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eee ii oe ee ae ee Me eS es ees Se aCe [ea es] a] a ea NS? ey ae ee IES ESIERICAIEAIEIEN” Clad Psicclogia Moderna OTE LTR Ta eae Nm al mSt Te SCOT ERC r ee Ce ee) I © Espirito do Mecanicismo © Universo Mecinico Determinismo e Reducionismno © Robs As Pessoas como Maquinas A Maquina Caleuladora Os Primérdios da Ciénci: Moderna René Descartes (1596-1650) As Contribuigdes de Descartes: 0 Mecanicismo © 0 Problema Mente-Corpo A Natureza cdo Corpo A Interacio Mente-Corpo A Doutrina das Ideias As Bases Filos6ficas da Nova Psicologia: Posi Materialismo e Empirismo Auguste Comte (1798-1857) John Locke (1632-1704) Texto Original: Trecho sobre © Empirismo Extraido de An Essay Concerning Human Understanding (1690), de John Locke ‘George Herkeley (1685-1753) David Hume (1711-1776) David Hartley (1705-1757) James Mill (1773-1836) John Stuart Mill (1806-1873) Contribuicdes do Empirismo & Psicologia As Influéncias Filoséficas na Psicologia O Espirito do Mecanicismo Formas extravagantes de entretenimento brotavam entre as muitas maravilhas da impressionante era nos jardins reais da Europa do século XVII. A 4gua que percorria uma tubulacdo subterranea acionava as figuras mecanicas, fazendo-as realizar varios movimentos inusitados, tocar instrumentos musicais ¢ imitar os sons da fala. Placas de Pressao ocultas no chao eram acionadas quando as pes- soas pisavam nelas sem querer, fazendo a agua correr pelos canos até o mecanismo que movimentava as estd- tuas. Essas diversoes da aristocracia do século XVII refle- tiam e evidenciavam o fascinio exercido pelas maquinas Que estavam sendo inventadas e aperfeicoadas para o uso na ciéncia, na industria e no lazer. Em toda a Inglaterra e na Europa ocidental, uma enorme quantidade de maquinas era empregada nas tarefas didrias para complementar a forca muscular do homem. Essas bombas, alavancas, guindastes, rodas e engrenagens moviam os moinhos de agua e de vento Para moer gros, serrar toras de madeira, tecer fios ¢ rea- lizar outros trabalhos bragais. Dessa maneira, a socieda- de européia libertava-se da dependéncia da forga fisica humana. As méquinas toraram-se familiares 8s pessoas de todos os niveis sociais, desde 0 mais humilde até o CAPITULO 2 AS INFLUENCIAS FILOSOFICAS NA PSICOLOGIA 25. aristocrata, e logo passaram a fazer parte da vida cotidiana, Entretanto, entre todos os Inventos, 0 tel6gio mecnico foi o de maior impacto no pensamento cientifico, Mas qual a relacao existente entre 0 desenvolvimento macico da tecnologia e a his- t6ria da psicologia moderna? Afinal, referimo-nos a um perfodo 200 anos anterior A fun- Gacio formal da psicologia como ciéncia, bem como a fisica eA mecénica, disciplinas ha lito exclufdas do estudo da natureza humana. No entanto, a relacdo é inevitavel e lreta, jé que os principios incorporados nas movimentadas ¢ ruidosas méquinas, nas as € nos rel6gios mecanicos do século XVII exerceram grande influéncia na direc&o pmada pela nova psicologia © Zeitgeist dos séculos XVII a0 XIX consistiu a base que nutriu a nova psicologia. O Pirito do mecanicismo, que enxerga 0 universo como uma grande maquina, foi o fun- mento filos6fico do século XVII, ou seja, a sua forca contextual bdsica. Essa doutrina mava sere os processos naturais mecénicos e passiveis de explicacdo por meio das is da fisica e da quimica. anicismo: doutrina para a qual os processos naturals sao determinados mecanicamente @ explk HGados pelas leis da fisica e da quimica A idéia do mecanicismo originou-se na fisica, chamada na época de filosofia natura: como resultado do trabalho do fisico italiano Galileu Galilei (1564-1642) e do femitico ¢ fisico inglés Isaac Newton (1642-1727), que possuia alguma experiéncia © relojoeiro. A teoria afirmava que qualquer objeto existente no universo era com- 0 de particulas de matéria em movimento. De acordo com Galileu, a matéria con: discretos corpisculos ou atomos que afetavam uns aos outros mediante o contato Mais tarde, Newton aperfeicoou a visio mecanicista de Galileu, postulando que vimento ndo resultava do contato fisico direto, mas das forcas de atragaio e repul- atuavam sobre os étomos. A idéia de Newton, embora importante para a fisica, idou radicalmente o conceito mecanicista nem a forma como fora aplicado nos emas de origem psicoldgica. © universo € constituido de atomos em movimento, entéo qualquer efeito fisico mento de cadia atomo) resulta de uma causa direta (0 movimento do dtomo que Be). Como 0 efeito esta sujeito as leis da medicao, deveria ser previsivel. O funcio- ato do universo fisico era comparado ao do rel6gio ou ao de qualquer boa maqui Seja, eta organizado e preciso. No século XVI, os cientistas atribuiam a “causa” € Heic4o” a Deus — que projetou 0 universo com perfeicio — e acreditavam que, se Suissem dominar as leis de funcionamento do universo, seriam capazes de prever nportamento futuro. € periodo, os métodos e as descobertas da ciéncia avangavam a passos largos mm a tecnologia, e a combinagio entre eles foi perfeita. A observacdo e a experi- $40 tornaram-se os diferenciais da ciéncia, seguidas de perto pela medicao, Os fas tentavam definir e descrever os fenémenos, attibuindo-lhes um valor Processo vital para o estudo do funcionamento do universo como uma #2. Os termémetros, os barémetros, as réguas de cAlculo, os micrémetros, os relé- Péndulo e outros dispositivos de medicao eram aperfeicoados e reforcavam a Possibilidade de se medir qualquer aspecto do universo natural. Até mesmo o siderado impossivel de ser reduzido em unicades menores, ja podia ser medi- precisao. 26 HistORIA DA PSICOLOGIA MODERNA ‘A medigio exata do tempo teve conseqiiéncias tanto praticas como cientificas. “Sem os instrumentos precisos para 0 acompanhamento do tempo nao seria possivel medir os pequenos incrementos no intervalo decorrido entre as observacdes e, portanto, a conso- lidagao dos avangos no conhecimento cientifico ndo comegou apenas com a ajuda do telescépio ou do microsc6pio” (Jardine, 1999, p. 133-134). Além disso, os astrénomos e os navegadores necessitavam de aparelhos precisos de medicéo do tempo para registrar com exatidao os movimentos dos astros. Essas informacdes eram vitais para a localiza- ¢40 dos navios em alto-mar. 0 Universo Mecanico O rel6gio mecénico foi a metafora perfeita usada pelo espirito do mecanicismo do sécu- lo XVII. O historiador Daniel Boorstin referia-se ao rel6gio como a “mae das maquinas” (Boorstin, 1983, p. 71). O reldgio foi a sensagao tecnolégica do século XVII, assim como o computador no século XX. Nenhum dispositivo mecanico provocou tanto impacto no pensamento humano e em todos os niveis da sociedade. Na Europa, 0s relogios eram produzidos em grande quantidade e variedade!. Alguns eram de tamanho suficiente para ficar sobre a mesa; outros, bem maiores, instalados nas torres das igrejas e nos edificios piiblicos, podiam ser vistos e ouvidos a quilémetros de distancia. Enquanto as figuras mecanicas instaladas nos jardins reais eram a diversdo da elite, os relogios eram acessi- veis a todos, independentemente da classe social ou da situagio econémica. Devido a regularidade, previsibilidade e exatidao dos rel6gios, os cientistas ¢ fil6sofos comecaram a enxergi-los como modelos para 0 universo fisico. Talvez 0 proprio univer- so fosse um imenso rel6gio fabricado e colocado em operacao pelo Criador. Os cientistas, como 0 fisico britanico Robert Boyle, o astronomo alemao Johannes Kepler ¢ 0 fil6sofo francés René Descartes, acreditavam nessa idéia e aceitavam a explicagao da harmonia e da ordem do universo baseada na regularidade do rel6gio, ou seja, o mecanismo é fabri- cado cuidadosamente pelo relojoeiro, assim como o universo foi arquitetado por Deus para funcionar com regularidade. fil6sofo alemao Christian von Wolff declarou: “© comportamento do universo nao € diferente do funcionamento do mecanismo do relégio”. Seu aluno Johann Cristoph Gottsched ainda acrescentou: “Como o universo é uma maquina, ele ¢ seme- Ihante ao rel6gio; e, assim, 0 rel6gio permite-nos compreender em pequena escala o fun- cionamento em grande escala do universo” (apud Maurice e Mayr, 1980, p. 290). .gov/GenInt/Time/time.html A secdo General Interest (Interesses gerais) do National Institute of Standards and Technology (Instituto Nacional de Padrdes e Tecnologia) |” No século X, os chineses | haviam criado enormes religios mecanicos. Talvez a noticia da invengo tenha incen- tivado 0 desenvolvimento de outros reldgios no oeste europeu. Entretanto, 0 tratamento refinado dado pelos euro- ous € 0 seu entusiasmo na elaboracio, criando modelos até extravagantes, tornaram esses reldgios inigualavels (Crosby, 1997). Capituto 2 AS INFLUENCIAS FILOSOFICAS NA PSICOLOGIA 27° Oferece um recurso chamado "A Walk Through Time: The Evolution of Time Measurement Through the Ages” (Um passeio pelo tempo: a evolu- a0 da medicao do tempo através das épocas). Determinismo e Reducionismo Comparado com © mecanismo do rel6gio, o universo funcionava perfeitamente sem Gualquer interferéncia externa, jé que fora criado e colocado em funcionamento por Deus. Desse modo, a comparacao do universo com 0 relogio abrange a idéia do deter. minismo, mals especificamente, a crenga de que qualquer a¢ao é determinada pelos Eventos do passado. Em outras palavras, é possivel prever as mudangas que ocorrem na Speracio do rel6gio, assim como no universo, com base na seqiiéncia e na regularida- de do funcionamento das pecas. Determinismo: doutrina que afitma serem 0s atos determinados pelos eventos do passado Nao eta dificil perceber a estrutura e o funcionamento do relégio. Era facil desmon- ‘lo ¢ verificar exatamente a operacao das engrenagens. Essa idéia levou os cientistas 4 Popularizarem 0 conceito de reducionismo. Para compreender 0 mecanismo operacio- nal das méquinas como o rel6gio, bastava reduzi-las aos componentes basi¢os, Do ‘mesmo modo, para entender 0 universo fisico (que, afinal de contas, nada mais era do gus uma méquina), bastava analisé-lo ou reduzi-lo as partes mais simples, ou seja, as Moléculas ¢ aos atomos. Assim, 0 reducionismo acabou caracterizando toda a ciéncia, inclusive a nova psicologia. Reducionismo: doutrina que explica os fendmenos em um nivel (por exemplo, as idéias complexas) em termos de fenomenos em outro nivel (por exemplo, a idéias simples), Algumas questoes Obvias foram levantadas: se a metéfora do relégio e os métodos

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