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ARTIGO 28/08/2014 O POVO - OPINIÃO

MANDATO COLETIVO CONTRARIA CONSTITUIÇÃO

Procurei, sem encontrar, nem na Constituição Federal e nem no


Código de Processo Penal (CPP) algum item que justificasse o
“mandado de busca e apreensão coletivo”, abuso que vem sendo
cometido pela polícia para entrar, aleatoriamente, em residências de
bairros periféricos.

Pelo contrário: “A casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela


podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de
flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o
dia, por determinação judicial” (artigo 5º, XI: Constituição Federal).

A busca é regulamentada pelo artigo 240 (e seguintes) do CPP,


estabelecendo a necessidade de “fundadas razões” para sustentar o
mandado, sendo preciso “indicar o mais precisamente possível a casa
em que será realizada, a diligência e o nome do respectivo
proprietário ou morador”.

Mesmo um leigo em Direito observa que o mandado tem de ter


objetivo definido. É para ser emitido depois de apresentadas
evidências de que em determinado domicílio se esconde produto de
crime. É exceção à regra constitucional, que considera sagrada a casa
de uma pessoa, sendo ela pobre ou rica. Aceitar o mandado por
atacado, para iniciar uma investigação, é uma excrecência jurídica e
uma declaração de incompetência policial.

Porém, juízes têm sido pródigos em emitir tais mandados genéricos,


para centenas de casas ou cercando quadriláteros de bairros. Pior,
com a participação do Ministério Público (o fiscal da lei) e com
resultados absolutamente pífios.

Na primeira operação, com 488 policiais, foram revistadas 233 casas


no bairro Sapiranga, resultando em quatro prisões (edição de
28/6/2014). Seguiram-se outras duas operações: na Barra do Ceará
(11/7) e na comunidade Lagoa Seca, onde 320 casas foram
inspecionadas, com a apreensão de “uma submetralhadora de
fabricação artesanal”(sic) e a descoberta de uma rinha de galos
(25/8).

Enquanto espero por um mandado coletivo para a Aldeota e


adjacências, pergunto: e a Comissão de Direitos Humanos da OAB?
Juristas? Alguém?
ARTIGO 04/09/2014 O POVO – OPINIÃO
BUSCA COLETIVA É “MEDIDA DE EXCEÇÃO”

No artigo da semana passada, sem esconder a minha condição de


leigo em Direito, ousei afirmar que o mandado de busca coletivo,
comum nesta terra de Alencar, era ilegal e afrontava a Constituição.

A confirmação de minha tese veio da fonte mais insuspeita possível:


do juiz Roberto Soares Bulcão, titular da 7ª Vara Criminal, o mesmo
que concedeu a medida. Em declaração a este jornal (30/8/2014) ele
reconhece que, pela “literalidade” do Código de Processo Penal, o
mandado coletivo não seria permitido. Assim, o magistrado apela,
desacertadamente, para o princípio constitucional da sobreposição do
interesse público frente ao privado. Porém, o próprio juiz admite tratar-
se a busca coletiva de uma “medida de exceção”, que não deve ser
concedida para áreas extensas. Porém os mandados já permitiram
vistoria de 820 casas, em amplas áreas de bairros.

Invoco novamente a condição de leigo para lembrar ao magistrado


que o agente público só pode fazer o que prescreve a lei. E, a mais, a
Constituição, por democrática, adverte que “não haverá juízo ou
tribunal de exceção” (artigo 5º).

Outro argumento que expus no artigo anterior foi que, além de


excrecência jurídica, o mandado era uma declaração de
incompetência da polícia. Com isso também parece também
concordar o magistrado, pois sua decisão, levou em conta, segundo
ele, o fato de o poder público ter falhado em oferecer segurança aos
locais vistoriados.

O mais surpreendente é ver a Comissão de Acesso à Justiça da OAB-


CE, por sua presidente, advogada Renata Rebouças, defender o
mandado coletivo como “legal”, por ser “benéfico” para a população.
Seria interessante saber se o presidente da Ordem, Valdetário
Monteiro, tem a mesma opinião.

Ao meu colega, o jovem jornalista Thiago Paiva, que escreveu (30/8)


que a medida “pode até não ser constitucional, mas deu certo”,
lembro a ele ser essa uma justificativa própria das ditaduras.

Plínio Bortolotti
plinio@opovo.com.br
Jornalista do O Povo