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Sinopse

Taras Bulba é um curto romance histórico que conta a história do velho cossaco Taras Bulba e seus dois filhos, Andrei e Ostap. Na trama, os jovens estão em casa, de férias da universidade, e viajam com o pai ao encontro das tropas cossacas para lutar na guerra contra a Polônia. "A heroica luta do povo ucraniano contra os invasores poloneses. A natureza poderosa e selvagem dos cossacos — camponeses russos que colonizaram vastas regiões da Ucrânia no século XVI — e a extraordinária força e liderança de um homem, Taras Bulba, sempre disposto a verter seu sangue pelos ideais de liberdade." (Sinopse Abril Cultural)

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Um

— Vamos, filho, dá uma volta! Como estás ridículo! Como é que

podes andar com essa batina de pope? É assim que todos vão vestidos à academia? Com essas palavras, o velho Bulba recebeu seus dois filhos, que estudavam em um seminário de Kíev, e que acabavam de chegar ao lar paterno. Mal tinham acabado de descer de seus cavalos. Eram dois rapagões que ainda olhavam de través, como dois seminaristas recém-saídos do

seminário. Seus rostos cheios de força e saúde estavam cobertos por essa primeira penugem que ainda não foi tocada pela navalha do barbeiro. Confusos com a recepção do pai, permaneceram imóveis e com o olhar fixo no chão. — Não se movam, não se movam! Quero examiná-los bem — continuou Bulba, enquanto dava voltas em tomo deles. — Que cafetãs mais grandes! Que cafetãs! Cafetãs como estes é certo que nunca se viram iguais no mundo! Gostaria de ver um dos dois correndo para comprovar se podem fazê-lo sem pisar nas saias e dar de focinho no chão.

— Não zombes, pai! — disse, por fim, o mais velho.

— Olha o zangadinho! E por que não hei de rir?

— Porque não! Porque, embora sejas meu pai, se continuares a rir, te bato, juro por Deus!

— Tu, seu filho desta e daquela? Como te atreves? Terias coragem de

bater em teu pai? — exclamou Taras Bulba, retrocedendo uns passos, assombrado.

— Sim, embora sejas meu pai. Não tolero ofensa de ninguém.

— E como queres brigar comigo? A murros?

— De qualquer jeito.

— Pois seja, a murros! — disse Taras Bulba arregaçando as mangas

da camisa. — Veremos como te defendes. Isso dito, pai e filho, em vez de se saudarem com um abraço, depois de uma longa ausência, começaram a trocar socos nas costas, nos ombros e

no peito, ora retrocedendo para espreitar um ao outro, ora atracando-se de novo.

— Olha o velho doido! Perdeste o juízo? — bradava a magra, pálida e

bondosa mãe dos rapazes, que, no umbral da casa, ainda não tivera tempo de abraçar seus queridos filhos. — Os filhos voltam depois de um ano de ausência e ele resolve recebê-los a murros!

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— Tens que ver como briga bem! — disse Bulba parando. — Juro

por Deus que briga muito bem! — continuou, tomando alento. — Só provando com os punhos pude ver que serás um bom cossaco. Muito bem,

filho, bem-vindo sejas, abracemo-nos! — E pai e filho começaram a beijar-se.

— É assim que deves proceder sempre com quem te desafiar: como

fizeste comigo. Defende-te seja de quem for. De qualquer forma, com essa

fantasia, pareces um palhaço. Que corda é essa dependurada na cintura? E tu, o que fazes parado aí, de braços caídos? — disse Bulba dirigindo-se ao filho menor. — Por que tu também não vens querer me bater, filho de uma cadela?

— Que ideia mais louca! — exclamou a mãe, que abraçava o filho

mais moço. — Como pode passar por tua imaginação que o filho bata no

pai? E justamente quando o menino está cansado da viagem

menino passava dos vinte anos e media um metro e oitenta de altura.) — O

que necessita é descansar e comer e não brigar!

— O quê? Pelo que vejo és um mimoso! — exclamou Bulba. —

Filho, não ligues à tua mãe. É mulher, e como mulher não sabe de nada. Quais hão de ser os teus melindres? O campo aberto e um bom cavalo, é disso que tens de gostar! Estão vendo este sabre? Ele é a mãe de vocês!

Todo o resto é porcaria que lhes meteram na cabeça: a academia, os livros,

o á-bê-cê, a filosofia, tudo isso é

aqui Bulba intercalou uma expressão que não costuma ser impressa. — O

melhor será que na próxima semana os mande a Zaporojie. Ali é que vão aprender a verdadeira ciência! Vai ser uma boa escola para ambos.

— Só vão ficar em casa uma semana? — indagou em tom lastimoso a

mãe magricela, com lágrimas nos olhos. — Os pobrezinhos não terão

tempo de descansar, nem de matar a saudade de casa, nem tampouco de receber meus carinhos

— Chega, chega de lamentos, velha! O cossaco não nasceu para ficar

entre mulheres. Tu os esconderias por baixo das saias e te sentarias sobre eles como uma galinha choca sobre os ovos. Vai, prepara a mesa e põe nela aquilo que houver. Mas nada de frutas de sertã, rosquinhas, pastéis doces e demais guloseimas, mas carneiro, cabra e hidromel velho. E sobretudo muita gorielka 1 ; e que não seja misturada com passas e outras lindezas, mas gorielka pura, que ferva raivosamente. Bulba acompanhou os filhos à sala de jantar, de onde fugiram duas lindas moças, enfeitadas com colares de contas vermelhas, que se dedicavam à limpeza da casa. Era de se supor que estavam assustadas com a chegada dos dois jovens, ou simplesmente queriam exteriorizar seu

— (Este

Dou uma cuspida em toda essa

— E

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atavismo feminino, gritar, pôr-se em fuga ao sentir a presença de um homem e, em seguida, esconder o rosto com um braço por algum tempo.

A sala de jantar estava enfeitada ao estilo de uma época da qual só

existiam alusões vivas nas canções e romances populares que, na Ucrânia, apenas cantavam os velhos cegos e barbudos acompanhando-se ao som suave do pandeiro; com o estilo dos difíceis tempos de guerra em que começaram as lutas e batalhas pela unificação da Ucrânia. Das paredes, pintadas com argila branca, pendiam sabres, látegos, redes para caçar pássaros, varas de pesca e armas de fogo; também um corno para pólvora engenhosamente -adornado, um freio de ouro e uma trava para cavalgadura com incrustações de prata. As janelas eram pequenas e de forma circular, com vidros opacos, como só se encontram hoje em dia nas igrejas antigas, e através das quais nada se podia ver, a não ser que se abrissem os vidros. As jambas e os dintéis de portas e janelas eram pintados de vermelho. Nos ângulos da peça havia cantoneiras, onde se viam jarros, garrafas e garrafões de cristal verde e azul, copos de prata cinzelada e cálices dourados fabricados por mãos venezianas, turcas,

circassianas, tudo tendo chegado à sala de jantar da casa de Bulba através de terceiras e quartas mãos, coisa muito comum naqueles tempos. Em redor da peça havia banquinhos com assento de córtex de bétula; uma grande mesa defronte ao vão da porta; uma grande piechka 2 revestida de louça multicolorida. Tudo isso era muito familiar aos nossos dois jovens, que vinham todos os anos passar as férias em casa. Faziam a pé essa viagem, porque ainda não tinham suas montarias próprias, pois aos estudantes não era permitido montar a cavalo. Mas, quando terminaram seus estudos no seminário, Bulba lhes enviou os dois melhores potros de sua cavalariça. Tendo como motivo a chegada dos filhos, Bulba mandou chamar todos os chefes de esquadrão do regimento e, quando chegaram dois deles e o esaul 3 Dmitri Tovkatch, velho amigo de Bulba, este os apresentou a seus dois filhos:

— Vejam que rapagões! Breve os enviarei à Sietch.

Os convidados felicitaram Bulba e os dois rapazes e lhes disseram que era o melhor que podiam fazer, e que não havia melhor ciência para um jovem do que a que se aprendia na Sietch de Zaporojie. — Bem, senhores e irmãos, que cada um se sente à mesa no lugar que mais lhe agradar. E, vamos, filhos meus, tomemos antes de tudo um copo de gorielka! — disse Bulba. — Bendize-nos, Deus! Tudo de bom para vocês, filhos, Ostap e Andrei! Deus queira que sejam sempre afortunados na guerra! Que vençam os muçulmanos, turcos, .tártaros e poloneses se

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estes tentarem atacar a nossa fé! Bem, aproximem seus copos. E então? É boa a gorielka? E como se diz "gorielka" em latim? Estão vendo, filhos? Os latinos eram muito burros, já que não sabiam que existia a gorielka no mundo. Como se chamava aquele que escrevia versos em latim? Sou muito pouco letrado, por isso lhes pergunto. Não se chamava Horácio? "Ora, pai!", pensou Ostap, o mais velho. "Este cachorro velho sabe de tudo e finge que não sabe nada."

— Imagino que o arquimandrita nem sequer deixava que cheirassem

a gorielka — continuou Taras. — Digam-me a verdade, filhos, eram muito

fortes as pauladas que lhes assestavam nas costas e em tudo aquilo que tem um cossaco? Ou será que, como já estão demasiado inteligentes, lhes batiam com um chicote? É verdade que não só recebiam chicotadas aos sábados, mas também às quartas e quintas?

— Não se deve lembrar o passado, pai — respondeu friamente Ostap.

— O passado já foi!

— E que agora alguém tente meter-se conosco — interveio Andrei.

— Que um tártaro ouse atravessar nosso caminho se quer conhecer o sabre cossaco!

— Muito bem, filho! Juro por Deus que isso que acabas de dizer é

muito bom! E, sendo assim, irei com vocês! Por que diabos estou perdendo tempo aqui? Cultivar trigo-mouro, cuidar da casa, dos cordeiros, dos porcos e ficar contemplando minha mulher. Vou com muito prazer a Zaporojie com vocês! — disse o velho Bulba, que, a seguir, foi-se impacientando paulatinamente, levantou-se da mesa e, batendo fortemente com o pé no chão, acrescentou: — Para que esperar mais? Partimos amanhã sem falta! Sentados aqui não podemos combater o inimigo. Para' que queremos esta casa e todas estas bugigangas? — E ao dizer isso começou a jogar ao chão garrafões e vasos de louça. A pobre anciã, habituada a esses ímpetos do marido, sentada em um banquinho, olhava-o com tristeza sem proferir uma só palavra; mas, ao ouvir a terrível decisão, não pôde conter as lágrimas e fitou os dois filhos, de quem estava ameaçada de imediata separação. Ninguém poderia descrever toda a força da muda amargura que palpitava em seus olhos e em seus lábios espasmodicamente apertados.

em seus olhos e em seus lábios espasmodicamente apertados. Bulba era muito obstinado. Um desses caracteres

Bulba era muito obstinado. Um desses caracteres que só poderiam

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florescer em um seminômade da Europa do século XV, quando a primitiva Rússia meridional, abandonada por seus príncipes, era saqueada e incendiada até ficar reduzida a cinzas pelas constantes incursões dos rapaces mongóis; quando, privado de seu lar, o homem teve de fazer-se ousado; quando se estabelecia entre os escombros dos incêndios, ante os ameaçadores vizinhos e o perigo constante, acostumava-se a olhá-los cara a cara e a despreocupar-se com a existência ou não do perigo na terra; quando a chama guerreira envolveu o primitivo e pacífico povo eslavo, do qual surgiram as tribos cossacas — prolixo modo de vida desordenada da natureza russa —, e quando em todas as ribeiras, vaus, vales e paragens apropriadas se instalaram os cossacos, de quem ninguém possuía uma estatística exata de quantos eram. Com razão os mais audazes entre eles responderam ao sultão, que se interessava por saber seu número: ''Quem poderá sabê-lo! Estamos espalhados pela estepe infinita. Em cada outeiro há um cossaco". Este era precisamente o extraordinário fenômeno da força russa: que expelia com ardor os infortúnios dos peitos dos homens daquela região sem montanhas. Em lugar dos anteriores feudos e vilarejos cheios de caçadores e falcoeiros; em lugar de pequenos principados, dedicados a comerciar e a hostilizar-se entre si, surgiram povoações ameaçadoras, distritos militares e cidadelas, unidos pelo ódio e o perigo comum contra os rapaces anticristãos. Através da história sabemos que, com sua eterna luta e vida agitada, salvaram a Europa das ameaçadoras invasões mongólicas. Os reis poloneses, ao encontrarem-se no lugar dos príncipes feudais russos, e como donos de todos aqueles vastos territórios, embora distantes e pouco poderosos, compreenderam a importância dos cossacos e a utilidade da vida conflituosa e vigilante destes, a quem davam alento e adulavam com todo o tipo de estímulos. Sob seu poder, os atamãs eleitos pelos cossacos reorganizavam em regimentos aqueles bandos de guerreiros. Mas este não era um exército ativo, já que ninguém o tomaria como tal; porém, em caso de guerra, cada um se apresentava com seu cavalo e armamento completo, e recebia do rei, como recompensa, um chervonie 4 . E em duas semanas criava-se um exército que não poderia ser criado pelos meios de recrutamento habituais. Ao terminar a campanha, o guerreiro voltava às suas paragens, ao prado e à lavoura, aos vaus do Dniepr, para dedicar-se à pesca, ao comércio e à fabricação da cerveja, convertendo-se em um cossaco livre, admirado por seus contemporâneos estrangeiros por sua extraordinária capacidade, pois não havia ofício em que o cossaco não estivesse adestrado: a vinicultura, a fabricação de carroças, de pólvora, de ferro. E, além disso, podia entregar-se ao ócio mais desenfreado, à bebida e às brigas, de um modo que só um russo é

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capaz. E tudo isso fazia quando bem entendesse. Além dos cossacos registrados, que tinham a obrigação de apresentar- se em caso de guerra, em qualquer momento e em caso de necessidade, podia-se recrutar uma multidão ingente de voluntários. Para tanto, bastava que os esauls passassem pelos mercados e praças das povoações e, do alto de suas carruagens, gritassem:

"Atenção todos vocês, toneleiros, cervejeiros! Chega de fazer cerveja, de cair ao lado das piechkas e de alimentar as moscas com a gordura de seus corpos! Vão conquistar a glória cavalheiresca e a honra! Todos vocês, lavradores, pastores e mulherengos! Chega de andar atrás do arado e de sujar de terra essas botas amarelas de cano alto; chega de andar agarrados às saias das mulheres e de perder a força de cavaleiros! Chegou a hora de marchar e alcançar a glória cossaca!" E essas palavras eram como centelhas caídas sobre folhas >secas. O lavrador quebrava seu arado; os toneleiros desbaratavam seus tonéis; os cervejeiros, seus barris; os artesãos e comerciantes mandavam ao diabo suas oficinas e lojas, quebravam panelas e talhas em suas casas. E todos enfiavam o pé nos estribos de suas montarias. Em uma palavra: o caráter russo se exteriorizava com todo vigor e amplitude.

caráter russo se exteriorizava com todo vigor e amplitude. Taras era daqueles velhos e arraigados membros

Taras era daqueles velhos e arraigados membros do coronelato:

estava todo feito para a azáfama guerreira, e se distinguia pela brusca franqueza de costumes. E, naquele tempo, começava a fazer-se sentir a influência da Polônia na nobreza russa. Muitos aceitaram os costumes poloneses. O luxo, com seus criados, falcoeiros e couteiros; construíram palácios suntuosos, e davam banquetes opíparos. Taras não se sentia atraído por tudo isso, mas pelo modo de vida simples dos cossacos, e portanto rompia com todos os seus camaradas que se inclinavam para Varsóvia, chamando-os de servos dos senhores poloneses. Em constante desassossego, considerava-se um verdadeiro defensor do eslavismo. Arbitrariamente entrava nos povoados, cujos habitantes se queixavam de humilhação por parte dos arrendadores e do aumento dos tributos por habitante, e, com seus cossacos, castigava os arrendadores. Seguia a regra de que era preciso lançar mão do sabre nos três casos seguintes: quando os comissários poloneses faltavam ao respeito com seus superiores cossacos, ao permanecerem cobertos ante eles; quando zombavam do eslavismo e

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não respeitavam as leis dos antepassados; e quando os inimigos eram muçulmanos e turcos, contra quem considerava sempre permitido levantar o sabre em defesa do cristianismo. Agora, regozijava-se com a ideia de como apareceria ele com seus filhos diante da Sietch reunida e diria: "Vejam que dois rapagões lhes trago!" De como os apresentaria aos seus velhos amigos, forjados na luta; de como assistiria às primeiras façanhas de seus dois filhos na ciência castrense e na luta, que considerava também como uma das principais virtudes de todo cavaleiro. A princípio quis mandá-los sozinhos, mas, ao ver a robustez e a alta e bem formada estatura dos rapazes, o espírito guerreiro acendeu-se nele e decidiu ir junto no dia seguinte. Deu as ordens cabíveis, escolheu os cavalos e os arreios para os dois filhos, passou em revista as plantações e os celeiros, e designou os cossacos que deviam acompanhá-los na viagem. Passou seu comando ao esaul Tovkatch, junto com a ordem severa de sair imediatamente com o regimento se ele, Taras,

lhe enviasse da Sietch aviso para que o fizesse. E, apesar de estar alegre e embriagado, não se esqueceu de nenhum detalhe. Inclusive ordenou que dessem de beber aos cavalos, e que os colocassem no melhor lugar na manjedoura, depois do que voltou para casa e disse:

— Bem, filhos, agora vamos nos deitar e amanhã faremos o que Deus

mandar. Não arrumes a cama que não é preciso — disse à mulher. — Dormiremos no pátio, ao ar livre.

A noite acabava apenas de cair, mas Bulba sempre dormia cedo.

Estendeu um tapete no chão e deitou-se nele, cobrindo-se com um enorme

casaco de pele de carneiro, pois a noite estava fresca, e ademais gostava de abrigar-se bem, mesmo quando dormia em seu quarto. Em breve começou a roncar, e o seu exemplo foi seguido pelos outros. O primeiro a adormecer foi a sentinela, que era quem mais gorielka havia bebido por motivo da chegada dos dois jovens.

A única que não dormia era a aflita mãe dos rapazes. Permaneceu

sentada na cabeceira de seus queridos filhos, que dormiam um ao lado do outro; passava-lhes o pente pelos cabelos crespos e desalinhados, umedecendo-os com suas lágrimas; contemplava-os com toda a sua alma e um olhar insaciável. Amamentara-os em seu próprio seio, criara-os, embalara-os em seu colo e, agora, só podia contemplá-los por mais alguns instantes. "Filhos meus, filhos queridos! Que será de vocês? O que os espera?", dizia, enquanto as lágrimas se detinham entre as rugas que haviam transformado seu rosto, maravilhoso em outros tempos. Realmente, era um ser lamentável como todas as mulheres daquele tempo longínquo. Viveu seu amor apenas por um

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momento, na primeira paixão da juventude; logo, seu áspero sedutor a abandonou por um sabre, pelos camaradas e pela guerra. Só via seu marido duas ou três vezes por ano, passando o resto do tempo sem notícias dele. E, se passavam algumas temporadas juntos, que vida era aquela? Tinha de sofrer maus-tratos por palavras e gestos; se era objeto de alguma carícia, isso não passava de fruto da piedade; parecia um estranho ser humano naquele tropel de cavaleiros celibatários, a quem a dissoluta Zaporojie tinha matizado com seu rude colorido. Sua juventude transcorrera sem prazeres de qualquer tipo, e seu rosto formoso e seu busto murcharam sem um único beijo, cobrindo-se de rugas prematuras. Todo o amor, toda a sensibilidade, tudo o que há de delicado e fogoso na mulher, nela se converteu em sentimento maternal. Com fervor, veemência e lágrimas nos olhos, se agitava como uma gaivota da estepe sobre as cabeças dos filhos. Seus filhos, seus queridos filhos, eram arrancados dela, levados para que não pudesse vê-los mais! Quem sabia se, na primeira batalha, algum tártaro não lhes cortaria a cabeça, e ela não saberia onde jazeriam seus corpos estraçalhados pelas aves de rapina? Por uma só gota de sangue de

seus dois filhos, ela daria tudo. Soluçando, fitava-os com olhos que o sono ia fechando, enquanto pensava: "Pode ser que Bulba ao acordar resolva adiar a partida por um par de dias; talvez tenha pensado em sair tão rapidamente por haver bebido muito". Do céu, a lua iluminava todo o pátio, que estava cheio de gente dormindo, e os espessos sabugueiros e as altas trepadeiras que quase cobriam a paliçada que os cercava. A mãe permanecia sentada ao lado dos filhos, sem afastar o olhar e sem pensar em dormir. Os cavalos, pressentindo o amanhecer, pararam de comer, deitando-se sobre o feno; a folhagem superior dos sabugueiros começou a sussurrar e, pouco a pouco, esse murmúrio foi descendo até o solo. A mulher permaneceu na mesma posição até que surgiu o dia; não sentia qualquer fadiga e desejava que aquela noite fosse muito maior. Da estepe chegou até ali o sonoro relincho de um potro; no céu resplandeciam algumas franjas vermelhas. Logo Bulba acordou e levantou-se imediatamente. Lembrava-se de todas as ordens que havia dado na noite anterior. — Rapazes, chega de dormir! Já está na hora de levantar! Deem de

Onde está a velha? — (Assim chamava sua esposa.) —

beber aos cavalos

Anda, velha, vai preparar o que comer que o caminho é muito longo! A pobre mulher, privada da última esperança, dirigiu-se cheia de tristeza para dentro de casa. Com os olhos cheios de lágrimas, foi preparando a refeição. Bulba dava ordens, corria para um lado e outro e escolhia as melhores roupas para seus filhos. Em um momento os dois

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seminaristas mudaram de aspecto. Em lugar das sujas botas de cano alto, surgiram com umas de couro fino e delicado de cor vermelha e incrustações de prata; vestindo uns charovari 5 amplos como o mar Negro, com dezenas de pregas e presos na cintura por um cinto dourado do qual pendiam tiras de couro terminadas em borlas e pequenas soalhas. Os cafetãs, de um vermelho vivo, eram cingidos à cintura por uma faixa bordada na qual estavam enfiadas pistolas turcas cinzeladas; os sabres

chegavam até os pés. Os rostos dos jovens, no entanto, pouco curtidos pelo sol, pareciam mais delicados e brancos, o que deixava ainda mais evidente a penugem do lábio superior, que matizava sua saudável compleição juvenil. Tudo isso estava coroado por um alto «gorro negro de pele de merino com penacho dourado. Pobre mãe! Quando os viu não pôde pronunciar uma única palavra: apenas lágrimas brotaram de seus olhos.

— Filhos, chega de remanchar, está tudo preparado!

— exclamou Taras. — Agora, segundo o costume cristão, temos de

nos sentar todos à mesa antes de empreendermos caminho. Depois dessas palavras, todos os presentes sentaram-se à mesa,

inclusive os empregados, que permaneciam respeitosamente na porta.

— Agora, mãe, bendize teus filhos! — gritou Bulba.

— Roga a Deus para que lutem com valentia, para que defendam com

honra de cavaleiros a fé cristã e para que a ela permaneçam sempre fiéis;

do contrário, melhor será que desapareçam com seus espíritos desta terra! Filhos, aproximem-se de sua mãe: a bendição materna salva na terra e na água. A mãe os abraçou e, entre soluços, pendurou ao pescoço de cada filho uma imagem.

os proteja

Filhos meus

não se esqueçam de

sua mãe

Que a mandem notícias

— E nada mais conseguiu dizer.

— Pronto, filhos, a caminho! — disse Bulba.

Defronte à porta da casa esperavam os cavalos já selados. Bulba montou em seu Diabo, que retrocedeu enfurecido ao sentir sobre o lombo

peso de vinte puds 6 , pois Taras era muito forte e gordo. Mas, quando a mãe viu que também os filhos já estavam montados, correu para o mais moço, cujas feições refletiam maior ternura, agarrou-se

ao estribo e, sem soltá-lo, dependurou-se à sela, fitando desesperadamente

o rapaz. Dois fornidos cossacos seguraram-na cuidadosamente e a levaram

para dentro da casa. Mas, assim que estes a largaram, ela voltou correndo para fora com a agilidade de uma cabra montanhesa, coisa incrível para sua idade, e, com força sobre-humana, deteve o cavalo em que estava montado um dos filhos, a quem se abraçou com perturbada e delirante

o

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veemência; de novo teve de ser levada para dentro de casa.

veemência; de novo teve de ser levada para dentro de casa. Os dois jovens cossacos cavalgaram

Os dois jovens cossacos cavalgaram com os semblantes sombrios e contendo as lágrimas, pois temiam o pai, que, por sua vez, também estava algo confuso, se bem que procurasse não demonstrar isso. O dia estava cinzento, brilhava o verdor de árvores e campos, e os pássaros trinavam alegremente. Passado algum tempo voltaram-se para olhar. Era como se a terra tivesse tragado a granja; só se viam as duas chaminés da casa modesta e a copa das árvores por cujos troncos tinham subido nas travessuras da infância; à sua frente estendia-se o prado que lhes fazia recordar a história de suas vidas, desde a idade em que davam cambalhotas sobre a grama coberta de orvalho até a puberdade, quando, nele, esperavam a passagem de alguma moça cossaca que, assustadiça, cruzava- o diligentemente com a ajuda de suas pernas ágeis. Só se divisava a trave da roldana sobre o poço com uma roda de carreta como contrapeso; o trecho de planície que iam deixando para trás parecia converter-se numa lombada que tapava tudo. Adeus, infância com seus brinquedos ingênuos, adeus para sempre!

1 Vodca em ucraniano. (N. do T.)

2 Estufa de louça. (N. do T.)

3 Capitão da cavalaria cossaca. (N. do T.)

4 Antiga moeda de ouro equivalente a três rublos de prata. (N. do T.)

5 Calções muito largos que se usaram nos séculos XVI e XVII. (N. do

T.) 6 Assim está no original. Talvez engano no original russo em lugar de "doze", pois "vinte" e "doze" são palavras muito semelhantes nesse idioma. O pud equivale a dezesseis quilos. (N. do T.)

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Dois

Os três cavaleiros marchavam em silêncio. O velho Taras meditava sobre seu passado, sua juventude, os anos transcorridos, que o cossaco

lamenta sempre, pois desejaria ser jovem a vida inteira. Pensava em seu encontro na Sietch com alguns de seus antigos camaradas. Repassou mentalmente quais os que ainda viviam, quais os que haviam morrido, depois do que as lágrimas encheram silenciosamente seus olhos e sua cabeça branca inclinou-se abatida pelo peso da dor.

A imaginação de seus filhos estava ocupada com outras coisas bem

diferentes. Na idade de doze anos tinham sido internados na academia de Kíev, pois todos os nobres e dignitários daquele tempo consideravam necessário dar instrução aos filhos, ainda que isso de nada servisse e a esquecessem totalmente. Então eles eram como todos os que ingressavam no seminário, selvagens criados na liberdade da estepe e que, uma vez naquele centro docente, eram educados de tal maneira que se pareciam todos uns com os outros. O mais velho, Ostap, começou escapando da escola no primeiro ano de sua admissão; mas o capturaram, o surraram ferozmente e o puseram a estudar de novo. Quatro vezes consecutivas abriu um buraco na terra e enterrou seus livros, e quatro vezes também, açoitando-o de forma desumana, compraram-lhe novos. E sem dúvida teria repetido a façanha pela quinta vez, se seu pai não lhe fizesse a solene promessa de retê-lo ali por mais vinte anos e lhe jurasse que não iria para Zaporojie se não aprendesse todas as matérias que ensinavam na academia. É curioso que fosse precisamente Taras Bulba quem ameaçasse com isso, quando ele mesmo injuriava todas as ciências e aconselhava, como já vimos, seus filhos a não se preocupar com elas.

como já vimos, seus filhos a não se preocupar com elas. A partir desse momento, Ostap

A partir desse momento, Ostap começou a estudar com extraordinário

afinco, pondo-se em breve à altura dos alunos mais aplicados. O sistema de ensino de então divergia muito do modo de vida da época. Todas aquelas sutilezas escolásticas, gramaticais, retóricas e lógicas não correspondiam àquele tempo nem nunca suscitavam ou encontravam aplicação na vida. Quem as estudava não podia ligar seu conhecimento com nada útil. A ignorância era a ciência predominante naqueles tempos,

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porque todos estavam afastados da experiência. Ademais, a estrutura mal organizada de tais seminários. O grande número de jovens fortes e saudáveis dentro deles, tudo tendia a impor-lhes uma atividade completamente à margem de sua ocupação estudantil. Por um lado, a má alimentação e os castigos severos e, por outro, as necessidades vitais do adolescente sadio e forte, tudo junto engendrava neles o espírito empreendedor que mais tarde desabrochava em Zaporojie. Aqueles esfaimados seminaristas corriam pelas ruas de Kíev, pondo todo o mundo em alerta. No mercado, as vendedoras cobriam sempre com suas mãos as empadas, bolos e sementes de abóbora, como a águia defende seus filhotes, quando viam que passava um seminarista. O consultor, cuja função era velar pela disciplina de seus colegas quando saíam a passeio, tinha bolsos tão grandes em seus charovari, que neles podia enfiar todo os alimentos do balcão de uma vendedora adormecida. Estes seminaristas formavam um mundo completamente à parte, pois não lhes era permitido relacionar-se com o ilustre círculo de internos constituído de nobres russos e poloneses. O próprio voivoda 7 Adam Kissel, apesar da proteção que dispensava à academia, tinha ordenado que não fossem misturados com os nobres, mantendo-os na disciplina mais severa; se bem que essa exigência fosse desnecessária, porque o reitor e os monges professores não se faziam rogar nos açoites e castigos e com frequência ordenavam aos lictórios que açoitassem os consultores. E o faziam com tanta crueldade, que estes tinham de ficar passando a mão pelos fundilhos de seus charovari durante algumas semanas. A muitos deles isso parecia que não era outra coisa do que um pouco de vodca com malagueta; outros, fartos de tanta bordoada, fugiam para Zaporojie, mas eram apanhados se não encontravam o caminho. Ostap Bulba, não obstante ter começado a estudar lógica e inclusive teologia, não conseguiu safar-se dos inexoráveis açoites. Naturalmente que essa circunstância tinha de endurecer seu caráter e dar-lhe a têmpera que caracteriza os cossacos. Ostap era considerado um dos melhores colegas. Raras vezes dirigia outros nas audazes empresas de saquear pomares ou hortas alheias, embora sempre estivesse disposto a secundar qualquer plano, e era considerado um dos seminaristas de mais engenho e que nunca delatava seus companheiros, pois nem os castigos mais duros podiam obrigá-lo a fazê-lo. Era rígido em tudo o que não se referisse à guerra e à pândega. Pelo menos nunca pensou em outra coisa. Seu caráter era franco e equilibrado; bondoso na medida em que isso se adaptava ao seu caráter e à época. Agora sentia-se afligido pelas lágrimas da mãe, e era isso que fazia com que estivesse cabisbaixo e desconcertado.

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Seu irmão Andrei tinha sentimentos um pouco mais vivos e desenvoltos. Estudava com mais gosto e sem o esforço exigido dos temperamentos fortes e graves. Tinha mais inventiva que o irmão; organizava amiúde alguma aventura arriscada e, graças ao seu engenho, podia iludir os castigos, enquanto ao irmão isso não importava, pois este tirava a sotaina e se jogava ao chão de barriga para baixo, sem sequer pensar em pedir perdão. Andrei também ardia de vontade de realizar façanhas, mas, ao mesmo tempo, sua alma dava guarida a outros sentimentos. A necessidade de amor acendeu-se vivamente nele ao completar dezoito anos de idade. Com frequência a mulher estava presente em seus sonhos fogosos. Via um delicado rosto feminino de olhos negros a todo o momento, mesmo enquanto estudava as lições de filosofia. Ante sua imaginação passavam constantemente uns seios elásticos e túrgidos; uns braços nus e formosos e um corpo magnífico e virginal ungido de tal modo por um vestido que despertava nele uma indescritível voluptuosidade. Ocultava essas veementes emoções de sua alma. jovem porque, naquele século, era uma desonra e vergonhoso para o cossaco pensar no amor c nas mulheres sem antes ter participado de alguma batalha. Nos últimos anos de sua permanência no seminário, raras vezes se pusera à frente de alguma quadrilha disposta a cometer desaforos; era visto perambulando por algum local afastado de Kíev, entre hortos de ginjeiras e casas de um só andar que se alinhavam nas ruas. Às vezes dava um passeio pela rua dos aristocratas, a atual velha Kíev, onde viviam os ucranianos e os nobres poloneses em mansões caprichosamente construídas. Em uma das vezes que passeava embevecido por esse bairro, por pouco não é atropelado por um veículo de um nobre polonês, em cuja boleia ia um cocheiro de bigode descomunal, que, com seu comprido chicote, lhe aplicou um golpe. O jovem seminarista se enfureceu e, com um atrevimento raiando a demência, agarrou a roda traseira com sua mão forte e deteve a carruagem. Mas o cocheiro, temendo a vingança, flagelou fortemente os cavalos, que arremeteram velozes. Andrei, ainda que tenha soltado a tempo a roda, caiu de bruços num charco, ouvindo uma risada sonora e brilhante. Levantou os olhos e viu numa janela uma belíssima jovem como jamais vira igual, de olhos negros e tez branca como a neve rosada pelo sol do amanhecer. Ria-se com toda a alma, e aquele riso dava uma refulgente intensidade à sua deslumbrante beleza. Ficou confuso ao vê-la. Perturbado, passava a mão pelo rosto para limpá-lo, mas o que fazia era sujá-lo ainda mais. Quem seria aquela beldade? Foi perguntar aos cavalariços que, vestidos com luxuosas librés, se encontravam na entrada de serviço em volta de um jovem pandeirista

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que tocava seu instrumento. Mas os criados puseram-se a rir quando viram aquela cara coberta de barro e nem se dignaram responder. Conseguiu saber depois que se tratava da filha de um voivoda que estava passando uma temporada em Kíev. Na noite seguinte, com a audácia própria dos estudantes, saltou a cerca do jardim e subiu por uma árvore que estendia seus galhos sobre o telhado da casa; da árvore saltou para o telhado e dali, pelo cano da chaminé, desceu até o quarto da bela, que, naquele momento, se encontrava em frente a uma vela tirando suas valiosas jóias. A donzela polonesa assustou-se de tal modo ao ver o desconhecido que não conseguiu articular uma única palavra. Quando, no entanto, deu-se conta de que o seminarista a fitava absorto e que, por timidez, não se atrevia a levantar a mão, reconheceu-o como o que havia dado de cara no chão diante de seus olhos, e o riso se apoderou dela. Mas era só por isso, porque nada havia de '.desagradável nas feições de Andrei, ao contrário, seu rosto era feito de traços finos e atraentes. Assim a moça ficou algum tempo rindo-se dele. Era volúvel, como boa polonesa, mas seus olhos maravilhosos e penetrantes olhavam fixamente. O seminarista permaneceu imóvel, como amarrado dentro de um saco, quando a filha do voivoda aproximou-se e, atrevidamente, colocou-lhe seu diadema na cabeça, pendurou-lhe os valiosos pingentes nos lábios e lhe jogou por cima sua bata de cendal bordada a ouro. Fez com ele mil diabruras com essa infantil desenvoltura que caracteriza as volúveis polonesas, e que aturdia ainda mais o pobre seminarista, que permanecia ridiculamente boquiaberto e com o olhar fixo nos deslumbrantes olhos da moça. Uma batida súbita na porta assustou a jovem, que lhe ordenou que se escondesse embaixo da cama e, passado o sobressalto, chamou sua aia, uma escrava tártara, e disse-lhe para que acompanhasse cautelosamente o estudante até o jardim para que pudesse saltar outra vez a cerca. Mas desta vez o nosso seminarista não pôde fazê-lo com a felicidade anterior, já que o guarda foi despertado com o ruído e o segurou fortemente pelos pés, enquanto vinham ajudá-lo os demais criados, que espancaram bastante o estudante até que este conseguiu desembaraçar-se e fugir correndo. Depois disso, era muito arriscado passar defronte daquela casa, porque a criadagem era enorme. Andrei viu a jovem umas duas vezes mais, nas quais ela lhe sorriu como a um velho conhecido. Dentro de pouco o voivoda foi embora e, na janela da casa, em vez da silhueta da bela polonesa de olhos negros, assomava a cara bochechuda de uma mulher. Era nisso que Andrei estava pensando de cabeça baixa e olhar fixo no cachaço de sua cavalgadura.

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Enquanto isso, a estepe os tinha recebido em seu extenso e verde seio, cobrindo-os com sua alta vegetação, até se verem, movendo-se, apenas os gorros altos de pele negra. — Ei, vocês! Por que estão tão calados? — gritou, por fim, Bulba, despertando de sua meditação. — Parecem clérigos! Ao diabo com todas as meditações! Esporeemos os cavalos e voemos de tal modo que nem as aves nos alcancem! E os cossacos, curvados sobre suas montarias, se perderam entre a vegetação. Já nem se viam mais os gorros negros; apenas uma estreita faixa de erva pisoteada assinalava as marcas de sua corrida veloz. Do céu sereno o sol espalhava sua luz viva e ardente pela estepe, fazendo desaparecer tudo o que houvesse de confuso e sonolento na alma daqueles ginetes, cujos corações palpitavam como pássaros livres. Quanto mais se aprofundavam na estepe, mais maravilhosa esta se apresentava. Naquele tempo, todo o sul, todo aquele imenso espaço que forma a Ucrânia atual, até a margem do mar Negro, era um verde deserto virgem. O arado ainda não tinha sulcado aquelas incomensuráveis ondulações de vegetação silvestre, apenas marcadas pelas ferraduras de cavalos que por elas galopavam. Não havia coisa melhor na natureza. Toda aquela superfície de terra era como um oceano de cor verde-oliva salpicado por milhões de flores multicoloridas. Entre os talos altos e finos da erva assomavam os flósculos brancos, vermelhos e azuis; sobressaía a giesta com seu vértice piramidal de flores amarelas; salientava-se o trevo com suas brancas e roxas cabecinhas, e espigavam umas plantas de trigo, Deus sabe como chegadas até ali. Entre o pasto, as perdizes corriam esticando o pescoço. O ar estava repleto de milhares de trinados de diferentes espécies de pássaros. No céu, um bando de abutres permanecia imóvel com as asas estendidas e o olhar fixo no pasto. Ouvia-se o grasnar de um grupo de patos selvagens que voavam vindos de algum lago distante. Entre a erva levantou voo uma gaivota da estepe com seu bater de asas uniforme, para lavar-se suntuosamente nas azuladas ondas do ar. Oh, estepe, que maravilhosa és! Nossos viajantes detiveram-se apenas alguns minutos para comer. O destacamento formado pelos dez cossacos que os escoltavam desmontou e tirou dos alforjes cantis de madeira cheios de gorielka e cuias de porongo que serviam de copos. Comeram pão e toucinho e beberam apenas uma cuia de gorielka cada um, pois Taras Bulba não permitia que ninguém se embriagasse em viagem. Logo continuaram cavalgando até que começou a anoitecer. As sombras crepusculares mudaram por completo a face da estepe.

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Todo aquele imenso espaço matizado coberto pelos últimos reflexos do ocaso ia escurecendo pouco a pouco, de modo que se via como deslizava a sombra pela superfície da estepe, cobrindo-a de uma cor verde-escura; a

evaporação vegetal fazia-se mais densa, e todas as flores, todas as ervas, exalavam seus perfumes até converter o ar em um aromático eflúvio. Pelo céu azul-turquesa se abriam amplas faixas vermelhas como que pintadas por um pincel gigantesco; também se viam alguns chumaços de nuvens quase transparentes, e a brisa branda e fresca, sedutora como as ondas do mar, mal balançava a erva e afagava docemente os rostos. Toda a sinfonia diurna cessou, sendo substituída por outra. As marmotas saíram de suas tocas e, sentadas sobre suas patas traseiras, enchiam a estepe com seu assobio. De minuto a minuto ficava mais intenso o chiado dos grilos. De vez em quando ouvia-se, em algum lago longínquo, o grito do cisne, que ressoava metalicamente pela estepe. Os viajantes detiveram-se e escolheram lugar para passar a noite; acenderam uma fogueira e colocaram sobre ela uma panela, na qual fizeram uma papa; o vapor que emanava da panela subia obliquamente. Ao terminar a refeição, os cossacos deitaram- se no pasto, deixando seus cavalos a pastar livremente. Cobriram-se com os cafetãs sob o olhar das estrelas. Ouvia-se o inumerável mundo dos insetos espalhados pelo pasto e os silvos, chios, pios e estalidos que enchiam o ambiente; tudo isso ressoava no silêncio da noite, se purificava no ar fresco e era como uma canção de embalo para os ouvidos fatigados. Se algum dos que dormiam se tivesse posto de pé, teria visto a estepe semeada com as luzes brilhantes dos pirilampos. De vez em quando refletia-se no céu noturno o longínquo resplendor dos canaviais secos que ardiam num prado ou nas margens dos rios. E um escuro bando de cisnes que voava para o norte iluminava-se de repente com a luz avermelhada, transformando as aves em lenços rútilos que cruzavam o céu escuro. Os ginetes continuaram a viagem sem incidentes, não encontrando mesmo uma única árvore. Era sempre a infinita e maravilhosa estepe. Às vezes, se divisavam para um lado as copas azuladas de algum bosque que se estendia ao longo de ambas as margens do Dniepr. Uma vez, Taras Bulba mostrou a seus filhos um ponto negro que emergia na distância, dizendo-lhes:

— Vejam, meus filhos, um tártaro cavalgando!

Desde longe, a pequena cabeça de rosto bigodudo e olhos oblíquos

fixou-se neles; farejou o ar como um lebréu e, ao ver que eram treze os cossacos que se aproximavam, fugiu como uma camurça.

Não, é inútil, nunca

poderiam alcançá-lo. Seu cavalo é mais veloz do que o meu Diabo.

— Vamos, filhos, tentem alcançar esse tártaro!

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E Taras Bulba tomou precauções, temendo que se tratasse de uma emboscada, pelo que se dirigiram a um riacho chamado Tatarca, afluente do Dniepr. Entraram nele e por muito tempo andaram por dentro da água para não deixar rastos; depois, saíram para a margem e continuaram a marcha normal. No terceiro dia de viagem se encontravam já próximos de seu destino. De repente o ar ficou cheio de umidade, o que indicava a proximidade do Dniepr. Ao longe brilhava seu leito, que, como uma faixa escura, se diferenciava do horizonte. Suas ondas iam e vinham, ficando cada vez mais amplas; é nesse local que o Dniepr, livre dos alcantilados, se desdobra livremente, rumorejante como o mar, com inúmeras ilhas e ilhotas que surgem no centro de sua corrente. Os cossacos embarcaram numa balsa com seus cavalos e, após três horas de navegação, encontraram-se na margem da ilha de Hortitsa, onde, naquele tempo, estava localizada a Sietch, que mudava de lugar com muita frequência. Na chegada, um grupo pusera-se a discutir com os balseiros. Os cossacos montaram em seus cavalos. Taras assumiu ares de importância, ajustou muito bem a faixa e passou com galhardia o indicador da mão esquerda pelo bigode. Seus dois filhos também se examinaram dos pés à cabeça com certo receio e um prazer indefinível, e, todos juntos, entraram nos arrabaldes, a meia versta 8 da Sietch. Ao chegarem, ficaram surdos com o repicar de cinquenta martelos que batiam o ferro em vinte e cinco ferrarias cobertas de palha e meio enterradas no solo. Curtidores vigorosos, nos alpendres de suas casas, sovavam peles de boi com mãos musculosas. Os mercadores estavam sentados sob pequenos toldos entre montes de pederneiras, de fuzis e de pólvora. Um armênio dependurava roupas de fazenda cara na porta de sua tendinha. Um fabricante de roscas estava dando voltas com um garfo nas rosquinhas que fritava numa frigideira. Um judeu de pescoço comprido filtrava gorielka de uma barrica. Mas o primeiro zaporojiano que encontraram foi um que, com as pernas e os braços em cruz, dormia no meio da rua. Taras Bulba deteve-se, contemplou-o e disse:

— Que maneira mais escandalosa de dormir! Não gostas de chamar a atenção, hein? Realmente, era um quadro bastante indiscreto: aquele zaporojiano estava estendido como um leão no meio da rua. Sua grande cabeleira espalhava-se pelo solo. Seu charovari, de bela fazenda vermelha, estava sujo de alcatrão, para demonstrar o pouco apreço que tinha por ele. Depois de havê-lo contemplado, Bulba continuou pela rua cheia de artesãos ocupados em seus trabalhos, e de gente de todas as nacionalidades que

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compunham aquele arrabalde da Sietch, e que faziam com que se assemelhasse a uma feira que vestia e dava de comer aos cossacos, que só sabiam divertir-se e queimar pólvora.

Depois de cruzar o arrabalde, viram algumas cabanas com telheiro de palha ou à moda tártara, de feltro, algumas guarnecidas com canhões. Não se via qualquer tipo de cerca, nem tampouco aquelas casas de telhado baixo, com seus alpendres sustentados por pés-direitos, que existiam no arrabalde. Uma pequena trincheira e uma vala sem qualquer vigilância indicavam uma despreocupação absoluta. Vários zaporojianos, caídos pelo meio do caminho e com os cachimbos na boca, os olharam com enorme indiferença e nem se afastaram. Taras, com seus filhos, passou cuidadosamente entre eles, dizendo-lhes:

— Bom dia, senhores.

— Igualmente para vocês — responderam os zaporojianos.

Por todas as partes se viam grupos pitorescos de pessoas. Em seus rostos morenos percebia-se que aqueles homens estavam endurecidos pela

guerra e pela adversidade. Esta era a Sietch! Aqui estava o ninho de onde saíam voando todos estes homens fortes e arrogantes como leões! Daqui emanava a determinação para os cossacos de toda a Ucrânia! Os viajantes chegaram a uma praça, onde costumava reunir-se o conselho. Em um tonel disposto verticalmente estava sentado um zaporojiano, sem camisa, que a tinha entre as mãos e remendava os buracos nela existentes. Novamente foram interceptados em seu caminho por um grupo de músicos, no meio dos quais dançava um jovem zaporojiano com o gorro de lado e os braços abertos, enquanto gritava:

— Vamos, mais brio, músicos! Foma, dá quanta gorielka seja preciso

para estes cristãos! E Foma enchia o copo de quem o estendia. Ao lado do jovem zaporojiano, quatro cossacos de mais idade sapateavam, davam saltos para um lado e rodopiavam no ar, de tal forma que quase focavam com os pés nas cabeças dos músicos e, agachando-se de repente, dançavam acocorados batendo forte com os tacões de ferraduras de prata contra o chão duro. A terra retumbava surdamente em redor e o sapateado ressoava

no ar. Um daqueles bailarinos gritava mais forte e saltava mais alto do que os demais. Estava com o peito vigoroso descoberto e sua comprida trança ondeava no ar; vestia uma samarra curta e estava suando em bicas.

— Tira a samarra! — gritou-lhe Taras. — Não vês que estás suando como um condenado?

— Não posso! — respondeu o zaporojiano.

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— Por quê?

— Não é possível; tenho o costume de trocar por gorielka a peça de roupa que tiro do corpo.

Realmente, o jovem zaporojiano havia tempo que não estava usando gorro, nem cinto para cingir o cafetã, nem camisa. Tudo tinha ido parar no corpo de outros. O público aumentava, assim como o número de bailarinos. Era a dança mais livre e mais frenética que jamais existiu no mundo, e que, devido a seus vigorosos autores, passou a chamar-se baile cossaco. — Se não estivesse montado neste cavalo — gritou Taras —, agora mesmo me punha a dançar! Enquanto isso, iam chegando cossacos da estepe, muito considerados pelos serviços que prestavam à Sietch. Eram velhos guerreiros já com os cabelos brancos, que tinham sido chefes de esquadrão em várias ocasiões. Entre eles Taras encontrou diversos antigos conhecidos. Ostap e Andrei não ouviam mais do que as seguintes saudações:

— Ah, então és tu, Petcheritsa!

— Como vais, Kozalup?

— De onde te trouxe Deus, Taras?

— Como chegaste até aqui, Dolotov?

— Tu por aqui, Kirdiaga!

— Olá, Gustei!

— Não acreditei que pudesse te ver outra vez, Remen!

E aqueles paladinos ali reunidos, procedentes de todo o vasto mundo

da Rússia oriental, beijaram-se e abraçaram-se, depois do que começaram as perguntas:

— Que fim levou Kazian? E Borodavka? E Koloper? E Pidsichkov?

E Taras Bulba foi ouvindo as respostas: que Borodavka tinha sido enforcado, em Tolopam; que Koloper fora esfolado próximo de

Kizikermen, e que Pidsichkov havia sido decapitado e sua cabeça colocada num barril com sal e enviada a Tsargrado. O velho Bulba baixou a cabeça e disse sombriamente:

— Foram bons cossacos!

7 Antigo governador de províncias da Polônia. (N. do T.)

8 Medida itinerária russa equivalente a mil e sessenta e sete metros. (N. do T.)

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Três

Já fazia quase uma semana que Taras Bulba estava vivendo com seus dois filhos na Sietch. Ostap e Andrei pouco exercício faziam naquela escola militar. A Sietch não gostava de perder tempo com a instrução militar. Ali, a juventude se instruía e formava na prática, no fragor das batalhas, que se sucediam quase ininterruptamente. Nos intervalos, os cossacos consideravam supérfluo dedicar-se ao aprendizado de qualquer instrução fora do tiro, da equitação e das caçadas na estepe e nas campinas; o resto do tempo dedicavam às farras, sinal indelével do forte rasgo de livre-arbítrio. Em toda a Sietch produzia-se um fenômeno extraordinário:

era uma festa contínua, um baile que começava ruidosamente e não tinha conclusão. Alguns cossacos se dedicavam a diversos trabalhos de artesanato; outros a comerciar; mas a maioria se divertia da manhã à noite se em seus bolsos ainda tilintava alguma moeda e se os bens adquiridos não haviam passado totalmente para as mãos dos comerciantes e dos taberneiros. A farra geral possuía algo que enfeitiçava. Não era um tropel de guerreiros que bebiam para afogar suas mágoas, mas, simplesmente, um entusiasmo frenético e alegre. Quem ali chegava esquecia e abandonava tudo o que até então o havia preocupado. Pode se dizer que dava uma cusparada em todo o seu passado e, despreocupadamente, se entregava à liberdade e à camaradagem com aqueles que, como ele, não tinham outra família nem lar senão o céu aberto e o constante festim do espírito. Essa era a causa daquela veemente alegria, que não poderia se originar de nenhuma outra fonte. As narrativas e as conversas daquele bando deitado indolentemente no chão eram tão engraçadas e desprendiam tal sabor de coisa vivida, que era necessário ter-se toda a fleuma do zaporojiano para conseguir manter uma expressão impassível e nem sequer mover um fio de bigode, característica que distingue o habitante da Rússia meridional de seus outros irmãos de raça. A alegria era ruidosa e embriagadora, mas não igual à que se vê numa taberna de beberrões, onde o homem afunda numa diversão falsa e sombria; era a alegria de um círculo estreito de condiscípulos que, agora, em vez de estarem sentados na sala de aula ouvindo as monótonas explicações do professor, realizavam expedições montados em cinco mil cavalos; e, em lugar do campo onde jogavam bolas, tinham fronteiras nunca vigiadas, espaços imensos nos quais o tártaro surgia repentinamente apenas para espiá-los, e o turco, com seu turbante verde, observava com olhar sombrio. A diferença consistia em que, em vez da união forçada da escola, haviam abandonado de vontade

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própria seus pais e fugido dos lares. Alguns tinham sentido já no pescoço a corda da forca e agora viam, em vez da face pálida da morte, a da vida em toda a sua plenitude. Existiam ali pessoas que, por seu procedimento desprendido, não conseguiam reter um copeque no bolso. Havia pessoas que consideravam o último chervoniet como uma fortuna e cujos bolsos, graças aos agiotas judeus, podiam ser virados do lado avesso sem deixar cair fosse o que fosse. Ali encontravam-se todos os seminaristas que não conseguiram suportar as sovas escolares nem tinham aprendido uma única letra na escola; mas também com eles encontrava-se quem conhecia Cícero, Horácio e a República de Roma. Ali estavam muitos daqueles oficiais que mais tarde se distinguiriam nos exércitos de algum rei; e também os guerreiros experimentados, convencidos de que o importante era combater, sem preocupação de onde nem contra quem, pois o indecoroso era que o homem nobre ficasse sem guerrear. Havia muitos que iam para a Sietch para depois poderem dizer que eram cavaleiros temperados no fogo da luta. Mas quem não estava ali? Essa estranha república tinha nascido precisamente por necessidade do século. Todos

aqueles com inclinação para a vida militar, para os ricos brocados, para os ducados e para a riqueza, sempre encontravam ali em que se ocupar. Os únicos que nada encontravam na Sietch eram os adoradores de mulheres, pois nenhuma se atrevia a sequer passar pelos arredores. Ostap e Andrei achavam mesmo muito estranho que a Sietch recebesse todo tipo de gente, sem que ninguém lhes perguntasse de onde vinham, quem eram, nem como se chamavam. Chegavam como se estivessem voltando para casa, que acabavam de deixar uma hora antes. O recém-vindo se apresentava ao kochevoi 9 , que invariavelmente perguntava:

— Olá! Acreditas em Cristo?

— Acredito! — respondia o novato.

— E acreditas na Santíssima Trindade?

— Acredito!

— Vais à missa?

— Vou!

— Vamos ver: faz o sinal-da-cruz.

O recém-chegado persignava-se.

Muito bem — dizia o kochevoi —, podes ingressar no kurien 10 que

mais te agradar. E com isso terminava a cerimônia de admissão. Toda a Sietch frequentava a mesma igreja, a qual defendia até à última gota de sangue, embora nada quisesse saber de jejum e abstinência. Só os judeus, armênios e tártaros, movidos pela avidez de dinheiro,

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ousavam viver e comerciar nos arrabaldes da Sietch, pois os zaporojianos não gostavam de regatear e pagavam por suas compras com o dinheiro que sua mão tirava do bolso. De qualquer forma, o destino desses ávidos mercadores era muito triste, parecido ao dos habitantes das proximidades do Vesúvio, porque, no momento em que faltasse dinheiro aos zaporojianos, estes destruíam e saqueavam suas tendas. A Sietch compunha-se de mais de sessenta kuriens, que se assemelhavam muito a repúblicas independentes ou, ainda melhor, a escolas ou seminários de alunos internos. Por isso ninguém tinha ou guardava coisa alguma, já que tudo estava nas mãos do atamã do kurien, que, por esse motivo, costumava-se chamar de pai. Era ele que guardava o dinheiro, o vestuário, os alimentos e a lenha. Por vezes surgiam brigas entre os kuriens, o que dava origem a uma batalha na qual se massacravam

a murros até que um dos grupos saísse vencedor. Então festejavam a

vitória em conjunto. Assim era a Sietch, que exercia uma atração tão forte entre os jovens. Ostap e Andrei mergulharam com todo o fogo de sua juventude nesse mar em fúria, esquecendo a casa paterna, o seminário e tudo aquilo que até

então lhes inquietara a alma. Tudo os atraía. Os costumes livres da Sietch, sua administração pouco complicada e suas leis que, algumas vezes, lhes pareciam demasiado severas em república tão indisciplinada. Se um cossaco praticava um furto, por insignificante que fosse, era um motivo de desonra para toda a comunidade. Amarravam-no ao pelourinho, colocando um cacete ao seu lado, e todo aquele que passasse por ali era obrigado a esbordoá-lo, até que morresse. Quem não pagava o que devia era atado a um canhão, onde permanecia até que algum de seus camaradas se decidisse a resgatar-lhe a liberdade pagando a dívida. Mas o que mais impressionou Andrei foi o terrível castigo imposto aos homicidas. Cavavam à sua frente uma sepultura, dentro da qual o assassino era colocado vivo, e, por cima dele, o caixão com o morto dentro, depois do que se enterravam os dois. Esse terrível castigo ficou gravado na lembrança do jovem Bulba por muito tempo. Não tardou que os dois jovens cossacos alcançassem uma reputação favorável entre os companheiros. Por vezes, acompanhados por alguns camaradas ou mesmo pelo acampamento inteiro, dirigiam-se à estepe para caçar não só a imensa variedade de pássaros que ali havia, como os veados

e os cabritos monteses que ali existiam em grande quantidade, ou então

armavam as redes na parte do lago, rio e afluentes destinados a cada kurien, fazendo assim grandes pescarias destinadas à alimentação dos soldados. É certo que nessas ocasiões nada havia de especial para um

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cossaco demonstrar suas aptidões, mas os dois jovens Bulba distinguiam- se dos demais por sua valentia e pelo sucesso de todas as empresas em que se metiam. Eram rápidos e certeiros no tiro e podiam nadar contra a correnteza no Dniepr, coisa suficiente para que se aceitasse solenemente um noviço nos círculos cossacos. Enquanto isso, o velho Bulba preparava outro tipo de atividade para seus filhos. Desagradava-lhe aquele ambiente de divertimentos, queria que se dedicassem a coisas mais práticas. Não parava de pensar em como pôr a Sietch em pé para alguma empresa arriscada onde o guerreiro pudesse treinar-se convenientemente. Foi por fim um dia procurar o kochevoi e disse-lhe à queima-roupa:

— Ouve aqui, kochevoi, será que não chegou a hora de os cossacos se divertirem um pouco?

— Impossível! — respondeu o comandante, tirando o cachimbo de entre os dentes e cuspindo para um lado.

— Impossível, por quê? Podemos marchar contra os turcos ou contra os tártaros.

— Não podemos marchar nem contra uns nem contra outros —

respondeu o kochevoi, e, calmamente, colocou outra vez o cachimbo na boca.

— Por que não se pode?

— Muito simples: prometemos manter a paz com o sultão.

— Mas ele é um muçulmano, e Deus e as Sagradas Escrituras

ordenam que se combatam os muçulmanos.

— Não temos esse direito. Se não tivéssemos prometido a paz em

nome da nossa fé, talvez fosse possível, mas, agora, não podemos fazê-lo.

— Como não podemos? Como podes dizer que não temos esse

direito? Tenho dois filhos jovens que ainda não sabem o que é a guerra e dizes que não temos direito de fazê-la, que não há lugar onde os zaporojianos possam lutar.

— Pois é isso mesmo.

— Então devemos' permitir que as forças cossacas se enfraqueçam na

inação, que o cossaco rebente como um cachorro sem realizar nada de útil, que nem a pátria nem a cristandade tire proveito dele? Então para que vivemos, por que vivemos, com todos os diabos? Explica-me. És uma pessoa inteligente, não foi em vão que te elegeram kochevoi. Explica-me, para que vivemos? ' O kochevoi não respondeu à pergunta. Era um cossaco muito obstinado. E declarou, após um momento de silêncio:

— Apesar de tudo, não haverá guerra.

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— Então não haverá guerra? — perguntou novamente Taras Bulba.

— Não.

— Assim não se deve pensar mais nisso?

— Não se deve pensar mais nisso.

"Espera, diabo", pensou Bulba, "vais logo ficar sabendo com quem

tratas! " E decidiu vingar-se do kochevoi.

com quem tratas! " E decidiu vingar-se do kochevoi . Reuniu alguns amigos e ofereceu-lhes de

Reuniu alguns amigos e ofereceu-lhes de beber, ao fim do que os

cossacos ébrios se precipitaram para a praça, onde, amarrados num poste, encontravam-se os timbales que se tocavam para reunir a assembleia-geral dos cossacos. Não encontrando as baquetas, que se encontravam em poder do timbaleiro, agarraram uns paus e começaram a bater nos instrumentos. Quando começou a zoada, o timbaleiro acorreu. Era um homem alto, zarolho e que, além disso, parecia morto de sono.

— Quem lhes deu licença para tocar os timbales? — gritou.

— Cala-te! Agarra tuas baquetas e toca! É uma ordem! —

responderam os cossacos. E o timbaleiro tirou imediatamente dos bolsos as baquetas, que sempre carregava consigo, pois sabia muito bem como costumavam terminar aquelas aventuras. Ressoaram os timbales e logo começaram a chegar os zaporojianos como um enxame de vespas, formando uma multidão compacta. Depois da terceira chamada apareceu o alto comando. O kochevoi empunhando a clava, como insígnia do poder; o juiz transportando o selo militar; o escrivão com o tinteiro; e o esaul com o cetro. O kochevoi e seu séquito tiraram os gorros e saudaram profundamente os cossacos, que permaneciam altivos, com as mãos nas cinturas. — Que quer dizer esta reunião? Que desejam os senhores? —

perguntou o kochevoi. Mas os gritos e as injúrias interromperam-lhe a palavra.

— Depõe a clava! Depõe agora mesmo, filho do diabo! Não

queremos que continues ocupando o cargo! — gritaram os cossacos. Alguns dos kuriens que não estavam embriagados resolveram intervir; começou então uma enorme discussão entre sóbrios e ébrios, e, dentro em pouco, o tumulto e os murros tornaram-se gerais.

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O kochevoi quis dizer alguma coisa, mas, como sabia que aquela

multidão enfurecida e indisciplinada podia dar cabo dele ali mesmo, como sempre acontecia em tais casos, fez uma profunda reverência, depôs a

clava e desapareceu entre a turba.

— Senhores, querem também que nós deponhamos as nossas

insígnias de dignitários? — perguntaram o juiz, o escrivão e o esaul, preparando-se para depor imediatamente o selo, o tinteiro e o cetro.

— Não, vocês ficam! — gritaram os outros. — Só queremos destruir

o kochevoi, que se transformou num medroso, e precisamos de um homem

verdadeiro à frente da irmandade de guerreiros.

— E a quem pretendem eleger agora? — perguntaram os três

dignitários.

— Vamos escolher Kukubenko! — gritaram alguns.

— Kukubenko, não! — gritaram outros. — É muito jovem. Ainda

cheira ao leite da mãe!

— Chilo deve ser o nosso kochevoi! — disseram algumas vozes.

— Esse não queremos! — gritou entre vociferações a maioria. — Que

tipo de cossaco é esse filho de uma cadela que rouba mais do que um tártaro? Ao diabo com ele!

— Borodatov! Elejamos Borodatov para nosso chefe — gritaram

alguns.

— Não! Borodatov que vá para o inferno!

— Proponham o nome de Kirdiaga — começou a murmurar Taras Bulba ao pé do ouvido de alguns.

— Kirdiaga, Kirdiaga! — berrou a multidão.

— Borodatov, Borodatov!

— Kirdiaga, Kirdiaga!

— Chilo, Chilo!

— Chilo que vá para o inferno! Queremos Kirdiaga!

Todos os candidatos ao ouvirem seus nomes iam se afastando, para que não pensassem que estavam cabalando para serem eleitos.

— Kirdiaga! Kirdiaga! — gritavam cada vez com mais força. — Borodatov! — insistiam uns poucos.

Votaram então levantando os punhos e Kirdiaga foi finalmente eleito.

— Vão buscar Kirdiaga! — gritaram.

Uma dúzia de cossacos separou-se da multidão. Alguns deles mal se aguentando nas pernas, de tal modo haviam comido e bebido, dirigiram-se à casa de Kirdiaga para lhe anunciar a vitória. Kirdiaga era um cossaco muito velho, mas manhoso; já estava há muito tempo em sua casa, como se nada soubesse do que acabava de

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acontecer.

— Que desejam, senhores? — perguntou.

— Vamos, te elegeram kochevoi.

— Pelo amor de Deus, meus amigos — disse Kirdiaga.

— Não mereço tal honra. Que qualidades possuo eu para ocupar

cargo de tamanha responsabilidade como o de kochevoi? Será que não havia ninguém mais para ser eleito em toda a nossa irmandade de guerreiros?

— Vamos! Não ouviste? — gritaram os zaporojianos. Dois deles

agarraram-no por baixo dos braços e, apesar dos esforços de Kirdiaga, arrastaram-no para a praça com muitas exortações, pragas, socos, pontapés no traseiro. — Não fujas, filho do diabo! Aceita a honra que te fazem, cachorro!

E foi dessa maneira que Kirdiaga chegou até o meio do círculo

formado pelos cossacos.

— Então, senhores? — gritaram com voz estridente os que o haviam

ido buscar. — Estão de acordo em aceitar este cossaco como nosso kochevoi? — De acordo — gritou a multidão num clamor que ressoou prolongadamente pelo ar. Um dos dignitários pegou a clava e estendeu-a ao novo eleito. E, segundo a tradição, Kirdiaga a recusou. O gesto foi repetido e Kirdiaga

recusou-a outra vez e só na terceira vez aceitou a honra. Um grito uníssono ecoou então por toda a planície. Nesse momento, destacaram-se da multidão quatro,dos cossacos mais velhos, de bigodes e tranças grisalhos (na Sietch não havia muitos velhos, pois nenhum deles morria de morte natural), e, colhendo um punhado de terra, que devido a uma chuva recente estava transformada em barro, puseram-na sobre a cabeça do eleito. A terra úmida foi-lhe escorrendo pelo rosto, sujando-lhe o bigode. Kirdiaga, impassível, agradecia aos cossacos a honra que lhe haviam concedido.

E assim terminou aquela turbulenta eleição do novo chefe, cujo

resultado ficava-se por saber se tinha agradado tanto aos outros quanto a Bulha. Com ela, ele consumava sua vingança contra o kochevoi deposto; além disso, Kirdiaga era um velho camarada seu, com quem participara das mesmas campanhas em mar e terra, compartilhando das penas e privações da vida de guerra.

A multidão se dispersou para festejar a eleição, organizando uma

orgia como Ostap e Andrei nunca haviam presenciado. As tabernas foram assaltadas, o hidromel, a cerveja e a gorielka corriam a rodo e sem serem pagos. Os taberneiros deram-se por felizes de escaparem ilesos. A

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algazarra e as canções versando sobre as gloriosas batalhas passadas duraram a noite inteira. Do céu, a lua contemplava os grupos de músicos que tocavam pandoras, pandeiros e balalaicas, e o coro da igreja, que a Sietch mantinha tanto para os ofícios religiosos como para glorificar com canções os feitos guerreiros de Zaporojie. Por fim, o álcool e a fadiga começaram a vencer os cossacos. E podia-se ver como eles iam caindo pelo chão em diversos lugares, uns abraçados aos outros, emocionados até às lágrimas, numa efusão de amizade, formando verdadeiros montes humanos. Além, um cossaco solitário, procurando um lugar cômodo para jogar-se, estendia-se sobre um tronco de árvore. Os últimos, os mais resistentes à bebida, ainda podiam pronunciar algumas palavras e frases incoerentes. Mas ao final, até estes eram vencidos pela bebedeira descomunal. E assim o sono invadiu toda a Sietch.

9 Chefe militar da irmandade dos cavaleiros cossacos de Zaporojie. (N. do T.) 10 Divisão administrativa das tropas de Zaporojie, sob o comando de um atamã. (N. do T.)

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Quatro

No dia seguinte, Taras Bulba já estava deliberando com o novo kochevoi sobre a maneira de arrastar os zaporojianos para novas ações. O

comandante era um cossaco inteligente e astuto, que conhecia a fundo seus comandados e foi logo dizendo:

— Não se pode trair o juramento. De maneira alguma, não podemos.

— E, depois de um breve silêncio, continuou: — Mas não importa, algo poderemos fazer sem quebrar o compromisso, basta apenas inventarmos um pretexto. Tem-se que se dar um jeito de reunir o pessoal, mas sem que

pareça que seja por ordem minha, mas por sua livre vontade. Tu sabes bem como fazê-lo. Eu, junto com os demais dignitários, me dirigirei à praça fingindo que não sei de nada. Não decorrera ainda uma hora depois desse diálogo e já os timbales ressoavam. Não demoraram em aparecer os cossacos ébrios e estouvados necessários para a jogada. Quase em seguida reuniu-se na praça uma multidão de gorros cossacos. Interpelavam-se uns aos outros:

— Quem foi? Para quê? Qual o motivo do conselho?

Mas ninguém sabia responder. Em breve começou-se a ouvir comentar entre os reunidos:

guerra!

As forças cossacas estão se consumindo na ociosidade, não há Os chefes se acovardaram, têm os olhos inchados de tanto dormir

cossacas estão se consumindo na ociosidade, não há Os chefes se acovardaram, têm os olhos inchados

e não se dão conta"de nada! Bem se vê que tudo é falsidade neste mundo!

A princípio, os cossacos só escutavam, mas logo também eles começaram a dizer:

— É verdade, neste mundo é tudo falsidade!

Os chefes pareciam surpreendidos. Por fim o kochevoi avançou e disse:

— Permitam, senhores zaporojianos, que lhes dirija a palavra!

— Fala!

— Vou referir-me, nobres senhores (e pode ser que saibam melhor do

que eu), ao fato de que muitos zaporojianos se endividaram tanto nas tabernas de seus irmãos de raça, e também dos judeus, que nem o Diabo seria capaz de lhes conceder crédito. Por outro lado, preciso dizer ainda que há entre vocês uma infinidade de jovens que ainda não viram uma batalha nem sabem o que é a guerra, e quando o homem é jovem (e isto os senhores o sabem) não pode ficar sem guerrear. Que tipo de zaporojiano será se nem uma única vez brigou com os muçulmanos?

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"Como fala bem!", pensou Taras Bulba.

— Não creiam, senhores, que digo isto para violar a paz. Deus me

livre! Digo apenas por dizer. Por outro lado, temos nosso templo divino, e,

horroriza-me dizê-lo, há que se ver os anos em que existe a Sietch pela graça de Deus e, até agora, não só a fachada do templo como também as imagens continuam sem ornamentos. Nunca ninguém se lembrou de mandar cinzelar uma moldura de prata para os ícones! A única coisa que se recebe são as oferendas que alguns cossacos deixam em seus testamentos, mas de pouca monta, pois eles gastaram tudo o que tinham em vida em bebidas. Tudo isso que estou dizendo não tem a intenção de levá-los a declarar guerra aos muçulmanos. Nós prometemos a paz ao

sultão e seria um grande pecado infringi-la, já que juramos por nossa lei. "Aonde quererá ele chegar?", pensava Bulba.

— Portanto, senhores, como veem, não podemos começar guerra

alguma. Nossa honra de cavalheiros nos proíbe. Mas, segundo meu fraco

entendimento, creio que se pode enviar nossos jovens em algumas

embarcações leves para que limpem as costas da Anatólia. Que lhes parece, senhores?

— Envia-nos todos! — gritou a multidão. — Estamos dispostos a arriscar nossas cabeças pela nossa fé!

O kochevoi alarmou-se, pois de maneira alguma desejava levantar em armas toda a comunidade. Não lhe parecia lícito quebrar a paz.

— Senhores, permitam-me mais uma palavra.

— Basta! — gritaram os zaporojianos. — Já disseste muito bem o que tinhas a dizer.

— Bem, se assim o querem, que assim seja. Estou a serviço da

maioria. É mais do que sabido que a voz do povo é a voz de Deus. Que nada melhor se pode dizer do que é dito pelo povo. No entanto, não esqueçam, senhores, que o sultão punirá com todo o rigor o ligeiro passatempo a que nossos jovens cossacos se entregarão. Mas, se em vez disso, nos preparássemos, se tivéssemos as forças intactas, não teríamos que temer a ninguém. Não há que perder de vista que, durante a excursão de nossos jovens, os tártaros podem nos atacar. Eles, os cães de guarda dos turcos, não nos atacarão de frente, nem se atreveriam a entrar na casa de seus senhores, mas cravarão o dente por trás, e a mordida será forte. Além disso, devo ser franco, temos de levar em conta que não dispomos de uma quantidade de embarcações e de pólvora preparada que nos permitam embarcar todos na aventura. Não obstante, sigo como fiel servidor da vontade de todos. O astuto kochevoi calou-se. Formaram-se grupos, os atamãs dos

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kuriens começaram a trocar impressões entre si. Por sorte, os ébrios não se achavam presentes em grande número e foi decidido portanto seguir aquele conselho prudente. Despacharam imediatamente alguns homens para a margem do Dniepr, onde estava escondido o tesouro de guerra e as reservas de armas tomadas ao inimigo, os quais eram enterrados em lugar seguro, nas regiões inacessíveis, entre os juncos. Os restantes dirigiram-se para onde estavam as embarcações, para revisá-las e prepará-las para a expedição. Num momento a margem ficou coalhada de gente. Surgiram vários calafates com seus enxós na mão. Velhos e fortes zaporojianos de rosto curtido pelo sol e bigodes grisalhos, com os charovari arregaçados e água até os joelhos, puxavam os cabos e empurravam os barcos para dentro da água. Outros carregavam madeira para os consertos. E, assim, em um local colocavam madeira nova nas embarcações, e em outro as calafetavam. Mais adiante, respeitando um costume cossaco, colocavam feixes de junco ao comprido das amuradas dos barcos para que estas não afundassem nas ondas e não se enchessem de água. Ardiam grandes fogueiras na margem, por baixo de caldeirões de cobre nos quais fervia o breu para a calafetagem dos cascos. Os mais velhos e experimentados adestravam os jovens nessas tarefas. As marteladas e os gritos ressoavam em toda a volta e a margem enchia-se de movimento e vida. Nesse momento viu-se aproximar uma embarcação a vela de dimensões consideráveis, que atracou na margem. Estava cheia de gente que gesticulava muito. Eram cossacos vestidos de cafetãs rasgados, e alguns encontravam-se apenas com uma camisa no corpo e o cachimbo entre os dentes. A sua aparência miserável dava a entender que lhes havia acontecido uma desgraça, a não ser que tivessem se entregado à orgia a ponto de venderem tudo o que tinham sobre o corpo. Destacou-se do grupo um cossaco troncudo e forte de uns cinquenta anos, acenando e gritando mais forte do que os outros, mas o barulho dos martelos e o vozerio dos que estavam preparando as embarcações não permitiam que se ouvissem suas palavras. — O que os traz aqui? — perguntou o kochevoi quando o barco atracou. Todos os trabalhadores, suspendendo suas tarefas e levantando enxós e martelos, ficaram olhando o barco à espera do que iam dizer os forasteiros.

— Que desgraça! — gritou ainda da balsa o cossaco troncudo.

— Que desgraça?

— Senhores zaporojianos, permitem que eu fale?

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— Fala, estamos todos aqui.

O povo juntou-se em volta dos forasteiros.

— Será que não sabem o que está se passando na Ucrânia?

— O que é? — perguntou um dos atamãs.

— Meu Deus! Ainda perguntas o que é! Bem se vê que os tártaros

andaram pondo cola nos' ouvidos de vocês para estarem assim tão surdos.

— Mas dize de uma vez o que está acontecendo!

— Estão acontecendo coisas que até agora nunca tinham sido vistas por um cristão.

— Fala de uma vez, filho de um cão! — gritou alguém do meio da multidão.

— Chegamos a um tal estado que nossos próprios templos sagrados não nos pertencem mais.

— Não nos pertencem mais, como?

— Foram arrendados aos judeus. E, se não se paga de antemão ao judeu, não se pode entrar na igreja.

— Que estás dizendo?

— E, se o cachorro judeu não põe com sua mão diabólica o sinal

sagrado no pão da Páscoa, é proibido mandar benzê-lo na igreja!

Ele mente, senhores e irmãos! Como é possível que o maldito judeu ponha a sua marca no santo pão da Páscoa? —

Tenho mais coisas a dizer: os padres católicos

passeiam agora em carruagens por toda a Ucrânia. Mas a desgraça não está nas carruagens, mas acontece que, em lugar de cavalos, elas são puxadas

por cristãos eslavos. Escutem!

judias fazem saias com as casulas dos popes! £ isto o que está se passando na Ucrânia, senhores! Enquanto isso vocês ficam na boa vida aqui em

Zaporojie. Pelo visto os tártaros os aterrorizaram de tal maneira que já nem têm mais olhos e ouvidos. Por isso vocês não sabem o que está acontecendo.

— Um momento, um momento! — interrompeu-o o kochevoi, que até

então havia_ permanecido imóvel e de olhar fixo no chão, como fazem sempre os zaporojianos, que nos momentos graves da vida nunca cedem ao

primeiro impulso, preferindo guardar silêncio e deixar acumular a força da raiva e da violência contida. — Um momento, quero dizer algumas palavras! E vocês, por que permaneceram de braços cruzados? Será que não tinham sabres? Como puderam suportar semelhantes insultos?

— Por que permitimos semelhantes insultos? O que vocês teriam

feito em nosso lugar tendo que enfrentar cinquenta mil poloneses? E, depois, de que serve esconder a nossa vergonha? Entre nós também

Ainda há mais: diz-se que as mulheres

Escutem!

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encontravam-se alguns cachorros que nos traíram e se puseram do lado deles.

— E o atamã e os coronéis de vocês, o que fizeram?

— Com os coronéis cometeram tantas infâmias que Deus nos livre

delas.

— Como?

— Ora! O atamã encontra-se agora em Varsóvia, assado dentro de um

touro de bronze 11 , enquanto as mãos e as cabeças dos coronéis são levantadas e mostradas como troféus pelas feiras e praças.

A multidão se agitou, comovida. A principio estabeleceu-se um

silêncio por toda a margem, como sucede antes de começar a tempestade.

Logo irromperam os discursos, e cada um dos que estavam ali falou.

— Como é possível que os judeus tenham arrendado os templos

cristãos, que se ponham a puxar carruagens os cristãos ortodoxos? Pode-se então continuar sofrendo tais ofensas de parte dos infiéis estabelecidos em terra russa? E que façam o que fizeram com o atamã e os coronéis? Temos que acabar com essa vergonha! Essas eram as palavras que corriam de um extremo a outro da multidão. Os zaporojianos sentiam crescer dentro de si uma cólera terrível. Não se tratava agora de uma efêmera inquietação daquela gente, o furor

nascia do cerne de seu duro e grave caráter, difícil de se exaltar, mas que, uma vez exaltado, conservava prolongada e tenazmente seu rancor ardente.

— Temos de enforcar todos os judeus! — ouviram-se vozes entre a

multidão. — Para que não façam saias para suas mulheres com as casulas dos popes! Para que não coloquem seu sinal nos sagrados pães da Páscoa! Temos de afogar a todos no Dniepr! Essas palavras, gritadas por alguém, inflamaram como um rastilho de

pólvora a cabeça de todos, e a turba se lançou para o arrabalde para passar pela faca todos os judeus.

Os pobres filhos de Israel, perdendo toda a presença de espírito, já de

si escassa, esconderam-se dentro dos barris vazios de gorielka, nas

ptechkas e até debaixo das saias de suas mulheres. Mas os cossacos os descobriam onde quer que estivessem.

— Lúcidos e nobres senhores dignitários! — começou um judeu alto

e magro, que apenas mostrou seu rosto miserável, desfigurado pelo terror, por entre um grupo de seus camaradas. — Lúcidos e nobres senhores dignitários! Permitam que digamos apenas duas palavras. Vamos dizer- lhes uma coisa que jamais ouviram, uma coisa muito importante!

— Deixem que falem — disse Bulba, que sempre gostava de ouvir o acusado.

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— Lúcidos senhores! — exclamou o judeu. — Senhores como vocês

nunca ninguém viu! Juro por Deus que nunca foram vistos iguais. Não

— Sua voz estava fraca e

tremia de medo. — Sendo assim, não é possível que nos passasse pela imaginação causar qualquer dano aos zaporojianos! Aqueles que se

dedicam a arrendar terras na Ucrânia não são dos nossos! Juro por Deus que não são! Eles não são judeus verdadeiros, o Diabo bem o sabe. Só merecem que se lhes cuspa na cara! E, se o que digo não é verdade, que falem então Schlema e Schmul.

— Juramos por Deus que é a pura verdade! — gritaram os judeus

citados, mortalmente pálidos.

— Nós nunca tivemos qualquer relação com os inimigos de vocês —

continuou o judeu alto e magro. — Sempre nos consideramos verdadeiros

irmãos dos zaporojianos

existem outros no mundo tão valentes e bons

— O quê? Que os zaporojianos são irmãos de vocês?

— gritou uma voz. — Isso nunca, malditos judeus! Ao Dniepr com

eles, senhores! Temos que afogar estes parasitas! Essas palavras foram o sinal. Pegaram os judeus por pernas e braços e começaram a atirá-los à água. Gritos lamentosos erguiam-se por todas as partes, mas os duros zaporojianos riam vendo como as pernas de meias e pantufas se agitavam no ar. O pobre orador que havia ocasionado aquela desgraça com suas palavras desvencilhou-se de seu cafetã, pelo qual o

tinham subjugado, e, agarrando-se às pernas de Bulba, começou a implorar com voz trêmula:

— Grande senhor, lúcido e alto dignitário! Conheci seu falecido

irmão, Dorocha! Foi um guerreiro de valor, honra de toda a cavalaria! Dei- lhe oitocentos chervoniets para que pagasse o resgate quando foi aprisionado pelos turcos.

— Tu conheceste meu irmão? — perguntou-lhe Taras.

— Juro por Deus! Era um homem magnânimo.

— Como te chamas?

— Yankel.

— Está bem — disse Taras. E, depois de haver refletido por um

momento, voltou-se para os cossacos e declarou:

— Sempre teremos tempo para enforcar este judeu. Deixem que hoje

me encarrego dele. — Ao dizer isso, Taras levou-o para onde estavam suas carroças de mantimentos, em redor da qual encontravam-se seus cossacos. — Enfia-te por baixo de um dos carros e fica quieto aí. E vocês, irmãos, não deixem este judeu fugir.

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A seguir, Taras encaminhou-se para a praça, onde os companheiros já estavam reunidos há algum

A seguir, Taras encaminhou-se para a praça, onde os companheiros já estavam reunidos há algum tempo. Em um instante, todos tinham paralisado os trabalhos de conserto das embarcações e abandonado imediatamente a margem do rio; a perspectiva agora era de uma campanha terrestre e não mais naval, o que exigia carros e cavalos em lugar de

barcos. Todos queriam partir para tomar parte na expedição, e, por vontade unânime, resolveu-se marchar sobre a Polônia, a fim de vingar todo o mal

e vergonha de que a religião e a glória cossacas tinham sido objeto,

saqueando as cidades, incendiando aldeias e searas, e espalhando pela longínqua estepe a fama cossaca. Todos estavam em pé de guerra e

preparando-se celeremente. O kochevoi reforçou sua autoridade, já não era o tímido executante dos desejos vaidosos daquela massa libertina, mas um soberano com poderes ilimitados. Era um déspota que só sabia dar ordens. Todos aqueles homens, antes tão indisciplinados e libertinos, estavam agora em posição de sentido e de cabeça respeitosamente baixa, sem se atreverem a levantar os olhos enquanto o kochevoi dava as suas ordens com voz calma e grave, como convém a um velho cossaco experimentado

e sabedor do que tinha entre as mãos, e como alguém que punha em

execução, não pela primeira vez, um empreendimento muito bem pensado.

— Prestem atenção a tudo — dizia ele aos cossacos. — Preparem as carroças e os barris para o breu, testem as armas. Não se encham de muita coisa: bastam uma camisa e dois pares de charovari e uma medida de milho moído. Que ninguém leve nada mais, pois todo o rancho necessário

já foi providenciado. Que cada cossaco leve dois cavalos. Temos de levar

ainda duzentas juntas de bois para cruzar os vaus e terrenos pantanosos. Mas o principal, senhores, é o comportamento de vocês. Sei que há entre nós elementos que, sempre que surge uma oportunidade, se precipitam sobre tecidos raros e brocados. Abandonem este costume do diabo, deixem as roupas de lado, levem apenas as armas que encontrarem, se tiverem alguma utilidade, e também moedas e objetos de prata, pois, por suas propriedades, podem ser úteis em qualquer momento. E, por último, senhores, quero adverti-los sobre o seguinte: todo aquele que se embriagar durante a campanha, que não espere ser julgado. Ordenarei que, como um cachorro, seja amarrado a uma carroça pelo pescoço para ser fuzilado no local e deixado insepulto para servir de pasto aos abutres, pois aquele que

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se embriaga durante uma campanha militar não merece sepultura cristã. Jovens, escutem sempre os conselhos dos mais velhos! Se uma bala ou um sabre os ferir na cabeça ou em qualquer outro lugar do corpo, não deem demasiada atenção ao fato. Dissolvam uma carga de pólvora num copo de gorielka e tomem de um trago; desse modo evitarão a febre e sararão logo. E, se o ferimento não for muito profundo, apliquem apenas um punhado de terra amassado com saliva na palma da mão, que com isso ele cicatrizará depressa. E agora, rapazes, mãos à obra. Preparem tudo com consciência e sem pressa. Foram essas as recomendações do kochevoi, e, logo que terminou, os cossacos entregaram-se ao trabalho. Toda a Sietch ficou na maior calma, não se encontrava um único bêbado em parte alguma e dir-se-ia que nunca nenhum cossaco se havia embebedado. Uns consertavam as rodas das carroças e mudavam os eixos, enquanto outros as carregavam com sacos de víveres ou munição. Outros ainda conduziam cavalos e bois. Por toda parte se ouvia o galopar dos cavalos, o disparo das armas de fogo sendo experimentadas, o tinir dos sabres, o mugido dos bois e o relincho dos cavalos, uma confusão de vozes sem precedentes. Em breve a longa coluna dos carroções cossacos se estendeu pelo campo afora. Quem pretendesse correr de um extremo ao outro daquela fileira de carros ver-se T ia obrigado a percorrer um extenso trajeto. Em uma pequena igreja de madeira, um sacerdote, depois de dizer a missa, deu a bênção aos cossacos e todos beijaram a cruz. Quando a coluna se pôs em marcha e saiu da Sietch, os zaporojianos voltavam para ela os olhos:"Adeus, nossa mãe!", diziam quase em uníssono."Que Deus te proteja de qualquer desgraça!" Ao cruzar pelo arrabalde da Sietch, Taras Bulba viu que o seu judeu, Yankel, já havia armado uma tendinha e vendia sobre o balcão pedras para fuzil, pólvora e todo tipo de coisas necessárias na guerra e durante a marcha, e até rosquinhas e pão."O diabo do judeu!", pensou Taras Bulba, e, detendo o cavalo, disse-lhe:

— Que estás fazendo aqui, seu idiota? Queres ser morto com um tiro como se fosses um pássaro? Em resposta, Yankel aproximou-se dele e, fazendo um sinal com

ambas as mãos, como se pretendesse dizer-lhe algo em grande segredo, falou:

— Meu senhor, por favor, não diga a ninguém, mas entre os carros

cossacos encontra-se o meu. Carreguei-o com tudo aquilo de que pode precisar um cossaco, e, durante a viagem, poderei fornecer-lhes toda espécie de provisões, tão em conta como nunca judeu algum vendeu. Taras Bulba deu de ombros e foi reunir-se à sua unidade, admirado

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com a natureza astuta do povo judeu.

11 Alusão ao Touro de Fálaris, instrumento de tortura e execução do século VI a.C.

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Cinco

Em breve todo o sudoeste do território polonês se viu mergulhado no

terror. Dizia-se por toda parte: "Os zaporojianos!

zaporojianos!" Todos os que podiam pôr-se a salvo o faziam. Todos recolhiam o que conseguiam e fugiam, segundo um costume daquele século confuso e desordenado, em que não erguiam habitações sólidas ou fortalezas, o homem construindo sua vivenda com telhado de palha e em qualquer lugar. "De que servirá gastar dinheiro e trabalho?", diziam; "nada escapará à próxima incursão dos tártaros!" Tudo estava em movimento:

uns trocavam o arado e os bois pelo cavalo e a arma de fogo e alistavam-se nas forças polonesas; outros se ocultavam com o gado onde pudessem. Alguns chegavam a oferecer certa resistência aos cossacos, mas a maioria fugia. Todos sabiam que era difícil fazer frente à impetuosa e aguerrida multidão conhecida pelo nome de tropas zaporojianas, que, em sua indisciplinada organização exterior, encerrava uma rígida estrutura nas batalhas. Os cavaleiros caminhavam metodicamente, sem fatigar ou sobrecarregar as montarias, os soldados de infantaria marchavam em boa ordem atrás das carroças, e todo aquele exército avançava somente à noite, acampando durante o dia em lugares despovoados e cheios de árvores, muito abundantes na época. Antes de avançar, eram enviados batedores, que se informavam acerca da terra e do que ali se passava. E muitas vezes os cossacos chegavam de repente em um lugar, onde menos eram esperados, e, nesse caso, os surpreendidos podiam dizer adeus à vida. O fogo destruía as aldeias, e o gado e os cavalos que não podiam levar eram abatidos imediatamente. Era um massacre, uma eterna orgia de crueldades, em lugar de uma expedição guerreira. É de pôr os cabelos em pé a narrativa dos atos de ferocidade, próprios daquela época selvagem, que os zaporojianos praticavam por todas as partes por onde passavam. Crianças mortas, mulheres com os seios cortados, esfolavam as pernas até os joelhos àqueles a quem poupavam a vida. Em uma palavra: os cossacos devolviam com juros a moeda com que haviam sido pagos anteriormente. O abade de um mosteiro, ao saber que se aproximavam, enviou dois monges para lembrar-lhes que deviam se comportar corretamente, que existia um acordo entre o governo e os zaporojianos, que não estavam cumprindo com a palavra dada ao rei e que, portanto, violavam o direito cívico. — Dize ao bispo, da minha parte e da parte de todos os zaporojianos — disse o kochevoi —, que nada tema. Acontece é que os cossacos

Vêm aí os

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acenderam seus cachimbos e estão fumando. E não tardou que a suntuosa abadia fosse invadida pelas chamas e que

as línguas de fogo surgissem através das enormes janelas góticas. A multidão de fugitivos, composta de monges, judeus e mulheres, fazia crescer incrivelmente o número de habitantes das cidades em cujas guarnições as populações ainda tinham alguma confiança. As forças militares, enviadas muito tarde pelas autoridades e em número insuficiente, não conseguiam encontrar o lugar a que se destinavam, ou fugiam ao primeiro contato com os cossacos. Acontecia também que muitos chefes militares da nobreza, célebres em batalhas anteriores, unindo seus esforços, resolviam opor suas forças aos zaporojianos. E era precisamente isso que procuravam os cossacos jovens, que não estavam interessados em massacres, pilhagens e no inimigo impotente, mas sim desejosos de demonstrar sua valentia diante dos mais velhos e de medir forças com os poloneses orgulhosos e fanfarrões que se pavoneavam em seus arrogantes cavalos, com as mangas dos dólmãs jogadas para trás, flutuando ao vento. A experiência revelava-se proveitosa, nossos jovens cossacos já possuíam muitos arreios, sabres e armas de fogo de alto preço do espólio obtido nas batalhas. No espaço de um mês, os frangotes haviam-se transformado em .homens. Suas feições, até bem pouco com a delicadeza própria dos adolescentes, eram agora fortes e duras. E o velho Bulba sentia-se feliz por ver sempre que seus dois filhos se sobressaíam entre os demais. Parecia que o destino reservara a Ostap a carreira militar e a difícil

ciência de dirigir os assuntos bélicos. Nunca hesitava, conservando sempre a presença de espírito em qualquer circunstância. Possuía um sangue-frio notável para um rapaz de vinte e dois anos; media imediatamente a gravidade do perigo e descobria o modo de lhe escapar, a fim de conseguir vencer depois com maior facilidade. Os seus movimentos haviam adquirido uma segurança na qual se divisava o estofo de um futuro chefe.

O vigor de seu corpo e sua qualidade de cavaleiro davam-lhe o aspecto de

um leão indomável. — Oh! Com o tempo dará um bom coronel! — dizia o velho Taras. — Juro por Deus que será um bom coronel, ainda melhor que seu pai! Andrei estava completamente possuído pela maravilhosa música das balas e dos sabres. Desconhecia o que fosse pensar, calcular ou medir de antemão suas forças e as do inimigo. Entrava na batalha com um prazer quase louco, e algo orgíaco se produzia nele como nos momentos em que a mente do homem se incendeia. Tudo fulgura e se confunde diante dos olhos, as cabeças voam e caem com o estrépito dos cavalos. Embriagado

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pelo assobiar das balas e o brilho dos sabres, lançava-se dando golpes à direita e à esquerda, sem sentir os que recebia. Mais de uma vez Andrei despertou a admiração do pai quando, incitado por uma violenta paixão,

avançava para o perigo, ao passo que, se fosse mais lúcido e mais calmo, nunca ousaria enfrentá-lo, e quando, movido apenas pela força de seu ardor demente, realizava prodígios que deixavam admirados os velhos combatentes. O velho Taras, entusiasmado, dizia então:

— Este também é um bom guerreiro. Não é como Ostap, mas é .um

bom guerreiro. O exército decidiu atacar a cidade de Dubno, onde, segundo diziam, existiam um grande tesouro público e muitos cidadãos ricos. Depois de um dia e meio de marcha os zaporojianos chegaram às portas da cidade. Os habitantes resolveram defender-se até o fim, preferindo morrer nas ruas e

praças e nos portais de suas casas a deixar que o inimigo entrasse nelas. A cidade encontrava-se protegida por uma alta fortificação de terra. Nos pontos em que esta era menos alta viam-se um muro de pedra ou uma casa, uma bateria ou uma paliçada de madeira. A guarnição era forte e tinha consciência da importância da tarefa que lhe fora destinada. Os zaporojianos se lançaram com ímpeto ao ataque, mas foram recebidos com fortes descargas de metralha. Os habitantes, pelo visto, não queriam permanecer de braços cruzados, e tinham-se reunido na fortificação. Podia-se ler em seus olhos a determinação de opor uma resistência desesperada. As mulheres também haviam decidido participar da defesa e lançavam pedras, caldeirões de água fervendo nas cabeças do inimigo e até sacos de areia muito fina para cegá-los. Os zaporojianos não gostavam de atacar fortalezas. O kochevoi mandou tocar a retirada e disse:

— Não importa, senhores irmãos, retiremo-nos. Mas que eu seja um

tártaro repugnante e não um cristão, se deixarmos sair uma única pessoa da cidade. Que morram de fome como cães! As tropas retiraram-se, sitiaram a cidade, dedicando-se, para matar o tempo, a devastar os arredores, incendiando aldeias e depósitos de cereais, soltando a cavalhada nos trigais ainda não colhidos e que, movidos pelo vento, balançavam suas pesadas espigas, naquele ano excepcionalmente desenvolvidas. Horrorizados, os habitantes da cidade assistiam de longe à destruição de seus meios de subsistência. Enquanto isso, os zaporojianos cercaram a cidade, formando duas linhas com suas carroças, e haviam-se dividido em kuriens, como na Sietch. Passavam o tempo fumando cachimbo, trocando entre si as armas tomadas do inimigo, jogavam dados e, com um sangue-frio imperturbável, vigiavam a cidade que mantinham sitiada. À noite acendiam fogueiras e,

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em enormes caldeirões de cobre, cozinhavam as papas de trigo. Ao lado do fogo as sentinelas permaneciam acordadas. Mas em breve os zaporojianos começaram a ficar aborrecidos com a inatividade e a prolongada

abstinência de bebida, que as circunstâncias não justificavam. O kochevoi deu ordem para que fosse dobrada a ração de vinho, o que é uso fazer-se quando não há operações de importância. Aos jovens, e em particular aos filhos de Taras Bulba, aquela inatividade não agradava. Andrei era o que mais reclamava. — Tens uma cabeça incapaz de raciocinar — disse-lhe Taras. — Tem paciência, cossaco, se queres ser atamã! Não é bom guerreiro aquele que não perdeu a coragem numa empresa arriscada, mas sim aquele que não se aborrece com a inatividade, que tudo suporta e que, por mais que se lhe diga, persiste em seu propósito. Mas o jovem impulsivo e o velho não podiam concordar, suas naturezas eram opostas e ambos olhavam a mesma coisa com olhos diferentes. Nesse ínterim o regimento de Taras veio reunir-se às tropas estacionadas sob o comando de Tovkatch. Com ele vieram os esauls, um escrivão e chefes de regimento. Eram em número de mais de quatro mil cossacos. Havia voluntários que se uniram ao regimento ao saber o que estava acontecendo. Os esauls trouxeram aos filhos de Taras Bulba a bênção materna e dois ícones, talhados em madeira de cipreste do Mosteiro de Meksigorski, de Kíev. Os dois irmãos puseram-nos ao pescoço e permaneceram pensativos por algum tempo recordando a velha mãe. Que lhes predizia esta bênção? A vitória sobre o inimigo? O feliz

regresso ao lar com o espólio de guerra e a glória? Ou então?

Mas o

futuro é um enigma que está em frente ao homem como a névoa do outono que se levanta dos pântanos, e na qual voam, inconscientes, as aves sem se verem umas às outras. A pomba não vê o gavião, nem este vê a pomba, e nenhum deles sabe a que distância voa de sua perdição Ostap voltou aos seus assuntos e já fazia bastante tempo que regressara ao seu acampamento. Andrei, sem saber por quê, sentia o coração apertado e triste. Os cossacos já tinham jantado e os últimos raios de sol desapareciam no horizonte. A terra acolhia em seu seio a maravilhosa noite de julho. Andrei não foi para seu acampamento, pois não sentia sono; ficou contemplando o quadro que se desenrolava diante de seus olhos. No céu, milhares de estrelas espalhavam sua luz. Divisavam-se as fileiras de carros com todo tipo de mantimentos e com os produtos dos saques, em torno e debaixo dos quais dormiam os zaporojianos estendidos na grama. Descansavam nas posições mais

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estranhas: uns usavam o gorro de peles como travesseiro ou o embornal, outros simplesmente repousavam a cabeça nas costas do camarada. Cada qual conservava ao alcance da mão três coisas de que nunca se dissociava:

o sabre, o mosquete e o chibuki 12 , os companheiros inseparáveis do cossaco. Os vultos brancos de bois deitados, com as pernas encolhidas debaixo do ventre, lembravam rochedos que brotavam do solo. Ouvia-se por toda parte o ressonar sonoro que subia da grama, ao qual respondiam os relinchos dos cavalos, inquietos por se encontrarem amarrados. Um pormenor terrível vinha juntar-se à majestosa beleza dessa noite de julho:

era o longínquo rubor dos incêndios acabando de consumir as aldeias vizinhas. Em alguns lugares as labaredas subiam sossegada e majestosamente ao céu; em outros, se precipitavam em turbilhões, assobiando e voando muito baixo à luz das estrelas, decompondo-se em chuvas de faíscas que iam se extinguir muito ao longe. Além, o esqueleto negro do mosteiro incendiado perfilava-se, qual austero monge cartuxo, no meio das ruínas, revelando a cada novo clarão sua severa grandeza. Mais adiante ardia o jardim do claustro. Parecia ouvirem-se os estalidos dos troncos das árvores envoltas em fumaça, e quando aparecia a chama esta iluminava com fosforescente luz purpúrea as ameixeiras carregadas de frutos, ou tornava rútilas as peras amarelas, entre as quais se destacava, pendendo da parede ou de um galho de árvore, a silhueta negra de algum infeliz monge ou judeu que perecera ao lado do edifício. Sobre o incêndio voavam os pássaros noturnos, dando a impressão de pequenas cruzes sobre um campo em fogo. A cidade sitiada parecia ter adormecido. Os reflexos do incêndio permitiam distinguir os telhados, torres, paredes, uma parte da paliçada por cima das muralhas. Andrei percorreu o acampamento. As fogueiras, em volta das quais estavam sentadas as sentinelas, esmoreciam, e os soldados de vigia cochilavam depois de haver satisfeito com uma boa refeição seu robusto apetite de cossaco. O rapaz ficou admirado com tal desleixo e pensou:

"Felizmente não nos encontramos diante de um adversário valente e não há ninguém a temer". Acabou por se aproximar de um dos carros e, subindo para dentro dele, estendeu-se de costas apoiando a cabeça nos braços; mas não pôde conciliar o sono, e continuou a observar o céu que se abria sobre ele, transparente e puro. Como uma franja que atravessasse o céu, a extensão da Via Láctea. Andrei passou pelo sono durante um momento e foi como se um véu diáfano viesse esconder-lhe por instantes o firmamento, pois tudo reapareceu de novo. De repente pareceu-lhe ver passar diante de si uma forma humana. Pensando tratar-se simplesmente de uma imagem produzida pelo sono, que

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se dissiparia, abriu bem os olhos, e então divisou um rosto magro que o fitava intensamente. Os cabelos longos, negros e desgrenhados escapavam debaixo de um véu escuro. A estranha fixidez daquele olhar na brancura cadavérica do rosto vincado lembrava mais um fantasma do que um ser humano. Andrei agarrou instintivamente o mosquete e exclamou com voz trêmula:

— Quem és? Se és um espírito maligno, desaparece da minha vista,

mas, se és um ser vivo, ai de ti, porque esta brincadeira vai te custar a vida. Como resposta, a visão pôs um dedo sobre os lábios, pedindo silêncio. Andrei baixou a mão e olhou com mais atenção o espectro. Pela cabeleira comprida, o pescoço e o busto seminu, reconheceu nele uma mulher, mas que não era daquela região. Seu rosto moreno parecia exaurido de cansaço, as maçãs do rosto avultavam sobre as faces maceradas, o risco estreito dos olhos subia obliquamente para as frontes. Quanto mais a olhava, mais parecia reconhecê-la. Por fim, não conseguindo mais resistir, perguntou:

— Dize quem és? Parece que já te vi em algum lugar.

— Sim. Há dois anos. Em Kíev.

em Kíev? — repetiu Andrei, buscando lembrar

tudo o que pudesse haver na memória de sua vida de seminarista. Olhou-a mais uma vez e, de repente, exclamou em voz alta:

— Há dois anos

— És a aia tártara da filha do voivoda!

— Chut! — exclamou a mulher, cruzando as mãos no peito, tremendo

e olhando em redor para ver se alguém tinha acordado com a voz forte de Andrei.

— Fala, por que estás aqui? — inquiriu Andrei em voz baixa e trêmula de emoção. — Onde está tua senhora? Ainda vive?

— Está aqui, nesta cidade.

— Na cidade! — exclamou quase gritando de novo e sentindo o

sangue afluir-lhe ao coração. — Como pode ela encontrar-se aqui?

— Porque seu pai é há um ano e meio o voivoda de Dubno.

— E está casada?

— Há dois dias que não come.

— O quê?

Que faz ela agora?

— Já faz algum tempo que nenhum dos habitantes da cidade sabe o que é pão, todos comem terra. Andrei sentiu-se gelar.

— A minha senhora te viu do alto da muralha no meio dos

zaporojianos e disse-me: "Vai e dize ao cavaleiro, se é que ainda se lembra de mim, que venha ver-me e, que em caso contrário, ao menos dê um

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pedaço de pão para minha velha mãe, pois não quero vê-la morrer de fome na minha frente. Quero morrer primeiro. Pede-lhe de joelhos. Ele também deve ter uma mãe idosa. Dize que te dê um pedaço de pão em nome dela! " Uma multidão de sentimentos atropelavam-se no coração do jovem cossaco.

— Mas como chegaste até aqui?

— Por um caminho subterrâneo.

— Existe então uma passagem subterrânea?

— Sim.

— Onde é?

— Não vais me trair, cavaleiro?

— Juro pela santa cruz!

— Descendo pelo barranco do ribeiro que margeia o bosque e cruzando o braço de rio, no lugar onde está o canavial.

E sai na cidade?

Vai dar dentro do mosteiro.

Vamos então, imediatamente.

Mas, por Cristo e pela Virgem Maria, dá-me primeiro um pedaço

de pão!

Está bem. Fica aqui, deita-te dentro do carro. Ninguém vai te ver,

estão todos dormindo. Volto logo. ' Dirigiu-se então para as carroças de mantimentos. O coração batia-lhe violentamente. Todo o passado, todos os sentimentos reprimidos no fundo de seu ser pela vida movimentada dos acampamentos e dos combates, vinham à superfície e, por sua vez, submergiam todo o presente. De novo aparecia diante dele, como surgida da escura profundidade do oceano, a figura daquela mulher orgulhosa. Outra vez passaram por sua imaginação as mãos maravilhosas, os olhos, os lábios sorridentes, os cabelos escuros e encaracolados que, soltos, espalhavam-se em cascata sobre os ombros, e todas as particularidades do seu corpo harmonioso. Não, não se haviam extinguido em seu peito os sentimentos de amor, apenas tinham dado lugar por algum tempo a outros poderosos impulsos da alma. Na verdade, eles muitas vezes vinham perturbar as suas vigílias, não o deixando dormir. Enquanto caminhava, sentia as pancadas rápidas do coração, ao pensar que ia vê-la outra vez. Ao chegar a um dos carros tinha esquecido por completo o que viera fazer ali. Passou a mão pela testa, num esforço de memória, tentando lembrar a que viera. Recordou-se, com um calafrio de horror, de que ela estava morrendo de fome. Precipitou-se para uma carroça e pôs alguns pães debaixo do braço, mas logo perguntou-se se aquele alimento grosseiro, que convinha perfeitamente ao zaporojiano, não

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seria demasiado rude para a constituição delicada da moça. Lembrou-se então de que o kochevoi havia censurado nesse mesmo dia os cozinheiros por terem gasto naqueles pães uma quantidade de farinha que serviria para três vezes. Convencido de que encontraria papa nos caldeirões, pegou a tigela de campanha do pai e dirigiu-se à cozinha do acampamento; o cozinheiro dormia junto aos recipientes enormes, com capacidade para dez cubos cada um, suspensos por cima da cinza ainda quente. Os dois caldeirões, porém, estavam vazios. Só um apetite feroz podia ser capaz de consumir uma quantidade tão grande de comida, tanto mais que aquele kurien contava com menos homens do que os outros. Foi examinar os caldeirões das outras cozinhas, e todos estavam vazios. Involuntariamente lembrou-se do velho adágio: "Os zaporojianos são como crianças; se têm pouco, comem tudo; se têm muito, não deixam nada". Que fazer? No entanto, parecia que, num dos carros do regimento de seu pai, havia um saco de pães brancos roubados da padaria do mosteiro assaltado. Foi diretamente ao carro do pai, mas o saco não estava mais. Ostap o pegara para usar como travesseiro e, estendido sobre a grama, roncava a plenos pulmões. Andrei puxou o saco por uma ponta, fazendo bater no chão a cabeça de Ostap, que logo se ergueu e, ainda de olhos fechados, exclamou aos brados:

— Agarra esse maldito polonês, agarra! E não deixes que o cavalo fuja! Segura o cavalo!

— Cala-te se não queres que te mate! — gritou Andrei, assustado,

ameaçando o irmão com o saco. Mas Ostap já tinha caído outra vez, emitindo tais roncos que fazia a grama ao lado de sua boca mover-se para um lado e outro. Andrei olhou aterrorizado em volta para ver se o pesadelo de Ostap tinha despertado alguém. No acampamento contíguo uma cabeça levantou-se, olhou em

redor e voltou a cair pesadamente no chão. Andrei pôs-se a caminho com o seu fardo depois de ter esperado um minuto. A tártara estava deitada, contendo a respiração.

— Levanta-te, vamos. Nada temas, estão todos dormindo. Podes ao

menos levar estes pães? Enquanto falava punha os sacos às costas, tirou de uma carroça pela qual iam passando um saco de milho e,. resolvendo não entregar os pães à

tártara, seguiu audaciosamente, curvado pela carga por entre as fileiras de zaporojianos adormecidos. — Andrei! — exclamou o velho Bulba ao vê-lo passar à sua frente. O coração do rapaz parou de bater. Todo trêmulo, perguntou:

— O que é?

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— Estás acompanhado de uma mulher! Juro que se me levanto daqui vou te dar uma sova que não esquecerás tão cedo. As mulheres não trazem nada de bom. — E ao dizer isso, com a cabeça apoiada no braço e meio de lado, começou a examinar a tártara envolvida em seu manto. Andrei ficou paralisado, sem se atrever a olhar o pai de frente. Quando conseguiu levantar os olhos, viu que o velho Bulba já dormia novamente com a cabeça apoiada na palma da mão. Andrei persignou-se. O medo desapareceu tão depressa como viera. Ao voltar-se, viu a tártara imóvel como uma estátua de granito escuro envolvida no manto e os olhos, turvos como os de um moribundo, refletindo os clarões de um incêndio distante. Puxou-a pela manga e retomaram a marcha, voltando-se a cada passo para ver se ninguém os seguia. Desceram por fim pelo barranco, em cujo fundo corria indolente um riacho por entre juncos e pequenos montículos de terra. Ali estavam completamente seguros e longe dos acampamentos dos zaporojianos. Ao voltar-se, Andrei só avistou uma escarpa abrupta que excedia a altura de um homem, no cimo da qual ondulava contra o firmamento enluarado a vegetação. A brisa anunciava a chegada da aurora. Mas nenhum canto de galo era ouvido nas vizinhanças, já que nem na cidade, nem nos devastados arredores sobrara uma dessas aves. Cruzaram por cima de um tronco de árvore para a margem oposta, que parecia mais alta e mais abrupta que a outra. Era de fato nesse lugar que estava o ponto mais sólido do sistema de defesa da cidade. É bem verdade que a muralha era aqui mais baixa e não se viam sentinelas,'mas um pouco adiante levantava-se o sólido muro do mosteiro. A encosta íngreme encontrava-se coberta de vegetação e, numa espécie de vale que ali se formava, havia um juncal da altura de um homem. Divisaram-se no cimo os restos de uma cerca, indício de que, em outros tempos, existira ali uma horta. Viam-se largas folhas de bardana, entre as quais cresciam cardos e girassóis. A tártara descalçou os sapatos e continuou andando com a saia levantada, pois o terreno era úmido e o chão encontrava-se enlameado. Abrindo caminho entre os juncos, deteve-se em frente a um monte de ramos secos e paus cruzados. Arredando estes, surgiu uma abertura em forma de abóbada parecida com a boca de um forno. A tártara entrou primeiro, baixando a cabeça, seguida por Andrei, que teve de se curvar muito para poder passar com os sacos. E de repente os dois se encontraram na mais completa escuridão.

12 Cachimbo turco. (N. do T.)

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Seis

Andrei avançava penosamente pelo estreito e escuro subterrâneo, curvado sob a carga e seguindo as pegadas da tártara.

— Não demoraremos em chegar ao lugar em que deixei o candeeiro

— disse ela. Com efeito, as paredes escuras da galeria começaram a ficar iluminadas. Chegaram a um lugar onde havia uma espécie de altar com uma imagem muito apagada da Virgem, tenuemente iluminada por uma lamparina de prata que pendia do teto. A tártara curvou-se e ergueu do chão um candelabro de cobre com o pé alto, do qual pendiam, seguros por pequenas correntes, um apagador, uma haste para levantar pavio e um par

de atiçadores. Acendeu-o na chama da lamparina, o que aumentou a visibilidade, e, ao retomarem a marcha, os dois ficavam ora iluminados, ora envoltos numa escuridão de breu, lembrando o quadro Delia noite, de Gerardo. O rosto saudável e cheio de juventude do guerreiro contrastava em extremo com a face pálida e demarcada da mulher. O subterrâneo foi ficando mais alto, permitindo que Andrei levantasse a cabeça. Olhava com curiosidade aquelas paredes de terra, que lhe recordavam as catacumbas de Kíev. Aqui, tal como naquelas, viam-se alguns nichos, alguns com caixões, outros com restos de esqueletos humanos, cujos ossos se desfaziam no pó e na umidade. Também aqui deviam ter vivido religiosos que fugiam das turbulências, amarguras e seduções do mundo. Em alguns lugares a umidade era tanta que a água brotava do solo. Andrei tinha de parar muitas vezes para que sua guia descansasse. O pequeno pedaço de pão que a mulher comera provocara-lhe forte dor de estômago, em virtude de já não estar habituada a ingerir qualquer alimento, e frequentemente tinha de ficar imóvel durante alguns minutos. Por fim chegaram diante de uma porta de ferro.

— Já chegamos! — disse a tártara com voz fraca, erguendo a mão

para bater, mas faltando-lhe as forças. Andrei bateu algumas pancadas, que ressoaram como se existisse um grande espaço acústico. Não demorou muito e escutaram um ruído de passos que pareciam descer uma escada e um barulho de chaves. A porta abriu-se finalmente e surgiu um monge tendo como fundo uma escadaria. O religioso tinha uma vela na mão. Andrei recuou involuntariamente ao ver o monge católico, que tanta aversão despertava nos cossacos e a quem tratavam mais cruelmente que aos judeus. O monge também retrocedeu ao divisar um zaporojiano, mas uma palavra da tártara dita em voz baixa o

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tranquilizou. Fechou a porta e seguiu na frente deles iluminando o caminho, por uma escada que ia dar nas sombrias abóbadas de uma igreja do mosteiro. Ante o altar-mor, iluminado por candelabros e círios, orava de joelhos um sacerdote. De ambos os lados encontravam-se dois sacristãos, de turíbulo na mão, envergando casulas e sobrepeliz. O sacerdote rezava para que a cidade fosse salva, para que o ânimo não se abatesse e para que fosse ouvido o pranto dos sitiados. Algumas mulheres, que mais pareciam fantasmas, estavam ajoelhadas com as cabeças apoiadas nos reclinatórios. Vários homens, também ajoelhados, e com um ombro encostado nas colunas e pilastras, sustinham os arcos laterais. Os vitrais coloridos das janelas altas sobre o altar começavam já a iluminar-se com a luz rosada da aurora e refletiam no solo círculos azuis, amarelos e de outras cores, que pouco a pouco enchiam a igreja de claridade. O altar-mor, no seu recôncavo, ficou de repente inundado de luz, e a fumaça do incenso flutuando no ar mais parecia uma nuvem irisada. De seu canto escuro, Andrei contemplava boquiaberto o efeito maravilhoso. Naquele momento, a voz surda e majestosa do órgão encheu a igreja; foi crescendo até atingir a força do ribombar do trovão; depois, de repente, sussurrando como uma melodia celestial, ressoou pela abóbada com variações semelhantes a vozes infantis; voltou a ribombar como o trovão e extinguiu-se. Durante algum tempo ainda retumbou pela cúpula aquele som. Andrei permaneceu mudo de espanto, impressionado pela majestade da música. Naquele momento alguém o puxou pela manga do cafetã. — Vamos! — disse a tártara. Atravessaram a igreja sem despertar a atenção dos fiéis e chegaram à praça. A aurora iluminava o céu, anunciando o próximo aparecimento do sol. A praça, de forma retangular, estava deserta; no seu centro encontravam-se umas mesas toscas de madeira, indício de que uma ou duas semanas antes ali existira um mercado. O chão de terra, como a maior parte das ruas da época, não passava de um lodaçal. A praça estava rodeada de casas de um só andar, feitas de pedra ou de terra batida, através da qual se distinguiam traves e ripas, num estilo que se manteve até hoje em certas regiões da Polônia e da Lituânia. Os tetos eram muito altos, com grande número de lucarnas e claraboias. Próximo da igreja elevava-se uma construção mais alta do que as outras e com um ar imponente, e onde, seguramente, vivia o magistrado. Era de dois andares e arrematada por uma torre com um relógio, onde se encontrava uma sentinela. A praça parecia deserta. No entanto, Andrei

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julgou ouvir um gemido. Com efeito, na outra extremidade viu três pessoas caídas e imóveis. Quando ia aproximar-se bateu com o pé em qualquer coisa: era o corpo sem vida de uma mulher que lhe pareceu judia, talvez ainda jovem, se bem que as feições emagrecidas e deformadas pelo sofrimento não permitissem determinar-lhe com exatidão a idade. Tinha na cabeça um lenço de seda vermelha; dos lados do rosto pendiam-lhe duas fileiras de pérolas presas às orelhas, e o cabelo, em desalinho, saía para fora do lenço cobrindo o colo esquálido. Ao seu lado jazia uma criança cujas mãos se fechavam desesperadamente sobre o seio sem vida, num esforço derradeiro e violento para arrancar leite. A criança não chorava nem gritava; apenas o movimento convulsivo do pequeno ventre provava que ainda não estava morta. Entraram por uma rua, sendo logo detidos por um homem, que, ao ver a preciosa carga de Andrei, precipitou-se furioso sobre este, gritando: — Pão! Mas não teve forças para arrancar um dos pães do fardo. Andrei

empurrou-o, e ele se estatelou no chão. Horrorizado, o rapaz atirou-lhe um pão, sobre o qual o outro se jogou como um cão furioso; começou a dar dentadas até não sobrar mais nada. Imediatamente o assaltaram terríveis convulsões e acabou morrendo, sem poder suportar o alimento após período tão longo de jejum. Eram surpreendidos a quase cada passo por novos vestígios do terrível desastre. Parecia que as pessoas, não podendo suportar a fome dentro de suas casas, se precipitavam para a rua na esperança vã de encontrar um alimento que as sustentasse. À porta de uma casa via-se uma velha agachada, imóvel, e ninguém poderia dizer se estava dormindo, morta ou apenas inconsciente, pois tinha a cabeça caída sobre o peito. Do telhado de outra casa pendia por uma corda o cadáver de um homem; tratava-se de um desgraçado que, não podendo suportar a fome até o fim, preferira pôr fim ao martírio com o suicídio. Vendo tudo aquilo, Andrei não pôde conter-se mais e perguntou à tártara:

— Será possível que não encontraram nada com que pudessem

prolongar a vida? Quando um ser humano chega ao último extremo, não

resta outro recurso senão alimentar-se com o que até então foi visto com aversão: os animais cuja carne lhe é proibida. — Mas já comemos tudo — respondeu a tártara. — Não resta um único cavalo, um cachorro, um rato. Na cidade não havia reservas de mantimentos, tudo vinha das aldeias vizinhas.

— E como então pensam em defender a cidade, estando todos morrendo de fome?

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— O voivoda por certo já se teria rendido se não tivesse recebido ontem de manhã, trazida por um falcão, uma mensagem do coronel que comanda as forças de Budchaki dizendo-lhe que continuasse resistindo, pois vem marchando com destino à cidade e espera reunir-se a outro

regimento. Aguardamos sua chegada de um momento para outro

aqui estamos. De longe Andrei notara que a casa era diferente das demais, devendo ter sido construída por um arquiteto italiano. Era de dois andares e feita de ladrilhos. As janelas do andar térreo ostentavam cornijas de granito e o andar superior estava rodeado de uma galeria formada por arcos nos quais havia uma grade com o escudo de armas, que se repetia nas esquinas do edifício. A escadaria principal, também de ladrilhos, dava para a praça. Duas sentinelas, de alabarda na mão, e com a outra segurando a cabeça inclinada, encontravam-se colocadas uma de cada lado da entrada; os dois soldados permaneciam tão imóveis e em atitudes tão idênticas que dir-se-ia tratar-se de duas estátuas. Não dormiam ou cochilavam, mas pareciam indiferentes a tudo, não prestando a mínima atenção em quem passava ou subia pelas escadas. No cimo da escadaria acharam-se em presença de um homem ricamente vestido e armado dos pés à cabeça, tendo entre as mãos um livro de orações. Ergueu para eles os olhos cansados, mas a tártara murmurou-lhe alguma coisa e ele se curvou outra vez sobre o livro. Entraram numa sala bastante grande, que devia ser utilizada como vestíbulo ou antessala, cheia de soldados sentados ao longo das paredes nas posições mais diversas, de criados, de copeiros e outros servos, cujo número indica, na Polônia, a categoria a que pertence um dignitário do exército ou a grandeza de sua fortuna. Notava-se que as velas acabavam de ser apagadas, mas, mesmo assim, duas enormes, da altura de um homem, colocadas no centro do aposento, continuavam acesas, apesar da luz da manhã que começava a entrar pelas janelas. Andrei dirigiu-se para uma porta monumental de carvalho esculpido, ornada com um brasão, mas a tártara o puxou pela manga mostrando-lhe uma pequena entrada lateral. Esta dava para um corredor. Depois de a haver transposto, deram entrada num aposento, que o rapaz examinou com curiosidade. A luz que filtrava pelas fendas dos postigos iluminava uma cortina de veludo e a moldura dourada de um grande quadro. A tártara fez um sinal a Andrei pedindo-lhe que esperasse. Abriu então a porta do quarto contíguo, no qual brilhavam muitas luzes. Ouviu o murmúrio de uma voz suave, que o fez estremecer. A porta abriu-se e deixou entrever uma esbelta figura feminina, em cujo braço erguido descansava o peso de uma comprida e admirável trança. A tártara disse-lhe que entrasse. O rapaz não se deu conta de como entrou e

Bem,

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de ter fechado a porta atrás de si. Duas velas iluminavam a sala, e uma lamparina encontrava-se acesa diante de uma imagem por cima de um genuflexório. Mas os olhos de Andrei buscavam outra coisa. Voltou-se e viu uma mulher que mais parecia uma figura que se petrificara ao iniciar o movimento de lançar-se em sua direção. Ele, por seu lado, permaneceu estupefato, pois nunca julgara vê-la assim: aquela não era a jovem que havia conhecido; não tinha qualquer semelhança com ela; agora era realmente uma perfeição, uma obra de arte na qual o artista dera a última pincelada. A outra era uma menina frívola e bela; esta, uma mulher na plenitude de sua formosura. O olhar que lhe lançava refletia um sentimento total e sincero. As lágrimas, que ainda não tinham tido tempo de secar em seus olhos, os umedeciam com algo que brotava do fundo da alma. O pescoço, o peito e os ombros limitavam-se nas maravilhosas proporções que determinam o perfeito desenvolvimento da beleza; os cabelos, que antes caíam em caracóis, tinham-se convertido agora numa esplêndida trança, parte da qual estava presa no alto da cabeça enquanto a outra metade caía pelo ombro e ao longo do braço. Era como se todas as suas feições se tivessem transformado. Não encontrava um só daqueles traços que ficara na memória. A lividez do rosto da moça dava-lhe uma beleza sobrenatural, imprimia-lhe um toque de irresistível e triunfador domínio. Ao vê-la, Andrei foi tomado por uma emoção quase religiosa e, assim, ficou imóvel. A moça também parecia impressionada com o aspecto do cossaco, que ostentava toda a beleza e vigorosa galhardia de sua juventude, e cujos membros, embora imóveis, permitiam adivinhar a agilidade e a força. Seus olhos brilhavam com firmeza sob o arco aveludado das sobrancelhas, e as faces, queimadas de sol, ardiam com o brilho de um fogo virginal no qual brilhava como a seda o negro bigode. — Não, nunca poderei provar-te suficientemente a minha gratidão, generoso cavaleiro — disse ela com um timbre de emoção na voz. — Só Deus pode te recompensar, e não uma fraca E baixou os olhos, belos como pétalas orvalhadas e debruados por longas pestanas; o rosto maravilhoso inclinou-se e um ligeiro rubor cobriu- lhe as faces. Andrei não conseguiu responder. Desejava poder exprimir tudo o que sentia, mas não conseguiu. Algo paralisava o movimento de seus lábios, faltavam-lhe voz e palavras. Compreendeu que seria incapaz de responder dignamente à jovem, ele, que fora educado no seminário e segundo os princípios da vida de nômade e guerreiro, e lamentou a sua rude natureza de cossaco. Nesse momento entrou a tártara. Cortara o pão em fatias e agora

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apresentava-o à senhora numa bandeja de ouro. A bela jovem lançou um olhar à serva, ao pão e a Andrei. A enternecedora expressão de seus olhos, que manifestavam a impotência de transmitir o reconhecimento que lhe ia na alma, foi mais expressiva para Andrei do que todas as suas palavras Subitamente ele se sentiu livre das peias que sujeitavam sua alma, que freavam seus impulsos como cadeias. Sentiu-se liberto, e ia começar a dizer tudo o que sentia quando a bela jovem voltou-se para a tártara e perguntou com expressão preocupada:

— Já levaste pão à minha mãe?

— Ela está dormindo.

— E ao meu pai?

— Já. Disse-me que viria agradecer pessoalmente ao senhor.

A moça pegou um pedaço de pão e levou-o à boca. Andrei viu-a

partir a fatia de pão com indescritível prazer e, com os dedos muito brancos, levá-la à boca, mas logo a lembrança do homem que vira morrer na rua por ter comido depois de longo jejum lhe veio à lembrança. Empalideceu e, pegando na mão da jovem, exclamou:

— Basta! Não comas mais! Ficaste tanto tempo sem alimentos que o

pão será para ti um veneno. Ela baixou imediatamente a mão, pôs o pão na bandeja e fitou-o nos olhos como uma criança obediente, sem dizer palavra. — Minha rainha! — exclamou Andrei, cheio de emoção. — Que desejas? Ordena que obedecerei! Exige de mim os atos mais temerários e eu me apressarei a executá-los. Manda-me fazer aquilo que nenhum homem é capaz de realizar e sacrificarei minha vida para o conseguir!

Juro-te pela santa cruz que estou disposto ao sacrifício; para mim será um

Tenho três fazendas, metade das coudelarias de meu pai, e tudo

quanto minha mãe trouxe de dote ao meu pai, mesmo aquilo que ela lhe sonegou, pertence-me. Nenhum dos nossos cossacos possui armas como as minhas. Oferecem-me os melhores cavalos e três mil ovelhas apenas pelo cabo de meu sabre. Estou disposto a renunciar a tudo, a destruir, a incendiar, a afogar, só em obediência a uma palavra tua ou a um simples sinal dos teus negros e delicados olhos! Talvez eu esteja sendo estúpido e não seja esta a hora para discursos. Passei a minha vida no seminário e em Zaporojie, sou incapaz de conversar como convém na presença de reis e príncipes, sou incapaz de empregar a linguagem que usa a fina flor da cavalaria. Vejo que és uma pessoa não apenas diferente de nós, mas também de todas as jovens ainda não casadas da aristocracia e de todas as mulheres dos boiardos. Não sirvo nem para ser teu escravo; só os anjos celestiais podem te servir.

prazer

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A moça não perdia uma única das ardentes e sinceras palavras do

jovem cossaco. Cada uma daquelas palavras, pronunciadas ingenuamente, com uma voz nascida do fundo do coração, estava revestida de paixão e refletia como um espelho aquela alma sôfrega e cheia de energia. Curvando-se levemente para a frente, com a cabeleira jogada para trás num gesto de impaciência, a moça aproximou dele seu rosto magnífico e, de lábios entreabertos, escutava-o. Quis responder, mas deteve-se de súbito ao lembrar que o destino do cossaco era diferente do seu, por trás de quem se encontravam o pai, os irmãos de raça, a pátria, como severos vingadores;

que os terríveis zaporojianos mantinham a cidade sitiada; que ela, os seus e

a cidade inteira estavam predestinados a uma horrível morte lenta

olhos encheram-se de lágrimas. Pegou um lenço de seda, cobriu o rosto com ele e dentro em pouco o tecido delicado ficou todo úmido.

Permaneceu muito tempo nessa posição, com a bela cabeça jogada para trás, apertando com os dentes alvos o belo lábio inferior, como se houvesse sentido de repente a picada de uma serpente venenosa, conservando sempre o lenço sobre os olhos para que ele não visse sua imensa dor. — Responde-me, nem que seja com uma palavra! — exclamou Andrei, segurando-lhe a mão. Esse contato fez correr por suas veias um fogo abrasador. Mas ela guardou silêncio e permaneceu imóvel, sempre com os olhos ocultos pelo lenço.

E seus

— Por que estás tão triste? Qual é a causa da tua dor?

A jovem descobriu o rosto, retirou algumas mechas de cabelos que

insistiam em cair sobre os olhos e pôs-se a falar com voz tão doce e fraca como a aragem que se levanta num entardecer maravilhoso e corre por entre os canaviais: esse ruído suave e melancólico que, brotando num murmúrio e voando para longe, faz com que o viandante se detenha para escutá-lo com incompreensível tristeza, sem dar-se conta de como a tarde se apaga, nem das alegres canções dos camponeses que regressam dos campos, nem do rodar longínquo de um carro. — Será que mereço este eterno penar? Maldita hora em que fui posta no mundo! És para mim o mais cruel dos carrascos, ó destino cruel! Colocaste aos meus pés tudo o que havia de melhor: os maiores nobres da Polônia, os senhores mais ricos, condes e barões estrangeiros e toda a nata da nossa cavalaria. Todos me amavam e teriam considerado meu amor como a maior felicidade. Bastaria eu levantar a mão, e qualquer deles, o mais nobre, o mais belo, teria se transformado em meu esposo. E tu, destino feroz, não deixaste que nenhum deles cativasse meu coração, mas sim um estranho, um inimigo foi o escolhido por minha alma. Por que

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pecados, por que delitos tu, Mãe Santíssima, tão implacavelmente me castigas? Fui criada no luxo e na riqueza; as iguarias mais finas, os vinhos mais raros, constituíam meu alimento. E para que tudo isso? Para que ao fim eu venha a ser vítima da morte mais terrível a que não está sujeito o mais desgraçado mendigo do reino? E, como se fosse pouco, tenho de ver morrer em insuportável tormento meu pai e minha mãe, pela salvação dos quais eu teria sacrificado vinte vezes minha vida. Mas isso ainda não chega; foi preciso que, antes do meu fim, viesse a ouvir estas palavras nunca ouvidas antes, e conhecer o amor que me era desconhecido. Foi preciso que este homem me despedaçasse o coração, tornando meu destino ainda mais amargo, fazendo com que a morte, em plena juventude, se me afigure ainda mais terrível e que, na agonia, eu amaldiçoe a minha sorte. Ó Mãe Santíssima, perdoa-me por este pecado! Quando a moça finalmente calou-se, seu rosto refletiu um imenso desespero. Cada traço de sua fisionomia, desde a fronte tristemente inclinada e dos olhos baixos, até as faces pelas quais escorriam as lágrimas, tudo parecia dizer: "Nesta alma não há mais felicidade!"

— É impossível — exclamou Andrei — que a melhor e a mais bela

das mulheres seja tão desgraçada, quando nasceu para receber todo o bem desta terra e para ser adorada como uma santa. Não, não morrerás! Juro por minha vida, e por tudo o que mais quero neste mundo, que não vais morrer! Mas se nem a força, nem a oração, nem a valentia são capazes de

afastar o cruel destino, então morreremos juntos, e serei eu quem morrerá primeiro, quem soltará o último suspiro aos teus maravilhosos pés, e assim, morto, ninguém mais há de me separar de ti!

— Cavaleiro, não te enganes — disse a jovem sacudindo lentamente a

cabeça —, nem procures me enganar. Sei perfeitamente que não podes

amar-me, e isso é terrível para mim, pois tens deveres: teu pai, teus camaradas, tua pátria. Nós somos os inimigos. '

— Que me importam meu pai, meus camaradas e minha pátria! —

gritou Andrei, sacudindo a cabeça e ficando mais ereto do que um álamo. — Cheguei a um extremo em que não tenho mais ninguém! Ninguém! Ninguém! — repetiu ele com o tom de voz e os movimentos de mão com que os cossacos exprimem sua decisão de levar a cabo um feito extraordinário, impossível para qualquer outro que não seja de sua raça. — Quem disse que a Ucrânia é a minha pátria? A pátria é aquilo que nossa alma busca, o que é mais querido por ela. Tu és a minha pátria! Esta é a minha pátria! E a conservarei em meu coração enquanto tiver alento. E que um cossaco ouse me arrancar daqui! E tudo o que tenho venderei, darei, destruirei por esta pátria!

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Imóvel como uma estátua, a jovem permaneceu fitando-o nos olhos por um momento. Depois, com um soluço, lançou-se nos braços do rapaz num ato espontâneo e generoso, de que só é capaz uma mulher de coração nobre. Nesse momento ouviram-se gritos confusos na rua, misturados com o toque de clarins. Mas Andrei não lhes deu atenção, sentia apenas os belos lábios derramando em seu rosto o perfume de seu hálito misturado às lágrimas, enquanto uma torrente de cabelos o envolvia sedosamente. Nesse instante entrou a tártara precipitadamente e soltando gritos de alegria:

— Estamos salvos! Estamos salvos! Os nossos acabam de entrar na cidade com pão, milho, farinha e prisioneiros zaporojianos. Mas ambos não queriam saber quem eram os * nossos" que haviam entrado na cidade, o que traziam, nem quem eram os zaporojianos presos. Possuído por uma emoção que não era deste mundo, Andrei beijou os lábios colados aos seus, e estes corresponderam ao beijo. E nessa mútua efusão experimentaram os dois o que um ser humano só pode sentir uma vez na vida. E foi esse o fim do jovem cossaco! Já não era maís um cavalariano! E não mais veria Zaporojie, nem as granjas paternas, nem os templos sagrados de sua terra! Tampouco a Ucrânia voltaria a ver um dos seus filhos mais valentes, que se havia levantado em sua defesa. E o velho Bulba viria a arrancar um punhado de cabelos de sua cabeça grisalha, amaldiçoando o dia e a hora em que nasceu, para sua desonra, um filho assim.

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Sete

O tumulto estourou no acampamento dos zaporojianos. A princípio ninguém pôde explicar a maneira pela qual o inimigo pudera entrar com seus reforços na cidade. Veio a saber-se mais tarde que todo o kurien de Pieraiaslavski, instalado diante de uma das portas da cidade, estava embriagado. Por isso não era de surpreender que a metade dos cossacos que o compunham houvessem sido mortos, enquanto a outra metade era levada prisioneira antes que alguém pudesse se dar conta do que acontecia. Antes que os regimentos vizinhos, despertados pelo alvoroço, pudessem pegar em armas, as tropas de reforço entravam na cidade e sua retaguarda defendia-se a tiros da perseguição desordenada dos sonolentos e embriagados zaporojianos. O kochevoi mandou dar o toque de reunir. E quando todos se apresentaram diante dele, de gorro na mão, e se restabeleceu o silêncio, declarou:

— Já sabem, senhores irmãos, o que aconteceu esta noite. Aí estão as

consequências da bebida! Aí está a humilhação que nos foi imposta pelo inimigo! Parece que é sempre assim: quando recebem ração dupla de bebida, tratam logo de se embriagar de tal forma que o inimigo da nossa

milícia cristã pode não só lhes tirar a roupa, mas ainda espirrar no nariz de vocês, sem que nenhum dê por isso!

Os cossacos escutavam de cabeça baixa, esmagados pelo peso de sua

falta. Apenas Kukubenko, "atamã do kurien de Niezamaikovski, ousou responder:

— Um momento, meu pai! Embora não seja permitido replicar

quando o kochevoi fala para a tropa, tenho a declarar que as coisas não se passaram como tu dizes. As tuas censuras não são totalmente justas ao repreender a milícia cristã. Os cossacos seriam culpados se houvessem bebido em campanha, durante uma marcha ou em qualquer ação difícil. Mas estávamos aqui sem fazer nada, entregues ao ócio diante da cidade. Não se estava na Quaresma nem se tratava de qualquer outra abstinência prescrita pela religião cristã. Como não vai então embriagar-se um homem que está inativo? Ninguém é culpado do que aconteceu. O melhor que temos a fazer é ensinar-lhes o que significa atacar homens desarmados. Até agora fomos muito bons; de agora em diante vão saber com quem estão lidando!

O discurso deste atamã agradou aos cossacos, que ergueram as

cabeças, e muitos deles fizeram sinais de aprovação, dizendo:

— Kukubenko falou muito bem!

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E Taras Bulba, que se encontrava perto do kochevoi, disse:

— Na verdade, chefe, parece que Kukubenko tem razão. Que achas?

— Que acho? Ora! Feliz do pai que gerou um filho assim! É fácil

formular censuras; a verdadeira sabedoria, porém, consiste em dizer uma palavra que, embora sem ofender um homem, lhe restitua a coragem, tal como as esporas que renovam o ardor de um cavalo que parou para beber água. Teria sido meu desejo dizer umas palavras de encorajamento, mas Kukubenko fê-lo melhor do que eu.

— O kochevoi falou bem! — exclamaram nas fileiras alguns homens,

— Muito bem falado! — repetiam outros. E os mais idosos, que permaneciam calados, também aprovaram com a cabeça e, torcendo os bigodes grisalhos, murmuraram: — Muito bem!

— E agora, escutem o seguinte, senhores — continuou o comandante.

— Tomar uma praça forte escalando as muralhas ou furando a terra, como fazem os grandes guerreiros de outras terras, não é coisa para cossacos. E,

a julgar pelo que se sabe, o inimigo dispõe de poucos mantimentos, já que

entrou na cidade com poucas carroças. Os habitantes estão famintos, e isso significa que os víveres não durarão muito tempo, e, ademais, os cavalos também precisam de feno, a não ser que algum santo lhes jogue comida do Isso só Deus pode saber. Por esta ou por outra razão terão de sair da cidade. Temos que nos dividir em três grupos e ocupar os caminhos que

levam às três portas da cidade. Cinco regimentos diante da porta principal, três em cada uma das outras duas. Os kuriens de Diagkivski e de Korsunski se ponham de emboscada! O Coronel Taras com seu regimento também! Os de Titarievski e Timochevski fiquem de reserva à direita das carroças de abastecimento; os de Chervitchovski e Stablinski também de reserva, à esquerda. Reúnam-se também os jovens de língua afiada que vão irritar o inimigo com suas palavras. O polonês é vaidoso e não suporta insultos. Talvez ainda hoje consigamos fazer com que saiam da toca. Que cada atamã passe em revista suas tropas e, se não as achar completas, que coloque nelas o que restou da de Pieraiaslavski! Que se dê a cada cossaco um copo de gorielka e um pão! Mas creio que todos devem estar enfarados após a refeição de ontem, quando comeram e beberam tanto que é até de se admirar que ninguém tenha estourado durante a noite. E aqui está minha ultima ordem: se algum taberneiro judeu se atrever a vender nem que seja um único copo de gorielka, mando-lhe pregar na testa uma orelha de porco

e o dependuro de cabeça para baixo! E agora, irmãos, cada um a seu posto. Foram essas as ordens do kochevoi, depois do que todos os cossacos o saudaram curvando-se até embaixo e, com as cabeças descobertas, dirigiram-se aos seus acampamentos, só colocando os gorros outra vez

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quando já estavam bem distantes do lugar onde tinham se reunido. Começaram logo todos a trabalhar. Prepararam as armas de tiro, afiaram os sabres, muniram-se de pólvora e colocaram as selas nos cavalos.

Enquanto se dirigia devagar para o local onde estava acampado seu regimento, Taras cogitava, sem conseguir adivinhar, no que seria feito de Andrei. Tê-lo-iam apanhado e manietado, durante o sono, juntamente com os outros? Isso não, Andrei não se deixaria apanhar vivo. Também não fora encontrado entre os mortos da noite anterior. Taras encaminhava-se tão distraído ao seu regimento que não ouvia que o chamavam com insistência pelo nome há algum tempo.

— Quem me chama? — perguntou, por fim, como que despertando.

O judeu Yankel estava na sua

— Senhor coronel, senhor coronel! — disse o judeu, apressado, como

se quisesse falar-lhe algo muito importante. — Estive na cidade, senhor coronel!

— Foste levado pelo inimigo?

— Já conto tudo o que aconteceu — respondeu Yankel. — Quando,

ao romper do dia, ouvi os cossacos começarem a disparar, agarrei meu

cafetã e corri até lá, enquanto o vestia pelo caminho. Queria ver com meus olhos a origem daquele barulho e apurar o motivo pelo qual os cossacos começavam a atirar tão cedo. Cheguei à porta da cidade no momento em que acabavam de entrar os últimos poloneses. Vi então que à frente de um dos destacamentos encontrava-se o porta-estandarte Galiandovitch, conhecido meu, que há três anos me deve cem chervoniets. Fui atrás dele, para lhe cobrar a dívida, e assim entrei na cidade.

— Como te atreveste a entrar na cidade e ainda por cima pedir que te

pagassem uma dívida? — perguntou Bulba. — E ele não deu ordem para que te enforcassem como a um cão? . — Sim, juro que quis enforcar-me — respondeu o judeu. — Seus homens já tinham posto a corda em volta do meu pescoço, mas eu então lhe prometi que esperaria todo o tempo * que quisesse e ofereci-me até para emprestar mais dinheiro, caso ele obrigasse os outros cavaleiros a saldar as dívidas. A verdade é que o porta-estandarte Galiandovitch, e isto só digo ao senhor, coronel, não tem um único chervoniet no bolso. Embora

possua granjas, plantações, quatro castelos e muitas terras que se estendem até Chkalov, não dispõe de mais dinheiro do que um cossaco e está sempre com os bolsos inteiramente vazios. Sucede até que, sem a ajuda dos judeus de Breslau que lhe pagaram as armas e as roupas, não teria podido fazer esta guerra. Por isso nunca pertenceu ao Conselho

— E que fizeste na cidade? Viste alguns dos nossos?

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— Claro que sim! Lá estão muitos dos nossos: Itska, Rahum, Samuilo, Haivaloch, o hebreu

— Eu quero é que todos esses cães morram! — exclamou Taras,

irritado. — Deixa-me em paz com a tua raça hebreia. Refiro-me aos nossos zaporojianos.

— Não vi nenhum dos nossos zaporojianos. Só vi o Sr. Andrei

— Viste Andrei? — gritou Bulba. — Dizes que viste Andrei? Numa masmorra? Numa cova? Desonrado? Amarrado?

— Quem ousaria amarrar o Sr. Andrei? Agora ele é um cavaleiro

muito importante

braçadeiras de ouro, cinto de ouro, capacete de ouro, cinturão de ouro,

estava todo coberto de ouro. Parecia mesmo o sol num dia de primavera, quando espalha os raios por cima da pradaria onde cantam os passarinhos e onde cada fio de erva exala um perfume. O melhor cavalo é a sua montaria. Só os arreios do animal já valem duzentos chervoniets. Bulba estava petrificado.

Juro que quase não o reconheci! Ombreiras de ouro,

— Por que teria ele envergado essas vestimentas estrangeiras?

— Porque são mais bonitas e melhores senhores poloneses mais ricos!

— Quem o obrigou a isso?

E agora cavalga entre os

— Não disse que alguém o tivesse obrigado. Então não sabe que ele passou para o outro lado por sua livre vontade?

— Quem se passou?

— O Sr. Andrei.

— Passou-se para onde?

— Para os poloneses. Agora ele pertence aos poloneses.

— Mentes, orelhas de porco!

— Minto por quê? Acaso seria tão idiota a ponto de vir inventar

coisas? Então não sei que o judeu, quando mente ao seu senhor, é enforcado como um cão?

— Assim, segundo tu, ele traiu a pátria e a religião, não é isso?

— Não digo que ele tenha traído coisa alguma; apenas afirmo que se passou para o outro lado.

— Mentes, judeu do diabo. Nunca tal coisa aconteceu em terra cristã! Mentes, cachorro.

— Que a erva cresça na soleira da minha porta se minto. Que cuspam

no túmulo do meu pai, da minha mãe, do meu sogro, na do pai do meu pai

e na do pai da minha mãe! E, se o senhor quer, posso até dizer o motivo por que ele se passou para os poloneses.

— Dize.

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O voivoda tem uma filha que é uma beleza. Deus do céu, como é

bela!

o judeu, para dar uma ideia da beleza da jovem, abriu os braços,

revirou os olhos e entortou a boca, como se estivesse saboreando uma deliciosa iguaria.

E

— Bem, e que mais?

— Foi por sua causa que o Sr. Andrei fez o que fez. Um homem

apaixonado é como um couro curtido, pode-se dobrar à vontade. Bulba pôs-se a refletir profundamente. Lembrou-se de que a

influência de uma mulher fraca podia ser fortíssima e de que a natureza de Andrei era particularmente sensível a influências dessa natureza. E assim ficou imóvel por algum tempo, mergulhado na meditação. — Escute, senhor, vou contar tudo — disse o judeu. — Mal principiou o tumulto, percebi que iam entrar na cidade, e peguei, por via das dúvidas, um colar de pérolas, pois lá dentro encontram-se muitas damas jovens e belas, e se há damas jovens e belas, pensei, embora não tenham o que comer, comprarão pérolas. Aliás, uma serva tártara foi quem me contou tudo: "Assim que os zaporojianos forem derrotados, haverá casamento. O Sr. Andrei prometeu expulsar os zaporojianos".

— E tu não mataste na hora esse filho do.diabo? — exclamou Bulba.

— Matá-lo por quê? Ele passou para o outro lado de vontade própria.

Não se precisa matar ninguém! Ele foi para onde acredita que estará melhor.

— E tu viste-o cara a cara?

— Juro por Deus que o vi com estes olhos! É um guerreiro magnífico. O mais brilhante de todos. Que Deus o conserve com saúde! Ele me

reconheceu quando me aproximei, e disse: "Yankel!" E eu respondi: "Sr. Andrei!" "Yankel, dize a meu pai, ao meu irmão, aos cossacos, a todos os zaporojianos, que, a partir de agora, meu pai deixa de sê-lo, que desconheço meu irmão e que meus antigos companheiros são agora meus inimigos, contra os quais combaterei até a morte."

— Mentes, judeu dos infernos! — gritou Bulba fora de si. — Mentes,

cachorro! Crucificaste Cristo, maldito! Vou te matar, satanás! Corre ou te mato agora mesmo!

E,

ao dizer isso, Taras puxou o sabre.

O

judeu, espavorido, pôs-se a correr com toda a velocidade de que

eram capazes as suas magras canelas. Correu muito tempo sem olhar para trás por entre o acampamento, e depois pelo campo aberto, embora Taras não tivesse saído atrás dele, pensando que não seria sensato descarregar

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sua cólera contra o primeiro que lhe aparecesse pela frente. Lembrou-se então de que vira Andrei atravessando o acampamento em companhia de uma mulher. Inclinou a cabeça grisalha, ainda incrédulo quanto à veracidade daquele fato vergonhoso e a que seu filho pudesse ter traído sua fé e sua alma. Por fim, dispôs o seu regimento no lugar que devia servir de emboscada, por trás de um bosque que não tinha sido incendiado pelos zaporojianos. Também os regimentos de Umanski, Popoviechevski, Kanievski e Timochevski ocuparam suas posições. Só o de Pieraiaslavski estava faltando. Seus cossacos tinham pagado caro pelo pileque; uns acordaram manietados nas mãos do inimigo; outros passaram ao outro mundo sem acordar, e o próprio atamã Hlib se encontrara sem charovari e demais roupas no meio do acampamento polonês.

charovari e demais roupas no meio do acampamento polonês. Na cidade o movimento dos cossacos foi

Na cidade o movimento dos cossacos foi notado e em breve as muralhas estavam cheias de gente, o conjunto oferecendo um espetáculo magnífico: os paladinos poloneses, com suas vestimentas maravilhosas, ocupavam o alto das fortificações. Os capacetes de bronze, ornados de plumas brancas como a espuma, luziam ao sol. Outros usavam gorros azuis ou cor-de-rosa, caídos para um lado, e vestiam cafetãs de mangas bufantes, bordados a ouro e guarnecidos com alamares. As suas armas, incrustadas de ouro e pedras, deviam ter custado muito caro. Na primeira fila encontrava-se, cheio de altivez, o Coronel Budjaki, que usava um gorro vermelho com enfeites dourados e vestia um rico cafetã que não conseguia esconder sua barriga. Do outro lado, perto de uma porta lateral, via-se um outro coronel, baixo e magro, cujos olhos vivos fitavam atentamente por baixo das sobrancelhas cerradas, e que, enquanto dava ordens, fazia gestos precisos com a mão magra. Via-se que, apesar de sua diminuta estatura, conhecia muito bem a arte da guerra. Um pouco mais adiante encontrava-se o porta-estandarte, alto, de rosto vermelho e com um enorme bigode. Este era um amante das boas bebidas e das festanças. Atrás deles agrupava-se uma multidão de poloneses: uns, armados às suas próprias custas; outros, por conta do tesouro real; e ainda outros por conta do dinheiro dos judeus, a quem haviam penhorado tudo o que restava nos castelos de seus antepassados. Havia ainda entre eles um número razoável desses parasitas que os senadores arrastavam atrás de si

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pelas festas, para aumentarem seu séquito, e que roubavam taças de prata de cima de mesas ou de dentro dos guarda-louças e, no dia seguinte, subindo para a boleia dos carros, iam servir de cocheiros. Encontrava-se ali gente de toda espécie. Embora às vezes não tivessem o que comer, sempre conseguiam armar-se para guerrear. As filas cossacas permaneciam imóveis defronte das muralhas. Em nenhum ponto se via o ouro brilhando, salvo nos punhos de algum sabre ou nas coronhas de alguns mosquetões. Os cossacos não gostavam de se vestir com fausto para o combate; usavam simples cotas de malha e cafetãs muito simples. A única coisa que se via luzir de longe eram as copas douradas dos gorros negros de pele de cordeiro. Dois cossacos destacaram-se das fileiras e avançaram até as muralhas. Um era jovem, o outro um pouco mais idoso; nenhum deles tinha papas na língua, nem tampouco eram fracos na luta. Um se chamava Ochrim Nache, e o outro Mikita Golopotienko. Seguia-os a cavalo o gorducho Demid Popovitch, que já estava há muito tempo na Sietch e havia combatido em

Adrianopol e já sofrerá muito na vida. Certa vez quiseram queimá-lo vivo, mas ele conseguiu escapar e voltou à Sietch com a cabeleira e o bigode chamuscados. Mas tivera tempo de se refazer e de engordar; voltara a nascer-lhe um belo bigode negro e uma trança cuja extremidade se enrolava em volta da orelha. Pois este Popovitch era conhecido pela mordacidade de suas palavras.

— Vocês aí andam todos com belas roupagens vermelhas. Gostaria

de saber se o valor dos soldados lhes corresponde.

— Vou amarrar a todos vocês! — gritou lá de cima o gordo coronel.

— Entreguem as armas e os cavalos, cambada de servos! Já viram como eu amarrei os companheiros de vocês? Tragam os prisioneiros para a muralha! E os trouxeram, completamente manietados. O primeiro era o atamã Hlib, nu, como o haviam apanhado dormindo embriagado. Não levantava

os olhos, envergonhado de seu estado ante seus subordinados e por ter sido feito prisioneiro como um cão enquanto dormia. Durante a noite, seus cabelos tinham ficado completamente brancos.

— Não te aflijas, Hlib! Já vamos te libertar! — gritaram lá de baixo os cossacos.

— Não te preocupes, amigo! — berrou o atamã Borodati. — Não tens

culpa se te apanharam nu, isso pode acontecer a qualquer um. Os que deviam se envergonhar de te expor assim são eles.

— Vocês só são corajosos quando atacam gente dormindo! — disse Golopotienko, dirigindo-se aos poloneses.

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— Esperem que daqui a pouco vamos cortar as tranças de vocês! — replicaram os que se encontravam na cidade. — Só queria saber como vão conseguir fazer isso! — gritou

Popovitch, fazendo piruetas no cavalo. E depois, voltando-se para os companheiros: — Talvez os poloneses digam a verdade. Se são comandados por aquele barrigudo, podem até ser perigosos.

— E por que achas que podem ser perigosos? — replicaram os

cossacos, já à espera de uma boa saída de Popovitch. *

— Porque toda a tropa pode se esconder por trás dele, e nem com

todos os diabos conseguiremos poder espetar alguém com uma lança através daquela barriga!

Foi uma gargalhada geral entre os cossacos. E alguns ficaram por muito tempo balançando a cabeça e dizendo: "Esse Popovitch tem cada

uma! Quando começa a dizer

— Afastem-se rapidamente da muralha — gritou o kochevoi. —

Parece que os poloneses não gostaram da brincadeira e o coronel fez um sinal com a mão. Mal os cossacos tinham se retirado quando ecoou uma descarga de metralha. Viu-se grande movimentação nas fortificações e até o velho voivoda apareceu a cavalo. Abriram-se as portas e o exército polonês avançou pela planície. Na vanguarda encontravam-se os cavaleiros com armaduras; atrás deles vinham os homens com suas cotas de malha; em seguida os lanceiros com couraças leves e em seguida a tropa de elite da cavalaria polonesa, cada um vestido à sua maneira. Estes orgulhosos senhores não queriam misturar-se com os demais. Os que não pertenciam a uma unidade determinada marchavam acompanhados de seus escudeiros.

Vinha depois o porta-estandarte, seguido de forças regulares, e, por último, o coronel barrigudo com outras unidades. Fechando a marcha encontrava- se o coronel magro.

— Não lhes deem tempo! Não deixem que se disponham em ordem

de batalha! — gritou o kochevoi. — Que todos os regimentos ataquem ao mesmo tempo. Abandonem as outras portas! Que Titarievski ataque o flanco esquerdo e Diagkivski o direito! Kukubenko e Palidov, ataquem pela retaguarda! Destruam a formação! E os cossacos, atacando de todos os lados e ao mesmo tempo, romperam as fileiras dos poloneses e confundiram-se com eles. Nem sequer fizeram uso das armas de fogo, originando-se um corpo-a-corpo no qual só foram usados os sabres e as lanças. No meio da confusão geral, cada um procurava mostrar o seu valor. Demid Popovitch varou com sua lança três soldados da infantaria e

Mas não conseguiram terminar a frase.

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derrubou dois cavalarianos, enquanto dizia;

— Que excelentes cavalos! Há muito tempo que desejava ter um

assim! — e enxotou-os para a planície enquanto recomendava aos cossacos que estavam de tocaia que os amarrassem. Depois voltou à refrega e atacou outra vez os cavaleiros desmontados, matou um, laçou o outro e arrastou-o preso ao seu cavalo pela campina, depois de lhe ter retirado da cintura um sabre com cabo de ouro e uma bolsa cheia de moedas. Kobita, um valente cossaco, muito jovem ainda, avançou para um dos mais valorosos guerreiros do exército polonês; lutaram muito tempo até chegar ao corpo-a-corpo; por fim, Kobita conseguiu matá-lo, enterrando- lhe no peito um afiado punhal turco, mas, ao mesmo tempo, recebia por sua vez uma bala na testa, disparada por um dos mais ilustres nobres

poloneses, um cavaleiro muito garboso que corria esbelto como um álamo sobre sua montaria. Demonstrando seu valor, esse senhor já havia partido

ao meio dois zaporojianos: Fiodor Korcha, um dos melhores cossacos, a

quem derrubara com sua montaria, enfiando em seguida a lança no corpo do cossaco; já tinha cortado braços e cabeças de diversos, quando finalmente matara Kobita com um tiro na testa.

— Era precisamente com este que gostaria de medir, forças! —

exclamou Kukubenko, atamã do kurien de Niezamaikovski, esporeando o cavalo, que se precipitou a galope em direção ao polonês, dando um grito tão forte que todos em redor estremeceram. O polonês quis fazer girar o seu cavalo para enfrentar o cossaco, mas o animal, assustado com o grito terrível, não obedeceu, e empinou-se, o que permitiu a Kukubenko acabar

com o nobre com uma bala entre as omoplatas. Mas o polonês, já no solo e mortalmente ferido, não se deu por vencido, e tentou golpear o inimigo sem consegui-lo. O sabre escapou-lhe da mão sem forças. Kukubenko empunhou a espada com as duas mãos e enterrou-a na boca do cavaleiro.

A lâmina entrou pelos lábios entreabertos, quebrou os .dentes muito

brancos, cortou-lhe a língua ao meio, saiu pela nuca e foi cravar-se no chão. Um jato vermelho daquele sangue nobre esguichou, ensopando o belo cafetã amarelo bordado a ouro do cavaleiro, que, dessa maneira, ficava para sempre pregado à terra. Mas Kukubenko já voava para unir-se aos seus que estavam lutando com outro grupo.

— Como é possível abandonar tão rico equipamento! — exclamou

Borodati, do kurien de Umanski, separando-se dos seus e encaminhando-

se para junto da vítima de Kukubenko. — Já matei sete com as minhas mãos, mas nenhum deles tinha equipamento tão bonito. E Borodati, levado pela cobiça, curvou-se sobre o cadáver para

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despojá-lo de suas valiosas armas. Arrancou-lhe o punhal turco de cabo incrustado de pedras preciosas, desamarrou a bolsa cheia de moedas de ouro e retirou do pescoço uma sacola com finas peças de roupa interior, prata e uma madeixa de cabelos de alguma mulher que devia conservar como lembrança. Entregue às suas ocupações, não ouviu aproximar-se o porta-estandarte, que já tinha sido derrubado de seu cavalo pelo próprio Borodati, e que agora se lançava contra ele com toda a violência e pelas

costas; desferindo-lhe um golpe terrível, o porta-estandarte fez voar longe

a cabeça do cossaco. O tronco decapitado começou a empapar a terra de

sangue. A alma selvagem do cossaco elevou-se, indignada e ao mesmo tempo surpreendida de separar-se tão cedo de um corpo forte como o seu.

Mas o porta-estandarte não teve tempo de recolher a cabeça do atamã para

a atar à sela pela trança, pois já se apresentava um vingador. Como o abutre que, planando no céu depois de ter descrito vários círculos, para de repente de asas abertas, e salta em seguida como uma

flecha sobre a codorniz, assim Ostap, o filho de Taras, arremeteu contra o porta-estandarte, e, com um gesto rápido e certeiro, laçou-o pelo pescoço. O rosto já rubicundo do polonês escureceu mais um pouco quando o laço começou a apertar-lhe a garganta. Ele agarrou a pistola, mas a mão que tremia tirou a firmeza do tiro. Ostap retirou da sela de sua vítima um cordão de seda destinado aos prisioneiros de categoria, atou-lhe os braços

e as pernas e, depois de prender a extremidade na sua sela, começou a

arrastar o polonês pela planície enquanto gritava aos companheiros para que fossem buscar o atamã morto. Quando os cossacos do kurien de Umanski souberam que seu chefe tinha morrido, abandonaram a batalha para ir recolher o corpo de Borodati

e eleger um sucessor. — Não vamos discutir — disseram imediatamente. — O mais indicado para o posto é Ostap Bulba. Embora seja o mais jovem de todos nós, é o mais inteligente. Ostap tirou o gorro e agradeceu aos seus camaradas pela honra com que o revestiam, sem perder tempo em desculpar-se por sua juventude, pois o momento não era de forma alguma propício às cerimônias e aos discursos, e conduziu-os em linha reta para o ponto mais renhido da batalha, mostrando-lhes que não haviam errado ao elegê-lo para seu atamã. Verificando que a sorte começara a mudar, os poloneses recuaram para a outra extremidade do campo, no intuito de recuperarem forças, enquanto, a um sinal do coronel magricela, as metralhas eram disparadas pelas quatro companhias que tinham ficado de reserva na porta principal. Apenas alguns cossacos foram atingidos, as balas acertando nos bois que

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olhavam assustados , o combate. Os animais amedrontados lançaram-se mugindo contra o acampamento cossaco, atropelando carroças e tudo o mais que encontrassem em sua enlouquecida carreira. Mas, nesse momento, Taras saiu com seu regimento da emboscada onde se encontrava e conseguiu fazer com que voltassem para a outra direção. E então o

rebanho, espavorido com a gritaria e os tiros, precipitou-se sobre os regimentos poloneses, pondo em debandada a cavalaria.

— Obrigado, bois! — gritaram os zaporojianos. — Vocês prestaram

bons serviços durante a marcha e agora ainda nos ajudam na batalha! E, com redobrada energia, atiraram-se contra o inimigo, causando muitas baixas. Foram muitos os cossacos que deram provas de bravura: Metelitzia, Chilo, os irmãos Pisarienko, Vovtuzenko e outros mais. Os poloneses, sentindo que a coisa estava ficando feia, abandonaram o estandarte e gritaram para que abrissem as portas da cidade. Os pesados batentes chapeados de ferro rangeram nos gonzos, para deixar entrar os cavaleiros

esgotados de fadiga, que se precipitaram para dentro num tropel, como um rebanho de carneiros entrando no redil. Alguns zaporojianos quiseram persegui-los, mas Ostap não consentiu, dizendo:

— Não se aproximem da muralha, senhores irmãos. O lugar é perigoso.

E tinha razão, pois uma chuva de balas caiu sobre os mais atrevidos,

ferindo vários cossacos. Nesse momento o kochevoi aproximou-se para elogiar Ostap:

— Eis aqui um jovem atamã que sabe comandar sua tropa com a mesma prudência de um velho!

O velho Bulba voltou-se para ver qual era o jovem atamã que estava

sendo elogiado e deu com Ostap, de gorro caído para o lado e segurando o símbolo de chefe, à frente do kurien de Umanski.

— Aí está! — exclamou o velho Taras ao ver o filho, e foi agradecer aos cossacos que o haviam eleito. Os cossacos reagruparam-se no acampamento .e os poloneses

começaram a surgir outra vez no alto da fortaleza; mas agora com as roupas em farrapos, os ricos cafetãs sujos de sangue coagulado e os capacetes de bronze cobertos de pó. — Então, foi assim que nos estrangularam? — gritaram os zaporojianos.

— Estão vendo? Esta aqui é para você! — respondeu o coronel

barrigudo, mostrando uma corda do alto da muralha. Deu-se então uma verdadeira batalha verbal entre os dois campos

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inimigos. Aos poucos, começaram a se dispersar. Uns foram restaurar-se das fadigas da batalha; outros começaram a aplicar terra sobre os ferimentos, fazendo ataduras das roupas que iam tirando dos inimigos mortos. Aqueles que ainda conservavam alguma força trataram de reunir os cadáveres dos camaradas e de prestar-lhes as últimas homenagens. Com espadas e pás cavavam as sepulturas, e retiravam a terra com os gorros e as fraldas dos cafetãs; colocavam os cadáveres na cova e os cobriam com terra para que as aves de rapina hão lhes furassem os olhos. Os poloneses mortos foram amarrados nas caudas dos cavalos selvagens, que perseguiam depois a chicotadas através da planície. Os animais, furiosos, partiam correndo, arrastando atrás os poloneses, cujas cabeças saíam batendo e sangrando. Com o cair da noite, todos os acampamentos se sentaram em círculo para comer e comentar as peripécias da batalha e os feitos mais extraordinários, que iriam transformar-se em história para as gerações

futuras. E assim ficaram até muito tarde, e o último a deitar-se foi o velho Taras Bulba. Ficara pensativo, desconcertado, por não ter visto Andrei entre os guerreiros inimigos. Ou era mentira do judeu, ou então este tinha sido enganado por Andrei, que, por encontrar-se prisioneiro, não quisera dizer a verdade. Mas o velho lembrou-se então da fraqueza de Andrei ante os encantos femininos. Experimentou uma dor profunda e jurou vingar-se da polonesa que havia enfeitiçado seu filho. E cumpriria seu juramento sem levar em consideração a beleza da mulher. Agarrá-la-ia pelos cabelos para arrastá-la pelo acampamento, por entre os cossacos. E a destroçaria pelo solo, ensanguentando e cobrindo de pó seu pescoço e seus seios maravilhosos, só comparáveis em brancura às neves eternas que cobrem os

cimos das montanhas. Esquartejaria seu corpo belo e perfeito

Mas Bulba

não sabia o que Deus tinha reservado ao homem para o dia seguinte, e começou a entregar-se ao sono até afundar-se completamente nele. Alguns cossacos conversavam ainda, estendidos na erva, e as sentinelas permaneceram a noite inteira acordadas ao lado das fogueiras, olhando sem cessar para todos os lados do acampamento.

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Oito

O sol não chegara ainda ao meio de sua trajetória celeste, e já todos

os zaporojianos estavam reunidos em assembleia. Acabava de chegar da Sietch a notícia de que, na ausência dos cossacos, os tártaros a haviam saqueado completamente, levando consigo o tesouro subterrâneo; que tinham massacrado ou aprisionado todos os que ali ainda se encontravam, bem como os cavalos e os animais de corte, dirigindo-se depois em linha reta para o istmo de Perekop. Um único cossaco, Maksim Goloduha, conseguira evadir-se, depois de ter apunhalado um guarda, roubando-lhe ainda um saco de dinheiro, quando estava sendo levado prisioneiro. Disfarçado de tártaro, e no cavalo do morto, fugira dos que o perseguiam

por um dia e meio e duas noites, até matar o animal. Apanhara um outro, que também morrera de cansaço, depois um terceiro, chegando enfim ao campo dos zaporojianos, tendo sido informado no caminho de que estes se encontravam em Dubno. Extenuado, limitou-se a contar rapidamente esses fatos, sem ter tempo de explicar mais nada, nem de dizer como sucedera a desgraça, se os cossacos tinham-se embriagado durante uma festa; não disse também como os tártaros tinham descoberto o tesouro. Esgotado pelo cansaço, o cossaco caiu por terra e logo adormeceu, com um sono profundo. Em casos assim, era costume dos zaporojianos lançarem-se imediatamente em perseguição dos assaltantes, procurando cortar-lhes o caminho, pois de outra forma os prisioneiros podiam ir parar nos mercados da Ásia Menor, de Esmirna, da ilha de Creta, e sabe Deus em que outros lugares iriam aparecer as tranças dos zaporojianos. Era por esse motivo que os cossacos se achavam reunidos. Todos conservavam os gorros na cabeça, porque estavam reunidos não para ouvir uma ordem do kochevoi, mas para deliberar com igualdade de direito entre si. •

— Que falem primeiro os mais velhos! — gritaram alguns.

— Vamos ver, kochevoi, fala tu! — gritaram outros.

E este, tirando o gorro, não como chefe dos cossacos, mas como um

camarada, e agradecendo a todos pela atenção que lhe dispensavam, disse:

— Entre nós encontra-se gente mais velha do que eu e que pode dar

pareceres melhores, mas, já que pediram meus conselhos, aqui os têm:

camaradas, não podemos perder tempo; temos de sair imediatamente em perseguição aos tártaros, pois vocês sabem muito bem que tipo de gente eles são. Não esperarão pela nossa chegada com tudo o que roubaram, mas farão desaparecer de tal maneira o nosso tesouro que não encontraremos

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mais nem sombra dele. Por isso, a minha opinião é que partamos sem perda de tempo. Aqui já fizemos o que tínhamos de fazer. Os poloneses sabem muito bem quem são os cossacos; vingamos com todo o vigor as

ofensas contra nossa fé e, de uma cidade faminta, pouca coisa temos a tirar. Assim, meu conselho é partir imediatamente.

— Partamos! — repetiram todas as fileiras.

Mas Taras Bulba não gostou daquelas palavras, e franziu ainda mais

as sobrancelhas grisalhas, semelhantes à vegetação bravia que cresce nas fraldas das montanhas mais altas.

— Não, o teu conselho não é acertado, kochevoi! — disse Taras. —

Pelo visto, esqueceste que os poloneses mantêm prisioneiros muitos homens nossos. Pelo visto, queres que desrespeitemos a primeira e mais santa lei da camaradagem. Vamos então abandonar nossos irmãos, para

que sejam esfolados vivos ou esquartejados, para depois serem apresentados pelas cidades e aldeias, como fizeram com o dignitário russo e com o atamã da Ucrânia? Será que eles já não profanaram bastante a nossa santa religião? Quem somos nós, afinal de contas? Acaso poderá chamar-se cossaco aquele que abandona o camarada na desgraça, deixando-o morrer como um cachorro em terra estranha? Se é assim, se a coisa chegou ao ponto de não se respeitar mais a honra cossaca, permitindo que nos cuspam na cara e nos insultem com as palavras mais terríveis, então que ninguém possa dizer o mesmo de mim. Eu fico, nem que seja sozinho! Estas palavras abalaram profundamente os zaporojianos.

— Esqueceste então, valente coronel — interveio o kochevoi —, que

também temos camaradas nas mãos dos tártaros e que, se não os libertamos imediatamente, serão vendidos aos pagãos e condenados à escravidão eterna, que é pior do que a morte mais cruel? Será que esqueceste que nosso tesouro, conseguido com sangue cristão, encontra-se agora nas mãos dos infiéis? Os cossacos pareciam abismados, sem saber o que pensar. Nenhum deles desejava ser mal julgado. Saiu então das fileiras Kassian Bovdiug, o homem mais velho das tropas cossacas. Era venerado por todos os zaporojianos; por duas vezes tinha ocupado o posto de kochevoi e nos dois mandatos prestara relevantes serviços. Mas, devido à idade avançada, não entrava em campanhas e se abstinha de dar conselhos. Gostava era de ficar deitado nos círculos formados pelos cossacos ouvindo os outros contarem seus feitos e suas aventuras cotidianas. Nunca intervinha nas conversas, apenas escutava enquanto apertava com o dedo o fumo de seu cachimbo curto, que nunca tirava da boca, ficando assim muito tempo, de olhos

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semicerrados, os cossacos nunca sabendo se dormia ou ainda os ouvia. Nas campanhas anteriores, tinha ficado na Sietch, mas desta vez despertara dentro dele o passado, fizera o gesto típico dos cossacos que significava "seja lá o que Deus quiser", e dissera:

"Vou com vocês, talvez ainda possa ser útil em alguma causa cossaca!" Agora, os cossacos se calaram quando ele avançou, pois já não ouviam uma palavra sua há muito tempo e todos estavam interessados em saber a opinião de Bovdiug.

— Chegou a minha vez de dizer algumas palavras, senhores irmãos

— começou ele. — Filhos, escutem este velho. O conselho do kochevoi foi

sábio já que, como chefe das tropas cossacas, está obrigado a velar por elas e pelo seu tesouro. Não podia ter dito nada de mais sensato. A segunda coisa que vou dizer é que o Coronel Taras falou uma grande verdade, e que Deus conserve sua vida por muitos anos, e que a Ucrânia tenha sempre muitos coronéis como ele. O dever de todo cossaco é honrar sempre as leis da camaradagem. Encontro-me há longos anos neste mundo, senhores irmãos, e nunca ouvi dizer que o cossaco tenha abandonado ou traído em tempo algum um camarada. E, tanto aqui como lá, todos são nossos camaradas, independentemente de que uns sejam mais e outros menos; todos eles são nossos camaradas de grande valia. A minha opinião, portanto, é a seguinte: os que desejam ir libertar os camaradas que se encontram prisioneiros dos tártaros, que partam imediatamente para a luta; os que preferem guerrear contra os poloneses, que fiquem. O kochevoi, fiel ao seu dever, conduzirá metade de nós em perseguição aos tártaros, enquanto a outra metade elegerá um atamã provisório. E, se desejam o parecer de um velho de cabeça branca, digo que o único entre nós para ocupar esse posto é Taras Bulba. Ninguém se compara a ele em qualidades guerreiras. Assim falou Bovdiug, e todos os cossacos se sentiram satisfeitos ao ver que o velho tinha-lhes resolvido o problema. Jogaram os gorros para o alto, gritando:

— Obrigado, paizinho! Ficaste muito tempo em silêncio, mas quando

abriste a boca foi para dizer algo. Tinhas razão quando disseste ao partir conosco que ainda podias ser útil à nossa causa. Eis o serviço que nos prestaste. — Então? Estamos de acordo com as palavras de Bovdiug? — perguntou o kochevoi.

— De acordo! — gritaram os cossacos.

— Podemos então dar por encerrado o conselho?

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— Terminado! — Meus filhos, ouçam agora a ordem que vou dar! — disse o kochevoi, dando um passo à frente e cobrindo a cabeça com o gorro, enquanto os zaporojianos permaneceram descobertos e de olhar baixo, conforme sempre fazem os cossacos quando um superior vai falar. — Agora separem-se, senhores irmãos! Quem desejar ir lutar contra os tártaros que se coloque à direita, quem preferir ficar, à esquerda. No caso *de um regimento se dividir, o atamã acompanhará a maioria; os mais passarão para outro regimento. E os cossacos começaram logo a movimentar-se, uns para a esquerda, outros para a direita. O resultado foi que quase ficaram divididos pela metade. Os que optaram pela luta contra os poloneses ficaram: quase todo o regimento de Niezamaikovski, mais da metade do de Povichevski, mais da metade do de Stablinski, o de Timochevski quase completo, todo o de Umanski e todo o de Kanievski. Os outros resolveram partir em perseguição aos tártaros. Ambos os lados contavam com grande número de sólidos e valentes guerreiros. Entre os que partiam achavam-se Tcheravati, um bravo e valente cossaco, Pokotipolie, Lemich, Pokropovitch Homa. Demid Popovitch passou igualmente para esse lado, pois o caráter independente de que sempre dera mostras não lhe permitia ficar muito tempo no mesmo local; seu apetite de poloneses já estava satisfeito, agora queria brigar com os tártaros. Neste grupo também ficaram os atamãs Nastiugan, Pokrichka e Nievilitchki. E muitos outros valentes cossacos quiseram ir pôr à prova seu braço e sua espada contra os tártaros. Numerosos também foram os cossacos de valor que preferiram ficar: os atamãs Dmitrovitch, Kukubenko, Vertijvist, Balaban e Ostap Bulba, assim como Vovtuzenko, Tcherevitchenko, Stepan Guska, Ochrim Guska, Mikola Gusti, Zadorojni, Mietelitzia, Ivan Zakrutiguba, Mosi Chilo, Diogtarienko, Sidorienko, mais dois ainda com esse mesmo nome e um grande número de outros cossacos de fama. Todos já haviam marchado e navegado muitas vezes, tendo estado mais de uma vez nas costas da Anatólia, nas estepes e salinas da Crimeia, em todos os afluentes, ilhas e embarcadouros do Dniepr. Haviam estado na Moldávia e na Turquia e cruzado o mar Negro nos seus pequenos barcos de dois lemes. Com cinquenta dessas embarcações atacaram uma série de luxuosos navios e afundaram muitas galeras turcas. Tinham queimado muita pólvora no curso de suas vidas. Mais de uma vez haviam rasgado tecidos finos e veludos para fazerem ataduras e enchido suas sacolas de cequins. E o dinheiro por eles esbanjado em farras atingia uma soma tão elevada que seria suficiente para uma pessoa viver

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folgadamente a vida inteira. Mas tudo era dilapidado à maneira cossaca, convidando todo o mundo e contratando músicos para que a orgia fosse realmente monumental. Quase todos eles ocultavam os objetos preciosos

— cálices, braceletes e jarros de prata — entre os juncos em qualquer ilhota isolada do Dniepr para que os tártaros não os pudessem descobrir se atacassem a Sietch de surpresa. E os tártaros, de fato, teriam bastante dificuldade em encontrá-los, uma vez que até o próprio dono já não mais lembrava o local em que os enterrara. Assim eram os cossacos que tinham preferido ficar para vingarem-se dos poloneses e lavar a fé de Cristo ultrajada. O velho cossaco Bovdiug também recusou-se a partir, dizendo:

— Já não tenho mais idade para sair em perseguição aos tártaros, mas

aqui poderei encontrar uma morte digna de um cossaco. Há muito tempo que peço a* Deus que me conceda a graça de acabar meus dias

combatendo pela santa causa cristã. A minha súplica foi ouvida. Não pode existir morte mais gloriosa para um velho cossaco. Quando todos já estavam divididos em duas filas, o kochevoi passou entre elas, perguntando:

— Então, senhores irmãos, estão contentes uns com os outros?

— Todos estamos contentes, nosso pai! — foi a resposta.

— Nesse caso, beijem-se e digam adeus uns aos outros, pois só Deus

sabe se nos encontraremos outra vez nesta vida. Obedeçam ao seu chefe e cumpram com o dever: todos sabem muito bem quais são as exigências da honra cossaca. Todos os cossacos se beijaram. Os primeiros a fazerem-no foram os atamãs que, afastando com uma mão os bigodes grisalhos, beijaram-se inclinando as cabeças, apertando-se depois fortemente as mãos. Queriam perguntar: "Será que voltaremos a nos ver, irmão?" Mas permaneceram em silêncio, e as duas cabeças grisalhas permaneceram levemente inclinadas. Os cossacos se despediam sabendo que trabalho não faltaria tanto a uns como a outros. Mas decidiram não se separar imediatamente, e esperar pela noite, para que o inimigo não se desse conta do enfraquecimento das forças cossacas. A seguir foram se alimentar, cada um em seu acampamento. Depois da refeição, todos aqueles que deviam pôr-se a caminho se deitaram e dormiram um sono longo e profundo, como se pressentissem que esse era o último que desfrutavam em liberdade. Dormiram até o anoitecer e, quando escureceu, começaram a lubrificar os eixos dos carros. Equiparam-se, colocaram na vanguarda da coluna as carroças de mantimentos, seguidas da infantaria. Sem o menor ruído, a cavalaria seguiu logo atrás e dentro em pouco perderam-se na escuridão da noite.

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Apenas se ouvia o barulho surdo dos cascos, batendo no solo ou o ranger de alguma roda mal lubrificada. Os que ficaram continuaram agitando seus gorros por algum tempo,, despedindo-se dos camaradas que partiam, embora não se pudesse distinguir coisa alguma na escuridão. Quando, ao regressarem aos acampamentos, viram à luz das estrelas o vazio deixado pela partida da metade do exército e sentiram a ausência dos companheiros, os seus corações apertaram-se; conservaram-se em volta das fogueiras, com as cabeças baixas, estranhamente pensativos.

fogueiras, com as cabeças baixas, estranhamente pensativos. Taras viu como estavam sombrias as fileiras cossacas e

Taras viu como estavam sombrias as fileiras cossacas e como a prostração, tão imprópria no valente, ia envolvendo silenciosamente todos os espíritos, mas não disse nada. Queria dar-lhes tempo para que se acostumassem com aquela falta e aquela mágoa produzida pela partida dos companheiros. Mas preparava-lhes em silêncio um despertar que suscitasse neles o espírito da resistência e coragem de que apenas é capaz a raça eslava, ampla e poderosa diante das outras, como é o oceano diante dos pequenos rios. Quando o tempo está tempestuoso, ele ruge, estrondeia e levanta montanhas de água, que o rio nunca seria capaz de movimentar; mas, se o tempo está calmo e não há vento, ele, mais brilhante do que todos os rios, abre sua infinita e cristalina superfície, dando mais prazer ao olhar do que qualquer rio. Taras ordenou aos seus servidores que descobrissem um carro que se encontrava a um lado,- o maior de todos os carros de mantimentos. As suas enormes rodas estavam cercadas por um duplo aro de ferro e sua carga coberta com peles de bois e bem amarrada com cordas embebidas em breu. O carro continha tonéis e barris cheios de um excelente vinho antigo que Taras conservara por muitos anos na sua adega. Tinha-o reservado prevendo um momento solene em que desejasse festejar um feito glorioso, digno de ser transmitido à posteridade, a fim de que, nesse caso, cada cossaco dele bebesse, elevando também seu espírito. Ao ouvir a ordem de seu coronel, os servidores dirigiram-se para o carro e, com suas espadas, cortaram as cordas, retiraram as peles e começaram a descarregar os tonéis de vinho. — Agora bebam tudo, não deixem que sobre uma única gota — disse Bulba. — Que cada um estenda aquilo que tiver à mão: copos, cochos de

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dar água aos cavalos, gorros, luvas, ou até apenas a concha das mãos. E cada cossaco estendeu aquilo que pôde encontrar. Os servos de Taras, circulando entre as duas fileiras de cossacos com os barris, serviam a todos. Mas Taras ordenou que esperassem por seu sinal para beberem ao mesmo tempo. Queria dizer algumas palavras, pois sabia que, por forte que fosse aquele vinho, e por mais capaz de reanimar o homem, se o ato de bebê-lo fosse acompanhado de palavras adequadas, a força da bebida duplicaria, assim como o moral daquele que o bebe.

— Convido-os a beber, senhores irmãos — começou Bulba —, não

em agradecimento por causa da honra que me fizeram elegendo-me atamã, nem tampouco em honra dos camaradas que partiram. Não o faço nem por uma coisa nem por outra. Ambos os casos teriam sido suficientes em outras circunstâncias, mas não agora. Temos diante de nós uma tarefa

penosa, que vai exigir grande valentia dos cossacos. — Bebamos, pois, camaradas, .todos juntos pela sagrada fé ortodoxa, fazendo votos para que chegue o dia em que ela se espalhe por toda a terra, e para que todos os muçulmanos que existem no mundo se convertam ao cristianismo. Bebamos também pela Sietch, para que ela constitua sempre uma ameaça aos muçulmanos, para que todos os anos saiam dela novos zaporojianos sempre melhores e mais fortes. E bebamos juntos também por nossa própria glória! Que os nossos netos e os filhos de nossos netos possam dizer que, no passado, nenhum de nós traiu a irmandade e os seus. Bebamos pela fé, senhores irmãos, pela fé!

— Pela fé! — gritaram com uma só voz os que se encontravam na primeira fila.

— Pela fé! — repetiram os mais distantes.

E todos, jovens e velhos, beberam pela fé.

— Pela Sietch! — disse Bulba, erguendo a mão acima da cabeça.

— Pela Sietch! — repetiram com voz grave os da primeira fila.

— Pela Sietch! — disseram os mais velhos, movendo, comovidos, seus bigodes grisalhos. Os jovens, erguendo-se como águias, repetiram:

— Pela Sietch!

E o grito dos cossacos espalhou-se por toda a imensa planície.

— Agora, camaradas, bebamos o último gole pela nossa glória e por todos os cristãos da terra! E todos os cossacos beberam o último gole de seus copos por sua

glória e pela de todos os cristãos da terra. Muito tempo depois ainda se ouvia a frase repetida por todos os acampamentos:

— Por todos os cristãos da terra!

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Os copos já estavam vazios, mas os cossacos permaneciam com os braços levantados. Embora nos olhos de todos se refletisse o brilho causado pelo vinho, podia-se ver neles uma firme resolução. Agora já não pensavam nas vantagens da conquista de um rico espólio, nem tampouco em quem teria mais ou menos sorte em conseguir apresar ouro, armas valiosas, cafetãs bordados ou cavalos circassianos. Não, o sonho deles era igual ao da águia que, do alto de um pico rochoso, abarca com o olhar a imensidão do oceano semeado de galeras e de barcos que são como pequenas aves, enquanto a costa quase invisível mal deixa ver suas minúsculas cidades e suas florestas que se assemelham a campinas verdejantes. Como águias, olhavam em volta de si todo o campo e seu longínquo e obscuro destino. Todo o campo, com seus caminhos e confins, que ficaria juncado de seus brancos esqueletos, bem limpos de seu sangue cossaco, de carros destroçados, de lanças e de sabres partidos. Por ele se espalhariam suas cabeças/ com as tranças e os bigodes retorcidos sujos de sangue coagulado. E os abutres cairiam sobre elas para arrancar seus olhos cossacos. Mas que imenso prazer o de encontrar-se nesta morada da morte, que se desdobraria ampla e livremente! Uma ação generosa nunca se perde, e a glória cossaca não se desvaneceria como quem limpa um grão de pólvora do cano de uma espingarda. Algum velho tocador de pandora, de barba branca caída até o peito, cantará em suas odes esses feitos gloriosos. E essa glória encherá então a terra inteira e as gerações futuras falarão desses valentes cossacos. Pois as odes que cantarão suas façanhas, tal como o sino que se ouve ao longe, graças à sua liga de prata e de puro estanho sonoro, também se espalharão em ondas argênteas pelas cidades e vilarejos mais distantes, pelos palácios e casebres, chamando todos à sagrada oração.

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Nove

Na cidade não ficaram sabendo que a metade dos zaporojianos tinha abandonado o cerco e partido em perseguição aos tártaros. Do alto da torre de observação, as sentinelas apenas tinham visto parte dos carros de abastecimento dirigirem-se para os lados da floresta, mas julgaram tratar- se de um estratagema. O engenheiro francês que se encontrava com os poloneses foi da mesma opinião. Entretanto, acontecia o que, com razão, previra o kochevoi ao dizer que a cidade não teria abastecimento por muitos dias. Como era costume nos séculos passados, os exércitos não calculavam as provisões de que necessitavam. Tentou-se o reabastecimento por meio de incursões ao campo inimigo, mas metade dos que tomaram parte na aventura foi morta e a outra voltou de mãos vazias. Os judeus aproveitavam-se dessas oportunidades para conseguir informações, e ficaram sabendo o motivo da partida dos cossacos, a direção que haviam tomado, o número de acampamentos a que ficara reduzida a facção que sitiava a cidade e qual era a sua intenção. Em uma palavra, dentro em pouco a cidade já sabia de tudo.

Os coronéis retomaram coragem e prepararam-se para a batalha. Pelo movimento desusado e pelo barulho que chegava da cidade, Taras se deu conta disso, em vista do que apressou-se em dar ordens e conselhos, dispondo os kuriens em três acampamentos, que protegeu colocando os carros em círculo à maneira de fortaleza, formação de combate em que os cossacos eram quase sempre invencíveis. Dois kuriens conservaram-se em emboscada. Uma grande parte da planície foi juncada de pontas de lanças, de sabres e estacas pontiagudas, para o caso de se poder atrair a cavalaria inimiga para aquele lado. Quando tudo ficou pronto, dirigiu algumas palavras aos cossacos, não para lhes dar coragem, pois sabia que o moral estava ótimo, sem necessidade de palavras confortadoras, mas apenas porque queria comunicar-lhes o que tinha no coração. — Senhores, quero explicar-lhes o que significa a palavra "comunidade". Vocês com certeza ouviram da boca de seus pais e avós como todos eles veneravam nossa terra, que demonstrou aos gregos o que era; cobrávamos pesados resgates de Bizâncio, nossas cidades eram suntuosas, e seus templos e seus príncipes eram russos e não hereges católicos. De tudo isso se apoderaram os muçulmanos, tudo se perdeu! Apenas nós restamos e a nossa terra abandonada é semelhante a uma viúva privada de seu poderoso sustentáculo! Foi então, camaradas, que nos

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demos as mãos uns aos outros numa unidade fraterna, e assim nasceu nossa comunidade. Não existem laços mais sagrados do que os da camaradagem. O pai quer muito o seu filho, a mãe ama-o também, e o filho, por sua vez, gosta dos pais. Mas, irmãos, isso não é tudo. O animal também ama suas crias, mas só o homem é capaz de se unir ao seu semelhante por outros laços que não sejam os do sangue, os laços espirituais. Outros países conheceram essa espécie de fraternidade, mas nunca foi como na terra russa. Vocês já percorreram países estrangeiros e sabem que por lá também existe gente. Tal como nós, foram criados à imagem de Deus, e se pode falar com eles como se fossem um dos nossos. Mas, desde que sentimos a necessidade de dirigir-lhes uma palavra cordial, não é a mesma coisa. Embora sejam inteligentes, não são expansivos como nós. Não, irmãos, a ninguém foi concedida a capacidade de amar como a que tem a alma russa! É um sentimento que não provém da inteligência, mas de tudo aquilo que Deus colocou dentro de nós! — exclamou Taras, agitando a mão e a cabeça encanecida, movendo emocionado os bigodes. — Ninguém ama como nós! Sei bem que a maldade se espalhou por nossa

terra; só pensam em ter celeiros repletos, nos rebanhos; o único interesse é encher as adegas de barris de hidromel. O Diabo sabe que tipo de costumes muçulmanos foram aceitos e assimilados; a língua materna é desprezada e ninguém quer falar mais com seus próprios irmãos de raça; vendem-se uns aos outros como ao gado no mercado. Para muitos, a confiança de um soberano estrangeiro, o desprezível favor de um príncipe polonês, que não hesita em lhes dar pontapés no traseiro com as suas belas botas amarelas, vale mais do que os laços da fraternidade. Mas por mais imorais que sejam, e ainda que tenham refocilado na pocilga das reverências, ainda sobrevive neles uma partícula de sentimento russo. Sim, chegará a hora em que, tomados de desespero e arrancando os cabelos, eles pedirão para pagar por sua conduta vergonhosa. O mundo inteiro saberá então o que significa a fraternidade em terra russa! E, se têm de morrer, nenhum deles

Nenhum, nenhum! Suas naturezas desprezíveis

morrerá desta maneira!

não o permitirão. Assim falou o atamã. Calou-se por fim, sacudindo com um ar ameaçador a cabeça, que embranquecera nos combates. Todos ficaram comovidos com o discurso, cujas palavras foram direto ao seu coração. Os mais velhos permaneceram imóveis, de cabeça baixa, enquanto secavam lentamente as lágrimas com a manga. Depois todos fizeram o mesmo gesto enérgico com a mão e o mesmo movimento resoluto com a cabeça. Taras ressuscitara neles os sentimentos nobres e elevados que existem em cada homem temperado pela amargura, o trabalho e a audácia diante de todas as

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adversidades, e que os mais jovens apenas adivinhavam por não os haverem ainda experimentado. Nesse momento os exércitos inimigos começaram a sair da cidade, ao som dos tambores e dos clarins; os guerreiros poloneses caminhavam altivamente, rodeados de numerosos escudeiros. O coronel barrigudo deu a ordem de ataque aos acampamentos cossacos, e seus comandados avançaram ameaçadoramente, fazendo pontaria com suas armas de fogo e protegendo os olhos com seus capacetes de cobre. Assim que os cossacos viram que o inimigo estava ao alcance do tiro, abriram fogo cerrado. Os disparos ressoavam pelos trigais em redor, confundindo tudo de maneira ensurdecedora e enchendo toda a frente de batalha de fumaça. Os zaporojianos atiravam sem parar. Enquanto uns carregavam as armas, os outros atiravam ininterruptamente, para grande espanto do inimigo, que não compreendia como se podia disparar sem carregar a arma. A grande fumaceira não permitia que vissem claramente; tampouco se notavam as baixas nas fileiras. Os poloneses viam a chuva de balas que estava caindo sobre eles e começavam a temer o pior. Quando retrocederam, constataram que havia muitos mortos em suas fileiras. As perdas dos cossacos eram ligeiras. Estes não suspendiam o fogo nem por um momento. O engenheiro francês do campo polonês mostrou sua admiração por aquela tática e começou a exclamar diante de todos:

— Olhem para esses valentes zaporojianos! É assim que se deve lutar! A seguir aconselhou que apontassem os canhões para o campo inimigo. As largas bocas de bronze rugiram ameaçadoramente, a terra tremeu e o véu de fumaça que cobria o campo de batalha tornou-se ainda mais espesso. O cheiro de pólvora espalhou-se por toda parte, inundando as praças e ruas da cidade. Mas os artilheiros tinham apontado alto demais, e os projéteis não atingiram o objetivo; depois de haverem percorrido uma trajetória demasiado longa, as balas passaram assobiando por cima das cabeças dos cossacos e foram cair longe do acampamento, explodindo e formando crateras de terra calcinada. O engenheiro francês começou a arrancar os cabelos ao ver tanta imperícia, e encarregou-se ele mesmo de apontar os canhões, enquanto as balas cossacas silvavam à sua volta. Taras, vendo de longe o perigo que ameaçava os kuriens de Niezamaikovski e de Stablinski, gritou, com voz forte:

— Saiam imediatamente de trás dos carros e corram para os cavalos! Mas os cossacos não teriam tempo, de cumprir as duas ordens se não fosse Ostap, que se lançou 'entre os canhões. Já tinha conseguido tirar a mecha das mãos de seis dos dez artilheiros quando o fizeram retroceder. O

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engenheiro estrangeiro, segurando ele próprio a mecha, regulou o tiro da peça de artilharia de calibre que os cossacos nunca tinham sequer visto. A sua enorme e ameaçadora boca era terrível, e a espantosa descarga que vomitou, acompanhada por mais três que abalaram a terra, causou a pior das desgraças. Mais de uma velha mãe cossaca haveria de chorar batendo no peito com a mão ossuda! Mais de uma mulher ficaria viúva em Glukhov, Niemirov, Tchernigov e em outras cidades, e correria todos os dias para o mercado a fim de interrogar os viajantes, olhando-os nos olhos, para ver se entre eles não encontraria um dia seu ente querido. Mas muitos guerreiros passariam por essas cidades e nenhum deles seria o ser amado! Metade do kurien de Niezamaikovski foi ceifada. Tal como a geada que se abate sobre um trigal, pondo por terra as belas espigas maduras, assim os zaporojianos juncaram a planície com seus corpos. Com que fúria lançaram-se então os cossacos à luta! Com que cólera o atamã Kukubenko se precipitou ao ver que a nata de seus homens tinha

perecido! Lançou-se para o centro das fileiras inimigas e, fora de si, cortou como a uma couve o primeiro polonês que encontrou, atirando ao chão vários outros, e transpassou com o sabre um cavaleiro e seu cavalo. Acabava de tomar um canhão quando viu à sua direita o atamã do kurien de Umanski, Stepan Guska, que assaltara o flanco dos poloneses, apoderando-se do canhão maior. Dando meia-volta, precipitou-se contra outro grupo. Por toda parte onde passava com seus homens abria brechas, as fileiras polonesas tornavam-se mais raras e o solo ficava juncado de cadáveres como um campo ceifado. Perto das carroças encontrava-se Vovtuzenko, e, mais à frente, Tcherevitchenko. Nos carros das extremidades, Diogtarienko e, na sua retaguarda, o atamã Vertijvist. Diogtarienko já matara dois poloneses com a sua lança, e atirou-se sobre um terceiro, que era forte e ágil, com luxuosa armadura e com cinquenta escudeiros na sua escolta. Depois de ter derrubado Diogtarienko, ele gritou, agitando o sabre:

— Não há um único cão cossaco que possa bater-se comigo!

— Aqui estou eu! — disse Mosi Chilo.

Era um cossaco muito forte, que, mais de uma vez, tinha sido atamã em expedições marítimas e que já passara por muitos sofrimentos. Em uma de suas expedições, ele e seus companheiros foram capturados em Trebizonda pelos turcos, que os puseram a ferros numa galera, onde os deixaram durante várias semanas sem nada para comer e só bebendo a poluída água do mar. Todos os prisioneiros suportaram esse regime sem renegar sua fé cristã, salvo um, o atamã Mosi Chilo, que, não mais resistindo a tanto sofrimento, pisoteou a santa lei, atou em volta de sua

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pecadora cabeça um turbante muçulmano, conquistou a confiança do paxá

e foi nomeado carcereiro dos escravos e responsável pelas chaves. Isso

muito entristeceu seus infelizes compatriotas, pois bem sabiam que, quando um dos seus traía a fé e passava para o lado dos opressores, era mais duro e amargo estar submetido ao seu jugo do que ao de qualquer infiel. Os seus receios justificaram-se plenamente. Mosi Chilo colocou- lhes algemas, amarrou-os com cordas e correntes, apertando-as até cortarem a carne, e os espancou cruelmente. Mas, um dia em que os turcos, tranquilos e satisfeitos com o novato, esqueceram-se de seu dever e embebedaram-se até caírem desacordados, ele distribuiu entre seus compatriotas as sessenta e quatro chaves das cadeias que os conservavam cativos, jogou os ferros ao mar e distribuiu-lhes sabres para que esquartejassem os turcos. Nesse dia os cossacos conseguiram recolher um grande tesouro e voltaram triunfalmente à pátria e cobertos de glória, e a façanha de Mosi Chilo foi durante muito tempo cantada pelos tocadores de pandora. Quiseram elegê-lo kochevoi, mas ele era muito estranho, não

possuindo as qualidades requeridas para tão alto cargo. Era capaz de coisas que o mais sábio dos homens não teria concebido, mas outras vezes cometia os desatinos mais incríveis. Gastava todo o dinheiro em farras e bebedeiras e encontrava-se endividado com todo o pessoal da Sietch. Uma noite cometeu a ação mais terrível: roubou os arreios de um kurien vizinho

e foi empenhá-los com um taberneiro. Por esse feito vergonhoso foi

punido com um castigo terrível: ataram-no num poste no meio do mercado

e puseram um cacete ao seu lado, para que todo aquele que passasse o

esbordoasse. Mas nenhum dos zaporojianos ousou levantar a mão contra ele, em homenagem aos seus méritos anteriores. Assim era o cossaco Mosi Chilo. — Como não? Ainda há quem possa vencer vocês, seus cachorros! — gritou ele, lançando-se contra o cavaleiro polonês. E começou então um duelo terrível, com golpes mútuos que foram aos poucos destruindo as couraças. Num dos golpes, o polonês enfiou o sabre na carne do inimigo, fazendo o sangue jorrar. Mas Chilo não se importou com isso. Erguendo a mão poderosa, desfechou um golpe poderosíssimo na cabeça do adversário, fazendo voar o capacete e derrubando o polonês. Chilo parecia disposto a cortar em pedaços o homem já morto. "Cossaco, não mates muitas vezes o inimigo, olha para trás antes que seja tarde!" Mas o cossaco não se voltou e, por conseguinte, não viu um escudeiro do polonês correr para as suas costas e cravar-lhe um punhal no pescoço. Virou-se rapidamente para atacar, mas o outro já tinha desaparecido entre a fumaça da pólvora. Os arcabuzeiros atiraram sem

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interrupção. Chilo cambaleou e ergueu a mão até o pescoço. Quando verificou que o ferimento era mortal, inclinou-se lentamente para a frente e só teve tempo de dizer:

— Adeus, irmãos e camaradas! Que a fé ortodoxa russa permaneça

firme e que sua glória seja eterna! Os olhos fecharam-se e a alma cossaca abandonou seu rude corpo. Nesse momento chegou Zadorojni com sua tropa, o cossaco Vertijvist

desbaratava a formação inimiga, e entrou na peleja o atamã Balaban com seus seguidores.

— Então, senhores irmãos, ainda têm pólvora nas escarcelas? —

perguntou Taras aos seus comandados. — A energia cossaca encontra-se

debilitada? Os cossacos estão cedendo?

— Ainda temos pólvora nas escarcelas, nosso pai! A energia cossaca

continua intacta e os cossacos seguem de pé! E os cossacos atacaram com maior violência, desorganizando as fileiras inimigas. O coronel baixo mandou levantar a bandeira para reunir as tropas dispersas. Mas os poloneses não tiveram tempo de executar a manobra em boa ordem, pois o atamã Kukubenko lançou-se sobre eles

com o resto de sua tropa, galopando direto para o coronel barrigudo. Este, não podendo resistir ao embate, deu meia-volta e fugiu a toda a brida, perseguido pelo cossaco, que queria impedi-lo de reunir-se a seu regimento. Vendo isso, Stepan Guska, que estava no flanco, cortou-lhe o caminho com o laço na mão. Com um movimento preciso, o nó corrediço apertou o pescoço do coronel polonês, que, congestionado, tentou arrebentar a corda com as mãos. Uma lança cossaca, arremessada por um pulso firme, penetrou-lhe no abdome. No mesmo instante, Guska também caía, ferido por quatro lanças. O desgraçado ainda teve tempo de dizer:

— Que morram todos os inimigos, para eterna glória da terra russa!

Em outro lugar via-se Mietelitzia, desferindo golpes para todos os lados, enquanto Nievilitchki e os seus massacravam o inimigo. Zakrutiguba, diante dos carros, obrigava os atacantes a retrocederem.

Pisarienko III repelia um destacamento inteiro e travava-se uma luta feroz em torno de todos os carros.

— Então, senhores, ainda têm pólvora nas escarcelas? A energia

cossaca encontra-se debilitada? Os cossacos estão cedendo? — gritava o atamã Taras Bulba, passando entre sua tropa.

— Ainda temos pólvora nas escarcelas, nosso pai! A energia cossaca

continua intacta e os cossacos seguem de pé! Nesse momento Bovdiug caiu de seu carro, com o coração ferido por uma bala. Mas o velho reuniu suas últimas forças para dizer:

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— Não lamento despedir-me da vida. Deus queira que todos possam

ter uma morte destas! Que a terra russa seja para sempre glorificada! — E a sua alma subiu às alturas para juntar-se às dos seus antepassados e contar-lhes como se sabia lutar em terra russa; como nela se sabia morrer pela fé sagrada. Pouco depois tombou também o atamã Balaban, ferido mortalmente por um golpe de lança, uma bala e um sabre polonês. Era um dos cossacos mais valentes e havia comandado como atamã diversas expedições navais, uma sobretudo muito famosa. Haviam-se apoderado de um vasto espólio nas costas da Anatólia e regressavam com os barcos cheios de joias preciosas e sacolas de ouro, quando se produziu um fato lamentável: foram

alvo de fogo violento por parte da marinha turca, que lhes destruiu metade dos navios, mas os juncos presos nas amuradas dos barcos os salvaram. Os cossacos puseram-se em fuga em direção ao sol, para que os turcos não conseguissem vê-los. E durante toda a noite entregaram-se à tarefa de calafetar os rombos e tirar a água com os gorros. Depois fabricaram novas velas com seus próprios charovari, escapando assim da sanha dos turcos. Regressaram sãos e salvos, trazendo consigo uma casula bordada a ouro para o arquimandrita do Mosteiro de Metchigorski, em Kíev, e ornamentos de prata para o templo de Prokov, em Zaporojie. Esse feito dos cossacos foi cantado por muito tempo pelos tocadores de pandora. Agora, às portas da morte, Balaban baixou a cabeça e disse enquanto tombava:

— Entrego-me à morte, senhores irmãos, de alma leve. Derrubei sete

inimigos com o meu sabre, traspassei mais nove com minha lança, pisei em muitos com os cascos de meu cavalo e perdi a conta dos que foram atingidos por minhas balas. Que Deus proteja sempre a terra russa! — E a sua alma deixou-o. Cossacos, cossacos! Não permitam que o melhor de suas tropas seja exterminado! Kukubenko encontrava-se praticamente encurralado e só sobravam sete homens do regimento de Niezamaikovski, que se defendiam desesperadamente com as roupas cobertas de sangue. O próprio Taras, vendo que a situação era desesperadora, correu em seu auxílio. Mas já era tarde e uma lança enterrou-se no coração de Kukubenko, que se deixou cair nos braços que se estendiam para o amparar. O sangue jorrava aos borbotões, como um vinho precioso numa garrafa de. cristal que servos descuidados deixam cair, para desespero de seu dono, que o tinha reservado para sua velhice Kukubenko olhou em volta e disse:

— Camaradas, agradeço a Deus por me ter concedido a honra de morrer na frente de vocês! Que aqueles que vierem depois de nós tenham

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uma vida mais feliz do que a nossa e que a terra russa, amada por Jesus Cristo, seja cada vez mais bela! — E sua alma subiu às alturas. Os anjos receberam-na na entrada do céu, onde gozará de glória eterna.

"Senta-te ao meu lado, Kukubenko, que estás perdoado", dir-lhe-á Jesus Cristo. "Tu não traíste teus irmãos, nunca fizeste nada proibido, não abandonaste teu semelhante na desgraça, e conservaste e vigiaste minhas igrejas."

A morte de Kukubenko foi sentida por todos. As fileiras cossacas

tinham sofrido muitas baixas, mas continuavam firmes.

— Então, senhores, ainda têm pólvora nas escarcelas? Os sabres

continuam afiados? A energia cossaca encontra-se debilitada? Os cossacos

estão cedendo? — gritava Taras aos homens que ainda lutavam como feras. — Ainda temos pólvora, nosso pai! Os sabres continuam afiados, a força cossaca continua intacta e os cossacos não cedem! E os zaporojianos investiram outra vez, como se não tivessem tido uma única baixa. Apenas três atamãs continuavam vivos. A terra estava empapada de sangue e por toda parte viam-se montes de cadáveres de

cossacos e de seus inimigos. Taras levantou os olhos para o céu e viu um bando de abutres que já voava baixo. Só eles tirariam proveito de tudo aquilo! E lá encontrava-se Mietelitzia, atravessado por uma lança, enquanto a cabeça do segundo Pisarienko caía ao solo com os olhos fechados para sempre, e Ochrim Guska desabava do cavalo, ferido por quatro golpes simultâneos.

— Agora! — gritou Taras, agitando o lenço.

Ostap compreendeu imediatamente o significado do sinal e saiu com sua tropa da emboscada onde se encontrava, atacando de surpresa a cavalaria inimiga. Os poloneses não resistiram à pressão, e Ostap aproveitou a confusão para empurrá-los para a zona da planície que estava coberta de estacas e lanças partidas. As montarias dos poloneses começaram a tropeçar e os cavaleiros a saltar por cima das cabeças dos animais. Naquele momento, os arcabuzeiros, que estavam escondidos atrás

dos carros, abriram fogo contra a cavalaria inimiga, provocando o pânico e a debandada dos poloneses. Os zaporojianos se rejubilaram com aquela vitória.

— Vencemos! — gritaram todos, enquanto os clarins cossacos

começavam a tocar alegremente e a bandeira da vitória era desfraldada.

— Esta ainda não é a vitória — disse Taras, olhando para as portas da

cidade, que se abriram para dar passagem a um regimento de hussardos, a fina flor da cavalaria polonesa.

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Vinham todos montados em magníficos cavalos alazães. À frente corria o paladino, o mais corajoso de todo o regimento. Sua cabeleira negra, saindo para fora do capacete brilhante, esvoaçava ao vento, da mesma forma que um lenço de seda todo bordado que trazia amarrado ao braço e que lhe fora dado por alguma bela mulher. Taras ficou estupefato ao dar-se conta de que aquele paladino era Andrei, que estava todo entregue ao ardor do combate, ansioso por se mostrar digno da confiança

que lhe havia depositado aquela que lhe dera o lenço que trazia no braço. Arremeteu contra os cossacos corno um jovem galgo, o mais belo e o mais rápido de toda a matilha, solto por um picador hábil, e que parte num andamento tão rápido que até parece voar por cima do chão com as patas na posição horizontal, inclinando o corpo para um lado, fazendo a neve saltar para todos os lados, com todos os músculos contraídos num esforço tão grande que chega a ultrapassar a lebre em sua louca carreira. O velho Taras ficou abismado ao ver Andrei massacrando os seus, abrindo caminho por entre os cossacos. Taras não pôde conter-se, e gritou:

Atacas teus próprios irmãos, filho do

diabo? Mas Andrei nem sequer distinguia os combatentes uns dos outros. Tinha apenas uma imagem diante dos olhos: a da sua amada. Via as suas

feições admiráveis, a cabeleira sedosa, o peito semelhante ao dos cisnes, os ombros alabastrinos, criados para serem beijados desesperadamente.

— Vamos, rapazes! Atraiam-no para aqui, para o bosque! — gritou

Taras. Foi isso o que fizeram trinta cossacos montados em cavalos rápidos. Afundaram os gorros na cabeça e partiram em passo de carga para atacar os hussardos pelo flanco, e golpeando para todos os lados separaram a vanguarda dos hussardos do grosso do regimento, e Golopitenko chegou mesmo a dar uma forte pranchada com o sabre nas costas de Andrei, fugindo em seguida velozmente em direção ao bosque. Andrei ficou fora de si e seu sangue jovem começou a ferver de raiva. Esporeou o cavalo e partiu atrás dos cossacos, sem ver que era seguido apenas por um punhado dos seus. Os cossacos aproximavam-se do bosque. Andrei estava prestes a alcançar Golopitenko, quando, de repente, uma mão poderosa se abateu sobre a rédea de seu cavalo. Andrei ficou espantado ao ver que diante dele se encontrava Taras. Estremeceu e ficou mortalmente pálido. Como um colegial que, tendo por descuido empurrado um colega e recebido como desforra um golpe de régua na cabeça, se levanta de sua carteira e, enfurecido, sai em perseguição do colega assustado para esmurrá-lo, mas que de repente tropeça no professor que entra na aula, sua

— Como? Contra os teus?

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raiva transformando-se em susto. Assim ficou Andrei ao ver a figura terrível do pai. — E agora? O que faremos? — perguntou Taras, olhando-o fixamente. Mas Andrei não soube o que responder, e continuou imóvel, de olhos baixos.

— Então, filho, estás sendo bem tratado pelos poloneses?

Andrei permaneceu mudo.

— Então traíste tua fé e os teus, não é? Desce do cavalo!

Dócil como uma criança, o rapaz desmontou e, mais morto que vivo, ficou diante de Taras.

— Não te movas! Fui eu quem te botou no mundo e serei eu também

quem te vai matar — disse Taras, recuando um passo e tirando o arcabuz

do ombro. Andrei estava pálido e seus lábios moviam-se imperceptivelmente, pronunciando um nome: mas não era o de sua pátria, nem o de sua mãe, nem o de seu irmão. Era o nome da bela polonesa. Taras disparou. Tal como a espiga ceifada pela foice, ou como um cordeiro que sente

o frio do ferro penetrar-lhe o coração, assim Andrei inclinou ligeiramente a cabeça c caiu sobre a relva sem dizer uma única palavra. O pai assassino conservou-se durante algum tempo olhando o corpo inerte do filho, que, mesmo morto, continuava belo. O rosto viril, momentos antes cheio de força e de encanto irresistível para as mulheres, continuava de uma beleza extraordinária; as sobrancelhas negras como veludo acentuavam a palidez das faces.

— Possuías tudo para ser um verdadeiro cossaco — disse Taras. —

Elegância, rosto nobre e braço forte no combate, mas morreste sem glória, como o mais desprezível dos cães!

— Que fizeste, pai? Foste tu que o mataste? — perguntou Ostap, que

chegava a galope. Taras fez um movimento afirmativo com a cabeça. Ostap olhou fixamente o cadáver. Sentia grande dor pelo irmão.

— Pai, vamos providenciar uma sepultura digna para ele, para que o

inimigo não o injurie e para que seu corpo não sirva de pasto às aves de rapina.

— Não faltará quem o enterre nem quem chore por ele — retrucou

Taras. Mas ficou indeciso por alguns instantes. Não sabia se deixava que o corpo fosse devorado pelos abutres ou se prestava as derradeiras honras ao valor de um cavaleiro, que um bravo deve respeitar, mesmo quando se

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trata de um inimigo. Nesse momento chegou Vovtuzenko a galope.

— O inimigo recebeu reforços e ataca outra vez! — disse.

Mal acabara de pronunciar essas palavras quando chegou Pisarienko

todo esbaforido e a pé.

— Onde estás, pai? Os cossacos te procuram. Nievilitchki, Zadorojni

e Tcherevitchenko foram mortos, mas continuamos resistindo. Ninguém quer morrer sem te ver e sem que tu os vejas pela última vez à hora da morte.

— A cavalo, Ostap! — disse Taras, com pressa de se reunir aos seus

cossacos, para vê-los uma vez mais e para que eles o vissem também pela última vez. Mas não tiveram tempo de sair do bosque. Viam-se por toda parte as forças inimigas, que os cercavam brandindo seus sabres e lanças.

— Ostap, Ostap, não cedas! — gritava Taras, e, arrancando o sabre da

bainha, começou a atacar todos aqueles que se aproximavam. Seus inimigos tinham caído sobre Ostap, mas se deram mal: a cabeça de um voou pelos ares, um outro caiu ferido de morte sobre a relva, um terceiro recebeu um 'golpe de lança entre as costelas, um quarto, mais ágil,

conseguiu evitar um tiro de pistola, mas a bala atingiu o cavalo, que rolou, esmagando com seu peso o cavaleiro.

— Muito bem, meu filho! Muito bem, Ostap — gritava Taras. — Vou

em teu auxílio! E Taras, cercado por todos os lados, defendeu-se desesperadamente,

golpeando sem descanso os assaltantes, sempre sem perder de vista o filho, que se encontrava de novo rodeado por oito adversários.

— Ostap, Ostap, não cedas!

Mas Ostap era vencido, e um polonês que o laçara pelo pescoço já começava a amarrá-lo.

— Ah, Ostap, Ostap! — gritou Taras, abrindo caminho com o sabre para ir em seu auxílio. — Ostap!

caminho com o sabre para ir em seu auxílio. — Ostap! Naquele momento sentiu como se

Naquele momento sentiu como se tivesse sido atingido na cabeça por uma enorme pedra, e tudo começou a dançar diante de seus olhos. Viu ainda durante alguns segundos as cabeças, as lanças, a fumaça, os relâmpagos dos tiros e os ramos frondosos das árvores. Em seguida caiu como o tronco do carvalho golpeado pelo machado. E um nevoeiro

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encobriu-lhe a visão.

Dez

— Será que dormi muito? — perguntou-se Taras voltando a si, e

procurando, como depois de uma prolongada bebedeira, distinguir o que o rodeava. Uma terrível fraqueza invadia seu corpo. Mal conseguia divisar as paredes e os recantos de uma sala desconhecida. Por fim deu-se conta da presença de Tovkatch, que o examinava com preocupação. "É verdade", pensava Tovkatch, "quase não acordavas mais." Mas

conservou-se calado e fez sinal com o dedo, pedindo para que não falasse.

— Onde estou? — perguntou Taras, fazendo um esforço de memória

para se recordar do acontecido.

— Cala-te! — ordenou Tovkatch, com um ar que não admitia réplica.

— Que desejas saber? Então não vês que estás cheio de ferimentos? Há duas semanas que cavalgamos dia e noite e ainda não deixaste de delirar.

Foi esta a primeira vez que dormiste tranquilamente. Cala-te, portanto, se não queres morrer! Taras, porém, não dava tréguas à sua memória, queria a todo o custo reconstituir o que se passara.

— Mas eu tinha caído nas mãos dos poloneses, não é? Como é que

escapei?

— Vais ou não vais ficar quieto, homem do diabo! — exclamou

Tovkatch já sem paciência, como uma ama farta de aturar um menino desobediente. — De que te adiantará saber como escapaste dos inimigos? Encontraste amigos sinceros que te salvaram, é quanto basta! Ainda

teremos de cavalgar por muitas noites. Não penses que conseguirás

escapar como um cossaco qualquer. Oferecem dois mil chervoniets por tua cabeça.

— E Ostap? — perguntou subitamente Taras, tentando levantar-se e

lembrando-se de ter visto o filho sendo capturado pelos poloneses. Uma imensa amargura invadiu-lhe a alma, e, arrancando todas as

ataduras, tentou dizer alguma coisa em voz alta, mas da sua boca só saíram murmúrios incoerentes e a febre apossou-se novamente dele. O companheiro fiel, sem saber o que fazer, censurava-o. Acabou prendendo-o na cama, colocou novamente as ataduras e reforçou-as com talas. Depois, enrolando-o numa pele de boi, como se fosse uma criança envolta numa faixa, atou-o em cima do cavalo e continuou seu caminho.

— Nem que estejas morto, não te abandono aos poloneses. Não

permitirei que esses bandidos menosprezem tua raça cossaca, te esquartejem e te joguem à água. E, se a águia tiver de te arrancar os olhos,

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que seja na nossa estepe, não na polonesa. Nem que estejas morto te levarei para a nossa Ucrânia! Assim falou o devotado companheiro. Cavalgaram incansavelmente noite e dia, e por fim chegaram à Sietch de Zaporojie com o ferido ainda inconsciente. Começou a curá-lo com toda espécie de ervas e cataplasmas. Uma curandeira judia ministrou-lhe também, durante um mês inteiro, inúmeras poções. Taras foi assim se recuperando aos poucos. Graças ao tratamento e à sua forte constituição física, dentro de um mês e meio já estava completamente restabelecido e pôde levantar-se. Apenas as profundas cicatrizes das feridas abertas pelo sabre revelavam a violência dos golpes que recebera. Mantinha-se, porém, taciturno e sombrio. A sua testa achava-se agora atravessada por três profundas rugas, que nunca mais desapareceriam. Costumava ficar olhando em volta: via-se cercado de caras desconhecidas; os velhos camaradas tinham morrido. Não sobrara mais nenhum daqueles que tinham defendido junto com ele a justiça, a fé e a fraternidade. Os que tinham partido com o kochevoi em perseguição aos tártaros também tinham perecido: uns mortos em combate, outros vitimados pela fome e pela sede nos desertos salgados da Crimeia ou pelos tormentos infames do cativeiro. Tanto o kochevoi como os velhos camaradas há muito já não pertenciam mais a este mundo; a erva crescera sobre os restos dos valorosos cossacos. Dava uma sensação semelhante a quebrar em pedaços a louça e os cristais depois de uma grande orgia, na qual se tivesse bebido a última garrafa de vinho, os cálices e as taças de valor houvessem sido roubados e a criadagem e o perturbado dono da casa pensassem: "Teria sido melhor nunca haver organizado semelhante festa!" Em vão procuravam distrair e animar Taras, em vão os tocadores de pandora, em grupos de dois ou três, lhe vinham cantar seus feitos guerreiros. Os olhos do velho cossaco permaneciam frios e insensíveis, o seu rosto imóvel revestia-se de uma expressão dolorosa, enquanto repetia em voz baixa, os olhos pregados no chão:

— Meu filho! Meu Ostap! Os zaporojianos preparavam-se para uma expedição naval; para tanto botaram no Dniepr duzentas embarcações pequenas. Dentro em breve a Ásia Menor viu aparecer em suas costas as cabeças raspadas e as longas tranças dos cossacos, que se entregaram a destruir a ferro e fogo seu próspero litoral; viu os turbantes dos maometanos, espalhados como flores, por suas terras ensanguentadas; viu ainda os charovari sujos de breu dos zaporojianos e mãos musculosas brandindo látegos de couro negro. Os cossacos, depois de comerem todas as uvas, destroçaram as videiras,

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deixaram montes de imundície nas mesquitas e utilizaram os belos xales persas para cingir seus cafetãs. Por muito tempo ainda foram encontrados cachimbos cossacos pelos lugares por onde passaram. Cheios de alegria, os cossacos embarcaram de volta. Mas, perseguidos por uma belonave turca armada com dez canhões, perderam a metade de suas minúsculas embarcações. O que sobrou da frota reuniu-se na foz do Dniepr, trazendo como fruto da expedição vinte barris cheios de ouro.

Mas nada disso conseguia interessar Taras. Vagueava pela estepe sob

o pretexto de caçar, mas não disparava um único tiro. Sentava-se na praia e permanecia durante muito tempo imóvel, repetindo sempre: "Meu Ostap! Meu Ostap! " Cintilava aos seus pés a imensa superfície brilhante do mar Negro e chegava aos seus ouvidos o grito agudo das gaivotas, enquanto seu bigode branco se umedecia com as lágrimas que lhe escorriam pelas faces. Chegou um dia em que Taras não conseguiu resistir mais ao sofrimento: "Aconteça o que acontecer, tenho de descobrir se ainda está vivo, se foi enterrado, se foi abandonado às aves de rapina". Uma semana mais tarde chegou à cidade de Uman, armado dos pés à cabeça. Dirigiu-se imediatamente para um casebre de aspecto imundo e miserável, cujas vidraças se achavam completamente enegrecidas pela fumaça, que não conseguia sair pela chaminé, obstruída por um rolo de trapos onde os pássaros tinham feito ninho. Defronte à porta erguia-se um monte de lixo. Uma velha judia, com a cabeça coberta por uma coifa ornada de azeviche, enfiou a cabeça na janela.

— Teu marido está em casa? — perguntou Taras, descendo do cavalo

e atando a rédea numa argola que havia do lado da porta. — Sim — respondeu a judia, oferecendo um punhado de aveia ao cavalo e uma caneca de cerveja ao cavaleiro.

— Onde está o teu judeu?

— Orando no quarto — respondeu a mulher, fazendo uma profunda

reverência e saudando Bulba enquanto este levava a caneca aos lábios.

— Fica aqui e dá de comer e beber ao cavalo enquanto eu falo com

ele.

O judeu era Yankel, a quem já conhecemos. Atingira a situação privilegiada de intendente e estalajadeiro. Pouco a pouco, os nobres e pequenos fidalgos poloneses de toda a região tinham caído em suas garras; conseguira apropriar-se de uma boa parte do dinheiro que por ali havia e desempenhava o seu papel de judeu com muita habilidade. Numa área de três quilômetros em redor não havia uma choça que estivesse em pé; tudo

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se encontrava - no maior abandono e caindo aos pedaços, pois o dinheiro ia todo para a taberna, e só se viam ruínas e andrajos, como depois de uma peste ou algum cataclismo. O mesmo destino estava, sem dúvida, reservado à região inteira se acaso Yankel aí permanecesse por mais dez anos, pois seguramente arruinaria toda a nobreza.

Taras entrou no compartimento. O judeu orava, coberto com uma toalha, por sinal bastante suja, e ia precisamente voltar-se para cuspir pela última vez, segundo o rito israelita, quando deu com Bulba. A primeira coisa que ocorreu ao judeu foram os dois mil chervoniets prometidos pela cabeça do cossaco, mas logo sentiu vergonha de sua avidez e se esforçou por reprimir a eterna sede de ouro que, como um verme, roía a alma do judeu.

— Escuta, Yankel — disse Taras ao judeu, que o saudou com uma

reverência e fechou cuidadosamente a porta para que ninguém os visse. — Salvei tua vida uma vez. Sabes muito bem que sem a minha intervenção os cossacos teriam te matado como a um cachorro. Chegou a vez de me prestares um serviço.

O rosto do judeu contraiu-se imediatamente.

— Que espécie de serviço? Se for possível, farei de boa vontade.

— Não digas mais nada, e conduze-me imediatamente a Varsóvia. — A Varsóvia? Mas como? — inquiriu Yankel, erguendo as sobrancelhas e os ombros num gesto de espanto.

— Não quero ouvir desculpas. Leva-me a Varsóvia. Aconteça o que

acontecer, quero vê-lo ainda uma vez e dizer-lhe uma palavra.

— A quem queres dizer uma palavra?

— A Ostap, ao meu filho.

— Então, meu senhor, não sabes que

— Sei sim, sei tudo: a minha cabeça foi posta a prêmio por dois mil

chervoniets. Esses canalhas sabem recompensar! Mas eu te dou cinco mil.

Aqui tens dois mil. — E Bulba despejou sobre a mesa as moedas, que tirou de uma bolsa de couro. — O resto receberás quando voltarmos.

O judeu estendeu imediatamente uma toalha por cima das moedas de

ouro.

— Ai, que lindas moedas! Que moedas mais valiosas! — repetia

Yankel, virando e revirando uma peça e mordendo-a. — Creio, meu

senhor, que a pessoa de quem arrebataste estes chervoniets não deve ter ficado com vontade de viver nem mais uma hora, e decerto se matou de desespero.

— O meu desejo seria não te pedir nada. Preferia dirigir-me sozinho a

Varsóvia, mas os malditos poloneses seriam capazes de me reconhecer

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pelo caminho e me prender, pois não tenho .jeito para estas coisas, ao passo que vocês, judeus, nasceram para isso. São capazes de enganar o próprio Diabo, conhecem todos os truques. Foi por isso que vim procurar- te. Além disso, eu sozinho em Varsóvia não saberia o que fazer. Atrela portanto tua carroça e partamos imediatamente.

— Mas, meu senhor, julgas que é assim tão fácil? — replicou o judeu.

— Que basta atrelar a égua, e pronto, vamos para Varsóvia? Pensas que

posso levar-te assim às claras?

— Ora! Esconde-me como quiseres. Dentro de um barril vazio,

talvez?

— Ai, ai! Então, meu senhor, pensas que é assim tão fácil? Será que

não sabes que todos pensarão que eu estou transportando gorielka?

— Que pensem o que quiserem!

— Que absurdo! — exclamou o judeu, levando as mãos à cabeça e

depois erguendo-as em direção ao céu.

— Qual é o problema? Por que todo esse espanto?

— Não sabes então, meu senhor, que Deus criou a gorielka para ser

bebida? Todos haveriam de querer bebê-la. Aqui todo o mundo é guloso e

beberrão. O polonês é capaz de correr cinco verstas atrás de um barril para fazer-lhe um buraco e, ao ver que não sai nada, dizer: "Um judeu nunca transportaria um tonel vazio; deve haver qualquer coisa escondida lá dentro! Agarrem o judeu, amarrem-no, tirem todo o dinheiro e o encerrem no xadrez!" Porque tudo de ruim que acontece é culpa do judeu. Tu bem sabes que o judeu é tratado como um cachorro. Ele não é tratado como uma pessoa, mas como um judeu.

— Então me esconde num carro de peixe!

— Não é possível, meu senhor. Juro por Deus que não é possível. A

Polônia está cheia de gente que morre de fome. Roubariam o peixe e te descobririam.

— Então acha outra maneira, nem que tenhas de convocar o Diabo!

— Escuta, senhor — disse Yankel, arregaçando as mangas e

aproximando-se de Taras com os braços estendidos. — Vamos fazer o

seguinte: estão construindo castelos e fortalezas por toda parte; chegaram de Niemetchina uns engenheiros franceses e as estradas estão cheias de carroças transportando pedra e tijolo. Vais te deitar no fundo de uma carroça e eu te cubro de tijolos. Como és forte, aguentarás bem o peso, e eu farei um buraco no fundo do carro pelo qual passarei o alimento.

— Faze o que quiseres e leva-me de qualquer forma!

E assim, dentro de uma hora, partia de Uman uma carroça carregada de tijolos e puxada por dois cavalos. Um dos animais era montado por

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Yankel, comprido e magro como um espeto, e suas onduladas madeixas, que escorriam para fora do gorro, saltavam ao compasso da marcha do animal. Sua figura sobressaía como um espantalho no meio da estrada.

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Onze

Na época em que se desenrolavam esses acontecimentos, não havia alfândega ou guarda de fronteiras, os viajantes podendo transportar tudo quanto quisessem. Se algum funcionário fazia uma revista nos veículos, era por simples curiosidade, particularmente quando estavam sendo transportadas coisas que chamavam a atenção e se o inspetor tinha suficiente poder para revistar. Mas os tijolos não interessavam a ninguém, passando sem obstáculo algum pela porta da cidade. Bulba, em seu esconderijo, só ouvia o ruído das outras carroças e os gritos dos cocheiros. Yankel, sacudido sobre seu cavalo, seguiu depois de muitas voltas por uma viela estreita e sombria que era chamada de Rua Suja, ou Rua dos Judeus, pois era ali que residiam quase todos os judeus de Varsóvia. Essa rua parecia mais o pátio interno de um edifício. Pelo visto, dava a ideia de que

o sol nunca ali penetrara. Casas de madeira completamente enegrecidas,

com varais que iam de uma janela a outra, as tornavam ainda mais sombrias. De vez em quando se via a nota vermelha de uma parede de tijolos, também enegrecida em alguns lugares. Apenas um ou outro muro caiado oferecia um contraste estranho e contribuía para tornar ainda mais sombrio o bairro. Tudo ali era desordem: chaminés de fogão, louças quebradas, cascas de frutas, trapos e tinas desfeitas espalhavam-se pelo meio da rua. Todo o mundo jogava pela janela tudo de que não precisava mais, expondo-o assim ao interesse dos que passavam. Yankel, montado no sendeiro, quase tocava com a mão nos varais que atravessavam a rua de

lado a lado, nos quais se encontravam dependuradas meias compridas, ceroulas e até um ganso defumado. Por vezes, um lindo rosto hebreu, emoldurado por uma touca bordada em contas de ágata, assomava a uma das janelas. Crianças sujas, desgrenhadas e em farrapos, gritavam e

refocilavam na lama. Um judeu ruivo, com o rosto coberto de sardas, mais parecendo um ovo de gorrião, surgiu a uma janela, entrou em conversação com Yankel na linguagem esquisita deles e mandou-o entrar no pátio com

a sua carroça. Outro judeu que passava pela rua parou e tomou parte na

conversa. Quando Bulba saiu de baixo dos tijolos, viu os três a conversarem animadamente. Yankel voltou-se para Bulba e afirmou-lhe que tudo estava correndo bem, que Ostap se encontrava na prisão de Varsóvia e que, apesar das dificuldades que haveria para subornar os guardas, ele acreditava que conseguiria fazê-lo encontrar-se com o filho. Bulba entrou na casa acompanhado dos três judeus, que recomeçaram

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a discutir em seu incompreensível dialeto. O olhar de Taras ia de um para outro; parecia ter-se apoderado dele algo que o comovia profundamente. O seu rosto rude e indiferente animou-se com um raio de esperança, dessa esperança que nasce por vezes no coração de um homem mergulhado no mais profundo desespero. O seu velho coração batia precipitadamente como o de um jovem.

— Escutem, judeus! — disse ele, e a sua voz parecia tocada pela

emoção. — Vocês são as únicas pessoas deste mundo capazes de conseguir qualquer coisa. São mesmo capazes de ir buscar um homem no fundo do mar, e, desde tempos remotos, o adágio popular diz que, quando um judeu quer roubar, rouba até de si próprio. Ponham em liberdade o meu filho Ostap. Façam o possível para tirá-lo do lugar infernal onde se encontra. Já prometi a este homem doze mil chervoniets. Pois darei mais

doze mil. Tudo o que tenho: minha baixela de prata, o ouro que guardo debaixo da terra, minha casa, minhas últimas roupas. Venderei tudo e farei um contrato com vocês, comprometendo-me a dividir a metade de todo o espólio que conseguir na guerra.

— Mas não se pode, amável senhor, não se pode! — disse Yankel

entre suspiros.

— É verdade, não se pode — confirmou o outro, e os três judeus

trocaram olhares.

— E se tentássemos? — perguntou timidamente o terceiro, olhando

para os outros dois. — Pode ser que com a ajuda de Deus Os três judeus puseram-se a falar em iídiche. Bulba, prestando

atenção, conseguiu perceber a palavra "Mardoqueu", que repetiam diversas vezes.

— Escuta, senhor! — disse Yankel. — Temos de ouvir a opinião de

um homem que é o único no mundo. Igual a ele só Salomão! Se não for capaz de nos ajudar a resolver esta dificuldade, ninguém mais poderá fazê- lo. Espera aqui, toma a chave e não deixes entrar ninguém. — E os judeus saíram todos juntos. Taras fechou a porta e foi para a janela, de onde ficou contemplando a rua imunda. Os três judeus pararam e começaram a discutir apaixonadamente. Logo um quarto e depois um quinto judeu vieram reunir-se a eles. Taras ouviu outra vez pronunciarem a palavra "Mardoqueu". O grupo olhava constantemente para uma porta situada no fundo da rua. Viu-se por fim sair dessa porta um pé calçado com uma pantufa judia e as fraldas de um cafetã curto. — Ei, Mardoqueu, Mardoqueu! — gritaram eles ao mesmo tempo. Um judeu magro, mais baixo do que Yankel, com um rosto completamente enrugado e um lábio

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superior muito grosso, acercou-se do grupo impaciente, e os judeus começaram a falar todos juntos, contando algo; enquanto Mardoqueu olhava de vez em quando para a janela, pelo que Taras compreendeu que a conversação girava em torno dele. Mardoqueu gesticulava muito, ouvia os outros, pronunciando às vezes algumas palavras, cuspia muito, e erguia

constantemente o cafetã para enfiar a mão no bolso, de onde tirou diversas miudezas, deixando ver com esse gesto umas calças esfarrapadas. Começaram a falar tão alto, que o judeu que estava de vigia lhes mandou baixar a voz. Taras começou a temer por sua segurança, mas tranquilizou-se ao lembrar-se de que os judeus têm o hábito de discutir em plena rua e que nem o próprio Diabo é capaz de entender a sua algazarra. Dois minutos depois os judeus voltavam à casa. Mardoqueu aproximou-se de Taras e bateu-lhe amistosamente no ombro, dizendo:

— Quando nós e Deus queremos fazer alguma coisa, tudo corre bem.

Taras examinou aquele Salomão e sentiu alguma esperança. Com efeito, o seu aspecto exterior revelava que ele possuía qualidades excepcionais. Seu lábio superior era espantosamente grosso, sem dúvida devido a algum acidente. Na barba daquele Salomão não havia mais do que quinze pelos, todos do lado esquerdo, e suas faces estavam

literalmente cobertas de cicatrizes, sem dúvida resultantes de sua avareza; perdera certamente a conta, havia muito tempo, de quantas tinha, e considerava-as como uma espécie de sinais de nascença. Mardoqueu saiu com seus camaradas e admiradores de sua sabedoria. Bulba ficou só outra vez. Estava possuído por um sentimento estranho, por uma espécie de febre que era nova para ele. Deixara de ser o homem forte e inflexível de outrora, inabalável como um tronco de carvalho. Qualquer ruído, qualquer figura que surgisse no extremo da rua faziam-no estremecer. Não comeu item bebeu durante todo o dia, sempre com o olhar fixo na única janela do compartimento. Quando já anoitecia, regressaram por fim Mardoqueu e Yankel. O coração de Taras deixou de bater. Com a impaciência de um cavalo selvagem, perguntou: •

— Como é? Correu tudo bem?

Mas, antes que os judeus respirassem para responder, Taras notou que Mardoqueu já não possuía mais a madeixa de cabelos por baixo do gorro. O homem queria dizer algo mas se explicava de tal forma que Taras não

conseguiu compreender coisa alguma. Yankel não parava de levar a mão à boca, como se estivesse bocejando.

— Oh, amável senhor! — disse Yankel, por fim. — É absolutamente

impossível. São todos tão maus que mereciam uma cuspida na cara. Aqui está Mardoqueu, que pode confirmar o que eu digo. Mardoqueu fez aquilo

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que nenhum outro ser humano seria capaz de fazer, mas Deus não o ajudou! Há três mil soldados na cidade, e está marcada para amanhã a execução dos condenados. Taras fitou os judeus, mas tranquilamente, sem cólera.

— Mas, se deseja que lhe consigamos uma entrevista, isso só poderá

realizar-se amanhã de manhã. As sentinelas estão de acordo. Deverá ser antes de o sol nascer. Mas, oh, desejo que não encontrem sossego no outro mundo! Que mundo este, que gente mais odiosa! Igual a eles nem nós mesmos. Tive de dar cinquenta chervoniets a cada sentinela, e quanto ao

— Está bem. Tu me acompanharás — disse Taras resolutamente, e

toda a sua antiga autoridade renasceu. E aceitou o plano de Yankel, que.consistia em ele se disfarçar de conde estrangeiro, recentemente chegado da Alemanha, vestindo para isso a roupa que o previdente judeu já havia preparado. A noite caíra. O judeu ruivo, o dono da casa, trouxe um miserável colchão e o colocou em cima de um banco, para que nele dormisse Taras. Yankel deitou-se em outro igual, mas no chão. O dono da casa, depois de

ter bebido um pequeno copo de uma misteriosa infusão, despiu o cafetã e, ficando de ceroulas e pantufas, adquiriu o aspecto de um frango. Depois foi deitar-se com a mulher em algo que parecia um armário. Dois rapazolas deitaram-se no chão, defronte do armário, parecendo simples cachorros. Taras não dormiu. Permaneceu sentado e imóvel, tamborilando suavemente na mesa, com o cachimbo entre os dentes, soltando baforadas que provocavam espirros constantes no judeu mergulhado no sono, obrigando-o a tapar o nariz com a manta. Mal os primeiros raios da aurora iluminaram o céu, Taras acordou Yankel com o pé:

— Levanta-te, judeu, e traze logo essa roupa de conde.

Vestiu-se rapidamente, pintou de preto as sobrancelhas e o bigode, e cobriu a cabeça com um pequeno barrete negro. Nem os seus fiéis amigos cossacos o teriam reconhecido com • tal disfarce. Parecia não ter mais do que trinta anos. Um rosado saudável coloria suas faces e as próprias cicatrizes davam-lhe um certo aspecto autoritário. A roupa, bordada a ouro, assentava-lhe com perfeição. As ruas ainda estavam desertas. Os vendedores ainda não tinham armado suas tendas. Bulba e Yankel aproximaram-se de um edifício que, pela sua forma, se assemelhava a uma cegonha dormindo. Era uma construção enorme e escura; numa das extremidades erguia-se uma torre

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muito fina, coberta por um telhado. Esse edifício abrigava quartéis, a cadeia e o tribunal onde eram julgados os delitos comuns. " Os nossos dois viajantes cruzaram o portão e entraram num enorme

pátio coberto, onde dormiam mais de mil homens. Dirigiram-se para uma porta baixa, guardada por duas sentinelas, que se entretinham com um jogo que consistia em bater na mão do parceiro apenas com dois dedos. Quase não prestaram atenção aos recém-chegados, e só se viraram para eles quando Yankel falou:

— Somos nós, senhores, somos nós.

— Entrem! — disse um deles, abrindo a porta com uma das mãos, enquanto estendia a outra para não interromper o jogo.

Passaram por um corredor estreito e sombrio, que os conduziu a um compartimento com pequenas janelas muito altas.

— Quem é? — gritaram várias vozes ao mesmo tempo. — Temos ordem de não deixar passar ninguém. Taras viu então um grande número de homens armados.

— Somos nós! — exclamou Yankel. — Juro por Deus que somos

nós, lúcidos Mas ninguém prestava atenção às suas palavras. Felizmente surgiu

naquele momento um homem gordo, provavelmente o chefe, pois gritava e praguejava com mais força do que os outros.

— Senhor, somos nós! Somos nós! Não está nos reconhecendo? O

senhor conde saberá recompensá-lo.

— Deixem-nos passar, que o diabo os carregue! Mas só estes dois e

mais ninguém! Que nenhum de vocês tire o sabre da cintura nem se deite pelo chão como um cachorro! A continuação daquela ordem eloquente não foi ouvida pelos dois visitantes.

Todos nos conhecem — repetia Yankel a

quem quer que encontrasse pelo caminho.

— Então, será possível passar agora? — perguntou Yankel a uma sentinela quando chegaram ao fim de um corredor.

— Passar aqui, pode — respondeu o outro —, mas não sei se

conseguirão entrar na cadeia; Ian já entregou o posto a outro.

— Ai! Ai! — disse o judeu em voz baixa. — Isso é muito grave, amável senhor!

— Somos nós

Sou eu

— Acompanha-me! — comandou Taras imperiosamente.

O judeu obedeceu. Na frente de uma porta em arco que dava para o subterrâneo, encontrava-se postada uma sentinela, cujos compridos bigodes se achavam

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penteados em três direções: a parte de cima levantava-se para o alto; a do meio espetada para a frente; a terceira caída para baixo, o que lhe dava o aspecto de um gato.

O judeu encolheu-se todo e avançou fazendo mesuras e dizendo

palavras lisonjeiras.

— Lúcida e alta dignidade! Lúcido senhor e alto dignitário!

— É a mim que te diriges, judeu?

— Sim, lúcido senhor e alto dignitário!

— Hum Não passo de um simples soldado — disse o bigodudo, com

os olhos brilhando de satisfação.

— E eu, que julguei estar falando com o próprio voivoda! Ai, ai, ai!

— disse o judeu, sacudindo a cabeça e alargando os dedos das mãos. — Ai, que jeito mais marcial! Juro por Deus que pensei que fosse um

coronel! Basta um nada para ser um verdadeiro coronel! Na verdade, só era preciso que o senhor montasse num corcel tão veloz como uma mosca e estaria pronto para comandar regimentos!

A sentinela acariciou a parte inferior do bigode e os seus olhos

ficaram ainda mais brilhantes. — Que militares extraordinários! — continuou o judeu. — Que

uniformes mais lindos! Alamares, fivelas que são mais reluzentes do que o sol! Ai, ai! E o judeu sacudia a cabeça sem parar.

A sentinela cofiou outra vez os bigodes e deixou passar através dos

dentes um som parecido com um relincho de cavalo.

— Senhor, imploro que nos preste um serviço! — disse Yankel. —

Está comigo um príncipe que veio de terras estrangeiras e que gostaria de ver um cossaco. Nunca viu esse tipo de gente. Não era raro chegar à Polônia um conde ou um barão estrangeiro. Vinham atraídos pelo desejo de conhecerem aquela região semiasiática da Europa, visto que Moscou e a Ucrânia já eram parte da Ásia. O soldado fez uma profunda reverência e acreditou ser conveniente pronunciar algumas palavras:

— Não sei, alto e nobre dignitário, porque desejas vê-los. Não são

pessoas, mas cachorros. Além do mais, professam uma religião que ninguém leva em consideração.

— Mentes, filho do diabo! — exclamou Bulba. — O cachorro és tu!

Como te atreves a dizer que ninguém respeita nossa fé? É a de vocês, hereges, é a de vocês que ninguém respeita!

— Ah! — exclamou a sentinela. — Já sei quem tu és.

Pertences a essa raça dos que estão fechados lá dentro. Espera aí que

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já vou chamar gente. Taras arrependeu-se logo daquele impulso de cólera, mas a sua teimosia e o ódio que tinha dentro de si não lhe permitiam dominar-se. Felizmente Yankel interveio.

— Lúcido senhor e alto dignitário! Como é possível que um conde

possa ser cossaco? E, se assim fosse, como poderia usar tão belos trajes e ter um ar tão nobre?

— Tudo isso é mentira! — retrucou a sentinela, e já ia chamar

reforços.

— Alteza real, não grite, não grite, pelo amor de Deus! — exclamou

Yankel apavorado. — Não grite. Será recompensado como nunca ninguém

o foi. Dar-lhe-emos dois chervoniets de ouro!

— Só dois chervoniets? Essa quantia nada significa para mim. £ o

que dou ao meu barbeiro para fazer só um lado do rosto. Vamos, solta cem chervoniets, judeu! — exigiu o soldado, retorcendo os bigodes. — Passa já para cá os cem chervoniets ou eu chamo a guarda!

— Tanto assim? — lamentou amargamente o judeu, muito pálido,

desatando a bolsa de pele. Por sorte só tinha aquela quantia dentro dela, e, ademais, o soldado só sabia contar até cem. — Senhor, vamos logo! Agora já sabe que tipo de gente há por aqui! — continuou Yankel, ao ver que a sentinela recebia o dinheiro com um ar de quem lamentava ter pedido tão pouco.

— E então, soldado do diabo — disse então Taras. — Ficaste com o

dinheiro e não vais nos deixar entrar? Se aceitaste o dinheiro, tua obrigação é permitir que entremos.

— Ora, vão para o diabo! Se não desaparecerem logo, chamo a

guarda! Como é? Vão saindo, já disse!

— Senhor, senhor! Vamos embora o quanto antes. Que o diabo os

carregue! Espero que tenham um pesadelo com o Demônio! — gritou o pobre Yankel. Cabisbaixo, Bulba começou a percorrer o caminho de volta a passos

lentos, perseguido pelas censuras de Yankel, que não se conformava de ter perdido o dinheiro.

— Por que fizeste aquilo? Teria sido melhor haver deixado que

aquele cachorro injuriasse. São pessoas que não podem viver sem estar soltando insultos. Que mundo, meu Deus! Cem chervoniets para nos expulsarem. Aos meus irmãos arrancam os cabelos, batem na cara até desfigurar, mas nunca lhes dão cem chervoniets! O malogro da tentativa agiu em Bulba de maneira bem diversa. Os sois olhos lançavam chispas.

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— Vamos para a praça! Quero ver como vão torturá-lo — disse ele de repente, sacudido por um tremor.

— Oh, meu senhor! Para quê? Nada poderemos fazer por ele!

— Vamos! — repetiu Bulba teimosamente.

E o judeu seguiu atrás dele, suspirando como uma ama-seca.

Não foi difícil encontrar a praça onde se daria a execução, porque para ela acorria gente de todos os lados. Nessa época de costumes terríveis,

tal espetáculo despertava o maior interesse, não só para o populacho, como

também para as classes elevadas. As senhoras de idade, mesmo as mais

medrosas, que depois sonhavam à noite com os cadáveres ensanguentados

e que, nesses sonhos, davam gritos tão fortes que poderiam ser

comparados aos de um hussardo embriagado, não costumavam perder esses espetáculos. "Que coisa horrível! ", gritavam histericamente, fechando os olhos e voltando a cabeça para o lado, mas não pensando sequer em abandonar o lugar. Algumas, como que abobalhadas e com os braços estendidos, queriam passar por cima dos outros para poder ver melhor. Nesse mar de cabeças, idênticas umas às outras, sobressaía a cara bolachuda do açougueiro, que, com ar de bom conhecedor do assunto, a tudo observava enquanto mantinha conversação monossilábica com um armeiro, a quem chamava compadre, porque se embriagavam juntos na mesma taberna nos dias de festa. Outros faziam comentários apaixonados, e havia até quem apostasse. Mas a maioria era gente que, enfiando o dedo no nariz, contemplava indiferente o mundo e tudo o que acontecia em volta. Na primeira fila, misturando-se aos bigodudos guardas municipais, encontrava-se um jovem nobre polonês, ou algo assim, enfiado num uniforme de guerreiro, tendo por cima tudo o que encontrara de melhor em casa. Duas correntes carregadas de medalhas pendiam-lhe do pescoço. Estava junto de sua noiva, Iuzicia, de quem não deixava ninguém se aproximar, temendo que lhe sujassem o vestido de seda. Explicava tudo com os mínimos detalhes à moça. — Toda essa gente que vês, querida Iuzicia — dizia ele —, está aqui para presenciar a execução dos condenados. E aquele que vês com o machado e demais instrumentos nas mãos é o carrasco que os executará. Se forem apenas submetidos ao suplício da roda, ou a outros tormentos semelhantes, conservarão a vida, mas se lhes cortarem a cabeça, então, minha querida, não tardarão a morrer. Primeiro gritarão e esbravejarão, mas assim que forem decapitados não poderão gritar, nem beber, nem comer, minha querida, porque já não terão cabeça. — E Iuzicia ouvia com terror e curiosidade o seu amado. Os telhados estavam apinhados de gente; viam-se nas janelas as caras

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mais estranhas: rostos bigodudos cobertos com coifas. Nas sacadas, por baixo de toldos, encontrava-se a aristocracia, e, pousadas nas balaustradas, viam-se mãos alvas e bem cuidadas. Os bem nutridos dignitários davam-se ares de importância, enquanto um servo, envergando suntuosa libré, lhes servia refrescos e guloseimas. Com frequência, só para se divertirem, estes senhores atiravam bolos e frutas para a multidão. Os famintos estendiam os gorros para ver se caía alguma coisa dentro deles. Um indivíduo, mais alto do que os outros, vestindo um cafetã desbotado e com alamares encardidos que outrora tinham sido dourados, graças aos seus compridos braços, conseguiu agarrar no voo um bolo, que cobriu de beijos, apertou contra o coração e enfiou na boca. Um falcão pendurado por baixo de uma sacada na sua gaiola dourada parecia examinar a multidão atentamente. De repente ouviu-se uma gritaria: "Aí vêm os cossacos!" Caminhavam de cabeça descoberta, com as longas tranças caídas para um lado e a barba por fazer. Marchavam com passo firme e altivez. Suas roupas, de belas fazendas, estavam reduzidas a farrapos. Olhavam fixamente para a frente. Ostap encabeçava a procissão. ' Que teria sentido o velho Bulba ao ver Ostap? Perdido na multidão, olhou atentamente o filho, sem qualquer gesto. Os condenados haviam atingido o lugar do suplício. Ostap parou. Era a ele que cabia a honra de beber o primeiro gole da amarga taça. Fitou os seus companheiros, ergueu a mão e disse em voz bem alta:

— Deus, concede-me a graça de não proferir um único queixume na

presença destes hereges. Fazei que eles não ouçam qualquer exclamação de dor de nossa parte! E aproximou-se do cadafalso.

— Muito bem, meu filho — disse Bulba em voz baixa, baixando a

cabeça branca. O carrasco arrancou os andrajos que cobriam Ostap, apertou-lhe as mãos e os pés nos torniquetes, e Mas poupemos o leitor, será melhor não relatar aquelas torturas diabólicas, pois ficaria de cabelos em pé. Eram consequência daquela época feroz e brutal, em que o homem apenas se preocupava com o brilho das batalhas sangrentas, a ponto de perder todos os sentimentos de humanidade. Em vão um reduzido círculo de pessoas daquele tempo protestava contra esses atos bárbaros. Em vão também o rei e alguns nobres mais lúcidos, intelectual e espiritualmente, se esforçavam por demonstrar que as pavorosas torturas só serviriam para acirrar o ódio dos cossacos. Mas a autoridade do rei e a opinião das pessoas de bom senso não tinham, em definitivo, qualquer espécie de influência sobre o

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temperamento desregrado dos poderosos magnatas que, em virtude de sua arrogância e de sua mesquinhez, haviam transformado a dieta numa caricatura de governo. Ostap suportava como um gigante as torturas. Não soltou um único grito, um único gemido, nem sequer quando começaram a quebrar-lhe os ossos das pernas e dos braços; nem mesmo quando o barulho atroz dos membros esmagados chegou aos ouvidos da multidão silenciosa e as senhoras nobres tiveram de voltar a cabeça com horror. Em nenhum momento saiu de sua boca um queixume ou o rosto contraiu-se. Taras, no meio do povo, ergueu orgulhosamente a cabeça, dizendo em voz baixa: — Muito bem, meu filho, muito bem! Mas, quando chegou o momento do suplício final, as forças pareceram abandoná-lo. Olhou em volta. Só caras desconhecidas! Se ao menos um dos seus estivesse ali para lhe dar coragem na hora da morte. Não que desejasse ouvir os soluços da mãe, nem os gritos de uma esposa esmagada pelo desespero, batendo no peito. Era da boca de um homem valoroso que teria desejado escutar uma palavra de coragem e consolo. As forças lhe faltaram e ele gritou com angústia:

— Pai, onde estás? Estás me ouvindo? Um "Estou te ouvindo!" ressoou no silêncio mortal e fez estremecer a todos os que ali se encontravam. Uma guarda montada dirigiu-se imediatamente para o local de onde tinha partido o grito. Yankel estava mais morto do que vivo. Quando a cavalaria passou por perto, ele se voltou horrorizado para procurar Taras. Mas este tinha desaparecido sem deixar rastro.

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Doze

Mas as pegadas de Taras foram encontradas. Um exército cossaco de cento e vinte mil homens surgiu na fronteira da Ucrânia. Não se tratava mais de uma das expedições dirigidas contra os tártaros ou de um saque. Não. Era toda a nação que estava em pé de guerra, um povo inteiro que se revoltava e queria vingar os seus direitos espezinhados, a humilhação a que eram submetidos os seus costumes, a ofensa contra a fé de seus antepassados, o opróbrio levado aos templos, os excessos dos senhores estrangeiros, a opressão do vergonhoso domínio judeu sobre terra cristã, numa palavra, tudo o que há muito tempo vinha acumulando no coração dos cossacos o rancor e o ódio. O jovem e enérgico atamã Ostranitza comandava todos os exércitos cossacos. A seu lado achava-se o velho companheiro de armas e conselheiro Gunia. Oito coronéis comandavam regimentos de doze mil homens cada um. Atrás do atamã iam dois tenentes-generais e um porta-estandarte geral, e logo vinham uma infinidade de chefes de regimentos, escrivães, os carros de mantimentos e as unidades de infantes e a cavalaria. Este exército estava formado por todos os cossacos inscritos e milhares de voluntários, chegados de todas as partes: de Tchiguirin, de Baturin, de Piereiaslav, de Glukhov e de todo o alto e baixo Dniepr e de suas ilhas. Milhares de cavalos, filas intermináveis de carroças cobriam a estepe. O melhor de todos os regimentos era o de Taras Bulba. Ele próprio se distinguia no meio dos chefes pela sua idade respeitável, pela sua autoridade, pela arte militar, e sobretudo pelo ódio implacável que votava ao inimigo. Sua ferocidade parecia excessiva aos próprios cossacos. Só o fogo e a forca estavam sempre presentes em sua cabeça branca, e todos os seus conselhos militares respiravam aniquilação. Os historiadores descreveram a contento esta campanha. Sabe-se que, na terra russa, a guerra é feita em nome da fé. Uma fé terrível, sem piedade, semelhante a um rochedo inabalável no meio de um mar sempre agitado. A massa rochosa eleva-se das profundezas do oceano, e desgraçado do navio que se chocar com ela! O seu casco será reduzido a pedaços, tudo voará pelos ares e os lamentos de terror dos infelizes marinheiros encherão os ares. A história conta como fugiam as guarnições polonesas das cidades que iam sendo libertadas, como foram enforcados os desalmados arrendatários judeus, a inferioridade revelada pelo oficial da coroa polonesa, Nikolai Pototski, e o seu numeroso exército, perante a cavalgada vitoriosa dos cossacos. Esse general foi completamente batido e metade de

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seu exército afogado no rio. Encurralado na região de Poloniei pelos cossacos, Pototski jurou solenemente que faria conceder aos cossacos, da parte do rei e do governo da Polônia, todas as liberdades e restituir-lhes os antigos privilégios. Os cossacos, porém, conheciam o valor dessas promessas. Pototski não teria mais oportunidade de desfilar com seu cavalo puro-sangue na frente das damas, nem poderia mais oferecer festas suntuosas aos senadores da dieta, se o clero russo de Poloniei não o tivesse salvo. Quando todos os popes, com suas casulas bordadas a ouro, com ícones e cruzes nas mãos, e levando à frente seu bispo com mitra e báculo, saíram ao encontro do exército vencedor, os cossacos se descobriram e inclinaram a cabeça. Nenhum poder humano, nem mesmo o rei, teria sido capaz de submetê-los, mas inclinavam-se perante os popes. O atamã resolveu com seus coronéis deixar partir Pototski, depois de este ter jurado que as igrejas seriam respeitadas e que o exército cossaco tomaria posse de seus antigos direitos. Só um coronel não concordou com aquela paz: Taras Bulba. Arrancando um punhado de cabelos da cabeça, gritou:

— Ei, atamã, coronéis! Não façam esses arranjos de mulheres! Não creiam nos poloneses, pois eles nos trairão!

E, quando o escrivão principal leu o texto do tratado e o comandante o assinou, Bulba ergueu seu sabre de aço damasquino e o quebrou pela metade, como quem quebra uma vara, e, jogando longe os pedaços, exclamou:

— Adeus! Assim como os dois pedaços deste sabre não voltarão a ser

uma só arma, também nós, camaradas, não voltaremos a nos ver neste mundo. Mas não esqueçam estas minhas palavras de despedida. — A sua voz nesse ponto assumiu uma força e um conteúdo profético que impressionou a todos: — Vocês ainda se recordarão de mim na hora da morte! Acaso acreditam que compraram com isso a paz e a tranquilidade? Julgam ter obtido seus legítimos direitos? Pois bem, estes são os direitos de vocês: a d, atamã, esvaziarão a cabeça para enchê-la de serragem para ser exibida em todas as feiras e mercados! Vocês, coronéis, tampouco escaparão! Irão acabar os dias em qualquer masmorra, serão emparedados vivos, isso se não forem assados vivos, como carneiros! Quanto a vocês, rapazes — prosseguiu, dirigindo-se aos cossacos do seu regimento —, se quiserem morrer dignamente, se não desejam acabar acocorados ao lado de suas casas, ou bêbados nas tabernas, mas antes terminar seus dias como verdadeiros cossacos, todos juntos num mesmo leito, que me sigam! Ou será que preferem voltar aos seus lares, para serem convertidos em infiéis, puxando as carruagens dos padres poloneses? — Iremos contigo, coronel! — gritaram todos os cossacos do

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regimento de Taras, e muitos outros vieram também pôr-se sob seu comando. — Então sigamos em frente! — disse Taras. E, enterrando o gorro na

cabeça, lançou um olhar feroz para os que ficavam, empertigou-se na sela e gritou para os seus: — Ninguém poderá nos acusar de nada! Agora, rapazes, vamos fazer uma visita aos católicos! Esporeou seu cavalo e foi seguido por uma coluna de cem carros e por grande número de soldados cossacos. Taras voltou-se diversas vezes para ameaçar com o olhar aqueles que ficavam. Ninguém se atreveu a detê-los.

O atamã e seus coronéis estavam perturbados, pressentiam a

aproximação de graves acontecimentos. Dentro em pouco as profecias de Taras se realizaram. Depois de um traiçoeiro ataque próximo a Kaniev, as cabeças do atamã Ostranitza e de seu estado-maior foram exibidas espetadas em chuços. E que fazia Taras? Marchava com seu exército através da Polônia. Incendiou dezoito povoações e quarenta igrejas católicas e se aproximava de Varsóvia. Matou muitos poloneses; pilhou os castelos mais guarnecidos; derramou no chão das tabernas os melhores vinhos e o melhor hidromel que os nobres poloneses guardavam com cuidado; rasgou

as sedas mais finas; quebrou os utensílios e móveis preciosos dos palácios. "Não poupem nadai", ordenava Taras.

Os cossacos não perdoaram nem as jovens polonesas de rostos alvos e

sobrancelhas negras, que foram queimadas vivas junto com os altares nos quais se escondiam. Mais de uma bela mão muito alva ergueu-se para o céu entre as chamas, entre gritos dolorosos que teriam comovido a própria terra. Mas os duros cossacos permaneciam insensíveis; espetavam as crianças, na rua, com as pontas das lanças, e as jogavam com suas mães à fogueira. "Isto é para que vocês não se esqueçam de Ostap, poloneses malditos! ", dizia Taras. E tais fatos foram se repetindo por toda a Polônia, até que o governo acabou por compreender que não se tratava de simples atos de banditismo. E, assim, encarregou Pototski de ir, com cinco regimentos, capturar Taras. Por seis dias e seis noites os cossacos escaparam à perseguição. Os cavalos, rebentados pela corrida constante, ainda assim continuavam em frente, tentando salvar seus donos. Mas desta vez Pototski correspondeu à confiança que lhe depositavam e, infatigável, perseguiu os cossacos, alcançando-os na margem do Dniestr, onde Bulba ocupara, para refazer forças, uma fortaleza abandonada. Tinha sido construída no cimo de uma rocha escarpada, sobranceira a

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uma curva do rio; as ruínas pareciam que iam precipitar-se na água a qualquer momento. Cercados por Pototski, os cossacos defenderam-se valorosamente durante quatro dias, com tiros, pedras e tijolos. Tendo-se

esgotado as forças e a munição, Taras decidiu abrir caminho através das linhas inimigas. A empresa parecia destinada a triunfar, dada a rapidez dos cavalos, mas Taras, em meio da corrida, gritou:

— Alto! Deixei cair meu cachimbo! Não quero que vá parar nas mãos dos poloneses! — E o velho atamã debruçou-se para apanhar seu inseparável companheiro de tantas campanhas.

Mas logo um grupo de inimigos atirou-se em cima dele. Quis sacudir seus membros vigorosos, mas estes não responderam como em outros tempos.

— Ah, velhice, velhice! — exclamou o corpulento cossaco, e

começou a chorar de raiva. Mas a causa não estava na velhice. Seu fracasso fora devido à força

numérica do inimigo. Uns trinta homens o subjugavam pelos pés e pelos braços.

— Por. fim te pegamos, corvo! — gritaram os poloneses. — Agora vamos decidir que torturas mereces, cachorro.

E foi combinado, com o assentimento de Pototski, queimá-lo vivo

defronte de todo o exército. Ali mesmo o amarraram a uma árvore seca e derrubada em parte por

um raio. Colocaram-no bem no alto, para que pudesse ser visto de muito longe, e começaram a preparar a pira. Mas Taras não estava preocupado com a fogueira que preparavam aos seus pés; de onde se encontrava examinava com preocupação a situação dos cossacos que batiam em retirada.

— Rapazes, tratem de ocupar a colina atrás do bosque! — gritava. — Eles não poderão perseguir vocês até lá. Mas o vento levou suas palavras em outra direção.

— Estão perdidos! Perdidos! — dizia desesperadamente Taras,

olhando para baixo, onde reluzia a água do Dniestr. E de repente seus

olhos começaram a brilhar de alegria: divisara entre os salgueiros os cascos de quatro barcos. Reunindo as últimas forças, gritou: — Para a margem, para a margem, rapazes! Dirijam-se para a esquerda, desçam o rio. Em seguida darão com uns barcos; levem todos para que eles não possam persegui-los.

O vento tinha mudado de direção e as palavras do velho cossaco

chegaram aos ouvidos de seus soldados. Mas esse conselho valeu-lhe uma paulada que o deixou sem sentidos.

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Os cossacos desceram a galope por um caminho estreito e sinuoso, com os poloneses em sua perseguição. De repente a inclinação tornou-se quase vertical; restava-lhes apenas uma possibilidade de salvação: a de se precipitarem no espaço com suas montarias. E foi isso o que fizeram, depois de entrarem em acordo, aos gritos. Com uma chicotada e um assobio incrível, lançaram-se no espaço com seus cavalos tártaros e, semelhantes a pássaros, descreveram uma curva, transpuseram o abismo e foram cair na água. Dois deles apenas não chegaram lá embaixo, pois bateram contra a parte alta e protuberante do rochedo. Os cossacos já nadavam a cavalo e conseguiram chegar até as embarcações. Os poloneses detiveram-se à beira do abismo, admirados com o que viam, e sem saber se deviam saltar ou não. Um jovem e impetuoso coronel, irmão da bela polonesa que havia seduzido o pobre Andrei, lançou-se corajosamente para o abismo. O seu cavalo fez três piruetas no ar e foi despedaçar-se contra uma rocha. A pedra partiu-se com o choque e o cavaleiro rolou para a água, deixando marcas de sangue e pedaços de cérebro por entre as moitas.

marcas de sangue e pedaços de cérebro por entre as moitas. Quando Taras voltou a si,

Quando Taras voltou a si, os cossacos já se encontravam fora do alcance do inimigo, remando com todas as suas forças. Os olhos do velho atamã brilharam de prazer. — Adeus, camaradas! — gritou. — Não me esqueçam, e voltem a dar um passeio por aqui na próxima primavera! Julgam que nos venceram, malditos poloneses, só porque estou nas mãos de vocês? Será que estão pensando que o cossaco tem medo de alguma coisa? Chegará o dia em que vocês ficarão sabendo o que é a fé russa! Todos os povos já começaram a se dar conta de que na terra russa

vai surgir seu próprio czar e nenhum poder do mundo conseguirá vencê-lo!

'

As chamas subiam cada vez mais altas, queimando seus pés, e, lentamente, foram envolvendo a árvore Mas que chamas, que suplícios, que forças seriam capazes de vencer a alma russa? O Dniestr tem muitos afluentes e braços, juncais espessos, baixios e lugares muito profundos; suas águas são rútilas, nele ressoam os gritos dos cisnes e por ele desliza o altivo mergulhão; há milhares de galinholas, galinhas d’água e outras espécies de aves entre seus canaviais. Os cossacos

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navegavam velozes, remando com todas as suas forças, evitando cuidadosamente os baixios, assustando os pássaros e relembrando o seu atamã.

com todas as suas forças, evitando cuidadosamente os baixios, assustando os pássaros e relembrando o seu

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Rosto

Sinopse

Um

Dois

Três

Quatro

Cinco

Seis

Sete

Oito

Nove

Dez

Onze

Doze

Table of Contents

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Índice

Rosto

2

Sinopse

4

Um

5

Dois

15

Três

24

Quatro

32

Cinco

41

Seis

50

Sete

59

Oito

71

Nove

79

Dez

91

Onze

97

Doze

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