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MACINTYRE, Alasdair. Kierkegaard IN: EDWARDS, P.

The Encyclopedia of
philosophy. London: MacMillan, 1967, v. 4. pp. 336-40.1

KIERKEGAARD, SØREN AABYE (1813-1855), filósofo dinamarquês e


pensador religioso, frequentemente considerado como o primeiro existencialista importante,
sendo o filho mais novo de Mikaël Pederson Kierkegaard e Anne Sørendatter Lund,
nascido quando seu pai tinha 56 anos e sua mãe 44. Sua infância foi passada numa
companhia bem próxima do seu pai, que insistiu nas altos padrões de desempenho em
Latim e Grego. Inculcando-o na sua guia ansiosa de devoção pietista de um tipo
profundamente emocional, que despertou em seu filho uma imaginação continuamente
interpretativa de estórias e dramas. Kierkegaard, assim, sentiu cedo a demanda de uma vida
que deveria ser no mínimo intelectualmente satisfatória, dramática e uma arena da devoção.
Confrontado com o sistema hegeliano da Universidade de Copenhagen, ele reagiu
fortemente contra isso. Tal sistema não poderia suplantar o que ele precisava - "a verdade
que é verdadeira para mim, para encontrar uma ideia pela qual eu possa viver e morrer"
(Journal, Ago. 1, 1835). O luteranismo dinamarquês não poderia prover isso. Ele deixou de
ser um praticante religioso e embarcou numa vida de prazer, gastando fortemente com
comida, bebidas e roupas. A melancolia que havia se originado na sua infância continuou a
assombrá-lo, e por sua vez, foi crescendo pela confiança que seu pai depositou nele, no
senso de culpa em ter de alguma forma um forte pecado contra Deus. Para Kierkegaard, a
questão de como o homem pode ser resgatado do desespero foi consequentemente
intensificando-se. Ele resolveu retornar aos seus estudos e tornou-se pastor. Após terminar
a sua tese "Sobre o conceito de ironia” (1841), ele pregou o seu primeiro sermão. Ele se
torna noivo de Regine Olsen, que tinha 17 anos de idade. Na medida em que tomou
consciência da sua vocação singular, sentiu-se incapaz de compartilhar a sua vida com
qualquer outra pessoa ou mesmo de viver o papel convencional de um pastor luterano. Para
ele, romper com o seu noivado foi um passo decisivo na implementação sua vocação. (Essa
visão cósmica do rompimento não parece ter sido compartilhada com sua jovem noiva, que
naturalmente, como uma noiva com orgulho ferido por ter seu afeto rejeitado, guinou seu
casamento com Fritz Schlegel, posteriormente governador das Índias orientais

1
Tradução feita por Gabriel Kafure da Rocha, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ética e
Epistemologia (PPGEE-UFPI)
dinamarquesas). A partir de então, Kierkegaard passa a viver uma vida isolada como autor,
embora ele tenha se envolvido em duas grandes polêmicas públicas. A primeira foi a
denuncia dos baixos padrões da população de Copenhagen no jornal satírico O Corsário. A
segunda surgiu do seu desprezo pela igreja luterana dinamarquesa, especialmente pelo seu
principal rerpesentante, Bispo Mynster, que morreu no início de 1854. Quando Mynster foi
nomeado como o prócere, o Professor Hans Martensen, declarou que Mynster tinha sido
"testemunha para a verdade". Kierkegaard entregou uma série de ataques amargos sobre a
igreja em nome da incompatibilidade que viu entre o que estava estabelecido num
conformismo eclesiástico e o caráter interior e pessoal da fé cristã. Ele morreu pouco tempo
depois de recusar o sacramento de um pastor. "Pastores são funcionários reais; oficiais reais
não tem nada a ver com o cristianismo". Nesse caso, a biografia de Kierkegaard é
necessariamente mais relevante para seu pensamento do que para maioria dos filósofos,
pois ele se viu num inquérito filosófico: nem como construção de sistema ou como
tampouco na análise de conceitos, mas como expressão da existência individual. O epitáfio
que compôs para si mesmo foi simples, "Foi um individuo". Do seu próprio ponto de vista,
qualquer veredito sobre o seu pensamento pode ser apenas a expressão de uma própria
existência crítica, não uma avaliação crítica que poderia permanecer ou cair de acordo com
um tipo de padrão objetivo e impessoal. Portanto, todas as tentativas de uma avaliação
objetiva do seu pensamento foram condenadas por ele antecipadamente. Ele previu e temia
que iria cair nas mãos dos professores. Além disso, a primeira dificuldade criada pela
subjetividade de Kierkegaard é agravada por seu estilo e forma de composição. Na medida
em que ele atacou Hegel, herdou também grande parte do vocabulário hegeliano. Passagens
de grande brilho cintilante tendem à alternar com parágrafos do jargão turvo. Ambos os
tipos de escrita, muitas vezes provam-se inimigas da clareza de expressão. Grande parte de
seus livros foram escritos para finalidades altamente específicas, e não existe discussão
clara de desenvolvimento neles. A um dispositivo de Kierkegaard deve ser dada uma
menção especial: ele escreveu vários de seus livros sob pseudônimos e se utilizou de
diferentes pseudônimos para que ele pudesse, sob um nome, atacar ostensivamente seu
próprio trabalho já então publicado sob outro nome. Sua razão para isso foi justamente
evitar a aparência de ter tentando construir um singular, consistente, edifício sistemático do
pensamento. Pensamento sistemático tal qual, especialmente o sistema de Hegel, que era
um de seus alvos principais.

O sistema, o individuo e a escolha. No sistema filosófico hegeliano, ou melhor, na


sua construção sucessiva de sistemas, o desenvolvimento ligado entre liberdade e razão é
um sistema lógico. Fora do mais básico e abstrato de conceitos, o Ser e o Nada, foi
desenvolvido pela primeira vez o conceito de devir e as várias fases do devir em que a idéia
absoluta se realiza durante o curso da história humana. Cada fase da história é a expressão
de um esquema conceitual, no qual a articulação gradual dos conceitos leva a uma
realização da sua inadequação e contradição, de modo que esse esquema é substituído por
outro maior e mais adequado, até que o Conhecimento Absoluto finalmente emerge e todo
o processo histórico é compreendido como um único desdobramento lógico. É essa
compreensão em si que é a culminância do processo, e este ponto foi efetivamente
alcançado por Hegel em sua própria filosofia. Assim, na Ciência da Lógica ele era capaz de
escrever que estava definindo não apenas seus próprios pensamentos, mas os pensamentos
de Deus - a idéia de Deus sendo simplesmente uma antecipação da concepção hegeliana do
absoluto.

Na visão de Hegel, tanto moral e desenvolvimento religioso são simplesmente fases


neste processo total. Na Fenomenologia do Espírito, Hegel descreveu o individualismo
moral do século XVIII, por exemplo, em termos de um progresso lógico do projeto
hedonista de uma busca universal do prazer privado, por meio da idealização romântica da
"nobre alma", com o esquema kantiano do dever e do imperativo categórico, tentando
mostrar como cada um foi trazido à existência pela contradição desenvolvida por seu
antecessor. Em termos da visão hegeliana, o indivíduo é essencialmente representativo de
sua era. Sua pessoa e visões religiosas devem dar expressão ao seu papel no
desenvolvimento moral e religioso da totalidade da humanidade - um papel em que é
imposto a ele por este lugar no esquema histórico. O que ele pode, na melhor expressão,
não transcender a sua era.

Para Kierkegaard, Hegel dissolveu a concretude da existência individual em


abstrações características do campo conceitual. Qualquer esquema conceitual particular
representa não uma realidade, mas uma possibilidade. Ainda que um determinado indivíduo
perceba essa possibilidade e assim lhe confira existência, isso depende do indivíduo e não
dos conceitos. O que o indivíduo faz não depende do que ele entende, mas sobre o que ele
quer. Kierkegaard invoca tanto Aristóteles e Kant em apoio da sua contenção de que Hegel
assimilou ilegitimamente conceitos da existência individual, ele elogia em particular, o
modo de refutação do argumento ontológico de Kant. Mas Kierkegaard, em sua doutrina do
primado da vontade é, na verdade, mais uma reminiscência de Tertuliano ou Pascal.

Kierkegaard reforçou sua doutrina da vontade com a sua visão escolha última
indeterminada. Ele manteve que o indivíduo constitui-se enquanto tal por meio de sua
escolha de um modo de existência, em vez de outra. O cristianismo não é uma fase no total
desenvolvimento de idéias religiosas e morais do homem; é uma questão de escolha de
aceitar ou rejeitar a Palavra de Deus; é o núcleo de toda a existência humana. Mas a escolha
não se restringe a esta decisão suprema, que é o núcleo de toda a existência humana. A
visão hegeliana de que a existência humana se desenvolve logicamente dentro e através de
regimes conceituais não é meramente um erro intelectual. É uma tentativa de disfarçar a
verdade dos fatos, para arrematar a responsabilidade para a escolha, e para encontrar um
álibi para as escolhas de cada um. Além disso, a construção do sistema especulativo
falsifica existência humana de outra forma, pois sugere que, embora aqueles que viveram
antes da construção do sistema pode ter tido que se contentar com uma visão parcial e
inadequada da realidade, a chegada do sistema final provê um ponto de vista absoluto. Mas,
de acordo com Kierkegaard, tal coisa deve ser um ponto de vista ilusório. A existência
humana é irremediavelmente finita, seu ponto de vista é incorrigivelmente parcial e
limitado. Supor o contrário é ceder à tentação de orgulho, como a tentativa de colocar-se no
lugar de Deus.

Essa conclusão é apenas um caso especial da doutrina geral de Kierkegaard que seus
adversários intelectuais foram culpados, fundamentalmente, não de falácias e erros, mas de
inadequação moral. Aquele Kierkegaard deve ter pensado que não só reflete sua
personalidade infeliz, era uma conseqüência necessária da sua doutrina de escolha. Outra
conseqüência necessária era seu modo de autoria. No seu próprio terreno, ele não pode
esperar para produzir pura convicção intelectual dos seus leitores, tudo o que ele pode fazer
é confrontá-los com as escolhas. Por isso, ele não deve tentar apresentar uma posição única.
Isso explica o método de expor pontos de vista incompatíveis, em diferentes livros e usando
diferentes pseudônimos para trabalhos com diferentes pontos de vista de Kierkegaard. O
autor deve se esconder, sua abordagem deve ser indireta. Como um indivíduo, ele deve
testemunhar a sua verdade escolhida. No entanto, como um autor que não pode esconder o
ato de escolha. A partir destas visões, é visível que Kierkegaard utilizado um conceito
especial de escolha.

A essência do conceito kierkegaardiano da escolha é a falta de critério. Na visão de


Kierkegaard, se o critério determina o que eu escolho, não sou eu quem faz a escolha, daí
que a escolha deva ser indeterminada. Suponhamos, porém, que se eu invocar critérios, a
fim de fazer a minha escolha, então tudo o que esteve acontecendo é que eu escolhi os
critérios. E se, por sua vez, eu tento justificar minha seleção de critérios por um apelo a
considerações logicamente convincentes, então eu tenho, por vez, que escolher os critérios
à luz dos quais estas considerações apareçam logicamente convincentes. Os primeiros
princípios devem ser escolhidos pelo menos sem o auxílio de critérios, simplesmente em
virtude do fato de que eles são primeiros. Assim, os princípios lógicos, ou as relações entre
os conceitos, não podem, em sentido nenhum, determinar posições intelectuais de uma
pessoa, pois são suas escolhas que determinam a autoridade que tais princípios têm para
ele. O homem então nem mesmo é limitado por princípios como os que impõem
consistência e proíbem a contradição? Aparentemente, não. Pelo mesmo paradoxo, é
possível desafiar o intelecto de tal forma que seja possível um objeto de escolha. Os
paradoxos que Kierkegaard tem em mente neste ponto de seu argumento são aqueles
colocados pelas exigências da ética e religião. Ele está preparado para admitir que em áreas
como a matemática, os procedimentos normais da razão são legitimados, mas não existem
normas objetivas onde a existência humana está envolvida.

A estética e a ética. em A Alternativa (Either / Or): Um fragmento da Vida (1843),


a doutrina da escolha é colocado para trabalhar em relação a uma distinção entre duas
formas de vida, a ética e a estética. O ponto de vista estético é o de um hedonismo
sofisticado e romântico. Os inimigos do ponto de vista estético não são apenas a dor, mas
também e acima de tudo, o tédio. Como Kierkegaard escreveu sobre o protagonista do
esteticismo em Purificai seus corações!, “vê-lo em sua temporada de prazer: será que ele
não anseia por um prazer após o outro, variando o seu lema?". O protagonista tentou
realizar todas as possibilidades, e não há possibilidade que lhe forneça mais do que uma
realidade momentânea. "Todo tipo de humor, todo pensamento, bom ou mau, alegre ou
triste, você persegue até seu limite máximo, mas de tal forma que esta venha a passar in
abstracto e não em concreto, em tal caminho que a própria busca é um pouco mais do que
um estado de humor... ". Mas só porque o tédio é sempre contra aguardado, então sua
ameaça é perpétua. No final, a busca pela novidade o leva ao limite do desespero.

Por outro lado, a ética constitui a esfera do dever, de regras universais, de demandas
e tarefas incondicionais. Para o homem no estágio ético "a tarefa principal não se pode
contar com os dedos quantos deveres que alguém tem, mas se um homem sentiu uma vez a
intensidade do dever, de tal forma que a consciência disso é para ele a garantia eterna
validade do seu ser" ( Either / Or , II, p. 223) . É importante notar como a intensidade do
sentimento entra na definição kierkegaardiana do estágio ético. Ele achava que o seu tempo
mostrava notavelmente falta de paixão, daí não se deve deixar enganar por tons kantianos
das suas discussões do dever. O imperativo categórico de Kierkegaard é mais sentido do
que fundamentado. Ele é um herdeiro de tais românticos como os irmãos Schlegel na sua
atitude para com o sentimento, assim como ele é o herdeiro de Hegel , em seu modo de
argumentar. Kierkegaard é um constante notificador de que aqueles que mais proclamam
sua própria singularidade são os mais propensos a ter derivado idéias dos autores a quem
conscientemente rejeitam.

Em A alternativa (Either / Or) a discussão entre o ético e o estético é apresentada


por dois personagens rivais: um homem mais velho coloca o caso de ética, um mais jovem
para a estética. Como devemos esperar, o leitor supostamente está sendo deixado para fazer
a sua própria escolha. Mas ele faz? A descrição das duas alternativas parece amplamente
forte em favor do ético. A dificuldade é que Kierkegaard desejou ambos para manter que
não poderia haver nenhum critério objetivo para a decisão entre as duas alternativas, e para
mostrar que a ética foi superior à estética. Na verdade, uma diferença entre o ético e o
estético é que no estágio ético o papel da escolha é reconhecido. Kierkegaard divide este
criticismo em que o homem que adere a estética: "Ele não está escolhendo a si mesmo;
como um Narciso ele caiu no amor apaixonado por si mesmo. Tal situação certamente de
maneira não obstante, terminou em suicídios.". Observações como essa sugerem que, na
verdade, Kierkegaard pensa que a estética falha nos seus próprios termos, mas se ele fosse
admitir isso, seu conceito de escolha interessada não se aplicaria neste momento crítico. Em
uma passagem, Kierkegaard afirma que se uma pessoa escolhe com paixão suficiente, essa
paixão vai corrigir o que estava errado com a escolha. Aqui sua inconsistência é explícita.
De acordo com sua doutrina da escolha, não pode haver critério de "correto" ou "incorreto",
mas de acordo com os valores de seu romantismo submerso, o critério de escolha e tanto a
verdade é a intensidade do sentimento.

Essa inconsistência não foi resolvida, mas sim canonizada na tese de que a verdade
é subjetividade. Por um lado, Kierkegaard quer definir a verdade em termos da forma com
a qual é apreendida, por outro ele quer defini-la em termos de o que é que é apreendido.
Quanto a resultados da inconsistência, ele é muito apto para batizar esta inconsistência de
"paradoxo" e tratar essa aparência como o coroamento de seu argumento.

Kierkegaard não é consistente, no entanto, mesmo em seu tratamento da


inconsistência, para ele, às vezes isso parece implicar que se a ética é forçada aos seus
limites, os resultados contraditórios, portanto, são forçados a passar do ético ao religioso.
"Assim quando o pecado entra na discussão, a ética falha... para repetição essa é a
expressão suprema da ética, mas, como tal, contém a mais profunda contradição ética"
(Temor e tremor, p. 147, nota de rodapé). O que é isso, mas o hegelianismo do mais puro
tipo?

Kierkegaard descreve a transição do ético ao religioso de forma diferente em


diferentes períodos. Em A alternativa (Either / Or) a ética parece às vezes incluir o
religioso. Até o momento do Postscriptum conclusivo não científico às Migalhas filosóficas
(1846) foi escrito, o religioso parece ter absorvido a ética. Em Temor e Tremor (1843), a
passagem do ético ao religioso é ainda mais impressionante do que a da estética à ética. Um
dos heróis desta transição é Abraão. Na demanda de Abraão sobre o sacrifício de Isaac,
Deus exige algo que, do ponto de vista do ético, é absolutamente proibido, uma
transgressão do dever. Abraão deve dar o salto de fé, aceitar o absurdo. Ele deve se
candidatar à uma "suspensão da ética" . A tal ponto que o indivíduo tem de fazer uma
escolha sem critério. As regras gerais e universais não podem ajudá-lo aqui, é um indivíduo
que ele tem que escolher. No entanto, de acordo com Kierkegaard, há uma certa
experiência fundamental à margem da ética e das religiosas no qual alguém pode vir a
censurar a si mesmo como um indivíduo. Uma dessas experiências é o desespero que
Kierkegaard descreve em Doença para morte; outra é o medo generalizado e ansiedade que
se caracteriza no Conceito de angústia (1844). Desespero e ansiedade estão na mesma
direção, a experiência de cada força, o indivíduo percebe que ele enfrenta um vazio e que
ele é, de fato, responsável por sua própria condição de doente e pecador. No estado de
desespero, ele é levado a reconhecer que o que ele desespera não são os fatos contingentes
(tais como a perda de um ente querido), mas no que ele afirma serem os objetos de seu
desespero; que o indivíduo se desespera de si mesmo, e para desespero de si mesmo ele vê
a si mesmo enfrentando um vazio que não pode ser preenchido por prazer estético ou ético
de seguir regras. Além disso, a fim de tornar-se consciente de que alguém chegou a este
ponto. Analisando o desespero, reconhecemos a culpa; assim também com a ansiedade.
Kierkegaard contrasta a ansiedade que tem um objeto específico e identificável com aquela
ansiedade sem objeto, ou melhor, ele identifica o tipo de ansiedade que é um medo de nada
em particular como um medo do nada (a reificação dos sintagmas nominais negativos em
frases nominais é tipicamente hegeliana). Na experiência da ansiedade eu me torno
consciente da minha má vontade como algo para o qual eu sou responsável, e ainda que eu
não seja o pecador original. O pecado original é visto como uma doutrina deduzida a partir
da análise da experiência.

Nestas obras de Kierkegaard é evidente que a filosofia existencialista da escolha


está em algum perigo de ser submersa na filosofia romântica do sentimento. Mas o
testemunho do sentimento serve como uma propedêutica para o encontro com o
cristianismo.

Cristianismo. Kierkegaard considerava sua própria tarefa central como a explicação do que
está envolvido em ser um cristão. Além do cristianismo, as únicas religiosidades que ele
discute são os gregos e os judeus, e estes apenas como superfícies do cristianismo. À
primeira vista, doutrinas de escolha e da verdade de Kierkegaard têm uma relação difícil
com a fidelidade ao cristianismo. Justamente porque o cristianismo sempre afirmou ser
objetivamente verdadeiro, independentemente do compromisso subjetivo de alguém, e
Kierkegaard reconheceu isso. “Não só faz essa [revelação cristã] expressar algo que o
homem não deu a si mesmo, mas também algo que nunca teria entrado na mente de
qualquer homem, mesmo como um fio ou uma idéia, ou sob qualquer outro nome que
ninguém gostaria de dar.” ( Journal, 1839 ) .

Se o que acreditamos depende da própria escolha final dos critérios racionais do


crente, então, certamente, todas as crenças têm um momento igual, ou melhor, igual falta de
momento, para alegar a verdade objetiva: Kierkeegaard, no entanto, tentou fugir a essa
conclusão e continuou a argumentar que tanto a escolha final é sem critério como uma
escolha pode ser mais correta do que a outra.

Infelizmente, Kierkegaard nunca considerou as questões levantadas por outras


religiões além do cristianismo, pois iria esclarecer consideravelmente nosso ponto de vista
de sua posição se pudéssemos saber o que ele teria dito sobre um apontamento do Islã ou
do Budismo que era logicamente paralelo à sua conta de cristianismo, em que fez sua
reivindicações repousarem sobre uma doutrina da escolha final. Mas as escolhas que
Kierkegaard discute são sempre aquelas que podem surgir de um dinamarquês educado do
século XIX. A superfície para o cristianismo não é uma religião, mas a filosofia secular.

Esse contraste é mais totalmente elucidado nas Migalhas filosóficas (1844), em que
Kierkegaard começa a partir do paradoxo platônico representado por Sócrates em Menon.
Como se pode vir a conhecer alguma coisa? Qualquer um já sabe o que vem a ser conhecer
ou não conhecer. Mas, no primeiro caso, uma vez que uma pessoa já sabe, e em último
caso, como se pode possivelmente reconhecer o que se descobre como sendo o objeto de
sua busca pelo conhecimento? A resposta de Platão a esse paradoxo é que, no processo de
conhecer, não descobrimos verdades do que até então tínhamos sido totalmente ignorantes,
mas as verdades de que fomos uma vez cientes (quando a alma pré-existe ao corpo), mas
que havia esquecido. Estas verdades estão adormecidas dentro de nós, e para ensinar é
preciso obter tais verdades. Assim, Sócrates faz com que o menino escravo no Menon esteja
ciente de que ele sabe verdades geométricas que ele não sabia que ele sabia.

Suponha-se, no entanto, como questiona Kierkegaard, de que a verdade não está


dentro de nós. Será, então, o caso de que somos estranhos à verdade, para quem a verdade
deve ser trazida para fora. Isso vai seguir o momento em que ficamos sabendo que a
verdade e o professor de quem aprendemos a verdade não vai ficar em um relacionamento
meramente acidental para nós. Na visão socrática, pode-se então aprender geometria deste
professor ou outra coisa, mas a questão da verdade ou um teorema geométrico é
independente da questão de quem aprendeu. Não é assim, na visão de Kierkegaard, há duas
possíveis concepções sobre a verdade que devemos escolher entre; a visão de Socrátes
representa apenas uma alternativa. É importante notar que nas Migalhas filosóficas (1844)
Kierkegaard não diz, como ele diz em outras obras, que uma visão da verdade é apropriada
em matéria da verdade geométrica, mas que outra alternativa apropriada é em matéria da
verdade moral e religiosa. Ele fala de duas visões alternativas da verdade, que,
aparentemente, cobrem - todo tipo de assunto, embora no resto do livro, ele discute
unicamente religião.

Após a visão preferida da verdade em Kierkegaard, se a verdade não está dentro de


nós, ele deve ser trazido para nós por um professor. O professor deve transformar-nos de
seres que não conhecem a verdade para os seres que estão familiarizados com ela. É
impossível conceber qualquer grande transformação, mas somente Deus pode realizá-la.
Mas como Deus poderia se tornar o professor do homem? Se ele aparecer como Ele é , o
efeito sobre sobre o homem seria intimidar-lo, e assim ele não poderia saber o que Deus
tem para ensinar. (Kierkegaard cita o conto de fadas em que príncipe não pôde aparecer à
menina suína como um príncipe, porque ela não iria chegar a amá-lo por si mesmo). Assim,
Kierkegaard, argumenta que, se Deus deve ser o professor do homem, ele deve aparecer na
forma de um homem, e mais especificamente, na forma de um servo. Do ponto de vista da
razão humana, a idéia de que Deus deveria vir como um professor em forma humana e isso
é um paradoxo impossível que a razão não pode compreender dentro de suas próprias
categorias. Mas de acordo com Kierkegaard, é no encontro com o paradoxo que a razão se
torna consciente do caráter objetivo do que encontra nisso.

Ser cristão é, portanto, subordinar sua razão à autoridade de uma revelação que é
dada em forma paradoxal. O cristão vive diante de Deus pela fé. Sua consciência de Deus é
sempre a consciência de sua própria distância infinita de Deus. O cristianismo inicialmente
se manifesta em formas exteriores, e Kierkegaard censura Lutero por ter tentado reduzir o
cristianismo a uma interioridade pura - um projeto que terminou em seu oposto, a
substituição da interioridade por um mundanismo eclesiástico. No entanto, um sofrimento
interior diante de Deus é o sentimento do cristianismo.

Como mencionado anteriormente, Kierkegaard viu ao seu próprio tempo, como uma
falta de paixão. Os gregos e os monges medievais tinham verdadeira paixão. A idade
moderna carece disso, e devido a isso, não possui uma capacidade de paradoxo, que é a
paixão do pensamento.

As críticas ao Kierkegaard. Kierkegaard utilizou a exposição da lógica aristotélica


de Friedrich Trendelenburg para criticar Hegel. Mas ele nunca levou a questão da natureza
da contradição à sério e, portanto, ele nunca explicou a diferença, se houver, entre o
paradoxo (em seu sentido da palavra ) e a mera inconsistência. Mas sem esse
esclarecimento, a noção é fatalmente obscura. A falta de clareza é aumentada pela falha em
momentos em que Kierkegaard distingui entre a filosofia, como tal, e Hegelianismo.
Kierkegaard, por vezes, parece ter pensado que qualquer filosofia que afirma a objetividade
deve consistir apenas de tautologias (Papirer III , B, 177) .

Sua doutrina de escolha levanta pelo menos duas questões fundamentais: Há


escolhas sem critério? E é por essas escolhas que qualquer um pode ou não chegar ao nosso
critério de crença verdadeira? Casos reais de escolha sem critério geralmente parecem de
alguma forma ser casos especiais. Ou eles são as seleções aleatórias triviais (como de um
bilhete de loteria) ou que surgem a partir de conflitos de atribuições em que cada alternativa
parece igualmente ponderada. Mas nenhum desses casos são escolhas de critérios. Tais
escolhas surgem precisamente no ponto em que não são apresentados como critérios
objetivos. Como é que vamos chegar a esses critérios? Eles parecem estar conectados
internamente com o assunto das crenças e julgamentos relevantes. Portanto, não podemos
escolher nossos critérios de melhor em matemática ou física. Mas o que dizer da moral e da
religião? Pode-se optar por considerar a imposição gratuita da dor como uma atividade
moralmente neutra? Estamos fortemente inclinados a dizer que uma resposta afirmativa
indicaria que a palavra "moral" não tinha sido compreendida. Mas o que é certo é que as
posições fundamentais de Kierkegaard devem permanecer duvidosas até que alguma série
de perguntas como esta tenham sido consideradas sistematicamente. Kierkegaard, por si
mesmo, nunca tentou questioná-las.