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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS


GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

Aurelano Estevam de Sousa Silva

Fortaleza
2018
Resumo do livro Cidade de Muros Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em
São Paulo. Partes III e IV

Capítulo VI

No capítulo VI ela se detém a explicar as transformações urbanas e os tipos de


segregação que ocorreram do final do século XIX e durante o século XX, Nesse capítulo
Caldeira divide a segregação em três padrões, sendo o primeiro deles o do final dos anos
90 até 1940, marcado por uma urbanização centrada onde a segregação era relacionada
aos tipos de moradias (casas para os ricos e cortiços para os pobre). Nesse momento os
apartamentos eram estigmatizados pelo de classe alta e media, sendo considerados como
inferiores às residências horizontais. Nesse período, durante o governo de José Pires do
Rio, o plano de avenidas foi o primeiro motor para mudar o tipo de segregação social na
cidade, o aumento dos alugueis e a expansão das avenidas em conjunto com a abertura do
sistema de ônibus levaram a população pobre em direção a periferia.
O segundo padrão seria de 1940 até 1980 chamado pela autora de segregação
centro-periferia, nessa fase do desenvolvimento do estado, a partir de estratégias politicas e
empresariais, os pobres foram gradativamente afastados do centro e movidos para periferia
e para a zona metropolitana. Em um momento onde morar no centro se tornava muito caro
para a população trabalhadora e gradativamente o acesso à periferia se tornava facilitado
pelo sistema de transporte publico, mesmo que ainda precário, levou uma grande massa a
se mover e adquirir terrenos na periferia para autoconstrução, além disso os sistemas de
financiamento do governo, que eram amplamente usados pela população de classe média,
começavam a mudar o padrão residencial do centro de são paulo, especialmente depois dos
anos 60 com a ampliação da verticalização da cidade. A classe média, que antes rejeitava
fortemente os apartamentos, passaram a adquirir apartamentos financiados pelo BNH
( plano nacional de habitação) pois era a forma mais fácil de se manter no centro, onde a
maioria das residencias disponíveis eram apartamentos financiados pelo SFH (Sistema
Financeiro de Habitação). Em resumo, nos anos 70 os pobres viviam na periferia, em bairros
precários e em casas autoconstruídas; as classes média e alta viviam em bairros bem
equipados e centrais, uma porção significativa dela em prédios de apartamentos. (p. 228)
E o terceiro padrão, é o que ocorre dos anos 80 até o tempo atual, mesmo ainda
havendo segregação centro-periferia, a partir desse período a cidade e a segregação se
torna cada vez mais complexa onde o crime e o medo do crime aumentavam
gradativamente, São Paulo começa a se tornar uma cidade de muros, com uma população
obcecada por segurança e descriminação social (p. 231). Nesse contexto surgem os
enclaves fortificados, o principal deles é o condomínio fechado, um tipo de empreendimento
residencial com altos muros e segurança particular, normalmente construído em bairros
periféricos ou na região metropolitana. Esses enclaves configuram um novo tipo de
segregação, como normalmente ficam do lado de bairros pobres e de favelas contribuem
com a descriminação social e se mostra como uma espécie de heterogeneidade funcional,
fomenta o distanciamento entre classes e o medo do crime, que é fortemente associado as
camadas mais pobres. Esse processo de segregação é colocado pela autora como uma
reação ao processo de democratização e serve para estigmatizar, controlar e excluir
aqueles que acabaram de garantir seu reconhecimento como cidadãos.

Capítulo VII

A autora Analisa os condomínios fechados e sua relação com a segregação, com o


aumento do preconceito entre classes e a influência que os mesmos possuem sobre a
cultura e a estética da segurança imposta por esse novo modelo residencial. A autora, que
caracteriza os enclaves fortificado como zonas fortemente guardadas por seguranças,
muros e câmeras, se detém aos condomínios por eles representarem o principal instrumento
desse sistema de segregação.
Durante esse capitulo Teresa perpassa pela história dos condomínios em São Paulo
e sua transformação em enclaves a partir dos anos 70. Baseados na ideia americana de
new town e edge cities os novos condomínios oferecem área residência, comercial e
empresarial e principalmente segurança privada 24hrs, tornando-os praticamente mundos
separados da sociedade. Essa nova configuração social contribui com o aumento da
segregação, mesmo as classes estando espacialmente mais próximas umas das outras, a
homogeneidade e a desconfiança entre classes continua a crescer. Além disso, com o
aumento do crime e do medo do crime em conjunto com a segurança passada pelos
condomínios começa-se a se criar uma cultura da segurança, colocando a segurança
desses enclaves como modelo a ser seguido, modelos que se estendendo simbolicamente
para todas as classes sociais. Para a autora esse processo de enclausuramento e de
rejeição da ordem pública vivido pela classe alta e media é uma forma de resistência ao
processo democrático e a expansão da cidadania que ocorrera entre os anos 80 e 90.

Capítulo VIII

No último capítulo da terceira parte a autora discutirá os resultados dos processos de


segregação, distancia social e exclusão que resultaram do processo de privatização da vida
pública e das estratégias de seguranças. A autora irá analisa a ideia de vida pública
moderna e como São Paulo se relaciona com esse ideal.
Atualmente, com a cultura dos muros e as estratégias de segurança da cidade estão
mudando as interações sociais de todas as classes. Onde deveria existir experiências como
a primazia e abertura das ruas; a circulação livre; encontros impessoais e anônimos de
pedestres; o uso publico e espontâneo de ruas e praças; e a presença de grupos sociais
heterogêneos, existe na verdade um tipo totalmente diferente de espaço publico, que nega
as principais características do ideal moderno democrático de espaço publico, a cidade de
muros abriga um novo tipo de espaço que não faz nenhum gesto em direção à abertura,
indeterminação, acomodação de diferenças ou igualdade, e que ao invés disso toma a
desigualdade e a separação como valores estruturantes. Numa cidade de muros e enclaves
como São Paulo o espaço publico passou por uma transformação profunda, vivenciado
como perigoso, fragmentado e cada vez mais abandonado pelas camadas mais altas, que
passou a viver em mundos privatizados organizados com base na homogeneidade e
exclusão dos outros, sendo totalmente contra a ideia moderna de espaço publico.
Para a autora a coincidência de democratização e aumentos dos direitos políticos e
sociais com a deterioração do espaço publico e o novo estilo de segregação faz parte do
carácter disjuntivo da sociedade brasileira, com a construção de muros e controles nos
espaços da cidade se criam limites à democratização. Os moradores dos enclaves recriam
privilégios, espaços exclusivos e rituais de segregação que acabam os afastando da esfera
politica, como já dito, se criam novos mundos, separados do meio publico e dos interesses
democráticos.
Em São paulo, portanto, podemos detectar processos sociais opostos, alguns
promovendo tolerância e direitos sociais e outros promovendo segregação e desigualdade.
Na verdade, temos uma democracia politica sendo resistida por muros urbanos e
preconceitos de classe, para Caldeira esses processos trazem consequências severas, uma
vez que as mudanças nos espaços públicos são fundamentalmente não democráticas, para
ela a cidade de muros contribui para a corrosão da democracia.

Capitulo IX

Neste último capítulo a autora analisa os aspectos fundamentais da disjunção na


democracia brasileira, a associação da violência ao desrespeito aos direitos civis. Para isso
ela analisa duas questões sociais no Brasil, a oposição aos defensores dos direitos
humanos e a campanha a favor da pena de morte no país.
Em são paulo, a defesa aos direitos humanos, tanto ajudou a ampliar o
reconhecimento de direitos (durante o regime militar) quanto a contestá-los sob o regime
democrático. Enquanto, na década de 70, os defensores não eram estigmatizados pois seu
trabalho consistia em defender os direitos dos presos políticos de classe media, a partir da
consolidação do regime democrático eles passam a ser criticados por defenderem os
direitos dos presos comuns. Essa oposição aos direitos humanos é colocada como uma
resistência ao processo de consolidação da democracia.
A defesa da pena de morte foi reintroduzida nos debates ao final dos anos 80,
durante o processo de redemocratização, quando o medo do crime violento e a violência
policial começaram a aumentar, para os brasileiros a ideia de pena de morte é colocada
como desejo de vingança ( o mesmo que impera na fala do crime) e não como uma forma
de combater a criminalidade.
Segue no Brasil uma perspectiva de vingança, do corpo e da dor como instrumento
de punição, isso revela o carácter incircunscrito da democracia brasileira como meio de
desenvolvimento moral e social. A centralidade do corpo em punições e a aceitação do uso
da dor como meio disciplinar é aceito não somente para criminosos, mas para todas as
categorias que supostamente necessitam de controle ou disciplina (mulheres, crianças,
pobres). Para a autora essa noção de corpo manipulável está relacionada a deslegitimação
dos direitos civis e representa o centro do debate sobre a democratização brasileira, para
ela essa questão de punição violenta representa mais uma forma de resistência a expansão
dos direitos democráticos, nesse contexto o medo do crime e o desejo de vingança privada
simbolizam a resistência à expansão de direitos para novas dimensões da cultura brasileira.
CONCLUSÃO
O livro da Caldeira traz diversos questionamentos sobre a democracia brasileira, ao
detalhar a nova segregação no estado de São Paulo e a vingança violenta como meio de
educar a população dominada, ela tenta mostrar as disjunções democráticas no país. O
texto é extremamente detalhado com rigor metodológico bem visíveis nas entrevistas e nos
mapeamentos, entretanto, alguns levantamentos ficam sem resposta, ela demonstra a
característica disjuntiva e a ideia de corpo incircunscrito da sociedade brasileira mas não
chega a uma conclusão sobre a origem, mesmo citanto a herança colonial e escravista do
Brasil, ela não se detém a chegar no real motivo da democracia brasileira seguir
politicamente os padrões modernos enquanto repreende os direitos civis e corrobora com a
violação dos mesmos. O texto se apresenta como um pontapé para uma discussão mais
profunda sobre a nossa democracia e serve como um guia para um estudo de caso mais
amplo da sociedade brasileira.