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Pensamentos cruzados

I.

Não sei se fico ou se vou. Vou dizer que vou só para me pedirem que fique e depois fico e todos
dizem o que seria se tivesse ido. Posso viver esses dizeres como posso imaginar que vivo sem
viver o que imagino, que é como quem diz viver se fico e parece que vou.

II.

Não posso esperar mais. Confiasse eu e esperava. Há quanto tempo não espero com o alento de
quem confia? Há muito. Foi um tempo de espera esse em que não esperei, deixei-me enganar.
Agora confio que esperar só coisas pequenas é a melhor maneira de enganar a espera que no
engano confiamos.

III.

Aconteceu que não foi bem assim. Malditos mal-entendidos! E que o mal aqui seja dito e
entendido como a tragédia do quotidiano que todos os dias. Todo o mal é entendido antes de ser
dito e não é o ser dito que o faz maldito, é o mal-entender.

IV.

Não ouvi o que disseram. Ouvir e dizer é a mesma coisa. Ninguém ouve o que algum dia não
quis dizer nem diz o que não se permitiu ouvir. Alguns vão dizer que ouviram sem querer, mas
não sabem que ouvir é já querer sem saber o que dizer.

V.

Não foi só uma fase. Não se vive faseado nem mesmo o que não se viveu por inteiro. Não há
limites para o que se entrega ao que se vive e não vejo sentido em pensar que a metade faseia o
inteiro. Tudo o que vivemos é a nossa vida toda.

VI.

Não me elucida ao menos que me espante. Nada pior que lúcido e amorfo. E se lúcida me
espantei com a deformidade de muitos, espantada nunca desejei a lucidez de ninguém. Tão
pouco quis conhecer alguma coisa. O conhecimento é escravo do hábito. E que a vida não me
habitue a conhecer sem espanto.

VII.

Há dias em que tudo me pesa, há outros em que tudo me eleva. Não os distingo a facilidade que
desejaria. Porque fácil é desejar o que se distingue e não pesa e elevar o que pesa nesse desejo.
VIII.

Há quanto tempo não oiço falar dos velhos tempos? Há tempo suficiente para não lhes sentir a
falta. Ansiamos o que passou no futuro que não vivemos e repetimos o que vivemos porque só
na repetição o encontramos. Só que chamamos a isso saudade.

IX.

Já nem lembro o que disse. Lembro o que não disse e por que motivos. Como lembro o que não
fiz mais do que o que fiz e menos do que o que não disse, que foi um pouco mais do que o que
disse. Lembro-me dos dias que não lembrei nada e dos dias em que lembrei e não valeu a pena.
Ah! E lembro-me dessa pena.

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