Você está na página 1de 4
CONCEITO DE LITERATURA BRASILEIRA* 1. IDENTIDADE A contar de principios do século XVI, a literatura que se cultiva no Brasil Colénia vem progressivamente conquistando sua auto-identifica- ao. Esse processo comega desde que se estabelece a relagio homem «+ terra! com a presenga do colonizador, Seré revigorada pelo pensamento + V. Adverténcia, em apéndice, no final desta introdugio. 1. A expressio € mesmo 0 conceito da relagio homem/terra pode ser encontrada em outros autores. Ela tem sido usada por nés em diferentes oportunidades, como resultado de nossas investigagdes. Preferimos relacioné-ta diretamente com reflexdes de Tristao de Ataide (Alceu de Amoroso Lima), datadas de 1925, a propésito de regionalismo: “[..| O regionalismo é a predominancia da terra so- bre © homem; da nagio sobre o continente; da aldeia sobre a nagii” (v. Eitudas Litendrios, Rio de Janeiro, Aguilar, 1966, vol. 1, p. 1039). critico do século XIX e proporcionaré a progressiva conscientizacao da relagio individuo/pédtria, do sentido local ao nacional. E um esforco in- terno de identificagao ¢ também de reidentificagao, abrangendo dos ad- venticios ¢ autdctones aos seus descendentes. Reverte-se as atividades em geral, sobretudo as intelectuais. Acompanhada de conflitos, sejam rea- goes ideoldgicas, alimentou nas criagdes literdrias freqiiéncias ¢ constan- tes tematicas sob condicionamento americano. Elas delineiam a trajeté- ria interna da nossa literatura em etapas sucessivas correspondentes aos quatro grandes periodos de nossa histéria social e politica: 0 nativismo, no Perfodo Colonial (séculos XVI a0 XVIII); 0 nacionalismo romantico no Império (da Independencia & Republica, ou seja, 0 século XIX); ¢ du- rante a Republica, subdividida em “velha” e “nova”, 0 neonacionalismo € a brasilidade. Sao coordenadas interpenetrantes ¢ interdependentes. José Verissimo ja afirmou que os dois grandes momentos da literatura brasi- leita sio marcados pelo nativismo no Perfodo Colonial ¢ pelo nacionalis- mo a partir da Independénci . Mas escrevia em principios deste século. Soma-se, portanto, a sua perspectiva 0 neonacionalismo que correspon- de a Reptiblica “velha’, projetando-se com intensidade polémica nos anos 20 ¢ 30 do nosso século, para se diferenciar em “brasilidade”, con- forme esclareceremos oportunamente. Evidentemente, no estudo da formacio da Literatura Brasileira, nao se pode fugir a0 reconhecimento simultaneo dos legados europeus ¢ ame- ricanos. O primeiro se achava hd muito definido quando nos foi transmi tido durante a nossa formacio, a contar do descobrimento do Brasil, co- municando-nos idéias, atitudes de vida, estilos e modelos literdrios. Mas é claro que, atuando em novo condicionamento ou sob circunstancias de um novo contexto, desencadearia 0 processo de interagio com a paisagem ea cultura nativas, Dessa maneira se transforma ¢ ao mesmo tempo reativa 2. V. o que José Verissimo escreve a propsisito, referindo-se ao Romantismo, em Histéria da Literarura Brasileira, Rio de Janciro, Francisco Alves, 1916, pp. 1 ¢ ss, € 0 destaque que dai fazemos na nota 20 do capitulo II: “Definigéo do Perfodo Colonial” CONCEITO DE LITERATURA BRASILEIRA raizes americanas: desencadeia mtituas interferéncias nessa paisagem fisi- ca ¢ humana inteiramente nova, o Brasil. Quaisquer que sejam as ponde- rag6es de ordem metodolégica, pois, para fundamentar a compreensio in- terna da Literatura Brasileira, é conveniente considerar a inspiragao cons- ciente ou nao de uma tematica origindria do nosso universo e¢ a lingua- gem adequada & fixacao e transmissio dessa temdtica. Esboca-se uma pers- pectiva que abre a visio singular do processo literdrio interno para o com- paratismo, sem ofuscar, porém, a preponderancia da contribuico portu- guesa e espanhola, ou seja, hispanica, entre outras. Resta entao investigar, para saber at¢é que ponto a heterogeneidade continental em que nos situ- amos é produto diversificado ou nao do legado eurolatino transplantado para um espaco geogréfico novo®. Certamente, é preciso levar em conta a diversificagéo de condicionamentos ¢ o que tenha persistido em cada pais ¢ entre paises no todo hispano-americano. Pressupomos desde o inicio o enquadramento do Brasil ¢ sua litera- tura no panorama mais geral dos estudos ditos “latino-americanos”, Em outras palavras, reconhecemos um angulo de visio “latino-americano” em busca da compreensio do papel histérico e cultural de Portugal e da Espanha na América Latina, Mas também € possivel admitir que as mis- sdes portuguesa e espanhola sdo tanto expresses préprias quanto porta- doras de uma misséo mais geral, a européia. E, do mais restrito em ambi- to peninsular ibérico ao mais amplo em ambito europeu, o desempenho das atribuigdes portuguesa ¢ espanhola no novo contexto em que se pro- jetam pode ser pensado em quatro grandes etapas: 14) a herdica e épica do século XVI; 2%) a de exploragao e de vigilante contenc’o, dos séculos 3. Ja se generalizaram os estudos e discusses em torno do conceito ¢ identidade da América Latina, retomada recente de preacupagics quc, nos limites nacionais, vinham sendo agitadas crticamente desde 0 Romantismo, alargando-se em Ambito continental notadamente de fins do séeulo passado 20 principio do atual. As posigées que assumimos neste liv foram pela primeira vez sistematizadas ‘em conferéncia realizada em 1972 na Universidade de Ab Sorbonne. E deste mesmo ano a importante coletinea de ensaios, organizada sob 0 patrocinio da Unesco, América Latina en su Literatura, coordenacién e introducién por Cesar Fernandex Moreno, México-Paris, Siglo Veintiuno, Unesco, 1972. -en-Provence ¢ na de Paris III Nouvelle CONCEITO DE LITERATURA BRASILEIRA XVI-XVII ao XVIII; 3°) a de reagio nacionalista e afirmacéo americanis- ta do século XIX; 4*) finalmente, no século XX, a conquista definitiva da maturidade. Reiteramos a nossa intencdo de sugerir a perspectiva que se descor- tina de dentro para fora. Certamente, tal enfoque favorecers, de maneira equilibrada e auténoma, as buscas de explicagio de culturas e de civiliza- ges hoje ditas “latino-americanas’, como incorporacéo de legados euro- latinos ricos e fecundos no contexto ameticano portador de patriménio indigena, além da contribuicao africana. Por outro lado, os expansionis- mos e conquistas de Portugal e da Espanha permanecem respeitados com maior exatidio histérica. E sem diivida ser possivel avaliar com rigor 0 seu aleance singular, isto é, a transplantagio que se faz sob a vigilancia politica e administrativa, por um lado de Portugal e por outro da Espa- nha. Porque é pacifico, conforme jé admitimos, que aqueles paises eram portadores de sementes comuns ow igualmente fecundadas no resto da Europa latina. E exatamente a sobreposicao ou soma do especifico portu- gués e espanhol mais 0 comum europeu que alimentard, para a definicao a “América Latina’, of germes de um amplo arejamento aquém das fron- teiras ibéticas. E 0 caso entdo de dizermos que os americanos de hoje se tornaram “larino-ameticanos” & medida que todos aqueles germes fecun- davam juncamence com as sementes indigenas e também com as africa- nas. Mais cedo ou mais tarde, a contar mesmo do Periodo Colonial, eles passavam a frutos de alimento comum. De fato, ¢ em dado momento de rransigSo ¢ mndanga repentinas, com a Independéncia ¢ 0 inicio da Ro- mantismo, que se verifica a retomada ostensiva de nossas fontes origind- rias — 0 patriménio autdctone, entao glorificado e mitificado. Rompiam- se cercos de contensio ¢ vigilancia impostos pela colonizacao. 2. A RELAGAO HOMEM/TERRA, OS INFLUXOS E A PERIODICIDADE. Visando a esclarecer origens, evolucao ¢ conseqiiente definiggo da literatura brasileira, propomos um esquema de periodizagéo fundamen- CONCEITO DE LITERATURA BRASILEIRA