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A primeira vez que se escreve alguma coisa, sobre alguma coisa e sem qualquer outro

motivo que não seja a autoexploração do recém acordado geniozinho interior, é como a primeira
vez que se fuma um cigarro. É só para experimentar, não se cria expetativa e faz-se a acreditar
que se não se gostar, não se repete. Nunca é assim. Há sempre uma próxima vez. E de cada vez
que se repete, a expectativa de atingir algo maior naquele momento intensifica-se. Ou seja,
mesmo que não se goste da primeira vez, mesmo que se chegue ao fim e a sensação desencadeie
pouco mais do que um suspiro, é certo: mais cedo ou mais tarde estamos a fazê-lo de novo. Mas
o pior é se caímos no erro de mostrar aquilo que escrevemos a alguém. E, se por grande
infortúnio esse alguém o elogiar, então não há nada a fazer, estamos condenados. Condenados
ao vício, condenados ao falhanço, condenados ao sofrimento das lições não-aprendidas,
condenados à inevitabilidade de sermos obrigados a cumprir um potencial. Nesse dia, o destino
– que está sempre atento e nunca perdoa – condena-nos a passarmos o resto da vida à quem…

Escrever não é mau. Mau é não saber viver sem escrever e não saber o que escrever, a
maior parte das vezes. Mau é depender da inspiração para respirar ar fresco mas ter de fumar um
cigarro para se sentir inspirado. Mau é rejubilar na solidão e ter uma multidão a julgar-nos
tristes. Mau é estar condenado e sentir-se vaidosamente abençoado por essa condenação que
destrói e eleva.

E depois, não em todos os casos, mas em alguns – os dos que mais fatalmente
sucumbiram à condenação – chega o apogético dia em que ganhamos qualquer coisa com a
porcaria que escrevemos, em que começamos a pensar que alguém poderá estar disposto a pagar
pelas vagabundas palavras que imprimimos porque sim. Nesse dia, não é só o trabalho que
vendemos, com ele vai a alma, o senso, a liberdade. Nesse dia, agora sei, deixamos de ser quem
somos para viver o potencial que em nós julgaram.

É por isso que à noite, quando todos dormem e eu flutuo ao ritmo lento da minha
insónia, gosto de olhar pela janela e ver uma luz acesa no prédio em frente (- não conheço os
vizinhos.) Gosto do mistério daquela janela. Pode ser qualquer coisa ou então pode não ser
nada. As sensações frenéticas advêm do potencial e não do efetivo. E é assim que, condenada,
me sinto estranhamente gémea daquela janela.

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