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Neuroses benditas

que à inspiração prometeis

o mais sublime dos versos. Interregnos tangentes

Frenéticos e finitos. Poucas palavras, muita sede.

E meia hora depois, já não é nada.

Noites, ritmos lentos Calor e fumo. Encontrava aquela sensação tóxica, aditiva e doente. Chegava quase lá mas era o nunca conseguir que me excitava. Instrumentais. Tudo tão suave, Tão fluido. Tremores, suores frios, marcha lenta. Porque amanhã é suicídio.

É ali.

Não queres presença, não queres lógica. Só estimulas. E não digas que não estavas à espera involuntário não é o mesmo que imprevisível.

“Hoje não vou ter insónias”

- afirmou ele.

“Tomaste o comprimido?”

- quis saber ela.

“Não, mas vomitei o café.” Dormiu bem. Mas no dia seguinte teve de tomar um comprimido para a azia. Ingeriu-o com o último gole do café da manhã.

Humilde e bem-educado, não pediu nada. Até porque o único pedido que na altura lhe ocorreu foi um laxante. (a enfermeira retirou-se com um sorriso amável que no instante seguinte já lhe deixara saudades. Arrependeu-se então de não ter pedido o tal laxante; o laxante ou qualquer outra coisa que servisse de pretexto para ela voltar ao quarto). Mas francamente era essa a história da vida dele: não ter o que queria por não querer incomodar. Não satisfez a sua vontade mas aquela insatisfação pareceu-lhe familiar o que, na verdade, o sossegou. Não era como queria, mas bastava. E como é sempre tão fatal esse bastar.

Polifagia de sentimento na loucura de um rasgar de lençol com as unhas! ah! de repente apetece-me sentir tudo ao mesmo tempo! dêm-me bofetadas na cara ou não me dêm nada, mas deixem-me sentir! não aqui, noutro lugar qualquer, onde sentir seja permitido e chorar seja o vício. quero ter tudo hoje para poder morrer amanhã. quero amores, quero noites sem dormir, quero países e mares e céus e quero vidas longas em todos eles. quero escrever tudo o que sentir, mas sentir o que não cabe na prosa (e nem na poesia) e viver esse tormento. quero dizer que vivi tudo com a jactância de quem viveu tudo. quero vomitar as entranhas. ai! que agonia não caber neste corpo! não posso viver senão imersa em fantasias e terrores. mas não me iludo mais: a loucura é lúcida em todos os momentos. placebo de quem morre pouco, e vive menos.

Fui tantas vezes sozinha contigo que por outras tantas desejei ser sozinha sem ti. Quando fui não me habituei. Ao contrário do que se diz, pouca coisa vem com o hábito

Além do desespero e da primavera. Se o que tenho não chega nem para a felicidade nem para o suicídio, mais vale que me matem ou morra de acidente. Há muito que experimento a tragédia de uma vida sem tragédia alguma.