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Secretaria de Educação do

Estado da Bahia - SEE-BA


Professor - História

Educação Brasileira: Temas Educacionais e Pedagógicos


As diferentes correntes do pensamento pedagógico brasileiro e as implicações na organização do sistema de
educação brasileiro. ............................................................................................................................................................1
A didática e o processo de ensino/aprendizagem: planejamento, estratégias, metodologias e avaliação da
aprendizagem. ......................................................................................................................................................................4
A sala de aula como espaço de aprendizagem. ............................................................................................................ 13
As teorias do currículo. ................................................................................................................................................... 18
As contribuições da psicologia da educação para a pedagogia: implicações para a melhoria do ensino e para
ações mais embasadas da ação profissional docente no alcance do que se ensina aos indivíduos. .................. 24
Os conhecimentos socioemocionais no currículo escolar: a escola como espaço social. .................................... 35
As diretrizes curriculares nacionais para a formação docente. ............................................................................... 38
Aspectos legais e políticos da organização da educação brasileira. ........................................................................ 46
Políticas educacionais para a educação básica: as diretrizes curriculares nacionais. (etapas e
modalidades).... .................................................................................................................................................................. 46
A Interdisciplinaridade e a contextualização no Ensino Médio. .............................................................................. 75
Os fundamentos de uma escola inclusiva. .................................................................................................................... 79
Educação e trabalho: o trabalho como princípio educativo. ..................................................................................... 82
Convenção da ONU sobre direitos das pessoas com deficiência. ............................................................................. 86
Educação para as relações étnico-raciais Decreto nº. 65.810, de 8 de dezembro de 1969 (promulga a
Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial). ........................... 99
O Decreto federal nº 4.738, de 12 de junho de 2003 (reitera a Convenção Internacional sobre a Eliminação de
todas as Formas de Discriminação Racial). ...............................................................................................................106
Ação da escola, protagonismo juvenil e cidadania. A Lei estadual nº 13.559, de 11 de maio de 2016: o Plano
Estadual de Educação 19. ..............................................................................................................................................107
O paradigma da supralegalidade como norma constitucional para os tratados dos direitos humanos. ........122
As avaliações nacionais da educação básica. .............................................................................................................133
As licenciaturas interdisciplinares como paradigma atual da formação docente (menção no art. 24 da
Resolução CNE/CP nº. 2, de 1º de julho de 2015). ...................................................................................................137
Legislação educacional: a) Constituição Federal de 1988 (Artigo n° 205 ao n° 214); .......................................138
b) LDB, atualizada até 30 de setembro de 2017 – Lei federal nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 a Lei federal
nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017; ......................................................................................................................142
c) Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei federal nº 8069, de 13 de julho de 1990; ..................................160
Estatuto do Magistério Público do Ensino Fundamental e Médio do Estado da Bahia - Lei estadual nº 8.261, de
29 de maio de 2002. .......................................................................................................................................................191

Noções de Igualdade Racial e de Gênero


Constituição da República Federativa do Brasil (art. 1°, 3°, 4° e 5°). ..........................................................................1
Constituição do Estado da Bahia, (Cap. XXIII "Do Negro"). ...........................................................................................7
Lei federal n° 12.288, de 20 de julho de 2010 (Estatuto da Igualdade Racial). ........................................................8
Lei federal nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 (Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de
cor). ...................................................................................................................................................................................... 16

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Lei federal n° 9.459, de 13 de maio de 1997 (Tipificação dos crimes resultantes de preconceito de raça ou de
cor) ....................................................................................................................................................................................... 18
Decreto federal n° 65.810, de 08 de dezembro de 1969 (Convenção internacional sobre a eliminação de todas
as formas de discriminação racial). ............................................................................................................................... 19
Decreto federal n° 4.377, de 13 de setembro de 2002 (Convenção sobre a eliminação de todas as formas de
discriminação contra a mulher)...................................................................................................................................... 25
Lei federal nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha). ...................................................................... 30
Código Penal Brasileiro (art. 140). ................................................................................................................................. 37
Lei federal n° 9.455, de 7 de abril de 1997 (Crime de Tortura). ............................................................................... 38
Lei federal n° 2.889, de 1º de outubro de 1956 (Define e pune o Crime de Genocídio). ..................................... 39
Lei federal nº 7.437, de 20 de dezembro de 1985 (Lei Caó). .................................................................................... 39
Lei estadual n° 10.549, de 28 de dezembro de 2006 (Secretaria de Promoção da Igualdade Racial); alterada
pela Lei estadual n° 12.212, de 04 de maio de 2011. .................................................................................................. 41
Lei federal nº 10.678, de 23 de maio de 2003, com as alterações da Lei federal nº 13.341, de 29 de setembro
de 2016 (Referente à Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da
República). .......................................................................................................................................................................... 43

Conhecimentos Interdisciplinares
Linguagem, texto e contexto nos signos verbais e não-verbais. A intermediação entre linguagem verbal e não
verbal no processo de constituição do texto/discurso. ................................................................................................1
A linguagem das ciências e das artes e seu entendimento como chaves à compreensão do mundo e da
sociedade. A linguagem das ciências humanas no processo de formação das dimensões estéticas, éticas e
políticas do atributo exclusivo do ser humano. A linguagem das ciências e das artes e as implicações ao pensar
filosófico, a partir do Renascimento. ...............................................................................................................................3
As linguagens das ciências, das artes e da matemática: sua conexão com a compreensão/interpretação de
fenômenos nas diferentes áreas das relações humanas com a natureza e com a vida social. ...............................8
As linguagens das ciências e das artes e sua relação com a comunicação humana. O significado social e cultural
das linguagens das artes e das ciências – naturais e humanas – e suas tecnologias. ........................................... 10
As linguagens como instrumentos de produção de sentido e, ainda, de acesso ao próprio conhecimento, sua
organização e sistematização. ......................................................................................................................................... 15

Conhecimentos Específicos
Ensino de História: (seleção e organização de conteúdos históricos, metodologias do ensino de História,
trabalho com documentos e diferentes linguagens no ensino de História). .............................................................1
Bahia: primeiros grupamentos humanos e sítios arqueológicos. ...............................................................................7
A questão da identidade nacional na Historiografia brasileira. ............................................................................... 10
Economia, Sociedade e Cultura na Antiguidade: as primeiras civilizações do Oriente, a civilização grega e a
romana. .............................................................................................................................................................................. 14
A Idade Média: a formação da Europa medieval, a geopolítica da expansão do cristianismo, o feudalismo a
transição para o capitalismo. ......................................................................................................................................... 24
Idade Moderna: o renascimento cultural e comercial; o absolutismo monárquico; a reforma e a contra reforma.
.............................................................................................................................................................................................. 27
As grandes navegações no século XV: partilha de terrascoloniais, economia mercantil e regime de monopólios,
fortalecimento da burguesia mercantil. ....................................................................................................................... 32
O tráfico atlântico, a escravidão africana e a diáspora dos povos africanos. A América antes dos europeus:
populações nativas, organização social e cultural. Os povos indígenas da Bahia pré-colonial. ......................... 33
O Brasil Colônia: a sociedade, a economia, a atuação dos jesuítas. A crise do sistema colonial no Brasil:
rebeliões locais e o processo de emancipação política.n ........................................................................................... 36
Iluminismo e Revolução Francesa. ............................................................................................................................... 41
A afirmação do capitalismo e do liberalismo: Revolução Industrial, Ideologias do século XIX (liberalismo,
socialismo utópico e científico, doutrina social da igreja, anarquismo). ................................................................ 45
Brasil Imperial: sociedade escravista, abolicionismo e crise do Império. .............................................................. 51

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História da Bahia: a sociedade baiana no período colonial; o processo de ocupação e produção no espaço
baiano; a Bahia e o tráfico interprovincial de escravos. Resistência de negros e indígenas nos períodos colonial
e imperial da História do Brasil. .................................................................................................................................... 58
Brasil Republicano: República Velha, Era Vargas, Populismo, Ditadura Civil Militar, redemocratização e
contemporaneidade. ........................................................................................................................................................ 61
A Bahia no processo de Independência: o 2 de Julho e seu significado político. Canudos: messianismo e conflito
social. .................................................................................................................................................................................. 80
Mundo contemporâneo: da Primeira Guerra Mundial à Globalização. Os países BRIC: coalizões, impasses e
desafio geopolíticos no capitalismo. ............................................................................................................................. 80
Os povos indígenas da Bahia de hoje. ............................................................................................................................ 95

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EDUCAÇÃO BRASILEIRA: TEMAS
EDUCACIONAIS E PEDAGÓGICOS

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APOSTILAS OPÇÃO

educar o povo. Tomando, lendo e seguindo a risca a bula o


povo terá acesso à riqueza, ao progresso, ao civismo, ao
respeito e moralidade tão desejados ao povo ou do povo para
alguém?
Conforme Bomeny, “O grande problema do Brasil, o
analfabetismo de praticamente 80% de sua população,
aparece como uma condenação ao projeto republicano.” Essa
citação apresenta um quadro, não tão confiável em termos de
dados conforme Bomeny, mas delata a instabilidade
educacional e política da nação no inicio do século XX. Para
As diferentes correntes do corrigir tal distorção, houve um empenho nacional pela
pensamento pedagógico alfabetização em massa. “O remédio parecia milagroso:
alfabetizando a população, corrigiam-se de pronto todas as
brasileiro e as implicações na mazelas que afetavam a sociedade brasileira em sua
organização do sistema de expressiva maioria”. Na verdade, vigorou o princípio da ciência
educação brasileiro. positivista com caráter liberal, como direção essencial para
instaurar o progresso, a inovação no país. Um destes
movimentos foi chamado de Escola Nova, tendo como base
Pensamento Pedagógico Brasileiro1 Anísio Texeira e organizado por intelectuais inspirados nas
ideias político-filosóficas de igualdade entre os homens e do
O Brasil, no início do século XIX, ao cabo de três séculos de direito de todos à educação. “O movimento via na educação
colonização era um país de contrastes, de situações extremas: integral vinculada a um sistema estatal de ensino público, livre
de um lado o litoral e de outro o sertão, riqueza e pobreza, e aberto, como sendo capaz de modernizar o homem
cultura popular sincrética e ortodoxia filosófica e religiosa, de brasileiro, e de transformar essa espécie de “Jeca Tatu” em um
uma devassidão de costumes e de uma rigidez impecável de sujeito laborioso, disciplinado, saudável e produtivo”.
comportamento, valores cristãos e de escravidão, Devemos considerar que esta força intelectual, desejava
mandonismo rural e massa servil, economia exportadora e pela educação, salvar o Brasil do estrago causado por uma
produção de autoconsumo, prevalecendo ainda a contradição política educacional elitista, responsável pelos índices de
de um país dividido em múltiplas dicotomias. E uma delas, a analfabetismo, bem como pela doença que se alastrou sobre a
educação. nação. Nesta perspectiva, os ideais para a renovação da
Lembremos que a nação brasileira, conforme Monarcha educação foram influenciados em grande parte pela calorosa
era inculta, patriarca, conservadora, oligárquica e acima de “conversão” de Anísio Teixeira no movimento educacional
tudo, estava atrasada e doente. Na verdade, esta foi a cara do norte-americano (pragmatismo), pelo qual o aprendizado
Brasil na Primeira República, que sucede o período de ocorre pela capacidade de observação, experimentação do
escravidão, da abolição e do tempo monárquico pós- aluno tendo como orientador, ou facilitador o professor
independência. treinado para este fim.
Neste atravessamento, os livres-pensadores da época, com
suas visões incertas de mundo, livres da religião e cheios de O movimento reformador queria ver contemplado as suas
métodos-científicos veem no novo regime – A República, como demandas político-pedagógicas por meio de um sistema
derradeira abolição dos privilégios de classe, cor, raça e nacional de educação, bem como definir um programa
religião. Todavia não representou a alforria para a maioria ao educacional para o país. Houve muitas discussões e
ingresso na vida, no mercado de trabalho e em especial na participações de segmentos. A Igreja acaba participando da
educação. Isto porque não houve esclarecimento e conquista discussão na tentativa de garantir seus interesses e territórios
das massas humanas, sob os princípios das luzes e virtudes enquanto formadora de mentes e de condutas. Já, os
que por sinal foram a euforia da aurora da Primeira República, educadores reformistas que elaboraram em 1932 o Manifesto
mas que, infelizmente esquecida e apagadas as luzes e as da Educação Nova, defendendo a democratização da educação
virtudes postas de lado, em favor da “[...] depravação dos - escola pública gratuita e laica.
costumes, à predominância dos vícios oligárquicos [...], à Em contrapartida, outro movimento buscava estabelecer a
transformação da liberdade em licenciosidade, à instrução proposta de Fernando Azevedo, que tem como base a distinção
popular reduzida ao ler e escrever de poucos”. Na verdade clara entre educação para elite, enquanto civilizadora e, a
milhares de excluídos da alfabetização. educação para a massa, enquanto força instintiva e afetiva. As
E o Estado-República? Após treze anos, o governo nada fez discussões se estenderam, e os pioneiros são acusados de
para ensinar o povo a ler e escrever. De repente o governo partidários de ideais contrários aos interesses da nação. O
acorda e se depara com a possível ruína da nação, das elites e interessante é que este grupo objetivava ser reconhecido como
do povo, pois o ímpeto modernizador republicano se perderá. base para uma sociedade capitalista, liberal e de livre-
Sem povo não existe nação e não temos povo no Brasil, porque mercado.
não temos educação nacional organizada. Todavia, no pós 1930, alguns interesses educacionais da
nação foram reclamados na Reforma de Capanema, e houve a
A intervenção ou medicação para esta crise foi indicada em retomada das campanhas sanitaristas, que viabilizaram as
1927, na 1ª Conferência Nacional de Educação, no qual Reformas no Ensino Secundário tendo como base as
profissionais especialmente do campo da saúde e do ensino orientações humanistas de caráter elitista; criação do Sistema
por meio do lema norte-americano: sanitation over all, visam de Ensino Profissional (Senai, Sesi, Senac, Sesc) direcionado ao
a higienização do povo através do saneamento do meio físico, povo visando formar mão-de-obra qualificada e, Reforma
social e moral eliminando a “doença endêmica multiforme e a Universitária objetivando um padrão nacional de organização.
ignorância do povo”. Em suma, criados para incorporar a massa inculta ao mercado
O povo é inculto e está doente! Acreditem, a educação e a de trabalho e este efeito permanece até hoje.
saúde são o elixir com direito a bula que deverá higienizar e

1Texto adaptado de MÜLLER, C. A. baseado no livro de GADOTTI, M. Pensamento


Pedagógico Brasileiro.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 1


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APOSTILAS OPÇÃO

Por uma prática libertadora a concepção problematizadora funda-se justamente na relação


dialógico-dialética entre educador e educando – ambos
No atravessamento de ideais, Germano, diz que a vida aprendem juntos, ambos se emancipam.
política do Brasil sempre esteve enlaçada pelas Forças Ser fiel a Paulo Freire significa, antes de mais nada,
Armadas e em especial pelo exército, principalmente a partir reinventá-lo e reinventar-se como ele. Nisto, aliás, consiste a
da segunda metade do século XIX, com a Guerra do Paraguai, a superação (aufhebung) na dialética: não é nem a cópia e nem a
qual revelou conflitos entre o Exército e o Poder Imperial. negação do passado, do caminho já percorrido pelos outros. É
Esses laços se estenderam à abolição da escravatura em 1888; a sua transformação e, ao mesmo tempo, a conservação do que
na instauração da República em 1889; cooperou para o fim da há de fundamental e original nele, e a elaboração de uma
República em 1930; auxiliou no estabelecimento da ditadura síntese qualitativa.
de Vargas, período conhecido como Estado Novo; destituiu o Em outro movimento, de acordo com Gadotti, o educador e
mesmo Vargas em 1945, bem como, esteve presente no antropólogo Brandão nos apresenta a educação popular como
suicídio de Vargas; e, instaurou o golpe de Estado de 1964. alternativa à educação dominante e à conquista de novas
O Estado Novo constitui-se, de acordo com Germano, na formas de organização de classes. Esse deslocamento
consolidação do domínio burguês no Brasil e este movimento aconteceria através de uma educação como processo de
efetiva uma acentuada intervenção do Estado na economia, na humanização ao longo da vida e de maneira variada.
modernização, na educação, entre outros, fazendo com que os Então, o processo de ensino-aprendizagem não é algo
militares abandonem as posições reformistas e busquem neste imposto e sim um ato de conhecimento e de transformação
momento, o fortalecimento das “Forças Armadas, na social, pois, o aprender se daria a partir do conhecimento que
segurança interna e na defesa externa”. Esse deslocamento dos o aluno traz consigo, ou seja, um saber popular e para o
militares preanuncia um aspecto importante do pós 64: a educador é estar comprometido politicamente e, ser solidário
ideologia da Segurança Nacional. Ou seja, é o momento do e responsável por buscar a direção justa para que possam em
antiliberalismo e do anticomunismo. conjunto construir uma consciência cidadã até que o “povo
Devido a crise econômica e política, o inicio dos anos 60 foi assume de uma vez o leme e a direção do barco”.
crítico para as elites brasileiras. Conforme Germano, a Nesta perspectiva, a educação popular, será um processo
instabilidade e insustentabilidade do Estado em criar que busca na organização e na persistência, a participação na
condições favoráveis para um crescimento econômico e de formação, o “fortalecimento e instrumentalização das práticas
garantir a seletividade de classe e a reprodução da dominação e dos movimentos populares, com o objetivo de apoiar a
política da burguesia, em 1964 é deflagrado através da passagem do saber popular ao saber orgânico, ou seja, do
participação da elite, de multinacionais, do Governo dos saber da comunidade ao saber de classe na comunidade”.
Estados Unidos, e das Forças Armadas como executiva, o golpe, Em uma sociedade, conforme Gadotti, que se fundamenta
chamado pelos militares de Revolução de 64. A ditadura foi nos princípios da eficiência e do lucro, as pessoas acabam
consolidada enquanto processo pelos chamados Atos dissipando sua identidade e viram função alienada que segue
Institucionais - AI, por meio dos quais, os direitos civis são às cegas as regras da moral, da ciência, da religião etc., que são
aluídos. Nessa brutal repressão, milhares de pessoas articuladas pelo poder mágico do discurso vigente.
tornaram-se expatriados políticos, torturadas, mortas em Nesse contexto, Rubem Alves propõe a educação como um
nome da Segurança Nacional. espaço possível de desinstalação. Ou seja, procura construir
O regime militar, deste período, realizou a Reforma uma educação, uma escola, enquanto espaço de prazer e da
Universitária, através da Lei 5.540/68, e a Reforma do Ensino fala. Este é o enfoque principal de Alves, citado por Gadotti, a
de 1° e 2° Graus, Lei 5.692/71. Nessas propostas, o homem linguagem, a fala ao lado do corpo.
deverá ser adestrado para a Segurança Nacional. O educador fala com o corpo. É no corpo de cada educador
e de cada educando que estão escritas as suas histórias. Daí a
Em um cenário de intensos discursos e ações, surgem necessidade de lê-lo e relê-lo constantemente. O corpo é o
ideais em favor de reformas estruturais na sociedade primeiro livro que devemos descobrir; por isso, é preciso
brasileira. Em um primeiro momento, Paulo Freire traz a reaprender a linguagem do amor, das coisas belas e das coisas
possibilidade de compreendermos que pela educação, boas, para que o corpo se levante e se disponha a lutar.
enquanto prática libertadora será possível ampliar a
participação das massas e conduzi-las à sua organização Mostra a importância da formação do educador
crescente, conforme Gadotti citando Freire: comprometido consigo mesmo e com o aluno, capaz de
[...] as elites (intelectuais) são assistencionalistas e não superar a burocratização e a uniformização a que são
têm receio de recorrer à repressão e ao autoritarismo submetidos. Inquietando-se com o papel da saber e com a
quando se sentem ameaçadas. Por outro lado, as classes crescente desumanização das relações humanas.
médias estão em busca de ascensão social e se apoiam nas Nas palavras de Gadotti, é valorizar o prazer, o sentimento,
elites. Desta forma, a solução para transformar a sociedade a arte e a paixão na educação e na vida humana. O melhor
opressora está nas mãos das massas populares, método? O método do amor é melhor do que o racional para
“conscientes e organizadas”. educar, aprender e ensinar.
Nessa perspectiva, a pedagogia do oprimido3, enquanto E por que não nos deixarmos envolver pela paixão de
processo, buscaria a superação de uma cultura colonial para conhecer o mundo? Eis a proposta de prática pedagógica de
uma sociedade aberta. Esse movimento deveria buscar a Madalena Freire, na qual é possível o exercício do diálogo
conscientização do sujeito articulado com uma práxis desde a primeira educação articulando conhecer e viver,
desafiadora e transformadora da realidade. Para tanto, torna- envolvidos pela paixão.
se imprescindível estabelecer um diálogo crítico horizontal O trabalho de Madalena Freire, conforme Gadotti busca
(oposta ao eletismo) como condição para favorecer e sustentar superar a dicotomia entre o cognitivo e o afetivo para que a
o amor, a humildade, a esperança, fé e confiança nas relações educação seja um processo prazeroso. Nas palavras de
entre os sujeitos para descobrirem-se como sujeitos históricos Madalena Freire: o ato de conhecer é tão vital como comer ou
no processo. dormir, e eu não podemos comer ou dormir por alguém. A
Em linhas gerais, Paulo Freire, conforme Gadotti escola em geral tem esta prática, a de que o conhecimento pode
caracteriza duas concepções opostas de educação: a ser doado, impedindo que a criança e, também, os professores
concepção bancária literalmente burguesa, pois, o educador é o construam. Só assim a busca do conhecimento não é
o que sabe e julga e os alunos meros objetos. Em contrapartida,

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 2


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APOSTILAS OPÇÃO

preparação para nada, e sim VIDA, aqui e agora. E é vida que brasileiro em busca da construção de um futuro melhor,
precisa ser resgatada pela escola. diferente do passado/presente.
A partir do vivido da criança, o educador pode planejar e Todavia devemos considerar de acordo com Gadotti, para
organizar as atividades escolares sem perder a direção o qual a crise do modelo de educação voltada para a rigidez e
pedagógica e o seu papel organizativo. As atividades se inflexibilidade não é apenas interna à escola e sim de acordo
configuram a partir dos interesses das crianças, da sua com os autores Schwartzman e Brock, que o problema da
vivência, para que o processo de construção do conhecimento educação no Brasil, em um primeiro momento, estava
e do afetivo, por exemplo, a alfabetização e a construção de um erroneamente pautado na falta de escolas, às crianças que não
sistema de representação (leitura e escrita), fluam iam para a escola, e à carência de verbas. Neste sentido, foi
naturalmente na vida da criança para que quando adulto, a considerada, a necessidade de construir escolas, melhores
vida possa fluir sem artifícios. salários ao corpo docente e claro, convencer os pais a
É procurando compreender as atividades espontâneas das enviarem seus filhos à escola.
crianças que vou, pouco a pouco, captando os seus interesses,
os mais diversos. As propostas de trabalho que não apenas Passado alguns bons anos, nos deparamos com os reais
faço às crianças, mas que também com elas discuto, problemas: a má qualidade das escolas, a famosa repetência e
expressam, e não poderia deixar de ser assim, aqueles acrescento aqui a qualidade das aprendizagens. Como após
interesses. tantas reformas, investimentos, e elaborações de políticas e
Não é de estranhar, pois, que as crianças se encontrem nas ações à educação, persistem ainda as elevadas taxas de evasão
suas atividades e as percebam como algo delas, ao mesmo e repetência e muitas outras dificuldades?
tempo em que vão entendendo o meu papel de organizadora e Creio que muitas escolas hoje estão afastadas não de uma
não de “dona” de suas atividades. concepção democrática e libertadora. Isto porque, na grande
maioria dos PPP das escolas, estas propostas, conceitos se
Creio que cabe aos professores o exercício proposto por fazem presentes na escrita. Mas, no planejamento, na prática,
Freire, de se permitirem entender a espontaneidade dos no exercício diário da intervenção pedagógica em sala de aula,
nossos alunos (crianças, jovens, adultos), enquanto condição esta práxis não se faz presente.
possível para desestabilizar uma pedagogia atrelada desde Tristemente, encontramos influência de uma pedagogia,
muito tempo à autoridade, para reprodução homogeneizadora conforme Gadotti, do bom senso, e do silêncio, desconectada
e, como “campo de vigilância sobre o tempo, o espaço, o da vida dos educadores e dos alunos. “Uma vida opaca e
movimento, os gestos, para produzir corpos submissos, conciliadora, e na qual é preciso ser falso, esconder interesses,
exercitados e dóceis”. montar estratégias, ser “esperto” e “levar vantagem.
Na verdade, o movimento proposto e quando articulado às Entretanto, se o Brasil precisa de mais e melhor educação,
práticas pedagógicas é dar sentido não somente para as conforme previsto no Programa de Governo de Dilma Rousseff
atividades, mas também às relações que se constituem no é porque a qualidade do ensino é um dos pilares que sustenta
espaço pedagógico. Esse deslocamento chama para uma nova a proposta por meio da valorização do professor. Valoração,
postura não somente ao professor, mas também ao aluno. renovação, ação. Eis o sentido, das formações e\ou
Ao professor, Gadotti citando Chauí cabe algumas capacitações que deverão propiciar ao professor a
perguntas: qual há de ser a função do educador atual? Como redescoberta da sua função e tarefa - assumidas em juramento.
romper com essa violência chamada modernização? Como não Fazer com que o professor saia de um monólogo e busque
cair nas armadilhas do conhecer para não pensar, adquirir e entender as relações recíprocas existentes entre domínio do
reproduzir para não criar, consumir em lugar de realizar o saber e o domínio do saber fazer. Ou seja, tomar consciência
trabalho de reflexão? do seu verdadeiro exercício, como dinamizador do processo de
ensino-aprendizagem e organizador da intervenção
Ampliando ideais, emancipando ideias. pedagógica. Esse processo de reflexão em formação pode
tornar consciente os modelos teóricos e epistemológicos que
Refletindo sobre os discursos, os ideais e práticas do ontem se evidenciam na sua prática, para então refletir sobre o saber
e do hoje, salvo importantes exceções, percebe-se a constância e o saber fazer. Essa situação levará o professor a rever o que
não somente na nossa história política, mas também à propôs e se dispor a novas possibilidades, modificando sua
educação voltada, nas palavras de Germano, para manobras do proposta, dispondo-se a repensá-la, ou manter a mesma
alto, estabelecendo a continuidade, as restaurações, as proposição.
intervenções e exclusões das massas populares por meio do Neste sentido, penso que a questão pontual para uma
autoritarismo. melhor educação seja a possibilidade do professor estabelecer
Não é para menos que a insígnia, conforme Gadotti, da relações entre teoria e prática, assumindo seu papel no
tradição brasileira é a influência de oligarquias que processo de ensino-aprendizagem e a importância deste
“compartilham” interesses para conservar o controle do trabalho ser em conjunto entre professor x aluno, professor x
poder. professor. É buscar dar sentido ao que somos ao que fazemos
Hoje, esses conceitos e práticas se estendem e respingam e por que fazemos.
na educação com um novo figurino, uma nova e boa Na verdade as colocações apresentadas nos mostram o
maquiagem em nome do moderno. Todavia, modernizar ainda esforço para permitir um processo de ensino-aprendizagem
significa, de acordo com Gadotti citando Florestan Fernandes, voltado à constituição de sentidos, ou seja, produzir
reajustar as economias periféricas às estruturas e aos significado mostrando ao aluno o que aquele conteúdo tem a
dinamismos das economias centrais e é claro, ao bom ver com a vida dele e por que é importante e como aplicá-lo em
andamento dos negócios. uma situação real. Chamar os professores, conforme Mello,
Nesta perspectiva, uma coisa é certa: de um passado muito para uma reflexão sobre a própria prática pedagógica: o que se
presente o pensamento pedagógico brasileiro busca uma faz e com quais objetivos se faz. Torna-se muito importante ter
práxis, conforme Germano, de resistência à dominação de um parâmetro de como estamos para saber o que precisamos
classe, ao domínio estrangeiro, ao imperialismo e à mudar. Ninguém muda se não tem consciência do que precisa
transplantação cultural, configurando-se como um mudar. Já sabemos o que mudar?
instrumento de luta em favor da identidade nacional, mediante Penso que se este movimento estiver, conforme Gadotti, a
a valorização e o fortalecimento das raízes culturais do povo construir um caminho próprio, libertando-se de um
pensamento transplantado, buscando realmente a superação

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 3


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e transformação das dependências enraizadas nos modelos, um conceito e outro, não sabe aplicar uma relação geral para
nos paradigmas e das teorias elaboradas em outros contextos, casos particulares.
em especial aqueles de países hegemônicos, estaremos sim,
caminhando para um comprometimento real para a O professor transmissor de conteúdo não favorece uma
transformação social. aprendizagem sólida porque o conteúdo que ele passa não
Um processo, uma luta contra si mesmo à tomada de se transforma em meio de atividade subjetiva do aluno. Ou
consciência e contínua; o engajamento, por uma real mudança. seja, o aluno não dá conta de explicar uma ideia, uma
definição, com suas próprias palavras, não saber aplicar o
conhecimento em situações novas ou diferentes, nem na
A didática e o processo de sala de aula nem fora dela. A participação do aluno é pouco
ensino/aprendizagem: solicitada, e quando o professor faz uma pergunta, ele
próprio imediatamente a responde. É possível que entre os
planejamento, estratégias, professores que se utilizam desses procedimentos de ensino
metodologias e avaliação da haja alguns que levem os alunos a aprender os conceitos de
aprendizagem. forma mais sólida, que saibam lidar de forma autônoma
com os conceitos. Mas não é o caso da maioria. O que se vê
nas instituições de ensino superior é um ensino meramente
Didática expositivo, empírico, repetitivo, memorístico. Os alunos
desses professores não aprendem solidamente, ou seja, não
Libâneo2 pontua que os alunos costumam comentar entre sabem lidar de forma independente com os conhecimentos,
si: “gosto desse professor porque ele tem didática”. Outros não “interiorizam” os conceitos, o modo de pensar,
dizem: “com essa professora a gente tem mais facilidade de raciocinar e atuar, próprios da matéria que está sendo
aprender”. Provavelmente, o que os alunos estão querendo ensinada e, assim, os conceitos não se transformam em
dizer é que esses professores têm um modo acertado de dar instrumentos mentais para atuar com a realidade.
aula, que ensinam bem, que com eles, de fato, aprendem.
Então, o que é ter didática? A didática pode ajudar os alunos a O estilo professor-facilitador aplica-se a professores que se
melhorar seu aproveitamento escolar? O que um professor julgam mais atualizados nas metodologias de ensino, eles
precisa conhecer de didática para que possa levar bem o seu tentam variar mais os métodos e procedimentos. Alguns deles
trabalho em sala de aula? Considerando as mudanças que preocupam-se, realmente, com certas características
estão ocorrendo nas formas de aprender e ensinar, individuais e sociais dos alunos, procuram saber os
principalmente pela forte influência dos meios de informação conhecimentos prévios ou as experiências dos alunos, tentam
e comunicação, o que mudar na prática dos professores? estabelecer diálogo ou investir mais no bom relacionamento
É certo que a maioria do professorado tem como principal com os alunos. Outros tentam inovar organizando trabalhos
objetivo do seu trabalho conseguir que seus alunos aprendam em grupo ou estudo dirigido, utilizando recursos audiovisuais,
da melhor forma possível. Por mais limitações que um dando tarefas que requerem algum tipo de pesquisa. Há,
professor possa ter (falta de tempo para preparar aulas, falta também, em algumas áreas de conhecimento, professores que
de material de consulta, insuficiente domínio da matéria, entendem que a melhor forma de aprender é colocar os alunos
pouca variação nos métodos de ensino, desânimo por causa da no laboratório na crença de que, fazendo experiências, lidando
desvalorização profissional, etc.), quando entra em classe, ele com materiais, assimilam melhor a matéria. Essas formas de
tem consciência de sua responsabilidade em proporcionar aos trabalho didático, sem dúvida, trazem mais vantagens do que
alunos um bom ensino. Apesar disso, saberá ele fazer um bom aquelas do ensino tradicional. Entretanto, quase sempre esses
ensino, de modo que os alunos aprendam melhor? É possível professores acabam voltando às práticas tradicionais, por
melhorar seu desempenho como professor? Qual é o sentido exemplo, não sabem utilizar a atividade própria do aluno para
de “mediação docente” nas aulas? eles próprios formando conceitos. Com efeito, ao avaliar a
aprendizagem dos alunos pedem respostas memorizadas e a
Os estilos de professor repetição de definições ou fórmulas. Mesmo utilizando
técnicas ativas e respeitando mais o aluno, as mudanças
Há diversos tipos de professores. Os mais tradicionais metodológicas ficam apenas na forma, mantendo
contentam-se em transmitir a matéria que está no livro empobrecidos os resultados da aprendizagem, ou aluno não
didático, por meio de aula expositiva. É o estilo professor- forma conceitos, não aprende a pensar com autonomia, não
transmissor de conteúdo. Suas aulas são sempre iguais, o interioriza ações mentais. Ou seja, sua atividade mental
método de ensino é quase o mesmo para todas as matérias, continua pouco reflexiva.
independentemente da idade e das características individuais Poderíamos mencionar outros estilos de professor: o
e sociais dos alunos. Pode até ser que essas práticas de passar professor-técnico (preocupado pelo lado operacional,
a matéria, dar exercícios e depois cobrar o conteúdo na prova, prático da sua matéria, seu objetivo é saber-fazer, não fazer-
tenham algum resultado positivo. Mesmo porque alguns pensar-fazer); o professor-laboratório (acha que única
alunos aprendem “apesar do professor”. O mais comum, no forma eficaz de aprender é a pesquisa ou a demonstração
entanto, é o aluno memorizar o que o professor fala, decorar a experimental); o professor-comunicador (o típico professor
matéria e mecanizar fórmulas, definições etc. A aprendizagem de cursinhos que só sabe trabalhar o conteúdo fazendo graça,
que decorre desse tipo ensino (vamos chamá-la de mecânica, não dando conta de colocar o próprio conteúdo no campo de
repetitiva) serve para responder questões de uma prova, sair- interesses e motivos do aluno).
se bem no vestibular ou num concurso, mas ela não é Em resumo, muitos professores não sabem como
duradoura, ela não ajuda o aluno a formar esquemas mentais ajudar o aluno a, através de formas de mobilização de sua
próprios. O aluno que aprende mecanicamente, na maior parte atividade mental, elaborar de forma consciente e
dos casos, não desenvolve raciocínio próprio, não forma independente o conhecimento para que possa ser
generalizações conceituais, não é capaz de fazer relações entre utilizado nas várias situações da vida prática. As
atividades que organizam não levam os alunos a adquirir

2 LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 2010. LIBÂNEO, J. C. A didática e a aprendizagem do pensar e do aprender: a teoria
histórico-cultural da atividade e a contribuição de Vasili Davydov. In: Revista
Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 27, 2004.

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conceitos e métodos de pensamento, habilidades e necessárias para assimilar e utilizar com êxito os
capacidades mentais, para poderem lidar de forma conhecimentos. Ele escreve:
independente e criativa com os conhecimentos e a Os pedagogos começam a compreender que a tarefa da
realidade, tornando esses conceitos e métodos meios de escola contemporânea não consiste em dar às crianças uma
sua atividade. soma de fatos conhecidos, mas em ensiná-las a orientar-se
independentemente na informação científica e em qualquer
Sugerimos para quem deseja um ensino eficaz, tendo em outra. Isto significa que a escola deve ensinar os alunos a
vista aprendizagens mais sólidas dos alunos, a metáfora do pensar, quer dizer, desenvolver ativamente neles os
professor-mediador. Quais são as características do professor fundamentos do pensamento contemporâneo para o qual é
mediador? O que caracteriza uma didática baseada no necessário organizar um ensino que impulsione o
princípio da mediação? Numa formulação sintética, boa desenvolvimento. Chamemos esse ensino de
didática significa um tipo de trabalho na sala de aula em que o desenvolvimental.
professor atua como mediador da relação cognitiva do aluno Conforme Davydov, para que o ensino esteja voltado para
com a matéria. Há uma condução eficaz da aula quando o o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos, é
professor assegura, pelo seu trabalho, o encontro bem preciso que o professor conheça quais são os métodos de
sucedido entre o aluno e a matéria de estudo. Em outras investigação utilizados pelo cientista (em relação à matéria
palavras, o ensino satisfatório é aquele em que o professor que ensina), pois é nesses métodos que encontrará as
põe em prática e dirige as condições e os modos que capacidades intelectuais a serem formadas pelos estudantes
asseguram um processo de conhecimento pelo aluno. enquanto estudam a matéria. Em outras palavras, para
Vejamos isso mais detalhadamente. aprender a pensar e a agir com base nos conteúdos de uma
matéria de ensino é preciso que os alunos dominem aquelas
Uma pedagogia que valoriza os conteúdos e as ações ações mentais associadas a esses conteúdos, as quais são
mentais correspondentes ao modo de constituição desses encontradas nos procedimentos lógicos e investigativos
conteúdos próprios da ciência que dá origem a esses conteúdos. Conclui-
se, daí, que a um professor não basta dominar o conteúdo, é
Uma boa didática, na perspectiva da mediação, é preciso que saiba mais três coisas:
aquela que promove e amplia o desenvolvimento das
capacidades intelectuais dos alunos por meio dos conteúdos. a) qual é o processo de pesquisa pelo qual se chegou a esse
Conforme a teoria histórico-cultural, formulada inicialmente conteúdo, ou seja, a epistemologia da ciência que ensina;
pelo psicólogo e pedagogo russo Lev Vygotsky, o objetivo do b) por quais métodos e procedimentos ensinará seus alunos
ensino é o desenvolvimento das capacidades mentais e da a se apropriarem dos conteúdos da ciência ensinada e,
subjetividade dos alunos através da assimilação consciente e especialmente, das ações mentais ligadas a esses conteúdos;
ativa dos conteúdos, em cujo processo se leva em conta os c) quais são as características individuais e socioculturais
motivos dos alunos. O ensino é meio pelo qual os alunos se dos alunos e os motivos que os impulsionam, de modo a saber
apropriam das capacidades humanas formadas ligar os conteúdos com esses motivos.
historicamente e objetivadas na cultura material e espiritual.
Essa apropriação se dá pela aprendizagem de conteúdos, Para M. Castells, a tarefa das escolas e dos processos
habilidades, atitudes, formadas pela humanidade ao longo da educativos é o de desenvolver em quem está aprendendo a
história. Conforme as próprias palavras de Vygotsky: capacidade de aprender, em razão de exigências postas pelo
volume crescente de dados acessíveis na sociedade e nas redes
A internalização de formas culturais de comportamento informacionais, da necessidade de lidar com um mundo
envolve a reconstrução da atividade psicológica tendo diferente e, também, de educar a juventude em valores e ajudá-
como base as operações com signos. (...) A internalização la a construir personalidades flexíveis e eticamente ancoradas.
das atividades socialmente enraizadas e historicamente Também E. Morin expressa com muita convicção a exigência
desenvolvidas constitui o aspecto característico da de se desenvolver uma inteligência geral que saiba discernir o
psicologia humana. contexto, o global, o multidimensional, a interação complexa
dos elementos. Escreve esse autor:
Esse processo de interiorização ou apropriação tem as
seguintes características: (...) o desenvolvimento de aptidões gerais da mente permite
a) O desenvolvimento mental dos alunos depende da melhor desenvolvimento das competências particulares ou
transmissão-apropriação de conhecimentos, habilidades, especializadas. Quanto mais poderosa é a inteligência geral,
valores, que vão sendo constituídos na história da humanidade; maior é sua faculdade de tratar problemas especiais. A
b) O papel do ensino é propiciar aos alunos os meios de domínio compreensão dos dados particulares também necessita da
dos conceitos, isto é, dos modos próprios de pensar e de atuar da ativação da inteligência geral, que opera e organiza a
matéria ensinada, de modo a formar capacidades intelectuais mobilização dos conhecimentos de conjunto em cada caso
com base nos procedimentos lógicos e investigativos da ciência particular. (...) Dessa maneira, há correlação entre a
ensinada; mobilização dos conhecimentos de conjunto e a ativação da
c) A ação de ensinar, mais do que “passar conteúdo”, consiste em inteligência geral.
intervir no processo mental de formação de conceitos por parte
dos alunos, com base na matéria ensinada; Em síntese, esses estudos destacam, nos processos do
d) As relações intersubjetivas na sala de aula implicam, ensinar a aprender e a pensar em um campo de conhecimento,
necessariamente, a compreensão dos motivos dos alunos, isto é, o papel ativo dos sujeitos na aprendizagem e, especialmente, a
seus objetivos e suas razões para se envolverem nas atividades necessidade dos sujeitos desenvolverem habilidades de
de aprendizagem. pensamento, competências cognitivas, como meio para
e) A aprendizagem se consolida melhor se forem criadas compreender e atuar no mundo da profissão, da política, da
situações de interlocução, cooperação, diálogo, entre professor cultura. Esses meios da atividade aprender são aprendidos
e alunos e entre os alunos, em que os alunos tenham chance de pelo estudante quando desenvolve as ações mentais conexas
formular e opera com conceitos. aos conteúdos, isto é, o modo próprio de pensar, pesquisar e
Na mesma linha teórica, Davydov afirma que o papel do agir que corresponde à ciência, arte ou tecnologia ensinadas.
ensino é desenvolver nos alunos as capacidades intelectuais

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A didática e o trabalho dos professores professor propõe problemas, desafios, perguntas,


relacionados com conteúdos significativos, instigantes e
A didática é uma disciplina que estuda o processo de acessíveis; por outro lado, os alunos, ao assimilar consciente e
ensino no qual os objetivos, os conteúdos, os métodos e as ativamente a matéria, mobilizam seus motivos, sua atividade
formas de organização da aula se combinam entre si, de mental e desenvolvem suas capacidades e habilidades.
modo a criar as condições e os modos de garantir aos Portanto, um bom planejamento de ensino depende da análise
alunos uma aprendizagem significativa. Ela ajuda o e organização dos conteúdos junto com a análise e
professor na direção e orientação das tarefas do ensino e consideração dos motivos dos alunos.
da aprendizagem, fornecendo-lhe mais segurança
profissional. Essa forma de compreender o ensino é muito diferente do
que simplesmente passar a matéria ao aluno. É diferente,
Em que consiste o processo de ensino e aprendizagem? O também, de dar atividades aos alunos para que fiquem
princípio básico que define esse processo é o seguinte: o “ocupados” ou aprendam fazendo. O processo de ensino é um
núcleo da atividade docente é a relação ativa do aluno com a constante vai-e-vem entre conteúdos e problemas que são
matéria de estudo, sob a direção do professor. O processo de colocados e as características de desenvolvimento e
ensino consiste de uma combinação adequada entre o papel de aprendizagem dos alunos. É isto que caracteriza a dinâmica da
direção do professor e a atividade independente, autônoma e situação didática, numa perspectiva histórico-cultural.
criativa do aluno. Insistimos bastante na exigência didática de partir do nível
de conhecimentos já alcançado, da capacidade atual de
O papel do professor, portanto é o de planejar, selecionar e assimilação e do desenvolvimento mental do aluno, dos
organizar os conteúdos, programar tarefas, criar condições de motivos do aluno. Ou seja, não existe o aluno em geral, mas um
estudo dentro da classe, incentivar os alunos para o estudo, ou aluno vivendo numa sociedade determinada, que faz parte de
seja, o professor dirige as atividades de aprendizagem dos um grupo social e cultural determinado, sendo que essas
alunos a fim de que estes se tornem sujeitos ativos da própria circunstâncias interferem na sua capacidade de aprender, nos
aprendizagem. Não há ensino verdadeiro se os alunos não seus valores e atitudes, na sua linguagem e suas motivações.
desenvolvem suas capacidades e habilidades mentais, se não Ou seja, a subjetividade (os motivos) e a experiência
assimilam pessoal e ativamente os conhecimentos ou se não sociocultural concreta dos alunos são o ponto de partida para
dão conta de aplicá-los, seja nos exercícios e verificações feitos a orientação da aprendizagem. Um professor que aspira ter
em classe, seja na prática da vida. uma boa didática necessita aprender a cada dia como lidar com
Podemos dizer, então, que o processo didático é o conjunto a subjetividade dos alunos, seus motivos, sua linguagem, suas
de atividades do professor e dos alunos sob a direção do percepções, sua prática de vida. Sem essa disposição, será
professor, visando à assimilação ativa pelos alunos dos incapaz de colocar problemas, desafios, perguntas,
conhecimentos, habilidades e hábitos, atitudes, relacionados com os conteúdos, condição para se conseguir
desenvolvendo suas capacidades e habilidades intelectuais. uma aprendizagem significativa.
Nessa concepção de didática, os conteúdos escolares e o
desenvolvimento mental se relacionam reciprocamente, pois o Essas considerações mostram o traço mais marcante de
progresso intelectual dos alunos e o desenvolvimento de suas uma didática crítico-social na perspectiva histórico-cultural: o
capacidades mentais se verificam no decorrer da assimilação trabalho docente como mediação entre a cultura elaborada,
ativa dos conteúdos. Portanto, o ensino e a aprendizagem convertida em saber escolar, e o aluno que, para além de um
(estudo) se movem em torno dos conteúdos escolares visando sujeito psicológico, é um sujeito portador da prática social
o desenvolvimento do pensamento. viva. O modo adequado de realizar a mediação didática, pelo
trabalho dos professores, é o provimento aos alunos dos meios
Mas, qual é a dinâmica do processo de ensino? Como se de aquisição de conceitos científicos e de desenvolvimento das
garante o vínculo entre o ensino (professor) e a aprendizagem capacidades cognitivas e operativas, dois elementos da
efetiva decorrente do encontro cognitivo e afetivo entre o aprendizagem escolar interligados e indissociáveis.
aluno e a matéria?
A pesquisa mais atual sobre a didática utiliza a palavra O ensino e o desenvolvimento do pensamento – O
“mediação” para expressar o papel do professor no ensino, isto ensino para o desenvolvimento humano
é, mediar a relação entre o aluno e o objeto de conhecimento.
Na verdade, trata-se de uma dupla mediação: primeiro, tem-se A teoria do ensino desenvolvimental de Vasíli Davydov,
a mediação cognitiva, que liga o aluno ao objeto de baseada na teoria histórico-cultural de Vygotsky, sustenta tese
conhecimento; segundo, tem-se a mediação didática, que de que o bom ensino é o que promove o desenvolvimento
assegura as condições e os meios pelos quais o aluno se mental, isto é, as capacidades e habilidades de pensamento.
relaciona com o conhecimento. Sendo assim, a especificidade Segundo Vygotsky, a aprendizagem e o ensino são formas
de toda didática está em propiciar as condições ótimas de universais de desenvolvimento mental. Para Davydov, a
transformação das relações que o aprendiz mantém com o atividade de aprendizagem está assentada no conhecimento
saber. Escreve D´Ávila: teórico-científico, ou seja, no desenvolvimento do pensamento
A relação com o saber é, portanto, duplamente teórico e nas ações mentais que lhe correspondem. É
mediatizada: uma mediação de ordem cognitiva (onde o importante esclarecer que, na teoria histórico-cultural
desejo desejado é reconhecido pelo outro) e outra de natureza elaborada entre outros por Vygotsky, Leontiev e Davídov,
didática que torna o saber desejável ao sujeito. É aqui que as pensamento teórico ou conceito não tem o sentido de “estudar
condições pedagógicas e didáticas ganham contornos, no teoria”, de lidar com o conteúdo só na teoria. Na teoria
sentido de garantir as possibilidades de acesso ao saber por histórico-cultural, conceito não se refere apenas às
parte do aprendiz educando. características e propriedades dos fenômenos em estudo, mas
a uma ação mental peculiar pela qual se efetua uma reflexão
A força impulsionadora do processo de ensino é um sobre um objeto que, ao mesmo tempo, é um meio de
adequado ajuste entre os objetivos/conteúdos/métodos reconstrução mental desse objeto pelo pensamento. Nesse
organizados pelo professor e o nível de conhecimentos, sentido, pensar teoricamente é desenvolver processos mentais
experiências e motivos do aluno. O movimento permanente pelos quais chegamos aos conceitos e os transformamos em
que ocorre a cada aula consiste em que, por um lado, o ferramentas para fazer generalizações conceituais e aplicá-las

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a problemas específicos. Como escreve Seth Chaiklin, conceito domínio do conteúdo mas, também, dos procedimentos
significa um conjunto de procedimentos para deduzir relações investigativos da matéria que está ensinando e das formas de
particulares de uma relação abstrata. pensamento, habilidades de pensamento que propiciem uma
reflexão sobre a metodologia investigativa do conteúdo que se
O ensino, portanto, propicia a apropriação da cultura e da está aprendendo. Ensinar, portanto, é adquirir meios do
ciência, e o desenvolvimento do pensamento, por meio da pensar, através dos conteúdos. Em outras palavras, é
formação e operação com conceitos. São dois processos desenvolver nos alunos o pensamento teórico, que é o
articulados entre si, formando uma unidade: Podemos processo através do qual se revela a essência e o
expressar essa ideia de duas maneiras: desenvolvimento dos objetos de conhecimento e com isso a
aquisição de métodos e estratégias cognoscitivas gerais de
- à medida que o aluno forma conceitos científicos, incorpora cada ciência, em função de analisar e resolver problemas.
processos de pensamento e vice-versa. Escreve a esse respeito Rubtsov:
- enquanto forma o pensamento teórico-científico, o aluno
desenvolve ações mentais mediante a solução de problemas que A aquisição de um método teórico geral visando à
suscitam sua atividade mental. resolução de uma série de problemas concretos e práticos,
Com isso, o aluno assimila o conhecimento teórico e as concentrando-se naquilo que eles têm em comum e não na
capacidades e habilidades relacionadas a esse conhecimento. resolução específica de um entre eles, constitui-se numa
Sendo assim, o papel da escola é ajudar os alunos a das características mais importantes da aprendizagem.
desenvolver suas capacidades mentais, ao mesmo tempo em Propor um problema de aprendizagem a um escolar é
que se apropriam dos conteúdos. Nesse sentido, a confrontá-lo com uma situação cuja solução, em todas as
metodologia de ensino, mais do que o conjunto dos suas variantes concretas, pede uma aplicação do método
procedimentos e técnicas de ensino, consiste em teórico geral. (...) Podemos definir o processo de resolução
instrumentos de mediação para ajudar o aluno a pensar de um problema como o da aquisição das formas de ação
com os instrumentos conceituais e os processos de características dos conteúdos teóricos. O termo “forma de
investigação da ciência que se ensina. Por exemplo, a boa ação geral”, também chamado de forma de ação universal,
pedagogia da física é aquela que consegue traduzir designa aquilo que é obtido como resultado ou modo de
didaticamente o modo próprio de pensar, investigar e funcionamento essencial para trazer soluções para os
atuar da própria física. Boa pedagogia da geografia é problemas de aprendizagem; mais do que soluções, é este
aquela cujo aluno sai das aulas pensando, raciocinando, resultado particular que constitui o objeto desses
investigando e atuando como o modo próprio de pensar, problemas.
raciocinar, investigar e atuar da geografia.
Nesses termos, o papel da didática é: a) ajudar os alunos a
Trata-se, assim, de fazer a junção entre o conteúdo e o pensar teoricamente (a partir da formação de conceitos); b)
desenvolvimento das capacidades de pensar. A ideia central ajudar o aluno a dominar o modo de pensar, atuar e investigar
contida nessa teoria é simples: ensinar é colocar o aluno numa a ciência ensinada; c) levar em conta a atividade psicológica do
atividade de aprendizagem. A atividade de aprendizagem é a aluno (motivos) e seu contexto sociocultural e institucional.
própria aprendizagem, ou seja, com base nos conteúdos, Para chegar à consecução desses objetivos, o professor
aprender habilidades, desenvolver capacidades e precisa saber como trabalhar a matéria no sentido da
competências para que os alunos aprendam por si mesmos. É formação e operação com conceitos. Para isso, no trabalho com
essa ideia que Davydov defende: a atividade de aprender os conteúdos, podem ser seguidos três momentos:
consiste em encontrar soluções gerais para problemas
específicos, é apreender os conceitos mais gerais que dão 1º) Análise do conteúdo da matéria para identificar um
suporte a um conteúdo, para aplicá-los a situações concretas. princípio geral, ou seja, uma relação mais geral, um
Esse modo de ver o ensino significa dizer que o ensino mais conceito nuclear, do qual se parte para ser aplicado a
compatível com o mundo da ciência, da tecnologia, dos meios manifestações particulares desse conteúdo.
de comunicação, é aquele que contribui para que o aluno 2º) Realizar por meio da conversação dirigida, do
aprenda a raciocinar com a própria cabeça, que forme diálogo com os alunos, da colocação problemas ou casos,
conceitos e categorias de pensamento decorrentes da ciência tarefas que possibilitem deduções do geral para o
que está aprendendo, para lidar praticamente com a realidade. particular, ou seja, aplicação do princípio geral (relação
Os conceitos, nessa maneira de ver, são ferramentas mentais geral, conceito nuclear) a problemas particulares.
para lidar praticamente com problemas, situações, dilemas 3º) Conseguir com que o aluno domine os
práticos, etc. procedimentos lógicos do pensamento (ligados à matéria)
que têm caráter generalizante. Ao captar a essência, isto é,
Explicitando essa ideia numa formulação mais completa, o princípio interno explicativo do objeto e suas relações
podemos dizer: o modo de lidar pedagogicamente com algo, internas, o aluno se apropria dos métodos e estratégias
depende do modo de lidar epistemologicamente com algo, cognitivas dos modos de atividades anteriores
considerando as condições do aluno e o contexto sociocultural desenvolvidas pelos cientistas; o aluno reproduz em sua
em que ele vive (vale dizer, as condições da realidade mente o percurso investigativo de apreensão teórica do
econômica, social, etc.). Trata-se, portanto, de unir no ensino a objeto realizado pela prática científica e social.
lógica do processo de investigação com os produtos da
investigação. Ou seja, o acesso aos conteúdos, a aquisição de Todos esses momentos devem estar conectados com os
conceitos científicos, precisa percorrer o processo de motivos e objetivos subjetivos do aluno, ampliados com as
investigação, os modos de pensar e investigar da ciência necessidades sociais de estudar e aprender interpostos pelo
ensinada. Não basta aprender o que aconteceu na história, é professor, na sua condição de educador.
preciso pensar historicamente. Pensar matematicamente
sobre matemática, biologicamente sobre biologia, O caminho didático: sugestões para elaboração de
linguisticamente sobre português. planos de ensino

Essa forma de entender a atividade de ensino das Ao assumir o ensino de uma matéria, os professores
disciplinas específicas requer do professor não apenas o geralmente partem de um conteúdo já estabelecido num

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projeto pedagógico-curricular. O procedimento da análise de IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de
conteúdo indicado na didática desenvolvimental pode levar a solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se
uma organização do conteúdo muito diferente da existente na assenta a vida social.
instituição, ou seja, os temas podem ser os mesmos, mas a § 1º É facultado aos sistemas de ensino desdobrar o ensino
sequência e a lógica de estruturação podem ser outras. fundamental em ciclos.
§ 2º Os estabelecimentos que utilizam progressão regular
Os procedimentos a serem utilizados em relação à por série podem adotar no ensino fundamental o regime de
formulação de conteúdos, objetivos e metodologia podem ser progressão continuada, sem prejuízo da avaliação do processo
os seguintes: de ensino-aprendizagem, observadas as normas do respectivo
sistema de ensino.
a) Identificar, o núcleo conceitual da matéria (essência, § 3º O ensino fundamental regular será ministrado em
princípio geral básico) e as relações gerais básicas que a língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas a
definem e lhe dão unidade. Este núcleo conceitual contém a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de
generalização esperada para que o aluno a interiorize, de aprendizagem.
modo a poder deduzir relações particulares da relação § 4º O ensino fundamental será presencial, sendo o ensino
básica identificada. a distância utilizado como complementação da aprendizagem
b) Construir a rede de conceitos básicos que dão suporte ou em situações emergenciais.
a esse núcleo conceitual, com as devidas relações e § 5° O currículo do ensino fundamental incluirá,
articulações (mapa conceitual). obrigatoriamente, conteúdo que trate dos direitos das crianças
c) Estudo da gênese e dos processos investigativos do e dos adolescentes, tendo como diretriz a Lei no 8.069, de 13
conteúdo, de modo a extrair ações mentais, habilidades de julho de 1990, que institui o Estatuto da Criança e do
cognitivas gerais a formar no estudo da matéria. Adolescente, observada a produção e distribuição de material
d) Formulação de tarefas de aprendizagem, com base didático adequado.
em situações-problema, que possibilitem a formação de § 6º O estudo sobre os símbolos nacionais será incluído
habilidades cognitivas gerais e específicas em relação à como tema transversal nos currículos do ensino fundamental.
matéria.
e) Prever formas de avaliação para verificar se o aluno O Ensino Médio, conforme o artigo 35 da LDB, é a etapa
desenvolveu ou está desenvolvendo a capacidade de final da Educação Básica, com duração mínima de três anos.
utilizar os conceitos como ferramentas mentais. Tem como finalidades:
I - a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos
A Didática e as Diretrizes Curriculares para a adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o
Educação Básica. prosseguimento de estudos;
II - a preparação básica para o trabalho e a cidadania do
A estrutura didática da Educação Básica instituída pela Lei educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de
n°. 9.394 de 20 de dezembro de 1996 envolve escolas de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou
diferentes níveis: Educação Infantil, Ensino Fundamental e aperfeiçoamento posteriores;
Ensino Médio, além de modalidades específicas de ensino, III - o aprimoramento do educando como pessoa humana,
como a Educação de Jovens e Adultos, a Educação Profissional incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia
e a Educação Especial. intelectual e do pensamento crítico;
Conforme o artigo 22 desta lei: “A educação básica tem por IV - a compreensão dos fundamentos científico-
finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria
comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer- com a prática, no ensino de cada disciplina.
lhe meios para progredir no trabalho e em estudos
posteriores”. Essas finalidades devem ser analisadas de acordo A Educação de Jovens e de Adultos – EJA é a modalidade de
com os pressupostos filosóficos e políticos contidos na ensino prevista nos artigos 37 e 38 da LDB para jovens e
Constituição Brasileira vigente. Portanto, todas as atividades adultos concluírem o Ensino Fundamental ou Médio.
de ensino-aprendizagem devem obrigatoriamente convergir A Educação Profissional não se coloca como um nível de
para as finalidades constitucionalmente estabelecidas. ensino, mas tipo de formação que se integra ao trabalho, à
A Educação Infantil é o primeiro nível da Educação Básica ciência e à tecnologia e conduz ao permanente
e tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva. Está
até seis anos, considerando os aspectos físico, psicológico, regulamentada nos artigos 39, 40 e 41 da LDB.
intelectual e social e completando a ação da família e da
comunidade. Segundo o artigo 30 da LDB, é oferecida em dois A Educação Especial, de acordo com o artigo 58 da LDB, é
níveis: “I - creches, ou entidades equivalentes, para crianças de uma modalidade de educação oferecida preferentemente na
até três anos de idade; II - pré-escolas, para as crianças de 4 rede regular de ensino, para educandos com deficiência,
(quatro) a 5 (cinco) anos de idade.”. transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou
superdotação.
O Ensino Fundamental, segundo artigo 32 da
LDB, obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na Conceito de Planejamento
escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, terá por
objetivo a formação básica do cidadão, mediante: O Planejamento pode ser conceituado como um processo,
I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo considerando os seguintes aspectos: produção, pesquisa,
como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do finanças, recursos humanos, propósitos, objetivos, estratégias,
cálculo; políticas, programas, orçamentos, normas e procedimentos,
II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema tempo, unidades organizacionais etc. Desenvolvido para o
político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se alcance de uma situação futura desejada, de um modo mais
fundamenta a sociedade; eficiente, eficaz e efetivo, com a melhor concentração de
III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, esforços e recursos.
tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a
formação de atitudes e valores;

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 8


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APOSTILAS OPÇÃO

O Planejamento também pressupõe a necessidade de um Níveis de Planejamento


processo decisório que ocorrerá antes, durante e depois de sua
elaboração e implementação na escola. Este processo deve
conter ao mesmo tempo, os componentes individuais e
organizacionais, bem como a ação nesses dois níveis deve ser
orientada de tal maneira que garanta certa confluência de
interesses dos diversos fatores alocados no ambiente escolar.

O processo de planejar envolve, portanto, um modo de


pensar; e um salutar modo de pensar envolve indagações; e
indagações envolvem questionamentos sobre o que fazer,
como, quando, quanto, para quem, por que, por quem e onde.
É um processo de estabelecimento de um estado futuro
desejado e um delineamento dos meios efetivos de torna-lo
realidade justifica que ele antecede à decisão e à ação.

Elementos Constitutivos do Planejamento


Planejamento Educacional
Objetivos e Conteúdos de Ensino: Os objetivos
determinam de antemão os resultados esperados do processo
Planejamento educacional é aplicar à própria educação
entre o professor e o aluno, determinam também a gama de
àquilo que os verdadeiros educadores se esforçam por
habilidades e hábitos a serem adquiridos. Já os conteúdos
inculcar em seus alunos: uma abordagem racional e científica
formam a base da instrução.
dos problemas. Tal abordagem supõe a determinação dos
A prática educacional baseia-se nos objetivos por meio de
objetivos e dos recursos disponíveis, a análise das
uma ação intencional e sistemática para oferecer
consequências que advirão das diversas atuações possíveis, a
aprendizagem. Desta forma os objetivos são fundamentais
escolha entre essas possibilidades, a determinação de metas
para determinação de propósitos definidos e explícitos quanto
específicas a atingir em prazos bem definidos e, finalmente, o
às qualidades humanas que precisam ser adquiridas. Os
desenvolvimento dos meios mais eficazes para implantar a
objetivos têm pelo menos três referências fundamentais para
política escolhida.
a sua formulação.
- Os valores e ideias ditos na legislação educacional.
O planejamento educacional significa bem mais que a
- Os conteúdos básicos das ciências, produzidos na história
elaboração de um projeto contínuo que engloba uma série de
da humanidade.
operações interdependentes.
- As necessidades e expectativas da maioria da sociedade.
O Planejamento do Sistema de Educação é o de maior
Métodos e Estratégias: O método por sua vez é a forma
abrangência (enquanto um dos níveis de planejamento na
com que estes objetivos e conteúdos serão ministrados na
educação escolar), correspondendo ao planejamento que é
prática ao aluno. Cabe aos métodos dinamizar as condições e
feito em nível nacional, estadual ou municipal. Incorpora e
modos de realização do ensino. Refere-se aos meios utilizados
reflete as grandes políticas educacionais. Enfrenta os
pelos docentes na articulação do processo de ensino, de acordo
problemas de atendimento à demanda, alocação e
com cada atividade e os resultados esperados.
gerenciamento de recursos etc.
As estratégias visam à consecução de objetivos, portanto,
há que ter clareza sobre aonde se pretende chegar naquele
Objetivos do Planejamento Educacional
momento com o processo de ensino e de aprendizagem. Por
isso, os objetivos que norteiam devem estar claros para os
São objetivos do planejamento educacional, segundo
sujeitos envolvidos – professores e alunos.
Joanna Coaracy3:
- “relacionar o desenvolvimento do sistema educacional
Multimídia Educativa: A multimídia educativa é uma
com o desenvolvimento econômico, social, político e cultural
estratégia de ensino e de aprendizagem que pode ser utilizada
do país, em geral, e de cada comunidade, em particular;
por estudantes e professores. É imperativa a importância das
- “estabelecer as condições necessárias para o
multimídias educativas com uso da informática no processo
aperfeiçoamento dos fatores que influem diretamente sobre a
educativo como uma ferramenta auxiliar na educação.
eficiência do sistema educacional (estrutura, administração,
financiamento, pessoal, conteúdo, procedimentos e
Avaliação Educacional: É uma tarefa didática necessária
instrumentos);
e permanente no trabalho do professor, deve acompanhar
- alcançar maior coerência interna na determinação dos
todos os passos do processo de ensino e de aprendizagem. É
objetivos e nos meios mais adequados para atingi-los;
através dela que vão sendo comparados os resultados obtidos
- conciliar e aperfeiçoar a eficiência interna e externa do
no decorrer do trabalho conjunto do professor e dos alunos,
sistema”.
conforme os objetivos propostos, a fim de verificar progressos,
dificuldades e orientar o trabalho para as correções
É condição primordial do processo de planejamento
necessárias.
integral da educação que, em nenhum caso, interesses
A avaliação insere-se não só nas funções didáticas, mas
pessoais ou de grupos possam desviá-lo de seus fins essenciais
também na própria dinâmica e estrutura do Processo de
que vão contribuir para a dignificação do homem e para o
Ensino e de Aprendizagem.
desenvolvimento cultural, social e econômico do país.

3COARACY, Joanna. O planejamento como processo. Revista Educação, Ano I, no.


4, Brasília, 1972.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 9


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APOSTILAS OPÇÃO

Requisitos do Planejamento Educacional - Desafios Pedagógicos;


- Encaminhamento Metodológico;
- Aplicação do método científico na investigação da - Propostas de Conteúdos;
realidade educativa, cultural, social e econômica do país; - Processos de Avaliação.
- Apreciação objetiva das necessidades, para satisfazê-las a
curto, médio e longo prazo; Objetivos do Planejamento Curricular
- Apreciação realista das possibilidades de recursos
humanos e financeiros, a fim de assegurar a eficácia das - Ajudar aos membros da comunidade escolar a definir
soluções propostas; seus objetivos;
- Previsão dos fatores mais significativos que intervêm no - Obter maior efetividade no ensino;
desenvolvimento do planejamento; - Coordenar esforços para aperfeiçoar o processo de
- Continuidade que assegure a ação sistemática para ensino e de aprendizagem;
alcançar os fins propostos; - Propiciar o estabelecimento de um clima estimulante
- Coordenação dos serviços da educação, e destes com os para o desenvolvimento das tarefas educativas.
demais serviços do Estado, em todos os níveis da
administração pública; Requisitos do Planejamento Curricular
- Avaliação periódica dos planos e adaptação constante
destes mesmos às novas necessidades e circunstâncias; O planejamento curricular deve refletir os melhores meios
- Flexibilidade que permita a adaptação do plano a de cultivar o desenvolvimento da ação escolar, envolvendo,
situações imprevistas ou imprevisíveis; sempre, todos os elementos participantes do processo.
- Trabalho de equipe que garanta uma soma de esforços
eficazes e coordenados; Seus elaboradores devem estar alertas paras novas
- Formulação e apresentação do plano como iniciativa e descobertas e para os novos meios postos ao alcance das
esforço nacionais, e não como esforço de determinadas escolas. Estes devem ser minuciosamente analisados para
pessoas, grupos e setores”.4 verificar sua real validade naquele âmbito escolar. Posto isso,
fica evidente a necessidade dos organizadores explorarem,
Pressupostos Básicos do Planejamento Educacional aceitarem, adaptarem, enriquecerem ou mesmo rejeitarem
tais inovações.
- O delineamento da filosofia da educação do país,
evidenciando o valor da pessoa e da escola na sociedade; O planejamento curricular é de complexa elaboração.
- A aplicação da análise - sistemática e racional - ao Requer um contínuo estudo e uma constante investigação da
processo de desenvolvimento da educação, buscando torná-lo realidade imediata e dos avanços técnicos, principalmente na
mais eficiente e passível de responder com maior precisão às área educacional. Constitui, por suas características, base vital
necessidades e objetivos da sociedade. do trabalho. A dinamização e integração da escola como uma
célula viva da sociedade, que palmilha determinados caminhos
Podemos, portanto, considerar que o planejamento conforme a linha filosófica adotada, é o pressuposto inerente a
educacional constitui a abordagem racional e científica dos sua estruturação.
problemas da educação, envolvendo o aprimoramento gradual
de conceitos e meios de análise, visando estudar a eficiência e O planejamento curricular constitui, portanto, uma tarefa
a produtividade do sistema educacional, em seus múltiplos contínua a nível de escola, em função das crescentes exigências
aspectos. de nosso tempo e dos processos que tentam acelerar a
aprendizagem. Será sempre um desafio a todos aqueles
Planejamento Curricular envolvidos no processo educacional, para busca dos meios
mais adequados à obtenção de maiores resultados.
Planejamento curricular é o processo de tomada de
decisões sobre a dinâmica da ação escolar. É a previsão Planejamento de Ensino
sistemática e ordenada de toda a vida escolar do aluno. É o
instrumento que orienta a educação como um processo Planejamento de ensino é o processo que envolve a
dinâmico e integrado de todos os elementos que interagem atuação concreta dos educadores no cotidiano do seu trabalho
para consecução dos objetivos, tanto os dos alunos como os da pedagógico, envolvendo todas as suas ações e situações o
escola. tempo todo. Envolve permanentemente as interações entre os
educadores e entre os próprios educandos.
O Planejamento curricular, enquanto um dos níveis dos
planejamentos da educação escolar é a proposta geral das Objetivos do Planejamento de Ensino
experiências de aprendizagem que serão oferecidas pela
escola, incorporada nos diversos componentes curriculares. - Racionalizar as atividades educativas;
- Assegurar um ensino efetivo e econômico;
Enquanto um dos níveis do planejamento na educação - Conduzir os alunos ao alcance dos objetivos;
escolar, o Planejamento curricular é a proposta geral das - Verificar a marcha do processo educativo.
experiências de aprendizagem que serão oferecidas pela
escola, incorporada nos diversos componentes curriculares Requisitos do Planejamento do Ensino
desde as séries iniciais até as finais. Por maior complexidade que envolva a organização da
escola, é indispensável ter sempre bem presente que a
A proposta curricular pode ter como referência os interação professor-aluno é o suporte estrutural, cuja
seguintes elementos: dinâmica concretiza ao fenômeno educativo. Portanto, o
- Fundamentos da disciplina; planejamento de ensino deve ser alicerçado neste pressuposto
- Área de estudo; básico.

4UNESCO, Seminário Interamericano sobre planejamento integral na educação.


Washington. 1958.

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APOSTILAS OPÇÃO

O professor, ao planejar o trabalho, deve estar Projetos Educativos


familiarizado com o que pode pôr em prática, de maneira que
possa selecionar o que é melhor, adaptando tudo isso às É o primeiro grande instrumento de planejamento da ação
necessidades e interesses de seus alunos. Na maioria das educativa da escola, devendo por isso, servir
situações, o professor dependerá de seus próprios recursos permanentemente de ponto de referência e orientação na
para elaborar seus planos de trabalho. Por isso, deverá estar atuação de todos os elementos da Comunidade Educativa em
bem informado dos requisitos técnicos para que possa que a escola se insere, em prol da formação de pessoas e
planejar, independentemente, sem dificuldades. cidadãos cada vez mais cultos, autônomos, responsáveis,
solidários e democraticamente comprometidos na construção
Ainda temos a considerar que as condições de trabalho de um destino comum e de uma sociedade melhor.
diferem de escola para escola, tendo sempre que adaptar seus
projetos às circunstâncias e exigências do meio. Considerando Um Projeto Educativo é, segundo a definição de Costa5, um
que o ensino é o guia das situações de aprendizagem e que “documento de caráter pedagógico que, elaborado com a
ajuda os estudantes a alcançarem os resultados desejados, a participação da comunidade educativa, estabelece a
ação de planejá-lo é predominantemente importante para identidade da própria escola através da adequação do quadro
incrementar a eficiência da ação a ser desencadeada no âmbito legal em vigor à sua situação concreta, apresenta o modelo
escolar. geral de organização e os objetivos pretendidos pela
instituição e, enquanto instrumento de gestão, é ponto de
O professor, durante o período (ano ou semestre) letivo, referência orientador na coerência da ação educativa”.
pode organizar três tipos de planos de ensino. Por ordem de
abrangência: Isto é, um Projeto Educativo é um documento de
- Plano de Curso - delinear, globalmente, toda a ação a ser orientação pedagógica que, não podendo contrariar a
empreendida; legislação vigente, explicita os princípios, os valores, as metas
- Plano de Unidade – disciplinar partes da ação pretendida as estratégias através das quais a escola propõe realizar a sua
no plano global; função educativa.
- Plano de Aula - especificar as realizações diárias para a
concretização dos planos anteriores. Barbier6 distingue dois tipos de projeto – o projeto de
situação (“representações relativas ao estado final do objeto,
Pelo significativo apoio que o planejamento empresta à da identidade, da situação que se procura transformar ou
atividade do professor e alunos, é considerado etapa modificar”) e o projeto do processo (“representações relativas
obrigatória de todo o trabalho docente. O planejamento tende ao processo que permite chegar a este estado final”).
a prevenir as vacilações do professor, oferecendo maior
segurança na consecução dos objetivos previstos, bem como O projeto é, por um lado, uma “antecipação” relativa a
na verificação da qualidade do ensino que está sendo um estado, uma “representação antecipadora do estado
orientado pelo mestre e pela escola. final de uma realidade”, uma previsão ou prospectiva, um
objetivo ou fim a atingir, uma pequena utopia.
Planejamento Escolar
Seu conteúdo não é um acontecimento ou objeto
O Planejamento escolar é uma tarefa docente que inclui pertencente ao ambiente atual ou passado, mas um fato
tanto a previsão das atividades didáticas em termos da sua possível, uma imagem ou representação de uma possibilidade,
organização e coordenação em face dos objetivos propostos, uma ideia a se transformar em ato, um futuro a se “fazer”, uma
quanto a sua revisão e adequação no decorrer do processo de possibilidade a se transformar em realidade. Sua relação é com
ensino. É um processo de racionalização, organização e um “tempo a vir”, “um futuro de que constitui uma
coordenação da ação docente, articulando a atividade escolar antecipação, uma visão prévia” (Barbier).
e a problemática do contexto social.
Por outro lado, a função do projeto não se reduz a simples
Planejamento global da escola é o nível do planejamento representação do futuro. Barbier atribui-lhe ainda um duplo
que corresponde às decisões sobre a organização, efeito – o operatório ou pragmático e o mobilizador da
funcionamento e proposta pedagógica da escola. É o que o que atividade dos atores implicados.
mais requer a participação conjunta da comunidade.
No entendimento de Boutinet7, o projeto implica um
O Planejamento da escola, enquanto outro nível do comprometimento com o futuro. A construção de um projeto
planejamento na educação escolar é o que chamamos de já implica na vontade de fazê-lo acontecer. Daí, seu valor
“Projeto Educativo” - sendo o plano global da instituição. pragmático. O projeto não age, pois, dizer não equivale
Compõem-se de Marco Referencial, Diagnóstico e automaticamente a fazer, mas “dizer prepara o fazer”.
programação. Envolve as dimensões pedagógicas,
administrativas e comunitárias da escola. O projeto expressa a representação da realização da ação,
ou seja, a imagem do resultado da ação. “No caso de uma ação
O Planejamento anual da escola consiste em elaborar a coletiva[...], escreve Barbier, é o projeto que fornece a
estratégia de ação para o prazo de um ano - conforme a representação comum que permite a realização coordenada
realidade específica de cada escola - tomando decisões sobre o das operações de execução”. Na sua função mobilizadora, o
que, para que, como e com o que se vai fazer o trabalho na projeto apresenta, no plano afetivo, efeitos dinamizadores da
escola o período proposto levando em conta as linhas tiradas atividade dos atores implicados.
no plano global.

5COSTA, Adelino Jorge: "Construção de projetos educativos nas escolas: traços de 6 BARBIER, J.-M. (1993). Elaboração de projectos de acção e planificação. Porto:
um percurso debilmente articulado." - Revista Portuguesa de Educação, Volume Porto Editora.
17, nº 2. 7 BOUTINET, J. P. (1986). Le concept de projet e ses niveaux. Éducation

Permanente, nº 86.

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APOSTILAS OPÇÃO

Nossas imagens ou representações constituem um criatividade e ação de modo a que ele sinta reconhecida a sua
elemento dinamizador da mudança e, portanto, um fator de atividade, compreenda as suas ações e as possa inscrever num
concretização do projeto. todo significativo.

Para Vidal, Cárave e Florencio8, o projeto educativo é: Neste sentido, o projeto educativo deve ser coletivo, mas
- Um meio de adequação das intenções educativas da favorecendo a interação; autônomo mas não independente.
sociedade às características concretas de uma escola; Uma tal concepção exige do projeto educativo:
- Elemento orientador do conjunto de atividades - explicitação de valores comuns;
educativas de uma escola; - coerência de atividades;
- Instrumento integrador das atividades educativas de uma - busca coletiva de recursos e meios para melhorar o
escola; ensino;
- Garantia de coerência e de continuidade nas diferentes - definição de ação;
atuações dos membros de uma comunidade escolar; - definição de um sentido para uma ação comum;
- Critério para avaliar e homologar os processos; - gestão participativa;
- Documento dinâmico para definir as estruturas e - avaliação permanente, participada e interativa;
estratégias organizacionais da escola; - implicação do conjunto dos atores;
- Ponto de referência para a solução dos conflitos de - apropriação de saberes e instrumentos de ação por parte
convivência. dos implicados.

O projeto educativo traduz o engajamento da instituição Em suma, concebendo-se como uma adaptação do “projeto
escolar, suas prioridades, seus princípios. Ele define o sentido educacional” do país (leis e diretrizes curriculares) ao nível
de suas ações e fixa as orientações e os meios para colocá-las específico local, como uma programação geral da escola e
em prática. É formulado por um documento escrito que como um instrumento de autonomia didático-pedagógica e
estabelece a identidade da escola (diz o que ela é), apresenta organizativa da escola, o projeto educativo da escola se
seus propósitos gerais (diz o que ela quer) e descreve seu caracteriza por quatro categorias metodológicas (Baldacci11):
modelo geral de organização (diz como ela se organiza). - a intencionalidade;
- a contextualização;
Concebido como um projeto de longo prazo, ele visa - a metodicidade; e
favorecer a continuidade e a coerência da ação da escola. - a flexibilidade.
Embora não seja um documento inalterável, não deverá estar
sujeito a profundas e constantes alterações anuais. De modo Pela intencionalidade, o projeto educativo estabelece
geral, “a sua duração dependerá fundamentalmente da direção e metas precisas e explícitas, evitando a ação educativa
permanência em cada instituição das pessoas que o casual e extemporânea.
elaboraram e da estabilidade das suas convicções” (Costa9).
A contextualização representa a adaptação do projeto
Para Vidal, Cárave e Florencio e para Carvalho e Diogo10, o educacional do país à realidade sociocultural concreta de uma
projeto educativo de escola é um documento de planificação escola. A intencionalidade passa a ser “historicizada”, ou seja,
da ação educativa, de amplitude integral, de duração de longo contextualizada num ambiente de referência específico, o que
prazo e de natureza geral e estratégica. Assim, é mais amplo e permite a passagem de um projeto abstrato para um projeto
abrangente do que o projeto pedagógico e o plano de Unidade concreto.
Didática que são meios em relação ao projeto educativo e têm
como objeto converter as finalidades deste em ações, pois são A metodicidade valoriza o princípio de sistematicidade e
documentos de planificação operatória. organicidade no processo didático, mesmo reconhecendo as
diferenças de estilo de aprender e ensinar de alunos e
O projeto educativo distingue-se também de outras professores, respectivamente.
planificações escolares, como o Plano Trienal escolar, o Plano
anual de Escola, o Projeto curricular de turma e o Regimento Finalmente, a flexibilidade assegura que o projeto
interno da Escola, que estão destinados a concretizá-lo educativo seja tratado como uma mera hipótese de trabalho e
relativamente a aspectos mais operacionais e, portanto, têm por isso está sujeito a retificações e revisões ao longo de sua
um caráter tático, e instrumental. implementação.

O projeto educativo é elaborado por toda a comunidade Questões


escolar. O projeto educativo da escola é um conjunto de opções
ideológicas, políticas, antropológicas, axiológicas e 01. (IFB - Professor Pedagogia - IFB/2017) Em relação
pedagógicas resultantes da tensão entre o estabelecido ou aos aspectos do planejamento, assinale a opção que contenha
imposto pelo Estado (projeto vertical), a prática implícita a CORRETA sequência hierárquica do mais amplo ao mais
interna à escola (projeto ritual) e a postura utópica ou restrito, em relação ao planejamento:
intencional da comunidade escolar (projeto intencional). (A) planejamento escolar; planejamento educacional;
planejamento de ensino; planejamento curricular;
Dimensões do projeto educativo, citadas por Carvalho e (B) planejamento curricular; planejamento educacional;
Diogo: planejamento escolar; planejamento de ensino;
(C) planejamento de ensino; planejamento curricular;
O projeto deve servir a incerteza, ter em conta o planejamento escolar; planejamento educacional;
indeterminado, ser capaz de infletir de direção como resultado (D) planejamento de ensino; planejamento educacional;
de uma avaliação permanente, incorporar o conflito, mas, planejamento curricular planejamento escolar;
sobretudo, devolver a cada indivíduo o seu espaço de

8VIDAL, J. G., CÁRAVE, G. e FLORENCIO, M. A. (1992). Madrid: Editorial EOS. 10 CARVALHO, A. E DIOGO, F. (1994). Projecto educativo. Porto: Edições
9COSTA, J. A. (1992). Gestão escolar: Participação, autonomia, projecto educativo Afrontamento.
da escola. Lisboa: Texto Editora. 11 BALDACCI, M. (1996). La scuola dell´autonomia: Il Progetto educativo

d´Istituto. Bari: Maria Adda Edittore.

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APOSTILAS OPÇÃO

(E) planejamento educacional; planejamento escolar; (D) compreende uma doutrina da instrução, revelando-se
planejamento curricular; planejamento de ensino. como um conjunto de normas prescritivas centradas no
método;
02. (SEDF - Professor de Educação Básica - (E) caracteriza-se por estabelecer métodos e técnicas de
Quadrix/2017) Quanto ao planejamento e à organização do educação desvinculados dos princípios educacionais.
trabalho pedagógico, julgue o item subsecutivo.
02. (SEE-AL - Todos os Cargos – CESPE) Com relação à
No processo de planejamento e organização do trabalho didática e à sua prática histórico-social, julgue o item a seguir.
pedagógico, as ações estão circunstanciadas no âmbito dos O enfoque tecnicista da didática busca estratégia objetiva,
vários elementos que compõem o universo escolar, devendo racional e neutra do processo de ensino-aprendizagem, em
ser dada importância máxima àquelas circunscritas à prática contraposição ao enfoque humanista.
pedagógica do professor e à sua formação. ( ) Certo
( ) Certo ( ) Errado ( ) Errado

03. (Pref. Rio de Janeiro/RJ - Professor de Ensino 03. (Prefeitura de Nova Friburgo- RJ- Professor-
Fundamental - Pref./2016) José Carlos Libâneo, em seu livro EXATUS-PR) Em relação à Didática, é incorreto afirmar que
Didática, declara: (A) contribui para transformar a prática pedagógica da
escola, ao desenvolver a compreensão articulada entre os
(...) A ação de planejar, portanto, não se reduz ao simples conteúdos a serem ensinados e as práticas sociais.
preenchimento de formulários para controle administrativo; (B) não compete refletir acerca dos objetivos sócio-
é, antes, a atividade consciente de previsão das ações docentes políticos e pedagógicos, ao selecionar os conteúdos e métodos
(...) de ensino.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1990. (C) realiza-se por meio de ação consciente, intencional e
Pág.222 planejada, no processo de formação humana, estabelecendo-
se objetivos e critérios socialmente determinados.
Nesse trecho, o autor destaca uma das características do (D) sua finalidade é converter objetivos sócio-políticos e
planejamento pedagógico, que é: pedagógicos em objetivos de ensino, selecionar conteúdos e
(A) a flexibilidade métodos em função desses objetivos.
(B) a contextualidade
(C) a intencionalidade 04. (IF-RR- Professor- Pedagogia- FUNCAB) De acordo
(D) o rigor administrativo com a Resolução nº 4, de 13/07/2010, a educação especial:
(A) é uma modalidade a parte da educação regular.
04. (Pref. Nova Friburgo/RJ - Professor de Ciências - (B) não é uma modalidade de ensino, devido ao seu caráter
Exatus) Assinale (V) para as alternativas verdadeiras e (F) específico.
para as falsas: (C) é uma modalidade transversal a todos os níveis, etapas
( ) O planejamento escolar não assegura a unidade e a e modalidades de ensino.
coerência do trabalho docente. (D) é uma modalidade que deve ser oferecida em
( ) O planejamento escolar não inter-relaciona ao plano de instituições específicas.
aula. (E) é prevista para ser oferecida exclusivamente nas
( ) O planejamento escolar é um processo contínuo e classes comuns de ensino regular.
dinâmico.
( ) O planejamento escolar deve ser dialógico e flexível. Respostas
01. D/ 02. Certa/ 03. B/ 04. C
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA
de cima para baixo:
A sala de aula como espaço
(A) V, V, F, V. de aprendizagem.
(B) F, F, V, V.
(C) V, F, V, F.
(D) F, V, V, F. As relações interativas em sala de aula

Respostas A criação de ambientes interativos em sala de aula exige


01. E / 02. Errado / 03. C / 04. B um contexto de ensino-aprendizagem criativo, aberto e
dinâmico, permitindo que o aluno tenha um papel interativo e
Questões responsável na sua aprendizagem.

01. (SEDUC-PI - Professor – Informática – NUCEPE) A Desse modo, se faz necessário uma plataforma de trabalho
Didática constitui disciplina essencial nos processos de correspondente. O uso de pedagogias interativas que levem o
formação de professores, notadamente articulando o saber, o aluno a desenvolver processos cognitivos e sociais de
saber-ser e o saber-fazer. No contexto dessa análise, pode-se aprendizagem, contribuem para excelentes resultados de
afirmar CORRETAMENTE, acerca da concepção tradicional de aproveitamentos na escola, sendo que os alunos se sentem
Didática que: mais motivados.
(A) refere-se a um conjunto de procedimentos universais
relativos à docência; Infelizmente o uso de tecnologias nas escolas não acontece
(B) afirma a neutralidade científica do método, a na prática, e a culpa disso não é exclusivamente à falta de
preocupação com os meios desvinculados dos fins e do dinheiro, preparação de professores ou equipamentos, mas
contexto; principalmente a cultura predominante em nosso país, de que
(C) caracteriza-se por transcender métodos e técnicas de o conhecimento não pode ir de encontro a novos métodos de
ensino, buscando articular escola/sociedade; ensino, ficando engessado.

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É válido destacar que a iniciativa que levou ao explicações. Entretanto, nem todas explicam do mesmo modo
desenvolvimento da Peer Instruction foi uma técnica em que consiste esta base, quais são as suas características,
implantada em sala de aula, onde foi explorada a interação que papel desempenha na aprendizagem posterior e,
com cada aluno durante as preleções. Esse método vale-se de sobretudo, como podemos ou devemos ensinar coisas novas
apresentações curtas através de pontos-chaves, ao aluno a partir desta base (a não ser que decidamos, em um
acompanhadas de um conceito que já traz a resposta. Aqui, o exercício de ilusão, que o gênio da lâmpada tornou o nosso
aluno traz a resposta e a justificativa para tal, de modo que o desejo realidade).
professor analisa-as e mostra os pontos que precisam ser
superados. A isso damos o nome de classrrom feedback A natureza ativa e construtiva do conhecimento13
systems.
Sempre que nós, professores e professoras, nos propomos
O grande desafio encontrado nas salas de aula é o uso de ensinar determinados conteúdos escolares aos alunos e alunas
tecnologias de baixo custo, valendo-se de smartphones, de nossa classe, colocamos em funcionamento, quase sem
tablets, que podem ser utilizados por qualquer aluno com pretender, uma série complexa de ideias sobre o que significa
facilidade, proporcionando um ambiente interativo em sala de aprender na escola e sobre como se pode ajudar os estudantes
aula. nesse processo.
Essas ideias, que viemos forjando ao longo de nossa
O ensino-aprendizagem que geralmente é utilizado na sala atividade educacional, graças à experiência e à reflexão,
de aula é aquele em que o professor pergunta e o aluno constituem nossa concepção de aprendizagem e ensino. Esta,
responde, caso tenha interesse, devendo para isso levantar o que é nossa própria teoria, atua como referência-chave para a
braço. Seria ultrapassado ou ineficaz? Alguns defendem que tomada de decisões sobre o quê, quando e como ensinar e
não é tão eficaz pelo fato dos alunos mais tímidos não avaliar. No entanto, nem todos os profissionais de uma mesma
conseguirem interagir e até mesmo com a participação de escola compartilham as mesmas ideias, e por isso, quando é
todos os alunos fica difícil ficaria difícil a administração da sala preciso tomar uma decisão de equipe (por exemplo: quando é
e o tempo despendido para passar todo o plano de aula. melhor começar a ler? com que método? que livro didático
Contudo, os alunos podem tirar suas dúvidas com o professor pode ser mais útil para trabalhar Matemática na 5ª série da
em momentos de intervalo. Educação Primária? etc.), costumam misturar-se argumentos
contraditórios, que é melhor compreender e avaliar do que
Como isso acontece na prática? Baseado na obra: O censurar ou simplesmente rejeitar.
Construtivismo na sala de aula:12 O propósito geral é conseguir interpretar melhor as ideias
que professores e alunos têm sobre o processo de
Professor: Júlio, responda: por que os judeus foram expulsos aprendizagem escolar e identificar sua limitação ou não. A
da Espanha? seguir, analisaremos algumas das concepções mais habituais
Júlio: Porque não se deixaram fotografar. entre os docentes sobre esse tema. Em particular, exporemos
Professor: Como? De onde você tirou isso? a ideia que têm do aluno e aluna que aprendem, da concepção
Júlio: É o que está no livro. de aprendizagem e como concebem o papel do ensino nesse
Professor: Está, é? Onde? processo. Esta proposta será o parâmetro para aprofundar a
Júlio: Aqui, olhe: "porque não se retrataram". concepção que, a nosso ver, seja mais potente entre todas; e,
enfim, mais especificamente, tentaremos expor o que implica
É provável que, como professores, se tivéssemos em para o aluno e a aluna aprender diferentes tipos de conteúdos
nossas mãos a lâmpada de Aladim, três desejos não escolares: conceitos, procedimentos e atitudes.
pareceriam suficientes para tentar resolver os problemas que
enfrentamos em nossa tarefa cotidiana. No entanto, se nos Algumas concepções da aprendizagem e do ensino escolar
concedessem apenas três oportunidades, é provável que um mais habituais entre os docentes
dos nossos desejos fosse que a mente de nossos alunos
estivesse em branco, como uma lousa limpa na qual A maioria dos docentes estaria de acordo em afirmar que
poderíamos ir escrevendo o que queremos que aprendam. aqueles que aprendem são os alunos e alunas de nossas
Supondo que este desejo nos fosse concedido, o pobre gênio da classes.
lâmpada teria um bom trabalho para ir apagando as lousas de Entretanto, longe dessa primeira aproximação geral, a
nossos alunos até deixá-Ias completamente limpas. explicação que daríamos dessa afirmação seria muito
diferente, como também o seria nossa prática em aula. Como
As mentes de nossos alunos estão bem longe de parecerem frisamos anteriormente, no intuito de analisar as
lousas limpas, e a concepção construtivista assume este fato características das concepções de aprendizagem e ensino
como um elemento central na explicação dos processos de escolar mais difundidas entre os professores, vamos
aprendizagem e ensino na sala de aula. Do ponto de vista desta apresentá-Ias a seguir:
concepção, aprender qualquer um dos conteúdos escolares
pressupõe atribuir um sentido e construir os significados 1. A aprendizagem escolar consiste em conhecer as
implicados em tal conteúdo. respostas corretas para as perguntas formuladas pelos
Pois bem, essa construção não é efetuada a partir do zero, professores. O ensino proporciona aos alunos o reforço
nem mesmo nos momentos iniciais da escolaridade. O aluno necessário para obter essas respostas.
constrói pessoalmente um significado (ou o reconstrói do 2. A aprendizagem escolar consiste em adquirir os
ponto de vista social) com base nos significados que pôde conhecimentos relevantes de uma cultura. Nesse caso, o
construir previamente. ensino proporciona aos alunos a informação de que
Justamente graças a esta base é possível continuar necessitam.
aprendendo, continuar construindo novos significados. 3. A aprendizagem escolar consiste em construir
Esta ideia não é propriamente original. Desde Sócrates até conhecimentos. Os alunos e as alunas elaboram, mediante sua
os dias de hoje, ela foi questionada por poucas teorias ou atividade pessoal, os conhecimentos culturais. Por tudo isso, o

12C. Coll, E. Martín, T. Mauri, M. Miras, J. Onrubia, I. Solé, A. Zabala. 6ª edição, 13C. Coll, E. Martín, T. Mauri, M. Miras, J. Onrubia, I. Solé, A. Zabala. 6ª edição,
editora: Ática, 2006, págs: 57-58. editora: Ática, 2006, págs: 79-83.

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ensino consiste em prestar aos alunos a ajuda necessária para deve a algum processo complexo de elaboração da informação
que possam ir construindo-os. do texto? É possível influenciá-lo? O que diferencia alunos e
Embora a primeira postura apresente características alunas que o conseguem daqueles que quase nunca o
muito diferentes das duas restantes e mantenha com elas conseguem? Desse ponto de vista profissional, importante é
escassos pontos de contato, a segunda e a terceira concepções diferenciar entre os que conseguem ou não ser bem-sucedidos
podem ser relacionadas entre si, pois ambas ocupam-se de nesse processo, pois a expectativa dos professores é que os
como os alunos adquirem conhecimentos, porém divergem na alunos e alunas que não o conseguirem agora, provavelmente
explicação desse processo. nunca o conseguirão. Nesse caso, se forem acumulando notas
ruins, a atuação habitual dos professores consiste em
Conhecer as respostas corretas recomendar-lhes que estudem mais, porém não explicarão
como podem fazê-lo. Se os alunos não conseguem responder
Os professores (pelo menos em algumas situações que adequadamente, continuarão aplicando-Ihes sanções na
podemos conhecer no papel de alunos) não costumam explicar esperança de que algum dia reajam positivamente. Notas
a lição. ruins, ficar sem sair na hora do recreio, expulsão da sala de
Há ocasiões em que nem mesmo a leem ou comentam em aula, copiar cem vezes a resposta correta são exemplos de tudo
voz alta, dedicando a maior parte do tempo a formular isso. E quando isso falha, a sanção torna-se mais rigorosa. Ou
perguntas aos alunos com a finalidade de comprovar se eles seja, atua-se aumentando o número de notas ruins pessoais, de
dispõem ou não do repertório adequado de respostas. Sua recreios perdidos, a quantidade de dias de expulsão ou o
tarefa principal é reforçar positivamente as respostas corretas número de vezes que a resposta correta deve ser copiada.
e sancionar as errôneas. Finalmente, se os alunos continuam sem reagir, um mau
resultado é augurado diretamente: "Você sabe o que faz, mas
A cada aula, antes de terminar, os professores assinalam a se continuar assim não vai passar de ano". E sem qualquer
parte do texto que será objeto de perguntas na próxima aula. indicação, exceto a de que estudem mais, exigem que
Na outra aula, depois que alunos e alunas dedicaram os continuem tentando (investindo mais esforço, mais tempo) ou
momentos iniciais a repassar em silêncio e individualmente a que pensem em abandonar os estudos, caso isso seja possível.
lição, pede-se que alguns deles, seguindo as normas
estabelecidas, respondam todas aquelas perguntas que o O que permite aos alunos aprender determinadas
professor ou a professora desejem formular-lhes, atitudes?14
normalmente em voz alta, diante de toda a classe. Esse sistema
de ensino permite que os professores identifiquem, quase Saberes pessoais dos alunos
imediatamente, o acerto ou o erro nas respostas dos alunos,
adjudicando-lhes, também de modo imediato, um prêmio ou 1. Estar familiarizado com certas normas e possuir
um castigo. tendências de comportamento que se manifestam em
Geralmente, estes últimos adotam a forma de uma nota boa situações específicas, perante objetos e pessoas concretas que
ou ruim, que é anotada na lista correspondente, ao lado do sirvam de base às novas normas e atitudes objeto de
nome do aluno ou da aluna, sem que ninguém possa remediar aprendizagem.
isso. Quem não lembra da caderneta onde o professor ou
professora anotava rigorosamente as qualificações resultantes 2. Poder recordar, entre todos os que estão na memória,
das respostas dos alunos? avaliações, juízos ou sentimentos que merecem determinadas
Quem não ficou expectante diante da possibilidade de que coisas, pessoas, objetos e situações mais relevantes e
o dedo do professor se detivesse justo no momento de chamá- especialmente relacionados com a nova norma ou atitude.
Ia entre os "escolhidos" para expor a lição do dia? 3. Mostrar-se disposto a expressar a outros suas ideias ou
opiniões, por meio da palavra, do gesto ou de qualquer outro
Nessa concepção, a aprendizagem é vista como aquisição modo possível, como medida para obter algum grau de
de respostas adequadas graças a um processo mecânico de consciência sobre elas e conseguir que outros também as
reforços positivos ou negativos. Os professores acreditam que conheçam. A consciência pública e privada de uma atitude
a conduta que desejam dos alunos (a resposta correta) pode constitui um elemento importante para a aprendizagem de
ser determinada externamente mediante o uso do prêmio ou outras novas, porque torna possível, de acordo com as
do castigo, ou seja, por meio de notas. Nesse sentido, os alunos possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem dos
são considerados receptores passivos de reforços. alunos, que eles reflitam sobre os próprios comportamentos e
ideias, analisem suas relações e implicações mútuas e avaliem
Os professores entendem que sua tarefa consiste em o grau de coerência ou discrepância entre, por exemplo, sua
suscitar e ir aumentando o número correto de respostas no atitude e outras informações novas sobre a realidade, as
repertório individual do aluno, e também em avaliar o que e atitudes ou opiniões de pessoas queridas e significativas e
quanto ele responde mais corretamente do que ontem. Nesse também entre a própria atitude e a ação ou comportamento
processo, dificilmente é discutida a relevância do conteúdo próprio.
escolar ou das perguntas do professor, e a resposta correta é
aquela que reproduz fielmente o texto objeto de estudo. 4. Poder elaborar o significado da nova norma ou atitude,
Em geral, nesse caso, os professores não costumam ligando-a ao próprio comportamento e opinião, e internalizá-
identificar sua função com a de educar, mas com a de um la. Para isso pode ser necessário:
especialista que conhece a fundo a matéria objeto de estudo e a. Formar para si uma ideia ou representação da norma ou
que exerce, pela autoridade outorgada por esse fato, um bom atitude objeto de aprendizagem. Nesse sentido, são atividades
controle da conduta dos alunos da classe. Tudo isso faz com importantes: colocar-se no ponto de vista do outro para
que exista um interesse relativo, entre os docentes, em conseguir interpretar suas ideias, tomando consciência do
conhecer o que o aluno e a aluna fazem 'para conseguir dar as conflito ou da contradição entre tendências de atitude;
respostas adequadas. Não são consideradas relevantes observar o comportamento daqueles que nos inspiram afeto,
perguntas como: Por que respondem corretamente? Isto se respeito ou admiração; formular perguntas para conseguir

14 C. Coll, E. Martín, T. Mauri, M. Miras, J. Onrubia, I. Solé, A. Zabala. 6ª edição,


editora: Ática, 2006, págs: 117-121.

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familiarizar-se com determinadas normas e atitudes e 3. É função dos professores ajudar os alunos a
compreender sua origem e significado. relacionarem significativamente as normas a determinadas
Também pode ser útil participar de atividades para rever, atitudes que se pretende que desenvolvam em situações
redefinir, anular ou substituir uma determinada norma ou concretas (no laboratório, no trabalho em grupo, nos espaços
defender ou não uma atitude, argumentando com os valores comuns da escola, em uma saída, em uma exposição dos
em que se sustenta, e aos quais se concede ou não importância professores etc.). Nesse sentido, pode ser útil apresentar as
pessoal. Tudo isso de acordo com o nível de desenvolvimento normas e atitudes vinculando-as a situações concretas e
pessoal. familiares para os alunos, a fim de que possam apreender
claramente os argumentos que as sustentam e alguns dos
b. Comportar-se de acordo com determinados padrões e comportamentos que as exemplificam em realidades
normas ou modelos de atitudes, com a intenção, inicialmente, concretas.
e responder às demandas feitas pelas pessoas pelas quais
sentimos afeto, admiração ou respeito e, finalmente, com a 4. Facilitar a participação e o intercâmbio entre alunos e
ideia de demonstrar coerência entre a atitude e a norma que alunas para debater opiniões e ideias sobre os diferentes
mantemos e os valores aos quais concedemos importância aspectos que dizem respeito à sua atividade na escola (a
pessoal. Ir elaborando, na medida do possível, critérios relevância ou não de estudar e aprender determinados
pessoais de comportamento ético para poder dar maior conteúdos, os objetivos da escola e da sociedade, os costumes
relevância a determinadas normas e atitudes em situações próprios do grupo escolar como microcultura, a
concretas e progredir na consecução da autonomia pessoal e regulamentação, gestão e funcionamento do grupo, o uso de
moral. comuns, as notas e avaliações etc.).

5. Poder aceitar tudo o que implica a mudança de atitude 5. Uma determinada organização das atividades de
com confiança e segurança em si. O fato de poder ou não aprendizagem de conteúdos na escola facilita a aprendizagem
mostrar uma atitude determinada não depende apenas de de determinadas atitudes muito importantes, tais como a
conhecer os argumentos que a sustentam, mas da cooperação, a solidariedade, a equidade e a fraternidade. No
possibilidade de relacioná-Ia com determinados afetos, entanto, se quisermos que o aluno aprenda essas atitudes e
emoções e motivos que, as vezes, nos impedem de mudar. outras, não menos significativas do ponto de vista humano,
Toda inovação pessoal implica certo grau de temor e não podemos deixar de planejar expressamente sua
pressupõe a aceitação de algum tipo de risco. aprendizagem (informar sobre suas características,
exemplificar, debater, atribuir-Ihes significado identificando
A mudança de atitude na escola é possível se o aluno e a as em situações cotidianas e reais para os alunos, mostrar
aluna contam com o apoio de um coletivo (como o grupo da modelos de comportamento que as incluem e permitir que
classe) que avalia positivamente essa modificação de atitudes sejam exercidas e praticadas na escola).
e aceita o desafio da mudança constituindo-se como
referencial e suporte graças à qualidade das relações geradas 6. Procurar modelos das atitudes que se pretende que os
no mesmo. Isto é, os alunos estarão em melhores condições de alunos e alunas aprendam na escola e oferecer o apoio e o
aprender atitudes se a escolha e o grupo de classe permitem a tempo necessário para que possam ensaiar, testar e imitar.
discussão dos argumentos que as apoiam, regulam as Animar, exigir e apoiar os alunos que tentam mudar, tentando
exigências de mudança mediante a participação a cooperação fazer com que eles aceitem o apoio dos demais do grupo e
e a responsabilidade de todos os seus membros aceitam o avaliem as críticas que recebem, o trabalho realizado e os
conflito como algo necessário e não necessariamente negativo sucessos alcançados. Os professores devem estar preparados
e enfocam os problemas sem dramatismos exagerados nem para apoiar os alunos naqueles momentos em que podem
culpas desmoralizadoras. sentir insegurança ou em que manifestem resistência à
mudança.
Intervenção dos professores na construção de atitudes dos A aprendizagem de atitudes se apoia, como demonstramos
alunos na elaboração de representações conceituais e no domínio de
determinados procedimentos (estratégias de memória,
1. O grupo escolar deve ter claramente estabelecidos (e estratégias de relação com os outros etc.). Por sua vez, as
compartilhar as normas que os regulam) os critérios de valor atitudes estão na base do desenvolvimento pessoal de
pelos quais é regido. A qualidade da interação que se estratégias de direção, orientação e manutenção da própria
estabelece na escola e no grupo, tomando como base os valores atividade de aprendizagem. Por exemplo, atitudes como o
estabelecidos, atuará como referencial de ajustamento da rigor ou a curiosidade baseiam-se no exercício experiente de
própria ação pessoal e da atividade compartilhada. Isto é, certos procedimentos e, por sua vez, ajudam os alunos a
alguém se dispõe a comportar-se de uma determinada perseverar na consecução da qualidade da atividade. Da
maneira ou a acatar uma norma se considerar que há consenso mesma forma, o respeito pela diversidade (atitude) permite
a respeito entre os membros do grupo, fundamentalmente que as pessoas continuem interessadas em conhecer as
entre aqueles que aprecia ou aos quais atribui valor ou características de outros (conceitos) até conseguir apreciá-los
autoridade. em toda a sua identidade, sem necessidade de comparações
desqualificadoras e reciprocamente. Poder chegar a conhecer,
2. Os professores devem facilitar o conhecimento e a apreciar e avaliar outras pessoas por aquilo que elas são
análise das normas existentes no centro escolar e no grupo de implica também conhecer-se e apreciar-se, em suma, confiar
classe pura que os alunos possam compreendê-Ias e respeitá- nas próprias capacidades e autoestima.
Ias. Também devem ficar claramente estabelecidas as formas
de participação para que os alunos as conheçam e contribuam As Relações Interativas em Sala de Aula: o papel dos
para melhorá-las, para trocá-Ias por outras ou anulá-Ias, se for professores e dos alunos15
o caso. É importante regular o cumprimento e o Para Zabala as relações de que se estabelecem entre os
desenvolvimento das normas e acordos estabelecidos. professores, os alunos e os conteúdos de aprendizagem

15Texto adaptado de CARDOSO, M. A. baseado na obra de ZABALA, Antoni. A


prática educativa: como ensinar.

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constituem a chave de todo o ensino e definem os diferentes estabelecendo as bases de um ensino que possa ajudar os
papéis dos professores e dos alunos. A concepção tradicional alunos a se formarem como pessoas no contexto da instituição
atribui ao professor o papel de transmissor de conhecimentos escolar.
e controlador dos resultados obtidos. Questões
Ao aluno cabe interiorizar o conhecimento que lhe é
apresentado. A aprendizagem consiste na reprodução da 01. (Prefeitura de Juatuba/MG - Professor de Educação
informação. Esta maneira de entender a aprendizagem Básica I – CONSULPLAN). “A concepção construtivista do
configura uma determinada forma que relacionar-se em ensino e da aprendizagem e a natureza dos diferentes
classe. Na concepção construtivista ensinar envolve conteúdos estabelecem determinados parâmetros nas
estabelecer uma série de relações que devem conduzir à atuações e relações que acontecem em aula, envolvendo um
elaboração, por parte do aprendiz, de representações pessoais conjunto de relações interativas necessárias para facilitar a
sobre o conteúdo. aprendizagem.” NÃO é uma função dos professores, segundo
Trata-se de um ensino adaptativo, isto é, um ensino com tal concepção:
capacidade para se adaptar às diversas necessidades das (A) Contar com as contribuições e os conhecimentos dos
pessoas que o protagonizam. Portanto, os professores podem alunos, tanto no início das atividades quanto durante sua
assumir desde uma posição de intermediário entre o aluno e a avaliação.
cultura, a atenção para a diversidade dos alunos e de situações (B) Planejar a atuação de uma maneira suficientemente
à posição de desafiar, dirigir, propor, comparar. Tudo isso flexível, para permitir adaptação às necessidades dos alunos
sugere uma interação direta entre alunos e professores, em todo o processo educativo.
favorecendo a possibilidade de observar e de intervir de forma (C) Avaliar os alunos através de fórmulas em que o
diferenciada e contingente nas necessidades dos alunos/as. Do controle da avaliação recaia em situações e momentos alheios
conjunto de relações necessárias para facilitar a aprendizagem aos processos individuais de aprendizagem e imprescindíveis
se deduz uma série de funções dos professores, que Zabala para promover a capacidade de aprender a aprender.
caracteriza da seguinte maneira: (D) Promover atividade mental autoestruturante, que
permita estabelecer o máximo de relações com o novo
a) Planejar a atuação docente de uma maneira conteúdo, atribuindo‐lhes significado no maior grau possível e
suficientemente flexível para permitir adaptação às fomentando os processos de metacognição que lhes permitam
necessidades dos alunos em todo o processo de assegurar o controle pessoal sobre os próprios conhecimentos
ensino/aprendizagem. Por um lado, uma proposta de e processos durante a aprendizagem.
intervenção suficientemente elaborada; e por outro, com uma
aplicação extremamente plástica e livre de rigidez, mas que 02. (Prefeitura de São José dos Campos/SP - Assistente
nunca pode ser o resultado da improvisação. em Gestão Municipal – VUNESP). Uso das novas tecnologias
b) Contar com as contribuições e os conhecimentos dos em sala de aula
alunos, tanto no início das atividades como durante sua
realização. Em um mundo tecnológico, integrar novas tecnologias à
c) Ajudá-los a encontrar sentido no que estão fazendo para sala de aula ainda é pouco frequente e um desafio para
que conheçam o que têm que fazer, sintam que podem fazê-lo e docentes. Em muitos casos, a formação não considera essas
que é interessante fazê-lo. tecnologias, e se restringe ao teórico, ou seja, o professor
d) Estabelecer metas ao alcance dos alunos para que possam precisa buscar esse conhecimento em outros espaços. Isso
ser superadas com o esforço e a ajuda necessários. nem sempre funciona, pois frequentar cursos de poucas horas
e) Oferecer ajudas adequadas, no processo de construção do nem sempre garante ao professor segurança e domínio dessas
aluno, para os progressos que experimenta e para enfrentar os tecnologias.
obstáculos com os quais se depara. Muitos educadores já perceberam o potencial dessas
f) Promover atividade mental autoestruturante que permita ferramentas e procuram levar novidades para a sala de aula,
estabelecer o máximo de relações com novo conteúdo, seja com uma atividade prática no computador, com
atribuindo-lhe significado no maior grau possível e fomentando videogame, tablets e até mesmo com o celular.
os processos de meta-cognição que lhe permitam assegurar o O fato é que o uso dessas tecnologias pode aproximar
controle pessoal sobre os próprios conhecimentos e processos alunos e professores, além de ser útil na exploração dos
durante a aprendizagem. conteúdos de forma mais interativa. O aluno passa de mero
g) Estabelecer um ambiente e determinadas relações receptor, que só observa e nem sempre compreende, para um
presididos pelo respeito mútuo e pelo sentimento de confiança, sujeito mais ativo e participativo.
que promovam a autoestima e o autoconceito. A tecnologia também auxilia o professor na busca por
h) Promover canais de comunicação que regulem os conteúdos a serem trabalhados. O Google, por exemplo, criou
processos de negociação, participação e construção. um espaço próprio para a educação, o Google Play for
i) Potencializar progressivamente a autonomia dos alunos Education – cuja versão em português ainda está sem data de
na definição de objetivos, no planejamento das ações que os lançamento. O programa faz uma peneira por disciplina e série
conduzirão aos objetivos e em sua realização e controle, para sugerir aplicativos educacionais específicos para tablets.
possibilitando que aprendam a aprender. O professor pode, por exemplo, criar um grupo da sala em que
j) Avaliar os alunos conforme suas capacidades e seus todos os alunos poderão acessar o aplicativo, facilitando a
esforços, levando em conta o ponto pessoal de partida e o participação.
processo através do qual adquirem conhecimentos e A ideia não é abandonar o quadro negro, mas hoje, com
incentivando a autoavaliação das competências como meio todos os avanços, existe a necessidade de adequação, de
para favorecer as estratégias de controle e regulação da própria abertura para o novo, a fim de tornar as aulas mais atraentes,
atividade. participativas e eficientes.
(Disponível em http://www.gazetadopovo.com.br. Acesso
Concluindo, Zabala afirma que os princípios da concepção em 24.10.2014. Adaptado)
construtivista do ensino e da aprendizagem escolar
proporcionam alguns parâmetros que permitem orientar a De acordo com o autor do texto, o uso das tecnologias em
ação didática e que, de maneira específica ajuda a caracterizar sala de aula pode contribuir para
as interações educativas que estrutura a vida de uma classe,

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(A) distanciar professores e alunos, dada a atração que os sociais e belas artes –, se encontra o núcleo do conhecimento,
conteúdos digitais exercem sobre os adolescentes. o conteúdo principal ou a matéria de ensino.
(B) diminuir o rendimento dos alunos, em face da intensa Sua abordagem baseia-se, principalmente, na estrutura do
interação deles com os conteúdos digitais. conhecimento, como um patrimônio cultural, transmitido às
(C) tornar as aulas mais interativas, com o aluno novas gerações. As disciplinas clássicas, verdades consagradas
desempenhando um papel mais ativo na exploração dos pela ciência, representam ideias e valores que resistiram ao
conteúdos. tempo e às mudanças socioculturais. Portanto, são
(D) tumultuar as aulas, diante da dificuldade para fundamentais à construção do conhecimento.
disciplinar o uso de aparelhos como tablets e celulares em sala Segundo McNeil a finalidade da educação, segundo o
de aula. currículo acadêmico, é a transmissão dos conhecimentos
(E) tornar os alunos mais dispersivos, apenas vistos pela humanidade como algo inquestionável e
espectadores de ferramentas com as quais não sabem principalmente como uma verdade absoluta. À escola, cabe
interagir. desenvolver o raciocínio dos alunos para o uso das ideias e
processos mais proveitosos ao seu progresso.
03. Grande parte dos professores não costumam
identificar sua função com a de educar, mas com a de um Currículo Humanístico - o currículo humanista tem como
especialista que conhece a fundo a matéria objeto de estudo e base teórica a tendência denominada Escola Nova e esta
que exerce, pela autoridade outorgada por esse fato, um bom defende que o currículo necessita levar em consideração a
controle da conduta dos alunos da classe. realidade dos alunos. Na ênfase humanista, segundo McNeil a
atenção do conteúdo disciplinar se desloca para o indivíduo. O
( ) Certo ( ) Errado aluno é visto como um ser individual, dotado de uma
Respostas identidade pessoal que precisa ser descoberta, construída e
01. C / 02. C / 03. certo ensinada; e o currículo tem a função de propiciar experiências
gratificantes, de modo a desenvolver sua consciência para a
libertação e auto realização.
A educação é um meio de liberação, cujos processos,
As teorias do currículo. conduzidos pelos próprios alunos, estão relacionados aos
ideais de crescimento, integridade e autonomia. A auto
realização constitui o cerne do currículo humanístico. Para
Concepções de Currículo e a Organização Curricular da consegui-la, o educando deverá vivenciar situações que lhe
Educação Básica possibilitem descobrir e realizar sua própria individualidade,
agindo, experimentando, errando, avaliando, reordenando e
Concepções de Currículo expressando. Tais situações ajudam os educandos a integrar
emoções, pensamentos e ações.
Podemos afirmar que as discussões sobre o currículo
incorporam, com maior ou menor ênfase, discussões sobre os Currículo Tecnológico - sob a perspectiva tecnológica,
conhecimentos escolares, sobre os procedimentos e as ainda segundo McNeil a educação consiste na transmissão de
relações sociais que conformam o cenário em que os conhecimentos, comportamentos éticos, práticas sociais e
conhecimentos se ensinam e se aprendem, sobre as habilidades que propiciem o controle social. Sendo assim, o
transformações que desejamos efetuar nos alunos e alunas, currículo tecnológico tem sua base sólida na tendência
sobre os valores que desejamos inculcar e sobre as identidades tecnicista. O comportamento e o aprendizado são moldados
que pretendemos construir. pelo externo, ou seja, ao professor, detentor do conhecimento,
cabe planejar, programar e controlar o processo educativo; ao
Currículo associa-se, assim, ao conjunto de esforços aluno, agente passivo, compete absorver a eficiência técnica,
pedagógicos desenvolvidos com intenções educativas. Por atingindo os objetivos propostos.
esse motivo, a palavra tem sido usada para todo e qualquer O currículo tecnológico, concebido fundamentalmente no
espaço organizado para afetar e educar pessoas, o que explica método, tem, como função, identificar meios eficientes,
o uso de expressões como o currículo da mídia, o currículo da programas e materiais com a finalidade de alcançar resultados
prisão etc. pré-determinados. É expresso de variadas formas:
levantamento de necessidades, plano escolar sob o enfoque
sistêmico, instrução programada, sequências instrucionais,
Abordagens do Currículo ensino prescritivo individualmente e avaliação por
desempenho.
Para entendermos melhor, as ideologias e concepções em O desenvolvimento do sistema ensino e aprendizagem
relação ao currículo recorreremos ao texto de McNeil16. Neste segundo hierarquia de tarefas constitui o eixo central do
texto o autor classifica o currículo em quatro abordagens planejamento do ensino, proposto em termos de uma
distintas: Acadêmico, Humanista, Tecnológico e linguagem objetiva, esquematizadora e concisa.
Reconstrucionista, que foram sendo construídas ao longo do
tempo. Currículo Reconstrucionista Social - o currículo
reconstrucionista tem como concepção teórica e metodológica
Currículo Acadêmico - é dentre as várias orientações a tendência histórico crítica e tem como objetivo principal a
curriculares, a que possui maior tradição histórica. Para os transformação social e a formação crítica do sujeito. De acordo
adeptos da tendência tradicional, o núcleo da educação é o com McNeil o reconstrucionismo social concebe homem e
currículo, cujo elemento irredutível é o conhecimento. Nas mundo de forma interativa. A sociedade injusta e alienada
disciplinas acadêmicas de natureza intelectual – como língua e pode ser transformada à medida que o homem inserido em um
literatura, matemática, ciências naturais, história, ciências contexto, social, econômico, cultural, político e histórico

16MCNEIL, John. O currículo reconstrucionista social. Tradução de José Camilo ______. O currículo acadêmico. Tradução de José Camilo dos Santos Filho.
dos Santos Filho. Campinas: editora, 2001. Campinas: editora, 2001.
______. O currículo humanístico. Tradução de José Camilo dos Santos Filho. ______. O currículo tecnológico. Tradução de José Camilo dos Santos Filho.
Campinas: editora, 2001. Campinas: editora, 2001.

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adquire, por meio da reflexão, consciência crítica para Trata-se do chamado currículo oculto, que envolve,
assumir-se sujeito de seu próprio destino. dominantemente, atitudes e valores transmitidos,
Nesse prisma, a educação, é um agente social que promove subliminarmente, pelas relações sociais e pelas rotinas do
a mudança. A visão social da educação e currículo consiste em cotidiano escolar. Fazem parte do currículo oculto, assim,
provocar no indivíduo atitudes de reflexão sobre si e sobre o rituais e práticas, relações hierárquicas, regras e
contexto social em que está inserido. É um processo de procedimentos, modos de organizar o espaço e o tempo na
promoção que objetiva a intervenção consciente e libertadora escola, modos de distribuir os alunos por grupamentos e
sobre si e a realidade, de modo a alterar a ordem social. Na turmas, mensagens implícitas nas falas dos(as)
perspectiva de reconstrução social agrupam-se as posições professores(as) e nos livros didáticos.
que consideram o ensino uma atividade crítica, cujo processo
de ensino e aprendizagem devam se constituírem em uma Teorias do Currículo
prática social com posturas e opções de caráter ético que
levem à emancipação do cidadão e à transformação da Teoria Tradicional
realidade.
Sob o norte de emancipação do indivíduo, o currículo deve Kliebard18 apresenta que os fundamentos da teoria
confrontar e desafiar o educando frente aos temas sociais e curricular de John Bobbit estão baseados na concepção de
situações-problema vividos pela comunidade. Por administração científica de Taylor, e que a extrapolação desses
conseguinte, não prioriza somente os objetivos e conteúdos princípios para a área de currículo transformou a criança no
universais, sua preocupação não reside na informação e sim na objeto de trabalho da engrenagem burocrática da escola.
formação de sujeitos históricos, cujo conhecimento é
produzido pela articulação da reflexão e prática no processo Neste sentido, as finalidades do currículo eram:
de apreensão da realidade. Enfatizando as relações sociais, - educar o indivíduo segundo as suas potencialidades;
amplia seu âmbito de ação para além dos limites da sala de - desenvolver o conteúdo do currículo de modo
aula, introduzindo o educando em atividades na comunidade, suficientemente variado com o fim de satisfazer as
incentivando a participação e cooperação. necessidades de todos os tipos de indivíduos na comunidade;
O currículo reconstrucionista acredita na capacidade do - favorecer um ritmo de treinamento e de estudo que seja
homem conduzir seu próprio destino na direção desejada, e na suficientemente flexível;
formação de uma sociedade mais justa e equânime. Esse - dar ao indivíduo somente aquilo de que ele necessita;
compromisso com ideais de libertação e transformação social - estabelecer padrões de qualidade e quantidade
lhe imputa certas dificuldades em uma sociedade hegemônica definitivos para o produto;
e dominadora. - desenvolver objetivos educacionais precisos e que
incluam o domínio ilimitado da capacidade humana através do
Currículo e Projeto Pedagógico conhecimento de hábitos, habilidades, capacidades, formas de
pensamento, valores, ambições, etc., enfim, conhecer o que
É viável destacar que o currículo constitui o elemento seus membros necessitam para o desempenho de suas
central do projeto pedagógico, ele viabiliza o processo de atividades;
ensino e de aprendizagem. - oferecer “experiências diretas” quando essas múltiplas
necessidades não fossem atendidas por “experiências
Sacristán17 afirma que o currículo é a ligação entre a indiretas”.
cultura e a sociedade exterior à escola e à educação; entre o
conhecimento e cultura herdados e a aprendizagem dos Da transposição dos princípios gerais da administração
alunos; entre a teoria (ideias, suposições e aspirações) e a científica para a administração das escolas passou-se ao
prática possível, dadas determinadas condições. domínio da teoria curricular. As implicações para a prática de
uma escola em que a criança é o material e a escola é a escola-
Alguns estudos realizados sobre currículo a partir das fábrica e, que, portanto deve modelá-la como um produto de
décadas 1960 a 1970 destacam a existência de vários níveis de acordo com as especificações da sociedade, tem seus objetivos
Currículo: formal, real e oculto. Esses níveis servem para fazer voltados para um controle de qualidade.
a distinção de quanto o aluno aprendeu ou deixou de aprender.
Kliebard19, defendia que “padrões qualitativos e
O Currículo Formal refere-se ao currículo estabelecido quantitativos definitivos fossem estabelecidos para o
pelos sistemas de ensino, é expresso em diretrizes produto”, considerando esse produto como o material criança,
curriculares, objetivos e conteúdos das áreas ou disciplina de a professor deveria obter de seus alunos a maior capacidade
estudo. Este é o que traz prescrita institucionalmente os que eles possuíssem para solucionar determinada tarefa em
conjuntos de diretrizes como os Parâmetros Curriculares determinado período de tempo.
Nacionais.
A prática docente desse currículo é facilmente
O Currículo Real é o currículo que acontece dentro da sala compreendida, pois baseia-se num modelo funcional de
de aula com professores e alunos a cada dia em decorrência de aplicação de conteúdos e atividades. Para Kliebard a
um projeto pedagógico e dos planos de ensino. padronização de atividades ou unidades de trabalho e dos
próprios produtos (crianças), exigiu a especificação de
Cabe destacar que a palavra currículo tem sido também objetivos educacionais e tornou a criança, em idade escolar
utilizada para indicar efeitos alcançados na escola, que não como algo a ser modelado e manipulado, produzido de modo
estão explicitados nos planos e nas propostas, não sendo que se encaixasse em seu papel social predeterminado.
sempre, por isso, claramente percebidos pela comunidade
escolar. Em sequência a essa concepção fabril de currículo,
Kliebard apresenta o pensamento de Tyler, que afirma que o

17 SACRISTAN, J. Gimeno. Poderes instáveis em educação. Tradução de Beatriz 19KLIEBARD, H. Os princípios de Tyler. In: MESSIK, R.; PAIXÃO, L.; BASTOS, L.
Affonso Neves. Porto Alegre: Artmed, 1999. (Orgs.) Currículo: análise e debate. São Paulo: Zahar, 1980. p.107-126.
18 KLIEBARD, H. Burocracia e teoria de currículo. In: MESSIK, R.; PAIXÃO, L.;

BASTOS, L. (Orgs.). Currículo: análise e debate. São Paulo: Zahar,1980. p.107-126.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 19


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professor pode controlar as experiências de aprendizagem Além do mais, em um viés pós-estruturalista, o currículo
através da “manipulação do ambiente de tal forma que crie passou a considerar a ideia de que não existe um
situações estimulantes – situações que irão suscitar a espécie conhecimento único e verdadeiro, sendo esse uma questão de
de comportamento desejado, portanto, parte do pressuposto perspectiva histórica, ou seja, que se transforma nos
de que “a educação é um processo de mudança nos padrões de diferentes tempos e lugares.
comportamento das pessoas”.
Organização Curricular da Educação Básica
Teoria Crítica
Veremos agora o que está vigorando (hoje) na Lei de
Quanto ao Brasil, apresenta que Regina Celli Cunha Diretrizes e Bases da Educação:
considera que a concepção crítica de currículo vivencia uma
crise de legitimação, por não conseguir, na prática, LEI Nº 9.394, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1996.
implementar seus princípios teóricos. Moreira revela, ainda,
que a opinião dominante entre especialistas em currículo Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.
acerca da crise é de que os avanços teóricos afetam pouco a
prática docente e que essas discussões têm predominância no TÍTULO IV
campo acadêmico, dificilmente alcançando a escola, não Da Organização da Educação Nacional
contribuindo para maior renovação, e que, apesar da crise, a
teoria curricular crítica constitui a mais produtiva tendência Art. 9º A União incumbir-se-á de:
do campo do currículo. IV - estabelecer, em colaboração com os Estados, o Distrito
Federal e os Municípios, competências e diretrizes para a
Fundamentos: educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio, que
- Crítica aos processos de convencimento, adaptação e nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo
repressão da hegemonia dominante; a assegurar formação básica comum;
- Contraposição ao empiricismo e ao pragmatismo das
teorias tradicionais; TÍTULO V
- Crítica à razão iluminista e racionalidade técnica; Dos Níveis e das Modalidades de Educação e Ensino
- Busca da ruptura do status quo;
- Materialismo Histórico Dialético – crítica da organização CAPÍTULO II
social pautada na propriedade privada dos meios de produção DA EDUCAÇÃO BÁSICA
(fundamentos em Marx e Gramsci);
- Crítica à escola como reprodutora da hegemonia Seção I
dominante e das desigualdades sociais. (Michael Apple) Das Disposições Gerais

Principais Fundamentos: Art. 23. A educação básica poderá organizar-se em séries


anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de
- Escola Francesa: teoria da reprodução cultural – “capital períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade,
cultural”. O currículo da escola está baseado na cultura na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de
dominante, na linguagem dominante, transmitido através do organização, sempre que o interesse do processo de
código cultural (Bourdieu e Passeron) aprendizagem assim o recomendar.
§ 1º A escola poderá reclassificar os alunos, inclusive
- Escola de Frankfurt: crítica à racionalidade técnica da quando se tratar de transferências entre estabelecimentos
escola “pedagogia da possibilidade” – da resistência. Currículo situados no País e no exterior, tendo como base as normas
como emancipação e libertação. (Giroux e Freire) curriculares gerais.

Teoria Pós-Críticas Art. 24. A educação básica, nos níveis fundamental e médio,
será organizada de acordo com as seguintes regras comuns:
Já a teoria pós-críticas emergiu a partir das décadas de III - nos estabelecimentos que adotam a progressão regular
1970 e 1980, partindo dos princípios da fenomenologia, do por série, o regimento escolar pode admitir formas de
pós-estruturalismo e dos ideais multiculturais. Assim como a progressão parcial, desde que preservada a sequência do
teoria crítica, a perspectiva pós-crítica criticou duramente a currículo, observadas as normas do respectivo sistema de
teoria tradicional, mas elevaram as suas condições para além ensino;
da questão das classes sociais, indo direto ao foco principal: o IV - poderão organizar-se classes, ou turmas, com alunos
sujeito. de séries distintas, com níveis equivalentes de adiantamento
na matéria, para o ensino de línguas estrangeiras, artes, ou
Desse modo, mais do que a realidade social dos indivíduos, outros componentes curriculares;
era preciso compreender também os estigmas étnicos e
culturais, tais como a racialidade, o gênero, a orientação sexual Art. 26. Os currículos da educação infantil, do ensino
e todos os elementos próprios das diferenças entre as pessoas. fundamental e do ensino médio devem ter base nacional
Nesse sentido, era preciso estabelecer o combate à opressão comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em
de grupos semanticamente marginalizados e lutar por sua cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada,
inclusão no meio social. exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da
cultura, da economia e dos educandos. (Redação dada pela Lei
A teorias pós-crítica considerava que o currículo nº 12.796, de 2013)
tradicional atuava como o legitimador dos modus operandi dos § 1º Os currículos a que se refere o caput devem abranger,
preconceitos que se estabelecem pela sociedade. Assim, a sua obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da
função era a de se adaptar ao contexto específico dos matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da
estudantes para que o aluno compreendesse nos costumes e realidade social e política, especialmente do Brasil.
práticas do outro uma relação de diversidade e respeito.

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§ 2o O ensino da arte, especialmente em suas expressões (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação básica do
regionais, constituirá componente curricular obrigatório da cidadão, mediante: (Redação dada pela Lei nº 11.274, de 2006)
educação básica. (Redação dada pela Lei nº 13.415, de 2017) § 5o O currículo do ensino fundamental incluirá,
§ 3o A educação física, integrada à proposta pedagógica da obrigatoriamente, conteúdo que trate dos direitos das crianças
escola, é componente curricular obrigatório da educação e dos adolescentes, tendo como diretriz a Lei no 8.069, de 13
básica, sendo sua prática facultativa ao aluno: (Redação dada de julho de 1990, que institui o Estatuto da Criança e do
pela Lei nº 10.793, de 1º.12.2003) Adolescente, observada a produção e distribuição de material
§ 5o No currículo do ensino fundamental, a partir do didático adequado. (Incluído pela Lei nº 11.525, de 2007).
sexto ano, será ofertada a língua inglesa. (Redação dada pela § 6º O estudo sobre os símbolos nacionais será incluído
Lei nº 13.415, de 2017) como tema transversal nos currículos do ensino
§ 6o As artes visuais, a dança, a música e o teatro são as fundamental. (Incluído pela Lei nº 12.472, de 2011).
linguagens que constituirão o componente curricular de que
trata o § 2o deste artigo. (Redação dada pela Lei nº 13.278, de Seção IV
2016) Do Ensino Médio
§ 7o A integralização curricular poderá incluir, a critério
dos sistemas de ensino, projetos e pesquisas envolvendo os Art. 35-A. A Base Nacional Comum Curricular definirá
temas transversais de que trata o caput. (Redação dada pela direitos e objetivos de aprendizagem do ensino médio,
Lei nº 13.415, de 2017) conforme diretrizes do Conselho Nacional de Educação, nas
§ 8º A exibição de filmes de produção nacional constituirá seguintes áreas do conhecimento: (Incluído pela Lei nº 13.415,
componente curricular complementar integrado à proposta de 2017)
pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no § 1o A parte diversificada dos currículos de que trata
mínimo, 2 (duas) horas mensais. (Incluído pela Lei nº 13.006, o caput do art. 26, definida em cada sistema de ensino, deverá
de 2014) estar harmonizada à Base Nacional Comum Curricular e ser
§ 9o Conteúdos relativos aos direitos humanos e à articulada a partir do contexto histórico, econômico, social,
prevenção de todas as formas de violência contra a criança e o ambiental e cultural. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017)
adolescente serão incluídos, como temas transversais, nos § 2o A Base Nacional Comum Curricular referente ao
currículos escolares de que trata o caput deste artigo, tendo ensino médio incluirá obrigatoriamente estudos e práticas de
como diretriz a Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto educação física, arte, sociologia e filosofia. (Incluído pela Lei nº
da Criança e do Adolescente), observada a produção e 13.415, de 2017)
distribuição de material didático adequado. (Incluído pela Lei § 4o Os currículos do ensino médio incluirão,
nº 13.010, de 2014) obrigatoriamente, o estudo da língua inglesa e poderão ofertar
§ 10. A inclusão de novos componentes curriculares de outras línguas estrangeiras, em caráter optativo,
caráter obrigatório na Base Nacional Comum Curricular preferencialmente o espanhol, de acordo com a
dependerá de aprovação do Conselho Nacional de Educação e disponibilidade de oferta, locais e horários definidos pelos
de homologação pelo Ministro de Estado da Educação. sistemas de ensino. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017)
(Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) § 5o A carga horária destinada ao cumprimento da Base
Nacional Comum Curricular não poderá ser superior a mil e
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e oitocentas horas do total da carga horária do ensino médio, de
de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o acordo com a definição dos sistemas de ensino. (Incluído pela
estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. Lei nº 13.415, de 2017)
(Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008). § 6o A União estabelecerá os padrões de desempenho
§ 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro- esperados para o ensino médio, que serão referência nos
brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados processos nacionais de avaliação, a partir da Base Nacional
no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas Comum Curricular. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017)
de educação artística e de literatura e história brasileiras. § 7o Os currículos do ensino médio deverão considerar a
(Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008). formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho
voltado para a construção de seu projeto de vida e para sua
Art. 27. Os conteúdos curriculares da educação básica formação nos aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais.
observarão, ainda, as seguintes diretrizes: (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017)
I - a difusão de valores fundamentais ao interesse social,
aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem Art. 36. O currículo do ensino médio será composto pela
comum e à ordem democrática; Base Nacional Comum Curricular e por itinerários
II - consideração das condições de escolaridade dos alunos formativos, que deverão ser organizados por meio da oferta de
em cada estabelecimento; diferentes arranjos curriculares, conforme a relevância para o
III - orientação para o trabalho; contexto local e a possibilidade dos sistemas de ensino, a
IV - promoção do desporto educacional e apoio às práticas saber: (Redação dada pela Lei nº 13.415, de 2017)
desportivas não-formais. § 3o A critério dos sistemas de ensino, poderá ser composto
itinerário formativo integrado, que se traduz na composição
Art. 28. Na oferta de educação básica para a população de componentes curriculares da Base Nacional Comum
rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações Curricular - BNCC e dos itinerários formativos, considerando
necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e os incisos I a V do caput. (Redação dada pela Lei nº 13.415, de
de cada região, especialmente: 2017)
I - conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às § 11. Para efeito de cumprimento das exigências
reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural; curriculares do ensino médio, os sistemas de ensino poderão
reconhecer competências e firmar convênios com instituições
Seção III de educação a distância com notório reconhecimento,
Do Ensino Fundamental mediante as seguintes formas de comprovação: (Incluído pela
Lei nº 13.415, de 2017)
Art. 32. O ensino fundamental obrigatório, com duração de
9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6

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Seção IV-A A superação das hierarquias, das segmentações e dos


Da Educação Profissional Técnica de Nível Médio silenciamentos entre os conhecimentos e as culturas pode ser
(Incluído pela Lei nº 11.741, de 2008) um dos maiores desafios atuais para a organização dos
currículos. Eles têm sido repensados, mas, sobretudo, em
Art. 36-B. A educação profissional técnica de nível médio função do progresso cientifico e tecnológico. Assim, os
será desenvolvida nas seguintes formas: (Incluído pela Lei nº currículos se complexificam cada vez mais, o que não significa
11.741, de 2008) que os mesmos questionem os processos humanos regressivos
I - os objetivos e definições contidos nas diretrizes que acontecem na sociedade e que cada vez mais parecem
curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional precarizar a vida dos educandos.
de Educação; (Incluído pela Lei nº 11.741, de 2008)
As exigências curriculares e as condições de garantia do
Seção V direito à educação e ao conhecimento se distanciam pela
Da Educação de Jovens e Adultos precarização da vida dos setores populares.

Art. 38. Os sistemas de ensino manterão cursos e exames Por um lado, o direito à educação e, por outro, a vivência
supletivos, que compreenderão a base nacional comum do da negação dos direitos humanos mais básicos questionam o
currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em ordenamento curricular, a lógica sequenciada, linear, rígida,
caráter regular. previsível, para sujeitos disponíveis, liberados, em tempo
integral, sem rupturas, sem infrequências, somente ocupados
Obs.: Só colocamos os parágrafos e incisos que dizem no estudo, sem fome, protegidos, com a sobrevivência
respeito ao currículo, por isso não seguimos à ordem. garantida.

Currículo e Direito à Educação A escola vem fazendo esforços para repensar-se em função
da vida real dos sujeitos que têm direito à educação, ao
Sabemos o quanto a questão curricular afeta a organização conhecimento e à cultura. A nova LDB n° 9394/96 recoloca a
do trabalho na escola, constituindo-se mesmo num elemento educação na perspectiva da formação e do desenvolvimento
estruturante do seu trabalho. humano; o direito à educação, entendido como direito à
formação e ao desenvolvimento humano pleno.
Aspectos fundamentais do cotidiano das escolas são
condicionados pelo currículo: é ele que estabelece, por Essa lei se afasta, no seu discurso, da visão dos educandos
exemplo, os conteúdos, seu ordenamento e sequenciação, suas como mão-de-obra a ser preparada para o mercado e
hierarquias e cargas horárias. São também as decisões reconhece que toda criança, adolescente, jovem ou adulto tem
curriculares que fazem importante mediação dos tempos e dos direito à formação plena como ser humano. Reafirma que essa
espaços na organização escolar, das relações entre educadores é uma tarefa da gestão da escola, da docência e do currículo.
e educandos, da diversificação que se estabelece entre os
professores. A organização escolar, portanto, é inseparável da Currículo e Multiculturalismo
organização curricular.
Sacristán21 afirma que a escola tem sido um mecanismo de
Miguel G. Arroyo20 é um dos autores que têm se normalização. O multiculturalismo na escola nada mais é do
preocupado com o currículo e os sujeitos envolvidos na ação que a inclusão de todos à educação, procurando atender aos
educativa: educandos e educadores. Arroyo tem ressaltado interesses de todos, independentemente de etnias,
nesses estudos diversos aspectos, como: deficiências ou diferentes grupos minoritários, geralmente
- a importância do trabalho coletivo na educação para a excluídos e marginalizados.
construção de parâmetros de ação pedagógica;
- o fato de serem os educandos sujeitos de direito ao Na sua concepção o currículo educacional deve atender a
conhecimento; todas estas diversidades, pois a sociedade não é homogênea.
- a necessidade de se mapearem imagens e concepções dos Para tanto, o currículo deve ser ampliado e abranger as
educandos para subsidiar o debate sobre os currículos. necessidades dos grupos minoritários, ou seja, não pode se
prender apenas a cultura dominante e geral, mas sim
Tomando os educandos como sujeitos de direito, os reconhecer a singularidade dos indivíduos.
currículos são responsáveis pela organização de
conhecimentos, culturas, valores, artes a que todo ser humano Para que aconteça a inclusão de grupos minoritários, é
tem direito. Isso significa inverter as prioridades ditadas pelo necessária uma discussão profunda sobre a temática, a qual
mercado e definir as prioridades a partir do respeito ao direito deve envolver toda a comunidade escolar. O ponto de partida
dos educandos. para o movimento inicial é o planejamento curricular, mas é
no currículo real, ou seja, as práticas educativas, que de fato
Somente partindo do conhecimento dos educandos como ocorrem à desvalorização das experiências dos alunos e as
sujeitos de direitos, estaremos em condições de questionar o discriminações.
trato seletivo e segmentado em que ainda se estruturam os
conteúdos. Para Sacristán, a cultura transmitida pela escola confronta
com outros significados prévios, por isso, deve-se pensar em
Isso exige repensar a reorganização da estrutura escolar e um currículo extraescolar, para que os educadores possam
do ordenamento curricular legitimados em valores de mérito mediar os educandos com uma perspectiva multicultural, a
e sucesso, em lógicas excludentes e seletivas, em hierarquias qual visa o currículo em coordenadas mais amplas.
de conhecimentos e de tempos, em cargas-horárias.

20ARROYO, Miguel Gonzalez. Secretaria de Educação Básica (Org.). Os educandos, 21SACRISTAN, José Gimeno. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Trad
seus Direitos e o Currículo: Documento em versão preliminar. 2006. Ernani da Rosa. Porto Alegre, RGS: Artmed, 2000.

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Para que não perca a identidade das culturas, o romper com um processo tão solidificado na escola como é o
planejamento curricular, de acordo com Sacristán22, deve se caso da avaliação da aprendizagem.
pautar na seguinte estratégia:
- formação de professores; Algumas críticas severas têm sido feitas em relação ao
- planejamento de currículos; aluno não saber quais são os verdadeiros objetivos das
- desenvolvimento de materiais apropriados e, avaliações, não saber como ele será avaliado e, o mais
- a análise e revisão crítica das práticas vigentes. importante não saber o que o professor espera que ele
responda, o que o professor, verdadeiramente, quer.
Para esta abordagem, segundo o autor, deve-se modificar
muito o currículo. É preciso entender, de uma vez por todas, que temos que
conciliar a concepção de avaliação em um currículo aberto e
Em relação ao papel da escola Candau23 enfatiza que as em construção que deve contemplar o conhecimento real dos
diversidades culturais existentes nas diferentes sociedades, alunos.
como:
- os negros americanos; Como local de conhecimento, o currículo é a expressão de
- os emigrantes em países desenvolvidos; nossas concepções do que constitui conhecimento (...). Trata-
- os emigrantes no Brasil; e mais, se de uma concepção do conhecimento e do currículo como
- as muitas distintas culturas que variam de grupos e de presença: presença do real e do significado no conhecimento e
pessoas se fazem presentes no interior da escola. no currículo; presença do real e do significado para quem
transmite e para quem recebe.
A escola neste sentido, não pode reproduzir a cultura
dominante, ela deve considerar as vivências dos educandos e Este conceito assevera a ideia de um currículo em
contribuir para uma pedagogia libertária. constante movimento. Um currículo aberto e que serve de
passagem para o real e significativo. Um lugar perfeito para se
Em decorrência do fracasso escolar, intensificaram-se os processar a avaliação que se deseja em qualquer processo de
estudos a respeito do multiculturalismo associado com a aprendizagem
Antropologia, mas também se viu a Psicologia como uma das
ciências importantíssima para a resolução dos problemas. A avaliação é um processo histórico que se propaga de
acordo com as mudanças sociais, tendo em vista os múltiplos
Candau faz referência à teoria de Paulo Freire, a qual contextos que perpassam a vida dos sujeitos humanos. Ou seja,
buscou em uma perspectiva da cultura popular, alfabetizar a avaliação está presente no cotidiano dos indivíduos,
muitas pessoas em blocos divididos, os quais os educadores ocorrendo de maneira espontânea ou através do ensino
faziam um estudo do cotidiano das pessoas para daí então, formal.
começar alfabetizá-los, considerando a linguagem e os termos
comuns. Na educação, a avaliação deve partir de um currículo
planejado, envolvendo todo o coletivo da instituição. O
O multiculturalismo, de acordo com Candau, tem sua maior currículo, por sua vez, tem por objetivo direcionar caminhos
representatividade nos EUA, porque lá vivem negros, de como trabalhar as diversidades encontradas dentro da
mexicanos, porto-riquenhos, chineses e uma pluralidade de escola, atribuindo juízo de valor que deve ser realizado de
raças e etnias distintas. forma ética e democrática a respeito do objetivo que se
pretende alcançar, principalmente no ensino e na
Durante a década de 1960, tiveram muitas manifestações aprendizagem escolar.
em prol da igualdade dos negros perante aos brancos, eles
reivindicavam direitos e participação iguais na sociedade, Nesse sentido, as práticas pedagógicas do educador podem
independentemente de raça, sexo, crenças e religião. se tornar um ato classificatório, sendo que o juízo de valor se
expressa nas suas ações diárias desenvolvidas em sala de aula.
O multiculturalismo enfim, se apresenta de muitas formas, Haja vista que a atividade docente requer um processo
as quais não se limitam a uma única tendência. Por isso, sua contínuo de reflexões em torno da práxis, especialmente no
abordagem educacional é muito ampla, fazendo uma reforma tocante ao ato de avaliar.
drástica no currículo para uma perspectiva de diversidades.
Faz-se fundamental que o educador reflita as suas práticas
Currículo e Avaliação desenvolvidas no cotidiano da sala de aula, respeitando as
experiências que os indivíduos trazem do seu convívio em
Que tipo de ser humano queremos formar? É com esta sociedade. Tendo em vista que a avaliação consiste um dos
pergunta na cabeça que devemos pensar o currículo. Não aspectos do processo pedagógico, cuja prática deve colaborar
obstante, a avaliação, também, perpassa por este viés – uma no desenvolvimento da criticidade do indivíduo, interagindo
avaliação que dê conta de suprir algumas de nossas os conhecimentos escolares com os contextos em que alunos
necessidades do cotidiano. estão inseridos.

É nesse contexto que as três últimas décadas registraram Nesse sentido, o corpo docente não deve utilizar o ato de
uma preocupação intensa com os estudos sobre avaliação. O avaliar apenas para medir e controlar o rendimento do
processo de avaliação não está ainda bem resolvido e definido discente dentro da instituição escolar. Segundo Fernandes e
pela escola e tampouco nas cabeças dos professores. Freitas24 perpassam, na prática escolar, duas formas de
avaliação:
Muitos estudos foram empreendidos, mas pouco se - a avaliação formativa que tem princípios norteadores no
avançou. Teóricos têm estudado e buscado caminhos para próprio processo educativo e

22SACRISTAN, José Gimeno. Currículo e diversidade cultural. In SILVA, Tomaz 23 CANDAU, Vera Maria Ferrão. (Org.). Sociedade, educação e cultura(s): Questões
Tadeu da. MOREIRA, Antonio Flávio (Orgs). Territórios Contestados: o currículo e e propostas. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.
os novos mapas políticos e culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. 24 FERNANDES, Claudia de Oliveira. Indagações sobre currículo: currículo e

avaliação. Organização do documento: Jeanete Beauchamp, Sandra Denise Pagel,

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- a avaliação somativa que apresenta a função de julgar o Segundo Vilar (1998), o currículo pode assumir os significados
resultado final, ou seja, ao término do ano letivo, sendo feito seguintes:
uma avaliação com objetivo de somar as notas do aluno Faça a associação correta.
durante o período escolar. 1. Currículo prescrito.
2. Currículo apresentado.
“Os processos de avaliação formativa são concebidos para 3. Currículo trabalhado.
permitir ajustamentos sucessivos durante o desenvolvimento e 4. Currículo traduzido.
a experimentação do currículo”. 5. Currículo concretizado.

Referências: ( ) Conjunto dos meios elaborados por diferentes


ALVES, Alzenira Cândida; SANTOS, Jaiana Cirino dos; FERNANDES, Hercília
Maria. Currículo e Avaliação: uma análise do projeto político pedagógico da Escola
instâncias com o objetivo de apresentar uma interpretação do
Cecília Estolano Meireles.IV FIPED. Campina Grande, REALIZE Editora, 2012. currículo prescrito.
BRASIL. Indagações sobre Currículo - Currículo, Conhecimento e Cultura. ( ) Conjunto das tarefas escolares que corporizam as
Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Brasília, 2007. decisões curriculares, anteriormente assumidas.
FRANCO, Maristela Canário Cella. Teoria Curricular Crítica e Prática
Pedagógica: Mundos Desconexos. ( ) Consiste na planificação curricular no âmbito da escola,
JESUS, Adriana Regina de. Currículo e Educação: conceito e questões no configuram os significados e conteúdos das decisões e
contexto educacional. propostas.
MELLO, Guiomar Namo de. Currículo da Educação Básica no Brasil:
concepções e políticas.
( ) Consiste no conjunto de efeitos cognitivos, afetivos,
PRADO, Iara Glória Areias. O MEC e a Reorganização Curricular. Secretária morais, sociais etc.
de Educação Fundamental do MEC São Paulo Perspec. vol.14 no.1 São Paulo ( ) Trata-se do resultado das decisões assumidas pela
Jan./Mar. 2000. administração do sistema educativo.
REIS, Danielle de Souza. Concepções de Currículo e suas inter-relações com os
Fundamentos Legais e as Políticas Educacionais Brasileiras. Rio de Janeiro,2010. Assinale a sequência correta, de cima para baixo
(A) 2, 3, 5, 4, 1.
Questões (B) 3, 2, 4, 1, 5.
(C) 3, 1, 2, 4, 5.
01. (TSE – Analista Pedagogia – CONSULPLAN) O (D) 2, 3, 4, 5, 1.
currículo tem um papel tanto de conservação quanto de (E) 2, 4, 3, 5, 1.
transformação e construção dos conhecimentos
historicamente acumulados. A perspectiva teórica que trata o 04. (TJ/DF – Analista Judiciário Pedagogia – CESPE)
currículo como um campo de disputa e tensões, pois o vê Julgue os item subsequente, relativo às concepções de
implicado com questões ideológicos e de poder, denomina-se currículo.
(A) tecnicista. A lógica temporal precedente e segmentada fundamenta-
(B) crítica. se em uma organização curricular baseada na lógica do ser
(C) tradicional. humano como sujeito de direitos.
(D) pós-crítica. ( ) Certo ( ) Errado

02. (TSE – Analista Pedagogia – CONSULPLAN) O 05. (TJ/DF – Analista Judiciário Pedagogia – CESPE)
documento introdutório dos Parâmetros Curriculares Julgue os item subsequente, relativo às concepções de
Nacionais (PCN/1997) propõe um desenvolvimento curricular currículo.
em quatro níveis de concretização. O primeiro nível de Em uma visão emancipadora de currículo, deve-se partir
concretização do currículo corresponde aos próprios PCNs do pressuposto que os alunos são diferentes, porém o
que se constituem em uma referência nacional; o segundo diz parâmetro de organização curricular deve ser a capacidade
respeito às propostas curriculares dos daqueles mais capazes ou normais para garantia da qualidade.
( ) Certo ( ) Errado
(A) Estados; o terceiro refere-se às propostas curriculares
dos Municípios e o quarto nível é o momento de realização das Respostas
programações das atividades de ensino e aprendizagem na 01. A / 02. C / 03.D / 04. Errada / 05. Errada
sala de aula.
(B) Municípios e das instituições escolares; o terceiro
refere- se às propostas curriculares implementadas nas salas As contribuições da
de aula e o quarto nível corresponde às atividades realizadas psicologia da educação para a
individualmente pelos alunos.
(C) Estados e Municípios; o terceiro refere-se ao momento pedagogia: implicações para a
de realização das programações das atividades de ensino e melhoria do ensino e para
aprendizagem na sala de aula e o quarto nível corresponde às ações mais embasadas da ação
atividades realizadas individualmente pelos alunos.
(D) Estados e Municípios; o terceiro refere-se às propostas profissional docente no
curriculares de cada instituição escolar e o quarto nível é o alcance do que se ensina aos
momento de realização das programações das atividades de indivíduos.
ensino e aprendizagem na sala de aula.

03. (UFAL – Pedagogo – COPEVE) Do ponto de vista


etimológico, a palavra Currículo deriva da palavra latina PSICOLOGIA EDUCACIONAL OU ESCOLAR:
UMA QUESTÃO DE NOMENCLATURA?
curros (carros, carruagem) e de suas variações. Começou a ser
empregada na literatura geral norte-americana em meados do
Quando se fala em Psicologia em sua relação com a
século XIX, para designar processo de vida e desenvolvimento.
Educação geralmente se usam os termos "Educacional" ou
"Escolar". Além dessas nomeações são comuns os termos:

Aricélia Ribeiro do Nascimento. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de


Educação Básica, 2008.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 24


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Psicologia na Educação, Psicologia da Educação, Psicologia Deve-se, pois, sublinhar que Psicologia Educacional e
aplicada à Educação e Psicologia do Escolar. Entretanto, por Psicologia Escolar são intrinsecamente relacionadas, mas
meio da pesquisa histórica, foi possível encontrar ainda as não são idênticas, nem podem reduzir-se uma à outra,
seguintes expressões: Psicologia Pedagógica, Pedagogia guardando cada qual sua autonomia relativa. A primeira é
Terapêutica, Pedologia, Puericultura, Paidologia, Paidotécnica, uma área de conhecimento (ou subárea) e tem por
Higiene Escolar, Ortofrenia, Ortofrenopedia e Defectologia. finalidade produzir saberes sobre o fenômeno psicológico
Também em obras diversas aparecem expressões no processo educativo. A outra constitui-se como campo
relacionadas: Psicotécnica, Psicologia Aplicada às coisas do de atuação profissional, realizando intervenções no
Ensino, Psicologia para pais e professores, Psicologia da espaço escolar ou a ele relacionado, tendo como foco o
criança, Psicologia do aluno e da professora, Biotipologia fenômeno psicológico, fundamentada em saberes
Educacional, Psicopedagogia, Psicologia Especial, Higiene produzidos, não só, mas principalmente, pela subárea da
Mental Escolar, Orientação Educacional e Orientação psicologia, a psicologia da educação.
Profissional. Em alguns casos se refere à teoria e em outros se
designa o conjunto de práticas desenvolvidas nesse âmbito. A autora diz em nota de rodapé que "muitas expressões são
Com esse emaranhado de nomes pode-se pensar que há utilizadas, dentre as quais: Psicologia Educacional, Psicologia
inclusive uma indefinição identitária desse campo. Se a da Educação, Psicologia na Educação e outras. Há implicações
resposta for sim, essa é uma discussão muito importante para teóricas que subjazem à opção por uma ou outra denominação,
os profissionais que têm interesse nesse tema. Além disso, é mas que não serão aqui tratadas, dada delimitação do presente
necessário questionar, por exemplo, como geralmente se texto". Em termos gerais a definição mostra Psicologia
nomeiam os profissionais e os serviços desse setor? Será que Educacional e da Educação como sinônimos e correspondem à
existem diferenças quando se fala Escolar e Educacional? Ou teorização ou produção de saberes sobre o processo educativo
ainda Psicologia da Educação ou na Educação? e a Psicologia Escolar como um campo de atuação ou prática
do psicólogo em contextos educativos diversos. Antunes
Na busca de responder a essas indagações que pensamos recentemente voltou a tratar do tema dizendo que essas
em traçar um percurso histórico desse conjunto de diferenciações devem ser observadas a partir do contexto
nomenclaturas para compreender como, ao longo do tempo, histórico no qual estão inseridas e, portanto, é de suma
foram se constituindo essas nomeações e quais são suas importância trazer à luz como foram constituídas
finalidades e distinções. A partir da investigação constatou-se historicamente.
que realmente é fato que a própria definição do que seja ou não
Psicologia Educacional e Escolar passou por várias Essa diferenciação e diríamos até cisão clássica entre
transformações conceituais que refletiram em sua própria teoria e prática foi historicamente constituída na Psicologia e
designação. A análise histórica dessas configurações revelou também na Psicologia Educacional e Escolar, especialmente
que essas diversas terminologias não são meramente uma pela influência estadunidense.
questão de escolha de nomenclaturas que denominam o E, nesse sentido, no Brasil, devido à influência que se teve
mesmo fenômeno. das formulações estrangeiras, classicamente se considerava
Identificamos que esses termos citados e suas distinções que essa era a distinção primordial. A professora Geraldina
têm todo um sentido histórico. Essas diferenciações estão Witter ainda complementa dizendo que essa diferenciação é
relacionadas, sobretudo, à definição desse campo em termos inócua, pois, segundo ela, "é claro que uma coisa não vive sem
de (a) objetos de interesse, (b) finalidades e (c) métodos de a outra, não é?"
investigação e/ou intervenção, que, por sua vez, estão
relacionados à visão de homem, de mundo, de sociedade, de Mas, de um modo geral, essa divisão clássica e hoje
educação e de escola e também quanto ao foco de olhar à tradicional é muito disseminada por alguns teóricos e
interface Psicologia e Educação. E isso foi se modificando ao profissionais que mantêm a ideia de que a Psicologia
longo do tempo, como será tratado a seguir. Educacional fica a cargo de responder pela teorização e pelas
pesquisas, e a Psicologia Escolar, pela prática. Contudo, a partir
Para Antunes, a Psicologia Educacional pode ser do olhar histórico, verifica-se que o termo "Psicologia
considerada como uma subárea da psicologia, o que Educacional" durante muito tempo no Brasil reunia em si os
pressupõe esta última como área de conhecimento. dois aspectos - o teórico e o prático -, sendo que também havia
Entende-se área de conhecimento como corpus outras nomeações (antes citadas) que designavam esse campo.
sistemático e organizado de saberes produzidos de Uma peculiaridade da história da Psicologia no Brasil é
acordo com procedimentos definidos, referentes a que, diferentemente do que ocorreu em outros países nos
determinados fenômenos ou conjunto de fenômenos quais o campo da Psicologia Educacional e Escolar se
constituintes da realidade, fundamentado em concepções consolidou após a Psicologia propriamente dita, como uma
ontológicas, epistemológicas, metodológicas e éticas derivação desta, pelo menos no que se refere à prática, aqui
determinadas. Faz-se necessário, porém, considerar a ocorreu de forma diferente. Esse campo nasceu, desenvolveu-
diversidade de concepções, abordagens e sistemas teóricos se e se consolidou concomitantemente à Psicologia
que constituem as várias produções de conhecimento, propriamente dita. E especialmente ao que tange à aplicação
particularmente no âmbito das ciências humanas, das quais a prática dos conhecimentos psicológicos, o campo educativo foi
psicologia faz parte. Assim, a Psicologia da Educação pode ser um dos primeiros. Isso é possível apreender por meio das
entendida como subárea de conhecimento, que tem como evidências encontradas em documentos escritos, nos
vocação a produção de saberes relativos ao fenômeno depoimentos que podemos ter acesso de pioneiros e também
psicológico constituinte do processo educativo. na constituição dos primeiros serviços. Para Antunes, essa
A Psicologia Escolar, diferentemente, define-se pelo ligação é tão intensa que: "[o] vínculo entre a Psicologia e
âmbito profissional e refere-se a um campo de ação Educação é um vínculo muito estreito, e eu diria até
determinado, isto é, a escola e as relações que aí se constitutivo". Essa mesma autora reitera que a Psicologia
estabelecem; fundamenta sua atuação nos conhecimentos Educacional e Escolar foi um dos principais pilares sob o qual
produzidos pela Psicologia da Educação, por outras a Psicologia se erigiu no seu processo de autonomização e que
subáreas da psicologia e por outras áreas de muitas práticas iniciais da Psicologia principiaram por meio da
conhecimento. sua relação com a Educação.

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Como temos conhecido através dos estudos de Massimi e uso de conhecimentos que posteriormente chamaríamos de
Massimi e Guedes, desde o período colonial, podemos psicológicos com fins educativos, especialmente de cunho
encontrar indícios de conhecimentos psicológicos sendo punitivo, correcional ou adaptacionista. Os termos Pedologia,
aplicados em diferentes áreas e uma delas se destaca, o Puericultura, Paidologia, Paidotécnica (relacionados à criança)
trabalho de educação jesuítica. No Brasil, desde a chegada dos e também Ortofrenia, Ortofrenopedia, Defectologia
jesuítas e da instituição de um projeto de Educação no país, (relacionados à criança "defeituosa", "deficiente" ou
pode-se verificar o uso de conhecimentos, saberes ou ideias "retardada") têm origem nesse tipo de pensamento
psicológicas em interação com os processos educativos. adaptacionista.
Massimi relata que encontrou em obras, cartas e documentos
históricos do período colonial referências a temas como Mesmo com essa origem remota, só podemos falar em uma
família, desenvolvimento e aprendizagem infantis, e o papel "área" propriamente dita chamada "Psicologia Educacional"
dos jogos na educação, entre outros assuntos que mais tarde (nome inicialmente dado a esta) a partir da autonomização da
seriam objeto da Psicologia em sua relação com a Educação. Psicologia (em fins do século XIX e início do século XX). No caso
Desse modo, muito antes da influência dos estudos norte- do Brasil, também se tem como marco inicial a criação da
americanos aportarem no país, assim como os conhecimentos profissão de psicólogos no país, em 1962. Esse campo teórico
psicológicos europeus e ingleses do século XX, podemos e prático tem ainda como origem a criação de instituições e
encontrar referências como a de Juan Luís Vives, comentador associações dedicadas a esse objeto de estudo e intervenção
de Aristóteles que, segundo Noemy Silveira Rudolfer, em seu nos primeiros anos do século XX, especialmente nos anos
trabalho precursor no século XVI, na obra "De Anima et Vita", 1930. Entretanto, aos poucos é que foram sendo definidas as
escreve sobre Psicologia e sua relação com o ensino. A autora especificidades dessa que é considerada por uns uma "área",
afirma que: Ele não podia aplicar à educação princípios por outros um "campo", um "ramo" ou até uma "subdivisão"
psicológicos inexistentes. Nem seria possível encontrá-los ou "subárea" da Psicologia.
numa época de transição da psicologia. Tratou de induzi-los Nesses primórdios a Psicologia Educacional define melhor
com o alvo da aplicação em mira. seu objeto de interesse, suas finalidades, seus métodos de
[...] não se pode conhecer a natureza ou a origem da alma, investigação e conceitos primordiais. É nítida a expressão
mas apenas suas manifestações, diz ele [Vives]. É com razão, fundante da Puericultura, quando o foco de interesse era o
pois, que o consideram o iniciador da psicologia empírica. conhecimento do desenvolvimento infantil, e também da
[...] é, por conseguinte, nos elementos da psicologia de Ortofrenia, quando o objetivo era trabalhar as questões das
Vives que vamos encontrar os primeiros traços da psicologia crianças ditas "anormais". Também se observa a presença da
educacional, na sua exposição da variedade de manifestação chamada Pedagogia Terapêutica, Higiene Escolar ou Higiene
da alma. Mental Escolar, quando se enfatizavam os métodos de
intervenção médico-curativos e clínicos para resolver os
Para Cerqueira, Vives foi um dos colaboradores para a chamados "problemas das crianças".
elaboração do "Ratio Studiorum", que foi o plano geral de Essas referências iniciais da Psicologia Educacional tinham
estudos organizado pela Ordem da Companhia de Jesus para a relação com a crescente onda do movimento de Higiene Mental
aplicação em todos os colégios mantidos por esta. A educação ou higienista que se tornou expressivo no país no início e
jesuíta durou de 1549 a 1759 e tinha como propósito meados do século XX. Também foram influências iniciais a
primordial o trabalho educativo visando à catequização e expansão do movimento psicométrico, da Psicanálise e da
instrução na fé cristã. Em 1759, por meio das Reformas Psicologia Infantil (Puericultura) ou Pedagogia Terapêutica,
Pombalinas, ocorreu a expulsão da Companhia de Jesus do como era chamada.
Brasil. O Marquês de Pombal então instaura uma série de
mudanças no sistema educacional que tinham influência das A Psicologia Educacional no Brasil, em seus primórdios,
ideias iluministas e defendiam o ensino laico. abarcava teoria e prática e estava relacionada sobretudo à
As reformas de Pombal incluíram mudanças nos "estudos disciplina "Psicologia Educacional" dos cursos Normais, que
menores" (primeiras letras) e nos "estudos maiores" (ligados utilizava trabalhos empíricos realizados em Laboratórios de
à Universidade de Coimbra). Foram contratados professores Psicologia, durante muito tempo relacionados ao movimento
régios, que recebiam da Coroa e, ao mesmo tempo, se psicométrico, higienista e influência da Psicologia Infantil.
submeteram a uma orientação pedagógica que incorporava os Usavam-se como sinônimos de Psicologia Educacional, com
ideais iluministas. Nesse sentido, o ensino passa a ter como essa configuração, os termos Psicologia na Educação,
característica a educação por meio de aulas régias (ou avulsas) Psicologia da Educação, Psicologia aplicada à Educação e
tendo a figura do professor como central no processo. Psicologia Experimental. Geralmente a expressão "Psicologia
Segundo Antunes, no Período Colonial a característica Educacional" era mais utilizada por ser a nomenclatura das
principal era propiciar a educação dos indígenas e da disciplinas ministradas nos cursos Normais e esta abarcava as
população recém-chegada ao Brasil. Tinha-se como objetivo demais como conteúdos. Segundo Mello "Em 1931 uma
principal a educação de crianças de modo a "domá-las", disciplina psicológica é introduzida, pela primeira vez, no
"moldá-las" segundo os propósitos do adulto. A autora currículo de um curso universitário, o nome que recebe -
considera que se utilizava de castigos e prêmios como meio de Psicologia Aplicada aos Problemas da Educação - dá indícios
controle do comportamento e que é comum encontrar do caráter que se queria atribuir ao curso".
referências do período que tratam do cuidado com a educação
moral e física dos infantes. Ela informa que Manoel Andrade Essa disciplina era oferecida no curso de aperfeiçoamento
Figueiredo (1670-1735), que escreveu a primeira cartilha pedagógico do Instituto Pedagógico de São Paulo (curso para
educativa de Portugal, denominada "A Nova Escola para professores), e sabe-se que existiam disciplinas anteriores que
aprender a ler, escrever e contar" (de 1722), descrevia nesta a tinham terminologias parecidas também em outros estados.
"educação de meninos rudes". Estes não deveriam ser tratados Outras nomenclaturas relacionadas eram Psicologia
de forma punitiva, pois isso poderia afetar o desenvolvimento Pedagógica, Pedagogia Científica, Psicologia Experimental.
e a personalidade da criança.
Assim, explicações para o comportamento infantil tinham Em algumas obras dos anos de 1920 e 1930, que
feições ambientalistas e empiristas, além da proposição de analisamos, encontra-se a nomeação Biologia Educacional e
formas de prevenção de problemas de comportamento por Biotipologia Educacional, que traziam conhecimentos do
meio de um sistema de monitoria e ensino. Inicia-se, assim, o campo biológico e também psicológico. Essas denominações

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nos informam o quanto a relação entre Psicologia e Educação Marcondes como Artur Ramos demonstraram ter forte ligação
era constitutiva, tanto de um quanto de outro desses campos ao pensamento psicanalítico.
de conhecimento. Também nos comunica sobre a relação
inicial da Psicologia com a pesquisa empírica, fisiológica e Outros serviços semelhantes apareceram com igual
biológica, a partir das expressões experimental, fisiológica e finalidade em outros estados da Federação e pode-se afirmar
biológica. Aqui começa a se estabelecer outra grande que, como a Educação e a escola brasileira estavam passando
influência além das anteriormente citadas - o conhecimento naquele momento por muitas reformulações, a Psicologia veio
biológico e fisiológico, do campo médico, que trouxe a para contribuir com a organização destas, de modo a cumprir
"biologização" dos fenômenos escolares, algo largamente com a finalidade "ajustatória". Nesse momento, a marca da
criticado nos dias atuais. Psicologia do "ajustamento" e clínico-médica começava a se
Pode-se inferir que a escolha por Psicologia da Educação consolidar.
ou na Educação, Psicologia Pedagógica, Biologia Educacional Especialmente nos anos 1930, a influência das pesquisas
ou Biotipologia Educacional denotam, por um lado, que os produzidas na Europa e nos Estados Unidos cresceu no país, e
conhecimentos psicológicos foram importantes para a o movimento da Escola Nova começou a ter presença
constituição e consolidação desses outros campos de saberes, marcante. Sabe-se que, nesse período, historicamente o país
ao mesmo tempo em que mostram certa relação de estava passando por mudanças sociopolíticas estruturais,
"subjugação" de um saber ao outro. No caso, nota-se que a deixando de ser essencialmente agrário e rural para se tornar
Psicologia estaria relacionada aos campos educacional, um país agroexportador, industrializado e urbano. Nesse
pedagógico ou biológico, sendo quase que um "braço" destes. sentido, com vistas a uma "renovação escolar", crescia a ideia
Em outros termos, principia uma influência funesta de de uma nova "Educação" e também cresceram em conjunto as
alicerçar a Psicologia em sua relação com a Educação à teorias higienistas que buscavam medidas de caráter
influência biologicista e também pedagógica nesses tempos profilático para o âmbito escolar.
remotos.
É possível inferir que, pelo fato de ainda não termos, Yazzle esclarece sobre o período que conforme Penna, o
naquela época, uma Psicologia como ciência e profissão, algo pensamento psicológico brasileiro em suas origens - assim
que foi se consolidar após a legislação que criou a profissão de como nossa cultura do século XIX - foi profundamente
psicólogos no país (em 1962), a Psicologia e também a marcado pelas ideias francesas embebidas pelo positivismo
Psicologia Educacional ainda estavam se constituindo de comteano.
forma a "tomar de empréstimo" as produções que eram
realizadas em outros campos de saber (Educação, Biologia, [...] os primeiros trabalhos da Psicologia no Brasil foram
Medicina etc.). Isso se observa inclusive nos termos usados até desenvolvidos por profissionais da medicina que, oriundos de
hoje quanto a procedimentos de intervenção como o uso da uma elite econômica, puderam complementar sua formação
palavra anamnese e diagnóstico (de origem do campo intelectual junto a centros de cultura europeus
médico). (principalmente a França). Assim, a erudição burguesa,
Pode-se dizer que o objeto de interesse inicial foi se humanista e academicista aí veiculada conduzia ao estudo dos
constituir em um campo de teoria e aplicação estritamente fenômenos psicológicos sob a ótica positivista, enfatizando a
ligado à docência nas Escolas Normais e cursos de formação de observação direta e a possibilidade de experimentação.
professores. A Psicologia Educacional caracterizou-se, então, [...] o modo liberal democrático de pensar a sociedade
nesses primórdios, como ensino de Psicologia para futuros compreendia que a educação dada pela escola, aberta a todos
educadores, tendo a finalidade de formação e utilização de os segmentos, oferecendo oportunidades iguais para todos os
investigação e produção de saberes oriundos dos laboratórios, indivíduos, no novo modelo econômico que aos poucos ia se
com vistas à compreensão dos processos educativos. Esses implantando no Brasil, ampliando as diferenças sociais,
conhecimentos tiveram a influência, sobretudo, do movimento poderia minimizar os efeitos dos movimentos populares [...].
psicométrico e de elementos de Puericultura ou Psicologia da
Criança, vindas da Europa, especialmente a partir dos estudos Para essa mesma autora, o escolanovismo baseava-se
desenvolvidos no Instituto Jean-Jacques Rousseau (nos anos nessa ideia liberal de "mito da igualdade de oportunidades"
1930). Também se destacam a forte presença da Psicanálise a que a escola pode oferecer, negando as diferenças de classe
partir dos anos 1940 e também do pensamento biologicista dadas pela constituição sociopolítica do capitalismo. O
medicalizante que se traduzia à época no movimento movimento de Escola Nova encontrou na Psicologia, através
higienista. dos testes psicológicos e conhecimento sobre inteligência,
Em resumo, a Psicologia Educacional teórica e prática maturidade e prontidão para aprendizagem, explicações para
tinha como objetivo principal diagnosticar as crianças no as diferenças individuais que culpabilizavam o sujeito pela sua
interior da escola quanto a sua "normalidade" ou condição e ocultavam as desigualdades sociais.
"anormalidade" e, baseada nos experimentos e testagens,
garantia-se a divisão em classes e/ou escolas especiais Nesse contexto, a Psicologia tinha como foco analisar o
para atendimento de suas "necessidades especiais" se processo de desenvolvimento infantil, o olhar para a criança, e
fosse o caso. Entra em cena a ideia de normatização que se seu interesse era constituir-se como campo que aliaria esses
acresce à de adaptação e atendimento das conhecimentos no contexto educacional de forma
"anormalidades" por meio de trabalhos terapêuticos adaptacionista, cuja identificação era a Pedologia, a
garantidos por meio da Higiene Mental Escolar. Puericultura e até a Paidologia ou Paidotécnica (terminologias
Essa configuração fica evidente nos primeiros serviços de que se referem ao estudo do desenvolvimento infantil). Assim,
atendimento psicológico do país que tiveram configuração o objeto de interesse primordial passava a ser a criança no
"educacional". Em 1938 são criados o Serviço de Saúde contexto educacional, e a finalidade, compreender suas
Escolar, que teve o médico Durval Marcondes como características, seu processo de desenvolvimento, utilizando
coordenador em São Paulo, a Seção Técnica de Ortofrenia e para isso investigações agora não apenas psicométricas, mas
Higiene Mental do Departamento de Educação e Cultura do também com foco no estudo das influências familiares e
Distrito Federal no Rio de Janeiro e a Clínica de Orientação contextuais.
Infantil no Rio de Janeiro. Esta última tinha o médico Arthur A influência da Psicanálise foi um exemplo da mudança de
Ramos (1903-1949) como responsável. Tanto Durval foco do pensamento biologicista e puramente clínico-médico
para um olhar direcionado às configurações familiares e sua

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importância naquele contexto. Embora ainda se possa Observou-se que, a partir da profissionalização, com a
identificar o olhar medicalizante e de ideologia liberal e a aprovação de lei que regulamentou a profissão de psicólogos
influência do movimento de Higiene Mental, pode-se dizer que no Brasil (Lei N. 4.119 de 27 de agosto de 1962), usam-se mais
o foco deixa um pouco de lado apenas o "indivíduo" criança e termos relacionados à Psicologia Aplicada, assim como se
passa a observar seu entorno, no caso a família. perpetuam as terminologias ligadas ao campo de tratamento
dos "anormais" e inicia-se o uso da nomenclatura "Psicologia
Esse tipo de pensamento também se inseriu no que depois Escolar" nos anos 1970 e 1980. Em meados dos anos 1970
passou a se designar "Psicologia do Escolar", que representava iniciam-se práticas de psicólogos em unidades como
a ênfase no olhar para "o" escolar, ou o estudante, ressaltando prefeituras e centros de atendimento psicológico específico
a análise individual dos fenômenos escolares e o olhar para a para atendimento escolar (Taverna, 2003). Também à época é
criança no contexto escolar. Nos anos 1960 e 1970 do século característica o crescimento da "Psicologia do Escolar", que
XX, podemos dizer que essa "Psicologia do Escolar" com foco mostrava como objeto de interesse o aprendiz e cuja principal
na "criança-problema", ou "criança que não aprende", e nos finalidade era compreendê-lo para contribuir com seu
"problemas de aprendizagem" foi a tônica do momento. A processo educativo.
marca ainda clara do modelo clínico-médico permanece e Mantém-se ainda a primazia do interesse "na" criança que
busca-se cada vez mais a investigação dos processos "não aprende" no contexto escolar e nos chamados "anormais"
"anormais" ou "desviantes", cuja base é a Psicologia do e "crianças-problema", embora as explicações sobre esse não
"ajustamento", da Psicologia Diferencial e da Psicopatologia. aprender mudem de foco. Com finalidades liberais e
É por aí que a história da presença da Psicologia na ajustatórias, a teoria da carência cultural, nascida nos Estados
educação começa. Começa medindo aptidões tidas como Unidos como forma de explicação das diferenças individuais
naturais, e tentando fazer um encaixe perfeito entre as entre as minorias pobres, negras e latinas no país, passa a ser
capacidades medidas de Q.I., habilidades específicas etc. e o amplamente divulgada em nosso país. Segundo Patto:
ensino. Era um raciocínio muito parecido com o da
taylorização do processo de produção industrial. Você tem a A teoria da carência cultural foi a resposta que o Estado
máquina e a matéria-prima, por exemplo, uma máquina que norte-americano deu aos movimentos das minorias raciais, às
processa arame, você precisa de fios de arame no diâmetro suas reivindicações de igualdade de liberdade, de fraternidade,
exato para que aquela máquina possa processá-lo, e você de direitos civis, sociais e políticos... [...] A teoria da carência
separa os arames mais grossos ou mais finos. Houve um cultural é baseada nisto. [...]
namoro sério da Escola Nova com o taylorismo, tanto lá fora [...] Afirmava-se que as crianças negras não aprendiam, não
como aqui no Brasil. E essa ideia de ajustamento, digamos porque fossem geneticamente inferiores, porque depois da
assim, entre o processo de ensino e as características do Segunda Guerra Mundial e depois do nazi-fascismo ninguém
aprendiz. Esta é a concepção de ensino que está na base da tinha a coragem de afirmar isso explicitamente, mesmo que
educação compensatória. acreditasse... A teoria da carência cultural parte do princípio
Para o atendimento ou "tratamento" dos "anormais" de que a inteligência é algo que se pode aumentar pela
surgem os serviços de Higiene Mental, Higiene Mental Escolar, estimulação ambiental. E os programas de educação
Ortofrenia, Ortofrenopedia e Defectologia. Todas essas compensatória eram isto, era fazer com que crianças
nomeações tinham como objeto a investigação e tratamento supostamente menos capazes de aprender, porque teriam um
dos denominados "anormais", "retardatários", "excepcionais", ambiente muito pobre de estimulação, pudessem ser
"especiais", campo que hoje denominamos Educação Especial. estimuladas através desses programas para poderem ir bem
Nesse contexto, o objeto de interesse se desloca para o na escola. Acreditava-se que desta forma se poderia garantir
indivíduo que apresenta algum tipo de "desvio" daqueles na sociedade norte-americana a igualdade de oportunidades.
considerados "normais". No contexto educativo, era chamado Mas, por mais que você queira, não é possível instaurar
de "criança-problema", "aluno problema", "criança difícil". A igualdade de oportunidades numa sociedade desigual, não é?
finalidade da Psicologia Educacional interessada nessa Mas as pessoas que trabalharam a teoria da carência cultural e
temática é então constituída com base na identificação e planejaram os programas de educação compensatória não
discriminação desses "diferentes", a partir dos instrumentais eram mal intencionadas, elas acreditavam nisso, embora esse
psicométricos e avaliativos em moda no período. não seja o caminho.
Ao contrário do que parece, o termo "Psicologia Especial", Como diz Yazzle, a Psicologia passa a minimizar os fatores
nessa época, não estava relacionado à área que tinha como biológicos como explicação dos comportamentos "do escolar"
foco os indivíduos "anormais" ou "especiais"; a Psicologia e inicia-se um discurso sobre os fatores ambientais e
Especial da época dizia respeito à distinção da Psicologia Geral, socioeconômicos como produtores de "déficits
indicando o que atualmente designamos áreas específicas (no comportamentais", para a autora: "caía-se, assim, no
momento ditas "especiais" da Psicologia). Assim, a Psicologia determinismo sociológico". E foi apenas a partir da crítica a
Educacional fazia parte da Psicologia Especial, assim como a esse tipo de pensamento que foi possível construir outro
Psicologia Clínica, a Social ou a do Trabalho (eram conhecimento e prática que pudesse tirar o foco da "criança-
especialidades). Em outras palavras, o "especial" aqui se problema", que "não aprende", e das finalidades de trabalho
referia a um conteúdo "especial", "específico" ou de junto aos "problemas de aprendizagem" com objetivos
"especialidade" no interior do grande campo da Psicologia ajustatórios ou discriminatórios, para finalmente se pensar
chamado de Psicologia Geral. nos processos educacionais de um modo mais amplo. Essa
Além disso, as nomeações Psicotécnica e Psicologia crítica principia em meados e final da década 70 do século XX.
Aplicada indicavam a ênfase no campo prático da Psicologia e, Nos anos 1980, muitos teóricos passam a criticar o foco na
nesse sentido, se destacava a Psicologia Aplicada aos âmbitos criança, no educando, no olhar que enfatizava o
escolar, clínico, do trabalho, social etc. A Psicologia Aplicada à desenvolvimento individual e a utilização de instrumental
Educação também tinha como símiles a Psicologia para pais e psicométrico, psicanalítico ou a teoria da carência cultural. A
professores, a Psicologia da criança, do aluno e da professora partir da tese de Maria Helena Souza Patto intitulada
e a Psicopedagogia. Especialmente em textos das décadas de "Psicologia e Ideologia, reflexões sobre a Psicologia Escolar" de
20, 30, 40 e 50 do século XX é que aparecem tais denominações 1981 nota-se uma mudança provocada pela crítica da autora
referindo-se especificamente à atuação prática da Psicologia ao pensamento tradicional que até então era dominante no
Educacional. âmbito da Psicologia Educacional e Escolar no país. Muitos
pesquisadores acreditam que essa publicação foi um divisor de

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águas para a Psicologia Educacional e Escolar no país, dada a compromisso éticopolítico com as questões educacionais,
sua crítica ter levado a pensar em outros rumos para a área. escolares e sua melhoria.
As publicações analisadas, relacionadas à perspectiva
A partir da crítica empreendida nessa obra e também em crítica, revelam que o objeto de estudo e a forma de trabalho
outras posteriores, observa-se a mudança no que se refere ao se ampliou muito desde aquela atuação inicial nos "problemas
objeto de interesse, às proposições das finalidades e também de aprendizagem" das chamadas "crianças-problema". Para os
aos métodos e técnicas de atuação nesse contexto. Cresce a autores contemporâneos, o trabalho do psicólogo nesse campo
utilização da nomenclatura Psicologia Escolar com vista a se é ter como principal tarefa buscar otimizar situações que
diferenciar da Psicologia Educacional agora entendida como envolvam os processos de escolarização a partir de uma
tradicional e representante de todo o pensamento anterior de prática com o coletivo e o individual concomitantemente.
cunho ajustatório, adaptacionista, discriminatório e que ora Como métodos e técnicas, utilizam-se diferentes estratégicas
assumiu feições biologicistas, medicalizantes, ora defendeu que atendam às necessidades das instituições escolares, dos
teorias como aquelas oriundas do pensamento higienista e da educadores, dos educandos e da comunidade escolar como um
carência cultural. todo. O profissional pode atuar como profissional dentro da
A chamada Psicologia Escolar, atualmente denominada escola ou nos moldes de trabalho externo (consultoria
por alguns autores como Psicologia Escolar Crítica, tem como externa).
prerrogativa outras bases de sustentação teórica e
metodológica e se caracteriza por propor um olhar para o Por outro lado, mesmo que haja uma identificação com
processo de escolarização e para o contexto sócio-político- esse novo pensamento, ainda encontram-se trabalhos de
cultural em que estão inseridos os processos educativos. Nessa Psicologia Educacional e Escolar que expressam a influência
visão, tem-se como objeto de interesse a investigação e do modelo clínico de atendimento, cujo foco ainda é
intervenção nos contextos educacionais e processos de individualizante, sobre a "criança que não aprende". Apesar de
escolarização. Compreende-se que o "não aprender" está encontrarmos muitos relatos teóricos e práticos de cunho
relacionado a toda uma produção do fracasso escolar, cujas crítico, por outro lado, ainda se faz presente o pensamento
origens se referem a uma multiplicidade de fatores tradicional. Um exemplo é o crescimento da chamada
intervenientes, incluindo as políticas públicas educacionais, a Psicopedagogia que, em termos gerais, revive o movimento
formação docente, o material didático, a organização do psicanalítico e clínico-médico de atenção à criança no contexto
espaço escolar, entre outros. Muitas vezes, esse "não educacional e sua família. Também a onda medicalizante tem
aprender" é materializado/corporificado sob a forma de uma possibilitado a entrada de diagnósticos médicos para
queixa escolar sobre aquele indivíduo "que não aprende". Essa explicações de fenômenos no campo educacional, retomando
queixa chega ao psicólogo que deve, a partir de então, atuar de a visão biologicista.
forma diferente da anterior, que tinha na investigação
psicométrica seu maior instrumental de trabalho. Nessa linha A partir dos anos 2000, cresceram vertiginosamente
de pensamento, a função do psicólogo escolar é de modo trabalhos de atendimento clínico a crianças, assim como o
crítico buscar ir às origens e raízes do processo de encaminhamento para diagnosticá-las e medicá-las a partir de
escolarização, compreender suas diferentes facetas, incluir em "supostos" transtornos neurológicos. A medicalização e
seu trabalho uma atuação junto ao aprendiz, aos docentes, à patologização tem sido cada vez mais frequente no discurso
família, à escola, à Educação como um todo e à sociedade em educacional.
que está inserida. Em conclusão, é possível afirmar que, ao longo do tempo,
foram muitos os objetos de estudo, finalidades, métodos e
Essa ideia de "crítica" é endossada por outros técnicas de investigação e intervenção no campo de
pesquisadores e profissionais da Psicologia Educacional e conhecimento da Psicologia Educacional e Escolar. Essas
Escolar e fortemente divulgada nos anos 1980, 1990 e 2000. modificações ocorreram também devido à mudança acerca da
Khouri, por exemplo, na obra "Psicologia Escolar”, descreve o visão de homem, de mundo, de educação, escola e sociedade.
novo papel do psicólogo nesse campo de atuação: [...] "o Essas distinções estão relacionadas a concepções ideológicas
psicólogo escolar atua, em primeiro lugar, de acordo com um que perpassaram cada momento histórico.
papel de educador" afirma Reger, que acrescenta: seu objetivo
básico é ajudar a aumentar a qualidade e a eficácia do processo Contudo, na década de 1980 já se verificam algumas
educacional através dos conhecimentos psicológicos. Ele está práticas de psicólogos escolares voltados para a superação do
na escola para ajudar a planejar programas educacionais [...]25. psicologismo, contemplando os determinantes concretos,
sociais e históricos das necessidades e dificuldades que
Tanamachi e Meira afirmam que esse campo é uma "[...] envolvem as instituições educacionais.
área de estudo da Psicologia e de atuação/formação Ampliou-se o modo de olhar e atualmente não apenas se
profissional do psicólogo, que tem no contexto educacional - consideram as "dificuldades de aprendizagem do aluno",
escolar ou extraescolar, mas a ele relacionado -, o foco de sua pensa-se contemporaneamente no fenômeno do "fracasso
atenção". As autoras reiteram que o profissional da área, escolar", das "queixas escolares", dos "problemas de
mesmo não atuando diretamente no contexto escolar, tem um escolarização", objetos de estudo e intervenção mais
compromisso teórico e prático com as questões da escola e da abrangentes e não individualizantes da questão. As
Educação. Ao produzir referências (ciência) ou atuar intervenções/ações do psicólogo escolar também passaram a
(profissão) nesse âmbito, o profissional não deve se limitar aos envolver "orientação profissional", "orientação educacional",
conhecimentos nem da Psicologia, nem da Educação, mas "orientação a queixas escolares" e "formação docente", ou seja,
utilizar como base as produções inúmeras e fecundas de um trabalho que envolve todos os atores do contexto
outras áreas de conhecimento como a Filosofia, Sociologia, educativo (alunos, educadores, pais e a comunidade escolar
Antropologia etc. De um modo geral, busca-se, a partir dessa em geral). Embora essas novas proposições não sejam
nova orientação, novas formas de pesquisa, produção de unânimes, elas têm crescido cada vez mais.
conhecimentos e atuação que tenham imbricadas as
dimensões teóricas e práticas e, sobretudo, práxicas de Com base em todo esse levantamento bibliográfico, pode
se dizer que a crise "identitária" da Psicologia Educacional e

25 KHOURI, Y. G. Psicologia Escolar. 13.ed. São Paulo: Summus Editorial, 1984.

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Escolar persiste, mas tem tido nova configuração, pois está que o professor deve deixar de inventar situações
cada vez mais claro que a denominação, assim como as experimentais para facilitar a invenção do seu aluno?
definições do modo de construção do conhecimento (teoria) e Posteriormente, a psicolinguística argentina, Emília
intervenção (prática), seguirá os pressupostos subjacentes à Ferreiro deslocou o foco de investigação do como se ensina
escolha de cada profissional no que se refere às suas bases de para o como se aprende, colocando a criança como sujeito
pensamento críticas ou tradicionais. Contudo, em nossa central da aprendizagem, sujeito ativo que elabora hipóteses
compreensão, é preciso se tomar cuidado com essa sobre o funcionamento da linguagem escrita em seu contexto
polarização pura e simples já que, a nosso ver, é importante social. De acordo com as preposições de Ferreiro há alunos que
que possamos não esquecer a contribuição histórica de certas ingressam na língua escrita por meio da magia (uma magia
teorias e práticas que deram sustentação inicial e cognitivamente desafiante) e alunos que entram na língua
contribuíram para erigir esse campo de conhecimento. Em escrita pelo treino de habilidades básicas. Em geral, as
outras palavras, exige-se um "dialetizar" dessas primeiras se tornam leitoras; as outras têm um destino
dicotomizações de modo a melhor compreendê-las. É por isso incerto?
que adotamos a terminologia Psicologia Educacional e Escolar, Nessa perspectiva, Ferreiro também alega que a
para manter nossa consideração à história desse campo de aprendizagem da leitura e da escrita não está limitada à sala
conhecimento, que no nosso entendimento é amplo, de aula. Ressalta ainda que, o processo de alfabetização é
multifacetado, e que tanto deu contribuições relevantes para o iniciado muito antes da criança entrar na escola. Em suma, a
campo educacional, como favoreceu a discriminação e o alfabetização deixa de ser saber exclusivo da ação pedagógica.
preconceito. O processo inicial da aprendizagem é explicado também por
Consideramos que é essencial que possamos, a partir do variáveis sociais, culturais, políticas e psicolinguísticas.
conhecimento da história, compreendermos nossas escolhas É relevante observar que, os estudos de Emília Ferreiro e
no presente de modo a construir um novo futuro. E essa seus colaboradores partiram do pressuposto que a criança é
construção é a cada dia, a cada passo, como afirma Guzzo: capaz de criar hipóteses, testá-las e constituir sistemas
"Trazendo as palavras de Fagan, tornar-se psicólogo escolar é interpretativos na busca de compreensão do mundo que a
nunca chegar a ser psicólogo escolar, pois para responder às cerca. Complementa a autora, que não existe ponto zero da
mudanças sociais no contexto educacional, nunca se está aprendizagem escrita; a criança sempre apresenta um
pronto... é preciso que se construa a cada dia". conhecimento prévio que o sujeito reestrutura a partir de um
processo de acomodação e assimilação mental.
Talvez devamos pensar que esse é um caminho “Os alunos são facilmente alfabetizados desde que
interessante, o do movimento, o de sempre se reinventar, pois, descubram, através de contextos funcionais, que a escrita é um
a cada passo da estrada, novos horizontes são avistados, o que objeto interessante que merece ser conhecido (como tantos
exige outras formas de caminhar e seguir. E devemos, ao invés outros objetos da realidade aos quais dedicam seus melhores
de procurar uma definição, nomeação ou denominação esforços intelectuais).”
definitiva, estarmos abertos às múltiplas possibilidades que É oportuno salientar que, apesar de Piaget e Vygostky
ainda não construímos. Não tenhamos a pretensão de que explicitarem visões distintas, ambos podem perfeitamente
fique pronta nossa "edição convincente" para não estarmos dialogar por partirem do mesmo pressuposto: o
fechados às mudanças e transformações necessárias. desenvolvimento humano é desencadeado mediante as
relações recíprocas e contínuas entre sujeito e objeto, meio
Aspectos Psicológicos da Educação físico e social.

A relação desenvolvimento / aprendizagem: diferentes Nesse sentido, Vygostky fundamenta-se por um cunho
abordagens sócio histórico, salientando a importância das interações entre
sujeito e objeto, explicitando que a ação do sujeito sobre o
Aguiar26 aponta, que a partir das pesquisas e concepções objeto passa essencialmente pela mediação social. É notório
difundidas por grandes pensadores como o psicólogo suíço no conceito de Piaget que, a criança é fundamentalmente ativa.
Jean Piaget, o soviético, Lev Vygotsky, a argentina, Emília Na percepção Vygotskyana, a criança além de apresentar-
Ferreiro e o francês, Henri Wallon eclodiu o interesse de se ativa, é sobretudo interativa. Nesse prisma, a teoria sócio
estudos sobre o processo de funcionamento da inteligência e histórica define o conhecimento como uma construção social
aquisição do conhecimento. Embora, as teorias desses que é resultado da apropriação do sujeito, dos saberes, das
estudiosos do comportamento humano apresentem alguns produções culturais da sociedade pela inter-relação e
aspectos divergentes, evidenciam-se em suas obras um alto mediação da própria sociedade.
grau de aproximação e inter-relacionamento. Desde o nascimento as crianças estão em constante
Inicialmente, é considerável afirmar que Piaget não interação com os adultos, que ativamente procuram
intencionou formular considerações pedagógicas através dos incorporá-las a sua cultura e à reserva de significados e de
seus estudos. Ele tentou comprovar que a criança raciocina modos de fazer as coisas que se acumulam historicamente. No
mediante estruturas lógicas próprias que evoluem conforme começo, as respostas que as crianças dão ao mundo são
faixas etárias estabelecidas. Na visão de Piaget, as operações dominadas pelos processos naturais, especialmente àqueles
cognitivas são ações interiorizadas de onde se conclui que o proporcionados por sua herança biológica. Mas através da
conceito de ação passa pelas manifestações da inteligência ao constante mediação dos adultos, os processos psicológicos
longo do desenvolvimento, desde suas formas primitivas as instrumentais mais complexos começam a tomar forma (...).
mais avançadas e abrangentes. Nesse foco, a criança só pode Faz-se necessário refletir sobre o conceito de
conhecer ou construir seus conhecimentos, através da ação aprendizagem postulado por Vygotsky. Para ele, a linguagem
individual que exerce sobre os objetos. humana é o instrumento fundamental para a mediação do
Cada vez que ensinamos prematuramente a uma criança sujeito e o objeto do conhecimento. Pois ao longo do
alguma coisa que poderia ter descoberto por si mesma, esta desenvolvimento do indivíduo, a linguagem é internalizada
criança foi impedida de inventar e consequentemente de através das interações sociais, e passa a funcionar como
compreender completamente. Isso obviamente não significa instrumento imprescindível de organização do conhecimento.

26 AGUIAR, G. Concepções de Ensino-aprendizagem.2010.

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Nesse aspecto, acrescenta o autor que, o professor deve complexo. Este envolve várias compreensões sobre a natureza
agir e pensar de forma ampla, compreendendo que o humana: dimensão genética; aspectos sócio-histórico-
conhecimento é um conjunto de capacidades ativadas: culturais; fatores afetivos e estímulos; interação e medição da
observação, atenção, memória, raciocínio etc.; e que o construção do conhecimento.
aperfeiçoamento de uma destas capacidades significa o Face às proposições referidas por esses autores, conclui-se
melhoramento das capacidades em geral. Assim, concentrar a que as concepções definidas iluminam diferentes aspectos no
capacidade de atenção na leitura e compreensão de texto cotidiano escolar trazendo consigo contribuições valorosas
implica em melhorar a capacidade de atenção sobre qualquer que poderão auxiliar professores e gestores educacionais a
disciplina ou temática. refletir sobre a complexa temática ensino-aprendizagem, bem
Outras contribuições bastante significativas na como nortear e redirecionar as práticas escolares. Atenta-se
compreensão do processo ensino-aprendizagem são as ainda que, a melhor forma de promover um processo de
valorosas pesquisas destinadas a professores e gestores da alfabetização e letramento exitoso é oportunizar as crianças
educação concebidas por Henri Wallon, autor da Teoria do um espaço alfabetizador lúdico, onde o aluno possa interagir
Desenvolvimento. Em sua teoria, Wallon priorizou conceitos com o outro e com o objeto mediado pelo olhar atento e
importantes que nortearão um processo pedagógico mais comprometido do professor.
produtivo e satisfatório para o aluno. Esses conceitos
envolvem: integração, integração organismo-meio e A construção do pensamento e da linguagem
integração dos conjuntos funcionais-emoção, sentimento e
paixão. Ou seja, o papel da afetividade nos diferentes estágios. No livro, “A construção do pensamento e da linguagem”27,
A compreensão e a afetividade do professor na prática Vygotsky estuda questões fundamentais do pensamento
pedagógica são recursos fundamentais para a eficácia do infantil, formula concepções inteiramente novas para a época
ensino nos anos iniciais. A relação interpessoal professor- em que o escreveu, articula seu pensamento em um bem
aluno é determinante, para desenvolver aprendizagens tramado aparato conceitual e sedimenta o processo infantil de
significativas. Desse modo, é extremamente importante aquisição da linguagem e do conhecimento com um sistema de
perceber que, para o professor atingir seus objetivos, faz-se categorias bem definidas, subordinando todo o seu trabalho a
preciso: confiar na capacidade do aluno; promover uma clara orientação epistemológica.
constantemente o próprio desenvolvimento; desenvolver Para o autor A linguagem é, antes de tudo, social. Portanto,
diferentes saberes, entre eles, habilidades de relacionamento sua função inicial é a comunicação, expressão e compreensão.
pessoal e conteúdos culturais. Estes saberes são Essa função comunicativa está estreitamente combinada com
conhecimentos construídos ao longo do tempo e através da o pensamento. A comunicação é uma espécie de função básica
socialização familiar e escolar. porque permite a interação social e, ao mesmo tempo,
Nesse contexto, Wallon adverte que, o desenvolvimento organiza o pensamento.
humano é estabelecido sob o foco do potencial genético Para Vygotsky, a aquisição da linguagem passa por três
combinado com vários fatores ambientais. Dessa forma, a fases: a linguagem social, que seria esta que tem por função
ênfase da teoria do desenvolvimento é justamente a denominar e comunicar, e seria a primeira linguagem que
interação da criança com o meio. Em linhas gerais, é surge. Depois teríamos a linguagem egocêntrica e a linguagem
claramente perceptível que o pensamento de Wallon interior, intimamente ligada ao pensamento.
propõe um relacionamento bastante proximal com as
ideias de Vygotsky. A linguagem egocêntrica
O meio é um complemento indispensável ao ser vivo. Ele
deverá corresponder às suas necessidades e as suas aptidões A progressão da fala social para a fala interna, ou seja,
sensórios-motoras, depois psicomotoras. Não é mesmo o processamento de perguntas e respostas dentro de nós
verdadeiro que a sociedade coloca o homem em presença de mesmos – o que estaria bem próximo ao pensamento,
novos meios, novas necessidades e novos recursos que representa a transição da função comunicativa para a
aumentam a possibilidade de evolução e diferenciação função intelectual.
individual. A constituição biológica da criança ao nascer não
será a única do seu destino (...) Os meios em que vive a criança Nesta transição, surge a chamada fala egocêntrica. Trata-
e aqueles com que ela sonha constituem a forma que amolda se da fala que a criança emite para si mesmo, em voz baixa,
sua pessoa (...). enquanto está concentrado em alguma atividade. Esta fala,
A teoria Walloniana insere em suas fundamentações além de acompanhar a atividade infantil, é um instrumento
pontos relevantes como o afeto e a emoção. Sendo que, os para pensar em sentido estrito, isto é, planejar uma resolução
processos afetivos são estados que despertam sensações de para a tarefa durante a atividade na qual a criança está
prazer ou desprazer. Já a emoção caracteriza-se como um entretida.
estado afetivo que comporta sensações de bem-estar ou mal- A fala egocêntrica constitui uma linguagem para a pessoa
estar, que tem um início, é ligado a uma situação de duração mesma, e não uma linguagem social, com funções de
relativamente breve e inclui ativação orgânica. comunicação e interação. Esse “falar sozinho” é essencial
Do ponto de vista Walloniano, emoção é a exteriorização porque ajuda a organizar melhor as ideias e planejar melhor
da afetividade que desencadeia várias expressões: corporal, as ações. É como se a criança precisasse falar para resolver um
motora e fisiológica. É o primeiro recurso de ligação entre o problema que, nós adultos, resolveríamos apenas no plano do
orgânico e o social. A emoção promove os primeiros vínculos pensamento / raciocínio.
com o mundo humano e através dele com o mundo físico. Uma contribuição importante de Vygotsky, descrita no
Sucintamente, emoção é uma forma concreta de participação livro, é o fato de que, por volta dos dois anos de idade, o
mútua. É sobretudo, instrumento de socialização. A emoção é desenvolvimento do pensamento e da linguagem – que até
determinante na evolução mental: a criança corresponde a então eram estudados em separado – se fundem, criando uma
estímulos musculares, viscerais e externos. nova forma de comportamento.
Em síntese, observa-se que o processo de desenvolvimento Este momento crucial, quando a linguagem começa a servir
e aprendizagem do ser humano é um tema amplo, mutável e o intelecto e os pensamentos começam a oralizar-se – a fase da

27RABELLO, E.T. e PASSOS, J. S. Vygotsky e o desenvolvimento humano. Em


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fala egocêntrica – é marcado pela curiosidade da criança pelas forma isolada. São inúmeros os fatores, tanto biológicos,
palavras, por perguntas acerca de todas as coisas novas (“o que quanto sociais ou históricos que influenciam na formação do
é isso?”) e pelo enriquecimento do vocabulário. sujeito, mas que isoladamente não determinam a sua
O declínio da vocalização egocêntrica é sinal de que a constituição. Como afirma Vygotsky "o comportamento do
criança progressivamente abstrai o som, adquirindo homem é formado por peculiaridades e condições biológicas e
capacidade de “pensar as palavras”, sem precisar dizê-las. Aí sociais do seu crescimento".
estamos entrando na fase do discurso interior. Se, durante a Pode-se dizer que desde o nascimento, o homem já é um
fase da fala egocêntrica houver alguma deficiência de ser social em desenvolvimento e todas as suas manifestações
elementos e processos de interação social, qualquer fator que acontecem porque existe um outro social. Mesmo, quando
aumente o isolamento da criança, iremos perceber que seu ainda não se utiliza da linguagem oral, o sujeito já está
discurso egocêntrico aumentará subitamente. Isso é interagindo e se familiarizando com o ambiente em que vive.
importante para o cotidiano dos educadores, em que eles No mesmo sentido, a aprendizagem não acontece de
podem detectar possíveis deficiências no processo de maneira isolada, o indivíduo participante de um grupo social,
socialização da criança. ao conviver com outras pessoas efetua trocas de informações
e, desta forma, vai construindo o seu conhecimento conforme
Discurso interior e pensamento seu desenvolvimento psicológico e biológico lhe permite. Para
Vygotsky, a história do desenvolvimento das funções
O discurso interior é uma fase posterior à fala egocêntrica. psicológicas superiores seria impossível sem um estudo de sua
É quando as palavras passam a ser pensadas, sem que pré história, de suas raízes biológicas, e de seu arranjo
necessariamente sejam faladas. É um pensamento em orgânico. As raízes do desenvolvimento de duas formas
palavras. Já o pensamento é um plano mais profundo do fundamentais, culturais, de comportamento, surge durante a
discurso interior, que tem por função criar conexões e resolver infância: o uso de instrumentos e a fala humana. Isso, por si só
problemas, o que não é, necessariamente, feito em palavras. É coloca a infância no centro da pré-história e do
algo feito de ideias, que muitas vezes nem conseguimos desenvolvimento cultural.
verbalizar, ou demoramos ainda um tempo para achar as A partir da abordagem do autor, é possível observar que a
palavras certas para exprimir um pensamento. interação tem papel fundamental no desenvolvimento da
O pensamento não coincide de forma exata com os mente. A partir da interação entre diferentes sujeitos se
significados das palavras. O pensamento vai além, porque estabelecem processos de aprendizagem e, por consequência,
capta as relações entre as palavras de uma forma mais o aprimoramento de suas estruturas mentais existentes desde
complexa e completa que a gramática faz na linguagem escrita o nascimento.
e falada. Para a expressão verbal do pensamento, às vezes é Neste processo, o ser humano necessita estabelecer uma
preciso um esforço grande para concentrar todo o conteúdo de rede de contatos com outros seres humanos para incrementar
uma reflexão em uma frase ou em um discurso. Portanto, e construir novos conceitos. O outro social, se torna altamente
podemos concluir que o pensamento não se reflete na palavra; significativo para as crianças que estão no auge do seu
realiza-se nela, a medida em que é a linguagem que permite a desenvolvimento, uma vez que assume o papel de meio de
transmissão do seu pensamento para outra pessoa. verificação das diferenças entre as suas competências e as dos
Finalmente, cabe destacar que o pensamento não é o demais, para, a partir deste processo, formular hipóteses e
último plano analisável da linguagem. Podemos encontrar um sintetizar ideias acerca desses laços constituídos, tornando um
último plano interior: a motivação do pensamento, a esfera processo interpessoal, num processo intrapessoal. Ao tratar
motivacional de nossa consciência, que abrange nossas das funções psicológicas superiores no desenvolvimento da
inclinações e necessidades, nossos interesses e impulsos, criança, Vygotsky as classifica em dois momentos:
nossos afetos e emoções. Tudo isso vai refletir imensamente Primeiro no nível social, e, depois, no nível individual;
na nossa fala e no nosso pensamento. primeiro entre pessoas (interpsicológica), e, depois, no
O pensamento e a fala unem-se em pensamento verbal. interior da criança (intrapsicológica). Isso se aplica igualmente
Neste significado há um sentido cognitivo e um afetivo, que para atenção voluntária, para a memória lógica e para a
sempre estão intimamente entrelaçados. formação de conceitos. Todas as funções superiores originam-
Para Vygotsky, a criança se inscreve desde os seus se das relações reais entre indivíduos humanos.
primeiros dias num sistema de comportamento social em que É importante que a criança, ao estabelecer esta
suas atividades adquirem significado. Sua relação com o comunicação, já se sinta parte do mundo e que dele participe
ambiente se dá por meio da relação com outras pessoas, ativamente. Afinal, o conhecimento não está no sujeito nem no
situação em que é oferecido a ela um conjunto de acepções, já objeto, mas na interação entre ambos. Agindo sobre os objetos
culturalmente enraizado no grupo em que ela foi inserida. Os e sofrendo a ação destes, o homem vai ampliando a sua
significados, por sua vez, são interiorizados ao longo de seu capacidade de conhecer, ou seja, de vivenciar processos de
processo de desenvolvimento, culminando com o aprendizagem. Nesta dinâmica, é possível apontar que o
aparecimento do pensamento verbal. Assim, o pensamento sujeito é um elemento ativo no processo de construção do seu
verbal - síntese entre a atividade prática e a fala - é uma forma conhecimento pois, conforme estabelece relações e se
de comportamento que se circunscreve num processo comunica, desenvolve-se cultural e socialmente, constituindo-
histórico-cultural e suas características e propriedades não se como indivíduo ativo.
podem ser vislumbradas nas formas naturais da fala e do Sobre isto, Rogoff estabelece que o aprendizado acontece a
pensamento. partir da apropriação participatória: O conceito de
apropriação participatória se refere a como indivíduos mudam
A formação de conceitos, crescimento e através de seu envolvimento em uma ou outra atividade. Com
desenvolvimento: o biológico, o psicológico e o social28. a participação guiada como processo interpessoal através do
qual as pessoas são envolvidas na atividade sociocultural, a
Cada estágio da vida oferece ao indivíduo desafios apropriação participatória é o processo pessoal pelo qual,
importantes para o seu desenvolvimento. O ser humano está através do compromisso em uma atividade, os indivíduos
em constante processo de aprendizagem e essa não ocorre de mudam e controlam uma situação posterior de maneiras

28MELLO, E.F.F.; TEIXEIRA, A.C. A interação social descrita por Vygotsky e a sua
possível ligação com a aprendizagem colaborativa através das tecnologias de
rede.2012.

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preparadas pela própria participação na situação prévia. Esse didáticos mais difíceis não dizem respeito à aquisição de
é o processo de apropriação, e não de aquisição. hábitos, de automatismos ou de outros mecanismos
Assim como teoriza Vygotsky, acerca da natureza social do primitivos, mas à formação de noções, de representações
ser humano que o acompanha desde seu nascimento, Rogoff complexas e de operações constituindo sistemas de conjunto
aprofunda a teoria afirmando que através da apropriação (tabuada da multiplicação, regras da gramática, etc.). Ora, é
participatória os envolvidos estabelecem novas condição para também bem evidente que só uma psicologia tal como a de
aquela situação. Ou seja, estabelecem conexões conforme as Jean Piaget, que fornece uma análise precisa das operações
necessidades do grupo, dinâmica natural uma vez que todos os mentais e dos seus grupos e agrupamentos, pode fornecer os
processos biológicos e sociais se organizam em uma lógica conceitos necessários para a solução de semelhantes
reticular, assumindo-se como uma pessoa que se comunica problemas didáticos: as doutrinas centradas nas funções
com outras e que, com estas, estabelece relações conforme seu elementares tais como a motricidade, a percepção ou a
interesse. associação não esclarecem as reações psíquicas mais
O ser humano não vive isolado, ele participa de diferentes complexas.
ambientes. Os grupos reúnem seus integrantes em torno de
um objetivo comum e as pessoas geralmente participam É uma didática geral a que aqui apresentamos ao leitor:
desses porque se sentem acolhidas, porque percebem que estuda as características fundamentais dos processos
naquele grupo sua presença é importante, então, pode-se formativos e daí deduz os princípios metodológicos sobre os
afirmar que a comunicação cria vínculos e é fundamental para quais deve assentar o ensino de todas as áreas fundamentais.
que os indivíduos se efetivem como ser social. Ainda que fornecêssemos um grande número de exemplos
Antes de ingressar na escola, a criança participa do grupo concretos, retirados mais frequentemente do ensino primário,
familiar, e de grupos ligados à família. Mas é no ambiente não se encontraria neste livro a didática completa de nenhuma
escolar que este processo de interação em grupo se intensifica. área do ensino. Propusemo-nos, pelo contrário, definir as
A frequência de encontros faz com que a experiência seja noções fundamentais e o quadro geral comuns a todas as
diferenciada de qualquer outra vivenciada até então, didáticas específicas. Admitiríamos que esta metodologia teria
imputando à escola o status de espaço legítimo de construção cumprido a sua função, se se demonstrasse que pode servir
e partilha de conhecimentos. Nela, a interação é constante, para ordenar melhor o tão complexo domínio da didática, se as
mesmo quando não mediadas pelo educador se consolidam teses emitidas nas partes psicológica e didática incitassem
aprendizagens que não constam nos currículos escolares. Pozo outros investigadores a empreender novas experiências ou se
salienta que "possivelmente em toda atividade ou os professores primários que os lessem adquirissem algumas
comportamento humano se está produzindo aprendizagem ideias novas para o seu trabalho prático.
em maior ou menor dose." Então, mesmo na ausência de um
objetivo claro de ensinar algo, as interações informais e Tendo nós próprios ensinado no primário e no secundário,
assistemáticas entre os alunos podem leva-los a um novo cremos saber o que o praticante espera de uma obra didática:
aprendizado. além dos princípios pedagógicos gerais, são exemplos
concretos mostrando exatamente como o autor entende
Fundamentos da Educação: Psicologia29 proceder, e isto em situações escolares reais que
frequentemente só oferecem possibilidades muito limitadas
Os próprios títulos das obras de Jean Piaget põem em de realização, face aos postulados da nova escola. É por razões
evidência a significação que a sua doutrina científica reveste destas que empreendemos numerosas experiências didáticas
para a didática. A génese do número na criança, O destinadas a verificar como e com que sucesso as nossas
desenvolvimento das quantidades na criança, A geometria propostas podem ser postas em prática nas condições
espontânea da criança, são todos títulos que deixam entrever escolares correntes. Publicamos, além disso, na parte
um material rico em observações e reflexões que se prestam a experimental desta obra os protocolos detalhados das lições
uma aplicação imediata ao ensino – impressão que vem que demos no quadro de uma dessas experiências. Pedimos
confirmar o estudo mais aprofundado desta grande obra desculpa se essas descrições parecem um pouco longas a um
psicológica. ou outro dos nossos leitores: elas não são reproduzidas apenas
A psicologia de Jean Piaget é genética. Não se limita a para permitir a outros investigadores repetir e verificar a
estudar as reações características do adulto, ou de um período nossa experiência, mas ainda e sobretudo para mostrar aos
isolado da infância, uma vez que analisa a própria formação nossos colegas do ensino como concebemos a realização
das noções e operações no decurso do desenvolvimento da prática dos nossos princípios didáticos. O próprio Piaget
criança. Daí resulta não somente uma compreensão sugeriu-nos que escrevêssemos este trabalho; as suas
aprofundada dos estados finais do desenvolvimento mental, considerações e conselhos foram da maior utilidade ao longo
mas também um conhecimento preciso dos seus mecanismos de toda a sua realização. Além disso, permitiu-nos designar
de formação. Ora é evidente que estes últimos interessam ao este livro como uma aplicação à didática da sua psicologia.
didata ao mais alto nível. Porque este não aponta a outro alvo Queira, portanto, Piaget aceitar a presente obra, não somente
senão ao de provocar de maneira consciente e sistemática os como uma nova confirmação do valor da sua doutrina
processos de formação intelectual, que a psicologia genética, psicológica, mas também como um sinal do nosso profundo
pelo seu lado, estuda na atividade espontânea da criança. E não reconhecimento pela confiança e pelo encorajamento que
poderia pôr-se em dúvida que o conhecimento exato destes nunca cessou de nos testemunhar.
processos é absolutamente necessário quando nós nos
propomos provocá-los através de situações de aprendizagem A contribuição da psicologia para a solução de problemas
e de atividades escolares apropriadas. didáticos
Em segundo lugar, a psicologia de Jean Piaget analisa, com
particular sucesso, as funções mentais superiores, a saber: as O que é de facto a didática? É uma ciência auxiliar da
noções, operações e representações cujo conjunto constitui o pedagogia na qual esta última delega, para as realizações de
pensamento humano. Ora, neste caso, esta psicologia responde pormenor, as tarefas educativas mais gerais. Como levar o
ainda a uma necessidade precisa, porque os problemas aluno a adquirir tal noção, tal operação ou tal técnica de
trabalho? São esses os problemas que o didata procura

29Rogalski, J. A “Didática psicológica. Aplicação à didática da psicologia de Jean


Piaget” de Aebli: uma abordagem e um autor esquecidos. Laboreal. 2014.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 33


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resolver fazendo apelo ao seu conhecimento psicológico das criança e do seu pensamento, frequentemente não explicitada,
crianças e dos seus processos de aprendizagem. é verdade, mas tacitamente pressuposta. A análise atenta de
Existe assim uma didática da aritmética, dos trabalhos uma metodologia, e mesmo de simples práticas didáticas em
manuais, do canto, etc.; todavia limitaremos o presente estudo uso nas escolas, revela bastante facilmente as concepções
às aquisições intelectuais, referindo-nos ainda – obviamente – psicológicas subjacentes.
aos outros aspetos da vida psíquica, na medida em que Estas considerações sugeriram-nos, para esta obra, o plano
constituem condições ou consequências da formação seguinte: começaremos por estudar a solução dada ao
intelectual. A fim de aclarar a contribuição que a psicologia problema da formação das noções e operações pela didática do
pode proporcionar à solução dos problemas didáticos, século XIX. Depois, tentaremos mostrar que esta metodologia
comecemos por nos interrogar como são geralmente é solidária com a psicologia e a filosofia “sensualista-
determinadas as tarefas da didática. Em quase todos os empirista” em voga na mesma época. Numa segunda secção da
programas escolares, tais tarefas são definidas em termos de parte histórica passaremos em revista algumas teorias
noções a adquirir: noções de geografia, de física, de aritmética, reformadoras do século XX e os seus fundamentos
etc. Eis as “matérias” que o aluno deve “aprender”, que deve psicológicos, nomeadamente diversos movimentos
assimilar para as “conhecer”. Mas, que significa conhecer um pedagógicos habitualmente agrupados sob a designação de
objeto como “a alavanca” ou uma noção como “a fração teorias da “escola ativa”. Numa terceira parte consideraremos
ordinária”? Será a capacidade de apresentar uma definição? É certos aspetos da psicologia de Jean Piaget que nos parece
evidente que não. Dir-se-á então que o aluno deve possuir uma poderem servir de base a princípios metodológicos, cuja
representação da alavanca, imaginar o mecanismo do seu exposição constituirá o conteúdo dos capítulos seguintes.
funcionamento? Talvez; mas ainda falta explicitar o que se Finalmente, ilustraremos as nossas sugestões com a descrição
entende exatamente quando se diz que a criança deve adquirir de uma experiência didática que nós mesmo conduzimos nas
esta ou aquela representação. No domínio do pensamento escolas públicas do cantão de Zurique.
matemático, o problema é o mesmo. Que significa possuir a
noção de fração ordinária? Quando é que pode afirmar-se que Questões
ela foi adquirida pela criança? O educador desprevenido
acredita, por vezes, que a aquisição está concluída quando os 01. (SEDUC-RO- Analista Educacional- Psicólogo-
alunos são capazes de resolver os problemas que impliquem IBADE/2016) A relação entre a Psicologia e a educação teve
as noções e as operações em questão. Ora, frequentemente o sua trajetória marcada por diversas polêmicas. Uma delas se
fracasso total da turma perante um problema colocado sob um refere ao fato de:
formato pouco habitual evidencia que as crianças nem sequer (A) os conteúdos trabalhados no campo da educação não
assimilaram a noção e que usam simplesmente um “truque”. O estarem interligados aos estudos desenvolvidos pelo campo
problema didático assim colocado é de ordem geral. Traduz o da psicologia.
facto de que as “matérias” (factos, noções, etc.), inicialmente (B) a escola sempre esperar que o profissional da
de algum modo exteriores ao espírito da criança, devem Psicologia resolva os problemas da criança que não aprende
tornar-se elementos do seu pensamento. Sem analisar ainda ou que apresenta comportamentos agressivos.
esse processo de aquisição, é preciso definir-lhe o resultado (C) que a tendência a abordar os fenômenos humanos
desejado, que se exprime dizendo que a criança “conhece o segundo o paradigma da complexidade de Morin não
facto” ou que “adquiriu a noção”. É esse o primeiro problema contempla as dificuldades enfrentadas no âmbito escolar.
importante que se coloca a qualquer didática. Incumbe, sem (D) que o ensino de Psicologia limita-se ao estudo do
dúvida, à psicologia do pensamento responder-lhe com um indivíduo, dificultando o entendimento de sua inserção no
máximo de autoridade. contexto escolar.
(E) que frente à demanda de uma educação técnica, a
Mas há mais. Qualquer didática deve definir, e define de função das ciências humanas não é a formação de um senso
facto, não somente como os alunos “conhecem” certa matéria crítico, emancipador, inovador, criador e humanizado.
mas também como a “aprendem”. Tomemos o exemplo de um
pedagogo para quem a noção de fração é uma imagem mental, 02. (IF-CE- Psicólogo- IF-CE) Acerca do trabalho do
depositada, como que por impressão fotográfica, no espírito psicólogo no campo da educação. Marque a opção incorreta:
dos alunos. Com o objetivo de provocar esse processo, (A) O psicólogo escolar deve considerar a dinâmica em que
apresentará à turma imagens de círculos divididos em o aluno está inserido, integrando aos contextos familiares e
sectores que pendurará nas paredes da sala durante um comunitários.
período prolongado e que mandará copiar, colorir, etc. Este (B) A presença do psicólogo no contexto escolar tem
exemplo ilustra uma das soluções (aliás, falsa, como nos sofrido resistências, muitas vezes implícita, por parte de
esforçaremos por mostrar a seguir) dadas a um segundo outros atores da realidade escolar.
problema didático que apela para uma solução psicológica: a (C) A Psicologia Escolar é um campo de atuação restrito à
de determinar com precisão a natureza dos processos de aplicação dos saberes da Psicologia da Aprendizagem e do
aquisição pelos quais a criança assimila os factos e as noções. Desenvolvimento.
À didática incumbe, além disso, o cuidado de estudar as (D) A escola é o contexto privilegiado de atuação do
condições mais favoráveis a esses processos de formação. psicólogo escolar.
Ainda aí enfrentamos um campo muito amplo de problemas (E) O psicólogo escolar pode realizar pesquisas e
psicológicos que levantam as questões da necessidade, do participar da elaboração de planos e políticas educacionais.
interesse, da atenção, da organização social da atividade
escolar. O professor primário apoia-se no seu conhecimento 03. (TJ- ES- Analista Judiciário- Pedagogia- CESPE) Para
psicológico da criança para ter em conta essas condições nos compreender as contribuições do pensamento de Vygotsky
seus ensinamentos. para a educação, é necessário que se faça uma breve
A didática científica atribui-se como tarefa deduzir do consideração acerca dos fundamentos filosóficos subjacentes
conhecimento psicológico dos processos de formação a suas ideias. Vygotsky construiu uma psicologia marxista,
intelectual as medidas metodológicas mais aptas a provocá- buscando as bases dessa teoria para explicar a formação da
los. Tal relação entre a didática e a psicologia não se estabelece mente.
senão raramente duma maneira consciente e direta. E, todavia, ( ) Certo
qualquer método de ensino é solidário com uma psicologia da ( ) Errado

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04. (IF-CE- Psicólogo- IF-CE) Marque a opção incorreta: crise, na qual somos remetidos a repensar nossos valores e
(A) Classicamente, a Psicologia Educacional pode ser atitudes frente ao conceito de educação.
definida como uma subárea da psicologia responsável pela A educação faz parte da nossa vida, ninguém está isento
produção de saber acerca dos fenômenos psicológicos dela, estamos envolvidos para aprender e ensinar, e a escola
presentes no processo educativo. surge como instituição formadora de indivíduos.
(B) Numa perspectiva da história das ideias, Para que essa transformação social ocorra é necessário
encontraríamos na educação jesuítica a presença de que a escola impõe o conhecimento, nesse caso a educação é e
conhecimentos psicológicos aplicados. sempre foi um duplo processo, que significa a atividade
(C) No Brasil, historicamente, os Cursos Normais foram desempenhada pelos adultos para assegurar a vida e o
importante locus de desenvolvimento da relação psicologia e desenvolvimento de gerações futuras, e para despertar e fazer
educação. crescer as suas habilidades, e nesse caso a escola é vista como
(D) A Psicologia Escolar Crítica se sistematiza com a uma instituição, ou seja, um conjunto de normas e
adoção da Teoria da Carência Cultural. procedimentos padronizados, e valorizados pela sociedade,
(E) A relação entre psicologia e educação no cujo objetivo principal é a socialização do indivíduo e a
escolanovismo é marcada pelo uso de testes psicológicos e transmissão de determinados aspectos da cultura.
teorias sobre inteligência e aprendizagem para justificar
diferenças individuais, responsabilizando o sujeito. Reflexões sobre o papel da educação

Respostas Há muitas reflexões importantes a fazer, quando se fala no


01. B conceito de educação para a sociedade. Começa na inserção da
A maioria das vezes, as escolas, públicas ou particulares, escola na comunidade, com formação de espíritos críticos, o
tendem a compreender o trabalho dos psicólogos no contexto envolvimento da escola nos projetos de transformação social,
escolar como algo focalizado na "criança problema" e em um a aproximação entre teorias e práticas, entre ideias e
possível diagnóstico psicológico. O que muitas dessas escolas realidades, entre o conhecimento e a existência real do
não sabem é que o trabalho dos psicólogos vão além de um
estudante, entre educação e vida, que evidenciam a urgente
acompanhamento individual. Sua atuação vai desde a
produção do PPP (Projeto Político Pedagógico) da escola até a necessidade de repensar várias coisas relacionadas a
construção do vínculo com os outros profissionais e com os educação.
pais das crianças. Diante tais situações, são muitas as vozes que reivindicam
a importância da educação para enfrentar os desafios. Em todo
02. C mundo, a educação hoje é uma prioridade nos programas de
A Psicologia Escolar não se restringe aos saberes da quase todos os partidos políticos. De fato, umas das principais
Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento, ao funções da escola sempre foi a de preparar as novas
contrário aplica saberes de diversas áreas da psicologia. gerações para as mudanças e garantir uma melhor
inserção no mundo profissional e no mercado de trabalho.
03. Certo
Para o autor, a psicologia tem como base epistemológica o Devemos perguntar o que significa hoje pedir mais
materialismo dialético de Karl Max, investigando os processos educação. Por um lado, essas mudanças introduzidas pela
psicológicos humanos, como relevo em sua dimensão histórica sociedade da informação e do conhecimento fazem que
e não natural. Extrai do marxismo a ideia de que o ser humano tenhamos de rever o significado atual do conceito de educação,
é uma realidade concreta e sua essência é construída nas pois em nenhum caso as formas de transmissão e de criação
relações sociais. do conhecimento serão as mesmas.
As mudanças ocorridas no âmbito político, científico e
04.D tecnológico não parecem trazer uma sociedade mais justa e
Teoria da Carência Cultural. - Coloca as dificuldades
solidária, pelo contrário, introduzimos novas formas de
escolares como externas à dinâmica da escola. Isso não é
condizente com o que preconiza a Psicologia Escolar Crítica, desigualdade e de injustiça, que fazem aumentar a pobreza, a
que vem a romper com isso. marginalização e a exclusão. Diante de tal fato, devemos
O movimento de crítica fortaleceu-se no campo da repensar essa frase “a educação para todos durante toda a
Psicologia Escolar e atualmente podemos considerar que vida”, está bem longe de ser realidade num mundo que
temos, no Brasil, um conjunto de trabalhos de intervenção e de 20%(vinte por cento) das crianças entre 6 a 11 anos estão fora
pesquisa que: das escolas, mesmos nos países desenvolvidos. Podem refletir
a) rompe com a culpabilização das crianças, adolescentes e em fenômenos derivados da negação da diferença, em
suas famílias pelas dificuldades escolares; forma de guerra, xenofobia e violência, demonstrando que
b) constrói novos instrumentos de avaliação psicológica e existe uma importante crise ética e moral. Por tudo isso, é
de compreensão da queixa escolar; preciso que deixemos de pensar na educação exclusivamente
c) articula importantes ações no campo da formação de a partir dos parâmetros econômicos e produtivos e passamos
professores e de profissionais de saúde. a uma concepção da educação que cultive, sobretudo em
valores de cidadania democrática, conforme a resolução da
Unesco30:
Os conhecimentos
socioemocionais no currículo “Aprender a ser, a formação de uma cidadania criativa,
escolar: a escola como espaço capaz de transformar a informação em conhecimentos
que, a partir da diferença, afirme o respeito e a
social. valorização do próximo, para, dessa forma, projetarem
juntos um futuro comum de convivência ativa e
participativa na vida democrática, como lugar
Educação – Função Social
privilegiado para consensuar objetivos que conciliem os
Introdução
legítimos interesses individuais como os coletivo.”
Estamos vivendo um momento de profundas
transformações. A sociedade atual encontra-se em profunda

30
UNESCO. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org

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Muitos anos, a escola e a família foram as duas instituições VI - articular-se com as famílias e a comunidade,
encarregadas da educação e da formação das novas gerações, criando processos de integração da sociedade com a escola;
mas hoje isso é impossível de afirmar. A família está passando Portanto, conforme previsto em lei, o papel da escola é de
por grandes transformações e muitas vezes, delega sua função promover o pleno desenvolvimento do educando e
educativa tradicional para outros agentes, como a televisão ou preparar para a cidadania, qualificando-o para o trabalho,
a própria escola. Por um lado, a escola não pode enfrentar conforme cada características e formas de organização
sozinha todos os desafios apresentados pela nova sociedade própria, dependendo de sua localização geográfica e outros
da informação. aspectos.
A crise nas escolas agravam, como também aumentam as A função do professor
sensações de desvalorizações sociais aos professores. Nos Nos dias atuais levam-nos a refletir sobre a complexidade
dias atuais, a influência educativa é exercida a partir de vários das funções entre uma boa ou péssima administração da
âmbitos, a tais como a família, trabalho, sociedade, associações educação e as políticas de formação dos profissionais.
etc., e por diferentes meios, televisão, multimídia e as vezes No contexto das transformações que vêm ocorrendo no
que opõem às propostas educativas. mundo, os desafios das políticas de formação dos profissionais
Considerando, todas essas mudanças dentro do contexto da educação. O professor, exerce sua função enquanto
histórico, visando a sua transformação, pois se compreende educador, ao estimular o educando a refletir sobre os cuidados
que a realidade não é algo pronto e acabado, não se trata, no com a saúde, natureza, as questões da sociedade, entre outros,
entanto, de atribuir à educação e a escola nenhuma função de a consciência do que seja participante dessa sociedade, sendo
salvação e sim de reconhecer seu incontestável papel social no aspecto importante ao exercício da democracia, isso se torna
desenvolvimento de processos educativos, na sistematização e mais fácil, facilitar a aprendizagem do aluno, aguçar seu poder
socialização da cultura historicamente produzida pelos de argumentação, conduzir ás aulas de modo questionador,
homens. onde o aluno- sujeito ativo estará também exercendo seu papel
de sujeito pensante; que dá ótica construtivista constrói seu
A educação e sua função social aprendizado, através de hipóteses que vão sendo testadas,
Mudanças legais – Uma nova realidade interagindo com o professor, argumentando, questionando em
Ao delimitar a função da educação e da escola como fim trocando ideias que produzem inferências.
complexas, amplas, diversificadas, ampliam a necessidade de O papel da família nesse contexto, está ligado ao nível
dedicação exclusivamente por parte do professor, de social e educacional, que a escola oferece através da
acompanhar as mudanças que se processam no campo de socialização. O professor surge como agente de socialização,
trabalho, atualizando o seu currículo e sua metodologia. significando o elo entre a família e a sociedade. Pois são
Para dar sustentação às contínuas evoluções, a educação construídos a partir do desenvolvimento da moralidade, os
precisa ressaltar um ensino que crie conexão entre o que o hábitos e responsabilidade social, devido uma situação de
aluno aprende nela e o que ele faz fora dela, há um parâmetro mudança e de resultados das convivências familiares, em um
entre o ensino formal, o trabalho, o conhecimento e a na vida meio que o estimula ou impede.
prática do aluno. Para o sucesso cognitivo do aluno e êxito no
Buscando a solucionar essas lacunas, o Poder Público tem desenvolvimento do trabalho do professor, o planejamento é
buscado alternativas de reforma do sistema ensino, criando e como uma bússola que orienta a direção a ser seguida, pois
aprovando leis, como: Lei de Diretrizes e Bases da Educação quando o professor não planeja o aluno é o primeiro a
– LDB – n. 9.394/96, que institui o Fundo de Manutenção e perceber que algo ficou a desejar, por mais experiente que seja
Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização o docente, e esse é um dos fatores que contribuem para a
do Magistério – FUNDEF – Lei n. 9.424/96 e o Plano indisciplina e o desinteresse na sala de aula.
Nacional de Educação (PNE). É importante reconhecer o É importante que o planejar aconteça de forma
papel da legislação tem exercido no cenário brasileiro, seja no sistematizada e contextualizado com o cotidiano do aluno,
sentido de promover reformas necessárias ou de implantar a para desperta seu interesse e participar ativamente no
profissionalização da educação básica. Mas a reflexão sobre a resultado, que será aulas dinâmicas e prazerosas.
função social da escola, não pode ser vista somente com base Para que a escola exerça sua função como local de
na legislação, isto porque nela estão definidos os fins da oportunidades, interação e de encontro e o saber, para que
educação brasileira. haja esse paralelo tão importante para o sucesso do aluno o
O direito de todos à educação está estabelecido na bom desenvolvimento das atribuições do coordenador
Constituição Federal no artigo 205 e no artigo 2 da Lei de pedagógico tem grande relevância, pois a ele cabe organizar o
Diretrizes e Bases da Educação – LDB – n. 9.394/96: tempo na escola para que os professores façam seus
Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da planejamentos e ainda que atue como formador de fato.
família, será promovida e incentivada com a colaboração da Conforme que ensina Libâneo31, as características
sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu positivas eficazes para o bom funcionamento de uma escola:
preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o professores preparados, com clareza de seus objetivos e
trabalho. conteúdos, que planejem as aulas, cativem os alunos, através
Art. 2º. A educação, dever da família e do Estado, inspirada de um bom clima de trabalho, em que a direção contribua para
nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade conseguir o empenho de todos, em que os professores aceitem
humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do aprender com a experiência dos colegas.
educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua Os coordenadores por sua vez precisam assumir sua
qualificação para o trabalho. responsabilidade pela qualidade do ensino, atuando como
De acordo como o artigo 12 da LDB, os seguintes formadores do corpo docente, promovendo momentos de
parâmetros: trocas de experiências e reflexão sobre a prática pedagógica, o
Artigo 12. Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as que trará bons resultados na resolução de problemas
normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a cotidianos, e ainda fortalece a qualidade de ensino, contribui
incumbência de: para o resgate da auto-estima do professor, pois o mesmo
precisa se libertar de práticas não funcionais, e para isso a

31
LIBÂNEO, J. C.; OLIVEIRA J. F.; TOSCHI M. S.; Educação escolar:
políticas estrutura e organização. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2005. (Coleção
Docência em Formação)

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 36


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contribuição do coordenador será imprescindível, o que E o papel da educação num contexto democrático, está
resultará no crescimento intelectual dos alunos. previsto no artigo 3º da LDB:
Essa clareza no plano de trabalho do Projeto pedagógico- Artigo 3º. O ensino será ministrado com base nos seguintes
curricular que vá de encontro às reais necessidades da escola, princípios:
para sanar problemas como: falta de professores, XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as
cumprimento de horário e atitudes que assegurem a práticas sociais.
seriedade, o compromisso com o trabalho de ensino e As políticas que fortaleçam laços entre comunidade e
aprendizagem, com relação a alunos e funcionários e seu escola é uma medida, um caminho que necessita ser trilhado,
profissionalismo conquista o respeito e admiração da maioria para assim alcançar melhores resultados. O aluno é parte da
de seus funcionários e alunos, há um clima de harmonia que escola, é sujeito que aprende, que constrói seu saber, que
predispõe a realização de um trabalho, onde, apesar das direciona seu projeto de vida, assim sendo a escola lida com
dificuldades, os professores terão prazer em ensinar e alunos pessoas, valores, tradições, crenças, opções e precisa estar
prazer em aprender. preparada para enfrentar tudo isso.
A escola enquanto espaço de reflexões sobre a
comunidade, passa a reconstruir alguns elementos de Ao analisarmos toda esta conjuntura verificamos que,
desenvolvimento de uma escola para a formação da cidadania, apesar da tendência para limitar a educação ao contexto
precisa formar profissionais que conheçam quais as funções escolar e familiar, trabalho e as práticas sociais, a educação
sociais da escola brasileira em diferentes momentos, para que assume um sentido muito mais amplo e complexo. Não se
em seguida possa discutir a função pedagógica, política e do reduz apenas a uma etapa, mas trata-se sim de um processo
trabalho em relação à escola cidadã. gradual e contínuo, vivido ao longo da vida, que promove a
consciencialização, desenvolvimento e libertação do ser
A função social humano.
Ao se falar em educação devemos estar atentos ao contexto
social ao qual a escola se configura. É uma instituição social Podemos afirmar que a educação assume um papel
com objetivo explícito, através do desenvolvimento das determinante na formação associada à capacidade de
potencialidades físicas, cognitivas e afetivas dos alunos, transformação e mudança do indivíduo e consequentemente
capacitando-o a tornar um cidadão, participativo na sociedade da própria realidade em que este está inserido.
em que vivem, tendo como função básica de garantir a
aprendizagem de conhecimento, habilidades e valores Questões
necessários à socialização do indivíduo, sendo necessário
que a escola propicie o domínio dos conteúdos culturais 01 . (Minas Gerais Administração e Serviços S.A - MGS
básicos da leitura, da escrita, da ciência das artes e das letras, – Pedagogo – IBFC)
sem estas aprendizagens dificilmente o aluno poderá exercer
seus direitos de cidadania. A escola é uma instituição social, que mediante sua prática
Neste sentido a escola por ser uma instituição que no campo do conhecimento, dos valores e atitudes, contribui
transmite o saber, essa função de formar cidadãos para atuar para a constituição dos processos educativos. Assim, a escola,
na sociedade, deve contribuir para a mudança de uma no desempenho de sua função social de formadora de sujeitos
sociedade desigual, injusta. A escola deve dar condições, para históricos, precisa ser um espaço de sociabilidade que
preparar o indivíduo na construção sólida da sua identidade, possibilite a construção do conhecimento produzido. Com esse
inserindo valores e pressupostos que possa fazer com que o contexto, assinale a alternativa correta a seguir:
mesmo conviva em sociedade e na sociedade com autonomia, (A) Em nossa sociedade, a escola é um lugar privilegiado
solidariedade, capacidade de transformação e ética. para o exercício da democracia indireta com a escolha dos seus
dirigentes.
A escola deve oferecer situações que favoreçam o (B) A escola tem como função social formar o cidadão,
aprendizado, onde haja sede em aprender e também razão, construir conhecimentos, atitudes e valores que tornem o
entendimento da importância desse aprendizado no futuro do estudante solidário, crítico, ético e participativo.
aluno. Se ele compreender que, muito mais importante do que (C) A escola, em sua função social, contribuirá
possuir bens materiais, é ter uma fonte de segurança que efetivamente para afirmar os interesses individuais das
garanta seu espaço no mercado competitivo, ele buscará pessoas no processo educativo.
conhecer e aprender sempre mais. E para o sociólogo francês (D) A função social da escola é irrelevante para a
Émile Durkheim, a principal função do professor é formar administração civil e os órgãos governamentais.
cidadãos capazes de contribuir para a harmonia social. Dessa
forma, Durkheim acreditava que a sociedade seria mais
beneficiada pelo processo educativo. Para ele, "a educação é 02. (CETAM – Analista Técnico Educacional –
uma socialização da jovem geração pela geração adulta". E Psicologia – FCC)
quanto mais eficiente for o processo, melhor será o Para responder à questão, considere a Lei de Diretrizes e
desenvolvimento da comunidade em que a escola esteja Bases da Educação Nacional − LDB (Lei nº 9.394/1996). A Lei
inserida. destaca um entendimento amplo da função social da educação,
quando:
Assim, a função social da educação e da escola tem como (A) determina que a mesma deve ser organizada em
objetivo de incluir o indivíduo ao saber histórico, ao período integral.
conhecimento científico, de forma eficaz e com qualidade, (B) propõe a reflexão crítica da prática educacional.
também cumpre com sua função social de preparar o sujeito (C) explicita que deverá vincular-se ao mundo do trabalho
para o trabalho, o pleno exercício da cidadania e seu e à prática social.
desenvolvimento de pessoas solidárias, cooperativas, (D) destaca o entendimento da função social de uma
autônomas, capazes de conviver com as diferenças, precisa ser educação preparatória.
um espaço de socialização, que possibilite a construção do (E) vincula a vida social à vida cultural a partir do ensino
conhecimento, tendo em vista que esse conhecimento não é na escola.
dado a priori. Pois, trata-se de conhecimento vivo e que se
caracteriza como processo em construção.

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03. (FUB- Pedagogo – CESPE) solidariedade humana. Isso pressupõe que todas as crianças,
A respeito dos fundamentos da educação e da relação jovens, adultos, homens e mulheres ao buscarem a escola
educação/sociedade em suas dimensões filosófica, encontrem um contexto que os permita construir
sociocultural e pedagógica, julgue o item subsequente. competências e habilidades, qualificando-os para o trabalho,
A educação, em uma abordagem funcionalista, é, mas, sobretudo, preparando-os para a vida.
essencialmente, um meio de socialização dos indivíduos a
fim de torná-los membros de uma dada estrutura social 05. Resposta: B
preestabelecida, exercendo, portanto, a função de A alternativa b está correta, porque o papel do ensino é de
integração social. preparação intelectual e moral dos alunos para assumir um
( ) CERTO ( ) ERRADO papel na sociedade.

04. (SEDU-ES – Professor –Pedagogo – CESPE)


Considerando o desenvolvimento histórico das As diretrizes curriculares
concepções pedagógicas e a função social atribuída à escola, nacionais para a formação
julgue o item que se segue.
A perspectiva progressista, sustentando as finalidades docente.
sociopolíticas da educação, define que a escola tem a função
social de formar o cidadão mediante um processo de
construção de conhecimento, de atitudes e de valores que o Processos Didáticos Básicos, Ensino e Aprendizagem
tomem um sujeito solidário, crítico, ético e participativo.
Anteriormente convém ressaltar o conceito atual de
( ) CERTO ( ) ERRADO didática segundo a análise etimológica, o contexto histórico em
que prevaleceram determinados conceitos, a problemática
05. (SAP-SP – Analista sociocultural - VUNESP) educacional e sua relevância para o ensino.
De acordo com Libâneo, a didática trata dos objetivos, Etimologicamente a palavra ‘didática’ significa ‘expor
condições e meios de realização do processo de ensino, unindo claramente’, ‘demonstrar’, ‘ensinar’, ‘instruir’. Em primeira
meios pedagógico-didáticos a objetivos sócio-políticos. Neste instância, este sentido mais originário corresponde
sentido, aproximadamente a tudo aquilo que é ‘próprio para o ensino’.
(A) Os conteúdos devem ser trabalhados de forma acrítica Levando em consideração o seu significado etimológico
e inflexível para não intervir no produto. percebemos que a didática está intimamente ligada ao
(B) O ensino deve ser planejado a partir de propósitos processo de ensino-aprendizagem, e a tudo que se refere ao
claros sobre a sua finalidade, tendo em vista que os alunos ato de ensinar e aprender.
estão sendo preparados para viverem em sociedade. A Didática foi concebida como base de uma reforma
(C) As questões de ordem social sempre prevalecem sobre educacional importante pela primeira vez no século XVII, com
as de ordem pedagógica. João Amós Comenius, em sua obra Didática Magna. Nesta
(D) Os planejamentos indicam a necessidade de serem época, ele havia observado que a educação se dava de maneira
neutros e escolarizados. muito espontânea, permeada de puro praticismo, não havia
(E) Os estudantes são vistos enquanto seres passivos, daí sistematização, organização ou planejamento. Com o objetivo
porque a facilidade de aprendizagem. de organizar e sistematizar a educação, Comenius escreveu a
Didática Magna, que pretendia estabelecer os fundamentos da
Respostas ‘arte universal de ensinar tudo a todos’, privilegiando
sobretudo o professor, o método e o conteúdo.
01. Resposta: B A didática então surge como objeto de estudo no processo
A alternativa b está correta, é a função social da Escola, em de ensino/aprendizagem, pois este está inserido em todas as
termos governamentais, a função social da escola pública é práticas educacionais, em todos os níveis de ensino, e cada
formar o cidadão, isto é, construir conhecimentos, atitudes e prática educacional evidencia uma intenção, ideologia,
valores que tornem o estudante solidário, crítico, ético e objetivos e meios para serem atingidos. Desta forma ocorre o
participativo. processo de ensino aprendizagem, que em momento algum é
neutro, apolítico ou isolado de sua realidade político social.
02. Resposta: C Assim, a Didática é o principal ramo de estudo da
A alternativa c está correta, dispõe o artigo 1º § 2º da pedagogia, pois ela situa-se num conjunto de conhecimentos
LDB: A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do pedagógicos, investiga os fundamentos, as condições e os
trabalho e à prática social. modos de realização da instrução e do ensino, portanto é
considerada a ciência de ensinar. Nesse contexto, o professor
03. Resposta: CERTO tem como papel principal garantir uma relação didática entre
A alternativa é a certa, porque a função de integração social ENSINO x APRENDIZAGEM.
pode confundir, mas é importante perceber que a integração Segundo Libâneo32, o professor tem o dever de planejar,
social existe em qualquer modelo de sociedade, é fundamental dirigir e controlar esse processo de ensino, bem como
seja para modificá-la ou para manter seu status quo. estimular as atividades e competências próprias do aluno para
a sua aprendizagem. A condição para o processo de ensino
04. Resposta: CERTO requer uma clara e segura compreensão do processo de
A alternativa está correta, porque a educação é aprendizagem, ou seja, deseja entender como as pessoas
comprometida com a formação integral do ser humano deve aprendem e quais as condições que influenciam para esse
adotar procedimentos facilitadores que permitam a aprendizado. Assim, ressalta que podemos distinguir a
construção de identidades crítico reflexivas portadoras de aprendizagem em dois tipos: aprendizagem casual e a
autonomia intelectual, política, social e cultural fortemente aprendizagem organizada.
alicerçadas nos princípios de igualdade, de justiça e de

32 LIBÂNEO, José Carlos. A Didática e as exigências do processo de


escolarização: formação cultural e científica e demandas das práticas
socioculturais.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 38


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APOSTILAS OPÇÃO

A) Aprendizagem casual: É quase sempre espontânea, exame objetivo e crítico de fatos e fenômenos da natureza e
surge naturalmente da interação entre as pessoas com o das relações sociais, habilidades de expressão verbal e escrita.
ambiente em que vivem, ou seja, através da convivência social, O processo de ensino deve estimular o desejo e o gosto pelo
observação de objetos e acontecimentos. estudo, mostrando assim a importância do conhecimento para
a vida e o trabalho, nesse processo o professor deve criar
B) Aprendizagem organizada: É aquela que tem por situações que estimule o indivíduo a pensar, analisar e
finalidade específica aprender determinados conhecimentos, relacionar os aspectos estudados com a realidade que vive.
habilidades e normas de convivência social. Este tipo de Essa realização consciente das tarefas de ensino e
aprendizagem é transmitido pela escola, que é uma aprendizagem é uma fonte de convicções, princípios e ações
organização intencional, planejada e sistemática, as que irão relacionar as práticas educativas dos alunos,
finalidades e condições da aprendizagem escolar é tarefa propondo situações reais que façam com que os indivíduos
específica do ensino. reflitam e analisem de acordo com sua realidade.
Entretanto, o caráter educativo está relacionado aos
Esses tipos de aprendizagem têm grande relevância na objetivos do ensino crítico e é realizado dentro do processo de
assimilação ativa dos indivíduos, favorecendo um ensino. É através desse processo que acontece a formação da
conhecimento a partir das circunstâncias vivenciadas pelo consciência crítica dos indivíduos, fazendo-os pensar
mesmo. independentemente, por isso o ensino crítico, chamado assim
O processo de assimilação de determinados por implicar diretamente nos objetivos sócio-políticos e
conhecimentos, habilidades, percepção e reflexão é pedagógicos, também os conteúdos, métodos escolhidos e
desenvolvido por meios atitudinais, motivacionais e organizados mediante determinada postura frente ao contexto
intelectuais do aluno, sendo o professor o principal orientador das relações sociais vigentes da prática social.
desse processo de assimilação ativa, é através disso que se É através desse ensino crítico que os processos mentais
pode adquirir um melhor entendimento, favorecendo um são desenvolvidos, formando assim uma atitude intelectual.
desenvolvimento cognitivo. Nesse contexto os conteúdos deixam de serem apenas
Através do ensino podemos compreender o ato de matérias, e passam então a ser transmitidos pelo professor aos
aprender que é o ato no qual assimilamos mentalmente os seus alunos formando assim um pensamento independente,
fatos e as relações da natureza e da sociedade. Esse processo para que esses indivíduos busquem resolver os problemas
de assimilação de conhecimentos é resultado da reflexão postos pela sociedade de uma maneira criativa e reflexiva.
proporcionada pela percepção prático-sensorial e pelas ações
mentais que caracterizam o pensamento. Entendida como As contribuições da Didática na formação do
fundamental no processo de ensino a assimilação ativa profissional da Educação
desenvolve no indivíduo a capacidade de lógica e raciocínio,
facilitando o processo de aprendizagem do aluno. Como vimos anteriormente à didática estuda o processo de
O nível cognitivo refere-se à aprendizagem de ensino no seu conjunto, no qual os objetivos, conteúdos fazem
determinados conhecimentos e operações mentais, parte, de modo a criar condições que garantam uma
caracterizada pela apreensão consciente, compreensão e aprendizagem significativa dos alunos. Nessa perspectiva, a
generalização das propriedades e relações essenciais da didática torna-se o principal ramo de estudos da pedagogia,
realidade, bem como pela aquisição de modos de ação e pois é necessário dominar bem todas as teorias para que haja
aplicação referentes a essas propriedades e relações. De uma boa prática educativa, assim o educador dispõe de
acordo com esse contexto podemos despertar uma recursos teóricos para organizar e articular o processo de
aprendizagem autônoma, seja no meio escolar ou no ambiente ensino e aprendizagem.
em que estamos. Segundo Libâneo33, o trabalho docente também chamado
Pelo meio cognitivo, os indivíduos aprendem tanto pelo de atividade pedagógica tem como objetivos primordiais:
contato com as coisas no ambiente, como pelas palavras que
designam das coisas e dos fenômenos do ambiente. Portanto A) Assegurar aos alunos o domínio mais seguro e
as palavras são importantes condições de aprendizagem, pois duradouro possível dos conhecimentos científicos;
através delas são formados conceitos pelos quais podemos B) Criar as condições e os meios para que os alunos
pensar. desenvolvam capacidades e habilidades intelectuais de modo
O ensino é o principal meio de progresso intelectual dos que dominem métodos de estudo e de trabalho intelectual
alunos, através dele é possível adquirir conhecimentos e visando a sua autonomia no processo de aprendizagem e
habilidades individuais e coletivas. Por meio do ensino, o independência de pensamento;
professor transmite os conteúdos de forma que os alunos C) Orientar as tarefas de ensino para objetivo educativo de
assimilem esse conhecimento, auxiliando no desenvolvimento formação da personalidade, isto é, ajudar os alunos a
intelectual, reflexivo e crítico. escolherem um caminho na vida, a terem atitudes e convicções
Por meio do processo de ensino o professor pode alcançar que norteiem suas opções diante dos problemas e situações da
seu objetivo de aprendizagem, essa atividade de ensino está vida real.
ligada à vida social mais ampla, chamada de prática social,
portanto o papel fundamental do ensino é mediar à relação Além dos objetivos da disciplina e dos conteúdos, é
entre indivíduos, escola e sociedade. fundamental que o professor tenha clareza das finalidades que
ele tem em mente, a atividade docente tem a ver diretamente
O Caráter Educativo do Processo de Ensino e o Ensino com “para que educar”, pois a educação se realiza numa
Crítico sociedade que é formada por grupos sociais que tem uma visão
diferente das finalidades educativas.
No desempenho da profissão docente, o professor deve ter Nota-se que a problemática que permeia a educação em
em mente a formação da personalidade dos alunos, não apenas torno da didática, consiste na dificuldade de mediar
no aspecto intelectual, como também nos aspectos morais, conhecimento prático e teórico, na medida em que muitos
afetivos e físicos. Como resultado do trabalho escolar, os educadores apresentam uma concepção fragmentada e
alunos vão formando o senso de observação, a capacidade de ambígua desta interação, chegando ao ponto de dissociá-las.

33 LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 39


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APOSTILAS OPÇÃO

Essa separação entre teoria e prática impossibilita os Formação de profissionais da educação: visão crítica e
profissionais da educação de articular a teoria em proveito da perspectiva de mudança
prática, pois uma subsidia a outra. Como resultado dessa
separação a prática educativa tende a reduzir-se ao extremo Há cerca de 20 anos, por iniciativa de movimentos de
do praticismo. Nesse sentido a didática visa contribuir para a educadores e, em paralelo, no âmbito do Ministério da
superação dessa dificuldade proporcionando ao profissional Educação, iniciava-se um debate nacional sobre a formação de
da educação embasamento teórico-prático. pedagogos e professores, com base na crítica da legislação
Os profissionais da educação precisam ter um pleno vigente e na realidade constatada nas instituições formadoras.
“domínio das bases teóricas científicas e tecnológicas, e sua O marco histórico de detonação do movimento pela
articulação com as exigências concretas do ensino”, pois é reformulação dos cursos de formação do educador foi a I
através desse domínio que ele poderá estar revendo, Conferência Brasileira de Educação realizada em São Paulo em
analisando e aprimorando sua prática educativa. 1980, abrindo-se o debate nacional sobre o curso de pedagogia
A prática educativa não pode ocorrer de maneira e os cursos de licenciatura. A trajetória desse movimento
espontânea, sem planejamento, metas e instrumentos, ela destaca-se pela densidade das discussões e pelo êxito na
deve estabelecer objetivos, os quais devem ser atingidos mobilização dos educadores, mas o resultado prático foi
utilizando-se da didática, que certamente facilitará o caminho modesto, não se tendo chegado até hoje a uma solução
a ser trilhado segundo meios viáveis e de acordo com cada razoável para os problemas da formação dos educadores, nem
realidade educacional, em proveito da ideia de homem que se no âmbito oficial nem no âmbito das instituições
deseja formar, de acordo com a sociedade em que este homem universitárias.
está inserido, pois “a didática não se limita só ao fazer, só ação A discussão sobre a identidade do curso de pedagogia, que
prática, mas também se vincula as demais instâncias e remonta aos pareceres de Valnir Chagas34 na condição de
aspectos da educação formal”. membro do antigo Conselho Federal de Educação, é retomada
nos encontros do Comitê Nacional Pró-formação do Educador,
Dessa forma, o trabalho do professor é reflexo de uma mais tarde transformada em Associação Nacional pela
AÇÃO x REFLEXÃO x AÇÃO, ou seja, é papel do professor Formação dos Profissionais da Educação, e é bastante
planejar a aula (AÇÃO), criar condições favoráveis de estudo recorrente para pesquisadores da área. Estes já apontavam,
dentro da sala de aula, estimulando a curiosidade e a em meados dos anos 80, a necessidade de se superar a
criatividade dos alunos (REFLEXÃO), reelaborar as aulas após fragmentação das habilitações no espaço escolar, propondo a
observadas as necessidades dos educandos (NOVA AÇÃO). superação das habilitações e especializações pela valorização
do pedagogo escolar:
Entretanto é necessário que haja uma interação mútua
entre docentes e discentes, pois não há ensino se os alunos não (...) a posição que temos assumido é a de que a escola pública
desenvolverem suas capacidades e habilidades mentais, ou necessita de um profissional denominado pedagogo, pois
seja, o professor dirige as atividades de aprendizagem dos entendemos que o fazer pedagógico, que ultrapassa a sala de
alunos a fim de que estes se tornem sujeitos ativos da própria aula e a determina, configura-se como essencial na busca de
aprendizagem. Portanto, podemos dizer que o processo novas formas de organizar a escola para que esta seja
didático se baseia no conjunto de atividades do professor e dos efetivamente democrática. A tentativa que temos feito é a de
alunos, sob a direção do professor, apenas como mediador, avançar da defesa corporativista dos especialistas para a
para que haja uma assimilação ativa de conhecimentos e necessidade política do pedagogo, no processo de
desenvolvimento das habilidades dos alunos. democratização da escolaridade.
Assim, é necessário para o planejamento de ensino que o
professor compreenda as relações entre educação escolar, os O curso de pedagogia – sem entrar agora no mérito de sua
objetivos pedagógicos e tenha um domínio seguro dos função, isto é, de formar professores ou especialistas ou ambos
conteúdos ao qual ele leciona, sendo assim capaz de conhecer – pouco se alterou em relação à Resolução no 252/69.
os programas oficiais e adequá-los ás necessidades reais da Experiências alternativas foram tentadas em algumas
escola e de seus alunos. instituições e o antigo CFE expediu alguns pareceres sobre
Um professor que aspira ter uma boa didática necessita “currículos experimentais”, mas nenhum deles, a rigor,
aprender a cada dia como lidar com a subjetividade do aluno, apresenta algo realmente inovador. Possíveis “novidades” no
sua linguagem, suas percepções e sua prática de ensino. Sem chamado “curso de pedagogia” seriam, por exemplo, a
essas condições o professor será incapaz de elaborar atribuição, ao lado de outras, da formação em nível superior de
problemas, desafios, perguntas relacionadas com os professores para as séries iniciais do Ensino Fundamental,
conteúdos, pois essas são as condições para que haja uma supressão das habilitações (administração escolar, orientação
aprendizagem significativa. No entanto para que o professor educacional, supervisão escolar etc.) e alterações na
atinja efetivamente seus objetivos, é preciso que ele saiba denominação de algumas disciplinas. Alterações geralmente
realizar vários processos didáticos coordenados entre si, tais inócuas, pois na maior parte dos casos foi mantida a prática da
como o planejamento, a direção do ensino da aprendizagem e grade curricular e os mesmos conteúdos das antigas
da avaliação. disciplinas, por exemplo, Organização do trabalho pedagógico
manteve o conteúdo da anterior Administração escolar.
Portanto é a didática que fundamenta a ação docente, é Em relação aos cursos de licenciatura, também não houve
através da didática que a teoria e a prática se consolidam de nenhuma mudança substantiva desde a Resolução no 292/62
forma viável e eficaz, pois ela se ocupa do processo de ensino do CFE, que dispunha sobre as matérias pedagógicas para a
nas várias dimensões, não se restringindo apenas a educação licenciatura. O que se tentou foram diferentes formas de
escolar, mas investiga e orienta a formação do educador na sua organização do percurso da formação, umas mantendo o 3+1
totalidade. já presente em 1939, outras distribuindo as disciplinas
pedagógicas ao longo do curso específico. Quanto ao local da
formação pedagógica, em alguns lugares ela foi mantida nas
faculdades de educação, em outros, foi deslocada, total ou
parcialmente, aos institutos/departamentos/cursos.

34 CHAGAS, Valnir. Formação do magistério: Novo sistema. São Paulo: Atlas, 1976.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 40


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Atualmente, a atuação do Ministério da Educação e do CNE Os cursos de formação de professores e os programas


na regulamentação da LDB no 9.394/96 tem provocado a mencionados, abrangendo todos os níveis da educação básica,
mobilização dos educadores de todos os níveis de ensino para serão realizados num Centro de Formação, Pesquisa e
rediscutir a formação de profissionais da educação. A nosso Desenvolvimento Profissional de Professores – CFPD, que
ver, não bastam iniciativas de formulação de reformas integrará a estrutura organizacional das faculdades de
curriculares, princípios norteadores de formação, novas educação e destinar-se-á à formação de professores para a
competências profissionais, novos eixos curriculares, base educação básica, da educação infantil ao Ensino Médio.
comum nacional etc. Faz-se necessária e urgente a definição Distinguindo o curso de pedagogia (stricto sensu) e o curso
explícita de uma estrutura organizacional para um sistema de formação de professores para as séries iniciais do Ensino
nacional de formação de profissionais da educação, incluindo Fundamental.
a definição dos locais institucionais do processo formativo. Na
verdade, reivindicamos o ordenamento legal e funcional de Formação teórico-prática articulada na formação
todo o conteúdo do Título VI da Lei de Diretrizes e Bases. inicial e contínua

O disposto nos artigos 61 caput e incisos e, 62 caput, da As investigações recentes sobre formação de professores
LDB é o seguinte: apontam como questão essencial o fato de que os professores
desempenham uma atividade teórico-prática. É difícil pensar
Art. 61. Consideram-se profissionais da educação escolar na possibilidade de educar fora de uma situação concreta e de
básica os que, nela estando em efetivo exercício e tendo sido uma realidade definida. A profissão de professor precisa
formados em cursos reconhecidos, são: combinar sistematicamente elementos teóricos com situações
I – professores habilitados em nível médio ou superior para práticas reais. Por essa razão, ao se pensar um currículo de
a docência na educação infantil e nos ensinos fundamental e formação, a ênfase na prática como atividade formadora
médio; aparece, à primeira vista, como exercício formativo para o
II – trabalhadores em educação portadores de diploma de futuro professor. Entretanto, em termos mais amplos, é um
pedagogia, com habilitação em administração, planejamento, dos aspectos centrais na formação do professor, em razão do
supervisão, inspeção e orientação educacional, bem como com que traz consequências decisivas para a formação profissional.
títulos de mestrado ou doutorado nas mesmas áreas; Atualmente, em boa parte dos cursos de licenciatura, a
III – trabalhadores em educação, portadores de diploma de aproximação do futuro professor à realidade escolar acontece
curso técnico ou superior em área pedagógica ou afim. após ele ter passado pela formação “teórica”, tanto na
IV - profissionais com notório saber reconhecido pelos disciplina especifica como nas disciplinas pedagógicas. O
respectivos sistemas de ensino, para ministrar conteúdos de caminho deve ser outro. Desde o ingresso dos alunos no curso,
áreas afins à sua formação ou experiência profissional, é preciso integrar os conteúdos das disciplinas em situações
atestados por titulação específica ou prática de ensino em da prática que coloquem problemas aos futuros professores e
unidades educacionais da rede pública ou privada ou das lhes possibilitem experimentar soluções. Isso significa ter a
corporações privadas em que tenham atuado, exclusivamente prática, ao longo do curso, como referente direto para
para atender ao inciso V do caput do art. 36; (Incluído pela lei contrastar seus estudos e formar seus próprios conhecimentos
nº 13.415, de 2017) e convicções a respeito. Ou seja, os alunos precisam conhecer
V - profissionais graduados que tenham feito o mais cedo possível os sujeitos e as situações com que irão
complementação pedagógica, conforme disposto pelo Conselho trabalhar. Significa tomar a prática profissional como instância
Nacional de Educação. (Incluído pela lei nº 13.415, de 2017) permanente e sistemática na aprendizagem do futuro
(...) professor e como referência para a organização curricular.
Significa, também, a articulação entre formação inicial e
Art. 62 A formação de docentes para atuar na educação formação continuada. Por um lado, a formação inicial estaria
básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura plena, estreitamente vinculada aos contextos de trabalho,
admitida, como formação mínima para o exercício do possibilitando pensar as disciplinas com base no que pede a
magistério na educação infantil e nos cinco primeiros anos do prática; cai por terra aquela ideia de que o estágio é aplicação
ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade da teoria. Por outro, a formação continuada, a par de ser feita
normal. (Redação dada pela lei nº 13.415, de 2017) na escola a partir dos saberes e experiências dos professores
adquiridos na situação de trabalho, articula-se com a formação
A proposta básica é a de que a formação dos profissionais inicial, indo os professores à universidade para uma reflexão
da educação para atuação na educação básica far-se-á, mais apurada sobre a prática. Em ambos os casos, estamos
predominantemente, nas atuais faculdades de educação, que diante de modalidades de formação em que há interação entre
oferecerão curso de pedagogia, cursos de formação de as práticas formativas e os contextos de trabalho. Com isso,
professores para toda a educação básica, programa especial de institui-se uma concepção de formação centrada na ideia de
formação pedagógica, programas de educação continuada e de escola como unidade básica da mudança educativa, em que as
pós-graduação. As faculdades de educação terão sob sua escolas são consideradas “espaços institucionais para a
responsabilidade a formulação e a coordenação de políticas e inovação e a melhoria e, simultaneamente, como contextos
planos de formação de professores, em articulação com as pró- privilegiados para a formação contínua de professores”
reitorias ou vice-reitorias de graduação das universidades ou (Escudero e Botia35).
órgãos similares nas demais Instituições de Ensino Superior,
com os institutos/faculdades/departamentos das áreas A favor de um curso específico de pedagogia
específicas e com as redes pública e privada de ensino.
O curso de pedagogia destinar-se-á à formação de Conforme vimos considerando, as faculdades de educação
profissionais interessados em estudos do campo teórico- sediariam, de forma articulada, o curso de pedagogia e a
investigativo da educação e no exercício técnico-profissional formação inicial e continuada de professores. O que é esse
como pedagogos no sistema de ensino, nas escolas e em outras curso de pedagogia? Trata-se de curso para a realização da
instituições educacionais, inclusive as não-escolares. investigação em estudos pedagógicos, tomando a pedagogia

35ESCUDERO, Juan M. e BOTIA, Bolívar. "Inovação e formação centrada na escola.


Uma perspectiva da realidade espanhola". In: AMIGUINHO, Abílio e CANÁRIO, Rui
(orgs.). Escolas e mudança: O papel dos Centros de Formação. Lisboa: Educa, 1994.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 41


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como campo teórico e como campo de atuação profissional. sistema de ensino e das escolas, assistência pedagógico-
Como campo teórico, destina-se à formação de profissionais didática a professores e alunos, avaliação educacional,
que desejem aprimorar a reflexão e a pesquisa sobre a pedagogia empresarial, animação cultural, produção e
educação e o ensino da pedagogia, propriamente dita. Como comunicação nas mídias etc.).
campo de atuação profissional, destina-se à preparação de
pesquisadores, planejadores, especialistas em avaliação, A existência desse curso tem como suporte algumas
gestores do sistema e da escola, coordenadores pedagógicos premissas:
ou de ensino, comunicadores especializados para atividades
escolares e extraescolares, animadores culturais, de A) O fenômeno educativo sujeita-se à pluralidade de
especialistas em educação a distância, de educadores de abordagens, à medida que a educação é objeto de várias
adultos no campo da formação continuada etc. ciências que o abordam de seu enfoque específico. O estudo da
A ampliação do campo educacional e, por consequência, da educação tem um caráter de multirreferencialidade – abarca
atuação pedagógica é uma realidade constatada por muitos tanto modalidades educativas escolares quanto
autores. extraescolares, como os movimentos sociais, a educação
O curso de pedagogia proposto tem correlatos em ambiental, educação comunitária, educação de grupos sociais
praticamente todos os países do mundo, embora em alguns marginalizados e de minorias sociais. Não é que se descarte o
lugares, especialmente na Europa, receba a designação de fato de que a educação escolar seja, ainda hoje, a forma
“ciências da educação”. Poder-se-ia perguntar: por que não histórica predominante de prática educativa. Mas, mesmo em
chamar esse curso de ciências da educação e não de benefício de uma educação escolar mais aberta e mais
pedagogia? Libâneo36 aponta, em publicação recente, quatro articulada com outras instâncias educativas fora de seu marco
posições a respeito desse assunto e sobre a denominação próprio, a ideia é a de que o educativo não se restrinja ao
“ciências da educação” escreve: escolar, uma vez que abrange as relações mais amplas entre o
indivíduo e o meio humano, social, físico, ecológico, cultural,
(..) tal denominação (...) é criticada por provocar dispersão econômico.
no estudo da problemática educativa, levando a uma postura
pluridisciplinar ao invés de interdisciplinar. Ou seja, a B) Se, por um lado, a compreensão ampliada da educação
autonomia dada a cada uma das ciências da educação levaria a fortalece as ciências da educação pelo fato de a pedagogia não
enfoques parciais da realidade educativa, comprometendo a ser a única área científica que tem a educação como objeto de
unidade temática e abrindo espaço para os vários estudo, por outro, não descaracteriza a especificidade da
reducionismos (sociológico, psicológico, econômico...), como pedagogia como uma das ciências da educação. Com efeito,
aliás a experiência brasileira tem confirmado. cada uma das chamadas ciências da educação (sociologia da
educação, psicologia da educação, linguística aplicada à
Assim, assume-se que a pedagogia se apoia nas ciências da educação, economia da educação etc.) aborda o fenômeno
educação, mas não perde com isso sua autonomia educativo da perspectiva de seus próprios conceitos e
epistemológica e não se reduz ao campo conceitual de uma ou métodos de investigação, ao passo que a pedagogia se
outra, nem ao conjunto dessas ciências. distingue por estudar o fenômeno educativo em sua
A pluridimensionalidade do fenômeno educativo não totalidade, inclusive para integrar os enfoques parciais
elimina sua unicidade, que permite “estabelecer um corpo daquelas ciências em função de uma aproximação global e
cientifico que tem o fenômeno educativo em seu conjunto intencionalmente dirigida aos problemas educativos.
como objeto de estudo, com a finalidade expressa de dar
coerência à multiplicidade de ações parcializadas”. Nessa C) Um currículo de pedagogia, além de contemplar como
concepção, a pedagogia promove a síntese integradora dos objeto de investigação a pluralidade das práticas educativas,
diferentes processos analíticos que correspondem a cada uma concentra sua temática investigativa nos saberes pedagógicos,
das ciências da educação em seu objeto específico de estudo. com a contribuição das ciências da educação, na forma de
Também Pimenta37 discute detidamente a questão inter-relação entre os saberes científicos. Ou seja, assume-se o
recorrendo a vários autores, argumentando pela necessidade entendimento de pedagogia como ciência da prática social da
de a pedagogia postular sua especificidade epistemológica, de educação para daí se definirem saberes pedagógicos. A
modo a não se conformar com uma mera posição de campo integração de conhecimentos pela inter-relação entre saberes
aplicado de outras ciências que também estudam a educação. decorre não apenas da pluralidade que caracteriza o fenômeno
Com base nisso, firma sua posição de que a pedagogia tem sua educativo, mas também de uma tendência irrefreável das
significação epistemológica assumindo-se como ciência da ciências no mundo contemporâneo buscarem a integração
prática social da educação. entre os saberes, sem perder de vista a especificidade
Diferentemente das demais ciências da educação, a disciplinar.
pedagogia é ciência da prática. Ela não se constrói como
discurso sobre a educação, mas a partir da prática dos O currículo terá uma forte orientação para a pesquisa, seja
educadores tomada como referência para a construção de como prática acadêmica, seja como atitude. Ressaltem-se, aí,
saberes, no confronto com os saberes teóricos. (...) O os vínculos entre o ensino e a pesquisa, a pesquisa como forma
objeto/problema da pedagogia é a educação enquanto prática básica de construção do saber, em confronto, em
social. Daí seu caráter específico que a diferencia das demais questionamento, com os saberes já estabelecidos e como
(ciências da educação), que é o de uma ciência prática – parte instrumento para desenvolvimento das competências do
da prática e a ela se dirige. A problemática educativa e sua pensar. Tal concepção de pedagogia deveria transpassar toda
superação constituem o ponto central de referência para a a formação pedagógica nos cursos de formação de professores,
investigação. da educação infantil ao Ensino Médio.
Defendemos, pois, a criação do curso de pedagogia, um
curso que oferece formação teórica, científica e técnica para A defesa de um local institucional específico para
interessados no aprofundamento da teoria e da pesquisa formar professores
pedagógica e no exercício de atividades pedagógicas
específicas (planejamento de políticas educacionais, gestão do

36 LIBÂNEO, José C. Pedagogia e pedagogos, para quê? São Paulo: Cortez, 1998. 37 PIMENTA, Selma G. O pedagogo na escola pública. São Paulo: Loyola, 1988.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 42


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A atividade docente vem se modificando em decorrência profissional dos professores. O desenvolvimento profissional
de transformações nas concepções de escola e nas formas de envolve formação inicial e contínua articuladas a um processo
construção do saber, resultando na necessidade de se repensar de valorização identitária e profissional dos professores.
a intervenção pedagógico-didática na prática escolar. Um dos Identidade que é epistemológica, ou seja, que reconhece a
aspectos cruciais dessas transformações, os quais têm se docência como um campo de conhecimentos específicos
evidenciado em avaliações educacionais como o Saresp, é o configurados em quatro grandes conjuntos, a saber: conteúdos
investimento na qualidade da formação dos docentes e no das diversas áreas do saber e do ensino, ou seja, das ciências
aperfeiçoamento das condições de trabalho nas escolas, para humanas e naturais, da cultura e das artes; conteúdos didático-
que estas favoreçam a construção coletiva de projetos pedagógicos (diretamente relacionados ao campo da prática
pedagógicos capazes de alterar os quadros de reprovação, profissional); conteúdos relacionados a saberes pedagógicos
retenção e da qualidade social e humana dos resultados da mais amplos (do campo teórico da prática educacional) e
escolarização. conteúdos ligados à explicitação do sentido da existência
Tem sido unânime a insatisfação de gestores, humana (individual, sensibilidade pessoal e social). E
pesquisadores e professores com as formas convencionais de identidade que é profissional. Ou seja, a docência constituiu
se formar professores em nosso país. Realizados em dois um campo específico de intervenção profissional na prática
níveis de ensino – Médio e Superior –, os atuais cursos não dão social – não é qualquer um que pode ser professor.
conta de preparar o professor com a qualidade que se exige Uma visão progressista de desenvolvimento profissional
hoje desse profissional. No nível médio, realiza-se a formação exclui uma concepção de formação baseada na racionalidade
dos professores das quatro séries iniciais do Ensino técnica (em que os professores são considerados mero
Fundamental e, em alguns casos, a formação dos professores executores de decisões alheias) e assume a perspectiva de
para a educação infantil. Às vezes esses profissionais são considerá-los em sua capacidade de decidir e de rever suas
formados no nível superior (nos atualmente chamados cursos práticas e as teorias que as informam, pelo confronto de suas
de pedagogia). Os professores para as séries seguintes do ações cotidianas com as produções teóricas, pela pesquisa da
Ensino Fundamental e para o Ensino Médio são formados no prática e a produção de novos conhecimentos para a teoria e a
nível superior, recorrendo ao velho esquema dos cursos de prática de ensinar. Considera, assim, que as transformações
bacharelado e licenciatura. Conforme mencionamos das práticas docentes só se efetivam na medida em que o
anteriormente, essas modalidades de formação já professor amplia sua consciência sobre a própria prática, a da
demonstraram historicamente seu esgotamento (em nosso sala de aula e a da escola como um todo, o que pressupõe
país e em vários outros). Dentro desse quadro, o conhecimentos teóricos e críticos sobre a realidade.
aprimoramento do processo de formação de professores Dessa forma, os professores contribuem para a criação, o
requer muita ousadia e criatividade para que se construam desenvolvimento e a transformação nos processos de gestão,
novos e mais promissores modelos educacionais necessários à nos currículos, na dinâmica organizacional, nos projetos
urgente e fundamental tarefa de melhoria da qualidade do educacionais e em outras formas de trabalho pedagógico. Por
ensino no país. esse raciocínio, reformas gestadas nas instituições, sem tomar
A LDB no 9.394/96, em seu art. 62, estabelece como regra os professores como parceiros/autores, não transformam a
que a formação dos docentes para a educação fundamental e escola na direção da qualidade social. Em consequência,
para a educação infantil far-se-á em nível superior. A elevação valorizar o trabalho docente significa dotar os professores de
da formação docente em nível superior, reivindicação antiga perspectivas de análise que os ajudem a compreender os
dos educadores em nosso país e já consolidada em grande contextos históricos, sociais, culturais, organizacionais nos
parte dos países desenvolvidos, fica assim contemplada. No quais se dá sua atividade docente.
mesmo art. 62, no entanto, admite-se como formação mínima Nas últimas décadas assistimos a uma ampliação das
para as séries iniciais e para a educação infantil, “a oferecida oportunidades de acesso à escola, em que pesem as diferenças
em nível médio, na modalidade Normal”, Redação dada pela lei entre as regiões. Poder-se-ia concluir que o país tem uma
nº 13.415, de 2017. escola que realizou a inclusão social de todos? Não nos parece,
pois a essa ampliação quantitativa, em grande parte resultante
Que professor queremos formar? da reivindicação dos educadores e da população, não
correspondeu a melhoria das condições de trabalho, de
Na sociedade contemporânea, as rápidas transformações jornada, de organização e funcionamento, de formação e
no mundo do trabalho, o avanço tecnológico configurando a valorização do professor, fatores essenciais para a qualidade
sociedade virtual e os meios de informação e comunicação do ensino. Sem isso, a escola quantitativamente ampliada
incidem com bastante força na escola, aumentando os desafios permanece excludente. Ao desenvolver um ensino aligeirado,
para torná-la uma conquista democrática efetiva. Não é tarefa impossibilita a inserção social de crianças e jovens de classes
simples nem para poucos. Transformar as escolas em suas sociais mais pobres em igualdade de condições com aqueles
práticas e culturas tradicionais e burocráticas – as quais, por dos segmentos economicamente favorecidos, acentuando a
meio da retenção e da evasão, acentuam a exclusão social – em exclusão social.
escolas que eduquem as crianças e os jovens, propiciando-lhes Uma escola que inclua, ou seja, que eduque todas as
um desenvolvimento cultural, científico e tecnológico que lhes crianças e jovens, com qualidade, superando os efeitos
assegure condições para fazerem frente às exigências do perversos das retenções e evasões, propiciando-lhes um
mundo contemporâneo, exige esforço do coletivo da escola – desenvolvimento cultural que lhes assegure condições para
professores, funcionários, diretores e pais de alunos –, dos fazerem frente às exigências do mundo contemporâneo,
sindicatos, dos governantes e de outros grupos sociais precisa de condições para que, com base na análise e na
organizados. valorização das práticas existentes que já apontam para
Não se ignora que esse desafio precisa ser formas de inclusão, se criem novas práticas: de aula, de gestão,
prioritariamente enfrentado no campo das políticas públicas. de trabalho dos professores e dos alunos, formas coletivas,
Todavia, não é menos certo que os professores são currículos interdisciplinares, uma escola rica de material e de
profissionais essenciais na construção dessa nova escola. experiências, como espaço de formação contínua, e tantas
Entendendo que a democratização do ensino passa pela sua outras. Por sua vez, os professores contribuem com seus
formação, sua valorização profissional, suas condições de saberes específicos, seus valores, suas competências, nessa
trabalho, pesquisas e experiências inovadoras têm apontado complexa empreitada, para o que se requer condições salariais
para a importância do investimento no desenvolvimento

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e de trabalho, formação inicial de qualidade e espaços de A aula é norteada por uma série de componentes, que vão
formação contínua. conduzir o processo didático facilitando tanto o
Dada a natureza do trabalho docente, que é ensinar como desenvolvimento das atividades educacionais pelo educador
contribuição ao processo de humanização dos alunos como a compreensão e entendimento pelos indivíduos em
historicamente situados, espera-se dos processos de formação formação; ela deve, pois, ter uma estruturação e organização,
que desenvolvam conhecimentos e habilidades, competências, afim de que sejam alcançados os objetivos do ensino.
atitudes e valores que possibilitem aos professores ir Ao preparar uma aula o professor deve estar atento às
construindo seus saberes-fazeres docentes a partir das quais interesses e necessidades almeja atender, o que
necessidades e desafios que o ensino como prática social lhes pretende com a aula, quais seus objetivos e o que é de caráter
coloca no cotidiano. Espera-se, pois, que mobilizem os urgente naquele momento. A organização e estruturação
conhecimentos da teoria da educação e do ensino, das áreas do didática da aula têm por finalidade proporcionar um trabalho
conhecimento necessárias à compreensão do ensino como mais significativo e bem elaborado para a transmissão dos
realidade social, e que desenvolvam neles a capacidade de conteúdos. O estabelecimento desses caminhos proporciona
investigar a própria atividade (a experiência) para, a partir ao professor um maior controle do processo e aos alunos uma
dela, constituírem e transformarem os seus saberes-fazeres orientação mais eficaz, que vá de acordo com previsto.
docentes, num processo contínuo de construção de suas As indicações das etapas para o desenvolvimento da aula,
identidades como professores. não significa que todas elas devam seguir um cronograma
Em síntese, dizemos que o professor é um profissional do rígido, pois isso depende dos objetivos, conteúdos da
humano que: ajuda o desenvolvimento pessoal/intersubjetivo disciplina, recursos disponíveis e das características dos
do aluno; um facilitador do acesso do aluno ao conhecimento alunos e de cada aluno e situações didáticas especificas.
(informador informado); um ser de cultura que domina de Dentro da organização da aula destacaremos agora seus
forma profunda sua área de especialidade (científica e Componentes Didáticos, que são também abordados em
pedagógica/educacional) e seus aportes para compreender o alguns trabalhos como elementos estruturantes do ensino
mundo; um analista crítico da sociedade, portanto, que nela didático. São eles: os objetivos (gerais e específicos), os
intervém com sua atividade profissional; um membro de uma conteúdos, os métodos, os meios e as avaliações.
comunidade de profissionais, portanto, científica (que produz
conhecimento sobre sua área) e social. Objetivos
Esse profissional deve ser formado nas universidades, que
é o lugar da produção social do conhecimento, da circulação da São metas que se deseja alcançar, para isso usa-se de
produção cultural em diferentes áreas do saber e do diversos meios para se chegar ao esperado. Os objetivos
permanente exercício da crítica histórico-social. educacionais expressam propósitos definidos, pois o professor
quando vai ministrar a aula já vai com os objetivos definidos.
A Organização da Aula e Seus Componentes Didáticos Eles têm por finalidade, preparar o docente para determinar o
do Processo Educacional que se requer com o processo de ensino, isto é prepará-lo para
estabelecer quais as metas a serem alcançadas, eles
A aula é a forma predominante pela qual é organizado o constituem uma ação intencional e sistemática.
processo de ensino e aprendizagem. É o meio pelo qual o Os objetivos são exigências que requerem do professor um
professor transmite aos seus alunos conhecimentos posicionamento reflexivo, que o leve a questionamentos sobre
adquiridos no seu processo de formação, experiências de vida, a sua própria prática, sobre os conteúdos os materiais e os
conteúdos específicos para a superação de dificuldades e métodos pelos quais as práticas educativas se concretizam. Ao
meios para a construção de seu próprio conhecimento, nesse elaborar um plano de aula, por exemplo, o professor deve levar
sentido sendo protagonista de sua formação humana e escolar. em conta muitos questionamentos acerca dos objetivos que
É ainda o espaço de interação entre o professor e o aspira, como O que? Para que? Como? E Para quem ensinar? É
indivíduo em formação constituindo um espaço de troca isso só irá melhorar didaticamente as suas ações no
mútua. A aula é o ambiente propício para se pensar, criar, planejamento da aula.
desenvolver e aprimorar conhecimentos, habilidades, atitudes Não há prática educativa sem objetivos; uma vez que estes
e conceitos, é também onde surgem os questionamentos, integram o ponto de partida, as premissas gerais para o
indagações e respostas, em uma busca ativa pelo processo pedagógico. Os objetivos são um guia para orientar a
esclarecimento e entendimento acerca desses prática educativa sem os quais não haveria uma lógica para
questionamentos e investigações. orientar o processo educativo.
Por intermédio de um conjunto de métodos, o educador Para que o processo de ensino-aprendizagem aconteça de
busca melhor transmitir os conteúdos, ensinamentos e modo mais organizado faz-se necessário, classificar os
conhecimentos de uma disciplina, utilizando-se dos recursos objetivos de acordo com os seus propósitos e abrangência, se
disponíveis e das habilidades que possui para infundir no são mais amplos, denominados objetivos gerais e se são
aluno o desejo pelo saber. destinados a determinados fins com relação aos alunos,
Deve-se ainda compreender a aula como um conjunto de chamados de objetivos específicos.
meios e condições por meio das quais o professor orienta, guia
e fornece estímulos ao processo de ensino em função da Objetivos Gerais: exprimem propósitos mais amplos
atividade própria dos alunos, ou seja, da assimilação e acerca do papel da escola e do ensino diante das exigências
desenvolvimento de habilidades naturais do aluno na postas pela realidade social e diante do desenvolvimento da
aprendizagem educacional. Sendo a aula um lugar privilegiado personalidade dos alunos. Por isso ele também afirma que os
da vida pedagógica refere-se às dimensões do processo objetivos educacionais transcendem o espaço da sala de aula
didático preparado pelo professor e por seus alunos. atuando na capacitação do indivíduo para as lutas sociais de
Aula é toda situação didática na qual se põem objetivos, transformação da sociedade, e isso fica claro, uma vez que os
conhecimentos, problemas, desafios com fins instrutivos e objetivos têm por fim formar cidadãos que venham a atender
formativos, que incitam as crianças e jovens a aprender. Cada os anseios da coletividade.
aula é única, pois ela possui seus próprios objetivos e métodos
que devem ir de acordo com a necessidade observada no Objetivos Específicos: compreendem as intencionalidades
educando. específicas para a disciplina, os caminhos traçados para que se
possa alcançar o maior entendimento, desenvolvimento de

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habilidades por parte dos alunos que só se concretizam no nas atividades e o educando é o receptor ativo e atuante, que
decorrer do processo de transmissão e assimilação dos através de suas ações responde ao proposto produzindo assim
estudos propostos pelas disciplinas de ensino e aprendizagem. conhecimentos. O papel do professor é levar o aluno a
Expressam as expectativas do professor sobre o que deseja desenvolver sua autonomia de pensamento.
obter dos alunos no decorrer do processo de ensino. Têm
sempre um caráter pedagógico, porque explicitam a direção a Métodos de Ensino
ser estabelecida ao trabalho escolar, em torno de um programa
de formação. Métodos de ensino são as formas que o professor organiza
as suas atividades de ensino e de seus alunos com a finalidade
Conteúdos de atingir objetivos do trabalho docente em relação aos
conteúdos específicos que serão aplicados. Os métodos de
Os conteúdos de ensino são constituídos por um conjunto ensino regulam as formas de interação entre ensino e
de conhecimentos. É a forma pela qual, o professor expõe os aprendizagem, professor e os alunos, na qual os resultados
saberes de uma disciplina para ser trabalhado por ele e pelos obtidos é assimilação consciente de conhecimentos e
seus alunos. Esses saberes são advindos do conjunto social desenvolvimento das capacidades cognoscitivas e operativas
formado pela cultura, a ciência, a técnica e a arte. Constituem dos alunos.
ainda o elemento de mediação no processo de ensino, pois Segundo Libâneo a escolha e organização os métodos de
permitem ao discente através da assimilação o conhecimento ensino devem corresponder à necessária unidade objetivos-
histórico, cientifico, cultural acerca do mundo e possibilitam conteúdos-métodos e formas de organização do ensino e as
ainda a construção de convicções e conceitos. condições concretas das situações didáticas. Os métodos de
O professor, na sala de aula, utiliza-se dos conteúdos da ensino dependem das ações imediatas em sala de aula, dos
matéria para ajudar os alunos a desenvolverem competências conteúdos específicos, de métodos peculiares de cada
e habilidades de observar a realidade, perceber as disciplina e assimilação, além disso, esses métodos implica o
propriedades e características do objeto de estudo, conhecimento das características dos alunos quanto à
estabelecer relações entre um conhecimento e outro, adquirir capacidade de assimilação de conteúdos conforme a idade e o
métodos de raciocínio, capacidade de pensar por si próprios, nível de desenvolvimento mental e físico e suas características
fazer comparações entre fatos e acontecimentos, formar socioculturais e individuais.
conceitos para lidar com eles no dia-a-dia de modo que sejam A relação objetivo-conteúdo-método procuram mostrar
instrumentos mentais para aplicá-los em situações da vida que essas unidades constituem a linhagem fundamental de
prática. Neste contexto pretende-se que os conteúdos compreensão do processo didático: os objetivos, explicitando
aplicados pelo professor tenham como fundamento não só a os propósitos pedagógicos intencionais e planejados de
transmissão das informações de uma disciplina, mas que esses instrução e educação dos alunos, para a participação na vida
conteúdos apresentem relação com a realidade dos discentes social; os conteúdos, constituindo a base informativa concreta
e que sirvam para que os mesmos possam enfrentar os para alcançar os objetivos e determinar os métodos; os
desafios impostos pela vida cotidiana. Estes devem também métodos, formando a totalidade dos passos, formas didáticas e
proporcionar o desenvolvimento das capacidades intelectuais meios organizativos do ensino que viabilizam a assimilação
e cognitivas do aluno, que o levem ao desenvolvimento crítico dos conteúdos, e assim, o atingimento dos objetivos.
e reflexivo acerca da sociedade que integram. No trabalho docente, os professores selecionam e
Os conteúdos de ensino devem ser vistos como uma organizam seus métodos e procedimentos didáticos de acordo
relação entre os seus componentes, matéria, ensino e o com cada matéria. Dessa forma destacamos os principais
conhecimento que cada aluno já traz consigo. Pois não basta métodos de ensino utilizado pelo professor em sala de aula:
apenas a seleção e organização lógica dos conteúdos para método de exposição pelo professor, método de trabalho
transmiti-los. Antes os conteúdos devem incluir elementos da independente, método de elaboração conjunta, método de
vivência prática dos alunos para torná-los mais significativos, trabalho em grupo. Nestes métodos, os conhecimentos,
mais vivos, mais vitais, de modo que eles possam assimilá-los habilidades e tarefas são apresentados, explicadas e
de forma ativa e consciente. Ao proferir estas palavras, o autor demonstradas pelo professor, além dos trabalhos planejados
aponta para um elemento de fundamental importância na individuais, a elaboração conjunta de atividades entre
preparação da aula, a contextualização dos conteúdos. professores e alunos visando à obtenção de novos
conhecimentos e os trabalhos em grupo. Dessa maneira
A) Contextualização dos conteúdos designamos todos os meios e recursos matérias utilizados pelo
A contextualização consiste em trazer para dentro da sala professor e pelos alunos para organização e condução
de aula questões presentes no dia a dia do aluno e que vão metódica do processo de ensino e aprendizagem.
contribuir para melhorar o processo de ensino e
aprendizagem do mesmo. Valorizando desta forma o contexto Avaliação Escolar
social em que ele está inserido e proporcionando a reflexão
sobre o meio em que se encontra, levando-o a agir como A avaliação escolar é uma tarefa didática necessária para o
construtor e transformador deste. Então, pois, ao selecionar e trabalho docente, que deve ser acompanhado passo a passo no
organizar os conteúdos de ensino de uma aula o professor processo de ensino e aprendizagem. Através da mesma, os
deve levar em consideração a realidade vivenciada pelos resultados vão sendo obtidos no decorrer do trabalho em
alunos. conjunto entre professores e alunos, a fim de constatar
progressos, dificuldades e orientá-los em seus trabalhos para
B) A relação professor-aluno no processo de ensino e as correções necessárias.
aprendizagem A avaliação escolar é uma tarefa complexa que não se
O professor no processo de ensino é o mediador entre o resume à realização de provas e atribuição de notas, ela
indivíduo em formação e os conhecimentos prévios de uma cumpre funções pedagógico-didáticas, de diagnóstico e de
matéria. Tem como função planejar, orientar a direção dos controle em relação ao rendimento escolar.
conteúdos, visando à assimilação constante pelos alunos e o A função pedagógico-didática refere-se ao papel da
desenvolvimento de suas capacidades e habilidades. É uma avaliação no cumprimento dos objetivos gerais e específicos
ação conjunta em que o educador é o promotor, que faz da educação escolar. Ao comprovar os resultados do processo
questionamentos, propõem problemas, instiga, faz desafios de ensino, evidencia ou não o atendimento das finalidades

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sociais do ensino, de preparação dos alunos para enfrentar as (C) Didática é caracterizada como um todo, organizada em
exigências da sociedade e inseri-los ao meio social. Ao mesmo função de propósitos e de saberes educativos.
tempo, favorece uma atitude mais responsável do aluno em (D) Didática é ligada ao estudo dos processos e práticas
relação ao estudo, assumindo-o como um dever social. Já a pedagógicas institucionalizadas.
função de diagnóstico permite identificar progressos e (E) Didática está associada ao conteúdo, ao programa dos
dificuldades dos alunos e a atuação do professor que, por sua processos de formação.
vez, determinam modificações do processo de ensino para
melhor cumprir as exigências dos objetivos. A função do 02. (SEDUC/CE - Professor Pleno I – CESPE). Com
controle se refere aos meios e a frequência das verificações e relação às características e às propriedades relativas à didática
de qualificação dos resultados escolares, possibilitando o e à formação dos professores, assinale a opção correta.
diagnóstico das situações didáticas. (A) A relação entre o professor, o aluno e o ensino de
No entanto, a avaliação durante a pratica escolar tem sido conceitos científicos constitui uma tríade na qual convergem
bastante criticada sobre tudo por reduzir-se à sua função de apenas estudos teóricos de diferentes domínios do
controle, mediante a qual se faz uma classificação quantitativa conhecimento.
dos alunos relativa às notas que obtiveram nas provas. Os (B) Didática é a articulação entre teoria e prática na
professores não têm conseguido usar os procedimentos de formação do professor.
avaliação que sem dúvida, implicam o levantamento de dados (C) A formação do professor de biologia é complexa e
por meio de testes, trabalhos escritos etc. Em relação aos envolve inúmeras disciplinas que, pela especificidade de cada
objetivos, funções e papel da avaliação na melhoria das uma delas, não devem se complementar.
atividades escolares e educativas, tem-se verificado na pratica (D) Um dos princípios gerais da didática é o foco em
escolar alguns equívocos. conteúdos e atividades de ensino que tenham sentido
O mais comum é tomar a avaliação unicamente como o ato essencialmente pedagógicos.
de aplicar provas, atribuir notas e classificar os alunos. O (E) Uma formação global e integral de professores de
professor reduz a avaliação à cobrança daquilo que o aluno biologia requer especialização do professor em determinada
memorizou e usa a nota somente como instrumento de disciplina do curso.
controle. Tal ideia é descabida, primeiro porque a atribuição
de notas visa apenas o controle formal, com objetivo Respostas
classificatório e não educativo; segundo porque o que importa 01. A / 02.B
é o veredito do professor sobre o grau de adequação e
conformidade do aluno ao conteúdo que transmite. Outro
equívoco é utilizar a avaliação como recompensa aos bons Aspectos legais e políticos
alunos e punição para os desinteressados, além disso, os da organização da educação
professores confiam demais em seu olho clínico, dispensam
verificações parciais no decorrer das aulas e aqueles que brasileira.
rejeitam as medidas quantitativas de aprendizagem em favor
de dados qualitativos.
O entendimento correto da avaliação consiste em Observação: esse assunto será abordado no tópico “Lei
considerar a relação mútua entre os aspectos quantitativos e Federal 9.394, de 20 de dezembro de 1996.”
qualitativos. A escola cumpre uma função determinada
socialmente, a de introduzir as crianças, jovens e adultos no
mundo da cultura e do trabalho, tal objetivo não surge Políticas educacionais para
espontaneamente na experiência das crianças, jovens e a educação básica: as
adultos, mas supõe as perspectivas traçadas pela sociedade e
controle por parte do professor. Por outro lado, a relação
diretrizes curriculares
pedagógica requer a independência entre influências externas nacionais. (etapas e
e condições internas do aluno, pois nesse contexto o professor modalidades).
deve organizar o ensino objetivando o desenvolvimento
autônomo e independente do aluno.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
Referência: CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO38
SANTOS, E. P. dos; BATISTA, I. C.; M. L. da S.; SILVA, M. de F. F. da. O processo
didático educativo: Uma análise reflexiva sobre o processo de ensino e a PARECER CNE/CEB Nº: 7/2010
aprendizagem. Disponível em:
http://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/pedagogia/processo-didatico- I – RELATÓRIO
educativo-analise-reflexiva-sobre-processo-ensino-aprendizagem.htm

LIBANEO, José Carlos; PIMENTA, Selma Garrido. Formação de profissionais 1.Histórico


da educação: visão crítica e perspectiva de mudança. Educ. Soc., Campinas, v.
20, n. 68, p. 239-277, Dec. 1999. Na organização do Estado brasileiro, a matéria educacional
é conferida pela Lei nº 9.394/96, de Diretrizes e Bases da
Questões Educação Nacional (LDB), aos diversos entes federativos:
União, Distrito Federal, Estados e Municípios, sendo que a cada
01. (UFPE - Pedagogo – COVEST-COPSET). Das um deles compete organizar seu sistema de ensino, cabendo,
alternativas abaixo, assinale a compatível com a didática. ainda, à União a coordenação da política nacional de educação,
(A) Didática relaciona-se com o estudo dos elementos articulando os diferentes níveis e sistemas e exercendo função
substantivos ou nucleares do currículo. normativa, redistributiva e supletiva (artigos 8º, 9º, 10 e 11).
(B) Didática é reconhecida como um espaço próprio no No tocante à Educação Básica, é relevante destacar que,
domínio científico da educação. entre as incumbências prescritas pela LDB aos Estados e ao
Distrito Federal, está assegurar o Ensino Fundamental e

38 http://pactoensinomedio.mec.gov.br/images/pdf/pceb007_10.pdf

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oferecer, com prioridade, o Ensino Médio a todos que o Nacionais para a Educação Infantil e para o Ensino
demandarem. E ao Distrito Federal e aos Municípios cabe Fundamental. Nessa Indicação, justificava-se que tais
oferecer a Educação Infantil em Creches e Pré-Escolas, e, com Diretrizes encontravam-se defasadas, segundo avaliação
prioridade, o Ensino Fundamental. nacional sobre a matéria nos últimos anos, e superadas em
Em que pese, entretanto, a autonomia dada aos vários decorrência dos últimos atos legais e normativos,
sistemas, a LDB, no inciso IV do seu artigo 9º, atribui à União particularmente ao tratar da matrícula no Ensino
estabelecer, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal Fundamental de crianças de 6 (seis) anos e consequente
e os municípios, competências e diretrizes para a Educação ampliação do Ensino Fundamental para 9 (nove) anos de
Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, que nortearão duração. Imprescindível acrescentar que a nova redação do
os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar inciso I do artigo 208 da nossa Carta Magna, dada pela Emenda
formação básica comum. Constitucional nº 59/2009, assegura Educação Básica
A formulação de Diretrizes Curriculares Nacionais obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos de idade, inclusive a
constitui, portanto, atribuição federal, que é exercida pelo sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso
Conselho Nacional de Educação (CNE), nos termos da LDB e da na idade própria.
Lei nº 9.131/95, que o instituiu. Esta lei define, na alínea “c” do Nesta perspectiva, o processo de formulação destas
seu artigo 9º, entre as atribuições de sua Câmara de Educação Diretrizes foi acordado, em 2006, pela Câmara de Educação
Básica (CEB), deliberar sobre as Diretrizes Curriculares Básica com as entidades: Fórum Nacional dos Conselhos
propostas pelo Ministério da Educação. Esta competência para Estaduais de Educação, União Nacional dos Conselhos
definir as Diretrizes Curriculares Nacionais torna-as Municipais de Educação, Conselho dos Secretários Estaduais
mandatórias para todos os sistemas. Ademais, atribui-lhe, de Educação, União Nacional dos Dirigentes Municipais de
entre outras, a responsabilidade de assegurar a participação Educação, e entidades representativas dos profissionais da
da sociedade no aperfeiçoamento da educação nacional (artigo educação, das instituições de formação de professores, das
7º da Lei nº 4.024/61, com redação dada pela Lei 8.131/95), mantenedoras do ensino privado e de pesquisadores em
razão pela qual as diretrizes constitutivas deste Parecer educação.
consideram o exame das avaliações por elas apresentadas, Para a definição e o desenvolvimento da metodologia
durante o processo de implementação da LDB. destinada à elaboração deste Parecer, inicialmente, foi
O sentido adotado neste Parecer para diretrizes está constituída uma comissão que selecionou interrogações e
formulado na Resolução CNE/CEB nº 2/98, que as delimita temas estimuladores dos debates, a fim de subsidiar a
como conjunto de definições doutrinárias sobre princípios, elaboração do documento preliminar visando às Diretrizes
fundamentos e procedimentos na Educação Básica (...) que Curriculares Nacionais para a Educação Básica, sob a
orientarão as escolas brasileiras dos sistemas de ensino, na coordenação da então relatora, conselheira Maria Beatriz
organização, na articulação, no desenvolvimento e na avaliação Luce. (Portaria CNE/CEB nº 1/2006)
de suas propostas pedagógicas. A comissão promoveu uma mobilização nacional das
Por outro lado, a necessidade de definição de Diretrizes diferentes entidades e instituições que atuam na Educação
Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica está Básica no País, mediante:
posta pela emergência da atualização das políticas
educacionais que consubstanciem o direito de todo brasileiro I – encontros descentralizados com a participação de
à formação humana e cidadã e à formação profissional, na Municípios e Estados, que reuniram escolas públicas e
vivência e convivência em ambiente educativo. Têm estas particulares, mediante audiências públicas regionais,
Diretrizes por objetivos: viabilizando ampla efetivação de manifestações;
II – revisões de documentos relacionados com a
I – sistematizar os princípios e diretrizes gerais da Educação Educação Básica, pelo CNE/CEB, com o objetivo de
Básica contidos na Constituição, na LDB e demais dispositivos promover a atualização motivadora do trabalho das
legais, traduzindo-os em orientações que contribuam para entidades, efetivadas, simultaneamente, com a discussão do
assegurar a formação básica comum nacional, tendo como foco regime de colaboração entre os sistemas educacionais,
os sujeitos que dão vida ao currículo e à escola; contando, portanto, com a participação dos conselhos
II – estimular a reflexão crítica e propositiva que deve estaduais e municipais.
subsidiar a formulação, execução e avaliação do projeto
político-pedagógico da escola de Educação Básica; Inicialmente, partiu-se da avaliação das diretrizes
III – orientar os cursos de formação inicial e continuada de destinadas à Educação Básica que, até então, haviam sido
profissionais – docentes, técnicos, funcionários - da Educação estabelecidas por etapa e modalidade, ou seja, expressando-se
Básica, os sistemas educativos dos diferentes entes federados e nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil;
as escolas que os integram, indistintamente da rede a que para o Ensino Fundamental; para o Ensino Médio; para a
pertençam. Educação de Jovens e Adultos; para a Educação do Campo;
para a Educação Especial; e para a Educação Escolar Indígena.
Nesse sentido, as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais Ainda em novembro de 2006, em Brasília, foi realizado o
para a Educação Básica visam estabelecer bases comuns Seminário Nacional Currículo em Debate, promovido pela
nacionais para a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Secretaria de Educação Básica/MEC, com a participação de
Ensino Médio, bem como para as modalidades com que podem representantes dos Estados e Municípios. Durante esse
se apresentar, a partir das quais os sistemas federal, estaduais, Seminário, a CEB realizou a sua trigésima sessão ordinária na
distrital e municipais, por suas competências próprias e qual promoveu Debate Nacional sobre as Diretrizes
complementares, formularão as suas orientações assegurando Curriculares para a Educação Básica, por etapas. Esse debate
a integração curricular das três etapas sequentes desse nível foi denominado Colóquio Nacional sobre as Diretrizes
da escolarização, essencialmente para compor um todo Curriculares Nacionais. A partir desse evento e dos demais que
orgânico. o sucederam, em 2007, e considerando a alteração do quadro
Além das avaliações que já ocorriam assistematicamente, de conselheiros do CNE e da CEB, criou-se, em 2009, nova
marcou o início da elaboração deste Parecer, particularmente, comissão responsável pela elaboração dessas Diretrizes,
a Indicação CNE/CEB nº 3/2005, assinada pelo então constituída por Adeum Hilário Sauer (presidente), Clélia
conselheiro da CEB, Francisco Aparecido Cordão, na qual Brandão Alvarenga Craveiro (relatora), Raimundo Moacir
constava a proposta de revisão das Diretrizes Curriculares Mendes Feitosa e José Fernandes de Lima (Portaria CNE/CEB

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nº 2/2009). Essa comissão reiniciou os trabalhos já IV – a aprovação do Fundo de Manutenção e


organizados pela comissão anterior e, a partir de então, vem Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
acompanhando os estudos promovidos pelo MEC sobre Professores da Educação (FUNDEB), regulado pela Lei nº
currículo em movimento, no sentido de atuar articulada e 11.494/2007, que fixa percentual de recursos a todas as etapas
integradamente com essa instância educacional. e modalidades da Educação Básica;
Durante essa trajetória, os temas considerados pertinentes V – a criação do Conselho Técnico Científico (CTC) da
à matéria objeto deste Parecer passaram a se constituir nas Educação Básica, da Coordenação de Aperfeiçoamento de
seguintes ideias-força: Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação
(Capes/MEC);
I – as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a VI – a formulação, aprovação e implantação das medidas
Educação Básica devem presidir as demais diretrizes expressas na Lei nº 11.738/2008, que regulamenta o piso
curriculares específicas para as etapas e modalidades, salarial profissional nacional para os profissionais do
contemplando o conceito de Educação Básica, princípios de magistério público da Educação Básica;
organicidade, sequencialidade e articulação, relação entre as VII – a criação do Fórum Nacional dos Conselhos de
etapas e modalidades: articulação, integração e transição; Educação, objetivando prática de regime de colaboração entre
II – o papel do Estado na garantia do direito à educação de o CNE, o Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação
qualidade, considerando que a educação, enquanto direito e a União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação;
inalienável de todos os cidadãos, é condição primeira para o VIII – a instituição da política nacional de formação de
exercício pleno dos direitos: humanos, tanto dos direitos sociais profissionais do magistério da Educação Básica (Decreto nº
e econômicos quanto dos direitos civis e políticos; 6.755, de 29 de janeiro de 2009);
III – a Educação Básica como direito e considerada, IX – a aprovação do Parecer CNE/CEB nº 9/2009 e da
contextualizadamente, em um projeto de Nação, em Resolução CNE/CEB nº 2/2009, que institui as Diretrizes
consonância com os acontecimentos e suas determinações Nacionais para os Planos de Carreira e Remuneração dos
histórico-sociais e políticas no mundo; Profissionais do Magistério da Educação Básica Pública, que
IV – a dimensão articuladora da integração das diretrizes devem ter sido implantados até dezembro de 2009;
curriculares compondo as três etapas e as modalidades da X – as recentes avaliações do PNE, sistematizadas pelo CNE,
Educação Básica, fundamentadas na indissociabilidade dos expressas no documento Subsídios para Elaboração do PNE
conceitos referenciais de cuidar e educar; Considerações Iniciais. Desafios para a Construção do PNE
V – a promoção e a ampliação do debate sobre a política (Portaria CNE/CP nº 10/2009);
curricular que orienta a organização da Educação Básica como XI – a realização da Conferência Nacional de Educação
sistema educacional articulado e integrado; (CONAE), com o tema central “Construindo um Sistema
VI – a democratização do acesso, permanência e sucesso Nacional Articulado de Educação: Plano Nacional de Educação
escolar com qualidade social, científica, cultural; – Suas Diretrizes e Estratégias de Ação”, tencionando propor
VII – a articulação da educação escolar com o mundo do diretrizes e estratégias para a construção do PNE 2011-2020;
trabalho e a prática social; XII – a relevante alteração na Constituição, pela
VIII – a gestão democrática e a avaliação; promulgação da Emenda Constitucional nº 59/2009, que, entre
IX – a formação e a valorização dos profissionais da suas medidas, assegura Educação Básica obrigatória e gratuita
educação; dos 4 aos 17 anos de idade, inclusive a sua oferta gratuita para
X – o financiamento da educação e o controle social. todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; assegura
o atendimento ao estudante, em todas as etapas da Educação
Ressalte-se que o momento em que estas Diretrizes Básica, mediante programas suplementares de material
Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica estão didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde,
sendo elaboradas é muito singular, pois, simultaneamente, as bem como reduz, anualmente, a partir do exercício de 2009, o
diretrizes das etapas da Educação Básica, também elas, percentual da Desvinculação das Receitas da União incidente
passam por avaliação, por meio de contínua mobilização dos sobre os recursos destinados à manutenção e ao
representantes dos sistemas educativos de nível nacional, desenvolvimento do ensino.39
estadual e municipal. A articulação entre os diferentes
sistemas flui num contexto em que se vivem: Para a comissão, o desafio consistia em interpretar essa
realidade e apresentar orientações sobre a concepção e
I – os resultados da Conferência Nacional da Educação organização da Educação Básica como sistema educacional,
Básica (2008); segundo três dimensões básicas: organicidade,
II – os 13 anos transcorridos de vigência da LDB e as sequencialidade e articulação. Dispor sobre a formação básica
inúmeras alterações nela introduzidas por várias leis, bem como nacional relacionando-a com a parte diversificada, e com a
a edição de outras leis que repercutem nos currículos da preparação para o trabalho e as práticas sociais, consiste,
Educação Básica; portanto, na formulação de princípios para outra lógica de
III – o penúltimo ano de vigência do Plano Nacional de diretriz curricular, que considere a formação humana de
Educação (PNE), que passa por avaliação, bem como a sujeitos concretos, que vivem em determinado meio ambiente,
mobilização nacional em torno de subsídios para a elaboração contexto histórico e sociocultural, com suas condições físicas,
do PNE para o período 2011-2020; emocionais e intelectuais.

39 São as seguintes as alterações na Constituição Federal, promovidas pela - Art. 211. (...)
Emenda Constitucional nº 59/2009: § 4º Na organização de seus sistemas de ensino, a União, os Estados, o Distrito
- Art. 208. (...) Federal e os Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a
I - Educação Básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos universalização do ensino obrigatório.
de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não - Art. 212. (...)
tiveram acesso na idade própria; § 3º A distribuição dos recursos públicos assegurará prioridade ao atendimento
(O disposto neste inciso I deverá ser implementado progressivamente, até 2016, das necessidades do ensino obrigatório, no que se refere a universalização,
nos termos do Plano Nacional de Educação, com apoio técnico e financeiro da garantia de padrão de qualidade e equidade, nos termos do plano nacional de
União). educação
VII - atendimento ao educando, em todas as etapas da Educação Básica, por meio
de programas suplementares de material didático escolar, transporte,
alimentação e assistência à saúde.

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Este Parecer deve contribuir, sobretudo, para o processo 10.436/2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais
de implementação pelos sistemas de ensino das Diretrizes (LIBRAS); a Lei nº 10.741/2003, que dispõe sobre o Estatuto
Curriculares Nacionais específicas, para que se concretizem do Idoso; a Lei nº 9.503/97, que institui o Código de Trânsito
efetivamente nas escolas, minimizando o atual distanciamento Brasileiro; a Lei nº 11.161/2005, que dispõe sobre o ensino da
existente entre as diretrizes e a sala de aula. Para a organização Língua Espanhola; e o Decreto nº 6.949/2009, que promulga a
das orientações contidas neste texto, optou-se por enunciá-las Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com
seguindo a disposição que ocupam na estrutura estabelecida Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova
na LDB, nas partes em que ficam previstos os princípios e fins York, em 30 de março de 2007.
da educação nacional; as orientações curriculares; a formação É relevante lembrar que a Constituição Federal, acima de
e valorização de profissionais da educação; direitos à educação todas as leis, no seu inciso XXV do artigo 7º, determina que um
e deveres de educar: Estado e família, incluindo-se o Estatuto dos direitos dos trabalhadores urbanos e rurais e, portanto,
da Criança e do Adolescente (ECA) Lei nº 8.069/90 e a obrigação das empresas, é a assistência gratuita aos filhos e
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Essas referências dependentes desde o nascimento até 5 (cinco) anos de idade
levaram em conta, igualmente, os dispositivos sobre a em Creches e Pré-Escolas. Embora redundante, registre-se que
Educação Básica constantes da Carta Magna que orienta a todas as Creches e Pré-Escolas devem estar integradas ao
Nação brasileira, relatórios de pesquisas sobre educação e respectivo sistema de ensino (artigo 89 da LDB).
produções teóricas versando sobre sociedade e educação. A LDB, com suas alterações, e demais atos legais
Com treze anos de vigência já completados, a LDB recebeu desempenham papel necessário, por sua função referencial
várias alterações, particularmente no referente à Educação obrigatória para os diferentes sistemas e redes educativos.
Básica, em suas diferentes etapas e modalidades. Pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que ainda está em
Após a edição da Lei nº 9.475/1997, que alterou o artigo curso o processo de implementação dos princípios e das
33 da LDB, prevendo a obrigatoriedade do respeito à finalidades definidos constitucional e legalmente para orientar
diversidade cultural religiosa do Brasil, outras leis o projeto educativo do País, cujos resultados ainda não são
modificaram-na quanto à Educação Básica.40 satisfatórios, até porque o texto da Lei, por si só, não se traduz
A maior parte dessas modificações tem relevância social, em elemento indutor de mudança. Ele requer esforço
porque, além de reorganizarem aspectos da Educação Básica, conjugado por parte dos órgãos responsáveis pelo
ampliam o acesso das crianças ao mundo letrado, asseguram- cumprimento do que os atos regulatórios preveem.
lhes outros benefícios concretos que contribuem para o seu No desempenho de suas competências, o CNE iniciou, em
desenvolvimento pleno, orientado por profissionais da 1997, a produção de orientações normativas nacionais,
educação especializados. Nesse sentido, destaca-se que a LDB visando à implantação da Educação Básica, sendo a primeira o
foi alterada pela Lei nº 10.287/2001 para responsabilizar a Parecer CNE/CEB nº 5/97, de lavra do conselheiro Ulysses de
escola, o Conselho Tutelar do Município, o juiz competente da Oliveira Panisset. A partir de então, foram editados pelo
Comarca e o representante do Ministério Público pelo Conselho Nacional de Educação pareceres e resoluções, em
acompanhamento sistemático do percurso escolar das separado, para cada uma das etapas e modalidades.
crianças e dos jovens. Este é, sem dúvida, um dos mecanismos No período de vigência do Plano Nacional de Educação
que, se for efetivado de modo contínuo, pode contribuir (PNE), desde o seu início até 2008, constata-se que, embora em
significativamente para a permanência do estudante na escola. ritmo distinto, menos de um terço das unidades federadas (26
Destaca-se, também, que foi incluído, pela Lei nº 11.700/2008, Estados e o Distrito Federal) apresentaram resposta positiva,
o inciso X no artigo 4º, fixando como dever do Estado efetivar uma vez que, dentre eles, apenas 8 formularam e aprovaram
a garantia de vaga na escola pública de Educação Infantil ou de os seus planos de educação. Relendo a avaliação técnica do
Ensino Fundamental mais próxima de sua residência a toda aprovaram os seus planos de educação. Relendo a avaliação
criança a partir do dia em que completar 4 (quatro) anos de técnica do PNE, promovida pela Comissão de Educação e
idade. Cultura da Câmara dos Deputados (2004), pode-se constatar
Há leis, por outro lado, que não alteram a redação da LDB, que, em todas as etapas e modalidades educativas
porém agregam-lhe complementações, como a Lei nº contempladas no PNE, três aspectos figuram reiteradamente:
9.795/99, que dispõe sobre a Educação Ambiental e institui a acesso, capacitação docente e infraestrutura. Em
Política Nacional de Educação Ambiental; a Lei nº contrapartida, nesse mesmo documento, é assinalado que a

40 Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal, Lei nº 11.769/2008: incluiu parágrafo no art. 26, sobre a música como conteúdo
com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de obrigatório, mas não exclusivo.
colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação Lei nº 11.700/2008: incluiu o inciso X no artigo 4º, fixando como dever do Estado
para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos efetivar a garantia de vaga na escola pública de Educação Infantil ou de Ensino
níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos Fundamental mais próxima de sua residência a toda criança a partir do dia em
das diferentes esferas federativas que conduzam a: que completar 4 (quatro) anos de idade.
VI - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação Lei nº 11.684/2008: incluiu Filosofia e Sociologia como obrigatórias no Ensino
como proporção do produto interno bruto. Médio.
- Art. 76 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias § 3º Para efeito do Lei nº 11.645/2008: alterou a redação do art. 26-A, para incluir no currículo a
cálculo dos recursos para manutenção e desenvolvimento do ensino de que trata obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.
o art. 212 da Constituição, o percentual referido no caput deste artigo será de Lei nº 11.525/2007: acrescentou § 5º ao art. 32, incluindo conteúdo que trate dos
12,5 % (doze inteiros e cinco décimos por cento) no exercício de 2009, 5% (cinco direitos das crianças e dos adolescentes no currículo do Ensino Fundamental.
por cento) no exercício de 2010, e nulo no exercício de 2011. Lei nº 11.330/2006: deu nova redação ao § 3º do art. 87, referente ao
Leis que alteraram a LDB, no que se relaciona com a Educação Básica, e cujas recenseamento de estudantes no Ensino Fundamental, com especial atenção para
alterações estão em vigor atualmente: o grupo de 6 a 14 anos e de 15 a 16 anos de idade.
Lei nº 12.061/2009: alterou o inciso II do art. 4º e o inciso VI do art. 10 da LDB, Lei nº 11.301/2006: alterou o art. 67, incluindo, para os efeitos do disposto no §
para assegurar o acesso de todos os interessados ao Ensino Médio público. 5º do art. 40 e no § 8º do art. 201 da Constituição Federal, definição de funções de
Lei nº 12.020/2009: alterou a redação do inciso II do art. 20, que define magistério.
instituições de ensino comunitárias. Lei nº 11.274/2006: alterou a redação dos arts. 29, 30, 32 e 87, dispondo sobre a
Lei nº 12.014/2009: alterou o art. 61 para discriminar as categorias de duração de 9 (nove) anos para o Ensino Fundamental, com matrícula obrigatória
trabalhadores que se devem considerar profissionais da Educação Básica. a partir dos 6 (seis) anos de idade.
Lei nº 12.013/2009: alterou o art. 12, determinando às instituições de ensino Lei nº 11.114/2005: alterou os arts. 6º, 30, 32 e 87, com o objetivo de tornar
obrigatoriedade no envio de informações escolares aos pais, conviventes ou não obrigatório o início do Ensino Fundamental aos seis anos de idade.
com seus filhos. Lei nº 10.793/2003: alterou a redação do art. 26, § 3º, e do art. 92 , com
Lei nº 11.788/2008: alterou o art. 82, sobre o estágio de estudantes. referência à Educação Física nos ensinos fundamental e médio
Lei nº 11.741/2008: redimensionou, institucionalizou e integrou as ações da
Educação Profissional Técnica de nível médio, da Educação de Jovens e Adultos e
da Educação Profissional e Tecnológica.

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permanência e o sucesso do estudante na escola têm sido O processo de implantação e implementação do disposto
objeto de pouca atenção. Em outros documentos acadêmicos e na alteração da LDB pela Lei nº 11.274/2006, que estabeleceu
oficiais, são também aspectos que têm sido avaliados de modo o ingresso da criança a partir dos seis anos de idade no Ensino
descontínuo e escasso, embora a permanência se constitua em Fundamental, tem como perspectivas melhorar as condições
exigência fixada no inciso I do artigo 3º da LDB. de equidade e qualidade da Educação Básica, estruturar um
Salienta-se que, além das condições para acesso à escola, novo Ensino Fundamental e assegurar um alargamento do
há de se garantir a permanência nela, e com sucesso. Esta tempo para as aprendizagens da alfabetização e do letramento.
exigência se constitui em um desafio de difícil concretização, Se forem observados os dados estatísticos a partir da
mas não impossível. O artigo 6º, da LDB, alterado pela Lei nº relação entre duas datas referenciais – 2000 e 2008 –, tem-se
11.114/2005, prevê que é dever dos pais ou responsáveis surpresa quanto ao quantitativo total de matriculados na
efetuar a matrícula dos menores, a partir dos seis anos de Educação Básica, já que se constata redução de matrícula (-
idade, no Ensino Fundamental. 0,7%), em vez de elevação.
Reforça-se, assim, a garantia de acesso a essas etapas da Contudo, embora se perceba uma redução de 20,6% no
Educação Básica. Para o Ensino Médio, a oferta não era, total da Educação Infantil, na Creche o crescimento foi
originalmente, obrigatória, mas indicada como de extensão expressivo, de 47,7%. Os números indicam que, no Ensino
progressiva, porém, a Lei nº 12.061/2009 alterou o inciso II do Fundamental e no Ensino Médio, há decréscimo de matrícula,
artigo 4º e o inciso VI do artigo 10 da LDB, para garantir a o que trai a intenção nacional projetada em metas
universalização do Ensino Médio gratuito e para assegurar o constitutivas do Plano Nacional de Educação, pois, no
atendimento de todos os interessados ao Ensino Médio primeiro, constata-se uma queda de -7,3% e, no segundo, de -
público. De todo modo, o inciso VII do mesmo artigo já 8,4%. Uma pergunta inevitável é: em que medida as políticas
estabelecia que se deve garantir a oferta de educação escolar educacionais estimularia a superação desse quadro e em quais
regular para jovens e adultos, com características e aspectos essas Diretrizes poderiam contribuir como indutoras
modalidades adequadas às suas necessidades e de mudanças favoráveis à reversão do que se coloca?
disponibilidades, garantindo-se aos que forem trabalhadores Há necessidade de aproximação da lógica dos discursos
as condições de acesso e permanência na escola. normativos com a lógica social, ou seja, a dos papéis e das
O acesso ganhou força constitucional, agora para quase funções sociais em seu dinamismo. Um dos desafios,
todo o conjunto da Educação Básica (excetuada a fase inicial entretanto, está no que Miguel G. Arroyo (1999) aponta, por
da Educação Infantil, da Creche), com a nova redação dada ao exemplo, em seu artigo, “Ciclos de desenvolvimento humano e
inciso I do artigo 208 da nossa Carta Magna, que assegura a formação de educadores”, em que assinala que as diretrizes
Educação Básica obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos de para a educação nacional, quando normatizadas, não chegam
idade, inclusive a gratuita para todos os que a ela não tiveram ao cerne do problema, porque não levam em conta a lógica
acesso na idade própria, sendo sua implementação social. Com base no entendimento do autor, as diretrizes não
progressiva, até 2016, nos termos do Plano Nacional de preveem a preparação antecipada daqueles que deverão
Educação, com apoio técnico e financeiro da União. implantá-las e implementá-las. O comentário do autor é
Além do PNE, outros subsídios têm orientado as políticas ilustrativo por essa compreensão: não se implantarão
públicas para a educação no Brasil, entre eles as avaliações do propostas inovadoras listando o que teremos de inovar,
Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), da Prova listando as competências que os educadores devem aprender
Brasil e do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), e montando cursos de treinamento para formá-los. É (...) no
definidas como constitutivas do Sistema de Avaliação da campo da formação de profissionais de Educação Básica onde
Qualidade da Oferta de Cursos no País. Destaca-se que tais mais abundam as leis e os pareceres dos conselhos, os palpites
programas têm suscitado interrogações também na Câmara de fáceis de cada novo governante, das equipes técnicas, e até das
Educação Básica do CNE, entre outras instâncias acadêmicas: agências de financiamento, nacionais e internacionais (Arroyo,
teriam eles consonância com a realidade das escolas? 1999, p. 151).
Esses programas levam em consideração a identidade de Outro limite que tem sido apontado pela comunidade
cada sistema, de cada unidade escolar? O fracasso do escolar, educativa, a ser considerado na formulação e implementação
averiguado por esses programas de avaliação, não estaria das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação
expressando o resultado da forma como se processa a Básica, é a desproporção existente entre as unidades
avaliação, não estando de acordo com a maneira como a escola federadas do Brasil, sob diferentes pontos de vista: recursos
e os professores planejam e operam o currículo? O sistema de financeiros, presença política, dimensão geográfica,
avaliação aplicado guardaria relação com o que efetivamente demografia, recursos naturais e, acima de tudo, traços
acontece na concretude das escolas brasileiras? socioculturais.
Como consequência desse método de avaliação externa, os Entre múltiplos fatores que podem ser destacados,
estudantes crianças não estariam sendo punidos com acentua-se que, para alguns educadores que se manifestaram
resultados péssimos e reportagens terríveis? E mais, os durante os debates havidos em nível nacional, tendo como foco
estudantes das escolas indígenas, entre outros de situações o cotidiano da escola e as diretrizes curriculares vigentes, há
específicas, não estariam sendo afetados negativamente por um entendimento de que tanto as diretrizes curriculares,
essas formas de avaliação? quanto os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN),
Lamentavelmente, esses questionamentos não têm implementados pelo MEC de 1997 a 2002, transformaram-se
indicado alternativas para o aperfeiçoamento das avaliações em meros papéis. Preencheram uma lacuna de modo
nacionais. Como se sabe, as avaliações ENEM e Prova Brasil equivocado e pouco dialógico, definindo as concepções
vêm-se constituindo em políticas de Estado que subsidiam os metodológicas a serem seguidas e o conhecimento a ser
sistemas na formulação de políticas públicas de equidade, bem trabalhado no Ensino Fundamental e no Médio. Os PCNs
como proporcionam elementos aos municípios e escolas para teriam sido editados como obrigação de conteúdos a serem
localizarem as suas fragilidades e promoverem ações, na contemplados no Brasil inteiro, como se fossem um roteiro,
tentativa de superá-las, por meio de metas integradas. Além sugerindo entender que essa medida poderia ser orientação
disso, é proposta do CNE o estabelecimento de uma Base suficiente para assegurar a qualidade da educação para todos.
Nacional Comum que terá como um dos objetivos nortear as Entretanto, a educação para todos não é viabilizada por
avaliações e a elaboração de livros didáticos e de outros decreto, resolução, portaria ou similar, ou seja, não se efetiva
documentos pedagógicos. tão somente por meio de prescrição de atividades de ensino ou
de estabelecimento de parâmetros ou diretrizes curriculares:

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a educação de qualidade social é conquista e, como conquista 2. Mérito


da sociedade brasileira, é manifestada pelos movimentos
sociais, pois é direito de todos. Inicialmente, apresenta-se uma sintética reflexão sobre
Essa conquista, simultaneamente, tão solitária e solidária sociedade e a educação, a que se seguem orientações para a
quanto singular e coletiva, supõe aprender a articular o local e Educação Básica, a partir dos princípios definidos
o universal em diferentes tempos, espaços e grupos sociais constitucionalmente e da contextualização apresentada no
desde a primeira infância. A qualidade da educação para todos histórico, tendo compromisso com a organicidade, a
exige compromisso e responsabilidade de todos os envolvidos sequencialidade e a articulação do conjunto total da Educação
no processo político, que o Projeto de Nação traçou, por meio Básica, sua inserção na sociedade e seu papel na construção do
da Constituição Federal e da LDB, cujos princípios e finalidades Projeto Nacional. Visa-se à formulação das Diretrizes
educacionais são desafiadores: em síntese, assegurando o Curriculares específicas para suas etapas e modalidades,
direito inalienável de cada brasileiro conquistar uma formação organizando-se com os seguintes itens: 1) Referências
sustentada na continuidade de estudos, ou seja, como conceituais; 2) Sistema Nacional de Educação; 3) Acesso e
temporalização de aprendizagens que complexifiquem a permanência para a conquista da qualidade social; 4)
experiência de comungar sentidos que dão significado à Organização curricular: conceito, limites, possibilidades; 5)
convivência. Organização da Educação Básica; 6) Elementos constitutivos
Há de se reconhecer, no entanto, que o desafio maior está para organização e implantação das Diretrizes Curriculares
na necessidade de repensar as perspectivas de um Nacionais Gerais para a Educação Básica.
conhecimento digno da humanidade na era planetária, pois um A sociedade, na sua história, constitui-se no locus da vida,
dos princípios que orientam as sociedades contemporâneas é das tramas sociais, dos encontros e desencontros nas suas
a imprevisibilidade. As sociedades abertas não têm os mais diferentes dimensões. É nesse espaço que se inscreve a
caminhos traçados para um percurso inflexível e estável. instituição escolar. O desenvolvimento da sociedade engendra
Trata-se de enfrentar o acaso, a volatilidade e a movimentos bastante complexos. Ao traduzir-se, ao mesmo
imprevisibilidade, e não programas sustentados em certezas. tempo, em território, em cultura, em política, em economia, em
Há entendimento geral de que, durante a Década da modo de vida, em educação, em religião e outras
Educação (encerrada em 2007), entre as maiores conquistas manifestações humanas, a sociedade, especialmente a
destaca-se a criação do FUNDEF, posteriormente contemporânea, insere-se dialeticamente e movimenta-se na
transformado em FUNDEB. Este ampliou as condições efetivas continuidade e descontinuidade, na universalização e na
de apoio financeiro e de gestão às três etapas da Educação fragmentação, no entrelaçamento e na ruptura que
Básica e suas modalidades, desde 2007. Do ponto de vista do conformam a sua face. Por isso, vive-se, hoje, a problemática
apoio à Educação Básica, como totalidade, o FUNDEB da dispersão e ruptura, portanto, da superficialidade. Nessa
apresenta sinais de que a gestão educacional e de políticas dinâmica, inscreve-se a compreensão do projeto de Nação, o
públicas poderá contribuir para a conquista da elevação da da educação nacional e, neste, o da instituição escolar, com sua
qualidade da educação brasileira, se for assumida por todos os organização, seu projeto e seu processo educativo em suas
que nela atuam, segundo os critérios da efetividade, relevância diferentes dimensões, etapas e modalidades.
e pertinência, tendo como foco as finalidades da educação O desafio posto pela contemporaneidade à educação é o de
nacional, conforme definem a Constituição Federal e a LDB, garantir, contextualizadamente, o direito humano universal e
bem como o Plano Nacional de Educação. social inalienável à educação. O direito universal não é passível
Os recursos para a educação serão ainda ampliados com a de ser analisado isoladamente, mas deve sê-lo em estreita
desvinculação de recursos da União (DRU) aprovada pela já relação com outros direitos, especialmente, dos direitos civis e
destacada Emenda Constitucional nº 59/2009. Sem dúvida, políticos e dos direitos de caráter subjetivo, sobre os quais
essa conquista, resultado das lutas sociais, pode contribuir incide decisivamente. Compreender e realizar a educação,
para a melhoria da qualidade social da ação educativa, em todo entendida como um direito individual humano e coletivo,
o País. implica considerar o seu poder de habilitar para o exercício de
No que diz respeito às fontes de financiamento da outros direitos, isto é, para potencializar o ser humano como
Educação Básica, em suas diferentes etapas e modalidades, no cidadão pleno, de tal modo que este se torne apto para viver e
entanto, verifica-se que há dispersão, o que tem repercutido conviver em determinado ambiente, em sua dimensão
desfavoravelmente na unidade da gestão das prioridades planetária. A educação é, pois, processo e prática que se
educacionais voltadas para a conquista da qualidade social da concretizam nas relações sociais que transcendem o espaço e
educação escolar, inclusive em relação às metas previstas no o tempo escolares, tendo em vista os diferentes sujeitos que a
PNE 2001-2010. Apesar da relevância do FUNDEF, e agora com demandam. Educação consiste, portanto, no processo de
o FUNDEB em fase inicial de implantação, ainda não se tem socialização da cultura da vida, no qual se constroem, se
política financeira compatível com as exigências da Educação mantêm e se transformam saberes, conhecimentos e valores.
Básica em sua pluridimensionalidade e totalidade. Exige-se, pois, problematizar o desenho organizacional da
As políticas de formação dos profissionais da educação, as instituição escolar, que não tem conseguido responder às
Diretrizes Curriculares Nacionais, os parâmetros de qualidade singularidades dos sujeitos que a compõem. Torna-se
definidos pelo Ministério da Educação, associados às normas inadiável trazer para o debate os princípios e as práticas de um
dos sistemas educativos dos Estados, Distrito Federal e processo de inclusão social, que garanta o acesso e considere a
Municípios, são orientações cujo objetivo central é o de criar diversidade humana, social, cultural, econômica dos grupos
condições para que seja possível melhorar o desempenho das historicamente excluídos. Trata-se das questões de classe,
escolas, mediante ação de todos os seus sujeitos. gênero, raça, etnia, geração, constituídas por categorias que se
Assume-se, portanto, que as Diretrizes Curriculares entrelaçam na vida social pobres, mulheres,
Nacionais Gerais para a Educação Básica terão como afrodescentendes, indígenas, pessoas com deficiência, as
fundamento essencial a responsabilidade que o Estado populações do campo, os de diferentes orientações sexuais, os
brasileiro, a família e a sociedade têm de garantir a sujeitos albergados, aqueles em situação de rua, em privação
democratização do acesso, inclusão, permanência e sucesso
das crianças, jovens e adultos na instituição educacional, sociedade brasileira e que começam a ser contemplados pelas
sobretudo em idade própria a cada etapa e modalidade; a políticas públicas.
aprendizagem para continuidade dos estudos; e a extensão da Para que se conquiste a inclusão social, a educação escolar
obrigatoriedade e da gratuidade da Educação Básica. deve fundamentar-se na ética e nos valores da liberdade, na

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justiça social, na pluralidade, na solidariedade e na Além das finalidades da educação nacional enunciadas na
sustentabilidade, cuja finalidade é o pleno desenvolvimento de Constituição Federal (artigo 205) e na LDB (artigo 2º), que têm
seus sujeitos, nas dimensões individual e social de cidadãos como foco o pleno desenvolvimento da pessoa, a preparação
conscientes de seus direitos e deveres, compromissados com a para o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho,
transformação social. Diante dessa concepção de educação, a deve-se considerar integradamente o previsto no ECA (Lei nº
escola é uma organização temporal, que deve ser menos rígida, 8.069/90), o qual assegura, à criança e ao adolescente de até
segmentada e uniforme, a fim de que os estudantes, 18 anos, todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa, as
indistintamente, possam adequar seus tempos de oportunidades oferecidas para o desenvolvimento físico,
aprendizagens de modo menos homogêneo e idealizado. mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e
A escola, face às exigências da Educação Básica, precisa ser de dignidade. São direitos referentes à vida, à saúde, à
reinventada: priorizar processos capazes de gerar sujeitos alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à
inventivos, participativos, cooperativos, preparados para profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito mútuo, à
diversificadas inserções sociais, políticas, culturais, laborais e, liberdade, à convivência familiar e comunitária (artigos 2º, 3º
ao mesmo tempo, capazes de intervir e problematizar as e 4º).
formas de produção e de vida. A escola tem, diante de si, o A Educação Básica é direito universal e alicerce
desafio de sua própria recriação, pois tudo que a ela se refere indispensável para a capacidade de exercer em plenitude o
constitui-se como invenção: os rituais escolares são invenções direto à cidadania. É o tempo, o espaço e o contexto em que o
de um determinado contexto sociocultural em movimento. sujeito aprende a constituir e reconstituir a sua identidade, em
A elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais meio a transformações corporais, afetivo-emocionais,
para a Educação Básica pressupõe clareza em relação ao seu socioemocionais, cognitivas e socioculturais, respeitando e
papel de indicador de opções políticas, sociais, culturais, valorizando as diferenças. Liberdade e pluralidade tornam-se,
educacionais, e a função da educação, na sua relação com os portanto, exigências do projeto educacional.
objetivos constitucionais de projeto de Nação, Da aquisição plena desse direito depende a possibilidade
fundamentando-se na cidadania e na dignidade da pessoa, o de exercitar todos os demais direitos, definidos na
que implica igualdade, liberdade, pluralidade, diversidade, Constituição, no ECA, na legislação ordinária e nas inúmeras
respeito, justiça social, solidariedade e sustentabilidade. disposições legais que consagram as prerrogativas do cidadão
brasileiro. Somente um ser educado terá condição efetiva de
2.1 Referências conceituais participação social, ciente e consciente de seus direitos e
Os fundamentos que orientam a Nação brasileira estão deveres civis, sociais, políticos, econômicos e éticos.
definidos constitucionalmente no artigo 1º da Constituição Nessa perspectiva, é oportuno e necessário considerar as
Federal, que trata dos princípios fundamentais da cidadania e dimensões do educar e do cuidar, em sua inseparabilidade,
da dignidade da pessoa humana, do pluralismo político, dos buscando recuperar, para a função social da Educação Básica,
valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Nessas bases, a sua centralidade, que é o estudante. Cuidar e educar iniciam-
assentam-se os objetivos nacionais e, por consequência, o se na Educação Infantil, ações destinadas a crianças a partir de
projeto educacional brasileiro: construir uma sociedade livre, zero ano, que devem ser estendidas ao Ensino Fundamental,
justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; Médio e posteriores.
erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as Cuidar e educar significa compreender que o direito à
desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos educação parte do princípio da formação da pessoa em sua
sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer essência humana. Trata-se de considerar o cuidado no sentido
outras formas de discriminação. profundo do que seja acolhimento de todos – crianças,
Esse conjunto de compromissos prevê também a defesa da adolescentes, jovens e adultos – com respeito e, com atenção
paz; a autodeterminação dos povos; a prevalência dos direitos adequada, de estudantes com deficiência, jovens e adultos
humanos; o repúdio ao preconceito, à violência e ao defasados na relação idade-escolaridade, indígenas,
terrorismo; e o equilíbrio do meio ambiente, bem de uso afrodescendentes, quilombolas e povos do campo.
comum do povo e essencial à qualidade de vida, impondo-se Educar exige cuidado; cuidar é educar, envolvendo
ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e acolher, ouvir, encorajar, apoiar, no sentido de desenvolver o
preservá-lo para as presentes e as futuras gerações. aprendizado de pensar e agir, cuidar de si, do outro, da escola,
As bases que dão sustentação ao projeto nacional de da natureza, da água, do Planeta. Educar é, enfim, enfrentar o
educação responsabilizam o poder público, a família, a desafio de lidar com gente, isto é, com criaturas tão
sociedade e a escola pela garantia a todos os estudantes de um imprevisíveis e diferentes quanto semelhantes, ao longo de
ensino ministrado com base nos seguintes princípios: uma existência inscrita na teia das relações humanas, neste
mundo complexo. Educar com cuidado significa aprender a
I – igualdade de condições para o acesso, inclusão, amar sem dependência, desenvolver a sensibilidade humana
permanência e sucesso na escola; na relação de cada um consigo, com o outro e com tudo o que
II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a existe, com zelo, ante uma situação que requer cautela em
cultura, o pensamento, a arte e o saber; busca da formação humana plena.
III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; A responsabilidade por sua efetivação exige
IV – respeito à liberdade e aos direitos; corresponsabilidade: de um lado, a responsabilidade estatal na
V – coexistência de instituições públicas e privadas de realização de procedimentos que assegurem o disposto nos
ensino; incisos VII e VIII, do artigo 12 e VI do artigo 13, da LDB; de
VI – gratuidade do ensino público em estabelecimentos outro, a articulação com a família, com o Conselho Tutelar, com
oficiais; o juiz competente da Comarca, com o representante do
VII – valorização do profissional da educação escolar; Ministério Público e com os demais segmentos da sociedade.
VIII – gestão democrática do ensino público, na forma da Para que isso se efetive, torna-se exigência, também, a
legislação e normas dos sistemas de ensino; corresponsabilidade exercida pelos profissionais da educação,
IX – garantia de padrão de qualidade; necessariamente articulando a escola com as famílias e a
X – valorização da experiência extraescolar; comunidade.
XI – vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as Nota-se que apenas pelo cuidado não se constrói a
práticas sociais. educação e as dimensões que a envolvem como projeto
transformador e libertador. A relação entre cuidar e educar se

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concebe mediante internalização consciente de eixos de Educação Básica se insere e em que o professor e o
norteadores, que remetem à experiência fundamental do estudante atuam, há que se perguntar: de que tipo de educação
valor, que influencia significativamente a definição da conduta, os homens e as mulheres dos próximos 20 anos necessitam,
no percurso cotidiano escolar. Não de um valor pragmático e para participarem da construção desse mundo tão diverso? A
utilitário de educação, mas do valor intrínseco àquilo que deve que trabalho e a que cidadania se refere? Em outras palavras,
caracterizar o comportamento de seres humanos, que que sociedade florescerá? Por isso mesmo, a educação
respeitam a si mesmos, aos outros, à circunstância social e ao brasileira deve assumir o desafio de propor uma escola
ecossistema. Valor este fundamentado na ética e na estética, emancipadora e libertadora.
que rege a convivência do indivíduo no coletivo, que
pressupõe relações de cooperação e solidariedade, de respeito 2.2. Sistema Nacional de Educação
à alteridade e à liberdade.
Cuidado, por sua própria natureza, inclui duas O Sistema Nacional de Educação é tema que vem
significações básicas, intimamente ligadas entre si. A primeira suscitando o aprofundamento da compreensão sobre sistema,
consiste na atitude de solicitude e de atenção para com o outro. no contexto da história da educação, nesta Nação tão diversa
A segunda é de inquietação, sentido de responsabilidade, isto geográfica, econômica, social e culturalmente. O que a
é, de cogitar, pensar, manter atenção, mostrar interesse, proposta de organização do Sistema Nacional de Educação
revelar atitude de desvelo, sem perder a ternura (Boff, 1999, enfrenta é, fundamentalmente, o desafio de superar a
p. 91), compromisso com a formação do sujeito livre e fragmentação das políticas públicas e a desarticulação
independente daqueles que o estão gerando como ser humano institucional dos sistemas de ensino entre si, diante do
capaz de conduzir o seu processo formativo, com autonomia e impacto na estrutura do financiamento, comprometendo a
ética. conquista da qualidade social das aprendizagens, mediante
Cuidado é, pois, um princípio que norteia a atitude, o modo conquista de uma articulação orgânica.
prático de realizar-se, de viver e conviver no mundo. Por isso, Os debates sobre o Sistema Nacional de Educação, em
na escola, o processo educativo não comporta uma atitude vários momentos, abordaram o tema das diretrizes para a
parcial, fragmentada, recortada da ação humana, baseada Educação Básica. Ambas as questões foram objeto de análise
somente numa racionalidade estratégico-procedimental. em interface, durante as diferentes etapas preparatórias da
Inclui ampliação das dimensões constitutivas do trabalho Conferência Nacional de Educação (CONAE) de 2009, uma vez
pedagógico, mediante verificação das condições de que são temas que se vinculam a um objetivo comum: articular
aprendizagem apresentadas pelo estudante e busca de e fortalecer o sistema nacional de educação em regime de
soluções junto à família, aos órgãos do poder público, a colaboração.
diferentes segmentos da sociedade. Seu horizonte de ação Para Saviani41, o sistema é a unidade de vários elementos
abrange a vida humana em sua globalidade. É essa concepção intencionalmente reunidos de modo a formar um conjunto
de educação integral que deve orientar a organização da coerente e operante. Caracterizam, portanto, a noção de
escola, o conjunto de atividades nela realizadas, bem como as sistema: a intencionalidade humana; a unidade e variedade
políticas sociais que se relacionam com as práticas dos múltiplos elementos que se articulam; a coerência interna
educacionais. Em cada criança, adolescente, jovem ou adulto, articulada com a externa.
há uma criatura humana em formação e, nesse sentido, cuidar Alinhado com essa conceituação, este Parecer adota o
e educar são, ao mesmo tempo, princípios e atos que orientam entendimento de que sistema resulta da atividade intencional
e dão sentido aos processos de ensino, de aprendizagem e de e organicamente concebida, que se justifica pela realização de
construção da pessoa humana em suas múltiplas dimensões. atividades voltadas para as mesmas finalidades ou para a
Cabe, aqui, uma reflexão sobre o conceito de cidadania, a concretização dos mesmos objetivos.
forma como a ideia de cidadania foi tratada no Brasil e, em Nessa perspectiva, e no contexto da estrutura federativa
muitos casos, ainda o é. Reveste-se de uma característica – brasileira, em que convivem sistemas educacionais
para usar os termos de Hannah Arendt – essencialmente autônomos, faz-se necessária a institucionalização de um
“social”. Quer dizer: algo ainda derivado e circunscrito ao regime de colaboração que dê efetividade ao projeto de
âmbito da pura necessidade. É comum ouvir ou ler algo que educação nacional. União, Estados, Distrito Federal e
sugere uma noção de cidadania como “acesso dos indivíduos Municípios, cada qual com suas peculiares competências, são
aos bens e serviços de uma sociedade moderna”, discurso chamados a colaborar para transformar a Educação Básica em
contemporâneo de uma época em que os inúmeros um conjunto orgânico, sequencial, articulado, assim como
movimentos sociais brasileiros lutavam, essencialmente, para planejado sistemicamente, que responda às exigências dos
obter do Estado condições de existência mais digna, do ponto estudantes, de suas aprendizagens nas diversas fases do
de vista dominantemente material. Mesmo quando esse desenvolvimento físico, intelectual, emocional e social.
discurso se modificou num sentido mais “político” e menos Atende-se à dimensão orgânica quando são observadas as
“social”, quer dizer, uma cidadania agora compreendida como especificidades e as diferenças de cada uma das três etapas de
a participação ativa dos indivíduos nas decisões pertinentes à escolarização da Educação Básica e das fases que as compõem,
sua vida cotidiana, esta não deixou de ser uma reivindicação sem perda do que lhes é comum: as semelhanças, as
que situava o político na precedência do social: participar de identidades inerentes à condição humana em suas
decisões públicas significa obter direitos e assumir deveres, determinações históricas e não apenas do ponto de vista da
solicitar ou assegurar certas condições de vida minimamente qualidade da sua estrutura e organização. Cada etapa do
civilizadas. processo de escolarização constitui-se em unidade, que se
Em um contexto marcado pelo desenvolvimento de formas articula organicamente com as demais de maneira complexa e
de exclusão cada vez mais sutis e humilhantes, a cidadania intrincada, permanecendo todas elas, em suas diferentes
aparece hoje como uma promessa de sociabilidade, em que a modalidades, individualizadas, ao logo do percurso do escolar,
escola precisa ampliar parte de suas funções, solicitando de apesar das mudanças por que passam por força da
seus agentes a função de mantenedores da paz nas relações singularidade de cada uma, bem assim a dos sujeitos que lhes
sociais, diante das formas cada vez mais amplas e destrutivas dão vida.
de violência. Nessa perspectiva e no cenário em que a escola

SAVIANI, Dermeval. Sistema de educação: subsídios para a Conferência


41 Educação e o Plano Nacional de Educação. Brasília, Instituto Nacional de Estudos
Nacional de Educação. In: Reflexões sobre o Sistema Nacional Articulado de e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2009.

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Atende-se à dimensão sequencial quando os processos necessárias para o seu desenvolvimento integral. Estas são
educativos acompanham as exigências de aprendizagem finalidades de todas as etapas constitutivas da Educação
definidas em cada etapa da trajetória escolar da Educação Básica, acrescentando-se os meios para que possa progredir
Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio), até a no mundo do trabalho e acessar a Educação Superior. São
Educação Superior. São processos educativos que, embora se referências conceituais e legais, bem como desafio para as
constituam em diferentes e insubstituíveis momentos da vida diferentes instâncias responsáveis pela concepção, aprovação
dos estudantes, inscritos em tempos e espaços educativos e execução das políticas educacionais.
próprios a cada etapa do desenvolvimento humano,
inscrevem-se em trajetória que deve ser contínua e 2.3. Acesso e permanência para a conquista da qualidade
progressiva. social
A articulação das dimensões orgânica e sequencial das
etapas e modalidades da Educação Básica, e destas com a A qualidade social da educação brasileira é uma conquista
Educação Superior, implica a ação coordenada e integradora a ser construída de forma negociada, pois significa algo que se
do seu conjunto; o exercício efetivo do regime de colaboração concretiza a partir da qualidade da relação entre todos os
entre os entes federados, cujos sistemas de ensino gozam de sujeitos que nela atuam direta e indiretamente.42Significa
autonomia constitucionalmente reconhecida. Isso pressupõe o compreender que a educação é um processo de socialização da
estabelecimento de regras de equivalência entre as funções cultura da vida, no qual se constroem, se mantêm e se
distributiva, supletiva, de regulação normativa, de supervisão transformam conhecimentos e valores. Socializar a cultura
e avaliação da educação nacional, respeitada a autonomia dos inclui garantir a presença dos sujeitos das aprendizagens na
sistemas e valorizadas as diferenças regionais. Sem essa escola. Assim, a qualidade social da educação escolar supõe a
articulação, o projeto educacional – e, por conseguinte, o sua permanência, não só com a redução da evasão, mas
projeto nacional – corre o perigo de comprometer a unidade e também da repetência e da distorção idade/ano/série.
a qualidade pretendida, inclusive quanto ao disposto no artigo Para assegurar o acesso ao Ensino Fundamental, como
22 da LDB: direito público subjetivo, no seu artigo 5º, a LDB instituiu
medidas que se interpenetram ou complementam,
desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum estabelecendo que, para exigir o cumprimento pelo Estado
indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios desse ensino obrigatório, qualquer cidadão, grupo de
para progredir no trabalho e em estudos posteriores, inspirada cidadãos, associação comunitária, organização sindical,
nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade entidade de classe ou outra legalmente constituída e, ainda, o
humana. Ministério Público, podem acionar o poder público.
Mais concretamente, há de se prever que a transição entre Esta medida se complementa com a obrigatoriedade
Pré-Escola e Ensino Fundamental pode se dar no interior de atribuída aos Estados e aos Municípios, em regime de
uma mesma instituição, requerendo formas de articulação das colaboração, e com a assistência da União, de recensear a
dimensões orgânica e sequencial entre os docentes de ambos população em idade escolar para o Ensino Fundamental, e os
os segmentos que assegurem às crianças a continuidade de jovens e adultos que a ele não tiveram acesso, para que seja
seus processos peculiares de aprendizagem e efetuada a chamada pública correspondente.
desenvolvimento. Quando a transição se dá entre instituições Quanto à família, os pais ou responsáveis são obrigados a
diferentes, essa articulação deve ser especialmente cuidadosa, matricular a criança no Ensino Fundamental, a partir dos 6
garantida por instrumentos de registro – portfólios, relatórios anos de idade, sendo que é prevista sanção a esses e/ou ao
que permitam, aos docentes do Ensino Fundamental de uma poder público, caso descumpram essa obrigação de garantia
outra escola, conhecer os processos de desenvolvimento e dessa etapa escolar.
aprendizagem vivenciados pela criança na Educação Infantil Quanto à obrigatoriedade de permanência do estudante na
da escola anterior. Mesmo no interior do Ensino Fundamental, escola, principalmente no Ensino Fundamental, há, na mesma
há de se cuidar da fluência da transição da fase dos anos Lei, exigências que se centram nas relações entre a escola, os
iniciais para a fase dos anos finais, quando a criança passa a ter pais ou responsáveis, e a comunidade, de tal modo que a escola
diversos docentes, que conduzem diferentes componentes e e os sistemas de ensino tornam-se responsáveis por:
atividades, tornando-se mais complexas a sistemática de
estudos e a relação com os professores. - zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela frequência à
A transição para o Ensino Médio apresenta contornos escola;
bastante diferentes dos anteriormente referidos, uma vez que, - articular-se com as famílias e a comunidade, criando
ao ingressarem no Ensino Médio, os jovens já trazem maior processos de integração da sociedade com a escola;
experiência com o ambiente escolar e suas rotinas; além disso, - informar os pais e responsáveis sobre a frequência e o
a dependência dos adolescentes em relação às suas famílias é rendimento dos estudantes, bem como sobre a execução de sua
quantitativamente menor e qualitativamente diferente. Mas, proposta pedagógica;
certamente, isso não significa que não se criem tensões, que - notificar ao Conselho Tutelar do Município, ao juiz
derivam, principalmente, das novas expectativas familiares e competente da Comarca e ao respectivo representante do
sociais que envolvem o jovem. Tais expectativas giram em Ministério Público a relação dos estudantes que apresentem
torno de três variáveis principais conforme o estrato quantidade de faltas acima de cinquenta por cento do
sociocultural em que se produzem: a) os “conflitos da percentual permitido em lei.
adolescência”; b) a maior ou menor aproximação ao mundo do
trabalho; c) a crescente aproximação aos rituais da passagem No Ensino Fundamental e, nas demais etapas da Educação
da Educação Básica para a Educação Superior. Básica, a qualidade não tem sido tão estimulada quanto à
Em resumo, o conjunto da Educação Básica deve se quantidade. Depositar atenção central sobre a quantidade,
constituir em um processo orgânico, sequencial e articulado, visando à universalização do acesso à escola, é uma medida
que assegure à criança, ao adolescente, ao jovem e ao adulto de necessária, mas que não assegura a permanência, essencial
qualquer condição e região do País a formação comum para o para compor a qualidade. Em outras palavras, a oportunidade
pleno exercício da cidadania, oferecendo as condições

42A garantia de padrão de qualidade é um dos princípios da LDB (inciso IX do


artigo 3º).

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de acesso, por si só, é destituída de condições suficientes para I – revisão das referências conceituais quanto aos diferentes
inserção no mundo do conhecimento. espaços e tempos educativos, abrangendo espaços sociais na
O conceito de qualidade na escola, numa perspectiva ampla escola e fora dela;
e basilar, remete a uma determinada ideia de qualidade de vida II – consideração sobre a inclusão, a valorização das
na sociedade e no planeta Terra. Inclui tanto a qualidade diferenças e o atendimento à pluralidade e à diversidade
pedagógica quanto a qualidade política, uma vez que requer cultural, resgatando e respeitando os direitos humanos,
compromisso com a permanência do estudante na escola, com individuais e coletivos e as várias manifestações de cada
sucesso e valorização dos profissionais da educação. Trata-se comunidade;
da exigência de se conceber a qualidade na escola como III – foco no projeto político-pedagógico, no gosto pela
qualidade social, que se conquista por meio de acordo coletivo. aprendizagem, e na avaliação das aprendizagens como
Ambas as qualidades – pedagógica e política – abrangem instrumento de contínua progressão dos estudantes;
diversos modos avaliativos comprometidos com a IV – inter-relação entre organização do currículo, do
aprendizagem do estudante, interpretados como indicações trabalho pedagógico e da jornada de trabalho do professor,
que se interpenetram ao longo do processo didático tendo como foco a aprendizagem do estudante;
pedagógico, o qual tem como alvo o desenvolvimento do V – preparação dos profissionais da educação, gestores,
conhecimento e dos saberes construídos histórica e professores, especialistas, técnicos, monitores e outros;
socialmente. VI – compatibilidade entre a proposta curricular e a
O compromisso com a permanência do estudante na escola infraestrutura entendida como espaço formativo dotado de
é, portanto, um desafio a ser assumido por todos, porque, além efetiva disponibilidade de tempos para a sua utilização e
das determinações sociopolíticas e culturais, das diferenças acessibilidade;
individuais e da organização escolar vigente, há algo que VII – integração dos profissionais da educação, os
supera a política reguladora dos processos educacionais: há os estudantes, as famílias, os agentes da comunidade interessados
fluxos migratórios, além de outras variáveis que se refletem no na educação;
processo educativo. Essa é uma variável externa que VIII – valorização dos profissionais da educação, com
compromete a gestão macro da educação, em todas as esferas, programa de formação continuada, critérios de acesso,
e, portanto, reforça a premência de se criarem processos permanência, remuneração compatível com a jornada de
gerenciais que proporcionem a efetivação do disposto no trabalho definida no projeto político-pedagógico;
artigo 5º e no inciso VIII do artigo 12 da LDB, quanto ao direito IX – realização de parceria com órgãos, tais como os de
ao acesso e à permanência na escola de qualidade. assistência social, desenvolvimento e direitos humanos,
Assim entendida, a qualidade na escola exige de todos os cidadania, ciência e tecnologia, esporte, turismo, cultura e arte,
sujeitos do processo educativo: saúde, meio ambiente.

I – a instituição da Política Nacional de Formação de No documento “Indicadores de Qualidade na Educação”


Profissionais do Magistério da Educação Básica, com a (Ação Educativa, 2004), a qualidade é vista com um caráter
finalidade de organizar, em regime de colaboração entre a dinâmico, porque cada escola tem autonomia para refletir,
União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, a formação propor e agir na busca da qualidade do seu trabalho, de acordo
inicial e continuada dos profissionais do magistério para as com os contextos socioculturais locais. Segundo o autor, os
redes públicas da educação (Decreto nº 6.755, de 29 de janeiro indicadores de qualidade são sinais adotados para que se
de 2009); possa qualificar algo, a partir dos critérios e das prioridades
II – ampliação da visão política expressa por meio de institucionais. Destaque-se que os referenciais e indicadores
habilidades inovadoras, fundamentadas na capacidade para de avaliação são componentes curriculares, porque tê-los em
aplicar técnicas e tecnologias orientadas pela ética e pela mira facilita a aproximação entre a escola que se tem e aquela
estética; que se quer, traduzida no projeto político-pedagógico, para
III – responsabilidade social, princípio educacional que além do que fica disposto no inciso IX do artigo 4º da LDB:
norteia o conjunto de sujeitos comprometidos com o projeto que
definem e assumem como expressão e busca da qualidade da definição de padrões mínimos de qualidade de ensino, como
escola, fruto do empenho de todos. a variedade e quantidade mínimas, por estudante, de insumos
indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino-
Construir a qualidade social pressupõe conhecimento dos aprendizagem.
interesses sociais da comunidade escolar para que seja
possível educar e cuidar mediante interação efetivada entre Essa exigência legal traduz a necessidade de se reconhecer
princípios e finalidades educacionais, objetivos, conhecimento que a avaliação da qualidade associa-se à ação planejada,
e concepções curriculares. Isso abarca mais que o exercício coletivamente, pelos sujeitos da escola e supõe que tais
político-pedagógico que se viabiliza mediante atuação de sujeitos tenham clareza quanto:
todos os sujeitos da comunidade educativa. Ou seja, efetiva-se
não apenas mediante participação de todos os sujeitos da I – aos princípios e às finalidades da educação, além do
escola – estudante, professor, técnico, funcionário, reconhecimento e análise dos dados indicados pelo IDEB e/ou
coordenador – mas também mediante aquisição e utilização outros indicadores, que complementem ou substituam estes;
adequada dos objetos e espaços (laboratórios, equipamentos, II – à relevância de um projeto político-pedagógico
mobiliário, salas-ambiente, biblioteca, videoteca etc.) concebido e assumido coletivamente pela comunidade
requeridos para responder ao projeto político-pedagógico educacional, respeitadas as múltiplas diversidades e a
pactuado, vinculados às condições/disponibilidades mínimas pluralidade cultural;
para se instaurar a primazia da aquisição e do III – à riqueza da valorização das diferenças manifestadas
desenvolvimento de hábitos investigatórios para construção pelos sujeitos do processo educativo, em seus diversos
do conhecimento. segmentos, respeitados o tempo e o contexto sociocultural;
A escola de qualidade social adota como centralidade o IV – aos padrões mínimos de qualidade6 (Custo Aluno
diálogo, a colaboração, os sujeitos e as aprendizagens, o que Qualidade inicial – CAQi7), que apontam para quanto deve ser
pressupõe, sem dúvida, atendimento a requisitos tais como: investido por estudante de cada etapa e modalidade da
Educação Básica, para que o País ofereça uma educação de
qualidade a todos os estudantes.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 55


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Para se estabelecer uma educação com um padrão mínimo privilegiado que a esfera governamental possui na produção
de qualidade, é necessário investimento com valor calculado a de sentidos nas políticas, pois as práticas e propostas
partir das despesas essenciais ao desenvolvimento dos desenvolvidas nas escolas também são produtoras de sentidos
processos e procedimentos formativos, que levem, para as políticas curriculares.
gradualmente, a uma educação integral, dotada de qualidade Os efeitos das políticas curriculares, no contexto da prática,
social: creches e escolas possuindo condições de são condicionados por questões institucionais e disciplinares
infraestrutura e de adequados equipamentos e de que, por sua vez, têm diferentes histórias, concepções
acessibilidade; professores qualificados com remuneração pedagógicas e formas de organização, expressas em diferentes
adequada e compatível com a de outros profissionais com publicações. As políticas estão sempre em processo de vir-a-
igual nível de formação, em regime de trabalho de 40 horas em ser, sendo múltiplas as leituras possíveis de serem realizadas
tempo integral em uma mesma escola; definição de uma por múltiplos leitores, em um constante processo de
relação adequada entre o número de estudantes por turma e interpretação das interpretações.
por professor, que assegure aprendizagens relevantes; pessoal As fronteiras são demarcadas quando se admite tão
de apoio técnico e administrativo que garanta o bom somente a ideia de currículo formal. Mas as reflexões teóricas
funcionamento da escola. sobre currículo têm como referência os princípios
educacionais garantidos à educação formal. Estes estão
2.4. Organização curricular: conceito, limites, possibilidades orientados pela liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e
divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o conhecimento
No texto “Currículo, conhecimento e cultura”, Moreira e científico, além do pluralismo de ideias e de concepções
Candau43 apresentam diversas definições atribuídas a pedagógicas, assim como a valorização da experiência
currículo, a partir da concepção de cultura como prática social, extraescolar, e a vinculação entre a educação escolar, o
ou seja, como algo que, em vez de apresentar significados trabalho e as práticas sociais.
intrínsecos, como ocorre, por exemplo, com as manifestações
artísticas, a cultura expressa significados atribuídos a partir da Assim, e tendo como base o teor do artigo 27 da LDB, pode-
linguagem. Em poucas palavras, essa concepção é definida se entender que o processo didático em que se realizam as
como “experiências escolares que se desdobram em torno do aprendizagens fundamenta-se na diretriz que assim delimita o
conhecimento, permeadas pelas relações sociais, buscando conhecimento para o conjunto de atividades:
articular vivências e saberes dos alunos com os conhecimentos Os conteúdos curriculares da Educação Básica observarão,
historicamente acumulados e contribuindo para construir as ainda, as seguintes diretrizes:
identidades dos estudantes”. Uma vez delimitada a ideia sobre
cultura, os autores definem currículo como: conjunto de I - a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos
práticas que proporcionam a produção, a circulação e o direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à
consumo de significados no espaço social e que contribuem, ordem democrática;
intensamente, para a construção de identidades sociais e II - consideração das condições de escolaridade dos
culturais. O currículo é, por consequência, um dispositivo de estudantes em cada estabelecimento;
grande efeito no processo de construção da identidade do (a) III - orientação para o trabalho;
estudante (p. 27). Currículo refere-se, portanto, a criação, IV - promoção do desporto educacional e apoio às práticas
recriação, contestação e transgressão (Moreira e Silva, desportivas não-formais.
1994).44
Desse modo, os valores sociais, bem como os direitos e
Nesse sentido, a fonte em que residem os conhecimentos deveres dos cidadãos, relacionam-se com o bem comum e com
escolares são as práticas socialmente construídas. Segundo os a ordem democrática. Estes são conceitos que requerem a
autores, essas práticas se constituem em “âmbitos de atenção da comunidade escolar para efeito de organização
referência dos currículos” que correspondem: curricular, cuja discussão tem como alvo e motivação a
temática da construção de identidades sociais e culturais. A
a) às instituições produtoras do conhecimento científico problematização sobre essa temática contribui para que se
(universidades e centros de pesquisa); possa compreender, coletivamente, que educação cidadã
b) ao mundo do trabalho; consiste na interação entre os sujeitos, preparando-os por
c) aos desenvolvimentos tecnológicos; meio das atividades desenvolvidas na escola, individualmente
d) às atividades desportivas e corporais; e em equipe, para se tornarem aptos a contribuir para a
e) à produção artística; construção de uma sociedade mais solidária, em que se exerça
f) ao campo da saúde; a liberdade, a autonomia e a responsabilidade. Nessa
g) às formas diversas de exercício da cidadania; perspectiva, cabe à instituição escolar compreender como o
h) aos movimentos sociais. conhecimento é produzido e socialmente valorizado e como
deve ela responder a isso. É nesse sentido que as instâncias
Daí entenderem que toda política curricular é uma política gestoras devem se fortalecer instaurando um processo
cultural, pois o currículo é fruto de uma seleção e produção de participativo organizado formalmente, por meio de
saberes: campo conflituoso de produção de cultura, de embate colegiados, da organização estudantil e dos movimentos
entre pessoas concretas, concepções de conhecimento e sociais.
aprendizagem, formas de imaginar e perceber o mundo. A escola de Educação Básica é espaço coletivo de convívio,
Assim, as políticas curriculares não se resumem apenas a onde são privilegiadas trocas, acolhimento e aconchego para
propostas e práticas enquanto documentos escritos, mas garantir o bem-estar de crianças, adolescentes, jovens e
incluem os processos de planejamento, vivenciados e adultos, no relacionamento entre si e com as demais pessoas.
reconstruídos em múltiplos espaços e por múltiplas É uma instância em que se aprende a valorizar a riqueza das
singularidades no corpo social da educação. Para Lopes, raízes culturais próprias das diferentes regiões do País que,
mesmo sendo produções para além das instâncias juntas, formam a Nação. Nela se ressignifica e recria a cultura
governamentais, não significa desconsiderar o poder herdada, reconstruindo as identidades culturais, em que se

43MOREIRA, A. F. B.; CANDAU, V. M. Indagações sobre currículo: currículo, NASCIMENTO, Aricélia Ribeiro do (org.). Brasília: Ministério da Educação,
conhecimento e cultura. BEAUCHAMP, Jeanete; PAGEL, Sandra Denise; Secretaria de Educação Básica, 2007, 48 p.
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aprende a valorizar as raízes próprias das diferentes regiões e o gestor requerem uma escola em que a cultura, a arte, a
do País. ciência e a tecnologia estejam presentes no cotidiano escolar,
Essa concepção de escola exige a superação do rito escolar, desde o início da Educação Básica.
desde a construção do currículo até os critérios que orientam Tendo em vista a amplitude do papel socioeducativo
a organização do trabalho escolar em sua atribuído ao conjunto orgânico da Educação Básica, cabe aos
multidimensionalidade, privilegia trocas, acolhimento e sistemas educacionais, em geral, definir o programa de escolas
aconchego, para garantir o bem-estar de crianças, de tempo parcial diurno (matutino e/ou vespertino), tempo
adolescentes, jovens e adultos, no relacionamento parcial noturno e tempo integral (turno e contra turno ou
interpessoal entre todas as pessoas. turno único com jornada escolar de 7 horas, no mínimo10,
Cabe, pois, à escola, diante dessa sua natureza, assumir durante todo o período letivo), o que requer outra e diversa
diferentes papéis, no exercício da sua missão essencial, que é a organização e gestão do trabalho pedagógico, contemplando
de construir uma cultura de direitos humanos para preparar as diferentes redes de ensino, a partir do pressuposto de que
cidadãos plenos. A educação destina-se a múltiplos sujeitos e compete a todas elas o desenvolvimento integral de suas
tem como objetivo a troca de saberes8, a socialização e o demandas, numa tentativa de superação das desigualdades de
confronto do conhecimento, segundo diferentes abordagens, natureza sociocultural, socioeconômica e outras.
exercidas por pessoas de diferentes condições físicas, Há alguns anos, se tem constatado a necessidade de a
sensoriais, intelectuais e emocionais, classes sociais, crenças, criança, o adolescente e o jovem, particularmente aqueles das
etnias, gêneros, origens, contextos socioculturais, e da cidade, classes sociais trabalhadoras, permanecerem mais tempo na
do campo e de aldeias. Por isso, é preciso fazer da escola a escola. Tem-se defendido que o estudante poderia beneficiar-
instituição acolhedora, inclusiva, pois essa é uma opção se da ampliação da jornada escolar, no espaço único da escola
“transgressora”, porque rompe com a ilusão da ou diferentes espaços educativos, nos quais a permanência do
homogeneidade e provoca, quase sempre, uma espécie de crise estudante se liga tanto à quantidade e qualidade do tempo
de identidade institucional. diário de escolarização, quanto à diversidade de atividades de
A escola é, ainda, espaço em que se abrigam desencontros aprendizagens.
de expectativas, mas também acordos solidários, norteados Assim, a qualidade da permanência em tempo integral do
por princípios e valores educativos pactuados por meio do estudante nesses espaços implica a necessidade da
projeto político-pedagógico concebido segundo as demandas incorporação efetiva e orgânica no currículo de atividades e
sociais e aprovado pela comunidade educativa. estudos pedagogicamente planejados e acompanhados ao
Por outro lado, enquanto a escola se prende às longo de toda a jornada.
características de metodologias tradicionais, com relação ao No projeto nacional de educação, tanto a escola de tempo
ensino e à aprendizagem como ações concebidas integral quanto a de tempo parcial, diante da sua
separadamente, as características de seus estudantes responsabilidade educativa, social e legal, assumem a
requerem outros processos e procedimentos, em que aprendizagem compreendendo-a como ação coletiva
aprender, ensinar, pesquisar, investigar, avaliar ocorrem de conectada com a vida, com as necessidades, possibilidades e
modo indissociável. Os estudantes, entre outras interesses das crianças, dos jovens e dos adultos. O direito de
características, aprendem a receber informação com rapidez, aprender é, portanto, intrínseco ao direito à dignidade
gostam do processo paralelo, de realizar várias tarefas ao humana, à liberdade, à inserção social, ao acesso aos bens
mesmo tempo, preferem fazer seus gráficos antes de ler o sociais, artísticos e culturais, significando direito à saúde em
texto, enquanto os docentes creem que acompanham a era todas as suas implicações, ao lazer, ao esporte, ao respeito, à
digital apenas porque digitam e imprimem textos, têm e-mail, integração familiar e comunitária.
não percebendo que os estudantes nasceram na era digital. Conforme o artigo 34 da LDB, o Ensino Fundamental
As tecnologias da informação e comunicação constituem incluirá, pelo menos, quatro horas de trabalho efetivo em sala
uma parte de um contínuo desenvolvimento de tecnologias, a de aula, sendo progressivamente ampliado o período de
começar pelo giz e os livros, todos podendo apoiar e permanência na escola, até que venha a ser ministrado em
enriquecer as aprendizagens. Como qualquer ferramenta, tempo integral (§ 2º). Essa disposição, obviamente, só é
devem ser usadas e adaptadas para servir a fins educacionais factível para os cursos do período diurno, tanto é que o § 1º
e como tecnologia assistiva; desenvolvidas de forma a ressalva os casos do ensino noturno.
possibilitar que a interatividade virtual se desenvolva de modo Os cursos em tempo parcial noturno, na sua maioria, são
mais intenso, inclusive na produção de linguagens. Assim, a de Educação de Jovens e Adultos (EJA) destinados, mormente,
infraestrutura tecnológica, como apoio pedagógico às a estudantes trabalhadores, com maior maturidade e
atividades escolares, deve também garantir acesso dos experiência de vida. São poucos, porém, os cursos regulares
estudantes à biblioteca, ao rádio, à televisão, à internet aberta noturnos destinados a adolescentes e jovens de 15 a 18 anos
às possibilidades da convergência digital. ou pouco mais, os quais são compelidos ao estudo nesse turno
Essa distância necessita ser superada, mediante por motivos de defasagem escolar e/ou de inadaptação aos
aproximação dos recursos tecnológicos de informação e métodos adotados e ao convívio com colegas de idades
comunicação, estimulando a criação de novos métodos menores. A regra tem sido induzi-los a cursos de EJA, quando
didático-pedagógicos, para que tais recursos e métodos sejam o necessário são cursos regulares, com programas adequados
inseridos no cotidiano escolar. Isto porque o conhecimento à sua faixa etária, como, aliás, é claramente prescrito no inciso
científico, nos tempos atuais, exige da escola o exercício da VI do artigo 4º da LDB: oferta de ensino noturno regular,
compreensão, valorização da ciência e da tecnologia desde a adequado às condições do educando.
infância e ao longo de toda a vida, em busca da ampliação do
domínio do conhecimento científico: uma das condições para 2.4.1. Formas para a organização curricular
o exercício da cidadania. O conhecimento científico e as novas
tecnologias constituem-se, cada vez mais, condição para que a Retoma-se aqui o entendimento de que currículo é o
pessoa saiba se posicionar frente a processos e inovações que conjunto de valores e práticas que proporcionam a produção e
a afetam. a socialização de significados no espaço social e que
Não se pode, pois, ignorar que se vive: o avanço do uso da contribuem, intensamente, para a construção de identidades
energia nuclear; da nanotecnologia;9 a conquista da produção sociais e culturais dos estudantes. E reitera-se que deve
de alimentos geneticamente modificados; a clonagem difundir os valores fundamentais do interesse social, dos
biológica. Nesse contexto, tanto o docente quanto o estudante direitos e deveres dos cidadãos, do respeito ao bem comum e

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à ordem democrática, bem como considerar as condições de Enquanto a multidisciplinaridade expressa frações do
escolaridade dos estudantes em cada estabelecimento, a conhecimento e o hierarquiza, a pluridisciplinaridade estuda
orientação para o trabalho, a promoção de práticas educativas um objeto de uma disciplina pelo ângulo de várias outras ao
formais e não-formais. mesmo tempo. Segundo Nicolescu, a pesquisa pluridisciplinar
Na Educação Básica, a organização do tempo curricular traz algo a mais a uma disciplina, mas restringe-se a ela, está a
deve ser construída em função das peculiaridades de seu meio serviço dela.
e das características próprias dos seus estudantes, não se A transdisciplinaridade refere-se ao conhecimento próprio
restringindo às aulas das várias disciplinas. O percurso da disciplina, mas está para além dela. O conhecimento situa-
formativo deve, nesse sentido, ser aberto e contextualizado, se na disciplina, nas diferentes disciplinas e além delas, tanto
incluindo não só os componentes curriculares centrais no espaço quanto no tempo. Busca a unidade do conhecimento
obrigatórios, previstos na legislação e nas normas na relação entre a parte e o todo, entre o todo e a parte. Adota
educacionais, mas, também, conforme cada projeto escolar atitude de abertura sobre as culturas do presente e do
estabelecer, outros componentes flexíveis e variáveis que passado, uma assimilação da cultura e da arte. O
possibilitem percursos formativos que atendam aos inúmeros desenvolvimento da capacidade de articular diferentes
interesses, necessidades e características dos educandos. referências de dimensões da pessoa humana, de seus direitos,
Quanto à concepção e à organização do espaço curricular e e do mundo é fundamento básico da transdisciplinaridade. De
físico, se imbricam e se alargam, por incluir no acordo com Nicolescu (p. 15), para os adeptos da
desenvolvimento curricular ambientes físicos, didático- transdisciplinaridade, o pensamento clássico é o seu campo de
pedagógicos e equipamentos que não se reduzem às salas de aplicação, por isso é complementar à pesquisa pluri e
aula, incluindo outros espaços da escola e de outras interdisciplinar.
instituições escolares, bem como os socioculturais e esportivo- A interdisciplinaridade pressupõe a transferência de
recreativos do entorno, da cidade e mesmo da região. métodos de uma disciplina para outra. Ultrapassa-as, mas sua
Essa ampliação e diversificação dos tempos e espaços finalidade inscreve-se no estudo disciplinar. Pela abordagem
curriculares pressupõe profissionais da educação dispostos a interdisciplinar ocorre a transversalidade do conhecimento
reinventar e construir essa escola, numa responsabilidade constitutivo de diferentes disciplinas, por meio da ação
compartilhada com as demais autoridades encarregadas da didático-pedagógica mediada pela pedagogia dos projetos
gestão dos órgãos do poder público, na busca de parcerias temáticos. Estes facilitam a organização coletiva e cooperativa
possíveis e necessárias, até porque educar é responsabilidade do trabalho pedagógico, embora sejam ainda recursos que
da família, do Estado e da sociedade. vêm sendo utilizados de modo restrito e, às vezes,
A escola precisa acolher diferentes saberes, diferentes equivocados. A interdisciplinaridade é, portanto, entendida
manifestações culturais e diferentes óticas, empenhar-se para aqui como abordagem teórico-metodológica em que a ênfase
se constituir, ao mesmo tempo, em um espaço de incide sobre o trabalho de integração das diferentes áreas do
heterogeneidade e pluralidade, situada na diversidade em conhecimento, um real trabalho de cooperação e troca, aberto
movimento, no processo tornado possível por meio de ao diálogo e ao planejamento (Nogueira, 2001, p. 27). Essa
relações intersubjetivas, fundamentada no princípio orientação deve ser enriquecida, por meio de proposta
emancipador. Cabe, nesse sentido, às escolas desempenhar o temática trabalhada transversalmente ou em redes de
papel socioeducativo, artístico, cultural, ambiental, conhecimento e de aprendizagem, e se expressa por meio de
fundamentadas no pressuposto do respeito e da valorização uma atitude que pressupõe planejamento sistemático e
das diferenças, entre outras, de condição física, sensorial e integrado e disposição para o diálogo.
socioemocional, origem, etnia, gênero, classe social, contexto A transversalidade é entendida como uma forma de
sociocultural, que dão sentido às ações educativas, organizar o trabalho didático-pedagógico em que temas, eixos
enriquecendo-as, visando à superação das desigualdades de temáticos são integrados às disciplinas, às áreas ditas
natureza sociocultural e socioeconômica. Contemplar essas convencionais de forma a estarem presentes em todas elas. A
dimensões significa a revisão dos ritos escolares e o transversalidade difere-se da interdisciplinaridade e
alargamento do papel da instituição escolar e dos educadores, complementam-se; ambas rejeitam a concepção de
adotando medidas proativas e ações preventivas. conhecimento que toma a realidade como algo estável, pronto
Na organização e gestão do currículo, as abordagens e acabado. A primeira se refere à dimensão didático-
disciplinar, pluridisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar pedagógica e a segunda, à abordagem epistemológica dos
requerem a atenção criteriosa da instituição escolar, porque objetos de conhecimento. A transversalidade orienta para a
revelam a visão de mundo que orienta as práticas pedagógicas necessidade de se instituir, na prática educativa, uma analogia
dos educadores e organizam o trabalho do estudante. entre aprender conhecimentos teoricamente sistematizados
Perpassam todos os aspectos da organização escolar, desde o (aprender sobre a realidade) e as questões da vida real
planejamento do trabalho pedagógico, a gestão (aprender na realidade e da realidade). Dentro de uma
administrativo-acadêmica, até a organização do tempo e do compreensão interdisciplinar do conhecimento, a
espaço físico e a seleção, disposição e utilização dos transversalidade tem significado, sendo uma proposta didática
equipamentos e mobiliário da instituição, ou seja, todo o que possibilita o tratamento dos conhecimentos escolares de
conjunto das atividades que se realizam no espaço escolar, em forma integrada. Assim, nessa abordagem, a gestão do
seus diferentes âmbitos. As abordagens multidisciplinar, conhecimento parte do pressuposto de que os sujeitos são
pluridisciplinar e interdisciplinar fundamentam-se nas agentes da arte de problematizar e interrogar, e buscam
mesmas bases, que são as disciplinas, ou seja, o recorte do procedimentos interdisciplinares capazes de acender a chama
conhecimento. do diálogo entre diferentes sujeitos, ciências, saberes e temas.
Para Basarab Nicolescu45, em seu artigo “Um novo tipo de
conhecimento: transdisciplinaridade”, a disciplinaridade, a A prática interdisciplinar é, portanto, uma abordagem que
pluridisciplinaridade, a transdisciplinaridade e a facilita o exercício da transversalidade, constituindo-se em
interdisciplinaridade são as quatro flechas de um único e caminhos facilitadores da integração do processo formativo
mesmo arco: o do conhecimento. dos estudantes, pois ainda permite a sua participação na
escolha dos temas prioritários. Desse ponto de vista, a

45NICOLESCU, Basarab. Um novo tipo de conhecimento - transdisciplinaridade. Judite Vero, Maria F. de Mello e Américo Sommerman. Brasília: UNESCO, 2000.
In: NICOLESCU, Basarab et al. Educação e transdisciplinaridade. Tradução de (Edições UNESCO).

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interdisciplinaridade e o exercício da transversalidade ou do do conhecimento possam se coadunar com o conjunto de


trabalho pedagógico centrado em eixos temáticos, atividades educativas e instigar, estimular o despertar de
organizados em redes de conhecimento, contribuem para que necessidades e desejos nos sujeitos que dão vida à escola como
a escola dê conta de tornar os seus sujeitos conscientes de seus um todo. A matriz curricular constitui-se no espaço em que se
direitos e deveres e da possibilidade de se tornarem aptos a delimita o conhecimento e representa, além de alternativa
aprender a criar novos direitos, coletivamente. De qualquer operacional que subsidia a gestão de determinado currículo
forma, esse percurso é promovido a partir da seleção de temas escolar, subsídio para a gestão da escola (organização do
entre eles o tema dos direitos humanos, recomendados para tempo e espaço curricular; distribuição e controle da carga
serem abordados ao longo do desenvolvimento de horária docente) e primeiro passo para a conquista de outra
componentes curriculares com os quais guardam intensa ou forma de gestão do conhecimento pelos sujeitos que dão vida
relativa relação temática, em função de prescrição definida ao cotidiano escolar, traduzida como gestão centrada na
pelos órgãos do sistema educativo ou pela comunidade abordagem interdisciplinar. Neste sentido, a matriz curricular
educacional, respeitadas as características próprias da etapa deve se organizar por “eixos temáticos”, definidos pela
da Educação Básica que a justifica. unidade escolar ou pelo sistema educativo.
Conceber a gestão do conhecimento escolar enriquecida Para a definição de eixos temáticos norteadores da
pela adoção de temas a serem tratados sob a perspectiva organização e desenvolvimento curricular, parte-se do
transversal exige da comunidade educativa clareza quanto aos entendimento de que o programa de estudo aglutina
princípios e às finalidades da educação, além de conhecimento investigações e pesquisas sob diferentes enfoques. O eixo
da realidade contextual, em que as escolas, representadas por temático organiza a estrutura do trabalho pedagógico, limita a
todos os seus sujeitos e a sociedade, se acham inseridas. Para dispersão temática e fornece o cenário no qual são construídos
isso, o planejamento das ações pedagógicas pactuadas de os objetos de estudo. O trabalho com eixos temáticos permite
modo sistemático e integrado é pré-requisito indispensável à a concretização da proposta de trabalho pedagógico centrada
organicidade, sequencialidade e articulação do conjunto das na visão interdisciplinar, pois facilita a organização dos
aprendizagens perspectivadas, o que requer a participação de assuntos, de forma ampla e abrangente, a problematização e o
todos. Parte-se, pois, do pressuposto de que, para ser tratada encadeamento lógico dos conteúdos e a abordagem
transversalmente, a temática atravessa, estabelece elos, selecionada para a análise e/ou descrição dos temas. O recurso
enriquece, complementa temas e/ou atividades tratadas por dos eixos temáticos propicia o trabalho em equipe, além de
disciplinas, eixos ou áreas do conhecimento. contribuir para a superação do isolamento das pessoas e de
Nessa perspectiva, cada sistema pode conferir à conteúdos fixos. Os professores com os estudantes têm
comunidade escolar autonomia para seleção dos temas e liberdade de escolher temas, assuntos que desejam estudar,
delimitação dos espaços curriculares a eles destinados, bem contextualizando-os em interface com outros.
como a forma de tratamento que será conferido à Por rede de aprendizagem entende-se um conjunto de
transversalidade. Para que sejam implantadas com sucesso, é ações didático-pedagógicas, cujo foco incide sobre a
fundamental que as ações interdisciplinares sejam previstas aprendizagem, subsidiada pela consciência de que o processo
no projeto político-pedagógico, mediante pacto estabelecido de comunicação entre estudantes e professores é efetivado por
entre os profissionais da educação, responsabilizando-se pela meio de práticas e recursos tradicionais e por práticas de
concepção e implantação do projeto interdisciplinar na escola, aprendizagem desenvolvidas em ambiente virtual. Pressupõe
planejando, avaliando as etapas programadas e replanejando- compreender que se trata de aprender em rede e não de
as, ou seja, reorientando o trabalho de todos, em estreito laço ensinar na rede, exigindo que o ambiente de aprendizagem
com as famílias, a comunidade, os órgãos responsáveis pela seja dinamizado e compartilhado por todos os sujeitos do
observância do disposto em lei, principalmente, no ECA. processo educativo. Esses são procedimentos que não se
Com a implantação e implementação da LDB, a expressão confundem.
“matriz” foi adotada formalmente pelos diferentes sistemas Por isso, as redes de aprendizagem constituem-se em
educativos, mas ainda não conseguiu provocar ampla e ferramenta didático-pedagógica relevante também nos
aprofundada discussão pela comunidade educacional. O que se programas de formação inicial e continuada de profissionais
pode constatar é que a matriz foi entendida e assumida da educação. Esta opção requer planejamento sistemático
carregando as mesmas características da “grade” integrado, estabelecido entre sistemas educativos ou conjunto
burocraticamente estabelecida. Em sua história, esta recebeu de unidades escolares. Envolve elementos constitutivos da
conceitos a partir dos quais não se pode considerar que matriz gestão e das práticas docentes como infraestrutura favorável,
e grade sejam sinônimas. Mas o que é matriz? E como deve ser prática por projetos, respeito ao tempo escolar, avaliação
entendida a expressão “curricular”, se forem consideradas as planejada, perfil do professor, perfil e papel da direção escolar,
orientações para a educação nacional, pelos atos legais e formação do corpo docente, valorização da leitura, atenção
normas vigentes? Se o termo matriz for concebido tendo como individual ao estudante, atividades complementares e
referência o discurso das ciências econômicas, pode ser parcerias. Mas inclui outros aspectos como interação com as
apreendida como correlata de grade. Se for considerada a famílias e a comunidade, valorização docente e outras
partir de sua origem etimológica, será entendida como útero medidas, entre as quais a instituição de plano de carreira,
(lugar onde o feto de desenvolve), ou seja, lugar onde algo é cargos e salários.
concebido, gerado e/ou criado (como a pepita vinda da matriz) As experiências em andamento têm revelado êxitos e
ou, segundo Antônio Houaiss (2001, p. 1870), aquilo que é desafios vividos pelas redes na busca da qualidade da
fonte ou origem, ou ainda, segundo o mesmo autor, a casa educação. Os desafios centram-se, predominantemente, nos
paterna ou materna, espaço de referência dos filhos, mesmo obstáculos para a gestão participativa, a qualificação dos
após casados. Admitindo a acepção de matriz como lugar onde funcionários, a integração entre instituições escolares de
algo é concebido, gerado ou criado ou como aquilo que é fonte diferentes sistemas educativos (estadual e municipal, por
ou origem, não se admite equivalência de sentido, menos ainda exemplo) e a inclusão de estudantes com deficiência. São
como desenho simbólico ou instrumental da matriz curricular ressaltados, como pontos positivos, o intercâmbio de
com o mesmo formato e emprego atribuído historicamente à informações; a agilidade dos fluxos; os recursos que
grade curricular. A matriz curricular deve, portanto, ser alimentam relações e aprendizagens coletivas, orientadas por
entendida como algo que funciona assegurando movimento, um propósito comum: a garantia do direito de aprender.
dinamismo, vida curricular e educacional na sua Entre as vantagens, podem ser destacadas aquelas que se
multidimensionalidade, de tal modo que os diferentes campos referem à multiplicação de aulas de transmissão em tempo

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real por meio de teleaulas, com elevado grau de qualidade e evidenciando a importância da participação de todos os
amplas possibilidades de acesso, em telessala ou em qualquer segmentos da escola no processo de elaboração da proposta da
outro lugar, previamente preparado, para acesso pelos instituição que deve nos termos da lei, utilizar a parte
sujeitos da aprendizagem; aulas simultâneas para várias salas diversificada para enriquecer e complementar a base nacional
(e várias unidades escolares) com um professor principal e comum.
professores assistentes locais, combinadas com atividades on- (...) tanto a base nacional comum quanto a parte
line em plataformas digitais; aulas gravadas e acessadas a diversificada são fundamentais para que o currículo faça
qualquer tempo e de qualquer lugar por meio da internet ou sentido como um todo.
da TV digital, tratando de conteúdo, compreensão e avaliação
dessa compreensão; e oferta de esclarecimentos de dúvidas Cabe aos órgãos normativos dos sistemas de ensino
em determinados momentos do processo didático- expedir orientações quanto aos estudos e às atividades
pedagógico. correspondentes à parte diversificada do Ensino Fundamental
e do Médio, de acordo com a legislação vigente. A LDB, porém,
2.4.2. Formação básica comum e parte diversificada inclui expressamente o estudo de, pelo menos, uma língua
estrangeira moderna como componente necessário da parte
A LDB definiu princípios e objetivos curriculares gerais diversificada, sem determinar qual deva ser, cabendo sua
para o Ensino Fundamental e Médio, sob os aspectos: escolha à comunidade escolar, dentro das possibilidades da
escola, que deve considerar o atendimento das características
I – duração: anos, dias letivos e carga horária mínimos; locais, regionais, nacionais e transnacionais, tendo em vista as
II – uma base nacional comum; demandas do mundo do trabalho e da internacionalização de
III – uma parte diversificada. toda ordem de relações. A língua espanhola, no entanto, por
Entende-se por base nacional comum, na Educação Básica, força de lei específica (Lei nº 11.161/2005) passou a ser
os conhecimentos, saberes e valores produzidos culturalmente, obrigatoriamente ofertada no Ensino Médio, embora
expressos nas políticas públicas e que são gerados nas facultativa para o estudante, bem como possibilitada no
instituições produtoras do conhecimento científico e Ensino Fundamental, do 6º ao 9º ano. Outras leis específicas, a
tecnológico; no mundo do trabalho; no desenvolvimento das latere da LDB, determinam que sejam incluídos componentes
linguagens; nas atividades desportivas e corporais; na produção não disciplinares, como as questões relativas ao meio
artística; nas formas diversas de exercício da cidadania; nos ambiente, à condição e direito do idoso e ao trânsito.
movimentos sociais, definidos no texto dessa Lei, artigos 26 e Correspondendo à base nacional comum, ao longo do
3315, que assim se traduzem: processo básico de escolarização, a criança, o adolescente, o
I – na Língua Portuguesa; jovem e o adulto devem ter oportunidade de desenvolver, no
II – na Matemática; mínimo, habilidades segundo as especificidades de cada etapa
III – no conhecimento do mundo físico, natural, da realidade do desenvolvimento humano, privilegiando-se os aspectos
social e política, especialmente do Brasil, incluindo-se o estudo intelectuais, afetivos, sociais e políticos que se desenvolvem de
da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena, forma entrelaçada, na unidade do processo didático.
IV – na Arte em suas diferentes formas de expressão, Organicamente articuladas, a base comum nacional e a
incluindo-se a música; parte diversificada são organizadas e geridas de tal modo que
V – na Educação Física; também as tecnologias de informação e comunicação
VI – no Ensino Religioso. perpassem transversalmente a proposta curricular desde a
Educação Infantil até o Ensino Médio, imprimindo direção aos
Tais componentes curriculares são organizados pelos projetos político-pedagógicos. Ambas possuem como
sistemas educativos, em forma de áreas de conhecimento, referência geral o compromisso com saberes de dimensão
disciplinas, eixos temáticos, preservando-se a especificidade planetária para que, ao cuidar e educar, seja possível à escola
dos diferentes campos do conhecimento, por meio dos quais conseguir:
se desenvolvem as habilidades indispensáveis ao exercício da
cidadania, em ritmo compatível com as etapas do I – ampliar a compreensão sobre as relações entre o
desenvolvimento integral do cidadão. indivíduo, o trabalho, a sociedade e a espécie humana, seus
A parte diversificada enriquece e complementa a base limites e suas potencialidades, em outras palavras, sua
nacional comum, prevendo o estudo das características identidade terrena;
regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da II – adotar estratégias para que seja possível, ao longo da
comunidade escolar. Perpassa todos os tempos e espaços Educação Básica, desenvolver o letramento emocional, social e
curriculares constituintes do Ensino Fundamental e do Médio, ecológico; o conhecimento científico pertinente aos diferentes
independentemente do ciclo da vida no qual os sujeitos tempos, espaços e sentidos; a compreensão do significado das
tenham acesso à escola. É organizada em temas gerais, em ciências, das letras, das artes, do esporte e do lazer;
forma de áreas do conhecimento, disciplinas, eixos temáticos, III – ensinar a compreender o que é ciência, qual a sua
selecionados pelos sistemas educativos e pela unidade escolar, história e a quem ela se destina;
colegiadamente, para serem desenvolvidos de forma IV – viver situações práticas a partir das quais seja possível
transversal. A base nacional comum e a parte diversificada não perceber que não há uma única visão de mundo, portanto, um
podem se constituir em dois blocos distintos, com disciplinas fenômeno, um problema, uma experiência podem ser descritos e
específicas para cada uma dessas partes. analisados segundo diferentes perspectivas e correntes de
A compreensão sobre base nacional comum, nas suas pensamento, que variam no tempo, no espaço, na
relações com a parte diversificada, foi objeto de vários intencionalidade;
pareceres emitidos pelo CNE, cuja síntese se encontra no V – compreender os efeitos da “infoera”, sabendo que estes
Parecer CNE/CEB nº 14/2000, da lavra da conselheira Edla de atuam, cada vez mais, na vida das crianças, dos adolescentes e
Araújo Lira Soares. Após retomar o texto dos artigos 26 e 27 adultos, para que se reconheçam, de um lado, os estudantes, de
da LDB, a conselheira assim se pronuncia: outro, os profissionais da educação e a família, mas
reconhecendo que os recursos midiáticos devem permear todas
(...) a base nacional comum interage com a parte as atividades de aprendizagem.
diversificada, no âmago do processo de constituição de
conhecimentos e valores das crianças, jovens e adultos,

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Na organização da matriz curricular, serão observados os competência dos professores e demais profissionais da
critérios: educação, da garantia da autonomia responsável das
I – de organização e programação de todos os tempos (carga instituições escolares na formulação de seu projeto político-
horária) e espaços curriculares (componentes), em forma de pedagógico que contemple uma proposta consistente da
eixos, módulos ou projetos, tanto no que se refere à base organização do trabalho.
nacional comum, quanto à parte diversificada17, sendo que a
definição de tais eixos, módulos ou projetos deve resultar de 2.5. Organização da Educação Básica
amplo e verticalizado debate entre os atores sociais atuantes
nas diferentes instâncias educativas; Em suas singularidades, os sujeitos da Educação Básica, em
II – de duração mínima anual de 200 (duzentos) dias letivos, seus diferentes ciclos de desenvolvimento, são ativos, social e
com o total de, no mínimo, 800 (oitocentas) horas, recomendada culturalmente, porque aprendem e interagem; são cidadãos de
a sua ampliação, na perspectiva do tempo integral, sabendo-se direito e deveres em construção; copartícipes do processo de
que as atividades escolares devem ser programadas articulada produção de cultura, ciência, esporte e arte, compartilhando
e integradamente, a partir da base nacional comum enriquecida saberes, ao longo de seu desenvolvimento físico, cognitivo,
e complementada pela parte diversificada, ambas formando um socioafetivo, emocional, tanto do ponto de vista ético, quanto
todo; político e estético, na sua relação com a escola, com a família e
III – da interdisciplinaridade e da contextualização, que com a sociedade em movimento. Ao se identificarem esses
devem ser constantes em todo o currículo, propiciando a sujeitos, é importante considerar os dizeres de Narodowski46.
interlocução entre os diferentes campos do conhecimento e a Ele entende, apropriadamente, que a escola convive hoje com
transversalidade do conhecimento de diferentes disciplinas, bem estudantes de uma infância, de uma juventude (des) realizada,
como o estudo e o desenvolvimento de projetos referidos a temas que estão nas ruas, em situação de risco e exploração, e
concretos da realidade dos estudantes; aqueles de uma infância e juventude (hiper) realizada com
IV – da destinação de, pelo menos, 20% do total da carga pleno domínio tecnológico da internet, do orkut, dos chats.
horária anual ao conjunto de programas e projetos Não há mais como tratar: os estudantes como se fossem
interdisciplinares eletivos criados pela escola, previstos no homogêneos, submissos, sem voz; os pais e a comunidade
projeto pedagógico, de modo que os sujeitos do Ensino escolar como objetos. Eles são sujeitos plenos de
Fundamental e Médio possam escolher aqueles com que se possibilidades de diálogo, de interlocução e de intervenção.
identifiquem e que lhes permitam melhor lidar com o Exige-se, portanto, da escola, a busca de um efetivo pacto em
conhecimento e a experiência. Tais programas e projetos devem torno do projeto educativo escolar, que considere os sujeitos
ser desenvolvidos de modo dinâmico, criativo e flexível, em estudantes jovens, crianças, adultos como parte ativa de seus
articulação com a comunidade em que a escola esteja inserida; processos de formação, sem minimizar a importância da
V – da abordagem interdisciplinar na organização e gestão autoridade adulta.
do currículo, viabilizada pelo trabalho desenvolvido Na organização curricular da Educação Básica, devem-se
coletivamente, planejado previamente, de modo integrado e observar as diretrizes comuns a todas as suas etapas,
pactuado com a comunidade educativa; modalidades e orientações temáticas, respeitadas suas
VI – de adoção, nos cursos noturnos do Ensino Fundamental especificidades e as dos sujeitos a que se destinam. Cada etapa
e do Médio, da metodologia didático-pedagógica pertinente às é delimitada por sua finalidade, princípio e/ou por seus
características dos sujeitos das aprendizagens, na maioria objetivos ou por suas diretrizes educacionais, claramente
trabalhadores, e, se necessário, sendo alterada a duração do dispostos no texto da Lei nº 9.394/96, fundamentando-se na
curso, tendo como referência o mínimo correspondente à base inseparabilidade dos conceitos referenciais: cuidar e educar,
nacional comum, de modo que tais cursos não fiquem pois esta é uma concepção norteadora do projeto político-
prejudicados; pedagógico concebido e executado pela comunidade
VII – do entendimento de que, na proposta curricular, as educacional. Mas vão além disso quando, no processo
características dos jovens e adultos trabalhadores das turmas educativo, educadores e estudantes se defrontarem com a
do período noturno devem ser consideradas como subsídios complexidade e a tensão em que se circunscreve o processo no
importantes para garantir o acesso ao Ensino Fundamental e ao qual se dá a formação do humano em sua
Ensino Médio, a permanência e o sucesso nas últimas séries, seja multidimensionalidade.
em curso de tempo regular, seja em curso na modalidade de Na Educação Básica, o respeito aos estudantes e a seus
Educação de Jovens e Adultos, tendo em vista o direito à tempos mentais, socioemocionais, culturais, identitários, é um
frequência a uma escola que lhes dê uma formação adequada ao princípio orientador de toda a ação educativa. É
desenvolvimento de sua cidadania; responsabilidade dos sistemas educativos responderem pela
VIII – da oferta de atendimento educacional especializado, criação de condições para que crianças, adolescentes, jovens e
complementar ou suplementar à formação dos estudantes adultos, com sua diversidade (diferentes condições físicas,
público-alvo da Educação Especial, previsto no projeto político- sensoriais e socioemocionais, origens, etnias, gênero, crenças,
pedagógico da escola. classes sociais, contexto sociocultural), tenham a
oportunidade de receber a formação que corresponda à idade
A organização curricular assim concebida supõe outra própria do percurso escolar, da Educação Infantil, ao Ensino
forma de trabalho na escola, que consiste na seleção adequada Fundamental e ao Médio.
de conteúdos e atividades de aprendizagem, de métodos, Adicionalmente, na oferta de cada etapa pode
procedimentos, técnicas e recursos didático-pedagógicos. A corresponder uma ou mais das modalidades de ensino:
perspectiva da articulação interdisciplinar é voltada para o Educação Especial, Educação de Jovens e Adultos, Educação do
desenvolvimento não apenas de conhecimentos, mas também Campo, Educação Escolar Indígena, Educação Profissional e
de habilidades, valores e práticas. Tecnológica, Educação a Distância, a educação nos
Considera, ainda, que o avanço da qualidade na educação estabelecimentos penais e a educação quilombola.
brasileira depende, fundamentalmente, do compromisso Assim referenciadas, estas Diretrizes compreendem
político, dos gestores educacionais das diferentes instâncias orientações para a elaboração das diretrizes específicas para
da educação, do respeito às diversidades dos estudantes, da cada etapa e modalidade da Educação Básica, tendo como

46NARODOWSKI, Mariano. A infância como construção pedagógica. In: COSTA,


Marisa C. V. Escola Básica na virada do século: cultura, política e currículo. Porto
Alegre: FACED/UFRGS, 1995.

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centro e motivação os que justificam a existência da instituição atividades que lhes são peculiares: este é o tempo em que a
escolar: os estudantes em desenvolvimento. Reconhecidos curiosidade deve ser estimulada, a partir da brincadeira
como sujeitos do processo de aprendizagens, têm sua orientada pelos profissionais da educação. Os vínculos de
identidade cultural e humana respeitada, desenvolvida nas família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância
suas relações com os demais que compõem o coletivo da recíproca em que se assenta a vida social, devem iniciar-se na
unidade escolar, em elo com outras unidades escolares e com Pré-Escola e sua intensificação deve ocorrer ao longo do
a sociedade, na perspectiva da inclusão social exercitada em Ensino Fundamental, etapa em que se prolonga a infância e se
compromisso com a equidade e a qualidade. É nesse sentido inicia a adolescência.
que se deve pensar e conceber o projeto político-pedagógico, a Às unidades de Educação Infantil cabe definir, no seu
relação com a família, o Estado, a escola e tudo o que é nela projeto político-pedagógico, com base no que dispõem os
realizado. Sem isso, é difícil consolidar políticas que efetivem artigos 12 e 13 da LDB e no ECA, os conceitos orientadores do
o processo de integração entre as etapas e modalidades da processo de desenvolvimento da criança, com a consciência de
Educação Básica e garanta ao estudante o acesso, a inclusão, a que as crianças, em geral, adquirem as mesmas formas de
permanência, o sucesso e a conclusão de etapa, e a comportamento que as pessoas usam e demonstram nas suas
continuidade de seus estudos. Diante desse entendimento, a relações com elas, para além do desenvolvimento da
aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a linguagem e do pensamento.
Educação Básica e a revisão e a atualização das diretrizes Assim, a gestão da convivência e as situações em que se
específicas de cada etapa e modalidade devem ocorrer torna necessária a solução de problemas individuais e
mediante diálogo vertical e horizontal, de modo simultâneo e coletivos pelas crianças devem ser previamente programadas,
indissociável, para que se possa assegurar a necessária coesão com foco nas motivações estimuladas e orientadas pelos
dos fundamentos que as norteiam. professores e demais profissionais da educação e outros de
áreas pertinentes, respeitados os limites e as potencialidades
2.5.1. Etapas da Educação Básica de cada criança e os vínculos desta com a família ou com o seu
responsável direto. Dizendo de outro modo, nessa etapa deve-
Quanto às etapas correspondentes aos diferentes se assumir o cuidado e a educação, valorizando a
momentos constitutivos do desenvolvimento educacional, a aprendizagem para a conquista da cultura da vida, por meio de
Educação Básica compreende: atividades lúdicas em situações de aprendizagem (jogos e
brinquedos), formulando proposta pedagógica que considere
I – a Educação Infantil, que compreende: a Creche, o currículo como conjunto de experiências em que se
englobando as diferentes etapas do desenvolvimento da criança articulam saberes da experiência e socialização do
até 3 (três) anos e 11 (onze) meses; e a Pré-Escola, com duração conhecimento em seu dinamismo, depositando ênfase:
de 2 (dois) anos.
II – o Ensino Fundamental, obrigatório e gratuito, com I – na gestão das emoções;
duração de 9 (nove) anos, é organizado e tratado em duas fases: II – no desenvolvimento de hábitos higiênicos e alimentares;
a dos 5 (cinco) anos iniciais e a dos 4 (quatro) anos finais; III – na vivência de situações destinadas à organização dos
III – o Ensino Médio, com duração mínima de 3 (três) anos. objetos pessoais e escolares;
IV – na vivência de situações de preservação dos recursos da
Estas etapas e fases têm previsão de idades próprias, as natureza;
quais, no entanto, são diversas quando se atenta para alguns V – no contato com diferentes linguagens representadas,
pontos como atraso na matrícula e/ou no percurso escolar, predominantemente, por ícones – e não apenas pelo
repetência, retenção, retorno de quem havia abandonado os desenvolvimento da prontidão para a leitura e escrita –, como
estudos, estudantes com deficiência, jovens e adultos sem potencialidades indispensáveis à formação do interlocutor
escolarização ou com esta incompleta, habitantes de zonas cultural.
rurais, indígenas e quilombolas, adolescentes em regime de
acolhimento ou internação, jovens e adultos em situação de 2.5.1.2 Ensino Fundamental
privação de liberdade nos estabelecimentos penais.
Na etapa da vida que corresponde ao Ensino Fundamental,
2.5.1.1. Educação Infantil o estatuto de cidadão vai se definindo gradativamente
conforme o educando vai se assumindo a condição de um
A Educação Infantil tem por objetivo o desenvolvimento sujeito de direitos. As crianças, quase sempre, percebem o
integral da criança até 5 (cinco) anos de idade, em seus sentido das transformações corporais e culturais, afetivo-
aspectos físico, afetivo, psicológico, intelectual e social, emocionais, sociais, pelas quais passam. Tais transformações
complementando a ação da família e da comunidade. requerem-lhes reformulação da autoimagem, a que se associa
Seus sujeitos situam-se na faixa etária que compreende o o desenvolvimento cognitivo. Junto a isso, buscam referências
ciclo de desenvolvimento e de aprendizagem dotada de para a formação de valores próprios, novas estratégias para
condições específicas, que são singulares a cada tipo de lidar com as diferentes exigências que lhes são impostas.
atendimento, com exigências próprias. Tais atendimentos De acordo com a Resolução CNE/CEB nº 3/2005, o Ensino
carregam marcas singulares antropoculturais, porque as Fundamental de 9 (nove) anos tem duas fases com
crianças provêm de diferentes e singulares contexto etapa da características próprias, chamadas de: anos iniciais, com 5
Educação Básica devem ter a oportunidade de se sentirem (cinco) anos de duração, em regra para estudantes de 6 (seis)
acolhidos, amparados e respeitados pela escola e pelos a 10 (dez) anos de idade; e anos finais, com 4 (quatro) anos de
profissionais da educação, com base nos princípios da duração, para os de 11 (onze) a 14 (quatorze) anos.
individualidade, igualdade, liberdade, diversidade e O Parecer CNE/CEB nº 7/2007 admitiu coexistência do
pluralidade. Deve-se entender, portanto, que, para as crianças Ensino Fundamental de 8 (oito) anos, em extinção gradual,
de 0 (zero) a 5 (cinco) anos, independentemente das com o de 9 (nove), que se encontra em processo de
diferentes condições físicas, sensoriais, mentais, linguísticas, implantação e implementação. Há, nesse caso, que se respeitar
étnico-raciais, socioeconômicas, de origem, religiosas, entre o disposto nos Pareceres CNE/CEB nº 6/2005 e nº 18/2005,
outras, no espaço escolar, as relações sociais e intersubjetivas bem como na Resolução CNE/CEB nº 3/2005, que formula
requerem a atenção intensiva dos profissionais da educação, uma tabela de equivalência da organização e dos planos
durante o tempo e o momento de desenvolvimento das

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curriculares do Ensino Fundamental de 8 (oito) e de 9 (nove) I – de programa de preparação dos profissionais da


anos, a qual deve ser adotada por todas as escolas. educação, particularmente dos gestores, técnicos e professores;
O Ensino Fundamental é de matrícula obrigatória para as II – de trabalho pedagógico desenvolvido por equipes
crianças a partir dos 6 (seis) anos completos até o dia 31 de interdisciplinares e multiprofissionais;
março do ano em que ocorrer matrícula, conforme III – de programas de incentivo ao compromisso dos
estabelecido pelo CNE no Parecer CNE/CEB nº 22/2009 e profissionais da educação com os estudantes e com sua
Resolução CNE/CEB nº 1/2010. Segundo o Parecer CNE/CEB aprendizagem, de tal modo que se tornem sujeitos nesse
nº 4/2008, o antigo terceiro período da Pré-Escola, agora processo;
primeiro ano do Ensino Fundamental, não pode se confundir IV – de projetos desenvolvidos em aliança com a
com o anterior primeiro ano, pois se tornou parte integrante comunidade, cujas atividades colaborem para a superação de
de um ciclo de 3 (três) anos, que pode ser denominado “ciclo conflitos nas escolas, orientados por objetivos claros e tangíveis,
da infância”. Conforme o Parecer CNE/CEB nº 6/2005, a além de diferentes estratégias de intervenção;
ampliação do Ensino Fundamental obrigatório a partir dos 6 V – de abertura de escolas além do horário regular de aulas,
(seis) anos de idade requer de todas as escolas e de todos os oferecendo aos estudantes local seguro para a prática de
educadores compromisso com a elaboração de um novo atividades esportivo-recreativas e socioculturais, além de
projeto político-pedagógico, bem como para o consequente reforço escolar;
redimensionamento da Educação Infantil. VI – de espaços físicos da escola adequados aos diversos
Por outro lado, conforme destaca o Parecer CNE/CEB nº ambientes destinados às várias atividades, entre elas a de
7/2007: é perfeitamente possível que os sistemas de ensino experimentação e práticas botânicas;
estabeleçam normas para que essas crianças que só vão VII – de acessibilidade arquitetônica, nos mobiliários, nos
completar seis anos depois de iniciar o ano letivo possam recursos didático-pedagógicos, nas comunicações e
continuar frequentando a Pré-escola para que não ocorra uma informações.
indesejável descontinuidade de atendimento e
desenvolvimento. Nessa perspectiva, no geral, é tarefa da escola, palco de
O intenso processo de descentralização ocorrido na última interações, e, no particular, é responsabilidade do professor,
década acentuou, na oferta pública, a cisão entre anos iniciais apoiado pelos demais profissionais da educação, criar
e finais do Ensino Fundamental, levando à concentração dos situações que provoquem nos estudantes a necessidade e o
anos iniciais, majoritariamente, nas redes municipais, e dos desejo de pesquisar e experimentar situações de
anos finais, nas redes estaduais, embora haja escolas com aprendizagem como conquista individual e coletiva, a partir do
oferta completa (anos iniciais e anos finais do ensino contexto particular e local, em elo com o geral e transnacional.
fundamental) em escolas mantidas por redes públicas e
privadas. Essa realidade requer especial atenção dos sistemas 2.5.1.3. Ensino Médio
estaduais e municipais, que devem estabelecer forma de
colaboração, visando à oferta do Ensino Fundamental e à Os princípios e as finalidades que orientam o Ensino
articulação entre a primeira fase e a segunda, para evitar Médio23, para adolescentes em idade de 15 (quinze) a 17
obstáculos ao acesso de estudantes que mudem de uma rede (dezessete), preveem, como preparação para a conclusão do
para outra para completarem escolaridade obrigatória, processo formativo da Educação Básica (artigo 35 da LDB):
garantindo a organicidade e totalidade do processo formativo
do escolar. I – a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos
Respeitadas as marcas singulares antropoculturais que as adquiridos no Ensino Fundamental, possibilitando o
crianças de diferentes contextos adquirem, os objetivos da prosseguimento de estudos;
formação básica, definidos para a Educação Infantil, II – a preparação básica para o trabalho, tomado este como
prolongam-se durante os anos iniciais do Ensino Fundamental, princípio educativo, e para a cidadania do educando, para
de tal modo que os aspectos físico, afetivo, psicológico, continuar aprendendo, de modo a ser capaz de enfrentar novas
intelectual e social sejam priorizados na sua formação, condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores;
complementando a ação da família e da comunidade e, ao III – o aprimoramento do estudante como um ser de direitos,
mesmo tempo, ampliando e intensificando, gradativamente, o pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento
processo educativo com qualidade social, mediante: da autonomia intelectual e do pensamento crítico;
IV – a compreensão dos fundamentos científicos e
I – o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo tecnológicos presentes na sociedade contemporânea,
como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do relacionando a teoria com a prática.
cálculo;
II – foco central na alfabetização, ao longo dos três A formação ética, a autonomia intelectual, o pensamento
primeiros anos, conforme estabelece o Parecer CNE/CEB crítico que construa sujeitos de direitos devem se iniciar desde
nº4/2008, de 20 de fevereiro de 2008, da lavra do conselheiro o ingresso do estudante no mundo escolar. Como se sabe, estes
Murílio de Avellar Hingel, que apresenta orientação sobre os três são, a um só tempo, princípios e valores adquiridos durante a
anos iniciais do Ensino Fundamental de nove anos; formação da personalidade do indivíduo. É, entretanto, por
III – a compreensão do ambiente natural e social, do sistema meio da convivência familiar, social e escolar que tais valores
político, da economia, da tecnologia, das artes e da cultura dos são internalizados. Quando o estudante chega ao Ensino
direitos humanos e dos valores em que se fundamenta a Médio, os seus hábitos e as suas atitudes crítico-reflexivas e
sociedade; éticas já se acham em fase de conformação. Mesmo assim, a
IV – o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, preparação básica para o trabalho e a cidadania, e a prontidão
tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a para o exercício da autonomia intelectual são uma conquista
formação de atitudes e valores; paulatina e requerem a atenção de todas as etapas do processo
V – o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de de formação do indivíduo. Nesse sentido, o Ensino Médio,
solidariedade humana e de respeito recíproco em que se assenta como etapa responsável pela terminalidade do processo
a vida social. formativo da Educação Básica, deve se organizar para
proporcionar ao estudante uma formação com base unitária,
Como medidas de caráter operacional, impõe-se a adoção: no sentido de um método de pensar e compreender as
determinações da vida social e produtiva; que articule

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trabalho, ciência, tecnologia e cultura na perspectiva da não ingressarem na escola, seja por dela se evadirem por
emancipação humana. múltiplas razões.
Na definição e na gestão do currículo, sem dúvida, O inciso I do artigo 208 da Constituição Federal determina
inscrevem-se fronteiras de ordem legal e teórico- que o dever do Estado para com a educação será efetivado
metodológica. Sua lógica dirige-se aos jovens não como mediante a garantia de Ensino Fundamental obrigatório e
categorização genérica e abstrata, mas consideradas suas gratuito, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os
singularidades, que se situam num tempo determinado, que, que a ele não tiverem acesso na idade própria. Este
ao mesmo tempo, é recorte da existência humana e herdeiro mandamento constitucional é reiterado pela LDB, no inciso I
de arquétipos conformadores da sua singularidade inscrita em do seu artigo 4º, sendo que, o artigo 37 traduz os fundamentos
determinações históricas. Compreensível que é difícil que da EJA ao atribuir ao poder público a responsabilidade de
todos os jovens consigam carregar a necessidade e o desejo de estimular e viabilizar o acesso e a permanência do trabalhador
assumir todo o programa de Ensino Médio por inteiro, como na escola, mediante ações integradas e complementares entre
se acha organizado. Dessa forma, compreende-se que o si, mediante oferta de cursos gratuitos aos jovens e aos
conjunto de funções atribuídas ao Ensino Médio não adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular,
corresponde à pretensão e às necessidades dos jovens dos dias proporcionando-lhes oportunidades educacionais
atuais e às dos próximos anos. Portanto, para que se assegure apropriadas, consideradas as características do alunado, seus
a permanência dos jovens na escola, com proveito, até a interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e
conclusão da Educação Básica, os sistemas educativos devem exames. Esta responsabilidade deve ser prevista pelos
prever currículos flexíveis, com diferentes alternativas, para sistemas educativos e por eles deve ser assumida, no âmbito
que os jovens tenham a oportunidade de escolher o percurso da atuação de cada sistema, observado o regime de
formativo que mais atenda a seus interesses, suas colaboração e da ação redistributiva, definidos legalmente.
necessidades e suas aspirações. Os cursos de EJA devem pautar-se pela flexibilidade, tanto
Deste modo, essa etapa do processo de escolarização se de currículo quanto de tempo e espaço, para que seja:
constitui em responsável pela terminalidade do processo
formativo do estudante da Educação Básica24, e, I – rompida a simetria com o ensino regular para crianças e
conjuntamente, pela preparação básica para o trabalho e para adolescentes, de modo a permitir percursos individualizados e
a cidadania, e pela prontidão para o exercício da autonomia conteúdos significativos para os jovens e adultos;
intelectual. II – provido suporte e atenção individual às diferentes
Na perspectiva de reduzir a distância entre as atividades necessidades dos estudantes no processo de aprendizagem,
escolares e as práticas sociais, o Ensino Médio deve ter uma mediante atividades diversificadas;
base unitária sobre a qual podem se assentar possibilidades III – valorizada a realização de atividades e vivências
diversas: no trabalho, como preparação geral ou, socializadoras, culturais, recreativas e esportivas, geradoras de
facultativamente, para profissões técnicas; na ciência e na enriquecimento do percurso formativo dos estudantes;
tecnologia, como iniciação científica e tecnológica; nas artes e IV – desenvolvida a agregação de competências para o
na cultura, como ampliação da formação cultural. Assim, o trabalho;
currículo do Ensino Médio deve organizar-se de modo a V – promovida a motivação e orientação permanente dos
assegurar a integração entre os seus sujeitos, o trabalho, a estudantes, visando à maior participação nas aulas e seu melhor
ciência, a tecnologia e a cultura, tendo o trabalho como aproveitamento e desempenho;
princípio educativo, processualmente conduzido desde a VI – realizada sistematicamente a formação continuada
Educação Infantil. destinada especificamente aos educadores de jovens e adultos.

2.5.2. Modalidades da Educação Básica Na organização curricular dessa modalidade da Educação


Básica, a mesma lei prevê que os sistemas de ensino devem
Como já referido, na oferta de cada etapa pode oferecer cursos e exames supletivos, que compreenderão a
corresponder uma ou mais modalidades de ensino: Educação base nacional comum do currículo, habilitando ao
de Jovens e Adultos, Educação Especial, Educação Profissional prosseguimento de estudos em caráter regular. Entretanto,
e Tecnológica, Educação Básica do Campo, Educação Escolar prescreve que, preferencialmente, os jovens e adultos tenham
Indígena, Educação Escolar Quilombola e Educação a a oportunidade de desenvolver a Educação Profissional
Distância. articulada com a Educação Básica (§ 3º do artigo 37 da LDB,
incluído pela Lei nº 11.741/2008).
2.5.2.1. Educação de Jovens e Adultos
Cabe a cada sistema de ensino definir a estrutura e a
A instituição da Educação de Jovens e Adultos (EJA) 25 tem duração dos cursos da Educação de Jovens e Adultos,
sido considerada como instância em que o Brasil procura respeitadas as Diretrizes Curriculares Nacionais, a identidade
saldar uma dívida social que tem para com o cidadão que não dessa modalidade de educação e o regime de colaboração
estudou na idade própria. Destina-se, portanto, aos que se entre os entes federativos.
situam na faixa etária superior à considerada própria, no nível Quanto aos exames supletivos, a idade mínima para a
de conclusão do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. inscrição e realização de exames de conclusão do Ensino
A carência escolar de adultos e jovens que ultrapassaram Fundamental é de 15 (quinze) anos completos, e para os de
essa idade tem graus variáveis, desde a total falta de conclusão do Ensino Médio é a de 18 (dezoito) anos completos.
alfabetização, passando pelo analfabetismo funcional, até a Para a aplicação desses exames, o órgão normativo dos
incompleta escolarização nas etapas do Ensino Fundamental e sistemas de educação deve manifestar-se previamente, além
do Médio. Essa defasagem educacional mantém e reforça a de acompanhar os seus resultados. A certificação do
exclusão social, privando largas parcelas da população ao conhecimento e das experiências avaliados por meio de
direito de participar dos bens culturais, de integrar-se na vida exames para verificação de competências e habilidades é
produtiva e de exercer sua cidadania. Esse resgate não pode objeto de diretrizes específicas a serem emitidas pelo órgão
ser tratado emergencialmente, mas, sim, de forma sistemática normativo competente, tendo em vista a complexidade, a
e continuada, uma vez que jovens e adultos continuam singularidade e a diversidade contextual dos sujeitos a que se
alimentando o contingente com defasagem escolar, seja por destinam tais exames.

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2.5.2.2. Educação Especial


I – métodos, técnicas, recursos educativos e organização
A Educação Especial é uma modalidade de ensino específicos, para atender às suas necessidades;
transversal a todas etapas e outras modalidades, como parte II – formação de professores para o atendimento
integrante da educação regular, devendo ser prevista no educacional especializado, bem como para o desenvolvimento
projeto político-pedagógico da unidade escolar. de práticas educacionais inclusivas nas classes comuns de ensino
Os sistemas de ensino devem matricular todos os regular;
estudantes com deficiência, transtornos globais do III – acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais
desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, cabendo suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino
às escolas organizar-se para seu atendimento, garantindo as regular.
condições para uma educação de qualidade para todos,
devendo considerar suas necessidades educacionais A LDB, no artigo 60, prevê que os órgãos normativos dos
específicas, pautando-se em princípios éticos, políticos e sistemas de ensino estabelecerão critérios de caracterização
estéticos, para assegurar: das instituições privadas sem fins lucrativos, especializadas e
I – a dignidade humana e a observância do direito de cada com atuação exclusiva em Educação Especial, para fins de
estudante de realizar seus projetos e estudo, de trabalho e de apoio técnico e financeiro pelo poder público e, no seu
inserção na vida social, com autonomia e independência; parágrafo único, estabelece que o poder público ampliará o
II – a busca da identidade própria de cada estudante, o atendimento aos estudantes com necessidades especiais na
reconhecimento e a valorização das diferenças e própria rede pública regular de ensino, independentemente
potencialidades, o atendimento às necessidades educacionais no do apoio às instituições previstas nesse artigo.
processo de ensino e aprendizagem, como base para a
constituição e ampliação de valores, atitudes, conhecimentos, O Decreto nº 6.571/2008 dispõe sobre o atendimento
habilidades e competências; educacional especializado, regulamenta o parágrafo único do
III – o desenvolvimento para o exercício da cidadania, da artigo 60 da LDB e acrescenta dispositivo ao Decreto nº
capacidade de participação social, política e econômica e sua 6.253/2007, prevendo, no âmbito do FUNDEB, a dupla
ampliação, mediante o cumprimento de seus deveres e o matrícula dos alunos público-alvo da educação especial, uma
usufruto de seus direitos. no ensino regular da rede pública e outra no atendimento
educacional especializado.
O atendimento educacional especializado (AEE), previsto
pelo Decreto nº 6.571/2008, é parte integrante do processo OBS: Nova redação conferida ao parágrafo único do
educacional, sendo que os sistemas de ensino devem art. 60, regulamentado pela Lei 12.796/2013.
matricular os estudantes com deficiência, transtornos globais
do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas Parágrafo único. O poder público adotará, como alternativa
classes comuns do ensino regular e no atendimento preferencial, a ampliação do atendimento aos educandos com
educacional especializado (AEE). O objetivo deste deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas
atendimento é identificar habilidades e necessidades dos habilidades ou superdotação na própria rede pública regular de
estudantes, organizar recursos de acessibilidade e realizar ensino, independentemente do apoio às instituições previstas
atividades pedagógicas específicas que promovam seu acesso neste artigo. (Redação dada pela Lei nº 12.796, de 2013)
ao currículo. Este atendimento não substitui a escolarização
em classe comum e é ofertado no contraturno da escolarização 2.5.2.3. Educação Profissional e Tecnológica
em salas de recursos multifuncionais da própria escola, de
outra escola pública ou em centros de AEE da rede pública ou A Educação Profissional e Tecnológica (EPT), em
de instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas conformidade com o disposto na LDB, com as alterações
sem fins lucrativos conveniadas com a Secretaria de Educação introduzidas pela Lei nº 11.741/2008, no cumprimento dos
ou órgão equivalente dos Estados, Distrito Federal ou dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes
Municípios. níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho,
Os sistemas e as escolas devem proporcionar condições da ciência e da tecnologia. Dessa forma, pode ser
para que o professor da classe comum possa explorar e compreendida como uma modalidade na medida em que
estimular as potencialidades de todos os estudantes, adotando possui um modo próprio de fazer educação nos níveis da
uma pedagogia dialógica, interativa, interdisciplinar e Educação Básica e Superior e em sua articulação com outras
inclusiva e, na interface, o professor do AEE identifique modalidades educacionais: Educação de Jovens e Adultos,
habilidades e necessidades dos estudantes, organize e oriente Educação Especial e Educação a Distância.
sobre os serviços e recursos pedagógicos e de acessibilidade A EPT na Educação Básica ocorre na oferta de cursos de
para a participação e aprendizagem dos estudantes. formação inicial e continuada ou qualificação profissional, e
Na organização desta modalidade, os sistemas de ensino nos de Educação Profissional Técnica de nível médio ou, ainda,
devem observar as seguintes orientações fundamentais: na Educação Superior, conforme o § 2º do artigo 39 da LDB:
A Educação Profissional e Tecnológica abrangerá os
I – o pleno acesso e efetiva participação dos estudantes no seguintes cursos:
ensino regular; I – de formação inicial e continuada ou qualificação
II – a oferta do atendimento educacional especializado profissional;
(AEE); II – de Educação Profissional Técnica de nível médio;
III – a formação de professores para o AEE e para o III – de Educação Profissional Tecnológica de graduação e
desenvolvimento de práticas educacionais inclusivas; pós-graduação.
IV – a participação da comunidade escolar;
V – a acessibilidade arquitetônica, nas comunicações e A Educação Profissional Técnica de nível médio, nos
informações, nos mobiliários e equipamentos e nos transportes; termos do artigo 36-B da mesma Lei, é desenvolvida nas
VI – a articulação das políticas públicas interssetoriais. seguintes formas:

Nesse sentido, os sistemas de ensino assegurarão a I – articulada com o Ensino Médio, sob duas formas:
observância das seguintes orientações fundamentais: II – integrada, na mesma instituição,

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III – concomitante, na mesma ou em distintas instituições; de trabalho, até a possibilidade de saídas e entradas
IV – subsequente, em cursos destinados a quem já tenha intermediárias.
concluído o Ensino Médio.
2.5.2.4. Educação Básica do campo
As instituições podem oferecer cursos especiais, abertos à
comunidade, com matrícula condicionada à capacidade de Nesta modalidade, a identidade da escola do campo é
aproveitamento e não necessariamente ao nível de definida pela sua vinculação com as questões inerentes à sua
escolaridade. São formulados para o atendimento de realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios
demandas pontuais, específicas de um determinado segmento dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na
da população ou dos setores produtivos, com período rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos
determinado para início e encerramento da oferta, sendo, movimentos sociais em defesa de projetos que associem as
como cursos de formação inicial e continuada ou de soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida
qualificação profissional, livres de regulamentação curricular. coletiva no País.
No tocante aos cursos articulados com o Ensino Médio, A educação para a população rural está prevista no artigo
organizados na forma integrada, o que está proposto é um 28 da LDB, em que ficam definidas, para atendimento à
curso único (matrícula única), no qual os diversos população rural, adaptações necessárias às peculiaridades da
componentes curriculares são abordados de forma que se vida rural e de cada região, definindo orientações para três
explicitem os nexos existentes entre eles, conduzindo os aspectos essenciais à organização da ação pedagógica:
estudantes à habilitação profissional técnica de nível médio ao
mesmo tempo em que concluem a última etapa da Educação I – conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às
Básica. reais necessidades e interesses dos estudantes da zona rural;
Os cursos técnicos articulados com o Ensino Médio, II – organização escolar própria, incluindo adequação do
ofertados na forma concomitante, com dupla matrícula e dupla calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições
certificação, podem ocorrer na mesma instituição de ensino, climáticas;
aproveitando-se as oportunidades educacionais disponíveis; III – adequação à natureza do trabalho na zona rural.
em instituições de ensino distintas, aproveitando-se as
oportunidades educacionais disponíveis; ou em instituições de Obs: a lei 12.960/2014, incluiu o parágrafo único ao
ensino distintas, mediante convênios de artigo 28 da LDB:
intercomplementaridade, visando ao planejamento e ao
desenvolvimento de projeto pedagógico unificado. Parágrafo único. O fechamento de escolas do campo,
São admitidas, nos cursos de Educação Profissional indígenas e quilombolas será precedido de manifestação do
Técnica de nível médio, a organização e a estruturação em órgão normativo do respectivo sistema de ensino, que
etapas que possibilitem uma qualificação profissional considerará a justificativa apresentada pela Secretaria de
intermediária. Educação, a análise do diagnóstico do impacto da ação e a
Abrange, também, os cursos conjugados com outras manifestação da comunidade escolar. (Incluído pela Lei nº
modalidades de ensino, como a Educação de Jovens e Adultos, 12.960, de 2014)
a Educação Especial e a Educação a Distância, e pode ser
desenvolvida por diferentes estratégias de educação As propostas pedagógicas das escolas do campo devem
continuada, em instituições especializadas ou no ambiente de contemplar a diversidade do campo em todos os seus
trabalho. Essa previsão coloca, no escopo dessa modalidade aspectos: sociais, culturais, políticos, econômicos, de gênero,
educacional, as propostas de qualificação, capacitação, geração e etnia. Formas de organização e metodologias
atualização e especialização profissional, entre outras livres de pertinentes à realidade do campo devem, nesse sentido, ter
regulamentação curricular, reconhecendo que a EPT pode acolhida. Assim, a pedagogia da terra busca um trabalho
ocorrer em diversos formatos e no próprio local de trabalho. pedagógico fundamentado no princípio da sustentabilidade,
Inclui, nesse sentido, os programas e cursos de Aprendizagem, para que se possa assegurar a preservação da vida das futuras
previstos na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) gerações.
aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452/43, desenvolvidos por Particularmente propícia para esta modalidade, destaca-se
entidades qualificadas e no ambiente de trabalho, através de a pedagogia da alternância (sistema dual), criada na Alemanha
contrato especial de trabalho. há cerca de 140 anos e, hoje, difundida em inúmeros países,
A organização curricular da educação profissional e inclusive no Brasil, com aplicação, sobretudo, no ensino
tecnológica por eixo tecnológico fundamenta-se na voltado para a formação profissional e tecnológica para o meio
identificação das tecnologias que se encontram na base de uma rural. Nesta metodologia, o estudante, durante o curso e como
dada formação profissional e dos arranjos lógicos por elas parte integrante dele, participa, concomitante e
constituídos. Por considerar os conhecimentos tecnológicos alternadamente, de dois ambientes/situações de
pertinentes a cada proposta de formação profissional, os eixos aprendizagem: o escolar e o laboral, não se configurando o
tecnológicos facilitam a organização de itinerários formativos, último como estágio, mas, sim, como parte do currículo do
apontando possibilidades de percursos tanto dentro de um curso. Essa alternância pode ser de dias na mesma semana ou
mesmo nível educacional quanto na passagem do nível básico de blocos semanais ou, mesmo, mensais ao longo do curso.
para o superior. Supõe uma parceria educativa, em que ambas as partes são
Os conhecimentos e habilidades adquiridos tanto nos corresponsáveis pelo aprendizado e formação do estudante. É
cursos de educação profissional e tecnológica, como os bastante claro que podem predominar, num ou noutro,
adquiridos na prática laboral pelos trabalhadores, podem ser oportunidades diversas de desenvolvimento de competências,
objeto de avaliação, reconhecimento e certificação para com ênfases ora em conhecimentos, ora em habilidades
prosseguimento ou conclusão de estudos. Assegura-se, assim, profissionais, ora em atitudes, emoções e valores necessários
ao trabalhador jovem e adulto, a possibilidade de ter ao adequado desempenho do estudante. Nesse sentido, os dois
reconhecidos os saberes construídos em sua trajetória de vida. ambientes/situações são intercomplementares.
Para Moacir Alves Carneiro, a certificação pretende valorizar a
experiência extraescolar e a abertura que a Lei dá à Educação 2.5.2.5. Educação escolar indígena
Profissional vai desde o reconhecimento do valor igualmente A escola desta modalidade tem uma realidade singular,
educativo do que se aprendeu na escola e no próprio ambiente inscrita em terras e cultura indígenas31. Requer, portanto,

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pedagogia própria em respeito à especificidade étnico-cultural professores desenvolvendo atividades educativas em lugares
de cada povo ou comunidade e formação específica de seu ou tempos diversos.
quadro docente, observados os princípios constitucionais, a O credenciamento para a oferta de cursos e programas de
base nacional comum e os princípios que orientam a Educação Educação de Jovens e Adultos, de Educação Especial e de
Básica brasileira (artigos 5º, 9º, 10, 11 e inciso VIII do artigo Educação Profissional e Tecnológica de nível médio, na
4º da LDB). modalidade a distância, compete aos sistemas estaduais de
Na estruturação e no funcionamento das escolas indígenas ensino, atendidas a regulamentação federal e as normas
é reconhecida sua condição de escolas com normas e complementares desses sistemas.
ordenamento jurídico próprios, com ensino intercultural e
bilíngue, visando à valorização plena das culturas dos povos 2.5.2.6. Educação Escolar Quilombola
indígenas e à afirmação e manutenção de sua diversidade
étnica. A Educação Escolar Quilombola é desenvolvida em
unidades educacionais inscritas em suas terras e cultura,
São elementos básicos para a organização, a estrutura e o requerendo pedagogia própria em respeito à especificidade
funcionamento da escola indígena: étnicocultural de cada comunidade e formação específica de
seu quadro docente, observados os princípios constitucionais,
I – localização em terras habitadas por comunidades a base nacional comum e os princípios que orientam a
indígenas, ainda que se estendam por territórios de diversos Educação Básica brasileira.
Estados ou Municípios contíguos; Na estruturação e no funcionamento das escolas
II – exclusividade de atendimento a comunidades indígenas; quilombolas, deve ser reconhecida e valorizada sua
III – ensino ministrado nas línguas maternas das diversidade cultural.
comunidades atendidas, como uma das formas de preservação
da realidade sociolinguística de cada povo; 2.6. Elementos constitutivos para a organização das
IV – organização escolar própria. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação
Básica
Na organização de escola indígena deve ser considerada a
participação da comunidade, na definição do modelo de Estas Diretrizes inspiram-se nos princípios constitucionais
organização e gestão, bem como: e na LDB e se operacionalizam – sobretudo por meio do
projeto político-pedagógico e do regimento escolar, do sistema
I – suas estruturas sociais; de avaliação, da gestão democrática e da organização da escola
II – suas práticas socioculturais e religiosas; – na formação inicial e continuada do professor, tendo como
III – suas formas de produção de conhecimento, processos base os princípios afirmados nos itens anteriores, entre os
próprios e métodos de ensino-aprendizagem; quais o cuidado e o compromisso com a educação integral de
IV – suas atividades econômicas; todos, atendendo-se às dimensões orgânica, sequencial e
V – a necessidade de edificação de escolas que atendam aos articulada da Educação Básica.
interesses das comunidades indígenas; A LDB estabelece condições para que a unidade escolar
VI – o uso de materiais didático-pedagógicos produzidos de responda à obrigatoriedade de garantir acesso à escola e
acordo com o contexto sociocultural de cada povo indígena. permanência com sucesso. Ela aponta ainda alternativas para
flexibilizar as condições para que a passagem dos estudantes
As escolas indígenas desenvolvem suas atividades de pela escola seja concebida como momento de crescimento,
acordo com o proposto nos respectivos projetos pedagógicos mesmo frente a percursos de aprendizagem não lineares.
e regimentos escolares com as prerrogativas de: organização A isso se associa o entendimento de que a instituição
das atividades escolares, independentes do ano civil, escolar, hoje, dispõe de instrumentos legais e normativos que
respeitado o fluxo das atividades econômicas, sociais, culturais lhe permitam exercitar sua autonomia, instituindo as suas
e religiosas; e duração diversificada dos períodos escolares, próprias regras para mudar, reinventar, no seu projeto
ajustando-a às condições e especificidades próprias de cada político-pedagógico e no seu regimento, o currículo, a
comunidade. avaliação da aprendizagem, seus procedimentos, para que o
Por sua vez, tem projeto pedagógico próprio, por escola ou grande objetivo seja alcançado: educação para todos em todas
por povo indígena, tendo por base as Diretrizes Curriculares as etapas e modalidades da Educação Básica, com qualidade
Nacionais referentes a cada etapa da Educação Básica; as social.
características próprias das escolas indígenas, em respeito à
especificidade étnico-cultural de cada povo ou comunidade; as 2.6.1. O projeto político-pedagógico e o regimento escolar
realidades sociolinguísticas, em cada situação; os conteúdos
curriculares especificamente indígenas e os modos próprios O projeto político-pedagógico, nomeado na LDB como
de constituição do saber e da cultura indígena; e a participação proposta ou projeto pedagógico, representa mais do que um
da respectiva comunidade ou povo indígena. documento. É um dos meios de viabilizar a escola democrática
e autônoma para todos, com qualidade social. Autonomia
A formação dos professores é específica, desenvolvida no pressupõe liberdade e capacidade de decidir a partir de regras
âmbito das instituições formadoras de professores, garantido- relacionais. O exercício da autonomia administrativa e
se aos professores indígenas a sua formação em serviço e, pedagógica da escola pode ser traduzido como a capacidade de
quando for o caso, concomitantemente com a sua própria governar a si mesmo, por meio de normas próprias.
escolarização. A autonomia da escola numa sociedade democrática é,
sobretudo, a possibilidade de ter uma compreensão particular
2.5.2.6. Educação a Distância das metas da tarefa de educar e cuidar, das relações de
interdependência, da possibilidade de fazer escolhas visando
A modalidade Educação a Distância caracteriza-se pela a um trabalho educativo eticamente responsável, que devem
mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e ser postas em prática nas instituições educacionais, no
aprendizagem que ocorre com a utilização de meios e cumprimento do artigo 3º da LDB, em que vários princípios
tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e derivam da Constituição Federal. Essa autonomia tem como

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suporte a Constituição Federal e o disposto no artigo 15 da etapas da Educação Básica assumidas pela unidade escolar, de
LDB: acordo com as especificidades que lhes correspondam,
preservando a articulação orgânica daquelas etapas.
Os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares Reconhecendo o currículo como coração que faz pulsar o
públicas de Educação Básica que os integram progressivos trabalho pedagógico na sua multidimensionalidade e
graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão dinamicidade, o projeto político-pedagógico deve constituir-
financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro se:
público.
I – do diagnóstico da realidade concreta dos sujeitos do
O ponto de partida para a conquista da autonomia pela processo educativo, contextualizado no espaço e no tempo;
instituição educacional tem por base a construção da II – da concepção sobre educação, conhecimento, avaliação
identidade de cada escola, cuja manifestação se expressa no da aprendizagem e mobilidade escolar;
seu projeto pedagógico e no regimento escolar próprio, III – da definição de qualidade das aprendizagens e, por
enquanto manifestação de seu ideal de educação e que permite consequência, da escola, no contexto das desigualdades que nela
uma nova e democrática ordenação pedagógica das relações se refletem;
escolares. O projeto político-pedagógico deve, pois, ser IV – de acompanhamento sistemático dos resultados do
assumido pela comunidade educativa, ao mesmo tempo, como processo de avaliação interna e externa (SAEB, Prova Brasil,
sua força indutora do processo participativo na instituição e dados estatísticos resultantes das avaliações em rede nacional e
como um dos instrumentos de conciliação das diferenças, de outras; pesquisas sobre os sujeitos da Educação Básica),
busca da construção de responsabilidade compartilhada por incluindo resultados que compõem o Índice de Desenvolvimento
todos os membros integrantes da comunidade escolar, sujeitos da Educação Básica (IDEB) e/ou que complementem ou
históricos concretos, situados num cenário geopolítico substituam os desenvolvidos pelas unidades da federação e
preenchido por situações cotidianas desafiantes. outros;
Assim concebido, o processo de formulação do projeto V – da implantação dos programas de acompanhamento do
político-pedagógico tem como referência a democrática acesso, de permanência dos estudantes e de superação da
ordenação pedagógica das relações escolares, cujo horizonte retenção escolar;
de ação procura abranger a vida humana em sua globalidade. VI – da explicitação das bases que norteiam a organização
Por outro lado, o projeto político-pedagógico é também um do trabalho pedagógico tendo como foco os fundamentos da
documento em que se registra o resultado do processo gestão democrática, compartilhada e participativa (órgãos
negocial estabelecido por aqueles atores que estudam a escola colegiados, de representação estudantil e dos pais).
e por ela respondem em parceria (gestores, professores,
técnicos e demais funcionários, representação estudantil, No projeto político-pedagógico, deve-se conceber a
representação da família e da comunidade local). É, portanto, organização do espaço físico da instituição escolar de tal modo
instrumento de previsão e suporte para a avaliação das ações que este seja compatível com as características de seus
educativas programadas para a instituição como um todo; sujeitos, além da natureza e das finalidades da educação,
referência e transcende o planejamento da gestão e do deliberadas e assumidas pela comunidade educacional. Assim,
desenvolvimento escolar, porque suscita e registra decisões a despadronização curricular pressupõe a despadronização do
colegiadas que envolvem a comunidade escolar como um todo, espaço físico e dos critérios de organização da carga horária do
projetando-as para além do período do mandato de cada professor. A exigência – o rigor no educar e cuidar – é a chave
gestor. Assim, cabe à escola, considerada a sua identidade e a para a conquista e recuperação dos níveis de qualidade
de seus sujeitos, articular a formulação do projeto político- educativa de que as crianças e os jovens necessitam para
pedagógico com os planos de educação nacional, estadual, continuar a estudar em etapas e níveis superiores, para
municipal, o plano da gestão, o contexto em que a escola se integrar-se no mundo do trabalho em seu direito inalienável
situa e as necessidades locais e as de seus estudantes. A de alcançar o lugar de cidadãos responsáveis, formados nos
organização e a gestão das pessoas, do espaço, dos processos e valores democráticos e na cultura do esforço e da
os procedimentos que viabilizam o trabalho de todos aqueles solidariedade.
que se inscrevem no currículo em movimento expresso no Nessa perspectiva, a comunidade escolar assume o projeto
projeto político-pedagógico representam o conjunto de político-pedagógico não como peça constitutiva da lógica
elementos que integram o trabalho pedagógico e a gestão da burocrática, menos ainda como elemento mágico capaz de
escola tendo como fundamento o que dispõem os artigos 14, solucionar todos os problemas da escola, mas como instância
12 e 13, da LDB, respectivamente. de construção coletiva, que respeita os sujeitos das
aprendizagens, entendidos como cidadãos de direitos à
Na elaboração do projeto político-pedagógico, a concepção proteção e à participação social, de tal modo que:
de currículo e de conhecimento escolar deve ser enriquecida
pela compreensão de como lidar com temas significativos que I – estimule a leitura atenta da realidade local, regional e
se relacionem com problemas e fatos culturais relevantes da mundial, por meio da qual se podem perceber horizontes,
realidade em que a escola se inscreve. O conhecimento prévio tendências e possibilidades de desenvolvimento;
sobre como funciona o financiamento da educação pública, II – preserve a clareza sobre o fazer pedagógico, em sua
tanto em nível federal quanto em estadual e municipal, pela multidimensionalidade, prevendo-se a diversidade de ritmo de
comunidade educativa, contribui, significativamente, no desenvolvimento dos sujeitos das aprendizagens e caminhos por
momento em que se estabelecem as prioridades institucionais. eles escolhidos;
A natureza e a finalidade da unidade escolar, o papel III – institua a compreensão dos conflitos, das divergências e
socioeducativo, artístico, cultural, ambiental, as questões de diferenças que demarcam as relações humanas e sociais;
gênero, etnia, classe social e diversidade cultural que IV – esclareça o papel dos gestores da instituição, da
compõem as ações educativas, particularmente a organização organização estudantil e dos conselhos: comunitário, de classe,
e a gestão curricular, são os componentes que subsidiam as de pais e outros;
demais partes integrantes do projeto político-pedagógico. V – perceba e interprete o perfil real dos sujeitos – crianças,
Nele, devem ser previstas as prioridades institucionais que a jovens e adultos – que justificam e instituem a vida da e na
identificam. Além de se observar tais critérios e compromisso, escola, do ponto de vista intelectual, cultural, emocional, afetivo,
deve-se definir o conjunto das ações educativas próprias das

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socioeconômico, como base da reflexão sobre as relações vida- VII – a articulação entre teoria e prática, vinculando o
conhecimento-culturaprofessor-estudante e instituição escolar; trabalho intelectual com atividades práticas experimentais;
VI – considere como núcleo central das aprendizagens pelos VIII – a promoção da integração das atividades educativas
sujeitos do processo educativo (gestores, professores, técnicos e com o mundo do trabalho, por meio de atividades práticas e de
funcionários, estudantes e famílias) a curiosidade e a pesquisa, estágios, estes para os estudantes do Ensino Médio e da
incluindo, de modo cuidadoso e sistemático, as chamadas Educação Profissional e Tecnológica;
referências virtuais de aprendizagem que se dão em contextos IX – a utilização de novas mídias e tecnologias educacionais,
digitais; como processo de dinamização dos ambientes de aprendizagem;
VII – preveja a formação continuada dos gestores e X – a oferta de atividades de estudo com utilização de novas
professores para que estes tenham a oportunidade de se manter tecnologias de comunicação.
atualizados quanto ao campo do conhecimento que lhes cabe XI – a promoção de atividades sociais que estimulem o
manejar, trabalhar e quanto à adoção, à opção da metodologia convívio humano e interativo do mundo dos jovens;
didático-pedagógica mais própria às aprendizagens que devem XII – a organização dos tempos e dos espaços com ações
vivenciar e estimular, incluindo aquelas pertinentes às efetivas de interdisciplinaridade e contextualização dos
Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC); conhecimentos;
VIII – realize encontros pedagógicos periódicos, com tempo XIII – a garantia do acompanhamento da vida escolar dos
e espaço destinados a estudos, debates e troca de experiências estudantes, desde o diagnóstico preliminar, acompanhamento
de aprendizagem dos sujeitos do processo coletivo de gestão e do desempenho e integração com a família;
pedagógico pelos gestores, professores e estudantes, para a XIV – a promoção da aprendizagem criativa como processo
reorientação de caminhos e estratégias; de sistematização dos conhecimentos elaborados, como
IX – defina e justifique, claramente, a opção por um ou outro caminho pedagógico de superação à mera memorização;
método de trabalho docente e a compreensão sobre a qualidade XV – o estímulo da capacidade de aprender do estudante,
das aprendizagens como direito social dos sujeitos e da escola: desenvolvendo o autodidatismo e autonomia dos estudantes;
qualidade formal e qualidade política (saber usar a qualidade XVI – a indicação de exames otorrino, laringo, oftálmico e
formal); outros sempre que o estudante manifestar dificuldade de
X – traduza, claramente, os critérios orientadores da concentração e/ou mudança de comportamento;
distribuição e organização do calendário escolar e da carga XVII– a oferta contínua de atividades complementares e de
horária destinada à gestão e à docência, de tal modo que se reforço da aprendizagem, proporcionando condições para que o
viabilize a concretização do currículo escolar e, ao mesmo estudante tenha sucesso em seus estudos;
tempo, que os profissionais da educação sejam valorizados e XVIII – a oferta de atividades de estudo com utilização de
estimulados a trabalharem prazerosamente; novas tecnologias de comunicação.
XI – contemple programas e projetos com os quais a escola
desenvolverá ações inovadoras, cujo foco incida na prevenção Nesse sentido, o projeto político-pedagógico, concebido
das consequências da incivilidade que vem ameaçando a saúde pela escola e que passa a orientá-la, deve identificar a
e o bem estar, particularmente das juventudes, assim como na Educação Básica, simultaneamente, como o conjunto e
reeducação dos sujeitos vitimados por esse fenômeno pluralidade de espaços e tempos que favorecem processos em
psicossocial; que a infância e a adolescência se humanizam ou se
XII – avalie as causas da distorção de idade/ano/série, desumanizam, porque se inscrevem numa teia de relações
projetando a sua superação, por intermédio da implantação de culturais mais amplas e complexas, histórica e socialmente
programas didático-pedagógicos fundamentados por tecidas. Daí a relevância de se ter, como fundamento desse
metodologia específica. nível da educação, os dois pressupostos: cuidar e educar. Este
é o foco a ser considerado pelos sistemas educativos, pelas
Daí a necessidade de se estimularem novas formas de unidades escolares, pela comunidade educacional, em geral, e
organização dos componentes curriculares dispondo-os em pelos sujeitos educadores, em particular, na elaboração e
eixos temáticos, que são considerados eixos fundantes, pois execução de determinado projeto institucional e regimento
conferem relevância ao currículo. Desse modo, no projeto escolar.
político-pedagógico, a comunidade educacional deve O regimento escolar trata da natureza e da finalidade da
engendrar o entrelaçamento entre trabalho, ciência, instituição; da relação da gestão democrática com os órgãos
tecnologia, cultura e arte, por meio de atividades próprias às colegiados; das atribuições de seus órgãos e sujeitos; das suas
características da etapa de desenvolvimento humano do normas pedagógicas, incluindo os critérios de acesso,
escolar a que se destinarem, prevendo: promoção, e a mobilidade do escolar; e dos direitos e deveres
dos seus sujeitos: estudantes, professores, técnicos,
I – as atividades integradoras de iniciação científica e no funcionários, gestores, famílias, representação estudantil e
campo artístico-cultural, desde a Educação Infantil; função das suas instâncias colegiadas.
II – os princípios norteadores da educação nacional, a Nessa perspectiva, o regimento, discutido e aprovado pela
metodologia da problematização como instrumento de comunidade escolar e conhecido por todos, constitui-se em um
incentivo à pesquisa, à curiosidade pelo inusitado e ao dos instrumentos de execução, com transparência e
desenvolvimento do espírito inventivo, nas práticas didáticas; responsabilidade, do seu projeto político-pedagógico. As
III – o desenvolvimento de esforços pedagógicos com normas nele definidas servem, portanto, para reger o trabalho
intenções educativas, comprometidas com a educação cidadã; pedagógico e a vida da instituição escolar, em consonância
IV – a avaliação do desenvolvimento das aprendizagens com o projeto político-pedagógico e com a legislação e as
como processo formativo e permanente de reconhecimento de normas educacionais.
conhecimentos, habilidades, atitudes, valores e emoções;
V – a valorização da leitura em todos os campos do 2.6.2. Avaliação
conhecimento, desenvolvendo a capacidade de letramento dos
estudantes; Do ponto de vista teórico, muitas são as formulações que
VI – o comportamento ético e solidário, como ponto de tratam da avaliação. No ambiente educacional, ela
partida para o reconhecimento dos deveres e direitos da compreende três dimensões básicas:
cidadania, para a prática do humanismo contemporâneo, pelo I – avaliação da aprendizagem;
reconhecimento, respeito e acolhimento da identidade do outro; II – avaliação institucional interna e externa;

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III – avaliação de redes de Educação Básica. outra unidade de percurso escolhida, exceto no primeiro ano
Nestas Diretrizes, é a concepção de educação que do Ensino Fundamental. Essas duas figuras fundamentam-se
fundamenta as dimensões da avaliação e das estratégias na orientação de que a verificação do rendimento escolar
didático-pedagógicas a serem utilizadas. Essas três dimensões observará os seguintes critérios:
devem estar previstas no projeto político-pedagógico para
nortearem a relação pertinente que estabelece o elo entre a I – avaliação contínua e cumulativa do desempenho do
gestão escolar, o professor, o estudante, o conhecimento e a estudante, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os
sociedade em que a escola se situa. quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de
No nível operacional, a avaliação das aprendizagens tem eventuais provas finais;
como referência o conjunto de habilidades, conhecimentos, II – possibilidade de aceleração de estudos para estudantes
princípios e valores que os sujeitos do processo educativo com atraso escolar;
projetam para si de modo integrado e articulado com aqueles III – possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante
princípios e valores definidos para a Educação Básica, verificação do aprendizado;
redimensionados para cada uma de suas etapas. IV– aproveitamento de estudos concluídos com êxito;
A avaliação institucional interna, também denominada V – obrigatoriedade de apoio pedagógico destinado à
autoavaliação institucional, realiza-se anualmente, recuperação contínua e concomitante de aprendizagem de
considerando as orientações contidas na regulamentação estudantes com déficit de rendimento escolar, a ser previsto no
vigente, para revisão do conjunto de objetivos e metas, regimento escolar.
mediante ação dos diversos segmentos da comunidade
educativa, o que pressupõe delimitação de indicadores A classificação pode resultar da promoção ou da
compatíveis com a natureza e a finalidade institucionais, além adaptação, numa perspectiva que respeita e valoriza as
de clareza quanto à qualidade social das aprendizagens e da diferenças individuais, ou seja, pressupõe uma outra ideia de
escola. temporalização e espacialização, entendida como sequência
A avaliação institucional externa, promovida pelos órgãos do percurso do escolar, já que cada criatura é singular.
superiores dos sistemas educacionais, inclui, entre outros Tradicionalmente, a escola tem tratado o estudante como se
instrumentos, pesquisas, provas, tais como as do SAEB, Prova todos se desenvolvessem padronizadamente nos mesmos
Brasil, ENEM e outras promovidas por sistemas de ensino de ritmos e contextos educativos, semelhantemente ao processo
diferentes entes federativos, dados estatísticos, incluindo os industrial. É como se lhe coubesse produzir cidadãos em série,
resultados que compõem o Índice de Desenvolvimento da em linha de montagem. Há de se admitir que a sociedade
Educação Básica (IDEB) e/ou que o complementem ou o mudou significativamente. A classificação, nos termos regidos
substituem, e os decorrentes da supervisão e verificações in pela LDB (inciso II do artigo 24), é, pois, uma figura que se dá
loco. A avaliação de redes de Educação Básica é periódica, feita em qualquer momento do percurso escolar, exceto no
por órgãos externos às escolas e engloba os resultados da primeiro ano do Ensino Fundamental, e realiza-se:
avaliação institucional, que sinalizam para a sociedade se a
escola apresenta qualidade suficiente para continuar I – por promoção, para estudantes que cursaram, com
funcionando. aproveitamento, a unidade de percurso anterior, na própria
escola;
2.6.2.1. Avaliação da aprendizagem II – por transferência, para candidatos procedentes de
outras escolas;
No texto da LDB, a avaliação da aprendizagem, na III – independentemente de escolarização anterior,
Educação Básica, é norteada pelos artigos 24 e 31, que se mediante avaliação feita pela escola, que defina o grau de
complementam. De um lado, o artigo 24, orienta o Ensino desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua
Fundamental e Médio, definindo que a avaliação será inscrição na série ou etapa adequada, conforme
organizada de acordo com regras comuns a essas duas etapas. regulamentação do respectivo sistema de ensino.
De outro lado, o artigo 31 trata da Educação Infantil,
estabelecendo que, nessa etapa, a avaliação será realizada A organização de turmas seguia o pressuposto de classes
mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento da organizadas por série anual. Com a implantação da Lei, a
criança, sem o objetivo de promoção, mesmo em se tratando concepção ampliou-se, uma vez que poderão ser organizadas
de acesso ao Ensino Fundamental. Essa determinação pode ser classes ou turmas, com estudantes de séries distintas, com
acolhida para o ciclo da infância de acordo com o Parecer níveis equivalentes de adiantamento na matéria, para o ensino
CNE/CEB nº 4/2008, anteriormente citado, que orienta para de línguas estrangeiras, artes, ou outros componentes
não retenção nesse ciclo. curriculares (inciso IV do artigo 24 da LDB).
O direito à educação constitui grande desafio para a escola: A consciência de que a escola se situa em um determinado
requer mais do que o acesso à educação escolar, pois tempo e espaço impõe-lhe a necessidade de apreender o
determina gratuidade na escola pública, obrigatoriedade da máximo o estudante: suas circunstâncias, seu perfil, suas
Pré-Escola ao Ensino Médio, permanência e sucesso, com necessidades. Uma situação cada vez mais presente em nossas
superação da evasão e retenção, para a conquista da qualidade escolas é a mobilidade dos estudantes. Quantas vezes a escola
social. O Conselho Nacional de Educação, em mais de um pergunta sobre o que fazer com os estudantes que ela recebe,
Parecer em que a avaliação da aprendizagem escolar é provenientes de outras instituições, de outros sistemas de
analisada, recomenda, aos sistemas de ensino e às escolas ensino, dentro ou fora do Município ou Estado. As análises
públicas e particulares, que o caráter formativo deve apresentadas em diferentes fóruns de discussão sobre essa
predominar sobre o quantitativo e classificatório. A este matéria vêm mencionando dificuldades para incluir esse
respeito, é preciso adotar uma estratégia de progresso estudante no novo contexto escolar.
individual e contínuo que favoreça o crescimento do A mobilidade escolar ou a conhecida transferência também
estudante, preservando a qualidade necessária para a sua tem sido objeto de regulamento para o que a LDB dispõe, por
formação escolar. meio de instrumentos normativos emitidos pelos Conselhos
de Educação. Inúmeras vezes, os estudantes transferidos têm
2.6.2.2. Promoção, aceleração de estudos e classificação a sensação de abandono ou descaso, semelhante ao que
No Ensino Fundamental e no Médio, a figura da promoção costuma ocorrer com estudantes que não acompanham o
e da classificação pode ser adotada em qualquer ano, série ou ritmo de seus colegas. A LDB estabeleceu, no § 1º do artigo 23,

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que a escola poderá reclassificar os estudantes, inclusive estudante, enquanto sujeito da ação, está em processo
quando se tratar de transferências entre estabelecimentos contínuo de formação, construindo significados.
situados no País e no exterior, tendo como base as normas Uma escola que inclui todos supõe tratar o conhecimento
curriculares gerais. como processo e, portanto, como uma vivência que não se
De acordo com essas normas, a mobilidade entre turmas, harmoniza com a ideia de interrupção, mas sim de construção,
séries, ciclos, módulos ou outra forma de organização, e em que o estudante, enquanto sujeito da ação, está
escolas ou sistemas, deve ser pensada, prioritariamente, na continuamente sendo formado, ou melhor, formando-se,
dimensão pedagógica: o estudante transferido de um para construindo significados, a partir das relações dos homens
outro regime diferente deve ser incluído onde houver entre si e destes com a natureza.
compatibilidade com o seu desenvolvimento e com as suas Nessa perspectiva, a avaliação requer outra forma de
aprendizagens, o que se intitula reclassificação. Nenhum gestão da escola, de organização curricular, dos materiais
estabelecimento de Educação Básica, sob nenhum pretexto, didáticos, na relação professor-estudante-conhecimento-
pode recusar a matrícula do estudante que a procura. Essa escola, pois, na medida em que o percurso escolar é marcado
atitude, de caráter aparentemente apenas administrativo, por diferentes etapas de aprendizagem, a escola precisará,
deve ser entendida pedagogicamente como a continuidade dos também, organizar espaços e formas diferenciadas de
estudos iniciados em outra turma, série, ciclo, módulo ou outra atendimento, a fim de evitar que uma defasagem de
forma, e escola ou sistema. conhecimentos se transforme numa lacuna permanente. Esse
Em seu novo percurso, o estudante transferido deve avanço materializa-se quando a concepção de conhecimento e
receber cuidadoso acompanhamento sobre a sua adaptação na a proposta curricular estão fundamentadas numa
instituição que o acolhe, em termos de relacionamento com epistemologia que considera o conhecimento uma construção
colegas e professores, de preferências, de respostas aos sociointerativa que ocorre na escola e em outras instituições e
desafios escolares, indo além de uma simples análise do seu espaços sociais. Nesse caso, percebe-se já existirem múltiplas
currículo escolar. Nesse sentido, os sistemas educativos devem iniciativas entre professores no sentido de articularem os
ousar propor a inversão da lógica escolar: ao invés de diferentes campos de saber entre si e, também, com temas
conteúdos disciplinados estanques (substantivados), devem contemporâneos, baseados no princípio da
investir em ações pedagógicas que priorizem aprendizagens interdisciplinaridade, o que normalmente resulta em
através da operacionalidade de linguagens visando à mudanças nas práticas avaliativas.
transformação dos conteúdos em modos de pensar, em que o
que interessa, fundamentalmente, é o vivido com outros, 2.6.3. Gestão democrática e organização da escola
aproximando mundo, escola, sociedade, ciência, tecnologia,
trabalho, cultura e vida. Pensar a organização do trabalho pedagógico e a gestão da
A possibilidade de aceleração de estudos destina-se a escola, na perspectiva exposta e tendo como fundamento o que
estudantes com algum atraso escolar, aqueles que, por alguma dispõem os artigos 12 e 13 da LDB, pressupõe conceber a
razão, encontram-se em descompasso de idade. As razões mais organização e gestão das pessoas, do espaço, dos processos,
indicadas têm sido: ingresso tardio, retenção, dificuldades no procedimentos que viabilizam o trabalho de todos aqueles que
processo de ensinoaprendizagem ou outras. se inscrevem no currículo em movimento expresso no projeto
A progressão pode ocorrer segundo dois critérios: regular político-pedagógico e nos planos da escola, em que se
ou parcial. A escola brasileira sempre esteve organizada para conformam as condições de trabalho definidas pelos órgãos
uma ação pedagógica inscrita num panorama de relativa gestores em nível macro. Os estabelecimentos de ensino,
estabilidade. Isso significa que já vem lidando, razoavelmente, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino,
com a progressão regular. O desafio que se enfrenta incide terão, segundo o artigo 12, a incumbência de:
sobre a progressão parcial, que, se aplicada a crianças e jovens, I – elaborar e executar sua proposta pedagógica;
requer o redesenho da organização das ações pedagógicas. Em II – administrar seu pessoal e seus recursos materiais e
outras palavras, a escola deverá prever para professor e financeiros;
estudante o horário de trabalho e espaço de atuação que se III – assegurar o cumprimento dos anos, dias e horas
harmonize entre estes, respeitadas as condições de locomoção mínimos letivos estabelecidos;
de ambos, lembrando-se de que outro conjunto de recursos IV – velar pelo cumprimento do plano de trabalho de cada
didático-pedagógicos precisa ser elaborado e desenvolvido. docente;
A LDB, no artigo 24, inciso III, prevê a possibilidade de V – prover meios para a recuperação dos estudantes de
progressão parcial nos estabelecimentos que adotam a menor rendimento;
progressão regular por série, lembrando que o regimento VI – articular-se com as famílias e a comunidade, criando
escolar pode admiti-la “desde que preservada a sequência do processos de integração da sociedade com a escola;
currículo, observadas as normas do respectivo sistema de VII – informar os pais e responsáveis sobre a frequência e o
ensino”. A Lei, entretanto, não é impositiva quanto à adoção de rendimento dos estudantes, bem como sobre a execução de sua
progressão parcial. Caso a instituição escolar a adote, é pré- proposta pedagógica;
requisito que a sequência do currículo seja preservada,
observadas as normas do respectivo sistema de ensino, (inciso Atual redação do inciso VII: VII - informar pai e mãe,
III do artigo 24), previstas no projeto político-pedagógico e no conviventes ou não com seus filhos, e, se for o caso, os
regimento, cuja aprovação se dá mediante participação da responsáveis legais, sobre a frequência e rendimento dos
comunidade escolar (artigo 13). alunos, bem como sobre a execução da proposta
Também, no artigo 32, inciso IV, § 2º, quando trata pedagógica da escola; (Redação dada pela Lei nº 12.013, de
especificamente do Ensino Fundamental, a LDB refere que os 2009).
estabelecimentos que utilizam progressão regular por série
podem adotar o regime de progressão continuada, sem VIII – notificar ao Conselho Tutelar do Município, ao juiz
prejuízo da avaliação do processo ensino-aprendizagem, competente da Comarca e ao respectivo representante do
observadas as normas do respectivo sistema de ensino. A Ministério Público a relação dos estudantes menores que
forma de progressão continuada jamais deve ser entendida apresentem quantidade de faltas acima de cinquenta por cento
como “promoção automática”, o que supõe tratar o do percentual permitido em lei (inciso incluído pela Lei nº
conhecimento como processo e vivência que não se harmoniza 10.287/2001).
com a ideia de interrupção, mas sim de construção, em que o

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 71


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Conscientes da complexidade e da abrangência dessas ressoem mutuamente. Requer que a instituição escolar
tarefas atribuídas às escolas, os responsáveis pela gestão do compreenda como o conhecimento é socialmente valorizado,
ato educativo sentem-se, por um lado, pouco amparados, face como tem sido escrito de uma dada forma e como pode, então,
à desarticulação de programas e projetos destinados à ser reescrito. Que se modifiquem modificando outras culturas
qualificação da Educação Básica; por outro, sentem-se pela convivência ressonante, em um processo contínuo, que
desafiados, à medida que se tornam conscientes de que não pare nunca, por não se limitar a um dar ou receber, mas
também eles se inscrevem num espaço em que necessitam por ser contaminação, ressonância” (Pretto, apud Moreira e
preparar-se, continuadamente, para atuar no mundo escolar e Candau, 2005, p. 103).
na sociedade. Como agentes educacionais, esses sujeitos Na escola, o exercício do pluralismo de ideias e de
sabem que o seu compromisso e o seu sucesso profissional concepções pedagógicas (inciso III do artigo 206 da
requerem não apenas condições de trabalho. Exigelhes Constituição Federal, e inciso III do artigo 3º da LDB),
formação continuada e clareza quanto à concepção de assumido como princípio da educação nacional, deve viabilizar
organização da escola: distribuição da carga horária, a constituição de relações que estimulem diferentes
remuneração, estratégias claramente definidas para a ação manifestações culturais e diferentes óticas. Em outras
didático-pedagógica coletiva que inclua a pesquisa, a criação palavras, a escola deve empenhar-se para se constituir, ao
de novas abordagens e práticas metodológicas incluindo a mesmo tempo, em um espaço da diversidade e da pluralidade,
produção de recursos didáticos adequados às condições da inscrita na diversidade em movimento, no processo tornado
escola e da comunidade em que esteja ela inserida, promover possível por meio de relações intersubjetivas, cuja meta seja a
os processos de avaliação institucional interna e participar e de se fundamentar num outro princípio educativo e
cooperar com os de avaliação externa e os de redes de emancipador, assim expresso: liberdade de aprender, ensinar,
Educação Básica. Pensar, portanto, a organização, a gestão da pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber
escola é entender que esta, enquanto instituição dotada de (LDB, artigo 3º, inciso II).
função social, é palco de interações em que os seus atores Para Paulo Freire48, é necessário entender a educação não
colocam o projeto político-pedagógico em ação compartilhada. apenas como ensino, não no sentido de habilitar, de “dar”
Nesse palco está a fonte de diferentes ideias, formuladas pelos competência, mas no sentido de humanizar. A pedagogia que
vários sujeitos que dão vida aos programas educacionais. trata dos processos de humanização, a escola, a teoria
Acrescente-se que a obrigatoriedade da gestão pedagógica e a pesquisa, nas instâncias educativas, devem
democrática determinada, em particular, no ensino público assumir a educação enquanto processos temporal, dinâmico e
(inciso VIII do artigo 3º da LDB), e prevista, em geral, para libertador, aqueles em que todos desejam se tornar cada vez
todas as instituições de ensino nos artigos 12 e 13, que mais humanos. A escola demonstra ter se esquecido disso,
preveem decisões coletivas, é medida desafiadora, porque tanto nas relações que exerce com a criança, quanto com a
pressupõe a aproximação entre o que o texto da lei estabelece pessoa adolescente, jovem e adulta.
e o que se sabe fazer, no exercício do poder, em todos os A escola que adota a abordagem interdisciplinar não está
aspectos. Essa mudança concebida e definida por poucos isenta de sublinhar a importância da relação entre cuidado e
atinge a todos: desde a família do estudante até os gestores da educação, que é a de propor a inversão da preocupação com a
escola, chegando aos gestores da educação em nível macro. qualidade do ensino pela preocupação com a qualidade social
Assim, este é um aspecto instituidor do desafiante jogo entre das aprendizagens como diretriz articuladora para as três
teoria e prática, ideal e realidade, concepção de currículo e etapas que compõem a Educação Básica. Essa escola deve
ação didático-pedagógica, avaliação institucional e avaliação organizar o trabalho pedagógico, os equipamentos, o
da aprendizagem e todas as exigências que caracterizam esses mobiliário e as suas instalações de acordo com as condições
componentes da vida educacional escolar. requeridas pela abordagem que adota. Desse modo, tanto a
As decisões colegiadas pressupõem, sobretudo, que todos organização das equipes de profissionais da educação quanto
tenham ideia clara sobre o que seja coletivo e como se move a a arquitetura física e curricular da escola destinada as crianças
liberdade de cada sujeito, pois é nesse movimento que o da educação infantil deve corresponder às suas características
profissional pode passar a se perceber como um educador que físicas e psicossociais. O mesmo se aplica aos estudantes das
tenta dar conta das temporalidades do desenvolvimento demais etapas da Educação Básica. Estes cuidados guardam
humano com suas especificidades e exigências. A valorização relação de coexistência dos sujeitos entre si, facilitam a gestão
das diferenças e da pluralidade representa a valorização das das normas que orientam as práticas docentes instrucionais,
pessoas. Supõe compreender que a padronização e a atitudinais e disciplinares, mas correspondendo à abordagem
homogeneização que, tradicionalmente, impregnou a interdisciplinar comprometida com a formação cidadã para a
organização e a gestão dos processos e procedimentos da cultura da vida
escola têm comprometido a conquista das mudanças que os Compreender e realizar a Educação Básica, no seu
textos legais em referência definem. compromisso social de habilitar o estudante para o exercício
A participação da comunidade escolar na gestão da escola dos diversos direitos significa, portanto, potencializá-lo para a
e a observância dos princípios e finalidades da educação, prática cidadã com plenitude, cujas habilidades se
particularmente o respeito à diversidade e à diferença, são desenvolvem na escola e se realizam na comunidade em que
desafios para todos os sujeitos do processo educativo. Para os sujeitos atuam. Essa perspectiva pressupõe cumprir e
Moreira e Candau47, a escola sempre teve dificuldade em lidar transpor o disposto não apenas nos artigos 12 a 15, da LDB,
com a pluralidade e a diferença. Tende a silenciá-las e mas significa cumpri-los como política pública e transpô-los
neutralizá-las. Sente-se mais confortável com a uniformidade como fundamento político-pedagógico, uma vez que o texto
e a padronização. No entanto, abrir espaços para a diversidade, destes artigos deve harmonizar-se com o dos demais textos
para a diferença e para o cruzamento de culturas constitui o que regulamentam e orientam a Educação Básica. O ponto
grande desafio que está chamada a enfrentar . A escola precisa, central da Lei, naqueles artigos, incide sobre a obrigatoriedade
assim, “acolher, criticar e colocar em contato diferentes da participação da comunidade escolar e dos profissionais da
saberes, diferentes manifestações culturais e diferentes óticas. educação na tomada de decisões, quanto à elaboração e ao
A contemporaneidade requer culturas que se misturem e cumprimento do projeto político-pedagógico, com destaque

47MOREIRA, A. F. B.; CANDAU, V. M. Indagações sobre currículo: currículo, 48FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro:
conhecimento e cultura. BEAUCHAMP, Jeanete; PAGEL, Sandra Denise; Paz e Terra, 1984
NASCIMENTO, Aricélia Ribeiro do (org.). Brasília: Ministério da Educação,
Secretaria de Educação Básica, 2007

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 72


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para a gestão democrática e para a integração da sociedade magistério, nos termos das normas de cada sistema de ensino
com a escola, bem como pelo cuidado com as aprendizagens (§ 1º do artigo 67 da LDB).
dos estudantes. Para que a gestão escolar cumpra o papel que cabe à escola,
A gestão escolar deve promover o “encontro os gestores devem proceder a uma revisão de sua organização
pedagogicamente pensado e organizado de gerações, de administrativo-pedagógica, a partir do tipo de cidadão que se
idades diferentes”49, inscritos num contexto diverso e plural, propõe formar, o que exige compromisso social com a redução
mas que se pretende uno, em sua singularidade própria e das desigualdades entre o ponto de partida do estudante e o
inacabada, porque em construção dialética permanente. Na ponto de chegada a uma sociedade de classes.
instituição escolar, a gestão democrática é aquela que tem, nas
instâncias colegiadas, o espaço em que são tomadas as 2.6.4. O professor e a formação inicial e continuada
decisões que orientam o conjunto das atividades escolares:
aprovam o projeto político-pedagógico, o regimento escolar, O artigo 3º da LDB, ao definir os princípios da educação
os planos da escola (pedagógicos e administrativos), as regras nacional, prevê a valorização do profissional da educação
de convivência. Como tal, a gestão democrática é entendida escolar. Essa expressão estabelece um amálgama entre o
como princípio que orienta os processos e procedimentos educador e a educação e os adjetiva, depositando foco na
administrativos e pedagógicos, no âmbito da escola e nas suas educação. Reafirma a ideia de que não há educação escolar sem
relações com os demais órgãos do sistema educativo de que faz escola e nem esta sem aquele. O significado de escola aqui
parte. traduz a noção de que valorizar o profissional da educação é
Assim referenciada, a gestão democrática constitui-se em valorizar a escola, com qualidade gestorial, educativa, social,
instrumento de luta em defesa da horizontalização das cultural, ética, estética, ambiental.
relações, de vivência e convivência colegiada, superando o A leitura dos artigos 67 e 13 da mesma Lei permite
autoritarismo no planejamento e na organização curricular. identificar a necessidade de elo entre o papel do professor, as
Pela gestão democrática, educa-se para a conquista da exigências indicadas para a sua formação, e o seu fazer na
cidadania plena, mediante a compreensão do significado social escola, onde se vê que a valorização profissional e da educação
das relações de poder que se reproduzem no cotidiano da escolar vincula-se à obrigatoriedade da garantia de padrão de
escola, nas relações entre os profissionais da educação, o qualidade (artigo 4º, inciso IX). Além disso, o Fundo de
conhecimento, as famílias e os estudantes, bem assim, entre Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de
estes e o projeto político-pedagógico, na sua concepção Valorização dos Professores da Educação (FUNDEB) define
coletiva que dignifica as pessoas, por meio da utilização de um critérios para proporcionar aos sistemas educativos e às
método de trabalho centrado nos estudos, nas discussões, no escolas apoio à valorização dos profissionais da educação. A
diálogo que não apenas problematiza, mas, também, propõe, Resolução CNE/CEB nº 2/2009, baseada no Parecer CNE/CEB
fortalecendo a ação conjunta que busca, nos movimentos nº 9/2009, que trata da carreira docente, é também uma
sociais, elementos para criar e recriar o trabalho da e na escola, norma que participa do conjunto de referências focadas na
mediante: valorização dos profissionais da educação, como medida
indutora da qualidade do processo educativo. Tanto a
I – compreensão da globalidade da pessoa, enquanto ser que valorização profissional do professor quanto a da educação
aprende, que sonha e ousa, em busca da conquista de uma escolar são, portanto, exigências de programas de formação
convivência social libertadora fundamentada na ética cidadã; inicial e continuada, no contexto do conjunto de múltiplas
II – superação dos processos e procedimentos burocráticos, atribuições definidas para os sistemas educativos.
assumindo com flexibilidade: os planos pedagógicos, os objetivos Para a formação inicial e continuada dos docentes,
institucionais e educacionais, as atividades de avaliação; portanto, é central levar em conta a relevância dos domínios
III – prática em que os sujeitos constitutivos da comunidade indispensáveis ao exercício da docência, conforme disposto na
educacional discutam a própria prática pedagógica Resolução CNE/CP nº 1/2006, que assim se expressa:
impregnando-a de entusiasmo e compromisso com a sua própria
comunidade, valorizando-a, situando-a no contexto das relações I – o conhecimento da escola como organização complexa
sociais e buscando soluções conjuntas; que tem a função de promover a educação para e na cidadania;
IV – construção de relações interpessoais solidárias, geridas II – a pesquisa, a análise e a aplicação dos resultados de
de tal modo que os professores se sintam estimulados a conhecer investigações de interesse da área educacional;
melhor os seus pares (colegas de trabalho, estudantes, famílias), III – a participação na gestão de processos educativos e na
a expor as suas ideias, a traduzir as suas dificuldades e organização e funcionamento de sistemas e instituições de
expectativas pessoais e profissionais; ensino.
V – instauração de relações entre os estudantes,
proporcionando-lhes espaços de convivência e situações de Além desses domínios, o professor precisa,
aprendizagem, por meio dos quais aprendam a se compreender particularmente, saber orientar, avaliar e elaborar propostas,
e se organizar em equipes de estudos e de práticas esportivas, isto é, interpretar e reconstruir o conhecimento. Deve transpor
artísticas e políticas; os saberes específicos de suas áreas de conhecimento e das
VI – presença articuladora e mobilizadora do gestor no relações entre essas áreas, na perspectiva da complexidade;
cotidiano da instituição e nos espaços com os quais a instituição conhecer e compreender as etapas de desenvolvimento dos
escolar interage, em busca da qualidade social das estudantes com os quais está lidando. O professor da Educação
aprendizagens que lhe caiba desenvolver, com transparência e Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental é, ou
responsabilidade. deveria ser, um especialista em infância; os professores dos
anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio,
De todas as mudanças formalizadas com fundamento na conforme vem defendendo Miguel Arroyo50 devem ser
LDB, uma das exigências, para o exercício da gestão escolar, especialistas em adolescência e juventude, isto é, condutores e
consiste na obrigatoriedade de que os candidatos a essa função educadores responsáveis, em sentido mais amplo, por esses
sejam dotados de experiência docente. Isto é pré-requisito sujeitos e pela qualidade de sua relação com o mundo. Tal
para o exercício profissional de quaisquer outras funções de

49ARROYO, Gonzales Miguel. Imagens quebradas – Trajetórias e tempos de 50ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis: Vozes,
estudantes e mestres. Petrópolis: Vozes, 2004. 2000 (8 a . edição)

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 73


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proposição implica um redimensionamento dos cursos de definir aquela capaz de desinstalar os sujeitos aprendizes,
licenciaturas e da formação continuada desses profissionais. provocar-lhes curiosidade, despertar-lhes motivos, desejos.
Sabe-se, no entanto, que a formação inicial e continuada do Esse é um procedimento que contribui para o
professor tem de ser assumida como compromisso integrante desenvolvimento da personalidade do escolar, mas pressupõe
do projeto social, político e ético, local e nacional, que contribui chegar aos elementos essenciais do objeto de conhecimento e
para a consolidação de uma nação soberana, democrática, suas relações gerais e singulares.
justa, inclusiva e capaz de promover a emancipação dos Para atender às orientações contidas neste Parecer, o
indivíduos e grupos sociais. Nesse sentido, os sistemas professor da Educação Básica deverá estar apto para gerir as
educativos devem instituir orientações a partir das quais se atividades didático-pedagógicas de sua competência se os
introduza, obrigatoriamente, no projeto político-pedagógico, cursos de formação inicial e continuada de docentes levarem
previsão: em conta que, no exercício da docência, a ação do professor é
permeada por dimensões não apenas técnicas, mas também
I – de consolidação da identidade dos profissionais da políticas, éticas e estéticas, pois terão de desenvolver
educação, nas suas relações com a instituição escolar e com o habilidades propedêuticas, com fundamento na ética da
estudante; inovação, e de manejar conteúdos e metodologias que
II – de criação de incentivos ao resgate da imagem social do ampliem a visão política para a politicidade das técnicas e
professor, assim como da autonomia docente, tanto individual tecnologias, no âmbito de sua atuação cotidiana.
quanto coletiva; Ao selecionar e organizar o conhecimento específico que o
III – de definição de indicadores de qualidade social da habilite para atuar em uma ou mais etapas da Educação Básica,
educação escolar, a fim de que as agências formadoras de é fundamental que se considere que o egresso dos cursos de
profissionais da educação revejam os projetos dos cursos de formação de professores deverá ter a oportunidade de
formação inicial e continuada de docentes, de modo que reconhecer o conhecimento (conceitos, teorias, habilidades,
correspondam às exigências de um projeto de Nação. procedimentos, valores) como base para a formação integral
do estudante, uma vez que esta exige a capacidade para
Na política de formação de docentes para o Ensino análise, síntese, comprovação, comparação, valoração,
Fundamental, as ciências devem, necessária e explicação, resolução de problemas, formulação de hipóteses,
obrigatoriamente, estar associadas, antes de qualquer elaboração, execução e avaliação de projetos, entre outras,
tentativa, à discussão de técnicas, de materiais, de métodos destinadas à organização e realização das atividades de
para uma aula dinâmica; é preciso, indispensável mesmo, que aprendizagens.
o professor se ache repousado no saber de que a pedra É na perspectiva exposta que se concebe o trabalho
fundamental é a curiosidade do ser humano. É ela que faz docente na tarefa de cuidar e educar as crianças e jovens que,
perguntar, conhecer, atuar, mais perguntar, reconhecer51. juntos, encontram-se na idade de 0 (zero) a 17 (dezessete)
Por outro lado, no conjunto de elementos que contribuem anos. Assim pensada, a fundamentação da ação docente e dos
para a concepção, elaboração e execução do projeto político- programas de formação inicial e continuada dos profissionais
pedagógico pela escola, em que se inscreve o desenvolvimento da educação instauram-se em meio a processos tensionais de
curricular, a capacitação docente é o aspecto mais complexo, caráter político, social e cultural que se refletem na eleição de
porque a formação profissional em educação insere-se no um ou outro método de aprendizagem, a partir do qual é
âmbito do desenvolvimento de aprendizagens de ordem justificado determinado perfil de docente para a Educação
pessoal, cultural, social, ambiental, política, ética, estética. Básica.
Assim, hoje, exige-se do professor mais do que um Se o projeto político-pedagógico, construído
conjunto de habilidades cognitivas, sobretudo se ainda for coletivamente, está assegurado por lei, resultante da
considerada a lógica própria do mundo digital e das mídias em mobilização de muitos educadores, torna-se necessário dar
geral, o que pressupõe aprender a lidar com os nativos digitais. continuidade a essa mobilização no intuito de promover a sua
Além disso, lhe é exigida, como pré-requisito para o exercício viabilização prática pelos docentes. Para tanto, as escolas de
da docência, a capacidade de trabalhar cooperativamente em formação dos profissionais da educação, sejam gestores,
equipe, e de compreender, interpretar e aplicar a linguagem e professores ou especialistas, têm um papel importantíssimo
os instrumentos produzidos ao longo da evolução tecnológica, no sentido de incluir, em seus currículos e programas, a
econômica e organizativa. Isso, sem dúvida, lhe exige utilizar temática da gestão democrática, dando ênfase à construção do
conhecimentos científicos e tecnológicos, em detrimento da projeto pedagógico, mediante trabalho coletivo de que todos
sua experiência em regência, isto é, exige habilidades que o os que compõem a comunidade escolar são responsáveis.
curso que o titulou, na sua maioria, não desenvolveu. Desse Nesse sentido, o professor da Educação Básica é o
ponto de vista, o conjunto de atividades docentes vem profissional que conhece as especificidades dos processos de
ampliando o seu raio de atuação, pois, além do domínio do desenvolvimento e de aprendizagens, respeita os direitos dos
conhecimento específico, são solicitadas atividades estudantes e de suas famílias. Para isso, domina o
pluridisciplinares que antecedem a regência e a sucedem ou a conhecimento teórico-metodológico e teórico-prático
permeiam. As atividades de integração com a comunidade são indispensável ao desempenho de suas funções definidas no
as que mais o desafiam. artigo 13 da LDB, no plano de carreira a que se vincula, no
Historicamente, o docente responsabiliza-se pela escolha regimento da escola, no projeto político-pedagógico em sua
de determinada lógica didático-pedagógica, ameaçado pela processualidade.
incerteza quanto àquilo que, no exercício de seu papel de
professor, deve ou não deve saber, pensar e enfrentar, ou II – VOTO DA COMISSÃO
evitar as dificuldades mais frequentes que ocorrem nas suas
relações com os seus pares, com os estudantes e com os À vista do exposto, propõe-se à Câmara de Educação Básica
gestores. Atualmente, mais que antes, ao escolher a a aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para
metodologia que consiste em buscar a compreensão sobre a a Educação Básica, na forma deste Parecer e do Projeto de
lógica mental, a partir da qual se identifica a lógica de Resolução em anexo, do qual é parte integrante.
determinada área do conhecimento, o docente haverá de Brasília, (DF), 7 de abril de 2010.

51Freire, Paulo. Pedagogia e Autonomia. Saberes necessários à prática educativa.


São Paulo, Brasil: Paz e Terra, 1997. (Coleção Leitura).

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 74


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Conselheira Clélia Brandão Alvarenga Craveiro – Relatora Respostas


Adeum Hilário Sauer – Presidente 01. B / 02. C / 03. errado
José Fernandes de Lima – Membro
Raimundo Moacir Mendes Feitosa – Membro
A Interdisciplinaridade e a
III – DECISÃO DA CÂMARA contextualização no Ensino
A Câmara de Educação Básica aprova, por unanimidade, o Médio.
voto da Relatora.
Sala das Sessões, em 7 de abril de 2010.
Conselheiro Cesar Callegari – Presidente Multidisciplinaridade, Interdisciplinaridade,
Conselheiro Mozart Neves Ramos – Vice-Presidente Transdisciplinaridade52

Questões A compreensão dos conceitos de multidisciplinaridade,


interdisciplinaridade e transdisciplinaridade e sua
01. (Prefeitura de Goiânia/GO - PE II – Português – CS- emergência no campo da educação requer uma atenção ao
UFG/2016). As Diretrizes Curriculares Nacionais para a conceito de disciplina e sua centralidade no universo escolar.
Educação Básica visam estabelecer bases comuns nacionais Uma primeira observação a ser feita sobre o termo
para: disciplina diz respeito aos significados que evoca, dentre os
(A) a educação continuada, a formação docente e a quais, poderíamos destacar os seguintes: ensino e educação
educação ao longo da vida. que um discípulo recebia do mestre; obediência às regras e aos
(B) a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino superiores; ordem, bom comportamento; obediência a regras
médio. de cunho interior, firmeza, constância; castigo, penitência,
(C) a educação infantil, o ensino fundamental e a educação mortificação; ramo do conhecimento, ciência, matéria,
especial. disciplinas: cordas, correias e concorrentes com que os frades,
(D) o ensino fundamental, o ensino médio e o ensino devotos e penitentes se flagelam. Embora algumas dessas
profissionalizante definições pareçam bastantes distintas entre si, a noção de
disciplina está estritamente vinculada às ideias de controle, de
02. (IF/PE - Técnico em Assuntos Educacionais – IF- organização de algo que é múltiplo ou disperso, de imposição
PE). Considerando as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais de uma ordem. Foucault53 denomina disciplinas aos métodos
para a Educação Básica, é CORRETO afirmar que que permitem o controle minucioso das operações de corpo,
(A) o credenciamento para a oferta de cursos e programas que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes
de Educação de Jovens e Adultos, de Educação Especial e de impõem uma relação de docilidade-utilidade.
Educação Profissional e Tecnológica de nível médio, na É a partir da segunda metade do século XVIII, nos diz
modalidade a distância, compete aos sistemas estaduais e Foucault, que o corpo é descoberto como objeto e alvo de
municipais de ensino, atendidas a regulamentação federal e as poder: algo que se manipula, se modela, treina, que obedece,
normas complementares desses sistemas. que se torna ágil ou cujas forças podem ser multiplicadas, um
(B) o credenciamento para a oferta de cursos e programas corpo máquina, que se submete e se utiliza, um corpo dócil e
de Educação de Jovens e Adultos, de Educação Especial e de manipulável. Tudo isso a favor de uma nova anatomia política
Educação Profissional e Tecnológica de nível médio, na nascente, que é também uma forma de poder que, por meio da
modalidade a distância, compete ao sistema federal de ensino, disciplina, fabrica corpos submissos. As prisões, os hospitais,
consideradas as especificidades regionais. os quartéis, as fábricas e os colégios são os espaços
(C) o credenciamento para a oferta de cursos e programas disciplinares por excelência: na forma de distribuir os
de Educação de Jovens e Adultos, de Educação Especial e de indivíduos, de organizar e controlar as atividades, os espaços
Educação Profissional e Tecnológica de nível médio, na e tempos, nos recursos para garantir o bom adestramento,
modalidade a distância, compete aos sistemas estaduais de dentre os quais ela destaca os exames. O conhecimento, sua
ensino, atendidas a regulamentação federal e as normas produção e sua divulgação não fogem à lógica do poder que se
complementares desses sistemas. está constituindo.
(D) o credenciamento para a oferta de cursos e programas No sentido que será aqui abordado – campo de
de Educação de Jovens e Adultos, de Educação Especial e de conhecimento, ciência – disciplina refere-se a uma maneira de
Educação Profissional e Tecnológica de nível médio, na organizar e delimitar um território de trabalho de um corpo de
modalidade a distância, compete ao sistema federal de ensino, conhecimentos e de definir a pesquisa e as experiências dentro
atendidas as disposições das Diretrizes Curriculares Nacionais de um determinado ângulo de visão. Historicamente, a
Gerais para a Educação Básica. diferenciação do conhecimento em disciplinas autônomas vem
(E) o credenciamento para a oferta de cursos e programas se concretizando desde o início do século XIX.
de Educação de Jovens e Adultos, de Educação Especial e de Vincula-se ao processo de transformação social que
Educação Profissional e Tecnológica de nível médio, na ocorria nos países em desenvolvimento na Europa, naquele
modalidade a distância, compete ao sistema federal de ensino, momento, e à necessidade de especialização demandada pelo
atendidas as suas normas e regulamentações. processo de produção industrial. Nesse contexto, as técnicas e
os saberes foram progressivamente se diferenciando,
03. Quanto às orientações normativas nacionais, julgue o configurando campos, com objetos de estudo próprios, marcos
item subsequente: conceituais, métodos e procedimentos específicos. Esse
Em 1997, a produção de orientações normativas nacionais, movimento na produção do conhecimento se deu sob forte
visando à implantação da Educação Básica, sendo a primeira o influência do paradigma positivista, o que acabou por
Parecer CNE/CEB nº 6/97. influenciar a própria definição do tipo de conhecimento que
poderia se considerar uma disciplina e, ao mesmo tempo,
( ) Certo ( ) Errado destituindo diversas formas de conhecimento do estatuto de
ciência. As universidades são instituições que têm um papel

52 SOARES, C.C. Disponível em http://crv.educacao.mg.gov.br/ 53FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Trad. Raquel
Ramalhete, 19 ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

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decisivo na configuração e legitimação do conhecimento multimensional, em que se acham presentes contribuições da


científico, uma vez que sua estrutura, seus departamentos, Antropologia, da Economia e da Sociologia entre outras
suas associações profissionais definem concretamente os disciplinas. Para Morin, esses projetos inter-poli-
objetos de estudo, as linhas de pesquisa para a construção e transdisciplinares podem constituir-se em processos de
formalização do conhecimento. complexificação das áreas de pesquisa e, ao mesmo tempo,
recorrem à poli competência do pesquisador.
E é nesse espaço institucional que se produz um acúmulo
enorme de conhecimentos, fragmentados e E quanto à escola, como é que todo esse movimento de
compartilhamentalizados em diferentes disciplinas e produção do conhecimento se reflete na instituição
especialidades que ignoram, embora muitas vezes, escolar?
trabalhem com o mesmo objeto de estudo, Santomé.54
A lógica de organização do conhecimento por disciplinas
Esse paradigma científico, que produziu conhecimentos foi incorporada à cultura escolar e passou a ser o critério
extremamente relevantes para a humanidade, está hoje sendo dominante de estruturação curricular, sobretudo, nos níveis
profundamente questionado, por seus limites e distorções, por de ensino mais elevados, reproduzindo a fragmentação e o
seu reducionismo e determinismo, por sua incapacidade de isolamento das diferentes matérias e campos do
abarcar aspectos da realidade que são estranhos aos seus conhecimento. O questionamento a essa perspectiva, no
marcos conceituais e metodológicos. É nesse contexto que entanto, se faz desde o início do século XX, quando diferentes
surgem as noções de multidisciplinaridade, educadores formulam propostas de ensino que têm como
interdisciplinaridade e transdisciplinaridade entre outros, a objetivo buscar maior unidade no desenvolvimento curricular,
partir de uma crítica à excessiva compartimentalização do na organização dos conteúdos de ensino. Ainda assim, a
conhecimento e à falta de comunicação entre as disciplinas. perspectiva disciplinar permanece fortemente arraigada à
Cada uma dessas perspectivas responde à necessidade de nossa cultura escolar, tendo chegado ao seu extremo, aqui no
interação entre diferentes disciplinas e caracteriza-se pelo Brasil, nos anos 70, com o tecnicismo. Os anos 80 foram
tipo de relação que se vai estabelecer entre elas. Estudiosos do fecundos em debates, movimentos de renovação pedagógica e
tema propõem diferentes modalidades de colaboração entre reformas educativas que buscavam novas orientações
as disciplinas, às vezes, com subdivisões dentro de um mesmo curriculares, com forte componente político. A noção de
nível de relação (interdisciplinaridade linear, estrutural, interdisciplinaridade incorpora-se ao discurso e à prática
restritiva), dentre os quais, Piaget, que apresenta o seguinte pedagógica, como expressão de uma busca para superar o
modelo: multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e isolamento entre as disciplinas e para construir propostas
transdisciplinaridade. educativas mais adequadas aos anseios dos educadores de
trabalharem a formação para a cidadania, a partir da realidade
- Multidisciplinaridade: corresponde ao nível mais baixo e do aluno.
integração. Caracteriza-se como uma justaposição de Diferentes autores teorizam sobre as perspectivas
disciplinas com a intenção de esclarecer alguns de seus educativas de integração curricular. Zabala56 faz uma distinção
elementos comuns. entre os métodos globalizados e os enfoques que trabalham
- Interdisciplinaridade: reúne estudos diferenciados de diferentes relações entre os conteúdos. Nos primeiros, os
diversos especialistas em um contexto coletivo de pesquisa. conteúdos de ensino não se apresentam nem se organizam a
Implica um esforço por elaborar um contexto mais geral, no qual partir de uma estrutura disciplinar, mas de um tema ou
cada uma das disciplinas é modificada e passa a depender cada problema por meio do qual os conteúdos são estudados. O
qual das demais. A interação proporcionará um enriquecimento referencial organizador do trabalho pedagógico é o aluno e
recíproco, com transformações em diferentes aspectos, como, suas necessidades educativas. Os conteúdos estão
por exemplo, nas suas metodologias de pesquisa, nos seus condicionados aos objetivos de formação do aluno. Os
conceitos, na formulação dos problemas, nos instrumentos de segundos se caracterizam pelo tipo de relação que se
análise, nos modelos teóricos, etc. Os intercâmbios entre as estabelece entre as disciplinas; não se referem a uma
disciplinas são mútuos. A bioquímica, a sociolinguística, as metodologia concreta, mas a uma determinada maneira de
neurociências são áreas do conhecimento resultantes de organizar e apresentar os conteúdos, a partir das disciplinas.
trabalhos interdisciplinares. A prioridade básica são matérias e sua aprendizagem. Zabala
- Transdisciplinaridade: caracteriza-se como o nível mais observa que as relações entre as disciplinas constituem um
alto de interação entre as disciplinas. A interação se dá de tal problema essencialmente epistemológico e apenas como
forma que as fronteiras entre as diferentes disciplinas consequência, uma questão escolar. Este autor apresenta
desaparecem e constitui-se um sistema total que ultrapassa o quatro tipos diferentes de relações entre as disciplinas que
plano das relações e interações entre as disciplinas, na busca de têm aplicação no campo do ensino: multidisciplinaridade,
objetivos comuns e de um ideal de unificação epistemológica. pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e
Pode-se falar do aparecimento de uma macrodisciplina. transdisciplinaridade.

Morin55 nos lembra que o movimento de migrações - Multidisciplinaridade: os conteúdos escolares se


disciplinares faz parte da história das ciências. As rupturas de apresentam como matérias independentes, como um somatório
fronteiras disciplinares sempre ocorreram paralelamente à de disciplinas, sem explicitação de relação entre si.
consolidação das disciplinas, gerando novos campos de - Pluridisciplinaridade: a organização dos conteúdos
conhecimento. Cita, como exemplo, a biologia molecular, expressa a existência de relações entre disciplinas mais ou
nascida de transferência entre disciplinas à margem da Física, menos afins, como, por exemplo, as diferentes ciências
da Química e da Biologia. A antropologia estrutural de Lévi-
experimentais.
Strauss, fortemente influenciada pela linguística estrutural de
- Interdisciplinaridade: é a interação de duas ou mais
Jakobon. Ou o movimento da École de Annales, que construiu
uma história numa perspectiva transdisciplinar, disciplinas, implicando numa troca de conhecimentos de uma

54 SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo 56ZABALA, Antoni Vidiella. Enfoque globalizador e pensamento
integrado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. complexo: uma proposta para o currículo escolar. Porto Alegre: Artmed,
55 MORIN, Edgar. A Cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o 2002.ant
pensamento. 5 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

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disciplina à outra (conceitos, leis, etc.), gerando, em alguns Implicações da interdisciplinaridade no processo de
casos, um novo corpo disciplinar. O conhecimento do meio, no ensino-aprendizagem
Ensino Fundamental, pode ser um exemplo de
interdisciplinaridade. A escola, como lugar legítimo de aprendizagem, produção
- Transdisciplinaridade: é o grau máximo de relações entre e reconstrução de conhecimento, cada vez mais precisará
as disciplinas, a busca de uma integração global dentro de um acompanhar as transformações da ciência contemporânea,
sistema totalizador que possibilite uma unidade interpretativa. adotar e simultaneamente apoiar as exigências
interdisciplinares que hoje participam da construção de novos
Segundo Zabala, a transdisciplinaridade constitui-se mais conhecimentos. A escola precisará acompanhar o ritmo das
como um desejo do que como uma realidade. mudanças que se operam em todos os segmentos que
Para Hernández57, a interdisciplinaridade da escola tem compõem a sociedade. O mundo está cada vez mais
como objetivo oferecer uma resposta à necessidade de ensinar interconectado, interdisciplinarizado e complexo.
aos alunos a unidade do saber. Para isso, os professores Embora a temática da interdisciplinaridade esteja em
organizam o trabalho de modo a colocar em comum a visão de debate tanto nas agências formadoras quanto nas escolas,
diferentes disciplinas sobre um determinado tema como, por sobretudo nas discussões sobre projeto político-pedagógico,
exemplo, a Inconfidência Mineira vista numa perspectiva os desafios para a superação do referencial dicotomizador e
histórica, geográfica, das letras e artes. Uma crítica que esse parcelado na reconstrução e socialização do conhecimento
autor tece a essa perspectiva é relativa ao fato de que, de modo que orienta a prática dos educadores ainda são enormes.
geral, não há intercâmbios relacionais reais entre os saberes, Para Luck,58 o estabelecimento de um trabalho de sentido
já que cada professor costuma dar a uma visão do tema, o que interdisciplinar provoca, como toda ação a que não se está
não garantirá que o aluno tenha uma visão relacional do habituado, sobrecarga de trabalho, certo medo de errar, de
mesmo: o fato de os professores evidenciarem as relações perder privilégios e direitos estabelecidos. A orientação para o
entre as disciplinas não garante que os alunos estabeleçam as enfoque interdisciplinar na prática pedagógica implica romper
conexões necessárias para a compreensão global do tema. hábitos e acomodações, implica buscar algo novo e
Para Hernández, esse enfoque é externo à aprendizagem do desconhecido. É certamente um grande desafio.
aluno, resulta do esforço e dos conhecimentos do professor e A ação interdisciplinar é contrária a qualquer
mantém a centralidade das disciplinas. Para que a escola homogeneização e/ou enquadramento conceitual. Faz-se
enfrente as mudanças requeridas no contexto atual, diz ele, a necessário o desmantelamento das fronteiras artificiais do
reorganização curricular deve acontecer na perspectiva da conhecimento. Um processo educativo desenvolvido na
transdisciplinaridade. perspectiva interdisciplinar possibilita o aprofundamento da
As transformações ocorridas nas últimas décadas no compreensão da relação entre teoria e prática, contribui para
cenário sociocultural, econômico, político, no campo do uma formação mais crítica, criativa e responsável e coloca
conhecimento e das tecnologias, em todo o planeta, e que escola e educadores diante de novos desafios tanto no plano
transformaram decisivamente as relações entre as pessoas e ontológico quanto no plano epistemológico.
destas com o conhecimento, demandam da escola mudanças Na sala de aula, ou em qualquer outro ambiente de
profundas. Assumir a Transdisciplinaridade como marco para aprendizagem, são inúmeras as relações que intervêm no
uma organização do currículo escolar integrado significa processo de construção e organização do conhecimento. As
repensar o trabalho educativo em termos da complexidade do múltiplas relações entre professores, alunos e objetos de
conhecimento e de sua produção. Nessa perspectiva, aprender estudo constroem o contexto de trabalho dentro do qual as
significa interpretar a realidade, compreendendo seus relações de sentido são construídas. Nesse complexo trabalho,
fenômenos e explicando essa compreensão. Isso implica que a o enfoque interdisciplinar aproxima o sujeito de sua realidade
escola repense os critérios para a organização de seu currículo, mais ampla, auxilia os aprendizes na compreensão das
o porquê de algumas disciplinas serem nele contempladas e complexas redes conceituais, possibilita maior significado e
outras não, o significado de conteúdo escolar, os sentido aos conteúdos da aprendizagem, permitindo uma
procedimentos de ensino/aprendizagem, os processos formação mais consistente e responsável.
educativos como um todo. De todo modo, o professor precisa tornar-se um
profissional com visão integrada da realidade, compreender
Para Hernández, são características do currículo que um entendimento mais profundo de sua área de formação
transdisciplinar: não é suficiente para dar conta de todo o processo de ensino.
- O trabalho é desenvolvido através de temas ou problemas Ele precisa apropriar-se também das múltiplas relações
vinculados ao mundo real, à comunidade; conceituais que sua área de formação estabelece com as outras
- O professor é mediador do processo, que é desenvolvido por ciências. O conhecimento não deixará de ter seu caráter de
meio de pesquisas, de projetos de trabalho (ver também verbete especialidade, sobretudo quando profundo, sistemático,
Projetos de Trabalho, no Dicionário Tempos e Espaços analítico, meticulosamente reconstruído; todavia, ao educador
Escolares). caberá o papel de reconstruí-lo dialeticamente na relação com
- O estudo individual cede lugar ao estudo em pequenos seus alunos por meio de métodos e processos
grupos, nos quais os alunos trabalham por projetos; verdadeiramente produtivos.
- O conhecimento é construído em função da pesquisa que se A escola é um ambiente de vida e, ao mesmo tempo, um
está realizando; instrumento de acesso do sujeito à cidadania, à criatividade e
- A avaliação é feita através de portfólios, em que os alunos à autonomia. Não possui fim em si mesma. Ela deve constituir-
sistematizam o conhecimento construído e refletem sobre o seu se como processo de vivência, e não de preparação para a vida.
processo de aprendizagem. Por isso, sua organização curricular, pedagógica e didática
Igualmente importante para se repensar um currículo deve considerar a pluralidade de vozes, de concepções, de
integrado, que favoreça a construção de sentido nas experiências, de ritmos, de culturas, de interesses. A escola
aprendizagens, é a noção de conceito estruturador que deve conter, em si, a expressão da convivialidade humana,
permite a concretização da interdisciplinaridade na prática considerando toda a sua complexidade. A escola deve ser, por
escolar. sua natureza e função, uma instituição interdisciplinar.

57HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de 58LUCK,Heloísa. Pedagogia da interdisciplinaridade. Fundamentos teórico-
trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. metodológicos. Petrópolis: Vozes, 2001.

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A escola precisa acolher diferentes saberes, diferentes meio de uma atitude que pressupõe planejamento sistemático
manifestações culturais e diferentes óticas, empenhar-se para e integrado e disposição para o diálogo.
se constituir, ao mesmo tempo, em um espaço de A transversalidade é entendida como uma forma de
heterogeneidade e pluralidade, situada na diversidade em organizar o trabalho didático-pedagógico em que temas, eixos
movimento, no processo tornado possível por meio de temáticos são integrados às disciplinas, às áreas ditas
relações intersubjetivas, fundamentada no princípio convencionais de forma a estarem presentes em todas elas. A
emancipador. Cabe, nesse sentido, às escolas desempenhar o transversalidade difere-se da interdisciplinaridade e
papel socioeducativo, artístico, cultural, ambiental, complementam-se; ambas rejeitam a concepção de
fundamentadas no pressuposto do respeito e da valorização conhecimento que toma a realidade como algo estável, pronto
das diferenças, entre outras, de condição física, sensorial e e acabado. A primeira se refere à dimensão didático-
sócio emocional, origem, etnia, gênero, classe social, contexto pedagógica e a segunda, à abordagem epistemológica dos
sociocultural, que dão sentido às ações educativas, objetos de conhecimento. A transversalidade orienta para a
enriquecendo-as, visando à superação das desigualdades de necessidade de se instituir, na prática educativa, uma analogia
natureza sociocultural e socioeconômica. Contemplar essas entre aprender conhecimentos teoricamente sistematizados
dimensões significa a revisão dos ritos escolares e o (aprender sobre a realidade) e as questões da vida real
alargamento do papel da instituição escolar e dos educadores, (aprender na realidade e da realidade). Dentro de uma
adotando medidas proativas e ações preventivas. compreensão interdisciplinar do conhecimento, a
Na organização e gestão do currículo, as abordagens transversalidade tem significado, sendo uma proposta didática
disciplinar, pluridisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar que possibilita o tratamento dos conhecimentos escolares de
requerem a atenção criteriosa da instituição escolar, porque forma integrada. Assim, nessa abordagem, a gestão do
revelam a visão de mundo que orienta as práticas pedagógicas conhecimento parte do pressuposto de que os sujeitos são
dos educadores e organizam o trabalho do estudante. agentes da arte de problematizar e interrogar, e buscam
Perpassam todos os aspectos da organização escolar, desde o procedimentos interdisciplinares capazes de acender a chama
planejamento do trabalho pedagógico, a gestão do diálogo entre diferentes sujeitos, ciências, saberes e temas.
administrativo-acadêmica, até a organização do tempo e do Portanto, a interdisciplinaridade é um movimento
espaço físico e a seleção, disposição e utilização dos importante de articulação entre o ensinar e o aprender.
equipamentos e mobiliário da instituição, ou seja, todo o Compreendida como formulação teórica e assumida enquanto
conjunto das atividades que se realizam no espaço escolar, em atitude, tem a potencialidade de auxiliar os educadores e as
seus diferentes âmbitos. As abordagens multidisciplinar, escolas na ressignificação do trabalho pedagógico em termos
pluridisciplinar e interdisciplinar fundamentam-se nas de currículo, de métodos, de conteúdos, de avaliação e nas
mesmas bases, que são as disciplinas, ou seja, o recorte do formas de organização dos ambientes para a aprendizagem.
conhecimento.
Enquanto a multidisciplinaridade expressa frações do Questões
conhecimento e o hierarquiza, a pluridisciplinaridade estuda
um objeto de uma disciplina pelo ângulo de várias outras ao 01. (CESPE – SEDF - Conhecimentos Básicos - Cargo
mesmo tempo. Segundo Nicolescu59, a pesquisa 2/2017) Com relação a planejamento pedagógico,
pluridisciplinar traz algo a mais a uma disciplina, mas transdisciplinaridade, avaliação e projeto político-pedagógico,
restringe-se a ela, está a serviço dela. A transdisciplinaridade julgue o item que se segue. A transdisciplinaridade, sem negar
refere-se ao conhecimento próprio da disciplina, mas está para a interdisciplinaridade, propõe a superação da fragmentação
além dela. O conhecimento situa-se na disciplina, nas do conhecimento e o trabalho de forma integrada.
diferentes disciplinas e além delas, tanto no espaço quanto no ( ) Certo ( ) Errado
tempo. Busca a unidade do conhecimento na relação entre a
parte e o todo, entre o todo e a parte. Adota atitude de abertura
sobre as culturas do presente e do passado, uma assimilação 02. (CESPE – SEDF - Conhecimentos Básicos - Cargo
da cultura e da arte. O desenvolvimento da capacidade de 2/2017) Com relação a planejamento pedagógico,
articular diferentes referências de dimensões da pessoa transdisciplinaridade, avaliação e projeto político-pedagógico,
humana, de seus direitos, e do mundo é fundamento básico da julgue o item que se segue. Os elementos constituintes, os
transdisciplinaridade. De acordo com Nicolescu, para os objetivos e os conteúdos de um planejamento devem,
adeptos da transdisciplinaridade, o pensamento clássico é o obrigatoriamente, estar interligados, mas as estratégias, não,
seu campo de aplicação, por isso é complementar à pesquisa pois estas são flexíveis.
pluri e interdisciplinar. A interdisciplinaridade pressupõe a ( ) Certo ( ) Errado
transferência de métodos de uma disciplina para outra.
Ultrapassa-as, mas sua finalidade inscreve-se no estudo 03. Com relação as características fundamentadas por
disciplinar. Pela abordagem interdisciplinar ocorre a Hernández acerca da transdisciplinaridade, julgue o item que
transversalidade do conhecimento constitutivo de diferentes se segue. O professor é mediador do processo, que é
disciplinas, por meio da ação didático-pedagógica mediada desenvolvido por meio de pesquisas e/ou trabalhos, desta
pela pedagogia dos projetos temáticos. Estes facilitam a forma o conhecimento é construído em função da pesquisa em
organização coletiva e cooperativa do trabalho pedagógico, que se
embora sejam ainda recursos que vêm sendo utilizados de ( ) Certo ( ) Errado
modo restrito e, às vezes, equivocados. A interdisciplinaridade
é, portanto, entendida aqui como abordagem teórico- Respostas
metodológica em que a ênfase incide sobre o trabalho de 01. Certo / 02. Errado / 03. Certo
integração das diferentes áreas do conhecimento, um real
trabalho de cooperação e troca, aberto ao diálogo e ao
planejamento. Essa orientação deve ser enriquecida, por meio
de proposta temática trabalhada transversalmente ou em
redes de conhecimento e de aprendizagem, e se expressa por

59NICOLESCU, Basarab. Um novo tipo de conhecimento – transdisciplinaridade. Judite Vero, Maria F. de Mello e Américo Sommerman. Brasília: UNESCO, 2000.
In: NICOLESCU, Basarab et al. Educação e transdisciplinaridade. Tradução de (Edições UNESCO).

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A reafirmação de identidades étnicas e o desenvolvimento


Os fundamentos de uma de educação escolar bilíngue e intelectual aos povos indígenas
escola inclusiva. são apontados em diversas proposições. A LDB rompe com o
modelo assistencial e terapêutico operante, até então, no que
diz respeito ao tratamento dispensado a educandos com
Inclusão Escolar deficiência e necessidades educacionais especiais. Tais
proposições nos permitem inferir que os pilares fundamentais
A escola brasileira é marcada pelo fracasso e pela evasão da LDB podem favorecer a concretização de projetos flexíveis
de uma parte, privações constantes e pela baixa autoestima e inovadores referenciados no ideal de uma escola inclusiva.
resultante da exclusão escolar e da social — alunos que são
vítimas de seus pais, de seus professores e, sobretudo, das Mudanças na escola
condições de pobreza em que vivem, em todos os seus
sentidos. Esses alunos são sobejamente conhecidos das Para atender a todos e atender melhor, a escola atual tem
escolas, pois repete as suas séries várias vezes, são expulsos, de mudar, e a tarefa de mudar a escola exige trabalho em
evadem e ainda são rotulados como mal nascidos e com muitas frentes. Cada escola, ao abraçar esse trabalho, terá de
hábitos que fogem ao protótipo da educação formal. encontrar soluções próprias para os seus problemas. As
As soluções sugeridas para se reverter esse quadro mudanças necessárias não acontecem por acaso e nem por
parecem reprisar as mesmas medidas que o criaram. Em Decreto, mas fazem parte da vontade política do coletivo da
outras palavras, pretende-se resolver a situação a partir de escola, explicitadas no seu Projeto Político Pedagógico (PPP) e
ações que não recorrem a outros meios, que não buscam novas vividas a partir de uma gestão escolar democrática.
saídas e que não vão a fundo nas causas geradoras do fracasso É ingenuidade pensar que situações isoladas são
escolar. suficientes para definir a inclusão como opção de todos os
Esse fracasso continua sendo do aluno, pois a escola reluta membros da escola e configurar o perfil da instituição. Não se
em admiti-lo como sendo seu. desconsideram aqui os esforços de pessoas bem-
A inclusão total e irrestrita é uma oportunidade que temos intencionadas, mas é preciso ficar claro que os desafios das
para reverter a situação da maioria de nossas escolas, as quais mudanças devem ser assumidos e decididos pelo coletivo
atribuem aos alunos as deficiências que são do próprio ensino escolar.
ministrado por elas — sempre se avalia o que o aluno A organização de uma sala de aula é atravessada por
aprendeu, o que ele não sabe, mas raramente se analisa “o que” decisões da escola que afetam os processos de ensino e de
e “como” a escola ensina, de modo que os alunos não sejam aprendizagem. Os horários e rotinas escolares não dependem
penalizados pela repetência, evasão, discriminação, exclusão, apenas de uma única sala de aula, o uso dos espaços da escola
enfim. para atividades a serem realizadas fora da classe precisa ser
E fácil receber os “alunos que aprendem apesar da escola” combinado e sistematizado para o bom aproveitamento de
e é mais fácil ainda encaminhar, para as classes e escolas todos, as horas de estudo dos professores devem coincidir
especiais, os que têm dificuldades de aprendizagem e, sendo para que a formação continuada seja uma aprendizagem
ou não deficientes, para os programas de reforço e aceleração. colaborativa, a organização do Atendimento Educacional
Por meio dessas válvulas de escape, continuamos a Especializado (AEE) não pode ser um mero apêndice na vida
discriminar os alunos que não damos conta de ensinar. escolar ou da competência do professor que nele atua.
Estamos habituados a repassar nossos problemas para outros Um conjunto de normas, regras, atividades, rituais,
colegas, os “especializados” e, assim, não recai sobre nossos funções, diretrizes, orientações curriculares e metodológicas,
ombros o peso de nossas limitações profissionais. oriundo das diversas instâncias burocrático-legais do sistema
Segundo proclama a Declaração de Salamanca: educacional, constitui o arcabouço pedagógico e
administrativo das escolas de uma rede de ensino. Trata-se do
"Escolas inclusivas devem reconhecer e responder às que está INSTITUÍDO e do que Libâneo60 e outros autores
necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os analisaram pormenorizadamente.
estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação Nesse INSTITUÍDO, estão os parâmetros e diretrizes
de qualidade a todos através de um currículo apropriado, curriculares, as leis, os documentos das políticas, os
arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recursos regimentos e demais normas do sistema.
e parceria com as comunidades. (...) O desafio que confronta a Em contrapartida, existe um espaço e um tempo a serem
escola inclusiva é no que diz respeito ao desenvolvimento de uma construídos por todas as pessoas que fazem parte de uma
pedagogia centrada na criança e capaz de bem sucedidamente instituição escolar, porque a escola não é uma estrutura pronta
educar todas as crianças, incluindo aquelas que possuam e acabada a ser perpetuada e reproduzida de geração em
desvantagem severa. O mérito de tais escolas não reside somente geração. Trata-se do INSTITUINTE.
no fato de que elas sejam capazes de prover uma educação de A escola cria, nas possibilidades abertas pelo
alta qualidade a todas as crianças: o estabelecimento de tais INSTITUINTE, um espaço de realização pessoal e profissional
escolas é um passo crucial no sentido de modificar atitudes que confere à equipe escolar a possibilidade de definir o seu
discriminatórias, de criar comunidades acolhedoras e de horário escolar, organizar projetos, módulos de estudo e
desenvolver uma sociedade inclusiva." outros, conforme decisão colegiada. Assim, confere autonomia
a toda equipe escolar, acreditando no poder criativo e inova-
Um dos princípios norteadores da Lei de Diretrizes e Bases dor dos que fazem e pensam a educação.
Nacionais da Educação – LDB 9.394/96 é o da igualdade de
condições para o acesso e a permanência na escola. A LDB O Atendimento Educacional Especializado (AEE)
reconhece a educação infantil como direito e prevê a garantia
de condições adequadas à escolarização de jovens, adultos e Uma das inovações trazidas pela Política Nacional de
trabalhadores, a qualidade de ensino em todos os níveis e Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva é o
modalidades educacionais, além de outros direitos e Atendimento Educacional Especializado - AEE, um serviço da
obrigações (Título III, Artigo 5 I – IX). educação especial que "[...] identifica, elabora e organiza

60LIBÂNEO, J. C., OLIVEIRA J. F.; TOSCHI, M. S. Educação Escolar: políticas,


estrutura e organização. São Paulo: Cortez, 2003.

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recursos pedagógicos e de acessibilidade, que eliminem as


barreiras para a plena participação dos alunos, considerando A formação de professores para o AEE
suas necessidades específicas" (SEESP/MEC).61
O AEE complementa e/ou suplementa a formação do Para atuar no AEE, os professores devem ter formação
aluno, visando a sua autonomia na escola e fora dela, específica para este exercício, que atenda aos objetivos da
constituindo oferta obrigatória pelos sistemas de ensino. É educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Nos
realizado, de preferência, nas escolas comuns, em um espaço cursos de formação continuada, de aperfeiçoamento ou de
físico denominado Sala de Recursos Multifuncionais. Portanto, especialização, indicados para essa formação, os professores
é parte integrante do projeto político pedagógico da escola. atualizarão e ampliarão seus conhecimentos em conteúdo
São atendidos, nas Salas de Recursos Multifuncionais, específico do AEE, para melhor atender a seus alunos.
alunos público-alvo da educação especial, conforme A formação de professores consiste em um dos objetivos
estabelecido na Política Nacional de Educação Especial na do PPP. Um dos seus aspectos fundamentais é a preocupação
Perspectiva da Educação Inclusiva e no Decreto N.6.571/2008. com a aprendizagem permanente de professores, demais
profissionais que atuam na escola e também dos pais e da
- Alunos com deficiência: aqueles [...] que têm comunidade onde a escola se insere. Neste documento,
impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, apresentam-se as ações de formação, incluindo os aspectos
intelectual ou sensorial, os quais em interação com diversas ligados ao estudo das necessidades específicas dos alunos com
barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas
sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas habilidades/superdotação. Este estudo perpassa o cotidiano
(ONU)62. da escola e não é exclusivo dos professores que atuam no AEE.
- Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: À gestão escolar compete implementar ações que
aqueles que apresentam alterações qualitativas das interações garantam a formação das pessoas envolvidas, direta ou
sociais recíprocas e na comunicação, um repertório de indiretamente, nas unidades de ensino. Ela pode se dar por
interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. meio de palestras informativas e formações em nível de
Incluem-se nesse grupo alunos com autismo, síndromes do aperfeiçoamento e especialização para os professores que
espectro do autismo e psicose infantil. (MEC/SEESP). atuam ou atuarão no AEE.
- Alunos com altas habilidades/superdotação: aqueles que As palestras informativas devem envolver o maior número
demonstram potencial elevado em qualquer uma das de pessoas possível: professores do ensino comum e do AEE,
seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, pais, autoridades educacionais. De caráter mais amplo, essas
acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de palestras têm por objetivo esclarecer o que é o AEE, como ele
apresentar grande criatividade, envolvimento na está sendo realizado e qual a política que o fundamenta, além
aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu de tirar dúvidas sobre este serviço e promover ações conjuntas
interesse (MEC/SEESP). para fazer encaminhamentos, quando necessários.
Para a formação em nível de aperfeiçoamento e
A matrícula no AEE é condicionada à matrícula no ensino especialização, a proposta é que sejam realizadas ações de
regular. Esse atendimento pode ser oferecido em Centros de formação fundamentadas em metodologias ativas de
Atendimento Educacional Especializado da rede pública ou aprendizagem, tais como Estudos de Casos, Aprendizagem
privada, sem fins lucrativos. Tais centros, contudo, devem Baseada em Problemas (ABP) ou Problem Based Learning
estar de acordo com as orientações da Política Nacional de (PBL), Aprendizagem Baseada em Casos (ABC), Trabalhos com
Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva e com Projetos, Aprendizagem Colaborativa em Rede (ACR), entre
as Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o outras.
Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica Essas metodologias trazem novas formas de produção e
(MEC/SEESP). organização do conhecimento e colocam o aprendiz no centro
Na perspectiva da educação inclusiva, o processo de do processo educativo, dando-lhe autonomia e
reorientação de escolas especiais e centros especializados responsabilidade pela sua aprendizagem por meio da
requer a construção de uma proposta pedagógica que institua identificação e análise dos problemas e da capacidade para
nestes espaços, principalmente, serviços de apoio às escolas formular questões e buscar informações para responder a
para a organização das salas de recursos multifuncionais e estas questões, ampliando conhecimentos.
para a formação continuada dos professores do AEE. Tradicionalmente os cursos de formação continuada são
Os conselhos de educação têm atuação primordial no centrados nos conteúdos, classificados de acordo com o
credenciamento, autorização de funcionamento e organização critério de pertencimento a uma especificidade, tendo sua
destes centros de AEE, zelando para que atuem dentro do que organização curricular pautada num perfil "ideal" de aluno que
a legislação, a Política e as Diretrizes orientam. No entanto, a se deseja formar. Estes modelos de formação estão sendo cada
preferência pela escola comum como o local do serviço de AEE, vez mais questionados no contexto educacional e algumas
já definida no texto constitucional de 1988, foi reafirmada pela metodologias começam a surgir com a finalidade de romper
Política, e existem razões para que esse atendimento ocorra na com esta organização e determinismo. Tais metodologias
escola comum. rompem com o modelo determinista de formação,
O motivo principal de o AEE ser realizado na própria escola considerando as diferenças entre os estudantes e
do aluno está na possibilidade de que suas necessidades apresentando uma nova perspectiva de organização
educacionais específicas possam ser atendidas e discutidas no curricular.
dia a dia escolar e com todos os que atuam no ensino regular Zabala63 defende uma perspectiva de organização
e/ou na educação especial, aproximando esses alunos dos curricular globalizadora, na qual os conteúdos de
ambientes de formação comum a todos. Para os pais, quando o aprendizagem e as unidades temáticas do currículo são
AEE ocorre nessas circunstâncias, propicia-lhes viver uma relevantes em função de sua capacidade de compreender uma
experiência inclusiva de desenvolvimento e de escolarização realidade global. Para Hernandez64, o conceito de
de seus filhos, sem ter de recorrer a atendimentos exteriores à conhecimento global e relacional permite superar o sentido da
escola. mera acumulação de saberes em torno de um tema. Ele propõe

61MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Decreto No 6.571, de 17 de setembro de 2008. 63ZABALA, A. A Prática Educativa. Porto Alegre: Artmed, 1998.
62Organização das Nações Unidas - ONU. Convenção sobre os Direitos das 64HERNANDEZ, F; VENTURA, M. A Organização do Currículo por Projetos de
Pessoas com Deficiência. Nova Iorque, 2006. Trabalho: o conhecimento é um caleidoscópio. Porto Alegre: Artmed, 1998.

Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 80


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estabelecer um processo no qual o tema ou problema Nunca é demais, contudo, reafirmar as condições em que
abordado seja o ponto de referência para onde confluem os essa inovação acontece, marcando, grifando na nossa
conhecimentos. consciência de educadores o seu valor para que nossas escolas
É neste contexto que surgem as metodologias ativas de atendam à expectativa dos alunos de nossas escolas, do ensino
aprendizagem. Elas requerem uma mudança de atitude do infantil à Universidade.
docente. Uma delas refere-se à flexibilidade diante das A escola prepara o futuro e de certo que, se os alunos
questões que surgirão e dos conhecimentos que se construirão aprenderem a valorizar e a conviver com as diferenças nas
durante o desenvolvimento dos trabalhos. Este processo salas de aula, serão adultos bem diferentes de nós que temos
permite aos professores e aos alunos aprenderem a explicar as de nos empenhar tanto para entender e viver a experiência da
relações estabelecidas a partir de informações obtidas sobre inclusão!
determinado assunto e demonstra respeito às diferentes O movimento inclusivo, nas escolas, por mais que seja
formas e procedimentos de organização do conhecimento. ainda muito contestado, pelo caráter ameaçador de toda e
Essas propostas colocam o aprendiz como protagonista do qualquer mudança, especialmente no meio educacional,
processo de ensino e aprendizagem e agrega valor educativo convence a todos pela sua lógica e pela ética de seu
aos conteúdos da formação. Os conteúdos não se tornam à posicionamento social.
finalidade, mas os meios de ensino. As metodologias ativas de Ao denunciar o abismo existente entre o velho e o novo na
aprendizagem têm como característica o fato de se instituição escolar brasileira, a inclusão é reveladora dos
desenvolverem em pequenos grupos e de apresentarem males que o conservadorismo escolar tem espalhado pela
problemas contextualizados. Trata-se de um processo ativo, nossa infância e juventude estudantil.
cooperativo, integrado e interdisciplinar. Estimula o aprendiz O futuro da escola inclusiva depende de uma expansão
a desenvolver os trabalhos em equipe, ouvir outras opiniões, a rápida dos projetos verdadeiramente imbuídos do
considerar o contexto ao elaborar as propostas das soluções, compromisso de transformar a escola, para se adequar aos
tornando-o consciente do que ele sabe e do que precisa novos tempos.
aprender. Motiva-o a buscar as informações relevantes, Se hoje ainda esses projetos se resumem a experiências
considerando que cada problema é um problema e que não locais, estas estão demonstrando a viabilidade da inclusão, em
existem receitas para solucioná-los. escolas e redes de ensino brasileiras, porque têm a força do
Entre as diversas metodologias, a Aprendizagem óbvio e a clareza da simplicidade.
Colaborativa em Redes - ACR, construída a partir da A aparente fragilidade das pequenas iniciativas tem sido
metodologia de Aprendizagem Baseada em Problemas, foi suficiente para enfrentar, com segurança e otimismo, o poder
desenvolvida para um programa de formação continuada a da velha e enferrujada máquina escolar.
distância de professores de AEE. Seu foco é a aprendizagem A inclusão é um sonho possível.
colaborativa, o trabalho em equipe, contextualizado na
realidade do aprendiz. Questões
A ACR é composta de etapas que incluem trabalhos
individuais e coletivos. As etapas compreendem a 01. (FCM - IF Sudeste – MG - Técnico em Assuntos
apresentação, a descrição e a discussão do problema; Educacionais/2016) A escola inclusiva é aquela que:
pesquisas em fontes bibliográficas para favorecer a I- atua em coletividade, prezando o indivíduo,
compreensão do problema; apresentação de propostas de reconhecendo sua identidade e subjetividade.
soluções para o problema em foco; elaboração do plano de II- está preparada para receber os alunos, tendo a garantia
atendimento; socialização; reelaboração da solução do da acessibilidade física, metodológica, comunicacional e
problema e do plano de atendimento; avaliação. tecnológica.
A proposta de formação ACR prepara o professor para III- tem o poder de acabar com as mazelas sociais, com a
perceber a singularidade de cada caso e atuar frente a eles. produção das desigualdades sociais.
Nesse sentido, a formação não termina com o curso, visto que IV- defende a inserção de alunos com deficiência com
a atuação do professor requer estudo e reflexões diante de comprometimentos mais severos para o ato de socialização.
cada novo desafio. Finalizada a formação, é importante que os
professores constituam redes sociais para dar continuidade São corretas as afirmativas:
aos estudos, estudar casos, dirimir dúvidas e socializar os (A) I e II.
conhecimentos adquiridos a partir da prática cotidiana. Para (B) I e III.
contribuir com estas ações, a internet disponibiliza várias (C) II e III.
ferramentas de livre acesso que podem ser utilizadas pelos (D) III e IV.
professores. (E) I, II, III e IV.
As tecnologias de informação e comunicação - TICs, em
especial as tecnologias Web 2.0, possibilitam aos usuários o 02. (UTFPR – UTFPR - Pedagogo/2016) A Declaração de
acesso às informações de forma rápida e constante. Elas Salamanca apresentou princípios, políticas e práticas, que são
permitem a participação ativa do usuário na grande rede de explicitados nas legislações atualmente vigentes e nos
computadores e invertem o papel de usuário consumidor para documentos oficiais. Sobre tais princípios, é correto afirmar
usuário produtor de conhecimento, de agente passivo para que:
agente ativo, o que pode ampliar as possibilidades dos (A) A Declaração de Salamanca refere-se à necessidade de
programas de formação pautados em metodologias ativas de todas as crianças se adaptarem à educação regular, a partir dos
aprendizagem. esforços da família e da comunidade.
Estas e outras ferramentas possibilitam viabilizar a (B) A Declaração de Salamanca acentuou as desigualdades
construção coletiva do conhecimento em torno das práticas de historicamente construídas em nossa sociedade, reforçando a
inclusão e, o mais importante, socializar estas práticas e fazer segregação e a exclusão.
delas um objeto de pesquisa. (C) A Declaração de Salamanca refere-se à educação nos
países em desenvolvimento, fruto das desigualdades
Finalizando... promovidas pelo sistema capitalista.
Embora possa assustar pelo grande número de mudanças (D) A Declaração de Salamanca ressalta que os sistemas
e pelo teor de cada uma delas, a inclusão é como muitos a educativos devem ser projetados e os programas aplicados de
apregoam “um caminho sem volta”.

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modo que tenham em vista toda a gama das diferentes também como contexto da formação. Não se restringe,
características e necessidades. portanto, como princípio educativo, ao “aprender
(E) A Declaração de Salamanca afirma que todas as trabalhando” ou ao “trabalhar aprendendo”: relaciona-se
crianças têm direito fundamental à educação, mesmo que não com a contribuição da ação educativa para que os
consiga se desenvolver e manter um nível aceitável de indivíduos/coletivos compreendam, enquanto vivenciam e
conhecimentos. constroem a própria formação, que é socialmente justo que
todos trabalhem porque esse é um direito de todos os
03. (FUNCAB - EMSERH -Pedagogo/2016) A Escola cidadãos.
Inclusiva é uma tendência internacional do final do século XX.
O principal desafio dessa escola é: Mas o trabalho é também uma obrigação coletiva, porque
(A) Desenvolver uma pedagogia centrada na criança, capaz é a partir da produção de todos que se produz e se transforma
de educar todas, sem discriminação, respeitando suas a existência humana e, nesse sentido, não é justo que muitos
diferenças. trabalhem para que poucos enriqueçam cada vez mais,
(B) Dar conta da diversidade das crianças oferecendo enquanto outros empobrecem e vivem à margem. Ou pior
respostas adequadas às suas características e necessidades, ainda, que muitos não tenham sequer direito ao trabalho e que
solicitando apoio de instituições e especialistas somente isso seja funcional aos interesses econômicos hegemônicos.
quando a família exigir.
(C) Fortalecer uma sociedade democrática, justa e Nesse sentido, entende-se que uma prática pedagógica
economicamente ativa. significativa demanda análises do mundo do trabalho (sem
(D) Garantir às crianças com necessidades especiais uma reduzi-lo apenas ao espaço onde ocorre o trabalho
convivência participativa com outras crianças com as mesmas assalariado), que incluam a sua cultura, os conflitos nele
necessidades especiais. existentes e suas vinculações aos projetos societários em
(E) Desenvolver o princípio da integração previsto na disputa, suas implicações sobre a natureza, os conhecimentos
Declaração Municipal. construídos a partir do trabalho e das relações sociais que se
estabelecem na sua produção.
Respostas
01. A / 02. D / 03. A A pesquisa como princípio metodológico

O trabalho de produção do conhecimento Intimamente


Educação e trabalho: o relacionado ao trabalho como princípio educativo, esse
trabalho como princípio princípio contribui para a formação de sujeitos autônomos,
capazes de compreender-se no mundo e nele atuar por meio
educativo. do trabalho, transformando a natureza em função das
necessidades dos demais seres humanos e cuidando de sua
preservação para as gerações futuras. A construção da
Trabalho como princípio educativo65 autonomia intelectual necessária para assim atuar por meio do
trabalho pode e deve ser potencializada pela pesquisa, que
Esse princípio permite uma compreensão do significado deve ser intrínseca ao ensino e orientada para o estudo e a
econômico, social, histórico, político e cultural das ciências e busca de soluções de questões teóricas e práticas da vida
das artes, o que implica considerar o trabalho em seus sentidos cotidiana dos sujeitos trabalhadores.
ontológico e histórico.
Na dimensão ontológica, considerar o trabalho como É necessário que a pesquisa como princípio educativo
princípio educativo é compreendê-lo como mediação primeira esteja presente em toda a educação escolar dos que vivem e
entre o homem e a natureza e, portanto, como elemento viverão do próprio trabalho. Ela instiga a curiosidade em
central na produção da existência humana. Dessa forma, é na relação ao mundo, gera inquietude e evita que se
busca da produção da própria existência que o homem gera incorporem pacotes fechados de visão de mundo, de
conhecimentos, que são histórica, social e culturalmente informações e de saberes, quer do senso comum, quer
acumulados, ampliados e transformados. escolares, quer científicos.
No ensino médio integrado, o trabalho também é princípio
educativo em seu sentido histórico na medida em que se Quando despertada nas primeiras fases escolares, a
consideram as diversas formas e significados que o trabalho inquietação diante da realidade contribui para que, nas faixas
vem assumindo nas sociedades humanas. Isso permitirá etárias e níveis educacionais mais avançados, o sujeito possa,
compreender que, no sistema capitalista, o trabalho “se individual e coletivamente, formular questões de investigação
transforma em trabalho assalariado ou fator econômico, forma e buscar respostas no âmbito acadêmico ou em outros
específica de produção da existência humana sob o processos de trabalho, num movimento autônomo de
capitalismo; portanto, como categoria econômica e práxis (re)construção de conhecimentos.
produtiva que, baseadas em conhecimentos existentes, Além disso, a (re)produção de conhecimento deve ser
produzem novos conhecimentos.” Incorporar a dimensão orientada por um sentido ético: é imprescindível potencializar
histórica do trabalho no ensino médio integrado significa, uma concepção de pesquisa, aplicada ou não, assim como de
portanto, considerar exigências específicas para o processo ciência e de desenvolvimento tecnológico comprometidos com
educativo, que visem à participação direta dos membros da a produção de conhecimentos, saberes, bens e serviços que
sociedade no trabalho socialmente produtivo. tenham como finalidade melhorar as condições da vida
coletiva. Não se trata apenas de produzir bens de consumo
Considerado em suas dimensões ontológica e histórica, para fortalecer o mercado e privilegiar o valor de troca em
o trabalho integra a base unitária do ensino médio detrimento do valor de uso, concentrando riqueza e
integrado, bem como fundamenta e justifica a formação aumentando o fosso entre incluídos e excluídos.
específica para o exercício profissional, instituindo-se

65Texto adaptado de MOURA, D. H. Algumas Possibilidades de Organização do


Ensino Médio a Partir de uma Base Unitária: Trabalho, Ciência, Tecnologia e
Cultura.

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A edificação da autonomia intelectual dos sujeitos frente à métodos da administração empresarial. Algumas
(re)construção do conhecimento e de outras práticas sociais características desse modelo são:
inclui a conscientização e a autonomia em relação ao trabalho.
Potencializar a relação entre o ensino e a pesquisa contribui - Prescrição detalhada de funções, acentuando-se a divisão
para desenvolver, ao longo da vida, entre outros aspectos, as técnica do trabalho escolar (tarefas especializadas).
capacidades de interpretar, analisar, criticar, refletir, rejeitar - Poder centralizado do diretor, destacando-se as relações de
idéias fechadas, aprender, buscar soluções e propor subordinação em que uns têm mais autoridades do que outros.
alternativas, potencializadas pela investigação e pela - Ênfase na administração (sistema de normas, regras,
responsabilidade ética diante das questões políticas, sociais, procedimentos burocráticos de controle das atividades), às
culturais e econômicas. vezes descuidando-se dos objetivos específicos da instituição
escolar.
Organização e trabalho na educação66 - Comunicação linear (de cima para baixo), baseada em
normas e regras.
O estudo da educação como organização de trabalho não é - Maior ênfase nas tarefas do que nas pessoas.
novo, há toda uma pesquisa sobre administração educacional
que remonta aos pioneiros da educação nova, nos anos 30. Atualmente, esta concepção também é conhecida como
Esses estudos se deram no âmbito da Administração gestão da qualidade total. A concepção autogestionária baseia-
Educacional e, frequentemente, estiveram marcados por uma se na responsabilidade coletiva, ausência de direção
concepção burocrática, funcionalista, aproximando a centralizada e acentuação da participação direta e por igual de
organização escolar da organização empresarial. Tais estudos todos os membros da instituição. Outras características:
eram identificados com o campo de conhecimentos
denominado Administração e Organização Escolar ou, - Ênfase nas inter-relações mais do que nas tarefas.
simplesmente Administração Escolar. Nos anos 80, com as - Decisões coletivas (assembleias, reuniões), eliminação de
discussões sobre reforma curricular dos cursos de Pedagogia todas as formas de exercício de autoridade e poder.
e de Licenciaturas, a disciplina passou em muitos lugares a ser - Vínculo das formas de gestão interna com as formas de
denominada de Organização do Trabalho Pedagógico ou auto-gestão social (poder coletivo na escola para preparar
Organização do Trabalho Escolar, adotando um enfoque formas de auto-gestão no plano político).
crítico, frequentemente restringido a uma análise crítica da - Ênfase na auto-organização do grupo de pessoas da
escola dentro da organização do trabalho no Capitalismo. instituição, por meio de eleições e alternância no exercício de
Houve pouca preocupação, com algumas exceções, com os funções.
aspectos propriamente organizacionais e técnico- - Recusa a normas e sistemas de controle, acentuando-se a
administrativos da escola. responsabilidade coletiva.
É sempre útil distinguir, no estudo desta questão, um - Crença no poder instituinte da instituição (vivência da
enfoque científico-racional e um enfoque crítico, de cunho experiência democrática no seio da instituição para expandi-la
sócio-político. Não é difícil aos futuros professores fazerem à sociedade) e recusa de todo o poder instituído. O caráter
distinção entre essas duas concepções de organização e gestão instituinte se dá pela prática da participação e auto-gestão,
da escola. No primeiro enfoque, a organização escolar é modos pelos quais se contesta o poder instituído.
tomada como uma realidade objetiva, neutra, técnica, que
funciona racionalmente; portanto, pode ser planejada, A concepção democrática-participativa baseia-se na
organizada e controlada, de modo a alcançar maiores índices relação orgânica entre a direção e a participação do pessoal da
de eficácia e eficiência. As escolas que operam nesse modelo escola. Acentua a importância da busca de objetivos comuns
dão muito peso à estrutura organizacional: organograma de assumidos por todos. Defende uma forma coletiva de gestão
cargos e funções, hierarquia de funções, normas e em que as decisões são tomadas coletivamente e discutidas
regulamentos, centralização das decisões, baixo grau de publicamente. Entretanto, uma vez tomadas as decisões
participação das pessoas que trabalham na organização, coletivamente, advoga que cada membro da equipe assuma a
planos de ação feitos de cima para baixo. Este é o modelo mais sua parte no trabalho, admitindo-se a coordenação e avaliação
comum de funcionamento da organização escolar. sistemática da operacionalização das decisões tomada dentro
O segundo enfoque vê a organização escolar basicamente de uma tal diferenciação de funções e saberes. Outras
como um sistema que agrega pessoas, importando bastante a características desse modelo:
intencionalidade e as interações sociais que acontecem entre
elas, o contexto sócio-político etc. A organização escolar não - Definição explícita de objetos sócio-políticos e pedagógicos
seria uma coisa totalmente objetiva e funcional, um elemento da escola, pela equipe escolar.
neutro a ser observado, mas uma construção social levada a - Articulação entre a atividade de direção e a iniciativa e
efeito pelos professores, alunos, pais e integrantes da participação das pessoas da escola e das que se relacionam com
comunidade próxima. Além disso, não seria caracterizado pelo ela.
seu papel no mercado mas pelo interesse público. A visão - A gestão é participativa mas espera-se, também, a gestão
crítica da escola resulta em diferentes formas de viabilização da participação.
da gestão democrática, conforme veremos em seguida. - Qualificação e competência profissional.
Com base nos estudos existentes no Brasil sobre a - Busca de objetividade no trato das questões da
organização e gestão escolar e nas experiências levadas a organização e gestão, mediante coleta de informações reais.
efeito nos últimos anos, é possível apresentar, de forma - Acompanhamento e avaliação sistemáticos com finalidade
esquemática, três das concepções de organização e gestão: a pedagógica: diagnóstico, acompanhamento dos trabalhos,
técnicocientífica (ou funcionalista), a autogestionária e a reorientação dos rumos e ações, tomada de decisões.
democrático-participativa. - Todos dirigem e são dirigidos, todos avaliam e são
A concepção técnicocientífica baseia-se na hierarquia de avaliados.
cargos e funções visando a racionalização do trabalho, a
eficiência dos serviços escolares. Tende a seguir princípios e

66Texto adaptado de LIBÂNEO, José Carlos. “O sistema de organização e gestão


da escola” In: LIBÂNEO, José Carlos. Organização e Gestão da Escola - teoria e
prática. 4ª ed. Goiânia: Alternativa, 2001.

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Atualmente, o modelo democrático-participativo tem sido Organograma Básico de Escolas


influenciado por uma corrente teórica que compreende a
organização escolar como cultura. Esta corrente afirma que a
escola não é uma estrutura totalmente objetiva, mensurável,
independente das pessoas, ao contrário, ela depende muito
das experiências subjetivas das pessoas e de suas interações
sociais, ou seja, dos significados que as pessoas dão às coisas
enquanto significados socialmente produzidos e mantidos. Em
outras palavras, dizer que a organização é uma cultura
significa que ela é construída pelos seus próprios membros.
Esta maneira de ver a organização escolar não exclui a
presença de elementos objetivos, tais como as ferramentas de O Conselho de Escola tem atribuições consultivas,
poder externas e internas, a estrutura organizacional, e os deliberativas e fiscais em questões definidas na legislação
próprios objetivos sociais e culturais definidos pela sociedade estadual ou municipal e no Regimento Escolar. Essas questões,
e pelo Estado. Uma visão sóciocrítica propõe considerar dois geralmente, envolvem aspectos pedagógicos, administrativos
aspectos interligados: por um lado, compreende que a e financeiros. Em vários Estados o Conselho é eleito no início
organização é uma construção social, a partir da Inteligência do ano letivo. Sua composição tem uma certa
subjetiva e cultural das pessoas, por outro, que essa proporcionalidade de participação dos docentes, dos
construção não é um processo livre e voluntário, mas especialistas em educação, dos funcionários, dos pais e alunos,
mediatizado pela realidade sociocultural e política mais ampla, observando-se, em princípio, a paridade dos integrantes da
incluindo a influência de forças externas e internas marcadas escola (50%) e usuários (50%). Em alguns lugares o Conselho
por interesses de grupos sociais, sempre contraditórios e às de Escola é chamado de “colegiado” e sua função básica é
vezes conflitivos. Busca relações solidárias, formas democratizar as relações de poder.
participativas, mas também valoriza os elementos internos do
processo organizacional- o planejamento, a organização e a Direção
gestão, a direção, a avaliação, as responsabilidades individuais
dos membros da equipe e a ação organizacional coordenada e O diretor coordena, organiza e gerencia todas as atividades
supervisionada, já que precisa atender a objetivos sociais e da escola, auxiliado pelos demais componentes do corpo de
políticos muito claros, em relação à escolarização da especialistas e de técnicos-administrativos, atendendo às leis,
população. regulamentos e determinações dos órgãos superiores do
As concepções de gestão escolar refletem portanto, sistema de ensino e às decisões no âmbito da escola e pela
posições políticas e concepções de homem e sociedade. O comunidade. O assistente de diretor desempenha as mesmas
modo como uma escola se organiza e se estrutura tem um funções na condição de substituto eventual do diretor.
caráter pedagógico, ou seja, depende de objetivos mais amplos
sobre a relação da escola com a conservação ou a - Setor técnico-administrativo
transformação social. A concepção funcionalista, por exemplo,
valoriza o poder e a autoridade, exercidas unilateralmente. O setor técnico-administrativo responde pelas atividades-
Enfatizando relações de subordinação, determinações rígidas meio que asseguram o atendimento dos objetivos e funções da
de funções, hipervalorizando a racionalização do trabalho, educação.
tende a retirar ou, ao menos, diminuir nas pessoas a faculdade A Secretaria cuida da documentação, escrituração e
de pensar e decidir sobre seu trabalho. Com isso, o grau de correspondência da escola, dos docentes, demais funcionários
envolvimento profissional fica enfraquecido. e dos alunos. Responde também pelo atendimento ao público.
As duas outras concepções valorizam o trabalho coletivo, Para a realização desses serviços, a escola conta com um
implicando a participação de todos nas decisões. Embora secretário e escriturários ou auxiliares da secretaria.
ambas tenham entendimentos das relações de poder dentro da O setor técnico-administrativo responde, também, pelos
escola, concebem a participação de todos nas decisões como serviços auxiliares (Zeladoria, Vigilância e Atendimento ao
importante ingrediente para a criação e desenvolvimento das público) e Multimeios (biblioteca, laboratórios, videoteca etc.).
relações democráticas e solidárias. Adotamos, neste livro, a A Zeladoria, responsável pelos serventes, cuida da
concepção democrático-participativa. manutenção, conservação e limpeza do prédio; da guarda das
dependências, instalações e equipamentos; da cozinha e da
A estrutura organizacional