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br/raega
Curitiba, v.34, p.50-68, Ago/2015 ISSN: 2177-2738

ANÁLISE DE RELATÓRIOS AMBIENTAIS PRÉVIOS DE


CURITIBA/PR COM BASE NOS PRINCÍPIOS DO PLANEJAMENTO
DA PAISAGEM

ANALYSIS OF PREVIOUS ENVIRONMENTAL REPORTS (PERs) OF


CURITIBA/PR BASED ON THE PRINCIPLES OF LANDSCAPE
PLANNING

Laura Freire Estêvez


Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Curitiba, PR
e-mail: laurafreire.geo@gmail.com

João Carlos Nucci


Departamento de Geografia
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Curitiba, PR
e-mail: nucci@ufpr.br
Recebido em: 23/07/2014
Aceito em: 29/06/2015

Resumo
O Planejamento da Paisagem aplicado ao meio urbanizado tem como um dos
princípios a manutenção ou melhoria da qualidade ambiental urbana, que pode ser
diminuída com a crescente instalação de empreendimentos na cidade. Para avaliar
os impactos ambientais desses empreendimentos antes da sua instalação, o
Estatuto da Cidade (BRASIL, 2001) instituiu o Estudo Prévio de Impacto de
Vizinhança - EIV. O Município de Curitiba realiza estudos de impactos ambientais de
empreendimentos e suas atividades desde 1997 com o estabelecimento do Relatório
Ambiental Prévio – RAP (CURITIBA, 1997). O objetivo do trabalho foi analisar RAPs
elaborados em Curitiba, PR, com base nos princípios do Planejamento da Paisagem
e com isso fornecer subsídios para a reflexão sobre a possibilidade de um
planejamento urbano que considere a qualidade ambiental. Para a avaliação dos
RAPs foram definidos critérios e parâmetros, com base nos estudos de qualidade
ambiental urbana, nos estudos sobre cidades saudáveis da Organização Mundial da
Saúde e em princípios da Flor da Permacultura. Os critérios definidos foram:
Espaços Livres, Cobertura Vegetal, Verticalidade das Edificações, Usos
Potencialmente Poluidores, Estilos de Vida Saudável e Pegada Ecológica. Apesar
de tratar sobre alguns impactos ambientais negativos de forma superficial, os RAPs
não contemplam a grande maioria dos impactos ambientais negativos relacionados
à qualidade ambiental urbana e, mesmo assim, forneceram diagnósticos favoráveis
à instalação dos empreendimentos. Esse diagnóstico foi aceito pelo poder público

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que permitiu a instalação dos empreendimentos, que resultaram em diminuição da


qualidade ambiental urbana.

Palavras-chave: Qualidade ambiental urbana; Planejamento da Paisagem; Impacto


ambiental.

Abstract
The Landscape Planning applied to the urbanized environment has as a principle the
maintenance or improvement of urban environmental quality, which can be
decreased with the increasing installation of enterprises in the city. To evaluate the
environmental impacts of these enterprises before their installation, the brasilian
federal act (BRAZIL, 2001) established the Preliminary Study of Neighborhood
Impact. The city of Curitiba performs environmental impact studies of enterprises and
its activities since 1997, with the Previous Environmental Report (PER). The
objective of this study was to analyze PERs performs in Curitiba, PR, based on the
principles of Landscape Planning and thereby provide subsidies to reflect on the
possibility of an urban planning that considers the environmental quality. For the
evaluation it was defined criteria and parameters based on studies of urban
environmental quality, in studies on healthy cities of the World Health Organization
and principles of Permaculture Flower. The defined criteria were: non-built-up
spaces, Vegetation Cover, Verticality of Buildings, Uses Potentially Polluters, Healthy
Life Styles and Ecological Footprint. Despite of treating about some negative
environmental impacts of superficial form, the studies do not include the vast majority
of negative environmental impacts related to urban environmental quality and still
provided favorable diagnostics to enterprise. These diagnostics were accepted by the
government that allowed the installation of enterprises, which resulted in reducing
urban environmental quality.

Keywords: Urban environmental quality; Landscape Planning; Environmental


impact.

1. INTRODUÇÃO
Os empreendimentos e atividades instalados na cidade podem provocar
impactos ambientais negativos e/ou positivos. Para analisar estes impactos são
elaborados estudos de avaliação de impactos ambientais urbanos. Estes
instrumentos da política urbana, que avaliam os impactos ambientais, têm potencial
para contribuir para um planejamento urbano voltado a uma cidade saudável e
preocupado com a qualidade ambiental urbana.
A qualidade ambiental urbana refere-se a questões do meio biofísico da
cidade e, por esse motivo, vincula-se ao Planejamento da Paisagem, cuja principal

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meta é salvaguardar a capacidade funcional dos ecossistemas e a forma das


paisagens de um modo sustentável e duradouro (KIEMSTEDT et al., 1998).
Em Curitiba o estudo de avaliação de impactos ambientais urbanos,
destacado neste trabalho, é o Relatório Ambiental Prévio (RAP), mas esses estudos
podem não estar garantindo a qualidade do ambiente urbano para a população local.
Diante do exposto, a hipótese formulada foi de que os RAPs não contemplam
grande parte dos impactos negativos do empreendimento e sua atividade quanto à
qualidade ambiental urbana, com base nos princípios do Planejamento da
Paisagem.
Para testar a hipótese foram selecionados junto à Gerência de Planejamento
Ambiental da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) três Relatórios
Ambientais Prévios. Os RAPs ficam armazenados nas salas da Gerência de
Planejamento Ambiental da SMMA, que tem o acesso restrito aos funcionários do
setor, assim, não foi possível conhecer todos os RAPs aprovados. Conforme foi se
tomando conhecimento dos RAPs eles foram solicitados e investigados, num
primeiro momento, para constatar se eram pertinentes à análise da pesquisa. Dessa
forma, os RAPs selecionados estão listados a seguir com a justificativa de sua
escolha:
1. RAP Supermercado Angeloni Bigorrilho (AAT CONSULTORIA E ENGENHARIA
AMBIENTAL, 2007): a escolha se justifica pela atividade do empreendimento e por
abranger a totalidade de um quarteirão em uma área residencial de alto padrão em
Curitiba;
2. RAP Complexo de Edifícios Tanguá Patrimonial (IDEIA AMBIENTAL –
INSTITUTO DE PESQUISA E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA, 2009): este RAP
foi escolhido por ser o único, até o presente momento, que avalia os impactos de
edifícios instalados em Curitiba, além de localizar-se em área central da cidade;
3. RAP Shopping Barigui (BRANDT MEIO AMBIENTE LTDA., 1997): esta escolha
baseia-se na atividade do empreendimento e na proximidade com um importante
parque da cidade, o parque Barigui.
A Figura 1 mostra a localização dos empreendimentos analisados em
Curitiba, Paraná. O número de relatórios avaliados não pretende estabelecer uma

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relação quantitativa com os documentos aprovados até o presente momento em


Curitiba1 (novembro de 2013).

Figura 1: Localização dos empreendimentos analisados.


Elaboração: Gustavo Leli (2014).

Não se tomou conhecimento de RAPs reprovados na SMMA, até porque, por


ser parte integrante do processo de licenciamento ambiental os RAPs são utilizados
para avaliar os impactos negativos dos empreendimentos, mas a viabilidade da
instalação do empreendimento ocorre previamente, em consulta a Secretaria
Municipal do Urbanismo de Curitiba. Assim, os RAPs são elaborados e
posteriormente analisados por técnicos da SMMA, que podem solicitar
esclarecimentos, detalhes ou dados mais específicos sobre os impactos ambientais
do empreendimento a que se referem; os RAPs podem ser reformulados ou
informações podem ser acrescentadas e, então, passam por nova análise, até que
se adequem ao seu objetivo. É comum o poder público exigir medida compensatória

1
Em Curitiba, o RAP foi instituído como instrumento de análise para licenciamento ambiental a partir
o
de 18/08/2007 com a sanção do Decreto Municipal n 838. De acordo com informações da Gerência
de Planejamento Ambiental da SMMA, desde 1998 até novembro de 2013 foram aprovados 81 RAPs.

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dos empreendimentos, em decorrência de impactos negativos. Tais compensações,


normalmente, referem-se a áreas distantes do local de instalação do
empreendimento.
Para analisar os RAPs foram definidos critérios de avaliação da qualidade
ambiental urbana com base nos estudos de Nucci (1996, 2008), estudos sobre
cidades saudáveis da Organização Mundial da Saúde (BARTON; TSOUROU, 2000),
e em contribuições dos princípios extraídos da Flor da Permacultura (HOLMGREN,
2001).
Foram retirados dos estudos de qualidade ambiental urbana os critérios
Espaços Livres, Cobertura Vegetal, Verticalidade das Edificações e Usos
Potencialmente Poluidores. Os critérios Estilos de Vida Saudável e Pegada
Ecológica foram inseridos na análise sob a influência dos estudos sobre cidades
saudáveis e dos princípios da Flor da Permacultura.

1.1. Espaços Livres


Para a análise desse critério nos RAPs é importante definir conceitos,
classificações, distribuição espacial, qualificação e quantificação, para que os
valores calculados tratem da mesma conceituação e possam, assim, ser
comparados entre si, possibilitando a discussão.
As funções dos espaços livres urbanos têm algumas diferenças entre os
autores que trabalham com o tema, mas a importância da existência de espaços
livres urbanos, quanto às funções ecológicas, sociais ou econômicas, é sempre
exaltada (MONTEIRO, 1976; SITTE, 1992; PUPPI, SEM DATA; MASCARÓ, 1996;
HOWARD, 1996; NUCCI; CAVALHEIRO, 1999; NUCCI, 2001; KRÖKER, 2005;
JIM; CHEN, 2006).
Espaços verdes são um subgrupo da categoria espaços livres de edificações,
assim, todo espaço verde é espaço livre, mas nem todo espaço livre é espaço verde.
Buccheri Filho (2010) deu um passo importante na conceituação dos termos
relacionados aos espaços livres de edificação ao definir as expressões Espaços de
Uso Público, Livres de Edificação (EUPLEs) e Espaços de Uso Público, Livres de
Edificação e com Vegetação (EUPLEVs).

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Outros estudos, na mesma linha de raciocínio, sugerem que os espaços


urbanos possam ser classificados em espaços edificados, espaços livres de
edificação e espaços de integração viária (CAVALHEIRO; DEL PICCHIA, 1992;
PIVETTA et al., 2005; VALASKI, 2013).
Pivetta et al. (2005) sistematizou os valores dos espaços urbanos de cidades
alemãs (Quadro 1), nas quais os espaços livres de edificação giram em torno de
50% dos espaços urbanos.

Tipos de Berlim Hamburgo Munique Colônia Frankfurt Hannover


espaços (%) (%) (%) (%) (%) (%)
Espaços livres
45 54 43 53 60 53
de edificações
Espaços com
Edificações + 55 46 57 47 40 47
Sistema Viário
Quadro 1: Índices de espaços urbanos em diferentes cidades da Alemanha.
Fonte: Berlim (2001 apud PIVETTA et al., 2005).
Organização: (2012).

No Brasil, estudos de qualidade ambiental urbana calcularam a proporção de


espaços urbanos de algumas áreas: o distrito de Santa Cecília (MSP) continha
meros 2% da superfície coberta por espaços livres públicos contra 78% de espaços
edificados e 20% de espaços de integração viária (NUCCI, 1996); no bairro
Bacacheri, Curitiba/PR, foram encontrados 30% de espaços não edificados e 70%
de espaços com edificação somados aos espaços de integração viária (PIVETTA et
al., 2005).
Frente às informações e valores apresentados, nos RAPs a análise do critério
espaços livres iniciou-se pela identificação da presença (ou não) de espaços livres,
da tipologia e de aspectos sobre a proporcionalidade dos espaços urbanos, tendo
como parâmetro de referência, definido para este trabalho, 40% de espaços livres de
edificações para cada bairro.
Assim sendo, para bairros com cerca de 40% de espaços livres de
edificações considera-se alta qualidade ambiental, conforme o valor de espaços
livres decresce, se afastando do parâmetro de referência, a qualidade ambiental vai
diminuindo.
Nesta pesquisa optou-se por trabalhar com parâmetros de referência mais
restritivos, em contraposição a outros trabalhos de qualidade ambiental urbana que
utilizaram para análise parâmetros menos restritivos. Essa escolha se justifica por se
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considerar que pouco tem sido feito com relação à manutenção e conservação da
qualidade ambiental urbana, portanto, é necessário estabelecer parâmetros que
contribuem mais para melhorar a qualidade ambiental urbana.
Os espaços livres podem ser quantificados em porcentagem ou em
m2/habitante e a discussão da proporção entre os espaços urbanos é importante
para refletir sobre os impactos negativos para a qualidade ambiental com a
implantação do empreendimento.
É também de suma importância que o município tenha leis que determinem o
quanto de espaços livres devem estar disponibilizados para a população. Na
Alemanha, por exemplo, os setores de planejamento indicam 40% para espaços
livres, 40% para espaços edificados e 20% para espaços de integração viária.
Além da proporcionalidade de espaços livres, o município deve ter
indicadores de m2/hab., por faixa etária, distância, etc., como mostra a Quadro 2
disponível em Nucci (2008, p. 34), que apresenta uma proposta de sistema de
espaços livres.

Quadro 2: Sugestão de índices urbanísticos para espaços livres.


Fonte: Jantzen (1973 apud CAVALHEIRO; DEL PICCHIA, 1992).

Mas, não basta analisar os espaços livres apenas no âmbito local, é


necessário analisar os espaços livres em escalas menores, como ocorre no
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Planejamento da Paisagem aplicado na Alemanha, onde é utilizada a identificação e


espacialização em várias escalas - local, regional e nacional – (Figura 2) dos
critérios e parâmetros de qualidade ambiental, necessárias para a tomada de
decisão (HAAREN et al., 2008).

Figura 2: Diferentes escalas de atuação do Planejamento da Paisagem.


Fonte: HAAREN et al. Federal Agency for Nature Conservation, 2008.
Organização e tradução: Simone Valaski (2013, p. 37).

A análise realizada em diferentes escalas permite a definição, por exemplo,


de medidas para o desenvolvimento de espaços livres, por meio da fixação de
prioridades para a conservação, recuperação e medidas de desenvolvimento
(HAAREN et al., 2008).

1.2. Cobertura Vegetal


Assim como no critério espaços livres, para o critério cobertura vegetal deve-
se trabalhar com diversas escalas, como proposto no Planejamento da Paisagem.
A questão de trabalhar com diversas escalas aplica-se a todos os critérios de
qualidade ambiental urbana, com a diferença de que alguns podem apresentar
dificuldades para a espacialização. Ainda assim, é possível a análise dos critérios
com base nas diferentes escalas. Do mesmo modo, a conceituação, classificação,
qualificação e quantificação são elementos relevantes para a análise de todos os
critérios e seus parâmetros.
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Realizar o cálculo do índice de cobertura vegetal em porcentagem e em


2
m /habitante permite a comparação e discussão de parâmetros, comumente,
utilizados nos estudos de qualidade ambiental urbana. O aumento ou a diminuição
de cobertura vegetal no bairro e o índice de cobertura vegetal pode servir como
medida do impacto ambiental.
Do mesmo modo que para os espaços livres, o município deveria ter leis que
indicassem os valores mínimos de cobertura vegetal, em porcentagem e em
m2/habitante, para cada unidade de paisagem do município.
Além de quantificar a cobertura vegetal, a análise da localização e dos
padrões das manchas de cobertura vegetal (JIM, 1989) aprofunda a análise, e
quanto mais conexão entre as manchas melhor a qualidade ambiental.
Segundo Moura; Nucci (2005), o porte da vegetação também poderia ser
considerado, os diferentes estratos (arbóreo, arbustivo e/ou herbáceo) refletem em
variações no conforto térmico, na qualidade do ar, no escoamento superficial, no uso
pela população, entre outros, que interferem sobre a qualidade ambiental urbana.
Oke (1973 apud LOMBARDO, 1985) sugere os seguintes parâmetros: um
índice de cobertura vegetal recomendável para proporcionar um adequado balanço
térmico em áreas urbanas seria na faixa de 30%, e áreas com um índice de
cobertura vegetal inferior a 5% determinam características semelhantes às de um
deserto.
Assim, o parâmetro de referência definido para a análise dos RAPs, nesta
pesquisa, é de 30% de cobertura vegetal para o bairro, por ser o valor que indica
boa qualidade ambiental urbana.

1.3. Verticalidade das Edificações


O critério verticalidade das edificações tem relevância para a análise dos
impactos negativos quando o empreendimento tem mais de quatro pavimentos.
Caso contrário, com quatro ou menos pavimentos, o empreendimento não oferece
impactos negativos para este critério, já que por se tratar de um meio urbano é
preciso que haja espaços edificados destinados à moradia, comércio, serviços, etc.
Assim, para os empreendimentos com mais de quatro pavimentos podem ser
apresentados e discutidos os problemas e consequências sobre o ambiente

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advindos da verticalização. Nucci (1996) sistematizou as consequências negativas


do adensamento populacional para a qualidade ambiental, principalmente causado
pela verticalização nas áreas urbanas (Figura 3).
Com base no fluxograma elaborado por Nucci (1996) é possível definir os
impactos negativos do empreendimento em análise nos estudos de impactos
ambientais com relação ao critério verticalidade das edificações.
Para este critério pode ser interessante cartografar, na bacia hidrográfica onde o
empreendimento está inserido, os edifícios com mais de quatro pavimentos,
posterior a isso, analisar sua distribuição na bacia, analisar a concentração de
edifícios e o número de pavimentos dos mesmos, pois quanto maior a concentração
de edifícios e o número de andares, maior é o impacto negativo sobre a qualidade
ambiental urbana.

Figura 3: Fluxograma das consequências do adensamento por verticalização das edificações, de


acordo com Nucci (1996, 2001, 2008).
Fonte: Nucci (2008)

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1.4. Usos Potencialmente Poluidores


Os empreendimentos desenvolvem atividades que podem exercer maior ou
menor impacto ambiental negativo. Variando de acordo com a atividade
desenvolvida pode haver aumento da poluição sonora, aumento da poluição do ar,
aumento do fluxo de veículos 2, armazenamento de substâncias químicas e tóxicas
para o ambiente e para os seres humanos, por exemplo.
Assim, as atividades exercidas pelo empreendimento podem ser
consideradas como potencialmente poluidoras. Nesse sentido, mapear os pontos
potencialmente poluidores no bairro, identificar os riscos potenciais e analisar sua
área de influência é importante para a análise dos impactos negativos dos
empreendimentos.
Apenas uma atividade potencialmente poluidora localizada em uma quadra,
pode não ocasionar grandes transtornos, porém, havendo um sinergismo de usos
potencialmente poluidores, quando esses usos vão se espalhando por uma quadra
ou por mais quadras de um bairro, por exemplo, e a soma de todos eles pode
ocasionar uma grande diminuição da qualidade ambiental.
Mesmo que os estudos de impacto ambiental sejam feitos nos
empreendimentos separadamente, é preciso levar em conta que pode haver um
sinergismo de usos potencialmente poluidores, por isso, é preciso mapear todos os
usos potencialmente poluidores do bairro.

1.5. Estilos de Vida Saudáveis


Para este critério é pertinente avaliar/comparar outras possibilidades de uso
da terra para o terreno onde o empreendimento e sua atividade pretende ser
instalada, pensando em uma cidade saudável.
Outro fator importante é analisar a mobilidade e a acessibilidade com relação
ao empreendimento, com a análise e o mapeamento do sistema de movimentação,
contemplando o sistema viário, áreas para caminhadas, ciclovias e pontos de coleta
do transporte coletivo.
2
Os impactos ambientais poluição sonora, poluição do ar e fluxo de veículos foram discutidos em
capítulos anteriores, pois são intrínsecos a análise do critério Usos Potencialmente Poluidores.
Portanto, não foram utilizados como critérios na análise dos RAPs, mas são observados para a
avaliação do critério a que pertencem.

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Em decorrência do pensamento econômico predominante, o carro é sempre


ponderado para percorrer a cidade da residência até os locais de consumo e de
lazer, por exemplo. Então, os estacionamentos são um ponto crucial na construção
das edificações, sendo responsáveis por impactos negativos significativos sobre a
vizinhança, consequentemente, acarretando em diminuição da qualidade ambiental
urbana.
A recomendação da OMS é que o pedestrianismo deveria ser a principal
prioridade no sistema de movimentação, onde houver conflito nas rotas de pedestres
e tráfego, as rotas de pedestres deveriam ter prioridades e estarem sempre abertas
(BARTON; TSOUROU, 2000).

1.6. Pegada Ecológica


A forma como a cidade cresce atualmente é pautada pela racionalidade
econômica, não se pensa em minimizar o uso dos recursos naturais, em consumir
produtos e alimentos locais, em realizar processos de compostagem, por exemplo,
para diminuir os resíduos gerados pelo consumo excessivo.
Para o critério pegada ecológica, mostrar os mais relevantes fluxos de
entrada e saída de matéria e energia do empreendimento (pensando desde a
produção até a deposição dos resíduos) evidencia a pegada ecológica impressa
pela atividade. Além de apresentar os fluxos é importante reforçar os impactos
ambientais negativos decorrente deles.

2. MATERIAIS E MÉTODOS
Com os critérios definidos, foi realizada a leitura dos RAPs na Gerência de
Planejamento Ambiental, na SMMA, onde estão disponíveis para consulta. As visitas
à SMMA se deram nas seguintes datas: 01 de fevereiro de 2012, 27 de fevereiro de
2012, 14 de maio de 2012, 29 de outubro de 2013, 30 de outubro de 2013, 26 de
novembro de 2013 e 28 de novembro de 2013.
Para a análise dos documentos foi realizada uma abordagem qualitativa, com
o método de aplicação de um formulário no formato de uma lista de checagem
(Figura 4 e 5).

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INFORMAÇÕES GERAIS
RAP
TÍTULO
EMPRESA RESPONSÁVEL PELO RAP
DATA DE ELABORAÇÃO

TÉCNICOS RESPONSÁVEIS

ENDEREÇO DO EMPREENDIMENTO

ÁREA DE INFLUÊNCIA DO
EMPREENDIMENTO
(Área de Influência Direta - AID; Área de
Influência Indireta -AII)
MEDIDA MITIGADORA /
COMPENSATÓRIA
Figura 4: Check-list para avaliação dos impactos negativos presentes nos documentos – parte 1 –
informações gerais.
Elaboração: (2012).

ANÁLISE QUANTO AOS CRITÉRIOS


ORIENTAÇÕES PARA A COLETA DE
CRITÉRIOS DE INFORMAÇÕES
INFORMAÇÕES SOBRE CADA CRITÉRIO E
QUALIDADE AMBIENTAL COLETADAS NO RAP
POSSÍVEIS PARÂMETROS
Presença de aspectos sobre a proporcionalidade
dos espaços urbanos
ESPAÇOS LIVRES
Parâmetro de referência: 40% para espaços livres
de edificação
Presença de aspectos sobre o critério, como o
2
índice de cobertura vegetal em m /hab. ou em
COBERTURA VEGETAL
porcentagem
Parâmetro de referência: 30% de cobertura vegetal
Presença de aspectos sobre as edificações na
VERTICALIDADE DAS bacia e discussão, como a concentração de
EDIFICAÇÕES edifícios e o número de pavimentos
Parâmetro de referência: acima de 4 pavimentos
Presença de aspectos sobre potenciais usos
poluidores (poluição do ar, da água, do solo,
USOS POTENCIALMENTE aumento de tráfego de veículos, armazenamento de
POLUIDORES substâncias químicas e tóxicas)
Parâmetro de referência: identificação de todos os
usos potencialmente poluidores do bairro
Presença de aspectos do sistema de movimentação
(viário, ciclovia, caminhada, pontos de ônibus);
ESTILOS DE VIDA presença de sugestão de outras opções de
SAUDÁVEIS instalação para o local do empreendimento
Parâmetro de referência: fatores relacionados a
promover uma cidade saudável
Presença de aspectos sobre o fluxo de matéria e
energia relacionado ao empreendimento; aspectos
sobre consumo de recursos naturais, destinação de
PEGADA ECOLÓGICA
resíduos
Parâmetro de referência: impactos negativos
relacionados ao fluxo de matéria e energia
Figura 5: Check-list para avaliação dos impactos negativos presentes nos documentos – parte 2 –
análise quanto aos critérios.
Elaboração: (2012).

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Foi feito o levantamento dos critérios e parâmetros de avaliação da qualidade


ambiental urbana nos documentos, que pretende responder se os critérios definidos
na pesquisa (espaços livres; cobertura vegetal; verticalidade das edificações; usos
potencialmente poluidores; estilos de vida saudáveis e pegada ecológica) estão
presentes nos RAPs que estão sendo elaborados.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
O Quadro 3, a seguir, traz a síntese da avaliação dos três RAPs analisados.
Os três RAPs avaliados concluem pela viabilidade ambiental dos
empreendimentos. Mas, conforme mostrado nas análises dos RAPs, os impactos
negativos sobre o meio biofísico decorrentes desses empreendimentos são
significativos e causam a diminuição da qualidade ambiental urbana.
No entanto, os impactos negativos sobre o meio biofísico, quando são citados
nos RAPs, são atenuados. Assim sendo, é possível considerar que os RAPs não
contemplam os impactos negativos do empreendimento e sua atividade quanto à
qualidade ambiental urbana, com base nos princípios do Planejamento da
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IMPACTOS
INFORMAÇÕES EXISTENTES NO NEGATIVOS SOBRE
RAP CRITÉRIOS COMENTÁRIOS
RAP O MEIO BIOFÍSICO
CITADOS NO RAP
O bairro Bigorrilho apresentava 0,88% de espaços
ESPAÇOS LIVRES --- --- livres em 2000, muito aquém dos 40% de espaços
livres sugeridos como parâmetro para o critério.
Ao analisar a
O bairro Bigorrilho tinha 5,47% de
supressão da Os 5,47% de cobertura vegetal do bairro Bigorrilho
cobertura vegetal.
COBERTURA vegetação o RAP são muito inferiores aos 30% (parâmetro de
Na área do empreendimento havia
VEGETAL refere-se aos impactos referência) e deveria ser aumentada, mas houve
6,46% de cobertura vegetal, que
sobre o solo e a supressão de vegetação.
pretendiam ser suprimidas.
poluição sonora.
VERTICALIDADE
--- --- O critério não impacta negativamente nesse caso.
DAS EDIFICAÇÕES
Trata da poluição do ar e sonora O RAP não mapeia os demais usos potencialmente
SUPERCENTER
causadas pelo aumento do fluxo de Aumento da poluição poluidores do bairro.
ANGELONI USOS
veículos. Informa que há três tanques do ar e sonora e Devido aos tanques de combustível, caso ocorra um
POTENCIALMENTE
de combustível no subsolo do aumento do fluxo de acidente, a área mais próxima ao empreendimento
POLUIDORES
supercenter utilizados para fornecer veículos. pode sofrer impactos negativos maiores.
energia. Empreendimento potencialmente poluidor.
O RAP não considera outros usos para o terreno. O
ESTILOS DE VIDA
--- Aumento do tráfego empreendimento está voltado ao acesso por veículos
SAUDÁVEIS
automotores.
Impactam negativamente o tipo de uso do solo, o uso
PEGADA de recursos naturais, o fluxo de mercadorias, a
--- ---
ECOLÓGICA deposição de resíduos e a não valorização da
comunidade local.
O bairro Centro Cívico possuia 17,4% de espaços
ESPAÇOS LIVRES --- --- livres, ainda distante dos 40% definidos como
parâmetro.
O empreendimento não provocaria
Como não há cobertura O bairro Centro Cívico tinha 8,18% de cobertura
impactos negativos sobre a cobertura
COBERTURA vegetal no terreno, o vegetal, menos de um terço do parâmetro de
vegetal presente no bairro. Afirma
VEGETAL RAP afirma que não há referência (30%); qualquer retirada de vegetação
que a área do empreendimento era
impacto significativo. deveria ser proibida.
totalmente antropizada.
Os três edifícios possuem mais de quatro
O RAP afirma que haveria alteração Referência ao impacto pavimentos, portanto, impactam negativamente
VERTICALIDADE
na percepção ambiental pela visual provocado pelas sobre aspectos biofísicos da cidade. Acentuados por
DAS EDIFICAÇÕES
construção dos três edifícios. edificações. concentrar os edifícios lado a lado e pelo elevado
número de pavimentos.
COMPLEXO
Haverá sobrecarga dos serviços públicos (coleta de
EMPRESARIAL O RAP trata da geração de resíduos Há referência no RAP
resíduos, redes coletoras e nos depósitos de lixo do
E RESIDENCIAL sólidos e líquidos. Afirma que haverá sobre os impactos mais
município). Mistura de usos incompatíveis ou
TANGUÁ USOS mistura de atividades no local. relevantes, que seriam
inconvenientes e aumento do tráfego de veículos,
PATRIMONIAL POTENCIALMENTE Aborda, também, a questão do a poluição do solo e da
com diminuição da qualidade do ar. Não houve o
POLUIDORES trânsito e de estacionamento, sem água decorrente da
mapeamento dos demais usos potencialmente
apresentar os impactos negativos geração de resíduos
poluidores do bairro. Empreendimento
sobre o meio biofísico. sólidos e líquidos.
potencialmente poluidor.
Construção de três pavimentos de
O empreendimento direcionado ao uso de
subsolo para estacionamento (552 Impacto negativo
ESTILOS DE VIDA automóveis, sem apresentar outras opções de
vagas) e de espaços de embarque e significativo sobre o
SAUDÁVEIS mobilidade. O RAP, também, não apresenta outras
desembarque de veículos. Além de sistema viário.
opções de uso para o terreno.
um bicicletário com vinte vagas.
Cita a maior utilização de recursos Impactam negativamente o tipo de uso do solo, o uso
PEGADA naturais com a produção de bens Aumento do consumo de recursos naturais, o fluxo de mercadorias, a
ECOLÓGICA edificados e o consumo de energia de recursos naturais. deposição de resíduos e a não valorização da
elétrica e de água. comunidade local.
O bairro Mossunguê possui 0,8% de espaços livres,
contra quase 99,2% de espaços edificados mais
O RAP cita a presença do parque
ESPAÇOS LIVRES --- espaços de integração viária. O índice calculado é
Barigui próximo ao empreendimento.
muito inferior aos 40 % e significa grave diminuição
da qualidade ambiental urbana.
Considerou que o
Mapeamento de biótopos da área impacto sobre as áreas O bairro Mossunguê apresentava 29,54% de
COBERTURA próxima ao empreendimento. Mostra de vegetação seria cobertura vegetal, muito próximo dos 30% definidos
VEGETAL a existência de corredores de pouco significativo, como parâmetro. Mas, o RAP não trouxe essas
vegetação. apesar da remoção de informações.
habitats.
Afirma que por ser uma área Como não apresenta mais de quatro pavimentos, o
Referência ao impacto
VERTICALIDADE degradada, a construção do shopping não provocaria os impactos negativos,
visual provocado pelas
DAS EDIFICAÇÕES empreendimento deveria melhorar mas, por ser uma edificação de grande porte, pode
edificações.
visualmente o local. acarretar importantes alterações do meio biofísico.
SHOPPING
Traz medições sobre a poluição do ar Pode haver aumento
BARIGUI O empreendimento apresenta riscos potenciais de
e da água. A geração de tráfego é desses tipos de
USOS geração e aumento da poluição do ar, da água, do
um fator importante levantado no poluição. Aumento de
POTENCIALMENTE solo e da poluição sonora. O RAP não mapeou os
RAP, que garante vagas de ruídos oriundos do
POLUIDORES usos potencialmente poluidores do bairro.
estacionamento para atender a trânsito de veículos na
Empreendimento potencialmente poluidor.
demanda. área.
O empreendimento trará impactos
O RAP não avaliou diferentes possibilidades de uso
positivos na economia e nível de
da terra para o terreno. O acesso ao shopping é
ESTILOS DE VIDA emprego para a região. O RAP
--- direcionado aos carros. Não constam no RAP opções
SAUDÁVEIS enfatiza a questão do aumento do
de mobilidade urbana diferente do uso de carros
fluxo de veículos e do
particulares.
estacionamento.
Aumento da geração Impactam negativamente o tipo de uso do solo, o uso
O RAP discute a geração de
PEGADA de lixo e aumento do de recursos naturais, o fluxo de mercadorias, a
resíduos e o consumo de recursos
ECOLÓGICA consumo de água e deposição de resíduos e a não valorização da
naturais.
energia. comunidade local.

Quadro 3: Síntese da análise dos RAPs.


Elaboração: (2013/2014).

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PRINCÍPIOS DO PLANEJAMENTO DA PAISAGEM

4. CONCLUSÃO
A análise dos RAPs do Munícipio de Curitiba mostrou que os documentos não
contemplam grande parte dos impactos ambientais negativos em relação aos
critérios e parâmetros de qualidade ambiental urbana, com base nos princípios do
Planejamento da Paisagem.
Os três RAPs, apesar de abordarem alguns impactos ambientais negativos,
não avaliaram esses impactos como inviabilizadores para a instalação dos
empreendimentos, ou seja, os impactos ambientais negativos desses
empreendimentos são tão evidentes que os RAPs não puderam os ignorar. Porém,
os RAPs concluíram que o empreendimento seria viável e o poder público aceitou
essas análises, aprovando os RAPs e permitindo a instalação dos
empreendimentos.
O RAP do Supercenter Angeloni trouxe alguns impactos negativos, apenas
quanto aos critérios cobertura vegetal e usos potencialmente poluidores, mas, não
os discutiu de forma que pudesse avaliar a qualidade ambiental urbana.
O RAP do Complexo Empresarial e Residencial Tanguá Patrimonial só não
tratou de impactos negativos referentes aos critérios espaços livres e cobertura
vegetal, ainda que apresentasse impactos dos demais critérios de forma superficial.
O critério verticalidade das edificações teria grande importância para ser avaliada
neste RAP, pois as edificações são altas e próximas, fatores que acentuam os
impactos negativos sobre o meio biofísico, mas também não foram tratados no RAP.
O RAP do Shopping Barigui, não apresentou impactos negativos referente ao
critério espaços livres e também não avaliou os impactos negativos quanto à
qualidade ambiental urbana.
A análise dos RAPs levou à conclusão de que o conhecimento das
potencialidades (limites e aptidões) de cada área, quanto as alteração da paisagem
urbana, não têm sido relevantes nos estudos de avaliação de impactos para a
instalação dos empreendimentos.

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