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HERDEIROS DE UM PASSADO EM RUÍNAS: A TRANSMISSÃO TRANSGERACIONA

EM O SOM E A FÚRIA E ÓPERA DOS MORTOS

Ívens Matozo Silva

RESUMO: O campo dos estudos literários tem se tornado um ambiente fecundo para a elaboração de um
número cada vez mais expressivo de estudos que procuram refletir sobre uma variedade de concepções teóricas
relacionadas aos laços familiares. Entre os diversos temas abordados, vem crescendo o interesse pelos aspectos
inerentes aos papéis desempenhados pela memória familiar e pela transmissão transgeracional em contextos
marcados pela decadência. É sob esse contexto que se destacam os romances O som e a fúria (1929), do escritor
norte-americano William Faulkner, e Ópera dos mortos (1967), do autor brasileiro Autran Dourado, por
dramatizarem, através das personagens Quentin Compson e Rosalina Honório Cota, a representação de um
legado familiar em vias de extinção, consequência direta das profundas mudanças no âmbito político,
econômico e social ocorridas no final do século XIX e início do século XX. Diante disso, o presente trabalho
procura analisar, por meio das personagens Quentin Compson e Rosalina Honório Cota, o valor simbólico da
transmissão geracional, suas consequências e a relação que as duas personagens estabelecem com os seus
antepassados. O embasamento teórico se ampara nas contribuições teóricas prestadas por Krom (2000),
Penso, Costa e Ribeiro (2008), Candau (2011) e Benjamin (2012).

PALAVRAS-CHAVE: Herança e transmissão. William Faulkner. Autran Dourado.

1. Introdução

“The past is never dead. It’s not even past”


Requiem for a Nun – William Faulkner

O campo dos estudos literários tem se tornado um ambiente fecundo para a elaboração de
um número cada vez mais expressivo de estudos que procuram refletir sobre uma variedade de
concepções teóricas relacionadas aos laços familiares. Entre os diversos temas abordados, vem
crescendo o interesse pelos aspectos inerentes aos papéis desempenhados pela memória familiar
e pela transmissão transgeracional em contextos socioeconômicos marcados pela presença da
decadência.
A literatura, bastante sensível a essas transformações ocorridas ao longo dos anos, passou
a utilizar-se dos denominados romances familiares1, como um meio para ficcionalizar o desespero
e os conflitos protagonizados pelos membros de importantes famílias, os quais obtiveram grande
prestígio no passado, mas que se deterioram, no tempo presente, em busca e em nome de um
tempo já-lenda, assim como pela não adequação à nova realidade econômica. Por conseguinte, o


Texto completo de trabalho apresentado na Sessão Estudos de Literatura, História e Memória IV do Eixo
Temático Estudos de Literatura, História e Memória do 4. Encontro da Rede Sul Letras, promovido pelo
Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem no Campus da Grande Florianópolis da
Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) em Palhoça (SC).

Mestrando do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Bolsista
CAPES. Graduado em Letras – Inglês e Literaturas de Língua Inglesa pela Universidade Federal de Santa
Maria (UFSM). E-mail: ivens_matozo@hotmail.com.
1 Segundo a pesquisadora Yi-Ling Ru (1993, p. 3), os romances familiares podem ser compreendidos como

aqueles romances que apresentam as seguintes características: retratam a evolução de determinado grupo
ao longo das gerações; destacam tanto a transmissão quanto a importância dos ritos familiares; possuem
seu foco centrado no declínio da família.

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que encontramos em alguns desses romances é a problematização da questão da hereditariedade
e o grande conflito existente entre as pressões do passado sobre o tempo presente.
Nesse sentido, a presente contribuição se inscreve nesse percurso de reflexão sobre os
múltiplos fatores que unem indivíduos ligados pelos laços de sangue, ao trazer para análise duas
produções literárias que possuem como principais fios condutores memórias e heranças
familiares em vias de extinção. Estamos falando dos romances O som e a fúria (1929), do escritor
norte-americano William Faulkner, e Ópera dos mortos (1967), do autor brasileiro Autran
Dourado. Tais obras se destacam por dramatizarem, através de duas personagens pertencentes
ao clã Compson e Honório Cota, Quentin Compson e Rosalina Honório Cota, a ruína econômica,
ética e moral da aristocracia do Sul dos Estados Unidos, na diegese de Faulkner, e a do Sul de Minas
Gerais, na obra de Dourado.
A partir dessas considerações iniciais, o presente artigo procura analisar o valor
simbólico da transmissão transgeracional, suas consequências e a relação que as personagens
Quentin e Rosalina estabelecem com os seus antepassados. Para tanto, o embasamento teórico da
presente pesquisa se ampara nas contribuições teóricas prestadas por Krom (2000), Penso, Costa
e Ribeiro (2008), Candau (2011) e Benjamin (2012).
Antes de iniciarmos a análise literária dos romances, torna-se necessário apresentarmos
algumas considerações acerca da poética dos escritores em questão. William Cuthbert Faulkner
(1897 – 1962), mais conhecido apenas como William Faulkner, é considerado um dos grandes
nomes da literatura norte-americana e referência no contexto literário mundial. Nasceu em New
Albany, no Mississippi, estado localizado no Sul dos Estados Unidos. Tal dado possui grande
importância ao analisarmos o conteúdo que Faulkner transmitiu para as páginas da sua vasta
produção literária. O escritor possui como principal marca não apenas desafiar o leitor pela
complexidade expressa em suas obras, como também retratar a decadência da sua terra natal pós-
guerra civil.
Observamos que a partir da publicação do seu romance Sartoris (1929) e da criação do seu
mítico Condado de Yoknapatawpha, o Sul americano ganha contornos de protagonista nas obras
do autor. Ademais, Faulkner buscou retratar o declínio de imponentes famílias do Velho Sul –
anterior à guerra, rural e escravocrata – em forte contraste com o Novo Sul – pós-guerra, industrial
e capitalista.
Conforme frisa a pesquisadora Vera Lúcia Lenz Vianna, a maioria das personagens
faulknerianas apresentam uma relação obsessiva com a ideologia patriarcal e aristocrática do
Velho Sul, fatos que acabam as impossibilitando de se desvincularem das tradições e reagirem
diante da nova configuração social que se estabeleceu no pós-guerra. Nas palavras de Vianna,
Faulkner nos revela:

[...] personagens presas às teias do passado e, ao mesmo tempo, expõem o estreito vínculo
existente entre elas e a estrutura histórico-genealógica de sua família. A questão da cultura
e da hereditariedade são fatores decisivos na vida dos protagonistas [...] fazendo aflorar
uma atmosfera negativa e uma sensação de fatalidade (VIANNA, 2007, p. 2007).

Se Faulkner transferiu para as páginas das suas obras os conflitos que modificaram o
contexto sulista norte-americano, em solo brasileiro, mais especificamente o mineiro, Waldomiro
Freitas Autran Dourado (1926- 2012), comumente conhecido como Autran Dourado, apresenta
uma fecunda produção literária na qual nos apresenta as peculiaridades de Minas Gerais, tais
como traços da oralidade, da cultura e do legado histórico mineiro.
Tal qual o escritor norte-americano, que criou o fictício condado de Yoknapatawpha,
Dourado ambienta a maioria dos seus contos e romances na imaginária cidade de Duas Pontes –
a típica representação de uma cidade interiorana. Entre as temáticas abordadas nas obras
autranianas, tais como a angústia, a loucura e a perda da identidade, evidencia-se que a
ficcionalização da decadência oligárquica rural mineira encontra expressão nas suas obras. Na

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denominada “Ópera do Brasil Arcaico”, trilogia composta pelos romances Ópera dos mortos
(1967), Lucas Procópio (1985) e Um cavalheiro de antigamente (1992), temos a dramatização da
decadência e a tragédia da família patriarcal mineira, por intermédio da saga da família Honório
Cota.
Consoante Eneida Maria de Souza, além das obras de Dourado, em sua grande maioria,
apresentarem personagens atormentados, solitários e que mantêm um pacto com o fracasso, a
inserção da temática familiar em suas narrativas traz para o centro de discussão problemas de
ordens pessoais e intersubjetivas, consequência direta da herança cultural transmitida de geração
em geração entre os membros dessa família, ou seja, os valores de um tempo estagnado e morto.
Refletindo acerca da trilogia “Ópera do Brasil Arcaico” e das demais produções de
Dourado, Souza assinala a atmosfera negativa pulverizada nas obras do escritor e, ao mesmo
tempo, a rica inserção de fatos históricos inerentes ao passado mineiro expressos em tais textos.
Por conseguinte, reverberam-se em seus trabalhos uma fusão entre os fatos históricos de Minas
Gerais e dos aspectos inerentes aos gêneros dramático e narrativo.

Contaminados ainda de material mítico, traduzido nas histórias da decadência do Brasil


arcaico, os livros que integram esse ciclo se destacam pela visão fragmentada e em ruína
dos valores da família patriarcal. Marcada igualmente pelo drama e pelos desenlaces
próprios da estética do desengano e da ilusão, a obra de Autran reúne o imaginário social
das Minas com a fatalidade dramática das narrativas e das tragédias universais
(SOUZA, 1996, p. 22).

Tendo por base o conteúdo expresso nas diegeses de William Faulkner e Autran Dourado
acima apresentados, é possível verificarmos a presença de três temáticas de forte expressão em
seus projetos literários. Em ambos os escritores, a dramatização da decadência das famílias
pertencentes à antiga aristocracia sulista e mineira que, aos poucos, é deposta da sua nobre
condição social, bem como a luta em dar continuidade à antiga ordem e a busca pela manutenção
do passado de rica tradição são algumas das características que entrelaçam as narrativas dos dois
autores.
Nesse prisma, na subseção abaixo, apresentaremos a análise dos romances O som e a fúria
e Ópera dos mortos, dando atenção especial às personagens Quentin Compson e Rosalina Honório
Cota. A seleção do corpus justifica-se pelo fato de que por intermédio desses dois integrantes,
provenientes de duas renomadas famílias, protagonizam-se as consequências advindas da
dicotomia estabelecida entre um passado cheio de glórias e riquezas e um presente dominado
pela dúvida e pelo fracasso. Em suma, o que está em jogo nos dois romances, conforme veremos a
seguir, é a representação da memória familiar como pleno signo de decadência.

Quentin Compson e Rosalina Honório Cota: os herdeiros de um passado em ruínas

Publicado em 1929, o romance O som e a fúria, de William Faulkner, é considerado pela


crítica literária como sendo o grande romance moderno da literatura norte-americana. Longe de
apresentar uma narrativa linear e de fácil apreensão, o romance desafia aqueles que pretendem
adentrar na residência e no universo caótico da família Compson, devido a acentuada
fragmentação narrativa e pela presença de personagens densos e psicologicamente conturbados.
O romance apresenta-se dividido em quatro partes, sendo que as três primeiras são
narradas sob a perspectiva dos três irmãos Compson. Benjy Compson, que possui problemas
mentais e transfere seu olhar singular e caótico da realidade para as páginas do primeiro capítulo;
na segunda seção, somos apresentados à perspectiva de Quentin Compson, o irmão primogênito,
estudante universitário de Harvard e que acaba se suicidando por não suportar a pressão do
passado sobre o presente; já no terceiro capítulo, temos acesso à visão capitalista, individualista

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e vingativa de Jason Compson. Já na quarta e última seção, temos um narrador heterodiegético
que se fixa em Dilsey, a empregada negra da família, símbolo de bondade e resistência em meio ao
caos e a destruição.
Já a diegese de Autran Dourado, publicada em 1967 e incluída pela UNESCO como uma das
obras mais representativas da literatura mundial, é vista por vários críticos como um romance
continuador do projeto literário da segunda fase modernista ou “Geração de 30”, devido ao forte
tom intimista expresso ao longo do romance. Ópera dos mortos se caracteriza por apresentar uma
narrativa polifônica, fato que, tal como a montagem de um quebra-cabeça, ao juntarmos as
diversificadas perspectivas narrativas presentes na obra, conseguimos compreender o passado,
os mistérios e o que acontece por trás das portas que inibem o nosso acesso ao grande sobrado da
renomada e, atualmente, decadente família Honório Cota.
Ao longo dos nove capítulos que compõem o romance, entramos em contato com o clima
de morbidez que paira sobre a última herdeira da linhagem Honório Cota, Rosalina. Esta, isolou-
se dos moradores de Duas Pontes, devido algumas desavenças políticas que levaram o seu pai a
morte, e decide enclausurar-se no grande sobrado construído por sua família, juntamente com sua
fiel empregada muda Quiquina. A partir de então, Rosalina passa o resto dos seus dias
confeccionando flores de papel e vivendo sob a sombra das memórias dos seus antepassados –
Lucas Procópio, seu avô, e do seu pai, João Capistrano. Sua rotina muda drasticamente com a
chegada do forasteiro Juca Passarinho, o qual se torna o catalisador da destruição do clã Honório
Cota.
Na seção destinada ao primogênito Compson, verificamos um complexo entrelaçamento
entre o tempo do enunciado e o tempo da enunciação. Apesar de sabermos que os episódios que
serão narrados por Quentin ocorram no dia 2 de junho de 1910, como é exposto no título do
capítulo, a dificuldade de entendimento dos fatos narrados reside nas variadas anacronias por
retrospecção que a seção apresenta e pelos longos fragmentos em fluxo de consciência.
Guiado por uma misteriosa sombra e pelo incessante tique-taque do relógio, Quentin narra
o último dia da sua vida. Ele acorda, observa a sombra na parede do seu dormitório em Harvard,
escreve cartas para a sua família, pega um bonde, compra os ferros que ele usará para se afogar e
se suicida. Entretanto, nessa seção, ocorrem duas ações simultâneas. Ao mesmo tempo em que ele
descreve o seu cotidiano, todo o seu passado é rememorado: o seu desejo incestuoso pela irmã
Caddie vem à tona; a culpa pelo alcoolismo do seu pai; a venda de 16 hectares do seu irmão Benjy
para o pagamento das mensalidades da sua universidade; a pressão sobre o que ele deveria ser
em detrimento do que ele era e, principalmente, o seu sentimento de fracasso ao perceber que ele
não atingiria as expectativas da sua família.
Ao analisarmos comparativamente Quentin e Rosalina, ambos são afetados pela pressão
dos seus pais e pelas memórias dos seus antepassados. No caso de Quentin, tais problemas
começam a vir à tona quando ele recebe de presente do seu pai o relógio que fora do seu avô.
Estando na família Compson há várias gerações, o relógio adquire uma conotação negativa ao ser
passado ao estudante, conforme podemos verificar no excerto a seguir:

Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o
mausoléu de toda esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para
lograr o reducto absurdum de toda experiência humana, que será tão pouco adaptado às
suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não
para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento
de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se
ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao
homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma alusão de filósofos e
néscios” (FAULKNER, 2015, p. 69)

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Como é possível evidenciar na passagem acima, o recebimento do relógio como parte da
herança cultural dos Compsons acaba funcionando como um intensificador dos sentimentos de
pessimismo e desilusão de Quentin. Visto como “o mausoléu de toda esperança e todo o desejo” e
“pouco adaptado às suas necessidades”, depreendemos que o tempo, segundo a visão do pai de
Quentin e, logo em seguida, absorvida por ele, só serve ao homem para a morte e para a destruição.
Ademais, no momento em que o pai transfere para o seu filho a pequena herança da sua família,
Quentin acaba recebendo o caro papel de última esperança de salvação do seu clã decadente.
Situação semelhante ocorre com Rosalina. Rodeada pelos antigos relógios do seu avô e do
seu pai, fixados nas paredes do sobrado, os quais foram propositalmente parados diante de
situações adversas, ela não consegue se desvencilhar da obsessão herdada dos seus antepassados
e acaba conservando os padrões comportamentais dos antigos integrantes da sua família. Dessa
forma, os relógios que Rosalina observa metaforicamente representariam as vozes dos mortos
que primam pela valorização e conservação dos princípios arcaicos da aristocracia rural mineira,
as quais a impossibilitam de qualquer tentativa de mudança, reprimindo, assim, o seu desejo
individual.

Ali estava ela sufocada pelo tempo, vencida no mundo. Os relógios na sua linguagem muda
[...] Por que tinha se deixado arrastar pelo orgulho, pela loucura do pai? Relógios
desgraçados, disse ela, os punhos cerrados [...] Deixou cair os braços, de nada valia a ira
contra os relógios. Não podia destruir o que ficara para trás, na semeadeira dos dias [...]
Aquela era a sua vida, o seu dever, o seu silêncio (DOURADO, 1999, p. 140).

Para compreender o drama protagonizado por Quentin e Rosalina, é importante


lançarmos um olhar mais apurado à unidade familiar, no intuito de verificarmos a presença de
conteúdos culturais que acabam sendo transmitidos ao longo das gerações. Como consequência
desse atributo de caráter familiar, tal propriedade acaba exercendo uma significativa influência,
maligna ou benigna, na vida dos membros de um grupo. Nesse sentido, dentre os fatores que nos
auxiliam na compreensão dos laços consanguíneos, incluem-se as noções de mito e memória
familiar.
Considerado como o elemento norteador e produtor de sentido de um grupo, o mito
familiar funciona como o alicerce de uma construção, ou seja, fornece a base, um sentido de
identidade à unidade familiar. A ele, cabe a incumbência de elaborar padrões ou regras que
garantam a sobrevivência do legado familiar ante a ação corrosiva do tempo. Além disso, como
frisam as pesquisadoras Penso, Costa e Ribeiro (2008), cabe ao mito delegar regras, crenças e os
papéis que devem ser desempenhados por cada um dos membros de um grupo, como também
apresentar um forte caráter transmissor de padrões multigeracionais. Consoante as autoras:

[...] o mito familiar está presente em todas as famílias, constituindo-se no cimento que
proporciona ao grupo familiar um sentido de identidade [...] Portanto, o mito define as
regras, as crenças e os papéis dentro da família, ditando sua forma de funcionamento e
mantendo sua coesão [...] Sendo assim, cada família construirá sua mitologia baseada nas
singularidades genéticas, culturais e históricas de cada um dos seus membros
(PENSO; COSTA; RIBEIRO, 2008, p. 12).

Analisando o trecho em apreço, é importante frisarmos que além do mito familiar


funcionar como um elo que proporciona a sobrevivência de um clã, ele seleciona dois tipos de
indivíduos. Assim, conforme a estudiosa Marilene Krom (2000) destaca, temos a figura mítica
familiar, a qual possui o papel de agir como um ponto de referência para os demais membros do
grupo, e o guardião do mito, o qual, como o próprio nome já assinala, possui a tarefa de dar
continuidade ao legado deixado pela figura mítica familiar.
Nessa esteira, para que os mitos sejam perpetuados entre os ascendentes e seus
descendentes, entra em cena a memória familiar. Debruçando-se sobre as características

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inerentes a essa tipologia mnemônica, o pesquisador Joël Candau (2011) assevera que ela pode se
apresentar sob duas formas possíveis: a moderna, a qual não possui a função de ser transmitida e
que é esquecida com a morte do seu último guardião; e a memória de caráter antigo, a qual possui
o ensejo de se prolongar ao longo das gerações e abarca o sentido de pertencimento a certo grupo,
assim como prezar pela conservação do legado familiar.

A forma antiga é uma memória genealógica que se estende para além da família. Ela é a
consciência de pertencer a uma cadeia de gerações sucessivas das quais o grupo ou o
indivíduo se sente mais ou menos herdeiro. É a consciência de sermos os continuadores de
nossos predecessores. Essa consciência do peso de gerações anteriores é manifesta em
expressões de forte carga identitária (CANDAU, 2011, p. 142).

Nesse sentido, ao analisarmos comparativamente as reflexões expressas acima, percebe-


se que tanto os mitos quanto as memórias familiares possuem um lado maligno. Apesar dos dois
perenizarem o fortalecimento dos laços consanguíneos, a obsessão pelo cumprimento e o não
êxito dos descendentes ou guardiões do mito em cumprir as funções as quais lhes foram impostas
pelas figuras míticas, bem como a cristalização dos mitos são alguns fatores que ocasionam sérios
danos no psicológico dos descendentes.
É a consciência de não conseguir manter as aparências e as tradições impostas pelos seus
ascendentes que fazem com que Quentin e Rosalina sejam sufocados pela mórbida atmosfera que
paira sobre o atual legado decadente de suas famílias. Além disso, ambos sofrem com a pressão
que a sociedade os impõem. No caso de Quentin, ele é visto como uma espécie de guardião da
velha ordem social sulista e das tradições, como é possível observar no seguinte excerto em que
ele encontra uma moradora do condado e a mesma faz com que seu filho diga para Quentin
informações precisas sobre o Sul: “‘Você se chama Quentin, não é?’ dizia a dona Laura [...] ‘Diga ao
Quentin quem descobriu o rio Mississípi, Henry’. ‘DeSoto’” (FAULKNER, 2015, p. 80).
Já com Rosalina, a pressão social ocorre no momento em que ela se envolve com o
forasteiro Juca Passarinho. Por intermédio da inserção do discurso indireto livre, verificamos a
preocupação que ela expressa se alguém a visse, nesse caso a sua empregada Quiquina, tendo
relações com um homem sem sobrenome e, principalmente, sem classe social:

Por quê? Por que aquilo? Por que ela quis? Porque deixou. Bastava ela gritar, ele teria ido
embora [...] Quiquina no vão da porta, ela viu. Ela estava vendo desde o princípio?[...]
Porque as mãos dele avançavam trêmulas. Ela queria. Na boca. Ela quis. Por quê?
(DOURADO, 1999, p. 160).

Nesse sentido, a transmissão dos valores transgeracionais, exteriorizada nas duas


personagens, adquire um valor simbólico demasiadamente negativo. Suas vidas são guiadas pelas
memórias dos feitos heroicos das figuras míticas e, como fiéis representantes dos guardiões do
mito, Quentin e Rosalina se veem diante da impossibilidade em dar continuidade à herança
transgeracional recebida do clã Compson e Honório Cota. Por conseguinte, a obsessão
dramatizada pelo desejo e a impossibilidade de conservar o passado as impedem de seguir seu
próprio destino, tornando, assim, o presente inoperante.
Em consonância com as reflexões anteriores, a pressão familiar que Rosalina e Quentin se
deparam é outro fator que corrobora com o valor simbólico negativo expresso pelas transmissões
geracionais. No caso de Quentin, sua família deposita nele grandes expectativas de crescimento,
tanto profissional quanto pessoal. Todavia, o que aflige o jovem estudante é a fragilidade da
estrutura da sua família e os sacrifícios que eles fazem para conseguir mantê-lo em Harvard.
No fragmento abaixo, que descreve os últimos relatos de Quentin em fluxo de consciência,
observamos o desejo da sua mãe para que ele fosse um universitário e a preocupação do seu pai
quanto as suas despesas. Além disso, verificamos que o campo semântico criado em torno do

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substantivo “tempo” é recheado de conotações negativas – o adjetivo “triste” e o substantivo
“desespero” tentam transmitir o verdadeiro caleidoscópio de sentimentos que afligem o jovem
que está prestes a se suicidar.

[...] ninguém sabe o que eu sei e ele acho melhor você ir para Cambridge logo de uma vez
você podia passar um mês em maine o dinheiro há de dar se você for cuidadoso talvez seja
bom pra você contar tostões [...] e ele então você há de se lembrar que você estudar em
Harvard é o sonho da sua mãe desde que você nasceu e nenhum compson jamais
decepcionou uma senhora e eu temporariamente vai ser melhor para mim para todos nós
e ele cada homem é árbitro de suas próprias virtudes mas homem algum deve prescrever
o que é bom para outro homem eu temporariamente e ele foi a palavra mais triste de todas
nada mais no mundo não é desespero até que seja tempo nem mesmo o tempo até que foi
(FAULKNER, 2015, p. 163).

Já no caso de Rosalina, a rigidez dos seus princípios ideológicos, aliado ao seu


confinamento no sobrado da família, fazem com que a sua identidade seja um misto da
personalidade de Lucas Procópio, seu avô, e de João Capistrano, seu pai. De acordo com o
narrador-coro do romance, a dificuldade em perdoar e o ódio que ela sente pelos moradores de
Duas Pontes foram herdados do seu pai: “Rosalina, já moça, procurava ampará-lo, e a sua maneira
de amparar era assumir o silêncio do pai, aquele mesmo ar casmurro e pesado, de dignidade
ofendida, aquele ódio em surdina, duradouro, de quem nunca se esquece” (DOURADO, 1999, p.
39).
Conforme o romance avança, através do monólogo interior da empregada Quiquina,
analisamos que existem duas “Rosalinas” distintas. Uma diurna, guiada pelo sentimento de
orgulho; e uma noturna, entregue aos prazeres do corpo.

Ela puxou mais foi por João Capistrano Honório Cota. Seu coronel Honório Cota é que era
capaz duma decisão daquelas: ser um de dia, outro de noite. É, é isso mesmo. De dia era
João Capistrano Honório Cota – na soberba, no orgulho, nos pecados que Deus condena. De
noite, na cama com aquele caolho porco – era Lucas pastando, garanhão. Eu mais ele juntos
para sempre, no sobrado, na pessoa de Rosalina (DOURADO, 1999, p. 231).

Nesse prisma, como bem observa a pesquisadora Rita Felix Fortes, “a falta de expectativa
em relação ao futuro, resultante dos desenganos pessoais e históricos do presente, faz com que as
personagens busquem refúgio no passado” (FORTES, 2010, p. 29), traço esse que se aplica tanto
para Quentin quanto para Rosalina. Entretanto, apesar de ambas as personagens se refugiarem
nos vestígios memoriais de suas famílias, com a percepção de que a função herdada pelos seus
antepassados está além das suas capacidades, ambos tentam escapar do fluxo temporal que os
conduz somente à destruição.
No intuito de melhor entendermos as diferentes relações estabelecidas entre o passado e
o presente, recorremos ao pensamento do filósofo alemão Walter Benjamin, expresso em “Sobre
o conceito de História”. Baseando-se em um viés hegeliano-marxista da história, o qual prima por
uma superação e um resgate dos fatos pretéritos na atualidade, em seu estudo crítico a respeito
do passado, Benjamin caminha na contramão da historiografia tradicional.
Guiado pela concepção de que: “O passado traz consigo um índice secreto, que o impele à
redenção”, bem como pelos questionamentos: “não somos tocados por um sopro de ar que foi
respirado antes? Não existem, nas vozes a que agora damos ouvido, ecos de vozes que
emudeceram? ” (BENJAMIN, 2012, p. 242), seus estudos evidenciam a presença de um movimento
anacrônico denominado Ursprung – salto à origem, em alemão.
Nesse salto ao passado, reverberam-se nas ruínas e nos fragmentos que se desprenderam
do continuum histórico uma assimilação do passado como um cenário de destruição. Convém
observar que o estudo do filósofo germânico salienta que as reminiscências do passado devem ser

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resgatadas no presente. Com isso, Benjamin assevera que existem conexões que aproximam os
fatos passados ao tempo presente e que esse retorno cronológico serviria para que
compreendêssemos melhor a atualidade para, dessa forma, mudarmos o futuro.
Com base nos postulados teóricos de Walter Benjamin, torna-se possível depreendermos
que tanto Quentin quanto Rosalina se apresentam alicerçadas na ênfase em dar voz aos detritos
mnemônicos relativos as suas memórias familiares. Porém, no momento em que as duas realizam
esse “salto anacrônico” defendido por Benjamin, para compreenderem melhor o tempo presente
e almejarem um futuro, elas acabam sendo sufocadas pelas lembranças do ambiente decadente
em que elas vivem e são presas, tanto pelas garras de uma memória nostálgica – que as impedem
de retornarem e assimilarem o presente – quanto pelos fantasmas dos seus antepassados.
Nesse sentido, Quentin Compson procura, metaforicamente, interromper o fluxo do tempo
e se desvencilhar do passado sulista e das memórias dos seus antepassados destruindo o relógio
que fora do seu avô.

Fui até a cômoda e peguei o relógio, ainda com o mostrador virado para baixo. Quebrei o
vidro na quina do móvel e apertei os cacos na mão e coloquei-os no cinzeiro e arranquei os
ponteiros e os pus no cinzeiro também [...] Havia uma mancha de sangue no mostrador.
Quando o vi, meu polegar começou a arder (FAULKNER, 2015, p. 73).

Na passagem acima, Quentin transmite a ideia de que o correr do tempo apenas nos
conduz à destruição. O sangue que escorre sobre o relógio destruído pode ser interpretado de dois
modos distintos, porém complementares. O primeiro, que todos nós somos feridos pelo poder
corrosivo do tempo; o segundo, pela culpa que Quentin sente pela perda da virgindade de sua irmã
Caddie. Conforme já citado anteriormente, não suportando o peso simbólico da tradição sulista e
das responsabilidades herdadas por sua família, Quentin encontra no suicídio a sua única saída
para dar fim ao tormento que sua vida se tornou.
Em relação a Rosalina, ao nos aproximarmos do fim do romance, evidenciamos que seu
destino se assemelha ao de Quentin. O colapso psicológico da última herdeira Honório Cota dá-se
quando o filho que ela esperava de Juca Passarinho nasce morto e o forasteiro, atormentado pela
tragédia que se transformou a sua vida após entrar no sobrado, decide partir da cidade e deixa
Rosalina. A partir de então, completamente submersa pela loucura, ela passa a ser vista pelos
moradores de Duas Pontes andando, à noite, pelo cemitério da cidade, onde seu filho foi enterrado,
e cantando uma cantiga incompreendida pelos moradores, mas que possuía o poder de assustar a
todos que a ouviam.

[...] a gente ficou sabendo que toda noite, há muitas noites, tarde da noite, quando todos
dormiam, Rosalina saía do sobrado e ia por aí cantando a sua cantiga no mundo da noite. O
que ela falava na sua cantiga, nunca ninguém soube. Alguns diziam como eram os versos,
mas a gente via que era pura invenção (DOURADO, 1999, p. 276).

Vendo a situação que Rosalina se encontrava, Seu Emanuel, antigo conhecido da família,
decide tirá-la do sobrado. Ao chamar o juiz, o promotor e o delegado da cidade, a saída de Rosalina
de Duas Pontes se transforma em um grande evento para os habitantes. Aqueles que conseguiram
adentrar no sobrado, ao verem-na no alto da escada a descreveram da seguinte forma:

De branco, o vestido comprido e rendado, uma rosa branca refolhuda no cabelo, lá vinha
ela. Lá vinha Rosalina descendo a escada de braço dado com Seu Emanuel. Desciam
devagar, a passos medidos. Ele se voltava para ela numa atenção especial, como se tivesse
medo de que de repente ela pudesse cair. A cabeça erguida, o porte empinado, hierático,
ela mais parecia uma rainha descendo a escadaria dum palácio, uma noiva boiando no ar a
caminho do céu (DOURADO, 1999, p. 247).

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O que mais chama a atenção na passagem acima é o modo como a última herdeira Honório
Cota é descrita pelos moradores. Apesar das circunstâncias que ela se encontrava e da fragilidade
que ela aparentava ter, “a cabeça erguida” e “o porte empinado” que destacaram os moradores
que a observavam, apresentam-se como os resquícios de superioridade da casta Honório Cota que
ainda permanecem vivos na personalidade de Rosalina, mesmo esta estando completamente
imersa na decadência.
Ao deixar o sobrado e partir junto com Emanuel e o delegado da cidade, novamente
Rosalina é tratada como superior, nesse caso como uma rainha, e os que estavam ao seu lado vistos
como seus vassalos. Rosalina parte, então, combalida, deixando para trás a poeira, o
ressentimento, o ódio e uma vida regida por uma verdadeira ópera dos mortos.

Emanuel abriu a porta do carro para ela entrar. Ele lhe dava a mão, ajudava-a. Vimos que
ele fez uma reverência para ela, como um vassalo cumprimenta a sua rainha [...] O carro
partiu barulhento, deixando atrás de si uma nuvem de poeira. Lá se ia Rosalina para longes
terras. Lá se ia Rosalina, nosso espinho, nossa dor (DOURADO, 1999, p. 248).

Considerações finais

Ao término do presente trabalho, que não esgota as leituras possíveis dos romances O som
e a fúria e Ópera dos mortos, foi possível verificar o valor simbólico da transmissão geracional,
suas consequências e a relação que as personagens Quentin Compson e Rosalina Honório Cota
estabelecem com seus antepassados.
Nosso estudo apontou para o fato de que a transmissão dos mitos e das memórias
familiares apresentam um caráter fortemente influenciador e um peso simbólico negativo sobre
as personagens analisadas. Quentin e Rosalina denotaram uma identificação obsessiva com o
passado, característica esta que fez com que elas negassem o tempo presente e demonstrassem
um desespero pela preservação dos antigos códigos norteadores da sociedade norte-americana e
da mineira diante do fracasso e da impossibilidade em dar continuidade aos valores instituídos
por seus antepassados.
Outro ponto analisado foi que apesar da importância dada ao passado, ambos tentam fugir
do destino traçado por seus antepassados. Atitude essa que acabou os guiando a dois destinos
trágicos: ao suicídio, no caso de Quentin; e na perda das capacidades mentais, no caso de Rosalina.
Assim, aprisionados pelas correntes do passado, vitimados pela ação corrosiva do tempo
e atormentados por suas memórias familiares, Quentin Compson e Rosalina Honório Cota acabam
representando em O som e a fúria e Ópera dos mortos verdadeiros herdeiros de um passado em
ruínas.

Referências

BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito da história”. In: ____. Magia e técnica, arte e política: ensaios
sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet; prefácio de Jeanne
Marie Gagnebin. 8ª Ed. Revista. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 241 – 252.
DOURADO, Autran. Ópera dos mortos. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
FAULKNER, William. O som e a fúria. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cosac
Naify, 2015.
FORTES, Rita das Graças Felix. Tempo, espaço e decadência: uma leitura de O som e a fúria,
Angústia, Fogo morto e Crônica da casa assassinada. Cascavel: Edunioeste, 2010.

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PENSO, Maria Aparecida; COSTA, Liana Fortunato; RIBEIRO, Maria Alexina. “Aspectos teóricos da
transmissão transgeracional e do genograma”. In: PENSO, Maria Aparecida; COSTA, Liana
Fortunato (orgs). A transmissão transgeracional em diferentes contextos: da pesquisa à
intervenção. São Paulo: Summus, 2008, p. 9 – 23.
RU, Yi-Ling. The Family novel: toward a definition. New York: Lang, 1992.
SOUZA, Eneida Maria de. Autran Dourado. Belo Horizonte: Centro de Estudos Literários da
UFMG; Curso de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários, 1996.
VIANNA, Vera Lúcia Lenz. Sartoris: a História na voz de quem conta a história. Santa Maria:
UFSM, PPGL – Editores, 2007.

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