Você está na página 1de 20

Formação Avançada em Psicologia Analítica

Aula 19 – 22: Os complexos psicológicos e a terapia da caixa de areia

João Carlos Vaz Furtado

INTRODUÇÃO

A terapia da caixa de areia é uma técnica que possibilita a amplificação do símbolo, método
principal da psicologia analítica, dinamizando assim a sua ação prospectiva e evolutiva na
personalidade em direção ao seu potencial de busca de auto-regulação e totalidade.
Desenvolvida inicialmente por Dora Kalff (2003), esta técnica permitiu corroborar a hipótese
junguiana da interpretação da crise psicológica do ponto de vista arquetípico, ou seja, ela é
uma oportunidade de transformação da personalidade visando à individuação. Nesta
perspectiva os aspectos dissociados da personalidade são reunidos pela via do sintoma e do
sofrimento manifestos em forma de complexos, que por sua vez representam as tentativas do
organismo em busca de finalidade e ‘intencionalidade’, invés de somente representarem
relações de causalidade.

No processo terapêutico da caixa de areia, Kalff observou que os complexos são


manifestações simbólicas e criativas daquilo que Jung denominou de ‘arquétipo central’
(Self), logo, impulsionadores do processo de individuação, já ativo desde o ínicio do
desenvolvimento mental. As imagens criadas nos cenários demonstrariam as etapas do
desenvolvimento arquetípico coordenado pelo Self, em que o arquétipo materno precede o
paterno, e ambos quando interagem de forma equitativa (alteridade) viabilizam a meta do
desenvolvimento em busca da totalidade: individuação (Byington, 1987).

1- Os complexos:

C. G. Jung foi quem inventou o experimento da associação de palavras, hoje vulgarmente


conhecido como detector de mentiras. Observou que as falhas nas conexões expressas pelos
seus pacientes, deviam-se na verdade a interferências emocionais sobre o padrão de resposta,
que eram classificadas de acordo com alguns indicadores de distúrbios, e a seguir
interpretados a partir de desvios da média quantificados em termos estatísticos. A partir destes
parâmetros eram investigadas as manifestações emocionais que se desviavam do padrão e que
portanto se enquadravam nos indicadores:

“Existem doze ou mais categorias de distúrbios, mas mencionarei aqui apenas algumas delas a fim
de proporcionar aos senhores a visão de seu valor profissional. O prolongamento da reação é de grande
importância prática. Decidimos se o tempo de reação é muito longo tirando a média de todos os outros
tempos anteriores. Outras perturbações características são: reagir com mais de uma palavra contrariando
as instruções; engano na reprodução de palavras; reação traduzida por expressão facial; riso; movimento
das mãos, dos pés ou do corpo; tosse, gaguejar; reações insuficientes expressas por respostas do tipo ‘sim’
e ‘não’; não reação ao verdadeiro estímulo da palavra; repetição das mesmas palavras; uso de língua
estrangeira (…); reprodução defeituosa quando as palavras começam a escapar a memória; ausência
absoluta de reação.” (Jung, 1996: 44)

Com esse experimento, Jung demonstra empiricamente a existência do inconsciente e


elabora a partir daqui a teoria dos complexos, definindo-os como núcleos carregados de forte
carga afetiva, uma reunião de conteúdos para formar um aglomerado ou ‘constelação’, cujas
implicações comportamentais revelam-se na forma de complexos. Eles interferem na vida
normal, na estrutura da formação dos sintomas e doenças mentais e, mais, o seu núcleo é
profundamente emocional (Damásio, 1996). “Os complexos, segundo se supõe, estão ativos,
ou constelados, quando a mente se encontra num estado de excitação emocional” (Hall, 1992:
41).

A teoria dos complexos explica que quanto mais intenso e autónomo ele for, maior a
sintomatologia (Jung, 1997). O experimento de associação de palavras demonstrou não só
uma transformação a nível fisiológico, mas na estrutura corpórea total, quer o indivíduo a
perceba ou não. “Essa transformação pode ser sentida com um mal-estar indefinido ou
expressar-se numa sintomatologia mais evidente” (Ramos, 2006: 55).

As características mais superficiais, as ‘cascas’ dos complexos, “são em grande parte


formadas por acontecimentos e traumas na infância, dificuldades e repressões, e sempre
podem então ser redutivamente rastreadas até o passado pessoal do indivíduo, e explicados
em termos de causa e efeito” (Whitmont, 2008: 60).

No entanto, não é apenas diante da consciencialização das causas passadas, reprimidas


ou traumáticas que irão produzir o efeito mutativo da personalidade. A transformação
profunda não é atingida através da atividade operacional da interpretação dos complexos e a
integração emocional de suas causas e efeitos na mente. Este estágio denominado por Jung de
redutivo é importante no ‘descascar’ destes processos inconscientes, mas ao mesmo tempo é
fundamental integrar o método sintético, ou seja, é preciso compreender o núcleo arquetípico
do complexo, em termos de finalidade e intencionalidade.
“Apenas quando o pessoal (o ontogênico) foi completamente explorado é que o núcleo arquetípico do
complexo pôde ser de fato atingido, porque a casca pessoal do complexo é a forma pela qual o eterno
tema mitológico se encarna e se faz sentir na nossa vida pessoal ou na nossa natureza pessoal”
(Whitmont, 2008: 62).

Nessa perspectiva o complexo tem um poder impulsionador no desenvolvimento


mental, ele só se torna patológico quando torna-se obstáculo invés de direcionamento a fim de
amplificar sua fonte arquetípica. Assim, o sintoma necessita ser compreendido dentro de um
enquadramento do desenvolvimento normal, desde sua formação, fixação e operatividade
psicopatológica. A psicologia analítica busca compreender as manifestações patológicas como
‘símbolos doentes’ que devem ser integrados a fim de retomar sua função para o
desenvolvimento normal.

No processo terapêutico da caixa de areia é muito comum ‘visualizar


tridimensionalmente’ as principais características do complexo: sua relativa autonomia
(‘manias’, ‘cismas’), impulsividade e agrupamento em torno de certo tipo de ideias carregadas
de emoções. Assim como sua identidade1, compulsão, primitividade, inflação e projeção
(Whitmont, 2008).

2- O complexo egóico e a perspectiva desenvolvimentista:

Como diferenciar o complexo do ego dos demais complexos? Se nos recordarmos de que a
estrutura nuclear do complexo é o arquétipo, podemos então compreender que o fundamento
do ego é o arquétipo central, o Self, ou seja, o ego é a sua expressão encarnada e consciente
no que se refere a capacidade de ordenação, regulação, adaptação e evolução.

Porém, apesar do complexo egóico estar situado no centro da consciência, é


influenciado pelos outros complexos na personalidade, muitas vezes interferindo no
funcionamento regulado, adaptado e criativo da consciência. Inclusive, os outros complexos
podem dominar o complexo egóico a ponto do indivíduo se identificar com tais conteúdos
originados inconscientemente.

Apesar disso, como já referido anteriormente, o complexo não é necessariamente


negativo, eles fazem parte do funcionamento mental, aliás, a sua criatividade é um dos
aspectos mais fascinantes de sua dinâmica. No processo de individuação o indivíduo precisa
do contato contínuo com seus complexos, sua fonte de energia e desenvolvimento. A dialética

1
A identidade é definida aqui como um estado de não diferenciação da consciência e do inconsciente, em que o ego não consegue se separar
dos demais complexos. Nesse estado psicológico o indivíduo não tem liberdade para escolher de forma consciente, os elementos
impulsionadores e reativos são mais presentes e evidenciados.
do complexo egóico com os demais complexos é fundamental para ‘destronar’ a tirania do
ego na consciência, que poderia levar o indivíduo à uma ilusão de unidade e totalidade, mas
que na verdade é uma atitude unilateral, ‘egocêntrica’.

Na perspectiva junguiana, os complexos flexibilizam a consciência para uma atitude


mais aberta e abrangente às diversas possibilidades de uma determinada situação. A
consciência excessivamente normal, adaptada e dissociada dos demais complexos acarretaria
numa patologia da normalidade, a ‘normopatia’ (McDougall, 1991), podendo inclusive levar
o indivíduo a identificar-se somente à sua persona.

Provavalmente o que determina a negatividade do complexo é o seu grau de autonomia,


quanto mais autónomo e dissociado da consciência, mais destrutivo ele pode ser. Ao
contrário, quanto maior a reversibilidade e a dialética com o ego, mais saudável e integrado
será o seu funcionamento, podendo levar a criatividade em geral.

Um dos aspectos mais fascinantes no desenvolvimento mental na análise junguiana é o


trabalho sobre os complexos parentais, pois eles permitem compreender dinamicamente as
psicopatologias do ponto de vista analítico. Byington (1987- 2003), analista junguiano,
descreve tais psicopatologias através dos estágios de desenvolvimento arquetípico, descritos
por si como: matriarcal e patriarcal (parentais); alteridade e totalidade.

De acordo com sua teoria desenvolvimentista, a Psicologia Simbólica Construtivista, o


arquétipo materno precede o paterno no desenvolvimento e estruturação mental. Na posição
materna a interação eu/outro é muito próxima e íntima. É uma interação baseada no desejo, na
sensualidade e fertilidade, ou seja, o feminino associa-se ao útero (ventre), à vida, a mãe e à
Terra (Grande Mãe).

Nesta configuração, a relação tende a ser simbiótica em que o eu tem muita dificuldade
em separar-se do outro, mas que também se for bem integrada pode funcionar com uma
grande capacidade de empatia (esta capacidade é fundamental na interação das mães com seus
bebés). Daí também ser presente no funcionamento mental primário, cujo ponto de partida é a
interação profunda com a mãe em que coincide o estágio sensório-motor (Piaget, 2002) e a
posição esquizo-paranóide (Klein, 1991). É preciso lembrar que nesta fase do
desenvolvimento o bebé necessita que a mãe funcione como Self, pois este ainda não está
incorporado em sua mente.
Esta posição repete-se patologicamente no adulto, quando, por exemplo, não é capaz de
forma independente resolver seus problemas, suas decisões normalmente são baseadas nas
opiniões do outro. É muito suscetível a crítica, que por sua vez torna sua autoestima e
autoconceito (self) muito inconstante. Devido a estas características obviamente não consegue
ser assertivo, a sua tendência é ser agressivo ou vitimizado.

O funcionamento ético é mais baseado nas emoções do que a razão, consequentemente


a conduta moral não é resultante de uma análise reflexiva, mas sim em função do desejo e da
sensualidade.

Do ponto de vista cognitivo o funcionamento é pré-verbal, imagético, imitativo,


intuitivo e sensorial. O que está de acordo com a explicação das neurociências, isto é, é um
funcionamento neurológico predominantemente do hemisfério direito, do sistema límbico e
neuroendócrino-vegetativo.

Em termos psicopatológicos, o mecanismo principal é a dissociação, ou seja, a


satisfação e a frustração são sentimentos experimentados de forma isolada, não consegue
compreender que a mesma pessoa que o frustra também o satisfaz. Desse modo, os
relacionamentos são muito dependentes, simbióticos, eróticos, passionais e intensamente
apegados aos instintos. São pessoas extremamente dependentes com necessidades de
assistência permanente e acolhimento emocional. Normalmente são muito suscetíveis a
rejeição e a incompreensão. A manifestação patológica principal são os quadros dissociativos,
conversivos, dependentes, ansiosos, depressivos e também os distúrbios alimentares.

Nesta posição a afetividade é mais voltada para o desejo, o erotismo e as sensações.


Como funciona muito próxima dos instintos, é muito mais emotiva e sensível às flutuações
afetivas. Os aspectos não-verbais e afetivos têm mais importância, tornando a vivência
emocional muito mais passional.

Na posição do arquétipo paterno a interação eu/outro é mais discriminada, polarizada.


Há uma prevalência por um funcionamento mental baseado na causalidade reflexiva, voltada
para a tarefa, o poder, o perfeccionismo, à culpa e ao repúdio ao erro e fracasso.

A relação tende a ser mais racional, extremamente separada do outro, mas que também
se for bem integrada pode funcionar com uma grande capacidade de reflexão e análise, muito
importante para compreender os processos emocionais intensos. É mais característica no
funcionamento mental secundário, cuja interação é mais hierárquica e ao extremo autoritária.
Coincide o estágio operatório concreto (irreversibilidade), (Piaget, 2002) e a posição
depressiva (Klein, 1996). Nesta fase do desenvolvimento a criança já necessita estar mais
separada da mãe, é muitas vezes lhe exigido autonomia, que já tenha internalizado o Self.

Na posição paterna em que coincide com a depressiva, o bebé começa a separar-se da


mãe e ao mesmo tempo combina com o aparecimento dos dentes e a mastigação do alimento,
aqui a função nutricional vai se discriminando da função sexual. Gradualmente esse processo
culmina na separação da função oral e anal, associando-os agora a função moral.

Logo, a criança começa a ter mais controlo sobre o corpo (esfíncteres) o que gera em si
sentimentos de onipotência, característico do autoritarismo. É nessa fase que a função paterna
intervém com a inserção das regras, na educação, no certo e errado e na punição. Assim, os
sentimentos de culpa e vergonha tornam-se muito mais presentes, como também os
sentimentos de perda e rejeição. O amor incondicional em função do desejo e da sensualidade
(corpo) é substituído pelo amor condicional em função da moral e do bom comportamento.
Consequentemente começa haver uma maior separação das emoções das funções cognitivas,
prevalecendo o símbolo verbal sobre o não-verbal. Por fim, há uma maior hierarquização das
relações interpessoais, da razão sobre a emoção, do eu em relação ao outro, e do masculino
em relação ao feminino.

Esta posição repete-se patologicamente no adulto, quando, por exemplo, não é capaz de
pedir ajuda e mostrar-se dependente (impotente) do outro para resolver seus problemas, suas
decisões normalmente são unilaterais, muito racionais e crítica em relação ao outro, que por
sua vez torna sua autoestima e autoconceito (self) muito inflacionado, ou seja, normalmente
sempre está acima do outro. Devido a estas características obviamente não consegue ser
assertivo, a sua tendência é ser agressivo (verbalmente) ou inibido (reprimido).

O seu funcionamento ético é mais baseado na razão em detrimento das emoções,


parecendo mesmo insensível, consequentemente a sua conduta moral é baseada na culpa e
punição, descaracterizando as emoções do outro e os aspectos subjetivos que levam a
determinadas condutas.

Do ponto de vista cognitivo o funcionamento é mais verbal, racional e numa lógica mais
concreta, pois ainda tem dificuldades de fazer a reversibilidade, principalmente do ponto de
vista emocional. Consequentemente subordina as funções da sensação, intuição e sentimento.
De acordo com as neurociências, é um funcionamento neurológico predominantemente do
hemisfério esquerdo, do sistema volitivo-sensório-motor e associativo cortical
(memória, atenção, consciência, linguagem, percepção e pensamento).

Em termos psicopatológicos, o mecanismo principal é a repressão, como se observa nos


quadros repressivos da sexualidade. Parecem pessoas muito frias, desapegadas, sem emoções.
Consequentemente há uma disfunção do pensamento, pois não conseguem controlar uma
ideia fixa, a famosa ‘cisma’, característico do obsessivo compulsivo. Normalmente há um
exagero no controlo que revela as atitudes autoritárias. São pessoas superexigentes, com uma
moral baseada no bem e no mal de forma exagerada, automaticamente a culpa é um
sentimento muito presente (seja projetada ou introjetada). Apresentam baixa tolerância às
emoções, com isso tendem a ser materialistas em oposição aos ideias e valores sentimentais.
No autismo observa-se este funcionamento através de uma inteligência super-desenvolvida, e
uma repressão profunda das emoções, da sensualidade e agressividade.

Nesta posição a afetividade é experimentada de forma mais egocêntrica, para o


desempenho e o sucesso baseado na onipotência, logo com muita dificuldade em lidar com
alguma disfunção afetiva (fracasso/impotência), com ênfase nos aspectos mais concretos e
materiais da experiência emocional em detrimentos dos aspectos afetivos, como a ternura, o
que por sua vez dificulta empatizar com as necessidades do outro.

Na posição do arquétipo da contrassexualidade (alteridade) a interação eu/outro é mais


simétrica, horizontal, profunda e verdadeira. Os diversos pólos são aceitos e integrados, de
forma que o certo e errado, o bem e o mal são relativos, complementares e dialéticos. Nesta
posição aceita-se a imprevisibilidade, ou seja, não é o desejo da posição materna nem a
causalidade da paterna que regem as diversas interações. A prevalência é por um
funcionamento mental baseado na casualidade, no encontro, na mutualidade, na reparação e
reversibilidade. Do ponto de vista desenvolvimental isso significa que com a integração dos
arquétipos parentais (inclusive seus aspectos dissociados e reprimidos) será o arquétipo da
alteridade (anima/animus) a reger o desenvolvimento.

A relação tende a ser mais sentimental (de acordo com o conceito de Jung), com uma
grande capacidade de utilizar conscientemente a emoção e a reflexão. É mais característica no
funcionamento mental interacionista e sistêmico, com grande capacidade de compreensão dos
fenómenos em ligação, num sistema circular. Coincide o estágio hipotético dedutivo
(reversibilidade) e a posição depressiva. Esta fase do desenvolvimento é mais característico
do adulto, pois as funções parentais já estão mais integradas e equilibradas, o que por sua vez
permite uma maior integração do Self manifesta na sua grande capacidade de emancipação,
adaptação e individualidade.

Nesta posição em que também coincide com a depressiva, o indivíduo equilibra a


função feminina e masculina, ou seja, a sua ética é baseada no amor, pois é este o sentimento
que guia o sentido profundo do Self (individuação). A ética do amor busca uma experiência
de riqueza de sentido com o outro, que apesar de ser invisível, torna-se visível e consciente no
sentimento e no ato. Desse modo conduz a totalidade, pois nesta posição, sentir, pensar e agir
funcionam de maneira integrada, e o Self passa a ter substância, como por exemplo nas
reações químicas que são produzidas no corpo associadas ao bem-estar e a saúde (é nesta
dimensão que se inclui a promoção da saúde).

O controlo sobre o corpo passa a ser substituído por comunicação com ele (interação) o
que gera em si sentimentos de integração. É nessa fase que a contrassexualidade tem maior
importância, pois o organismo impele para uma relação com o outro (não-familiar), fora do
seu âmbito familiar, logo para o novo e o diferente. E neste momento é o amor que move esta
interação, afinal as regras, princípios morais e a ética são construídos em conjunto,
democraticamente, logo não faz sentido a punição, mas sim a reparação. Assim, os
sentimentos de culpa funcionam como parâmetros primários para o desenvolvimento
secundário do perdão e da reparação, como também os sentimentos de acolhimento e
aceitação. Esta ética do amor pode ser compreendida no exemplo do amor cristão, na
democracia, nos direitos humanos, nos direitos às crianças, na preservação das espécies, na
ecologia e no princípio de igualdade dos povos e respeito ao diferente.

Como há uma maior integração das emoções e das funções cognitivas,


consequentemente as relações interpessoais são baseadas no diálogo, na igualdade,
mutualidade, reversibilidade e criatividade. Este princípio permite ao ser humano a liberação
da ternura, da sensibilidade e da afetividade, assim como a realização criativa profissional e
emocional.

De acordo com as neurociências, é um funcionamento neurológico de amplitude


conectiva com os hemisférios e as demais zonas cerebrais, incluindo também a zona espinhal
e os nervos por todo o corpo. Perspectiva esta em total acordo com as recentes descobertas de
Damásio.

Portanto, a afetividade baseada no amor é vivida de forma estruturante para o


desenvolvimento, aliás ela é importante desde o amor parental (materno e paterno). Amar
assim é uma ciência e uma arte! Este processo permite o desenvolvimento emocional, afetivo,
erótico, compreensivo e auto realizador. Assim a afetividade é experimentada como forma de
libertação, de uma educação fundamentada na alteridade que irá conduzir à próxima posição
denominada de totalidade, como também ao processo de individuação.

A individuação não é possível sem a relação, ninguém consegue individuar isolado do


outro, no entanto, ela também não é compatível com o ideal de união do materno (simbiose –
paixão) ou do paterno (poder). Nos relacionamentos, a individuação significa uma relação
com o outro a partir de uma integridade pessoal: “eu o amo do jeito que tu és”. Esse
sentimento é a base do desenvolvimento da individuação, cuja meta não é a perfeição e sim a
totalidade. Para Jung a meta só é importante como ideia, o essencial é o trabalho que conduz
à meta: essa é a meta de uma vida.

3- O método junguiano de amplificação dos símbolos:

O método de intervenção terapêutica utilizado por Jung é denominado de ‘amplificação do


símbolo’, cujo objetivo é aumentar o material individual ao nível coletivo, universal e
arquetípico, de forma que as potencialidades ao serem amplificadas guiem o processo de
evolução da personalidade em direção ao seu potencial de busca da totalidade, denominado de
processo de individuação. Neste método os símbolos têm uma função fundamental, pois
dinamizam a ação prospectiva na personalidade (Byington, 2004).

Como se verifica, a psicologia analítica está mais interessada em averiguar para onde a
vida de uma pessoa a está conduzindo (teleológico) combinado com as presumíveis causas de
sua situação. Essa orientação definida por Jung como ‘sintética’, significa que aquilo que
emerge do ponto de partida é que têm uma significação primária, ou seja, os fenómenos
psicológicos são considerados como se tivessem intenção e propósito, em termos de
orientação para um objetivo ou teleológica. Tal método é compatível com o ponto de vista
básico dos opostos, que, apesar de separados, tendem constantemente para a síntese ou a
procuram. Daí que as abordagens sintéticas e redutivas devem coexistir.
O método da psicologia analítica, logo que definido seu campo de investigação clínica,
a amplificação dos símbolos, permitiu aos junguianos empregar diversas técnicas que
objetivavam alargar seus significados, dentre elas a associação livre, análise de sonhos,
imaginação ativa (Jung), mitodrama (Laura Freitas), pintura, escultura (Nise da Silveira) e a
caixa de areia (Kalff). Tais técnicas visam aprofundar a comunicação na interação terapêutica,
principalmente quando o paciente tomar consciência de processos que têm dificuldades de
expressar do ponto de vista verbal.

Do material produzido, estuda-se uma série de sonhos, cenários, imagens, fantasias e


narrativas, observam-se os temas que se interligam e amplificam-se de modo a chegar ao
núcleo central do significado emocional. Como a investigação e o estudo dos símbolos
desenvolveu-se muito desde o século XIX, como por exemplo o estudo comparativo dos
mitos, permitiram aos junguianos utilizar desses conhecimentos como instrumento
(interpretação) para operar na mente dos pacientes. Assim, mediante a associação livre (não-
verbal, pré-verbal e verbal) tenta-se estabelecer o contexto pessoal relativo ao conteúdo
manifesto, e através da técnica da amplificação liga-o à símbolos universais e arquetípicos. A
amplificação envolve o uso de paralelismos míticos, históricos e culturais a fim de esclarecer
e alargar o conteúdo metafórico do simbolismo manifesto. Jung fala disso como o tecido
psicológico em que o símbolo está inserido. Como este processo traça um paralelo entre o
material aparentemente pessoal trazido pelo paciente à psicoterapia e o conteúdo coletivo, irá
poder propiciar o insight e a conexão ao Self.

Algumas dúvidas poderiam suscitar em relação à validade deste método de intervenção,


principalmente em pacientes que julgamos apresentarem dificuldades em simbolizar,
observados por exemplo nas crianças e nos pacientes muito regredidos. Na verdade, o que
sucede é que tal processo está a lidar com formas mais primárias do funcionamento mental,
formas simbólicas pré-verbais. Devemos não confundir essa ideia e reduzir o símbolo ao
verbal, na ausência de uma representação simbólica abstrata, como é o caso da doença que se
expressa no corpo, “o Self manifestaria uma disfunção por meio de uma simbolização mais
regressiva, mais primitiva e mais organicista” (Ramos, 2006: 57).

Esse fenómeno deve-se às dificuldades de abstração nas fases iniciais do


desenvolvimento, pois o processo de assimilação funciona muito mais de maneira literal,
sensorial e perceptiva, confirmado por Piaget ao descrever os estágios de desenvolvimento
psicogenético. Esse dinamismo, definido de matriarcal por Byington (1987), está situado
numa relação mais íntima com o outro, dependente do vínculo e da relação afetiva, cuja
primazia é a dimensão corporal, mais arcáica e primitiva para vivenciar o outro na mente.

Esse modo de inteligência sensorial e perceptiva intensifica a literalidade dos símbolos


e restringe sua abstração, daí poder conter grande carga simbólica estruturante:

“Não devemos, pois, reduzir a simbolização exclusivamente à abstração e à consciência. Quando o


fazemos, favorecemos uma falsa superioridade do padrão patriarcal em detrimento do matriarcal (…) do
ponto de vista da produtividade simbólica na construção da identidade (…) o arquétipo matriarcal é de
longe superior ao patriarcal porque a função estruturante da simbiose é muito mais intensa na posição
insular” (Byington, 2003:149).

Desse modo, a manifestação simbólica dos arquétipos, que varia conforme o contexto
histórico e cultural que o indivíduo está inserido, acontece desde o seu nível abstrato ao nível
concreto:

“O símbolo é o corpo vivo (…). Quanto mais ‘baixas’, isto é, com a aproximação dos sistemas funcionais
autônomos, tornam-se gradativamente mais coletivas, a fim de se universalizarem e ao mesmo tempo se
extinguirem na materialidade do corpo, isto é, nas substâncias químicas (...). Quanto mais arcaico e ‘mais
profundo’, isto é, mais fisiológico o símbolo, tanto mais ele é coletivo e universal, tanto mais material”
(Jung, 2002: 173).

Os símbolos, produções naturais do desenvolvimento mental, são ferramentas


fundamentais nos procedimentos em psicoterapia. São expressos algumas vezes
espontaneamente através dos sonhos, por exemplo, e outras vezes através de atuações
substitutivas que se transformam em sintomas, que por sua vez, podem levar à alienação,
estagnação, à atitude unilateral da personalidade e à doença. O setting analítico e suas técnicas
variadas visam justamente facilitar ao paciente a compreensão de tais manifestações
simbólicas a fim de restabelecer a regulação e a unidade mental, promovendo a sua saúde e a
individuação.

O símbolo, na perspectiva analítica, é considerado um instrumento terapêutico valioso,


pois integra realidades opostas que geralmente se encontram dissociadas. Desse modo,
viabiliza a capacidade de tolerar a tensão dos opostos e de sustentar o conflito para que possa
ser superado. Tal capacidade gera novas atitudes, perspectivas, soluções e o processo criativo
em geral. O ser humano poderá, então, viver de forma mais livre, consciente e criativa
(Weinrib, 1993).
4- A técnica da caixa de areia

A técnica da caixa de areia é um recurso não-verbal, autónomo e não-racional, que possibilita


poucas influências do terapeuta e, por isso mesmo, é um processo natural e espontâneo que
confirma os estágios de desenvolvimento descritas na teoria de Neumann (2003): a unidade
mãe-filho, a constelação do Self como pré-requisito para o surgimento do verdadeiro ego e o
desenvolvimento do ego de um nível matriarcal da psique para um nível patriarcal.

Pode-se considerar Margaret Lowenfeld (1935) a precursora desta técnica lúdica


aplicada às crianças como recurso de psicoterapia. Dora Kalff inspirada por este trabalho e
incentivada por Jung começou a desenvolver sua própria versão da terapia na caixa de areia.
No seu único livro, Kalff desenvolve o pensamento desenvolvimentista junguiano da época,
segundo o qual o Self dirigiria o processo de desenvolvimento da psique desde o nascimento.
Sua observação empírica na caixa de areia evidenciou aspectos da teoria de Neumann,
afirmando que em sua experiência podia verificar num mesmo paciente fases diferenciadas na
realização dos cenários que coincidiam com os três estágios do desenvolvimento do ego.

A técnica consiste de uma caixa retangular, com dimensões de 72 X 50 X 7,5 cm,


pintada internamente com cor azul-claro (impressão de água azul) e com areia até a metade.
Incluem-se também centenas de miniaturas para a construção dos cenários na areia. A coleção
de miniaturas deve abranger o máximo possível de possibilidades de representação do
universo humano: pessoas, animais, vegetais, transportes, alimentos, objetos sagrados e
bélicos, personagens míticas e folclóricas, edificações, representações de fenómenos da
natureza, sucatas e material criativo em geral.

Numa fase inicial incentiva-se o paciente para iniciar o trabalho terapêutico na caixa de
areia. A forma como isso se dá, a escolha das miniaturas, sua distribuição na caixa, a
manipulação da areia e a elaboração de um cenário, são livres e infinitas. Cada paciente tem o
seu ritmo e sua forma de reagir a essas orientações e estímulos. Ele poderá criar um cenário
que inclui miniaturas, fazer uma escultura na areia ou apenas manipular a areia, que
naturalmente assumirá formas reveladoras. Durante a construção do cenário é importante
observar e documentar as reações não-verbais, assim como as verbalizações a respeito da
mesma, especialmente aquelas que vêm espontaneamente.

Na análise e interpretação dos cenários adota-se o procedimento junguiano de


amplificação do símbolo, ou seja, não interpretar imediatamente os cenários, mas esperar para
ver o que os pacientes diriam por si. Weinrib (1993) afirmou que pressionar associações seria
encorajar a atividade cerebral, que não é desejável aqui, excepto se ocorrer de forma
espontânea. Essa pressão, ademais, encorajaria a discussão cerebral verbal e uma expectativa
de resposta do terapeuta. Além do mais anteciparia o processo natural de desenvolvimento da
consciência, não integrando espontaneamente os estágios anteriores de criação e formação da
consciência.

A terapia da caixa de areia facilita a interação dinâmica acontecida num espaço no qual
se apresentam ao cliente estímulos facilitadores à expressão de sentimentos, valores e
fantasias; e mais, as emoções são traduzidas em imagens, propiciando-se assim também a
simbolização tridimensional dos aspectos inconscientes. Não é demais lembrar a importância
de o psicoterapeuta conscientizar-se da qualidade de relação que estabelece com suas
miniaturas, e que aspectos símbolicos que elas evocam, qualidade esta que muitas vezes
poderá se expressar nos cenários de seus clientes. A vivência desses símbolos, ou seja, sua
concretização, visualização e reconhecimento consciente, agregada à interpretação ou o
trabalho de associação e amplificação, típicos no contexto junguiano de psicoterapia, pode
possibilitar transformações.

Kalff (2003) descreve que o Self orienta o processo de individuação desde a altura do
nascimento, que por sua vez depende da qualidade das relações primárias, que se bem
sucedidas irão desenvolver um processo natural de desenvolvimento mental de acordo com as
teorias dos pós junguianos (Fordham, Neumann, Edinger, Byington). A primeira fase
relaciona-se à unidade mãe-criança, associada portanto a dimensão materna e seu amor
incondicional, em que o Self da criança está contido no Self da mãe. Normalmente o início da
terapia na caixa de areia é vivenciado em grande parte pelo cliente de forma subliminar,
vegetativa, portanto muito mais próxima destes aspectos inconscientes, cujo padrão de
funcionamento é matriarcal. Este é também um momento de gestação, nutrição e proteção, o
‘verdadeiro ego’ está em germe, logo necessita de um espaço que seja livre e ao mesmo
tempo seguro e fechado. O sistema ternário, tridimensional e os limites da caixa fornece a
segurança necessária para esse desenvolvimento. Isso sugere que dentro dessa unidade mãe-
filho, reconstituída pela terapia da caixa de areia, permitirá que logo que o ego esteja pronto,
encaminhe-se para o mundo, facilitando o processo de conscientização dos opostos, do não-
eu, transformando a caixa num objeto transicional.
A segunda fase caracteriza-se pela separação dessa unidade, coincide com a percepção
da mãe total (Klein), como também a noção de objeto permanente (Piaget), no qual o bebé
experimenta segurança e confiança na sua relação e separação da mãe ou cuidador/a. Por fim
na terceira fase, o Self se estabiliza na mente da criança e começa a manifestar-se com maior
capacidade de integração do organismo e interação social, o que implica a existência de uma
regulação e organização interna.

A observação (Kalff, 2003; Weinrib, 1993; Bradway, 1985) dos cenários produzidos na
caixa de areia, comprova que as primeiras representações dão-nos indicações dos complexos e
seus conteúdos que não foram integrados à personalidade, além de representarem temas
arquetípicos. Quanto maior for o sofrimento mental, a regressão e a imaturidade, mais a
dinâmica e as imagens apresentar-se-ão com formas caóticas, conflitivas e fragmentadas do
ponto de vista da totalidade dos símbolos expressos. Neste contexto é comum a operação
mental sensório-motora, sem organização prévia, critérios de escolha e planeamento do
cenário. A intolerância ou imaturidade mental para experimentar a ambivalência dos
sentimentos é retratada de forma parcial, dissociada, ou seja, nesta configuração mental os
cenários são assinalados pelo caráter evidente da incapacidade do sujeito em perceber a
reversibilidade e ambiguidade do objeto total.

Os símbolos manifestos indicam que a interação é muito mais emocional,


indiscriminada, arcáica e corporal (acting out), isto é, o processamento mental é em grande
parte do sistema nervoso vegetativo. Neste contexto as leis de causalidade ainda não estão
devidamente integradas, vive-se mais próximo das emoções, como a ambivalência do amor e
do ódio, da segurança maternal e de suas incertezas e medos. A percepção fragmentada do
próprio corpo, como muitas vezes é observado nas queixas psicossomáticas, são elementos
sensoriais captados de forma ainda parcial, dissociada do príncipio arquetípico de totalidade e
auto-regulação do Self.

Do ponto de vista arquetípico, significa que o arquétipo de-integrado2 materno é que irá
guiar primariamente o processo de estruturação e promoção do desenvolvimento mental. Esse
modo matriarcal de funcionamento mental, reflete processos mais profundos, arcáicos e
primários, ao invés de pensamento ou julgamento direcionados. Aliás, é de reiterar que Kalff
baseou as suas experiências clínicas no trabalho de Neumann, que sugere que a cura se
encontra no nível matriarcal da personalidade, o que significa que esse processo muitas vezes

2
De-integrado é um conceito de Fordham para explicar como os demais arquétipos se discriminam do Self.
é não-verbal, não racional. O processo de caixa de areia é ao mesmo tempo: metáfora
emocional para a unidade mãe-filho, ‘espaço seguro’, cura da ferida psicológica interna,
constelação do Self, redescoberta da criança interna, potencialidade de criatividade e
renovação.

“Através da sua técnica não interpretativa e não-verbal, a caixa de areia estimula a reconstituição de uma
unidade psicológica mãe-filho, permitindo a constelação do Self e levando ao desenvolvimento de um ego
mais forte. Estimula uma regressão terapêutica ao nível matriarcal, (...) onde pode ocorrer a cura e a
renovação psicológica.” (Weinrib, 1993: 36)

Neste nível matriarcal do desenvolvimento, dificilmente o paciente consegue


compreender cognitivamente a totalidade e a relação dos diferentes conteúdos expressos na
caixa de areia, mas permite ao psicólogo observar ali as virtuais soluções para os complexos,
pois simbolicamente o Self, com todo o seu potencial de cura e de totalidade, já está a ser
expresso. A superação dessa situação arquetípica é condição prévia para o desenvolvimento
ulterior da personalidade, pois nos estágios precoces do desenvolvimento mental, todos os
arquétipos são simultâneos e justapostos, e “somente com o desenvolvimento da consciência
ocorre uma graduação hierárquica no próprio inconsciente coletivo” (Neumann, 2003:79).

A finalidade teleológica deste estágio caracteriza-se pela emergência de cenários que


retratam as possíveis soluções para os complexos ativados na caixa de areia, simbolizados
pela transição de temas cujos pares de opostos começam a despontar, o que por sua vez irá
permitir mais organização e separação dos aspectos conscientes e subliminares, característico
do de-integrado paterno. Para Klein, a ordenação da experiência também ocorre com o
processo de divisão num objeto bom e mau. É desse modo que o universo das impressões
emocionais, sensoriais e motores da criança são discriminados, o que constitui uma
precondição da integração posterior da posição depressiva. Trata-se da base do que mais tarde
se torna a faculdade de discernimento, cuja origem é a diferenciação primitiva entre bom e
mau. A mãe, ou a sua representação parcial, como seio alimentador, se constitui nesse sentido
no primeiro objeto interno do bebé, experiências essas que adquirem qualidades boas ou más,
conforme a função exercida. Na posição depressiva, diferente da parcial, o outro não é mais
percebido de forma tão misturada à experiência emocional do eu. As qualidades antes vistas
fragmentadas, parciais, são agora reconhecidas como presentes na pessoa total: é boa e
gratificante, mas também má porque frustra.

Por conseguinte, a superação do estágio ‘caótico’, indiscriminado, será expresso em


broto através de cenários mais organizados e centralizados, aspectos auto reguladores do Self,
cuja natureza arquetípica objetiva construir, organizar, estruturar e evoluir a arquitetura
mental. No entanto, esta experiência total permanece ainda subliminar, e como não houve
interpretações, todo esse processo decorre naturalmente. Esse método facilita o insight porque
a apresentação posterior da sequência de imagens, a fim de relembrar o que ocorreu, facilita
ao paciente observar o que aconteceu e acontece na sua mente, expresso de forma projetada
na caixa. E o Self pode então ser visualizado concretamente, principalmente através de
cenários com afinidades às figuras geométricas como o quadrado, o círculo e a cruz (Weinrib,
1993).

Tal funcionamento mais integrado e natural da psique fortalece a consciência, permite


que ela também se apoie no Self, ganhando um novo senso de ordem e segurança. Permite
sentir na própria experiência o fator de cura e de organização, que transcende a consciência
egóica e da qual pode confiar. A constelação do Self permite portanto uma maior organização
do patriarcado e, assim, de maior simbolização, comprovando a tese desenvolvida por
Neumann dos estágios de desenvolvimento. Esse dinamismo biologicamente determinado se
expressa na psique como o impulso à totalidade.

Nesta fase é comum o paciente começar a estabelecer uma nova relação com a sua
mente, ao valorizar a imaginação e o seu eu interior, começa a sentir que realmente existe
nela um factor prospectivo, que por sua vez busca a cura, organização e equilíbrio. Este
processo possibilita a transformação da personalidade, normalmente expressa por uma
miniatura com a qual se identifica conscientemente e que regularmente aparece nos cenários.
Neste contexto, a atitude do paciente diante da caixa de areia se modifica, torna-se muito mais
ativa, criativa, segura, consciente, organizada e progressiva, algo que se manifesta nas sessões
mas também na sua vida de modo geral. Essa operação arquetípica (processo de
indiscriminação-elaboração-discriminação) manifesta-se na formação do ego, no seu
funcionamento, desenvolvimento e identidade, evolui com a capacidade simbolizadora do eu,
o que por sua vez diminui a carga arquetípica da vivência emocional (Byington, 1987).

Dá-se então início a uma nova fase, comumente caracterizada pela manifestação mais
evidente de miniaturas que retratam símbolos relativos à contrassexualidade, isto é, o
arquétipo relativo à alteridade, à capacidade de reversibilidade e o colocar-se no lugar do
outro, do objeto e suas características. É fundamental compreender que este processo já estava
presente desde o início, no entanto, como ainda se encontrava em fase germinal, os símbolos
manifestavam aspectos mais vegetativos e do tipo animal. Nesta etapa se alteram para figuras
humanas e até sobrenaturais (deuses, fadas, etc.).

Weinrib (1993) destaca que o sucesso terapêutico além de depender da compreensão


cognitiva que o psicólogo e o paciente venham a ter do simbolismo presente nas sessões,
exige também o reconhecimento dos estágios de desenvolvimento, que incluem: pelo menos
uma solução parcial dos principais complexos; uma manifestação da totalidade relativa ao
arquétipo central (Self) e o surgimento de um elemento contrassexual diferenciado: “É uma
busca pela reversibilidade do conflito mental” (Andion, 92: 2010). Tal evolução pode ser
constatada numa nova atitude do ego em relação à vida e à própria natureza da mente, ou seja,
a capacidade de relacionar-se criativamente com a realidade interna e externa.

A integração dos arquétipos masculino e feminino é um ciclo de desenvolvimento mais


evoluído, porque as relações parentais já funcionam mais equilibradas e diferenciadas do eu,
viabilizando a dialética e criatividade dos diversos processos mentais. Isso é manifesto numa
atitude mais autónoma, adaptada e consciente na relação com o Self, o meio, e principalmente
o outro. Esta etapa de desenvolvimento mental denomina-se ciclo de alteridade (Byington,
1987).

Weinrib resume estes estágios da seguinte maneira: “ (...) parece comprovar a tese de
que a terapia na caixa de areia opera num nível profundo; que realmente reconstitui a unidade
mãe-filho, permitindo: (1) a constelação do Self, (2) o surgimento de um novo ego, e (3) a
diferenciação dos elementos sexuais” (1993: 74).

O arquétipo da alteridade que dirige o processo de individuação, deve-se à sua grande


capacidade de reversibilidade, que por sua vez facilita ainda mais o desenvolvimento da
função simbólica.

“Trata-se do arquétipo da dialética do processo, da mutualidade, da conjunção e do encontro e, por isso, o


arquétipo da alteridade rege a diferenciação da consciência para integrar o certo e o errado, o bem e o
mal, e todas as demais polaridades na sabedoria de viver” (Byington, 2003: 187).

A relação dialética entre os pólos possibilita reversibilidades entre suas semelhanças e


diferenças, a tal ponto, de poderem trocar de posição e revelarem-se integralmente. Essa
interação mental leva a auto realização e o processo de individuação. Neste contexto, os
impulsos reparadores característicos da posição depressiva ocasionam um maior avanço na
integração e tornam mais frequentes a compreensão global da realidade. O aspecto
fundamental desta reparação consiste em aprender a renunciar ao controle onipotente de seu
objeto e aceitá-lo como realmente é (Klein, 1996).

Observemos esta evolução também a partir da perspectiva construtivista piagetiana,


através das palavras da autora:

“O trabalho com as miniaturas na caixa de areia permite uma mobilidade e uma percepção mais clara do
processo mental (...). Assim sendo, este facto ocorre quando o sujeito escolhe aleatoriamente as
miniaturas das prateleiras e, em um gesto espontâneo coloca-os em uma das caixas de areia sem prévio
planeamento. Após este momento, articula mentalmente a troca de lugar das miniaturas, complementa seu
cenário com outras miniaturas, atribuindo a novos significados, antes não cogitados. A este novo esquema
mental adquirido, de ajustamento e de ‘arrumação’, damos o nome de Acomodação. (...) Posteriormente,
começa a planear suas ações, antecipar seu pensamento, realizar previamente escolhas das miniaturas e
utilizar outras estruturas mentais visíveis no cenário, como atenção, memória, percepção, etc. (…) O
processo de equilibração apresenta-se na sucessão dos estágios ou dos períodos do desenvolvimento,
expressando níveis crescentes de reversibilidade. Em cada período, o nível de equilíbrio é maior do que
aquele do período anterior, bem como a reversibilidade” (Andion, 2010: 86 -92).

Portanto, a transicionalidade do espaço interativo da caixa de areia supera a visão


dicotómica que separa o sujeito do objeto. A amplificação verbal do símbolo permite que a
reparação seja um elemento importante na sua capacidade de ‘nomear’ e representar
mentalmente. O nomear nesse sentido, representa a aceitação da realidade, elemento
fundamental da reparação real e verdadeira. A aceitação da realidade e a verdade mental
envolve a renúncia à onipotência mais característico do de-integrado paterno e a mágica do
de-integrado materno, e dessa permite ampliar a compreensão dos símbolos a partir de uma
perspectiva histórica, cultural ou de um contexto psicológico generalizado.
Referências bibliográficas:
-Andion, T.M. (2010). Jogo de Areia: Intervenção Psicopedagógica à Luz da Teoria
Piagetiana na Caixa de Areia. Rio de Janeiro: Wak Editora.
-Bradway, K. (1985). Sandplay Bridges and the Transcendent Function. San Francisco: C. G.
Jung Institute.
-Byington, C.A. (1987). O Desenvolvimento da Personalidade: Símbolos e Arquétipos. São
Paulo: Ática.
-Byington, C.A. (2003). A Construção Amorosa do Saber: O Fundamento e a Finalidade da
Pedagogia Simbólica Junguiana. São Paulo: Religare.
-Byington, C.A. (2004). “Transcedência e Totalidade”. Viver Mente & Cérebro – Coleção
Memória da Psicanálise: Jung a Psicologia Analítica e o resgate do sagrado, 7-15.
-Damásio, A. (1996). O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano. São Paulo:
Companhia das Letras.
-Edinger, E. (1992). Ego e Arquétipo: Uma Síntese Fascinante dos Conceitos Psicológicos
Fundamentais de Jung. São Paulo: Cultrix.
-Fordham, M. (2001). A Criança como Indivíduo. São Paulo: Cultrix.
-Freitas, L.V. (1990). “O Arquétipo do Mestre-aprendiz – Considerações sobre a Vivência”.
Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, nº 8, 72-99.
-Hall, J.A. (1992). A Experiência Junguiana: Análise e Individuação. São Paulo: Cultrix.
-Jung, C.G. (1996). Fundamentos de Psicologia Analítica. In C.G. Jung, Obras completas.
(vol. XVIII/1) Petrópolis: Vozes.
-Jung, C.G. (1997). A Prática da Psicoterapia: Contribuições ao Problema da Psicoterapia e
à Psicologia da Transferência. In C.G. Jung, Obras Completas. (vol. XVI/1). Rio de Janeiro:
Vozes.
-Jung, C.G. (2002). Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. In C.G. Jung, Obras Completas.
(vol. IX/1). Petrópolis: Vozes.
-Klein, M. (1991). Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos (1946-1963). In M. Klein, Obras
completas (vol.3). Rio de Janeiro: Editora Imago.
-McDougall, J. (1991). Teatros do Corpo: O Psicossoma em Psicanálise. São Paulo: Martins
Fontes.
-Neumann, E.(2003). História da Origem da Consciência. São Paulo: Cultrix.
-Piaget, J. (2002). Epistemologia Genética. São Paulo: Martins Fontes.
-Ramos, D. G. (2006). A Psique do Corpo: A Dimensão Simbólica da Doença. São Paulo:
Summus.
-Silveira, N. (1979). Terapêutica Ocupacional: Teoria e Prática. Rio de Janeiro: Casa das
Palmeiras.
-Weinrib, E.L. (1993). Imagens do Self: O Processo Terapêutico na Caixa-de-areia. São
Paulo: Summus.
- Whitmont, E.C. (2008). A Busca do Símbolo: Conceitos Básicos de Psicologia Analítica.
São Paulo: Cultrix.