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A LINGUAGEM POÉTICA NA COMUNIDADE VIRTUAL: UMA OUTRA VOZ

COMO ALTERNATIVA PARA A LINGUAGEM E O PENSAR TÉCNICOS

RESUMO: Neste artigo, trazemos alguns discursos já canônicos sobre as relações entre
tecnologia e sociedade (Heidegger, Marcuse, Leroi-Gourhan, MacLuhan, Habermas, Jonas e
Feenberg), apresentando as visões determinista, funcional, neutra, substancialista e histórico-
crítica da técnica. Focamos a atenção mais pormenorizadamente nas ideias de Heidegger e
Feenberg para propor a inserção da linguagem poética, meditativa e reflexiva na ágora virtual
no sentido de reforçar um pensar menos técnico, imediatista, superficial e pouco engajado que
impera nas redes sociais. Apostamos na figura dos educadores para incentivar uma discussão e
uma problematização sobre tecnologia, linguagem e sociedade, no sentido de criar e expandir
uma comunidade virtual mais democrática e plural em que múltiplas vozes possam emergir.
PALAVRAS-CHAVE: comunidade virtual, democracia radical, tecnologia e linguagem,
linguagem poética e reflexiva, pluralidade de vozes

POETIC LANGUAGE IN THE VIRTUAL COMMUNITY: ANOTHER VOICE


AS ALTERNATIVE TO TECHNICAL LANGUAGE AND THINKING
ABSTRACT: We introduced in this articule some classical discourses (Heidegger, Marcuse,
Leroi-Gourhan, MacLuhan, Habermas, Jonas e Feenberg) about the intesections between
technology and society, presenting the main perspectives through which technology is
perceived, that is, determinism, instrumentalism, substantivism and critical theory. The research
relies mainly on Heidegger and Feenberg’s ideas about technology and language in order to
propose the intervention of poetic and reflective language in the virtual community to reinforce
other type of knowledge, far from a too much technical, superficial and low engaged discourses
that predominate in the social digital web. We believe that professors and teachers may oriented
this discussion about technology, language and society aiming to create and expand a virtual
community more democratic and plural in which multiple voices can emerge and exist.

KEYWORDS: digital community, radical democracy, technology and language, poetic and
reflexive language, plural voices

Se é verdade que o homem, quer saiba ou não,


encontra na linguagem a morada própria de sua
presença, então uma experiência que façamos
com a linguagem, haverá de nos tocar na
articulação mais íntima de nossa presença.
(HEIDEGGER, 2010, p.121)

Introdução
O estudo filosófico, histórico e antropológico sobre as implicações da tecnologia
na sociedade são de data recente, aparecendo mais sistematicamente no século XX.
Heidegger (2004, 2010, 2011) e Marcuse (1979), Leroi-Gourhan (1964), MacLuhan
(1969), Habermas (2009), Jonas (2006) e Feenberg (1999) são alguns dos autores que
têm estabelecido importantes marcos teóricos sobre essa interrelação. Selecionamos
esses autores porque se tornaram clássicos sobre a discussão entre tecnologia e
sociedade nos séculos XX e XXI. Anteriormente a eles, há também outros, por exemplo,
Karl Marx (1986) que em O Capital faz um estudo pormenorizado da Revolução
Industrial e do advento da maquinaria que alterou ideias, modos de vida, e cotidiano do
trabalho apresentando umas das mais importantes discussões sobre técnica e sociedade.
O discurso sobre a técnica também se encontra já na Idade Antiga, havendo muitos
escritos relevantes, sobretudo entre os pensadores gregos. Citamos, a título de
exemplificação, a tragédia Prometeu Acorrentado de Ésquilo que discute a emancipação
humana a partir da técnica, da linguagem, da escrita, do fogo e de outras tecnologias. A
metáfora de Prometeu desacorrentado pela técnica é bastante recorrente nas discussões
sobre os perigos da tecnologia moderna. O discurso bíblico, bastante referenciado em
nossa cultura, sobremaneira em textos literários e filosóficos, é também fonte de saberes
sobre o homem e as técnicas. Nele, ocorrem várias parábolas sobre a técnica e sua
relação positiva ou nefasta para o homem. Nestes últimos discursos avulta,
sobremaneira, a diferença entre a Physis e a Poiesis, aquela independente do homem,
vinculada à natureza, e esta constituindo-se como produção humana exclusiva. No
século XXI, muitos discursos têm surgido – por exemplo, campanhas de intervenção
política feitas pelos movimentos sociais contra o uso de agrotóxicos e transgênicos –
sobre tecnologia e sociedade em decorrência da questão ambiental, bastante ameaçada
pela técnica moderna. Avultam discursos sobre o poder de destruição da técnica
contemporânea caudatária de um paradigma baconiano de domínio sobre a natureza.
Nesse trajeto discursivo, temos que optar por alguns autores, mas cientes de que o
universo de falas, teses, dissertações, ensaios sobre as articulações entre a tecnologia e
sociedade é bastante vasto e complexo.

Com o advento da robótica, da microeletrônica e dos sistemas de informação,


principalmente a informática aplicada a redes de comunicação digital, os discursos
sobre os impactos da tecnologia na sociedade têm crescido quantitativamente.
Entretanto, discursos sobre os impactos da tecnologia digital na linguagem, sobretudo
por um aspecto filosófico, não têm sido tão frequentes. São poucos os estudos nesse
âmbito. Neste artigo, visamos contribuir para esta discussão. O debate assume uma
perspectiva interdisciplinar uma vez que pretendemos pensar a linguagem a partir de um
contexto tecnológico, ou seja, distante das teorias formalistas e lógicas sobre a
linguagem. Tecnologia e linguagem são percebidas em seu caráter ontológico, ou seja,
de formação do ser social, diferenciando-se o homem dos outros animais. Os autores
referidos apresentam visões bastante díspares sobre o universo tecnológico.
Determinismo tecnológico, pensamento tecnicista, sociedade tecnocrática, projeto
nacional e emancipatório para as inovações tecnológicas importadas e radicalização
democrática da tecnologia são discutidos por esses autores e podem, satisfatoriamente,
dar suporte para a discussão sobre tecnologia, sociedade e linguagem, que é destaque
neste artigo.

A tecnologia sempre esteve presente na vida social dos homens (pedra lascada,
fogo, metal, agricultura, pecuária, habitação, escrita, imprensa, robótica, microeletrônica
e comunicação digital são alguns feitos tecnológicos do ser humano) e cada época faz
uma reflexão sobre essa realidade técnica, ora enaltecendo as inovações tecnológicas,
ora desmerecendo-as, ora as tomando como neutras, independentes da volição humana,
ora dependentes e podendo ser alteradas no processo democrático. Objetivando-se
entender como ocorrem essas articulações, é necessário refletirmos sobre como esses
intelectuais concebem e abordam essas interações. Em um primeiro momento,
apresentamos neste artigo de modo bastante sintético como esses autores mais
canônicos problematizam as relações entre tecnologia e sociedade. Em um segundo
momento, priorizaremos o pensamento de Martin Heidegger no que tange às questões
da linguagem técnica, da linguagem poética e da tecnologia a fim de refletirmos sobre
essa intrincada problemática. Também recuperaremos as contribuições de Andrew
Feenberg, no tocante ao uso democrático e plural das TICs – Tecnologias da Informação
e Comunicação, pensando em uma possível saída mais democrática para a ágora virtual.

Martin Heidegger e Herbert Marcuse apresentam visões parecidas sobre o


universo tecnológico, enfatizando-lhe a substancialidade, ou seja, seu caráter poderoso
no sentido de determinar a existência humana. Marcuse, orientado de Heidegger, propõe
uma nova racionalidade não técnica para se fugir das determinações técnicas. O filósofo
da Escola de Frankfurt também aposta no campo estético como uma possibilidade de
reflexão acerca da condição humana de modo mais crítico, afastando-se de um
pensamento unidimensional que tem imperado nas sociedades ocidentais dominadas por
um tipo de racionalidade tecnicista e consumista. Heidegger será trabalhado mais
verticalmente uma vez que aborda a relação entre tecnologia e linguagem, apostando
nesta como saída para uma dimensão técnica dominante e bastante determinística e
redutora. Leroi-Gourhan, antropólogo de bases estruturalista-materiais, apresenta, em
texto que trata da história de longa duração do desenvolvimento do homem, os vários
períodos de evolução humana e suas especificidades tecno-econômicas, demonstrado
que a inovação tecnológica sempre foi uma das constantes na História do homem. Da
pré-história à contemporaneidade, Leroi-Gourhan vai demonstrando o surgimento de
variadas soluções técnicas para atender a diferentes demandas sem, contudo, deixar de
destacar as continuidades e os universais invariantes, a saber: a agricultura, o metal, a
violência, o trabalho, a estratificação social e a inovação técnica. O autor destaca
também a importância da linguagem como produção de interação e sociabilidade entre
os homens tão relevante quanto a técnica. Marshal MacLuhan é um apologista da
técnica e a vê como possibilidade de emancipação humana, entretanto, ignora ou não
percebe as implicações políticas do universo tecnológico em uma sociedade dividida em
classes sociais e desigual. MacLuhan percebe que a tecnologia pode levar a uma aldeia
global, suprimindo desigualdades culturais, mas pouco destaca sobre mudanças
econômicas que poderiam desconcentrar os avanços técnicos que têm beneficiado
apenas os mais favorecidos em nossa sociedade. Para Jürgen Habermas, o mundo da
tecnologia é já colonizado por um pensar técnico que serve ao sistema, neutralizando a
capacidade humana de agir livremente. Somente a partir de uma outra racionalidade, a
da comunicação entre sujeitos esclarecidos e propensos ao diálogo, é que se pode
produzir outra tecnologia que não seja submetida aos imperativos do sistema capitalista
que a tudo e a todos mercantiliza. Hans Jonas propõe outra ética para atual sociedade
tecnológica, enfatizando o caráter deletério da técnica moderna que mais traz desastres
do que benefícios para o homem e o meio ambiente. Jonas sugere outra forma de agir
em relação ao futuro, advogando por mudanças no universo da produção tecnológica a
fim de que o homem que está por vir possa encontrar um planeta habitável. Andrew
Feenberg, professor de Filosofia, parte do estudo minucioso e crítico dos teóricos
referidos e propõe uma democracia radical em que as decisões tecnológicas sejam
tomadas não por peritos exclusivamente, mas por um número cada vez maior da
população. Esta deve, por intermédio de uma alfabetização digital e crítica, tomar
decisões sobre o formato e o desenho técnico da sociedade em prol do ser humano, e
não do capital e da produção, visando somente o lucro de certos setores econômicos. É
apologista das TICs, vendo aí uma grande possibilidade de se instaurar uma autêntica e
moderna ágora virtual para a tomada de posições políticas pelos cidadãos. Sua obra é
relevante em si e também para entendermos os filósofos referidos à medida que
Feenberg parte deles, apresentando uma leitura e problematização verticalizada de todos
os referidos autores e também apresenta uma possível solução para os impasses
técnicos.

De acordo com esses teóricos, podemos afirmar que há uma vinculação estreita e
orgânica entre trabalho e tecnologia à medida que os artefatos e serviços tecnológicos
criados pelo homem são originários de sua capacidade de trabalho no anseio de
produzir, reproduzir, manipular, dominar, ordenar e alterar o ambiente social e natural.
Lendo a obra desses autores, o que vemos é que, no tocante à tecnologia, há quatro
perpectivas já consideradas clássicas e cada uma delas traz implicações éticas e políticas
diversas. A visão neutra e funcional encontra vários adeptos, no entanto, é bastante
questionada pelos pensadores citados. Aqui, a tecnologia não é boa nem má,
dependendo do uso que se faz dela, ou seja, exemplificando-se, uma faca pode partir o
pão para uma celebração quanto ser usada para matar alguém. O seu uso é que leva a
benefícos ou malefícios sociais. Pode-se revolucionar a sociedade politicamente e
continuar empregando o mesmo sistema tecnológico de produção de bens,
entretenimento e cultura. As descobertas científicas e tecnológicas são inerentes ao
sistema produtivo em eterna transformação, indeterminadas por fatores políticos,
ideológicos ou culturais. Nessa perspectiva, oblitera-se que a tecnologia é já uma forma,
uma estratégia e um pensamento técnico que pode submeter os homens a um sistema
dado uma vez que esse sistema é neutro e apenas o seu uso é da alçada humana.
Contrapondo-se a essa visão neutra, há visões substancialistas e deterministas em que
predomina um entendimento de que a tecnologia constitui o ser humano independente
de sua volição. A tecnologia é entendida como um sistema social e cultural da
modernidade e nos forma e enforma, assim como ocorria nas sociedades teocráticas em
que o homem se forjava a partir de um prisma religioso e místico. A sociedade moderna
é tecnocrática e essa estrutura molda o pensamento, a consciência e o ser humano. A
história da tecnologia na era moderna constitui o sujeito moderno, ou seja, um sujeito
tecnológico e tecnocrático. Nessa visão predomina, não raras vezes, um mal-estar em
relação à tecnologia que parece dominar e submeter todos a uma unidimensionalidade, a
uma razão instrumental. A partir desse mirante, a linguagem também é tomada por essa
razão técnica, emergindo como linguagem técnica que antes de emancipar o homem,
aprisiona-o. Heidegger e Marcuse comungam em parte desse mirante. Já a perspectiva
histórico-crítica contrapõe-se a esses dois mirantes, entendendo a tecnologia como uma
práxis social, resultado de escolhas a partir do universo econômico, cultural e histórico.
Em sendo uma construção humana, pode ser alterada, modificada, suprimida e
reorientada. O homem em sociedade constitui a tecnologia e é por ela constituído em
um processo ininterrupto de vir a ser em que as contradições de classe, de cultura, de
etnia e de histórias específicas estão presentes e são estruturantes. Nessa linha, entende-
se a tecnologia em seu eterno devenir a partir da pesrpectiva de um sujeito também em
transformação. Essa postura distancia-se de uma “fetichização” da tecnologia,
parafraseando a crítica de Marx à mercadoria e à falsa idéia de que seu valor é algo
inerente e não externo.
Para esses autores, sem dúvida, a tecnologia é uma vocação humana, existindo
onde quer que o homem necessite driblar a natureza e as intempéries para sobreviver.
Da pedra lascada aos alimentos geneticamente modificados, é sempre o homem
tentando dominar o seu entorno para fugir da morte e das atribulações que a Physis a ele
reserva. A tecnologia assume aí um caráter ontológico e constituinte do ser humano.
Sem a tecnologia, o homem não existe e não reproduz ou altera a sua existência.
Entretanto, podemos também destacar o caráter central e constituinte da linguagem,
visto que sem ela o ser humano não poderia se comunicar com os outros,
impossibilitando a produção social de qualquer aparato técnico. Nesse sentido, a
linguagem é também ontológica e constitui o ser social assim como a tecnologia. É esse
caminho que trilhamos neste artigo, discutindo a centralidade da linguagem e da
tecnologia como constituintes do ser social, diferenciando-nos dos demais animais. A
mediação entre o homem e as coisas é dada tanto pela tecnologia quanto pela
linguagem. Não só produzimos artefatos e objetos técnicos, imperando o homo faber,
como também falamos, dissertamos, poetizamos, narramos sobre fatos, coisas, eventos
uns para os outros, constituindo-nos também como homo simbolicus. A linguagem e a
tecnologia, desse modo, são tomadas como formas de se relacionar com o mundo. Nessa
dimensão, acompanharemos mais de perto o filósofo Martin Heidegger, saudosista da
técnica artesanal, crítico da técnica moderna e da linguagem técnica colonizada por esta
e entusiasta da linguagem poética e reflexiva que pode fazer o ser humano pensar mais
meditativamente do que tem feito. Também nos ateremos a Feenberg no sentido de
pensarmos de modo mais plural os discursos na internet e de como podemos constituir
uma comunidade virtual mais democrática.

Martin Heidegger e a saída do saber tecnicista pela via da linguagem poética

Nessa perspectiva, percebemos que a reflexão de Martin Heidegger sobre as


relações entre a técnica e o ser humano apresenta uma possibilidade bastante substantiva
de problematizar a interação entre tecnologia e linguagem. A discussão heideggeriana
sobre essas interações destaca a longa história de formação do homem ocidental,
enredado em um pensamento calculístico em que se procura cada vez mais o controle
sobre todos e tudo. Essa vontade de poder sobre as coisas se exacerba nos dois últimos
séculos em uma sociedade em que se intensifica a criação de aparelhos e artefatos
tecnológicos que procuram controlar o homem e seu entorno. Essa vontade de controle
se dá a partir, inclusive, de uma linguagem técnica que visa denominar, nomear,
classificar, discriminar o mundo, a fim de se apossar desse mundo, objetificando-o e
apaziguando-o. Esse pensamento maquinístico anseia de tudo se apoderar, gerando uma
sociedade tecnocrática mundial em que a taxinomia linguística é o caminho para a
descrição e definição de tudo à imagem do homem. Impera, pois, uma metafísica da
representação, em que tudo é dado como imagem controlada e construída a partir desse
linguajar e atitude técnicas. Esse aprisionamento do homem ocidental nesse horizonte
tem se exacerbado e isso tem gerado o afastamento do homem de um outro tipo de
pensamento denominado de reflexivo e poético em que não se procura a objetificação
das coisas. Para esse outro olhar, a relação entre as palavras e as coisas é menos
redutora, permitindo que as coisas, os eventos e o outro possam emergir sem, contudo,
serem definidos e denominados por completo pelas reduções a conceitos precisos e
exatos. No império do pensamento calculístico, a linguagem já não é a “morada do ser”,
mas se acha tomada por uma razão tecnicista que representa os seres encapsulados em
certas definições que os limitam. Longe se está de um pensamento reflexivo que ousa
entender coisas, pessoas e fatos fora do paradigma maquinístico. Heidegger trabalha
com a noção de aletheia1, destacando que ao referente deve ser dada a possibilidade de
1
O termo aletheia, o pensador alemão toma de Heráclito, apresentando-o como apresentação e
desocultamento da coisa em contraposição à Metafísica Ocidental do discurso representacional que de
forma tecnicista diz a coisa, conformando-a a uma dada definição reducionista.
emergir, apresentando-se de um modo diferente da representação objetificante. Essa
possibilidade de uma outra visão e apresentação só se viabiliza a partir de outra matriz
discursiva em que impera o pensamento reflexivo e não calculístico. Heidegger vai
depositar esperança na linguagem poética como uma alternativa para se escapar do
pensamento calculístico por entender que ela possibilita a atitude reflexiva, longe da
vontade de poder e controle sobre o mundo. Embasando-se nessa perspectiva crítica
sobre o pensar técnico e seu contrário, ou seja, o pensamento reflexivo via linguagem
poética, objetivamos discutir como a ágora virtual pode ser fonte de emancipação à
medida que o discurso poético a tem habitado, abrindo caminhos para que seus leitores
passem da condição de meros usuários a cidadãos mais reflexivos sobre si mesmos e
sobre a sociedade em que vivem.

Sabe-se que Martin Heidegger se opõe principalmente à técnica moderna, em


virtude de escrever sua obra em um período de avanço das tecnologias de guerra, da
bomba atômica e das experiências nazistas nas áreas da Genética e da Biologia que
usavam cobaias humanas. Em um período tão perigoso tecnologicamente para o ser
humano, a sua obra é também fruto de seu tempo. O filósofo alemão é crítico de uma
certa técnica que domina o ser humano, desencobrindo este como aquele que deseja
tudo controlar de modo racional e mecanicista. Para fugir da técnica determinista e
substantiva que aprisiona o homem em um pensar e falar técnicos, Heidegger propõe a
recuperação de um pensamento reflexivo a partir de uma linguagem poética. Heidegger
vê que a essência da técnica é o desocultamento, ou seja, a partir da técnica o homem
desencobre um barco de uma árvore, uma espada de um metal, uma pintura de um
campo de girassóis. Entretanto, a técnica moderna traz a lúmen tudo e todos para a
disponibilidade e para o recurso, de modo unidimensional, ou seja, o campo de girassóis
será descoberto tão somente para gerar óleo a ser comercializado, o rio será desocultado
só para gerar energia para as turbinas de uma hidrelétrica. A esse desvelar para o recurso
também corresponde uma linguagem técnica que a tudo desencobre do mesmo modo
sempre e com o fito da disponibilidade e recurso para a produção. Todavia, a linguagem
não técnica pode desocultar uma flor, um rio, uma montanha e um pássaro para serem
admirados e não necessariamente para serem usados. Aí, sim, podemos fazer uma
experiência outra com a linguagem que desencobre de outra forma o ser humano, menos
calculística e racional. Entre a técnica antiga, artesanal, fiel protetora da terra e a
moderna, usurpadora da natureza, há um estreitamento do desvelamento, como afirma o
pensador:

A terra se des-encobre, neste caso (técnica moderna), depósito de


carvão e o solo, jazida de minérios. Era outro o lavradio que o
lavrador dispunha outrora, quando dispor ainda significava lavrar, isto
é, cuidar, cultivar e proteger. A lavra do lavrador não desafiava o
lavradio. Na semeadura, apenas confiava a semente às forças do
crescimento, encobrindo-a para seu desenvolvimento. Hoje em dia,
uma outra posição também absorveu a lavra do campo, a saber, a
posição que dispõe da natureza. E dela dispõe no sentido de uma
exploração. A agricultura tornou-se indústria motorizada de
alimentação. Dispõe-se o ar a fornecer azoto, o solo a fornecer
minério, como, por exemplo, urânio, o urânio a fornecer energia
atômica; esta pode, então, ser desintegrada para a destruição da guerra
ou para fins pacíficos. (HEIDEGGER, 2010, p. 19)

Todavia, Heidegger, embora critique a técnica moderna, não a demoniza no


sentido que sabe dos benefícios advindos dos aparatos técnicos para a existência
humana. Não advoga um retorno à técnica antiga. Mas vê o perigo de que o homem seja
dominado por um pensamento único, e assim encontra a saída em um pensar e uma
linguagem menos unidimensional. A linguagem poética desvela o homem e os seres a
partir de outra perspectiva que nos salva do pensar tecnicista predominante. Pensemos
em como o pintor Van Gogh desoculta um campo de girassóis, em sua memorável tela,
e como Fernando Pessoa desencobre o rio de sua aldeia, em um belíssimo poema. Aí,
girassóis e rio vigem não como um recurso e uma disponibilidade para o capital ou para
a produção tão somente. Outros dizeres os definem, narram, denominam, poetizam.

O filósofo não viveu no tempo da comunicação digital e provavelmente se o


tivesse experienciado, seria seu crítico, pois para ele a técnica moderna é já um
pensamento técnico. Entretanto, o pensador não é um demonizador da técnica e enxerga
a possibilidade de se refletir sobre ela e, nessa reflexão, encontrar uma saída. Lá onde
tudo parece perdido, pode-se trazer à luz algo que salva. Nesse caminhar do
pensamento, acreditamos que a linguagem poética e reflexiva pode, sim, voltar a ser
mais lida e mais experienciada a partir dos meios digitais de comunicação.

Pode parecer estranho que advoguemos uma saída técnica para um pensar
reflexivo à medida que o sistema técnico já determina como usá-lo, sendo portanto
limitado o seu uso mais plural e democrático. É indiscutível que a ágora virtual se
constitui como um sistema vinculado ao sujeito pós-moderno que já não tem mais
tempo para ler e experienciar longas narrativas e, assim sendo, o seu discurso nesse
cenário é uma fala bastante comprimida, rápida, muitas vezes sem profundidade uma
vez que ela é momentânea, episódica, tornando-se rapidamente obsoleta em decorrência
das inúmeras postagens diárias que circulam na ágora virtual. Em sintonia com essas
características do sujeito fragmentado e pós-moderno, temos também a discussão feita
há algum tempo por vários sociólogos em torno da obsolescência programada e
imediata como um sintoma da contemporaneidade. A linguagem também é atingida por
essa obsolescência programada e imediata, sendo experimentada, sobretudo, na
comunicação digital, de maneira superficial, rápida e sem compromisso com um pensar
mais vagaroso e meditativo. As falas, as reflexões e as interlocuções na ágora virtual,
em especial o facebook, são intervenções discursivas curtas, pois se o post é muito
longo, a maioria de seus leitores e visualizadores descarta-o sem ler e sem refletir. O
máximo que ocorre é o usuário curtir, gostar ou emitir um breve comentário sobre o
post. Como, então, é possível haver, nesse cenário digital das redes sociais, já dado em
sua ligeireza de pensamento, um falar e um pronunciar mais reflexivo, mais meditativo
a fim de se resgatar, como advoga Martin Heidegger, uma postura menos técnica, menos
objetificante? A linguagem poética, de orientação sintética, pode ser uma saída uma vez
que aí encontramos um dizer comprimido, mas que pode propiciar a reflexão. A
linguagem poética não precisa ser extensa, descritiva, didática, pormenorizada, mas se
apresentar via redução estrutural, propiciando uma síntese que pode levar a uma
reflexão menos técnica no sentido objetificante. Importante destacarmos que a
linguagem poética aqui não se refere a um gênero discursivo poético, constituído de
versos apenas, mas como Heidegger a concebe, ou seja, uma linguagem que leva à
reflexão, distante do pensar técnico que objetiva definir precisamente o mundo.

Atualmente, vemos que há nas redes sociais muitos poetas e prosadores que
apresentam a sua obra a partir de blogs, facebook e páginas pessoais, demonstrando que
a linguagem poética tem se apossado dessa técnica moderna de comunicação a fim de
vir a lúmen. Esse espaço propicia a inclusão de uma outra voz que pode ser, inclusive,
levada para a sala de aula, objetivando que o professor e o aluno comunguem de uma
outra linguagem que não aquela que se apresenta por uma dada racionalidade técnica a
partir de posts muito breves e efêmeros. Cientes estamos de que muito provavelmente o
acesso a essas postagens de discursos mais reflexivos em sítios específicos terá um
alcance limitado, diferente de outros sítios em que a publicidade de bens e serviços de
grandes marcas do mercado são recorrentes. Entretanto, aí entra o papel da escola e da
família. Educadores e pais dessa criança, desse adolescente, desse jovem, devem
propiciar a visualização e a experimentação dessas outras vozes digitais a fim de levar o
outro e a si mesmo a se expor a outros discursos mais reflexivos, mais meditativos. A
ágora virtual pode ser usada como uma força de ilustração e emancipação e, para tanto,
os jovens e adultos devem estar preparados cultural e politicamente para fazer um uso
da tecnologia da informação em um outro sentido, ou seja, em um sentido diverso do
main stream. Como conseguir essa proeza? Somente a partir de um filosofar sobre a
técnica, a tecnologia, a sociedade e a linguagem. Para isso, nós educadores, precisamos
com urgência nos aproximar da comunicação digital, sem demonizá-la, mas cientes de
seus perigos, tentando utilizá-la a favor de um pensar que não seja autoritário,
monológico e objetificante. Enfatizamos que o caminho ainda é a leitura de bons
pensadores, ainda mais que hoje suas obras já estão alocadas nas redes sociais. Temos
que nos utilizar desse suporte a nosso favor, ou seja, na construção de um saber de
reflexão que contribua para questões da sociedade, sejam elas nos campos artístico-
cultural, teórico-político e tecnológico. A ágora virtual, dentro do universo das redes
sociais, abriga, com certeza, múltiplos falares e o acesso a eles vai depender do
repertório cultural de cada um. Aqui, o educador tem um papel fundamental no sentido
de mostrar essa outra dimensão discursiva que habita as redes sociais.

Nesse cenário, o meio termo ainda é o melhor a ser alcançado, ou seja, devemos
nos afastar de uma postura tecnofóbica que enxerga na comunicação digital apenas os
contatos virtuais e a promoção de uma comunicação muito rasteira, superficial e
imediatista. Mas também devemos nos acautelar em nos tornarmos tecnófilos, ou seja,
professarmos uma fé totalmente otimista em relação às redes sociais, desmerecendo
formas tradicionais de comunicação em que as pessoas se confrontam diretamente no
concreto de suas existências. Acreditamos que a utilização das redes sociais com o
objetivo de se criar e postar uma linguagem que leve à reflexão e à ação pode ser uma
saída possível para esses contatos muito superficiais e virtuais via rede de
computadores. Partindo de um mirante mais filosófico e materialista para entender a
linguagem, percebemos que isso é possível, pois a linguagem propicia a ação, a
formação de identidades e o embate de ideias e valores. A linguagem é um agir humano
essencialmente social, ou seja, se dá no intersubjetivo. À medida que nós, internautas,
expomo-nos a discursos menos fechados, menos monológicos e menos objetificantes,
podemos refletir sobre estas mesmas falas monológicas e autoritárias, e essa reflexão
pode propiciar uma mudança de comportamento social, alterando a práxis social
também. Apostar nessa solução pode ser uma saída para o cenário estreito que temos
vivido na internet em que predominam as falas momentâneas, episódicas e superficiais
advindas de sujeitos que têm pouca responsabilidade pelo que dizem, pois ali entram e
saem muitas vezes travestidos, com personalidades forjadas e fictícias.

Andrew Feenberg e a comunidade virtual como saída para o saber técnico dos
peritos

Feenberg tem feito uma análise apurada e crítica do pensamento dos autores
citados, já consagrados no campo CTS – Ciência, Tecnologia e Sociedade –,
apresentando as múltiplas visões sobre a tecnologia que consistem em parâmetros
substancialistas, deteministas e de neutralidade. A obra desse filósofo tem nos auxiliado
bastante para comprender as variadas visões sobre o desenvolvimento tecnológico e
suas influências nos processos sociais e culturais da contemporaneidade. Feenberg vê
positivamente o uso das TICs em uma sociedade em que não só os peritos técnicos a
dominem:

People affected by technological change sometimes protest or


innovate in ways that promise greater participation and democratic
control in the future. Where it used to be possible to silence all
opposition to technical projects by appealing to progress, today
communities mobilize to make their wishes known, for example, in
opposition to nuclear power plants in their neighborhood. In a rather
different way the computer has involved us in technology so
intimately that our activities have begun to shape its development.
Consider that email on the Internet was introduced by skilled users
and did not originally figure in the plans of the designers at all. Yet
today email is the most used function of the Internet and one of the
most important contributions of the computer to our lives. I could
show you similar examples from medicine, urban affairs, and so on.
Each one seems a small matter but perhaps all together they are
significant. (FEENBERG, s/p, 1999)

O Brasil, embora tenha um mercado editorial consistente, apresenta também um


deficit de leitura muito grande. Há inúmeras pesquisas sobre esse assunto que podem ser
acessadas facilmente na rede. Cotidianamente, o que vemos predominar nas escolas é o
uso das redes sociais como forma de comunicação escrita e visual – principalmente em
celulares, laptops e afins – em vez da leitura dos escritores clássicos na forma de livro
material. A internet, como já referenciado, pode, então, ser uma fonte de acesso a esses
escritores, diversificando o universo cultural de nosso aluno. Muitos poetas, escritores e
jornalistas têm se utilizado da internet como forma de se manifestar, e geralmente têm
conseguido adeptos. Se dependessem do mercado editorial, que, não raras vezes, é
marcadamente atingido por interesses econômicos e políticos, dificilmente teriam a
possibilidade de veicular suas vozes. A internet propicia que cidadãos comuns também
possam publicar suas vozes, recebendo adesão ou contestação aos seus
pronunciamentos, ampliando assim a possibilidade de diálogo e de formar uma
comunidade virtual mais democrática e ampla. Poder postar a sua fala na ágora virtual é
uma forma de checá-la publicamente, recebendo críticas, comentários positivos, tendo,
enfim acesso ao discurso do outro sobre si. Essa exposição ao outro e esse outro, muitas
vezes imprevisível, possiblita o princípio do contraditório, da eterna agonística,
afastando-se do discurso autoritário e monológico. O embate discursivo na ágora virtual
possiblita a publicidade do discurso de modo mais democrático, para todos, do que os
meios mais tradiconais de edição cujas regras são mais restritivas e uniformizadas. A
relação autor-leitor em suporte digital é também diferenciada, pois como há a
possibilidade de conexão imediata e direta entre eles, via chats e messengers, cria-se
uma proximidade bastante salutar, em que o diálogo em consenso ou contrassenso pode
emergir entre os sujeitos da escrita e da leitura. Invertem-se os papéis e o escritor vira
também um leitor de sua obra a partir dos comentários de seus leitores. O leitor, por sua
vez, também torna-se autor de um discurso crítico, exercendo sua capacidade de
comentário. A proximidade entre leitor e autor, quando esses pertencem à mesma
temporalidade, neutraliza o distanciamento, típico de outros suportes, como o livro
material, por exemplo. O leitor e o autor podem entrar em uma zona de contato mais
imediata, promovendo uma certa carnavalização da linguagem em que cada um é
trazido para o espaço do outro via linguagem. O distanciamento, que não raras vezes
promove a canonização e a ideia de que o escritor é inatingível, tende a ser neutralizado.
Autor e leitor se encontram na ágora virtual de modo talvez mais íntimo e pessoal. É
fato que essa aproximação pode trazer consigo uma crítica muito apressada, muito
imtempestiva, pouco acadêmica, mas é um discurso vivo da ideologia do cotidiano 2
2
Aqui, tomamos o termo ideologia do cotidiano a Mikhail Bakhtin para quem os discursos, as falas, os
pronunciamentos do dia-a-dia são mais importantes que os discursos já cristalizados nas ideologias
oficiais, pois ainda não se cristalizaram, sendo dominados por forças centrípetas que os mantêm mais
estáveis. No dia-a-dia, as falas são muito mais instáveis e vivem sob a hégide de forças centrífugas que as
mantêm pouco fossilizadas, menos oficiosas. São emitidas no embate entre homens reais e concretos em
entre pessoas comuns, não franqueadas pela academia. Fora desta, podem publicar suas
falas e estas obtêm respostas. A zona de vizinhança propicida por este meio digital
apresenta inúmeros benefícios, pois o discurso se democratiza, não sendo tão interditado
como é comum sê-lo, pois nem todos podem falar nas instituições mais tradicionais. As
falas na internet expressam com bastante preponderância essa ideologia do cotidiano
das pessoas que ali adentram várias vezes ao dia. Uma atitude não preconceituosa contra
essas falas é muito salutar, pois aí também se podem perceber as variações sociais e de
sentidos dos diversos discursos postados. As falas, as postagens, as mensagens e os
comentários podem se pautar por cenários fictícios, mas a linguagem revela o ser,
ninguém consegue se esconder o tempo todo na linguagem, forjando um ser que não é.
Desse modo, tudo o que postamos revela a nossa identidade quer queiramos ou não, se
acreditarmos que a linguagem é ontológica e constituinte do ser social. Heidegger e
Bakhtin, savaguardadas as devidas diferenças, asseveram que a linguagem não é um
mero instrumento do qual me valho para comunicar algo e assim a moldo da maneira
que desejo. A linguagem nos fala, nos diz e é nela que me constituo enquanto sujeito em
ininterrupta interação social. Desse modo, a questão dos discursos fictícios e da
“irrealidade virtual” em que os sujeitos se escondem pode ser vista sob outro prisma, ou
seja, a linguagem revela o ser que nela se constitui e emerge. Acompanhando
Heidegger:

Na fala, os que falam se fazem vigentes. Como assim? Eles se fazem


vigents para aquilo e para aqueles com quem falam, onde eles se
demoram, para o que a cada vez desse modo lhes diz respeito. Em
jogo estão os outros seres humanos e as coisas, tudo o que os con-
diciona e de-termina. (HEIDEGGER, 2011, p. 200)

Outro benefício do suporte digital na ágora virtual é a sua propagação discursiva


uma vez que com a microeletrônica ocorre uma compressão do espaço e do tempo em
que o texto postado pode atingir um espaço bastante extenso em um curto período de
tempo. Muitos podem partilhar as postagens e esse texto mais crítico, mais reflexivo
tem, certamente, um alcance maior, sendo compartilhado por muitos nas redes sociais.
Aí, sim, esse suporte digital traz uma vantagem para essa linguagem que pode caminhar
por trajetos mais longos. Para uma perspectiva elitista, talvez cause horror que muitos
possam se apossar da linguagem erudita, destinada para poucos, e usá-la em uma

suas lidas cotidianas e por isso indicam com muita propriedade as mudanças sociais, econômicas e
culturais vivenciadas na vida real.
perspectiva mais democrática e aberta à reflexão. Em síntese, percebemos que as redes
sociais podem propiciar um aumento de público para textos poéticos, reflexivos e
literários.
Certamente que os críticos, ou seja, os apocalípticos da internet, veem essa saída
a partir de um mirante bem pessimista, asseverando que a linguagem mais reflexiva e
poética, dada na comunidade virtual, vai se conformar à lógica do imediatismo e será
percebida de modo superficial como mais um discurso em meio a tantos, sendo
determinada pelas armadilhas técnicas do sistema. Aí, a tecnologia é vista como
substancialista e determinista, não permitindo nenhuma possibilidade de uso
diferenciado e reflexivo. Já os integrados, parafraseando Umberto Eco, apostam, às
vezes de modo ingênuo, nesse novo uso da comunidade virtual, destacando somente o
lado positivo e libertador que se aproxima do uso neutro e instrumental da tecnologia,
esquecendo-se de seu poder de determinação. Nosso caminho tem sido de nos
aproximarmos de Heidegger e com ele fazer uma discussão mais verticalizada sobre os
perigos e os benefícios da tecnologia e assim procurarmos, a partir de uma experiência
fenomenológica com a linguagem, uma saída na linguagem poética e reflexiva para
esses impasses. Também acompanhamos Feenberg que é esperançoso em termos da
apropriação democrática e radical das redes sociais de comunicação para incluir cada
vez mais os cidadãos nos embates discursivos sobre os destinos e os rumos da cidade,
do planeta, da tecnologia e da sociedade.

Considerações finais

Neste artigo, trouxemos uma pequena amostra discursiva sobre as interrelações


entre tecnologia e sociedade, baseando-se, sobretudo, em nomes de teóricos que se
debruçaram sobre essa problemática no século XX e XXI. Não houve espaço para
pormenorizar e verticalizar o pensamento dos estudiosos aqui referidos, mas fazia-se
mister mencioná-los, pois é impossível ir ao objeto de estudo – tecnologia, sociedade e
linguagem – sem mencioná-los. O objeto já se acha discursado, narrado, falado e
problematizado por esses autores já canônicos no campo da Ciência, Tecnologia e
Sociedade – CTS. Nosso estudo também focou a obra de Heidegger e de Feenberg cujo
pensamento aponta para uma saída via linguagem, que é também considerada central e
ontológica para a condição humana. O filósofo alemão aposta na linguagem poética e
reflexiva para enfrentar um mundo cada vez mais técnico e calculístico. Demonstramos
que isso é possível se utilizarmos a internet a nosso favor, levando nossos educandos,
amigos e filhos a perceberem uma outra linguagem que está na ágora virtual e que se
distancia e diferencia da maioria dos discursos curtos e superficiais que geralmente
compartilhamos na ágora virtual. Caminhamos também com Feeenberg, propondo que a
ágora virtual seja habitada por nós, cada vez mais, no sentido de ampliar o seu acesso e
também para que ela, ágora virtual, possa ser uma plataforma digital que ultrapasse a
liquidez, o imediatismo e o passo aligeirado e superficial da maioria dos posts e
mensagens, reformatando esse cenário a fim de que se possa ali exercer uma atitude
mais democrática e polifônica em que mais pessoas venham a usufruir das TICs.
Afastamo-nos dos integrados e dos apocalípticos, dos tecnofóbicos e dos tecnófilos, pois
a técnica deve ser pensada na medida do humano e para o humano, distanciando-nos de
uma visão meramente operacional, instrumental ou neutra da técnica. As redes sociais
são espaços de sociabilidade importantes e devemos lutar para que seja possível, nestes
espaços, não só nos informar, mas também nos formar, constituindo-nos como sujeitos
em relações intersubjetivas em que uma linguagem mais reflexiva, meditativa e poética
possa nos habitar e nos fazer perceber que a linguagem técnica e de cálculo é um
discurso relevante, mas não é exclusivo. A linguagem poética é a morada do ser como
bem assevera Martin Heidegger e precisamos reforçá-la, divulgá-la e aproximá-la de
todos que têm acesso às redes sociais. Por fim, distanciando-nos dos críticos acirrados
em relação à comunidade virtual, acreditamos que não há uma dicotomia irreparável
entre o mundo online e o mundo offline. A comunidade virtual não transcende
automaticamente o real de nossas existências, pois nossa linguagem nos forma e institui
a partir de valores herdados dentro de uma episteme de longa duração como também é
fruto de nossas relações concretas do dia a dia e é com ela que adentramos a ágora
virtual. Daí o porquê de investirmos em uma linguagem que leve à reflexão, inclusive,
sobre as tecnologia digitais, como neste artigo nos propomos, ao acolher a proposta do
periódico ao qual pleteiamos publicação.

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