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Professor autor/conteudista

RAUL FONSECA SILVA


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SUMÁRIO
1. Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5

2. Tecnologia e ciência no estudo da produção artística . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10


2.1 A arte como forma de comunicar as descobertas científicas . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
2.2 Características e importância da documentação escrita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
2.3 O conteúdo e fragilidade do documento escrito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24

3. Conceito de história da arte técnica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29


3.1 Aspectos estruturais importantes da história da arte técnica . . . . . . . . . . . . . . . . 31

4. Arqueologia e história da arte técnica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35


4.1 Arqueometria e história da arte técnica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38

5. Materiais expressivos, meios, suportes e técnicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40


5.1 Considerações sobre materiais e técnicas nas artes visuais . . . . . . . . . . . . . . . . . 42

6. O desenho como mediação para todas as expressões artísticas . . . . . . . . . . . . . . 47

7. Arqueologia e história da arte técnica dos suportes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55


7.1 Características dos suportes utilizados nas artes visuais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
7.1.1 A rocha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
7.1.2 Parede (muro) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
7.1.3 Papiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
7.1.4 Papel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
7.1.5 Papel reciclado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
7.1.6 Madeira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
7.1.7 Tecido . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
7.1.8 Metal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
7.1.9 Vidro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64

8. Arqueologia e historia da arte técnica da Pré-História . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66


8.1 Arte rupestre: materiais expressivos, meios, suportes e técnicas . . . . . . . . . . . . . 67

9. História da arte técnica egípcia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72


9.1 Arqueologia da arte egípcia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
9.1.1 Primeiro Império Egípcio: Período Clássico . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
9.1.2 Segundo Império Egípcio: Médio Império . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
9.1.3 Terceiro Império Egípcio: Novo Império . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78

10. História da arte técnica grega . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81


10.1 Arqueologia da história da arte grega . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
10.1.1 Período Geométrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
10.1.2 Período Arcaico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84
10.1.3 Período Clássico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
10.1.4. Período Helenístico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86

11. História da arte técnica romana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89


11.1 Arqueologia da arte romana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
12. História da arte técnica do Renascimento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
12.1 Arqueologia da arte da Renascença . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
12.2 História da arte técnica da pintura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103
12.2.2 Pequena arqueologia da escultura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105

GLOSSÁRIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107

Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
1. INTRODUÇÃO
A história da arte é um estudo que abrange as manifestações artísticas ao longo de um determinado
período, que pode somar alguns anos, algumas décadas ou sistemas cronológicos inteiros que
englobam longos períodos chamados eras. Geralmente, uma era tem início com um fato histórico
relevante e vai perdurar até que outro fato também relevante inaugure uma nova era. A era pode
incorporar fatos importantes que se tornaram referências históricas para a humanidade, como o
tempo (ou era) em que os homens viviam em cavernas, quando passaram de um estágio civilizatório
para outro, quando inauguram alguma nova técnica ou artefato que influenciava uma mudança
significativa de comportamento, mudando também as relações culturais, econômicas e sociais.

Nesse caso é mais comum usar o termo época ou período para a localização dessa mudança.
Usamos, então, época ou período das cavernas, época ou período clássico, época ou período
renascentista. O estudo da história da arte geralmente concentra suas pesquisas e observações em
eras distintas, e usa o termo período para designá-las: arte do período das cavernas, arte do período
clássico, ou, ainda, simplesmente arte rupestre, arte clássica, arte renascentista, arte moderna,
arte contemporânea. Cada período artístico tem características específicas e o estudo histórico
da arte procura analisar e relatar os objetos de arte dentro dos contextos que caracterizaram cada
período – sociais, culturais, econômicos e ideológicos – e as características estilísticas que definem
gênero, imagem, formato e estética da época analisada.

Essa análise inclui as chamadas artes maiores: a pintura, a arquitetura e a escultura, e, ainda,
manifestações catalogadas como artes menores; incluindo os demais gêneros de tratamento
artesanal como cerâmica, gravura, tapeçaria, mobiliário, joalheria, esmaltaria e objetos decorativos.
Essa divisão, que suscita discussões e contestações, não divide as expressões artísticas – ou
possibilidades de expressão artística – de cada categoria em relação à qualidade ou força estética
e expressiva, mas, sim, quanto ao tamanho físico das artes maiores e as dimensões menores e de
fácil portabilidade das chamadas artes menores. Além disso, uma excelente obra inserida nesta
última categoria pode apresentar maiores recursos expressivos do que uma obra arquitetônica
medíocre, uma pintura inexpressiva ou uma escultura tosca. O desenho é considerado um meio
para permitir a realização de qualquer tipo de manifestação de arte, maior ou menor.

Como disciplina, a história da arte direciona mais seus estudos para a composição de formas,
estilos e conceitos que as obras transmitem, concentrando suas preocupações nas artes visuais.
Estruturalmente, ela abrange vários métodos de estudo e se distingue da crítica de arte, que se
preocupa com o valor artístico das obras, e da filosofia da arte, que se ocupa mais da estética, da

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percepção do belo, e com a especulação da natureza fundamental da arte e da sua beleza, embora
também incorpore parte dessas preocupações em suas análises. Trata-se de uma disciplina positiva,
que não tem a intenção de conceituar o que é arte do ponto de vista filosófico, mas sim com o relato
dos acontecimentos e manifestações da arte ao longo dos períodos históricos, cronologicamente
organizados em: arte pré-histórica, arte da Idade Antiga, arte da Idade Média, arte da Idade Moderna
e arte da Idade Contemporânea.

FIGURA 1 – Períodos da história

Fonte: Elaborado pelo autor

A práxis da história da arte usa a metodologia histórica para responder indagações a respeito
do artista e seus esforços para criar a obra, o contexto dentro do qual a obra foi criada, quem
financiava ou patrocinava o artista, as características do estilo, quem eram os mestres e discípulos
de determinado período, como a obra foi influenciada pelos aspectos desse período e como as
suas características e a intencionalidade do artista influenciaram o curso dos acontecimentos
artísticos, políticos, econômicos e sociais de determinada época. A história da arte é questionada
no sentido de poder responder a todas essas interrogações sem levar em conta questões básicas
sobre a natureza da arte. Essa lacuna existe pelo distanciamento orgânico entre a história da arte
e a filosofia da arte. Para o historiador Ernst Hans Josef Gombrich (GOMBRICH, 2015, p. 15),

Nada existe realmente a que se possa dar o nome Arte. Existem somente obras e artistas. Outrora,
eram homens que apanhavam um punhado de terra colorida e com ela modelavam toscamente
as formas de um bisão na parede de uma caverna; hoje, alguns compram suas tintas e desenham
cartazes para tapumes; eles faziam e fazem muitas outras coisas. Não prejudica ninguém dar o
nome de arte a todas essas atividades, desde que se conserve em mente que tal palavra pode
significar coisas muito diversas, em tempos e lugares diferentes.

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FIGURA 2 – Bisão pintado nas paredes da gruta de Altamira, Espanha

Bisão pintado nas paredes das grutas de Altamira, na Espanha. A arte pré-histórica, conhecida
como arte rupestre, corresponde ao primeiro registro de expressão artística do ser humano entre
as diversas manifestações recolhidas pelos arqueólogos, historiadores e pesquisadores, e suscita
diversas especulações em torno dos motivos e razões que levaram os habitantes primitivos a registrá-
la nas paredes das grutas e cavernas que ocupavam. Fonte: Everett – Art/Shuttesrtock.

Como disciplina histórica que analisa parte da história da humanidade, a história da arte não
se preocupa apenas com a biografia dos artistas. O centro das suas preocupações está na ordem
cronológica dos acontecimentos artísticos, nos aspectos sociais e ambientais do período estudado
e nas características das obras que surgiram a partir desses pressupostos. A disciplina nasceu
na Europa e durante muito tempo direcionou as suas preocupações para a análise da expressão
artística da arte da Europa Ocidental, das manifestações da arte clássica, em especial a egípcia
e a grega, de forte influência nos demais períodos históricos da região, e às formas de patrocínio
que possibilitaram aos artistas produzir suas obras, como organizações públicas e religiosas e os
grandes mecenas pertencentes à nobreza europeia.

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FIGURA 3 – Lourenço de Médici (busto esculpido por Andrea del Verrocchio)

Lourenço de Médici foi considerado um dos maiores mecenas da Renascença. Mecenas


eram nobres de grande poder econômico que patrocinavam os artistas do Renascimento.
Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Verrocchio_Lorenzo_de_Medici.jpg>.

Esse fato é evidenciado pela presença majoritária das imagens que ilustram os livros de história
da arte, e na presença de artistas que migraram para outras regiões e levaram seus conhecimentos
e habilidades para reproduzir essas diretrizes em outros continentes, onde houvesse um mercado
melhor. Isso passou a acontecer principalmente a partir do Renascimento e da emergência das
grandes navegações em busca de riqueza e novos territórios para exploração. Existe, entretanto,
desde o início do século XX a preocupação e esforços para incluir expressões artísticas de outras
regiões, de outros grupos sociais e de outras formas de manifestação de arte. A história da arte
é fundamental para que possamos entender parte da expressão do espírito humano e procura
traduzir em palavras as análises e interpretações das imagens visuais das obras de arte, utilizando
diversas metodologias.

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A referência visual das manifestações artísticas, portanto, é fundamental para esse processo
e as obras originais constituem a referência de campo essencial. Essa análise histórica aborda a
materialidade das obras e da expressão de mundo que elas revelam, mas não se apoia somente
nos aspectos formais e visuais. Procura investigar também os recursos técnicos e os materiais
utilizados na produção das obras analisadas. Todas essas informações são também fundamentais
para orientar os processos de restauração e manutenção das obras originais e possibilitar que elas
se apresentem em condições o mais próximo possível de quando foram criadas, no local em que
estão expostas para apreciação pública. Esse tipo de análise se intensifica a partir do século XIX
e anuncia as bases da história da arte técnica.

A preocupação desta disciplina é apresentar um panorama histórico da produção artística do


ponto de vista das técnicas e materiais utilizados em sua produção, acompanhando os períodos que
a história da arte se apoia para fazer seus relatos. O foco será exclusivamente direcionado para a
materialidade das obras, e as manifestações artísticas imateriais como happenings, dramatizações,
instalações e performances ficam destinadas às preocupações de outras disciplinas do curso de
história da arte.

Em razão da falta de relatos escritos suficientes e expressivos nos períodos entre a Pré-História
até o Renascimento, as atividades de história da arte técnica e da arqueologia são mais expressivas
nesse espaço de tempo, exigindo um trabalho de campo muito maior em sítios arqueológicos.
Esse será também o escopo da presente análise, com apenas algumas observações sobre outros
períodos. Além disso, tais pesquisas são essenciais para orientar o restauro das obras de arte das
épocas abrangidas.

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2. TECNOLOGIA E CIÊNCIA NO ESTUDO DA PRODUÇÃO ARTÍSTICA
A arte e a ciência sempre apresentaram intersecções. Ambas são utilizadas como instrumento
de investigação pelo homem e envolvem, em cada campo específico, hipóteses, teorias, ideias e
metodologias aplicadas às tarefas que cada uma dessas práticas se encarrega de realizar, buscando
revelar suas maneiras de ver o mundo, a forma como enxergam as relações sociais e as coisas da
natureza. A maneira de atuar, entretanto, difere entre elas. Geralmente, o cientista exerce funções
profissionais como contratado de uma organização pública ou privada e o artista tem atuação
liberal, financiada por algum patrocinador, pela comercialização das suas obras, prêmios em
espécie e resultados das exposições que realiza. Ambos também aplicam conhecimentos culturais,
religiosos, históricos, fazem pesquisas práticas em estúdios e laboratórios e investigam técnicas
e materiais para recolher informações e experiências que serão usadas como matéria-prima para
transformar em resposta as suas especulações. A palavra grega techne era usada para designar
tanto a arte quanto a técnica e a tecnologia. Arte e ciência se desenvolveram apoiadas na utilização
de processos técnicos relacionados ao modo de fazer e os recursos tecnológicos representados
pela evolução dos instrumentos aplicados nessas práticas. As palavras de Frank Oppenheimer,
citado por Araújo-Jorge (2004, p. 22) ilustram bem essa interposição:

A arte não torna apenas mais belas as coisas, apesar de isso frequentemente acontecer [...] Os
artistas fazem descobertas sobre a natureza diferentes daquelas que fazem os cientistas, suas
obras, seus experimentos. Mas tanto artistas como cientistas ajudam o público a notar e a apreciar
as coisas da natureza que aprendemos a ignorar ou que nunca nos ensinaram a ver. Tanto a arte
como a ciência são necessárias para o completo entendimento da natureza e de seus efeitos nas
pessoas.

De certa forma, durante milhares de anos os artistas conseguiam criar maneiras diferentes
de revelar acontecimentos e mudanças ambientais que o senso comum não permitia perceber,
apoiados em técnicas expressivas e ideias muitas vezes avançadas em relação à época em que
viviam. Buscavam reconhecimento junto aos patrocinadores, mecenas e instituições e também
podiam aplicar seus conhecimentos, técnicas e formas expressivas apenas para produzir coisas
mais belas e agradáveis, assim como ambientes esteticamente mais organizados e emotivos.
Podiam abordar temas proibidos e contestar situações sociais opressoras com a finalidade de
denunciar essa situação. Entretanto, a arte não estava preocupada em apresentar alternativas
para os problemas denunciados. A preocupação do artista sempre foi expressar a sua maneira
de ver o mundo, a sociedade e as ocorrências, naturais ou produzidas pela sociedade humana.

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No entanto, a arte sempre foi uma forma expressiva que serviu para provocar questionamentos e
apoiar reivindicações.

FIGURA 4 – “O importuno”, de Almeida Júnior

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Almeida_J%C3%BAnior_-_O_Importuno,_1898.JPG>.

Até o Renascimento, as artes não experimentaram efetivamente as intersecções com a ciência.


Somente a partir desse período, com a emergência de artistas como Leonardo da Vinci, a junção
entre arte e ciência, unindo técnicas, tecnologias e fatores estéticos, passou a integrar preocupações
voltadas para a contribuição com as realizações sociais. Leonardo da Vinci era desenhista, pintor,
filósofo e religioso e apoiava suas obras na investigação científica e na observação da natureza.
Desenvolveu esforços no sentido de compreender melhor o mundo, estudou o corpo humano e
fez experimentos com a dissecação de cadáveres para entender melhor a fisiologia e a anatomia
humana. O Renascimento foi uma época de grande transição sociocultural e contestação das ideias
oriundas da Idade Média baixa e da religiosidade cristã baseada no teocentrismo, que foi, nesse
período, substituída pela crença no homem como centro de todas as coisas.

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2.1 A arte como forma de comunicar as descobertas científicas
Essa nova ordem da visão de mundo deu origem a uma nova mentalidade investigativa, à
valorização da ciência como método de conhecimento e à preocupação de como a arte poderia
demonstrar os resultados das descobertas científicas. Para Leonardo da Vinci, a observação e a
percepção eram a base de todo conhecimento possível, e ele tinha convicção de que a ciência era
uma dimensão do pensamento humano apoiada na observação dos acontecimentos passados ou
presentes. Ele acreditava que o conhecimento do corpo humano era de grande utilidade para o artista.
Embora reconhecendo que o homem não seria capaz de construir conjuntos tão complexos quanto
os dos seres viventes, especialmente o do ser humano, acreditava que o estudo do funcionamento
e da anatomia humana oferecia possibilidades de conhecimento e de informações preciosas que
superavam as técnicas disponíveis para os pintores da época. Seus quadros refletem não só a
anatomia, mas também as funções do corpo humano e o resultado das posturas assumidas em
determinadas posições.

FIGURA 5 – “Dissecação do velho”, Leonardo da Vinci

Desenhos de Leonardo da Vinci chamados “Dissecação do velho”, que apresentam estudos da anatomia
dos músculos humanos. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Studia_szkieletu.jpg>; <https://
commons.wikimedia.org/wiki/File:Leonardo_da_Vinci_-_Anatomical_studies_of_the_shoulder_-_WGA12824.jpg>.

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SAIBA MAIS

Saiba mais sobre anatomia e estudos anatômicos de Leonardo da Vinci no site Anatomia Online:
<http://anatomiaonline.com/author/admin/>.

Todo esse escopo do pensamento e das especulações de Leonardo da Vinci foi esboçado em
seus desenhos e anotações e é também refletido nos quadros que pintou e nas obras que produziu.
Foi o primeiro artista a combinar as observações detalhadas com rigor científico e as aplicações
práticas dos conhecimentos que adquiriu. Foi empreendedor e visionário, chegando a especular e
esboçar em desenhos a possibilidade do homem voar, tornada realidade quinhentos anos depois
pelos irmãos Wright (GOMBRICH, 2015). Até o século XVI, as vinculações entre arte e ciência eram
notáveis. Com auge no Renascimento, muitos cientistas se tornaram personagens históricos também
como artistas de expressão. Leonardo da Vinci é o maior exemplo disso, e o seu “Tratado de Pintura”
mostra como ele relacionou arte e ciência, da forma mais explícita que a ciência necessita para
ser popularizada, através da comunicação de seus resultados, que se refletem também nas obras
que produziu.

FIGURA 6 – Desenho da máquina voadora de Leonardo Da Vinci

Desenho da máquina voadora de Leonardo da Vinci, que pode ser enquadrado entre
seus estudos de engenharia e mecânica. Fonte: Kwirry/Shutterstock.

Até meados do século XVII, essa intersecção entre arte e ciência permanece ainda forte e
interdependente, mas a especialização cada vez mais acelerada das atividades produtivas, à
medida que o século XVIII e o início da Revolução Industrial se tornam mais próximas, inicia a
separação das duas atividades em áreas distintas (ciências e humanidades) e a arte vai se inserindo
definitivamente nesta segunda categoria do pensamento humano. Somente com Picasso, séculos
depois, a arte e a ciência voltam a se reaproximar através dos modelos de deslocamento geométricos

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que orientavam suas pinturas. As obras de Picasso incorporavam simplicidade e complexidade,
focando as representações das figuras dos seus quadros na simplicidade natural das linhas e das
formas. Sua obra mais famosa, produzida em 1937, a pintura da representação simbólica da Guerra
Civil Espanhola, chamada “Guernica”, mistura figuras geométricas e abstratas em uma composição
bidimensional, com alguma simplicidade pela utilização de figuras lineares e planos fechados, que
são propositalmente fragmentados para expressar o terror da guerra, através de múltiplos pontos
de vista, mas com um resultado planejado, que revela pleno domínio das figuras e das relações
geométricas entre elas (GOMBRICH, 2015).

FIGURA 7 – Mural baseado na pintura “Guernica”, de Pablo Picasso.

Quadro “Guernica” de Pablo Picasso, pintura cubista mostrando cenas da destruição da cidade espanhola de
Guernica, que foi bombardeada pelos alemães em 1937. Fonte da informação: <http://www.significados.com.br/
quadro-guernica-de-pablo-picasso/>. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mural_del_Gernika.jpg?uselang=pt-br.

O grande reencontro da arte com a ciência também se expressa de forma significativa, durante
os anos 1920, com a invenção do cinema e das técnicas de filmagem e edição de imagens em
movimento. As possibilidades de sincronizar imagens, movimentos, cor, som, personagens e
tomadas de câmera exigiam conhecimentos técnicos e tecnológicos profundos, apoiados pelos
avanços científicos dos fenômenos da percepção da forma e dos movimentos enunciados pela
teoria científica da gestalt (psicologia da forma), da ilusão de ótica, das técnicas fotográficas e
das leis da cinética e da física ótica. O desenho animado, inicialmente desenhado sobre a própria
película do filme, introduz também o desenho no cinema como forma expressiva, para criar um
mundo de fantasia através dos personagens que ganham vida pelos movimentos milimetricamente

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calculados para uma projeção feita em 24 quadros por segundo (COUSINS, 2013). O cinema passou
a ser considerado a sétima arte, que, de acordo com Cousins (2013, p. 34), é somado a mais seis
tipos de expressão artística:

• Música, caracterizada pela expressão dos sons e pelo design sonoro.


• Artes cênicas, englobando a dança, a coreografia e o teatro.
• Pintura, representação bidimensional de imagens e cores sobre tela.
• Escultura, que se desenvolve tridimensionalmente pelo volume no espaço.
• Arquitetura, volume que pode ser penetrado e percebido pela ocupação espacial.
• Literatura, formato artístico que se expressa pela palavra e pela combinação de significados
linguísticos.
• Cinema, forma de expressão artística que soma todas as expressões anteriores ao movimento.

Os estudos da gestalt foram fundamentais para o desenvolvimento do cinema e da arte


cinematográfica, assim como os conhecimentos científicos da física, especialmente da cinética
e da ótica. A máquina fotográfica foi desenvolvida pelo cientista Jacques Daguerre, em 1839, e
apresentada na Academia Francesa de Ciência, recebendo o nome de “daguerreotipo”, que usava
um processo de recolhimento direto da imagem, substituído em 1850 pelo processo de positivo e
negativo com cópia em papel (COUSINS, 2013). A possibilidade de recolher imagens reais a partir do
uso dessa máquina, cuja tecnologia se desenvolveu cada vez mais a partir da invenção de Daguerre,
logo revolucionou os critérios artísticos e mudou completamente os conceitos da arte figurativa
e retratista. A máquina fotográfica e a fotografia também serviram de apoio imprescindível para o
levantamento de imagens e registros das obras de arte, possibilitando maiores recursos técnicos
e tecnológicos para as análises históricas das obras e dos períodos.

Desta forma, embora trabalhando cada vez mais em campos distintos, desde o século XVI, os
cruzamentos entre arte e ciência foram sempre constantes. Mas a grande colaboração da ciência na
atualidade para a história da arte encontra-se nos métodos científicos de pesquisa e nos recursos
tecnológicos desenvolvidos com aplicação de conhecimentos científicos que possibilitam análises
minuciosas – inclusive dos materiais utilizados na produção das obras –, embora o conteúdo da
arte envolva uma série imensa de manifestações e exija, muitas vezes, adaptações metodológicas
que permitem abarcar o amplo espectro das expressões artísticas. O estudo específico da história
da arte direcionado aos materiais utilizados na produção, os meios empregados, os suportes e as
técnicas que os artistas utilizavam chama-se história da arte técnica ou arqueometria.

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FIGURA 8 – Cartaz do XI Congresso Ibérico de Arqueometria

Cartaz do XI Congresso Ibérico de Arqueometria, realizado em 2015, na Universidade de Évora e organizado


pela própria universidade em parceria com a SAPaC (Sociedad de Arqueometría Aplicada al Património
Cultural). Saiba mais em: <http://outeirodocirco.blogspot.com.br/2015/10/xi-congresso-iberico-de-arqueometria-14.
html>. Fonte: <http://outeirodocirco.blogspot.com.br/2015/10/xi-congresso-iberico-de-arqueometria-14.html>.

Trata-se de uma área multidisciplinar, já que a análise da arte pode situar-se em diversos pontos
de vista: criação e concepção da obra, recepção, crítica da arte, aspectos sociais que envolvem a
criação e a expressão artística, ensino de arte etc., exigindo intervenções de diversas disciplinas
como a psicologia, sociologia, história, teoria da arte, curadoria, restauro e outras. Para as pesquisas
em história das artes visuais, as metodologias se apoiam geralmente nas ciências humanas e nas
tecnologias que permitem analisar as técnicas e materiais usados na produção. De certa forma, o
próprio conceito de pesquisa em arte pode ser controverso, pois a pesquisa envolve dados científicos

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preciosos e critérios de observação rigorosos, e, muitas vezes, um artista apoia a sua criação apenas
em ações preponderantemente intuitivas. Muitas outras obras, também, buscam um equilíbrio em
torno do pensamento lógico e a imaginação intuitiva, característica preponderante nas chamadas
artes industriais, como o design, voltado para produção de objetos de alta sensibilidade artística
e estética, mas estudados com o rigor da lógica para contemplar a sua funcionalidade ideal nas
relações com o usuário e as possibilidades de serem reproduzidos em série.

Diversas discussões filosóficas e questionamentos podem surgir a partir das observações


feitas até aqui. A práxis da arte pode envolver atitudes essencialmente intuitivas e outras baseadas
na pesquisa que o artista faz para ter informações relevantes que precedam a obra que pretende
produzir. Se a ciência é uma metodologia sistemática que se apoia em um padrão, seria possível
fazer pesquisa em arte? Como conciliar as atitudes do artista que faz pesquisa com aquele que
age essencialmente de maneira intuitiva? De qualquer forma, essas discussões não são válidas
quando o foco da pesquisa direciona-se para os materiais empregados na confecção das obras de
arte, a introdução de conhecimentos científicos de análise ou a preocupação com a restauração
e a conservação.

De maneira geral, as pesquisas da história da arte enquanto expressão de ideias, formas


particulares de ver o mundo e as emoções do artista registradas em um suporte geralmente não
envolvem documentos escritos e se apoiam muito mais nas observações de campo. Entretanto,
existem documentos que relatam a época em que o artista viveu e que oferecem informações
preciosas sobre sua personalidade social, o que permite para verificar como essas características
influenciaram suas atitudes. Os textos e escritos, bem como a grande quantidade de esboços
produzidos por Leonardo da Vinci configuram uma documentação fabulosa para entender a
sua personalidade e sua maneira de ver as coisas, bem como avaliar a forma avançada de seus
pensamentos, ideias e criações, além de oferecer um apoio importante para entender características
marcantes do Renascimento. Acerca da documentação histórica escrita, é necessário fazer algumas
considerações, sendo que a própria escrita, com o passar do tempo, também pode ser caracterizada
como uma forma especial de arte. Documentações antigas foram anotadas, inscritas e esculpidas
em uma ampla gama de suportes.

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FIGURA 9 – Livro das Horas da Rainha Maria de Navarra

“Livro de horas”. Na Idade Média eram feitas preciosas cópias a mão de trechos sagrados, ornamentados com
figuras de santos e passagens da Bíblia, que foram denominados “Livros de horas” e eram confeccionados também
para registrar fatos importantes ocorridos nos reinos da época.
Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arnau_Bassa_Llibre_hores_Maria_Navarra_foli161v_3260.JPG>.

2.2 Características e importância da documentação escrita


A pedra, o pergaminho e, mais tarde, o papel, foram os suportes privilegiados da escrita. Na
verdade, tudo o que cerca o homem foi utilizado como suporte, desde as inscrições sobre bambu até
a própria pele que é usada nas tatuagens. Sobre esses suportes, estiletes, cinzéis, penas de aves,
calamos (pedaço de cana ou junco com corte obliquo) e pincéis faziam os sinais que registravam
tudo que o autor desejasse. Os instrumentos de escrita foram tão importantes que do estilete derivou
a palavra estilo, mostrando que mensagem e meio se confundiam. O que poucas pessoas sabem
é que o suporte e o instrumento para escrever sobre ele também determinaram estilos diversos
de escrita. A pena deve ser molhada na tinta a cada duas ou três palavras, impondo uma pequena
pausa que o atual computador, quando usado para digitar textos, desconhece.

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FIGURA 10 – Manuscritos do Mar Morto

Manuscrito do Mar Morto. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pesher_Habakkuk_Scroll.JPG>.

A caneta esferográfica foi uma revolução em relação à sua antecessora, a caneta tinteiro. No
entanto, os instrumentos de escrita sobreviverem sobrepostos (ainda existem canetas tinteiros e
bicos de pena), mas a tendência foi optar sempre pela via mais rápida e mais prática, e hoje o PC
e outros instrumentos digitais substituíram a caneta tinteiro. A escrita delicada e artística deixou
de ser atributo de profissionais a serviço do Estado, da Igreja, de um líder, nobre ou imperador e
passou a ser requinte de uma elite para um sobrescrito especial na face de um envelope ou no
verso de um cartão de visitas. As escritas sempre esbarraram nas características pessoais ou
grupais. Diversos estilos de letra, por exemplo, oferecem grandes possibilidades de interpretação.
Para resolver a diversidade, surgiram os exercícios caligráficos, transformados em um conjunto
de regras no Oriente. A caligrafia tornou-se um distintivo social e a letra desenhada uma forma
classificatória do grau de instrução do indivíduo.

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FIGURA 11 – Carta manuscrita

Carta manuscrita do Príncipe Dom João VI para Manoel Marquês da Silva Brandão, da Bahia. Rio
de Janeiro, 1811. Fonte: <http://www.glorias.com.br/documento-raro/dom-joao-vi/#.V4rBhvlVhBc>.

Há estudos que exploram as características formais da própria escrita, investigando o desenho


dos traços e as relações que permitem estabelecer as percepções da personalidade do escriba
(espécie de profissional que escrevia textos ditados ou copiava manuscritos). As variações entre as
diversas regiões onde os mais antigos documentos foram encontrados dificultam a padronização da
própria escrita, mas os antepassados perceberam essa dificuldade e criaram escolas de escribas,
onde os sinais foram definidos e a comunicação entre os que detinham o poder de escrever tornara-
se possível. Os pequenos gestos definidores a partir de uma linha que contorna, por exemplo, a
figura de um animal ou o início de uma escrita cursiva, determinando inclusive o sentido da mesma,
desenvolveram-se lentamente e atravessaram os tempos. Da mesma forma que se definia o estilo,
as invenções de novos objetos e novas tecnologias colaboravam para transformar a própria escrita.
Esse tipo de alteração, provocada pelo suporte e pelo próprio desenvolvimento da maneira de
desenhar ou imprimir a letra, pressupõe a definição de símbolos e signos. A facilidade ou dificuldade
com que se trabalha com a argila, o papiro ou um teclado de computador provocou a definição de
formas e de linguagens apropriadas a cada meio.

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FIGURA 12 - Papiro egípcio antigo

Registro em papiro do antigo Egito. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Egypt_Papyrus_of_Bakay.jpg>.

Se a escrita à mão podia ser definida, por si só, como um trabalho artístico, pois se aproximava
da pintura, os pictogramas mesopotâmios, por exemplo, são manifestações de formas e fruto
das observações diretas da natureza ou de objetos esculpidos e conhecidos daqueles habitantes
do Oriente Próximo. A agilidade dos mecanismos da escrita proporcionou, de certa forma, uma
simplificação da própria escrita, o que também contribuiu para sua difusão. Das ações particulares
dos primeiros escribas à repetição em larga escala, passando pelos copistas medievais, mudam
não apenas os instrumentos e a forma de escrever, mas também a própria concepção da percepção
sobre o que se escreve. Dos registros funerários egípcios ao surgimento da imprensa, as sociedades
se tornaram mais complexas. O crescimento demográfico, as formas de organização e transmissão
do conhecimento, as lutas políticas e militares e as transformações econômicas e artísticas
estabeleceram o que se devia registrar. A imprensa de tipos móveis procurou multiplicar a oferta e,
ao mesmo tempo, padronizar a escrita. Do século XV ao XXI, a imprensa tornou-se uma revolução
integrada, inclusive, aos ideais de liberdade difundidos no período.

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FIGURA 13 – A Bíblia de Gutenberg

Imagem do miolo do primeiro livro impresso, a Bíblia de Gutenberg. Fonte: <https://commons.


wikimedia.org/wiki/File:Gutenberg_Bible,_Lenox_Copy,_New_York_Public_Library,_2009._Pic_01.jpg>.

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CURIOSIDADES

Segundo o site “O historiante”, o primeiro jornal do mundo foi impresso na Alemanha, no século XVI.

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Relation_Aller_Fuernemmen_und_gedenckwuerdigen_Historien_(1609).jpg>.

“De acordo com os historiadores, não podemos afirmar que, antes da Idade Moderna, havia
publicações nos moldes do que hoje conhecemos como jornal. Mesmo que alguns periódicos já
existissem na antiguidade, como o documento oficial de notícias dos governos sumerianos, ainda
não existia a ideia de transmitir informações para qualquer um.

Com a invenção da prensa de tipos móveis por Johannes Gutenberg em 1430, a impressão de cópias
passou a ficar mais fácil e mais rápida. Esse invento, tão revolucionário em fins da Idade Média, foi o
embrião para o surgimento da imprensa moderna.

Durante esse período, surgiram na Itália, em especial Veneza, pequenas publicações, que geralmente
circulavam no comércio, e levavam as principais notícias da cidade. O valor disso? Uma gazzetta,
ou seja, uma moeda. Esse nome (gazzetta) passou a batizar as demais publicações do mesmo
tipo em todo o mundo. Historiadores afirmam que a primeira publicação considerada ‘jornal’ surgiu
na Alemanha, em 1605. Criada por Johann Carolus, se chamava Relação das notícias distintas e
comemoráveis.

Porém, a palavra ‘jornal’ foi criada na França. Como as publicações deste tipo traziam notícias do dia
( journée, em francês), passaram a receber o nome de journal. Assim, pouco a pouco o nome gazzeta
foi sendo substituído pelo novo nome.

Foi com as guerras que o jornal ganhou a cara dos dias atuais. Durante a Guerra de Secessão
Americana, os jornalistas reformularam a organização das notícias nos jornais, originando o que
conhecemos como página principal (onde pequenos textos estimulam os leitores a abrir as páginas
e conhecer o conteúdo). Porém, a primeira cobertura de guerra aconteceu durante o conflito na
Crimeia. Foi nessa guerra que foi criada a profissão de ‘correspondente de guerra’, e onde se
desenvolveu as técnicas das fotografias de guerra.” (grifos no original).

Fonte: VOCÊ SABIA que... O primeiro jornal foi feito na Alemanha, no século XVI? grifos no original. O
Historiante, 26 out. 2015. Disponível em: <http://ohistoriante.com.br/primeiro-jornal1.htm>.

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A produção de panfletos, a divulgação de obras e os debates entre os intelectuais do período são
registros que se difundiram e fizeram com que os textos impressos se tornassem imprescindíveis
para a compreensão da sociedade ocidental a partir dos chamados tempos modernos. O trabalho
de Gutenberg, que em 1455 imprimiu a famosa Bíblia de 42 linhas, é um marco desse período. É
certo que existia um processo similar no Oriente e pode-se afirmar que muitas das técnicas de
Gutenberg eram bem mais antigas, mas, a partir de então, difundiu-se o conceito de imprensa, uma
das grandes revoluções do Renascimento.

O impulso gerado pela imprensa foi extraordinário, tornando o livro gradativamente mais
barato e acessível. O livro está na base da revolução científica e tornou-se o incentivo da Reforma
Religiosa. Com as edições da Bíblia e a leitura direta de seus textos, ampliou-se o debate em torno
das proposições religiosas que surgiam, bem como novas práticas familiares de leitura dos textos
sagrados. Depois da impressão de Gutenberg, em pouco tempo, outros conteúdos e temas tomaram
forma de livros e ganharam relevância no contexto europeu.

Daquela época aos nossos dias, a imprensa teve como pressuposto básico a difusão rápida e
econômica do conhecimento. Os novos veículos da era da informática ampliaram os recursos e
enfatizaram as diversas formas de escrita e registros e multiplicaram a velocidade das anotações.
Hoje, toda pesquisa sobre história da arte está disponível em milhares de livros distribuídos pelo
mundo inteiro. Através da leitura deles, é possível ter uma visão completa de todos os aspectos que
envolvem, ou envolveram, a produção das obras, o perfil da época e dos artistas, a intencionalidade
da expressão registrada nas diversas peças produzidas e uma farta documentação iconográfica,
disponível nos livros e na internet.

2.3 O conteúdo e fragilidade do documento escrito


A chegada de um documento do passado às mãos do homem contemporâneo é um verdadeiro
milagre. Esse milagre é o resultado de diversos cruzamentos entre o fortuito e o intencional. É
importante identificar alguns patamares desses cruzamentos para entender que alguns equívocos
podem ser praticados na aceitação incontestável de tais documentos. O primeiro diz respeito ao
próprio documento. Ele é sempre aleatório, pois se baseia numa escolha de seu autor e de sua
época. O que consideramos relevante para eleger um papel como um documento? Essa pergunta
encontra tantas respostas que é impossível tabular.

Diariamente jogamos papéis fora. Poucos são guardados de um ano para outro ou por muitos anos.
Um número ainda mais restrito fica conosco a vida inteira. O que consideramos importante a ponto

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de separar e conservar por décadas, como uma foto, uma carta, um diário, pode ser incinerado no
dia seguinte à nossa morte por herdeiros insensíveis ao nosso critério seletivo e afetivo. As escolhas
são aleatórias ao extremo. Não há documentos absolutos. O segundo diz respeito ao próprio tempo
e seus potenciais de deterioração. O papel é frágil, especialmente os mais recentes. A umidade
não perdoa documentos e pequenos insetos domésticos como baratas e traças manifestam pouca
atenção pela memória contida nos livros. Mesmo os suportes mais resistentes tendem a sofrer o
desgaste: inscrições na rocha sólida, por exemplo, podem sofrer profunda erosão.

FIGURA 14 – Livro em estado de decomposição

Livro em estado de decomposição, um dos maiores problemas para o resgate da


memória e dos registros históricos. Fonte: Prachyaloyfar/Shutterstock.

Por vezes, a natureza caprichosa salva a memória destruindo. É o caso de Herculano e Pompeia
que, graças ao desastre do Vesúvio no primeiro século da Era Cristã, ficaram cristalizadas no tempo
e possibilitaram uma revolução nos nossos conhecimentos do Império Romano (GOMBRICH, 2015).
É importante enfatizar que todo documento, como todo quadro e toda imagem, começa a morrer
no instante em que é produzido. Disso resulta a tremenda importância de conhecer os materiais
com os quais foram produzidos e desenvolver tecnologias cada vez mais precisas de restauro. Por
vezes, em condições ideais museológicas e arquivistas, conseguimos reduzir a ação do tempo, mas
jamais detê-la por completo. Como um corpo vivo, o documento pode ter sua vida prolongada, mas
nunca evitará a morte. O terceiro patamar é a ação do homem. As guerras queimam arquivos de
séculos. Não é difícil imaginar o dano a bibliotecas como a de Monte Cassino na Segunda Guerra
Mundial, abrigando baterias antiaéreas dos nazistas e sendo bombardeada por brasileiros e norte-
americanos (GRAHAM, 1974). Documentações valiosas foram pisoteadas pela sola de sapato dos
alemães na Polônia.

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Outras vezes, como no caso de Rui Barbosa (que queimou documentos relativos aos escravos
no Brasil), a destruição de uma massa documental é deliberada e com sentido político (LINHARES,
2010). Um governo que cai, um ditador prestes a ser derrubado, ou mesmo uma simples troca de
governo numa democracia são acompanhados, habitualmente, de grande queima de documentos.
Poucas coisas escapam ao furor destrutivo dos homens. De um lado, temos espanhóis derretendo
centenas de imagens – e destruindo a memória indígena – para transformar em barras de ouro
no século XVI (LINHARES, 2010). Às vezes, são massas de revoltados furiosos que incendeiam os
cartórios e destroem todos os documentos durante as rebeliões da Revolução Francesa. Exércitos que
saqueiam bibliotecas e museus e transportam documentos para outros países, para, posteriormente,
serem incinerados. “A tragédia incide sobre os documentos, e as guerras matam homens e matam
memórias” (LINHARES, 2010, p. 75).

FIGURA 15 – Ruínas da cidade de Hatra, no Iraque, destruída em 2015

Os extremistas do Estado Islâmico destruíram uma série de monumentos históricos importantíssimos para
preservação da memória dos feitos e da cultura humana, entre eles a cidade de Hatra, segundo o site Galileu
(12.03.2015): “A cidade de Hatra, próxima a Bagdá, servia como um centro de trocas durante o Império Parta. Era
listada pela UNESCO como patrimônio da humanidade e considerada a cidade mais bem preservada do período.
Suas ruínas teriam sido destruídas por militantes do EI no dia 7 de março de 2015”.
Fonte: <http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2015/03/4-lugares-historicos-destruidos-pelo-estado-
islamico-e-pela-guerra-civil-na-siria.html>. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hatra-Ruins-2008-8.jpg>.

O último patamar do processo aleatório na manutenção documental é o papel do próprio


pesquisador de história. Depois de tantas depurações, o resgate documental ainda deve passar pelo
crivo do historiador para ser resgatado do esquecimento ou da destruição. Nesse processo, há uma
escolha do que se considera importante para servir de apoio e fornecer informações relevantes.
Esse processo de escolha contempla todos os casuísmos e pode ser encontrado na confecção
de um livro de história, na seleção de obras para uma exposição ou no material ilustrativo de uma
simples aula de história da arte numa escola da periferia. Desta maneira, fica evidente que cada
documento selecionado pelo pesquisador esconde milhares de outros que o tempo, a natureza ou
os homens destruíram.

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Cada um dos documentos é um sobrevivente de muitos anos e de muitos critérios. De alguma
forma, cada um deles é o único da sua espécie e parece contar um lampejo fragmentário dessa
imensidão da memória humana (GOMBRICH, 2015). As relações entre a memória e a escrita
possibilitam diversas leituras e reflexões. A tentativa de preservar a lembrança de um determinado
acontecimento foi favorecida pela escrita. Desde sua origem, através dos suportes, como tabletes
e papiros, e nas diversas formas de escrita, os homens utilizaram-se desse artifício para guardar,
recordar, enfim, produzir memória. A memória é quem constitui o homem e por ele é constituída.
Não há possibilidade de aprendizagem ou descobertas que ignorem o momento anterior. Não há
construção futura que ignore os feitos passados. Os homens criam e recriam a partir dos instrumentos
e mecanismos que elaboram.

A escrita, difundida e disponibilizada ao longo dos tempos, é parte de um processo pelo qual
as pessoas comuns interagem e produzem os suportes de sua memória. Do livro de receitas
culinárias aos documentos da realeza há uma diversidade interpretativa. Mas em todos eles há uma
elaboração e construção que é intencional. No texto e na memória, há a atuação de um sujeito que
seleciona, recorta, prepara e constrói uma história dotada de sentido. Por vezes, essa construção
é contestada por dados e intervenções de outro sujeito. Os conflitos interpretativos são inevitáveis,
pois as experiências humanas não são repetíveis de maneira idêntica por cada um dos intérpretes
e agentes históricos.

Pelo menos desde Heráclito, há a crença no movimento e na sucessão das coisas (GOMBRICH,
2015). Com a memória e com a escrita dos relatos não podia ser diferente. A cada elaboração, a
cada rascunho, a cada pedra de argila alterada, informações históricas são perdidas. Nas alegrias e
dores, ou mesmo no tédio e na depressão, há momentos que merecem ser registrados e guardados
para a lembrança futura. Relações familiares, dados econômicos, políticos, de legislação, textos
religiosos tidos como sagrados, invenções científicas e artísticas, enfim, uma lista imensa de feitos
humanos está preservada na escrita e, dessa forma, é memorizada e reelaborada pelos homens a
cada novo dia.

O livro, os documentos, os registros digitais da atualidade são demonstrações das elaborações


e criações da humanidade. Os suportes, os tipos de escrita, os documentos, as pinturas, gravuras,
esculturas e obras arquitetônicas são exemplificações de uma aventura que se repete em cada
processo de uma criança sendo alfabetizada, nos teclados do computador e nos ícones das
escritas ideográficas. A pluralidade cultural e a riqueza de dados dos diversos povos fizeram com

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que a escrita, em suas diversas formas, seja a garantia de que há sempre alguém, em algum lugar,
registrando e produzindo mais do que um traço ou símbolo gráfico: está produzindo memória.

ACONTECEU!

Papiro mais antigo do Egito foi exposto em museu pela primeira vez

“Antiguidade é da época do faraó Keops, que reinou Este papiro ‘conta o cotidiano e o estilo de
há mais de 4.500 anos. O manuscrito foi descoberto vida dos operários do porto de Wadi Al Jarf’,
em 2013, com outros textos históricos. segundo um comunicado do Ministério de
Antiguidades.

‘Conta que os operários participaram da


construção da grande pirâmide’ de Keops em
Gizé, acrescenta a nota.

A pirâmide, construída há mais de 4.500


anos, é considerada uma das sete
maravilhas do mundo da Antiguidade.

Um dos documentos era um ‘diário do


Fonte: <https://p2.trrsf.com/image/fget/cf/460/0/images.
terra.com/2013/04/11/papirosantigosegitoefe1.jpg>. funcionário público Merer (o amado, em
língua faraônica) com estatísticas e detalhes
administrativos’ de seu trabalho, que mostra
O Museu Egípcio no Cairo está expondo pela que o reinado de Keops durou mais de 26
primeira vez o papiro mais antigo já encontrado, anos, disse Mahfouz.
originado na época do faraó Keops, que reinou no
Antigo Egito há mais de 4.500 anos, de acordo com Antes da descoberta do papiro, havia poucos
informações de funcionários do local divulgadas detalhes disponíveis sobre a duração do
nesta quinta-feira (14). reinado do famoso faraó da IV dinastia.

Este manuscrito excepcional foi descoberto junto Merer liderou uma equipe de cerca de 40
com outros papiros em 2013, por uma equipe de marinheiros, segundo o comunicado do
arqueólogos franceses e egípcios na região de Wadi Ministério de Antiguidades.
Al Jarf, no sudeste do Cairo, às margens do Mar
Vermelho. O papiro registra ‘o trabalho da sua equipe,
que transportava blocos de pedra calcária
O documento menciona os trabalhos de construção das jazidas de Torah, na beira do Nilo, até a
da Grande Pirâmide de Gizé, ao oeste do Cairo. pirâmide de Keops, no planalto de Gizé’, de
acordo com a mesma fonte.
‘Trata-se do texto escrito mais velho’ descoberto
no Egito, disse à AFP Sayed Mahfuz, um dos Fonte: PAPIRO mais antigo do Egito é
arqueólogos da equipe que encontrou o papiro, que exposto em museu pela primeira vez. G1,
estava em pedaços. ‘Há mais de mil fragmentos’, 14 jul. 2016. Disponível em: <http://g1.globo.
acrescentou. com/ciencia-e-saude/noticia/2016/07/papiro-
mais-antigo-do-egito-e-exposto-em-museu-pela-
O objeto será exibido durante duas semanas no primeira-vez.html> Acesso em 19 jul. 2016.
Museu Egípcio, que abriga as mais belas peças do
tesouro faraônico do país.

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3. CONCEITO DE HISTÓRIA DA ARTE TÉCNICA
A arte técnica, ou estudo das técnicas e materiais expressivos utilizados nas artes visuais, faz
parte da história da arte, mas tem a preocupação de analisar os tipos de materiais, as técnicas, os
meios (mídias) e suportes que os artistas utilizaram ou utilizam para produzir suas obras. O termo
artes visuais é extremamente abrangente, e torna-se necessário esclarecer exatamente qual dos
seus aspectos e segmentos será foco das nossas descrições e abordagens e qual é a intenção
dessa análise – mais especificamente, qual é a utilidade desse conhecimento e onde ele pode ser
aplicado. Do ponto de vista conceitual, conhecer como os artistas produziram tecnicamente suas
obras acrescenta um conhecimento histórico mais aprofundado e completo de todos os aspectos
que envolvem uma obra, servindo para ampliar a cultura histórica de quem estuda história das
artes. Do ponto de vista prático, é um conhecimento essencial para os parâmetros que orientam o
trabalho de restauração e conservação de obras de arte e também serve de apoio para quem atua
na área acadêmica em aulas práticas, onde o aluno aprende a fazer trabalhos de arte, englobando
a práxis da arte-educação.

A princípio, o conceito de artes visuais (ou artes plásticas) abrange todas as manifestações
que podem ser esteticamente apreciadas pelo “olhar”: pintura, escultura, arquitetura, artes cênicas
(teatro e dança) e, ainda, outros formatos visuais que a partir do início do século XX passaram
lentamente a ser também considerados formas expressivas de arte, como a fotografia, o cinema,
a produção e edição de vídeos, a arte conceitual das performances e instalações e a gravura. No
rol desse conceito, o conjunto formado pelas chamadas artes aplicadas, como industrial design,
graphic design, design de moda, design de interiores, tapeçaria e artes têxteis, design de interiores
e artesanato estão incluídos.

Entretanto, em determinados circuitos acadêmicos e museus internacionais, mais tradicionais


e de grande porte, as artes visuais somam apenas as chamadas “belas artes”, ou “fine arts”,
teoricamente julgadas pela carga intelectual da sua concepção e destinadas à apreciação por sua
beleza (estética) e significado: pintura, escultura e arquitetura, também nominadas de artes maiores.
As demais manifestações, incluídas na cesta das artes menores, ficam inseridas no campo das artes
aplicadas, que, embora possam estar carregadas de significativa expressividade artística e estética,
de alguma forma destinam-se mais a aplicações práticas e funcionais. Essa divisão não considera
diferenças de qualidade entre as formas de arte classificadas, mas a aplicação das orientações
estéticas mais puras, originárias dos padrões disciplinares da Europa Ocidental, região reconhecida
como berço da arte e da cultura ocidentais. Atualmente existe uma tendência de considerar essas

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distinções sem sentido, propondo que a análise da obra, independentemente do suporte ou tipo de
manifestação escolhida, deve ser avaliada pela intencionalidade do artista.

A Europa Ocidental, faixa distribuída por todo território do Oeste Europeu, incluía, até a Segunda
Grande Guerra Mundial, os diversos países europeus de crença católica ou protestante, constituídos
pela Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, França, Itália, Países Baixos, Portugal, Reino Unido
(Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales) e Vaticano, entre outros.

FIGURA 16 – Mapa da Europa

ISLÂNDIA MAR DO
NORTE
SUÉCIA
ILHAS FÉROE FINLÂNDIA
OCEANO (DINAMARCA)
EGA

ATLÂNTICO
NORU

ESTÔNIA RÚSSIA
LETÔNIA
KALININGRADO
(Rússia) LITUÂNIA
DINAMARCA
REPÚBLICA DA BELARUS
IRLANDA REINO UNIDO
DA GRÃ-BRETANHA
E IRLANDA DO NORTE
PAÍSES BAIXOS
(holanda) POLÔNIA
ALEMANHA UCRÂNIA
BELGICA REP.
LUXEMBURGO CHECA UIA
VÁQ
M

ESLO
O
LD
O
VA

AUSTRIA
FRANÇA LIECHTENSTEIN HUNGRIA
SUÍÇA ROMÊNIA
ESLOVÊNIA
CROÁCIA
ITÁLIA
SE

BÓSNIA-
RV

HERZEGOVNINA BULGÁRIA
IA

KOSOVO
L

MONTENEGRO MACEDÔNIA
UGA

ANDORRA
IA

MÔNACO
ALBÂN

ESPANHA GRÉCIA
PORT

VATICANO

MAR MEDITERRÂNEO
MALTA

Mapa da Europa Ocidental, com a localização dos países que fazem parte do território.
A região é considera o berço de toda a cultura ocidental. Fonte: <https://upload.wikimedia.
org/wikipedia/commons/thumb/6/65/Mapa_europa.svg/2000px-Mapa_europa.svg.png>.

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Essa região tem origem nas civilizações da Grécia e Roma e foi palco dos grandes movimentos
renovadores da era moderna: o Renascimento, a Reforma Protestante e o Iluminismo, e também das
maiores expressões artísticas da pintura, da escultura e da arquitetura. Embora em todas as regiões
do mundo exista algum tipo de arte original, a arte da Europa Ocidental estabeleceu os parâmetros
de todas as expressões artísticas do Ocidente e se espalhou pelo mundo, especialmente durante o
Renascimento e o período das Grandes Navegações e descobertas, mais especificamente durante
a colonização da África, América do Sul e América do Norte. Por sua vez, como observa Gombrich
(2015, p. 54), a arte do Oeste Europeu tem suas origens fortemente influenciadas pela arte egípcia:

Alguma forma de arte existe em todas as regiões do globo, mas a história da arte
como um esforço contínuo não começa nas cavernas do sul da França nem entre
os índios norte-americanos. Não há uma tradição direta que ligue esses estranhos
primórdios aos nossos dias, mas existe uma tradição direta, transmitida de mestre
a discípulo, e de discípulo a admirador ou copista, a qual vincula a arte do nosso
tempo, cada construção ou cada cartaz, à arte do vale do Nilo de uns cinco mil anos
atrás. Pois iremos ver que os mestres gregos foram à escola com os egípcios, e todos
nós somos discípulos dos gregos. Assim, a arte do Egito reveste-se de tremenda
importância para toda a Europa Ocidental e para todos nós.

Os materiais utilizados na produção de obras artísticas têm forte influência da região onde a obra
é produzida, já que são diretamente retirados da natureza ou criados a partir de matérias-primas que
têm a mesma origem. Teoricamente, qualquer tipo de material pode ser usado pelo autor. O homem
primitivo utilizava terra, argila, plantas e frutas aplicadas diretamente no suporte (geralmente a
pedra) onde queria registrar o documento da sua vida diária e expressar um sentimento em relação
ao mudo. Os materiais podem ser conhecidos e tradicionais, utilizados ao longo de séculos, muitas
vezes conservando a sua constituição original, ou podem ser mais contemporâneos, desenvolvidos
com técnicas modernas e materiais inovadores. A arte do Oeste Europeu difundiu sua história e
espalhou as suas técnicas artísticas de produção para o resto do mundo, e é natural que os materiais
e insumos mais pesquisados em história da arte técnica sejam especialmente naturais da região
da Europa Ocidental, de onde foram e ainda são exportados para todo o mundo.

3.1 Aspectos estruturais importantes da história da arte técnica


Inicialmente, a aplicação da história da arte técnica unia-se à arqueometria e era destinada a
analisar as obras de arte, procurando reconhecer nelas a sua autoria e autenticidade, uma tarefa
invariavelmente realizada por especialistas com grande conhecimento das técnicas de produção

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artística unidos a historiadores especializados em história da arte, capazes de identificar parâmetros
de estilo, composição, organização e distribuição dos elementos básicos de linguagem visual
utilizados pelos diversos autores (GOMBRICH, 2015). A análise envolvia também a verificação de
relatos e documentos históricos, conforme abordados no Capítulo 2 desta apostila. Hoje, essa
atividade envolve metodologias mais sofisticadas, equipamentos tecnológicos avançados e equipes
multidisciplinares que se dedicam a um estudo mais completo dos objetos artísticos.

Os especialistas são profissionais chamados de “connoisseurs” (termo francês que significa


familiarizados, conhecedores), especialmente competentes para julgar criticamente uma obra de
artes plásticas, familiarizados com as questões de gosto e com grande habilidade para verificar a
autenticidade da obra. Além disso, eles identificam a autoria e determinam o seu valor de mercado,
em especial quando a documentação histórica é inexistente e a procedência da obra desconhecida.

Os norte-americanos utilizam o termo “connoisseurship” para indicar a capacidade que o


especialista tem para identificar quase instintivamente as técnicas aplicadas em uma obra de
artes plásticas, usando seus conhecimentos profundos sobre estilo, características e técnicas de
um autor ou de uma escola (estilo) específica. Embora aplicadas instintivamente, as metodologias
do especialista são apoiadas pelo conhecimento da obra em si e correspondem a um processo
refinado de análise pessoal capaz de identificar autoria, autenticidade e valor.

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FIGURA 17 – “Connoisseurs” examinando coleção George Morland”

Connoisseurs examinando obras de arte. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/


File:Connoisseurs_examining_a_collection_of_George_Moreland%27s_by_James_Gillray.jpg>.

O “connoisseur” difere-se do historiador de arte pela origem prática e experimental de seus


conhecimentos, enquanto o historiador detém um acervo de informações mais acadêmicas e
eruditas. Os especialistas desse tipo de categoria atuam também em diversas áreas de status
avaliação de produtos que precisam revelar a sua nobreza para conquistar elevado no mercado
comercial, caso dos vinhos, champanhes, licores e cervejas. Os especialistas da área de bebidas
são conhecidos como “sommeliers”.

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Para os negociantes de arte, conhecidos como marchands, é importante que exista um
especialista capaz de perceber quando uma obra tem características específicas de determinado
autor. Confrontar tais características com outras mais genéricas da época ou com o período histórico
do qual a obra é emergente permite estabelecer o valor de mercado da obra e torna possível a sua
comercialização. Muitas vezes, essa competência envolve reconhecer uma obra no estado atual de
apresentação, invariavelmente alterado pelo tempo. Essa competência vem da prática de ler sobre
arte, pesquisar e comparar estilos e escolas, visitar constantemente museus, ateliers e galerias e
participar de atividades de conservação e reparo em laboratórios específicos. De certa forma, essa
habilidade vem sendo substituída por equipes multidisciplinares de historiadores da arte unidos a
especialistas de outras áreas acadêmicas e apoiados em técnicas de laboratório, que se desenvolvem
rapidamente e se tornam cada vez mais precisas. No entanto, muitos marchands ainda confiam
mais nos “connoisseurs” e recorrem aos seus serviços quando precisam avaliar e identificar uma
obra e organizar um catálogo especializado. Ao longo do tempo, muitos erros foram cometidos pela
análise experimental e, atualmente, historiadores da arte e especialistas também estão apoiando
suas análises em metodologias apoiadas em processos científicos mais elaborados e precisos
e na aplicação de tecnologias avançadas como o carbono 14, raio infravermelho e métricas de
identificação do tempo de existência e a idade da obra (LEITÃO, 2008).

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4. ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA DA ARTE TÉCNICA
A palavra arqueologia significa, etimologicamente, “ciência do antigo”, mas, pelo menos desde
o século XVIII – reorientando uma tradição que remonta ao Renascimento –, direcionou-se para
um sentido mais restrito do estudo sistemático dos monumentos e obras de arte deixadas pelas
antigas civilizações do Mediterrâneo clássico, região constituída pelo Egito e pela Mesopotâmia.
A procura do monumental, do artístico e do lado curioso dos antiquários dominou os principais
projetos de escavações arqueológicas naquele momento, sendo os mais antigos os de Herculano,
iniciado em 1738, e Pompeia, em 1748 (FUNARI, 2003).

A tendência consolidou-se no século seguinte, com as grandes expedições, como as de Napoleão,


no Egito, de Botha, Place e Layard, na Mesopotâmia e de Schliemann, na Turquia e na Grécia (FUNARI,
2003). Na segunda metade do século XIX, o campo e a prática dessa disciplina se firmaram e
se definiram com ênfase na arqueologia clássica, voltada para a Grécia, Roma e Etrúria e muito
dependente da filologia e do estudo das inscrições antigas (já que essas civilizações deixaram uma
abundante documentação textual). Essa arqueologia desaguou em dois segmentos distintos: na
história da arte e na história política.

FIGURA 18 – Escavação em sítio arqueológico

Expedição arqueológica verificando a existência de objetos, obras de arte ou outros artefatos


originários de uma civilização que habitou o lugar. Fonte: Thomas Koch/Shutterstock.

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Outra vertente é a da arqueologia pré-histórica, cujas raízes longínquas, detectadas desde o
século XVI, foram fortalecidas no século XVIII, com a multiplicação de achados associados a tempos
remotos da história da humanidade. No século XIX a atividade consolidou-se definitivamente como
uma disciplina humanística, com a formulação de princípios metodológicos, como a classificação
e tipologia de artefatos ou a explicitação fundamental da importância da chamada “estratigrafia”:
estudos dos restos da atividade cultural que se depositam em camadas geológicas, cuja superposição
tem significado organizatório e permite determinar o tempo de vida relativo de cada camada,
permitindo identificar a idade dos objetos e das obras encontradas.

Essa vertente, gerada num contexto influenciado pela história natural e pelo pensamento
evolucionista, retomou, fora da tradição bíblica, o problema da origem do homem e das transformações
biológicas e culturais (FUNARI, 2003). Seu campo de estudo contemporâneo aproxima-se da
antropologia (que lhe fornece os modelos de padrões culturais) e vale-se abundantemente da
contribuição das ciências exatas. Assim, a física e a química (testes do carbono 14, potássio e
argônio, termoluminescência, magnetismo, resistividade elétrica do solo, aerofoto interpretação
etc.) permitem a identificação de sítios arqueológicos e a datação do material. A geomorfologia
(estudo da formação da paisagem) e a pedologia (estudo dos solos) revelam, entre outras de
suas descobertas, os fatores que provocaram o aparecimento dos depósitos arqueológicos. A
paleoecologia, a paleoclimatologia e a palinologia (estudo dos pólens) tornam possível conhecer
o meio ambiente; a osteologia (estudo do material ósseo) fundamenta a caracterização biológica
das populações; a geografia orienta as análises locacionais e distribucionais dos assentamentos
humanos; a estatística ajuda a controlar e analisar as amostras e interpretações quantitativas e
assim por diante. Por outro lado, desenvolveram-se equipamentos (como os de análise, detecção,
coleta e registro de material e informação) e técnicas, tais como as da arqueologia subaquática,
que favorecem a extensão das pesquisas e a excelência das buscas.

Na contemporaneidade, a aproximação entre estas duas vertentes é cada vez maior. A arqueologia
clássica não dispensa o uso dos recursos científicos e se preocupa com todo tipo de evidência,
e não apenas com os objetos excepcionais ou de qualidade estética. De seu lado, a arqueologia
pré-histórica também inclui o estudo de problemas de caráter humanístico, da significação e do
sentido, da dimensão ideológica.

Um conceito de arqueologia capaz de abranger as diversas perspectivas contemporâneas


deve considerá-la como a disciplina científica que estuda os sistemas socioculturais extintos em
sua estrutura, funcionamento e mudança, por intermédio exclusivo ou preponderante dos restos

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materiais por eles deixados. Tais restos são da mais variada natureza: de seres humanos, animais,
vegetais, artefatos (objetos, utensílios), estruturas (fogueiras, sepulturas, cabanas, palácios, templos,
aldeias, cidades), modificações na paisagem (aterros, canais, caminhos, campos cultivados) e obras
de arte ou artefatos que revelam uma intencionalidade de expressão artística, sempre examinados
nas suas relações de contexto.

FIGURA 19 – Artefato arqueológico

Fonte: Kanvisstyle/Shutterstock.

A concentração espacial desses restos constitui o “sítio arqueológico”, importante unidade de


estudo. A primeira operação arqueológica é, assim, sua identificação, por intermédio de prospecções,
levantamentos e sondagens. Como, entretanto, os restos estão normalmente soterrados (por ação
natural ou humana), a escavação é o processo característico da recuperação de informações. Os
métodos e técnicas variam, mas a escavação tem que obedecer a procedimentos rigorosos que
tornem possível situar todos os dados num quadro preciso de referências, preservando as relações
espaciais, indispensáveis para a classificação, tipologia e interpretação do material coletado.

A faixa abrangida pela arqueologia, segundo o conceito exposto, é clara quanto às demarcações
iniciais – desde os primórdios do processo de hominização, há mais de dois milhões de anos –
mas tem expandido seus limites recentes para muito além do fim da Antiguidade. Assim é que,
na Europa, tem-se desenvolvido a arqueologia medieval e, mais recentemente, espalhando-se por
outras partes do mundo, a arqueologia industrial, que se orienta para o estudo da cultura material
no quadro da Revolução Industrial a partir da segunda metade do século XVIII (FUNARI, 2003). Nas
Américas, a arqueologia colonial é uma forma de arqueologia histórica que avança até o século
XX, e aos anos correntes deste princípio de século XXI, mesmo contrariando o propósito inicial
da sua proposta investigativa. O que se chama hoje de etnoarqueologia é a tentativa de estudar

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em sociedades vivas – inclusive sociedades complexas como a nossa – fenômenos e problemas
característicos do repertório arqueológico, mas que o arqueólogo conhecia apenas a partir de
vestígios materiais: padrões de desgaste e abandono de objetos, formação do lixo, técnicas de
fabricação, uso e reciclagem de artefatos, formação e significado dos estilos, distribuição espacial,
conteúdos simbólicos etc.

4.1 Arqueometria e história da arte técnica


A arqueometria, por sua vez, envolve uma metodologia específica de análise, apoiada pela
tecnologia e equipamentos especiais que permitem avaliar a idade de uma obra e localizar a sua
origem no tempo e no espaço. São aplicações científicas sofisticadas de análises físico-químicas,
com o suporte de conhecimentos específicos da ciência da conservação, visando principalmente
à aplicação de processos e técnicas de recuperação, restauro e conservação (LEITÃO, 2008). Como
técnica de campo, a arqueometria serve de apoio para a arqueologia e é aplicada como metodologia
complementar na análise de objetos artístico-culturais recolhidos em campo durante as escavações
e explorações de sítios arqueológicos. Com a aplicação das técnicas dessa área de conhecimento,
mais uma vez arte e ciência se unem no sentido de operarem integradas para prestar contribuições
fundamentais na identificação da produção artística e no estudo das técnicas e materiais aplicados
às obras de artes plásticas, especialmente na pintura, executada em vários suportes como a tela
de tecido, a madeira e a pedra.

FIGURA 20 – Agrimensor magnético usado para busca arqueológica

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kastell-Buch-magnetic-surveyor.JPG>.

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A análise dos materiais expressivos pode ser vista de duas maneiras: o conhecimento dos
materiais em si, isto é, quais são, qual a sua origem e como são produzidos, e a análise técnica da
obra, buscando identificar quais foram os materiais e insumos adotados pelo artista. Além disso, a
análise da história da arte técnica avalia também qual a técnica que o autor empregou para realizar
a sua concepção. Para a análise e descrição a respeito dessa metodologia, procuramos examinar
aquelas manifestações artísticas visuais que mais se valem de instrumentos, técnicas e materiais
expressivos e que também são historicamente as mais antigas, manifestações que permanecem
vivas e atuantes e são majoritárias na escolha dos indivíduos que se dedicam à produção de arte: a
pintura, a escultura e a gravura, com ênfase especial para a pintura e suas variantes, como a aquarela.
As informações sobre os materiais usados na produção dos objetos de arte, especialmente na
pintura, são fundamentais para que as obras possam ser restauradas. A restauração é o conjunto de
procedimentos que visam interromper o processo de deterioração de uma obra de arte ou de qualquer
objeto que testemunhe a história humana, consolidar esta obra ou objeto a fim de conservá-lo e,
eventualmente, restabelecer na medida do possível seu aspecto original. Isso só é possível quando
se entende como originariamente uma obra foi produzida, incluindo até as técnicas empregadas e
os meios (mídias) utilizados.

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5. MATERIAIS EXPRESSIVOS, MEIOS, SUPORTES E TÉCNICAS
A concepção faz referência ao momento de idealização daquilo que o artista pretende realizar.
É a ocasião em que a ideia artística floresce através de um impulso de criatividade que se destina
a tornar realidade a solução do projeto, visando à resolução daquilo que o artista impôs como meta
a alcançar, através da imaginação e da visualização de algo que será refletido na imagem final da
obra realizada. Realizar a obra efetivamente é a segunda etapa do processo de criação, que resulta
na materialização da ideia criativa, através da aplicação das técnicas que o artista domina e na
utilização dos materiais selecionados que ele escolheu empregar.

A passagem da ideia para a materialidade da obra, na maioria das vezes – e muito em razão dos
materiais empregados – pode ser modificada em relação à concepção inicial, que serviu de impulso
para as escolhas estéticas relacionadas com a formatação do desenho da obra e à condução do
conteúdo que o artista visa expressar. Na arte conceitual contemporânea, a fase de concepção
recebe maior ênfase, porque é a concepção que justifica o resultado final. Já nos processo criativos
tradicionais, aplicados a gêneros artísticos como a pintura, escultura e gravura, a preocupação do
artista está mais centrada nos processos e técnicas envolvidas na realização da obra e nos efeitos
conseguidos com a aplicação dos materiais expressivos.

A decisão de materiais obviamente está relacionada com o tipo de arte que o autor se dedica
a realizar, mas para cada categoria de material expressivo existem várias subcategorias, tipos,
possibilidades de efeitos e possibilidades variadas de aplicação de técnicas e meios de lidar com
esses materiais. A pintura e a gravura são categorias artísticas aplicadas ao plano bidimensional,
e a escultura se desenvolve no espaço físico real e se manifesta em três dimensões. O resultado
formal entre essas categorias é sempre distinto, embora todos eles, de maneira geral, se apoiem
em esboços e traços orientadores executados em forma de desenho. O desenho, portanto, é um
processo intermediário e mediador entre aquilo que o artista tem em mente e a obra realizada, tanto
no plano que envolve apenas a altura e o comprimento quanto na expressão tridimensional. O próprio
desenho também pode ser o meio expressivo do artista e da mesma forma exigir a aplicação de
técnicas e materiais específicos para sua expressão como obra em artes plásticas.

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FIGURA 21 – Esboço de Leonardo da Vinci para estátua de Francesco Sforza

Esboço realizado por Leonardo da Vinci para o projeto da Estátua de Francesco Sforza, em 1488. Fonte: <https://
commons.wikimedia.org/wiki/File:Leonardo_da_Vinci_-_Study_for_an_equestrian_monument_(recto)_-_Google_Art_Project.jpg>.

Conceitualmente, cada categoria de arte tem os seus materiais específicos e adequados e as


técnicas pessoais de aplicação que melhor definem seus resultados. Além dos materiais escolhidos,
o instrumental e as superfícies onde a obra será efetivada envolvem recursos que precisam ser
definidos de acordo com a intencionalidade do artista. Essa conceituação busca definir a técnica,
o meio (mídia) e o suporte que, somados, transformam-se na mediação técnica entre aquilo que
o artista concebe e a realização efetiva da obra artística. A técnica faz menção ao domínio dos
instrumentos utilizados e a maneira correta de utilizá-los. O meio ou mídia é o próprio instrumental
utilizado na aplicação dos materiais escolhidos e que serão aplicados sobre um suporte. O suporte
serve para receber a aplicação do material e consiste em uma superfície qualquer sobre a qual
foram aplicados os meios portadores do material escolhido.

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5.1 Considerações sobre materiais e técnicas nas artes visuais
A concepção de uma obra artística depende das escolhas que o autor faz e geralmente são
orientadas pelas possibilidades plásticas dos materiais utilizados e pelas técnicas que ele desenvolveu
ao longo de sua prática. Essa união entre as técnicas que o artista domina e as características do
material que escolheu para utilizar é fundamental para determinar as configurações de estilo da obra,
que ele irá transformar em realidade a partir da idealização. Assim, a forma de expressão artística e
visual final do trabalho está diretamente relacionada com as técnicas que ele têm competência de
aplicar e as especificidades plásticas que os materiais selecionados permitem. Técnicas e materiais
são responsáveis tanto pelas limitações que o artista vai encontrar na práxis da execução daquilo
que imaginou quanto pela gama de oportunidades que eles oferecem.

FIGURA 22 – A coleção de arte do príncipe Władysław Vasa

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Art_Collection_of_Prince_W%C5%82adys%C5%82aw_Vasa.jpg>.

Essa é uma razão histórica que permeia toda a evolução da arte ao longo dos séculos e justifica
a preocupação dos historiadores de arte técnica em olhar também para o contexto no qual os

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materiais, meios, suportes e técnicas evoluíram como resultado da evolução social e das novas
descobertas, porque essa evolução também revela como a linguagem visual evoluiu.

A ciência resulta das observações práticas da realidade e também precisa de técnicas e métodos
específicos para realizar suas incumbências. Das descobertas científicas surgem novas tecnologias
e novas maneiras práticas de aplicá-las, e as aplicações práticas das descobertas científicas são
transformadas em técnicas destinadas a facilitar e possibilitar essas aplicações. Os materiais
utilizados na confecção da arte têm origem em descobertas inicialmente empíricas que levaram o
homem, desde os períodos mais primitivos, a realizar experiências com os insumos que encontrava
na natureza e que podiam ser transformados em meios de registrar suas ideias e a disponibilizar
materiais para serem usados nessa empreitada.

Do Renascimento até os dias atuais, as descobertas no campo das artes plásticas misturam
ciência, técnica e tecnologia, com atitudes imaginativas e criativas que motivam os cientistas a
investigar a natureza e os fenômenos buscando a verdade das coisas. A técnica, como resultado
prático das investigações científicas, é mais uma prova de que ciência e arte sempre caminharam
juntas ao longo das eras. Como observa Araujo-Jorge (2014, p. 33):

A ciência é enquadrada como utilitarista, serve para algo, e a arte como contemplativa,
prazerosa. Essa é a visão que a população tem dos temas. Sabemos que ambas
são úteis e que cada uma se manifesta de maneira diferente nas pessoas. Não há
diferença. O que existe são “pré-conceitos”, estereótipos. Tanto a ciência quanto a
arte necessitam de inspiração, criatividade e percepção. Cada indivíduo que trabalha
com a ciência e a arte tem que saber perceber aquele detalhe que faz a diferença.
Eu não sei se consigo diferenciar a ciência da arte. Tanto a ciência como a arte são
motivadas pela paixão, são, de certa forma, uma expressão das “inquietações” do
cientista e do artista. Talvez a diferença esteja na forma de se expressar. A ciência
deve ser expressa de forma objetiva enquanto a arte pode ser expressa de forma
subjetiva.

A técnica pode ser entendida como o conjunto de habilidades, regras, experiências e maneiras
empregadas para realizar uma tarefa ou executar uma arte. No caso do artista, trata-se da habilidade
que ele adquiriu ao longo do tempo no trato com os meios que utiliza para realizar seus trabalhos.
No que se refere à produção de bens materiais, a técnica põe em jogo a habilidade dos executores
(sobretudo na atividade manual), o conhecimento dos materiais e o uso dos utensílios, ferramentas,

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máquinas e instrumentos. Ao longo da existência humana, a transmissão do conhecimento técnico
era feita, tradicionalmente, de forma oral e pelo exemplo.

FIGURA 23 – Homem primitivo constrói artefatos de pedra

Homem primitivo construindo artefatos com pedras e provavelmente desenvolvendo uma técnica específica de
produzir ferramentas de uso necessário para a sua sobrevivência. Ao longo da história, o ser humano desenvolve
técnicas e processos que lhe permitem vencer as adversidades e criar meios para tornar a vida menos pesada.

As corporações de ofício da Idade Média são um bom exemplo de como o conhecimento e as


habilidades técnicas eram transmitidas, e, nas “academias de belas artes”, pintores, escultores e
gravadores transmitiam seus conhecimentos e habilidades ensinando as técnicas do ofício para
seus discípulos. Para o artesão da Idade Média e para o trabalhador manual moderno, “o saber
fazer é o saber fazendo” (SMITH, 2012). Mas a atividade técnica não é meramente imitativa, já
que solicita decisões e opções inteligentes e criativas. Nestes termos, a separação entre técnica,
trabalho e arte se dilui acentuadamente. A técnica está compreendida também em atividades não
imediatamente ligadas à produção material. As técnicas jurídicas, cirúrgicas, os jogos, a prática
esportiva, a comunicação dos homens entre si e, a partir da Revolução Industrial, a comunicação
dos homens com a máquina também são incluídas nesse caso.

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FIGURA 24– Homens trabalhando em uma corporação de ofício

Homens trabalhando em uma corporação de ofício. Durante a Idade Média, estendendo-se até o
Renascimento, as corporações de ofício reuniam os artesões de determinado ofício em uma espécie
de associação com a finalidade de defender os interesses comerciais e de aprendizado de seus
membros. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Meistertafel_der_Ulmer_Schneider_1662.jpg>.

A técnica é tão antiga quanto o homem, e não há técnica fora da atividade humana. Falar
em técnica do castor ou do joão-de-barro, da abelha ou da formiga é analisar a aparência dos
produtos, desconsiderando a diversificação da produção material humana ao longo da história e
sua característica essencial de ação inteligente e criativa (GOMBRICH, 2015).

Como vimos, a origem da palavra técnica está no termo grego techné, que passou para o latim
como ars ou oitis e que, por sua vez, pode ser traduzido para o português como arte (LEITÃO, 2008).
Em ambas as línguas, o campo semântico é amplo e não abrange apenas as atividades materiais.
No dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2010, p. 627), técnica tem o significado de “coleção
de regras, ou método de fazer alguma coisa; conjunto de processos de uma arte; maneira, jeito
ou habilidade de fazer alguma coisa”. Desta forma, podemos perceber que, desde os gregos, o
conceito de técnica está relacionado com o método ou processo de produzir arte. Assim é para os
filósofos gregos, que incluem a retórica entre as técnicas e para ela dão o nome de “arte retórica”
(ARISTÓTELES, 2008). Para Platão, a retórica era uma das técnicas necessárias para o governo da
cidade. Ele criticava, no entanto, a retórica dos sofistas, que acusou de converterem o “bem dizer”

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em mera “arte da persuasão”, sem atentar para o conteúdo do enunciado. Podemos concluir pelo
discurso de Platão que ele já enunciava uma crítica do formalismo gratuito da forma pela forma,
presente na filosofia do design conhecida como styling, que pregava a concepção de produtos
superficialmente atraentes para aumentar suas possibilidades de conquistar o consumidor e aumentar
as vendas, atitude posteriormente justificada como resultado da grande recessão provocada pela
Crise de 1929 (MALDONADO, 1999).

Também para Aristóteles a retórica era uma técnica e sua obra sobre o assunto em grego tem o
título “Techné rhetorike”, a arte da retórica. De certa forma, a racionalidade grega não se estruturou
a partir das técnicas que operam sobre as coisas, mas sim pela análise e elaboração dos vários
modos de ação sobre os homens e das técnicas que têm a linguagem como instrumento comum
(GOMBRICH, 2015). Assim, o conceito de técnica artística inclui não só o fazer, mas também a
necessidade de produzir conteúdo para expressar a intencionalidade da arte. O conhecimento
aprofundado dos materiais e o domínio das técnicas que possibilitam utilizá-las promove uma
ampla gama de possibilidades de produzir manifestações de arte, que pode ser observada ao longo
dos períodos históricos e que revelam a evolução das metodologias artísticas e dos resultados
visualizados nas obras e na expressividade das mesmas.

FIGURA 25 – Desenhista executando esboço de cabeça humana

Desenhista executando um esboço de uma cabeça humana. Fonte: Pressmaster/Shutterstock.

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6. O DESENHO COMO MEDIAÇÃO PARA TODAS AS EXPRESSÕES ARTÍSTICAS
O desenho é o resultado que se obtém em uma superfície pela intervenção de um instrumento
aplicado sobre ela, capaz de marcá-la à medida que é deslocado, partindo do primeiro ponto de
contato. Geralmente, quando tocamos uma superfície com um lápis ou caneta, a primeira figura
impressa é o ponto. O deslocamento do mesmo para qualquer direção configura uma linha ou
um traço. Esse traço pode ser direcionado, repetido, distorcido, criando imagens de acordo com a
intenção do interventor. Portanto, desenho é a arte de representar visualmente, por meio de traços,
as formas que desejamos e sobre as quais eventualmente acrescentamos valores de luz e sombra
(SMITH, 2012).

A base de qualquer projeto visual desenvolvido sobre uma superfície bidimensional é o desenho,
que pode ser executado à mão livre ou com uma série de mídias específicas para desenhar, como
lápis, pastéis, crayons, carvão, bico de pena e tinta. Também pode ser realizado com auxílio de
instrumentos como réguas, compassos e canetas especiais, mais apropriados para o desenho
técnico usado na arquitetura, no design e na comunicação visual.

FIGURA 26 – Esboço de paisagem

Esboço de uma paisagem feita com carvão de origem vegetal. Fonte: Kozh/Shutterstock.

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Nas artes visuais, o desenho é usado como meio para estabelecer uma estrutura inicial ou
traçado a partir da qual o projeto final é realizado. Serve para exprimir tanto os valores quanto os
contornos e, desde as épocas primitivas, o desenho não se separa da pintura por qualquer solução
de continuidade desejada ou pelo procedimento dos artistas que o praticam, seja como um fim em
si mesmo, seja a título de esboço para uma obra que se pretende pintar ou esculpir. A especificidade
do desenho encontra-se no caráter gestual imediato que ele costumeiramente apresenta, devido
à simplicidade de seus instrumentos, que sempre foram usados como um prolongamento natural
da mão humana: pontas de metal, carvão de lenha, fragmentos de rochas colorantes, pincéis e
penas, cada um capaz de provocar efeitos diferenciados de acordo com os recursos de marcação
da superfície que proporciona. Como exemplo temos a aguada (diluição obtida com pincel), que
permite uma representação monocromática reforçada por traços de bico de pena, o pastel e o
carvão, possibilitando um traçado a seco. Desde a Pré-História, utiliza-se instrumentos de ponta
para gravar, quando não os próprios dedos ou pincéis embevecidos em líquido colorido para traçar
formas em paredes rochosas e, depois, nos estágios mais avançados do homem primitivo, em
objetos de cerâmica.

FIGURA 27 – Cerâmica neolítica em terracota

Cerâmica pré-histórica originária do período Neolítico, confeccionada em terracota. Fonte:


<https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cer%C3%A1mica_neol%C3%ADtica_M.A.N._01.JPG>.

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Além do desenho linear, a Antiguidade conheceu também o desenho de hachuras (linhas
paralelas usadas para criar efeitos de meio tom) e o modelado (para efeitos de sombra e luz), que
comprovam uma evolução paralela à da pintura. A Idade Média ocidental insistiu no contorno e na
circunscrição das formas, servindo-se da pena ou “bico-de-prata”, à qual sucederam a plumbagina
e depois, nos séculos XVIII e XIX, a grafite, os lápis tipo crayon e, sobretudo, o bico-de-pena.

FIGURA 28 – Desenho usando técnica bico-de-pena

Desenho usando a técnica de bico de pena e hachura. Fonte: <https://commons.


wikimedia.org/wiki/File:Thinktank_Birmingham_-_Gillott(1).jpg>

A tinta preta e o “bistre castanho-amarelado” foram utilizados não só a bico de pena, mas também
em aguadas (diluições obtidas com o pincel) desde o século XV, e usadas também no século XVII por
Rembrandt, entre outros, com alto nível de qualidade, da mesma forma que os realces de aquarela
e a sépia, a partir do séc. XVIII.

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FIGURA 29 – Desenho de Rembrandt: “A virgem e o menino com gato e cobra”

Desenho de Rembrandt (Virgem e menino com o gato e a cobra, de 1654). Técnica de aquarela e bico
de pena em um único tom. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:B063_Rembrandt.jpg>.

A técnica do pincel não foi a única a permitir ao mesmo tempo o modelado e o desenho a traço. O
mesmo se verificou com a sanguínea — muito em utilizada na arte italiana, sobretudo a partir do séc.
XVI — com a pedra negra ou pedra da Itália e com o carvão. A livre combinação de técnicas levou a
variações inesgotáveis do desenho, ou deste combinado com a pintura, sendo que algumas dessas
combinações foram codificadas com nomes especiais, como a “policromia tríplice” (combinação
da pedra negra, sanguínea e giz). Essas combinações foram exploradas pelos grandes mestres da
pintura e do desenho, como Leonardo da Vinci e Veronese, que ampliaram o uso dessas misturas
para aplicá-los em entre vários materiais expressivos.

O uso de papéis tingidos, do guache, do carvão esfumado ou trabalhado em hachuras multiplicou


a riqueza dos efeitos pictóricos. O pastel, conhecido desde o séc. XV adquiriu grande importância,
sobretudo após o séc. XVIII, ao mesmo tempo em que progrediam os processos de fixação nas
superfícies dos materiais usados nas obras visuais, pela aplicação de vernizes. No séc. XX, a linha,

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a hachura, a atenuação dos tons, e a mancha, estudados por Kandinsky ou por Klee, constituíram
um verdadeiro vocabulário expressivo colocado à disposição do automatismo e da arte abstrata
(FIEDLER; FEIERABEND, 2013). Utilizado para a apresentação de “projetos” pelas vanguardas dos
anos 70, o desenho conheceu uma renovação figurativa significativa no fim dos anos 70 e início
dos anos 80, especialmente pela explosão dos desenhos animados modernos e da história em
quadrinhos revisitada.

FIGURA 30 – História em quadrinhos

Quadro de uma história em quadrinhos, também chamada popularmente de “Gibi”.


Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BlackTerror1234.jpg>.

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No Brasil, o desenho como disciplina foi introduzido com os cursos de Belas Artes da Missão
Francesa (1816). Nesse período destacam-se os projetos e estudos de Rodolfo Bernardelli, Pedro
Américo, Rodolfo Amoedo, Vítor Meireles, Eliseu Visconti e Carlos Osvald (LEITÃO, 2008). Entretanto,
somente com o advento da arte moderna o desenho adquiriu um estatuto próprio, constituindo-se
como um meio de expressão em si, reconhecido como uma linguagem expressiva específica. Em
nosso país, destacam-se Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Portinari, Augusto Rodrigues, Aldemir
Martins, Arnaldo Pedroso D’Horta, Carlos Scliar, Amílcar de Castro, Wesley Duke Lee e Mira Schendel
(CATANI, 2000). A seguir vemos um desenho de Wesley Duke Lee:

FIGURA 31 – Desenho usando a técnica de grafite sobre papel

Desenho usando a técnica do grafite sobre papel.


Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kenyon_Cox_nude_study3.jpg>.

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O desenho satírico e de humor é outra forma de expressão que se utiliza do desenho para
expressar crônicas do cotidiano, da vida das pessoas ou das ações de personalidades e políticos.
Já presente em certas figuras esculpidas nas catedrais da Idade Média, a arte de tratar com exagero
uma situação ou um personagem, com uma intenção de escárnio ou de denúncia, inspirou diversos
artistas a partir desse período. Durante quase todo século vinte, as famosas “tiras” com histórias
em quadrinhos satíricas incrementaram as vendas de jornais e revistas.

No Brasil, as tiras sempre foram motivo de grande sucesso, e com a relativa liberdade de imprensa
concedida pela República, uma nova geração de artistas abordou as questões políticas e sociais,
criando a tradição dessa forma expressiva. Muitos ilustradores e desenhistas de tiras trabalharam
para jornais como Jornal do Brasil, O Globo, Estado de São Paulo e para as revistas Cruzeiro e
Manchete (GOIDA; KLEINERT, 2011). Após a 2ª Guerra Mundial, o desenho satírico e humorístico
assumiu um caráter menos agressivo de ilustração e informação. Os absurdos do mundo moderno
multiplicaram os alvos do desenho de humor, provocando as mais variadas manifestações de crítica
ou sarcasmo.

FIGURA 32 – Tira de jornal “O Amigo da Onça”

Tira “O Amigo da Onça”, do famoso cartunista Péricles de Andrade Maranhão, que era publicada na revista “O
Cruzeiro”, nas décadas de 1940, 1950, e 1960.
Fonte: <http://candirutj.blogspot.com.br/2015/06/o-pai-do-amigo-da-onca.html>.

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Os desenhos animados, a partir do início do século XX, representam outro formato que absorveu
a arte do desenho. Geralmente eram desenhados sobre a própria película cinematográfica ou feitos
em folhas de papel vegetal. A transparência do material facilitava o traço e, principalmente, permitia
que, ao desenhar o “movimento” de uma personagem em primeiro plano (fazendo, portanto, vários
desenhos da personagem em diferentes posições), fosse utilizado sempre o mesmo fundo, que era
desenhado somente uma vez. Normalmente, eram necessários tantos desenhos diferentes quantos
fossem as imagens do filme, ou seja, 24 quadros por segundo de projeção, embora a animação seja
frequentemente simplificada (COUSINS, 2013). A partir da emergência dos processos digitais, as
técnicas de desenho animado foram totalmente revolucionadas, mas o desenho continua sendo a
base construtiva dos projetos de animação.

FIGURA 33 – Tom & Jerry, personagens de desenho animado

Imagem dos famosos e imortais personagens “Tom & Jerry”, criados por William Hanna e
Joseph Barbera para a Metro-Goldwyn-Mayer, em 1940. Fonte: Bornfree/Shutterstock.

Outra forma de aplicação das possibilidades de desenho é o desenho técnico, que até os o fim
dos anos 1990 era feito em pranchetas, com utilização de instrumentos especiais como escalímetros,
jogos de esquadros, lápis, ou lapiseira para desenho técnico, compasso etc., geralmente em papel
vegetal, que facilitava a reprodução pela transparência. Os elementos estruturais eram apresentados
através de planificações e perspectivas, e eventualmente através de cortes e seções. Todo o processo
de desenho técnico, que pode ser aplicado nas áreas de mecânica, arquitetura, engenharia civil são
regulamentados por regras internacionais. Atualmente, esse tipo de desenho é totalmente realizado
através de processos digitais, utilizando softwares como o Cad-Cam.

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7. ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA DA ARTE TÉCNICA DOS SUPORTES
Nas artes visuais, o resultado expressivo depende sempre da combinação de uma série de
fatores, além da intencionalidade e da competência criativa do artista: os materiais, meios, suportes
e o domínio das técnicas para manipular todos esses elementos de maneira harmônica e coerente
são fatores essenciais para o resultado que o autor espera obter. Cada material utilizado e bem
manipulado será decisivo para a consistência da obra. A tinta, o gouache, o carvão, o nanquim, a
aquarela, a tela, o papel, a parede, enfim, tudo aquilo que o artista tem a disposição será transformado
para obter o caráter simbólico final do trabalho, que vai expressar a ideia e o sentimento de mundo
que ele pretende revelar.

Em um quadro, pintura, gravura, esboço ou desenho é impossível separar os materiais utilizados


do resultado final, muito menos do suporte onde tudo, depois de manipulado, misturado e organizado
intencionalmente foi aplicado para se obter a composição final. Tudo será uma coisa só, uma
obra. Para que a obra possa ser materializada, portanto, o artista depende da sua habilidade e
da combinação do suporte, do instrumental que será usado para intervir nele e dos materiais que
permitem dar plasticidade ao trabalho. A ideia e os materiais expressivos vão ser aplicados sobre
o suporte. Escolher qual o tipo ideal de superfície a ser usada também é decisivo para se obter
aquilo que se almeja.

O suporte é a superfície que “suporta” o trabalho artístico, que dá sustentação para a obra de
arte. Na pintura, na gravura, no desenho, existe sempre um suporte considerado ideal para o tipo
de aplicação planejada, embora, de maneira geral, em qualquer superfície é possível fazer arte.
O suportes adequados e de altíssima qualidade que os grandes mestres da pintura utilizaram foi
responsável pela permanência de suas obras durante séculos até os dias atuais.

Tecnicamente, o suporte pode ser definido como uma superfície ou material capaz de receber o
deslizamento de um instrumento de trabalho artístico como um pincel, lápis, carvão ou pastel e de
permitir o depósito desses materiais. Trata-se de um substrato que pode se comportar de maneira
neutra em relação à obra, porque atua passivamente na configuração da composição final. É o caso
das telas que receberam as pinturas dos grandes artistas retratistas do Renascimento. O suporte
pode ser ativo, quando colabora com a composição final (caso dos papéis coloridos, cuja cor passa
a fazer parte da organização formal do trabalho), e produtivo, quando participa efetivamente do
trabalho, como nas dobraduras, superfícies esculpidas e na própria escultura, onde o suporte é a
própria obra.

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Na escultura, inicialmente o suporte é, por exemplo, uma pedra em estado bruto, uma porção
disforme de argila, um metal em estado de barra ou lingote, que, pela intervenção do artista, resulta
no volume da imagem desejada. Ao longo dos séculos de existência das artes plásticas, o suporte
também foi se transformando. No começo foi a rocha em estado puro das paredes das cavernas,
a madeira de um tronco de árvore, uma plataforma formada pelo tratamento de certos vegetais
como o papiro, uma tela de tecido, uma placa de metal ou de mármore, até chegar ao papel. A
matéria-prima de constituição do suporte, portanto, pode variar de acordo com o período histórico
ou de acordo com a seleção do artista. O grande desafio da atualidade é como dar materialidade
aos processos digitais que o artista tem à sua disposição. As possibilidades de uso e os diferentes
suportes também são objetos de uma análise história da arte técnica e da arqueologia. Pela ordem
de uso ao longo dos séculos, é possível estabelecer uma cronologia, embora, a qualquer tempo,
essas superfícies possam ser utilizadas novamente.

7.1 Características dos suportes utilizados nas artes visuais

7.1.1 A rocha

Na pintura e desenhos primitivos, os artistas pré-históricos usavam como suporte as paredes


de grutas e cavernas, nas quais produziram obras preciosas de arte rupestre que passaram para
a história como documentos dessa era, colaborando para o conhecimento futuro da cultura, da
organização e da maneira de viver do homem primitivo. A pedra é um suporte ativo que colaborava
para a composição final com os efeitos de textura que possui.

FIGURA 34 – Arte rupestre sobre rocha do período da Pré-História

Arte rupestre pintada sobre rocha no período da Pré-História. Fonte: Everett – Art/Shutterstock.

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7.1.2 Parede (muro)

A arte egípcia, de forte caráter religioso, expressou-se em várias formas conhecidas de arte,
escultura, desenho e pintura. A pintura mural foi uma das formas mais utilizadas pelos egípcios,
podendo ser esculpida ou pintada. A parede também foi usada na Idade Média e no Renascimento
como suporte para a arte do afresco, técnica que consistia na aplicação de pigmentos de cor diluídos
em água sobre o revestimento fresco (ainda úmido) de uma parede. O grafite atual também é uma
forma de arte mural que usa as paredes em suas manifestações.

FIGURA 35 – Pintura em mural: “L’Aurora”, de Guido Reni

Exemplo de pintura mural, também conhecida como pintura parietal ou muralismo. Fonte: <https://
commons.wikimedia.org/wiki/File:Guido_Reni_-_L%27Aurora_di_Guido_Reni_nelle_arti_decorative.jpg>.

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7.1.3 Papiro

O papiro consiste em uma superfície de certa forma parecida com o papel, que era confeccionada
pelos egípcios com a utilização do entrelaçamento das fibras de uma planta da região do Vale do
Nilo, cujas folhas eram batidas depois de umedecidas e serviam de base para confeccioná-lo. Os
registros em papiro existem desde 40 séculos a.C. e o material tem boa aceitação de tintas feitas
geralmente com pigmentos de terra, vegetais e bagos de frutíferas, que garantiram boa durabilidade.
A planta tem o mesmo nome do suporte: trata-se de uma espécie de erva aquática cujo nome
científico é Cyperus Papyros. Esse suporte foi utilizado para registrar parte significativa da cultura
egípcia e transmitir para a posteridade a história da sua civilização.

FIGURA 36 – Papiro com pintura do Egito Antigo

Papiro com pintura mostrando cenas da simbologia egípcia.


Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BD_Hunefer.jpg>.

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7.1.4 Papel

O papel é uma superfície uniforme e flexível, confeccionado a partir das fibras de celulose retiradas
das plantas, ou mais especificamente, nos dias atuais, da celulose das árvores de reflorestamento
como o pinus e o eucalipto. É um suporte com grande variedade de utilizações, como escrever,
desenhar, imprimir, gravar, pintar ou dobrar (dobraduras ou origami). Sua invenção é muito antiga
e semelhante ao papiro, também servindo para o registro de parte significativa da história e da
cultura humana. É o suporte mais utilizado nas artes visuais da atualidade.

FIGURA 37 – Desenho à lápis sobre papel

Exemplo de desenho feito a lápis sobre papel. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/


wiki/File:Henrique_Alvim_Correa_-_Ateli%C3%AA_do_artista_em_Boitsfort,_1902.jpg>

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7.1.5 Papel reciclado

É um suporte obtido a partir da reciclagem de papéis velhos através do aproveitamento das fibras
de celulose, que são recuperadas para a confecção de novas folhas de papel com características
artesanais. As folhas de papel antigo são moídas e umedecidas até se obter uma massa, de tal forma
que sobrem apenas as suas fibras em forma de pasta, que pelas características do tipo de material
utilizado permanecem unidas, sem necessidade de se utilizar qualquer tipo de aglutinante. Depois
de obtida, a massa é moldada em uma superfície plana, adquirindo o formato final desejado. É um
tipo de suporte muito utilizado por alguns artistas que desejam fabricar um suporte personalizado
para seus trabalhos. Esse processo também é feito pela indústria de reciclagem, produzindo folhas
de papel reciclado em larga escala.

FIGURA 38 – Exemplos de papéis reciclados com diferentes texturas

Exemplos de papéis reciclados industrialmente, onde se nota uma textura


diferente do papel tradicional. Fonte: Kaspri/Shutterstock.

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7.1.6 Madeira

A madeira é uma das mais tradicionais matérias-primas utilizadas pelos homens. É retirada
da natureza, inicialmente de arvores autóctones que eram derrubadas e cortadas em pranchas, a
partir das quais vários tipos de artefatos podiam se confeccionados. Hoje se utiliza mais a madeira
de reflorestamento ou pranchas sintéticas como o MDF. A madeira foi utilizada como suporte em
vários tipos de obras de arte, em relevos, esculturas, gravuras e pinturas.

FIGURA 39 – Entalhe em madeira

Entalhe em madeira. Fonte: WitthayaP/Shutterstock.

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7.1.7 Tecido

O tecido de algodão cru passou a ser utilizado em épocas bem remotas para a confecção de
telas de pintura. A tela se transformou no suporte ideal para os pintores clássicos, especialmente
depois da emergência da tinta a óleo, um material fabricado pela mistura de pigmentos com óleo
vegetal, que permite um acabamento da mais alta qualidade, além de longa duração. Na arte da
pintura, a tela consiste em um pedaço de tecido, lona de algodão, linho grosso ou juta esticado em
um chassi de madeira e preparado para servir de suporte para aplicação de tintas a óleo, têmpera,
gouache ou tintas acrílicas.

FIGURA 40 – Óleo sobre tela. “Grupo dos membros do Hospital Santa Elisabeth de Haarlem”, de Frans Hals

“Grupo dos membros do Hospital Santa Elisabeth de Haarlem”. Pintura a óleo sobre tela de
Frans Hals, 1641. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Frans_Hals_018.jpg>.

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7.1.8 Metal

É um suporte que consiste em uma placa de metal de cobre ou latão e que permite desenhos
com pontas de metal duro que provocam sulcos em baixo relevo nesse tipo de superfície. O metal
é utilizado desde a Idade Média na arte da gravura como base original para a impressão que pode
ser produzida com a intervenção direta do instrumento de marcar ou com resinas combinadas com
ácidos que sulcam a superfície da chapa. A chapa de metal passou a ser usada também como
original para impressão de material gráfico, como cartões de visitas, papelaria corporativa, jornais
e até revistas.

FIGURA 41 – Arte sobre metal. Gustave Doré, “Ladrões torturados por Serpentes – O Inferno de Dante Aligh-
ieri”.

Desenho reproduzido a partir de uma chapa de metal mostrando ilustração de Gustave Doré para o livro “O

Inferno” de Dante Alighieri. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:DVinfernoThievesTorturedBySerpents_m.jpg>.

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7.1.9 Vidro

O vidro representa o exemplo mais completo de suporte produtivo, que participa da obra e passa
a ser parte integrante da mesma. Ele permite a pintura direta em sua superfície, mas também pode
ser moldado e combinado em placas de diversos tamanhos, formatos e cores na arte do vitral. Trata-
se de um painel artístico ou decorativo, feito de vidros coloridos e transparentes sustentados por
uma armação de ferro, ou de chumbo, em geral formando desenhos ou figuras, utilizado em portas
ou janelas, ou como painel luminoso e decorativo. Embora as escavações tenham revelado vestígios
mais antigos encontrados em Ravenna (Itália), no século VI, os fragmentos que constituem os
primeiros vitrais conhecidos não são anteriores ao século IX (GOMBRICH, 2015). Há numerosos vitrais
românicos do século XII nos países germânicos, na Inglaterra e, sobretudo, na França. Engastados
como partes luminosas em aberturas ainda estreitas, cercados de complexas bordas decorativas,
compõem-se de uma reunião de medalhões quadrados ou circulares e são feitos de vidros de cores
claras cortados em pequenas peças componíveis. Composições como a Nossa Senhora da Catedral
de Chartres (na França) indicam uma transição em direção ao vitral gótico do século XIII. Na época
gótica, a diminuição da espessura das paredes transformou os vitrais em verdadeiras paredes
luminosas, às quais uma coloração sombria (vermelho e azul) deu nova densidade ao ambiente,
pela passagem da luz que integrava a parte interna com a externa da construção.

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FIGURA 42 – Vitral gótico da Catedral de Chartres, na França

Vitral gótico representando a “Nossa Senhora de la Belle Verrière”, na Catedral de Chartes, França, que
representa o auge do gótico na Europa. O vidro foi o elemento plástico de maior relevância no período
gótico, juntamente com a pedra. Com a emergência do estilo gótico, no século XXII, em oposição ao
românico, quando uma grade quantidade de igrejas góticas começou a se espalhar pela Europa, os
artistas que dedicavam a sua arte para decorar os ambientes internos das igrejas enfrentaram um grande
desafio: como implantar as obras dentro de um imenso espaço interno com alturas elevadíssimas, que
mantinha toda a estrutura construtiva feita de pedra à vista? Na parte externa, os escultores implantaram
esculturas de formatos fantásticos para criar elementos decorativos impactantes, e no interior os artistas
vidraceiros usaram o vidro para criar efeitos fantásticos de luz, aplicando sua arte nas janelas vitrais. Os
vitrais góticos eram confeccionados com pequenas placas de vidro multicoloridas, unidas por estruturas
de chumbo. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vitrail_Chartres_Notre-Dame_210209_1.jpg>.

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8. ARQUEOLOGIA E HISTORIA DA ARTE TÉCNICA DA PRÉ-HISTÓRIA
A chamada arte rupestre é reconhecida pelos historiadores da arte como uma manifestação
expressiva do homem primitivo, que habitava os territórios terrestres antes do surgimento das
chamadas sociedades organizadas, ou sociedades letradas, no período da Pré-História conhecido
como Paleolítico, termo grego formado pela junção de “Palaiós” = antigo e “Lithos” = pedra.
Caracterizava-se pela indústria manual da pedra lascada, resultando dessa característica o termo
“Homem das Pedras”, ou, ainda, pelo fato de habitarem as cavernas, “Homem das Cavernas”. Em
geral, eram indivíduos nômades e viviam da caça predatória. A região que habitavam situava-se na
Europa e também em outros continentes, em período anterior ao Neolítico (Pedra Polida) e a Idade
dos Metais. O Paleolítico, por sua vez, dividia-se em Paleolítico Antigo, Médio e Superior.

O início do Paleolítico corresponde às primeiras manifestações de atividades humanas atualmente


conhecidas e datadas de cerca de três a seis milhões de anos: são os seixos (pedaços de formações
rochosas) trabalhados chamados de “pebble culture” recolhidos pelos pesquisadores em suas
primeiras incursões. Em arqueologia, esse tipo de indústria do ser humano, que consistia no
resultado do ato de talhar pedras para desenvolver pequenos objetos de cultura é conhecido como
“olduvaiense” ou ainda “cultura dos seixos talhados”.

FIGURA 43 – Lâmina de machado de pedra do período Paleolítico

Ferramentas feitas de pedra talhada descobertas pelos arqueólogos em sítios pré-


históricos. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bifaz_triangular.jpg>.

Os primeiros exemplares foram colhidos na África, nas regiões da Etiópia e do Quênia e na França
(há cerca de 1.800.000 anos). Os mais antigos seixos descobertos são os que foram recolhidos
no Haute-Loire, em Chilhac, região situada no centro sul do país (FUNARI, 2003). Esse período é

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conhecido como Paleolítico Inferior e as atividades da época mostram um desenvolvimento muito
lento das ferramentas feitas de pedra lascada e do aperfeiçoamento das técnicas de lascamento
(400.000 a.C.), diferenciando-se dos períodos posteriores, o Paleolítico Médio e, especialmente, do
Paleolítico Superior, que apresenta um grande desenvolvimento no manejo das lascas de pedra.

FIGURA 44 – Artefatos do Período Paleolítico Superior

Artefatos produzidos pelo homem pré-histórico do período Paleolítico Superior, mostrando a habilidade
adquirida de polir os objetos e dar a eles um acabamento mais refinado em relação aos objetos dos
períodos pré-históricos anteriores. Fonte: Jiri Vaclavek/Shutterstock. ID da imagem: 417441130; <https://
commons.wikimedia.org/wiki/File:NHM_-_Lautsch_Kette.jpg>; <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cau-Durban_
Marsoulas_MHNT.PRE.201.0.6.jpg>; <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sagaie-PRE.2010.0.1.4-IMG_1799.jpg>;
<https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Budapest_Csillaghegy_upper_paleolithic_IMG_0863_stone_blades.JPG>;

8.1 Arte rupestre: materiais expressivos, meios, suportes e técnicas


As manifestações de arte rupestre são identificadas pelas gravações que os habitantes do
período Paleolítico deixaram sobre as rochas e paredes dos locais que ocupavam provavelmente
para se abrigar, ou especificamente para registrar essas impressões hoje reconhecidas como
arte. Incluem também objetos que permitiam a sua sobrevivência, como ferramentas e armas
muito rudimentares, além de esculturas feitas similarmente de pedra talhada, que em um período
posterior passaram a ser polidas, apresentando um acabamento mais refinado. A arte rupestre foi
classificada pelos historiadores em dois tipos de manifestação expressiva: gravuras nas paredes
das cavernas e pequenas esculturas, tipo de expressão conhecido como petroglyphs, e, em uma
fase posterior, os conhecidos pictographs, incluindo pinturas e desenhos, que já refletem um tipo
mais específico de linguagem primitiva (FUNARI, 2003).

A vida do Paleolítico era essencialmente baseada em uma economia de predadores dedicados à


caça e de recolhedores que retiravam sua alimentação das florestas. Os habitats ao ar livre ou sob

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abrigos revelam desde o período Inferior uma preocupação de organização do espaço. Construções
sumárias e sepulturas revestidas de ocre existem no Paleolítico Médio, enquanto no Paleolítico
Superior os homens primitivos já possuíam verdadeiras habitações.

Inicialmente, as descobertas dos registros primitivos desencadearam discussões acerca da


sua autenticidade. A existência de preocupações estéticas foi admitida em 1860, e a autenticidade
de Altamira, outro sítio arqueológico de grande importância, situado na Espanha (descoberta em
1879), só foi reconhecida em 1895 após a descoberta das gravuras e das pinturas e de uma análise
meticulosa. Duas formas de expressão se desenvolveram simultaneamente: a arte mobiliária (seixos,
desenhos gravados, estatuetas femininas) e a arte parietal, que no sudoeste da França (Lascaux,
Niaux etc.) e no noroeste da Espanha (Altamira, Pasiega, Castillo etc.) formavam um conjunto
coerente, muitas vezes denominado franco-cantábrico (FUNARI, 2003).

Várias técnicas foram utilizadas na arte parietal: simples traços digitais em suporte brando,
gravuras feitas com artefatos de sílex em superfícies duras, esculturas em baixo-relevo modeladas
em argila, desenho e pinturas monocromáticas e policromáticas. Alguns pesquisadores identificaram
ciclos evolutivos sucessivos. André Leroi-Gourhan, reconhecido arqueólogo francês, opôs uma
cronologia diferente quando se referia aos elementos estilísticos observados na arte mobiliária.

Podem-se distinguir, então, quatro estilos:

1. o estilo primitivo, que correspondia às gravuras grosseiras do subperíodo “aurignacense”;


2. o estilo arcaico, ao qual pertenciam as obras do subperíodo dos “gravetenses” (as figurações,
desprovidas de detalhes, são reduzidas a alguns traços simples);
3. o estilo que constituiu um nítido aprimoramento dos precedentes por um aperfeiçoamento
do modelado e pelo acréscimo de detalhes anatômicos precisos (numerosas figurações da
gruta de Lascaux pertenciam a este estilo);
4. o estilo corresponde a um maior realismo das figurações, cujo modelado era obtido por
hachuras ou variações na densidade das cores. A frequência de certas associações de
figuras e sua presença em posições idênticas na gruta (anotadas por Leroi Gourhan)
permitem supor uma organização voluntária, provavelmente ligada à caça. Essas figuras
são catalogadas como pictogramas.

As figuras pictográficas registradas no Paleolítico correspondem ao desenho ou pintura de


figuras que sintetizavam elementos ou seres da natureza, como aves, mamíferos e a própria
figura humana, e utilizavam tratamentos monocromáticos ou policromáticos. Esse tipo de registro

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já aplicava técnicas mais apuradas e materiais muito mais resistentes, que permitiram a sua
durabilidade ao longo dos anos, garantindo razoavelmente a sua preservação. Para confecção
das figuras eram utilizados pigmentos derivados do carbono (carvão resultante da combustão de
madeiras), manganês e vários outros óxidos. Dependendo da região, as figuras pictogramáticas
podiam ser encontradas no interior das grutas ou expostas ao ar livre, estas mais encontradas nas
regiões africanas, inscritas em rochas ao céu aberto ou pedaços de madeira.

FIGURA 45 – Pictogramas encontrados na Argélia

Imagens pictogramáticas pré-históricas representando homens, mulheres e gado, expressando uma atividade
de pastoreio, material arqueológico encontrado na Argélia. Fonte: Pichugin Dmitry/Shutterstock.

As inscrições iniciais usavam como instrumento (ou mídia) os próprios dedos. Posteriormente,
o homem primitivo passou a usar uma espécie de lápis rudimentar de diversos pigmentos, que
permitia a variação de cores, escovas confeccionadas com pelo de animais ou fibras de plantas
específicas escolhidas pelos artistas e ossos ocos ou canas de vegetais que permitiam soprar
tinta através da sua cavidade. A gordura ou o sangue de animais eram usados como aglutinantes e
misturados a porções de terra moída gerindo os pigmentos para colorir os bisões e outros animais
gravados nas paredes.

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Essas técnicas e usos de instrumentos pré-históricos foram detectados pelas pesquisas
arqueológicas e arquiométricas e revelam que os pigmentos de cor eram originários de substâncias
minerais, vegetais ou animais usadas em forma bruta ou misturadas. Foi identificado que os tons
ocres eram derivados da argila. Outras cores eram provenientes do fosfato de cálcio de ossos
moídos, dióxido de manganês, suco de raízes e frutas, sangue de animais e, até mesmo, urina.

Foram registradas as mais diferentes imagens, cujos temas mais repetidos eram as cenas de
caça, lutas, cavalos, renas, bisões (figura mais repetida) e gado, indicando o início da domesticação.
Outras figuras que podiam ser encontradas correspondiam às imagens de peixes, répteis e aves,
mamutes, lobos, raposas, lebres, hienas e leões. As imagens humanas não foram registradas com
muita frequência, mas motivos geométricos, traçados com linhas e impressões de pontos, uniam-
se às outras figuras retratadas pelo artista pré-histórico.

FIGURA 46 – Pintura pré-histórica de uma caçada

Pintura pré-histórica com temática de caça, inscrições que geralmente eram feitas
com pigmentos naturais derivados da argila, ossos moídos, suco de raízes e frutas
etc. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Algerien_5_0049.jpg>.

Os pictogramas eram sinais e símbolos sintéticos correspondentes às imagens reais observadas,


mas as inscrições rupestres também incluem símbolos e ideogramas que posteriormente formam

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registrados também como sistemas parecidos na escrita cuneiforme e na hieroglífica usada no
Egito, e têm presença nos sistemas de escrita da China primitiva, Egito e Suméria. Esse sistema
de escrita permanece ainda em algumas culturas remanescentes, que não dominam um sistema
de alfabeto parecido ao grego-romano, localizadas no continente Africano, nas Américas e na
Oceania. A leitura e interpretação dos hieróglifos da escrita utilizada no Egito, séculos depois, por
Jean-François Champollion, linguista e egiptólogo francês permitiu conhecer a civilização egípcia
e sua e toda a sua estrutura.

FIGURA 47 – Hieróglifos egípcios

Os pictogramas foram a base da escrita egípcia e de várias outras civilizações antigas. Os egípcios
usavam hieróglifos (tipo de pictograma) como uma forma de grafia para escrever aquilo que queriam
comunicar. Cada uma das figuras desenhadas é um hieróglifo e a leitura precisa ser feita pela
interpretação simbólica de cada elemento e pela combinação entre eles, tornando a compreensão da
mensagem muito difícil. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Egyptian_hieroglyphs_Detail.jpg>.

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9. HISTÓRIA DA ARTE TÉCNICA EGÍPCIA
O Egito, oficialmente reconhecido como República Árabe do Egito, é um país do nordeste da África
que se estende por ambos os lados do curso inferior do rio Nilo, situado entre o mar Mediterrâneo, a
Líbia, o Sudão e o Mar Vermelho, cuja capital é o Cairo. O território egípcio estende-se pela porção
oriental do Saara, e sua maior parte é formada por desertos e alguns pequenos oásis. A área útil
do país é de 40.000 km2, correspondentes basicamente ao vale do Nilo (com uma largura útil de 3
a 15 km), que deságua no Mediterrâneo por um vasto delta após atravessar o país de sul a norte,
constituindo a artéria vital. O clima é desértico (seco e árido) e o calor aumenta em direção ao sul,
onde desaparecem as chuvas, fracas já na região do delta, e com baixa densidade média. A energia
elétrica é deficiente e fornecida também pelo Nilo (GOMBRICH, 2015).

Desde a década de 1990, o setor turístico vem sendo fortemente prejudicado devido aos atentados
terroristas praticados por fundamentalistas muçulmanos, agravando ainda mais a crise econômica,
que é constante no país. A partir da Pré-História, a indústria lítica seguiu a evolução habitual dos
seixos lascados que remontam a 500.000 anos, e as ferramentas do Paleolítico superior, por volta
de 40000 a.C., eram constituídas sobretudo por lâminas de metal, enquanto o Paleolítico inferior
caracterizou-se por uma diversidade abundante de objetos culturais e material de ossadas e múmias
preservadas. As gravuras da região da Núbia (atualmente dividida entre Egito e Sudão) revelam a
fauna e as práticas de caça. Logo floresceram as culturas pré-dinásticas do Baixo Egito que se
constituíram em um poderoso sistema político e de poder. Por volta de 3400 a.C., no delta, diversos
reinos foram agrupados sob a monarquia dos reis da Região Norte, detentores da coroa vermelha,
e no sul governaram os reis que usavam a alta coroa branca (GOMBRICH, 2015).

Segundo dados históricos controversos, em 3200 a.C., Narmer – faraó que ocupou a liderança
de toda região no século trinta e dois a.C. – unificou os dois reinos então existentes: o do Alto Egito,
cuja coroa branca ele usava, e o do Baixo Egito, cujo soberano usava coroa vermelha. Coroado com
ambas as representações simbólicas, que constituíram o ornamento da cabeça dos faraós (pschent)
a partir de então, foi o primeiro dos reis que, durante trinta dinastias (segundo o esquema estabelecido
no século III a.C. por Maneton, escriba e sacerdote egípcio), no curso de três milênios, reinaram no
Egito até 333 a.C. Narmer estabeleceu sua capital na cidade de This e lançou os alicerces da cidade
nova de Mênfis, na extremidade do delta (GOMBRICH, 2015). A união das coroas e a constituição
das dinastias originou uma das culturas mais vigorosas e poderosas da Terra, deixando um legado
de cultura, arte e arquitetura monumental, hoje considerado patrimônio da humanidade.

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9.1 Arqueologia da arte egípcia
A revelação das expressões da arte egípcia inicia-se no período arcaico, conhecido com época
tinita, com a célebre reunião de feitos de Narmer (3200 a.C.), que promove a unificação do reino e
a prática da escrita e da irrigação. Os materiais de base da arquitetura das origens desse período
(madeira, caniços, esteiras) não deixaram traços. É através de sua representação documental em
papiros que se tem a informação sobre elas, e suas características foram transmitidas por escrituras
hieroglíficas, desenhos e esboços. Nelas, ornamentos vegetais são constantes como motivos.
Assim, a característica cornija (parte superior) que se vê no vértice das portas e pilones (portas) é
uma simplificação geométrica em pedra de um molho de caniços reunidos por meio de uma trança.
Desde esta época apareceram os caracteres fundamentais da arte egípcia, inspirados no mundo
divino, na sobrevivência no além e na glória do soberano.

FIGURA 48 – Papiro egípcio

Papiro egípcio com imagens e pictogramas característicos do Egito


Antigo. Fonte: Francesco de Marco/Shutterstock.

9.1.1 Primeiro Império Egípcio: Período Clássico

A arte clássica do Egito conheceu seu apogeu nesta época. O uso da pedra era mais frequente.
A tumba era a morada da eternidade, onde o morto reencontrava o cenário familiar de sua existência
terrestre. Os túmulos (mastabas) tornaram-se monumentos importantes, que podiam atingir
dimensões consideráveis. O túmulo de Mereruka, datando da VI dinastia, comportava 80 peças
decoradas. Dois elementos foram essenciais nas mastabas: a parte frontal, que continha a estátua
do morto, e a falsa porta, ponto de comunicação entre o mundo dos mortos e o dos vivos.

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Os faraós dessa dinastia, com a participação genial dos arquitetos egípcios criaram uma arquitetura
monumental com o vasto complexo funerário de Sacará. As colunas, tanto palmiformes, lotiformes
ou papiriformes são de origem vegetal. As pirâmides de nome Meidum e Dachur foram etapas na
direção das pirâmides de arestas retilíneas da IV dinastia em Gizé, como também em Sacará, e são
elementos de um complexo funerário constituído por pátios, edifícios sacrificatórios e de um templo
funerário rodeado por um recinto que abriga as barcas funerárias (ANDE; LEMOS, 2011).

A estatuária real idealizou e sintetizou os traços do faraó, mas acentuou sua majestade e
grandeza. Pouco a pouco, esta arte não conservava mais do que convenções, sobretudo durante as
dinastias V e VI. Os numerosos relevos das mastabas revelam cenas de caça, de pesca, de colheita,
banquetas, oferendas ou ainda aquelas onde o morto exerce suas funções oficiais. A partir do fim
da V dinastia e durante a VI dinastia, as pirâmides reais eram ornadas com belos hieróglifos, que
contam a saga do faraó.

FIGURA 49 – Tumba de Tutankamon

Túmulo ou mastaba de Tutankamon, construção monumental com várias galerias, onde uma delas
continha o sarcófago do magnífico rei. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Egypt.KV62.01.jpg>.

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Em torno de 2700 a.C., o rei Djoser Hórus Neterikhet, segundo rei da VI dinastia, confiou a
edificação de sua “morada eterna” ao primeiro-ministro Imhotep, grande sacerdote da cidade de
Heliópolis, arquiteto e médico, cujo nome e cujos títulos, gravados em relevo no pedestal de uma
estátua, foram revelados pelas escavações arqueológicas ao lado do nome e dos títulos do rei
Djoser, divinizado 2.000 anos mais tarde e identificado posteriormente pelos gregos como inventor
da construção em pedra de cantaria. Efetivamente, ele concebeu para ser erigido na necrópole da
cidade de Mênfis um imenso complexo monumental onde transpôs para a pedra as formas e as
proporções de edifícios ou de elementos arquitetônicos anteriormente construídos com outros
materiais, como bambu, madeira, tijolo cru etc. (ANDE; LEMOS, 2011).

Nesse complexo de quinze hectares, delimitado por uma magnífica muralha retangular guarnecida
de bastiões e ornada de entes nos quais os egípcios acreditavam, com dez metros e meio de altura
e apresentando quatro simulacros de portas de duas folhas fechadas, só se penetrava por uma
entrada onde estavam representadas folhas de porta abertas. A partir dessa entrada, atravessando
um pátio de sustentado por quarenta e oito colunas, se atinge um imenso pátio cercado de muros
denteados, de onde se alcançam os diversos edifícios do complexo.

No centro deste complexo, a tumba de Djoser compreende um jazigo de granito construído


no fundo de um poço de sete metros de largura e vinte e oito metros de profundidade, com uma
rede de galerias subterrâneas, comportando acomodações para o faraó, câmaras revestidas de
faianças azuis e três suportes com a representação do faraó em baixo-relevo. Uma grande mastaba
quadrada de setenta metros de lado constituía a primeira superestrutura desta tumba. Ao longo
de sua face oriental, onze poços de grande profundidade, cada um dando acesso a uma galeria
horizontal de trinta metros, situada sob o monumento. Cinco dessas galerias foram as tumbas de
membros da família real, entre os quais uma criança de oito anos encontrada em meio aos restos
de um ataúde de madeira folheado a ouro em um sarcófago de alabastro. Em três outras galerias
foi encontrado, semidestruído pelo afundamento do suporte, um repositório com cerca de trinta e
cinco mil peças de baixela ou vasos de alabastro e pedras duras diversas, onde foram descobertos
os nomes gravados da maior parte dos reis das duas dinastias anteriores.

Mais tarde, Imhotep, visando facilitar a ascensão da alma de Djoser à morada dos deuses,
imaginou uma pirâmide em degraus, uma gigantesca escada simbólica dirigida para o céu. Projetada
inicialmente com quatro degraus, ela recobria a mastaba, e mais tarde foi prolongada para o norte
e oeste, atingindo, com seis degraus, sessenta metros de altura (ANDE; LEMOS, 2011).

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Na muralha sul, uma segunda tumba, construída simultaneamente para o rei com fins simbólicos,
continha talvez seus restos mortais, na mesma disposição encontrada sob a pirâmide: um jazigo de
granito no fundo de um vasto poço semelhante, com acomodações subterrâneas para os membros
da família, câmaras de faianças azuis e três suportes esculpidos com a efígie de Djoser. O templo
de culto funerário estava unido à face norte da pirâmide, enquanto edifícios de caráter simbólico
ocupavam a maior parte da região oriental do complexo. Eles representavam o recinto da festa de
jubileu, que era celebrado ao fim de trinta anos de reinado, durante a qual o rei era reconduzido
ao trono. Essa imensa construção arquitetônica foi concebida para abrigar a alma de Djoser, que
poderia assim celebrar periodicamente seu novo jubileu no além e confirmar eternamente seu poder.
Essa fase, que corresponde historicamente ao primeiro império egípcio, revela a pujança da arte e
da arquitetura do período clássico.

FIGURA 50 – Grande templo de Abu Simbel

Estátuas esculpidas na entrada da pirâmide do faraó Djeser, obra arquitetônica magnífica


concebida pelo arquiteto Imhotep, considerado a maior expressão da arquitetura egípcia.
Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gro%C3%9Fer_Tempel_(Abu_Simbel)_07.jpg>.

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9.1.2 Segundo Império Egípcio: Médio Império

O Médio Império Egípcio já não foi tão pungente. Este período corresponde a uma renovação
artística, e mesmo que existam poucos vestígios da arquitetura sagrada devido ao reaproveitamento
sucessivo das instalações antigas, a arquitetura militar, com as fortalezas da região da Núbia,
testemunha o poder dos faraós, bem como sua aparência física, registrados pela arte retratista do
período e conhecida como “Fayum” (GOMBRICH, 2015).

A arquitetura funerária associou a pirâmide, muitas vezes de tijolos crus, à tumba rupestre.
Ergueram-se edifícios impressionantes, como o templo de Montuhotep. Duas escolas de escultura
distinguem-se: a do Norte, idealista, inspira-se nas obras do Antigo Império; a do Sul pratica um
realismo brutal, do que é testemunha a série de retratos do faraó Sesóstris III (Acervo do Museu
do Louvre e do Museu do Cairo) (ANDE; LEMOS, 2011). A estatuária privada também se humaniza,
permanecendo próxima das criações do Antigo Império, e não teve mais do que uma função
exclusivamente funerária. A arte do relevo atingiu o ápice na capela branca de Sesóstris I, na região
da aldeia de Karnak. Uma liberdade de invenção, um gosto pelo detalhe pitoresco e cores sutis
caracterizam as pinturas do período, onde se revela a influência da civilização minoica (idade do
bronze grega). Joias e adereços confirmam a maestria técnica dos ourives. Interrompida durante
dois séculos, no segundo período intermediário, a evolução artística prosseguiu com o Novo Império.

FIGURA 51 - Capela branca do Faraó Sesóstris I, cidade de Karnac

Capela Branca de Sesóstris I, construída na cidade de Karnac. Trata-se de um santuário construído para
comemorar os 30 anos de poder do faraó, que apresenta relevos de acabamento refinado, que revelam a pujança
artística do período médio do império egípcio. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:White_Chapel.jpg>.

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9.1.3 Terceiro Império Egípcio: Novo Império

Finalmente, no período conhecido como Novo Império, a arquitetura conheceu um impulso


grandioso. O templo divino atingiu proporções colossais, e, atrás das portas, três partes essenciais
se sucedem: um pátio, muitas vezes circundado por pórticos, uma grande sala de hóspedes – às
vezes duas – e o santuário propriamente dito, com a sala da barca solar (um barco destinado a
acompanhar o sol até o além) e a estátua do deus Rá. Um número diversificado de capelas e de
salas de culto abre-se para esta sala. O templo egípcio não era aberto à população e nem um local
de orações para o homem comum. O templo era o habitat do deus sobre a terra. A cidade de Tebas
tornou-se a capital, e, nas suas vizinhanças, Karnak e Luxor beneficiaram-se do interesse e do luxo
dos faraós, que estenderam sua atividade arquitetônica para elas.

Uma modificação importante produziu-se no modo de sepultamento real. O local de culto e a


câmara funerária foram dissociados a fim de preservar o segredo da localização do túmulo (e evitar
saques). Esse dispositivo foi empregado pela primeira vez pelo faraó Tutmés I (ANDE; LEMOS, 2011).
Em seguida, os reis do Novo Império fizeram escavar na região próxima à Líbia, a oeste de Tebas,
seus monumentos funerários (hipogeus) no Vale dos Reis, dominados por um pico em forma de
pirâmide natural. A arquitetura funerária conheceu realizações gigantescas, e as transações do
Egito com seus vizinhos orientais estimularam o gosto pelo luxo.

A escultura do período era de extrema suavidade. Na época de Ramsés, ainda foram produzidas
obras-primas, mas a arte tendeu a tornar-se insípida e pesada. A busca da simplicidade foi
acompanhada por proezas técnicas no talhe das pedras duras. A arte em bronze ocupou um lugar
cada vez mais importante, atingindo seu apogeu no reinado da rainha Karomana (peças do acervo
do museu do Louvre). O relevo, que era tratado com grande cuidado (decoração em calcário fino da
tumba de Ramsés, na necrópole tebana), seguiu a mesma evolução que a estatuária, e, no fim do Novo
Império, somente permaneceram a habilidade e o convencional. A multiplicação das sepulturas e a
má qualidade da parede rochosa provocaram o emprego mais frequente da decoração pintada. Os
temas principais nas sepulturas reais eram sempre os mitos e o simbolismo, enquanto a liberdade
reinava nas tumbas particulares, onde as cenas da vida cotidiana eram representadas com fantasia
e desembaraço. Ourivesaria, joalheria, cerâmica e mobiliário, já presentes nos períodos precedentes,
alcançaram um extremo refinamento, como testemunha o mobiliário funerário do faraó Tutankamon.

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FIGURA 52 – Máscara funerária do faraó Tutankamon

Máscara mortuária do faraó Tutankamon moldada em ouro pelos artesões egípcios para mostrar a grandiosidade
do faraó. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:TUT-Ausstellung_FFM_2012_47_(7117819557).jpg>.

O acervo da arte egípcia legado para a posteridade soma peças dos três períodos e expressa
uma preocupação artística que visava retratar a realidade da vida, as relações religiosas e políticas
da civilização do Vale do Nilo e celebrar a vida, buscando formas de preservá-la na eternidade
através da arquitetura da pintura e da escultura. O artista, arquiteto, pintor ou escultor era dotado
de extrema sensibilidade em relação ao tipo de trabalho que precisava realizar, porque tinha as
mesmas crenças difundidas por toda a sociedade. Essas crenças eram sintetizadas na imagem
do faraó. Gombrich (2015, p. 62) resume, assim, essa intencionalidade:

[...] a arte egípcia não se baseou no que o artista podia ver num dado momento, e
sim no que ele sabia fazer parte de uma pessoa ou de uma cena. Era a partir dessas
formas por ele aprendidas, e dele conhecidas, que construía as suas representações,
tal como o artista tribal constrói as figuras a partir de formas que pode dominar. Não
é apenas o seu conhecimento de formas e contornos que o artista consubstancia na

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pintura, mas também o conhecimento que ele possui do significado dessas formas.
Chamamos às vezes a um homem “chefão”. Os egípcios desenhavam o chefão maior
do que os seus criados ou até do que a sua esposa.

A arte egípcia tinha dois sentidos distintos: era realizada, em primeiro lugar, pela necessidade
social e ideológica de glorificar os deuses que regiam a cultura e a vida da sociedade do Vale do Nilo
e, em segundo lugar, providenciar os elementos formais que iriam, muito mais do que ornamentar
os túmulos, garantir o conforto ambiental necessário à passagem do faraó para a eternidade. Era
uma arte propagandística e ao mesmo tempo simbólica, destinada a reforçar o poder do dirigente
máximo da organização social e perpetuar a sua posição de poder eterno. A política e a forma com
que o faraó organizava a gestão do reino, bem como a aceitação universal das normas, garantia
uma adesão bastante conservadora dos valores tradicionais e favorecia a idealização necessária
das formas, expressões e discursos artísticos, totalmente direcionados a ratificar todo o estatuto
da organização social.

SAIBA MAIS

O site O fascínio do Antigo Egito <http://www.fascinioegito.sh06.com/glossario.htm> apresenta um glossário


completíssimo, de A a Z, sobre todos os aspectos da arte e da cultura egípcias.

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10. HISTÓRIA DA ARTE TÉCNICA GREGA
A civilização grega tem início no período final do Neolítico, e, em função da configuração geográfica
da região onde se situa, foi formada por uma série de países menores, com particularidades acentuadas
entre as diversas sociedades, culturas e costumes. Com recursos escassos para desenvolver a
agricultura ou atividades de subsistência agrária, os gregos se viram obrigados a se deslocar pelo
mar Egeu e Jônio, em busca de outros lugares que possibilitassem suprir as suas necessidades.
Essas viagens marítimas acabaram se transformando em uma experiência fundamental para lidar
com a navegação e atingir as regiões da Ásia Menor e da Macedônia, territórios que acabaram
integrados à nova nação que se constituía.

A organização desse território teve início no primeiro e segundo milênios a.C. e foi constituída por
povos que se dedicavam à agricultura e não falavam a língua grega, no ápice do período Neolítico,
Era do Bronze Antigo. No período das navegações e conquista de outros povos, uma imposição da
Grécia era a obrigatoriedade das populações dos territórios anexados falarem o idioma do país.
Dessa obrigatoriedade, e com o crescimento populacional integrado ao território grego, surge a
civilização helenística, nome derivado do termo grego hellenizein, traduzido como “falar grego”.
No auge da expansão geográfica, os gregos se espalharam até o Egito e para as montanhas do
Afeganistão, fundando a grande nação grega, em cujo período clássico floresceu uma esplendorosa
civilização, respeitada pela arte e pela cultura que produziu, influenciando a formação de toda a
cultura da parte ocidental do globo terrestre. Escavações e expedições arqueológicas comprovam
essa exuberância através dos textos registrados na documentação escrita produzida no período,
e pela quantidade de peças, utensílios e obras de arte recolhidas, hoje espalhadas pelos museus
do mundo inteiro: cerâmica, escultura, utensílios, peças de argila e bronze, pinturas e arquitetura.

10.1 Arqueologia da história da arte grega


O estudo da arte grega é de certa forma muito mais difícil do que aparentemente representa
ser, uma vez que no mundo inteiro um grande número de peças podem ser encontradas para
visualização na maioria dos grandes museus. Arqueólogos afirmam que isso se deve ao fato que
os romanos falsificaram grande parte dessas peças disponíveis, especialmente aquelas que são
oriundas do período clássico, reproduzidas ao gosto e critério dos artistas romanos, que tinham
por elas grande admiração. Para o conhecimento histórico da produção artística grega, entretanto,
existe uma vasta documentação epigrafada e textual produzida pelos historiadores do próprio
período helênico a partir do século VII antes de Cristo, tendo assim sobrevivido às escrituras dos

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autores tardios, mais próximos da época romana – alguns reproduzidos de textos anteriores, que
podem ter sido alterados em função da interpretação dos novos escribas.

Entre os séculos XI (com o fim da civilização micênica) e I a.C. (com o domínio romano), a evolução
da arte grega se caracteriza, inicialmente, por um processo de afastamento dos preceitos religiosos
que, privilegiando a representação visual (escultura, pintura), desloca-se de contextos funerários e
cerimoniais para os espaços públicos da cidade-estado, que patrocinava e beneficiava essa produção
artística. Prosseguindo, já a partir do séc. IV a.C., encontram-se pela primeira vez reunidos aqueles
traços que identificarão a atividade artística tal como a conhecemos em nossa sociedade atual,
segundo o modelo reelaborado pelo Renascimento, quando retoma os valores da Grécia Clássica:
distinção de uma categoria de “obras de arte” (destinadas a uma fruição primariamente visual),
separação entre artista e artesão, presença de coleções institucionais e privadas e de um mercado
artístico, atuação de teóricos, críticos e historiadores.

No campo estético, conceito que se desenvolve profundamente entre os filósofos gregos,


houve enfrentamento explícito de problemas como a mimese (imitação), a essência, a aparência
e a ilusão, o realismo, o naturalismo óptico, as categorias de tempo e espaço, o corpo humano e a
verdade anatômica, a paisagem, a natureza morta, as cenas de gênero, a estrutura, racionalidade
e significação das formas, os conteúdos psicológicos e éticos, a atmosfera, a perspectiva e o
escorço, a luz e a sombra, a cor etc. A partir da representação formal da arte grega em estágios
diferenciados, os historiadores estabeleceram uma divisão em períodos, conforme a prevalência
de cada tipo de expressão visual identificada e majoritária.

FIGURA 53 – Parthenon, tempo da deusa Athena, na Grécia

Partenon de Atenas, construída no ponto mais alto da cidade (Acrópole), entre os anos de 447 e
438 a.C. “Os grandes templos erguidos pelos gregos tinham como motivação a homenagem aos
seus deuses. Uma das suas características é a utilização das colunas; além delas, se destaca
a simetria entre a entrada e os fundos do templo.” Fonte: Ivan Bastien/Shutterstock.

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10.1.1 Período Geométrico

O primeiro período, conhecido como geométrico, corresponde à difusão do idioma grego,


processo conhecido como helenização, que se espalhou por toda a Grécia, formada a princípio por
certa quantidade de pequenos países distribuídos por todo o território geográfico e que se consolida
com a chegada dos Dórios e a implantação de uma aristocracia guerreira e escravagista. Esse fato,
ocorrido a partir dos anos 1700 a 700 a.C., provoca também a concepção de um novo universo
formal perceptível a partir do século XI e traduzido por uma geometrização das aplicações artísticas
em objetos utilitários de bronze e terracota depositados em santuários como Delfos e Olímpia. A
cerâmica, presente desde o início, atingiu rapidamente grande expressão e, pela concepção analítica
das formas e motivos decorativos, deu o nome de geométrico ao período (GOMBRICH, 2015). Uma fase
representativa e notável desse período é a dos enormes vasos funerários de Atenas, que atingiu seu
apogeu entre 770 e 750 a.C., com suas aplicações abstratas e cenas de representação dos mortos.

FIGURA 54 – Detalhe de pintura grega em cerâmica

Detalhe de pintura grega aplicada em cerâmica. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bell-Krater_


with_(A)_the_Centaur_Chiron_Accompanied_by_a_Satyr_and_(B)_Two_Youths_LACMA_50.8.40_(1_of_2).jpg>.

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A cerâmica apresenta alta durabilidade, tanto estruturalmente, em razão do material e da técnica
empregada para confeccioná-la, quanto em relação às pinturas aplicadas sobre elas, por isso
constituem uma grande parte dos registros colhidos pelos arqueólogos nas cidades históricas da
antiga Grécia. No site “Das artes” (<http://taislc.blogspot.com.br/2008/09/pintura-grega.html>) encontramos
as seguintes observações sobre essas peças de arte confeccionadas pelos gregos:

É na cerâmica que vamos encontrar vários exemplos da pintura, vascular, com


motivos de guerra, cenas da vida cotidiana, o mar e seus animais marinhos. No início
os gregos apresentavam uma pintura vascular simples, com esmaltes desmaiados
e sem brilho. Os vasos eram quase sempre vermelhos, com as figuras em preto.
Evoluindo, a cerâmica passa por grandes transformações, seja quanto à forma, seja
quanto à pintura. Aos poucos os vasos começam a apresentar o fundo em preto e
as figuras em vermelho, numa tentativa de conseguir o volume, a terceira dimensão
na pintura. Os esmaltes são aprimorados e, no final da história da Grécia antiga, a
cerâmica é belíssima, com fino acabamento e uma técnica perfeita.

10.1.2 Período Arcaico

O Período Arcaico (700 a 480 a.C.), segundo período identificado, corresponde às ondas de
colonização que espalharam os gregos pelo mundo antigo e tiveram como um dos efeitos de retorno a
penetração de motivos orientais, principalmente na cerâmica: filas de elementos vegetais ou animais
fantásticos (de características orientais). A cidade de Corinto foi um centro ceramista importante com
a produção de aríbalos (vasos gregos de forma globular) e alabastros para perfumes, mas Atenas logo
dominou a expressão artística e, a partir de 525, promoveu mudança técnica de ampla consequência:
a decoração passou das figuras negras sobre o fundo vermelho da argila, com detalhes gravados,
para figuras vermelhas sobre fundo negro, com detalhes pincelados (FLORES, 2003).

Na escultura, depois de uma fase dominada pela frontalidade e o geometrismo, surgiram em


650 a.C. as primeiras estátuas de mármore em escala natural, cujos tipos básicos amadureceriam
no século seguinte: o kouros (jovem despido, de pé) e a koré (jovem vestida, de pé ou sentada).
Paralelamente, desenvolveram-se os relevos funerários e votivos (dedicados como votos aos mortos)
e a decoração arquitetônica. A arquitetura, entre os séculos VIII e VII a.C., formulou, com os templos,
seus princípios estruturais fundamentais: uso da pedra, planta retangular períptera cercada por
colunas), e elevação regida pelas ordens de colunas clórica ou jônica.

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FIGURA 55 – Esculturas de Kouros e Koré

Esculturas de Kouros e Koré (período da Grécia Arcaica). Fonte: Everett – Art/Shutterstock

10.1.3 Período Clássico

O Período Clássico (480 a 323 a.C.) consolida a arte grega e incorpora inovações importantes. O
papel desempenhado por Atenas ao neutralizar a ameaça persa assegurou-lhe lugar determinante
no campo das artes e atraiu todos os grandes nomes de artistas da época. Na escultura, houve
um período de contenção (“estilo severo”, 490-450 a.C.) e, a seguir, o desabrochar do naturalismo,
com predominância do bronze sobre o mármore. Despontaram os grandes escultores e arquitetos
gregos: Miron executou o Discóbulo e preocupou-se com a harmonia e graça da dança; Policleto
esculpiu o Doríforo, uma das esculturas mais famosas do período clássico e definiu um conjunto de
parâmetros de proporções. O mais famoso de todos, o arquiteto e escultor Fídias, foi encarregado
por Péricles, em 450 a.C., de um vasto programa de construção e decoração da Acrópole de Atenas
através de esculturas, sendo o responsável pela construção do Partenon.

A arquitetura expandiu-se também no terreno civil (teatros, edifícios administrativos), militar


(fortalezas, muralhas) e funerário (hipogeus). A pintura suplantou, em prestígio, as demais artes,
mas os documentos são raros. apenas em necrópoles reais da Macedônia encontram-se originais
confiáveis, datados do séc. IV a.C. (GOMBRICH, 2015). O Período Clássico também consagrou os

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grandes pintores gregos: Polignoto, Zêuxis, Parrásio, Apeles etc. Houve uma manifestação razoável
da arte do mosaico, da pintura etrusca e itálica, além da cerâmica que tiveram alta produção e
expandiram o universo iconográfico da arte grega, com temáticas relacionadas ao mito, à epopeia,
à tragédia e aos aspectos que envolviam a vida cotidiana.

FIGURA 56 – Afresco de Pompeia: “O sacrifício de Ifigênia”

“Sacrifício de Ifigênia”, afresco do Período Clássico grego.


Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fresco_Iphigeneia_MAN_Naples.jpg>.

10.1.4. Período Helenístico

O Período Helenístico (323 a 31 a.C.) corresponde a uma grande expansão da Grécia. O império
projetado por Alexandre da Macedônia ampliou o horizonte grego se alastrou por uma imensa

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região. A criação de novas cidades, como Pérgamo, Priene, Alexandria, Selêucia etc. favoreceu não
só a aplicação de novas concepções urbanísticas (a cidade espetáculo, regularidade de traçados,
praças monumentais), mas incentivou uma intensa atividade construtora e a multiplicação dos
estilos arquitetônicos (FLORES, 2003). A escultura incorporou atributos como o gigantismo e o
barroco, sendo o altar de Pérgamo o melhor exemplo. O mosaico e os objetos decorativos em
bronze e terracota se tornaram comuns nos espaços públicos e habitações. Uma das expressões
artísticas desse período é o mosaico, feito com pequenas pedras coloridas.

FIGURA 57 – Mosaico de Alexandre, O Grande, na Batalha de Issus

Mosaico representando cena de batalha com a imagem de Alexandre da Macedônia (“Alexander o


Grande”). Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BattleofIssus333BC-mosaic-detail1.jpg>.

A cerâmica com figuras desapareceu (a decoração plástica passou a ser executada por processos
mecânicos). Para o conhecimento da pintura, que conseguiu conservar sua primazia, a arqueologia,
a história da arte e a história da arte técnica dispõem hoje de documentação primária recuperada
em necrópoles macedônicas ou em habitações de Pérgamo, Priene, Rodes, Cnidos etc. e os estudos
acadêmicos sobre a cultura e a arte grega se consolidaram ao longo do tempo. Milhares de livros
com uma quantidade imensa de ilustrações foram publicados. Com a conquista da Grécia pelos

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romanos, o patrimônio do período helenista se disseminou pela Europa. No site “Vivarte” encontramos
a seguinte observação sobre a arte do período helenístico:

A arte grega antropocêntrica se preocupava com o realismo, procurando exaltar


a beleza humana, destacando a perfeição de suas formas, e ainda racionalista
refletindo em suas manifestações as observações concretas dos elementos que
envolvem o homem.

Enquanto a arte egípcia focava o espírito, a arte grega procurava representar a


inteligência, pois o povo entendia que seus reis não eram deuses, mas pessoas que
trabalhavam a serviço do povo. Foi um período humanista com grande ênfase ao
culto pela beleza (SANTOS, 2011, s/p).

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11. HISTÓRIA DA ARTE TÉCNICA ROMANA
As considerações sobre as origens de Roma são lendárias. Os antigos ligavam dois grandes
ciclos de lendas ao nascimento de Roma: a lenda de Eneias, o troiano fugitivo que veio estabelecer-
se no Lácio, no século XII a.C. e fundou o povoado de Lavínia, de onde Roma nasceria depois,
e a lenda dos gêmeos Rômulo e Remo, que foram abandonados à sorte em um pequeno cesto
lançado nas águas do Rio Tibre, tendo sido salvos por uma loba que os amamentou, evitando sua
morte. Adultos, Rômulo matou o irmão e fundou Roma em 753 a.C. (FLORES, 2003). Entretanto,
a documentação arqueológica revela que a Roma Antiga é o nome de um dos principais Estados
da Antiguidade, originário de uma pequena comunidade dedicada à agricultura ao longo do Mar
Mediterrâneo, que, a partir da cidade Roma, expandiu-se, transformou-se em dos maiores impérios
conhecidos e conquistou todo o mundo mediterrâneo.

A arte romana só adquiriu personalidade própria tardiamente. Na origem, sofreu a preponderância


da influência dos etruscos (povos antigos da Península Ibérica) e, por seu intermédio, do helenismo
grego, de quem a arte romana também recebeu grande influência graças à proximidade com as
colônias gregas. A partir das primeiras grandes conquistas (por volta do século IV até meados do
século II a.C.), as pilhagens enriqueceram Roma com numerosas obras helenísticas, às quais se
juntaram artistas gregos, que estimulavam o desenvolvimento das artes plásticas (GOMBRICH, 2015).
O urbanismo era ainda ignorado, mas já começavam a aparecer edifícios tipicamente romanos, em
especial as basílicas e alguns arcos antecessores do arco de triunfo.

11.1 Arqueologia da arte romana


Do século II a.C. aos primeiros séculos do Império, a arte foi marcada pelos patrícios –
descendentes dos primeiros povoadores de Roma – que embelezaram Roma com numerosos
templos, construídos segundo duas fórmulas características: o templo circular, exemplificado pelo
templo de Vesta, e o templo pseudoperíptero (estilo tipicamente romano), de colunas ligadas à cela
central, cujo exemplo é encontrado no Templo da Fortuna Viril, ambos situados na cidade de Roma.
O urbanismo, a arquitetura e as artes plásticas caracterizadas pelo retrato e o baixo-relevo narrativo
eram todos destinados a apoiar e difundir os objetivos políticos de Roma. A passagem do exército
romano vitorioso iria, daí em diante, ser assinalada pelas concepções urbanísticas e arquiteturais
dos romanos, das quais Palestrina, com o Templo da Fortuna Primigenia, e outras cidades do Lácio
forneceram os primeiros exemplos.

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Perfeitamente preparados na época imperial, os materiais preferidos eram construídos por blocos
de pedras ligadas por cimento, que transformavam o entablamento e a coluna grega, de elementos
essenciais, em elementos decorativos. Ao fim daquela época, a decoração mural pintada se limita
à imitação dos revestimentos de mármore. Depois surge um segundo estilo com a introdução dos
espaços imaginários representados por Herculano e Pompeia (FLORES, 2003).

Os primeiros anos do Império, época do Imperador Augusto (Gaius Lulius Octavianus Augustus),
deixaram múltiplas construções importantes e características do estilo arquitetônico romano, como
a Casa Quadrada de Nêmes e vários relevos, entre eles os de Ara Pacis (altar da Paz de Augusto, que
se elevava na parte norte do Campo de Marte, em Roma). A arte da época augustiniana conservava
um intenso poder sugestivo entre os romanos, mas dava a impressão de um classicismo frio e oficial
servido por uma grande virtuosidade técnica (características que se encontravam igualmente nas
gravações e peças esculpidas). Os elementos decorativos da arquitetura romana foram elaborados
com a ordem coríntia romana: capitel de acantos com folhas de oliveira, frisos ornamentados de
folhagens e cornijas sustentadas por modilhões. O arco de triunfo encontrou sua forma definitiva
no fim do séc. I a.C (GOMBRICH, 2015).

Na pintura, destacavam-se quatro estilos que também caracterizaram os outros tipos de


manifestação das artes romanas. O primeiro é mais popular e se identifica com as características
gregas, iniciado depois da conquista da Grécia por Roma. É caracterizado pela pintura mural aplicada
às paredes dos edifícios, procurando efeitos tridimensionais pela aplicação de camadas de gesso.
Geralmente essa pintura não refletia imagens, mas procurava imitar a textura do mármore, já que
nos edifícios oficiais e nos templos as paredes eram revestidas com o mármore importado de
regiões nobres, fora do alcance aquisitivo dos cidadãos romanos comuns. A habilidade (técnica)
dos pintores dedicados a esse tipo de arte era enorme e as imitações eram perfeitas.

FIGURA 58 – Detalhe de pintura em parede da antiga cidade de Herculano

A pintura do primeiro estilo romano, imitando retalhos em mármore, era feita em forma de incrustações
nas paredes. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Herculaneum_Wall_1.Style.jpg>.

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O segundo estilo já apresenta alguns traços específicos da cultura romana, com idealizações
mais teóricas e um refinamento maior dos estilos. Entretanto, apresenta uma característica curiosa
pela criação de uma ilusão visual. Os artistas dedicavam-se a criar imagens fantásticas, aplicadas
ao fundo das paredes, imitando portas e janelas abertas e criando um efeito ilusionista de que as
visões se localizavam do lado externo do edifício. As imagens representavam geralmente grandes
edifícios, com muitas colunas e detalhes.

FIGURA 59 – Afresco romano do segundo estilo

Segundo estilo da pintura romana, caracterizado pela representação arquitetônica pintada geralmente
no fundo de um ambiente para dar a impressão de uma imagem vista do lado de fora. O efeito buscava
criar uma ilusão de ótica induzindo ser a imagem verdadeira da parte externa do edifício. Fonte: <https://
commons.wikimedia.org/wiki/File:Roman_fresco_from_Boscoreale,_43-30_BCE,_Metropolitan_Museum_of_Art.jpg>.

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O terceiro estilo rompe com o ilusionismo e configura uma pintura mais integrada à superfície
que recebe imagens com a utilização de amplos planos e recursos monocromáticos, explorando
cores como o vermelho escuro ou o preto, com detalhes minuciosos e bem trabalhados. Esse estilo
também explora a imagem de espaços arquitetônicos com tratamento fantástico e estilizado das
colunas de sustentação e frontões e com imagens de figuras humanas ocupando esses espaços
aparentemente sem relação com os mesmos. Também são exploradas imagens mais bucólicas de
animais pastando, pastores, colinas e templos.

FIGURA 60 – Afresco romano do terceiro estilo

O terceiro estilo revela a preocupação do artista em criar imagens arquitetônicas bem detalhadas, com cores
monocromáticas que exploravam principalmente o preto e o vermelho escuro.
Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Casa_della_farnesina,_parete_del_cubicolo_B,_30-20_a.c.jpg>.

O quarto estilo floresce em Pompeia e permanece preponderante até a destruição da cidade pela
eclosão do Vesúvio, em 79. Ele pode ser visualizado como uma mistura dos três estilos anteriores.
A pintura procura enquadrar imagens arquitetônicas e naturalistas que remetem ao segundo estilo,
com a configuração de blocos de mármore na base das paredes explorando grandes planos de cor

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e detalhes que lembram o terceiro estilo. O quarto estilo incorpora um conjunto central de imagens,
em grande escala e adota uma diversidade maior de temas, incluindo figuras mitológicas, paisagens
e cenas do cotidiano romano.

FIGURA 61– Afresco romano do quarto estilo da cidade de Pompeia

Quarto estilo de pintura romana, geralmente encontrado pelos historiadores de arte técnica e
arqueólogos nos prédios públicos da Roma Antiga. Representavam cenas históricas, mitos, paisagens
e cenas do cotidiano. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Zeffiro-e-clori---pompeii.jpg>.

O gênio romano manifestou-se sempre com maior intensidade e competência na arquitetura,


particularmente com Apolodoro de Damasco (arquiteto oficial do Imperador Trajano, de 93 a 117).
A eficiência construtiva e o plano de construção constituíam a preocupação essencial, seja nos
projetos econômicos (portos, mercados, imóveis para renda, construções hidráulicas), seja nos
edifícios destinados a divertimentos e religião (como o Coliseu, teatros e templos). A robustez
do material permitia aplicar arcos (pontes arcos do triunfo), cobrir vastos espaços fechados por
abóbadas enormes (com termas inumeráveis) ou por grandes cúpulas (Panteão). Estes processos
acrescentavam o adorno de mosaico, que se desenvolveu bastante durante o Império de Trajano.

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A eficácia psicológica reinava sobre as artes plásticas, que oscilavam entre várias tendências. O
classicismo helenístico transparecia ainda na Coluna de Trajan – na qual as personagens idealizadas
evoluíam em composições equilibradas – e reapareceu sob Adriano, Severos e Constantino.
A tendência mais autóctone do realismo, caracterizada como popular, que traduzia uma vida
social intensa, predominou no reinado de César, no dos Flávios e na anarquia militar do século
III. A representação trágica triunfou, enfim, com Antonino e Marco Aurélio, cuja coluna evocava
(malgrado uma falta de unidade) não somente o horror da guerra, mas também a profunda angústia
daquela época. Perto do início do século II surgiram os sarcófagos ornados de baixos-relevos, cuja
evolução foi paralela à da grande escultura oficial. A renascença clássica se acentuou por ocasião
do afastamento de Roma em favor de Constantinopla. Desde então, a sobrevivência helenística e
a tradição oriental, unidas intimamente, seriam o fermento da arte cristã oficial e da arte bizantina.

FIGURA 62 – Mosaico bizantino na Basílica de Santa Sofia em Istambul

Mosaico bizantino do século XIII, período iniciado pelo imperador Constantino I, que reconheceu o cristianismo
como religião oficial, que se consolida depois da queda de Roma para os visigodos. A partir de então, o Império
Romano foi dividido em dois: parte ocidental, sob o governo de Roma, e parte oriental, sob o Império de
Bizâncio, que manteve rigidamente os valores cristãos que passaram a orientar os relacionamentos políticos
e sociais e os padrões artísticos da época. Bizâncio tornou-se a capital do império e, posteriormente, passou
a ser chamada de Constantinopla. A implantação da autoridade imperial em Constantinopla atraiu centenas
de pintores, escultores e artesãos oriundos da Grécia e Roma, que determinaram um novo estilo de arte
apoiado em ícones e imagens cristãs, de forte influência oriental, que passou a ser reconhecida como arte
bizantina. Oriunda da Antiguidade helenística e romana, a arte bizantina foi essencialmente religiosa. O espaço
arquitetural era aproveitado em função do jogo de luz e sombra e, enfatizado pelo brilho do ouro, o mosaico
destaca a arquitetura. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Comnenus_mosaics_Hagia_Sophia.jpg>.

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12. HISTÓRIA DA ARTE TÉCNICA DO RENASCIMENTO
Renascimento ou Renascença (em francês, “Renaissance”) são os nomes utilizados para o
período da história da Europa reconhecido pela renovação exuberante de todas as manifestações do
espírito humano. Representa a retomada dos valores clássicos da cultura grego-romana e proclama
o fim da ideologia religiosa teocêntrica da Idade Média, propondo o renascimento em uma nova era
que reconhece o homem como centro de todas as coisas (antropocentrismo). É um movimento de
renovação filosófico, artístico e cultural que atinge a literatura, as artes plásticas, a arquitetura, a
música e o comportamento social, mas que se apoia nos conhecimentos e descobertas da ciência
do próprio período. O Renascimento nasceu na Itália no século XV e se espalhou por toda a Europa
até o final do século XVI. É um período também caracterizado por guerras religiosas, navegações,
descobrimento de novos continentes e colonização europeia do Novo Mundo.

FIGURA 63 – Quadro “Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro”

Pintura de óleo sobre tela executada em 1922 por Oscar Pereira da Silva, retratando o desembarque de
Pedro Álvares Cabral no Brasil, em Porto Seguro. A obra pertence ao acervo do Museu Histórico Nacional
do Rio de Janeiro. O Renascimento foi a época das grandes navegações e descobrimentos, representados
pela colonização dos países do “Novo Mundo”. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Desembarque_de_
Pedro_%C3%81lvares_Cabral_em_Porto_Seguro_em_1500_by_Oscar_Pereira_da_Silva_(1865%E2%80%931939).jpg>.

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Embora o foco da história da arte técnica sejam as artes visuais, cabe ressaltar alguns aspectos
da literatura renascentista, porque ela retrata um aspecto particular de toda a renovação do período
e exerceu influência fundamental em todos os tipos de manifestação artística da Renascença,
reforçando a valorização do homem e de suas ações como centro do mundo. A retórica e a poética de
Aristóteles e a arte poética de Horácio forneceram os principais elementos literários da Renascença.
Como outras manifestações culturais da época, a literatura procurou supervalorizar o ser humano
por meio de suas realizações. Também dominada pelo antropocentrismo, refletia a indiscutível
universalidade da cultura renascentista, e o seu centro principal foi a Itália, sobretudo as cidades de
Florença, Nápoles e Ferrara, onde humanistas, filósofos e poetas tiveram condições de desenvolver
um trabalho extremamente fecundo. No final do século XVI, destaca-se Camões, poeta português
que influenciou a formação da literatura brasileira.

O grupo dos chamados puristas (que se expressavam exclusivamente em italiano) visava elevar o
italiano a uma grande perfeição linguística, sustentada nos modelos dos literatos protorrenascentistas
(período conhecido como Trecento): Francesco Petrarca, Dante Alighieri e Giovanni Boccaccio, os
precursores literários da Renascença. Seu maior representante foi o cardeal Bembo, autor de um
tratado idiomático (“Prose della volgar lingua”) e outro poético (“Asolani”), além de inúmeras poesias
no estilo petrarquista. Também obtiveram grande êxito as excelentes comédias de Maquiavel (autor
de “O Príncipe”) e Ariosto. Quase toda a produção lírica da Renascença submeteu-se à influência
do estilo de Petrarca, cujas formas foram largamente imitadas e exaustivamente cultivadas (PATER,
2014).

Para compreender essa revolução artística ocorrida na Itália durante o século XV, é necessário
relembrar a situação política da península e o clima de efervescência intelectual e de crise espiritual
reinante, relacionados com o florescimento do humanismo e com a elaboração de um novo sistema
formal e iconográfico que buscava suas fontes na Antiguidade. Em arquitetura, as obras de Vitrúvio
– arquiteto romano do século I a.C. – foram resgatadas, publicadas e comentadas, as “ordens”
clássicas tornaram-se a regra e as leis da proporção foram intensamente pesquisadas. Em relação à
escultura, estátuas, bustos e sarcófagos romanos fornecem os modelos de referência, e os elementos
decorativos passam a ser copiados. A mitologia e a história antiga passam a constituir um repertório
de temas, bem como um novo sistema de símbolos, sem, no entanto, excluir a iconografia cristã.

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FIGURA 64 – Políptico de Giotto di Bondone

Politeno (retábulo de painéis fixos) de Giotto. Pinacoteca Nazionale (Itália). Fonte: <https://
commons.wikimedia.org/wiki/File:Giotto._Polyptych._1330-35._91x340cm._Pinacoteca,_Bologna..jpg>.

Saiba mais sobre o Renascimento no blog “Gabinete de História”: <http://gabinetedehistoria.blogspot.com.


br/2015/07/renascimento-parte-i.html>. Acesso em 10/09/2016.

12.1 Arqueologia da arte da Renascença


A arqueologia do período revela que foi na cidade de Florença, desde a primeira metade do
século XV, que todos os elementos expressivos do Renascimento se conjugaram na arte dos
grandes mestres (o escultor Donatello e o pintor de afrescos Masaccio, por exemplo), assim como
no pensamento de Leon Battista Alberti, humanista, teórico de arte e arquiteto de Genova. Essa
primeira Renascença (que instaura o período do “Quatrocento”) rapidamente se espalhou pela Itália
inteira, adquirindo impulsos significativos nas cortes dos principados de Urbino, Ferrara, Mântua
e Milão, assim como em Veneza (CHILVERS, 2007). No início do século XVI, o papel de liderança
passou de Florença para Roma, inaugurando a segunda Renascença (ou Renascença Clássica,
período do “Quintocento”) resultado das obras de artistas de origens diversas reunidos pelos papas,

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em Roma. Desse período são projetados nomes imortais, como Bramante, Michelangelo, Leonardo
da Vinci e Rafael. Ao norte da Itália, nas cidades de Parma (com Correggio) e Veneza (com Giorgione
e depois Ticiano e Palladio), constituíram-se novos centros de criação artística, enquanto uma onda
de italianismo se espalhava pela Europa inteira (CHILVERS, 2015).

A Hungria (do reino de Mathias Corvino) e as regiões eslavas (Moscou a partir de 1475) receberam
inicialmente influências através dos elementos decorativos oriundos da arte grego-romana, bem
como a Espanha, com o estilo plateresco (arquitetura e arte de caráter exuberante e decorativo),
e, depois de um período de guerras na Itália, a França se projeta com os arabescos, medalhões
e estruturas de pilastras que passaram a decorar as fachadas dos castelos de Amboise, Blois e
Chambord. Também foram marcadas pela nova estética a Alemanha, que se destaca com Durer, e
a região de Flandres, ao norte da Bélgica, com Jean Gossart, pintor francês considerado o iniciador
precoce do estilo clássico do Renascimento (GOMBRICH, 2015).

A partir do segundo terço do século XVI, desenvolveu-se na Europa a fase “maneirista”


do Renascimento, que apresentava a exaltação e o exagero dos elementos de composição já
existentes na arte renascentista, sobretudo na pintura e na escultura, enquanto a arquitetura
adotava progressivamente a linguagem clássica. O maneirismo italiano (com Jacopo Pontormo,
Parmigiano e Giulio Romano) foi levado à França e se destacou na cidade de Fontainebleau, que
se tornou um centro de atração para diversos artistas, destacando-se os pintores flamengos
oriundos dos territórios que hoje compreendem a Bélgica e dos Países Baixos. Com a emergência
da Contrarreforma, movimento criado pela Igreja Católica Romana na tentativa de barrar a evolução
do protestantismo, uma última fase da Renascença ainda desenrolou-se na Itália. A evolução para
um classicismo depurado acentuou-se na arquitetura. Ao mesmo tempo, os pintores procuraram
adaptar-se às novas exigências da arte religiosa, que impunha novos parâmetros de expressão
(em especial com Veronese, Tintoretto e os irmãos Anibale e Agostino Carracci), elaborando aos
poucos uma grande arte, o barroco, cujo fervor e impulso, sobretudo religioso, iriam substituir o
ideal estético da Renascença.

O período renascentista permitiu a exploração de uma grande variedade de temas e formas de


expressão nas artes plásticas, que se incorporava aos afrescos, a pintura sobre tela, aos painéis
religiosos chamados retábulos e a pequenas obras destinadas aos amantes privados da expressão
artística. A arte renascentista difundiu a filosofia humanística por todo território europeu, em especial
nas cidades que apresentavam maior poder econômico, acúmulo de riquezas e desenvolvimento
cultural, influenciando tanto os artistas quanto seus patrocinadores, e decretou o desenvolvimento de

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uma expressividade artística monumental em todas as formas de arte, com a implantação de novas
técnicas e uso de novos materiais. O Renascimento configurou, também, a passagem dos países
europeus do período medieval para a Idade Moderna e a diversidade de estilos que se manifesta
de maneira expressiva na pintura, em especial na pintura italiana. As pesquisas de História da Arte
Técnica e da Arqueologia apresentam como as principais características e técnicas do período as
seguintes formas de expressão:

a) Pintura afresco
Consiste em uma técnica de pintura mural em que os pigmentos de cor são moídos e depois
umedecidos e aplicados ao gesso, ou estuque das paredes, enquanto estes ainda não estão secos.
As figuras e temas são configurados e, quando a parede seca, a imagem torna-se nítida e destacada,
embora de textura opaca e aparência fosca. O afresco apresenta grande durabilidade porque a
pintura se torna parte do suporte em que foi aplicada. Os afrescos renascentistas conservaram-se
ao longo dos séculos e podem ser apreciados em diversos museus e sítios localizados na Europa.
Fazem parte importante da herança histórica que ajuda a revelar as características do período
inicial do Renascimento.

FIGURA 65 – Afresco “Dinheiro do tributo” de Masaccio

“Dinheiro do tributo”. Afresco de Masaccio pintado em 1425. Fonte: <https://


commons.wikimedia.org/wiki/File:Masaccio7.jpg?uselang=pt-br>.

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2) Pintura têmpera
A pintura utiliza diversos elementos de linguagem para produzir as sensações de luz e sombra,
volumes e perspectivas, que são formados pela utilização de pontos, linhas, planos e formas. Esses
elementos de composição são combinados para revelar os temas que o artista quer exprimir. A
pintura consiste na aplicação dos pigmentos sobre a superfície do suporte com o uso de meios
(mídias) adequados, como os pincéis de várias espessuras, qualidades e padrões, ou até mesmo
de espátulas.

A têmpera é uma técnica de pintura que consiste na utilização de pigmentos misturados com a
clara do ovo, que serve de elemento aglutinante, em água pura. A tinta produzida por esse sistema
tem grande durabilidade e força de fixação, embora as possibilidades de obter variedades grandes
de cores fossem limitadas. Os artistas renascentistas em sua maioria usaram a têmpera como
técnica de pintura até surgir a tinta a óleo.

O termo têmpera também é usado para designar a obra resultante da aplicação dessa técnica
– fala-se “Nascimento de Vênus, têmpera de Sandro Botticelli”, “Maestra, têmpera sobre madeira
de Duccio di Buoninsegna” – e refere-se a obras de longa duração, com exemplos de pinturas
realizadas desde o primeiro século que ainda permanecem em excelente estado.

FIGURA 66 – “A primavera” de Sandro Botticelli

“A Primavera”. Têmpera de Sandro Botticelli, usando a técnica de pintura sobre madeira.


Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Botticelli-primavera.jpg?uselang=pt-br>.

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SAIBA MAIS

O site da Secretaria de Educação do Governo do Estado do Paraná publica uma descrição completa e
muito interessante da obra “A Primavera” do pintor renascentista italiano Botticelli:

“Pintura do artista renascentista Sandro Botticelli, Alessandro di Mariano de Vanni Felipepi (1444-
1510), Florença – Itália (têmpera sobre painel de madeira, 205 x 315 cm). A Primavera é uma obra
de temática mitológica clássica que nos apresenta a alegoria da chegada dessa estação. Ao centro
encontra-se Vênus, que media toda a cena. Na tradição clássica, Vênus e o Cupido surgem para
avivar os campos, fustigados pelo inverno, iniciando a primavera ao semear flores, beleza e atração
entre todos os seres. À direita da obra encontramos três figuras. O primeiro, um ser esverdeado,
Zéfiro, personificação do vento oeste, abraça a bela ninfa Cloris. Botticelli a representa em sua
metamorfose, quando se transformava em Flora, a figura com vestido florido que cumpre sua
função de adornar o mundo com flores. Sobre a cabeça de Vênus está o Cupido, seu filho, de olhos
vendados, apontando a seta do amor em direção às três figuras que representam as Graças (Aglaia,
Talia e Eufrónsina), símbolos da sensualidade, da beleza e da castidade. Mais à esquerda encontra-se
Hermes dissipando as nuvens, fechando esse ciclo mitológico. Para a filosofia platônica, esse ciclo é
a ligação ininterrupta entre o mundo e Deus, e vice-versa.”

Fonte: ESTADO DO PARANÁ. Botticelli - A Primavera, 1478. Dia a Dia Educação, 19 mar. 2006.
Disponível em: <http://www.arte.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=40>. Acesso em: 19 jul.
2016.

c) Pintura a óleo
A partir da segunda metade do século XV, a pintura a óleo passou a ser adotada pelos pintores
do Norte da Europa e se tornou popular na Itália no fim desse período. A tinta obtida pela mistura de
pigmentos com óleo vegetal permite uma secagem mais lenta e maior possibilidade de intervenção
do artista para modificar ou acrescentar efeitos enquanto ainda está úmida. Ao contrário do afresco,
a tinta a óleo permite a criação de efeitos luminosos mais expressivos e uma variedade muito
maior de cores, permitindo também maior realismo na pintura da figura humana, nas paisagens de
ambientes naturais e imagens de edifícios arquitetônicos.

As técnicas de pintura tradicionais do período renascentista geralmente começavam com um


esboço da temática que seria reproduzida com traços e linhas de orientação feitas pelo artista
utilizando carvão vegetal ou tintas diluídas. Em geral, o solvente utilizado era o óleo de linhaça
lentamente misturado aos pigmentos até que se obtinha a consistência desejada. A quantidade
de solvente utilizada também permitia controlar o tempo de secagem da pintura de acordo com as
intenções e técnicas aplicadas.

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FIGURA 67 – “Casamento místico de Santa Catarina”, de Parmigiano

“Casamento de Santa Catarina”, de Parmigiano (óleo sobre tela, sem data).


Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Parmigianino,_Sposalizio_mistico_di_Santa_Caterina.jpg>.

FIGURA 68 – Estudo de Leonardo da Vinci para “A adoração dos magos”

Esboço feito a bico de pena e nanquim por Leonardo da Vinci para estudos da
composição e da perspectiva da obra “Adoração dos magos”. Fonte: <https://commons.
wikimedia.org/wiki/File:Leonaredo,_studio_per_l%27adorazione_dei_magi,_uffizi.jpg>.

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12.2 História da arte técnica da pintura
A pintura em artes visuais é uma obra de representação ou de expressão criativa (quadro,
afresco e outros) feita de pigmentos coloridos líquidos aplicados sobre uma superfície devidamente
preparada para esse fim. A pintura pode ser realizada em qualquer tipo de superfície: madeira, tela,
vidro, pedra, metal ou papel. Trata-se de um trabalho pictórico e, embora tenha evoluído do Período
Paleolítico – representado pelas pinturas rupestres, em especial das localidades de Altamira e
Lazcaux – até o século XX, o conjunto formado por um suporte, pigmentos de cor, algum tipo de
substância que os ligue, um solvente e uma cera ou verniz define tecnicamente, desde a mais
longínqua Antiguidade, o trabalho pictórico.

Até o advento da pintura a óleo, a água constituiu a base de todos os processos, entre eles:
o afresco, realizado sobre paredes úmidas recentemente revestidas de argamassa e cujo antigo
prestígio foi renovado pelos pintores italianos dos séculos XIV a XVI (Giotto, Masaccio, Fra Angelico,
Mantegna, Michelangelo) e ainda, no século XVIII, por Tiepolo; a têmpera (pintura pela afixação
de pigmentos, ora simples, com cola ou goma, ora complexa, com ovo, óleo, resina, mel ou cera),
frequentemente associada ao afresco, mas empregada principalmente na Idade Média na pintura
de painéis e sobre madeira preparada; a aquarela e o guache, este já utilizado pelos iluministas
medievais e particularmente apreciado pelos artistas franceses dos séculos XVII e XVIII (LEITÃO,
2008).

Com a adoção generalizada, no séc. XVI, do óleo como base da pintura (processo atribuído
por Vasari a Van Eyck) e da tela como suporte, a técnica pictórica modificou-se: a gama de cores
ampliou-se e a matéria pastosa permitiu que o trabalho fosse retomado em etapas, com efeitos
de pincelada (Giorgione, Ticiano), empastamentos, veladuras, fusões e as gradações mais sutis (a
exemplo do esfumado de Leonardo da Vinci e o claro-escuro de Correggio ou de Caravaggio).

As tintas em tubos, padronizadas a partir do século XIX, permitiram uma grande simplificação
técnica e ofereceram uma quantidade maior de cores vivas (impressionismo, fauvismo etc.). Enfim,
a química moderna a partir do século XX propõe materiais mais resistentes à luz e de brilho ainda
mais intenso, como as emulsões acrílicas. Como processo artístico, os resultados finais que o
autor alcança com a pintura estão relacionados à seleção dos materiais que melhor atendam seu
projeto e os meios (mídias) ou instrumentos que irá utilizar para impregnar os suportes. Por sua vez,
a superfície (suporte) ideal para o tipo de trabalho que se está cogitando também exige o mesmo
cuidado.

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A seguir, vemos uma pequena descrição de duas outras técnicas, remanescentes de épocas
antigas, que até hoje são muito utilizadas pelos pintores, especialmente os retratistas e paisagistas:
Pintura a Guache e Pintura Aquarela:

a) Gouache

As pinturas a gouache remontam de épocas distantes e foram inicialmente utilizadas pelos


egípcios e os gregos. As pesquisas arqueológicas revelam que os pintores dessas civilizações
conceberam um produto semelhante à versão moderna, utilizando a mistura de pigmentos naturais
com mel ou resinas vegetais, que serviam de ligadura. No princípio da Idade Média, o gouache foi
utilizado na produção de iluminuras e na ilustração de manuscritos sagrados. É um material de
secagem muito rápida e de acabamento fosco que permite resultados satisfatórios para pintores que
costumam trabalhar rapidamente, por exemplo, pintando uma paisagem durante um determinado
período do dia em que eles desejam capturar as imagens antes das mudanças de iluminação da
luz solar.

O nome gouache origina-se do termo italiano guazzo, técnica de confecção de um material de


pintura resultante da mistura de tinta a óleo com uma base de têmpera (SMITH, 2012). Algumas
pinturas famosas que foram confeccionadas com gouache por grandes mestres do Renascimento
e de outros períodos expressivos da história da arte técnica, como o classicismo, incluem obras
de Correggio (“Anunciação”, século XVI), François Boucher (“Adoração dos pastores”, século XVIII)
e, na época moderna, Henri Matisse, com “The roofs of collioure” (século XX, período do fauvismo)
(GOMBRICH, 2015)

b) Aquarela
É um material de pintura resultante da solução de pigmentos dissolvidos em água, com aparência
transparente e opaca, que permite a obtenção de uma nova cor pela superposição de outras duas.
É uma técnica de pintura essencialmente sobre papel frequentemente utilizada para “esfumaçar
a forma”, isto é, devido à sua característica de transparência, a forma final é mais sugerida do que
efetivamente configurada. Embora não possa rivalizar com a têmpera, tinta a óleo e o gouache, a
aquarela oferece recursos próprios de grande efeito estético e perdura ao longo dos séculos até
os dias atuais como uma técnica e um material de alta expressividade. Na Inglaterra, a aquarela
foi usada inicialmente em desenhos de arquitetura, mas logo os pintores passaram a utilizá-la para
obras de arte, principalmente na pintura de paisagens e natureza morta, e no século XVII já rivalizava

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na escolha dos artistas da pintura com as outras possibilidades de uso de materiais e técnicas.
Da mesma forma que no caso da têmpera, a aquarela pode fazer referência à obra ou à técnica.

FIGURA 69 – “A ponte do Brooklyn”, de John Marin

Aquarela de Jonh Marin, aquarelista dos Estados Unidos considerado um dos mais importantes do início
do século XX. Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Marin_brooklyn-bridge-1912.jpg?uselang=pt-br>.

12.2.2 Pequena arqueologia da escultura

A escultura é uma obra feita por um especialista – o escultor – que transforma um material
bruto, através da intervenção com ferramentas e instrumentos especiais, ou, ainda, pela modelagem,
em uma figura, imagem ou objeto de arte que se expressa pelo volume espacial ou por um relevo
em determinada superfície. Surgida desde os tempos pré-históricos, a escultura teve importante
papel em todas as civilizações, tanto no antigo Egito quanto na Grécia e Roma antigas, na China,
Índia e América pré-colombiana, antes de desenvolver-se no Ocidente a partir da época românica.

De início, sua finalidade era essencialmente religiosa (imagens de divindades) ou mágica (arte
funerária, fonte importante da pequena estatuária e do retrato). A escultura profana ou com fins
puramente estéticos desenvolveu-se durante o Renascimento e expandiu-se plenamente nos séculos
XVII e XVIII na Europa monárquica através de decorações públicas ou de palácios, bustos e estátuas
comemorativas, que no século XIX tiveram proliferação sistemática. As profundas transformações
do século XX levaram a escultura a assumir outras formas de expressão, tornando ultrapassados
os critérios de sua especificidade e ampliando sua riqueza potencial.

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Tecnicamente e em relação ao seu formato, distinguem-se a escultura em pleno relevo, inteiramente
livre nas três dimensões, e os relevos, mais ou menos ligados a um fundo; a escultura monumental
(estátuas, grupos de estátuas, relevos com figuras) e a escultura de ornamentos. A obra esculpida
é obtida através da modelagem (barro, cera, plastilina, gesso) ou do corte do mármore, pedra ou
madeira, bem como de marfim ou pedras duras, para certas peças pequenas. A modelagem pode
ser seguida da confecção de um molde (geralmente em gesso) e de uma execução em bronze
(fundido com areia ou cera), pedra ou mármore. A passagem do molde para a pedra esculpida é
feita por um especialista. O corte direto, realizado pelo próprio escultor com base em desenhos
ou esboços modelados, foi quase inteiramente abandonado no século XIX, para então renascer no
século XX. Aos materiais tradicionais (os mais nobres eram o mármore e o bronze) somaram-se
diversos metais: cobre, ferro, alumínio – quase sempre soldados – e, mais recentemente, as resinas
sintéticas e outros materiais plásticos.

No Brasil, até o século XVIII, as manifestações na escultura foram de caráter sobretudo religioso,
sobressaindo-se às imagens de barro feitas por frei Agostinho da Piedade e frei Agostinho de
Jesus. No século XVIII, os maiores nomes são o de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (ver
os profetas de pedra-sabão, em Congonhas, MG) e Mestre Valentim (obras do Passeio Público, no
Rio de Janeiro). No final do século XIX e início do século XX destaca-se Rodolfo Bernardelli. Entre
os mais modernos, e de muita expressão, podemos citar Victor Brecheret, Alfredo Ceschiatti, Lygia
Clark, Mário Cravo, Bruno Giorgi e Caciporé Torres.

FIGURA 70 – “Coluna Etrusca”, de Caciporé Torres

“A coluna etrusca”, escultura moldada em aço inox soldado do artista plástico Caciporé Torres (artista plástico,
escultor e professor do século XX e XXI). Fonte: <http://www.evandrocarneiroleiloes.com/145675?artistId=88052>.

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GLOSSÁRIO
Aerofoto - Fotografia aérea tomada de uma aeronave (helicóptero, por exemplo) ou satélite em voo.

Antropologia - Ciência que estuda os seres humanos, em especial por meio de seus ancestrais,
costumes, caráter físico, relações ambientais, familiares e sociais e, especialmente, pela cultura
de cada civilização.

Arqueometria - Ramo muito especializado da arqueologia que se apoia em tecnologias avançadas


para estimar a data exata das amostras arqueológicas, com aplicação de recursos de carbono 14,
aminoácidos especiais, termoluminescência etc.

Arqueologia subaquática - Ramo da arqueologia que se dedica à recuperação de objetos antigos


encontrados no fundo do mar em consequência de naufrágios ou artefatos de regiões submersas ao
longo do tempo. Utiliza de escavações, exploração com equipamentos subaquáticos e mergulhadores
especializados.

Carbono 14 - Um isótopo (elemento do núcleo atômico) radioativo de carbono com um número


de massa 14 e meia-vida de cerca de 5.730 anos que é amplamente utilizado para estabelecer a
datação de materiais orgânicos.

Magnetismo - Qualidade de atração que alguns materiais possuem e que forma as propriedades
moleculares comuns aos corpos com capacidade de estruturar um campo magnético à sua volta. O
magnetismo de certos corpos físicos é usado em pesquisas arqueométricas para atrair as partículas
de materiais utilizados na confecção de artefatos históricos que se desprendem dos mesmos.

Material (expressivo) - são as matérias-primas que serão utilizadas para configurar as imagens
que o artista imaginou, tais como tinta a óleo, gouache, tempera, grafite, carvão, tinta acrílica etc.

Meio (ou mídia) - refere-se aos instrumentos utilizados pelo autor da obra e que servem para transferir
os materiais para a superfície do suporte ou alterar a configuração do mesmo no caso da pintura:
pincéis, lápis, espátulas, ferramentas de modelagem etc.

Paleoclimatologia - Estudo das causas e efeitos das condições climáticas no passado geológico,
usando evidências encontradas em depósitos glaciais, fósseis e sedimentos orgânicos.

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Paleoecologia - Ramo da ecologia que apoia a arqueometria com o objetivo de identificar as relações
e interações entre as formas antigas de vida e seu ambiente.

Palinologia - Estudo científico do pólen e esporos das diversas espécies de vegetais (grãos
microscópicos emitidos pelas flores) muitas vezes fossilizados pela ação de condições climáticas
e ambientais.

Potássio e argônio - Elementos químicos usados em pesquisas arqueométricas que permitem aplicar
metodologias específicas para estimar a idade de um mineral ou rocha com base na medição da
velocidade da alteração radioativa do potássio submetido a uma atmosfera com presença de argônio.

Resistividade elétrica do solo - Método que mede a resistência elétrica do solo, seixos e rochas
antigas. O fluxo de corrente através de um solo deve-se principalmente à ação eletrolítica (presença
de água) e depende da concentração de sais dissolvidos nas partículas que compõem essas
substâncias. Essa metodologia é aplicada na datação dos sítios arqueológicos.

Sítio arqueológico - Local geográfico de exploração arqueológica geralmente sujeito a escavações em


busca de artefatos produzidos por civilizações históricas. Os arqueólogos e historiadores costumam
montar um acampamento nas imediações e podem permanecer durantes anos pesquisando o local,
entre viagens de ida e volta com alguma regularidade.

Suporte (superfície) - consiste na superfície sobre a qual serão aplicados os materiais selecionados
para a realização da obra. Pode ser de madeira, tela de tecido, diferentes tipos de papel, pedra, muro
ou parede, mármore ou metal.

Técnica (maneira, modo de fazer) - refere-se à maneira, habilidade e domínio – muitas vezes pessoal
e exclusivo – que o artista exerce sobre os instrumentos (mídias) que utiliza para alcançar os efeitos
expressivos que imaginou.

Termoluminescência - Método de datação de artefatos arqueológicos, principalmente de cerâmica,


pela medição da radiação emitida pelos materiais cerâmicos quando são aquecidos.

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BIBLIOGRAFIA
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VOCÊ SABIA que... O primeiro jornal foi feito na Alemanha, no século XVI? grifos no original. O
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8 jul. 2016.

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