agrícolas que garantam a produtividade dos agroecossistemas
sustentada ao longo do tempo. Para isto, é necessária a retomada dos conhecimentos
tradicionais amparados por estudos científicos. Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) apre-
sentam-se como alternativa tecnológica promissora nesse processo e importantes para o
manejo de bacias hidrográficas e recuperação de áreas degradadas. Há vários resultados
de pesquisa científica que apontam os SAFs como produtivos e potencializadores de
importantes serviços ambientais nos agroecossistemas.

Palavras-chave: Sistema Silvipastoril. Sistema Agroflorestal. Sustentabilidade ambiental.


Serviços ambientais. Recuperação de área degradada. Manejo de água. Bacia hidrográfica.

INTRODUÇÃO e consequente perda de biodiversidade, exaurindo a capacidade produtiva dessas


bem como problemas de ordens sociais, terras em poucas décadas. Com a substi-
Monocultivos combinados com o
sobretudo para as famílias agricultoras tuição da cobertura florestal por pastagens,
uso de herbicidas, pesticidas, adubos
tradicionais (ALTIERI, 2005). em geral houve degradação rápida dos
químicos, espécies geneticamente modi-
ficadas e máquinas pesadas caracterizam Em muitas regiões tropicais, com a campos e a forragem tornou-se escassa,
a agricultura moderna convencional, que, agricultura moderna, as florestas foram expondo o solo à ação erosiva das chuvas
a partir do final do século 19, provocou retiradas extensivamente para obtenção de e à compactação causada pelos animais.
forte incremento nas produções agríco- madeira e carvão e para ceder lugar a ati- A degradação do solo altera negativa-
las, sobretudo nas culturas direcionadas vidades agropecuárias. Com a substituição mente a dinâmica da água. Por um lado, a
ao mercado externo. Ao mesmo tempo, da cobertura florestal por culturas como infiltração desta no solo, responsável por
esse sistema de produção gerou graves café, milho, feijão, mandioca e cana-de- abastecer os aquíferos que sustentam os
impactos ambientais como a poluição das açúcar, a fertilidade do solo foi reduzida rios na época da seca, diminui. Por outro,
águas, do ar e dos solos, perda expressiva drasticamente, em especial pela erosão e seu escoamento superficial, principal causa
de áreas cobertas com vegetação nativa pela exportação de nutrientes na colheita, da erosão, da perda de solos e de nutrientes,

1
Engo Ambiental, Bolsista FAPEMIG/UFV - Depto. Solos - Laboratório de Geoprocessamento, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio
eletrônico: lucasmachadopontes@hotmail.com
2
Engo Agro, Pós-Doc, Prof. Associado UFES - Depto. Produção Vegetal, Caixa Postal 16, CEP 29500-000 Alegre-ES. Correio eletrônico:
esmjplia@gmail.com
3
Engo Ambiental, Mestrando Solos e Nutrição de Plantas UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: lucasnouvais@yahoo.com.br
4
Enga Agra, Mestranda Solos e Nutrição de Plantas, UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: joana_ufv@yahoo.com.br
5
Enga Ambiental,, UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: adriellemsoares@gmail.com
6
Enga Agra, Ph.D. Ciência do Solo, Prof a Adj. UFV - Depto. Solos, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: irene@ufv.br

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Revitalização de nascentes para produção de água 43

de assoreamento e poluição dos cursos pelo uso de agrotóxicos. Com os problemas É denominado SAFs, a associação de
d’água, aumenta. Essas mudanças na di- ambientais e sociais, a agricultura moderna espécies florestais arbóreas com culturas
nâmica natural da água são as principais torna-se insustentável (LOPES, 2001). agrícolas ou forrageiras (Fig. 1 e 2). As
causas das enchentes, da diminuição da Ao contrário dos sistemas agrícolas culturas agrícolas podem ser anuais, como
vazão dos rios e da queda do nível da água modernos, os tradicionais desenvolveram- o milho, feijão, mandioca; perenes, como o
nos reservatórios e poços usados para as se por meio da experiência acumulada de café e pastagens, caracterizando um Sistema
mais diversas finalidades, inclusive para agricultores que utilizaram de criatividade, Silvipastoril (SSP).
o consumo animal e humano. de conhecimento empírico e de recursos Os SAFs estão sendo respaldados pela
Além dos problemas ambientais, os locais disponíveis, criando, muitas vezes, legislação nacional. A Resolução no 369, de
de ordem social, gerados pela agricultura sistemas de produção sustentáveis. Sugere- 28 de março de 2006 (CONAMA, 2006)
moderna nos trópicos, também não são se, assim, a retomada do conhecimento tra- dispõe sobre os casos excepcionais em que a
poucos. Os agricultores, com escassos re- dicional, agora amparado por metodologias vegetação das Áreas de Preservação Perma-
cursos financeiros ou com áreas de menor científicas participativas, que permitam a nente (APPs) pode sofrer intervenção. Um
capacidade de resposta aos pacotes tecno- integração das dimensões socioeconômicas desses casos excepcionais é o uso de SAFs,
lógicos da Revolução Verde, não foram e socioambientais, as quais podem contri- considerados como atividades de interesse
favorecidos por este tipo de agricultura. buir para a criação de sistemas agrícolas social, quando praticados pela agricultura
Muitos deles abandonaram suas terras e sustentáveis. Uma característica notável dos familiar não descaracterizando a ecologia
migraram para as cidades, onde causaram sistemas tradicionais é a alta diversidade local. Os SAFs estão previstos ainda como
inchaços, piorando sua qualidade de vida. de plantas, que os caracteriza como poli- técnica para recuperação de APPs e Reserva
Os que ficaram no campo enfrentam vários cultivos, como por exemplo, os Sistemas Legal (RL), por meio da Instrução Normati-
problemas, entre estes os ligados à saúde, Agroflorestais (SAFs) (ALTIERI, 2005). va no 5, de 8 de setembro de 2009 (BRASIL,

Kyvia Gregório Caon

Figura 1 - Sistemas Agroflorestais (SAFs) complexos (com café) e Silvipastoris (SSPs)

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44 Revitalização de nascentes para produção de água

no desenho, implantação e manejo dos SAFs,


sendo difícil, se não impossível, padronizar
um modelo ideal desse Sistema. Existem des-
de sistemas simples com apenas duas espécies
consorciadas (café com banana, pasto com
eucalipto), até sistemas bastante complexos,
com diversas espécies de plantas diferentes,
que ocupam estratos diversos e ciclos de
amadurecimento, colheita e corte diferentes,
os quais simulam uma floresta natural.
Os SAFs podem ser classificados em
relação à distribuição dos seus componentes
no espaço e no tempo. A distribuição espa-

Marcos Antonio Gomes


cial das espécies pode ser irregular (SAFs
azonais) ou em faixas, como num cultivo
em aléias, onde a produção agrícola e o
componente arbóreo são intercalados em
linhas, preferencialmente acompanhando
Figura 2 - Sistema Silvipastoril (SSP) com árvores nativas e braquiária as curvas de nível (SAFs zonais), e podem,
ainda, obedecer a uma distribuição de mo-
saicos (Fig. 3).
2009). Outros incentivos à adoção dos SAFs SISTEMAS AGROFLORESTAIS
A distribuição dos componentes no
vêm da Lei no 18.365, de 1 de setembro de
Nos SAFs, as formas de associação das tempo permite distinguir SAFs sequenciais,
2009 (MINAS GERAIS, 2009), que aper-
culturas agrícolas ou forrageiras são bastante onde a área de cultivo é manejada de modo
feiçoa a Lei Florestal de Minas Gerais ao
diversas e estão sujeitas às características de que permita o crescimento de espécies es-
estabelecer regras mais rigorosas para o uso
cada região e à concepção dos agricultores pontâneas por meio da regeneração natural,
de mata nativa na produção de carvão, bene-
ficiando, assim, produtores de madeira; essa
lei também prevê flexibilização para usos
consolidados em APP, permitindo a adoção
de práticas sustentáveis nessas áreas, bem
como na RL, além de ampliar os recursos
destinados ao Bolsa Verde, incentivo finan-
ceiro aos que recuperarem ou preservarem
parte de suas propriedades.
Neste artigo, será exposto como os
SAFs podem ser utilizados, enquanto prá-
tica de manejo em bacias hidrográficas que
permitam aliar a produção agrícola com
a preservação ambiental ou até mesmo a
recuperação de áreas degradadas, impor-
tantes para a saúde dos cursos d’água e
para o processo de recarga de aquíferos.
Serão apresentados resultados de algumas
experiências de agricultores familiares da
Kyvia Gregório Caon

Zona da Mata de Minas Gerais, os quais,


por meio da utilização de SAFs em suas
lavouras, estão conseguindo promover a
recuperação e/ou conservação dos recursos
hídricos que têm origem ou passam por
suas propriedades. Figura 3 - Círculos de bananeiras, típica distribuição em mosaicos

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Revitalização de nascentes para produção de água 45

que pode ser melhorada ou não, sendo, vando ainda mais seu estado de degradação integrem aspectos ecológicos e sociais à
em seguida, usada para plantações. Um (YOUNG, 1997). Em tais ambientes, os produção agrícola (CARDOSO et al., 2001).
exemplo é a sequência lavoura-capoeira- SAFs podem ajudar no controle do escoa- Atualmente, a agroecologia, uma disciplina
lavoura. Em SAFs simultâneos, onde os mento superficial e da erosão, na melhoria de científica, tem procurado criar as bases para
componentes agrícolas e arbóreos são pastagens e no suporte ao manejo de bacias os estudos de sistemas complexos, como
implantados simultaneamente, as plantas hidrográficas (CARDOSO et al., 2001). os SAFs.
ocuparão os diversos estratos da vegetação Além do caráter conservacionista, os
e terão diferentes ciclos de vida. Assim, SAFs visam uma produção contínua e diver- Agroecologia
aquelas que têm o papel de pioneiras criarão sificada, aumentando a produção e a renda A agroecologia é definida por Altieri
um ambiente adequado para as secundárias, do agricultor. Souza et al. (2010) compara- (2002) como uma forma de compreender a
transicionais e primárias (SILVA, 2006). ram sistemas de café convencional com sis- natureza dos agroecossistemas e os princípios
Embora o processo de desenho dos temas de café agroflorestal, concluindo que, do seu funcionamento, sendo então uma
sistemas seja objeto de debate, os méritos embora a produção do café seja menor na abordagem integradora dos conhecimentos
básicos de SAFs são amplamente aceitos. agrofloresta, o retorno econômico é maior, agronômicos, ecológicos e socioeconômicos.
A esses méritos são atribuídos valores em por causa do menor custo da produção e Vários autores indicam que a agroecologia
relação a duas propriedades principais: a maior oferta de produtos (Quadro 1). pressupõe a construção conjunta do co-
regeneração e a prevenção da degradação Por serem sistemas complexos e muito nhecimento (ALTIERI, 2002; ALTIERI;
do solo. Nesse sentido, a regeneração é o variáveis, com características específicas NICHOLLS, 2000; PRIMAVESI, 2008),
resultado da cobertura do solo e melhoria para cada região, os SAFs, necessariamen- em que os saberes científicos e populares
de sua fertilidade pela árvore. No entanto, te, devem ser pesquisados e desenvolvidos são colocados no mesmo patamar, de forma
fundamental é o potencial dos SAFs para com base em abordagens participativas que a se interagirem e dialogarem. Esse proces-
evitar a degradação do solo e contribuir
para o uso sustentável dos recursos naturais.
QUADRO 1 - Comparação da produção e rentabilidade econômica de um sistema conven-
Segundo Altieri (2005), os SAFs respei-
cional com um agroflorestal
tam os princípios básicos de um agroecos-
Indicadores Unidades Convencional Agroflorestal
sistema sustentável, quais sejam: a conser-
vação de recursos renováveis, a adaptação População do café Pés/ha 2.650 2.050

da cultura ao ambiente e a manutenção de Produtividade kg/pé 0,79 0,62


um alto nível de sustentabilidade da produ- Produtividade Sacos/ha 34,9 21,2
tividade. O planejamento desses agroecos- Preço R$/saco 120 120
sistemas requer duas funções fundamentais: Valor bruto R$/ha 4.187,00 2.542,00
Custos R$/ha 2.300,00 750,00
a) biodiversidade de microrganismos,
plantas e animais; Sobra do café R$/ha 1.887,00 1.792,00
Custos/Valor bruto % 54,93 29,50
b) ciclagem biológica de nutrientes.
População da agrofloresta R$ R$
Os SAFs são de grande potencial, parti- Mamão 150 pés - 112,5
cularmente para regiões densamente povo-
Banana 40 pés - 200
adas e montanhosas dos trópicos úmidos e
Graviola, carambola, urucum 15 pés - -
subúmidos. Os solos, nessas regiões, foram
Copaíba, caramué, jambo 24 pés - -
degradados principalmente por processos
Caqui, noz-pecã, fruta-do-conde 27 pés - -
erosivos, pela retirada de sua cobertura,
fato que ainda hoje é comum na agricultura Galego, taiti, mexerica, laranja 123 pés - 110

convencional. O desmatamento e a erosão Manga, goiaba, abacate, jaca 51 pés - 135


também reduzem o fluxo de base dos rios, Jabuticaba, pitanga, acerola 21 pés - -
em consequência da diminuição da taxa de Palmito, figo, ameixa 162 pés - 144
infiltração da água das chuvas no solo e do Boldo chileno, uva, pêssego 27 pés - -
assoreamento dos corpos d’água. Esses sin- Pau-brasil, ipê-roxo, uva do Japão,
51 pés - -
tomas, aliados à diminuição da produtivida- canela, ingá, cedro.
de para níveis que não são economicamente Subtotal - 701,50
viáveis, frequentemente contribuem para o Saldo do sistema R$/ha 1.887,00 2.493,50
abandono das terras pelos agricultores, agra- FONTE: Dados básicos: Souza et al. (2010).

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46 Revitalização de nascentes para produção de água

so propicia a geração de um conhecimento Nestes Sistemas, as árvores, especial- maiores importâncias da inclusão de com-
complexo, holístico, dinâmico e, portanto, mente pela multifuncionalidade que desem- ponentes arbóreos nos SAFs é o aumento
mais eficiente no desenho de agriculturas penham, favorecem muito a biodiversidade do aporte de material orgânico ao solo, com
sustentáveis (CARDOSO; FERRARI, 2006). associada. Esta é responsável por vários consequência na dinâmica da MO, chave
Ao invés de definir práticas alternativas serviços ambientais, como polinização, para a manutenção da qualidade do solo.
de agricultura, a agroecologia oferece me- melhoria da qualidade do solo e controle
todologia para o estudo e desenvolvimento de insetos indesejáveis, contribuindo, em Cobertura e matéria
de agroecossistemas, ao analisar fluxos de orgânica do solo
grande parte, para a resiliência (capacidade
nutrientes, energia e matéria e considerar de recuperar perturbações ambientais) do Folhas e galhos das árvores, que caem
os componentes bióticos dos sistemas sistema. Os serviços dos agroecossistemas naturalmente ou são podados, cobrem a
como os indicadores da fertilidade do solo, dependem da biodiversidade associada superfície do solo e reduzem, assim, sua
produtividade e proteção das culturas. No (PERFECTO; VANDERMEER, 2008). temperatura, o impacto das gotas de chuva
manejo e estudo dos sistemas agroecológi- Um serviço ambiental importante é o e a quantidade, a velocidade e a capacidade
cos consideram-se os valores funcionais da controle de pragas, pela variedade de meca- de transporte da água de escoamento super-
biodiversidade e hábitat, que quase sempre nismos biológicos. A diversidade de espécies ficial. Esta é uma das melhores maneiras de
foram perdidos no processo de domestica- encontradas nos SAFs ajuda a criar hábitats manter o teor de MO no solo sob cultivo
ção e industrialização. para os inimigos naturais das pragas, ao (MENDONÇA; LEITE; FRANCISCO
mesmo tempo em que serve como alternativa NETO, 2001).
Biodiversidade
de hospedagem a essas pragas, protegendo as O aumento dos teores da MO do solo
Na natureza, a maioria das espécies vive espécies mais suscetíveis ou mais valorizadas proporciona, primeiramente, a formação
em associação com outras espécies, necessi- economicamente. Essa estratégia minimiza de macroagregados e, com o tempo, a
tando dessa interação para seu desenvolvi- também as perdas em caso de ataques de melhoria de suas condições físicas, quí-
mento ótimo. Os agroecossistemas diversos, doenças e nematoides, já que dificulta a dis- micas e biológicas. Assim, podem ocorrer
incluindo os SAFs, apresentam, por causa da seminação de esporos infectados e cria áreas redução da acidez trocável e aumento da
alta diversidade de espécies, interações entre com microclimas diversos, desfavoráveis à capacidade de troca catiônica (CTC) e da
plantas cultivadas, animais e árvores as quais difusão de certas doenças (SILVA, 2006). ciclagem de nutrientes (principalmente N
resultam em benefícios que lhes permitem A diversificação das plantas em um agro- e P), contribuindo de forma benéfica para
promover sua própria fertilidade do solo, o ecossistema promove ainda o crescimento e o estabelecimento vegetal e manutenção de
controle de pragas e a alta produtividade. a manutenção da fauna e dos microrganis- espécies cultivadas.
A diversificação dos produtos agrícolas mos do solo, principais responsáveis pela A MO contribui para o aumento da esta-
minimiza o risco de perdas para o produtor, degradação da matéria orgânica (MO), dis- bilidade de agregados do solo, consequen-
uma vez que disponibiliza alternativas de ponibilização de nutrientes para as plantas e temente melhora a aeração, a drenagem e
renda com produtos secundários. Quando há a manutenção da fertilidade física e química a capacidade de retenção da solução do
grandes perdas em uma cultura, as demais do solo. Em ecossistemas tropicais, a fauna solo. Uma boa estrutura do solo é capaz
podem compensar essas perdas. do solo exerce papel fundamental na cicla- de prevenir a perda por erosão, ao permitir
A introdução de árvores nativas nos gem de nutrientes e na estruturação do solo. a percolação da água eficientemente ao
agroecossistemas, como nas lavouras e pas- Os microrganismos do solo são os principais longo do perfil.
tagens, contribui para a sua regeneração e cria componentes do sistema de decomposição Entre os atributos químicos do solo, a MO
corredores ecológicos entre uma mata e outra de MO, e os principais contribuintes para a representa um estoque de nutrientes disponí-
e, com isso, as chances de troca de informa- respiração do solo. Atuam como reguladores vel para mineralização que, anteriormente, se
ção genética entre as plantas e os animais. do ciclo de nutrientes e, consequentemente, apresentava imobilizado na biomassa vegetal,
Assim, os SAFs podem-se beneficiar dos da produção primária e do fluxo de energia. representando a ciclagem de nutrientes.
fragmentos e beneficiar os fragmentos con- O uso de plantas para adubação verde,
comitantemente. Isto porque, por um lado, a Ciclagem de nutrientes e
por exemplo, seja pelo aporte de MO no
matéria orgânica
manutenção de vegetação diversificada nos solo, seja pela fixação do nitrogênio por meio
SAFs, com espécies arbóreas, arbustivas e da associação entre leguminosas e bactérias Em ecossistemas naturais, a MO do solo
herbáceas (biodiversidade planejada) nativas, simbiônticas, permite reutilizar os estoques está em equilíbrio dinâmico entre as taxas de
contribui para a recomposição da vegetação de nutrientes do próprio solo, bem como dis- entrada de serapilheira e as taxas de decom-
florestal. Por outro lado, os fragmentos po- por de outros nutrientes necessários para as posição, promovendo liberação constante
dem funcionar como banco de sementes e culturas, diminuindo, assim, a dependência de todos os nutrientes, oriundos de resíduos
contribuir para o desenvolvimento dos SAFs. por insumos externos. Entretanto, uma das em diferentes estádios de decomposição. O
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Revitalização de nascentes para produção de água 47

sincronismo entre o ciclo de nutrientes e o Recuperação de nascentes econômicos associados a esse plantio. Seu
crescimento vegetal é quebrado na agricul- sucesso e desenvolvimento dependem,
Os SAFs apresentam grande potencial
tura convencional, onde a mineralização de essencialmente, da escolha adequada das
na recuperação e conservação das águas, ao
nutrientes em períodos sem cultivo leva à espécies, sua combinação e manejo.
diminuir os processos erosivos, favorecer
perda de nutrientes por lixiviação e volatili- Assim, o conhecimento das espécies usa-
a infiltração da água nos solos, aumentar a
zação (MYERS et al., 1994). A separação no das no SAF, seu ciclo de vida, porte, distribui-
biodiversidade e reduzir o uso de insumos
tempo da oferta e da demanda de nutrientes ção das raízes, produtos fornecidos, aceitação
químicos (SOUZA et al., 2010).
no solo leva à redução na eficiência do uso ou não de poda, perda das folhas, exigência
Alguns agricultores na Zona da Mata
dos nutrientes na plantação. O nitrogênio (N) mineira relataram ter recuperado nascentes
quanto à fertilidade e à água, sombreamento,
é o nutriente perdido com mais intensidade reprodução etc., tanto mais profundo quanto
em suas propriedades a partir da adoção de
na interrupção do sincronismo, visto que seu possível, é indispensável para o planejamento
SAFs em suas propriedades. O que conside-
excesso no solo é perdido por lixiviação, e condução desses agroecossistemas comple-
ram muito importante para isso é o cuidado
denitrificação ou volatilização da amônia. com o solo, realizado de diversas maneiras.
xos. Esse planejamento possibilita prever a
Plantas anuais têm menor capacidade de Nas pastagens, é importante controlar o
interação entre os indivíduos cultivados e
recuperar nutrientes do solo do que plantas saber como manejar cada um, de modo que o
número de cabeças de gado por hectare,
perenes, que possuem sistema radicular mais seu desenvolvimento seja ótimo, cumprindo,
para não provocar o pisoteio excessivo e a
desenvolvido. assim, sua função dentro do sistema.
compactação do solo e impedir que as cria-
Os SAFs evitam a interrupção do sincro- ções tenham acesso direto ao córrego. Nas Sistemas Silvipastoris
nismo mantendo culturas perenes chamadas lavouras de café, são práticas importantes:
de renovadoras de fertilidade, que recuperam A implantação e o manejo de SSPs de-
a) roçada das plantas espontâneas para
os nutrientes de horizontes profundos e so- pendem sobretudo do objetivo principal do
manter a cobertura do solo;
frem podas antes do próximo plantio agríco- produtor na adoção desse tipo de consórcio,
la, disponibilizando MO para mineralização b) plantio em nível; o qual pode ser: proporcionar maior confor-
e beneficiando a cultura agrícola anual. c) policultivo como forma de aumentar a to para os animais, melhorar as condições
Os SAFs proporcionam aporte de MO biodiversidade nos agroecossistemas. ambientais da bacia hidrográfica ou querer
de forma continuada e diversificada, por Os agricultores relatam que o plantio diversificar a produção sem aumentar a área
meio, principalmente, dos resíduos das de árvores e outras espécies vegetais, como explorada, tendo como principal fonte de
árvores (galhos, folhas, frutos, flores) e samambaiaçu, bananeira e conta de lágri- renda as árvores madeireiras ou frutíferas
renovação do sistema radicular. Algumas ma, em volta das nascentes, apresentam cultivadas juntas com a pastagem ou, ainda,
árvores fornecem resíduos que são mais resultados positivos na sua revitalização. ter o gado como produto principal.
fáceis de ser decompostos, como o fede- As experiências desses agricultores deixam A maneira mais simples de arborizar
goso (Senna macranthera), garantindo claro que, para a conservação da água, é uma pastagem é deixar algumas árvores,
nutrientes de rápida absorção pelas plantas. importante que o manejo dos agroecossis- quando for implantá-la, ou, o mais comum,
Outras, como o açoita-cavalo (Luehea temas seja feito de forma integrada, mesmo deixar brotar árvores nativas da região e pre-
grandiflora), o ingá (Inga subnuda) e o quando são utilizadas as APPs, os recursos servá-las, possibilitando o seu crescimento.
abacate (Persea americana), fornecem hídricos podem ser recuperados. Por fim, É interessante também inserir espécies
resíduos mais recalcitrantes, que vão per- essas experiências mostram que os agro- arbóreas não tóxicas, que contribuam para
manecer mais tempo no solo, protegendo-o ecossistemas podem prestar importantes a alimentação dos animais com seus frutos
da ação direta das chuvas e do sol. Para que serviços ambientais, quando manejados de e folhas. Os frutos não devem ser grandes,
o solo fique sadio, o ideal é que se tenha a forma correta, tais serviços deveriam ser maiores que 5 cm de diâmetro, para não
mistura desses tipos de resíduos garantida reconhecidos pela sociedade e governos causarem morte aos animais por obstrução
pela diversificação das espécies arbóreas (CARNEIRO; CARDOSO; MOREIRA, do esôfago (OLIVEIRA et al., 2003).
nos SAFs. Em um SAF misto, no qual são 2009; FERRARI et al., 2010). Quando a intenção é inserir culturas
introduzidas 100 árvores dessas espécies rentáveis na pastagem, alguns cuidados
citadas na mesma proporção, o aporte de IMPLANTAÇÃO E devem ser observados:
nutrientes seria da ordem de 65 kg/ha de MANEJO DOS SISTEMAS a) escolha das espécies: árvores de uso
N, 3,3 kg/ha de fósforo (P), 23 kg/ha de AGROFLORESTAIS
múltiplo, que produzam madeira ou
potássio (K), 38 kg/ha de cálcio (Ca) Sendo um investimento de médio e outros produtos, além de sombrea-
e 5 kg/ha de magnésio (Mg), além de longo prazo, um plantio agroflorestal deve mento, fixação de N e proteção do
outros nutrientes importantes para as ter todas as suas etapas bem planejadas, para solo são as mais indicadas e devem
plantas (DUARTE, 2008). se otimizarem os benefícios ecológicos e ser adotadas sempre que possível.
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48 Revitalização de nascentes para produção de água

Espécies como o ipê e o ingá-mirim ou divisórias da pastagem. Podem bem como as lavouras perenes em uso,
possuem características importantes substituir mourões para pregar ara- sobretudo o café, são áreas potenciais para
por não serem quebradas ou consu- me, utilizando espécies como a eri- a implantação de SAFs, com bons resulta-
midas pelo gado. Outras caracte- trina (Erythrina falcata) e crotalária dos produtivos, econômicos e ambientais.
rísticas são resistência das mudas (Crotalaria juncea). Alguns passos básicos para adotar os
ao sol intenso e baixa fertilidade Um cuidado importante para SAFs nesses ambientes, estão descritos a
do sistema, presentes em espécies qualquer tipo de SSP é impedir que as seguir.
como eucalipto, samaúma, mogno, copas das árvores se trespassem. Estas Para recuperar uma área degradada,
ingá, faveiro, teca, cedro e mulateiro devem apenas se tocar, sem se entre- devem-se usar estratégias que a própria
(OLIVEIRA et al., 2003); laçarem, sombreando demais e pre- natureza fornece. A principal é a sucessão
judicando a pastagem. Consegue-se biológica. Dois princípios observados no
b) formas de plantio: a maneira mais
isso com um espaçamento adequado ecossistema da Mata Atlântica podem ser
econômica de implantar SSPs é na
ocasião da limpeza do pasto. Devem- entre as árvores ou com poda seletiva; considerados essenciais para os SAFs em
clima tropical:
se identificar e deixar as espécies c) manejo: o manejo consiste, basica-
arbóreas desejáveis, espontâneas na mente, em facilitar o crescimento das a) alta biodiversidade: deve-se asse-
pastagem. Este procedimento tem a mudas, protegendo-as dos animais gurar alta diversidade de plantas no
vantagem de permitir implantar o até que tenham altura e diâmetro su- sistema agroflorestal;
sistema com o gado no pasto. Caso ficientes para não serem danificadas. b) sucessão: definida de forma simples
opte pela introdução de árvores na Outros cuidados são o coroamento, como um processo dinâmico na
pastagem, deve-se dar preferência adubação, podas e proteção contra natureza, composto basicamente
a espécies madeireiras de rápido pragas, que devem ser realizadas de três fases: pioneira, secundária e
crescimento e de valor de mercado. de modo a não prejudicar o gado e clímax, cada uma delas caracterizada
Neste caso, é necessário proteger as a pastagem. Quanto ao manejo da por diferentes composições de espé-
mudas com grades, para não serem forrageira, o mais adequado é roçar a cies e interações ecológicas (Fig. 4).
danificadas. Outra opção é arborizar pastagem para sua renovação e evitar Nos SAFs, devem-se reproduzir esses
o pasto no período de renovação da o fogo e a capina química ou manu- mecanismos da natureza de forma mais
pastagem, quando então o gado de- al. É importante também procurar rápida, de modo que mantenham uma alta ci-
verá ficar fora da área por um a três integrar a lavoura, o SSP e a criação clagem dos nutrientes e uma utilização ótima
anos, em outro piquete, até que as de animais, usando o esterco para do espaço, ou seja, ocupem cada espaço da
árvores atinjam alturas superiores beneficiar as plantas e os produtos superfície do solo e cada estrato com as plan-
a 1,5 m, estando então menos vul- vegetais para enriquecer a alimenta- tas desejadas. No início, priorizam-se as pio-
neráveis a danos provocados pelos ção dos animais. neiras, com grande diversidade e densidade de
animais (OLIVEIRA et al., 2003). espécies, de forma que cubram rapidamente o
Os desenhos mais comuns na Agrofloresta e recuperação solo e garantam níveis altos de biomassa, para
de áreas degradadas aumentar a ciclagem de nutrientes. A seguir,
arborização de pastagens são: em
linha, no sentido leste-oeste nas áre- Não é possível criar receitas fixas para inicia-se o sistema de podas:
as planas, para aumentar a radiação instalar e manejar uma parcela de SAFs, a) drástica, para renovação das espécies
solar sobre o capim e acompanhando cada agricultor deve observar seu entorno, pioneiras antes de sua fase de matu-
as curvas de nível em terrenos decli- entender como funciona a natureza local e ração, assegurando sua regeneração;
vosos; plantio de pequenos bosques, tornar-se seu cocriador. b) desbastes seletivos, para eliminar
aglomerados de árvores distribuídos A observação do comportamento das espécies pioneiras já em fase de
na pastagem, indicados para sistemas culturas em relação a cada espécie de árvore, maturação.
em que a cultura principal são as sua escolha, seu espaçamento, a posição do As espécies pioneiras são aquelas de
árvores, já que não há crescimento terreno em relação ao sol, a disponibilidade ciclo curto, um ano ou menos. As legu-
de grama dentro do sistema; plantio de mudas e sementes e a qualidade do solo minosas são ótimas plantas pioneiras e
disperso, distribuição ao acaso, sem são os principais pontos a ser observados. regeneradoras do solo. Também podem
espaçamento definido, o qual benefi- Por serem comuns na paisagem de Mi- ser usadas plantas de cultivo anual como o
cia o gado e as condições ambientais nas Gerais e ocuparem áreas importantes milho, feijão, mandioca, arroz, com o mes-
da pastagem; cercas ou mourões para a recarga dos aquíferos nas bacias hi- mo espaçamento usado para monocultivo.
vivos, com árvores plantadas ao drográficas do Estado, as terras degradadas Dessa forma, como a abordagem pro-
longo de divisas da propriedade por pastagem ou lavouras abandonadas, posta é cobrir o solo o mais rápido possível,
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Revitalização de nascentes para produção de água 49

Kyvia Gregório Caon


Figura 4 - Esquema da sucessão biológica ao longo do tempo em uma área em recuperação

a densidade de plantas é alta e, inicialmente, espécies arbóreas introduzidas são com- semelhantes ou por sombreamento. Nesses
são priorizadas as espécies pioneiras. As patíveis com a cultura principal. No caso casos, podem-se retirar os indivíduos que
espécies secundárias e primárias podem do café, que tolera bem o sombreamento, estejam causando prejuízos, diminuir o
ser introduzidas juntamente com as pionei- devem ser adotadas espécies com raízes número de espécies introduzidas ou podar
ras, com sementes, e, no caso de espécies profundas e, preferencialmente, que percam as árvores, favorecendo a cultura-chave.
mais resistentes, com mudas. As sementes as folhas na época seca do ano, assim não
das secundárias e primárias normalmente haverá competição por nutrientes e água e o Seleção das espécies
apresentam dormência que só é quebrada manejo será facilitado pela perda das folhas,
Identificar espécies com funções e ni-
quando o ambiente está equilibrado e pro- deixando passar maior luminosidade, para
chos ecológicos distintos pode minimizar
pício para seu brotamento. Portanto, sua melhorar a maturação dos grãos de café na
a competição interespecífica por recursos
dispersão junto às espécies pioneiras não época da colheita.
do ambiente, permitindo um menor espa-
costuma prejudicar o seu estabelecimento, As árvores podem ser inseridas por
çamento entre as espécies e uma maior
assim que o sistema estiver pronto. mudas, sementes, estacas ou mesmo pela
biodiversidade (GOTSCH, 1995).
Outra maneira de introduzir espécies regeneração natural. Devem ser plantadas
Segundo agricultores experimentado-
de ciclo mais longo é, após a parcela ter nos espaços entre as linhas da cultura-chave
res, deve-se optar por espécies arbóreas
atingido certo grau de maturidade quanto e nas divisas da propriedade ou entre uma
com facilidade de aquisição de mudas. Por
à altura das plantas e ciclagem eficiente de cultura e outra.
nutrientes pelo aporte de material orgânico Por ser um sistema dinâmico e comple- isso, a preferência por espécies árboreas
das plantas pioneiras, plantar mudas de xo, a contínua avaliação do processo e sua espontâneas (por exemplo, o papagaio e
espécies economicamente interessantes evolução são imprescindíveis. Deve haver a capoeira-branca), pois neste caso não há
ou observar as árvores que possam nascer mudanças no manejo sempre que ocorrer necessidade de plantio, apenas de manejo
espontaneamente no terreno, por causa do indicações de que algo não está dando de tais espécies.
banco de sementes do solo ou trazidas pela certo, como uma incompatibilidade entre Espécies adaptadas para o ambiente, as
fauna local, que já deve estar sendo atraída as espécies. Observam-se as reações da quais requerem pouca manutenção e rápida
pela capoeira que se forma. cultura principal, que se mantém saudável produção, como leguminosas fixadoras de
Nas lavouras perenes já estabelecidas, a e com bom crescimento, caso contrário, as nitrogênio, árvores frutíferas e madeireiras,
sucessão deverá ser dirigida pelo produtor, espécies introduzidas e a principal podem são as mais indicadas para formação de SAFs
sendo de suma importância observar se as competir entre si por sistemas radiculares (Quadro 2).
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QUADRO 2 - Espécies arbóreas usadas em Sistemas Agroflorestais (SAFs), estrato que ocupam e produtos fornecidos (continua)
Nome popular Nome científico Estrato Usos

Abacate Persea sp. Alto Alimentação (frutos)

Açoita cavalo Luehea speciosa Médio Melífera

Ameixa Eriobotrya japonica Baixo Alimentação (frutos)

Amora Morus alba Baixo Alimentação (frutos)

Angelim Andira sp. Alto Madeira

Angico Annadenanthera peregrina Alto Recuperação de áreas degradadas

Araçá Psidium araça Baixo Alimentação (frutos)

Araticum Rollinia silvatica Baixo Alimentação (frutos)

Aroeira Miracroduon urundeuva Médio Madeira, frutos

Astrapéia Dombeya wallichii Médio Melífera

Banana Musa sp. Baixo Alimentação (frutos)

Bico de pato Machaeriun nictitans Médio Recuperação de áreas degradadas

Braúna Melanoxylum brauna Alto Madeira

Brauninha Dictyoloma vandellianum Baixo Melífera

Breu ou guapuruvu Schizolobium parahyba Alto Recuperação de áreas degradadas

Calabura Muntingia calabura Médio Melífera

Caleandra Calliandra calothyrsus Baixo Alimentação animal, adubação verde

Cambará, Assa-peixe Vernonia polyanthes Médio Adubação verde, melífera

Camboatá Cupania sp. Médio Melífera

Candeia Vanillosmopsis erythropapa Médio Madeira

Canela Machaeriun sp. Médio Madeira

Canudo de pito Mabea fistulifera Baixo Recuperação de áreas degradadas

Capixigui Croton floribundus Médio Madeira, melífera

Capoeira branca Solanum argenteum Baixo Recuperação de áreas degradadas

Caqui Diospyrus kaki Médio Alimentação (frutos)

Caroba Jacaranda micrantha Médio Madeira

Caroba Jacaranda sp. Médio Madeira

Castanha mineira Bombax sp. Médio Recuperação de áreas degradadas

Cedro Cedrela fissilis Alto Madeira nobre

Cinco folhas Sparatosperma sp. Médio Recuperação de áreas degradadas

Coco Cocus nucifera Alto Alimentação (frutos)

Coco babão Syagrus romanzofianum Alto Alimentação (frutos)

Cotieira Joanesia princeps Médio Recuperação de áreas degradadas

Crindiúva Trema micrantha Baixo Recuperação de áreas degradadas

Embaúba Cecropia hololeuca Alto Recuperação de áreas degradadas

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(conclusão)

Nome popular Nome científico Estrato Usos

Eucalipto Eucalyptus sp. Alto Madeira

Fedegoso Senna macranthera Baixo Melífera

Garapa Apuleia leiocarpa Médio Recuperação de áreas degradadas

Goiaba Psidium guajava Baixo Alimentação (frutos)

Graviola Annona muricata Médio Alimentação (frutos)

Guatambu Aspidosperma polyneurum Médio Madeira


Ingá Inga vera Alto Alimentação (frutos), adubação verde

Ipê Tabebuia sp. Médio Leguminosa

Jaca Artocarpus integrifolia Médio Alimentação (frutos)

Jacarandá caviúna Dalbergia nigra Médio Melífera

Jacarandá mimoso Jacarandá sp. Médio Madeira

Jacaré Piptadenia gonocantha Alto Madeira, melífera

Jatobá Hymeneae courbaril Alto Alimentação (frutos)

Laranja Citrus sinensis Baixo Alimentação (frutos)

Limão Citrus sp. Baixo Alimentação (frutos)

Lixia Litchi sinensis Médio Alimentação (frutos)

Lobeira Solanum lycocarpum Baixo Recuperação de áreas degradadas

Mamão Carica papaya Baixo Alimentação (frutos)

Maminha de porca Zantoxylumrhoifolium Baixo Recuperação de áreas degradadas

Manga Mangifera indica Médio Alimentação (frutos)

Maria-preta Vitex sp. Baixo Recuperação de áreas degradadas

Mexerica Citrus sp. Baixo Alimentação (frutos)

Mulungu Erythrina sp. Baixo Paisagismo, melífera

Orelha de nego Enterolobium contortisiliquum Alto Madeira, melífera

Palmito Euterpe edulis Alto Alimentação (frutos e palmito)

Papagaio Aegiphila sellowiana Baixo Recuperação de áreas degradadas

Pau pereira Aspidosperma sp. Médio Madeira

Pera Pirus communis Baixo Alimentação (frutos)

Pêssego Prunus persica Baixo Alimentação (frutos)

Pitanga Eugenia pitanga Baixo Alimentação (frutos)

Pupunha Bactris gaesipaes Médio Alimentação (frutos e palmito)

Quaresminha Miconia cinnamomifolia Médio Madeira

Toona Toona ciliata Alto Madeira

Umbu Spondias sp. Baixo Alimentação (frutos)

Urucum Bixa orellana Baixo Alimentação (frutos)

FONTE: Dados básicos: Souza et al. (2010).


NOTA: Considerando estrato: baixo - até 10 m.; médio - 11 a 20 m.; alto - maior que 20 m de altura.

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52 Revitalização de nascentes para produção de água

Espaçamento c) usar árvores que perdem as folhas no ambientais a estes associados permitem prote-
período seco do ano (caducifólia ou ger e recuperar áreas vitais para o processo de
O número de árvores e a distância entre
subcaducifólia). Assim, não será neces- recarga dos aquíferos e manutenção dos cursos
estas dependem da localização da lavoura.
sário podar as árvores para entrar luz. d’água, sendo promissores para recuperar
Lugares quentes e com maior incidência
Para plantios simultâneos, em que todas nascentes e bacias hidrográficas degradadas
solar podem ter mais árvores por hectare.
as espécies serão introduzidas ao mesmo pela agropecuária convencional.
Algumas indicações-chave dadas por
tempo, a indicação é que se trabalhe com Entretanto, os SAFs exigem planeja-
agricultores experimentadores, quanto ao
o espaçamento de cada planta, individual- mento e conhecimento prévio das espécies
espaçamento das árvores dentro de uma
mente, ou seja, uma planta que comumente utilizadas, para que a implantação e o
lavoura são:
manejo desse sistema proporcionem cres-
é plantada com um espaçamento de 2 x 2 m,
a) as copas das árvores não podem tres- cimento ótimo das plantas, alta produtivi-
continuará com este espaçamento dentro
passar. A copa de uma árvore pode dade, independência de insumos externos
do SAF, com outras espécies de plantas nos
apenas tocar na copa de outra. Se as e manutenção da capacidade produtiva da
intervalos, conforme ilustrado na Figura 5.
copas se entrelaçam é preciso podar terra ao longo do tempo, objetivos princi-
ou tirar rama das árvores; pais dos SAFs.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
b) as saias das árvores (terço inferior da A mão de obra é outro ponto importante
copa) devem ser podadas. A copa da Os SAFs são uma alternativa viável para nos SAFs, uma vez que deve conhecer as es-
árvore tem que ficar alta para circular se aliarem produção agrícola economicamente pécies e ter habilidade técnica para manejar o
ar e entrar a luz do sol na lavoura; rentável e preservação ambiental. Os serviços sistema de modo que se conduza harmoniosa-

( ) milho: 50 x 50 cm

( ) batata-doce: 50 x 50 cm

( ) inhame: 1 x 1 m

( ) guandu: 1 x 1 m

( ) mandioca: 1 x 1 m

( ) banana: 3 x 4 m

( ) amora: 3 x 3 m

( ) Palmito Juçara: 3 x 3 m

( ) Árvores frutíferas: 3 x 3 m

( ) Árvores madeireiras: 4 x 10 m
Kyvia Gregório Caon

0,5 m

Figura 5 - Croqui para implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) complexos

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Revitalização de nascentes para produção de água 53

mente o crescimento das plantas, diminuindo interação entre ONG, universidade e orga- MINAS GERAIS. Lei no 18.365, de 1 de
a competição interespecífica, para otimizar a nizações de agricultores. Revista Agricul- setembro de 2009. Altera a Lei no 14.309, de
turas: experiências em agroecologia, Rio de 19 de junho de 2002, que dispõe sobre as
sucessão biológica, a produção de biomassa
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Planejamento estratégico de propriedades rurais para a


conservação dos recursos naturais
João Luiz Lani 1
Marcos Antonio Gomes 2
Eufran Ferreira do Amaral 3
Rita Maria de Souza 4
Rodrigo de Almeida Silva 5
Antônio de Pádua Alvarenga 6

Resumo - Para o planejamento de uma propriedade rural alguns fatores devem ser
considerados extremamente importantes e decisivos para alcançar o sucesso, como tipo
de solo, relevo, vegetação, recursos hídricos, aspectos socioeconômicos e demanda de
mercado. O produtor rural, ao definir o uso do solo, geralmente baseia-se no instinto,
na demanda do mercado ou na utilização anterior, sem o devido planejamento e/ou
assistência técnica. Isto tem como consequência a degradação ambiental com o aumento
dos processos erosivos, empobrecimento do solo, diminuição da vazão dos mananciais,
assoreamento, redução da qualidade da água etc., inclusive infringindo leis ambientais.
Para que a propriedade seja produtiva, dentro da visão de desenvolvimento sustentá-
vel, é necessário, antes de tudo, o planejamento, ou seja, conhecer o potencial da pro-
priedade, suas características ambientais, tendo o solo como elemento estratificador de
ambientes, dando-lhe o uso mais adequado. Com esse planejamento, pode-se definir
previamente os objetivos e buscar os melhores meios ou recursos para atingi-los, dentro
da realidade financeira e de acordo com as tendências do mercado. Para que o planeja-
mento seja eficiente algumas etapas devem ser realizadas, como: escolha das atividades,
diagnóstico, missão, vantagens competitivas, projetos e gestão.

Palavras-chave: Recurso hídrico. Bacia hidrográfica. Desenvolvimento sustentável. Con-


servação do solo. Conservação da água. Degradação ambiental.

INTRODUÇÃO patíveis com o tamanho da área. A in- têm apresentado variações acentuadas
compatibilidade do uso com as variáveis nas vazões com o decorrer dos tempos. É
Uma das principais limitações no pro-
existentes (solo, declividade, clima etc.) é comum, na atualidade, a notícia de córre-
cesso de gerenciamento de propriedades responsável pela degradação dos recursos gos e rios com baixas vazões ou secos, no
rurais é a ausência de um planejamento naturais dentro das bacias hidrográficas, período de estiagem, e cheias ou enchentes,
pautado em informações temáticas com- principalmente dos recursos hídricos, que nos períodos de chuva.

1
Eng o Agr o , D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Prof. UFV - Depto. Solos, CEP 36570-000 Viçosa, MG. Correio eletrônico: lani@ufv.br
2
Eng o Florestal, D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Pesq. Visitante EPAMIG Zona da Mata/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 216, CEP 36570-000
Viçosa-MG. Correio eletrônico: marcos.gomes@ufv.br
3
Eng o Agr o , D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Pesq. EMBRAPA Acre, Caixa Postal 321, CEP 69908-970 Rio Branco-AC. Correio eletrônico:
eufran@cpafac.embrapa.br
4
Graduanda Tecnologia e Gestão Ambiental UNIVIÇOSA - Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde, CEP 36570-000 Viçosa-MG Correio
eletrônico: rsouza136@hotmail.com
5
Graduando Tecnologia e Gestão Ambiental UNIVIÇOSA - Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio
eletrônico: eg42681@yahoo.com.br
6
Engo Agro, D.S., Pesq. EPAMIG Zona da Mata/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 216, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: padua@epamig.ufv.br

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No processo de tomada de decisões, ajudando-os a atuar de forma pró-ativa, Escolha das atividades
o produtor é levado pelo instinto e pelas antecipando às mudanças que ocorrem.
Para iniciar o planejamento, deve-se,
possibilidades, que são facilmente per- Em resumo, planejar significa projetar
primeiro, saber qual o objetivo a alcançar
ceptíveis: como a linha de produção do um trabalho, serviço ou empreendimento,
e conhecer todas as tendências globais para
vizinho, o produto que está tendo maior determinando previamente seus objetivos
definir, muito claramente, em quais ativida-
demanda no mercado, os insumos que ou metas, buscando os melhores meios ou
des atuar. A definição da propriedade deve
eram comprados pelo proprietário ante- recursos para atingi-los.
ser feita com base nas características que
rior, o manejo tradicionalmente usado etc. No contexto deste trabalho, pode-se de-
viabilizem e potencializem o desenvolvi-
Porém, para se entender todas as variáveis finir como planejamento o ato de conhecer
mento das atividades planejadas.
diretamente ligadas ao processo produtivo as características ambientais da proprieda-
dentro de uma propriedade rural, é neces- de, tomando o solo como elemento estrati- Diagnóstico
sário conhecer uma infinidade de fatores e ficador de ambientes, dando-lhe o uso mais
condições e a interdependência entre estes. O segundo passo do planejamento é
adequado. Assim, o planejamento estraté-
estabelecer um diagnóstico completo da
No caso de uma propriedade rural, gico é um instrumento eficaz de modelar o
estão envolvidos fatores como clima, propriedade, ou seja:
futuro, possibilitando o desenvolvimento
solo, vegetação, aspecto socioeconômico a) realizar um levantamento planialti-
organizacional integrado da propriedade
da região, mercado, tendências, clientes, métrico, identificando os principais
rural com vistas à revitalização das nascen-
produtos, patrimônio, capital intelectual usos da terra, declividades e as cons-
tes. Este planejamento precisa estar dentro
truções existentes, a fim de facilitar
e outros. da realidade financeira e das aspirações do
o planejamento posterior;
A realização de um empreendimento empresário e de acordo com as tendências
sem um planejamento prévio e constante- do mercado. A seguir serão citadas algu- b) identificar as classes de solos exis-
mente atualizado está com sério risco de mas tendências atuais do agronegócio, no tentes, análises físicas e químicas
fracasso, uma vez que os caminhos para Brasil e no mundo: produtos orgânicos, dos solos, as tipologias florestais
atingir os objetivos finais nem sempre são alimentos diets, ecoturismo, turismo rural, e as áreas de interesse específico –
os mais eficazes, fazendo com que se tenha hidroponia, apicultura, pecuária de corte, Áreas de Preservação Permanente
que mudar sempre de estratégia e rever os conservação do solo, preservação da água, (APPs), áreas degradadas, nascentes
métodos de execução. dentre outras. e mananciais hídricos superficiais
Dessa forma, o planejamento estratégi- Para fazer um planejamento estratégico etc. –, que contribuam para o desen-
co é a base do conhecimento e do geren- eficiente, o produtor deve ter em mente seis volvimento das atividades futuras;
ciamento eficiente de propriedades rurais, fases sequenciais e concatenadas (Fig. 1). c) fazer uma prospecção mineral ex-
uma vez que permite a definição de metas
de produção, a partir da base de conheci-
mento integral da propriedade, evidencian-
ESCOLHA DAS ATIVIDADES DIAGNÓSTICO
do os pontos positivos e negativos desta,
bem como os meios de gerenciá-los. Ou
seja, é necessário conhecer o potencial da
propriedade, para melhor utilizá-la dentro
do caráter de sustentabilidade, fator que re-
flete diretamente nas bacias hidrográficas,
com ênfase na revitalização e conservação
dos recursos hídricos. MISSÃO GESTÃO

PASSOS DO PLANEJAMENTO
ESTRATÉGICO
Planejar é o primeiro passo para o
sucesso de um trabalho. Por meio desse
planejamento é que se estabelecem os
parâmetros que vão direcionar o controle PROJETO VANTAGENS COMPETITIVAS
das atividades, fornecendo ao gestor e à
equipe uma ferramenta que os municie Figura 1 - Interação entre as diversas fases do planejamento estratégico
de informações para a tomada de decisão, FONTE: Lani et al. (2008).

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pedita, para avaliar a necessidade o mais detalhado possível, para viabilizar O resultado do levantamento planialti-
de uma pesquisa de subsolo, para uma implantação rápida e fiel ao planeja- métrico permite visualizar todas as infor-
análise de uma exploração comer- mento. Os projetos de cada unidade pro- mações temáticas com precisão, incluindo
cial; dutiva e o de infraestrutura vão constituir o perímetro da área, a área total, as divisas,
d) realizar análise de qualidade das o projeto geral para o empreendimento. os confrontantes, as edificações, os usos e
águas na propriedade, de forma que as curvas de nível, que podem variar desde
Gestão a distância, de meio em meio metro, até
avalie a existência de água mineral
e a potabilidade desta para consumo O sistema organizacional e administra- curvas espaçadas de 50 em 50 m, depen-
interno, consuntivo ou não consun- tivo é estruturado paralelo à implantação dendo da intensidade de amostragem no
tivo. da infraestrutura. É definido a partir do campo e dos objetivos do empreendimento.
desenvolvimento dos setores, do pessoal e As curvas de nível permitem a identi-
Missão das bases comerciais que devem estar asso- ficação das elevações, depressões e áreas
ciados à gestão da informação. A empresa planas e constituem a base cartográfica
A missão da empresa rural é definida no para análise dos diferentes ambientes da
deve concentrar o seu foco na atuação, em
terceiro passo do planejamento estratégico. propriedade.
apenas uma ou, no máximo, duas ativi-
A missão é que define o núcleo central do A partir do levantamento topográfico,
dades principais. Ao aumentar o número
empreendimento e norteia as atividades e de atividades, há uma divisão natural de o proprietário tem a real dimensão do seu
as direciona, de qualquer lugar, a qualquer esforços que pode criar uma condição de imóvel e passa a conhecer os seus verda-
tempo, em qualquer situação, para atingir diminuição da capacidade produtiva, que deiros limites, o que será daí por diante o
os objetivos já definidos. A missão deve vai acarretar numa diminuição de compe- seu objetivo de planejamento. Entretanto,
ser clara e sintetizar tudo aquilo que se tência e de sustentabilidade. o levantamento topográfico convencional
pretende com a sua empresa rural. tem suas limitações. Quando se trata de
LEVANTAMENTO DAS grandes áreas, acima de 300 ha, ou de
Vantagens competitivas
CARACTERÍSTICAS DA ÁREA áreas de difícil penetração e abertura de
No quarto passo, o produtor deve rea- picadas nas matas pelos técnicos e auxi-
lizar uma análise criteriosa para identificar Levantamento topográfico liares, o melhor é trabalhar outro tipo de
as vantagens que sua empresa rural possui levantamento, que permita uma visão geral
O levantamento topográfico permite
e as desvantagens que eventualmente possa da área, com muito detalhe, como é o caso
uma caracterização da distribuição das
apresentar. do levantamento aerofotográfico.
áreas dentro do imóvel e da materialização
O produtor deve criar cenários que
de seus limites. Este levantamento é feito Levantamento
enfatizem as vantagens existentes e ter
condições materiais e pessoais para desen-
por engenheiros agrimensores, topógrafos aerofotográfico
e outros profissionais da área de engenha-
volver as vantagens que ainda não possui, O levantamento aerofotográfico é indica-
ria, os quais utilizam como ferramentas
além de minimizar as desvantagens que do para propriedades maiores de 300 ha, que
principais o teodolito, Global Positioning
possui. Para conseguir este objetivo, é permitem a geração de mapas temáticos
System (GPS) topográfico e estações grá-
necessário que o produtor pesquise as ten- em escalas de muitos detalhes, como, por
ficas computadorizadas.
dências atuais do mercado e conheça outras exemplo, 1:10.000 e 1:5.000. Pode também
O uso do teodolito objetiva obter ângu-
empresas que estejam atuando na mesma ser realizado em propriedades pequenas,
los e distâncias precisas, para materializar o
área já definida para a sua empresa, a fim perímetro do imóvel e quantificar as áreas que exigem maior detalhamento temático
de melhorar os processos já existentes ou de interesse. Ao associar o nível ao teodo- e precisão das medidas, e em propriedades
até mesmo criar outros processos. lito, pode-se construir um mapa planialti- onde há dificuldades de deslocamento dos
métrico que permite visualizar as curvas técnicos para um levantamento topográfico
Projetos
de nível obtidas a partir das diferenças de tradicional, como no caso de propriedades
Para elaborar os projetos de execução, nível no terreno levantado. na região Amazônica. Esse levantamento
no quinto passo, o produtor necessita de De posse dos dados de campo e utili- aerofotográfico deve ser realizado por uma
todas as informações de sua propriedade zando programas específicos de topografia, equipe especializada e multidisciplinar.
e do contexto socioeconômico regional. são produzidos mapas, em escala adequada Nesse levantamento, o avião executa
Com todas as informações disponíveis, ao empreendimento e aos seus objetivos, linhas de voo, quando são produzidas
elaboram-se os projetos de infraestrutura de forma que visualize a propriedade como várias fotos em cada linha, de toda a
geral e de cada unidade necessária ao um todo ou enfatize uma determinada área área da propriedade. As fotografias são
empreendimento. Os projetos devem ser de interesse. rasterizadas (escaneadas) e tratadas com
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Revitalização de nascentes para produção de água 57

programas de computador, para melhorar o vo, aptidão agrícola, vegetação (Fig. 2) etc. e) relatórios de impacto ambiental –
contraste e colocá-las numa mesma escala. Visualizam-se, também, a rede de drena- Estudo de Impacto Ambiental/Re-
Para cada linha de voo, as fotos são unidas, gem, a rede hidrográfica e a infraestrutura latório de Impacto Ambiental (EIA/
formando um mosaico. Todas as fotos que existente na propriedade, além das áreas RIMA) – e controle da poluição;
constituem estas linhas são agregadas, até instáveis. f) avaliação dos recursos naturais e
formar um mosaico final, com precisão Este material é um auxiliar técnico de planejamento de sub-bacias hidro-
menor do que 1 m. Isto significa ser melhor primeira ordem para os mais variados tipos gráficas;
que muitas imagens de satélite disponíveis de planejamento. São muitas as vantagens
g) delimitação de áreas-piloto para
na atualidade. de ter uma visão tridimensional aérea
estudos especiais, dentre outras.
Com todos os dados de campo e as vertical, o que permite estudar áreas para
aerofotos rasterizadas, utiliza-se um pro- as mais diversas finalidades, como, por Com o levantamento aerofotográfico
grama de tratamento de imagens e faz-se exemplo: tem-se em mãos uma ferramenta de análise
o georreferenciamento, que é a associação e interpretação do ambiente, uma vez que se
a) planejamento de uso e ocupação de
das coordenadas geográficas de campo com propriedades rurais;
tem uma visão tridimensional da proprieda-
as fotografias, tornando-as um mapa base. de e a possibilidade de ter análises individu-
b) estudos para definição e implantação
Esse mosaico, denominado semicontrola- alizadas, como, por exemplo, distribuição
de barragens e represas;
do, em função dos pontos de controle, é a de determinada espécie florestal, frentes de
base para confeccionar os diversos mapas c) levantamentos de solos; erosão etc., que não podem ser trabalhadas
temáticos, como: uso da terra, limites, rele- d) avaliação de aptidão agrícola; em outras escalas de menor detalhe.

42o52’20”W 42o52’10”W 42o52’0”W 42o51’50”W

Mapa de Uso Atual do Solo da


20o47’10”S
20o47’10”S Microbacia dos Araújos
Viçosa-MG

20o47’20”S
20o47’20”S

Legenda

Estradas
Represas e curso d’água
Área agrícola
20o47’30”S
Área construída
20o47’30”S
Capoeira
Eucalipto
Floresta Tropical Subperenifólia
Pastagem
Várzea

20o47’40”S
20o47’40”S

1:6.000
0 65 130 260 390 520
Metros

42o52’20”W 42o52’10”W 42o52’0”W 42o51’50”W

Figura 2 - Mapa da bacia hidrográfica dos Araújos com a delimitação do uso atual do solo - Viçosa, MG
FONTE: Gomes (2004).

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Modelo Digital de Elevação permite uma visualização geral do imóvel, atmosfera e hidrosfera. É, de certa forma,
com possibilidade de individualização de um fenômeno de superfície e, como tal,
O relevo é composto por cinco atributos
áreas específicas como os vales, topos, variável a pequenas distâncias. O solo
principais, que são: altitude, declividade,
áreas íngremes e outras feições do relevo. exige estudo detalhado para ser mais bem
comprimento, forma e orientação dos topos
O modelo digital do terreno é a repre- compreendido em suas funções dentro das
de morro, encostas e vales. A integração
sentação, em ambiente de computador, das ecorregiões e como sinalizador das pro-
dessas variáveis condiciona os padrões
formas do terreno da propriedade (Fig. 3). priedades e limitações dos ecossistemas.
de escoamento da água sobre a superfície,
Assim, o produtor pode decidir mais acerta- Possui horizontes ou camadas relativamen-
que, por sua vez, pode alterá-los por meio
damente onde vai intervir de maneira inten- te homogêneas, paralelas à superfície. Os
de processos erosivos, caracterizando um
siva, onde deve prioritariamente preservar. horizontes são, em si mesmo, ambientes
processo cíclico. distintos. O horizonte A, além de ser mais
Além disso pode fazer previsão da área a
O relevo tem papel fundamental na ser inundada, quando da construção de uma influenciado pela atividade biológica, sofre
regulação da distribuição do fluxo de água forma de barragem, inclusive, planejando maiores flutuações de temperatura e de
e energia dentro e entre as bacias hidro- o tamanho do talude, etc. água, apesar de ser, em geral, mais rico em
gráficas, e sua representação gráfica em nutrientes, com frequência, não tem água
ambiente digital e materializada por meio Levantamento dos para que esses nutrientes sejam absorvidos
dos Modelos Digitais de Elevação (MDEs). ambientes e características efetivamente. Os primeiros centímetros
Para produzir um MDE, é aplicado do solo
do horizonte A podem ser, em algumas
um modelo temático sobre os dados dos Atualmente, os agricultores experientes circunstâncias, a parte mais inóspita do
levantamentos planialtimétricos existen- fazem estimativas sobre a produtividade solo para as plantas. Acima do horizonte
tes, rede de drenagem e pontos coletados de suas diferentes terras, com base em A, podem-se acumular detritos orgânicos,
irregularmente sobre o terreno, que vão determinados aspectos mais facilmente com diferentes graus de decomposição.
gerar uma rede triangular irregular, conhe- identificáveis para não especialistas, como As informações para a identificação
cida como Triangulated Irregular Network a cor do solo, textura, topografia e presença das classes de solos estão sintetizadas no
(TIN), uma estrutura de dados vetoriais de indicadores de fertilidade e/ou degrada- Quadro 1. Com o auxílio destes critérios
que permite a geração de uma superfície ção do solo. (propriedades diagnósticas), define-se a
digital contínua. O mapa gerado é o modelo O solo é como se fosse a pele do planeta chave para identificação das classes de
digital de elevação da propriedade, o qual Terra. É a interseção da litosfera, biosfera, solos de alto nível categórico (Fig. 4).

Figura 3 - Modelo Digital de Elevação (MDE) com sobreposição de um mosaico de aerofotos verticais de parte de uma proprie-
dade rural
FONTE: Lani et al. (2008).

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Revitalização de nascentes para produção de água 59

QUADRO 1 - Critérios usados nas chaves simplificadas de identificação das classes de solos brasileiros, com comentários de interesse biológico
(continua)
Código Descrição
(1) HO (Horizonte hístico). Altos teores de matéria orgânica (MO). Ocorre em solos encharcados; pode, dependendo de
como é drenado, rebaixar e pegar fogo.
(2) f (Horizonte plíntico). Cores variegadas ou com mosqueados vermelhos, que indicam redução e oxidação do
F. Os mosqueados podem endurecer, formando nódulos ou concreções. Nestas, pode haver concentração de
elementos-traço, principalmente quando ricas também em manganês e fósforo (FONTES et al., 1985).

(3) Bw (Horizonte B latossólico). Profundo, em geral poroso, mesmo quando muito argiloso, pobre em nutrientes. Muito
espaço para penetração de raízes e de água. A presença de gibbsita (indicada por valores baixos de Ki, critério
(20), quando Ki = 0,75% gibbsita = % caulinita), mesmo em pequenas quantidades, favorece essa estrutura
esponjosa (pó-de-café). Aqueles com pouca gibbsita, como os Latossolos Amarelos (Área Costeira e Amazônica:
Ki > 1,5 e % Fe2O3 < 7%) e os Latossolos Brunos (Áreas Subtropicais: Ki > 1,5 e % Fe2O3 variável, indo até
> 25%), têm estrutura mais compacta quando secos.

(4) Bt (B textural). É bem mais argiloso do que o horizonte suprajacente A. É menos espesso e tem, em geral, maior teor
de minerais ricos em nutrientes do que o Bw. As raízes e a água, mesmo sem camadas impeditivas declaradas,
têm certa dificuldade de penetração.

(5) ≤ 2,5YR (cores tão ou mais vermelhas que 2,5YR 5/4). Solos bem vermelhos, Rhodic. Isso indica: presença de hematita
com altos teores de ferro, se o clima for muito úmido; teores altos ou intermediários de ferro, se o pedoclima for
seco ou parcialmente seco, por alguns meses; hematita herdada da rocha original (arenitos e pelitos vermelhos),
e, por isso, mais resistente, se teores de ferro forem muito baixos. Em quaisquer dos casos indica boa drenagem.

(6) Em (altos teores de esmectita). Argila que se expande e se contrai com extrema facilidade, o solo apresenta-se com
grandes fraturas, quando seco, rompendo raízes e acelerando perda de água. Moléculas orgânicas alojam-se entre
as camadas expandidas, acentuando a cor escura.

(7) Ta (argila de atividade alta). Material do solo tem expansão-contração acentuada, porém menos do que esmectita. As
raízes podem ser amassadas e têm dificuldades em penetrar no interior dos blocos (torrões naturais, em destaque,
quando o solo seca). A infiltração de água é reduzida no solo umedecido (expandido), mas pode ser muito alta
pelas fraturas nas primeiras chuvas. A água que se infiltra arrasta partículas da superfície (MO, nutrientes,
sementes); as raízes, que crescem nessas fraturas, onde há mais troca gasosa, mesmo depois do solo úmido, ficam
num microssítio enriquecido, principalmente em fósforo, um elemento privilegiado biologicamente na absorção
e, por isso, muito ligado à parte orgânica. Atividade de argila ≥ 27 cmolC/kg define Ta.
(8) Fe > 11% (teor de Fe2O3 > 11% e < 18%, dado pelo ataque sulfúrico). Indica teores bastante elevados de goethita nos solos
amarelados e goethita e hematita nos vermelhos. Esses são os dois principais adsorventes ferruginosos de ânions.

(9) Fe > 18% (teor de Fe2O3 > 18%, dado pelo ataque sulfúrico). Solos com esses teores bastante elevados de ferro são
originados, geralmente, de rochas máficas e ferríferas. Solos originados das máficas são ricos em elementos-traço
e fósforo total. Alguns solos originados de formações ferríferas e até calcários dolomíticos associados a estas,
formando um ambiente inóspito para as plantas, apresentam quase ausência de silicatos. A disponibilidade de
fósforo pode ser muito baixa, dada por sua forte interação com goethita e hematita.
(10) Bi (horizonte B incipiente). Não tem gradiente textural significativo, isto é, o teor de argila não é muito maior do
que aquele do horizonte suprajacente; nisto difere do Bt, e parece com o Bw, do qual difere por uma das quatro
razões seguintes: a) ter minerais ricos em nutrientes; b) ter argila Ta; c) apresentar evidência de rocha e/ou
estrutura da rocha; e d) ter pequena espessura (< 50 cm).
(11) Cor viva (solo mais bem drenado que imperfeitamente drenado. Pode existir mosqueado, mas não gleizamento na parte
inferior do horizonte B.

(12) Fe > 7% (teor de Fe2O3 > 7%, dado pelo ataque sulfúrico). Teor baixo, mas não muito baixo, de Fe2O3 com as implicações
já vistas nos critérios (8) e (9).

(13) STA (subtropical de altitude). Os solos desses ambientes, no Brasil, tendem a ser ácidos, álicos, com teores substanciais
de vermiculita cloritizada (vermiculita com hidróxido de alumínio entrecamadas); os solos fraturam-se quando
secos, têm permeabilidade restringida mesmo quando classificados como Latossolos (critério (3)).

(14) Máficas (rochas máficas). A influência da rocha máfica é inferida a partir dos teores elevados de Fe2O3 e TiO2; no campo
ocorre elevada suscetibilidade magnética, principalmente em solos vermelhos.

(15) Glei (horizonte glei). Indica ausência dos pigmentos ferruginosos, goethita e hematita. O ferro foi reduzido; se o solo
é encharcado permanentemente pode existir grande quantidade de ferro reduzido (Fe2+); se não, houve remoção
quase completa e o material de origem era pobre em ferro e, frequentemente, em fósforo, elementos-traço etc.

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60 Revitalização de nascentes para produção de água

(continuação)

Código Descrição
(16) B plânico (horizonte B plânico). Tipo especial de horizonte Bt (critério (4)), apresentando uma transição muito pronunciada
no teor de argila entre os horizontes A ou E e B. As raízes e água frequentemente têm dificuldade em penetrar
no horizonte B; se a camada suprajacente arenosa for bastante espessa pode-se formar um ambiente favorável;
se pouco espessa, ambiente desfavorável.
(17) 5YR 4/6,8 (cores tão ou mais vermelhas que 5YR 4/6 ou 4/8). As mesmas considerações feitas no critério (5).

(18) A chernozêmico (horizonte A chernozêmico). Tem altos teores de bases, principalmente cálcio. Está associado a regiões com
estresse hídrico acentuado e, geralmente, com rochas ricas em cálcio, como calcário, basalto etc. Representa, de
certa forma, uma otimização do processo de precipitações insuficientes para lixiviar os nutrientes intensamente,
mas suficientes para permitir considerável adição de MO ao solo. Associado tipicamente às Pradarias e Estepes.
No Brasil ocorre sob floresta; em particular Caducifólia e Subcaducifólia.
(19) Va (saturação por bases alta). Lixiviação reduzida; intemperização acentuadamente maior do que a lixiviação. Nos
solos com baixa capacidade de troca e ausência de minerais ricos em nutrientes, a absorção e a ciclagem de
nutrientes das camadas não muito profundas suplantaram a lixiviação.

(20) Ki > 1,5 (relação molecular SiO2/Al2O3, dada pelo ataque sulfúrico, > 1,5). A caulinita tem Ki = 2,00; as argilas Ta têm Ki
maior, até cerca de 5. Quanto mais intemperizado o solo, menor o Ki.

(21) AmodAfraco (Horizontes A moderado e A fraco). O horizonte A fraco é típico de regiões mais secas, apresenta-se frequentemente
encrostado à superfície, sofre um intenso processo de erosão laminar. Assim, além da relação produção/
decomposição não favorecer o acúmulo de MO, a remoção pela erosão reduz seu teor. O horizonte A moderado
é o mais comum nos solos não hidromórficos brasileiros, sendo moderadamente espesso, apresentando teores
médios de MO.
(22) j (horizonte sulfúrico). Ocorre em alguns solos dos mangues; há formação de ácido sulfúrico com a exposição ao
ar, abaixando muito o pH. Indica um ambiente que deve ser mantido como reserva, embora em alguns países
(Guiné-Bissau e Holanda) sejam muito importantes agricolamente.

(23) Na% > 15% (saturação por sódio, relação 100Na/T > 15%). Define caráter sódico. O sódio dispersa as argilas, dando uma
estrutura compacta, dificultando em grau extremo a penetração de água e raízes. O pH muito elevado, pH > 8,4,
dificulta também a absorção de vários nutrientes.

(24) TBE (topo do B escuro). Feição típica de alguns solos subtropicais de altitude do Brasil.

(25) FeTi (teores de Fe2O3 > 15% e TiO2 > 1,5%, dados pelo ataque sulfúrico). Identifica solos com Bt, originados de rochas
máficas, com todas as implicações em termos de teor de fósforo total, elementos-traço etc.

(26) Prof >50 (profundidade > 50 cm até rocha fresca, contato lítico ou rocha semialterada, contato litoide). Essa característica
distingue dois grandes ambientes no que se refere, principalmente, ao armazenamento de água e penetração de
raízes.

(27) B nítico (horizonte B nítico). Textura argilosa ou muito argilosa, sem ou com pouco incremento de argila do horizonte A
para B, no que difere do horizonte Bt (critério (4)). Em outras características assemelha-se ao horizonte Bt.

(28) Na% > 6% (saturação por sódio, relação 100Na/T > 6% e < 15%). Mesmo tendo de 6% a 15% de saturação por sódio, esse
ambiente já é problemático, quanto às dificuldades indicadas anteriormente no critério (23).

(29) FeArg (teor de Fe2O3 > 3,75 + 0,062 x % argila). Expressão para ajustar teor de Fe2O3 ao teor de argila.

(30) KK (horizonte cálcico e material carbonático). Indicam ambientes de pouca precipitação, lixiviação reduzida,
deficiência d’água e de acumulação de CaCO3.

(31) Unif (camadas uniformes). Sem estratificação pronunciada até, pelo menos, 200 cm.

(32) z (acúmulo de sais). Indica ambiente com deficiência de drenagem, déficit hídrico e acúmulo de sais.

(33) MPFI (minerais primários facilmente intemperizáveis). Minerais ricos em nutrientes. A liberação desses nutrientes
é mais rápida nas regiões mais quentes; nas regiões de temperaturas menores, mas precipitação elevada, a
intemperização é mais lenta do que a lixiviação: o solo é ácido, poucas bases disponíveis, embora tendo muitos
minerais ricos em nutrientes.
(34) Cinza (ausência de pigmentos ferruginosos). Compostos orgânicos, ácidos fúlvicos, atravessam o perfil de material
arenoso e vão colorir as águas de cor escura (negra, à distância). É um material desferrificado, que indica pobreza
em fósforo e elementos-traço, efeito de lavagem. São muito pobres em nutrientes.

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Revitalização de nascentes para produção de água 61

(conclusão)
Código Descrição
(35) Rest (ambientes de restinga). Ambiente com substrato arenoso à beira-mar.

(36) Bhs (Horizonte espódico). Subsuperfície escura, indicando que houve movimentação de MO num perfil muito
arenoso; lixiviação intensa; pobreza acentuada de nutrientes.

(37) ≥ 7,5YR (cores 7,5YR ou menos vermelhas ou mais amarelas). Praticamente separa os solos que têm dos que não têm
hematita. No novo Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS) esse limite é 5YR.

(38) Pálido (cores mais amarelas que 7,5YR, valor ≥ 5 e croma ≤ 4). No novo SiBCS usam-se cores mais amarelas que
5YR. Indicam solos muito pobres em ferro e, em geral, em muitos outros nutrientes. Indicam áreas que estão ou
estiveram sob influência de lençol freático elevado.

FONTE: Resende (2002).

Como exemplo de leitura da Figura 4,


suponha um solo que apresente horizonte
Bw (3) e horizonte glei (15), seguindo a
chave: Não para (36) Bhs; Não para (4)
Bt; Não para (27) B nítico; Sim para (3)
Bw; Não para (2) f; Sim para (15) glei,
dando um solo da ordem Gleissolo. Uma
outra leitura: os Nitossolos têm atividade
de argila baixa (Tb), a saturação por bases
pode ser alta ou baixa e podem ter ou não
A chernozêmico, apresentam, embora não
seja exclusividade dessa classe, o horizonte
B nítico. Todas as classes podem ser identi-
ficadas de uma forma mais detalhada, sem
necessidade da chave simplificada, mas a
chave pode ajudar a ter uma visualização
da relação entre as classes.
A superfície terrestre é bastante hetero-
gênea. Sabe-se que varia no que se refere às
condições climáticas gerais, ou seja, preci-
pitação, temperatura, nebulosidade, ventos
e outras. Variam quanto às irregularidades
topográficas, ou seja, montanhas, vales,
planaltos, rios, escarpas, dunas e outros.
Varia quanto à cobertura vegetal e quanto
ao uso estabelecido pelo homem.
De forma geral, há variações que são
rapidamente perceptíveis, como a cor do
solo, a pedregosidade, o número de rios
e sua perenidade, altura do lençol freático
e risco de inundações, áreas encharcadas,
rocha subjacente e muito mais. Todas es-
Figura 4 - Chave simplificada de identificação das classes de solo de nível categórico
mais elevado (Ordem), do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS), sas informações diferenciam a superfície
da Embrapa em 1999. terrestre como um mosaico, sendo, no
FONTE: Resende (2002). entanto, a base para a diferenciação de
NOTA: Se o solo possui a propriedade diagnóstica identificada por um código e definida ambientes. O tipo de uso dado a um deter-
no Quadro 1, segue-se pela direita (SIM); caso contrário, para baixo (NÃO). minado ambiente está diretamente relacio-
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62 Revitalização de nascentes para produção de água

nado com suas características, incluindo o solo, os organismos e os aspectos socio- do solo, antes de decidir pelo seu uso, é
aquelas não visíveis diretamente, como econômicos podem ser analisados indivi- por meio da análise química. Com esta,
conteúdo de nutrientes, vulnerabilidade dualmente, como um vértice, por exemplo, é possível saber a quantidade de adubos
a processos erosivos, quantidade de água a Floresta Amazônica ou um determinado e de corretivos que deve ser usada para
disponível etc. tipo de solo. Ou numa interação com graus melhorar a qualidade da terra. As plantas
Para o agricultor, a exposição de um diferentes de aprofundamento: com dois precisam de nutrientes que, muitas vezes,
pequeno trato de terra, ou seja, soalheira, elementos, ao longo de uma aresta, exem- não são encontrados em quantidade sufi-
noruega e outros, pode ter importância plo - um Vertissolo em uma floresta aberta ciente no solo e devem ser repostos para
fundamental. Ao saber fazer a leitura do com bambu, com três elementos, corres- garantir uma produtividade satisfatória.
ambiente, conhecendo a frequência de pondente a uma face, como por exemplo A amostragem e a análise do solo, para
inundação das várzeas, observando nu- os Vertissolos sob precipitação elevada em avaliação de sua fertilidade, devem fazer
anças, tais como cor do solo, vegetação uma floresta aberta. Finalmente, pode-se parte do planejamento da instalação das
espontânea e outros, será possível estra- considerar o tetraedro como um todo, culturas agrícolas e/ou florestais. Servem
tificar os ambientes, o que vai refletir nas numa relação bem mais complexa, tridi- para garantir o balanço nutricional adequa-
estimativas de custo/benefício permitindo mensional, com os pequenos produtores do no solo e prevenir futuros problemas
tomar as decisões mais acertadas rurais vivendo num assentamento rural que nutricionais que podem facilitar o apare-
Em razão dessas inter-relações é que a apresenta o domínio dos Vertissolos e uma cimento de pragas e doenças. A partir da
natureza apresenta diferentes ambientes, cobertura vegetal original do tipo floresta avaliação da fertilidade do solo, aumenta-
mesmo em espaços curtos no terreno, aberta e sob uma precipitação média anual se a lucratividade, pois haverá um aumento
onde se pode perceber a presença de uma de 1.800 mm. da produção e da resistência da planta,
bromélia em cima de uma rocha e, ao lado, Os levantamentos de solos ou levan- diminuindo os gastos com inseticidas,
uma árvore frondosa. As condições de solo tamentos pedológicos geram informações herbicidas e fungicidas. Em consequência,
e clima influenciam diretamente na vege- que permitem avaliar a aptidão agrícola, haverá qualidade de vida, maior cobertura
tação atual, havendo uma estreita relação capacidade de uso e estimar a produtivi- do solo, menor escoamento superficial
entre esses dois componentes. Logo, a dade e definir o melhor uso das terras, a e menor impacto ambiental, inclusive,
natureza apresenta vários ambientes, para sua verdadeira vocação. O mapa de solos diminuindo a pressão sobre as áreas com
que se possa planejar melhor as atividades é, naturalmente, a representação mais deta- cobertura primária.
agrícolas e, assim, ter uma agricultura lhada do ambiente de um determinado país, O primeiro passo para proceder a uma
mais ecológica e, consequentemente, mais estado, município ou propriedade rural. amostragem é subdividir a área em unida-
equilibrada com a natureza. É muito importante fazer a avaliação e des homogêneas. Nessa subdivisão, devem
No tetraedro ecológico (Fig. 5), de- o monitoramento das condições de fertili- ser considerados aspectos tais como: tipo
senvolvido pelo prof. Mauro Resende, do dade da área a ser cultivada. A única forma de solo, topografia, vegetação e história da
Departamento de Solos da UFV, o clima, de conhecer os estoques de nutrientes utilização desse solo.
A área de cada amostra (composta)
varia desde 100 cm² (um vaso de flores) até
vários hectares. A homogeneidade é o fator
principal que determina a área abrangida
pela amostra. Em determinadas condições
de lavoura, uma amostra composta pode
representar 50 ha ou mais de área homogê-
nea. Nesse caso, o número de subamostras
deve ser aumentado para, no mínimo, 25.
É possível encontrar na literatura reco-
mendações específicas para determinadas
regiões. Entretanto, informações sobre o
número de coletas e a área de amostragem
podem ser encontradas em Embrapa (1995):
a) até 3 ha: 15 amostras simples/amos-
Figura 5 - Tetraedro ecológico
tras compostas;
FONTE: Resende (2002).
NOTA: Verificam-se nos vértices as inter-relações de alguns fatores como: o clima (plu- b) de 3 a 5 ha: 20 amostras simples/
viometria e temperatura); o solo, a vegetação e o homem (atividade humana). amostras compostas;

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Revitalização de nascentes para produção de água 63

c) de 5 a 10 ha: 24 amostras simples/ de 0-20 cm e 20-40 cm antes da implanta- d) conservar a fatia de solo sobre a pá,
amostras compostas. ção da cultura. Após esta, para avaliar as descartar as partes laterais e apro-
A adubação em linha de uma lavoura condições de fertilidade do solo, coletar veitar apenas a parte central (miolo),
dificulta muito a obtenção de uma amostra amostras à profundidade de 0-20 cm. que deverá ser colocada no balde de
representativa, pela criação de faixas de A técnica de amostragem, ao utilizar coleta;
alta fertilidade. Deve-se, portanto, evitar trado, deve ter as seguintes etapas: e) misturar bem toda a terra coletada
a coleta de amostras na linha de plantio, a) dividir a área da propriedade em na gleba e retirar, aproximadamente,
assim como em sulcos de erosão, locais glebas de 10 a 20 ha (ideal) homo- 0,5 kg de solo (amostra composta);
com material orgânico em decomposição, gêneas, quanto a fatores de solo, f) etiquetar adequadamente (interna e
em áreas maldrenadas e extremidades das vegetação e uso do solo. Dentre externamente) a amostra obtida, pre-
curvas de níveis, onde cai mais adubo e, essas características, podem-se encher o formulário de informações
consequentemente, há maior concentração destacar: cor do solo, profundidade, adicionais e encaminhar ambos ao
de nutrientes. topografia, manchas, tempo e tipo de laboratório.
Para determinar áreas com problemas uso, adubações, calagens, cobertura
Para fazer a avaliação da fertilidade do
de desenvolvimento de plantas, devem-se vegetal, etc.;
solo, o agricultor deve retirar a amostra de
coletar amostras compostas de solo e/ou b) percorrer cada gleba em zigue-zague terra que representa cada divisão da área.
tecidos dentro e fora da área problema. introduzindo o trado no solo (pro- O passo seguinte é realizar a análise labo-
Antes de descrever a metodologia fundidade conforme já descrito), ratorial que indicará os níveis de nutrientes
de coleta de solo para fins de análise de em 15-20 locais (ideal) diferentes, no solo, o que possibilita o desenvolvi-
fertilidade, faz-se necessário conhecer escolhidos ao acaso (amostras sim- mento de um programa de calagem, no
os materiais que podem ser utilizados na ples); caso de solos ácidos como os de Cerrado
amostragem. Os principais utensílios são: c) colocar o solo aderido ao trado em e de adubação. Se o produtor não tiver
a) trado holandês ou trado de rosca; recipientes limpos (baldes, sacos) e conhecimentos técnicos para interpretar os
homogeneizar bem; resultados do laboratório, deve buscar os
b) sonda ou vazador;
d) retirar aproximadamente 0,5 kg do serviços de um engenheiro agrônomo, que
c) pá reta ou até mesmo o enxadeco.
solo, devidamente misturado, o qual fará as recomendações de correção do solo.
As amostras de solo podem ser coleta- irá constituir a amostra composta; A análise do solo deve ser repetida em
das em qualquer época do ano, mas, consi- intervalos de um a três anos, dependendo
e) etiquetar a amostra obtida, preen-
derando que o transporte para o laboratório da intensidade da adubação, do número de
cher o formulário de informações
exige, em geral, uma semana ou mais, que culturas de ciclo curto ou consecutivas ou
adicionais e, em seguida, enviar
são necessárias duas semanas para analisá- do estádio de desenvolvimento de culturas
ambos para o laboratório.
las e que a remessa dos resultados ao perenes.
interessado exige o tempo de uma semana A coleta de solos para análise de fer-
As amostras podem ser enviadas por
ou mais, é aconselhável amostrar o solo tilidade pode ser também realizada com
correio, junto com todos os dados do pro-
um mês e meio ou dois, antes de efetuar a auxílio de enxadeco ou pá reta. A técnica
prietário. Os laboratórios demoram cerca
de amostragem, utilizando pá reta, deve
adubação. Em pastagens já estabelecidas, de dez dias úteis para entregar os resultados
obedecer às seguintes etapas.
deve-se proceder à amostragem dois a três e alguns oferecem interpretação dos resul-
meses antes do máximo crescimento vege- a) separar as glebas, percorrer em tados para a cultura que o produtor desejar.
tativo. Em culturas perenes, as amostras zigue-zague (ao acaso) e coletar 10
devem ser realizadas após a colheita. A a 15 amostras simples/gleba, eli- LEVANTAMENTO DOS
profundidade de amostragem para culturas, minando, no local a ser amostrado, RECURSOS NATURAIS
vegetação, restos culturais (folhas,
como trigo, arroz, feijão, milho, etc., deve Após ter toda a base cartográfica e de
ser aquela correspondente à camada arável, ramos, etc.) e pedras encontradas na
infraestrutura física, o próximo passo é rea-
ou seja, 17-20 cm. No caso de adubação superfície do solo;
lizar o levantamento dos recursos naturais.
superficial de culturas já estabelecidas, a b) cavar com a pá reta uma cova em Esta etapa abrange os estudos de distribui-
amostragem deve ser realizada a 10 cm de forma de cunha (inclinada), com ção da rede de drenagem na propriedade,
profundidade. 15-20 cm de profundidade; da cobertura vegetal, da geomorfologia,
Para culturas permanentes como sil- c) cortar com a pá uma fatia de 2,0- dos diversos tipos de solos e, se existirem
vicultura, heveicultura etc., as amostras 5,0 cm de espessura num dos lados na área, da ocorrência de minerais com
devem ser coletadas nas profundidades da cova; valor econômico.
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64 Revitalização de nascentes para produção de água

Hidrografia A análise da distribuição da vegetação a propriedade em unidades homogêneas de


pode ser realizada a partir de uma com- formas de relevo, como, por exemplo, áreas
As imagens da área, juntamente com
posição falsa de cor das aerofotos, com o de relevo plano, suave ondulado, ondulado,
o levantamento planialtimétrico, forne-
objetivo de diferenciar os vários tipos de forte ondulado, montanhoso e escarpado.
cem claramente a distribuição dos rios e
vegetação da propriedade, que deve ser
córregos. É possível identificar, também,
associada com uma checagem de campo. Solos
os canais e as rotas de escoamento de
águas pluviais e delimitar com precisão Na ausência dessa tecnologia, pode-se A partir da interpretação das aerofotos
as nascentes. Associado a este trabalho trabalhar com outros produtos de senso- verticais e do mapa planialtimétrico, será
temático, podem-se conseguir um levan- res remotos, associados com trabalhos de obtido o mapa preliminar de solos que
tamento de campo, informações sobre a campo e/ou inventários florestais, que per- servirá de base para as pesquisas de campo,
qualidade da água, sua vazão, existência de mitem indicar a diversidade de tipologias serão abertas picadas de penetração, trin-
quedas d’água etc., que serão importantes de vegetação existentes. cheiras e minitrincheiras, visando à carac-
na locação de estradas, zoneamento da terização morfológica e coleta de amostras
Geomorfologia
propriedade e identificação de potencial de solos para análises físicas e químicas,
para outras atividades. Para estratificar as diferentes unidades com a finalidade de caracterizar as classes
geomorfológicas no interior da propriedade de solos, assim como aferir as unidades de
Vegetação rural são utilizadas as aerofotos, o levan- mapeamento no mapa de solos. Na próxi-
O levantamento aerofotográfico, ima- tamento planialtimétrico e trabalhos de ma fase, é feita a reinterpretação do mapa
gens de satélite e os trabalhos de campo campo, que permitem a geração do mapa de solos e, posteriormente, a reinterpreta-
fornecem informações que possibilitam temático. As formas de terrenos devem ção das imagens de sensores, retificação e
avaliar a condição da vegetação original e ser estudadas a partir da interação desses confecção do mapa final de solos (Fig. 6),
sua distribuição na propriedade. dados temáticos, que permitem estratificar que é a base para as interpretações de uso.

42o52’20”W 42o52’10”W 42o52’0”W 42o51’50”W

20o47’10”S
20o47’10”S

Mapa dos Solos da


Microbacia dos Araújos
Viçosa-MG

20o47’20”S
20o47’20”S

Legenda

Estradas
Represas e curso d’água
20o47’30”S
20o47’30”S
Argissolo Vermelho
Cambissolo Háplico
Latossolo Vermelho/Vermelho-Amarelo

20o47’40”S
20o47’40”S

1:6.000
0 65 130 260 390 520
Metros

42o52’20”W 42o52’10”W 42o52’0”W 42o51’50”W

Figura 6 - Distribuição das unidades de solos em parte da microbacia dos Araújos - Viçosa, MG
FONTE: Gomes (2004).

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Revitalização de nascentes para produção de água 65

Da interpretação dos solos, relevo, clima animais de grande porte, dos currais, das para culturas de ciclo curto, de ciclo longo,
e outras características da propriedade é áreas de apoio, do escritório, da recepção, pastagens, zonas de preservação, zonas de
feito o mapa de aptidão agrícola. das casas de colonos, dos tanques, dos reflorestamento e outras. Para cada unidade
jardins, do sistema de comunicação e do de solo delineada na propriedade, devem
Minerais sistema de segurança. ser analisadas e estimadas as alterações
Com o mapa planialtimétrico, devem- relativas a nutrientes, água, oxigênio, ero-
Estrada são e possibilidade de mecanização, com
se percorrer todos os locais possíveis,
observando os índices superficiais da Com a infraestrutura física definida e a utilização de cada área. Assim, pode-se
ocorrência de minerais. As amostras devem locada, o produtor vai definir as estradas estabelecer a redução desses desvios com
ser recolhidas e as posições devem ser que interligarão as diversas unidades, manejos adequados.
georreferenciadas e plotadas num mapa- tanto administrativas, como de campo. As
Identificação de outras
base, para que se possa constatar, por meio estradas devem ser projetadas de forma
atividades
de análises laboratoriais, a viabilidade de que mantenham a circulação em toda a
uma exploração comercial, por meio de propriedade, em qualquer época do ano, A partir da análise de todos os levanta-
um especialista. permitam menor custo de manutenção, mentos e estudos realizados na propriedade
A exploração de pedras, de areia lavada sejam construídas evitando longos trechos é possível definir outras atividades com
para construção, de granito, de mármore, com declividades acentuadas, que favore- possibilidade de exploração comercial.
de caulim, de pedras preciosas e semipre- çam a formação de escoamento superficial Estas atividades podem ser diferentes
ciosas e vários outros minerais ocorre por com potencial erosivo acentuado e evitem daquela definida inicialmente. Em alguns
todo o território e muitas vezes passam cortes de estradas em locais com solos de casos, até a atividade principal pode ser
despercebidos pelos produtores rurais e/ baixa resistência física (Cambissolos). alterada em função de outros potenciais
ou empresários. São oportunidades que No projeto, devem ser previstos os mais importantes encontrados.
não são aproveitadas e deixam de gerar locais de implantação das caixas de capta-
recursos para empreendimentos por falta Gestão
ção de água, para retenção do escoamento
de uma observação mais atenta. superficial. O último passo é definir o sistema
Para garantir o uso efetivo, inclusive organizacional e administrativo, estabele-
de eventuais recursos minerais, o proprie- Zoneamento agroambiental cendo os setores, o número e o perfil dos
tário deve fazer reserva do subsolo junto O zoneamento deve ser elaborado a colaboradores, o custo global do empreen-
ao Ministério de Minas e Energia (MME), partir da definição dos sistemas ambientais, dimento, as bases comerciais e a projeção
para prospecção e estudo da viabilidade da onde são consideradas a estrutura, a com- do tempo de retorno do capital investido.
exploração comercial. posição e a dinâmica e as inter-relações de Logicamente, o mercado consumidor já
seus componentes, procurando sempre a foi profundamente estudado durante o
PLANEJAMENTO DE USO DA processo de planejamento, antes mesmo de
estabilidade e a dinâmica do sistema glo-
PROPRIEDADE adquirir a propriedade e, se esta já existe, é
bal. Mediante análise e compreensão dos
De posse de todos os estudos temáticos mecanismos das inter-relações de causas e preciso levantar as informações.
e dos mapas gerados, é possível fazer a efeitos dos elementos, ou seja, dos sistemas É importante lembrar que as empresas
estratificação de ambientes que é a base físicos, bióticos e antrópicos, e o enfoque que alcançam o sucesso planejam constan-
sobre a qual se assenta o planejamento holístico que propõe uma visão globalizan- temente os seus produtos, para atender à
estratégico da propriedade. te na interseção dos fatores e processos no parcela mais exigente do seu público-alvo.
O sucesso do empreendimento depende estabelecimento dos arranjos espaciais na Ressalte-se, também, que o empreendedor
desta etapa, pois a partir dela é que todas as forma de geossistemas (paisagens), que que planeja uma empresa, como tal, deve
decisões serão tomadas daqui para frente. representem uma homogeneidade natural ser preparado para crescer, para dar sua
O planejamento deve ser feito por pessoas dos fatores. contribuição à sociedade, gerar empregos,
e/ou técnicos que conheçam muito bem a Para elaborar o zoneamento agro- rendas e lucros.
atividade escolhida. ambiental são utilizadas, de maneira
CONSIDERAÇÕES FINAIS
integrada, as informações de solos, geo-
Infraestrutura
morfologia, hidrologia e, principalmente, O planejamento do uso da propriedade
Deve ser realizada toda a locação de es- o uso atual e a cobertura vegetal. Dessa rural é um trabalho importante a ser rea-
trutura de cada unidade produtiva necessá- forma, são identificadas as diversas zonas lizado no manejo de bacias hidrográficas,
ria à atividade estabelecida, como galpões e indicado o uso mais adequado para cada com vistas à revitalização e à conservação
de máquinas, instalações para criação de uma destas. Por exemplo: áreas indicadas dos mananciais hídricos. É a forma justa
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66 Revitalização de nascentes para produção de água

de produção de bens e serviços para a duas unidades de paisagem do planalto de


sociedade, colocando como ênfase a sus- Viçosa-MG. 1989. 114f. Tese (Mestrado) –
Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG.
tentabilidade e o bem-estar do homem do
campo e de sua família. CORRÊA, G.F. Modelo de evolução e mine-
ralogia da fração argila de solos do planal-
Fica evidente que, para planejar uma
to de Viçosa, MG. 1984. 87f. Tese (Mestrado
propriedade, é necessário, no primeiro em Solos e Nutrição de Plantas) – Universi-
momento, que o proprietário a conheça de dade Federal de Viçosa, Viçosa, MG.
forma integral, quais são os seus potenciais CURI, N. (Coord.). Vocabulário de ciência
e quais as suas restrições, e, a partir daí, do solo. Campinas: SBCS, 1997. 89p.
possa definir quais rumos deverá tomar e
EMBRAPA. Centro Nacional de Pesquisa de
como fazer de sua propriedade uma empre- Solos. Sistema Brasileiro de Classificação
sa rural, que aspira a um desenvolvimento de Solos. Brasília: Embrapa - Produção de
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Técnicas de manejo e conservação do solo para a


revitalização de nascentes
Marcos Antonio Gomes 1
Daniel Fernandes Novaes Pimenta 2
João Luiz Lani 3
Rita Maria de Souza 4
Antônio de Pádua Alvarenga 5

Resumo - Dentre os fatores responsáveis pela desregularização da vazão de água nas


últimas décadas, apontam-se o desmatamento, o uso inadequado do solo, o sobrepastejo
e a descapitalização do agricultor para adotar práticas adequadas de manejo de pasta-
gens e de culturas agrícolas. A atividade agrícola com ênfase na monocultura tem sido
fator de aceleração da degradação do solo, geralmente ultimada pelo sobrepastejo e uso
do fogo. Nessa fase, inicia-se o processo de degradação da estrutura do solo, processos
erosivos e o desequilíbrio do ciclo hidrológico. No contexto de um manejo integrado
e adequado de bacias hidrográficas com o intuito de reverter o quadro de redução de
vazão dos mananciais e a depreciação da qualidade de suas águas, torna-se necessária a
implantação de técnicas de manejo e conservação do solo com vistas a reter o escoamen-
to superficial, dando tempo para a água da chuva infiltrar e abastecer o lençol freático,
responsável pela manutenção dos córregos e rios.

Palavras-chave: Bacia hidrográfica. Conservação do solo. Recurso hídrico. Manancial.

INTRODUÇÃO às grandes propriedades rurais, onde os os ecossistemas como um todo. O reflexo


produtores desconhecem ou não aplicam os das ações antrópicas é percebido nas con-
Ao comparar dados passados com os atu-
cuidados necessários para que se produzam tínuas diminuição de vazão dos mananciais
ais a respeito da vazão de água em nascentes,
córregos ou rios, em geral, percebe-se clara- bens sem os riscos de desperdícios dos hídricos, no período de estiagem, e nas en-
mente a desregularização da vazão nas últi- recursos naturais. Os principais componen- chentes com frequência e volumes de água
mas décadas. Essas informações são regis- tes das bacias hidrográficas – solo, água, cada vez maiores nos períodos de chuva.
tradas visualmente, passadas muitas vezes vegetação e fauna – coexistem em perma- Dentre os fatores responsáveis por
por agricultores ou moradores ribeirinhos, e nente e dinâmica interação, respondendo essa desregularização apontam-se o des-
pelo meio científico ou governamental que às interferências naturais (intemperismo e matamento, o uso inadequado do solo, o
tem ampliado a rede de monitoramento dos modelagem da paisagem), que ocorrem a sobrepastejo e a descapitalização do agri-
mananciais no território nacional. longo prazo e aquelas de natureza antrópica cultor para adotar práticas adequadas de
Essa desregularização está associada (uso/ocupação da paisagem) com ocorrên- manejo do solo, especialmente quanto às
ao uso inadequado do solo, das pequenas cias muitas vezes a curto prazo, que afetam pastagens e culturas agrícolas. A atividade

1
Eng o Florestal, D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Pesq. Visitante EPAMIG Zona da Mata/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 216,
CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: marcos.gomes@ufv.br
2
Graduando Engenharia Ambiental UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: pimenta.ambiental@gmail.com
3
Engo Agro, D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Prof. UFV - Depto. Solos, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: lani@ufv.br
4
Graduanda Tecnologia em Gestão Ambiental UNIVIÇOSA - Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde, CEP 36570-000 Viçosa-MG.
Correio eletrônico: rsouza136@hotmail.com
5
Engo Agro, D.S., Pesq. EPAMIG Zona da Mata/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 216, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico:
padua@epamig.ufv.br

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Revitalização de nascentes para produção de água 69

agrícola com ênfase na monocultura tem de água localizados sobre camadas im- O abastecimento do lençol freático, de
sido fator de aceleração da degradação do permeáveis. Dessa forma, compreender acordo com o processo hidrológico pode
solo, geralmente ultimada pelo sobrepas- o processo hidrológico de abastecimento ser determinado com o uso da expressão:
tejo e uso do fogo. Nesta fase, inicia-se e produção de água é indispensável para Equação 2:
o processo de degradação da estrutura o reconhecimento e o monitoramento dos
do solo e processos erosivos. A erosão problemas e soluções de revitalização. AL = F - T - ESs
é uma das formas mais prejudiciais de Com base na Figura 1, as Equações 1,
degradação do solo, uma vez que reduz a em que:
2 e 3 descrevem o processo hidrológico
capacidade produtiva das culturas, além de abastecimento e produção de água das AL = lâmina de água que chega ao
de causar sérios danos ambientais, tais nascentes (VALENTE; GOMES, 2005). lençol;
como: assoreamento e poluição das fontes
Equação 1: F = lâmina de água infiltrada;
de água (ZARTL; KLIK; HUANG, 2001;
T = lâmina de água transpirada pelas
COGO; LEVIEN; SCHWARZ, 2003). F = P - ES - EVD plantas;
Para Romkens, Helming e Prasad (2001),
a erosão do solo é um fenômeno complexo, em que: ESs = lâmina de escoamento subsu-
que envolve a desagregação e o transporte F = lâmina de água infiltrada; perficial.
das partículas do solo, a infiltração da água P = lâmina de água precipitada; Sabendo-se que lençol freático é a fonte
no solo, o armazenamento de parte da água de abastecimento das nascentes, pode-se
ES = lâmina de escoamento superficial
precipitada e o escoamento superficial. A concluir que, para aumentar suas vazões,
(enxurrada);
magnitude relativa e a importância desses esforços devem ser concentrados na super-
processos dependem de um elenco de fato- EVD = lâmina de evaporação direta de fície, a fim de diminuir ESs e T e aumentar
res, como: clima, solo, topografia, práticas água de chuva retida em super- F. As tentativas para diminuir ESs não serão
de manejo do solo e cultura, práticas con- fícies diversas no ambiente. muito eficazes, porém o uso de vegetação
servacionistas, condições antecedentes de Portanto, as atividades de um projeto adequada poderá concorrer para diminuir T.
umidade e tamanho da bacia hidrográfica. terão que proporcionar a diminuição de O manejo adequado do solo pode oferecer
No contexto de um manejo integrado ES, já que o ser humano ainda não dispõe resultados muito positivos no aumento de F.
e adequado de bacias hidrográficas com de tecnologias para interferir em EVD e P. A Equação 3 relaciona EP com EVD e
o intuito de reverter o quadro de redução Práticas como a revegetação das encostas T, mostrando que, para diminuir EP, deve-
de vazão dos mananciais e a depreciação e o terraceamento, por exemplo, oferecem se procurar diminuir EVD e T. Mas a EVD
da qualidade de suas águas, torna-se ótimos resultados para diminuir ES. é considerada pelos hidrologistas como
necessária a implantação de técnicas de
conservação de solo e água com sentido
produtivo, econômico e ambiental tanto
Chuva
para o agricultor quanto para uma popula-
ção distante no espaço e no tempo.

FUNDAMENTOS
HIDROLÓGICOS DA Infiltração Evapotranspiração
REVITALIZAÇÃO DE BACIAS
HIDROGRÁFICAS
A revitalização de uma microbacia
hidrográfica consiste num conjunto de
Água para lençol
ações entre técnicos e comunidade, numa
interação que proporcione o uso racional Escoamento superficial/
de seus recursos naturais. Entende-se por Subsuperficial

microbacia, as áreas drenadas por um


conjunto de ravinas, canais, tributários e
um curso d’água principal, as quais cons- Lençol Nascente

tituem uma unidade básica de manejo. Já Camada impermeável


as nascentes são manifestações superficiais
dos lençóis subterrâneos, principalmente Figura 1 - Processo hidrológico simplificado
freáticos, que são depósitos subterrâneos FONTE: Valente e Gomes (2005).

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praticamente constante, por não se poder É necessário ter em mente que a pro- água. Já a conservação do solo é a designa-
controlar a energia dos ambientes. Resta- priedade não é constituída somente por ção coletiva dos programas de prevenção e
nos, portanto, para diminuir EP, apenas a um tipo de solo, e este não ocorre em controle à erosão, que acentua a perda de
diminuição de T. Para tal, deve-se adotar apenas um tipo de relevo. Via de regra, as nutrientes pelo processo de escoamento
uma distribuição adequada da vegetação na propriedades rurais estão inseridas em uma superficial, que de maneira geral diminui
bacia, evitando-se, por exemplo, o uso de bacia hidrográfica com suas particularida- a capacidade de sustentar a vegetação na-
árvores com sistemas radiculares profun- des, como classe de solo, relevo, clima, tural e/ou a agricultura. Conservar os solos
dos perto de afloramento dos lençóis, pois cobertura vegetal etc. Por isso, a aptidão com vistas também aos recursos hídricos,
estas podem-se transformar em verdadeiras agrícola dos solos, com base nas variáveis é aplicar um conjunto de técnicas ao solo
bombas de sucção de água. supracitadas, deve nortear o planejamento de maneira que venha a reduzir o processo
Equação 3: conservacionista. Em consonância com a de escoamento superficial ocasionado pelo
adequada distribuição dos cultivos, devem- uso do solo em condições de relevo, mor-
EP = EVD + T se associar outras técnicas vegetativas e fologia, climatologia, classe de solo etc.
mecânicas, pois o planejamento conser-
em que: Erosão e qualidade do solo
vacionista não é composto de técnicas
EP = lâmina evapotranspirada;
isoladas, mas sim integradas. A qualidade do solo, que é definida
T = lâmina de água transpirada pelas Embora possa parecer que as terras por valores relativos à sua capacidade de
plantas; possuam características pedológicas cumprir uma função específica, é afetada
EVD = lâmina de evaporação direta de semelhantes, é certo que tais caracterís- diretamente pelos processos erosivos. A
água de chuva retida em super- ticas podem variar de área para área em degradação da qualidade do solo é carac-
fícies diversas no ambiente. pequenas distâncias, dentro da mesma terizada como física, quando há ocorrência
Todo e qualquer trabalho que se faça propriedade. Nesse caso, é necessário de compactação, excesso ou falta de água
na superfície do solo para segurar a água, identificar essas diferentes áreas de forma e selamento ou encrostamento superfi-
evitando ou dificultando a formação de que o planejamento de uso do solo seja o cial; como química, quando há perda de
enxurradas, irá permitir maiores valores mais apropriado: plantio de culturas anuais, nutrientes e/ou matéria orgânica (MO),
de F e lençóis com mais água (VALENTE; perenes, pastagem, reflorestamentos com desbalanço de nutrientes, salinização,
GOMES, 2005). O lençol é, portanto, um essências comerciais ou preservacionistas, acidificação, poluição; como biológica,
fantástico reservatório subterrâneo capaz entre outras, determinarão as medidas de quando há redução da biomassa e da
de regularizar vazões de cursos d’água em controle da erosão que serão adotadas. biodiversidade (HERNANI et al., 2002).
bacias de captação, evitando, que a água das Neste contexto, faz-se uso de técnicas Outra importante forma de degradação é
chuvas escoe rapidamente, e venha a causar e programas de manejo, com o objetivo de a erosão laminar ou em sulco, responsável
desastrosas enchentes. Usar tal capacidade sistematizar as ações conservacionistas de pela perda de horizontes superficiais e
é mais inteligente do que construir reserva- forma integrada, ou seja, considerando as deformação do terreno, sendo ocasionada
tórios superficiais (barragens) para arma- interações solo-água-planta-homem. por erosão hídrica e/ou eólica:
zenar água (VALENTE; GOMES, 2005). As técnicas de manejo visam aumen- a) hídrica: é a erosão provocada pela
O monitoramento do comportamento tar e manter a potencialidade dos solos; ação da água. Faz parte do ecos-
hidrológico da bacia é realizado median- envolvem o controle de suas propriedades sistema e está relacionada com o
te a instalação de medidores de chuva e características e o controle da erosão. escoamento superficial, que é uma
(pluviógrafo), de vazões (vertedor) e de O programa de manejo implica em exe- das fases do ciclo hidrológico. A
flutuação de lençóis freáticos, ou ainda, cutar um estudo genérico das técnicas de forma e a intensidade da erosão hí-
pela observação visual da produção de manejo, o estudo dos pré-requisitos e efei- drica, embora estejam relacionadas
água, principalmente nos períodos de seca. tos produzidos pelas diferentes modalida- com atributos intrínsecos do solo,
des de atividades agrícolas, a identificação são mais influenciadas pelas carac-
PLANO DE MANEJO PARA do agrossistema, o que significa conhecer terísticas das chuvas, topografia,
BACIAS HIDROGRÁFICAS as potencialidades e características de cada cobertura vegetal e manejo da terra,
O planejamento da conservação de um deles e a elaboração do programa de ocorrendo a interação de todos esses
bacias hidrográficas é essencial para obter manejo. fatores (EMBRAPA, 1980);
melhores resultados com abrangência no Manejar o solo é, portanto, utilizá-lo b) eólica: é a erosão provocada pela
desenvolvimento socioeconômico do pro- adequadamente, tendo como base a relação ação do vento e será mais intensa
dutor rural e na conservação dos recursos dos vários fatores que afetam a produtivi- quanto maior for a sua velocidade e
naturais da propriedade agrícola. dade agrícola e a conservação do solo e da a área livre de vegetação ou obstá-

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Revitalização de nascentes para produção de água 71

culos naturais. A erosão eólica está também ocorre em áreas convexas. melhorar e otimizar os recursos naturais,
mais relacionada com as grandes Suas dimensões e extensão estão in- mediante o manejo integrado do solo, da
planícies sem cobertura vegetal. timamente relacionadas com o clima, água e da biodiversidade, compatibilizado
Nessas regiões, a energia cinética a classe de solo, o relevo, a geologia, com tecnologias para diferentes estratos
do vento desloca as partículas do o uso e o manejo dos solos a que o fundiários. Indiferentemente ao tamanho
solo. Dependendo da força e da ve- ambiente está sendo submetido; da propriedade rural e diante da atual faci-
locidade do vento, são removidas as d) erosão por solapamento e deslo- lidade de acesso a implementos agrícolas,
partículas mais finas (argila e silte) camento ou escorregamento: são seja particular, alugado ou cedidos pelos
e, posteriormente, as partículas mais formas de erosão características de órgãos públicos, é necessário abandonar
grosseiras (areia). áreas declivosas ou onde o processo o preparo do solo convencional e adotar
Segundo Bahia et al. (1992), a erosão de erosão por voçorocamento con- sistemas de plantios que visem à conserva-
hídrica é um processo complexo que ocor- tinua ativo. As ravinas e voçorocas ção dos recursos naturais, como o preparo
re em quatro fases; impacto das gotas de podem produzir movimento de reduzido ou plantio direto.
chuva; desagregação de partículas do solo; massa em suas paredes pela libe- Os implementos de preparo do solo
transporte e deposição. A esses processos ração brusca de partículas, fazendo devem-se adaptar às condições e a seus
estão associadas as formas de erosão oca- aumentar os efeitos da água quando tipos, visando, principalmente, à preser-
sionadas, como: passa pelo canal. Se o horizonte vação das características físicas e bioló-
a) salpicamento: deve-se ao impacto subsuperficial for siltoso, pode gicas na camada de preparo, evitando a
das gotas de chuva sobre os agre- haver remoção preferencial desse desagregação excessiva. As alterações que
gados instáveis em solo desnudo. material, provocando o desbarran- ocorrem no solo por ocasião do preparo são
Produzem pequenos buracos pelo camento, ou ainda, caso a mine- determinadas, em grande parte, pelo tipo
impacto da gota da chuva com a ralogia da argila seja de atividade de implemento utilizado, mas o conteúdo
liberação de partículas de solo. O alta, os processos de expansão e de umidade no momento da realização
processo de salpicamento pode oca- contração fazem com que o material da prática também é importante. Outro
sionar o selamento/encrostamento na borda do talude se fragmente e aspecto a ser considerado é a realização
da superfície do solo, reduzindo acelere o processo de erosão. do preparo do solo em nível, transversal ao
ou eliminando a infiltração da água
sentido do declive, o que evita a formação
(PORTA; LÓPEZ-AZEVEDO; TÉCNICAS DE MANEJO E e a intensificação do processo erosivo.
ROQUERO, 1999); CONSERVAÇÃO
b) erosão laminar: consiste na perda Terraços em nível ou
de camada superficial de forma uni- Sistemas de cultivo e curvas de nível
forme do solo em terreno com certa preparo do solo
O escoamento superficial ocorre de for-
declividade, com maior ocorrência
entre as variações das pedoformas O sistema de cultivo e o preparo do ma e intensidades diferentes em detrimento
convexas e planas. É um processo solo têm grande influência no processo de à precipitação (quantidade e intensidade),
pouco aparente, sem concentração manejo de bacias e conservação do solo declividade, classe de solo e outros fatores
de água e caracteriza-se pela remo- e da água, pois interferem diretamente naturais. Entretanto, a ação antrópica é a
ção de camadas delgadas do solo em na cobertura vegetal e nas características responsável pelo desequilíbrio em algumas
toda a área; físicas e biológicas do solo. Com o passar fases do ciclo hidrológico pelo uso intensivo
c) erosão por sulcos, ravinas e voço- do tempo e o uso contínuo do solo, ocorrem e inadequado do solo. De forma geral, em
rocas: caracteriza-se pela formação mudanças na sua estrutura que refletem todos os sistemas de uso do solo ocorre es-
de canais (sulcos) de diferentes em maior suscetibilidade à desagregação, coamento superficial, sendo que, a depender
profundidades e comprimentos na erosão, diminuição das taxas de infiltração do manejo adotado, o processo é maior ou
superfície do solo. A concentração e percolação, redução das vazões em nas- menor, com reflexo direto na vazão máxima
das águas das chuvas nesses canais centes e rios, assoreamento e deterioração e mínima dos mananciais, processos erosi-
aumenta o poder erosivo, por causa da qualidade da água etc. vos, empobrecimento do solo, assoreamento
do ganho de energia cinética provo- Na atualidade, agricultura conserva- e comprometimento da qualidade da água.
cado pelo volume e pela velocidade cionista, no âmbito de sistemas agrícolas As áreas de pastagem, de forma ge-
da enxurrada. Os ambientes mais produtivos, é conceituada como um ral degradadas pelo uso intensivo, são
propensos possuem pedoforma complexo de processos tecnológicos de ambientes que apresentam altas taxas de
côncava, mas esse tipo de erosão enfoque holístico, que objetiva preservar, escoamento superficial. Para evitar que a
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72 Revitalização de nascentes para produção de água

água chegue ao canal de drenagem e saia estreita é em função de revolver o mínimo Para efeitos de conservação de solos,
da bacia hidrográfica, tem-se a opção da possível a superfície do solo, evitando expô-lo Bertoni e Lombardi (1990) aconselham
implantação de terraços de base estreita, os demasiadamente às atividades destrutivas terraços em encostas com no máximo 24%
chamados cordões em contorno (Fig. 2), necessárias à construção dos terraços de de declividade, devendo, nesse caso, ser
que têm uma ótima capacidade de retenção base larga. Para a implantação dessa técnica construídos de 18 em 18 metros. Para fins
de escoamentos superficiais, com posterior podem-se utilizar tanto a mecanização com de infiltração, ou seja, para fins hidroló-
infiltração. A opção pelos terraços de base tração animal como a motorizada (Fig. 3). gicos, Valente e Gomes (2002) admitem
construí-los em encostas com até 50%-
60% de declividade, com espaçamento
variado, dependendo das características
do solo, cobertura vegetal, análises hidro-
lógicas etc. Têm-se conseguido resultados
positivos com o terraceamento de encostas
de regiões de microbacia com inclinações
próximas de 50%, utilizando-se mecani-
zação animal.
O nivelamento de uma vertente é im-
prescindível em trabalhos de conservação do
solo e principalmente para o terraceamento,
pois, por meio deste, podem-se determinar
as diferenças de altitude entre dois ou
mais pontos consecutivos, o que permitirá
o cálculo da inclinação ou da pendente

Marcos Antonio Gomes


(declividade) do terreno. Determina-se a
pendente por meio de métodos expeditos
ou por processos de precisão. Os nivela-
mentos expeditos podem ser feitos com
régua e nível de pedreiro; esquadros e nível
Figura 2 - Terraços em encosta com declive acentuado de mangueira. É um tipo de nivelamento
que, apesar de rudimentar, é o único aces-
sível a todos os produtores rurais e de fácil
compreensão e utilização (SEIXAS, 1984).
Os nivelamentos de precisão podem ser
feitos com clinômetro, teodolito, nível de
precisão, nivelamento composto e inter-
pretação aerofotogramétrica.

Caixas de captação
As estradas no meio rural são impor-
tantes fontes de escoamento superficial, as
águas que correm às margens promovem a
desagregação do solo e o aprofundamento
das calhas marginais, que ao atingir solos
com estrutura física mais frágil inicia-se
Marcos Antonio Gomes

um processo de voçorocamento que pode


levar à interdição da estrada.
Para as estradas rurais é importante
implantar sistemas adequados de traça-
dos e de drenagem, evitando a concentra-
Figura 3 - Terraços em nível sendo feitos com mecanização motorizada - Itabira, MG ção excessiva de água ao longo do leito
NOTA: Técnica acessível aos pequenos produtores rurais.

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Revitalização de nascentes para produção de água 73

da estrada e sua alta velocidade, o que


provoca erosão. Sempre que necessário,
os drenos devem conduzir a água para
pequenas valas ou bacias (caixas) de
captação (Fig. 4), favorecendo a retenção
e consequente infiltração.
Nas áreas de uso do solo com cultivos
permanentes ou temporários também
ocorrem escoamento superficial con-
centrado, as enxurradas. A concentra-

Marcos Antonio Gomes


ção de água em determinado local nas
propriedades é a principal responsável
pelas erosões e voçorocas encontradas
ao longo das encostas. Com o objetivo
de recuperar áreas degradadas pelo
Figura 4 - Caixa de captação ao longo da estrada
escoamento das águas de chuvas sobre
NOTA: Em ambientes com declividade acentuada, as caixas são menores.
solos, as caixas de captação podem ser
utilizadas (Fig. 5).
As caixas de captação devem ser
dimensionadas e distribuídas levando-se
em consideração a precipitação pluviomé-
trica, a área de escoamento superficial, a
declividade, a cobertura vegetal do solo, a
classe de solo, o comprimento da estrada
e outros fatores que o técnico deve iden-
tificar no campo no momento da leitura

Osvaldo Ferreira Valente


do ambiente.

Paliçadas
As paliçadas são estruturas feitas
com materiais muitas vezes disponíveis
dentro da propriedade rural, como bam- Figura 5 - Caixa de captação construída em áreas de uso agrícola
bu, pedra, estaca de madeira etc. Essas
estruturas podem ser implantadas em
conjunto com as caixas de captação ao
longo das estradas e nas encostas, onde
têm a função de diminuir o potencial
energético da água e reter partículas
sólidas (solo, rocha, MO etc.) antes de
chegar à caixa, o que auxilia no aumento
da vida útil dessa estrutura.
Em determinados locais nas encostas
ou nas estradas, em consequência da de-
clividade acentuada, pela estrutura física
Marcos Antonio Gomes

do solo ou outros impedimentos, não é


recomendada a implantação das bacias
(caixas) de captação por causa do risco de
iniciar a formação de uma voçoroca, nessas
situações podem-se implantar somente as
paliçadas (Fig. 6). Figura 6 - Paliçada dentro de erosão em margem de estrada - Viçosa, MG

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74 Revitalização de nascentes para produção de água

Nas ravinas e voçorocas, as paliçadas O plantio de espécies florestais a) a área a ser reflorestada deve ser
contribuem para diminuir o processo para fins comerciais também deve ser analisada para que as raízes das es-
erosivo causado pelas enxurradas, sendo estimulado, uma vez que a vegetação pécies florestais não tenham acesso
a aplicação dessas estruturas uma das promoverá a cobertura do solo sem estar ao lençol freático, causando o rebai-
primeiras etapas para a estabilização e sendo submetido ao processo de pisoteio, xamento do lençol e, consequente-
posterior recuperação de voçorocas. como no caso da pastagem. Nesse tipo mente, uma diminuição significativa
de exploração, tem-se a aliança entre o na vazão das nascentes;
Cordões de vegetação fator ambiental, hidrológico e socioeco- b) o sistema de plantio deve ser o direto
São fileiras de plantas perenes de cres- nômico. Porém, alguns critérios devem (Fig. 8), o que evita a formação de
cimento denso, de largura específica, dis- ser seguidos: escoamento superficial.
postas em contorno e niveladas entre faixas
de rotação. As plantas mais utilizadas são
a cana-de-açúcar, capim-vetiver, erva-
cidreira, capim-gordura, capim-elefante
etc. Entretanto, para cada ambiente e prin-
cipalmente costumes regionais, podem ser
utilizadas outras plantas.
A implantação desse sistema é reco-
mendada para todos os tipos de cultivos
(Fig. 7), solos, declividades e principal-
mente locais com dificuldade de utilizar
técnicas mecânicas de conservação. Os
cordões de vegetação podem ser consor-
ciados com os terraços, reflorestamentos,

Marcos Antonio Gomes


caixas de captação, paliçadas etc., poten-
cializando o efeito e aumentando a vida
útil das técnicas de conservação de solo
e água.

Reflorestamento Figura 7 - Encosta com cultivo de café, onde foram implantados cordões vegetativos -
Paula Cândido, MG
A cobertura vegetal promove a prote-
ção do solo contra o impacto direto das
gotas de chuva, impedindo a destruição
da sua estrutura, além de proporcionar
diminuição da velocidade de escoamento
superficial de águas pluviais, exercendo,
dessa forma, importante papel como re-
guladora do regime hídrico. A retirada da
vegetação pode favorecer, pelas razões já
citadas, a ocorrência de enchentes, em pe-
ríodos chuvosos, e de significativa redução
da vazão dos cursos d’água, nos períodos
de estiagem.
Marcos Antonio Gomes

As florestas exercem um excelente


desempenho no aumento da infiltração de
água no solo em florestas nativas ou com
fins exploratórios, desde que o plano de
manejo e exploração contemple a manu-
tenção de um sub-bosque em condições Figura 8 - Detalhe do reflorestamento com plantio direto
satisfatórias para fins hidrológicos. NOTA: Sistema integrado de árvores (eucalipto) e pastagem (braquiária).

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Revitalização de nascentes para produção de água 75

A alternância de plantas entre fileiras grau de degradação, com baixa capaci- aração em faixas, também em nível. As
é para impor obstáculos (troncos que irão dade suporte, provoca o aparecimento de faixas devem ser aradas alternadamente.
se desenvolver) ao escoamento superficial, solos desnudos em proporção crescente e As que ficarem sem arar só poderão ser
dando oportunidade (tempo) para que a em contínuos processos de umedecimento preparadas e semeadas quando a gramínea
água termine infiltrando no solo. e secagem. Tais solos passam a apresentar já estiver bem desenvolvida nas anterio-
Em encostas mais problemáticas, com baixa capacidade de infiltração e elevado res. Isso para não expor toda a encosta ao
urgência de controle de escoamentos escoamento superficial, diminuindo o processo erosivo. No caso das encostas,
superficiais, podem-se construir terraços abastecimento do lençol freático. onde for possível o trator operar em nível,
para retenção do escoamento até o desen- No intuito de mudar esse cenário de o trabalho deverá ser feito sempre com
volvimento das plantas. degradação é importante a substituição alternância de faixas. Uma alternativa é a
ou reforma das pastagens e a implan- implantação do Sistema Lavoura-Pecuá-
Melhoria de pastagens tação de um modo de exploração com ria. No processo de reforma da pastagem,
A maior parte dos estabelecimentos sistema de piquetes, onde uma determi- a gramínea é plantada junto com milho,
pecuários utiliza ainda o chamado pasto- nada área é explorada e depois fica em que no momento da colheita a pastagem
reio contínuo. Este sistema é o principal repouso para a regeneração da vegeta- já estará formada (Fig. 9).
fator que contribui para a baixa produti- ção. Aliado a esse sistema, podem ser
implantadas árvores nas áreas ocupadas Proteção física das
vidade (baixa capacidade de lotação) e a
nascentes e Mata Ciliar
degradação das pastagens. Entende-se por por pastagem, o que denomina Sistema
pastoreio contínuo, o sistema onde o gado Silvipastoril (SSP). Esses sistemas O isolamento das nascentes é uma
fica sobre uma mesma área de pastagem apresentam grande potencial de bene- parte importante do trabalho de revitali-
em período prolongado, de alguns dias fícios econômicos e ambientais para os zação dos mananciais. A função da cerca
a casos em que o gado fica permanente- produtores e para a sociedade. São mul- é impedir ou limitar o acesso de animais
mente no mesmo pasto. Assim, o animal tifuncionais, onde existe a possibilidade diretamente às águas, evitando possí-
consome o capim antes que complete o de intensificar a produção pelo manejo veis contaminações, desbarrancamento
seu desenvolvimento, não permitindo que integrado dos recursos naturais, evitando das margens e destruição da vegetação
as plantas refaçam periodicamente suas sua degradação, além de recuperar sua ribeirinha.
reservas, exaure a pastagem, diminuindo capacidade produtiva. Como parte fundamental da proteção
progressivamente a sua produtividade e A reforma ou implantação da pasta- das nascentes tem-se a implantação das
vigor, com reflexos também na cobertura gem, com ênfase em áreas declivosas, matas ciliares, que são sistemas vegetais
do solo, que fica desprotegido e mais sus- deve ser preparada com abertura de sul- essenciais ao equilíbrio ambiental e, por-
cetível aos efeitos da erosão. O elevado cos em nível, para a semeadura, ou pela tanto, devem representar uma preocupa-

Fotos: Osvaldo Ferreira Valente

Figura 9 - Reforma de pastagens, utilizando o Sistema Lavoura-Pecuária

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76 Revitalização de nascentes para produção de água

ção central para o desenvolvimento rural


sustentável.
Os ecossistemas formados pelas Matas 200
188
Ciliares desempenham funções hidrológi- 180
cas importantes, como: 160
a) estabilizar áreas críticas, que são 140 138
130 129
129

Vazão (L/min)
as ribanceiras do rio, pelo desen- 120
volvimento e manutenção de um 100
emaranhado radicular; 80 80
b) atuar como tampão e filtro entre os 60
ecossistemas terrestre e aquático; 40
c) auxiliar na manutenção da qualidade 20
da água nas bacias hidrográficas; 0
d) servir como fontes de alimento para 2002 2003 2004 2005 2006 2007

peixes e outros componentes da Tempo (ano)


fauna aquática;
e) interceptar e absorver a radiação Gráfico 1 - Aumento de vazão na Bacia Hidrográfica Experimental da Rua Nova-Viçosa, MG
solar, contribuindo para a estabili- NOTA: A implantação das técnicas de conservação do solo foi realizada antes do perío-
dade térmica dos pequenos cursos do chuvoso entre os anos 2002 e 2003.
d’água;
f) servir como fonte de propágulos;
g) funcionar como corredor ecológi- AGRADECIMENTO solos brasileiros. Rio de Janeiro: Embrapa
co, possibilitando à flora e à fauna Solos, 2002. cap.5, p.47-60.
condições de deslocar, reproduzir À FAPEMIG pelo financiamento das
PORTA, J.; LÓPEZ-ACEVEDO, M.; ROQUERO,
e garantir a biodiversidade da re- pesquisas e pelas bolsas concedidas.
C. Degradación de suelos por erosión
gião etc. hídrica: conservación de suelos y aguas.
REFERÊNCIAS In: ________. Edafologia para la agricul-
CONSIDERAÇÕES FINAIS BAHIA, V.G. et al. Fundamentos de erosão tura y el medio ambiente. 2.ed. Madrid:
do solo (tipos, formas, mecanismos, fatores Mundi Prensa, 1999. cap.23, p.601-656.
O planejamento de uso do solo nas
determinantes e controle). Informe Agro- ROMKENS, M.J.M.; HELMING, K.;
propriedades rurais, pequenas ou grandes,
pecuário. Conservação de solos e meio am- PRASAD, S.N. Soil erosion under different
deve ser realizado de acordo com critérios
biente, Belo Horizonte, v.16, n.176, p.25-39, rainfall intensities, surface roughness, and
técnicos de conservação dos recursos soil water regimes. Catena, v.46, p.103-123,
1992.
naturais, mas com foco no meio social 2001.
e econômico do produtor rural e de sua BERTONI, J.; LOMBARDI NETO, F. Con-
servação do solo. São Paulo: Ícone, 1990. SEIXAS, B. L. S. Fundamentos do manejo
família. Onde as famílias e suas terras
335p. e da conservação do solo. Salvador: UFBA,
estão inseridas nas bacias hidrográficas 1984. 304p.
produtoras de água para os meios urba- COGO, N.P.; LEVIEN, R.; SCHWARZ, R.A.
Perdas de solo e água por erosão hídrica in- VALENTE, O. F.; GOMES, M. A. A. Revi-
no e rural. A aplicação das técnicas de
talização da capacidade de produção
manejo e conservação do solo em bacias fluenciadas por métodos de preparo, clas-
de água da microbacia do Ribeirão São
hidrográficas experimentais na região de ses de declive e níveis de fertilidade do
Bartolomeu – Viçosa – MG. Viçosa, MG:
Viçosa, MG, resultou em aumentos na solo. Revista Brasileira de Ciência do Solo,
CMCN: UFV: EMATER: SAAE, 2002. 44p.
Viçosa, MG, v.27, n.4, p.743-753, jul./ago.
vazão mínima dos mananciais em curto pe- Mimeografado.
2003.
ríodo (Gráfico 1), indicando a importância
________; GOMES, M. A. Conservação de
ambiental de tais técnicas para a revitali- EMBRAPA. Serviço Nacional de Levanta- nascentes: hidrologia e manejo de bacias
zação das nascentes. Esses trabalhos têm mento e Conservação de Solos. Práticas de hidrográficas de cabeceiras. Viçosa, MG:
sido implantados com efeitos positivos conservação de solos. Rio de Janeiro, 1980. Aprenda Fácil, 2005. 210p.
em outros Estados, como Acre, Espírito 88p. (EMBRAPA-SNLCS. Miscelânea, 3).
ZARTL, A.S.; KLIK, A.; HUANG, C. Soil
Santo, São Paulo, Mato Grosso etc., os HERNANI, L. C. et al. Erosão e seu impacto. detachment and transport processes from
quais apresentam ambientes, muitas vezes, In: MANZATTO, C. V.; FREITAS JUNIOR, interrill and rill areas. Physical, Chemical
totalmente distintos. E.; PERES, J. R. R. (Ed.). Uso agrícola dos & Earth, v.26, n.1, p.25-26, 2001.

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78 Revitalização de nascentes para produção de água

Recuperação e conservação de Matas Ciliares


Marcos Antonio Gomes 1
João Luiz Lani 2
Rita Maria de Souza 3
Daniel Fernandes Novaes Pimenta 4
Antônio de Pádua Alvarenga 5

Resumo - Grande parte da população tem consciência dos cuidados que se deve ter
com o meio ambiente, em especial com a questão das Matas Ciliares. Esta faixa de pre-
servação cumpre uma destacada função ambiental para os mananciais hídricos, fauna
e flora. A Vegetação Ciliar é importante nos planos de manejo das bacias hidrográficas,
sendo parte das ações com outras técnicas em toda a área de contribuição das bacias.
É fundamental conscientizar técnicos, legisladores e gestores de que somente a Mata
Ciliar não é capaz de resolver os problemas quantitativos e qualitativos dos cursos
d’água. A atuação isolada em determinadas situações dessas Matas pode influenciar de
forma negativa na vazão dos mananciais, por causa da evapotranspiração. O conheci-
mento dos aspectos hidrológicos e da extensão das áreas periodicamente inundadas é
de suma importância na elaboração de um projeto de recuperação de Mata Ciliar, assim
como na seleção das espécies a serem plantadas. O trabalho de recuperação da Mata
Ciliar, dentro do manejo de bacias, deve considerar, durante todo o planejamento, o
produtor rural e a importância dessas áreas para a sua sobrevivência. A relação de uso e
de conservação deve ser esclarecida por ações de conscientização, educação ambiental
e propostas de uso conjunto ou novas opções de uso em outras áreas da propriedade
rural.

Palavras-chave: Mata Ciliar. Bacia hidrográfica. Recurso hídrico. Qualidade da água.


Assoreamento. Conservação do solo.

INTRODUÇÃO O processo de eliminação e fragmen- 1965 (BRASIL, 1965), não escaparam da


tação florestal, o qual é mais intenso nas degradação, até porque são as áreas mais
A ocupação e o uso do solo nas bacias
regiões economicamente mais desenvolvi- cobiçadas pela proximidade dos manan-
hidrográficas, quer urbanas, quer rurais,
das, resultou num conjunto de problemas ciais. Martins (2001) cita a urbanização
caracterizam-se pela falta de planejamento ambientais com várias espécies da fauna como um dos fatores responsáveis pela
e exploração inadequada. Isso traz como e da flora, mudanças climáticas locais, degradação, mas ressalta outros, como
consequência, a destruição rápida dos re- erosão dos solos e assoreamento e dese- a construção de usinas para a produção
cursos naturais, por causa da falsa ideia de quilíbrio quantitativo e qualitativo da água. de energia elétrica, aberturas de estradas
que são inesgotáveis, o que tem propiciado As Matas Ciliares, Áreas de Preser- inadequadas em relevo acidentado e a
um desenvolvimento desordenado, sem o vação Permanente (APPs) protegidas implantação da agricultura e pecuária sem
compromisso ambiental futuro. pela Lei no 4.771, de 15 de setembro de critérios. Segundo Rizzo (2008), a ativi-

1
Engo Florestal, D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Pesq. Visitante EPAMIG Zona da Mata/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 216, CEP 36570-000
Viçosa-MG. Correio eletrônico: marcos.gomes@ufv.br
2
Eng o Agr o , D.S. Solos e Nutrição de Plantas, Prof. UFV - Depto. Solos, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: lani@ufv.br
3
Graduanda Tecnologia e Gestão Ambiental UNIVIÇOSA - Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio
eletrônico: rsouza136@hotmail.com
4
Graduando Engenharia Ambiental UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: pimenta.ambiental@gmail.com
5
Eng o Agr o , D.S., Pesq. EPAMIG Zona da Mata/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 216, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico:
padua@epamig.ufv.br

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Revitalização de nascentes para produção de água 79

dade agropecuária degrada a Mata Ciliar.


Nas áreas de pastagem, o gado vai até as
nascentes e os cursos d’água para a desse-
dentação (Fig. 1). Essa ação, sendo feita
por todo o rebanho, várias vezes ao dia,
cria passagens que, futuramente, tornar-se-
ão valas e, consequentemente, permitirão
erosões, facilitando o assoreamento dos
cursos d’água.
Apesar da intensa divulgação dos con-
ceitos de essencialidade e de finitude e da
consequente dependência de preservação
dos recursos hídricos, a sociedade tem ca-

Marcos Antonio Gomes


minhado em direção oposta. Muitas vezes
levada por conceitos de progresso, adotam
práticas com alto poder de impacto sobre
o meio ambiente, as quais refletem sobre
o volume e a qualidade da água disponível
Figura 1 - Gado com acesso direto ao manancial
para ser usada nos processos biológicos.
NOTA: Condição que afeta diretamente a Vegetação Ciliar, a estabilidade das margens
Assim, torna-se evidente que a Mata Ciliar e a qualidade da água.
é fundamental para o equilíbrio ambiental.
Entretanto, é o conjunto de práticas e inter-
venções feitas em toda a bacia hidrográfica, ser realizada com embasamento múltiplo, nutenção dos mananciais e da biodiversi-
do divisor de águas à calha do manancial, construído por várias mãos. dade. Dentre os benefícios proporcionados
que trará resultados positivos ao meio ao meio ambiente, destacam-se o controle
físico, biótico e social. CARACTERIZAÇÃO E à erosão nas margens dos rios e córregos,
IMPORTÂNCIA a redução dos efeitos de enchentes, a ma-
A avaliação dos entraves sociais e eco-
nômicos para a ampliação da restauração Lima (1999) define como Mata Ciliar nutenção da quantidade e da qualidade das
águas (LIMA, 1989; ROSA; IRGANG,
das APPs, nos limites legais das Matas (Fig. 2) a vegetação característica de mar-
1998), a filtragem de resíduos de agrotó-
Ciliares, é necessária para a formulação gens ou áreas adjacentes a corpos d’água,
xicos e fertilizantes (MARTINS, 2001),
de uma política pública consistente, pois sendo considerado um ecossistema ripário.
o habitat ecológico para fauna (SANTOS
a degradação e a perda de solo contribuem Entende-se por Vegetação Ciliar ou Ripá-
et al., 2008), o corredor ecológico para a
significativamente para o agravamento da ria, aquela que margeia as nascentes e os
movimentação da fauna e a dispersão dos
pobreza no meio rural. Quando as áreas a cursos d’água. Além destas, Martins (2007)
vegetais, contribuindo para o fluxo gênico
serem restauradas estão situadas dentro de cita, entre as denominações comumente
in situ e ex situ (LIMA; ZAKIA, 2000),
pequenas propriedades rurais, as questões usadas em diferentes regiões do Brasil, as:
entre outras importantes características.
de ordem econômica passam a ter relevân- Floresta Ripária, Floresta Ribeirinha, Ma- Santos et al. (2008) citam a relação da
cia, pois se referem a espaços já ocupados tas de Galeria, Floresta Ripícola e Floresta Mata Ciliar com a poluição difusa rural,
por alguma atividade econômica, que Beiradeira. Definindo mais tecnicamente caracterizada pela redução nos níveis de
provê sustento às famílias dos agricultores. esta vegetação, esse autor denomina como erosão e sedimentação que representam
Neste contexto, é importante ressal- Mata Ciliar a vegetação remanescente uma séria ameaça aos reservatórios de
tar que, além da produção teórica e de nas margens dos cursos d’água em uma água superficial.
princípios científicos, os pesquisadores, região originalmente ocupada por mata e, Krupek e Felski (2006) destacam a
legisladores e gestores da conservação como Mata de Galeria, aquela vegetação importância da Mata Ciliar para as espé-
do meio ambiente devem ampliar a visão mesofílica que margeia os cursos de água, cies aquáticas. Segundo esses autores, a
para gerir a complexidade existente dentro onde a vegetação natural original não era destruição da Mata Ciliar altera o índice
de uma bacia hidrográfica, onde envolve mata contínua. de luminosidade incidente, a composição
sociedade, aspectos socioeconômicos e A vegetação que margeia as nascentes e química e a temperatura da água, interferin-
diversos ambientes naturais. Assim, a cursos d’água é fundamental para a preser- do diretamente sobre as diferentes espécies
recomposição das Matas Ciliares deve vação ambiental e, em especial, para a ma- ali encontradas.
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80 Revitalização de nascentes para produção de água

dentre os quais o que atribui à Mata Ciliar


a manutenção da vazão dos córregos e que
nem sempre é verdadeiro, pois em alguns
casos o efeito pode ser oposto, sendo a va-
zão reduzida pela Mata Ciliar, e afirma que
a consequência real só pode ser avaliada
por especialistas em hidrologia.
Segundo Marques (2002), para pro-
teção das nascentes, a cobertura florestal
não deve ser localizada ao redor e junto
das nascentes, mas sim em posição su-
perior a estas, para evitar que as árvores
absorvam, com as suas raízes, a água da

Marcos Antonio Gomes


própria nascente. Sua posição deverá ser
tal que lhe permita abastecer e não retirar
a água do solo.
O manejo das bacias hidrográficas, para
a revitalização dos mananciais, deve ser
Figura 2 - Mata Ciliar ao longo do manancial: importância hidrológica, biológica e
realizado com uma visão ampla e global.
cênica
Focar a revitalização dos mananciais nas
Matas Ciliares é decorrer em erro. Apesar
A diversificação da Mata Ciliar exerce pação, entre outros, é a descapitalização das importantes funções dessas Matas,
influência direta sobre os efeitos propor- dos agricultores e o alto preço dos insumos a depender da densidade de drenagem,
cionados ao meio ambiente. A presença agrícolas que levam esses produtores a esta pode compreender uma pequena área
de árvores, sobretudo as frutíferas nativas, procurarem as áreas mais baixas do terreno da bacia hidrográfica e sua contribuição
funciona como abrigo e fonte de alimento (terraços e leito maior), onde a fertilidade para o abastecimento do lençol freático
para as espécies animais que, por sua natural, associada à maior disponibilidade pode ser menor do que o seu potencial de
vez, disseminam as espécies vegetais hídrica, se sobressai em comparação à área evapotranspiração. Assim, toda a bacia
(LIMA; ZAKIA, 2000). Este ciclo resulta montanhosa da propriedade. hidrográfica deve ser manejada com vistas
na manutenção do equilíbrio ambiental e A mudança no cenário de uso do solo a abastecer o lençol freático e não legar
da biodiversidade. As espécies vegetais e da recuperação das Matas Ciliares deve erroneamente à Mata Ciliar essa função.
encontradas variam conforme as caracterís- ser realizada tendo como base o homem.
ticas locais, sendo fortemente influenciadas LEGISLAÇÃO PERTINENTE
O suporte educacional, técnico e financeiro
pelas diferentes condições de inundação e
para esse indivíduo é fundamental para A legislação brasileira apresenta uma
de afloramento verificadas no lençol freá-
o sucesso da recomposição das Matas série de normas e regulamentos para dis-
tico (ARAÚJO et al., 2004).
Ciliares. Deve-se criar uma consciência ciplinar a ação antrópica sobre a Vegetação
Apesar da importância da preservação
coletiva da importância da preservação Ripária ou Mata Ciliar e, num âmbito
do meio ambiente e da biodiversidade,
dessas áreas e, na medida do possível, mais abrangente, a questão da água como
muitos trabalhos têm demonstrado um alto
distribuir os custos entre todos os benefi- um todo.
índice de devastação das Matas Ciliares,
cujas principais causas têm sido o desma- ciados pela preservação que abrange, além A maioria das leis e normas deriva
tamento para expansão de áreas agrícolas, do proprietário ou posseiro, o habitante do Código Florestal Brasileiro, instituído
construções urbanas, extração de areia nas urbano também usuário da água e de outros pela Lei no 4.771, de 15/9/1965 (BRASIL,
áreas ribeirinhas, entre outras. benefícios ambientais. 1965), que estabelece os limites para as
Na zona rural, as lavouras, em geral, faixas de vegetação a serem mantidas como
Mata Ciliar e vazão dos APPs no entorno das nascentes e nas mar-
localizam-se ao longo do manancial e
mananciais
ocupam áreas até as margens de córregos gens dos cursos d’água (Quadro 1 e Fig. 3).
e de lagos. Em sua maioria, estas áreas Um aspecto importante das Matas Outra determinação, o Art 3o da Reso-
apresentam características de degradação Ciliares é citado por Valente (2009), que lução Conama no 303, de 20 de março de
avançada por processos erosivos e ausência destaca a possibilidade de alguns equí- 2002 (CONAMA, 2002), define os limites
de isolamento (cercas). O motivo da ocu- vocos relacionados com essa vegetação, mínimos de APPs no entorno dos reserva-
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Revitalização de nascentes para produção de água 81

QUADRO 1 - Largura mínima da faixa de vegetação ciliar a ser mantida no entorno das embasamento técnico (hidrológico, geo-
nascentes e margens dos cursos d’água lógico etc.) e distinção entre os diversos
Largura mínima da faixa em cada margem Largura do rio ambientes (Mares de Morros, Cerrado,
(m) (m) Caatinga etc.) e com total desconsideração
30 > 10 ao produtor rural e ao uso que este faz do
50 10 ≥ e ≤ 50 solo. Assim, a implementação plena dessas
determinações legais esbarra em questões
100 50 ≥ e ≤ 200
sociais no meio rural, e o cumprimento
200 200 ≥ e ≤ a 600 pleno da lei inviabilizaria a sobrevivência
500 < 600 das pessoas que encontram nesta área sua
única fonte de renda.
Raio de 50 m no entorno das nascentes
A fim de minimizar o problema social
FONTE: Brasil (1965).
gerado, a Resolução Conama no 369, de 28
março de 2006 (CONAMA, 2006), abriu
a possibilidade de, mediante autorização
do órgão ambiental competente, uma vez
caracterizada a utilidade pública ou o inte-
resse social, implantar e praticar de forma
racional e com base científica o manejo
agroflorestal sustentável da área, desde
que não descaracterize a cobertura vegetal
nativa e nem impeça a sua recuperação ou
prejudique a função ecológica da área. Esta
resolução poderá proporcionar um avanço
na recuperação de áreas degradadas sem
agravar os problemas sociais frequen-
temente encontrados entre as pequenas
propriedades rurais especialmente as de
Figura 3 - Representação da largura da faixa de Mata Ciliar a ser preservada com rela- agricultura familiar.
ção à largura do curso d’água
FONTE: Paraná (200-).
RESTAURAÇÃO FLORESTAL
A restauração florestal da paisagem
tórios artificiais (represas), medidos a partir diferenciados para as questões relativas à pode ser definida como:
do nível máximo da água em: água em seus limites territoriais. Entretan-
Um processo planejado que almeja
a) 30 m para reservatórios artificiais to, todas as novas leis são mais restritivas. recuperar a integridade ecológica e
situados em áreas urbanas conso- No estado do Mato Grosso, a Lei Comple- melhorar o bem-estar humano em
lidadas e 100 m para reservatórios mentar no 38, de 21 de novembro de 1995 ambientes perturbados ou degradados.
situados em áreas rurais; (MATO GROSSO, 1965), entre outras O conceito de restauração florestal
b) 15 m para reservatórios artificiais de alterações, aumenta para 50 m o limite para uma escala de paisagem emerge
geração de energia elétrica com até mínimo da faixa de vegetação natural a em parte do reconhecimento que a
10 ha, sem prejuízo da compensação ser mantida em cada margem dos cursos degradação ecológica foi tão avançada
ambiental; d’água com até 50 m de largura e 100 m em alguns lugares que a efetiva conser-
vação requer restauração. (DUDLEY;
c) 15 m para reservatórios artificiais de raio no entorno das nascentes.
ALDRICH, 2007).
não utilizados para abastecimento Como neste exemplo, muitas outras
público ou geração de energia elé- medidas foram adotadas em diferentes As ações antrópicas podem levar um
trica, com até 20 ha de superfície e regiões, a fim de aperfeiçoar o processo ecossistema a basicamente duas condições
localizado em área rural. de preservação ambiental no entorno (BROWN; LUGO, 1994):
Em muitos Estados, foram editadas das fontes e cursos d’água. Mas muitas a) estado de perturbação: refere-se à
outras leis que estabeleceram critérios leis foram e continuam a ser criadas sem área onde pode ocorrer determinado
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distúrbio e manter, ainda, a possibi- ser diferente de sua condição original. TÉCNICAS PASSÍVEIS DE USO
lidade de regenerar-se naturalmente (BRASIL, 2000). NA RECUPERAÇÃO DE MATAS
ou estabilizar-se em outra condição, CILIARES
Trata-se de retornar às condições de
também dinamicamente estável. Há diversas técnicas para recomposi-
funcionamento, pois objetiva recuperar
Neste caso, fala-se em área pertur- ção e recuperação de Matas Ciliares, dentre
a estrutura (composição em espécies e
bada. Quando o distúrbio é pequeno, elas serão destacadas algumas.
complexidade) e as funções ecológicas
a intervenção para recuperação pode
(ciclagem de nutrientes e biomassa) do
consistir apenas em iniciar o proces- Regeneração natural
ecossistema.
so de sucessão; É uma técnica de resultados a longo
Da capacidade de reação dos ecossis-
b) área degradada : locais onde o temas aos distúrbios, derivam os conceitos prazo que ocorre de forma gradual com
impacto pode impedir ou restringir de: pouca ou nenhuma intervenção antrópica
drasticamente a capacidade de o após a eliminação do fator promotor da
a) resiliência: é a capacidade de um
ambiente retornar ao estado origi- degradação. A recuperação ocorre em eta-
ecossistema se recuperar de flu-
nal, ou ao ponto de equilíbrio pelos pas sucessivas começando pela presença
tuações internas provocadas por
meios naturais, ou seja, reduz sua de espécies pioneiras, cujas principais ca-
distúrbios naturais ou antrópicos.
resiliência. racterísticas são: maior rusticidade e ciclo
Um ecossistema é estável, quando relativamente curto. Essas espécies criam
Como em áreas degradadas, há vários reage a um distúrbio, absorven- as condições iniciais de sombreamento a
impactos de diversas ordens. Portanto, do o impacto sofrido sem sofrer partir do qual se instalam outras que as su-
deve-se analisar cada caso separadamente, mudanças, e ajustando-o aos seus cedem e aumentam a diversidade ecológica
adotando as estratégias de reabilitação, processos ecológicos; (KAGEYAMA et al., 1989; BARBOSA
restauração e/ou recuperação. Várias es-
b) estabilidade: os ecossistemas pas- et al., 1992; MACEDO et al., 1993 apud
tratégias podem ser propostas, mas o pri-
MARTINS, 2007).
meiro passo consiste em identificar o fator sam a ter sua estabilidade compro-
Esta técnica pode levar a resultados sa-
degradante da área. Uma vez identificado, metida a partir do momento em que
ocorrem mudanças drásticas no seu tisfatórios, se a degradação não estiver em
esse fator deve ser eliminado, e deve-se,
estádios muito avançados. Sua principal
ainda, evitar sua reincidência. regime característico, e quando as
vantagem é o baixo custo e a adequação
Pode-se propor a reabilitação da área, flutuações ambientais ultrapassam
das espécies ao ambiente já que a seleção
atribuindo-lhe uma função adequada ao seu limite homeostático. Como
destas é feita pelo próprio ambiente. Em
uso humano e restabelecendo suas princi- consequência, sua resiliência dimi-
casos especiais podem ser necessárias
pais características, conduzindo-a a uma nui, assim como a sua resposta a
pequenas intervenções antrópicas, princi-
situação alternativa e estável. novos distúrbios, podendo chegar
palmente em regiões de grande ocorrência
A restauração objetiva conduzir o a um ponto em que o ecossistema
de espécies trepadeiras ou gramíneas
ecossistema à sua condição original. É entra em colapso com processos ir-
invasoras muito agressivas. Neste caso,
considerada uma hipótese remota e até reversíveis de degradação (ENGEL,
a intervenção seria apenas para controlar
mesmo utópica, uma vez que há falta de PARROTA, 2003). A estabilidade o excesso dessas espécies limitando seu
informações sobre a situação original, máxima, característica do clímax, potencial de impedir o desenvolvimento
podendo ter ocorrido extinção de espécies é resultante da interação entre um de outras espécies arbustivas e arbóreas
e alterações na comunidade e em sua es- grande número de espécies. Assim, naturalmente encontradas no local.
trutura no decorrer da sucessão, além da uma perturbação que ocorra num A maior desvantagem desse método é
indisponibilidade de recursos financeiros ambiente com poucas espécies o longo tempo necessário para que ocorra
para tal (BARBOSA; MANTOVANI, afetará a quase totalidade destas a recuperação. Além disso, há necessidade
2000; RODRIGUES; GANDOLFI, 2001). espécies. Se o ambiente tiver um de uma condição de degradação limitada
Recuperação é um termo corriquei- grande número de espécies, esta já que estádios muito avançados de de-
ramente utilizado como sinônimo de mesma perturbação afetará apenas gradação podem impedir o repovoamento
reabilitação e restauração. A recuperação algumas espécies. As demais assu- da área.
da área visa à: mem o papel desempenhado pelas
espécies agredidas, mantendo, por- Nucleação
Restituição de um ecossistema ou de
uma população silvestre degradada a tanto, a resiliência ou a estabilidade Técnica que consiste em recuperar a
uma condição não degradada, que pode desse ecossistema. Mata Ciliar a partir de ilhas formadas por
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pequenos blocos de matas remanescentes tradas nos núcleos remanescentes ou outras fator seja considerado: no núcleo inicial
ou por árvores isoladas que se expandem áreas de microbacia com características devem predominar as espécies pioneiras.
para áreas onde cesse o processo de degra- semelhantes. Em áreas de degradação mais As espécies intermediárias e clímax podem
dação (REIS et al., 1999 apud MARTINS, recente, onde ainda haja banco de sementes ser implantadas mais tarde ou distribuídas
2007). disponível, a abertura de pequenos sulcos entre as pioneiras. A escolha de uma ou
Aplica-se a áreas de maior extensão, pode facilitar a germinação das sementes outra forma vai depender da praticidade
onde ainda restam pequenos talhões de existentes. na execução e das características das espé-
mata preservada, a partir dos quais a A evolução florística em uma área cies escolhidas. Também é indispensável
regeneração acontece. Pode também ser degradada obedece a uma sucessão de à instalação de núcleos que atendam às
obtida por meio de talhões de vegetação, espécies com características particulares diferentes características da área: se há
implantados artificialmente. Em geral (Quadro 2). Inicialmente, desenvolvem- variações nos níveis de encharcamento do
apresenta características semelhantes à se as espécies pioneiras, em geral mais solo, os núcleos devem ser distribuídos nos
regeneração natural, porém com tendência rústicas, altamente tolerantes à insolação diferentes níveis, sendo usadas espécies
a promover uma recuperação mais rápida e com ciclo de vida mais curto. A seguir, apropriadas a cada situação (CARVALHO
que a espontânea por causa do banco de desenvolvem-se espécies de características et al., 2005).
sementes disponível a partir desses blocos. intermediárias e, por fim, as chamadas A seleção de espécies para nucleação
Tanto na nucleação, como na regenera- espécies clímax, que requerem sombra na ou formação de Mata Ciliar é uma etapa
ção natural, podem-se adotar práticas auxi- fase inicial de desenvolvimento e depois decisiva no seu processo de recuperação.
liares que visam apressar a regeneração da adquire tolerância à insolação e desenvol- Martins (2007) apresenta uma extensa ta-
área degradada. Um exemplo destas práti- vem grandes copas na fase adulta (MEYER bela com as características das principais
cas é a distribuição ao acaso de sementes et al., 2004). Na implantação de núcleos espécies nativas encontradas nas Matas Ci-
de espécies arbóreas ou arbustivas encon- de regeneração é imprescindível que este liares brasileiras. Além das características

QUADRO 2 - Resumo das principais características das espécies pioneiras, secundárias e climáticas
Secundárias
Características Pioneiras Climáticas
Iniciais Tardias
Tamanho e quantidade de Pequenas. Grande Pequenas. Grande Indefinido. Depende da Grande. Pequena
sementes e frutos quantidade quantidade espécie quantidade

Viabilidade das sementes Longa. Latentes no solo Longa. Latentes no solo Média. Curta Curta

Disseminação das sementes Fauna e vento Fauna e vento Fauna e vento Fauna e vento

Ciclo de vida Curto (1 a 8 anos) Curto/Médio Médio/Longo Longo


(5 a 15 anos) (20 a 50 anos) (Acima de 100 anos)

Altura dos indivíduos 4a8m 12 a 20 m 20 a 30 m (alguns até 35 a 45 m


50 m) (alguns até 60 m)

Tempo para atingir altura Meses Meses/anos Anos Acima de 10 anos


máxima

Colonizam Qualquer área Grandes clareiras Pequenas clareiras Áreas sombreadas

Necessidade de luz Muita luz Variável Variável Sombra/jovem


Luz/adulta

Número de espécies na 1a5 1 a 40 30 a 60 Acima de 100


comunidade

Presença de epífitas Ausente ou Pequena quantidade Presente Grande quantidade


eventualmente musgo e
liquens
FONTE: Barbosa e Martins (2003).

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84 Revitalização de nascentes para produção de água

descritas, outros fatores podem contribuir ambientais, mediante apresentação de de desenvolvimento. Este sistema racio-
para o alcance dos objetivos propostos na projeto específico que atenda aos critérios naliza o manejo da Mata Ciliar, reduzindo
implantação de Matas Ciliares. Além da constantes do Anexo II dessa Resolução. custos de limpeza da área e com controle
necessidade da diversidade de espécies já Esses sistemas contemplam diferentes de formigas indispensável nos primeiros
destacada, é importante que as escolhidas alternativas de manejo da área, dentre os anos. Este sistema é viável por até dois a
sejam atrativas à fauna, encontrando-se quais destacam-se o Sistema Silviagrícola, três anos após a implantação de floresta
no conjunto delas, frutíferas nativas que o Sistema Silvipastoril (SSP) e o Agros- nas áreas ciliares.
atrairão e darão condições de sobrevivên- silvipastoril (Fig. 4). O Sistema Silviagrí- O sistema em caráter permanente é per-
cia à fauna nativa que por sua vez auxilia cola pressupõe a exploração de culturas mitido em até 2/3 da faixa de Mata Ciliar
na disseminação da flora (BENEDITO- agrícolas intercaladas nas entrelinhas das e, geralmente, é destinado à exploração
CECÍLIO et al., 2004). espécies florestais, cujas linhas devem de culturas permanentes não madeireiras
ser ocupadas por espécies diversificadas como a seringueira, cacau, palmito, frutí-
Sistemas agroflorestais pertencentes aos grupos das pioneiras, feras nativas, etc. Neste sistema, em caso
Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) intermediárias e clímax. O SSP consiste de cursos d’água com até 10 m de largura,
compõem certamente, o meio mais racional na exploração pecuária em APP e o Agros- nos quais a faixa de Mata Ciliar obrigató-
e fácil de ser adotado na recuperação de silvipastoril visa integrar a recuperação ria é de 30 m, os primeiros 10 m da faixa
APPs em pequenas propriedades, onde a florestal, a agricultura e a pecuária numa próxima ao córrego devem ser mantidos
exploração agrícola da área é o principal mesma área. obrigatoriamente com Mata Ciliar diversi-
meio de sobrevivência do proprietário. Ambos os sistemas podem ser adotados ficada e não manejada. Nos 20 m restantes,
De acordo com a Resolução Conama em caráter temporário em toda a APP ou utiliza-se uma dessas culturas de ciclo
o
n 369, de 28/3/2006 (CONAMA, 2006), em caráter permanente em parte da APP. perene com fins de exploração comercial
os SAFs são permitidos em APPs, inclusive Quando em caráter temporário em não madeireiro. Pode, ainda, na entrelinha
Matas Ciliares localizadas em pequenas área total, o sistema visa diluir os custos dessa cultura, ser explorada alguma planta
propriedades ou posses rurais caracteri- da recuperação da área, racionalizando o medicinal ou com fins apícolas ou, ainda,
zadas como familiares, desde que sejam manejo, e consiste basicamente no plantio com fins forrageiros.
ambientalmente sustentáveis e apresentem de culturas agrícolas nas entrelinhas das Convém ressaltar que os SAFs visam
licença especial concedida por órgãos espécies florestais em seus estádios iniciais dar oportunidade à diversificação da pro-
dução na pequena propriedade, permitindo
uma melhoria de vida ao produtor, mas de-
vem priorizar a restauração da Mata Ciliar
e o alcance de seus objetivos ecológicos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A recuperação das Matas Ciliares é
incontestavelmente importante, mas as
questões que a envolvem são de natureza
complexa e de diferentes interesses, os
quais implicam uma legislação criada
sem embasamento técnico, o uso do solo
consolidado, a área base de subsistência
do agricultor, os recursos naturais, a biodi-
versidade, ambientes urbanos e rurais etc.
Isso tudo torna a recuperação das Matas
Ciliares um desafio para ambientalistas,
Marcos Antonio Gomes

técnicos, pesquisadores, legisladores,


gestores e usuários.
AGRADECIMENTO
À FAPEMIG pelo financiamento das
Figura 4 - Sistema Silvipastoril (SSP) com eucalipto e braquiária na região de Viçosa, MG pesquisas e pelas bolsas concedidas.
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Revitalização de nascentes para produção de água 85

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86 Revitalização de nascentes para produção de água

Sustentabilidade do eucalipto e confrontos


com os recursos hídricos
Vanessa Pataro Maffia 1
Maria Cristina Martins 2
Wellington Avelar de Souza Silva 3
Camila Soares Braga 4

Resumo - O crescimento populacional e o desenvolvimento mundial têm ocasionado


impactos ao meio ambiente, tornando escassos os recursos naturais. Esses impactos so-
bre os recursos hídricos são uma grande preocupação. Os plantios de eucalipto são co-
mumente questionados sobre a perda de nutrientes do solo e da qualidade e quantidade
das águas. Sabe-se que todas as culturas utilizam água do solo para seu crescimento e
que o eucalipto, sendo uma floresta, é capaz de gerar ganhos no ciclo hidrológico por
meio da interceptação pela copa, melhorando a infiltração das águas, estruturando os
solos, diminuindo o escoamento superficial, etc. O planejamento e a adoção de práticas
sustentáveis para cultivos são de suma importância para manutenção do ecossistema,
conservação dos recursos naturais e do solo, atrelados ao aumento da produtividade.
Neste contexto, surge a bacia hidrográfica como unidade ideal de planejamento, por
ser capaz de interagir as características geomorfológicas, como forma, relevo e tipo da
cobertura vegetal existente, com os processos hidrológicos.

Palavras-chave: Hidrologia florestal. Bacia hidrográfica. Reflorestamento. Cobertura vegetal.

INTRODUÇÃO do uso descontrolado pela população mun- e precipitação garantem sua continui-
dial. Uma das maiores preocupações é com dade, porém sua permanência e sua
O crescimento demográfico e o desen-
a falta de água, por ser um recurso natural disponibilidade dependem de inúmeros
volvimento socioeconômico são frequen-
de fundamental importância para os seres fatores, como, por exemplo, o manejo
temente acompanhados pela degradação
descontrolada e pela transformação do uso vivos. Sua escassez tem-se tornado evi- e as práticas adequadas de uso do solo.
da terra, influenciadas pelo aumento das dente em diversas regiões e vem gerando Sendo assim, os desmatamentos e a utili-
necessidades humanas, expansão agrícola discussões sobre alternativas que garantam zação inadequada do solo podem causar
e falta de gestão ambiental. Os impactos da sua disponibilidade a longo prazo. Em diminuição da precipitação local, da
perda e da degradação das florestas apresen- função disso, diversos estudos vêm sendo infiltração de água e do estoque de água
tam-se na forma de erosão do solo, perda realizados, com o intuito de minimizar os subterrânea, causando a erosão dos solos
da diversidade biológica, danos aos hábitats impactos sobre os recursos hídricos. e o assoreamento dos corpos d’água, além
silvestres, degradação dos mananciais, de- A retirada da cobertura vegetal gera da alteração na vazão dos cursos d’água.
terioração da qualidade de vida e redução impactos no ciclo hidrológico, apesar de Neste contexto, diversos autores
das opções para o desenvolvimento. a água ser recurso natural renovável. O (SCHETTINO et al., 2000; LEÃO, 2000;
Sabe-se que os recursos naturais estão ciclo hidrológico é um fenômeno cíclico, JUVENAL; MATOS, 2002; CARRIELO;
cada vez mais escassos, em consequência em que processos de evapotranspiração VICENS, 2011) citam o gênero Eucaliptus

1
Enga Florestal, M.S. Ciência Florestal, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil-CNA, CEP 70830-903 Brasília-DF. Correio
eletrônico: vpmaffia@yahoo.com.br
2
M.Sc. Ciência Florestal, Pesq. UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: leteminas@hotmail.com
3
Graduando Engenharia Florestal UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: tomavelar@hotmail.com
4
Enga Florestal, Mestranda Ciência Florestal UFV, CEP 36570-000 Viçosa-MG. Correio eletrônico: camilasbraga@yahoo.com.br

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Revitalização de nascentes para produção de água 87

como um meio de diminuir a pressão sobre tem tudo a ver com a tão sonhada susten- zida e maior consumo de água. Porém,
o desmatamento das florestas nativas, tabilidade social e econômica. os consumos dos eucaliptos não diferem
viabilizando a produção de madeira para As práticas para minimizar os impac- dos pinhais ou mesmo de qualquer outra
atender às necessidades da sociedade em tos das culturas vêm sendo utilizadas em floresta nativa (CELPA, 2006). Ou seja,
bases sustentáveis. Hoje, o Brasil pos- áreas de bacias hidrográficas, locais for- os benefícios que a floresta plantada traz,
sui cerca de 5,5 milhões de hectares de mados por divisores de água, onde ocorre ao gerar oxigênio, sequestrar gás carbô-
plantações de eucalipto, os quais ocupam a captação da água de chuva (drenagem) nico, evitar enxurradas, regular os fluxos
posição de destaque no cenário econômico para um rio principal e seus afluentes, hídricos, melhorar a qualidade das águas
brasileiro, sendo a eucaliptocultura uma sendo, portanto, uma área com caracterís- dos rios, minimizar a erosão dos solos,
das mais importantes atividades do agro- ticas geográficas e topográficas ideais para fornecer madeira para a sociedade, são
negócio do País. planejamentos dessas atividades. Bacias contrabalanceadas por um maior consu-
É um gênero que ainda gera grandes hidrográficas constituem ecossistemas mo anual da água de chuva, em relação a
debates acerca dos possíveis danos ao adequados para avaliação dos impactos uma pastagem ou a uma área de Cerrado.
meio ambiente, especialmente aqueles causados pela atividade antrópica. São Como medida adicional de segurança,
relacionados com o consumo de água unidades naturais e apresentam carac- para prevenir potenciais efeitos hidrológi-
e o esgotamento de nutrientes do solo terísticas próprias, as quais permitem cos, sugere-se evitar o plantio de florestas
(ALMEIDA; RIEKERK, 1990). Estes utilizá-las para testar os efeitos do uso da produtivas de eucaliptos em áreas onde
segmentos da sociedade questionam o terra nos ecossistemas. a precipitação total de chuvas ao longo
cultivo do eucalipto e acreditam que as Com relação ao comportamento hi- do ano seja menor que 1.000 mm. Caso
plantações prejudicam a bacia hidrográfi- drológico, a bacia é uma área onde ocorre haja intenção disso, em regiões de índices
ca e degradam a paisagem como um todo, interação de suas características geomor- anuais de chuva entre 800 e 1.000 mm ao
principalmente quanto às características fológicas, como forma, relevo e tipo da ano, recomenda-se cuidadoso estudo de
hidrológicas originais. Basicamente, o cobertura vegetal existente. Assim, estas impacto ambiental para conhecer, avaliar,
efeito visível do consumo de água é co- características físicas e bióticas demons- quantificar, decidir e mitigar as consequên-
mum em qualquer tipo de plantação, em tram um importante papel nos processos cias negativas (FOELKEL, 2007).
níveis variados, dependendo da espécie do ciclo hidrológico, influenciando, dentre O cultivo do eucalipto não tem a capa-
plantada. As florestas nativas consomem outros, a infiltração e a quantidade de água cidade de secar os mananciais, pois a água
água dos mananciais e do solo, contudo tal produzida como deflúvio, a evapotrans- que utiliza é proveniente de uma camada
questão persiste sobre o eucalipto, visto piração, os escoamentos superficial e mais superficial do solo (KRUGER, 2009),
que esta espécie causa muita polêmica no subsuperficial. e a recarga dos lençóis freáticos é perfeita-
meio social (OLERIANO; DIAS, 2007). Um dos mecanismos utilizados para mente gerenciável, por meio de bons pla-
O conhecimento científico costuma ca- avaliar os impactos ambientais no setor nejamento e manejo florestal, das práticas
minhar a passos lentos e toda polêmica é florestal, relacionados com a manuten- silviculturais e do desenho do complexo
saudável, quando serve para esclarecer, ção da produção de água em quantidade ecológico florestal (FOELKEL, 2007).
elucidar e, sobretudo, gerar dúvidas que, e qualidade, têm sido o monitoramento Ressalta-se que as florestas plantadas,
por sua vez, geram pesquisas e novos ambiental por meio da instrumentação de manejadas de forma correta, podem ser
conhecimentos (MEDEIROS, 2006). microbacias hidrográficas experimentais menos impactantes do que quaisquer outras
Preconceitos, porém, não combinam com (MOSCA, 2003). culturas intensivas, entretanto, precisam
ciência e muito menos com ensino. A pro- estar em harmonia com as prioridades
dução de madeira pela floresta plantada EUCALIPTO E AS RELAÇÕES ecológicas e sociais da região (POGGIANI
COM O CONSUMO DE ÁGUA et al., 1998). Diante desse manejo, o cul-
de eucalipto tem como benefício a dispo-
nibilização de matéria-prima para que a Reflorestamentos com eucalipto tivo do eucalipto irá proporcionar efeitos
própria sociedade utilize produtos consi- ainda é um assunto polêmico, no que benéficos às propriedades físicas do solo
derados indispensáveis ao seu bem-estar: diz respeito ao consumo de água e sua que influenciam diretamente no ciclo
papel, carvão, lenha, móveis, habitações, relação com a produtividade. O eucalipto, hidrológico.
alimentos, óleos essenciais, etc. Ao obter como todas as espécies de crescimento Anos atrás, utilizava-se muito da
madeira de plantações, a sociedade não rápido, tem uma elevada capacidade de queima das áreas para limpeza, revol-
consumirá madeira de matas naturais, adaptação bioclimática. Se existir água vimento do solo para os plantios, como
como era o modelo extrativista do passado em abundância, haverá mais madeira por aração e gradagem. Hoje, sabe-se que
(FOELKEL, 2007). O eucalipto, portanto, unidade de tempo, mais biomassa produ- estas práticas induzem à compactação e à
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erosão do solo, não sendo mais utilizadas. QUADRO 1 - Consumo de água em milímetros anuais por diferentes culturas
Os novos preparos como subsolagem e Consumo de água/ano
Cultura
plantio direto vêm promovendo uma (mm)
grande diminuição dos impactos nas áreas Cana-de-açúcar 100 - 2.000
de plantios.
A presença do piso florestal protege a Café 800 - 1.200
superfície do solo dos impactos das gotas
de chuva, dos efeitos de radiação solar e Citros 600 - 1.200
do vento, aumentado sua superfície ativa,
contribuindo para a manutenção da umida- Milho 400 - 800
de no solo. A distribuição e as quantidades
de raízes promovem a estruturação do Feijão 300 - 600
solo, aumentando a infiltração e o aporte
de água no lençol freático, diminuem o Eucalipto 800 - 1.200
escoamento superficial das águas e, conse- FONTE: Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (2003).
quentemente, o risco de erosão. A ausência
de práticas edáficas e vegetativas contribui
para a evaporação da água do solo e causa QUADRO 2 - Comparação entre o consumo de água e produção de biomassa do eucalipto
o secamento da sua camada superficial. e outras culturas
O conhecimento das características do Eficiência no uso da água
Cultura
solo, como textura, estrutura e tipo de (L/kg)
cobertura vegetal presente, é importante Batata 2.000
para determinar o tipo de prática edáfica
e vegetativa, o qual deve ser trabalhado Milho 1.000
no local.
Nas florestas de eucaliptos, a grande Cana-de-açúcar 500
maioria das raízes finas está nos primei-
ros 30 cm de profundidade do solo. Isso Eucalipto 350
significa que as árvores buscam sua água FONTE: Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (2003).
e nutrientes mais na superfície do solo
e não no lençol freático profundo. Até
mesmo porque as raízes das plantações BACIA HIDROGRÁFICA imaginária que acompanha as maiores al-
de eucaliptos jovens são relativamente titudes, local e topos de morros, separando
Segundo Tonello (2005), o termo bacia
superficiais e estão, em geral, localizadas uma bacia da outra (TONELLO, 2005).
hidrográfica pode ser definido como uma
até 3,0 m de profundidade (FOELKEL, A bacia é definida como um ente sistê-
área de captação natural da água de preci-
mico, pois é onde se realizam os balanços
2007). pitação. Esta água é drenada por ravinas,
de entrada provenientes da chuva e saída de
Estudos com outras culturas impor- canais e tributários, para um curso d’água água através do exutório, permitindo que
tantes, como café, cana-de-açúcar e frutas principal, tendo a vazão uma única saída, sejam delineadas bacias e sub-bacias, cuja
cítricas evidenciam um consumo de água desaguando em curso d’água maior, lago interconexão se dá pelos sistemas hídricos.
semelhante ao observado para o eucalipto ou oceano (Fig. 1). Ainda, segundo Tonello (2005), a
(Quadro 1). A bacia hidrográfica é delimitada por bacia hidrográfica deve ser considerada
Como se pode observar, o consumo dois tipos de divisores e águas: divisor fre- como uma unidade, quando se deseja a
total de água pelo eucalipto encontra-se ático e divisor topográfico. O divisor freá- preservação dos recursos hídricos, já que
entre os mais altos, pelo seu rápido cres- tico é, em geral, determinado pela estrutura as atividades desenvolvidas no seu interior
cimento. Entretanto, o número de litros de geológica dos terrenos, sendo influenciado têm influência sobre a qualidade e a quanti-
água utilizado para a formação de 1 kg de pela topografia, que estabelece os limites dade de água. Sendo assim, a disciplina no
biomassa está entre os menores, mostran- dos reservatórios de água subterrânea, de uso e na ocupação dos solos é o meio mais
do que a espécie é bastante eficiente na onde é derivado o deflúvio básico da bacia. eficiente de controle dos recursos hídricos
produção de biomassa (Quadro 2). Já o divisor topográfico consiste na linha que a integram.
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Revitalização de nascentes para produção de água 89

Nascentes

Foz do rio

Figura 1 - Exemplificação de uma bacia hidrográfica


FONTE: Dados básicos: Stimamiglio (2002).

IMPORTÂNCIA DA mais importante é a manutenção dos recur- recomposição da diversidade e estabeleci-


VEGETAÇÃO NA sos hídricos (AQUINO; VILELA, 2008). mento da flora e da fauna. Portanto, as áreas
MANUTENÇÃO DOS Por causa de sua reconhecida importân- não utilizadas (áreas de preservação) pelas
RECURSOS HÍDRICOS cia, essa vegetação encontra-se protegida empresas de reflorestamento são aquelas
Topos de morros, Matas Ciliares, Flo- pela legislação brasileira (BRASIL, 1965, essenciais à diversidade e à sustentabili-
restas Ripárias, Matas de Galeria, Florestas 2001; CONAMA, 2002) como Áreas de dade da flora e da fauna (NOVAIS, 2006).
Beiradeiras, Florestas Rupícolas e Flores- Preservação Permanente (APPs). Embora protegidas por lei, as Matas
tas Ribeirinhas são os principais termos A presença da Mata Ciliar contribui Ciliares não foram poupadas da degra-
encontrados na literatura para designar para diminuir a ocorrência do escoamento dação ao longo dos anos. Portanto, é
as formações que ocorrem ao longo dos superficial, que pode causar erosão, atua importante que a aplicação da lei seja feita
cursos d’água. Apesar da complexidade no- como barreira física, que regula os processos com base em conhecimentos científicos e
menclatural, para efeitos práticos, o termo de troca entre os ecossistemas terrestres e nas diferentes características dos biomas,
Mata/Floresta Ciliar tem sido amplamente aquáticos (LIMA; ZAKIA, 2000). Além garantindo, assim, a saúde dos córregos e
usado para designar, de forma genérica, disso, reduzem significativamente a possi- rios, a perpetuação da flora e da fauna e a
todos os tipos de formações florestais bilidade de contaminação dos cursos d’água continuidade das atividades agropecuárias,
ocorrentes nas margens dos cursos d’água por sedimentos, resíduos de adubos e defen- que tanto dependem dos recursos hídricos
(MARTINS, 2007). sivos agrícolas, conduzidos pelo escoamento (AQUINO; VILELA, 2008).
As Matas Ripárias desempenham superficial da água no terreno (FERREIRA;
funções ecológicas, sociais e econômicas DIAS, 2004). Consequentemente, conser- INFLUÊNCIA DA COBERTURA
importantes, destacando-se: manutenção vam a qualidade e o volume das águas. VEGETAL NO CICLO
HIDROLÓGICO
dos leitos dos rios, proteção das nascentes, As regiões reflorestadas com eucalipto
conservação do solo contra erosão e empo- são aquelas com maior porcentual de áreas A cobertura florestal possui um papel
brecimento, preservação do patrimônio ge- preservadas (em torno de 50%). Isto não importante dentro do contexto do balanço
nético, manutenção de condições favoráveis acontece com nenhuma outra monocultu- hídrico de um determinado local e pode
à fauna, dentre outros. Entretanto, o papel ra ou pastagens. Ambiente propício para alterar o mecanismo de entrada de água
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e de nutrientes na superfície do solo. O De acordo com Castro et al. (1983), só no que diz respeito ao ciclo hidrológico,
tipo de vegetação exerce influência nos a cobertura florestal atua no ciclo hidro- mas também na elaboração de normas prá-
modelos de deposição e quantidade das lógico e provoca retardamento e redução ticas de manejo florestal com a finalidade
precipitações pluviais que irão alcançar a de sua movimentação em direção aos de manter o funcionamento hidrológico das
superfície (ARCOVA; CICCO; ROCHA, cursos de água, por meio de processos bacias hidrográficas (LIMA, 2008).
2003). de interceptação, infiltração, absorção,
A modificação de uma cobertura flores- transpiração, escoamento superficial e Precipitação
tal decorrente da intervenção do homem percolação. A precipitação é definida em hidrologia
ou do seu desenvolvimento natural afeta O ciclo hidrológico refere-se ao movi- como toda a água da chuva proveniente da
a quantidade de água que chega ao solo e mento da água entre a superfície terrestre atmosfera que atinge a superfície terres-
sua reserva. e a atmosfera, implicando que existam tre. Esta é caracterizada pelas seguintes
Uma das principais influências da transferências contínuas de água de um grandezas: altura pluviométrica, duração,
floresta ocorre no recebimento das chu- estado para o outro, impulsionado pela intensidade e frequência. Dependendo da
vas pelas copas das árvores, onde parte energia solar associada à gravidade e à intensidade, a chuva pode ser determinante
é temporariamente retida pela massa rotação terrestre (TUCCI, 2001). no processo erosivo do solo (OLIVEIRA
vegetal e, em seguida, evaporada para a Dessa forma, o ciclo hidrológico repre- JÚNIOR, 2006).
atmosfera, processo denominado inter- senta os diferentes caminhos que a água Ainda, segundo Oliveira Júnior (2006),
ceptação (ARCOVA; CICCO; ROCHA, circula na natureza (Fig. 2). Esta circulação a precipitação pluviométrica origina-se de
2003). Pelo processo de interceptação, ocorre em três partes do sistema terra: a nuvens formadas pelo resfriamento de uma
a floresta desempenha importante papel atmosfera, a hidrosfera e a litosfera, numa massa de ar que na atmosfera se expande.
na distribuição de energia e de água na profundidade aproximada de 1 km na Basicamente, existem três tipos de eleva-
superfície do solo, o que afeta a distri- litosfera, até cerca de 15 km na atmosfera ção de massa de ar: o convectivo, o frontal
buição temporal e espacial da chuva que (LIMA, 2008). e o orográfico, dando origem às chuvas
atinge sua copa, diminuindo a quantidade Um aspecto importante no ciclo hidro- convectivas, às frontais e às orográficas.
de água da chuva que chega efetivamente lógico é a distribuição da água, em suas Quando a precipitação atmosférica
ao solo (LIMA, 2008). O restante alcança fases e partes, que variam enormemente de atinge a superfície superior da cobertura
o solo por precipitação interna ou pelo um local para outro e ao longo do tempo florestal de uma bacia hidrográfica, torna-
escoamento de água pelo tronco das árvo- (VALENTE; GOMES, 2005). se o elemento básico para os estudos em
res (ARCOVA; CICCO; ROCHA, 2003). Assim, o conhecimento do papel das hidrologia florestal, pois constitui a entrada
A estes dois processos dá-se o nome de florestas sobre os vários aspectos da água (input) do sistema hidrológico (LIMA,
precipitação efetiva. As águas da chuva ao no solo é de fundamental importância, não 2008).
tocarem a cobertura florestal trazem consi-
go elementos minerais e orgânicos que se
encontram na atmosfera e, ao atravessarem
o dossel florestal, podem ser absorvidos
(SOUZA, 2006), contribuindo com uma
maior disponibilidade de nutrientes para
PRECIPITAÇÃO
a floresta. Lima (2008) também informa
EVAPORAÇÃO
que os nutrientes retidos temporariamente ESCOAMENTO
na biomassa são, na medida em que as SUPERFICIAL

folhas e outras partes das plantas caem INFILTRAÇÃO TRANSPIRAÇÃO


RIOS
ao solo, incorporados à serapilheira, que, LAGOS
LENÇOL D’ÁGUA
pela decomposição, libera nutrientes para
ÁGUA EVAPORAÇÃO
o solo. Em outras palavras, esse mesmo SUBTERRÂNEA

autor explica que a disponibilidade de nu-


trientes é um processo dinâmico e, numa OCEANO

bacia hidrográfica, as perdas excessivas de


nutrientes por lixiviação e por erosão po-
dem influenciar não apenas a produtividade
da área, mas também a qualidade da água Figura 2 - Ciclo hidrológico
produzida pela bacia. FONTE: Sperling (1996).

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Revitalização de nascentes para produção de água 91

Escoamento superficial novo evento de chuva, parte da água é Muitas vezes a contribuição das águas
interceptada pela vegetação e parte chega subsuperficiais para o escoamento super-
O escoamento superficial (ES) é fun-
ao solo. ficial, por causa da recarga pela chuva,
damentado nas precipitações, parte da
ocorre, quando a precipitação cessa, em
água que chega ao solo infiltra-se, parte
2 a Fase consequência da baixa velocidade do es-
é retirada pelas depressões do terreno
coamento subterrâneo.
e outra parte é escoada pela superfície. A continuidade da precipitação
Dependendo da intensidade da chuva, a faz com que a capacidade máxima de 3 a Fase
capacidade de infiltração no terreno dimi- retenção da água pela vegetação seja
nui. Seus fatores de influência podem ser O escoamento superficial responde
atingida e, consequentemente, chega ao
de natureza climática, relacionados com a diretamente ao término da precipitação.
solo maior quantidade de água do que na
precipitação, ou de natureza fisiográfica, A evaporação e a infiltração continuam a
primeira fase. Havendo a continuidade da
ligados às características físicas da bacia. retirar água da vegetação e das depressões.
precipitação, a capacidade de infiltração
O ciclo do escoamento superficial está O nível da água que era mais alto, no início
do solo pode diminuir e a água move-se
descrito em três fases: na primeira, o solo da precipitação, estabiliza-se.
como escoamento superficial, em direção
está seco e a reserva de água está baixa;
ao curso d’água. A água infiltrada no solo Infiltração
na segunda, inicia-se a precipitação, ocor-
vai começar a percolar em direção dos Segundo Lima (2008), a infiltração é
rendo a interceptação, infiltração e o esco-
amento superficial; na terceira, o sistema aquíferos subterrâneos. A continuidade a passagem de água da superfície para o
volta ao estado normal, após a precipitação da chuva faz com que o escoamento interior do solo, e a taxa com a qual a água
(UFBA, 2005). superficial ocorra de forma contínua em penetra no solo é variável com o tempo
direção a um curso d’água. O nível do (Fig. 3). Inicia-se alta e, progressivamen-
1a Fase lençol freático poderá subir, fornecendo te, diminui atingindo valor constante.
Após estiagem, a vegetação e o solo uma contribuição extra de água subterrâ- São duas forças responsáveis por esse
estão com pouca umidade, quando há um nea ao escoamento. movimento: a gravitacional e a mátrica.

Infiltração

Água

Zona não Ar
saturada

Partículas do
solo
Nível de água

Água
subterrânea

Zona saturada Partículas do


solo

Figura 3 - Infiltração da água - zona não saturada e zona saturada no subsolo


FONTE: Instituto Geológico e Mineiro (2001).

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Esta última origina-se nos meniscos côn- os aquíferos. Em locais onde o lençol fre- que a taxa de infiltração é tanto maior,
cavos resultantes da interação entre as ático é superficial (zona ripária, planícies quanto maior for a cobertura florestal. É
fases sólida, líquida e gasosa (forças de costeiras, áreas alagadiças etc.), a cobertura também maior em florestas adultas do que
adsorção, coesão e tensão superficial). No florestal provoca, pela evapotranspiração, em florestas mais jovens.
início da infiltração, quando o solo ainda seu rebaixamento. Nestas mesmas áreas, As atividades silviculturais relacio-
se encontra com pouca umidade, a força o corte da floresta pode, frequentemente, nadas com o preparo do solo, o corte e a
mátrica domina o processo e contribui para resultar na subida do lençol freático. Nestas retirada da madeira constituem as causas
a alta taxa de penetração de água no solo. condições de lençol freático superficial, principais de alteração da infiltração. A
Posteriormente, essas forças anulam-se e a com a formação de áreas alagadiças, esta preocupação de manutenção de condições
força gravitacional passa a ser a principal influência da cobertura florestal pode ser ótimas de infiltração, durante essas ativi-
responsável por esse movimento. benéfica do ponto de vista de utilização dades, deve estar centrada na manutenção
A infiltração é influenciada pelo volu- da área. Por outro lado, em situações da integridade do piso florestal.
me de água precipitada, pela intensidade onde o recurso d’água já é naturalmente Monitoramentos realizados em duas
da chuva, pela qualidade da água, pela escasso, a possibilidade da competição, microbacias experimentais localizadas
compactação superficial, pelo uso do pela influência da floresta deve ser ana- no extremo sul da Bahia, uma em área de
solo, pela declividade e pela presença de lisada de maneira mais abrangente. Em mata nativa e outra em área de plantio de
MO, cobertura ou serapilheira. A fase de regiões montanhosas, uma drenagem mais eucalipto, apontam semelhanças no consu-
transmissão depende das características eficiente da água superficial e subsuper- mo de água entre ambas e não validam a
do solo (textura, estrutura, porosidade), ficial limita o armazenamento da água ideia de ressecamento do solo na bacia com
da compactação em profundidade, das subterrânea. A presença da floresta nessas manejo de eucalipto. O último relatório
camadas impermeáveis e da porosidade. regiões é responsável pela manutenção de gerado registrou que o escoamento da água
A depleção é influenciada pela capacidade taxas ótimas de infiltração de água no solo médio-anual da microbacia com eucalipto
de armazenamento com a porosidade e e, consequentemente, de alimentação do foi praticamente igual ao da microbacia
a profundidade do solo e sua saturação lençol freático (LIMA, 2008). com mata nativa. Em relação ao monito-
por água. Ainda, segundo Lima (2008), a infiltra- ramento das variáveis físicas e químicas
ção da água no solo é um processo impor- da água, a análise também demonstrou
MANEJO SUSTENTÁVEL EM tante da fase terrestre do ciclo hidrológico, que existe semelhança entre a microbacia
BACIAS HIDROGRÁFICAS uma vez que determina quanto de água com a floresta nativa e a de eucalipto. Em
REFLORESTADAS
da chuva penetra no solo e quanto escoa termos de indicadores de qualidade da água
O planejamento e a adoção de práticas superficialmente. As atividades de uso da subterrânea, o relatório registra que, nos
sustentáveis para cultivos de eucalipto são terra exercem significativa influência sobre poços piezométricos (que medem o lençol
de suma importância para manutenção do a infiltração. O homem pode modificar a freático), os resultados mostram que pra-
ecossistema, conservação dos recursos capacidade de infiltração dos solos por ticamente não existem diferenças entre as
naturais, conservação do solo, atrelados meio do manejo. A maior meta de um pro- duas microbacias (CIFLORESTAS, 2011).
ao aumento da produtividade. grama de manejo integrado de microbacias Análises e levantamentos do Instituto
Somando a esse planejamento, surge hidrográficas deve ser a manutenção das de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF)
o manejo de bacias como um processo condições ótimas da infiltração. A cober- e da Sociedade Brasileira de Silvicultura
capaz de formular um conjunto integrado tura vegetal é um dos importantes fatores (SBS) revelam que plantações de eucalipto,
de ações sobre o meio ambiente, a estrutura que podem influir sobre esta condição manejadas adequadamente, consomem a
social, econômica, institucional e legal, a superficial do solo. De fato, a presença da mesma quantidade de água que as florestas
fim de promover a conservação e a utili- vegetação e da camada de material orgâ- nativas.
zação sustentável dos recursos naturais, nico (serapilheira, litter) fornece proteção Novais (2006) explica que a profundi-
principalmente os recursos hídricos, que contra o impacto das gotas da chuva, o que dade do perfil do solo é definida, em grande
são ferramentas para o desenvolvimento reduz a compactação e a desagregação. O proporção, pelo volume de água pluvial
sustentável (TONELLO, 2005). chamado piso florestal (serapilheira) cons- que a região recebe (mantendo demais
Pelo fato de o solo florestal apresentar, titui uma das condições principais para a fatores de formação de solo em escalas
normalmente, boas condições de infiltra- manutenção da infiltração. semelhantes). As chuvas que caem ao
ção, as áreas florestadas constituem impor- Artigos científicos (ZAKIA, 1998; longo de milênios sobre uma região talham
tantes fontes de abastecimento de água para SOUZA; FERNANDES, 2000) indicam na rocha o volume de caixa (solo), com a
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Revitalização de nascentes para produção de água 93

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Do exposto, pode-se concluir que um REMOTO, 15., 2011, Curitiba. Anais... São LIMA, W. de P. Hidrologia florestal aplica-
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molhadas durante longo período do ano, CELPA-Associação da Industria Papeleira. FILHO, H. de F. (Ed.). Matas Ciliares: con-
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Por outro lado, em situações onde o re- Ciliares. 2.ed. Viçosa, MG: Aprenda Fácil,
CIFLORESTAS. Pesquisadores afirmam que 2007. 255p.
gime pluviométrico resulta em um período
há semelhança no consumo de água
menor de copas molhadas, este consumo MEDEIROS, L. O eucalipto, felizmente exis-
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94 Revitalização de nascentes para produção de água

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SOUZA, L.C. Dinâmica de nutrientes na pre- Produção tropical de fruteiras
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torado em Ciências Florestal) – Universida-
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ZAKIA, M.J.B. identificação e caracteriza-
ção da zona ripária em uma microbacia Leia e Assine o INFORME AGROPECUÁRIO
experimental: implicações no manejo de
bacias hidrográficas e na recomposição de (31) 3489-5002 - publicacao@epamig.br
florestas. 1998. 99p. Tese (Doutorado em
www.informeagropecuario.com.br
Ciências da Engenharia Ambiental) – Escola
de Engenharia de São Carlos, Universidade
de São Paulo, 1998.

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INSTRUÇÕES AOS AUTORES


INTRODUÇÃO PRAZOS E ENTREGA DOS ARTIGOS
O Informe Agropecuário é uma publicação seriada, periódica, Os colaboradores técnicos da revista Informe Agropecuário devem
bimestral, de caráter técnico-científico e tem como objetivo principal observar os prazos estipulados formalmente para a entrega dos
difundir tecnologias geradas ou adaptadas pela EPAMIG, seus parceiros trabalhos, bem como priorizar o atendimento às dúvidas surgidas ao
e outras instituições para o desenvolvimento do agronegócio de Minas longo da produção da revista, levantadas pelo editor técnico, pela
Gerais. Trata-se de um importante veículo de orientação e informação Revisão e pela Normalização. A não-observância a essas normas trará
para todos os segmentos do agronegócio, bem como de todas as as seguintes implicações:
instituições de pesquisa agropecuária, universidades, escolas federais a) os colaboradores convidados pela Empresa terão seus trabalhos
e/ou estaduais de ensino agropecuário, produtores rurais, técnicos, excluídos da edição;
extensionistas, empresários e demais interessados. É peça importante b) os colaboradores da Empresa poderão ter seus trabalhos excluídos
para difusão de tecnologia, devendo, portanto, ser organizada para ou substituídos, a critério do respectivo editor técnico.
atender às necessidades de informação de seu público, respeitando O editor técnico deverá entregar ao Departamento de Publica-
sua linha editorial e a prioridade de divulgação de temas resultantes ções (DPPU) da EPAMIG os originais dos artigos em CD-ROM ou pela
de projetos e programas de pesquisa realizados pela EPAMIG e seus Internet, já revisados tecnicamente, 120 dias antes da data prevista
parceiros. para circular a revista. Não serão aceitos artigos entregues fora desse
A produção do Informe Agropecuário segue uma pauta e um cro- prazo ou após o início da revisão lingüística e normalização da revista.
nograma previamente estabelecidos pelo Conselho de Publicações da O prazo para divulgação de errata expira seis meses após a data
EPAMIG e pela Comissão Editorial da Revista, conforme demanda do de publicação da edição.
setor agropecuário e em atendimento às diretrizes do Governo. Cada
edição versa sobre um tema específico de importância econômica ESTRUTURAÇÃO DOS ARTIGOS
para Minas Gerais.
Os artigos devem obedecer a seguinte seqüência:
Do ponto de vista de execução, cada edição do Informe Agropecuário
a) título: deve ser claro, conciso e indicar a idéia central, podendo
terá um a três editores técnicos, responsáveis pelo conteúdo da publica-
ser acrescido de subtítulo. Devem-se evitar abreviaturas, parên-
ção, pela seleção dos autores dos artigos e pela preparação da pauta.
teses e fórmulas que dificultem a sua compreensão;
b) nome do(s) autor(es): deve constar por extenso, com nume-
APRESENTAÇÃO DOS ARTIGOS ORIGINAIS
ração sobrescrita para indicar, no rodapé, sua formação e títulos
Os artigos devem ser enviados em CD-ROM ou pela Internet, no acadêmicos, profissão, instituição a que pertence e endereço.
programa Word, fonte Arial, corpo 12, espaço 1,5 linha, parágrafo Exemplo: Engo Agro, D.Sc., Pesq. EPAMIG Sul de Minas, Caixa
automático, justificado, em páginas formato A4 (21,0 x 29,7cm). Postal 176, CEP 37200-000 Lavras-MG. Correio eletrônico:
Os quadros devem ser feitos também em Word, utilizando apenas ctsm@epamig.br;
o recurso de tabulação. Não se deve utilizar a tecla Enter para forma- c) resumo: deve constituir-se em um texto conciso (de 100 a 250
tar o quadro, bem como valer-se de “toques” para alinhar elementos palavras), com dados relevantes sobre a metodologia, resulta-
gráficos de um quadro. dos principais e conclusões;
Os gráficos devem ser feitos em Excel e ter, no máximo, 15,5 cm d) palavras-chave: devem constar logo após o resumo. Não
de largura (em página A4). Para tanto, pode-se usar, no mínimo, corpo devem ser utilizadas palavras já contidas no título;
5 para composição dos dados, títulos e legendas.
e) texto: deve ser dividido basicamente em: Introdução, Desenvol-
As fotografias a serem aplicadas nas publicações devem ser re-
vimento e Considerações finais. A Introdução deve ser breve e
centes, de boa qualidade e conter autoria. Podem ser enviadas em enfocar o objetivo do artigo;
papel fotográfico (9 x 12 cm ou maior), cromo (slide) ou digitalizadas.
f) agradecimento: elemento opcional;
As foto-grafias digitalizadas devem ter resolução mínima de 300 DPIs
g) referências: devem ser padronizadas de acordo com o
no formato mínimo de 15 x 10 cm e ser enviadas em CD-ROM ou
“Manual para Publicação de Artigos, Resumos Expandidos e
ZIP disk, prefe-rencialmente em arquivos de extensão TIFF ou JPG.
Circulares Técnicas” da EPAMIG, que apresenta adaptação das
Não serão aceitas fotografias já escaneadas, incluídas no texto, em
normas da ABNT.
Word. Enviar os arquivos digitalizados, separadamente, nas extensões
já mencionadas (TIFF ou JPG, com resolução de 300DPIs). Com relação às citações de autores e ilustrações dentro do texto,
Os desenhos devem ser feitos em nanquim, em papel vegetal, ou também deve ser consultado o Manual para Publicações da EPAMIG.
em computador no Corel Draw. Neste último caso, enviar em CD-ROM NOTA: Estas instruções, na íntegra, encontram-se no “Manual para
ou pela Internet. Os arquivos devem ter as seguintes extensões: TIFF, Publicação de Artigos , Resumos Expandidos e Circulares Téc-
EPS, CDR ou JPG. Os desenhos não devem ser copiados ou tirados de nicas” da EPAMIG. Para consultá-lo, acessar: www.epamig.br,
Home Page, pois a resolução para impressão é baixa. entrando em Biblioteca/Normalização.

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