Você está na página 1de 6
Dados Internacionais de Catalogasio na Publicagio (CIP) (Cémara Brasileira do Livro, SP, Brasil) ‘Tosi, Giuseppe 10 lies sobre Bobbio / Giuseppe Tosi, ~ Petropolis, Ru: Vozes, 2016. ~ (Colegdo 10 Lives) Bibliografia ISBN 978-85-326-5219-5, 1, Bobbio, Norberto, 1909-2004 2, Democracia 3.Dircito ~ Filosofia 4. Dreto e politica 5. Filosofia pollica 6,Ideologia 7. Politica Filosofia 1. Titulo. IL Série, 1600248, cpu.s4:32 Indices para eatélogo sstemitico: 1. Bobbio Filosofia juridiea e politica: Direitopolticn 34:32 Giuseppe Tosi 10 LIGOES SOBRE BosBIo I" Reimpressio Novembro/2016 y EDITORA VOZES Petropolis do capitalismo para o socialismo. O que acont depois da queda do muro de Berlim, foi o contrari ou seja, um sistema econémico-politico social se transformou repentinamente num sistema c: talista de democracia liberal: uma verdadeira re lugaio as avessas, ou uma “utopia invertida™*, Mas, qual é entdo o sentido da formula biana de um socialismo liberal ou um liberali social? E 0 tema que procuraremos aprofundar proxima ligo, 98. BOBBIO, N. Os intelectuais ¢ o poder. Op. cit, p. 187. Trac ta-se de titulo de uma coletinea de artigos publicados ne Colese ‘Terza Pagina. Turim: La Stampa, 1990, 62 Entre liberalismo e socialismo Duas teses fandamentais do ‘Marx economista deveriam estar ‘sempre presentes: a) o primado do poder econémico sobre 0 poder politico; 6) a previsao de ‘que por meio do mercado tudo pode se tomnar mercadoria, donde ‘a chegada inevitivel & sociedade da mereadorizacdo universal”. Em um dos seus tiltimos ensaios, escrito em |, Bobbio reconhece que o liberal-socialismo ‘0 socialismo liberal pode parecer uma formula ia de conteiido ou com um sentido dificilmente sminavel; jé que, na maioria das vezes, é per- da como um paradoxo ou um oximoro entre s concepsdes ¢ tradig&es politicas opostas ¢ it- ncilidveis, uma vez que: nfo ha nenhuma grande dicotomia no Ambito das ciéncias sociais em que o li beralismo eo socialismo nao se coloquem em lados opostos. [...] Primazia da esfera Privada ou da esfera publica; propriedade individual ou coletiva; a burguesia como sujeito histérico dominante ou o proleta- iado como sujeito histérico alternativo: direita ou esquerda; visio individualista do homem ou visio organicista da socie- dade; atomismo ou holismo; sociedade ou comunidade; se alguém tiver outras, é 56 introduzi-las. O individu vem antes da sociedade, ou a sociedade antes do indivi- duo? A parte vem antes do todo, ou 0 todo antes da parte? Concepeo conflituosa da sociedade ou concepgao harmonizadora do conjunto social? Sobre essa dicotomia, Bobbio faz um comen- tirio de certa maneira surpreendente ao considerar ue estas antiteses, aparentemente imeconciliveis, “estilo fadadas a se atenuar transformando o oximo- To em uma sintese, d medida que nos afastamos dos movimentos socialistas influenciados pelo marxis- ‘mo”, e cita como exemplo o liberal-socialismo de Stuart Mill e Hobhouse, mas também de Bertrand Russell, na Inglaterra, de John Dewey nos Estados Unidos, os dos Irmaos Rosselli, de Guido Calogero € Piero Gobetti na Itélia, que foram socialistas, mas nao marxistas'”. 100. BOBBIO, N. O flésofo ea politica. Op. ct. p. S07-508. 101. Ibi, p. 508-509, 64 ‘A mesma posigdo vale para o lado liberal: 0 coximoro se atenua se ndo se consideram as criti- cas radicalmente antissocialistas de Vilfredo Pareto (em Sistemas socialistas), de Ludwig von Mises (Socialismo) ou de Frederich von Hayek (O cami- nho para a serviddo), ou seja, dos criticos mais ra- dicais do socialismo e do comunismo' Como vimos no debate com os comunistas, ‘Bobbio nunca foi um anticomunista como os auto- res citados, ou como na Franga Raymond Aron, na Austria ¢ na Inglaterra Karl Popper, na Itélia Gio- vanni Sartori, e essa acusagdo de “benevoléncia” para com os comunistas the foi langada pelos seus riticos como uma espécie de concessio perigosa, qual ele se defende assim: © fascismo fora o inimigo. Os comu- nistas foram naqueles anos adversérios com os quais era preciso estabelecer um didlogo a respeito dos grandes temas da liberdade, da justiga social, e sobretudo da democracia, para resistir a’contraofen- siva, época talvez supervalorizada, da direita reaciondria'®, Ele defendia esta postura inclusive porque con- jerava 0 socialismo “no uma antitese do libera- smo, mas, de certa forma, sua continuago e com- Ibid, p. $07. BOBBIO, N. O tempo da meméria, Op. cit, p. 131 65 plemento”, posigdio que Bobbio considerava tipica do social-liberalismo italiano de Carlo Rosselli, ‘mas também de em algumas figuras do marxismo humanista italiano como, por exemplo, Rodolfo Mondolfo, que escreveu: “O marxismo, como sua filosofia da praxis [...] & herdeiro da filosofia clés- sica da liberdade, por ele levada a suas consequén- cias extremas”!™, Para colocar historicamente essa continuidade, obviamente numa histéria das ideias ou “ideal”, Bobbio apresenta um dos seus esquisse ou tableau 4 la Condoreet que sintetizam em uma formula sé- culos de histéria, colocando em sequéncia ideal trés tipos de emancipago: a religiosa (a Reforma), a po- litica (a Revolugao Francesa) e a econémica (0 So- cialismo), que relembram a sua Teoria das Geragdes de Direitos que analisaremos mais adiante: [Em termos um tanto esquematicos, a eman cipagao politica, que foi obra da Revolugao Francesa, teria sido seguida pela eman- cipacfo econémica. Alids, a Revolugao Francesa foi precedida, por sua vez, com a Reforma e 0 processo de secularizacio dela decorrente, pela emancipagio religiosa. As emancipagées religiosa e politica espera- vam ser complementadas pela emancipagao ‘econémica. [...] As duas primeiras formas 104. Ibid, p. S11. 66 de emancipacto tiveram éxito; a terceira mostrou-se mais dificil". Marx havia entendido claramente a supremacia do poder econémico, mas os movimentos que nele se inspiraram fracassaram e tiveram efeitos per- vversos, sendo o principal a repressfo da liberdade. Depois da queda do comunismo, volta a atualidade ‘© tema de um socialismo liberal, que ele conside- ra possivel, ou seja, um socialismo “a inventar”, ‘menos ligado aos textos candnicos e aberto para a ‘renovagao sem medo de serem tachados de revisio- nistas, ou, pior, de traidores da ortodoxia™. Bobbio pensa, sobretudo, num socialismo que sia indissocidvel da democracia. “Creio — afirma jobbio — que se pode dizer que o encontro entre 0 iberalismo apresentou-se historicamente por duas as diferentes: a do liberalismo ou libertarismo jovendo-se para 0 socialismo, entendido como mplemento da democracia puramente liberal, ¢ a socialismo para o liberalismo, entendido como ~onditio sine qua non de um socialismo que nao gia antiliberal”™”, Dessa sua posigdo deriva a defesa da atuali- ide da diferenga entre direita e esquerda, como diferenga entre os que, por um lado, defendem a liberdade como valor primério e os que, por outro, analogamente fazem-no com a igualdade; ideia pre- sente no seu livro que teve maior éxito editorial na Itélia quando foi langado em 1994", A postura as- sumida rendeu-Ihe muitas criticas, sobretudo a di- reita; criticas que 0 colocam claramente no campo: de esquerda, Bobbio reconheceu que nunca se decidiu en- tre 0 liberalismo € 0 socialismo e este seu “estar no meio” constitui a0 mesmo tempo a sua forga € a sua debilidade: forga porque Ihe permitiu certo distanciamento e olhar critico sobre a politica coti- diana ligada as exigéncias dos partidos; debilidade porque provocou algumas oscilagdes e indefinigdes no seu pensamento. Sobre essa questo, parece-nos oportuno fazer uma breve comparacdio entre a posigdo de Bobbio € ade um dos maiores intelectuais marxistas brasilei- 10, Carlos Nelson Coutinho, que colocava a relagio! entre socialismo e democracia, em termos pareci- dos aos de Bobbio, mas dava a este dilema uma’ solugio diferente. Afirmava Coutinho que nao hé socialismo pos: sivel sem democracia, considerada como um “val 108. BOBBIO, N. Direita e exquerda ~ Razbes e significados de) ‘uma distingZo politica. Sto Paulo: Unesp, 2001 (Trad. de Marca Aurélio Nogueia}. 68 versal”, citando uma famosa expresstio do anti- lider do Partido Comunista Italiano Enrico Ber- finguer". Por outro lado, em outro livro intitulado ‘ontra a corrente', afirmava que nao pode haver 1a democracia sem socialismo, e essa segunda fe da tese € to importante quanto a primeira e sm mais dificil de realizar. Enquanto 0 primeiro livro, escrito em 1979, fatizava a importincia do respeito do sistema de tias de direitos das democracias burguesas, iticando assim as teorias que consideravam as li- ides “burguesas” um campo meramente tatico nfo estratégico para a construgo do socialismo digio que podemos definir “leninista”); 0 se- ido, publicado em 2008, ia no sentido oposto, iticando as teorias que defendiam uma acomo- io permanente da democracia aos moldes ca~ istas, remetendo o socialismo para horizontes. ipre mais longinquos e, de fato, renunciando a (tradigdo reformista que encontra em Bernstein mutsky os seus fundadores). A proposta de Coutinho ¢ a de que a democra- (entendida sobretudo como direta ou partici- iva) & a condicao necessdria a qualquer projeto COUTINHO, C.N, A democracia como valor universal. Rio Janeiro: Civilizagto Brasileira, 1979, COUTINHO, CIN. Contra acorrente— Ensaios sobre democ- ia e socialism. Sdo Paulo: Cortez, 2008. 69 socialista, tese bastante consolidada e incorporada a teoria e pratica dos projetos socialistas na atuali- dade. A experiéneia dos socialismos do século XX ensinou que a aboligao dos direitos e das garantias individuais e do pluralismo politico em nome de uma ditadura, mesmo que do proletariado, é um ca- minho que nao pode ser mais percorrido. Bem mais arduo e dificil, porém, & apontar um novo caminho a ser seguido, o caminho que leva a0 socialismo a partir da democracia: até 0 momento nenhum projeto socialista foi realizado a partir de uma “radicalizagaio” da democracia. O dilema de Coutinho ¢ de Bobbio, em relagdo a democracia e 0 socialismo, parte dos mesmos pressupostos, mas a diferenga esta em que para o primeiro a solugdo se encontra numa reformulagdo e atualizagao da pers- pectiva revolucionéria marxista, para o segundo no seu definitivo abandono em favor do reformismo. De qualquer forma, o tema central da discussio em jogo era o da democracia, nas suas vérias for- mas, como veremos a seguir. SEXTA LIGAO A democracia representativa Na democracia moderna o soberano néo 0 povo, mas sim todos os cidadaos. O povo € uma abstragao, cémoda, mas 120 mesmo tempo enganadora: 0s individuos, com seus defeitos e interesses, s20 uma realidade. Nao por casuatidade, nna base das democracias ‘modernas estdo as declaragdes dos direitos do homem e do cidadao, desconhecidas para a democracia dos antigos'" Bobbio é reconhecido como um dos mais im- rtantes tedricos da democracia, mas a sua con- -peao de democracia é bastante complexa. 0 fil6- fo italiano nao deixou um tratado sistematico de oria politica ou de teoria da democracia ~ ape- dos esforgos dos seus colaboradores para criar sma “teoria geral” da politica -, mas publicou nu- 111, BOBBIO, N. 0 filésofoe a politica. Op. cit, p. 283.