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PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO DE LE CIEL ET L’ENFER (1865).

O título desta obra indica claramente o seu objeto. Aqui reunimos todos os elementos
próprios para esclarecer o homem acerca de seu destino. Como em nossos escritos
anteriores sobre a doutrina espírita, não se parte aqui de um sistema preconcebido ou de
uma concepção pessoal, a qual não gozaria de qualquer autoridade. Tudo foi deduzido a
partir da observação e da concordância dos fatos.
O Livro dos Espíritos contém as bases fundamentais do espiritismo; é a pedra
angular do edifício. Todos os princípios da doutrina nele se encontram colocados, até
aqueles que devem constituir o seu coroamento. Mas, era necessário dar-lhes
desenvolvimentos, deduzir-lhes todas as consequências e todas as aplicações, à medida
que se desenvolviam por meio do ensino complementar dos Espíritos, e de novas
observações. Foi o que fizemos no Livro dos Médiuns e no Evangelho segundo o
espiritismo a partir de pontos de vista específicos. É o que fazemos nesta obra, segundo
outra perspectiva, e é o que faremos sucessivamente naquelas obras que ainda
publicaremos e que virão a seu tempo.
Ideias novas não frutificam senão quando a terra está preparada para recebê-las.
Ora, entende-se que a terra está preparada não pelo surgimento de algumas inteligências
precoces, as quais dariam apenas frutos isolados, mas por certo conjunto na
predisposição geral, a fim de que não somente a ideia produza frutos mais abundantes,
mas que, encontrando numerosos pontos de apoio, encontre igualmente menos
oposição, e seja mais forte para resistir a seus antagonistas. O Evangelho segundo o
espiritismo representou um avanço; o Céu e o Inferno é um avanço ainda maior cujo
alcance será facilmente compreendido, posto que toca o essencial de certas questões,
contudo, não deveria ter aparecido prematuramente.
Considerando-se a época do advento do espiritismo, reconhece-se sem dúvida
alguma que este apareceu no tempo oportuno: nem cedo, nem tarde. Muito cedo, ele
teria abortado, por que as simpatias não seriam muito numerosas. Teria sucumbido sob
os golpes de seus adversários. Muito tarde, teria perdido a ocasião favorável de se
produzir; as ideias poderiam ter tomado outro curso, do qual teria sido difícil desviá-las.

1
Referência: KARDEC, Allan. Préface. In: ______. Le Ciel et l’Enfer ou la Justice Divine selon le
Spiritisme. Paris : Ledoyen, Dentu, Fréd. Henri, 1865. p. I-VIII. Tradução: Augusto César Dias de
Araujo. Revisão: Vital Cruvinel.
Era, pois, necessário deixar às velhas ideias o tempo de se gastar e de provar sua
insuficiência, antes de apresentar as novas.
As ideias prematuras abortam porque não se está maduro para compreendê-las, e
a necessidade de uma mudança de posição não se fez ainda sentir. Hoje é evidente para
todo o mundo que um imenso movimento se manifesta na opinião geral; uma reação
formidável se opera no sentido progressivo contra o espírito estacionário ou retrógrado
da rotina. Os satisfeitos de ontem são os impacientes de amanhã. A humanidade se
encontra em trabalho de parto; há no ar qualquer coisa, uma força irresistível que a
arrasta adiante; ela é como um jovem saído da adolescência que entrevê novos
horizontes sem os definir, e lança fora as fraldas da infância. Deseja-se algo melhor,
alimentos mais sólidos para a razão. Contudo, este melhor não está ainda bem definido,
procura-se-o. Todo o mundo nisto trabalha, desde o crente até o incrédulo; desde o
trabalhador até o sábio. O universo é um vasto canteiro de obras no qual uns demolem,
outros reconstroem. Cada um talha uma pedra para o novo edifício do qual apenas o
grande Arquiteto possui o plano definitivo, e do qual não se compreenderá a economia
senão quando suas formas começarem a se desenhar sobre a face do solo. Tal é o
momento que a soberana sabedoria escolheu para o advento do espiritismo.
Os Espíritos que presidem ao grande movimento regenerador agem, pois, com
maior sabedoria e previdência do que podem fazê-lo os homens, posto que eles
apreendem a marcha geral dos acontecimentos, enquanto nós não contemplamos senão
o círculo limitado de nosso horizonte. Os tempos da renovação chegaram, segundo os
decretos divinos. Era preciso que em meio às velhas ruínas do velho edifício, o homem,
a fim de não se desencorajar, entrevisse os alicerces da nova ordem de coisas; era
preciso que o marinheiro pudesse perceber a estrela polar que o deve guiar até o porto.
A sabedoria dos Espíritos que se mostrou no advento do espiritismo, revelado
quase instantaneamente por toda a terra, à época mais propícia, não é menos evidente na
ordem e na gradação lógicas das revelações complementares sucessivas. Não depende
de ninguém constranger sua vontade a este respeito, pois eles não medem seus
ensinamentos pelo grau de impaciência dos homens. Não basta que digamos:
“Queremos ter tal coisa”, para que ela nos seja dada; e é ainda menos conveniente que
digamos a Deus: “Julgamos que chegou o momento para que nos dê tal coisa; nos
julgamos avançados o suficiente para recebê-la”; isto seria como lhe dizer: “Sabemos
melhor que você o que é conveniente fazer”. Aos impacientes, os Espíritos respondem:
“Comecem primeiramente por bem saber, bem compreender, e, sobretudo, por bem
praticar aquilo que vocês sabem, a fim de que Deus os julgue dignos de aprender mais;
depois, quando chegar o momento, saberemos agir e escolheremos nossos
instrumentos”.
A primeira parte desta obra, intitulada Doutrina, contém o exame comparado das
diversas crenças sobre o céu e o inferno, os anjos e os demônios, as penas e as
recompensas futuras. O dogma das penas eternas aqui é encarado de uma maneira
especial, e refutado por meio de argumentos tirados das leis da natureza, e que
demonstram, não apenas seu lado ilógico, já assinalado mil vezes, mas sua
impossibilidade material. Naturalmente, com as penas eternas, caem todas as
consequências que se acreditou delas poder tirar.
A segunda parte contém numerosos exemplos que sustentam a teoria, ou antes,
que serviram para estabelecer a teoria. Eles haurem sua autoridade da diversidade de
tempos e lugares nos quais foram obtidos, posto que se emanassem de fonte única, seria
possível encará-los como o produto de uma mesma influência. Ademais, sua autoridade
advém da concordância com a qual são obtidos todos os dias, onde quer que se ocupe
das manifestações espíritas do ponto de vista sério e filosófico. Tais exemplos poderiam
ser multiplicados ao infinito, pois não há centro espírita que não possa deles fornecer
um notável contingente. Para evitar repetições fastidiosas, fizemos uma escolha dos
mais instrutivos. Cada um desses exemplos é um estudo, no qual todas as palavras têm
sua importância para todo aquele que as meditar com atenção, pois cada ponto lança
uma luz sobre a situação da alma após a morte, e a passagem da vida corporal à vida
espiritual até este momento tão obscura e temida. É o guia do viajante antes de entrar
em um novo país. A vida do além-túmulo se apresenta sob todos os seus aspectos, como
um vasto panorama; cada um aí encontrará novos motivos de esperança e consolação,
bem como novas bases para reafirmar sua fé no porvir e na justiça de Deus.
Nesses exemplos, tomados em sua maioria de fatos contemporâneos, ocultamos
os nomes próprios todas as vezes que julgamos útil, por motivos de conveniência fáceis
de compreender. Aqueles a quem tais exemplos possam interessar os reconhecerão
facilmente; para o público, nomes mais ou menos conhecidos, e algumas vezes muito
obscuros, não acrescentariam nada às instruções que deles se pode retirar.
As mesmas razões que nos fizeram calar os nomes dos médiuns no Evangelho
segundo o espiritismo levaram a nos abster de nomeá-los na presente obra, escrita mais
para o futuro que para o presente. Tais médiuns não estão nada interessados em atribuir-
se o mérito por uma coisa à qual seu espírito não teve qualquer participação. A
mediunidade, aliás, não se encontra submetida a tal ou tal indivíduo; é uma faculdade
fugidia, subordinada à vontade dos Espíritos que querem se comunicar, a qual se possui
hoje e que pode desaparecer amanhã, e que não é aplicável a todos os Espíritos sem
distinção, e, por isso mesmo, não constitui um mérito pessoal como o seria um talento
adquirido mediante o trabalho e os esforços da inteligência. Os médiuns sinceros,
aqueles que compreendem a gravidade de sua missão, consideram-se como
instrumentos que a vontade de Deus pode quebrar quando quiser, caso não ajam
segundo seus interesses; eles ficam felizes com uma faculdade que lhes permite se
tornarem úteis, mas não extraem daí qualquer vaidade. De resto, nos conformamos
sobre este ponto aos conselhos de nossos guias espirituais.
A providência quis que a nova revelação não fosse privilégio de ninguém, mas
que tivesse seus órgãos por toda a terra, em todas as famílias, em casa dos grandes
como dos pequenos, segundo esta palavra da qual os médiuns de nossos dias são a
realização: “Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei meu Espírito sobre toda
carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos jovens terão visões e vossos
velhos sonharão. Nesses dias derramarei meu Espírito sobre meus servos e minhas
servas, e eles profetizarão” (Atos, cap. II, v. 17,18).
Mas está dito também: “Haverá falsos Cristos e falsos profetas” (Ver o
Evangelho segundo o espiritismo, cap. XXI).
Ora, esses últimos tempos chegaram; não é o fim do mundo material, como se
tem acreditado, mas o fim do mundo moral, ou seja, a era da regeneração.