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II Conferência do Desenvolvimento – CODE 2011

Área Temática: Direito e Desenvolvimento


Título do Trabalho: A intervenção do Estado na economia regulada pela Constituição
de 1988 – Uma análise da retórica liberal e uma crítica a partir e além da escola
estruturalista
Autor: Eduardo Matos Oliveira – UFPE
eduardo.matos.oliveira@gmail.com

Resumo:
O artigo parte da análise das doutrinas econômicas do liberalismo e do
estruturalismo, além de outras críticas à posição ortodoxa, tentando mostrar os
respectivos artigos da Constituição Federal que correspondem à visão apresentada
pelas escolas econômicas. O centro do debate entre tais posições doutrinárias é a
intervenção do Estado na economia, tentaremos mostrar como a Constituição
brasileira regulou a matéria.

Palavras-chave: Economia política; Desenvolvimento econômico; Direito


Econômico.

Abstract:
This paper presents the analysis of the economic liberalism and structuralism,
besides others critical theories of the “Laissez-faire”, trying to show some points of
the Brazilian Constitution that correspond to the respective theories. The Center of
the debate is how the State should act in the economy; we are going to show how
the Brazilian Constitution has regulated this point.

Key words: Political Economy; Economic Development; Economic Law.


A INTERVENÇÃO DO ESTADO NA ECONOMIA REGULADA PELA CONSTITUIÇÃO DE
1988 – UMA ANÁLISE DA RETÓRICA LIBERAL E UMA CRÍTICA A PARTIR E ALÉM
DA ESCOLA ESTRUTURALISTA

Eduardo Matos Oliveira1

1. Introdução
A questão referente à intervenção estatal no domínio econômico sempre foi
um ponto central na obra dos grandes pensadores da economia.
Conseqüentemente, o âmbito jurídico também é afetado por esta discussão, já que
os juristas são os responsáveis por tal regulação. O objetivo central deste trabalho é
justamente analisar os mecanismos de intervenção do Estado na economia
positivados na constituição brasileira atual, através do ponto de vista de algumas
doutrinas econômicas específicas.
Foram escolhidas duas das principais escolas do pensamento econômico, a
fim de contrapor os argumentos referentes à intervenção ou não do Estado na
economia. A primeira delas foi o liberalismo econômico, que foi escolhida por ser a
base do pensamento da ordem econômica e social do mundo atual. A segunda
escola é a estruturalista, que surgiu nas décadas de 50 e 60 na America Latina
como uma crítica aos argumentos em favor do livre mercado.
Esta última escola foi escolhida por tratar de uma realidade muito mais
próxima da economia brasileira, portanto é possível ver de forma mais clara o reflexo
de seus ideais em alguns mecanismos constitucionais. É preciso acrescentar que
também estamos cientes da importância de outras escolas do pensamento
econômico, tal como a marxista e a keynesiana. Entretanto, devido à impossibilidade
de realizar uma análise mais abrangente, o enfoque deste texto será nas escolas
liberais e estruturalistas, além de alguns outros eventuais autores que serão tratados
brevemente.
Em relação à metodologia de abordagem do tema, é necessário esclarecer
que não seguiremos a lógica normalmente utilizada nos tratados jurídicos, onde é
apresentada a legislação e a partir dela é feita a análise da doutrina por trás das
normas jurídicas. A nossa proposta é apresentar as doutrinas econômicas e os seus
argumentos, e a partir destas discussões analisar os respectivos instrumentos
constitucionais referentes ao tema.
A justificativa para esta forma de abordagem é a simples tomada de
consciência de que seria ingênuo acreditar que são as normas constitucionais que
determinam o sistema econômico. É o que José Afonso da Silva tenta explicar
quando coloca:

Reconhecemos valor ao conceito de constituição econômica, desde que


não pensemos que as bases constitucionais da ordem econômica é que
definem a estrutura de determinado sistema econômico, pois isso seria

1
Graduando em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Pesquisador do Grupo de Pesquisas
Regionais e do Desenvolvimento (D&R/UFPE) e Bolsista do Ministério de Ciência e Tecnologia pelo Projeto da
Rede Brasileira de Cidades Médias. E-mail: eduardo.matos.oliveira@gmail.com.
admitir que a constituição formal (superestrutura) constitua a realidade
2
material (constituição material: infraestrutura) .

Por isso, resolvemos partir da análise das doutrinas econômicas em questão


e a partir delas, observar como o constituinte de 1988 resolveu regular a matéria.

2. A ideologia liberal e a regulação da economia brasileira.


Apesar de nosso enfoque ser maior nos aspectos econômicos, é necessário
reconhecer que o liberalismo é um fenômeno histórico muito mais abrangente,
envolvendo idéias políticas, econômicas e jurídicas. O movimento surge em
respostas às políticas econômicas mercantilistas adotadas pelo antigo regime, que
colocava o Estado como ponto central da economia. Com a ascensão política e
econômica da burguesia, começa-se a defender a tese da ineficiência do Estado e a
vê-lo como uma fonte de corrupção.
O pensador central da ideologia liberal é Adam Smith, que ficou consagrado
através da sua metáfora da “mão invisível”. Smith defende a não intervenção do
Estado na economia, segundo ele haveriam leis de mercado que auto-regulariam a
economia, levando a um suposto equilíbrio. Para ele, nos mercados de concorrência
perfeita haveria os preços de mercado e os preços naturais, que no equilíbrio seriam
iguais. Caso o preço de mercado esteja acima do que ele chama de preço natural, a
oferta deste produto iria aumentar, já que os produtores estariam estimulados a
produzir. Com o excesso de oferta, o preço de mercado voltaria a cair e se igualaria
novamente ao preço natural, já que estes mercados estão sujeitos a lei da oferta e
demanda.
Além do exemplo anterior, a “mão invisível” também regularia a divisão das
tarefas, as escolhas profissionais e toda a organização do mercado, através da
dinâmica dos salários de mercado e salários naturais, que funcionaria da mesma
forma dos preços. Em relação à divisão do trabalho, já no primeiro capítulo do seu
clássico “A Riqueza das Nações”, Smith3 fala sobre um exemplo hipotético de uma
fábrica de alfinetes, onde poderiam ser fabricados 48.000 alfinetes por dia com
apenas 10 funcionários, os quais repartiriam as tarefas. Segundo ele, caso apenas
um desses funcionários fosse fazer todo o trabalho sozinho, dificilmente conseguiria
fazer um alfinete por dia sem a ajuda das máquinas.
Não se pode afirmar que a ordem constitucional brasileira adotou as idéias
liberais em sua totalidade, nem que o Estado brasileiro é um Estado completamente
Liberal, já que há várias limitações ao livre mercado na ordem constitucional, como
veremos mais à frente. No entanto, não se pode negar que a ordem econômica do
Brasil é capitalista, tendo como fundamento a propriedade privada e os meios
privados de produção. Assim como é possível observar no caput do artigo 170 da
constituição e em alguns de seus incisos:

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e


na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme
os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
I - (...) omissis (...);
II - propriedade privada;

2
SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 790.
3
SMITH, Adam. A riqueza das nações. In: Os economistas. v.1. São Paulo: Nova cultural, 1996. p. 65.
III - (...) omissis (...);
4
IV - livre concorrência .

Apesar das limitações impostas pelo Estado na economia e até uma


eventual exploração direta de alguma atividade econômica não descaracteriza o
sistema brasileiro como um sistema capitalista. Como é possível ver acima, um dos
pilares da ordem econômica é a livre iniciativa, junto com a propriedade privada, o
que por si só já é suficiente para caracterizar o sistema econômico como capitalista.
Em termos macroeconômicos, a lógica liberal gira em torno da maximização
do lucro. Através de uma realidade econômica com baixos salários, o lucro para os
empresários poderia ser alto, possibilitando um maior acúmulo de capital e
poupança. Consequentemente, haveria um maior reinvestimento deste capital,
gerando um aumento na produção, dos empregos e um maior crescimento
econômico, o que hipoteticamente geraria maiores salários, uma estabilidade
econômica e o “desenvolvimento”.
Para os pensadores liberais, todos os países passariam por este processo
até alcançar o desenvolvimento, ou seja, a única diferença entre os países ricos e
pobres é que os ricos já passaram por toda esta cadeia. Essa crença de que não há
ruptura entre os ricos e pobres é chamada de monoeconomismo. Inclusive, alguns
autores como W.W. Rostow5 chegaram a estabelecer as “etapas do
desenvolvimento”, que seriam uma série de políticas econômicas de abertura que os
países da periferia deveriam adotar, a fim de se desenvolver economicamente.
A própria ideia de haver uma constituição econômica, como há no Brasil, já
vai contra os princípios mais radicais do liberalismo, visto que o Estado estaria
regulando “excessivamente” as leis do mercado. No entanto, há alguns dispositivos
que são reflexo desta ideologia liberal, como é possível observar no artigo 173, que
proíbe a exploração direta de atividade econômica por parte do Estado, salvo os
casos previstos na Constituição:

Art. 173. Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração


direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando
necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse
6
coletivo, conforme definidos em lei .

O objetivo do constituinte foi limitar a ação do Estado como empresário, já


que em consonância com a visão liberal, uma parte da opinião pública acredita que
as empresas estatais no Brasil são ineficientes e servem apenas como depositários
de empregos para os aliados do governo.

3. Outros argumentos em favor do livre mercado: O excedente de mercado e as


vantagens comparativas

Em relação ao comércio exterior, há vários argumentos levantados pelos


defensores do livre mercado, a fim de fazer com que as barreiras alfandegárias
sejam derrubadas. Uma das principais vantagens apontadas pelos liberais em favor

4
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (1988).
5
ROSTOW, W.W. The stages of economic growth. In: The economic history review, Second Series, vol. XII,
n. 1. London: STOR, 1959. p. 01-16.
6
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (1988).
da queda das tarifas é o ganho de excedente de mercado com a abertura total da
economia.
O excedente do consumidor é tudo que este acumula em virtude de estar
pagando um preço mais baixo do que estaria disposto a pagar na curva da
demanda. Já o excedente do produtor é o acumulo em relação ao preço mais caro
vendido por este em relação ao que ele estava disposto a vender. O excedente de
mercado seria a soma destes dois excedentes e, portanto, é considerado pelos
liberais como os ganhos da sociedade como um todo.
Em uma economia fechada, os excedentes do produtor e do consumidor em
uma situação ideal ficam muito próximos. Já quando a economia é aberta para o
livre comércio, o preço que passa a vigorar é o preço internacional, que é mais baixo
que o preço local. O efeito será uma diminuição da oferta local e uma expansão da
demanda (devido à diminuição dos preços). Para suprir este desequilíbrio será
preciso recorrer às importações. Os defensores do livre comércio argumentam que
nesse caso, os consumidores irão pagar menos e consumir mais, havendo um
grande aumento do excedente do consumidor. Por sua vez, os produtores irão sofrer
conseqüências danosas, já estavam acostumados com um preço mais alto, havendo
uma retração do excedente do produtor. Entretanto, argumenta-se que o que o
consumidor ganha é muito mais significativo do que as perdas dos produtores,
portanto haveria um ganho no excedente de mercado, significando um bem para
toda a sociedade.
Em alguns estudos econômicos é possível visualizar melhor estes ganhos
de mercado graficamente e muitos dos autores contemporâneos defendem esta
tese, a exemplo de Gregory Mankiw7. Para eles, quando são implantadas barreiras
alfandegárias, há a queda do excedente de mercado e é gerado o chamado “peso
morto”, conseqüência direta da retração do excedente de mercado. A barreira
alfandegária, segundo eles, geraria uma “perda líquida de bem estar”.
Outra teoria utilizada de forma recorrente para justificar o livre mercado é a
teoria das vantagens comparativas formulada por David Ricardo8. Ele utiliza o
exemplo de Portugal e da Inglaterra para tentar mostrar que os países devem
especializar-se na produção daqueles bens que façam com maior eficiência, ou seja,
com menores custos relativos. Entretanto, o modelo de Ricardo utiliza apenas estes
dois países, um fator de produção (a mão de obra) e dois produtos, o vinho e os
tecidos.
Dentro da lógica criada por Ricardo, ele prova que havendo a troca de uma
unidade de tecido por uma unidade de vinho, seria benéfico para Portugal produzir
apenas vinho e para a Inglaterra produzir apenas tecido. Não importa que Portugal
tenha vantagens absolutas na produção dos dois produtos, já neste caso são
levados em consideração as vantagens relativas.
Ao tratar do tema Mankiw usa o exemplo de Tiger Woods cortando sua
própria grama. Para o autor, o custo de oportunidade (as outras oportunidades que
ele estaria abrindo mão para realizar o serviço) de o golfista cortar sua grama seria
muito alto, já que ele poderia faturar milhões fazendo uma propaganda para a
televisão, por exemplo. Então, ele pagaria alguém para realizar o serviço em seu
lugar, mesmo que o golfista fosse o melhor cortador de grama do mundo.
A ordem econômica brasileira não adota o livre comércio, apesar de nos
últimos anos ter havido um movimento de maior abertura da economia brasileira,

7
MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. São Paulo: Cengage, 2009. p. 49-60.
8
RICARDO, David. Princípios de economia política e tributação. São Paulo: Nova cultural, 1996. p 93-109.
principalmente nos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.
Como mostrado antes, a limitação ao livre comércio não significa que não seja
assegurada a liberdade de iniciativa e de exercício da atividade econômica, como
bem coloca o parágrafo único do artigo 170:

Art. 170. (...) omissis (...)


Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer
atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos
9
públicos, salvo nos casos previstos em lei .

É importante acrescentar que o livre comércio de mercadorias é muito


diferente da garantia da livre iniciativa e do livre exercício de qualquer atividade
econômica. O primeiro conceito significa a abertura da economia para o mercado
internacional e a queda das barreiras alfandegárias. Já os princípios constitucionais
acima referidos garantem que o Estado não irá interferir na escolha dos
investimentos privados dos indivíduos.

4. A crítica estruturalista e os aspectos de fomento ao desenvolvimento na


constituição federal

A corrente de pensamento econômico estruturalista teve origem na America


Latina dos anos 50 através principalmente da CEPAL (Comissão Econômica para a
America Latina e o Caribe), que foi um órgão criado pela ONU com o objetivo de
incentivar o desenvolvimento nesta região. O estruturalismo rompe com a ideia
liberal de que os países latino-americanos eram subdesenvolvidos apenas por falta
de recursos e das “políticas liberais adequadas”. Para eles, o subdesenvolvimento é
decorrente da forma como se estruturaram historicamente essas economias.
O economista de maior destaque no início da discussão foi o argentino Raúl
Prebisch10, que foi o primeiro a falar sobre a distinção entre o “centro” e a “periferia”
do sistema capitalista. A principal tese de Prebisch é a “teoria da deterioração dos
termos de troca”, também conhecida como “teoria das trocas desiguais”, na qual ele
contesta a tese de David Ricardo sobre as vantagens comparativas, afirmando que
um dos problemas da America Latina era que estes países eram em grande parte
agroexportadores, enquanto importavam produtos industrializados do centro.
A crítica central de Prebisch é que a teoria de Ricardo se focou apenas na
oferta e não analisou a peculiaridade da demanda dos produtos. Segundo o
economista argentino, a elasticidade renda da demanda dos produtos agrícolas é
menor do que 1, ou seja, quando a renda de uma família cresce, por exemplo, o
consumo de tomates e de laranjas não vai ser radicalmente alterado. Entretanto, se
uma família dobra o salário, provavelmente comprará um automóvel mais caro e
outros aparatos tecnológicos. Portanto, estes países agroexportadores ficariam
sempre em desvantagem por seus produtos terem um baixo valor agregado em
relação aos importados.
Esta distinção entre as economias do centro e da periferia também é
trabalhada por outros economistas, como o inglês Dudley Seers11, que traz uma
9
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBICA FEDERATIVA DO BRASIL (1988).
10
PREBISCH, Raúl. Problemas teóricos e práticos do crescimento econômico. In: BIELSHOWSKY, Ricardo
(org.) Cinqüenta anos de pensamento da CEPAL. Rio de Janeiro: Record, 2000. p 181-215.
11
SEERS, Dudley. Os limites do caso especial. In: Revista de História e Idéias. Porto Alegre: Afrontamento,
1978. p. 01-19.
abordagem bastante interessante ao falar sobre “Os limites do Caso Especial”. Para
ele, as economias do centro seriam uma exceção (o caso especial), já que são
relativamente poucos os países industrializados desenvolvidos. No entanto, segundo
Seers, o que os economistas liberais tentam fazer é vender as políticas adotadas
nestes países como universalmente válidas, o que seria um grave erro.
Outro economista que rompe com este monoeconomismo dos liberais é
Hirschman12, que classifica o pensamento estruturalista dentro do que ele chama de
“economia do desenvolvimento”. Esta corrente, segundo ele, teria dois principais
pressupostos, o primeiro é que a periferia apresenta traços particulares que tornam
a visão ortodoxa fraca e inoperante (negação do monoeconomismo). Além desta
premissa, a economia do desenvolvimento acredita que é possível estabelecer
relações econômicas entre o centro do sistema e a periferia de modo que nenhum
dos dois lados seja prejudicado. Também não seria necessário fechar
completamente a economia para alcançar o desenvolvimento, como sugere os
marxistas.
Hischman traz ainda no mesmo artigo o pensamento de Gershenkron, que
afirma haver mais de um caminho para o desenvolvimento e que todo país que
decide se industrializar determinará por si mesmo a política, a ordem das prioridades
e a ideologia que parecerem mais adequadas a esse fim. Hischman ainda
acrescenta que “impôs-se a convicção de os países subdesenvolvidos só se
empenhariam no caminho da industrialização ao preço de um esforço ao mesmo
tempo consciente, concentrado e dirigido”.
Claramente, a constituição brasileira não adotou a visão liberal de que o
mercado traria naturalmente o desenvolvimento. É possível observar no artigo
abaixo que o constituinte coloca o Estado como ator central na decisão das políticas
desenvolvimentistas.

Art. 174. Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o


Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e
planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo
para o setor privado.

§ 1º - A lei estabelecerá as diretrizes e bases do planejamento do


desenvolvimento nacional equilibrado, o qual incorporará e compatibilizará
13
os planos nacionais e regionais de desenvolvimento .

Ao lado de Raúl Prebisch, outro pensador fundamental para a escola


estruturalista é o brasileiro Celso Furtado14, que também trata de forma bastante
específica sobre a necessidade da industrialização das economias periféricas, a fim
de superar o subdesenvolvimento. Furtado vai ainda mais longe e cria a “Teoria do
Subdesenvolvimento”, o subdesenvolvimento seria a assimetria entre os avanços
tecnológicos da periferia e os objetos de consumo do estilo de vida, já que na
periferia há uma grande absorção dos padrões de consumo do centro do sistema
sem haver um respectivo desenvolvimento dos métodos de produção. Portanto
haveria uma desarticulação destes processos na periferia, enquanto no centro há
um paralelismo.

12
HIRSCHMAN, Albert O. A economia como ciência moral e política. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 49-80.
13
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (1988).
14
FURTADO, Celso. “O subdesenvolvimento Revisitado”. Economia e Sociedade, nº 1, agosto, IE-Unicamp,
1992. p. 5-19.
Para assegurar esta assimetria entre o padrão de consumo e o processo
tecnológico da periferia, Furtado explica que apenas uma parte restrita da população
tem acesso a estes produtos, porque as vantagens comparativas garantem a
concentração das riquezas nas mãos de poucos. Portanto, para resolver o problema,
seria preciso que durante o processo de substituição das importações não se criasse
uma industrialização voltada apenas para os padrões de consumo da elite, visto que
seria preciso reduzir a assimetria entre este padrão de consumo e a capacidade
tecnológica nacional. No entanto, estas são medidas que, segundo o próprio Celso
Furtado, gerariam uma convulsão social.
Devido à força política dos consumidores de alta renda, o que geralmente
acontece é que em uma substituição de importações, a industrialização volta-se para
os produtos consumidos pela elite. Por causa do alto custo desta industrialização
normalmente recorre-se a financiamentos externos, como na época do regime
militar, gerando posteriormente uma grande dívida externa e um processo
inflacionário.
Para evitar situações como esta, que podem ocasionar, de certa forma, a
perda do controle dos mecanismos econômicos e a interferência externa na política
econômica brasileira (fato que ocorreu durante o governo de Fernando Henrique
Cardoso), o constituinte colocou logo no inciso I do artigo 170 que um dos princípios
da ordem econômica é a defesa da “Soberania Nacional”.
Outros mecanismos para o controle da soberania econômica brasileira
também foram estabelecidas, um exemplo é o artigo abaixo:

Art. 172. A lei disciplinará, com base no interesse nacional, os investimentos


de capital estrangeiro, incentivará os reinvestimentos e regulará a remessa
15
de lucros.

O dispositivo acima é muito importante para regular o funcionamento das


grandes multinacionais no Brasil, impedindo que depois da exploração da atividade
econômica, todos os lucros sejam remetidos para o exterior. Apesar de não haver
uma lei que regule todos os casos de remessa de lucro, a doutrina entende que em
cada caso especial poderá ser criada uma lei prévia para regular o procedimento.

5. O argumento da indústria nascente e o “Chute na Escada”

As vantagens do excedente de mercado apresentadas anteriormente para


justificar o livre mercado não são bem aceitas por todos os economistas. Uma
posição bastante difundida é o argumento da indústria nascente, que consiste na
interpretação de que com a abertura dos mercados aos preços internacionais (que
são muito mais baixos que os praticados pela concorrência local), as indústrias que
ainda não estão estabelecidas completamente, nem em condições de concorrer com
os preços internacionais, iriam quebrar. A conseqüência seria um problema sério
para o Estado, já que vários produtores provavelmente iriam parar de produzir.
Um economista coreano chamado Ha-Joon Chang16 traz uma metáfora bem
interessante sobre a queda das barreiras alfandegárias. Segundo ele, a imposição
da ideia do livre mercado por parte dos países do centro seria um “chute na escada”

15
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (1988).
16
CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada – A estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica. São
Paulo: UNESP, 2004.
do desenvolvimento para os países da periferia. A justificativa dele é a de que
durante a história econômica dos países do centro, eles sempre praticaram as
medidas protecionistas e foi assim que conseguiram alcançar o status atual.
Portanto, ao chegar onde estão agora, os países do centro querem chutar a escada
do desenvolvimento para os outros países, através da queda das medidas
protecionistas.
Ele acrescenta ainda que o mercado não funciona como um regulador
natural da economia, para comprovar isto basta analisar alguns exemplos históricos.
Um deles seria a Índia, que talvez seja um dos países com uma maior concentração
de pobreza do mundo, no entanto o governo executa políticas neoliberais, que até o
presente momento só fizeram piorar a situação social. O mercado seria, portanto,
apenas um reprodutor do status quo. Chang ainda utiliza outra metáfora para
representar as políticas neoliberais que os países do centro querem impor à
periferia, estas políticas seriam como “camisas de força” bem apertadas que
supostamente caberiam em todos17.
Joseph Stiglitz, que era um economista neoliberal e presidente do banco
mundial, mudou de opinião em relação às políticas adotadas pelo centro do sistema
ao perceber que tais medidas estavam, na prática, piorando a situação da periferia.
Além de não melhorar a situação dos países periféricos, a abertura comercial sem
controle não é feita nem pelos países centrais. Muitas vezes este discurso é utilizado
retoricamente, entretanto quando é conveniente aos interesses do centro, muda-se o
discurso. Stiglitz traz um excelente exemplo, quando coloca que

[e]mbora apregoem as virtudes de uma economia de mercado, os


produtores ocidentais acusaram as empresas russas, que vinham vendendo
seu excedente de alumínio a preços internacionais, de praticar dumping, e
estimularam seus governos a impor restrições comerciais. Como alternativa,
propuseram o estabelecimento do que seria na prática um cartel
internacional para restringir a produção internacional e aumentar os preços
18
– e foi isso que se fez .

Como já foi dito anteriormente, a ordem econômica brasileira não adotou no


seu diploma constitucional o livre mercado, nem a auto-regulação do mercado. O
artigo abaixo mostra algumas das competências da união em relação às políticas
econômicas:

Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre:


(...) omissis (...)
VI - sistema monetário e de medidas, títulos e garantias dos metais;
VII - política de crédito, câmbio, seguros e transferência de valores;
19
VIII - comércio exterior e interestadual .

É preciso destacar o inciso VIII, que garante o direito à União de legislar


sobre o comércio exterior, estabelecendo as respectivas tarifas de importação e
exportação. Existe uma vasta legislação ordinária sobre todas estas questões do
direito econômico, porém devido ao nosso enfoque jurídico ser na constituição
federal, não poderemos entrar em mais detalhes nestas questões mais específicas.

17
CHANG, Ha-Joon. O mito do livre comércio e a história secreta do capitalismo. Rio de Janeiro: Elsevier,
2009. p. 205.
18
STIGLITZ, Joseph. Uma agenda para o desenvolvimento no século XXI. In: GIDDENS, Anthony (org.) O
debate global sobre a terceira via. São Paulo: UNESP, 2007. p. 487.
19
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (1988).
6. A “Busca do pleno emprego”, a “valorização do trabalho humano” e A
Grande Transformação de Karl Polanyi

O artigo 170 da constituição federal, que já foi trazido anteriormente neste


texto, ainda traz outros princípios que merecem uma atenção especial.

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e


na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme
os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
(...) omissis (....)
VIII - busca do pleno emprego;
20
(...)omissis(...)

Primeiramente, é preciso esclarecer alguns pontos acerca da expressão


“pleno emprego”, que em termos econômicos significa normalmente o pleno
emprego dos fatores de produção. Para os liberais, seria preciso deixar todos os
fatores de produção variar o preço e a quantidade livremente sem a intervenção do
Estado. Fatores estes como, por exemplo, o capital e o trabalho, ou seja, segundo
esta ótica não deveria haver salário mínimo, a fim de que houvesse a flutuação
necessária para que o mercado alcançasse o equilíbrio dos salários.
Este equilíbrio de todos os fatores de produção no longo prazo é chamado
de situação de “pleno emprego”, que é quando hipoteticamente todos os fatores de
produção da economia estariam empregados, ou seja, não haveria nenhum fator em
estado ocioso. Esta situação para os liberais significa a imunidade da economia em
relação à inflação, isto é, a variação nos preços não causaria impacto real.
No entanto, apesar desta ser a utilização corrente na economia para a
expressão “pleno emprego”, José Afonso da Silva coloca que o constituinte utilizou o
termo “especialmente no sentido de propiciar trabalho a todos quanto estejam em
condições de exercer uma atividade produtiva” 21.
Outra sutileza fundamental é a que estabelece uma diferença entre a forma
como a mão de obra é tratada em termos econômicos e a forma como é regulada na
ordem constitucional brasileira. Para a visão clássica, o trabalho é um fator de
produção assim como o capital ou a poupança, portanto os salários também devem
ser regulados pelo mercado.
Inclusive, um autor que trabalha o tema de forma brilhante é Karl Polanyi.
Ele explica no seu livro “A grande transformação” o processo pelo qual a Europa sai
do feudalismo e a nova ordem econômica vai se estabelecendo. Para Polanyi, “a
grande transformação” pela qual a humanidade passou foi quando o homem e a
natureza passam a se organizar através de um mecanismo auto-regulador de
permuta e troca, ou seja, eles passam a ser manuseados como mercadorias, como
bens produzidos para venda.

[O] homem, sob o nome de mão de obra, e a natureza, sob o nome terra,
foram colocados à venda. A utilização da força de trabalho podia ser
comprada e vendida universalmente, a um preço chamado salário, e o uso
22
da terra podia ser negociado a um preço chamado aluguel .

20
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (1988).
21
SILVA, José Afonso da. op. cit. p. 797.
22
POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época. São Paulo: Campus, 2000. p. 162.
Polanyi ainda acrescenta que “a ficção de que o trabalho e a terra eram
produzidos para a venda conservou a sua solidez”.
A ordem econômica brasileira, no entanto, está atenta ao problema gerado
por este processo. Pode-se observar que ainda no caput do artigo 170, ao lado da
livre iniciativa figura o princípio da “valorização do trabalho humano”. Este dispositivo
serve exatamente para impedir que o trabalho seja visto apenas como um fator de
produção do mercado. Ou seja, a constituição, através deste mecanismo, reconhece
a predominância da força de trabalho sobre os outros fatores de produção.
Segundo José Afonso da Silva, os princípios da valorização do trabalho
humano e a busca do pleno emprego estariam em harmonia, visto que o primeiro
impediria que o segundo “seja considerado apenas como uma mera busca
quantitativa, em que a economia absorva a força de trabalho disponível, como o
consumo absorve mercadorias”.

7. Conclusão

Em termos dos mecanismos encontrados pelo constituinte para regular a


economia brasileira, provavelmente a carta magna receberia críticas dos
economistas marxistas. O argumento deles é de que a única forma de superar o
subdesenvolvimento é fechar completamente a economia do país, a fim de que a
exploração imposta pelo centro do sistema seja quebrada.
A carta também seria alvo dos economistas mais neoliberais. Eles
argumentariam que a constituição regulamenta excessivamente as leis do mercado,
sendo esta a causa do subdesenvolvimento brasileiro. Para estes economistas, o
Brasil deveria cada vez mais abrir sua economia para o mercado internacional.
Apesar das críticas dos dois lados, provavelmente para os economistas da
escola estruturalista e da economia do desenvolvimento, o constituinte teria acertado
ao não se fechar completamente para o comércio internacional. Para estas
doutrinas, a carta também estaria na direção correta ao estabelecer a intervenção do
Estado, através do estabelecimento das diretrizes e prioridades, a fim de
proporcionar o desenvolvimento econômico do país.
Em relação aos autores mais recentes, pode-se destacar a ideia de Stiglitz
em relação aos novos rumos que possivelmente as escolas responsáveis por pensar
o desenvolvimento econômico irão tomar:

(a nova agenda) enxerga o governo e o mercado como complementos, e


não como substitutos. Não aceita como dogma nem que os mercados
sozinhos assegurarão resultados desejáveis, nem que a ausência de um
mercado, ou alguma falha de mercado relacionada, exija que o governo se
responsabilize pela atividade. (...) em certas circunstâncias a nova agenda
vê o governo como auxiliando na criação dos mercados, como fizeram
muitos dos governos leste-asiáticos, com elementos-chave do mercado
financeiro. Em outras áreas (como a educação), ela vê o governo e o setor
privado trabalhando juntos como parceiros, cada um com suas próprias
responsabilidades. E em outras ainda (como a bancária), vê o governo
como oferecendo a regulamentação essencial sem a qual os mercados não
23
podem funcionar .

23
STIGLITZ, Joseph. op. cit. p. 481.
Por fim, pode-se colocar que do ponto de vista econômico a constituição de
1988 tentou estabelecer um equilíbrio entre a intervenção estatal e o funcionamento
do mercado. Esta posição, de certa forma, está em conformidade com as
perspectivas que Stiglitz vislumbra para a agenda do desenvolvimento econômico no
século XXI e esperamos que através deste equilíbrio, o Brasil possa finalmente
alcançar o seu tão almejado desenvolvimento.
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