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I ENCONTRO REGIONAL DA ANPUH/RN – ANAIS

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

América Colonial (Org. Theo Santiago).Rio de Janeiro: Pallas, 1975.


BENJAMIM, Walter. Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1987.
BURKE, Peter. História e teoria social. São Paulo: Editora da UNESP, 2002.
CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL; Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.
DE DECCA, Edgar. 1930: o silêncio dos vencidos. São Paulo: Brasiliense, 1981.
DIAS, Maria Odila L. S. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo:
Brasiliense, 1984.
Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia (Org. CARDOSO, Ciro F. S. e
VAINFAS, Ronaldo. Rio de Janeiro: Campus, 1997.
Questões da teoria e metodologia da história (Org. César Augusto Barcellos Guazzelli et al.)
Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2000.
REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil
escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
THOMPSON, E. P. A miséria da teoria: uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de
Janeiro: Zahar Editores, 1981.
VEYNE, Paul. Como se escreve a história.Brasília: Editora da UnB, 1982.
VOVELLE, Michel. Ideologias e mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 1987.
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CONFERÊNCIAS E MESAS-REDONDAS

BALANÇO DA HISTORIOGRAFIA NORTE-RIO-GRANDENSE

Professora Denise Mattos Monteiro

A mesa-redonda de hoje tem por objetivo fazer um balanço da historiografia norte-rio-


grandense. Em outras palavras, ela implica numa discussão dessa historiografia, sua evolução,
seus problemas e perspectivas.
Eu gostaria de iniciar com algumas questões que me parecem indispensáveis.
A primeira delas é: porque fazer balanços historiográficos? Qual sua importância?
Um esclarecimento se faz necessário em relação ao objeto da nossa discussão: quando
pensamos em “balanço da historiografia norte-rio-grandense” estamos nos referindo ao que
tem sido produzido pelos historiadores em nosso Estado, mas principalmente sobre o nosso
Estado.
Balanços historiográficos, seja qual for o seu objeto, significam acima de tudo
avaliações críticas da produção existente, com um propósito específico: buscar a renovação
dos estudos e pesquisa na área de História, a partir de diagnósticos que nos permitam pensar
novos temas, problemas e metodologias a serem desenvolvidas. Isto significa dizer que
partimos sempre do “velho” para engendrar o “novo”.
E é nesse engendramento que nos deparamos com uma segunda questão: a relação
indissociável entre historiografia e historicidade. Em que sentido? A avaliação crítica da
produção existente implica na consciência de que todo o conhecimento histórico produzido
tem sua própria historicidade, isto é, ele não pode ser desvinculado do recorte de tempo no
qual foi produzido. Os valores sociais, as visões de mundo, os conflitos ideológicos, os
embates políticos, presentes na sociedade na qual vive e produz o historiador, estão
subjacentes a sua produção. As perguntas que o historiador se coloca, e que se
consubstanciam em temas e problemáticas de pesquisa, nesse sentido, são filhas de seu
tempo. Disso decorre que todo o conhecimento histórico produzido é, inelutavelmente,
incorporado para ser ultrapassado.
Análises historiográficas implicam assim, e necessariamente, no exercício da crítica. E
aqui temos uma terceira questão importante: como a crítica nem sempre é entendida como um
componente essencial e inseparável da produção de conhecimento, os balanços
historiográficos são muitas vezes delicados, para não dizermos espinhosos, especialmente
quando seu objeto remete à produção histórica local, do Estado onde o historiador vive e
trabalha, levando-o a analisar a produção de seus “pares”.
Partindo dessas questões iniciais, eu diria que na evolução da historiografia norte-rio-
grandense podem ser identificadas três fases distintas:
Sobre a primeira delas, não vou me estender muito, visto que ela foi objeto de outra
exposição nessa mesa redonda. Entretanto, alguns comentários me parecem necessários,
porque questões referentes a essa primeira fase estão diretamente ligadas aos problemas e
perspectivas dessa historiografia hoje.
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I ENCONTRO REGIONAL DA ANPUH/RN – ANAIS

No meu ponto de vista, a primeira fase correspondeu aos primeiros 70 anos do século
XX e foi caracterizada, especialmente, pelo peso mítico de Câmara Cascudo. Foi constituída
pela produção de historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do
Norte, pertencentes a uma geração anterior à formação universitária em História. O que me
parece importante frisar é que sua matriz teórica, no sentido de uma certa concepção de
História e de escrita da História, dos valores a serem defendidos e cultuados, encontra-se no
século XIX, quando nasceu a escrita da História no Brasil. Esse nascimento esteve
intimamente articulado ao processo de organização do Estado Nacional, processo esse no qual
os historiadores, reunidos em torno do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado no
Rio de Janeiro, em 1838, desempenharam um importante papel na construção de uma
identidade nacional, de um passado em comum para o “povo” dessa nação que se organizava,
por obra e em função de suas elites.
Em decorrência, essa matriz teórica, e por conseguinte a primeira fase da historiografia
norte-rio-grandense, apresentou dentre suas características principais: uma visão de sociedade
esvaziada de conflitos sociais; uma visão de política como atividade exclusiva das elites; a
recorrência, como tema dos estudos, de determinados fatos históricos enobrecedores, nos
quais celebravam-se certos personagens históricos que deles participaram; a predominância da
descrição sobre a interpretação, originando uma histórica crônica ou factual; e a ausência do
que nós chamamos hoje de rigor metodológico, especialmente no que diz respeito à ausência
de informações sobre a base documental desses estudos.
Essa fase da historiografia norte-rio-grandense eu denomino de “historiografia
clássica”, e em três sentidos, basicamente: em primeiro lugar, a ela correspondem as obras
seminais; em segundo, sua matriz de pensamento é profundamente conservadora e, em
terceiro, nela pode ser identificado um esforço de construção de uma certa identidade norte-
rio-grandense. Sua maior expressão são as três “História do Rio Grande do Norte”, escritas
sucessivamente por Tavares de Lyra (1921), Rocha Pombo (1922) e Câmara Cascudo (1955).
Essa historiografia clássica tem ainda uma grande presença entre nós, persistindo, sobretudo,
no conteúdo de livros didáticos de História do Rio Grande do Norte. Sem dúvida, o peso da
figura de Câmara Cascudo tem um papel fundamental na perpetuação do pensamento
conservador nessa literatura produzida.
A segunda fase da trajetória da historiografia norte-rio-grandense iniciou-se na virada
dos anos 70 para os anos 80 e foi marcada pelo surgimento de uma produção acadêmica. Ela
não pode ser dissociada da própria história da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
uma vez que, nesse período, houve uma saída maciça de professores de seus quadros para a
pós-graduação, aí incluídos alguns poucos professores do Departamento de História, dentre o
então numeroso quadro docente desse Departamento. Em decorrência, houve um avanço
intelectual, ou pelo menos a promessa de um avanço, com a possibilidade de renovação do
conhecimento histórico, através do desenvolvimento de novos temas e problemáticas e da
preocupação com o rigor teórico-metodológico nas pesquisas. 14
Se, por um lado, houve, inegavelmente, um avanço na historiografia norte-rio-
grandense, por outro, dois problemas se apresentaram.

14
São exemplos dessa fase as seguintes dissertações de mestrado: 1930-1934. A Revolução de 30 no Rio
Grande do Norte, de Marlene Mariz; Um outro Nordeste: o algodão na economia do Rio Grande do Norte
(1880-1915), de Denise Monteiro Takeya (ambas publicadas em livro, a primeira em 1982, pelo Centro Gráfico
do Senado Federal, e, a segunda em 1985, pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste, do
Banco do Nordeste do Brasil, Coleção Documentos do Nordeste); A política econômica salineira e o Rio
Grande do Norte, de Márcia Maria Lemos de Souza, e A implantação do protestantismo no Rio Grande do
Norte, de Wicliffe de Andrade Costa.
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CONFERÊNCIAS E MESAS-REDONDAS

O primeiro deles diz respeito a uma solução de continuidade: esses novos


pesquisadores, no geral, não continuaram desenvolvendo suas pesquisas e, dentre os novos e
raros mestres, apenas um se doutorou, consolidando a partir daí uma atividade permanente de
pesquisa, especialmente na área de História Econômica e Social do Nordeste. 15
Dessa forma, abortou-se o que poderia ter sido um trabalho coletivo de pesquisa, no
sentido de uma renovação da historiografia norte-rio-grandense. Nesse sentido, a década de
80, que se seguiu, pode ser considerada uma década perdida.
O vazio que se instalou – e aí reside o segundo problema – foi ocupado pela produção
oriunda de outras áreas que não a História. Assim, as obras que trouxeram algum tipo de
contribuição para um maior conhecimento da História do Rio Grande do Norte foram
produzidas sobretudo na área de Sociologia e Ciência Política, mas também Economia e
Geografia. 16
Em decorrência, houve uma certa expansão desse conhecimento, centrado,
inevitavelmente, na História Político-Social e num recorte temporal contemporâneo (o
período republicano), embora apresentando escassa e pouco rigorosa pesquisa de fontes
históricas, o que é compreensível, considerando-se a não formação específica na área de
História, por parte de seus autores.
De qualquer forma, a importância desses trabalhos, ao preencherem o vazio deixado
por historiadores de formação, originou a nossa dívida para com eles.
Mas nós temos dívidas também com dois estudos pioneiros. O primeiro deles foi a
dissertação de mestrado em História de Janice Theodoro da Silva, sobre as tensões políticas e
ideológicas no processo de implantação da República no Rio Grande do Norte, defendida na
Universidade de São Paulo, em 1975, sob a orientação de José Sebastião Witter, e publicada
sob o título Raízes da Ideologia do Planejamento: Nordeste (1889-1930). 17 A autora
pesquisou, essencialmente, os jornais do período e os Anais da Câmara Federal e do Senado.
O segundo trabalho foi o de Maria Regina Mendonça Furtado Mattos, uma dissertação de
Mestrado em História, defendida na Universidade Federal Fluminense, em 1985, sob o título
Vila do Príncipe – 1850/1890. Sertão do Seridó – um estudo de caso da pobreza. A
dissertação, orientada por Maria Yedda Linhares, enfoca a transição do trabalho escravo para
o trabalho livre no atual município de Caicó, com uma rica pesquisa empírica, especialmente
de documentação cartorial.
A terceira fase da historiografia norte-rio-grandense iniciou-se nos anos 90, alicerçada
em dois movimentos. Por um lado, a renovação do quadro docente do Departamento de
História da UFRN a partir de meados dessa década, através de concursos públicos baseados
no mérito, tornou a titulação e a produção científica cada vez mais importantes. Isso tem
significado uma valorização crescente da pesquisa e da produção de conhecimento. Alguns
dos novos professores realizaram trabalhos de pós-graduação, a nível de mestrado e
doutorado, tendo por objeto temas da História do Rio Grande do Norte. 18 O segundo

15
Refiro-me aqui a mim mesma. Minha tese de doutorado foi publicada sob o título: Europa, França e Ceará:
origens do capital estrangeiro no Brasil (São Paulo/Natal: Hucitec/Edufrn, 1995, Coleção Estudos Históricos,
dirigida por Fernando Novais).
16
São exemplos os trabalhos de István A’rbocz, José Antônio Spinelli, Itamar de Souza, Brasília Carlos Ferreira,
Maria do Livramento Clementino, Geraldo Margela Fernandes, Dalcy Cruz, José Lacerda Felipe e, mais tarde,
Homero Costa. É ainda desse período a dissertação de mestrado em Sociologia, na Unicamp, de Cícero Soares
Neto, sobre o coronelismo.
17
São Paulo: Editora Ciências Humanas, 1978.
18
São exemplos a pesquisa de Fátima Martins Lopes, sobre história indígena, de Almir de Carvalho Bueno,
sobre republicanismo, de Maria Emília Porto, sobre jesuítas, e de Flávia Pedreira, sobre festas.
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I ENCONTRO REGIONAL DA ANPUH/RN – ANAIS

movimento tem sido a passagem para a pós-graduação de ex-alunos do Curso de Graduação


em História da UFRN, o que tem garantido uma produção historiográfica nova, alicerçada nas
dissertações de mestrado que vão surgindo. Em alguns casos, esses novos mestres tornaram-se
professores da própria Universidade, renovando seu quadro docente. 19
Para concluir, eu diria que estamos agora diante de dois desafios. Um deles é recuperar
o vazio da década de 80, num esforço coletivo que nos permita ter uma visão mais sistematiza
da História do Rio Grande do Norte, sob nova perspectiva, evidentemente, que não aquela da
historiografia clássica. Refiro-me a uma visão sistematizada devido ao fato de que a nova
produção existente, por suas características, tem sido pontual e dispersa. O outro desafio é
encontrar os mecanismos que possam traduzir para o ensino fundamental e médio, ainda sob
influência daquela historiografia, especialmente a rede pública, o conhecimento produzido
pelas novas pesquisas, o que envolve problemas relativos não apenas à sistematização de
conhecimento, mas também à produção de material didático e ao ensino de História.
Esses desafios estão aí para serem enfrentados.

Professora Denise Mattos Monteiro

19
Registre-se, por exemplo, as dissertações de Mestrado, por mim orientadas, de Muirakytan K. de Macedo, A
penúltima versão do Seridó: espaço e história no regionalismo seridoense (1998), e de Henrique Alonso Pereira,
O homem da esperança: uma experiência populista no Rio Grande do Norte-1960-1966 (1996). Ambos são
atualmente professores de História, no Campus de Caicó.
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CONFERÊNCIAS E MESAS-REDONDAS

FONTES PARA HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO NORTE NO IHGRN

Prof.ª Ms. Fátima Martins Lopes


Departamento de História - UFRN

Ao montarmos a Mesa Redonda para discutir a historiografia norte-rio-grandense,


pensamos em trazer também à discussão as fontes que foram utilizadas pela historiografia
tradicional e, principalmente, como elas foram utilizadas. Como as fontes utilizadas eram
maciçamente as do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, trouxemos para
discussão as fontes do acervo do IHGRN, como foram utilizadas, e as fontes ainda não
trabalhadas para apontar novas possibilidades de pesquisas.
O IHGRN é sem sombra de dúvida o maior arquivo da documentação histórica do Rio
Grande do Norte. Seu acervo abrange quase quatro séculos de história e é composto de
diversificados tipos documentais, possibilitando estudos econômicos, políticos e sociais, além
de também possibilitar novas áreas de estudos históricos, como as que tratam das
mentalidades, do imaginário e das idéias. Durante os séculos XIX e XX, foi esse arquivo que
embasou as pesquisas históricas em nosso estado e seus documentos estão presentes nos
textos publicados na Revista do IHGRN, assim como em obras já consideradas clássicas na
nossa historiografia, como História da Cidade de Natal, de Luís da Câmara Cascudo, ou
História do Rio Grande do Norte, de Tavares de Lira. Apesar de sua importância, é um acervo
pouco explorado atualmente, principalmente pelo Instituto ainda não contar com um catálogo
analítico bem formatado.
Para hoje, foram escolhidos quatro autores e seus textos mais representativos para a
historiografia do Rio Grande do Norte. São textos que buscavam fazer grandes sínteses
históricas sobre o Rio Grande do Norte, abrangendo um período de 300 anos de história, e que
têm suas posições historiográficas definidas por sua própria historicidade. São textos de
quatro décadas diferentes, com espaço de 70 anos entre a primeira e a última e que trazem
semelhanças e diferenças entre si. São eles:

Augusto Tavares de Lira – História do Rio Grande do Norte [1922]. 2. ed. Natal: Fundação
José Augusto, 1982.
Luís da Câmara Cascudo – História da Cidade de Natal. Natal: Prefeitura da Cidade de Natal,
1947.
Tarcísio Medeiros – Aspectos geopolíticos e antropológicos da História do Rio Grande do
Norte. Natal: Imprensa Universitária, 1972.
Olavo de Medeiros Filho. Terra natalense. Natal: Fundação José Augusto, 1991.
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I ENCONTRO REGIONAL DA ANPUH/RN – ANAIS

Tavares de Lira: História do Rio Grande do Norte (1922)

O texto, produzido para as comemorações do centenário da Independência do Brasil,


foi um marco na historiografia, pois se trata do primeiro esforço em produzir um trabalho que
cobrisse todo o período de existência do Rio Grande do Norte, da colonização aos dias
correntes da obra. Como característica da produção historiográfica da época, não traz
bibliografia nem listagem das fontes utilizadas, mas faz referências no corpo do texto à
bibliografia consultada, citando autor, título, volumes e páginas. Utiliza aspas para identificar
as citações, mesmo em longos trechos:
Os autores e cronistas citados de maior representatividade são:
- Locais: Vicente Lemos, Nonato Motta.
- Regionais: José Higino, Pereira da Costa, Barão de Studart.
- Nacionais: Gonçalves Dias, Rocha Pombo, Francisco Varnhagen, Visconde de Porto
Seguro, Capistrano de Abreu, Affonso Taunay.
- Cronistas luso-brasileiros: Frei Jaboatão, Gabriel Soares de Souza, Frei Vicente do
Salvador, Padres jesuítas (através de sua correspondência publicada).
- Cronistas holandeses.

Utiliza e declara os documentos do IHGRN, mesmo quando não dá sua localização:


- Livros de Cartas e Provisões do Senado da Câmara de Natal (observando que até
1760, havia apenas uma Câmara no Rio Grande do Norte, a de Natal, e assim todas as
decisões sobre o RN eram tomadas por ela).
- Livros de Termos de Vereação;

Câmara Cascudo – História da Cidade de Natal (1947)

Trabalho publicado pela Prefeitura da Cidade de Natal, é uma coletânea de artigos que
o autor foi publicando ao longo de duas décadas sobre a história de Natal. Abarcando cerca de
300 anos de história da cidade, é pioneiro neste tipo de produção. Apresenta, no final, uma
bibliografia composta majoritariamente por seus próprios livros utilizados e uma bibliografia
para obras sobre folclore. Para os períodos iniciais da ocupação e para o período holandês,
para os quais não há documentação no Rio Grande do Norte, faz uma pesquisa bibliográfica,
e, no fim de alguns capítulos, principalmente os quatro primeiros referentes aos períodos
iniciais da colonização, traz a bibliografia que utilizou:
- Cronistas como Gabriel Soares de Souza, Frei Jaboatão, Robert Southey, Anthony
Knivet, e os holandeses (Gaspar Barléus, Joannes de Laet, George Marcgrave)
- Historiadores nacionais como Francisco Varnhagen, Rocha Pombo, Serafim Leite.
- Historiadores locais como Vicente Lemos e Tavares de Lira.
- Artigos da Revistas do IHGRN e do IHGB.
Para os períodos posteriores, utiliza claramente os documentos do acervo do IHGRN,
inclusive afirma isso em algumas passagens, mas não identifica as fontes utilizadas, nem sua
localização. Porém, nos seus escritos, através das transcrições que faz e dos dados que
fornece, vê-se a utilização dos documentos do IHGRN, como:
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CONFERÊNCIAS E MESAS-REDONDAS

- Livros de Cartas e Provisões do Senado da Câmara de Natal;


- Livros de Termos de Vereação;
- Documentos da Assembléia Provincial
- Livros de Cartas Régias para Natal;
- Documentos da Provedoria da Fazenda Real;
- Mapas populacionais;
- Livros de Registro de Sesmarias;
- Textos do jornal “A República”, para o fim do XIX e XX.
Único caso onde forneceu referência, mas sem localização, foi a transcrição do
Regimento de Ofícios, de 1791, já publicado por Tavares de Lira.
Cascudo utiliza basicamente as mesmas fontes de Tavares de Lira, adicionando outros
tipos documentais, principalmente por sua preocupação mais antropológica que buscava a
descrição da constituição da população norte-rio-grandense. Cascudo utiliza a mesma
metodologia em seu História do Rio Grande do Norte. Em Nomes da Terra, inova utilizando
fontes orais.

Tarcísio Medeiros – Aspectos geopolíticos... (1972)

Professor de atuação universitária, tem uma preocupação mais acadêmica na forma e


no conteúdo, trazendo discussões mais antropológicas, principalmente no que tange à
composição da população do que hoje é o RN. Trabalho que dá maior ênfase aos séculos XIX
e XX, apresenta, em seu final, uma bibliografia extensa com historiadores e cronistas
utilizados, como já era próprio da historiografia brasileira da época. Apresenta também cópias
de transcrições de documentos de arquivos portugueses, obtidas por seu filho Ivoncísio
Medeiros. Mas, não apresenta listagem de fontes primárias utilizadas, citando documentos
utilizados ao longo do corpo do trabalho, porém não sua localização:
- Livros de Cartas e Provisões do Senado da Câmara
- Recenseamentos gerais (1805/1872/1890)– compara-os para analisar a composição
étnica da população (cor).
- Fala dos Presidentes de Província.
- Textos de Jornais.

Olavo de Medeiros Filho – Terra natalense (1990)

Historiador diletante e autodidata, como gosta de se chamar, tem uma preocupação


revisionista, buscando esclarecer dúvidas que a historiografia anterior lhe deixara. Trata de
Natal no seu período colonial, mas, é inovador na utilização de fontes consideradas sociais,
como os registros paroquiais de batismo, casamento e óbito, além dos inventários, que
também utiliza em seu Velhos Inventários do Seridó. Como discute muitas vezes com a
historiografia anterior, para se apoiar nas discussões, apresenta bibliografia completa,
cronistas e historiadores e listagem de fontes, com indicação completa e localização:
- Livros de Cartas e Provisões do Senado da Câmara
- Livros de Termos de Vereação;
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I ENCONTRO REGIONAL DA ANPUH/RN – ANAIS

- Mapas populacionais;
- Livros de Registro de Sesmarias;
- Livros de Registro de Óbitos, Casamentos e Batismos;
- Inventários.

Os dois primeiros historiadores, advogados de formação, fazem uma ordenação


cronológica de fatos considerados de importância para a construção de uma história político-
administrativa local, descrevendo acontecimentos e instituições administrativas. Também se
preocupam com a formação étnica da população, utilizando os mapas populacionais para
descrever a composição da mesma. É uma prática historiográfica herdeira das preocupações e
procedimentos do IHGB, isto é, a que procurava instituir “a” História do Brasil. No caso, o
que se procurava instituir era “a” História do Rio Grande do Norte, com uma periodização
definida, seus heróis e vilões, suas datas comemorativas. As fontes e documentos são provas
do que dizem, procuram a acumulação de informações lastreadas nas fontes, mas não a
divulgação delas porque a credibilidade do historiador estava no seu prestígio. Além disso,
documentos eram objetos de trabalho de muito poucos que discutiam entre si, e não eram
destinados à apreciação pública.
Os dois últimos (Tarcísio, advogado e professor universitário, e Olavo, técnico
administrativo e historiador do IHGRN/IHGB) fazem uma história temática, respeitando a
ordenação proposta pelos dois anteriores. Por sua visão temática, buscam as fontes que sirvam
aos temas específicos estudados, mas não ultrapassam a tendência descritiva e não
problematizam metodologicamente as fontes utilizadas.
Podemos dizer que o que potencializa as fontes é o historiador com a problematização
que constrói a partir das fontes e no contínuo trabalho com elas. Nesse sentido, mesmo as
fontes já utilizadas, como os Livros de Cartas e Provisões do Senado da Câmara, têm
potencialidade para muitas pesquisas, de acordo com um novo olhar, não mais aquele olhar
ordenador, mas o inquiridor, o problematizador.

O Instituto Histórico tem ainda outras fontes não trabalhadas de forma metodológica,
como os Assentos de Batismos, de Casamentos e de Óbitos da Paróquia de N.ª Sr.ª da
Apresentação; os Livros da Alfândega de Natal; os Livros da Provedoria do Rio Grande; os
Livros da Assembléia Provincial; os Mapas de Produção Econômica e os de População:
profissão, corporações, doenças.
No entanto, estes documentos não estão organizados, nem descritos analiticamente,
tendo-se apenas uma listagem que está sendo refeita. Na realidade, não se sabe ao certo o que
existe no IHGRN, mas somente a busca do historiador poderá revelar isto. Uma busca dirigida
por bases teóricas sólidas e atualizadas e sustentada por uma capacitação metodológica do
profissional da história, que não pode mais se deixar levar apenas pela paixão, mas aliar a ela
o preparo e o afinco.
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CONFERÊNCIAS E MESAS-REDONDAS

BALANÇO DA HISTORIOGRAFIA NORTE-RIO-GRANDENSE

Marlene da Silva Mariz

Amaral Lapa ( 1981) afirma que a História encontrou uma denominação própria
para o exame da evolução dos seus estudos para a história da História, ou seja a
Historiografia. Significa dizer que, a historiografia é o somatório de estudos de historiadores
de um país ou uma região, que pela sua profundidade e o nível a que chegaram em sua
progressão, despertaram o interesse pela sua própria história, isto é, a análise de sua evolução.
Portanto, a historiografia não se resume apenas na enumeração de obras e autores, mas
compreender o conteúdo da obra em profundidade, das idéias, da palavra e da própria ação
dos historiadores ao longo de sua vida.
O levantamento da historiografia norte-rio-grandense até mais da metade do século
XX, mostra que o conhecimento histórico e a Historiografia são basicamente os mesmos do
século passado, ou seja, mantem as mesmas limitações tradicionais, não tomando no seu
conjunto, conhecimento do progresso sofrido pelas ciências humanas.
Assim, a realização desses trabalhos não conta com a metodologia do trabalho
científico, com referência das fontes utilizadas na elaboração do seu conhecimento histórico,
o que não era ainda conhecido no tempo.
As obras publicadas até então, se caracterizam de um modo geral, por um
revisionismo factual descritivo, numa posição epistemológica de buscar o fato no passado tal
qual ele se deu. É notável a ausência de qualquer contribuição das demais ciências sociais, da
mesma forma que ainda não haviam se renovado as técnicas de investigação e fontes e os
temas eram quase sempre os mesmos, ou seja, quase todos enfocando a época colonial. Para
tanto,é conveniente que se leve em consideração a documentação existente no IHGRN,
principal fontes dos historiadores dessa fase.
Os historiadores como Vicente Lemos, Rocha Pombo, Moreira Brandão Castelo
Branco,seguidos de, Augusto Tavares de Lira, Rodolfo Garcia, Luis da Câmara Cascudo,
Tarcísio Medeiros e Olavo Medeiros Filho, entre outros, fazem parte de uma geração que
deixou sua contribuição para a historiografia potiguar no modelo mencionado acima. São
conhecidos como autores de uma historiografia tradicional, caracterizando-se, acima de tudo,
pela grande ligação com o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e suas
fontes. Entretanto, é inegável a importância da contribuição desses primeiros pesquisadores e
suas produções para a historiografia local.
O historiador José Honório Rodrigues afirma que a pesquisa histórica no Brasil
nasceu com a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838. O mesmo se
pode dizer com relação ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, uma vez
que é com o surgimento dessa entidade e seu acervo documental que surgem as primeiras
obras da historiografia potiguar, cujos primeiros resultados foram publicados como artigos na
sua revista anual.
O IHGRN, teve sua origem em Natal, em 1902, devido uma grande quantidade de
documentos reunidos no decorrer da conhecida Questão de Grossos, que tratava dos limites
entre o Rio Grande do Norte e o Ceará. Além disso, deve-se acrescentar o incentivo de
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I ENCONTRO REGIONAL DA ANPUH/RN – ANAIS

intelectuais como Vicente Lemos, Alberto Maranhão, Pedro Velho, Tavares de Lira e Antonio
José de Melo e Sousa, entusiasmados com estudo dos documentos para preservar a memória,
o que fez nascer o IHGRN e com ele a Historiografia Norte-rio-grandense. O único trabalho
encontrado realizado anterior a essa fase é o de Manoel Ferreira Nobre publicado em 1877:
"Breves Notícias sobre a Província do Rio Grande do Norte", impresso na Tipografia de
Vitória, ES., tratando pioneiramente da história, geografia e economia do Rio Grande do
Norte, num estilo de compilação de informações. Foi feita uma 2ª edição pelo IHGRN em
1971.
Em 1912, Vicente Lemos publica o 1º vol. Capitães Mores e Governadores do Rio
Grande do Norte, que trata da fixação portuguesa na capitania de João de Barros, o inicio da
colonização e da relação dos capitães-mores da capitania até 1701. O segundo volume, que
deixou iniciado,foi concluído por seu sobrinho, o também, historiador Tarcisio Medeiros,
publicado em 1980.
O historiador norte-rio-grandense Rodolfo Garcia deixou sua contribuição com
Nomes de aves em língua Tupi, 1913 e Ensaio sobre a História Política e Administrativa do
Brasil , 1500-1810, publicado após sua morte, que trata da organização da administração
colonial do Brasil até antes da independência. A 2ª ed. desse trabalho data de 1975.
A 1ª obra sobre a História do Rio Grande do Norte, com uma visão histórica
continuada dos acontecimentos da capitania até o final do império, é da autoria do historiador
e político Augusto Tavares de Lira editada em 1921.Em 1982 foi feita uma 2º ed. e ainda uma
3º em 1998.Trata-se de uma pesquisa que enfoca o Rio Grande do Norte utilizando a
documentação do IHGRN, no modelo tradicional, destacando no final a situação política e
seus representantes, da qual o autor da obra participou no inicio da República. Tavares de Lira
foi Senador, Governador do Rio Grande do Norte e Ministro da Justiça e Negócios Interiores
no governo de Afonso Pena.
Publicou também "Domínio Holandês no Brasil especialmente no Rio Grande do
Norte", em 1915; " A Independência do Brasil no RN - Algumas notas sobre a História
Política do Rio Grande do Norte - 1817-1824 foi publicada em 1972 pela Pongeti, um estudo
dos acontecimentos da capitania durante o período das juntas provisórias e da passagem da
capitania a província até a regularização da situação política utilizando-se dos documentos do
Senado da Câmara.
O historiador Rocha Pombo, atendendo pedido do governo do Estado publicou uma
"História do Rio Grande do Norte" em 1922, em comemoração ao 1º centenário da
Independência do Brasil, utilizando-se também da documentação do IHGRN e de pesquisas
de seus antecessores no mesmo estilo dos demais; Nos anos 40/50 o destaque é Luis da
Câmara Cascudo, o mais conhecido autor norte-rio-grandense, nacional e internacional,
devido uma vasta produção literária não somente na área da história mas também de folclore e
etnografia. Sobre história, são de sua autoria as publicações " Histórias da Cidade de Natal",
em 1947, com uma 2º ed. em 1980, |Trata-se de uma obra importante para a pesquisa de
assuntos relacionados a cidade de Natal desde sua fundação até o inicio da república,
destacando administração, igrejas, mercados,teatro,bairros, festas de padroeiras,etc.
"Os Holandeses no Rio Grande do Norte", em 1949, "História do Rio Grande do
Norte", 1955; "História da República do Rio Grande do Norte", em 1965, onde apresenta os
fatos da instituição da república no Estado bem como dos principais atores e acontecimentos
políticos, um período onde o autor conviveu com muitos dos políticos que freqüentavam a
casa de seu pai; "Movimento da Independência no Rio Grande do Norte", 1973; "História de
uma Assembléia Legislativa", 1972.
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CONFERÊNCIAS E MESAS-REDONDAS

Nos anos 70 o prof. Tarcisio Medeiros da UFRN publicou suas pesquisas: "Aspectos
geopolíticos e antropológicos da história do Rio Grande do Norte" 1973, estudo onde avança
até a 2ª guerra mundial aqui no Estado; "Bernardo Vieira de Melo e a Guerra dos Bárbaros" ,
separata RIHGRN,1974; "Proto História do Rio Grande do Norte," 1985; "Capitães-mores e
Governadores do Rio Grande do Norte", 1980, e ainda em 2001 publicou "Estudos de História
do Rio Grande do Norte".
Entra também nesta relação de historiadores da linha tradicional e ligados a pesquisa
no IHGRN Olavo Medeiros Filho, com uma vasta produção de pesquisas pertinentes ao Rio
Grande do Norte colonial e ao elemento indígena . São de sua autoria: Aconteceu na
Capitania do Rio Grande, 1997; Caicó 100 anos atrás, 1998;O Engenho Cunhaú á luz de um
inventário, 1993; Os Holandeses na capitania do Rio Grande,1998; Índios do Açu e
Seridó,1984; Naufrágios no litoral potiguar,1988; No rastro dos flamengos,1989; Os tarairius,
extintos tapuias do Nordeste, 1988; Velhas famílias do Seridó,1981;Terra Natalenses,1991.
Finalmente a historiografia potiguar teve seu crescimento incentivado com os cursos
de pós graduação de Mestrado e Doutorado na área da história, que promoveram a
investigação histórica do Rio Grande do Norte, com temas onde a análise é mais profunda,
com novas visões e interpretações. São estudos dentro da metodologia cientifica, com
preocupações teórico metodológicas.

i
Professor do PPGH/ UFPE
ii
O curso de Mestrado em História foi criado em 1974 e credenciado junto ao MEC no ano de 1979. O curso de
Doutorado foi implantado no ano de 1991.
iii
Cf. LAPA, José R. A. Historiografia brasileira contemporânea: a história em questão. 2ª ed. Petrópolis:
Vozes, 1981, p. 45-54.
iv
Para este artigo não foram contabilizadas as dissertações da Área de Concentração Pré-História do Brasil.
v
SCHWARTZ, S. Escravos, roceiros e rebeldes. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2001, p.25-26.
vi
O mais veemente destes críticos, cf. GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Ática, 1980.