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DISPENSACIONALISMO

PROGRESSIVO

Silas Roberto Nogueira

O Dispensacionalismo Progressivo é um movimento dentro do


Dispensacionalismo, um sistema teológico e hermenêutico que surgiu em
meados do século XIX com John Nelson Darby (1800-1882), um ex-clérigo
anglicano que aderiu, e posteriormente tornou-se o líder do movimento
dos “Irmãos” de Plymouth.

O Dispensacionalismo entende que a história está dividida em


“dispensações” ou períodos de tempo nos quais a humanidade é colocada à
prova quanto à obediência a alguma revelação da vontade divina. Segundo
Dr. C. I. Scofield (1843-1921) as dispensações:

se distinguem nas Escrituras por uma mudança no método divino de tratar


a humanidade, ou parte dela, no que se refere a estas duas grandes
verdades – pecado e responsabilidade humana. Cada Dispensação pode ser
considerada como uma prova para o homem natural e termina sempre em
juízo, demonstrando assim o seu completo fracasso. Cinco dessas
dispensações, ou períodos já se consumaram. Estamos vivendo na sexta,
cujo término, segundo tudo faz crer, está para breve. A sétima ou última,
ficará para o futuro – É o Milênio. [1]

Há certa discordância entre os dispensacionalistas quanto a quantas


seriam as dispensações, seguindo o modelo proposto por Scofield, o mais
popular, teremos:

1) Da Inocência – de Adão à sua expulsão do Éden

2) Da Consciência – da expulsão do Éden ao Dilúvio

3) Do Governo Humano- do Dilúvio à confusão de línguas


4) Da Promessa – de Abraão à escravidão no Egito

5) Da Lei – do Sinai à expulsão de Canaã

6) Da Graça – da morte de Cristo até o arrebatamento

7) Do Reino – da Segunda Vinda de Cristo até o Juízo Final.

Para o Dispensacionalismo essa periodização da história é essencial à


correta interpretação da revelação divina dentro das diversas dispensações.

Quanto à hermenêutica, o Dispensacionalismo defende o literalismo


estrito. Diz Charles Ryrie:

Os dispensacionalistas reclamam para si a posição de interpretação literal


na hermenêutica.

E embora não asseverem exclusividade quanto ao método hermenêutico,


dizem que são os únicos que o fazem de modo “consistente”, nas palavras
de Ryrie:

É claro que a interpretação literal não é propriedade exclusiva dos


dispensacionalistas. A maioria dos conservadores concorda com o que
acabamos de dizer. Qual é, então, a diferença entre o uso deste princípio
hermenêutico pelo dispensacionalista e pelo não dispensacionalista? O
dispensacionalista diz usar o princípio norma de interpretação
consistentemente em todo seu estudo da Bíblia. Ainda afirma que o não
dispensacionalistas não o utiliza este princípio em tudo. Admite que o não
dispensacionalista seja literalista em boa parte de sua interpretação
bíblica, mas o acusa de alegorizar ou espiritualizar quando chega na
interpretação da profecia. O dispensacionalista procura ser consistente na
utilização deste princípio e acusa o não dispensacionalista de ser
incoerente em seu uso do mesmo. [2]

A visão dispensacional da história aliada a uma hermenêutica literalista


favorece, segundo o dispensacionalista, uma rígida distinção entre Israel e
a Igreja [3]. Comenta Roy B. Zuck:
Aceitar os termos Israel e Igreja em sentido normal, literal equivale a
conservar sua distinção. Israel sempre significa o Israel étnico, nunca se
confundindo com o termo Igreja, nem as Escrituras jamais empregam
Igreja em substituição ou como sinônimo de Israel. [4]

Assim, para o dispensacionalista, as promessas feitas a Abraão e sua


descendência esperam cumprimento literal no Israel nacional. A Igreja não
foi prevista no Velho Testamento, ela é um parêntese entre a sexagésima e
a septuagésima semanas de Daniel, ela tem uma natureza distinta da de
Israel e Deus tem um programa diferente para ela.

Outra das distinções dispensacionalistas é entre “reino de Deus” e “reino


dos céus”. Para o dispensacionalista, o reino dos céus é judaico, messiânico
e davídico, sua implantação foi suspensa pela rejeição de Israel e será
realizado no milênio. Já o reino de Deus diz respeito à Igreja e é universal e
inclui os que em todas as dispensações se submetem a Deus.

Entre as marcas distintivas do Dispensacionalismo esta a defesa de um


arrebatamento secreto e pré-tribulacional. No Dispensacionalismo a
segunda vinda de Cristo esta dividida em duas fases, a primeira é para a
Igreja, e se dará de modo secreto e antes (pré) da tribulação. A segunda
fase será visível e inconfundível, pois Cristo mesmo, acompanhado dos
seus santos descerá no monte das Oliveiras sete anos após o
arrebatamento, para salvar Israel das mãos dos seus inimigos e instaurar o
Milênio.

Essa nova doutrina com sua ênfase escatológica captou a atenção do povo e
tornou-se muito popular. Tanto Darby quanto seus discípulos, mas
especialmente C. I. Scofield se esforçaram na divulgação do
dispensacionalismo de modo que em poucos anos se tornou tão popular
que em tempos mais recentes foi virtualmente confundido como
“ortodoxia”. Dr. Millard J. Erickson diz que:

Por causa de a ascensão do dispensacionalismo ter sido aproximadamente


paralela àquela do movimento fundamentalista, ficou sendo virtualmente a
teologia oficial do fundamentalismo. Alguns comentaristas praticamente
identificaram os dois. ... Alguns fizeram dele um teste de ortodoxia,
considerando que uma pessoa que não sustenta todos os seus aspectos é
alguém que nega a própria Escritura. Em muitos casos, trata-se de uma
atitude mental total ou coletânea de atitudes. [5]

Dois outros fatores colaboraram para a difusão do Dispensacionalismo e


para que fosse erroneamente tomado como um sinônimo para padrão de
ortodoxia. O primeiro foi o fato de Cyrus I. Scofield ter juntado ao texto
bíblico notas de rodapé que expunham tal ponto de vista. No passado havia
poucas Bíblias com “auxílio” e nem todos podia adquirir um comentário
bíblico, a Bíblia anotada por Scofield era um recurso indispensável,
especialmente para os pregadores leigos. João Alves dos Santos cita
William E. Cox, que diz que:

...se Scofield tivesse colocado suas anotações em um livro separado e não


na própria Bíblia, certamente que seus livros estariam agora, como os de
Darby, ajuntando pó nas estantes. Mas o fato de ter associado o seu nome
ao de Paulo e ao de Pedro, pela audácia de colocar suas notas pessoais nas
mesmas páginas sagradas que trazem os escritos daqueles autores
inspirados, garante-lhe a imortalidade. E, conclui Cox, “na mente de
alguns dos seguidores de Scofield, discordar dele é o mesmo que discordar
de Paulo ou de Pedro”. [6]

O segundo fator da propagação do Dispensacionalismo está no fato de ser


especial e estranhamente propagado pelo movimento pentecostal. Desde
que o movimento pentecostal tem crescido, tem igualmente propagado o
Dispensacionalismo. Muito embora o dispensacionalismo seja
cessacionista ou antipentecostal o movimento pentecostal é,
estranhamente, um dos seus maiores propagadores.

Mas é bom que se diga que o Dispensacionalismo não é monolítico. O


movimento tem sofrido diversas mutações ao longo do tempo. Ethelbert
W. Bullinger (1837-1913), por exemplo, levou o sistema às últimas
consequências e deu origem ao “ultradispensacionalismo” ou
bullingerismo. Segundo Charles Ryrie Bullinger:
em seu esquema dispensacional sétuplo Bullinger tinha duas dispensações
entre Pentecostes e o final da era da igreja. Ele colocou os Evangelhos e o
Livro de Atos debaixo da Lei e começava a dispensação da igreja com o
ministério de Paulo após Atos 28:28. As Epístolas da prisão, portanto,
Efésios, Filipenses e Colossenses – expunham a plenitude da revelação do
mistério da era da igreja. Ele negava também que o batismo em água e a
ceia do Senhor fossem para nossa época. [7]

E dentro mesmo do ultradispensacionalismo, dois grupos podem ser


identificados, um deles mais extremado foi representado por Charles H.
Welch (1880-1967), que achou três dispensações em Atos e por A. E.
Knoch (1874-1965), que via quatro dispensações entre Cristo e o ministério
de Paulo. O segundo grupo, mais moderado, estava ligado à Grace Gospel
Fellowship e Berean Bible Society e teve como nomes mais conhecidos
Cornelius R. Stam, J.C. O’Hair e C. F. Baker. Esse grupo defende a idéia de
que a Igreja começou com o ministério de Paulo, não no Pentecostes, mas
observam a ceia e o batismo.

Alguns ajustes também foram efetuados por aqueles que seguiram a


proposta original de Darby. C. I. Scofield (1843-1921), por exemplo, em
suas notas de rodapé que juntou ao texto bíblico [Scofield Reference Bible]
não seguiu o modelo darbysta de dispensações. Scofield junto com Lewis S.
Chafer (1871-1952), fundador do Seminário Teológico de Dallas,
representam o chamado Dispensacionalismo “clássico”. Até a década de 60
os dispensacionalistas clássicos defendiam a tese de que o plano de Deus
para com Israel era puramente terreno e para a igreja, puramente celestial,
tinham dois modos de salvação [8] [obras no VT e fé no NT] e dois pactos.
Nesse primeiro período os dispensacionalistas haviam enfatizado mais as
próprias dispensações.

No entanto John F. Walvoord (1910-2002), Charles Ryrie, assim como J.


Dwight Pentecost introduziram mais algumas modificações ou revisões, a
partir de 1960. De modo geral, para eles Israel e a igreja se juntarão após o
período milenial, haverá um só modo de salvação em ambos os
Testamentos e um só Pacto. Alguns chamam este período de
“neodispensacionalismo”. A ênfase mudou das dispensações, do primeiro
período, para a defesa [justificação] de que o Dispensacionalismo é fruto
de uma hermenêutica literal.

Na década de 80 um grupo de dentro do Dispensacionalismo começou a


promover algumas mudanças mais significativas no movimento. Mas só
em 1991 é que a nomenclatura “Dispensacionalismo Progressivo” passou a
ser usada numa reunião do Grupo de Estudos Dispensacionais na
Sociedade Teológica Evangélica de Atlanta, Geórgia. O teólogo aliancista
Franklin Ferreira comenta:

As características mais significativas desta revisão do Dispensacionalismo


são a ênfase sobre o caráter progressivo das dispensações e a presente
inauguração das bênçãos escatológicas do reino messiânico, que culminará
no milênio e no estado eterno. [9]

Os principais promotores dessa nova modalidade de Dispensacionalismo


foram os professores Darrell L. Bock, Craig A. Blasing, ambos do
Seminário Teológico de Dallas, e Robert Saucy, do Seminário Teológico
Talbot. Pelo menos três obras expondo essa modalidade de
Dispensacionalismo foram publicadas, Dispensationalism, Israel and the
Church (1992), Progressive Dispensationalism (1993) ambos de Bock e
Blaising e The Case for Progressive Dispensationalim (1993), por Robert
Saucy. No Brasil, a Coleção Debates Teológicos, da editora Vida, tem dois
livros que expõem esse ponto de vista, As Interpretações do Apocalipse,
organizado por C. Marvin Pate e O Milênio, organizado por Darrel L. Bock.

Os dois últimos períodos do Dispensacionalismo têm em comum o fato de


se introduzirem numerosas e significativas revisões ou ajustes ao sistema.
No entanto, no terceiro período esse ajuste foi, digamos, muito mais
radical e isso a ponto de colocá-lo para fora das fronteiras do
Dispensacionalismo, pelo menos na opinião dos Dispensacionalistas
clássicos ou normativos. Como diz Robert L. Thomas:

...o dispensacionalismo progressivo representa uma mudança significativa


nos princípios interpretativos, de forma que o nome “dispensacionalismo”
não se aplica a esse sistema. [10]

Esse ajuste, segundo se pensa, é por conta da aproximação entre teólogos


dispensacionais com a teologia aliancista. Kenneth L. Gentry Jr. declara:

Como o dispensacionalista Feinberg observou há uma década, o


dispensacionalismo está tomando o rumo mais aliancístico, permitindo
uma maior continuidade entre os Testamentos. Como cristão pactual,
aplaudo essa orientação. [11]

Dessa maneira o Dispensacionalismo Progressivo parece representar um


meio termo entre a teologia das alianças [ou reformada] e o
dispensacionalismo. Isso para Charles Ryrie, que faz coro com Robert L.
Thomas, representa “um sistema novo” que não deve ser considerado mais
dispensacionalismo [12].

Vejamos alguns pontos de convergência e divergência entre o


Dispensacionalismo normativo e progressivo.

AS DISPENSAÇÕES

Tanto Dispensacionalistas normativos quanto progressivos entendem a


história dividida em dispensações. Mas os dispensacionalistas
progressivos, segundo Ryrie, entendem que há apenas quatro dispensações
[13] claramente assinaladas na Bíblia diferente do Dispensacionalismo
clássico ou normativo, que postulam pelo menos sete delas. A primeira
dispensação é a Patriarcal, que vai da criação ao Sinai. A segunda,
chamada Mosaica abrange o período que vai de Moisés ao Messias. A
terceira inicia-se com a ascensão e deve durar até a segunda vinda de
Cristo, é a dispensação da Igreja ou da Graça. A quarta é a Siônica que deve
iniciar-se com o Milênio, sendo que o fim deste período áureo deve
representar uma secção na dispensação que prosseguirá para a eternidade.

Além disso, os progressivos definem as dispensações de maneira diferente


da dos normativos como demonstra Ryrie, citando Craig Blaising, um
progressivo:
Não apenas como arranjos diferentes entre Deus e a humanidade, mas
como arranjos sucessivos na revelação e realização progressiva da
redenção. [14]

Em outras palavras, os progressivos entendem que as dispensações são


interligadas, devem ser interpretadas numa perspectiva progressiva cujo
princípio unificador é cristológico, ou seja, sua ênfase está em Cristo e no
entendimento do reino messiânico como “já/ainda não” cumprido.

Charles Ryrie, um dispensacionalista normativo, objeta que não haja uma


dispensação pré-Queda, visto que a tratativa de Deus com os nossos
primeiros pais foi diferente. Depois, entende que uma dispensação que
abarque todas as condições pré e pós Queda e ainda a aliança abraâmica
parece um arranjo “artificial”. Estranha ainda que a segunda dispensação
termine com a ascensão de Cristo e não com sua morte, para ele esse
arranjo foi necessário porque segundo os progressivos, a ascensão
inaugura o reinado do Messias no trono de Davi no céu. Por fim, observa
que a quarta dispensação, subdividida em Milênio e eternidade, e isso
significa que os progressivos entendem o milênio como um reino
intermediário entre o reino davídico já inaugurado e a plenitude do reino
de Deus sobre a nova terra e que a própria eternidade é uma dispensação,
como alguns dispensacionalistas do passado. Assim, para Ryrie, os
progressivos estão mais para o aliancismo que para dispensacionalismo e
comenta que a:

colocação do Milênio e da Nova Terra juntos numa dispensação que


engloba tudo, não é de admirar que um teólogo aliancista, Vern Poythress,
tenha, conquanto reconheça que não fala por todos, concluído que “desde
que somos capazes de tratar a questão da relativa distinção de Israel no
milênio como um problema menor, não restam áreas substanciais de
discórdia entre o dispensacionalismo progressivo e a teologia aliancista.
[15]

Vê-se, pois, que Ryrie insiste em um distanciamento do


Dispensacionalismo normativo por parte dos progressistas.
A HERMENÊUTICA LITERAL

Um dos principais distintivos do sistema dispensacional é a defesa de uma


interpretação literal das Escrituras. Charles Ryrie diz que a interpretação
literal das Escrituras não é propriedade exclusiva dos dispensacionalistas,
mas ao mesmo tempo diz que o Dispensacionalismo normativo é o único
que usa o método literal de modo “consistente”, como já mencionei pouco
atrás. Isso define não só os outros pontos de vista, mas também o
Dispensacionalismo Progressivo como “inconsistente” com a hermenêutica
literal. De fato diz Charles Ryrie:

os dispensacionalistas progressivos estão claramente se distanciando da


hermenêutica coerentemente literal do dispensacionalismo normativo.[16]

Os progressivos são acusados pelos normativos de defenderem uma


hermenêutica “completar”. Robert L. Tohmas assinala:

Se seguir o caminho de seus primeiros defensores, uma abordagem


dispensacionalista progressiva postulará tanto uma compreensão literal
quanto adicional. Referida como “hermenêutica complementar” ou
“método teológico gramático-histórico-literário”, essa abordagem permite
ao intérprete pelo menos duas compreensões do texto: uma gramático-
histórica e outra simbólica ou alegórica. [17]

Para Charles Ryrie tal método é para justificar da concepção “já/ainda


não”:

A fim de dar uma base hermenêutica para determinadas interpretações dos


progressistas (por exemplo, Cristo está agora sobre o trono de Davi no céu,
e a não distinção entre Israel e a igreja) eles introduziram o que chamam
de hermenêutica complementar. Com isso querem dizer que o Novo
Testamento introduz mudanças e avanços; não apenas repete a revelação
do Antigo Testamento. Ao fazer acréscimos complementares, porém, não
coloca em risco as antigas promessas. A mudança não é à custa da
promessa original. A primeira sentença de sua definição abre a porta para
a sua visão “já, mas ainda não” do reino davídico. As últimas duas
sentenças os mantêm não amilenistas. [18]

De fato, a chave hermenêutica do Dispensacionalismo progressivo é o


entendimento da tensão do “já/ainda não”. Diz C. Marvin Pate diz que:

Para um dispensacionalista progressivo, a chave hermenêutica ao


Apocalipse (e, quanto a esse assunto, o NT em geral) é a tensão
escatológica do já/ainda não. [19]

Com isso os progressivos querem dizer que o reino de Deus foi inaugurado,
mas não consumado. Entendem que o “já” é o reinado presente de Cristo
no céu em cumprimento da aliança davídica [assim o trono de Davi e o
trono celeste, onde o Senhor Jesus está à destra de Deus é uma e a mesma
coisa] e o “ainda não” será o seu reinado futuro no Milênio.

A crítica dos normativos aos progressivos é que esse entendimento é fruto


de uma hermenêutica não “consistentemente literal” e representa uma
aproximação ao posicionamento aliancista. Renald E. Showers declara:

Tal perspectiva, em essência, é a mesma dos teólogos aliancistas que se


denominam pré-milenistas históricos. No que diz respeito a isso, o
Dispensacionalismo Progressivo dá um passo na direção da Teologia
Aliancista, afastando-se do Dispensacionalismo tradicional (posição em
que cremos), o qual afirma que nenhum aspecto do futuro Reino de Deus,
predito no Antigo testamento, se encontra presente agora e não se
manifestará até que Cristo volte á terra na Sua segunda vinda após a
grande tribulação. [20]

De fato o conceito “já/ainda não” é partilhado por amilenistas e


especialmente por pré-milenistas históricos [pós-tribulacionistas] e
representa mesmo um distanciamento do Dispensacionalismo clássico ou
normativo. No entanto, esse modo de entender o reino como “já/ainda
não” não é inconsistente com uma hermenêutica literal e pré-milenista,
pois ninguém melhor do que George Eldon Ladd, que era um pré-milenista
histórico, demonstrou isso. Seja como for, o que parece é que esse arranjo
do Dispensacionalismo Progressivo funcionou como um botão ejetor do
movimento de origem.

DISTINÇÃO ISRAEL E IGREJA

O Dispensacionalismo normativo insiste numa distinção rígida entre Israel


e Igreja, que para Ryrie indica se alguém é ou não um dispensacionalista,
diz ele que:

Esta é provavelmente a prova teológica mais básica de uma pessoa ser ou


não dispensacionalista, e sem dúvida é a mais prática e conclusiva. É
inevitável que quem falha em distinguir Israel e a Igreja coerentemente
não terá distinções dispensacionalistas; do contrário daquele que as
distingue. [21]

Pois bem, o arranjo dispensacional progressivo, como já vimos, diminui


consideravelmente essa distinção. Para os progressivos, judeus fiéis do
Velho Testamento e a Igreja do Novo Testamento formam o povo de Deus.
No entanto, Robert Saucy, um progressivo, deixa claro que:

essa unidade fundamental em relação a Deus mediante Cristo não remove


a distinção de Israel como nação especial chamada por Deus... nem define
todo o povo de Deus como sendo Israel, exigindo que a Igreja de alguma
forma seja o “novo Israel”.[22]

Mas os Dispensacionalistas normativos insistem em que essa distinção é


cada vez menos nítida, fruto da sua aproximação com a teologia aliancista.

O que colabora para diminuir ainda mais a distinção entre Israel e Igreja é
que os progressivos também afirmam que o caráter de “mistério” da igreja
(Ef.3:4-6) não significa que não tivesse sido revelado no VT, mas que
apenas não tinha sido realizado, ao contrário do que afirmam os
Dispensacionalistas normativos. No entanto, Robert Saucy, um
progressivo, ressalta

embora concordemos com o não dispensacionalista que o ensino de Paulo


sobre o mistério da Igreja na união de judeu e gentio em Cristo é um
cumprimento das predições do Antigo Testamento, devemos nos apressar
para acrescentar que esses cumprimentos não requerem que
compreendamos todas as profecias relacionadas à salvação e ao reino
messiânicos como sendo ali cumpridos.[23]

Esse modo de entender é resultado de uma posição mediadora entre o


Dispensacionalismo normativo e os não dispensacionalistas, amilenistas e
pré-milenistas históricos.

Ainda sobre a questão da igreja os progressivos não a vêem como um


parêntese, como o Dispensacionalismo normativo. Ryrie diz que o
“dispensacionalismo clássico usa as palavras “parêntese” ou “intervalo”
para descrever a distinção da igreja em relação ao programa de Deus para
Israel (conforme ensinando na profecia de Daniel das setenta semanas, Dn.
9:24-27).[24] Como os progressivos não vêem a igreja como um parêntese,
entendem-na como imersa no conceito de reino, isto é, como uma
inauguração do reino vindouro.

É verdade que os progressivos diminuem consideravelmente a distinção


entre Israel e a Igreja a ponto de torná-la indiscernível e seguindo o
raciocínio de Ryrie, não devem ser considerados a rigor como
dispensacionalistas. Portanto, esse conceito dos progressivos novamente
os lançou fora das fronteiras dispensacionais.

PRÉ-TRIBULACIONISMO E MILÊNIO

Dispensacionalistas normativos e progressivos ainda insistem numa


segunda vinda de Cristo antes da grande tribulação e num reino milenar
literal. Ryrie, no entanto, acusa os progressivos de não darem a devida
atenção a esses aspectos da escatologia. Isso pode muito bem ser um
reflexo do afastamento das bases do Dispensacionalismo normativo.

Embora Charles Ryrie faça um esforço hercúleo para defender um


arrebatamento secreto e pré-tribulacional como fruto de uma interpretação
literal das Escrituras, a fonte de tal ensino dispensacional é sabidamente
extrabíblica. Tal coisa teve origem em um enunciado profético de uma
jovem chamada Elizabeth McDonald, na igreja de Edward Irving, que
Darby, que estava presente junto com outros líderes do movimento dos
Irmãos, aceitou como a voz do Espírito e posteriormente o sistematizou.
Esse fato é mencionado por Dr. Martyn Lloyd-Jones [25], Dr. G. E. Ladd
[26], Dr. M. J. Erickson [27] entre outros respeitáveis teólogos.

Tal “novidade” quando introduzida no movimento dos Irmãos causou certa


polêmica visto que sustentavam inicialmente uma perspectiva pós-
tribulacional, isso levou a contendas que culminaram com a divisão do
grupo.

O fato é que qualquer um que faça um estudo sério do assunto notará que
não há nenhum apoio explícito das Escrituras a essa posição e terá
dificuldades em mantê-la, a não ser é claro que insista em ignorar o
testemunho bíblico e seguir na linha do dispensacionalismo, normativo ou
progressivo.

Mas Ryrie tem razão, os progressivos não dão a devida atenção ao pré-
tribulacionismo, diz ele:

Sem negar o arrebatamento pré-tribulação ou período literal de tribulação,


os revisionistas não dão muita atenção a esses aspectos da escatologia.
Blaising e Bock não tomam oportunidades óbvias de mencionar o
arrebatamento e em um lugar (ao discutir 1 Ts.5) eles dizem apenas que o
arrebatamento “parece que seria pré-tribulacional”.[28]

Na sua exposição do Apocalipse sob a ótica do dispensacionalismo


progressivo, C. Marvin Pate não deixou lugar para um arrebatamento pré-
tribulacional. [[29]] O mesmo aconteceu com Craig A. Blaising, outro
progressivo, que ao tratar do Apocalipse, especialmente do Milênio, fez um
arranjo que desprezou o arrebatamento secreto e pré-tribulacional, um
fato notado por Kenneth L. Gentry Jr,um pós-milenista, que na sua réplica
ao ensino progressivo assinalou:
Onde está o arrebatamento da igreja pré-milenar e pré-tribulacional nessa
“estrutura básica”? Nada no Apocalipse – e especialmente na seção
preferida de Blaising, os capítulos 19-20 – sugerem um arrebatamento. No
melhor dos casos, ele é uma premissa omitida desde cedo no Apocalipse.
[30]

Quanto ao milênio, os progressivos alinham-se como pré-milenistas, mas o


seu milênio tem um sabor menos judaico que o do dispensacionalismo
normativo. Bock declara:

Os progressistas vão um passo além dos pré-milenaristas históricos,


argumentando que o reino milenar antecipa uma estrutura administrativa
em que o Israel nacional assume, novamente um lugar central como o lar
do Messias reinante, em meio às nações que também respondem ao Cristo.
Os progressistas não discutem esse ponto de tal modo a negar a igualdade
fundamental entre judeu e gentio diante dos benefícios da salvação. Assim,
eles falam abertamente, como outros dispensacionalistas o fazem, de um
futuro para Israel nacional entre as nações no milênio. É esse detalhe que
torna dispensacional uma visão pré-milenarista. [31]

Outro ponto importante quanto ao milênio é que os progressistas não são


tão apegados a duração do Milênio quanto os normativos.

É inegável que os dispensacionalistas clássicos consideram o


Dispensacionalismo progressivo como um corpo estranho, e não o veem
com bons olhos. Para os dispensacionalistas normativos, o
Dispensacionalismo progressivo já demonstra ser mais que um
desenvolvimento dentro do ensino do Dispensacionalismo normativo, isso
porque eles consideram as suas mudanças radicais demais. Há um nítido
afastamento do Dispensacionalismo normativo e Walter A. Elwell, fazendo
uma avaliação positiva do novo movimento, pensa que:

esse dispensacionalismo mais novo parece tanto com o pré-milenismo não


dispensacional [histórico] que temos de lutar para ver qualquer verdadeira
diferença. [32]

Mas, muito embora os progressivos tenham aparentemente se livrado da


arrogante alegação de sua consistente literalidade, ainda mantém, mesmo
que tênue, a distinção Israel e Igreja. Além disso, sustentam ainda a
famigerada e extrabíblica doutrina de um arrebatamento secreto e uma
vinda pré-tribulacional. Quanto a isso, me ocorreu o interessante fato
narrado por Harald Schaly sobre Rowland Bingham, antigo editor do
Evangelical Christian e da London Intermission:

Minha esposa pôs a funcionar nosso maquinismo investigativo, quando


perguntou: ”Rowland, donde, na Bíblia, vem a idéia de um arrebatamento
secreto? Eu tenho que ensinar minha classe de moças no domingo
vindouro, sobre a segunda vinda de Cristo, e andei procurando alguma
evidencia bíblica para isso”. E eu, sem hesitar, respondi: 1 Tess.4:14-17.
Ela, porém, disse: “Eu acabei de ler isto, mas parece-me que aí é indicado
que a volta de Cristo e o arrebatamento serão as coisas mais ruidosas,
segundo diz a Bíblia, porque se fala em grande brado, voz de arcanjo e som
de trombeta”. Eu tentei justificar, dizendo que Enoque é tipológico disso,
por ter sido arrebatado ocultamente. A isto ela me deum um “knock-out”
que me abateu: “Rowland, você sabe que não se pode basear uma doutrina
só num caso tipológico”. Estando minha esposa inconformada, eu disse:
“Todos os meus professores afirmaram que o grego faz diferença entre
arrebatamento oculto da Igreja e a manifestação visível de Cristo ao
mundo. A palavra epiphaneia sempre se refere ao retorno de Cristo com
sua igreja, enquanto parousia sempre indica o arrebatamento”. Minha
cara metade, porém, queria conferir este dois termos gregos, e eu tive que
trazer minha Concordância de Young e procurar os textos bíblicos em que
aparecia a palavra parousia, e isto fez estourar a teoria do arrebatamento
secreto tão estrondosamente que me senti envergonhado de ingenuidade
com que havia aceito as tais “autoridades”. [33]

E essa, sem dúvida alguma, pode ser a experiência de qualquer crente que
se disponha a investigar o assunto.

Certamente o Dispensacionalismo progressivo deverá sofrer algumas


reformulações ou ajustes, mas se continuar na atual trajetória dois
caminhos estão à sua frente, amilenismo ou pré-milenismo histórico, mais
provavelmente. Em qualquer uma dessas direções o Dispensacionalismo
progressivo há de livrar-se do peso de sustentar, entre outras coisas, contra
as Escrituras, a tese de uma segunda vinda secreta e pré-tribulacional.
Soli Deo Glória.

Notas:

[1] Manejando bem a Palavra da Verdade, C. I. Scofield, IBR, 1986, p. 18


[2] Dispensacionalismo, ajuda ou heresia, Charles C. Ryrie, ABECAR,
2004, pp.95, 97
[3] Idem, pp.49,50; cf. Dispensationalism Today, Chicago: Moody, 1965, p.
132.
[4] A Interpretação Bíblica, Roy B. Zuck, Vida Nova, 1994, p.276
[5] Opções Contemporâneas na Escatologia, M. J. Erickson, Vida
Nova,1982, p.92
[8] Hermenêutica Avançada, p. 119 – nota de rodapé n.11. Ryrie observa
que a nota de rodapé da Scofield Reference Bible, que dava margem a uma
idéia de dois modos de salvação foi “uma declaração descuidada de
Scofield”, Dispensacionalismo, pp.127 (cf também nota 191 que diz que The
New Scofield Reference Bible eliminou essa nota), 128.
[9] Teologia Sistemática, p. 1110
[10] As Interpretações do Apocalipse, Coleção Debates Teológicos, C.
Marvin Pate, org., Vida, 2001, p. 186.
[11] O Milênio, Coleção de Debates Teológicos, Darrell L. Bock, org., 2005,
Vida, p.201
[12] Dispensacionalismo, pp.196,197
[17] As Interpretações do Apocalipse, p.188
[18] Dispensacionalismo, p.108
[19] As Interpretações do Apocalipse, p. 140
[20] Revista Notícias de Israel, outubro de 2006, p.6
[21] Dispensacionalismo, p.49
[25] As Grandes Doutrinas Bíblicas, Martyn Lloyd-Jones, Vol III, PES,
1999, pp.166,167
[26] The Blessed Hope, pp.36-41
[27] Opções Contemporâneas na Escatologia, M. J. Erickson, p.109
[28] Dispensacionalismo, p.217
[29] As Interpretações do Apocalipse, p.139 segs.
[32] Dispensacionalismo, p.219
[33] O Pré-milenismo Dispensacionalista à luz do Amilenismo, Harald
Schaly, JUERP, 1984, pp.64,65