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Caminhos para uma Agricultura Familiar

sob Bases Ecológicas:


Produzindo com Baixa Emissão
de Carbono
[O RG A N I Z A D O R E S ]

Andrea A. Azevedo | Maura Campanili | Cassio Pereira


Caminhos para uma
Agricultura Familiar
sob Bases Ecológicas:
Produzindo com Baixa
Emissão de Carbono
Caminhos para uma
Agricultura Familiar
sob Bases Ecológicas:
Produzindo com Baixa
Emissão de Carbono

[O RG A N I Z A D O R E S ]

Andrea A. Azevedo | Maura Campanili | Cassio Pereira


14 51
Apresentação 3.
Notas sobre uma
Economia Importante,
(Super) Verde e
(Ancestralmente)
Inclusiva na Amazônia

Francisco de Assis Costa

17 73
1. 4.
Aquecimento Promoção do Bem-Estar
Global e dos Produtores Familiares
Agricultura com uso de Sistemas de
Familiar Produção Agropecuários e
Florestais de Baixo Carbono
Eduardo Delgado Assad no Bioma Amazônia

Judson Ferreira Valentim


Rachael D. Garrett

35 99
2. 5.
Os Múltiplos Papéis Caminhos para a
da Agricultura Familiar Transição Agroecológica
na Construção de uma e a Manutenção
Agricultura de Baixa de Reserva Legal na
Emissão de Carbono Agricultura Familiar
na Amazônia
Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco
Regina Aparecida Leite de Camargo Luciano Mattos

115
6.
Caminhos para a Produção
Familiar de Baixo Carbono
sob Bases Ecológicas:
O Papel do Bioma Cerrado

Rafael Tonucci
127 183
7. 11.
Caminhos para a Agricultura Assentamentos Sustentáveis
Familiar de Baixo Carbono na Amazônia (PAS):
em Bases Ecológicas Viabilizando Agricultura Familiar
na Mata Atlântica de Baixo Carbono

Paulo Yoshio Kageyma Osvaldo Stella


João Dagoberto Santos Paulo Motinho
Oriowaldo Queda Cassio Pereira
Lucimar Souza
Rosana Costa
139
Alcilene Cardoso
8. Antônio José Bentes
Agricultura Familiar Erika Pinto
de Baixa Emissão de Carbono – Mauro Soave Jr.
Bioma Caatinga

Giovanne Xenofonte

149 199
9. Síntese dos Principais
Percepção, Vulnerabilidade Temas e Argumentos
e Adaptação aos Discutidos no Seminário
Desafios Climáticos (IPAM)
Estudo de Caso na Bahia, Ceará,
Piauí e Rio Grande do Norte

Stéphanie Nasuti
Diego Lindoso

163 206
10. Sobre os Autores
Caminhos para a Produção
Familiar de Baixo Carbono
no Pantanal 216
Abreviaturas
Carolina Joana da Silva
Gabriela Litre
Pedro Nogueira
Jane Simoni
218
Joari Arruda Lista de Ícones Gráficos
Os Organizadores
Andrea A. Azevedo

É bióloga, mestre em gestão econômica de meio ambiente, doutora em políticas


e gestão ambiental. Trabalha com as questões de clima e desmatamento na
Amazônia há 15 anos e atualmente é diretora adjunta do Instituto de Pesquisa
Ambiental da Amazônia (IPAM), lidando com análise da interface de políticas
públicas relacionadas ao uso do solo e agricultura.

Maura Campanili

É jornalista e atua há mais de 20 anos na área socioambiental, como repórter


para veículos como a Agência Estado e a revista Terra da Gente, pela qual foi
finalista quatro vezes do Prêmio de Reportagem sobre a Biodiversidade da Mata
Atlântica. Trabalhou também em ONGs, como SOS Mata Atlântica, ISA e Rede
de ONGs da Mata Atlântica. Desde 2004, está à frente do NUCA - Núcleo de
Conteúdos Ambientais.

Cassio Pereira

É agrônomo, MSc. Foi diretor do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e secretário


de Estado de Agricultura do Pará. Um amazônida nato que participou da
fundação do IPAM e ao longo das últimas três décadas se dedicou a estudar
e cooperar com os movimentos sociais de base e organizações de agricultores
familiares e extrativistas na construção de uma Amazônia mais justa e com
sustentabilidade ambiental.
Agradecimentos
Agradecemos a todos os autores por colaborarem
com a redação dos artigos; pelo apoio a esse
trabalho à fundação Moore; Climate and Land
Use Alliance (Clua); fundação Ford; pelo apoio
institucional do NEAD/MDA, INCRA e EMBRAPA na
realização do evento que originou a publicação
deste livro.

À equipe de comunicação do IPAM:


Juliana Pinto e Marcela Bandeira.

À equipe técnica do IPAM:


Anaiza Portilho e Ana Carolina Crisostomo.
Apresentação

O clima do planeta está mudando. E são inúmeras as previsões de impactos


negativos sobre a produção agrícola. Nesse contexto, estratégias de adaptação
que conciliem aumentos da produção e redução de emissões de gases de efeito
estufa são cada vez mais imprescindíveis. Sejam elas voltadas para grande
ou pequena agricultura. É preciso, portanto, que se busque o que vem sendo
identificado como uma produção agrícola de baixa emissão de carbono. Além
disso, em boa medida, a produção familiar é aquela que exigirá maior atenção.
Com participação importante na produção de alimentos e na geração de emprego
no campo, a produção familiar também é aquela que conta com menor recurso
para promover adaptação num mundo em aquecimento. Por outro lado, se bem
definidas, estas estratégias poderão incluir milhões de famílias de agricultores
numa economia capaz de gerar as bases de um novo desenvolvimento mais
adequado do ponto de vista socioambiental e climático.
Com o intuito de promover um diálogo qualificado sobre os caminhos
da produção familiar rumo a uma produção de baixa emissão de carbono, o
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), em parceria institucional
com a Secretaria de Agricultura Familiar (SAF), o Núcleo de Estudos Agrários e
Desenvolvimento Rural (NEAD), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra - Ministério do Desenvolvimento Agrário), a Empresa Brasileira
de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA),
realizou um seminário, no dia 13 de junho de 2013, intitulado “Caminhos para
uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas: produzindo com Baixa Emissão
de Carbono”. O objetivo do evento foi promover o diálogo entre especialistas,
Governo e sociedade civil, no sentido de produzir subsídios para a construção
de estratégias regionais e nacional para a redução de emissões de carbono
na agricultura familiar e adaptação às mudanças do clima. Entendemos que
o evento abriu várias oportunidades de diálogo, e uma delas é a elaboração
de publicação seminal nesse assunto, com artigos escritos pelos especialistas
que participaram do evento e trouxeram dados de pesquisas e experiências
concretas vividas junto a grupos de agricultores familiares.
Os textos foram elaborados com uma visão para a diversidade que permeia
todos os biomas, divididos em eixos lógicos que procuraram responder aos
desafios da agricultura familiar em relação: às fontes de emissões de gases de
efeito estufa nos principais sistemas de produção da agricultura familiar; aos
principais gargalos e desafios para a transição produtiva de uma agricultura
familiar de baixas emissões de gases de efeito estufa; às oportunidades e
aos passos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa nos principais
sistemas de produção da agricultura familiar; às medidas de adaptação climática
necessárias para a agricultura familiar.
O grande desafio agora é traçar estratégias nacionais para inibir os
efeitos das mudanças climáticas que têm peculiaridades regionais, a depender
do bioma, sobre esse grupo que representa praticamente 80% das propriedades
rurais no Brasil. Esse desafio deve trilhar o caminho de identificar quais
políticas públicas já existem e as que poderiam ser melhoradas ou criadas, no
sentido de ajudar o agricultor familiar na adaptação e na mitigação às mudanças
climáticas, mas também na mitigação de problemas que atrapalham o produtor
familiar no seu rendimento, aumentando sua vulnerabilidade social.
Os textos desta publicação, realizados por pesquisadores reconhecidos
nesse campo, em grande medida identificam as necessidades, os gargalos e
as oportunidades para essa transição. Ao final do livro, há uma síntese dos
principais argumentos apresentados na discussão do seminário. Boa leitura!

Andrea A. Azevedo
Diretora de Políticas Públicas
IPAM
1.
Aquecimento
Global e
Agricultura
Familiar

Eduardo Delgado Assad1

1
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Centro Nacional
de Pesquisa Tecnológica em Informática para a Agricultura.
Impactos das Mudanças Climáticas
na Agricultura
Os impactos das mudanças climáticas na agricultura estão diretamente
relacionados aos aumentos de temperatura e à concentração de gases de efeito
estufa. Recentemente, as emissões desses gases chegaram a 400 partes por
milhão (ppm) de CO2 equivalente na atmosfera (PBMV 2015). Há 30 anos, essa
concentração era 325 ppm. Esse foi o maior índice de aumento da concen-
tração de CO2 na atmosfera, talvez nos últimos 11.000 anos. Nos últimos anos,
atingiram-se patamares de aumento de temperatura superiores aos observados
desde o início do século passado. Os conhecimentos científicos existentes hoje
permitem projetar impactos na agricultura para até 450 partes por milhão, ou
um aumento na temperatura média global de 2° C (PBMV, 2015). O aumento da
concentração de CO2 na atmosfera, medido na estação de Mauna Loa, no Havaí,
desde 1955, pode ser verificado no site http://www.esrl.noaa.gov/gmd/obop/
mlo/. Constata-se que não há redução da concentração de CO2 nos últimos 50
anos e que esta é sempre crescente.
Do ponto de vista da agricultura, ressaltam-se duas tendências relacio-
nadas a eventos extremos. Primeiro, o número de dias com temperatura máxima
igual ou superior a 34° C apresenta tendência de alta, com grandes impactos
já observados nas culturas de café, laranja e feijão (redução de produtividade,
perda de qualidade e deslocamento de cultivos para o sul). Essas evidências são
realçadas nas medições feitas em duas situações, uma localmente (Campinas-
SP) e outra em escala nacional, utilizando as estações meteorológicas oficiais
do Brasil. Esses dois casos são ilustrados nas Gráficos 1.1 e 1.2.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


20
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Dias G R Á FI CO 1.1
Frequência de
50 ocorrência de dias
45 com temperaturas
superiores a
40
34 graus.
35

30

25

20

15

10

5 fonte :

0 CEPAGRI/UNICAMP.

20
20

20

20
20
19
19

19

20
19

20
19

09
03

05
99
93

95

07
97

01

13
91

11

Número de dias com temperatura máxima acima de 34oC média de 291 estações no Brasil G R Á FI CO 1.2
90
Frequência de
ocorrência de dias
80 com temperaturas
70 acima de 34º C.
60

50

40

30

20

10 fonte :

0 EMBRAPA/CNPTIA.
1961
1963
1965
1967
1969
1971
1973
1975
1977
1979
1981
1983
1985
1987
1989
1991
1993
1995
1997
1999
2001
2003
2005
2007
2009

Aquecimento Global
Eduardo Delgado Assad 21
e Agricultura Familiar
As consequências desses aumentos de temperatura seriam o aborta-
mento das flores no café e no feijão, e atingindo diretamente a citricultura.
Como são períodos de eventos extremos e, portanto, de curta duração, podem
ser caracterizados como ondas de calor com forte impacto na produção animal,
provocando mortandade de frangos, abortamento em porcas e redução da pro-
dução de leite. Importantes ações relacionadas à ambiência animal devem ser
tomadas para se evitar essas perdas.
O segundo tipo de evento extremo é a intensidade da chuva diária. No
Centro-Oeste, em 1990, volume acima de 120 mm era considerado muito alto
e anômalo (ASSAD, 1994). Atualmente, atinge-se 200 mm/dia com frequência.
O volume mensal não se altera significativamente, mas a distribuição sim. Os
principais impactos são a perda de solo por erosão, a perda de fertilizantes e
inundações de áreas produtivas, especialmente aquelas dos pequenos produ-
tores, que estão mais próximas dos rios. A grande discussão que se faz com
relação aos dados de chuva é que não se pode mais considerar as séries esta-
cionárias (ou seja, aquela cujos dados flutuam em torno de uma média), pois ao
longo dos últimos anos essa média tem se alterado.
Alguns estudos foram realizados para identificar alterações nos ciclos
naturais que podem estar relacionadas com as mudanças climáticas. Mas não
existem muitas avaliações sobre variabilidade de longo prazo e extremos de
tempo e de clima no país. Estudos foram feitos para regiões específicas na
América do Sul, mas um dos desafios que dificulta o andamento desse tipo de
análise tem sido a falta de informação meteorológica de boa qualidade, em
séries completas de longo prazo.
Marengo e Camargo (2008), ao estudarem as temperaturas máximas e
mínimas no Sul do Brasil, de 1960 a 2002, encontraram um aquecimento siste-
mático da Região, detectando tendências positivas na temperatura máxima e
mínima em níveis anual e sazonal. A amplitude térmica apresentou tendências
negativas fortes nesse período, sugerindo que as variações na temperatura mí-
nima foram mais intensas do que nas máximas, especialmente no verão. Isso
também foi observado por Gonçalves et al. (2002) para São Paulo. Essas análises
de temperaturas máximas e mínimas, porém, não estabeleceram se o verão pode
ter dias ou noites mais quentes ou se o inverno pode ter noites menos frias. As
análises de Marengo e Camargo (2008) sugeriram que o aquecimento observado
é mais intenso no inverno comparado ao verão e que isso se dá, possivelmente,
devido ao aumento de número de dias quentes no inverno.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


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Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Chu et al. (1995) mostraram um aumento sistemático da convecção sobre
o norte do bioma Amazônia desde 1975, o que poderia indicar um aumento de
chuva na região. Em outras bacias do Sudeste do Brasil, como os registros dos
rios Paraíba do Sul, nos municípios de Resende, Guaratinguetá e Campos, do
Parnaíba, em Boa Esperança, e do São Francisco, em Juazeiro, apresentaram
tendências hidrológicas nas vazões e cotas inconsistentes com redução ou
aumento de chuvas, indicando ser pouco provável que o clima esteja mudando
significativamente nessas regiões (MARENGO et al., 1998; COLLISCHONN et al.,
2001; LIEBMANN et al., 2004; MARENGO E ALVES, 2005; SATYAMURTY et al., 2009).
Segundo o relatório do grupo 1 do Painel Brasileiro de Mudanças Cli-
máticas 2015, “em geral, as projeções climáticas possuem desempenho (skill)
relativamente melhor nos setores Norte/Nordeste (Amazônia e Caatinga) e
Sul (Pampa) do Brasil, e desempenho pior no Centro-Oeste e Sudeste (Cerrado,
Pantanal e Mata Atlântica). As projeções consensuais para os biomas brasi-
leiros, baseadas nos resultados científicos de modelagem climática global e
regional, são as seguintes:

Amazônia

Reduções percentuais de -10% na distribuição de chuva e aumento de


temperatura de 1º a 1,5º C até 2040, mantendo a tendência de diminuição
de 25% a 30% nas chuvas e aumento de temperatura entre 3º e 3,5º C no
período 2041-2070, sendo que, no final do século (2071-2100), as mudanças
serão mais críticas com clima significativamente menos chuvoso (redução
de 40% a 45% nas chuvas) e muito mais quente (aumento de 5º C a 6º C).
Enquanto tais modificações de clima associadas às mudanças globais podem
comprometer o bioma em longo prazo (final do século), a questão atual do
desmatamento decorrente das intensas atividades de uso da terra representa
uma ameaça mais imediata para a Amazônia. Estudos observacionais e de
modelagem numérica sugerem que, caso o desmatamento alcance 40% na
região, esperam-se mudanças drásticas no ciclo hidrológico, com redução de
40% na pluviometria durante os meses de julho a novembro, prolongando a
duração da estação seca, bem como provocando aquecimento superficial em
até 4º C.
Assim, as mudanças regionais pelo efeito do desmatamento somam-se
àquelas provenientes das mudanças globais, constituindo, portanto, condições

Aquecimento Global
Eduardo Delgado Assad 23
e Agricultura Familiar
propícias à prevalência de vegetação do tipo cerrado, sendo que esse pro-
blema de savanização da Amazônia tende a ser mais crítico na porção oriental.

Caatinga

Aumento de 0,5º a 1ºC na temperatura do ar e decréscimo entre 10%


e 20% na chuva durante as próximas três décadas (até 2040), com aumento
gradual de temperatura para 1,5º a 2,5ºC e diminuição entre 25% e 35% nos
padrões de chuva no período de 2041-2070. No final do século (2071-2100)
as projeções indicam condições significativamente mais quentes (aumento de
temperatura entre 3,5º e 4,5ºC) e agravamento do déficit hídrico regional com
diminuição de praticamente metade (40 a 50%) da distribuição de chuva.

Cerrado

Aumento de 1ºC na temperatura superficial com diminuição percentual


entre 10% a 20% na precipitação durante as próximas três décadas (até 2040).
Na metade do século (2041-2070), espera-se aumento entre 3º e 3,5ºC da tem-
peratura do ar e redução entre 20% e 35% da pluviometria. No final do século
(2071-2100), o aumento de temperatura atinge valores entre 5º e 5,5ºC e a re-
tração na distribuição de chuva é mais crítica, com diminuição entre 35% e 45%.

Pantanal

Aumento de 1ºC na temperatura e diminuição entre 5% e 15% nos


padrões de chuva até 2040, mantendo a tendência de redução nas chuvas para
valores entre 10% e 25% e aumento de 2,5º a 3ºC de temperatura em meados
do século (2041-2070). No final do século (2071-2100), predominam condições
de aquecimento intenso (aumento de temperatura entre 3,5º e 4,5ºC) com
diminuição acentuada nos padrões de chuva de 35% a 45%.

Mata Atlântica

Como este bioma abrange áreas desde o Sul, Sudeste até o Nordeste
brasileiro, as projeções apontam dois regimes distintos. Porção Nordeste (NE):
aumento relativamente baixo nas temperaturas de 0,5º a 1ºC e decréscimo nas

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


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Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
chuvas em torno de -10% até 2040, mantendo a tendência de aquecimento
entre 2º e 3ºC e diminuição pluviométrica entre -20% e -25% em meados do
século (2041-2070). Para o final do século (2071-2100), esperam-se condições
de aquecimento intenso (aumento de 3º a 4ºC) e diminuição entre -30% e -35%
nos padrões de chuva regional. Porção Sul/Sudeste (S/SE): até 2040 as proje-
ções indicam aumento relativamente baixo de temperatura entre 0,5º e 1ºC
com intensificação nos padrões de chuva em torno de 5% a 10%. Em meados
do século (2041-2070) continuam as tendências de aumento gradual de 1,5º a
2ºC na temperatura e de 15% a 20% nas chuvas, sendo que essas tendências
acentuam-se no final do século (2071-2100) com padrões de clima entre 2,5º e
3ºC mais quente e entre 25% a 30% mais chuvoso.

Pampa

No período até 2040 prevalecem condições de clima regional de 5% a


10% mais chuvoso e até 1ºC mais quente, mantendo a tendência de aqueci-
mento entre 1º e 1,5ºC e intensificação das chuvas entre 15% e 20% até meados
do século (2041-2070). No final do século (2071-2100), as projeções são mais
agravantes com aumento de temperatura de 2,5º a 3ºC e chuvas de 35% a 40%
acima do normal.

Impactos Futuros
Simulações de Modelos Atualizados

Estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada indicou que


95% das perdas na agricultura brasileira eram devidas a eventos de seca ou
chuva forte (GOEPFERT, 1993). Com base nesses dados, foi criado, em 1996, o
Programa de Zoneamento de Riscos Climáticos no Brasil - Zarc (ROSSETTI, 2001),
política pública adotada atualmente pelos ministérios da Agricultura Pecuária
e Abastecimento e do Desenvolvimento Agrário, para orientar o crédito e o se-
guro agrícola. O zoneamento estabeleceu níveis de riscos das regiões estudadas
para vários tipos de cultura, admitindo perdas de safras de no máximo 20%. A
adoção desse zoneamento permitiu melhorar as análises de risco e induzir algum
tipo de ordenamento territorial. Desde então, esse instrumento avalia o risco de
uma região para a produção de um tipo de cultura, não só com dados de chuva

Aquecimento Global
Eduardo Delgado Assad 25
e Agricultura Familiar
e temperatura, mas com índices desenvolvidos para apontar a sensibilidade das
culturas a eventos extremos que possam ocorrer em fases fenológicas críticas
da planta. O uso de geoprocessamento e de imagens de satélites é fundamental.
Com todas essas informações é possível mostrar as probabilidades de se obter
safras com produtividade econômica mínima, na escala municipal.
Por outro lado, a evolução dos trabalhos de modelagem, que projetam
cenários climáticos futuros em razão do aquecimento global, permite rearranjar
a distribuição das culturas agrícolas de acordo com o aumento das tempera-
turas. Nesse caso, a metodologia utilizada é exatamente a mesma do zonea-
mento de riscos, com a diferença de que leva em conta também outros fatores,
como aumento da evapotranspiração e de deficiência e excedente hídrico, de-
vido à elevação de temperatura.
No Brasil, alguns estudos foram feitos sobre o reflexo das mudanças
climáticas e seus impactos na agricultura. Uma primeira tentativa foi feita
por Pinto et al. (2001 e 2009), onde foram simulados os efeitos das elevações
das temperaturas e das chuvas no zoneamento do café para os estados de
São Paulo e Goiás. Observou-se uma drástica redução nas áreas com aptidão
agroclimática, condenando a produção de café nestas regiões. Outros estudos
foram feitos. Assad e Luchiari Jr. (1989) avaliaram as possíveis alterações de
produtividade para as culturas de soja e milho diante de cenários de aumento
e de redução de temperatura. Siqueira et al. (1994) apresentaram efeitos das
mudanças globais na produção de trigo, milho e soja. Assad et al. (2008), Zullo
Jr et al. (2006), Nobre et al. (2005) elaboraram estudos detalhados sobre o
futuro da agricultura brasileira em função dos cenários previstos para o clima
regional. Pinto et al. (2008) concluíram que o aquecimento global pode colocar
em risco a produção de grãos no Brasil, caso nenhuma medida mitigadora e de
adaptação sejam realizadas.
O estudo “Economia das Mudanças Climáticas” (MARGULIS et al., 2008),
que simulou os impactos de mudanças de temperatura na agricultura, foi muito
criticado por basear-se em cenários extremos. Entretanto, as temperaturas
medidas no Brasil durante o verão no período de simulação foram 2º C mais altas
do que o projetado pelo modelo Precis. Para o inverno, observações e projeções
são bastante próximas, indicando que as culturas de inverno, como o arroz,
não são tão afetadas. Atualmente, a partir do desenvolvimento de modelos
brasileiros, vem sendo possível entender melhor o que poderá acontecer nas
próximas décadas.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


26
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Para avaliar os impactos da mudança do clima sobre as culturas agrícolas,
especificamente o milho, foram utilizados os modelos disponíveis no Brasil e
simuladores da Embrapa com incorporação dos dados do modelo regional ETA
inicializado com o modelo global do CMIP5, HadGen2ES RCP 4,5 e RCP8,5. De
uma maneira geral, essas são as indicações de entrada de modelos do IPCC, no
seu último relatório de 2014.

Impacto do aquecimento global entre 1990 a 2085


FI GUR A 1.1 para o milho no Brasil .

MILHO 1990 MILHO RCP 4.5 - 2025

LEGENDA LEGENDA
Risco Risco
Alto Baixo Alto Baixo

Área (ha) N Área (ha) N

Alto W E Alto W E
81.858.406 149.591.335
S S
Baixo Baixo
399.383.130 0 375 750 1.500 331.650.200 0 375 750 1.500
Km Km

MILHO RCP 4.5 - 2055 MILHO RCP 4.5 - 2085

LEGENDA LEGENDA
Risco Risco
Alto Baixo Alto Baixo

Área (ha) N Área (ha) N

Alto W E Alto W E
118.844.721 147.595.946
S S
Baixo Baixo
362.396.815 0 375 750 1.500 333.645.589 0 375 750 1.500
Km Km

fonte : Elaboração do autor.

Aquecimento Global
Eduardo Delgado Assad 27
e Agricultura Familiar
Há uma perda de área de baixo risco climático de até 43%, que coincide
com as áreas atuais de baixa produtividade.
Estudos similares ao do milho foram feitos com arroz, feijão, soja, trigo,
dentre outros, e estão quantificados na Tabela 1.1. Em todos os casos, nas áreas
onde existe maior concentração de pequenos agricultores, é onde se observa o
maior impacto do aquecimento.

TA B E L A 1.1
Cenário RCP 4.5
Síntese dos impactos
do aquecimento
Anos 2025 (ha) ∆ (%) 2055(ha) ∆ (%) 2085(ha) ∆ (%)
global na agricultura
brasileira, segundo o Arroz *2.306.597 *-4,4 2.329.526 *-3,5 2.316.059 -4,0
Modelo ETA CIMIP5
Milho Safrinha 2.143.341 -71,3 4.242.920 -43,2 2.214.010 -70,4
HADGem2, para
menor concentração Milho Safra 1 6.895.053 -9,2 7.197.141 -5,2 7.010.321 -7,7
de CO2 na atmosfera Feijão Safra 1 1.225.556 -37,4 1.125.782 -42,5 1.186.136 -39,4
até o ano de 2085.
Feijão Safra 2 506.045 -50,4 615.304 -39,7 529.704 -48,1
Soja 10.904.674 -56,3 12.849.106 -48,6 11.539.499 -53,8
fonte :
Elaboração do autor.
Trigo 1.567.205 -18,1 1.645.562 -14,0 1.630.185 -14,8

Como dito anteriormente, o aumento da temperatura terá forte impacto


na redução de áreas de baixo risco climático. Sobressaem-se o milho e o feijão
que serão os mais atingidos. O reflexo desses impactos será diretamente
vinculado ao zoneamento agrícola de riscos climáticos, reduzindo as áreas de
financiamento dessas culturas, caso as diretrizes do zoneamento não sejam
alteradas ou sistemas de manejo mais adaptados às mudanças climáticas não
sejam incorporados, além da busca por culturas mais adaptadas.
No setor agropecuário, as consequências do aquecimento global serão
inúmeras. No Brasil, com sua dimensão continental, a heterogeneidade climática,
os tipos de solo e a topografia, a estrutura fundiária e a assistência técnica,
imprimem diferentes condições ao desenvolvimento das culturas. Consideran-
do-se os prognósticos futuros de aumento das temperaturas, pode-se admitir
que, com as anomalias positivas (aumento de temperatura), o desenvolvimento
vegetal será limitado. Quanto maior a anomalia, menos apta se tornará a região,
até o limite máximo de tolerância biológica ao calor.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


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Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Impactos na Agricultura Familiar
Situação Atual e Desafios
Os impactos serão cada vez maiores quanto menos tecnologia for utili-
zada pelo agricultor. Esses impactos são de ordem de rentabilidade, ou seja,
redução de produtividade, redução de renda e inviabilidade da produção,
trazendo claramente impactos sociais, como migração para grandes centros,
aumento da pobreza e desemprego. Analisando a agricultura familiar e a carência
de trans-ferência tecnológica, o risco é cada vez maior.
Considerando os diversos itinerários tecnológicos da agricultura fami-
liar, que incluem inclusive a manutenção da cobertura vegetal, é pelo menos
teoricamente uma agricultura de baixa emissão de carbono. Isso pelo fato de
que, na sua maioria, a agricultura familiar se aproxima da convencional, porém
com menor mecanização e adubação mineral. Em tese, a emissão de gases de
efeito estufa é pequena, uma vez que o principal emissor é o óxido nitroso
(N2O), que é introduzido via adubação mineral. Do mesmo modo, para pequenos
módulos de produção, a adubação via organominerais ou simplesmente orgâ-
nicas, teoricamente é menos emissora, porém, não se conhece o efeito em
termos de emissões de gases de efeito estufa. Essa é uma grande lacuna que
precisa ser preenchida para orientação no equilíbrio entre agricultura familiar e
sustentabilidade climática. Por isso, ela é menos emissora do que a agricultura
convencional. Mas, ao acrescentar à agricultura familiar o desmatamento, esse
balanço dos gases é negativo.
Na maioria das medições feitas em termos de gases de efeito estufa e
agricultura no Brasil, levou-se em consideração a agricultura convencional. O
próprio inventário de gases de efeito estufa do Ministério da Ciência Tecno-
logia e Inovação não faz essa distinção e considera as emissões diretas por
adubação e as emissões por fermentação entérica dos rebanhos. Não estrati-
fica o perfil dos produtores. Há uma grande carência de pesquisa com relação
às emissões na agricultura familiar, levando-se em consideração seus diversos
sistemas de produção e sua regionalização.
Na Tabela 1.2, fica caracterizada a quantidade de pequenos agricultores
produtores de milho que ainda tem baixa produtividade. Em qualquer situação
de aumento de temperatura ou de um evento extremo de chuva, a perda desses
agricultores será mais acentuada.

Aquecimento Global
Eduardo Delgado Assad 29
e Agricultura Familiar
TA B E L A 1.2 Produção
Milho Faixa de Produtividade (milhões de Número de Produção Municípios
Municípios produtores
(Ano) (kg/ha) toneladas) Municípios (%) (%)
de milho em 2015 e
projeção para 2030. 0-200 1,49 2185 1,94 42,15
Ressalte-se que 2.001-4.000 4,49 1140 5,86 22,00
42,15% dos
4.001-6.000 34,92 1197 45,61 23,09
2015

municípios tem
produtividade inferior 6.001-8.000 22,30 498 29,13 9,60
a 2.000Kg/ha. 8.001-10.000 10,53 134 13,75 2,58
> 10.000 2,84 30 3,71 0,58
0-200 1,43 2111 1,70 40,72
2.001-4.000 3,91 1038 4,65 20,02
4.001-6.000 33,52 1170 39,87 22,57
2020

6.001-8.000 27,66 604 32,90 11,65


8.001-10.000 10,86 190 12,93 3,67
> 10.000 6,69 71 7,95 1,37
0-200 1,46 2062 1,58 39,78
2.001-4.000 3,78 927 4,09 17,88
2025

4.001-6.000 30,21 1167 32,72 22,51


6.001-8.000 31,83 619 34,48 11,94
fonte :
Mapa, 2013. 8.001-10.000 14,62 281 15,85 5,42

É nesse cenário de baixa produtividade que se devem explorar as estra-


tégias para lidar com a questão climática. Primeiro, é necessário aumentar
a eficiência de produção da agricultura familiar, valendo-se de tecnologia
adaptada a esse contexto (por exemplo, no Nordeste há cultivares de milho
adaptados ao agreste que podem ser levados para o Centro-Oeste, Sudeste e
Sul). Na região Norte existe vários sistemas agroflorestais que podem integrar
grãos à produção de madeira. Nas regiões Sul e Sudeste, a adoção cada vez
maior de sistemas integrados, como por exemplo, a integração lavoura-pecuária
e a lavoura-pecuária-floresta, têm aumentado a eficiência na produção agro-
pecuária, independentemente do módulo de produção. Ao mesmo tempo em
que se aumenta a eficiência da produção e consequentemente a renda, é ne-
cessário reduzir as emissões. Um grande desafio para a redução de emissões
na agricultura familiar é medir quanto a agricultura familiar contribui para
emissões e quanto práticas como agricultura orgânica e plantio direto (com
medidas de proteção de solo contra erosão) contribuem para neutralizar outras

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


30
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
emissões. Na agricultura empresarial esse fator é de 0,5 Tc/ha/ano para plantio
direto e de até 1,2 Tc/ha/ano para integração lavoura-pecuária-floresta (www.
observatorioabc.com.br).
Utilizando esse mesmo exemplo, é necessário saber onde estão esses
municípios com baixa produtividade e produção. A partir de projeções do Minis-
tério da Agricultura (MAPA, 2013), é possível estimar a produção por município
no Brasil, por exemplo, para o ano de 2015. A Figura 1.2 indica essa distribuição.

FI GUR A 1.2
Distribuição espacial
PRODUÇÃO DE MILHO 2015 da produção de
milho no Brasil.
Projeção Mapa 2015.

LEGENDA N
Faixas de Produção (t)

Até 5.000
5.000 a 25.000
25.000 a 100.000
100.000 a 1.500.000
1.500.000 a 2.000.000 fonte :
0 375 700 1.400
Cálculos efetuados baseados Laboratório de
Km
na projeção do MAPA. Modelagem Ambiental
Embrapa CNPTIA.

Aquecimento Global
Eduardo Delgado Assad 31
e Agricultura Familiar
Uma rápida análise da Figura 1.2 indica que a baixa produção está dis-
tribuída em quase todo o Brasil, com maior intensidade na Amazônia, Nordeste,
norte de Minas Gerais, Pantanal e sul do Rio Grande do Sul. Seriam essas áreas
susceptíveis a perda de produtividade e produção em cenários de aquecimento
global? Segundo as projeções do Painel Brasileiro de Mudanças do Clima, pelo
menos no Nordeste e no Sul do país, sim.
Por outro lado, uma das soluções é a chamada intensificação susten-
tável, também aplicada à agricultura familiar. A intensificação da produção
deve ser precedida de diversificação da produção, de modo a permitir o uso
mais eficiente dos solos e dos recursos hídricos, e garantir trabalho e renda
durante a maior parte do ano. Com práticas sustentáveis é possível amenizar os
efeitos do aquecimento global. Porém, é preciso solucionar problemas crônicos
da agricultura familiar brasileira como:

a) ampliar o crédito agrícola ao agricultor que produz alimentos de con-


sumo direto;

b) fortalecer a assistência técnica para aumentar a produtividade;

c) ampliar os investimentos em infraestrutura para armazenamento e


escoamento da produção agrícola;

d) reduzir as restrições de financiamento e priorizar desenvolvimento


e tecnologia que permitam aumento expressivo da produção agrícola
em território brasileiro, minimizando os impactos do aquecimento
global nos próximos anos.

Não é prudente dizer que para agricultura familiar o caminho para o en-
frentamento do aquecimento global deva ser mitigação ou adaptação. É muito
claro que os dois caminhos são necessários. A mitigação e sua adoção de sis-
temas de produção mais equilibrados, como sistemas agroflorestais, integração
lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta. Existem dois caminhos quanto à
adaptação: o primeiro, via biotecnologia que busca cultivares mais tolerantes à
seca e a altas temperaturas, e o segundo, buscando na biodiversidade as espé-
cies já naturalmente adaptadas e que tem alto potencial de mercado. O primeiro
caminho é o mais fácil e certamente em pouco tempo esses cultivares tolerantes

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


32
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
estarão no mercado. O segundo é mais lento, uma vez que mesmo conhecidas as
espécies de alto valor de mercado, é preciso desenvolver os sistemas produtivos
e fechar a cadeia produtiva. O Umbú na região Nordeste é um exemplo interes-
sante. O sistema é quase todo extrativista, mas tem preço mínimo. O Açaí e a
castanha do Pará são outros exemplos. Todos com baixa emissão e adaptados ao
clima local. As opções são muitas e precisam ser exploradas.
Quanto à mitigação, a grande oportunidade está na adoção das técnicas
preconizas no Programa Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Programa
ABC-Brasil, 2012), que tem financiamento oficial. As linhas de financiamento
existentes hoje são:

a) recuperação de pastagens degradadas (ABC Recuperação);

b) implantação e melhoramento de sistemas orgânicos de produção


agropecuária (ABC Orgânico);

c) implantação e melhoramento de sistemas de plantio direto “na palha”


(ABC Plantio Direto);

d) implantação e melhoramento de sistemas de integração lavoura-


pecuária, lavoura-floresta, pecuária-floresta ou lavoura-pecuária-flo-
resta e de sistemas agroflorestais (ABC Integração);

e) implantação, manutenção e melhoramento do manejo de florestas


comerciais, inclusive aquelas destinadas ao uso industrial ou à pro-
dução de carvão vegetal (ABC Florestas);

f) adequação ou regularização das propriedades rurais frente à legis-


lação ambiental, inclusive recuperação da reserva legal, áreas de
preservação permanente, recuperação de áreas degradadas e implan-
tação e melhoramento de planos de manejo florestal sustentável
(ABC Ambiental);

g) implantação, melhoramento e manutenção de sistemas de trata-


mento de dejetos e resíduos oriundos da produção animal para a
geração de energia e compostagem (ABC Tratamento de Dejetos);

Aquecimento Global
Eduardo Delgado Assad 33
e Agricultura Familiar
h) implantação, melhoramento e manutenção de florestas de dendezeiro,
prioritariamente em áreas produtivas degradadas (ABC Dendê);

i) estímulo ao uso da fixação biológica do nitrogênio (ABC Fixação).

São programas oficiais e que podem incrementar a produção na agricultura


familiar, seguindo a linha da mitigação. Resta superar o crônico problema da
transferência de tecnologia.

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Aquecimento Global
Eduardo Delgado Assad 35
e Agricultura Familiar
2.
Os Múltiplos Papéis da
Agricultura Familiar
na Construção de uma
Agricultura de Baixa
Emissão de Carbono

Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco1


Regina Aparecida Leite de Camargo2

1
Faculdade de Engenharia Agrícola,
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.
2
Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária,
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP.
A preocupação com os impactos que práticas agrícolas podem causar no
meio ambiente e na saúde humana teve início na primeira metade do século XX,
com iniciativas como a agricultura biodinâmica, a agricultura orgânica, a agri-
cultura biológica e a agricultura natural (EHLERS, 1999). Esses movimentos
questionavam a crença generalizada nas teorias de Justus von Liebig, o pai da
adubação química, e defendiam práticas embasadas nos processos biológicos
decorrentes da decomposição da matéria orgânica.
Em 1962, o livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, alertava para
o perigo que representava o uso indiscriminado de agrotóxicos para a saúde
humana e todas as formas de vida na terra: “Pela primeira vez na história
do mundo, agora todo ser humano está sujeito ao contato com substâncias
químicas e perigosas, desde o instante em que é concebido até a sua morte”
(CARSON, 2010).
A publicação em 1987 do “Relatório Brundland”, elaborado pela Comis-
são Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, consolidou a ideia do
desenvolvimento sustentável como princípio a ser implantado em todas as áreas
das atividades humanas. No caso da agricultura, a sustentabilidade se traduz
no desafio de alimentar a crescente população mundial, sem agredir ou com um
mínimo de agressão ao meio ambiente.
Mas foi apenas no início dos anos 1980, com o surgimento da agroeco-
logia, que os pesquisadores se voltaram para as formas tradicionais de agri-
cultura, aquelas praticadas por centenas de anos e ainda mantidas por algumas
comunidades camponesas, em busca de uma junção entre os conhecimentos
acumulados pelas ciências agrárias e biológicas e aqueles que são fruto do
longo processo de adaptação do homem ao seu ambiente em busca da sobrevi-
vência. Para a agroecologia, é nessa amálgama de saberes que se encontram as
bases para o desenvolvimento de sistemas agrícolas produtivos e sustentáveis.
O Brasil nasceu como nação agroexportadora. Na falta de ouro e prata
para custear a vasta colônia e fornir os cofres da Coroa, a cana-de-açúcar se
instalou como cultura soberana nos extensos domínios das sesmarias, empur-
rando, para as áreas menos privilegiadas em solo, clima e relevo, os cultivos
alimentares e os pequenos produtores. O mesmo modelo foi seguido pelo cacau
e café e, nos dias atuais, pelos novos ciclos de cana e café, e o cultivo de grãos
e algodão. A expansão da fronteira agrícola brasileira, nos últimos 500 anos,
foi marcada pela destruição dos ecossistemas originais e a exclusão dos produ-
tores familiares. Esse modelo de desenvolvimento do campo levou à formação

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


38
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
de um campesinato que Wanderley (1995) denomina de “um setor bloqueado”,
preterido em relação à grande propriedade exportadora.
Para os que pensam ser o movimento ambientalista uma tendência re-
cente no território nacional, o livro de José Augusto Pádua traz textos de José
Bonifácio de Andrada e Silva, Joaquim Nabuco e muitos outros autores que, já
no final do século XVIII e meados do século XIX, alertavam para a vergonha
social e as consequências ambientais da manutenção no Brasil, do trinômio
trabalho escravo, latifúndio e monocultura (PÁDUA, 2004).
Mas apesar da importância e precocidade dessas primeiras vozes ambien-
talistas, apenas em 1937, é promulgado o primeiro Código Florestal Brasileiro,
substituído em 1965 e, novamente, em 2012, em meio a debates e manifes-
tações acaloradas. Sem adentrar na discussão da pertinência e dos interesses
que regeram a elaboração do novo Código Florestal, a existência de uma legis-
lação que torna obrigatória a presença de um percentual de matas nas proprie-
dades rurais deve alinhar-se com o ideário de uma agricultura, ao mesmo tempo,
produtiva e preservacionista.
No caso brasileiro, as queimadas e o desmatamento são as principais
causas da emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), responsáveis pelo aqueci-
mento global. A agricultura e pecuária também contribuem para o aumento dos
GEE com o uso intensivo de fertilizantes nitrogenados que liberam óxido nitroso,
os processos digestivos dos ruminantes que emitem metano, a produção de de-
jetos animais, os processos anaeróbicos de decomposição da matéria orgânica e a
liberação de CO2 pelas máquinas agrícolas que funcionam com combustível fóssil.
Dentre as inúmeras consequências da elevação da temperatura da Terra, estão
os prejuízos que mudanças climáticas podem causar à agricultura, ameaçando a
produção de alimentos vital para a sobrevivência humana no planeta.
Desde a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambi-
ente e o Desenvolvimento, em 1992, no Rio de Janeiro (Rio-92), os principais
países emissores de GEE vêm sendo pressionados a assumir compromissos de re-
dução das emissões (BRASIL, 2014a). Embora o Brasil esteja entre os países que
não foram obrigados a fixar meta de redução na assinatura do Protocolo de Kyoto,
principal acordo internacional sobre o tema, o país assumiu, na 15ª Conferência
das Partes (COP-15), ocorrida em Copenhague em 2009, o compromisso de reduzir
entre 36,1% e 38,9% suas emissões projetadas até 2020. As principais medidas
para o cumprimento desse compromisso incidem sobre a agricultura e pecuária,
com redução do desmatamento, recuperação de pastagens degradadas, integração

Os Múltiplos Papéis da Agricultura Familiar


Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco
na Construção de uma Agricultura de 39
Regina Aparecida Leite de Camargo
Baixa Emissão de Carbono
lavoura-pecuária, fixação biológica de nitrogênio e plantio direto. Para o alcance
desses objetivos, o governo federal lançou, em 2012, o Plano Setorial de Miti-
gação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Eco-
nomia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, ou Plano ABC, definido como:

Uma política pública que apresenta o detalhamento das ações de mitigação e ada-
ptação às mudanças do clima para o setor agropecuário, e aponta de que forma o
Brasil pretende cumprir os compromissos assumidos de redução de emissão de gases
de efeito estufa neste setor. (BRASIL, 2012, p.13)

O financiamento das ações do ABC para a agricultura familiar seria


atendido pelas linhas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura
(Pronaf) Eco, para Investimento em Energia Renovável e Sustentabilidade
Ambiental e Floresta, para Investimento em Sistemas Agroflorestais. Os
assentamentos ainda seriam contemplados com recursos não reembolsáveis,
destinados à recuperação e manutenção de recursos naturais (Brasil, 2012).
Sendo assim, parece estar implícito que os juros do Plano ABC para a agricultura
familiar seriam os praticados por essas modalidades do Pronaf, em torno de
1% a 2% ao ano, e não a taxa de 5% ao ano do ABC, aplicada aos demais
produtores. Entretanto, as linhas Pronaf Eco, Floresta e Agroecologia, as quais
poderiam auxiliar na redução da emissão de GEE pela agricultura familiar, ainda
apresentam um reduzido número de contratos, em parte pelo desconhecimento
dos próprios agentes bancários quanto aos seus trâmites operacionais.
De fato, nossos estudos têm demonstrado que ainda é baixo o acesso dos
produtores familiares às políticas como o Programa de Aquisição de Alimentos
(PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). No estado de São
Paulo, por exemplo, encontramos alguma modalidade do PAA em apenas 10,5%
dos municípios (CAMARGO et al., 2013). Existe, sobretudo, grande deficiência
de orquestração entre os diferentes programas de crédito, assistência técnica e
inserção em mercados institucionais.

Diversidade da Agricultura Familiar

Podemos pensar em dois grupos de significados para o termo agricultura


familiar. O primeiro vem dos estudos e trabalhos de pesquisadores e autores,

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


40
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
a maioria com um viés na sociologia rural, que se debruçaram sobre os dife-
rentes grupos de produtores que associam família, trabalho, consumo e posse
dos meios de produção. Na maioria desses trabalhos, a base analítica e concei-
tual deriva dos autores clássicos do campesinato como Chayanov, Mendras,
Shanin, Jollivet, Wolf e identificam no produtor familiar uma herança cam-
ponesa (Wanderley, 1999) que pode estar presente em diferentes nuanças e
influenciar de formas diferenciadas as relações sociais e produtivas dentro de
uma comunidade, aqui entendida como a conjunção de uma localidade e um
grupo social. Nesse caso, parâmetros como tamanho do estabelecimento per-
dem importância frente a um diferencial maior, representado pela presença e
ciclos da mão-de-obra familiar e o papel do consumo e da economia doméstica
no delineamento das atividades produtivas.
O segundo grupo de significados foi sendo cunhado na medida em que
o antigo pequeno produtor ou camponês ganhou um espaço próprio nas polí-
ticas públicas para a agricultura, como categoria específica e diferenciada no
cenário da agropecuária brasileira. Esse reconhecimento foi fruto da pressão
dos movimentos sociais no campo e da própria academia, merecendo destaque
o sindicalismo rural da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
(Contag), que adotaram a expressão “agricultura familiar” como uma categoria
política síntese, que abarcava uma ampla base de atores, como pequenos pro-
prietários rurais, assentados, arrendatários, agricultores integrados às agroin-
dústrias, entre outros, que não podiam mais ser identificados, genericamente,
como trabalhadores rurais ou como pequenos produtores.
A criação do Pronaf, em 1996, levou à necessidade de se estabelecer um
crivo bem definido para delimitar quem poderia ou não se beneficiar do Pro-
grama. A Lei 11.326/2006 estabeleceu parâmetros de tamanho e gerenciamento
do estabelecimento, mão-de-obra e renda para definir o público alvo das polí-
ticas voltadas para a agricultura familiar. Ainda que essa regulamentação tenha
investido o termo agricultor familiar de uma funcionalidade operacional, não
aplaina a variedade de formas encontradas dentro dessa ampla e heterogênea
categoria, e tampouco ameniza a importância de estudos detalhados dos muitos
sistemas de produção nela encontrados. Um dos gargalos para uma maior adoção
dos programas de políticas públicas por produtores familiares é a rigidez de
suas diretrizes, que desconsideram essa heterogeneidade.
Um mesmo bioma pode apresentar uma variada tipologia de produtores
familiares, como os produtores tradicionais, indígenas, quilombolas, ribeirinhos

Os Múltiplos Papéis da Agricultura Familiar


Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco
na Construção de uma Agricultura de 41
Regina Aparecida Leite de Camargo
Baixa Emissão de Carbono
e pescadores profissionais presentes na Mata Atlântica. Por outro lado, biomas
diferentes podem apresentar grupos semelhantes de produtores, ou seja, o
bioma é apenas um dos parâmetros que podem ser usados para distinguir os
agricultores familiares. Um estudo de sistemas de produção, por exemplo, pode
apresentar resultados que perpassam o bioma.
Mas a manutenção da associação entre trabalho e família – traço que
deve ser comum a todos os produtores familiares – faz com que a categoria
seja quase que naturalmente alinhada com um maior cuidado com os recursos
naturais, já que deles depende a sobrevivência e reprodução do grupo familiar.

Sustentabilidade Ambiental
na Agricultura Familiar

Sem adentrar na rica discussão internacional sobre os múltiplos papéis


da agricultura, vale lembrar que no Brasil esse debate ganhou importância
como argumento em prol da agricultura familiar, considerada como uma forma
de organização da produção naturalmente propensa a ser multifuncional. Ou,
quando se pensa em termos de políticas públicas, voltadas especificamente
para esse segmento, “considera-se serem estas as formas que melhor expressam,
efetiva ou potencialmente, o que a noção pretende como um objetivo de polí-
ticas públicas voltadas à promoção de modelos de produção socialmente equi-
tativos, ambientalmente sustentáveis e que valorizem a diversidade cultural e
dos biomas” (CAZELLA, et al., 2009). Ou seja, em princípio, a agricultura fami-
liar tende a fugir da monofuncionalidade criadora de externalidades negativas
para o meio ambiente, típica de uma agricultura puramente produtivista.
Essa tendência tem seu principal alicerce no princípio fundamental da
agricultura familiar - a indissociável junção de trabalho e família. A necessi-
dade de garantir a reprodução do núcleo familiar coloca a produção para o
autoconsumo como uma das metas que orientam a organização dos sistemas
de produção familiares. Embora a agricultura familiar não seja necessariamente
sinônimo de policultivo, como tampouco a não familiar é apenas monocultivos,
a permanência do plantio para o autoconsumo na agricultura familiar moderna
(LAMARCHE,1993,1998; GRISA, 2007; CAMARGO & OLIVEIRA, 2012) garante, em
princípio, uma maior biodiversidade em propriedades familiares se comparadas
com grandes estabelecimentos empresariais.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


42
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Fidelis e Bergamasco (2014), pesquisando comunidades quilombolas no
Vale do Ribeira paranaense, constataram que a agricultura é parte de uma es-
tratégia maior fundada na reprodução e na segurança alimentar no núcleo fami-
liar, que inclui técnicas como a preservação das sementes mais adaptadas às
condições locais e a recomposição da fertilidade do solo através do pousio. Na
comunidade João Surá, foram encontrados cultivares de arroz e de feijão que
estão sendo cultivados e preservados há mais de 200 anos. Igualmente preser-
vados, por diferentes períodos de tempo, foram encontrados cultivares de cana-
de-açúcar, mandioca e café.
Projetos para a implementação dos programas do Plano ABC, em proprie-
dades familiares, devem levar em consideração essa característica básica dos
sistemas de produção familiares, seja na implantação de SAF, como no estímulo
e fortalecimento dos sistemas mais tradicionais, incluindo a manutenção de
material genético crioulo.
A diversidade e complexidade presentes nesses sistemas tradicionais os
tornam mais resistentes às variações climáticas e permitem um melhor aprovei-
tamento dos processos simbióticos, além de aumentar a fixação biológica de
nitrogênio. Mas a manutenção da fertilidade do solo e o abandono de práticas
tradicionais, como as queimadas, ainda se apresentam como grande desafio para
os produtores familiares, sobretudo para a vasta maioria confrontada com a es-
cassez de terra, água e recursos financeiros.
É preciso levar ainda em conta que os agricultores familiares guiam suas
escolhas amparados num conjunto de informações de diferentes origens. O cotejo
dos dados que recebem de técnicos, seja diretamente ou por vias indiretas, como
programas de televisão e rádio, com o que herdam pelos conhecimentos transmi-
tidos dentro da família e/ou comunidade e, com o que acumulam em seu contínuo
processo de experimentação, gera o que Guivant (1977) chama de “conhecimento
híbrido”. As técnicas de cultivo que resultam dessa amálgama precisam ser co-
nhecidas e valorizadas no desenho das intervenções técnicas propostas pelo ABC.

Plano ABC e Serviços de Ater

A necessidade de melhoria nos serviços de assistência técnica e ex-


tensão rural (Ater) é apontada como requisito fundamental para a adoção dos
programas do Plano ABC por agricultores familiares. A questão não se resume,

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na Construção de uma Agricultura de 43
Regina Aparecida Leite de Camargo
Baixa Emissão de Carbono
evidentemente, à existência ou não de serviços de Ater na região, mas remete
à qualidade desses serviços e ao tipo de arranjo institucional mais apropriado
para um trabalho efetivo de extensão rural e não apenas a prestação de assis-
tência técnica.
Um trabalho de extensão rural, com poder transformador e pautado em
práticas participativas, demanda tempo e a atuação de equipes multidiscipli-
nares. Ainda que seja essa a diretriz da nova Política Nacional de Assistência
Técnica e Extensão Rural (Pnater), aprovada em 2010, a realidade tem demons-
trado as dificuldades em transformar as boas intenções em práticas duradouras.
O desenvolvimento da agricultura brasileira reflete as diferentes fases
e arranjos institucionais por que passaram os serviços de Ater e a pesquisa
agropecuária. Do trabalho de cunho humanista iniciado na década de 1940 ao
difusionismo modernizador das décadas de 1970 e 1980, e do sucateamento nos
anos 1990 ao seu renascimento na primeira década do novo milênio, a Ater sem-
pre fez parte do conjunto de políticas públicas para a agricultura, estreitamente
ligada à política de crédito e a um modelo de desenvolvimento rural. Também
mudou ao longo do tempo o papel e o lugar dos produtores familiares no deli-
neamento das metas e diretrizes desse serviço. Se, em sua fase humanista, os
menos capitalizados e tecnificados do campo apareciam como público natural
das iniciativas das então Associações de Crédito e Assistência Rural (Acar) na
fase difusionista, o foco muda para aqueles produtores com capacidade de se
tornarem empresários rurais. A definição da agricultura familiar como público
exclusivo da Ater pública e gratuita na nova Pnater não aponta para um retorno
ao passado, mas reflete as conquistas das entidades e movimentos dos produ-
tores familiares e assentados da reforma agrária, bem como do conjunto de
técnicos alinhados com esse público e com os princípios da agroecologia.
Grosso modo, podemos apontar quatro entraves desestruturantes para
a efetivação de uma Ater capaz de operar uma transformação sustentável, no
duplo sentido de duradoura e ambientalmente correta. A primeira remete à for-
mação acadêmica recebida nos cursos de ciências agrárias, que colocam no mer-
cado técnicos para atuar junto às empresas e produtores do agronegócio, que
desconhecem as diferentes particularidades e especificidades do heterogêneo
público da agricultura familiar e pouco dominam as práticas agrícolas capazes
de reduzir ou reverter os impactos negativos da agricultura no meio ambiente.
A segunda reside nas limitações das entidades de Ater, tanto públicas
como não governamentais: a escassez de técnicos, recursos e infraestrutura

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


44
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
adequada para os projetos e quantidade de produtores leva ao mau atendi-
mento e à descontinuidade das ações. A recém-criada Agencia Nacional de Assis-
tência Técnica e Extensão Rural (Anater), apontaria para a gestão federativa de
uma política articulada e integrada, com a liberação de recursos por chamadas
públicas. Caberia à Agência garantir a articulação entre pesquisa e extensão e
a continuidade dos programas e ações de Ater. Seu funcionamento, no entanto,
ainda é motivo de questionamentos e dúvidas.
A terceira dificuldade pode ser identificada como o “ideário da revolução
verde”. O pressuposto de que só é possível produzir mediante o uso de doses
massivas de agroquímicos está embutido e disseminado entre técnicos e produ-
tores em geral. A própria opção de manter, por exemplo, linhagens varietais de
sementes, ou sementes criolas, se encontra ameaçada pelo uso indiscriminado
de sementes geneticamente modificadas. Que opção tem o produtor familiar
que quer manter-se agroecológico diante da deriva das pulverizações aéreas
de pesticidas? Por outro lado, os poucos técnicos com formação agroecológica
muitas vezes esbarram na resistência de produtores que foram convencidos
num passado recente de que sua produção depende da adoção do pacote “mo-
dernizador”. Há ainda que se considerar que os produtores familiares recebem
informações de diversas fontes, e os mais capitalizados e inseridos em cadeias
produtivas consolidadas são constantemente abordados por representantes de
empresas produtoras e/ou vendedoras de sementes e agroquímicos. Esse tipo de
“assistência técnica” é, por vezes, a única que o produtor recebe.
Por último, é importante retomar outro argumento: em muitas proprie-
dades familiares, a adoção dos programas do Plano ABC depende da regulamen-
tação fundiária e ambiental. Esse é, particularmente, o caso dos assentamentos
de reforma agrária, comunidades quilombolas e territórios indígenas, onde
ambas regulamentações se arrastam interminavelmente na burocracia dos ór-
gãos competentes. Se ampliarmos essa questão para todos os programas que
envolvem a melhoria da produção e renda, temos que a carência de infraes-
trutura básica como estradas e água, bem como a excessiva burocracia na
elaboração de projetos e liberação de recursos, são entraves que independem
da atuação dos técnicos de Ater, mas afetam diretamente seu trabalho.
Ainda que o projeto do Plano ABC aponte, como um dos desafios para
a operacionalização de seus programas, o fortalecimento da oferta de assis-
tência técnica pública e privada em todo o território nacional e a qualificação
de técnicos e produtores para elaboração e implantação de seus projetos, essas

Os Múltiplos Papéis da Agricultura Familiar


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na Construção de uma Agricultura de 45
Regina Aparecida Leite de Camargo
Baixa Emissão de Carbono
ações dependem dos recursos e do bom funcionamento da Anater. Dentre os
técnicos a serem qualificados, deve-se incluir os responsáveis pela carteira de
crédito agrícola das agências bancárias e as empresas responsáveis pela elabo-
ração dos projetos que, como já mencionado, nem sempre dominam os trâmites
necessários.
Uma questão que parece estar ainda em aberto é o tipo de projeto a ser
elaborado para produtores familiares. Seria o projeto formulado nos moldes do
Pronaf Eco, Floresta ou Agroecologia, ou deveria seguir as exigências do ABC,
que incluem itens como a análise química e física do solo, o georreferencia-
mento das áreas a serem recuperadas, a matrícula da propriedade e a certidão
negativa do INSS?
De fato, qualquer programa para a agricultura familiar deveria adotar um
olhar sistêmico, ou seja, considerar a complexidade dos sistemas familiares de
produção, onde o agrossistema e o sistema socioeconômico são indissociáveis.
O desafio que essa complexidade representa nos remete à questão das tecnolo-
gias para a agricultura familiar.
A geração e a transferência de tecnologias suscitam três questões bá-
sicas: por que as tecnologias disponíveis não chegam, ou não são adotadas,
pelos produtores; como são geradas as tecnologias; e qual a sua aplicabilidade/
pertinência para os diferentes tipos de agricultores familiares. Nos últimos
anos, nasceu e cresceu no Brasil o conceito de Tecnologia Social (TS) como dife-
renciada da Tecnologia Convencional (TC) por sua adaptabilidade aos pequenos
empreendimentos autogestionáveis, acessibilidade, caráter não discriminatório,
orientação para o mercado interno e incentivo ao potencial criativo do produtor
direto (DAGNINO, 2010).
Mas como identificar a tecnologia social? Para Dagnino et al. (2010,
p.85), “a TS só se constitui como tal quando tiver lugar um processo de ino-
vação, um processo do qual emerja um conhecimento criado para atender aos
problemas que enfrenta a organização ou grupo de atores envolvidos”. Os au-
tores esclarecem que o caráter coletivo e participativo da tecnologia social se
associa ao conceito de inovação social.
O conceito de inovação social, entendido ali a partir do conceito de ino-
vação – concebido como o conjunto de atividades que pode englobar desde a
pesquisa e o desenvolvimento tecnológico até a introdução de novos métodos
de gestão da força de trabalho, e que tem como objetivo a disponibilização por
uma unidade produtiva de um novo bem ou serviço para a sociedade –, é hoje

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


46
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
recorrente no meio acadêmico e cada vez mais presente no ambiente de policy
making” (DAGNINO, et al., 2010, p.86).
Ou seja, podemos identificar como elementos norteadores das tecnolo-
gias sociais seu caráter coletivo e participativo, e sua capacidade inovadora.
Elas partem de um amplo entendimento da realidade local e dos problemas a
serem superados, e mergulham numa busca conjunta de soluções. Esse processo
pode ser demorado, pois envolve a realização de diagnósticos participativos
para o conhecimento da realidade, tentativas de diferentes soluções para os
problemas levantados e avaliação conjunta dos resultados. No caso do Plano
ABC, o processo torna-se ainda mais lento por envolver o tempo demandado
pela natureza para, por exemplo, recuperar uma área degradada.

Nas diretrizes do Plano ABC


encontramos as seguintes Ações Programadas

hhh “Capacitar produtores rurais em sistemas de iLPF e SAF nos diferentes


estados e regiões, incluindo manejo florestal, recuperação de áreas
produtivas degradadas, de reserva legal, área de preservação perma-
nente, no que couber, e corredores ecológicos, bem como aspectos
relacionados à adaptação às mudanças climáticas” (BRASIL, 2012,
p.89). O mesmo tipo de capacitação, para produtores e técnicos, está
presente nos programas de incentivo a sistemas de plantio direto, de
adoção de práticas de fixação biológica de nitrogênio e no de plantio
de florestas (BRASIL, 2012).

hhh “Realizar eventos de transferência de tecnologia – dias de campo,


palestras, seminários, oficinas, visitas técnicas de agricultores em
sistemas de recuperação de pastagem, fazendas, eventos em Unida-
des de Referência Tecnológica (URT) e/ou em Unidades de Teste e
Demonstração (UTD), em centros de pesquisa etc., entre outras es-
tratégias. (BRASIL, 2012, p.89).

Apesar da pertinência dessas ações, cabe perguntar que tecnologias


estariam sendo transferidas e qual a sua aderência com a realidade e caracte-
rísticas dos diferentes grupos de produtores familiares pelo país afora. Como
mencionamos, as tecnologias sociais, aquelas que em princípio seriam mais

Os Múltiplos Papéis da Agricultura Familiar


Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco
na Construção de uma Agricultura de 47
Regina Aparecida Leite de Camargo
Baixa Emissão de Carbono
adequadas para a agricultura familiar, demandam mais tempo para serem
criadas e necessitam de um trabalho contínuo e participativo de uma Ater que
reconheça o produtor como um agricultor experimentador.

Considerações Finais
Como afirmou Francisco de Assis Costa (Dadesa / NAEA-UFPA), “traje-
tórias tecnológicas são socialmente determinadas”. Podemos argumentar
que o vocábulo “socialmente”, nesse caso, adquire um leque de significados,
estando nele embutidos interesses econômicos e políticos, pressões externas
e internas, demandas de diferentes segmentos da sociedade e assim por
diante. A proposta tecnológica do Plano ABC é produto de todas essas facetas
do social e seus diferentes programas apresentam um interessante potencial
de minimizar ou mesmo reverter alguns dos impactos negativos da agricul-
tura, como a emissão de GEE.
Como acabamos de ver, boa parte dos estabelecimentos que podem ser
classificados de familiares apresentam, pela própria natureza da agricultura
familiar, ou por um esforço deliberado dos produtores, sistemas produtivos de
grande complexidade e diversidade biológica, sendo, portanto, pouco impa-
ctantes ao meio ambiente. Outros demandam a substituição das práticas atuais
por outras de baixa emissão de carbono. Esses sistemas apresentam grande
variação, mesmo dentro de um único bioma, acompanhando a diversidade de
formas da agricultura familiar.
Para uma aplicação efetiva do Plano ABC na agricultura familiar é pre-
ciso um conhecimento aprofundado dos diferentes sistemas produtivos da agri-
cultura familiar nos distintos biomas brasileiros, um serviço de Ater contínuo
e de boa qualidade, trabalhando em conjunto com produtores e pesquisadores,
e com a função de não apenas ser a ponte em um programa de transferência
de tecnologia, mas o facilitador de um processo de criação e irradiação de
tecnologias verdadeiramente sociais. Como bem colocaram Caporal e Costabeber
(2000), a agricultura é um processo de construção social e, portanto, são as
famílias rurais que devem assumir o papel de sujeitos ativos nos processos de
desenvolvimento socioeconômico e cultural de suas comunidades.
Mas igualmente importante, para o êxito de qualquer política voltada
para a agricultura familiar, é sanar suas dificuldades histórias como a dificuldade

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


48
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
de acesso aos recursos naturais, principalmente à terra e à água. O Plano ABC
precisa vir acompanhado de um forte programa de regulamentação fundiária.

referências

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Os Múltiplos Papéis da Agricultura Familiar


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Regina Aparecida Leite de Camargo
Baixa Emissão de Carbono
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Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


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Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
3.
Notas sobre uma
Economia Importante,
(Super) Verde e
(Ancestralmente)
Inclusiva na Amazônia

Francisco de Assis Costa1

1
Núcleo de Altos Estudos Amazônicos,
Universidade Federal do Pará - UFPa.
A dimensão rural é fundamental para o tratamento das dinâmicas e das
perspectivas futuras do desenvolvimento da Amazônia, particularmente, no que
se refere aos temas cruciais da sustentabilidade e da inclusão social. A diversi-
dade estrutural marca profundamente essa realidade, definindo seus atributos
econômicos, ambientais e sociais. Algumas noções têm se mostrado particular-
mente férteis em explicitar de maneira profunda e abrangente que se requer tal
heterogeneidade.
Tem se mostrado eficaz a visão de que na base da dinâmica da economia
rural da Amazônia, existem estruturas produtivas em movimento, configurando
trajetórias que materializam na região grandes paradigmas tecnológicos (COSTA,
2008 e 2009). Uma trajetória tecnológica, nessa perspectiva, é um padrão
usual de atividades que resolvem, com base em princípios estabelecidos por um
paradigma tecnológico, os problemas produtivos e reprodutivos que confrontem
os processos decisórios de agentes concretos, especificamente, nas dimensões
econômica, institucional e social (DOSI, op. cit. 22-23).
A presença imediata da natureza como força produtiva faz a principal
diferença entre a produção rural e a indústria, tendo grande importância no tipo
de dinâmica tecnológica que o desenvolvimento da sociedade capitalista vem
produzindo nesses setores. Em nível global, domina um paradigma ou padrão
tecnológico que se afirma por conjuntos de soluções selecionadas pela efici-
ência demonstrada no controle da natureza para corresponder às necessidades
industriais e capitalistas. Tais soluções se sucedem compondo trajetórias tecno-
lógicas marcadas pelo uso intensivo da mecânica e da química, e pela formação
dos sistemas botânicos e biológicos homogêneos para isso necessários.
Tal paradigma global está presente na realidade amazônica no universo
da produção de bens, controlado pelos agentes produtivos, mediante seus crité-
rios próprios de decisão, e no universo da gestão das políticas públicas, onde
se destacam aquelas que condicionam a produção e difusão de conhecimento
científico e tecnológico.
Todavia, esse paradigma não está sozinho na configuração da realidade
rural da Amazônia. Há outras formas de utilização da base natural da região
que pressupõem a manutenção dos princípios sistêmicos da natureza origi-
nária e configuram por isso, um paradigma tecnológico – que tratamos como
“paradigma agroextrativista” -, porquanto perspectiva particular do uso social
dos recursos e de resolução dos problemas a isso afetos. As soluções daí deri-
vadas organizam trajetórias tecnológicas sobre as quais procuramos discernir.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


54
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Esse paradigma e suas variantes, do mesmo modo que seu concorrente agro-
pecuário dispõe de bases de conhecimento e institucionalidade próprias,
predominantemente tácitas e consuetudinárias, fundamentalmente incorporadas
na cultura da região. Tais acervos se constituem de protocolos de acesso (normas)
e de uso (técnicas) da natureza originária, no quadro de processos produtivos
em que biomas e ecossistemas se reproduzem como capacidade operante (capital
natural), co-determinando (IMMLER, 1990; IMMLER, 1985) o resultado do trabalho.

Diversidade Estrutural na Amazônia


e Seus Sujeitos

Exercitando essas noções, detectamos, a partir de metodologias já


amplamente divulgadas (COSTA, 2008, 2009) e utilizando dados do Censo Agro-
pecuário de 1995, seis trajetórias tecnológicas em evolução na Amazônia, três
camponesas e três patronais, cinco como modalidades do “paradigma agro-
pecuário”, uma do “paradigma agroextrativista”. As características principais
dessas estruturações estão na Tabela 3.1. Em rápidas considerações, marquemos
seus atributos, a saber.

Do Paradigma Agropecuário

hhhTrajetória Camponesa (T1) - reúne o conjunto de 171.292 estabele-


cimentos camponeses cujos sistemas de produção convergem para a
dominância de culturas permanentes e produção de leite. Marcada
por uso mais intensivo do solo entre todas as trajetórias, mantém,
todavia, elevado grau de diversificação e baixa formação de deje-
tos/impacto poluidor, explica 27% do Valor Bruto da Produção Rural
(VBPR), 38% do emprego, 10% da área degradada e 11% do balanço
líquido de carbono.

hhhTrajetória Camponesa (T3) - reúne o conjunto de sistemas campo-


neses que, no interior de 109.405 estabelecimentos, convergem para
sistemas com dominância da pecuária de corte. Explica 19% do VBPR,
28% do emprego, 14% da área degradada e 12,5% do balanço líquido
de carbono.

Notas sobre uma Economia Importante


(Super) Verde e (Ancestralmente) Francisco de Assis Costa 55
Inclusiva na Amazônia
hhh Trajetória Patronal (T4) - Reúne o conjunto dos sistemas de produção
em operação com 27.831 estabelecimentos patronais que convergem
para pecuária de corte. Marcada por uso extensivo do solo, homoge-
neização da paisagem (alto impacto na biodiversidade) e formação
intensa de dejetos, explica 25% do VBPR, 11% do emprego, 70% da
área degradada e 71% do balanço líquido de carbono.

hhh Trajetória Patronal (T5) - Reúne o conjunto de sistemas patronais


que convergem para plantações de culturas permanentes em forma
de plantation. Operada por 4.444 estabelecimentos, é marcada por
uso intensivo do solo e homogeneização da paisagem (alto impacto
na biodiversidade), ao par com baixa formação de dejetos/impacto
poluidor. Explica 6% do VBPR, 2% do emprego, 2% da área degradada
e 3% do balanço líquido de carbono.

Do Paradigma Agroextrativista

hhh Trajetória Camponesa (T2) - Reúne o conjunto de 130.593 estabele-


cimentos camponeses que convergem para sistemas agroflorestais,
com presença de extração de produtos florestais não madeireiros.
Explicava, em 1995,18% do VBPR e 26% do emprego, em contraste com
meros 3,5% da área degradada e 2,6% do balanço líquido de carbono.
Observa-se que essa seria uma trajetória expressiva de um ‘paradigma
agroextrativista’, ao qual os processos produtivos pressupõem, em
algum nível, a preservação da natureza originária.

Sobre este universo empírico centraremos nossos esforços.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


56
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Características das Trajetórias Tecnológicas prevalecentes
TA B E L A 3.1 no setor rural da região Norte.

Trajetórias Camponês Patronal

Características T1 T2 T3 T4 T5 T6 1995
Número de Estabelecimentos 171.292 130.593 109.405 27.831 4.444 3 443.568
Pecuária leiteira 39% 6% 19% 32% 4% 0% 100%

Pecuária de corte 13% 2% 12% 70% 3% 0% 100%

Extrativismo não madereiro 20% 60% 12% 6% 1% 0% 100%


Atividades

Extrativismo madereiro 46% 23% 4% 25% 2% 0% 100%

Silvicultura 2% 1% 0% 1% 0% 97% 100%

Culturas permanentes 49% 22% 11% 6% 11% 0% 100%

Culturas temporárias 31% 23% 32% 13% 1% 0% 100%

Valor Bruto da Produção 29% 18% 18% 28% 4% 2% 9.429.067 (100%)

Pessoal ocupado (TrbEq) 38,6% 26,8% 23,3% 9,6% 1,6% 0,1% 1.873.234 (100%)
Disponibilidade

Área total (Ha) 16,7% 5,4% 12,2% 59,7% 3,8% 2,2% 55.774.533 (100%)
de Fatores

Área de agropecuária (Ha) 12,7% 2,6% 12,3% 69,1% 2,8% 0,5% 26.611.920 (100%)

Por trabalhador (R$/TrbEq) 3.524,15 3.040,91 3.672,48 13.584,86 13.339,13 68.110,98 3.524,15

Por área de agropecuária (R$/Ha) 273,12 507,65 234,99 73,70 185,57 130,51 273,12

Relação Terra/Trabalhador
(Ha/TrbEq) 12,90 5,99 15,63 184,31 71,88 521,89 29,77

Terras (R$ 1.000) 14% 3% 9% 73% 2% 0% 163.281 (100%)

Animais (R$ 1.000) 18% 3% 13% 63% 2% 0% 530.723 (100%)


Disponibilidade

Máquinas (R$ 1.000) 11% 3% 7% 55% 14% 10% 59.993 (100%)


de Fatores

Plantio de permanentes (R$ 1.000) 49% 16% 11% 18% 6% 0% 52.792 (100%)

Plantio de silvicultura (R$ 1.000) 7% 39% 4% 30% 2% 18% 12.626 (100%)

Outros (R$ 1.000) 27% 5% 14% 48% 6% 0% 424.104 (100%)

Total (R$ 1.000) 21% 5% 13% 57% 4% 1% 1.243.519 (100%)

Taxa de Investimento
7% 3% 7% 36% 19% 8% 12%
(% da Renda Líquida)

Area Degradada Associada à Produção


10% 3% 14% 71% 2% 0% 2.281.531 (100%)
(Terras Produtivas não utilizadas)

fonte : IGBE Censo Agropecuário 1995-96; levantamentos anuais de produção agrícola.


Processamentos especiais do autor.

Notas sobre uma Economia Importante


(Super) Verde e (Ancestralmente) Francisco de Assis Costa 57
Inclusiva na Amazônia
Trajetória Camponesa:
Estruturas de uma Economia Baseada em Bioma
O exercício metodológico sintetizado na Tabela 3.1 não deixa dúvidas
ao fato de que a trajetória camponesa é a mais diretamente ligada aos recursos
associados à biodiversidade florestal primária, pois em seu âmbito são produ-
zidos, no Censo de 1995, 60% do extrativismo não madeireiro de toda a economia
rural da região amazônica. Diz-nos mais, todavia, a Tabela 3.1, indicando que
no fulcro da trajetória se organizam sistemas complexos, nos quais culturas
temporárias (que explicam 20% do produto bruto regional) e permanentes (pro-
duz 23% do produto regional) parecem desempenhar funções importantes, ao
lado do extrativismo madeireiro captado pelas estatísticas do Censo (que pro-
duz também em torno de 23%). Na verdade, a perspectiva correta é a de que
a produção florestal de diversidade condicionada pela floresta - a economia
baseada em bioma - se realiza amparada em outra forma de diversidade: a diver-
sidade de atividades, a qual se constitui na forma de adequação territorial da
trajetória. Tal diversidade varia nas proporções em função das contingências
das relações que as estruturas organizam nos territórios, mantendo-se com os
mercados e com outras instituições.
Com efeito, a pesquisa de campo do Grupo de Pesquisa Dinâmica
Agrária e Desenvolvimento Sustentável do NAEA (GPDadesaNAEA) realizada no
ano 19991, em 229 estabelecimentos dessa trajetória, em 113 comunidades
espalhadas por nove ilhas do município de Cametá, na microrregião de mesmo
nome no Pará, sustenta essa possibilidade. Ali se demonstrou o papel central
dos produtos da biodiversidade florestal, consideradas as características dessa
região tocantina, com destaque para o açaí, no contexto de uma diversidade
interna de atividades aos estabelecimentos. Além disso, se expressava uma
divisão de trabalho organizada territorialmente, que tornava complementares
dois grupos de estabelecimentos, agrupados quando da análise dos dados como

1 Financiada pelo DeutscheEntwicklungsDienst (DED), a pesquisa foi realizada pelo GPDadesaNAEA com a cooperação
da Fase e apoio da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri). O intuito imediato do trabalho era
subsidiar a avaliação do FNO Especial, cujos resultados foram publicados em Costa e Tura (2000) e Costa (2000).
O Banco de Dados resultante encontra-se disponível no GPDadesaNAEA. Deutschen Gesellschaft für Internationale
Zusammenarbeit (GIZ).

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


58
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Ribeirinhos e Terra-Firme. Nos dois planos, no micro e no meso, a diversidade
da produção espelhava papeis de autoconsumo, produção intermediária e base
de exportação.
Concretamente, os Ribeirinhos tinham como principal produto o açaí,
produzindo excedente da fruta, ao passo que produziam farinha de mandioca
em nível insuficiente; os de Terra-Firme, ao contrário, produziam excedente de
farinha e insuficiente açaí; ambos os grupos produziam proporções semelhantes
de peixes e outras proteínas, bem como produziam cacau dominantemente extra-
tivo e pimenta-do-reino como “bases de exportação”: itens de portfólio nobres
em suas relações com o mercado. No intercâmbio entre os grupos, se realizava
internamente no território a famosa “dieta tocantina” (açaí, farinha e peixe);
com commodities se acessava a produção do resto do mundo (ver Gráfico 3.1).

Distribuição relativa da produção dos camponeses da T2 em Cametá,


G R Á FI CO 3.1 considerados os sistemas Ribeirinhos e Terra-Firme, em 1999; % do Valor
Bruto da Produção, número de casos considerados: 232 (n=232).

60 %
50 %
40 %
30 %
20 %
10 %
0%
-10 %
Pimenta do Reino
Farinha

Açai

Porco

Manga

Peixe

Galinha

Madeira

Tapioca

Pato

Arroz

Cacau

Palmito

Camarão

Ribeirinho
Milho

Banana

Cupuaçu

Outros

fonte : Pesquisa de campo do GPDadesaNaea.

Notas sobre uma Economia Importante


(Super) Verde e (Ancestralmente) Francisco de Assis Costa 59
Inclusiva na Amazônia
Importância Econômica
e Performance de Crescimento
Refizemos o exercício de delimitação das trajetórias para o Censo de
2006, chegando a resultados compatíveis com o anterior, com duas diferenças:
a Trajetória Patronal (T6), da silvicultura, não se mostrou estatisticamente
relevante e surgiu outra Trajetória Patronal (T7), abrigando os sistemas de
produção patronais que convergiam para a produção de grãos. Incorporaram-se
esses e outros resultados do Censo Agropecuário de 2006 e os dados de demo-
grafia rural e emprego dos Censos Demográficos, inclusive o de 2010 numa base
de metadados. Utilizando esses dados, logramos as análises que seguem.
No Censo de 1995, a Trajetória Camponesa (T2) se revelou importante sob
diferentes aspectos econômicos: fica estabelecido, já ali, que não se trata de
uma economia marginal sob qualquer perspectiva. Na Tabela 3.1, se demonstra
uma taxa de investimentos baixa: 3% da renda líquida, abaixo da metade das

G R Á FI CO 3.2 25.000.000.000 LEGENDA


Dinâmica da Camponesa T1 (3,5% a.a.)
Trajetória Camponesa Camponesa T2 (6,3% a.a.)
(T2) de 1995 a 2011, Camponesa T3 (4% a.a.)
no contexto da 20.000.000.000
Patronal T4 (4,9% a.a.)
produção rural da
região Norte. Patronal T5 (3,4% a.a.)
Médias móveis Patronal T6 (1,4% a.a.)
trianuais do Valor 15.000.000.000 Patronal T7 (13,4% a.a.)
Bruto da Produção
corrigido para
valores de 2011.
10.000.000.000

5.000.000.000

fonte :
Dados do IBGE. 0
Modelagem e
1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

processamento do autor.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


60
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
demais trajetórias camponesas (ambas 7%) e apenas uma fração da T4 (36%).
Não obstante, a T2 foi responsável por nada menos que 39% dos investimentos
captados pelo Censo, como em silvicultura, e 16% dos investimentos em plantios
de culturas permanentes.
Desde 1995 sua importância tem crescido. O VBP da T2 cresceu 6,3% ao
ano (a.a.), ritmo superior ao setor rural como um todo na região Norte, saindo
de R$ 1,7 bilhão (18,3% do total da região Norte), em 1995, para R$ 3,9 bilhões
(22,5% do total), em 2006, e para R$ 5,8 bilhões (26% do total), em 2011.
A renda líquida, por seu turno, cresceu a ritmo ainda maior, de 7% a.a.,
representando no final do período 30% da renda líquida total da região (R$ 5,1
para R$ 17,4 bilhões). O pessoal ocupado (504,8, 569,1 e 603,5 mil em, respe-
ctivamente, 1995, 2006 e 2011) apresentou um incremento de 1,2% a.a. – a
maior taxa entre todas as trajetórias camponesas –, a T1 cresceu a meros 0,1%
a.a. e a T3 a 0,6% a.a., de modo que sua participação no emprego, que era de
26% em 1995, alcançou 29% em 2011 (ver Gráfico 3.3).

Participação relativa da Trajetória Camponesa (T2) de 1995 a 2011,


G R Á FI CO 3.3 na produção rural da região Norte no VBP na renda líquida e no número
de ocupações.

LEGENDA

Participação da T2 no Empreto Total


Participação da T2 na Renda Líquida Total
Participação da T2 no Valor da Produção Total
%
30
28% 29% 29% 29%
28% 28% 28%
27% 27% 27% 27% 28% %
26% 26% 27% 27% 28% 28% 28
26% 27%
2 6% 0%
2 6% 26% 26% 26,
2 5% 2 6% 2 5% 2 6% 2 5% 2%
24% 25% 24,
,9% 24,4%
23,5% 23
22
% % 22,8% 22,4%
22,9% 23,2% 22,9 22,5%
2 1 ,4 21,7% 2 1 , 5% % 21,9%
%
2 0, 3
3%
18,
1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

fonte : Dados do IBGE. Modelagem e processamento do autor.

Notas sobre uma Economia Importante


(Super) Verde e (Ancestralmente) Francisco de Assis Costa 61
Inclusiva na Amazônia
A Territorialidade da T2: Presença e Movimento

A Trajetória Camponesa (T2) é, entre as trajetórias que configuram o rural


na Amazônia, a de origem mais remota no tempo, pois se instalou na região na
segunda metade do século XVIII, com as reformas pombalinas, constituindo
desde então a base da economia colonial do Grão-Pará (COSTA, 1010; COSTA,
2012a; COSTA, 2012c). Daí ter-se desenvolvido e se mostrar forte presença con-
temporânea nas microrregiões de Cametá, Furos de Breves e Portel – lugares
fundamentais da história colonial.
A T2 experimentou, entretanto, movimentos expansivos importantes em
diferentes ocasiões relevantes da história da região, como na primeira fase do
“ciclo da borracha” e na fase que segue à decadência do ciclo, em que seringais se
transformaram em economias camponesas extrativas ou novas economias – como
a da castanha do Pará. A Trajetória-Camponesa estabeleceu, nesse movimento,
suas bases ainda hoje visíveis no vale do Acre e no sudeste paraense. Mais re-
centemente, tanto no sudeste como no sudoeste paraense, cresce a T2 com a
abertura de novas áreas que se formam na esteira de infraestruturas produzidas
nas décadas de 1960 e 1970 e, por último, como estratégias conduzidas por um
número crescente de estabelecimentos camponeses, de regeneração das áreas
agrícolas com maior ou menor grau de degradação.

G R Á FI CO 3.4 Distribuição territorial do VBP da T2 por microrregião em 1995


(% do total).

15%

10%

5%

0%
Cametá
Tomé-Açu
Furos de Breves
Portel
Rio Negro
Coari
Alto Solimões
Castanhal
Bragantina
Belém
Arari
Macapá
Madeira
Tucuruí
Salgado
Tefé
Boa Vista
Rio Branco
Juruá
Brasiléia
Guamá
Paragominas
Colorado do Oeste
Araguaína
Parintins
Japurá
Santarém
Itaituba
Porto Velho
Almeirim
Vilhena
Parauapebas
Porto Nacional
Bico do Papagaio
Guajará-Mirim
Alvorada do Oeste
Gurupi
Rio Preto da Eva
Mazagão
Ariquemes
Outros

fonte : Dados do IBGE. Modelagem e processamento do autor.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


62
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Assim, em 1995, a T2 tinha uma presença extraordinariamente difusa na
região (Gráfico 3.4). Presença que se mantém ampliada até 2011, em micror-
regiões (Gráfico 3.5) e reduzida em umas poucas (Gráfico 3.6).

G R Á FI CO 3.5 Fator de crescimento da T2 entre 1995 e 2011


(VBP de 2011/VBP de 1995) – as microrregiões que expandiram.

15 %

10 %

5%

0%
Purus
Cametá
Rio Negro
Tefé
Oiapoque
Alto Solimões
Rio Preto da Eva
Jalapão
Madeira
Manaus
Amapá
Salgado
Japurá
Itacoatiara
Porto Nacional
Mazagão
Cruzeiro do Sul
São Félix do Xingu
Sena Madureira
Paragominas
Coari
Dianópolis
Juruá
Tucuruí
Miracema do Tocantins
Porto Velho
Tarauacá
Sudeste de Roraima
Guajará-Mirim
Bico do Papagaio
Tomé-Açú
Arari
Furos de Breves
Brasiléia
Macapá
Parintins
Gurupi
Castanhal
Marabá
Itaituba
Rio Formoso
Vilhena
Santarém
Boa Vista
Parauapebas
Nordeste de Roraima
Almeirim
Guamá
fonte : Dados do IBGE. Modelagem e processamento do autor.

G R Á FI CO 3.6 Fator de crescimento da T2 entre 1995 e 2011


(VBP de 2011/VBP de 1995) – as microrregiões reduziram.

1,00
0,80
0,60
0,40
0,20
0,00
Portel

Ariquemes

Araguaína

Alvorada do Oeste

Conceição do Araguaia

Bragantina

Colorado do Oeste

Rio Branco

Cacoal

Belém

Boca do Acre

Redenção

Ji-Paraná

Óbidos

Caracaraí

fonte : Dados do IBGE. Modelagem e processamento do autor.

Notas sobre uma Economia Importante


(Super) Verde e (Ancestralmente) Francisco de Assis Costa 63
Inclusiva na Amazônia
Dinâmica e Variações Contingentes

A T2 é baseada em sistemas que combinam múltiplas atividades por duas


variantes: uma orientada pela dominância de bens e serviços do bioma em
sistemas mistos (silviagrícolas), que acrescentam em proporções variadas a
depender das condições naturais e institucionais vigentes no território onde se
desenvolve, e outra que, ao contrário, se assenta em sistemas onde atividades
agrícolas têm dominância em combinações também variadas, com elementos
florestais originais ou sucessivos (agroflorestal). A diversidade de componentes
da T2 constitui estruturação duradoura a caracterizar o território, sofrendo,
porém, no decorrer do tempo, variações nas proporções dos componentes, em
função das relações com os mercados e suas oscilações.
Com efeito, a variante silviagrícola sofreu forte contestação até 2004.
Desde então, tem recuperado posições em movimento contínuo correlacionado
com a atual fase de fortalecimento da trajetória do setor rural da região. Dito
de outro modo, a importância da T2 cresceu nos últimos tempos por força de um
reposicionamento da sua variante mais propriamente florestal.

G R Á FI CO 3.7 Participação relativa das variantes da Trajetória Camponesa (T2),


de 1995 a 2011 (% do VBP da trajetória).

7
9% 7,6%
71,
7 1 ,6
67% %
67,8%
6 3,5%
66,5% 6
6% % 6 4,6% 66,7% 65,6%
,6 64
,1%
60,2% 56
%

57,6% 58
,7

%
52

%
42% 42
47

4 0% 43
%

% %
36
3 6% 3 4% 3 5% 34%
34% 32% 33%
3 3%
28%
LEGENDA 28%
22%
Trajetória T2: Agroflorestal

Trajetória T2: Silviagrícola


1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

fonte : Dados do IBGE. Modelagem e processamento do autor.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


64
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Peso e Qualidade

A T2 não apenas tem presença difusa e se mostrado expansiva: ela é a


base da economia rural e, por essa via, da economia como um todo, para nu-
merosos e importantes territórios amazônicos. Como pode ser visualizado no
Gráfico 3.8, para sete microrregiões a T2 representava, em 2011, acima de 75%
do VBP rural; para outras 13, entre 25% e 75%.
Um exercício mais detalhado, por município e com os dados do Censo,
em 2006, permite uma observação georreferenciada da territorialidade onde
opera essa base produtiva: na Figura 3.1, os municípios com tons verdes mais
escuros devem mais de 50% do valor de sua produção rural a ela – são 83 nessas
condições, a metade tendo sua economia rural dependendo em acima de 75%;
nos municípios com tons verdes intermediários, a dependência está entre 25%
e 50% - são mais 40 municípios; os de verde mais claro, acima de 25% - são
outros 23. Nos municípios em branco, ela não tem relevância. Dois aspectos
são ressaltados dessa imagem: primeiro, a distribuição dominante da T2 pelas
margens dos grandes e médios rios – resguardando ainda agora sua configuração
especial primordial, a que teve no século XVIII e, segundo, a correspondência,
não obstante tal ancestralidade, com algumas das áreas menos devastadas de
toda a Amazônia.

N
FI GUR A 3.1
LEGENDA Distribuição
W E
Boa Vista espacial dos
Percentuais S
estabelecimentos
0% Macapá da T2, em 2006.
Belém
6.15 a 24.90%
25.13 a 49.51%
50.22 a 98.12%

Manaus

Palmas fonte :
Porto Velho
Rio Branco Dados do IBGE.
Modelagem e
0 190 380 760 1.140 1.520 processamento
Km
do autor.

Notas sobre uma Economia Importante


(Super) Verde e (Ancestralmente) Francisco de Assis Costa 65
Inclusiva na Amazônia
G R Á FI CO 3.8 Participação relativa da T2 na economia rural
(VBP da T2/VBP de todas as trajetórias).

100%
80%
60%
40%
20%
0%
Japurá
Cametá
Rio Negro
Coari
Arari
Salgado
Tomé-Açú
Tefé
Portel
Belém
Furos de Breves
Amapá
Alto Solimões
Madeira
Macapá
Oiapoque
Boa Vista
Mazagão
Castanhal
Bragantina
Tucuruí
Rio Preto da Eva
Juruá
Sena Madureira
Guajará-Mirim
Itaituba
Tarauacá
Purus
Tucuruí
Jalapão
Almeirim
Parintins
Porto Nacional
Colorado do Oeste
Vilhena
Guamá
Nordeste de Roraima
Boca do Acre
Santarém
Bico do Papagaio
Caracaraí
Outros
fonte : Dados do IBGE. Modelagem e processamento do autor.

Performance Distributiva

O aumento do peso da T2 na economia rural da região Norte vem acom-


panhado de crescimento na renda líquida média por trabalhador ao ritmo de
3,2% ao ano, de 1995 a 2011 (ver Gráfico 3.9). Tal ocorrência teve efeito impor-
tante na mobilidade das famílias envolvidas, retirando um volume expressivo
da situação de pobreza, consideradas as definições usuais em termos de renda.
Para uma visão do fenômeno, comparamos as rendas médias da produção
rural das unidades da T2 nos anos de Censo com a linha de pobreza estabelecida
em 2009, considerando três grupos de estabelecimentos-domicílios: aqueles
cuja Renda Líquida da Produção per capita (RLPpc: sem adicionar transferências
ou ganhos fora do estabelecimento) se situava acima da média (chamamos esse
grupo de Acima da Média), os que se punham entre a média e o primeiro quartil
(Remediados) e o abaixo disso (Sob Risco). Os resulta-dos, para valores homo-
geneizados com base em 2009, podem ser avaliados no Gráfico 3.10.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


66
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
G R Á FI CO 3.9 Renda líquida média por pessoa ocupada na T2, valores em R$ a preços
constantes de 2011 – 1995 a 2011 (tendência linear de 3,2% a.a.).

3.173,24
2.595,99
2.409,12
2.387,58

2.197,52
2.187,00

2.029,26
1.883,84

2.441,71

2.136,98

2.040,68
2.008,51
1.630,13

2.021,33

1.940,91
1.461,17
1.342,28
1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011
fonte : Dados do IBGE. Modelagem e processamento do autor.

G R Á FI CO 3.10 Renda Média Per Capita Mensal na Trajetória-Camponês (T2),


por Condição Reprodutiva, 1995 e 2006, R$ de 2009.

800 LEGENDA

R$ 725,57
700
Renda Per Capita 1995

600
Renda Per Capita 2006
500
R$ de 2009

400
R$ 380,89
300 R$ 273,84

200 R$ 180,46
R$ 137,54
100 R$ 60,28
R$ 138,43
R$ 46,01
0
Acima da Média Remediado Sob Risco Média

fonte : Dados do IBGE. Censo Agropecuário 1995 e 2006. Tabulações especiais do autor.

Notas sobre uma Economia Importante


(Super) Verde e (Ancestralmente) Francisco de Assis Costa 67
Inclusiva na Amazônia
Na T2, a RLPpc média cresceu fortemente entre 1995 e 2006, em valores
de 2009; saiu de R$ 137,54 (na menor média de RLPpc de todas as trajetórias
naquele ano) para R$ 380,89 (agora a maior RLPpc), valor bem acima da linha
de pobreza. Para os Acima da Média, a RLPpc quase triplicou, de R$ 273,84
para R$ 725,57. Enquanto para os domicílios Remediados o crescimento foi
próximo de um terço, para os Sob Risco verifica-se uma relativa estabilização.
Por outro lado, são mantidas as proporções de estabelecimentos-domicílios e
trabalhadores nas situações extremas (em torno de 50 mil na melhor e de 15 mil
da pior), reduzindo praticamente pela metade na situação intermediária, de 65
mil para 32 mil estabelecimentos-domicílios (ver Gráfico 3.11).

G R Á FI CO 3.11 Número de estabelecimentos na Trajetória-Camponês (T2),


por Condição Reprodutiva, 1995 e 2006.

70.000 65.524
51.280
60.000
49.361
50.000

40.000
31.987
30.000

20.000

10.000 13.789 15.954

Acima da Média
Remediado
Sob Risco

LEGENDA

Quantidade de Estabelecimentos – 1995 Quantidade de Estabelecimentos – 2006

fonte : Dados do IBGE. Modelagem e processamento do autor.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


68
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Considerações Finais

1. A economia rural baseada em exploração dos recursos florestais da


hh

Amazônia, cuja estruturação dinâmica principal se expressa na Traje-


tória Tecnológica Camponesa (T2), não é uma economia marginal.

2. A T2 tem atributos ambientais de enorme significado para uma estra-


hh

tégia de desenvolvimento sustentável: porque sua economia pressu-


põe manutenção e regeneração do bioma, apresenta inócuo balanço
de carbono e baixíssima geração de áreas degradadas.

3. A economia baseada na T2 tem origem histórica no período colonial,


hh

com acréscimos que se fizeram em diferentes momentos referidos a


distintos territórios da Amazônia. A T2 é, por isso, difusa e cultural-
mente enraizada, cobrindo grande parte da região.

4. A T2, importante no agregado para a economia da região, se mostra


hh

extraordinariamente importante para as economias de extensas


áreas e vastas populações.

5. A economia baseada na T2 é dinâmica, isto é, apresenta momentos


hh

de depressão, mas vive momentos de crescimento, como o que vem


se verificando.

6. Em fase ascendente, a T2 tem representado um contexto estrutural


hh

que tem levado à mobilidade ascendente de um número expressivo


de famílias na região.

7. O momento dinâmico da T2 se associa à cadeias de produto e valor


hh

nas quais arranjos industriais vêm se constituindo.

8. O ambiente institucional parece desconhecer a T2 – trata-se da eco-


hh

nomia rural com menor densidade institucional.

9. Uma estratégia de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) orientada à


hh

T2 deverá contemplar a dimensão rural, a logística e os nodos indus-


triais, com suas peculiaridades.

Notas sobre uma Economia Importante


(Super) Verde e (Ancestralmente) Francisco de Assis Costa 69
Inclusiva na Amazônia
10. Na dimensão rural:

a) desenvolver conhecimentos de base e aplicados que foquem


h

os sistemas produtivos e suas ecologias – ao invés da tradição


agronômica do produto no curto prazo;

b) o conhecimento ajustado às necessidades da T2 terá que ser amol-


h

dado aos diferentes territórios – ao invés da tradição da pesquisa


agronômica que busca padrões generalizáveis, com ajustes apenas
ao sistema edafoclimático;

c) o conhecimento ajustado às necessidades da T2 terá que ter


h

ênfase biológica ao invés da tradição agronômica da ênfase


mecânico-química.

11. Na dimensão logística:

a) os estabelecimentos da T2 operam em vastas áreas – a unidade


h

fundiária (o lote) é apenas um ponto do espaço bem mais amplo


onde opera a família camponesa. Há questões de mobilidade pró-
prias desse processo produtivo que devem ser enfrentadas como
problemas tecnológicos;

b) a logística que articula a produção da T2 com os mercados constitui


h

campo próprio a requerer soluções tecnológicas de diversos tipos.

12. Na dimensão industrial:

a) quanto aos fundamentos de capital (hardware): desenvolver uma


h

linha de investigação tecnológica relativa a equipamentos e


meios de produção ajustados às necessidades da produção da T2;

b) quanto aos processos: há um conjunto de necessidades ligadas à


h

química dos produtos da T2 e à engenharia de alimentos;

c) quanto aos produtos finais: um vastíssimo campo de possibilidades.


h

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


70
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
referências

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72
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
4.
Promoção do Bem-Estar
dos Produtores Familiares
com uso de Sistemas de
Produção Agropecuários e
Florestais de Baixo Carbono
no Bioma Amazônia

Judson Ferreira Valentim1


Rachael D. Garrett2

1
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa Acre.

2
Boston University.
O Brasil está em processo de transição para se tornar uma nação desen-
volvida. A taxa de crescimento econômico e a melhoria do bem-estar social de-
penderão, em grande parte, da capacidade e criatividade brasileira para utilizar
de forma vantajosa o bônus demográfico que experimentará nas próximas duas
décadas (VASCONCELOS & GOMES, 2012; ALVES et al., 2013), suas formidáveis
reservas de recursos minerais (BLOOMBERG, 2012; BRASIL, 2012b) e, particu-
larmente, seus estoques de recursos naturais renováveis (biodiversidade, solo,
água e energia solar) (BOUND, 2008). Entre outros fatores, o desenvolvimento
de um sistema efetivo de inovação e acesso ao conhecimento é essencial para
maximizar os benefícios econômicos e sociais sem degradar a base de recursos
naturais renováveis. Caso tenha sucesso, o Brasil será capaz de conciliar a pro-
moção do bem-estar desta e das futuras gerações com a conservação ambiental.
O desafio do desenvolvimento sustentável é particularmente relevante
no contexto do bioma Amazônia que contém 40% das florestas tropicais rema-
nescentes e é uma das principais fontes de segurança alimentar e de renda para
produtores familiares e de matérias-primas para o setor industrial. A Amazônia
provê serviços ambientais vitais para a população local e global, tais como a
manutenção de estoques de carbono entre 83-116 bilhões de toneladas na bio-
massa florestal (MALHI et al., 2006; SAATCHI et al., 2007), manutenção da
biodiversidade, dos ciclos hidrológicos e regulação do clima (LAURENCE et al.,
2001). O rio Amazonas flui por mais de 6.600 Km e responde por 15-20% do
fluxo global de água dos rios para os oceanos (SALATI & VOSE, 1984). O bioma
Amazônia contém 56% da população indígena do Brasil (Ipea, 2008), mantendo
uma vasta diversidade étnica e cultural (HECKENBERGER et al., 2007; DAVIDSON
et al., 2012). Entretanto, uma população crescente (IBGE, 2013a) e a expansão
da agropecuária comercial movida pela demanda do mercado nacional e inter-
nacional contribuiu para acelerar o processo de desmatamento nos últimos
40 anos (DEFRIES, 2010; INPE, 2013), estabelecendo um processo de desen-
volvimento insustentável na Amazônia brasileira. A questão é como conciliar
a melhoria do bem-estar de centenas de milhares de produtores familiares de
baixa renda por meio de sistemas de produção agropecuários, agroflorestais e
florestais de baixo carbono com a conservação do bioma Amazônia. Produtores
familiares, segundo a Lei Federal 11.326/2006 são definidos de acordo com o ta-
manho da propriedade, o uso predominante da mão-de-obra familiar e a propor-
ção da renda proveniente da propriedade (BRASIL, 2006). Como consequência,
a categoria de produtor familiar inclui muitos subgrupos sociais diferentes, tais

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


76
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
como colonos vivendo em assentamentos de reforma agrária governamentais,
famílias vivendo em reservas extrativistas, produtores ribeirinhos vivendo ao
longo das margens do rio Amazonas e seus afluentes, pequenos produtores vi-
vendo em áreas privadas e aqueles em áreas públicas sem regularização fundiária.

Produção Agropecuária
e Florestal Familiar na Amazônia

No Brasil, o bioma Amazônia possui uma área de 4,2 milhões de Km2 e


cobre 49,3% do território nacional e 80% da região Norte, partes dos estados
do Mato Grosso, Tocantins e Maranhão (IBGE, 2004). Embora a taxa de desmata-
mento anual tenha sido reduzida em 73%, entre 2004 e 2013, de 27.772 Km2
para 5.843 Km2, a área desmatada acumulada alcançou 18,8% (778 mil Km2) da
área total de floresta do bioma Amazônia em 2013 (INPE, 2013). Isso é quase
equivalente à área total do Chile. Pastagens cultivadas e vegetação secundária
(capoeiras) são os principais usos da terra nas áreas desmatadas, mas a agri-
cultura de subsistência e a mecanizada também ocupa parte considerável dessas
áreas (NEPSTAD et al., 2009; EMBRAPA & INPE, 2013).
A maioria da produção na Amazônia é de pequenos produtores familiares,
de acordo com a definição acima. Em 2006, os produtores familiares respon-
diam por 71,3% dos 475.775 estabelecimentos rurais na região Norte do Brasil,
ocupando 24,3% da área total. Esses estabelecimentos respondiam por 43,6%
do valor bruto da produção (VBP) agropecuária na região, produzindo a maior
parte do café, leite e mandioca, e boa parte do milho, bovinos e bubalinos
(Tabela 4.1). A participação dos produtores familiares na produção de soja e
cana-de-açúcar é muito baixa.

Trajetórias % da Produção TA B E L A 4.1


Participação dos
Café 76% produtores familiares
Leite 61% no valor bruto da
Mandioca 60%
produção dos
principais produtos
Milho 49% agrícolas e pecuários
Bovinos e Bubalinos 39% na região Norte em
Soja 3%
2006.
fonte :
Cana-de-açúcar 2%
FGV & IBRE, 2010.

Promoção do Bem-Estar dos Produtores Familiares


Judson Ferreira Valentim
com uso de Sistemas de Produção Agropecuários e 77
Rachael D. Garrett
Florestais de Baixo Carbono no Bioma Amazônia
Em geral, os produtores familiares de todos os grupos sociais do bioma
Amazônia têm acesso a um bom estoque de recursos naturais, com alta diversi-
dade de flora e fauna, boa disponibilidade de água durante o ano em pequenos
igarapés e médios e grandes rios, além de condições climáticas favoráveis para
o crescimento de plantas e animais. A relação entre o estoque de capital natural
e o bem-estar social dos produtores familiares (segurança alimentar e geração
de renda) depende, principalmente, do uso dos seus conhecimentos tradicio-
nais em diferentes estratégias de manejo dessa base de recursos naturais para
alcançar seus objetivos de segurança alimentar e geração de renda (BARRETT
et al., 2011).
Comunidades extrativistas constituem um importante grupo social de
produtores familiares que ocupam 8,1 milhões de hectares de florestas públi-
cas no bioma Amazônia. Essas áreas foram estabelecidas como unidades de
conservação para uso sustentável na categoria de reservas extrativistas e são
manejadas por conselhos compostos por representantes das comunidades lo-
cais, instituições governamentais e organizações não governamentais (Ibama,
2007; Ibama, 2012). Essas famílias dependem predominantemente da extração
de produtos não madeireiros tais como látex da seringueira (Hevea brasiliensis),
óleo da copaíba (Copaifera spp.), coleta de castanha-do-brasil (Bertholletia ex-
celsa), frutos de açaí (Euterpe oleracea e Eutherpe precatoria), andiroba (Carapa
guianensis) e buriti (Mauritia flexuosa) para autoconsumo e geração de renda
(DOBOIS, 1996). Essas famílias também praticam a agricultura de derruba e
queima (1-2 hectares por ano), além da caça e pesca artesanal para sua se-
gurança alimentar (VADJUNEC & ROCHELEAU, 2009). Embora as reservas ex-
trativistas venham sendo criadas no Brasil desde 1988 (Brasil, 1988; Brasil,
2000), a maioria das famílias ainda apresenta baixa renda e está gradualmente
expandindo a atividade de pecuária bovina extensiva como fonte de renda e de
poupança, o que contribui para aumentar a pressão de desmatamento (VOSTI et
al., 2001; CARPENTIER et al., 2005; SALISBURY & SCHMINK, 2007; GOMES, 2009;
Ibama, 2012).
Os produtores que vivem em uma área de 35,7 milhões de hectares em
1.868 projetos de assentamento do Governo Federal, com capacidade para abrigar
398.000 famílias (ALENCAR et al., 2013), constituem outro importante grupo
social no bioma Amazônia. A partir da década de 1960, esses produtores recebe-
ram entre 80-100 hectares de florestas em assentamentos ao longo das rodo-
vias federais (principalmente Transamazônica, Santarém-Cuiabá, Belém-Brasília,

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


78
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Cuiabá-Rio Branco e BR-317) e estaduais. Isso fazia parte de uma estratégia que
objetivava, simultaneamente, proteger a região de interesses internacionais por
meio do seu desenvolvimento e integração ao restante do território nacional,
e resolver problemas de famílias sem-terra e de pobreza em outras regiões do
Brasil por meio de um programa de colonização e reforma agrária (SCHMINK &
WOOD, 1992). Esses produtores tinham permissão para converter até 50% de
suas propriedades para desenvolvimento de atividades agrícolas e pecuárias e
tinham que manter os outros 50% como Reserva Legal (RL). Em 1996, o go-
verno federal aumentou a RL para 80% da área de cada propriedade no bioma
Amazônia (BRASIL, 2001). A maioria dos produtores deixou de cumprir essa
nova lei e converteu grande parte de suas áreas para a agricultura de derruba e
queima e pecuária bovina mista de carne e leite.
A partir do final da década de 1980, o governo federal passou a melhorar
a infraestrutura das rodovias, o que aumentou a integração dos produtores fami-
liares da Amazônia ao mercado local, nacional e internacional. Simultaneamente,
o governo começou a prover crédito de baixo custo (com taxas de juros abaixo
da inflação) para a agricultura. Esses dois fatores tornaram possível aos produ-
tores familiares em assentamentos e nas comunidades extrativistas realizarem
a transição da agricultura de derruba e queima para a pecuária bovina extensiva
(VOSTI et al., 2001; GOMES, 2009; VADJUNEC et al., 2011). Recursos de fundos
públicos, como o Fundo Constitucional do Norte (FNO) são destinados a promover
a agricultura e pecuária apenas em áreas já desmatadas. Desde 1990, existem
leis específicas proibindo o financiamento do desmatamento. Entretanto, o
desmatamento para a expansão da pecuária entre produtores familiares ainda é
facilitado pelo acesso ao crédito subsidiado (BARRETO & ARAÚJO, 2012). Isso
ocorre porque parte dos recursos destinados a cobrir custos de melhoria das
atividades agropecuárias nas áreas desmatadas são investidos na aquisição de
insumos (principalmente sementes e arame para cercas), além de vacas e touros
para expansão da pecuária. A expansão da pecuária entre os produtores fami-
liares também é facilitada pela vizinhança com médios e grandes pecuaristas
devido às relações de trabalho e de transferência de conhecimentos entre os
dois grupos. Os produtores suprem a demanda de mão-de-obra dos médios e
grandes pecuaristas em troca do salário, mas também recebem conhecimentos e
habilidades relacionados à atividade pecuária. Os pequenos produtores também
realizam parcerias com os médios e grandes produtores para iniciar seus reba-
nhos, pagando com parte das crias.

Promoção do Bem-Estar dos Produtores Familiares


Judson Ferreira Valentim
com uso de Sistemas de Produção Agropecuários e 79
Rachael D. Garrett
Florestais de Baixo Carbono no Bioma Amazônia
A pecuária é uma atividade econômica atrativa na Amazônia porque
não demanda muita mão-de-obra ou infraestrutura para o transporte (VOSTI
et al., 2001). Um benefício adicional para os produtores de baixa renda é que
o rebanho serve como uma caderneta de poupança. O mercado pecuário apre-
senta preços bem estáveis, uma vez que os médios e grandes pecuaristas estão
sempre dispostos a pagar bons preços pelos bezerros para recria e engorda em
seus rebanhos. Também existe grande número de pequenos abatedouros locais,
médios e grandes frigoríficos bem distribuídos em toda a Amazônia e facil-
mente acessíveis aos pequenos produtores. Como consequência, tornou-se uma
das principais estratégias dos produtores familiares, investir grande parte do
estoque de capital natural (florestas) e humano (mão-de-obra familiar) dispo-
nível em suas propriedades na expansão da pecuária com o objetivo de aumentar
o bem-estar de suas famílias.

Fontes de Emissão de GEE


da Produção Familiar

De acordo com o governo do Brasil, em 2005, 77% das emissões nacionais


de gases de efeito estufa (GEE) eram provenientes do desmatamento e mudanças
no uso da terra, com o desmatamento no bioma Amazônia respondendo por 67%
dessas emissões. Em 2008, devido à redução do desmatamento, as mudanças no
uso da terra responderam por 40% das emissões de GEE do Brasil. A produção
agropecuária foi responsável por 25% das emissões de GEE (MCT, 2010; World
Bank, 2010). Em 2010, o uso da terra nas áreas desmatadas no bioma Amazônia
consiste em 61,2% de pastagens, 22,3% de vegetação secundária, 5,4% de
agricultura e 10,2% de outros usos (Embrapa & Inpe, 2013). Desmatamentos com
área menor do que 50 hectares responderam por 73% de todo o desmatamento no
bioma em 2009 (ROSA et el., 2012). Uma análise da área de 1.868 assentamentos
federais na Amazônia mostrou que 36% dos 35,7 milhões de hectares da área
destes assentamentos (12,8 milhões de hectares) estava desmatada, embora
parte do desmatamento tenha ocorrido antes da sua criação. Nos últimos oito
anos, tem havido uma tendência de redução do desmatamento nesses assenta-
mentos, semelhante àquela observada para o bioma (ALENCAR et al., 2013).
A floresta amazônica possui estoques de carbono entre 280 e 450 tone-
ladas por hectare, dependendo das diferentes tipologias florestais (PBMC, 2013).

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


80
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
A combustão pelo fogo para a agricultura de derruba e queima e implantação
de pastagens para a pecuária libera de 42% a 57% do estoque de carbono na
biomassa florestal acima do solo. Perdas de estoques de nutrientes acima do
solo podem alcançar 56% para o carbono, 68% para o nitrogênio, 49% para o
enxofre e 32% para o fósforo (KAUFFMAN et al., 1995). Os processos de lixi-
viação e erosão reduzem gradualmente os estoques de nutrientes do solo du-
rante as fazes de agricultura e pecuária. Isto resulta na degradação do solo,
aumento da incidência de plantas nativas herbáceas e arbustivas e torna essas
áreas improdutivas após 8-10 anos de uso com agricultura e pecuária (SERRÃO
et al., 1996; FUJISAKA & WHITE, 1998; ALMEIDA et al., 2006; DIAS-FILHO,
2011; SOMMER et al., 2013). No passado, com menor densidade populacional
e menos acesso aos mercados, os produtores familiares praticavam a agricul-
tura migratória. Periodicamente, eles desmatavam novas áreas de florestas
para o cultivo e abandonavam as áreas degradadas, permitindo a regeneração
gradual da vegetação secundária por meio de sementes dispersas das áreas de
florestas. Esse padrão de uso da terra ainda predomina em reservas extrati-
vistas e áreas indígenas em regiões mais isoladas da Amazônia, e onde as
áreas de floresta por família variam de 300 a alguns milhares de hectares.
Entretanto, nos projetos de assentamento e nas áreas de reservas extrati-
vistas com melhor acesso aos mercados, a maior parte das áreas atualmente
desmatadas para a agricultura de subsistência é posteriormente convertida
em pastagens cultivadas para a pecuária.

Desafios para Redução de Emissões de GEE


na Agricultura Familiar

A população da Amazônia está crescendo à taxas mais altas do que a


média brasileira, mas o bem-estar social, em termos de renda, saúde e níveis de
educação, está bem abaixo da média do país (IBGE, 2012). No Brasil, 3,2 milhões
de famílias rurais viviam na extrema pobreza (R$ 70,00 ou aproximadamente
US$ 1,25 per capita por dia) em 2006. A maioria é de produtores familiares
e 9,4% (300.800) vivem na região Norte no bioma Amazônia (ALVES et al.,
2013; VIEIRA FILHO, 2013). Quase todos os estados da região Norte apresentam
índices mais altos de pobreza extrema, mortalidade infantil e analfabetismo
do que a média brasileira (Tabela 4.2).

Promoção do Bem-Estar dos Produtores Familiares


Judson Ferreira Valentim
com uso de Sistemas de Produção Agropecuários e 81
Rachael D. Garrett
Florestais de Baixo Carbono no Bioma Amazônia
TA B E L A 4.2
Pobreza Anafalbetismo Mortalidade
Indicadores sociais Estado
Extrema (%) Adulto (%) Infantil (1/1.000)
da região Norte do
Brasil, comparados Acre 12,6% 16,5% 20,4
com a média Amapá 8,6% 8,4% 25,4
nacional em 2010.
Amazonas 13,3% 9,6% 20,6
Pará 14,4% 11,7% 21,5
Rondônia 4,8% 8,7% 18,9
Roraima 8,8% 10,3% 18
Tocantins 8,3% 13,1% 20,5
fonte :
IBGE, 2012.
Média do Brasil 6,3% 9,6% 16

A taxa de desmatamento causado pelos pequenos produtores já foi


substancialmente reduzida em função do aumento da efetividade dos órgãos
ambientais no cumprimento da exigência de manutenção da Reserva Legal. O
aumento da efetividade do monitoramento ambiental é resultado de mudanças
nas políticas públicas, com o estabelecimento, em 2004, do Plano de Prevenção
e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) (MMA, 2013). Esse
plano combinou a integração das ações do governo federal e dos governos
estaduais, o uso do Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real
(Deter), desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e
o aumento do número e da qualificação dos técnicos e analistas e a melhoria
da infraestrutura (veículos e equipamentos de informática) das instituições
ambientais. O uso efetivo das informações geradas e disponibilizadas pelo Deter
ajudou a reduzir o desmatamento no bioma em 59%, evitando a perda de 59.500
Km2 de florestas entre 2007 e 2011 (ASSUNÇÃO & GANDOUR, 2013). Apesar da
redução do desmatamento, a produção agrícola e pecuária na Amazônia continua
crescendo, como resultado de ganhos de produtividade (VALENTIM & ANDRADE,
2009; MARTHA et al., 2012), da conversão de áreas de pastagens para agricultura
e da expansão das pastagens em áreas recém-desmatadas (Embrapa & Inpe,
2013). Políticas sociais com objetivo de melhorar o bem-estar das famílias que
vivem em condições de extrema pobreza e pobreza no Brasil também estão tendo
efeito positivo na redução do desmatamento (SERRANO et al., 2013). Em 2013,
foram destinados R$ 24 bilhões, beneficiando 13,8 milhões de famílias (12%
na Amazônia) no Programa Bolsa Família. Esse é um programa de transferência
direta de renda média mensal de R$ 156,00 para famílias muito pobres e pobres,

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


82
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
condicionada ao cumprimento de obrigações relacionadas à educação e saúde
das famílias (CAMPELO & NERI, 2013). O Bolsa Verde é outro programa social
que provê transferência direta de renda trimestralmente, para mais de 40.000
famílias em condições de extrema pobreza ou pobreza e que vivem em áreas
de proteção ambiental e unidades de conservação ambiental nos diferentes
biomas brasileiros (ICMBio, 2013). Entretanto, embora esses programas sociais
produzam impactos sociais, econômicos e ambientais positivos a curto e médio
prazo (CAMPELO & NERI, 2013; SERRANO et al., 2013), o seu futuro é ameaçado
pelo baixo crescimento econômico e altas taxas de inflação no Brasil. Mesmo
se as atuais transferências de renda forem mantidas, o seu poder de compra
de alimentos, bens de consumo e serviços vai sendo gradualmente reduzido
devido às altas taxas de inflação. Caso os valores das transferências de renda
não sejam reajustados para manter o poder de compra de bens e serviços em
relação à inflação, os produtores familiares serão forçados a retomar suas
práticas de agricultura de derruba e queima para atender às necessidades de
segurança alimentar e renda para suas famílias.
Com o novo Código Florestal brasileiro aprovado (BRASIL, 2012), não
houve alteração do ativo florestal, estimado em um máximo de 99±6 Mha. Em
relação ao passivo ambiental, ou seja, a área a ser recomposta, houve uma
redução de 58%, ela foi reduzida de 50±6 para 21±0,6 Mha (SOARES-FILHO,
2013). Os produtores receberam anistia pelo desmatamento de Reserva Legal
ocorrido até 2008. Isso reduziu em 95% o passivo ambiental de reserva legal nos
1.868 assentamentos governamentais no bioma Amazônia. Esses assentamentos
ainda mantêm um ativo florestal de 20,3 milhões de hectares (ALENCAR et al.,
2013) que pode ser usado para manejo florestal sustentável, pagamento por
serviços ambientais e em acordos de compensação do passivo de Reserva Legal
de médios e grandes produtores. Essa anistia permite aos produtores familiares
registrar e regularizar suas propriedades no Cadastro Ambiental Rural (CAR),
cumprindo uma exigência essencial para que eles acessem os programas de
créditos governamentais subsidiados. Mesmo com a implementação do Programa
Terra Legal (MDA, 2013a), com o objetivo de regularizar a posse da terra na
Amazônia, a falta de documentação legal da terra ainda permanece como uma
importante barreira para o acesso dos produtores ao crédito (BARRETO & SILVA,
2013). Sem acesso ao crédito, não é possível aos produtores familiares fazer
a transição da agricultura de derruba e queima e da pecuária extensiva para
sistemas de produção agrícolas, pecuárias e florestais de baixo carbono.

Promoção do Bem-Estar dos Produtores Familiares


Judson Ferreira Valentim
com uso de Sistemas de Produção Agropecuários e 83
Rachael D. Garrett
Florestais de Baixo Carbono no Bioma Amazônia
As instituições de financiamento federais estão gradualmente opera-
cionalizando novas linhas de crédito (com taxas de juros entre 0,5% e 4%)
que exigem a adoção de tecnologias que aumentam a produtividade agrícola
e florestal e reduzem os impactos ambientais (Banco do Brasil, 2013; Basa,
2013; MDA, 2013b). Entretanto, o fato dessas mesmas instituições financiado-
ras oferecerem linhas de crédito tradicionais, com taxas de juros semelhantes,
representa uma importante barreira para a transição dos produtores familiares
da agricultura de derruba e queima e da pecuária extensiva para sistemas de
produção agropecuários e florestais mais produtivos e com menor emissão de
carbono. Além disso, um conjunto complexo de exigências associado à lentidão
dos processos burocráticos de análise e aprovação pelas instituições financia-
doras reduz o acesso dos produtores familiares ao crédito.
Apesar da redução do desmatamento e do vasto número de instituições
públicas, privadas e não governamentais que tem como objetivo contribuir para
aumentar a produtividade, a rentabilidade e a sustentabilidade dos sistemas de
produção dos produtores familiares, a falta de acesso às políticas e tecnolo-
gias que efetivamente agreguem valor aos produtos florestais madeireiros e
não madeireiros, e aumentem a renda familiar por meio do manejo florestal
sustentável cria fortes desestímulos aos produtores familiares a manter suas
áreas de florestas. Nessas condições, os produtores frequentemente recorrem
ao desmatamento ilegal para garantirem sua renda. Consequentemente, ainda
existe muito trabalho a ser feito para aumentar a efetividade do sistema de
inovação para o desenvolvimento, validação e provisão efetiva de sistemas
de acesso às informações e conhecimentos para que os produtores familiares
consigam garantir sua segurança alimentar e gerar renda sem desmatar.
Os serviços de assistência técnica e extensão rural (Ater) são defici-
entes em relação à quantidade, qualidade e capacidade de efetivamente assistir
os produtores familiares no estabelecimento e manejo de sistemas agrícolas,
pecuários e florestais com maior nível tecnológico (BARRETO & SILVA; MAY
et al., 2005; ALMEIDA et al., 2006; SÁ et al., 2007). Apenas 5,7% dos produ-
tores familiares têm acesso aos serviços de Ater na região Norte (BITTENCOURT,
2005). De acordo com 80% das lideranças do município de Tefé, Amazonas, os
serviços de Ater foram considerados fracos e as principais causas eram recursos
humanos, financeiros e veículos insuficientes e infraestrutura inadequada
(SILVA et al., 2006). Um diagnóstico com comunidades de produtores familiares
em sete municípios do Pará (Almeirim, Curuçá, Monte Alegre, Óbidos, Oriximiná,

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


84
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Santarém e Terra Santa) mostrou que 51% dos produtores estavam insatisfeitos
com a quantidade e a qualidade dos serviços de Ater (BARBOSA et al., 2012).
Outro aspecto relevante a limitar adoção das tecnologias tem sido a baixa
capa-cidade das instituições de pesquisa e de Ater de integrar conhecimentos
científicos e tradicionais no desenvolvimento e disseminação de novas tecno-
logias (COSTA, 2005).
A infraestrutura de transporte, saúde e educação também limitam a
produtividade e o bem-estar dos produtores familiares. As condições precárias
das estradas vicinais (BARRETO & SILVA, 2013) e rodovias (TCU, 2007) e as
deficiências na infraestrutura de armazenagem restringem o acesso dos produ-
tores ao mercado, tanto para comprar insumos agropecuários e outros bens de
consumo, como para vender seus produtos. Doenças endêmicas, como a malária,
associadas à deficiência dos serviços de atendimento básico de saúde nas áreas
rurais, ainda causam efeitos drásticos no bem-estar dos produtores e reduzem
a força de trabalho familiar. Em 2011, mais de 267.000 casos de malária foram
registrados no Brasil e 97% deles ocorreram no bioma Amazônia (Ministério da
Saúde, 2013). As deficiências do sistema de educação pública, particularmente
em relação à carência de escolas técnicas nas áreas rurais, são uma importante
barreira impedindo o maior acesso dos produtores familiares às informações e
conhecimentos sobre práticas de manejo que poderiam aumentar a produtivi-
dade e rentabilidade, e reduzir os impactos ambientais em suas propriedades.
Os produtores familiares resistem em adotar novos sistemas de produção de
baixo carbono quando não detêm os conhecimentos técnicos e a capacidade
de manejar esses sistemas. Também é essencial que os produtores familiares
conheçam exemplos de sucesso de outros produtores do seu grupo socioeco-
nômico e nas suas condições ambientais que adotaram essas tecnologias com
ganhos de produtividade e rentabilidade em relação aos sistemas tradicionais.
Sem isso, os produtores evitam arriscar suas terras e mão-de-obra familiar na
adoção de novos sistemas de produção com os quais eles não estão familiari-
zados, além do receio de não ter condições de pagar seus empréstimos.
Os grupos de produtores familiares da Amazônia geralmente apresentam
baixos níveis de organização social em associações e cooperativas (MFRURAL,
2013). Isso é mais significativo nos projetos de assentamento, onde os produ-
tores são provenientes de diferentes regiões com culturas e tradições agro-
pecuárias diferentes. O baixo nível de organização social inibe a capacidade
desses produtores de demandar melhores serviços de Ater, educação e saúde.

Promoção do Bem-Estar dos Produtores Familiares


Judson Ferreira Valentim
com uso de Sistemas de Produção Agropecuários e 85
Rachael D. Garrett
Florestais de Baixo Carbono no Bioma Amazônia
Também restringe sua capacidade de demandar dos governos municipais e esta-
duais melhorias na infraestrutura de estradas, energia e armazéns. O baixo nível
de associativismo e cooperativismo também reduz a capacidade desses produ-
tores familiares de exercerem seu poder coletivo na negociação de condições
mais vantajosas tanto na compra de insumos e bens de consumo, quando na
organização da produção e comercialização dos seus produtos.

Oportunidades para a
Agricultura Familiar

Apesar dos desafios, das iniciativas da Empresa Brasileira de Pesquisa


Agropecuária (Embrapa), de outras instituições governamentais de pesquisa e
de organizações não governamentais em desenvolver e promover o acesso dos
produtores familiares a tecnologias resultaram em exemplos encorajadores
de como pode ser possível aumentar o bem-estar das famílias e, simultanea-
mente, reduzir os impactos ambientais dos seus sistemas de produção. O
Balanço Social da Embrapa de 2012 mostra que os produtores familiares
foram os beneficiários de mais de 80% das tecnologias agrícolas, pecuárias
e florestais desenvolvidas por seus centros de pesquisa na Amazônia Legal
(Embrapa , 2013). A Embrapa desenvolveu e disseminou cultivares de gramí-
neas e leguminosas forrageiras, cultivares de culturas anuais (arroz, feijão,
milho e mandioca) e de espécies frutíferas (abacaxi, açaí, banana, cupuaçu,
laranja e limão) resistentes a pragas e doenças e adaptados às diferentes
condições ambientais da Amazônia (Embrapa Informática Agropecuária, 2013).
Adicionalmente, a Embrapa organizou e disseminou informações técnicas sobre
os principais sistemas de produção agrícolas e pecuários para a Amazônia Legal
(Embrapa Informática Agropecuária, 2013a). Também desenvolveu e disse-
minou tecnologias de manejo florestal sustentável e de precisão para produção
de madeira por produtores familiares, comunidades extrativistas e grandes
empreendimentos florestais (OLIVEIRA et al., 2002; VOSTI et al., 2003; FIGUEI-
REDO et al., 2009). Embrapa e seus parceiros nacionais e internacionais,
governamentais e do setor privado também desenvolveram e disseminaram um
sistema efetivo de manejo para redução da contaminação por aflatoxinas na
produção de castanha-do-brasil (ÁLVARES & WADT, 2011). Essas tecnologias
foram adotadas em mais de 271 mil hectares e geraram benefícios econômicos

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


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Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
de R$ 284 milhões, sendo 54% apropriados pelos produtores familiares
(Embrapa, 2013).
O Projeto de Reflorestamento Econômico, Consorciado e Adensado
(Reca), no estado de Rondônia, Amazônia Ocidental, é outro exemplo interes-
sante. Esse grupo de 360 produtores familiares foi capaz de se organizar em
uma associação e articular apoio local, nacional e internacional de instituições
públicas e organizações não governamentais para planejar e implantar siste-
mas agroflorestais com base na consorciação de espécies florestais nativas tais
como castanha-do-brasil, pupunha (Bactris gasipaes) e cupuaçu (Theo-broma
grandiflorum). A organização social do Reca foi essencial para obter apoio go-
vernamental às suas demandas de melhoria dos serviços de extensão, saúde e de
manutenção de estradas e ramais. Esse grupo também estabeleceu uma agroin-
dústria de processamento de polpa de frutas, palmito e extração da manteiga
das sementes do cupuaçu (FRANKE et al., 2008). Esses produtos são comer-
cializados no mercado regional e nacional e o óleo das sementes de cupuaçu
é vendido para uma indústria de cosméticos nacional (PNUD, 2012; NATURA
EKOS, 2013). Os produtores familiares do Reca vêm experimentando aumento da
renda, melhoria no acesso aos mercados, aos bens de consumo e serviços. Ao
mesmo tempo, contribuem para conservar os recursos naturais (SÁ et al., 2000;
FRANKE et al., 2008). Além disto, na última década, houve aumento expres-
sivo na disponibilidade de energia convencional e acesso à telefonia celular
nas áreas rurais. Em 2004, entre os produtores associados ao Projeto Reca, em
Rondônia, 90% tinham acesso a fogão à gás, 70% à eletricidade e bomba d’água,
66% à geladeira e 64% à antena parabólica e televisão (FRANKE et al., 2008).
Entre 2003 e 2010, o Programa Luz para Todos conectou 2,6 milhões de novas
residências de famílias de baixa renda ao sistema elétrico brasileiro.
Na Amazônia Legal, foram realizadas 505.000 novas ligações residen-
ciais, sendo que 144.515 beneficiaram produtores familiares e escolas rurais.
Em 2010, 75,9% dos domicílios rurais da região Norte tinha acesso à energia
elétrica (IBGE, 2013a). Em 2011, 80% da população da região Norte tinha aces-
so à telefonia celular e 36% à internet (IBGE, 2013b). Isso tem contribuído
para a melhoria de bem-estar humano ao permitir que os produtores familiares
tenham maior acesso às informações e conhecimentos por meio da televisão,
telefone celular e até mesmo pela internet (IICA, 2011). Existem evidências
crescentes dos impactos positivos do uso de Tecnologias de Informação e Comu-
nicação (TIC) na melhoria do bem-estar de produtores familiares em países em

Promoção do Bem-Estar dos Produtores Familiares


Judson Ferreira Valentim
com uso de Sistemas de Produção Agropecuários e 87
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Florestais de Baixo Carbono no Bioma Amazônia
desenvolvimento (JAMES, 2005; COLE & FERNANDO, 2012; CABI, 2013; GFAR,
2013; NAKASONE, 2013). Existe grande oportunidade de inovar na ampliação
do uso dessas TIC nas condições de baixa densidade demográfica, de acesso
precário e de deficiência nos serviços de Ater que ainda predominam nas áreas
rurais no bioma Amazônia. Isso permitiria prover um sistema de acesso às in-
formações e conhecimento com menor custo e maior efetividade, visando a
melhorar a saúde, a nutrição e os sistemas de produção agrícolas, pecuários e
florestais, com impactos significativos no bem-estar dos produtores familiares
e na conservação da Amazônia.
Finalmente, o governo federal e dos estados estão promovendo várias ações
que vão influenciar a disponibilidade e os incentivos para a adoção de tecnologias
sustentáveis pelos produtores familiares. Em 2010, a Lei 12.188 (BRASIL, 2010)
estabeleceu a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Pnater)
e o Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Produção
Familiar (Pronater). Adicionalmente, o governo federal estabeleceu, em 2011,
o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), que
objetiva expandir as oportunidades de treinamento técnico e profissional para
produtores e trabalhadores nas áreas rurais e urbanas do Brasil (MEC, 2013).
Esse conjunto de ações foi complementado pela criação da Agência Nacional de
Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater) (BRASIL, 2013).
O novo Código Florestal (BRASIL, 2012a) também cria oportunidades
para estabelecer novos mecanismos de incentivos econômicos para os produ-
tores que adotam boas práticas de produção, tais como plantio direto, sistemas
agroflorestais, sistemas integrados de lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-
floresta, sistemas melhorados de pecuária bovina com pastagens consorciadas
de gramíneas e leguminosas sob pastejo rotacionado, sistemas de manejo flo-
restal e para recuperação das áreas de preservação permanente. Esses sistemas
de produção aumentam a capacidade dos produtores de lidar com pragas e
doenças, secas, erosão e perda da fertilidade do solo. Além disso, ampliam a
capacidade dos produtores familiares de se adaptar às mudanças climáticas e
contribuem para mitigar seus efeitos por meio do aumento do sequestro de
carbono (VERCHOT et al., 2007).
Para promover a adoção em larga escala dessas tecnologias, há neces-
sidade de ações visando integrar o conhecimento científico e tradicional com
o processo de formulação de políticas para o desenvolvimento sustentável na

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


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Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Amazônia. O Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre (ZEE Acre) é um dos
exemplos de sucesso de integração entre conhecimentos científicos e tradi-
cionais com os processos de formulação de políticas e programas para desen-
volvimento sustentável e, particularmente, para a melhoria do bem-estar dos
produtores familiares (Acre, 2010b). O governo, as instituições de pesquisa, de
ensino e de Ater, o setor privado e os diferentes grupos da sociedade civil
organizada trabalharam em um processo coletivo ao longo dos últimos 14 anos
(1999-2013). Esse processo mapeou as potencialidades e fragilidades das dife-
rentes regiões do estado com base em um amplo conjunto de indicadores bio-
físicos, sociais, econômicos e políticos. Também definiu políticas para a gestão
territorial sustentável do estado. Uma vez aprovado pela Assembleia Legisla-
tiva do Acre, pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) 2007 e pela
Presidência da República (BRASIL, 2008), o ZEE Acre se tornou um instrumento
com legitimidade, credibilidade e de grande relevância para que o governo esta-
dual tivesse acesso ao financiamento do Banco Mundial para desenvolver o
Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Acre. Este projeto tem o objetivo de
promover a inclusão social e econômica das populações mais pobres e vivendo
em situação de risco nas áreas urbanas e em áreas remotas e isoladas do estado.
O projeto está apoiando: a melhoria dos serviços básicos de saúde, educação e
de Ater, incluindo assistência técnica e financeira para comunidades isoladas;
a inclusão social e econômica nas áreas rurais por meio da melhoria de quali-
dade dos serviços de educação e saúde, treinamento profissional dos produtores
familiares e dos trabalhadores do setor agrícola e industrial, além da melhoria
do nível de renda das populações de 100 comunidades rurais por meio do apoio
às cadeias produtivas selecionadas; e, o fortalecimento das políticas públicas
e das instituições, por meio da modernização das agências governamentais,
promovendo a descentralização dos serviços básicos de saúde e educação para
os municípios e por meio da introdução de estratégias de gestão por resultados
em setores selecionados (WORLD BANK, 2013). O ZEE Acre também permitiu a
formulação e execução de políticas e programas de valorização dos ativos flo-
restais e o estabelecimento do Sistema de Incentivo aos Serviços Ambientais
do Acre (Sisa) (ACRE, 2010). Embora existam muitas histórias de sucesso, no
âmbito local e estadual, ainda existem muitos desafios a ser enfrentados para
alcançar o objetivo de promover o bem-estar da população e a conservação
ambiental no bioma Amazônia.

Promoção do Bem-Estar dos Produtores Familiares


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com uso de Sistemas de Produção Agropecuários e 89
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Florestais de Baixo Carbono no Bioma Amazônia
Implicações Políticas

O bioma Amazônia ainda mantém mais de 80% de sua cobertura florestal.


A proteção desse bioma é um componente essencial do desenvolvimento sus-
tentável no Brasil porque ele provê uma vasta gama de serviços ambientais de
importância global, tais como a manutenção da biodiversidade, de estoques de
carbono, de produção de água e de regulação do clima. O que, frequentemente,
não recebe a devida atenção nas discussões sobre desenvolvimento susten-
tável é a necessidade de encontrar tecnologias e alternativas de manejo para
centenas de milhares de produtores que vivem em condições de pobreza e,
tradicionalmente, têm dependido da conversão de florestas para agricultura e
pastagens para a segurança alimentar e geração de renda para suas famílias.
A agricultura de derruba e queima e a pecuária extensiva não conseguiram
conciliar a promoção de melhoria do bem-estar dos produtores familiares com a
conservação ambiental. Novos avanços em tecnologias de informação e comu-
nicação e a melhoria da infraestrutura no bioma abrem oportunidades para
aumentar a produtividade dos atuais sistemas de produção através do maior
acesso às informações e aos mercados. Também existem diversos exemplos de
iniciativas de sucesso que permitiram a transição dos produtores familiares dos
sistemas tradicionais de baixa produtividade e alto impacto ambiental, para sis-
temas mais produtivos, rentáveis e de menor emissão de gases de efeito estufa.
Entretanto, ainda existem muitos desafios a ser enfrentados para pro-
mover o bem-estar dos produtores familiares por meio do acesso às tecnologias
sustentáveis. Grandes investimentos em infraestrutura são necessários para au-
mentar o acesso dos produtores aos mercados e melhorar os serviços de saúde
e educação na Amazônia. Em particular, o ensino técnico nas escolas rurais e
os sistemas de assistência técnica e extensão rural precisam ser fortalecidos
para prover treinamento e experiência prática aos produtores familiares em
sistemas de produção de baixo carbono com produtos de maior valor agregado,
tais como manejo florestal de produtos madeireiros e não madeireiros certifica-
dos, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta e sistemas agroflorestais.
Finalmente, o governo e os segmentos da sociedade civil devem continuar a
desenvolver estudos sobre quais serviços ambientais podem ser remunerados e
que tipos de pagamentos por esses serviços podem ser utilizados como incen-
tivos para reduzir a dependência dos produtores do desmatamento para garantir
a segurança alimentar e a renda para suas famílias. Para que as políticas e

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


90
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
programas sejam legítimos, eles devem ser parte de um processo de construção
coletiva. É essencial incluir uma amostra representativa dos grupos sociais de
produtores familiares (comunidades extrativistas, colonos, ribeirinhos, indí-
genas e quilombolas) no planejamento, operacionalização e avaliação dos im-
pactos das políticas de promoção da agricultura de baixo carbono no bioma.
Um passo importante nesse processo será o mapeamento e identificação das
experiências de sucesso na melhoria do bem-estar dos produtores familiares por
meio de transição da agricultura de derruba e queima para sistemas de produção
agropecuários e florestais de baixo carbono que promovem a conservação na
Amazônia (VALENTIM & ANDRADE, 2004; MAY et al, 2005; SHELTON et al., 2005;
NOGUEIRA, 2006; SÁ et al., 2007; FRANKE et al., 2008; FRANCISCO et al., 2009;
ALVES, 2009; BRIENZA JÚNIOR et al., 2010; JOSLIN et al., 2010; POKORNY et al.,
2010; VALENTIM et al., 2010; COOPERACRE, 2013).
São de interesse especial as lições aprendidas nos casos em que o sistema
de inovação foi efetivo em atuar de forma colaborativa com os governos e grupos
de produtores familiares integrando conhecimentos científicos e tradicionais
com ações para a transição da agricultura de derruba e queima para sistemas de
produção mais produtivos, rentáveis e de baixo carbono.

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Florestais de Baixo Carbono no Bioma Amazônia
5.
Caminhos para a
Transição Agroecológica
e a Manutenção
de Reserva Legal na
Agricultura Familiar
na Amazônia

Luciano Mattos1

1
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária –
Embrapa Cerrados.
Contextualização sobre
a Agricultura Familiar
A Lei da Agricultura Familiar (no 11.326/2006) é de extrema relevância,
pois define critérios de enquadramento da categoria produtiva em políticas
públicas e estabelece as diretrizes para a formulação da Política Nacional da
Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais. Ainda que o Programa
Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) tenha sido criado
em 1994 e definido critérios de enquadramento da agricultura familiar em finan-
ciamento rural antes da aprovação da lei supracitada, a última não somente
reconhece a existência da categoria produtiva, mas também a inclui em outras
políticas públicas, indo além do crédito rural.
Já o caderno temático “Agricultura Familiar: Primeiros Resultados”, que
compõe o Censo Agropecuário 2006 (IBGE, 2009) e utiliza os critérios definidos
na Lei da Agricultura Familiar, traz uma análise diferenciada da categoria
produtiva e realça sua importância econômica na produção de alimentos, no
abastecimento do mercado consumidor doméstico e na geração de emprego e
renda no meio rural brasileiro. O documento oficial identifica 4.367.902 esta-
belecimentos rurais de agricultura familiar, o que representa 80,25 milhões
de hectares, 84,4% do número e 24,3% da área dos estabelecimentos rurais
brasileiros.
Com menos de um quarto das terras, a agricultura familiar brasileira
participa com 87% da produção de mandioca, 70% do feijão, 67% do leite de
cabra, 59% da de carne suína, 58% do leite de vaca, 50% da carne de aves,
46% do milho (fonte de alimentação animal), 38% do café, 34% do arroz e
30% da carne bovina. Seu montante de produção garante em torno de 70% de
participação da agricultura familiar no abastecimento do mercado consumidor
doméstico de alimentos. Outro dado ilustrativo da importância estratégica
da categoria produtiva remete-se à sua participação na geração de empregos
no campo, pois entre os 16,5 milhões de pessoas empregadas, a agricultura
familiar participa com 12,3 milhões (74,4% das ocupações de trabalho, com
apenas 24,3% da área), com média de 2,6 pessoas com mais de 14 anos por
estabelecimento rural.
De modo geral, enquanto o setor primário gira em torno de 9% do Pro-
duto Interno Bruto (PIB) do país, o agronegócio, que encampa o setor primário,
o setor industrial de insumos a seu montante e os complexos agroindustriais

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


102
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
a sua jusante, corresponde por volta de 30% do PIB. Ao cruzar dados do PIB
com dados do Censo Agropecuário (2006), é possível estimar a participação da
agricultura familiar brasileira em, aproximadamente, 3,42% do PIB, uma marca
expressiva frente a pouca relevância que a categoria produtiva é politicamente
tratada. Dessa forma, duas conclusões são bem claras ao meio rural brasileiro:
a agricultura familiar não será substituída pela agricultura patronal, ao revés,
tende a se fortalecer ao longo do tempo, ainda que haja um processo de
concentração fundiária e urbanização do país; a agricultura familiar não deve
ser foco restrito de políticas sociais, devendo ser reconhecido seu potencial
produtivo dentro de uma estratégia de desenvolvimento econômico da nação
(MATTOS, 2010).
Em um momento de intenso debate internacional sobre mudanças cli-
máticas, além de sua importância social e econômica, a agricultura familiar
brasileira também se destaca em seu papel ecológico estratégico, pois é parti-
cularmente sensível às condições do meio ambiente, algo menos evidente
no contexto do capital. Enquanto a agricultura patronal tende a transformar
radicalmente o meio ambiente para adequá-lo às condições de produção de
commodities baseada em uso intenso de insumos químicos e combustíveis
fósseis, com enorme perda de equilíbrio ambiental, a agricultura familiar tende
a alocar seus recursos mais escassos, sobretudo trabalho e capital, para melhor
aproveitar as determinantes derivadas das condições ambientais advindas da
terra e dos recursos naturais. Logo, resguardada a relevância social e econômica
dos dados apresentados que evidenciam o caráter estratégico da agricultura
familiar brasileira, é necessário avançar e compreender os caminhos para a
agricultura familiar desencadear processos produtivos com base ecológica.
Nesse sentido, o presente artigo analisa estatisticamente os processos de
tomadas de decisão da agricultura familiar sobre transição agroecológica e
manutenção de reserva legal no bioma Amazônia.

Metodologia de Pesquisa

A análise estatística dos processos de tomadas de decisão da agricul-


tura familiar sobre transição agroecológica e manutenção de reserva legal no
bioma Amazônia foi realizada a partir de dados socioeconômicos e de uso da
terra de 2.555 Planos de Uso (PU) gerados durante a execução do Programa

Caminhos para a Transição Agroecológica


e a Manutenção de Reserva Legal na Luciano Mattos 103
Agricultura Familiar na Amazônia
de Desenvolvimento Socioambiental da Produção Familiar Rural da Amazônia
(Programa Proambiente), programa governamental previsto no Plano Plurianual
2004-2007 (primeiro mandato da gestão Lula).
Os 2.555 PUs foram gerados pelo Programa Proambiente em sete sub-
regiões amazônicas: Alto Acre (AC), Ouro Preto D´Oeste (RO), Noroeste Mato-
grossense (MT), Bico do Papagaio (TO), Baixada Maranhense (MA), Transamazô-
nica (PA) e Noroeste Paraense (PA). Excluindo-se os PUs com lacunas de dados
(missings), foram aproveitados 2.064 PUs, o que representa uma amostra signi-
ficativa de 80,8% do Programa Proambiente e 0,43% da Amazônia Legal.
Os dados presentes nos PUs foram divididos entre variáveis indepen-
dentes (dados socioeconômicos) e variáveis dependentes (tipologias de diversi-
ficação de uso da terra e manutenção de reserva legal). Foram tomados como
variáveis independentes socioeconômicas: (1) tempo de ocupação do lote
(anos), (2) origem da família (por região política brasileira, pois por se tra-
tar de um bioma com alto contingente de imigrantes rurais, cada família traz
suas aptidões regionais, o que induz processos diversos de uso da terra e dos
recursos naturais), (3) escolaridade da família (nível escolar), (4) índice de
geração (relação entre a somatória da quantidade de trabalho e a somatória
da demanda de consumo do lote, baseado nos índices de Chayanov (1974),
(5) índice de gênero (relação entre a somatória da quantidade de trabalho
masculino e a somatória da quantidade de trabalho total no lote, baseado nos
índices de Chayanov (1974), (6) tamanho do lote (hectare), (7) titulação do lote
(sem e com regularização fundiária), (8) renda familiar anual (R$), (9) acesso
ao crédito rural (sem acesso, acesso ao crédito nacional do Pronaf, acesso ao
crédito regional do Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO), (10)
acesso ao transporte para escoar produção (sem e com acesso) e (11) acesso à
energia elétrica para beneficiar a produção (sem e com acesso). As variáveis
independentes (2), (3), (4) e (5) referem-se ao ativo econômico “trabalho”, as
variáveis (6) e (7) ao ativo “terra”, as variáveis (8), (9), (10) e (11) ao ativo
“capital” e a variável (1) é considerada geral aos três ativos. Foram tomados
como variáveis dependentes cinco tipologias de uso econômico da terra
(variáveis 1 a 5), além de uma variável geral que se remete ao uso ecológico
da terra (variável 6): (1) tipo 1 (culturas anuais), (2) tipo 2 (culturas anuais +
pecuária), (3) tipo 3 (culturas anuais + culturas perenes), (4) tipo 4 (culturas
anuais + culturas perenes + pecuária), (5) tipo 5 (pecuária extensiva), (6)
percentual de reserva legal no lote. É interessante ressaltar que as diferentes

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


104
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
tipologias de uso econômico da terra podem influenciar, de maneira distinta,
o percentual de reserva legal nos lotes.
Primeiramente, os dados foram rodados no Statistical Package for the
Social Sciences (SPSS) para regressão múltipla de cada variável dependente
em relação às onze variáveis independentes, sendo eliminadas as últimas com
Probabilidade Caudal de Teste (PCT) acima de 0,1, ou seja, restaram abaixo
da margem de segurança (10%) as variáveis independentes socioeconômicas
com influência estatisticamente significativa na diversificação de uso da terra
e na manutenção de reserva legal. Em seguida, os dados foram novamente
rodadas no SPPS para análise de correlação entre as variáveis independentes
socio-econômicas com significância estatística e as variáveis dependentes de
tipologias de diversificação de uso da terra e de manutenção de reserva legal.

Caminhos para a Transição Agroecológica


na Agricultura Familiar Amazônica

A transição agroecológica diz respeito à ampliação da sustentabilidade


dos sistemas agrícolas a longo prazo, sendo diversas as fontes de conhecimento
que podem amparar esses processos, como a pesquisa científica, os conheci-
mentos locais e o aprendizado compartilhado entre ciência e saber popular
na construção desses sistemas. Já a elaboração de tipologias de uso da terra
auxilia na interpretação das condições e caminhos para a transição agroeco-
lógica (MATTOS et al. 2006; GLIESSMAN, 2000).
Costa (2000a; 2000b) critica a noção de que a agricultura familiar
amazônica apenas “amansa a terra” para a pecuária extensiva e aos plantios de
commodities exportáveis de grande escala que se seguem na fronteira agrícola.
Nessa perspectiva, os limites para a consolidação da agricultura familiar mostrar-
se-iam absolutos ao bloquear seus processos de inovação como a transição
agroecológica. Para Carvalho (2000), processos de inovação tecnológica vêm
ocorrendo na agricultura familiar amazônica desde os anos 1980, com esforços
para superar o padrão de itinerância interna (pousio) e externa (êxodo rural)
via redesenho de sistemas produtivos. E para Carvalho (2000) e Mattos et al.
(2010a), os sistemas de produção mais complexos (culturas anuais + culturas
perenes + pecuária) geram renda mais elevada, minimizam riscos financeiros
e climáticos, e atendem oportunidades do mercado consumidor, sendo os

Caminhos para a Transição Agroecológica


e a Manutenção de Reserva Legal na Luciano Mattos 105
Agricultura Familiar na Amazônia
sistemas agroflorestais a melhor representação da transição agroecológica da
agricultura familiar amazônica.
De acordo com Mattos et al. (2010a) e Romeiro (1998), a variável inde-
pendente (1) tempo de ocupação do lote é relevante no processo de consoli-
dação da fronteira agrícola. Nos primeiros anos de ocupação, o uso da terra é
destinado ao tipo 1 (culturas anuais) para consumo, renda e preparo do terreno
para a introdução subsequente de pastagens que caracteriza o tipo 2 (culturas
anuais + pecuária), culminando num processo de desmatamento da reserva legal
e substituição da caça pela pecuária como fonte de proteína animal. A pecuária
(poupança viva) e a mandioca (produto estocável) cumprem papel estratégico,
pois seus rendimentos mais estáveis e de alta liquidez proporcionam investi-
mentos futuros. Anos depois, uma das alternativas é a consolidação do tipo 4
(culturas anuais + culturas perenes + pecuária), que por vezes esbarra na capa-
cidade de trabalho e na disponibilidade de capital de giro dos lotes. Logo, a
passagem do tipo 2 ao tipo 4 (pela implantação de cultivos perenes) se viabiliza
mais facilmente se houver acesso ao crédito rural sob condições adequadas de
carência, amortização e juros, caso contrário, a família permanece no tipo 2
ou estabelece processos mais gradativos ao tipo 4.
A adesão ao tipo 5 tem perfil bastante particular, sendo mais comum sua
opção no início da ocupação do lote (0-5 anos), mas pode também derivar de
casos onde há esgotamento de capoeiras (fonte de adubo natural para cultivos
anuais via sistema de corte e queima) e dificuldades de convivência entre
culturas anuais e pecuária (tipo 2). Já os lotes de tamanhos mais reduzidos
traçam trajetórias tecnológicas particulares, pois como neles a pecuária é uma
atividade economicamente inviável, tendem a transitar do tipo 1 ao tipo 3
(culturas anuais + culturas perenes) pelo enriquecimento dos cultivos anuais
com cultivos perenes. Assim, como lembra Pichón (1996), o primeiro passo do
processo de capitalização dos lotes vem com a pecuária e o segundo com as
culturas perenes.
Quanto às variáveis independentes que se referem ao ativo econômico
“trabalho” (2, 3, 4 e 5), ao analisar a relação entre (2) origem da família e tipos
de uso da terra, com o devido cuidado para não dar um enfoque determinista
ao estudo (mas verificar a influência de práticas culturais adquiridas em seus
locais de origem no uso da terra), Mattos et al. (2010a) demonstram que somente
agricultores familiares locados na Amazônia com origem no Norte e Nordeste
ainda permanecem de forma estatisticamente significativa nos tipos menos

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


106
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
diversificados de uso da terra (1, 2, 3 e 5). No entanto, apesar da importância
dos tipos anteriores, o tipo 4 já é o mais frequente nos lotes de famílias
migradas do Norte (38,89%) e Nordeste (53,21%), mas em percentual inferior
aos lotes de agricultores familiares oriundos do Centro-Oeste (71,93%), Sudeste
(72,03%) e Sul (84,50%). Os dados evidenciam que nortistas e nordestinos têm
trajetórias tipológicas e processos de capitalização mais paulatinos quando
comparados às famílias migradas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Mattos et
al. (2010a) também demonstram que a (3) escolaridade familiar mais baixa
(analfabetos/as ou 1ª-4ª séries) tende ao tipo 1, sendo que sua elevação impõe
condições mais propícias para adesão ao tipo 2 e, principalmente, tipo 4, que
geram pro-cessos mais intensos de capitalização. Não por acaso, na análise
de influência das variáveis independentes no uso da terra, o autor obteve
relação direta entre escolaridade e renda familiar anual. Estudos de Van Wey
et al. (2007), Brondízio et al. (2002), Perz & Walker (2002), Brumer (2001) e
McCracken et al. (1999), que abordam a divisão social do trabalho em lotes
familiares da Amazônia, expõem a congruência entre (4) índice de geração
(relação entre quantidade de trabalho e demanda de consumo do lote, baseado
em Chayanov (1974) e uso da terra. Enquanto os estágios iniciais de formação
familiar representam baixa capacidade de trabalho e de demanda de consumo
que resultam em sistemas menos complexos (tipos 1, 2, 3 e 5), a presença de
múltiplas gerações num mesmo lote leva a sistemas mais complexos (tipo 4).
Dados obtidos por Mattos et al. (2010a) evidenciam que somente em lotes
com índice de geração elevados (potencial de trabalho maior que demanda de
consumo) é viável a opção pelo tipo 2 e, sobretudo, tipo 4.
Numa segunda abordagem sobre divisão social do trabalho, os dados
de Mattos et al (2010a), Van Wey et al. (2007) e Pan et al. (2004) também
evidenciam que o (5) índice de gênero (relação entre quantidade de trabalho
masculino e trabalho total, baseado em Chayanov (1974) intermediário (trabalho
masculino = feminino) influência processos de diversificação menos (tipo 3)
ou mais (tipo 4) complexos, conforme o (6) tamanho do lote, ao passo que o
índice de gênero mais baixo (trabalho masculino < feminino) tende a levar ao
arrendamento dos lotes, e o índice de gênero mais alto (trabalho masculino >
feminino) tende a direcionar os lotes à pecuária.
Quanto às variáveis independentes que se referem ao ativo econômico
“terra” (6 e 7), McCracken et al. (2002) e Perz (2001) traçam uma relação entre
evolução do ciclo produtivo, demanda de trabalho e capital e (6) tamanho do lote.

Caminhos para a Transição Agroecológica


e a Manutenção de Reserva Legal na Luciano Mattos 107
Agricultura Familiar na Amazônia
Ao longo do (1) tempo de ocupação do lote, terras desmatadas se acumulam e se
tornam inadequadas para os cultivos anuais, desta feita, entra a importância do
(8) crédito rural, da (9) renda familiar e das oportunidades do mercado consu-
midor para induzir a introdução de cultivos perenes e pecuária. Os cultivos perenes
demandam maior quantidade de trabalho e capital, mas não maior contingente
de terra. Já a introdução da pecuária, que se caracteriza como reserva de capital,
demanda maior quantidade de terra e menor intensidade de trabalho e capital.
Em estudos de Mattos et al. (2010a) e Costa (2000c), lotes com abun-
dância de terra introduziram mais facilmente sistemas diversificados (tipo 4).
Em lotes com abundância de terra e restrição de trabalho, a diversificação produ-
tiva se estabelece gradualmente, por meio de baixa disponibilidade de capital
e de esforços de trabalho fisiológico alternados entre introdução de pastagens
e culturas perenes, enquanto em lotes com abundância de terra e trabalho, a
diversificação produtiva, com introdução de cultivos perenes e pecuária, se dá
de modo concomitante, apoiada pela entrada de capital de crédito rural,
evolução demográfica da família e, eventualmente, contratação de trabalho
temporário e investimento em mecanização agrícola. Por sua vez, Mattos et al.
(2010a) não encontrou efeito significativo da (7) titulação do lote no uso da
terra, pois o Brasil não exige a comprovação fundiária para acesso às políticas
agrícolas, resultado diferente ao encontrado por Pan et al. (2004) na Amazônia
equatoriana, onde se verificou influência, pois aquele país exige a titulação
como condição de acesso aos incentivos econômicos oficiais.
Quanto às variáveis independentes que se referem ao ativo econômico
“capital” (8, 9, 10 e 11), primeiramente, é necessário frisar que quando o mer-
cado consumidor é grande e a elasticidade de preço demanda é alta, tem-se uma
situação mais favorável para a rentabilidade da inovação agroecológica, inclu-
sive aos agricultores familiares menos capitalizados. Assim, novas trajetórias
produtivas necessitam ser apoiadas pela presença renovada do Estado, com
oferta de crédito rural, seguro agrícola, políticas de preços mínimos, compra de
alimentos e infraestrutura. O uso diversificado da terra também é determinante
quanto à possibilidade de inserção no mercado consumidor (MARTINE, 1989).
O estudo de Mattos et al. (2010a) corrobora Martine (1989) ao demonstrar que
70,73% dos lotes com (8) renda familiar anual superior a US$ 10.000,00 (ano
de referência: 2005) detêm o tipo 4 e 17,07% o tipo 2, sendo que não há casos
estatisticamente significativos nos tipos 1, 3 ou 5 (menos diversificados e sem
cultivos perenes) com patamar equivalente de renda.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


108
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Porém, o que mais chama a atenção no estudo do autor é a significância
estatística (via regressão múltipla) quanto à influência do (9) acesso ao crédito
rural e do (10 e 11) acesso à infraestrutura (transporte e energia elétrica) na
consolidação de sistemas diversificados (tipo 4). Segundo o mesmo, 16,09%
dos lotes sem acesso ao crédito rural estão no tipo 1, sendo que não há
casos estatisticamente significativos nesse tipo de uso da terra com acesso
ao crédito rural, o que denota que o financiamento é relevante para superar o
estágio de produção de subsistência ou de depressão econômica. Já os acessos
ao FNO (crédito regional) e Pronaf (crédito nacional) alavancam a diversificação
produtiva, afinal, 61,91% dos lotes com FNO e 61,57% com Pronaf apresentam o
tipo 4, enquanto somente 36,32% dos lotes sem acesso ao crédito rural detém
esse uso da terra. Os dados corroboram os achados de Costa (2000c) de que
esforços próprios das famílias rurais, em situações de escassez de trabalho e
capital, também podem resultar em sistemas diversificados e lucrativos, embora
de forma mais lenta. Mas existem diferenças entre o FNO e o Pronaf que se
evidenciam nos tipos 2 e 3. Enquanto 27,18% dos lotes com Pronaf figuram no
tipo 2, apenas 11,11% detém FNO, valendo a ressalva de que 21,89% dos lotes
sem acesso ao crédito rural também estão no tipo 2. Logo, lotes sem acesso
ao crédito rural alavancam o tipo 2 de forma mais lenta que os mutuários do
crédito nacional, a partir da reprodução da própria atividade pecuária, enquanto
o Pronaf induz processos de pecuarização mais rápidos e o FNO estimula outros
tipos de uso da terra. Isso fica claro na análise do tipo 3, onde figuram 20,40%
dos lotes sem acesso ao crédito rural, 17,13% com FNO e somente 3,97% com
Pronaf. De novo, os dados confirmam os resultados de Costa (2000c) de que
a introdução de cultivos perenes pode ser feita de forma mais intensa com a
alavanca de capital externo, desde que qualificado na forma do FNO. Já no tipo
5, há diferenças não estatisticamente significativas entre os lotes sem acesso
ao crédito rural e com acesso ao FNO ou Pronaf, pois todos os casos ocorrem em
torno de 5% dos lotes.
No tocante à infraestrutura, Mattos (2010a) ilustra que lotes sem acesso
ao transporte ainda transitam com expressiva importância no tipo 1 (14,63%
sem versus 2,65% com acesso ao transporte) e tipo 3 (27,91% versus 8,76%),
enquanto o acesso aumenta a participação de lotes com tipo 2 (13,28% versus
19,14%) e, principalmente, tipo 4 (40,38% versus 64,97%), sendo pouco rele-
vante a mudança no tipo 5 (3,79% sem versus 4,48%). Os dados demonstram
que o acesso ao transporte aumenta o contingente pecuário dos lotes, mas

Caminhos para a Transição Agroecológica


e a Manutenção de Reserva Legal na Luciano Mattos 109
Agricultura Familiar na Amazônia
pode ser uma alternativa viável também para a capitalização dos lotes sem
acesso ao transporte, pois o gado se transporta.
Os lotes sem acesso à energia elétrica, em comparação aos com acesso,
transitam com maior importância no tipo 1 (7,64% sem versus 5,74% com acesso
à energia elétrica), tipo 3 (21,02% versus zero) e tipo 5 (4,67% versus zero),
enquanto o acesso aumenta a participação de lotes com tipo 2 (14,01% versus
24,88%) e tipo 4 (52,65% versus 65,55%). O acesso à energia elétrica aumenta
os contingentes pecuários mais tecnificados (tipos 2 e 4) em comparação aos
menos intensivos em capital (tipo 5), assim como o não acesso direciona para
o cultivo de subsistência (tipo 1) ou para os cultivos de perenes menos tecnifi-
cados (tipo 3) em relação aos sistemas agroflorestais mais tecnificados (tipo 4).
De forma geral, os acessos ao transporte e à energia elétrica elevam
a produtividade marginal do trabalho e alavancam a rentabilidade econômica
dos estabelecimentos familiares, mas não com a mesma sustentabilidade que
exerce o acesso ao crédito rural do FNO. Logo, os resultados colocam em xeque
a capacidade dos modelos de desenvolvimento superarem a dicotomia entre
produção e meio ambiente, além de trazer à tona a discussão sobre valoração de
serviços ambientais integrados à produção agrícola.

Caminhos para a Manutenção de Reserva Legal


na Agricultura Familiar Amazônica

Desde a década passada, diversos artigos têm voltado atenção às causas


e consequências do desmatamento da Amazônia, com a característica comum
de fazer uma análise do bioma. Essa perspectiva regional oferece importantes
conclusões, tais como a conexão entre a construção de rodovias e desmata-
mento, no entanto, a agregação de dados esconde particularidades intrarregio-
nais (MORAN et al., 2009). O estudo de Mattos et al. (2010b) representa um
passo intermediário, pois abrange sete sub-regiões de forma agregada, para em
estudos futuros, voltar-se às particularidades de cada uma.
No estudo de Mattos et al. (2010b), seis entre onze variáveis indepen-
dentes demonstraram significância estatística (via regressão múltipla) na influ-
ência à manutenção da reserva legal, sendo elas: (1) tempo de ocupação do lote
(variável geral), (2) origem da família (variável referente ao ativo econômico
“trabalho”), (6) tamanho do lote (variável referente ao ativo “terra”), (8) renda

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


110
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
familiar anual, (9) acesso ao crédito rural e (11) acesso à energia elétrica (variá-
veis referentes ao ativo “capital”). Para a variável (1) tempo de ocupação do
lote, Mattos et al. (2010b) encontrou relação indireta entre tempo de ocupação
do lote e quantidade de reserva legal, isto é, o percentual de lotes que está de
acordo com a legislação ambiental (entre 80%-100% de reserva legal no bioma
amazônico) cai continuamente ao longo dos anos [23,65% (0-5 anos); 17,17%
(5-10 anos); 13,35% (10-20 anos); 10,61% (+20 anos)]. Ainda que estudos de
Brondízio et al. (2009), Van Wey et al. (2009), Walker (2003) e McCracken et al.
(1999) demonstrem que a implantação de sistemas agroflorestais ao longo dos
anos colabore com a estabilização dos processos de desmatamento nos lotes,
Mattos et al. (2010b) justifica o resultado divergente devido à alta rotativi-
dade de famílias nos lotes (gerada pelo êxodo rural), o que desencadeia novos
processos de desmatamento.
Para a variável (2) origem da família, Mattos et al. (2010b) demonstra
que lotes liderados por famílias amazônicas sobressaem-se pela maior quanti-
dade de reserva legal em relação aos liderados por famílias migrantes. Ao
focar a análise nos lotes com 80%-100% de reserva legal, é possível constatar
que 44,84% daqueles liderados por famílias amazônicos estão na legalidade
ambiental, contra somente 8,23% (Nordeste), 3,35% (Sudeste), 2,50% (Centro-
Oeste) e 2,49% (Sul) de famílias migrantes. Portanto, há uma clara relação
entre origem da família e manutenção de reserva legal, explicável pela tradição
agroextrativista dos amazônicos e pela tradição agropecuária dos migrantes.
Para a variável (6) tamanho do lote, Mattos et al. (2010b) encontrou
dados emblemáticos que confirmam a relação direta entre tamanho do lote e
quantidade de reserva legal. Estão dentro da legislação ambiental 48,95% dos
lotes com mais de 100 hectares, 23,39% entre 50-100 hectares, 10,72% entre
10-50 hectares, 1,48% entre 5-10 hectares e nenhum abaixo de 5 hectares,
o que legitima a reivindicação dos movimentos sociais rurais quanto à dimi-
nuição dos limites legais para lotes inferiores a 4 módulos fiscais. Assim, no
decorrer dos anos, há retirada de reserva legal, de forma mais expressiva, nos
lotes menores. Contudo, há exceções, como da sub-região Transamazônica (PA),
onde os lotes maiores detêm menor percentual de reserva legal devido à sua
tradição pecuária, com substituição direta de reserva legal por pastagens.
Para a variável (8) renda familiar anual, Mattos et al. (2010b) encon-
trou relação indireta entre elevação da renda familiar anual e manutenção de
reserva legal. Em famílias com renda familiar anual de até U$10.000,00 (ano de

Caminhos para a Transição Agroecológica


e a Manutenção de Reserva Legal na Luciano Mattos 111
Agricultura Familiar na Amazônia
referência: 2005), 18,77% dos lotes cumprem a legislação ambiental, patamar
que baixa para 9,49% em lotes com renda familiar anual superior a U$10.000,00
(ano de referência: 2005). Outro ponto destacado no estudo é que conforme
se eleva a renda familiar anual, se eleva de forma proporcional o contingente
de cultivos perenes e de pecuária, ou seja, a soma das duas áreas exploradas
economicamente se equivale na retirada de reserva legal. De fato, lotes capi-
talizados investem mais em sistemas perenes (que podem ser averbados como
reserva legal), mas ao mesmo tempo estabelecem mais pecuária, atividade que
concorre por espaço com a reserva legal.
Para a variável independente (9) acesso ao crédito rural, Mattos et al.
(2010b) encontraram que a manutenção de reserva legal tem relação indireta
com acesso ao Pronaf e relação direta com acesso ao FNO. Dentre os lotes que
acessam Pronaf, apenas 8,24% estão de acordo com a legislação ambiental,
contra 20,57% daqueles com acesso ao FNO. No outro extremo, entre 0-20% de
reserva legal, situam-se 41,36% dos lotes com Pronaf e somente 17,02% com
FNO. Nos patamares intermediários (20-80% de reserva legal) predominam os
lotes com acesso ao FNO. Em geral, o FNO se caracteriza como uma alavanca
produtiva mais compatível à conservação ambiental, enquanto o Pronaf induz a
introdução da pecuária na área antes ocupada por reserva legal, ainda que o FNO
também colabore (mas de forma mais amena, pois exige certificado de origem
animal) com a expansão pecuária. Assim, lotes com acesso ao Pronaf tendem
a introduzir a pecuária, que em meia parte ocupa áreas de reserva legal, além
de apresentar decréscimo de cultivo perenes em relação aos não mutuários.
Já lotes com acesso ao FNO avançam na introdução da pecuária nos lotes, mas
em terça parte em relação ao Pronaf, sendo visível que também induzem o
cultivo de perenes e, sobretudo, a manutenção de reserva legal em comparação
aos não mutuários de crédito rural.

Considerações Finais

A efetivação de políticas públicas em apoio à agricultura familiar, nas


duas últimas décadas, torna-se ainda mais relevante com a publicação do
Censo Agropecuário 2006. No entanto, o uso do termo geral agricultura familiar

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


112
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
encobre grande diversidade sociocultural, econômica e ecológica, logo, é
fundamental que políticas públicas apoiem-se nas diferenças internas da
categoria e nas distintas formas que ela se relaciona com o uso da terra e dos
recursos naturais.
Os resultados apresentados demonstram que os processos de transição
agroecológica da agricultura familiar amazônica são catalisados pela oferta de
crédito rural do FNO e por investimentos em infraestrutura no meio rural. Caso
a transição agroecológica prescinda do crédito rural e do acesso ao transporte
e energia elétrica, ela se dará de forma mais lenta, o que induz processos de
capitalização mais paulatinos. Vale a ressalva de que o tempo de ocupação do
lote, escolaridade, composição familiar e tamanho do lote também se mani-
festam como variáveis importantes na transição agroecológica e nos processos
de capitalização familiar (ainda que não com a mesma influência que os ativos
de capital).
Sobre os caminhos para a conservação ambiental, a literatura demonstra
que há estabilização do desmatamento durante a evolução do ciclo familiar,
porém, o estudo expõe que a alta rotatividade de famílias num mesmo lote
(provocada pelo êxodo rural) estabelece novos eventos de desmatamento. Os
resultados também são contundentes ao ilustrar que lotes liderados por famílias
amazônicas preservam maior contingente de reserva legal, o que evidencia a
demanda por políticas públicas que reconheçam culturalmente e viabilizem
economicamente suas práticas agroextrativistas, ao mesmo tempo em que os
incentivos econômicos aos modos produtivos dos migrantes precisam se adequar
às condições locais.
É nítida ainda a relação direta entre tamanho do lote e reserva legal,
exceto nos lotes com perfil estritamente pecuário, os quais desencadeiam
processos de desmatamento proporcionalmente mais abrangentes. Quanto ao
crédito rural, o FNO demonstra-se melhor adaptado que o Pronaf às caracte-
rísticas ambientais do bioma e aos processos de capitalização por sistemas
agroflorestais. Por fim, a relação direta entre elevação da renda familiar anual
e/ou acesso à energia elétrica com o desmatamento de reserva legal traz o
alerta de que os processos de capitalização e de redução da heterogeneidade
estrutural por meio de obras de infraestrutura demandam estratégias mais
integradas aos contextos legal e ambiental do bioma Amazônia.

Caminhos para a Transição Agroecológica


e a Manutenção de Reserva Legal na Luciano Mattos 113
Agricultura Familiar na Amazônia
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Caminhos para a Transição Agroecológica


e a Manutenção de Reserva Legal na Luciano Mattos 115
Agricultura Familiar na Amazônia
6.
Caminhos para a
Produção Familiar de
Baixo Carbono sob
Bases Ecológicas:
O Papel do Bioma Cerrado

Rafael Tonucci1

1
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária –
Embrapa Caprinos e Ovinos.
O aquecimento da atmosfera que está ocorrendo de forma antrópica tem
levado às alterações climáticas (IPCC, 2007). Nas últimas décadas, tem sido
observado aumento na frequência e intensidade das secas, inundações, fura-
cões, ciclones e outros fenômenos climáticos. Essa nova realidade climática
pode afetar negativamente a agricultura e outras atividades econômicas. No
caso da agricultura, especificamente, muitas tecnologias sustentáveis podem
ser adotadas para mitigar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e, em
contrapartida, promover a retenção de carbono na biomassa e no solo (CORDEIRO
et al., 2011).
Juntas, a agricultura e a pecuária, respondem por mais de dois terços
das emissões brutas brasileiras (Comunicado Nacional, 2004). A expansão cons-
tante da área necessária para a agricultura e pastagem exigiu a conversão de
florestas nativas, fazendo da mudança do uso da terra a principal fonte de
emissão de GEE no Brasil (GOUVELLO, 2010).
As interações que ocorrem entre a sociedade e os ecossistemas devem
ser avaliadas de forma a contemplar o uso múltiplo dos recursos florestais na
estabilidade dos ecossistemas e das estruturas sociais, especialmente em re-
giões florestais e assentamentos humanos (COSTA et al., 2002). Deve-se sempre
buscar um ponto de equilíbrio entre a demanda de uso e a necessidade de se
conservar o ecossistema.
A agricultura familiar é a chave de paisagens produtivas sustentáveis e
multifuncionais com escala regional. A produção familiar policultural e agroeco-
lógica, em áreas naturais ou em recuperação, integra as funções ecossistêmicas,
mesmo que de forma parcial, mas em uma escala que permite a manutenção dos
ciclos biogeoquímicos.

Fontes de Emissão de GEE


nos Sistemas de Produção

As atividades agropecuárias geram emissões diretas e indiretas de GEE


por diversos processos: fermentação entérica nos herbívoros ruminantes (CH4),
produção de dejetos de animais (CH4 e N2O), preparo convencional do solo (CO2),
cultivo de arroz inundado (CH4), queima de resíduos agrícolas (CO2, CH4, N2O,
entre outros), emissão de N2O em solos pelo uso de fertilizantes nitrogenados,

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


118
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
queima pelo consumo de combustíveis fósseis (CO2) na produção e no transporte
de produtos agrícolas e utilização de insumos que, para sua produção, demandam
elevado consumo de energia.
No Brasil, as contribuições mais importantes para emissão de GEE são
aquelas provenientes do uso da terra, da mudança do uso da terra e das
florestas, representando aproximadamente 70% das emissões de GEE (MAPA,
2012). Por outro lado, a agricultura brasileira representou apenas 10% das
emissões (MCT, 2010).
Em 2005, as emissões de dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4), dois
dos gases mais importantes para o aquecimento atmosférico e causadores das
mudanças climáticas, foram de 1,7 bilhão de toneladas e 18,1 milhões de tone-
ladas, respectivamente (MAPA, 2012). O setor de mudança de uso da terra
e floresta foi responsável por aproximadamente 80% das emissões de CO2 e,
juntamente com o setor agropecuário, foi responsável por 70% da emissão de
metano no período.
As principais fontes de emissão de CO2 relacionadas ao setor de mu-
danças de uso da terra e florestas são as queimadas. O Cerrado liderou o ranking
de biomas com maior número de focos de incêndios registrados em 2012. No
primeiro semestre de 2012, mais de 35 mil focos foram mapeados (MAPA, 2012).
O Maranhão foi o estado onde ocorreu o maior número de focos (7 mil).
As queimadas e os incêndios durante a seca no Cerrado se devem quase
totalmente à ação antrópica, que utiliza o fogo como estratégia de manejo para
abertura de novas áreas e renovação de áreas já utilizadas na agricultura. A
queima da biomassa no Cerrado é uma prática comum não apenas na expansão
da agricultura, mas também como renovação das pastagens utilizadas pelos
rebanhos. É sabido que a atividade de queima dessa biomassa é responsável pela
emissão de grande quantidade de GEE, principalmente dióxido de carbono (90%),
seguido pelo Mato Grosso (6 mil), Tocantins (4 mil), Piauí (4 mil) e Bahia (3 mil).
O metano é outro gás de efeito estufa que contribui significativa-
mente para o aquecimento global, com poder 34 vezes maior que o do dióxido
de carbono (C). Dados globais apontam o CH4 como responsável por 45% das
emissões de GEE do setor agropecuário, sendo 85% dessas emissões proveni-
entes da fermentação entérica de ruminantes. Entretanto, no Brasil, em 2005,
essa mesma fonte foi responsável por apenas 58% das emissões de metano
pelo setor agropecuário.

Caminhos para a Produção Familiar de


Baixo Carbono sob Bases Ecológicas: Rafael Tonucci 119
O Papel do Bioma Cerrado
TA B E L A 6.1
Emissões GWP 1 GTP 2
Setor
antrópicas de
Emissões Participação (%) Emissões 2005 Participação (%)
gases de efeito
estufa no ano de
Energia 328.808 15% 319.667 17%
2005, por setor.

Indústria 77.939 3,6% 74.854 4%

Mudança de uso
1.329.053 60,6% 1.279.501 68,1%
da terra e florestas

Agricultura 415.048 18,9% 192.411 10,2%

Tratamento de
resíduos 41.048 1,9% 12.596 0,7%

fonte : Total 2.192.602 100% 1.879.029 100%


Mapa, 2012.

A produção de metano advindo da fermentação entérica dos rumi-


nantes é um fator intrínseco ao processo de digestão desses animais e sua
eliminação é extremamente difícil. Uma redução nas emissões de CH4 passa,
impreterivelmente, pela soma de esforços nos temas de nutrição e melhora-
mento genético animal.
O nitrogênio, assim como o carbono, é um elemento bastante importante
no aquecimento global, sendo o óxido nitroso o que possui maior emissão pelo
setor agropecuário (aproximadamente 45% das emissões de GEE do setor). As
emissões de nitrogênio na agricultura originam-se no solo e estão relacionadas
à cadeia de nutrientes. Logo, para que a agricultura contribua para as questões
relacionadas às mudanças climáticas, deve-se ter em mente a utilização de um
manejo apropriado da cadeia de nutrientes, utilizando-os de forma racional e
buscando uma máxima eficiência.

1 GWP (Global Warming Potential) Potencial de Aquecimento Global – é um índice que permite comparar o forçamento
radiativo de uma unidade de emissão de diferentes gases de efeito estufa em um determinado período de tempo,
permitindo uma análise comparativa do potencial de mudança do clima associado a esses gases (IPCC, 2007).

2 GTP (Global Temperature Potential) Potencial de Temperatura Global – é um índice que permite comparar as emissões
dos gases de efeito estufa por meio de suas contribuições para a mudança na temperatura média na superfície
terrestre em um dado horizonte de tempo futuro e reflete melhor a real contribuição dos diferentes gases de efeito
estufa para a mudança do clima (MAPA, 2012).

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


120
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Embora ainda faltem quantificações precisas, estima-se que a contri-
buição do agronegócio nas emissões de GEE seja bem maior que a da agri-
cultura familiar. Essa diferença não se dá apenas dentro da porteira, mas
principalmente fora da propriedade rural, levando-se em conta o ciclo de vida
global dos produtos.

Desafios para a Transição Produtiva


de Baixo Carbono

Comparada ao grande agronegócio, a escala produtiva da agricultura fami-


liar é menor. Isso promove, então, uma maior possibilidade de trabalhar as paisa-
gens com mais cuidado, conservando de forma mais intensiva o bioma nativo.
São dois os perfis dos agricultores do Cerrado e diferem bastante entre
si no que se refere ao contexto socioeconômico e cultural. O primeiro se cara-
cteriza por agricultores vindos, na sua maioria, do sul do Brasil, incentivados
por programas governamentais de colonização e produção em larga escala. O
segundo é geralmente composto por agricultores familiares pobres, vindo das
mais diversas regiões do país, desalojados de seus locais de origem por falta
de terra ou de meios de sobrevivência, inseridos em programas governamentais
de reforma agrária (CARVALHO, 2007). Essa heterogeneidade dos agricultores
familiares do Cerrado, que muitas vezes desconhecem a realidade ambiental
do bioma, gera uma necessidade de apoio na elaboração de sistemas economi-
camente viáveis, provedores de segurança alimentar e qualidade de vida e que
conservem os recursos naturais.
O uso sustentável da biodiversidade do Cerrado tem grande importância
para o incremento da renda de muitas comunidades inseridas no bioma, sendo
que esse potencial pode ser melhor aproveitado para a dinamização das econo-
mias locais juntamente com a conservação do solo, da água e da própria bio-
diversidade. Assim, qualquer estratégia para implementação de assentamentos
rurais no Cerrado deve contemplar a gestão ambiental e o redesenho dos sis-
temas produtivos em paisagem sustentável, e passa por uma articulação forte
com os mercados, organizações e instituições (CARVALHO, 2007).
Existem hoje no país inúmeras fontes de recurso para subsidiar a agricul-
tura familiar e a produção agrária de forma sustentável. Dentre essas fontes, des-
tacam-se duas: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar

Caminhos para a Produção Familiar de


Baixo Carbono sob Bases Ecológicas: Rafael Tonucci 121
O Papel do Bioma Cerrado
(Pronaf), que financia projetos individuais ou coletivos que gerem renda aos
agricultores familiares; e o Programa Agricultura de Baixo Carbono (Programa
ABC). Entretanto, mesmo com a existência desses programas com linhas de
créditos bem específicas para a agricultura de baixo carbono, muito pouco
do recurso disponibilizado é de fato acessado. A baixa execução desses re-
cursos pode ser apontada como um dos principais gargalos para a aceleração
da adoção de técnicas agropecuárias mitigadoras de GEE.
O Pronaf apresenta em sua carteira de financiamentos três linhas de
créditos específicas para atividades tidas como mitigadoras de carbono (Pronaf
Floresta, Agroecologia e Eco), entretanto, a quantidade de projetos subme-
tidos e financiados por essas linhas ainda é muito baixa. Assim como o Pronaf,
o Programa ABC tem uma demanda bem abaixo da esperada, com execução de
recurso na ordem de 20% a 30%, no primeiro ano de implementação.
Uma das principais causas do não acesso ao crédito está ligada à falta
de conhecimento específico em questões voltadas à sustentabilidade das agên-
cias financiadoras. Elas alegam falta de indicadores seguros que facilitem o
julgamento dos projetos. Na falta desses indicadores, muitas preferem negar
o crédito a correr o risco de que o mutuário não quite o empréstimo. Fica o
desafio de se gerar indicadores validados cientificamente para que um maior
percentual dos recursos disponibilizados seja, de fato, aplicado no combate à
emissão de GEE.
Farias (2013) (comunicação pessoal) aponta ainda a pobreza e a desi-
gualdade social no meio rural; a forte pressão sobre os recursos naturais exer-
cidas pela expansão das atividades humanas; e o processo de “modernização”
da agricultura, que promove a incorporação de insumos dentro do sistema de
produção agrícola, como os principais gargalos para o desenvolvimento de uma
agricultura familiar mais consciente no que diz respeito às questões ambientais.
Para o pesquisador, esses gargalos diminuem a autonomia dos agricultores.
Contrapondo esses gargalos, Farias elenca a eliminação da pobreza; a construção
de ecossistemas agrícolas baseados em sistemas de produção que preservem
mecanismos básicos de regulação ecológicas; e a produção de tecnologias
sociais que amplifiquem a eficiência na utilização dos recursos naturais, como
os principais desafios a serem encarados na tentativa de ter uma produção
agrícola familiar sustentável e menos emissora de GEE.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


122
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Oportunidades e Caminhos

As ameaças ambientais relacionadas à mudança climática e o ritmo


acelerado do aumento do efeito estufa imputável à ação humana têm desafiado
a comunidade científica, bem como governantes e demais atores, em busca de
alternativas eficazes para o enfrentamento do fenômeno.
Nesse contexto, programas e planos de governo têm sido elaborados na
tentativa de desenvolver políticas públicas que ajudem a produção agrícola
sustentável de baixa emissão. Em 2010, o governo brasileiro criou o Plano ABC,
que tem por objetivo promover a redução das emissões de GEE na agricultura,
conforme preconizado na Política Nacional sobre Mudanças do Clima (PNMC),
melhorando a eficiência no uso de recursos naturais, aumentando a resiliência
de sistemas produtivos e de comunidades rurais e possibilitando a adaptação do
setor agropecuário às mudanças climáticas.
Esse plano de governo aponta metas (Tabela 6.2) para a redução das
emissões de GEE no setor agrícola do Brasil. Essas metas foram baseadas no
compromisso que o Brasil assumiu na 15ª Conferência do Clima (COP-15), em
2009. Nele, o país se comprometeu a ampliar em 30% a área de plantio direto,
prática agrícola cientificamente reconhecida como de baixa emissão; incentivar
a adoção da integração lavoura-pecuária-floresta como prática agropecuária; e
ampliar o seu uso em 4 milhões de hectares, além da recuperação de 15 milhões
de hectares de pastagem degradada. Para possibilitar que os agricultores
consigam implantar essas tecnologias, foram abertos diferentes programas de
linhas de créditos que permitem que agricultores, familiares ou não, tenham
acesso ao crédito com taxas bastante interessantes (Programa ABC).
Mesmo não sendo um programa criado exclusivamente para a agricultura
familiar, o ABC não faz nenhuma restrição para que agricultores ou associações
de agricultores familiares acessem o crédito. Assim, visto que já existem metas
governamentais muito bem estabelecidas, planos e programas de governo com
linhas de créditos atraentes, cabe aos produtores familiares se adequar às
atuais linhas para conseguir contribuir com a redução na emissão de GEE, não se
fazendo necessária a criação de novas linhas de crédito para atacar as frentes já
propostas no Plano ABC. Medidas assim tentem a pulverizar as linhas de crédito
e reduzir a execução dos recursos disponibilizados.

Caminhos para a Produção Familiar de


Baixo Carbono sob Bases Ecológicas: Rafael Tonucci 123
O Papel do Bioma Cerrado
TA B E L A 6.2
Processo Processos Tecnológicos Compromisso (aumento de área/uso)
tecnológico e
compromisso Recuperação de Pastagens Degradadas 15,0 milhões de ha
nacional relativo 76% de ha
Integração Lavoura-Pecuária-Floresta 4,0 milhões
à mitigação de 61%
emissões de GEE pela Sistema Plantio Direto 8,0 milhões de ha
60%
agropecuária.
Fixação Biológica de Nitrogênio 49% de ha
5,5 milhões
39%
Florestas Plantadas 3,0 milhões de ha
3%
fonte :
Tratamento de Dejetos de Animais 4,4 milhões
2% de ha
Mapa, 2012.

Serviços ambientais são funções promovidas pelo ambiente que


contribuem direta e indiretamente para o bem-estar humano. Tais serviços
envolvem a manutenção da biodiversidade, o estoque de nutrientes, o auxílio
ao ciclo das águas, sendo que a adaptação do ambiente às modificações
promovidas pelo uso dos ecossistemas pode resultar em comprometimento
dos serviços prestados.
O Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) prestados por sistemas de
produção mais sustentáveis surgem como uma oportunidade de incremento
de receita para a agricultura familiar no Cerrado brasileiro. A definição de
quais são realmente os serviços prestados e a criação de indicadores validados
para o monitoramento da qualidade desses serviços ainda se faz necessária.
Destacam-se como serviços potenciais a ser explorados no bioma a melhoria da
eficiência de uso e qualidade da água, e o sequestro de carbono. A agricultura
familiar, por ter um caráter mais ecológico e menos exploratório dos recursos
naturais, tem grande chance de seus produtores se enquadrarem nos requisitos
do PSA e terem incremento de receita.
Cabe ressalvar que o PSA deve visar sempre a sistemas de produção que
se integrem com o meio ambiente, como os sistemas agroflorestais (SAFs) e
suas variações, e não apenas a conservação per si. Modelos de PSA que pagam
pelo não uso estrito da terra têm grande chance de fracasso e podem gerar uma
especulação do capital terra, além de desestimular o trabalho no campo.
A importância da prestação de serviços ambientais para a sustentabili-
dade da agricultura e da pecuária tem motivado debates em busca de alterna-
tivas para se estimular a conservação por meio da valoração e pagamento por
serviços ambientais.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


124
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Passos para Reduzir
Emissões no Cerrado
O Brasil tem avançado nos últimos anos no firme propósito de reduzir
as emissões de GEE. Mas ainda há muito a ser feito. A adoção de tecnologias
e práticas agrícolas é fundamental para controlar e reduzir as emissões dos
gases de efeito estufa – CO2; CH4 e N2O –, garantindo as condições necessárias
para conciliar o necessário desenvolvimento da agricultura familiar de forma
sustentável.
O aumento das áreas de pastagens recuperadas, em sistema de plantio
direto e com integração lavoura-pecuária-floresta no Cerrado, mostra que
estamos no caminho certo.
O Sistema Plantio Direto (SPD) é reconhecidamente uma prática que,
além de conservar as características físico-químicas do solo, é também um
sumidouro de C atmosférico. O acúmulo de matéria orgânica no solo no SPD
e, consequentemente, seu potencial para sequestrar C nos solos do Cerrado
brasileiro já foi comprovado por vários autores (CORAZZA, 1999; SÁ et al.,
2004). Solos manejados sob SPD sem revolvimento e com adição de palhada
passam da condição de fonte de CO2 rumo à atmosfera para de dreno de CO2
para o solo (SÁ et al., 2004). Bayer et al. (2006) relataram uma taxa média de
estoque de carbono em solos sob SPD estimada para a região do Cerrado em
0,35 Mg ha-1 ano-1.
A integração entre cultivos anuais e perenes com pastagens é vista como
uma alternativa para obter um manejo de solo e água sustentáveis na região
do Cerrado brasileiro. Sistemas como a integração lavoura-pecuária (iLP) e a
lavoura-pecuária-floresta (iLPF) são os exemplos mais difundidos aos agricul-
tores brasileiros. Os sistemas iLP consistem na introdução de pastagem por
curtos períodos (2 a 4 anos) em áreas de produção de grãos. A penetração
profunda das raízes das gramíneas aumenta a ciclagem de nutriente e contribui
para a imobilização do C, na forma de biomassa, em camadas profundos do solo
(BODDEY et al., 2012).
Os sistemas de iLPF referem-se à técnica de produção na qual intencio-
nalmente se integram numa mesma área árvores, pasto e animais que realizam
o pastejo, com estrutura e interações planejadas (GARCIA et al., 1997). Acre-
dita-se que os sistemas integrados mais complexos (iLPF) tenham um maior
potencial de sequestrar C que pastagens e culturas agrícolas (NAIR et al., 2009).

Caminhos para a Produção Familiar de


Baixo Carbono sob Bases Ecológicas: Rafael Tonucci 125
O Papel do Bioma Cerrado
Essa conjectura é baseada na noção de que a incorporação de árvores na agri-
cultura e em pastagens resultaria em um melhor sequestro líquido de C tanto
acima quanto abaixo do solo (HAILE et al., 2008)
A literatura sobre estoque potencial de carbono no solo em sistemas iLPF
é escassa quando se compara às culturas agrícolas (TONUCCI et al., 2011). Esses
estudos relatam uma grande variação nos estoques de C no solo, assim como
para a biomassa aérea (NAIR et al., 2009). Tonucci et al. (2011) relataram que
o sistema iLPF com 15 anos de implantação foi capaz de aumentar o estoque de
carbono no solo quando comparado com a vegetação nativa (Cerradão) ou com
pastagem exclusiva (Gráfico 6.1).
Por ser uma técnica relativamente simples, que pode ser utilizada tanto
na agricultura de larga escala quanto na agricultura familiar, esse tipo de sis-
tema passa a ser uma excelente alternativa para que a agricultura familiar ajude
no controle do balanço das emissões de GEE.

Estoque de carbono orgânico no solo (COS) em diferentes sistemas


G R Á FI CO 6.1 de uso da terra no Cerrado brasileiro.

Estoque de COS Mg ha
em 1 m de Profunfidade
160
140
120
100
80
60
40
20
0
Cerradão Pastagem SAF (15 anos) SAF (4 anos)

Sistema de
uso da terra

fonte : Adaptado de Tonucci et al., 2011.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


126
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
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Caminhos para a Produção Familiar de


Baixo Carbono sob Bases Ecológicas: Rafael Tonucci 127
O Papel do Bioma Cerrado
7.
Caminhos para a
Agricultura Familiar
de Baixo Carbono em
Bases Ecológicas
na Mata Atlântica

Paulo Yoshio Kageyma1


João Dagoberto Santos2
Oriowaldo Queda3

1
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,
Universidade de São Paulo.
2
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,
Universidade de São Paulo.
3
Centro Universitário de Araraquara –
UNIARA.
Inicialmente, seria adequado se perguntar: de qual agricultura familiar
está se falando quando a proposta é vislumbrar caminhos para o seu desenvol-
vimento com uma produção de baixo carbono em bases ecológicas. As estatís-
ticas oficiais acerca da agricultura familiar no Brasil são um tanto complexas
para sua interpretação e um tanto desencontradas, tanto com relação às muitas
categorias e seus respectivos tamanhos, assim como quanto à sua especificação
em termos de tipo e sistema de produção.
Nos, aproximadamente, 4,5 milhões de propriedades que o Instituto Bra-
sileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2006) categoriza como de agricultura
familiar, pergunta-se que percentual, por exemplo, usa tecnologia agroecológica
ou similar, e quantos usam a tecnologia do agronegócio, utilizando aqui as for-
mas mais comuns como elas são conhecidas? Também poderia se questionar em
qual segmento dessa agricultura familiar se quer induzir ou promover a produção
agroecológica de baixo carbono, levando-se em conta as particularidades territo-
riais e as especificidades de cada bioma. Portanto, deveria saber adequadamente
quem é o nosso público alvo, para então discutir como trilhar esse caminho.
Para que essas políticas sejam propostas e implementadas é sempre bom
perguntar, como já foi muito repisado em Galjart (1979): o agricultor fami-
liar sabe? Além disso, ele pode? E, finalmente, ele quer? Sempre se considera,
inicialmente, que os produtores não sabem nada de técnica de campo e de
economia, e que basta se repassar esses conhecimentos “científicos” para que
se resolvam os problemas do desenvolvimento do meio rural, inclusive o susten-
tável, principalmente para o segmento familiar. O conhecimento científico vem
buscando novos saberes voltados para esses recentes desafios, querendo nessas
últimas décadas, que também seja incorporado a ele o componente socioambi-
ental (KAGEYAMA e GANDARA, 2008).
A dicotomia entre a produção de alimento básico e a de commodities,
acoplada à diferenciação entre os ministérios da Agricultura, Pecuária e Abas-
tecimento e do Desenvolvimento Agrário, tanto em políticas públicas como
em prioridade de atendimento e crédito, mostra o tamanho do problema a ser
discutido e a dificuldade de se propor soluções para o país.
Nossa experiência na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz
(ESALQ/USP) em pesquisa e extensão no tema de sistemas de produção biodi-
versos, com agricultores familiares organizados, em cooperação com o Movimento
dos Sem Terras (MST), no Pontal do Paranapanema, no Vale do Ribeira (São
Paulo) e no Extremo Sul da Bahia, nas últimas décadas, tem nos ensinado muito,

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


130
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
porém, apontando que os desafios são enormes. Isso porque o mainstream não
só no Brasil, como na maioria do mundo, aponta para a adoção de tecnologias
que visam o sucesso econômico e, somente, para favorecer os grandes grupos
industriais hegemônicos, levando o nosso meio rural para uma roça sem gente,
onde imperam as máquinas pesadas e sofisticadas, e a utilização de enormes
quantidades de insumos químicos, em imensas fazendas industriais. Preco-
nizam que os pequenos agricultores só podem sobreviver como “integrados”
às grandes cadeias agroindustriais, sublevando-os ao papel de dependentes de
pacotes tecnológicos e financeiros. Ou, em outro extremo, pregam a tendência
de viverem praticamente em “guetos” ou redutos remanescentes de pequenas
propriedades, como já ocorre em muitas regiões do país. Com isso, a maioria
do contingente no campo, que é formada por pessoas dedicadas à agricultura
familiar, acaba indo para o endividamento e fugindo para a periferia das cidades
ou vivendo uma vida precária, lutando para sua sobrevivência, vislumbrando a
possibilidade de ter, por um milagre, uma Hilux em frente à sua pobre casa.
Por outro lado, o nosso grupo de pesquisa da Esalq tem estudado a bio-
diversidade dos ecossistemas tropicais, com toda sua imensidão e complexi-
dade, apontando que é no seu entendimento, funcionamento e aplicação nos
agroecossistemas, que se pode explicar a crise ambiental do agronegócio, assim
como os possíveis caminhos para novos sistemas de produção no meio rural,
produzindo alimento saudável, de baixo carbono e de menor custo pela agricul-
tura familiar de base agroecológica (QUEDA, KAGEYAMA e SANTOS, 2009).
Nossa tese é a de que a biodiversidade é a responsável pelo equilíbrio
ecológico nas relações entre as plantas e os insetos e microrganismos, não
provocando o que, na agricultura industrial em enormes extensões, denomi-
namos de pragas e doenças (KAGEYAMA, 2009). Por outro lado, se constata cada
vez mais que é exatamente esse desequilíbrio no ecossistema, ou a diminuição
drástica da biodiversidade na agricultura dita moderna, do uso extremo de
monocultivo (híbridos, clones, transgênicos), que exige a necessidade cada vez
maior de uso massivo de agrotóxicos e de insumos químicos no desenvolvimento
e proteção das culturas agrícolas. Além disso, o uso intensivo e restrito de uma
pequena camada superficial do solo arável, por máquinas cada vez maiores e
mais pesadas, não permite que raízes mais profundas existentes nas árvores
e arbustos, também componentes da biodiversidade e utilizados nos sistemas
agroflorestais (SAFs), possam explorar e reciclar os nutrientes disponíveis e que
passam a ser negligenciados e considerados perdidos.

Caminhos para a Agricultura Familiar Paulo Yoshio Kageyma


de Baixo Carbono em Bases Ecológicas João Dagoberto Santos 131
na Mata Atlântica Oriowaldo Queda
Fertilizantes e Agrotóxicos

As bases da agricultura industrial - denominada agronegócio -, fundadas


na utilização de extensos monocultivos principalmente de commodities, no uso
pesado de máquinas agrícolas para revolvimento e preparo do solo, com aplicação
massiva de fertilizantes químicos e uso abusivo de agrotóxicos seria, no mínimo,
não adequado para os agricultores familiares, principalmente os com parcos re-
cursos financeiros, tais como os assentados da reforma agrária, por exemplo. Nem
se precisa reforçar que, em termos socioambientais, a tecnologia do agronegócio
é um sistema falido para o país como um todo, que precisa ser revisto, apesar
de estar sendo considerado como a salvação da nossa balança comercial. Somos
campeões no uso de agrotóxicos no mundo desde 2008 e o agronegócio chama
isso de resultado do imenso avanço da nossa tecnologia agrícola.
Para a produção de alimento básico da mesa do brasileiro, visando tanto
a um alimento saudável como ao retorno financeiro adequado ao pequeno agri-
cultor familiar, o modelo não é o “agronegocinho”. Isso porque: os altos custos
de produção no sistema do agronegócio, que chegam a 60% a 80% do custo
total não permitem sua entrada nessa competição, assim como fazem com que
tenham baixa produtividade pelo uso geralmente não recomendado das té-
cnicas do agronegócio, devido ao seu alto custo (TOMAS, 2010); as culturas
alimentares, fora das commodities, para um mercado local ou regional, devem
ser o foco do agricultor familiar agroecológico, fugindo do comercial industrial
e priorizando a segurança e soberania alimentar, que vem aliás sendo o foco do
governo federal (vide o Programa de aquisição de Alimentos – PAA , e Programa
Nacional de Alimentação Escolar - PNAE); a comprovação de que agrotóxicos e
doenças graves estão associados, assim como o alto risco de envenenamento
no campo, tanto para quem aplica como para quem recebe indiretamente
via deriva (desvio pelo vento) através de aplicações por aviões, faz com que
mudanças na política de uso de agrotóxicos no país sejam urgentes, tirando a
nossa faixa de campeões de seu uso no mundo, pelo menos para a produção de
alimento básico; a crescente extinção da biodiversidade e de agentes biológicos
– polinizadores, dispersores de sementes etc., em curto prazo vai comprometer
a produção como um todo; existem tecnologias apropriadas aos agricultores
familiares que querem produzir alimento básico e saudável (ALTIERI, 1995).
A questão é que são ainda pouco conhecidas e pouco disponíveis de forma

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


132
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
adequada a esse mundo de pequenos agricultores familiares, desorganizados em
sua maioria, espalhados pelo país afora.
Dessa forma, a produção agroecológica de alimentos, por exemplo,
através do uso das técnicas da agricultura orgânica, biodinâmica, natural etc.,
não só ajuda o agricultor familiar a produzir alimento mais barato e mais sau-
dável, como colabora com o uso da agrobiodiversidade como ferramenta no
equilíbrio da paisagem rural, contribuindo para a redução do efeito estufa, e
minimizando o uso de insumos externos e de uso intenso de energia derivada do
petróleo. Certamente esse é o caminho da produção familiar de baixo carbono
via agroecologia.

Novo Rumo para o Sistema


de Produção Agroecológica

Os principais gargalos para uma transição agroecológica para a agricul-


tura familiar poderiam ser resumidos em: 1) obtenção de insumos e tecnologias
apropriadas; 2) arranjos produtivos locais adequados, considerando a questão de
escala e viabilidade econômica; 3) organização sócio-produtiva da comunidade
de agricultores; 4) o problema de adequação da Assistência Técnica e Extensão
Rural (ATER); 5) políticas públicas de fomento e de financiamento; 6) envelheci-
mento no meio rural x capacitação de jovens e adultos; 7) contaminação ecos-
sistêmica por agroquímicos do agronegócio; 8) perda de diversidade genética
de cultivares crioulas; 9) contaminação das variedades e sementes crioulas por
organismos geneticamente modificados, os transgênicos.
A agricultura familiar visando a produção de alimentos com baixas emis-
sões de carbono, ou de gases de efeito estufa, num modelo agroecológico, tem
como desafio tomar um novo rumo em seu sistema de produção, não necessi-
tando trocar as espécies agrícolas usadas nos sistemas convencionais, mas sim
mudando para uma forma mais natural de produzir essas culturas.
Também há a possibilidade de se utilizar e resgatar variedades importantes
do universo da agrobiodiversidade, às vezes trocando as espécies, pois cada vez
se usa menos diversidade tanto de espécies como de variedades dentro destas.
Isso poderia parecer retrógrado, porém, é de fato um avanço tecnológico no
campo, pela compreensão e uso dos princípios e conceitos dos ecossistemas

Caminhos para a Agricultura Familiar Paulo Yoshio Kageyma


de Baixo Carbono em Bases Ecológicas João Dagoberto Santos 133
na Mata Atlântica Oriowaldo Queda
naturais, em sistemas produtivos biodiversos e livres, ou com minimização, de
insumos químicos.
Para isso, um longo e penoso caminho, mas desafiador, certamente terá
que ser percorrido. Em primeiro lugar, porque é uma mudança de paradigma ao
se passar de uma tecnologia baseada em extensas áreas de monocultivos con-
vencionais em grandes propriedades, com intenso uso de máquinas e insumos
externos, para uma agricultura de tecnologias brandas, em uma direção oposta.
Caminhando para o formato de muitas pequenas áreas de produtores familiares,
principalmente em ação associativa e cooperativa, com tecnologias de baixo uso
de insumos químicos externos, uso intenso da agrobiodiversidade visando mini-
mizar o uso de agrotóxicos com muito menor uso de maquinário agrícola, enfim,
toda uma tecnologia que representa, ao pensamento da filosofia do agrone-
gócio, uma volta ao passado arcaico (QUEDA, KAGEYAMA E SANTOS, 2009).
Deve-se enfatizar que vem crescendo o uso de sistemas multiculturais,
tais como os sistemas agroflorestais, que associam espécies arbóreas produ-
toras de biodiversidade produtiva com espécies agrícolas alimentares. No en-
tanto, esses modelos que juntam num mesmo sistema: i) espécies de luz e de
sombra ou meia sombra; ii) raízes profundas e pivotantes das árvores produ-
toras de biodiversidade e outros serviços com raízes rasas e superficiais das
herbáceas agrícolas alimentares, em sistemas de multicultivos, associados com
a produção barata de alimento saudável, ainda não estão disponíveis, em escala
condizente, a essa grande massa de pequenos agricultores familiares.
Infelizmente, as políticas públicas e as instituições financiadoras de
pesquisa não têm considerado essas questões como prioritárias e fundamentais
ao desenvolvimento do país, assim como também ainda não têm conscientizado
toda essa população consumidora de alimentos.

Oportunidades

Decifrar onde está o contingente mais importante desses agricultores


familiares que estariam aptos a se transformar em produtores de alimentos
saudáveis de uma forma mais efetiva, com menor uso de insumos externos,
principalmente químicos e derivados ou demandantes de energia do petróleo

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


134
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
é um desafio a ser posto, considerando esse mar de 4,5 milhões de produtores
rurais familiares (FRANÇA, DEL GROSSI e MARQUES, 2009). Como organizá-los
de forma que eles, pelo menos, tenham acesso ao conhecimento, às políticas
e articulações que deram origem ao domínio do agronegócio, assim como aos
malefícios que causa à agricultura familiar ao concorrer em recursos econômicos
com esse segmento, que é majoritário em número, mas extremamente minoritário
em área e poder, é o real desafio. A análise que aponta ainda as formas com que
as universidades e instituições de pesquisa têm priorizado as linhas de pesquisa
na direção do lado hegemônico, que não é o da agricultura familiar.
A adoção de tecnologias de bases ecológicas por esse segmento fami-
liar de agricultores, para produção de alimento saudável e de baixo custo,
requer que as universidade e instituições de pesquisas se voltem priorita-
riamente para esse segmento majoritário que são os 85% dos proprietários
familiares do país. Isso deveria ser óbvio, assim como a tecnologia a ser de-
senvolvida mais especificamente para os agricultores familiares serem de fato
disponibilizadas apropriadamente a esse segmento rural, assim como incen-
tivos e créditos para que a produção de alimento seja a força do país e não a
produção de commodities.
No momento em que a discussão acerca da qualidade dos alimentos e a
contaminação por agrotóxicos ganha cada vez mais importância, provocando um
crescente aumento de envenenamento e de doenças graves, o debate no meio
acadêmico e na sociedade sobre os novos caminhos a serem buscados se torna
essencial (RIGOTTO, 2011). O debate correto associando o aumento assombroso
no uso de transgênicos, associado ao uso de agrotóxicos, reflete o domínio da
tecnologia química e genética dos imensos e poderosos grupos hegemônicos
transnacionais, que vêm dirigindo o rumo da produção de “alimento” no mundo
(ZANONI e FERMENT, 2011).
O pagamento por serviços ecossistêmicos deveria tomar esse rumo,
premiando os agricultores com propostas de uso e conservação da agrobiodiver-
sidade no manejo de suas culturas, com a produção de alimento saudável com
uso e conservação da biodiversidade natural. Quando toda a sociedade, e não
somente as classes A e B, exigir para si alimento saudável (orgânico, natural
etc.) nas gôndolas dos supermercados, a preços possíveis para todos, propostas
para solução dos verdadeiros problemas talvez apareçam.

Caminhos para a Agricultura Familiar Paulo Yoshio Kageyma


de Baixo Carbono em Bases Ecológicas João Dagoberto Santos 135
na Mata Atlântica Oriowaldo Queda
Adaptações para a Agricultura Familiar
na Mata Atlântica

É importante destacar que o bioma Mata Atlântica, o mais impactado


de todos os terrestres, apresenta somente 27% de remanescentes, incluindo os
vários estágios de regeneração (MMA, 2010), muito embora outras estatísticas
cheguem a apontar que somente 10% seriam de remanescentes bem conservados.
Esse retrato mostra o resultado da evolução do desmatamento no bioma, o que
se reflete certamente também nos assentamentos rurais e nas áreas rurais em
geral da Mata Atlântica, com perdas inestimáveis de solo nesse longo período
de uso, muitas vezes de forma não adequada. É nesse contexto que devemos
analisar o nosso objetivo, ou de áreas muitas vezes degradadas ou em vários
graus de degradação.
As medidas de adaptações climáticas no meio rural, prioritariamente nas
pequenas propriedades familiares - esparsas e pouco organizadas em termos
políticos e, em decorrência também em termos de produção de alimentos -,
se tornam muito difíceis de serem por elas apropriadas devido às tecnologias
estudadas e propostas serem voltadas para grandes commodities e programas
(vide bioenergia voltada para a cana-de-açúcar, créditos de carbono para ener-
gias alternativas, produção de energia eólica, ou mesmo solar etc.). Pouco se
pode associar à agricultura familiar com programas de adaptações climáticas, a
não ser em escala menor com agricultores mais organizados, tais como alguns
assentamentos rurais de reforma agrária. Para se entender essa dificuldade
organizativa, pode-se contrapor esse segmento da agricultura familiar com
o agronegócio de commodities, onde a tecnologia usada é, muitas vezes, a
de última geração apropriada pelas empresas rurais diretamente das próprias
universidades e instituições de pesquisa, às vezes geradas até em conjunto com
elas (VEIGA, 2007).
Tecnologias para uma agricultura e pecuária menos demandantes de in-
sumos químicos externos, porém, com uso do elemento arbóreo perene mais
intensamente na propriedade, em sistemas de policultivos e sistemas agroflo-
restais e silvopastoris, por exemplo, vêm sendo usadas em projetos específicos
com sucesso. Nessas tecnologias, se destacam o uso mais intenso de legumi-
nosas fixadoras de nitrogênio (arbóreas, arbustivas e herbáceas), tanto como
adubo verde como em sistemas agroflorestais, além de combinações de

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


136
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
espécies nos sistemas que aproveitem melhor os diferentes nutrientes do solo,
assim como o uso de espécies com poder contra fungos, bactérias e insetos
para proteção das culturas agrícolas e pastagens, para maior equilíbrio dos
agroecossistemas. Certamente, em termos comparativos, esses agroecossis-
temas além de produzirem muito mais empregos no campo que o agronegócio,
com um benefício social muito relevante, são menos demandantes de insumos
derivados de petróleo, portanto de mais baixo carbono. Afora a questão recor-
rente da produção de alimento saudável (outra grande vertente de nossa grave
crise mundial).
A produção autossustentável de energia por comunidades rurais tem
sido uma proposta desenvolvida em alguns locais de alta concentração de pro-
dutores familiares organizados. A utilização de espécies arbóreas produtoras
de bioenergia, tal como a macaúba, espécie de palmeira nativa produtora de
biodiesel, como carro-chefe de sistemas agroflorestais, nos assentamentos
do Pontal do Paranapanema, projeto em cooperação entre o Projeto de Pes-
quisa para o Desenvolvimento de Assentamentos Rurais e Agricultura Familiar
(PP-Daraf) da ESALQ/USP e a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios
(Apta) de Presidente Prudente e o MST, financiado pelo Ministério do Desen-
volvimento Agrário, é um exemplo dessa proposta. Igualmente, outras espécies
produtoras de bioenergia vêm também sendo utilizadas com esse propósito,
visando a independência de energia externa, o que ajuda a desenvolver mais
sustentavelmente as comunidades rurais. Isso é um exemplo que pode avançar
no uso de espécies arbóreas produtoras de bioenergia para minimizar o uso de
energia do petróleo no meio rural.

Considerações Finais

No bioma Mata Atlântica, onde cerca de 80-90% das áreas já foram des-
matadas, a maior parte delas já sofreram grandes impactos e se encontram em
graus diferentes de degradação, dificultando a sua inteira recuperação, sendo
um grande desafio a proposição de caminhos para a produção de baixo carbono
e de bases ecológicas, principalmente para a agricultura familiar sem recursos.
A descomunal diferença entre os números de propriedades e as áreas totais
entre a agricultura patronal (agronegócio) e a agricultura familiar, associada

Caminhos para a Agricultura Familiar Paulo Yoshio Kageyma


de Baixo Carbono em Bases Ecológicas João Dagoberto Santos 137
na Mata Atlântica Oriowaldo Queda
aos diferentes pesos em termos de políticas públicas entre os dois segmentos
mostram que esse universo não está ainda bem elucidado e equilibrado, o que
merece maior atenção e discussão sobre os caminhos corretos a serem seguidos
nas ações políticas nesse sentido.
As universidades e instituições de pesquisa ainda são pautadas em suas
prioridades pelo lado mais forte politicamente que, evidentemente, não é o da
agricultura familiar, merecendo estratégias adequadas de fortalecimento dos
que vêm bravamente atuando contra a corrente, apontando não só linhas de
pesquisas voltadas aos pequenos produtores e aos alimentos básicos da mesa
do brasileiro, como também mostrando os impactos do uso intenso dos agrotó-
xicos, associados aos transgênicos, e toda tecnologia que visa muito mais ao
lucro das indústrias do que à maioria dos agricultores, que são os familiares.
Deve-se destacar a grande discussão nesse momento acerca do efeito
dos agrotóxicos sobre a saúde humana, não somente na área de agricultura e
pecuária, mas também na área da saúde e do meio ambiente, em função das
estatísticas de aumento assustador tanto da quantidade de agrotóxicos como
dos impactos de suas contaminações, além dos efeitos em doenças graves, que
alcançam a sociedade como um todo, o que se reflete no crescimento das gôn-
dolas de alimentos orgânicos nos supermercados.

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Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


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Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
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Caminhos para a Agricultura Familiar Paulo Yoshio Kageyma


de Baixo Carbono em Bases Ecológicas João Dagoberto Santos 139
na Mata Atlântica Oriowaldo Queda
8.
Agricultura Familiar de
Baixa Emissão
de Carbono –
Bioma Caatinga

Giovanne Xenofonte1

1
Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores e Instituições
Não-Governamentais Alternativas – ONG CAATINGA.
O Semiárido brasileiro é o mais populoso do planeta e de acordo com o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nessa área geográfica
residem 22 milhões de pessoas que representam 11,8% da população brasileira.
Essa região tem a maior parte do seu território coberto pela Caatinga, único
bioma exclusivamente brasileiro, rico em espécies endêmicas e que apesar da
exclusividade é proporcionalmente, a grande região natural menos estudada no
país onde a maioria das pesquisas científicas restringe-se a poucas áreas, em
geral, próximas às principais cidades. Além de ser pouco estudada, é também
a região menos protegida com menos de 2% de seu território em unidades de
conservação. A composição florística da Caatinga não é uniforme em toda a
sua extensão e apresenta grande variedade de paisagens, de espécies animal
e vegetal, nativas e adaptadas, com alto potencial e que garantem a sobrevi-
vência das famílias agricultoras da região.
Diferente da Mata Atlântica, do Cerrado e, ultimamente, da Amazônia,
em que o principal vetor do desmatamento foi a expansão agrícola baseada na
produção de commodities para exportação através de extensas monoculturas e
da pecuária, a causa central da destruição da Caatinga é a retirada de lenha
originária do corte da vegetação nativa. A lenha é a principal fonte de energia
que alimenta diversas indústrias de pequeno e médio porte, e a matriz ener-
gética de milhares de famílias de pequenos agricultores. O corte sistemático
da vegetação, sem respeitar critérios mínimos de manejo que permitiriam a
reconstituição ambiental, provoca processos de erosão do solo e diminuição da
capacidade de retenção de água no sistema e a continuidade desse processo
resulta em desertificação dessas áreas.
O grande conhecimento sobre o bioma acumulado pelas famílias agricul-
toras, ao longo dos anos, reúne um acervo riquíssimo sobre fauna e flora. Como a
passagem desse conhecimento através das gerações ocorre principalmente pela
via oral, há uma grande perda pois não tem sido fácil concorrer com o mundo
de informações levado pelos meios de comunicação mais modernos. O termo
“baixa emissão de carbono” pode ser novo para a maioria dessas famílias mas
elas sabem e observaram, nesses três últimos anos de seca, que, quem manteve
a vegetação da Caatinga em pé, conseguiu atravessar o período com menos
sofrimento. Isso porque a Caatinga foi uma das principais fontes de alimentos
para os animais: plantas como o mandacaru (Cereus jamacaru) e a macambira
(Bromélia laciniosa) permanecem vivas e produtivas, matando a fome de caprinos,
ovinos e bovinos.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


142
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Aprendendo com a seca um conjunto de famílias agricultoras espalhadas
pelo semiárido, tem percorrido um caminho que possibilita produzir alimentos
ao mesmo tempo em que diminui a emissão de carbono. Na base dessa ideia
está a capacidade de observar o bioma Caatinga a partir de suas potenciali-
dades e não de suas limitações. Essas famílias motivadas, principalmente por
um conjunto de organizações da sociedade civil, têm mantido uma dinâmica de
encontros, intercâmbios de conhecimento e reflexões a respeito das práticas
adotadas, buscando sempre aprimorá-las e adequá-las à realidade ambiental em
que estão inseridas.
A emissão de gases estufa é resultado das atividades produtivas. É cres-
cente o desmatamento da vegetação natural para implantação de áreas e ativi-
dades agropecuárias. Importante destacar que no Semiárido existem mais de um
milhão e setecentos mil estabelecimentos agropecuários (33% em relação ao
total no país), de acordo com o Censo Agropecuário 2006 do IBGE. Desses, 73%
são proprietários que concentram 93% das terras da agropecuária; enquanto
isso, 27% dos estabelecimentos agropecuários no Semiárido encontram-se
em situação precárias na relação com a terra, dispondo de apenas 7% da área.
O desmatamento, as queimadas, o uso abusivo de fertilizantes químicos, herbi-
cidas e agrotóxicos destroem a diversidade de culturas e variedades agrícolas e
rebanhos (linhagens) trabalhados, gerando uma erosão genética das variedades
mais adaptadas à região. Todo esse processo de destruição do meio ambiente
impacta negativamente a produção de alimentos e renda, em especial para as
famílias agricultoras da região. Não se pode atribuir, porém, o impacto sobre o
bioma somente à agropecuária. Aliada a essa forma convencional de produção,
está a crescente demanda pela lenha da Caatinga, por ser usada como fonte
de energia para cerâmicas, calcinação da gipsita, fornos de padarias etc. Essa
ação vem colocando algumas regiões do Semiárido como área suscetível a fortes
riscos e processos de desertificação.

Acesso à Terra e às Tecnologias

O acesso à terra e às tecnologias apropriadas ao clima da região é


certamente um dos principais gargalos para uma transição produtiva para a agri-
cultura familiar da região. Aliada a isso, está a necessidade de se estabelecer
um processo de mobilização social objetivando uma convivência harmoniosa

Agricultura Familiar de Baixa Emissão


Giovanne Xenofonte 143
de Carbono – Bioma Caatinga
com o clima da região. Nesse sentido, se faz necessário construir uma nova
lógica produtiva, que busque se adaptar às condições ambientais, ao invés de
tentar transformá-la.
Importante destacar que algumas políticas públicas voltadas à agri-
cultura familiar da região colocam as famílias agricultoras em uma lógica de
especialização produtiva. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricul-
tura Familiar (Pronaf), por exemplo, foi um dos grandes incentivadores dos
desmatamentos, na medida em que suas planilhas de viabilidade técnica dos
projetos sugeriam desmatar áreas de Caatinga para implantação de pastagens.
Nesse caso, desconsidera totalmente a capacidade forrageira da Caatinga. Os
processos de assistência técnica e extensão rural oficial, quando feitos, também
vão à mesma lógica de organização produtiva convencional. Mas uma outra forma
de olhar o ambiente e de fazer agricultura está em curso na região, animada prin-
cipalmente por um conjunto de organizações da sociedade civil, articuladas por
meio da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), que congrega mais de 3.000
organizações. Por meio dessa articulação, as famílias estão tendo a oportunidade
de experimentar novos processos produtivos e organizativos.
A estratégia utilizada pela ASA consiste no resgate e valorização dos
conhecimentos tradicionais, buscando a conversão dos agroecossistemas fami-
liares de produção para a agroecologia. Estamos em uma região de clima se-
miárido, que possui um regime pluviométrico próprio, onde parte do ano (três a
quatro messes) ocorre as precipitações chuvosas e o restante do ano é seco. Por
isso, a ASA tem estimulado e experimentado junto às famílias agricultoras uma
estratégia de constituição de estoque, em especial estoque de água.
No que diz respeito à água para o consumo humano, foram implemen-
tadas em todo Semiárido brasileiro mais de 500 mil cisternas de cimento, com
capacidade de armazenar 16 mil litros de água, volume suficiente para uma
família de cinco pessoas beber e cozinhar durante um período de oito messes,
tempo que dura a estiagem nessa região. Em relação à água para a produção,
a ASA tem implantado um conjunto de tecnologias comprovadamente apro-
priadas ao clima da região, como cisternas calçadão (reservatório de alvenaria
de cimento, com capacidade de armazenar 52 mil litros de água, com um calçadão
ao lado, também de cimento, com 200 m², cuja função é captar água da chuva
e canalizar para dentro da cisterna), tanques de pedras, barreiros trincheiras e
barragens subterrâneas. Essas tecnologias permitem uma produção mais estável
durante todo o ano, aumentando, também, as áreas verdes da propriedade com

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


144
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
plantios de fruteiras, consorciadas com hortaliças, e legumes. Além da água,
as famílias têm sido estimuladas a ampliar e diversificar as suas estratégias
de estocagem de alimentos para os animais, através de silagem, fenação e de
sementes, com a constituição de bancos de sementes crioulas.
Outra ação em curso é o resgate e o manejo da agrobiodivesidade de
forma sustentável. Assim, os conhecimentos tradicionais a respeito da fauna
da Caatinga são resgatados, valorizados e divulgados. Um conjunto de plantas
forrageiras, como mandacaru e maniçoba é cultivado de forma consorciada com
outras forrageiras exóticas. São os chamados campos de forragens. Sistemas
agroflorestais também estão sendo experimentados e o cultivo de alimentos,
como milho e feijão, estão sendo feito no meio da Caatinga. O paradigma da
agricultura com o fogo, uma tradição da época da colonização do Nordeste,
começa a ser quebrado. A respeito da agrofloresta, o pesquisador André Gon-
çalves (2002), em um estudo de caso realizado nas regiões do Araripe e Pajeú,
em Pernambuco, e na região do Cariri, no Ceará, destacou que, em uma área de
recuperação ambiental – mata ciliar e áreas degradadas – utilizando-se uma
população de 12.500 plantas de espécies típicas da Caatinga tais como sabiá
(Mimosa caesalpiniaefolia), oiti (Licania tomentosa), pau d’arco (Tabebuia avella-
nedae), jatobá (Hymaea stigonocarpa), angico (Anadenanthera macrocarpa) e
aroeira (Miracrondruon urundeuva), foi capaz de acumular aproximadamente 300
toneladas de carbono em um período de cinco anos. A Tabela 8.1 apresenta
informações sobre a capacidade de produção de biomassa e potencial de se-
questro de carbono em sistemas agroflorestais do bioma Caatinga.
Ainda como parte de uma ação em curso na região, para se ter uma agri-
cultura familiar com baixa emissão de carbono, destacamos o cultivo em espaços
de alta produtividade biológica (várzeas, baixadas e os quintais das residências).
Busca-se, nesses espaços, ampliar e diversificar os cultivos de forma sustentável
em que as famílias os utilizam tradicionalmente e de forma sistemática para a
produção de alimentos para consumo próprio e forragens para os animais. No
caso dos quintais, é comum também o cultivo de plantas medicinais. Para viabi-
lizar essa diversificação, as famílias têm experimentado um conjunto de tecno-
logias da captação de água de chuva, a exemplo das barragens subterrâneas nas
áreas de baixada e pequenos córregos. Essa tecnologia barra o fluxo da água
subterrânea, deixando a área úmida por um período maior de tempo, possibi-
litando assim os cultivos. Nos quintais, também são utilizadas uma tecnologia de
filtragem da água usada no banho e para lavar a louça. Depois de filtrada, a água

Agricultura Familiar de Baixa Emissão


Giovanne Xenofonte 145
de Carbono – Bioma Caatinga
pode ser utilizada em pequenas irrigações no próprio quintal, assim essa área
permanece verde durante todo o ano, parecendo verdadeiros oásis.

Capacidade de produção de biomassa e potencial de sequestro


TA B E L A 8.1 de carbono em SAFs do bioma Caatinga.

Peso Carbono
SAF Idade Tipo Proprietário/Local
(Mg.ha-1) (Mg.ha-1)

1 5 Palmas/frutas Adão/Ouricuri-PE 5,27 2,56

1 5 Palma/frutas Adão/Ouricuri-PE 9,20 4,46

2 5 Silvipastoril/cabras Adão/Ouricuri-PE 25,24 12,24

3 5 Recuperação de área Escola/Ouricuri_PE 8,44 4,10

4 N.I. Frutas/culturas Vilmar/Exú-PE 27,88 13,52

5 N.I. Frutas/culturas (início) Vilmar/Exú-PE 3,58 1,74

6 N.I. Conversão de regeneração Vilmar/Exú-PE 19,52 9,46

7 18 Silvipastoril/caju/bovinos Zé Padre/Santana do Cariri-CE 33,81 16,40

8 18 Frutas/culturas Zé Padre/Santana do Cariri-CE 37,77 18,32

9 20 Sabiá/culturas/palma Zé Artur/Nova Olinda-CE 50,65 24,56

10 20 Frutas Zé Artur/Nova Olinda_CE 44,43 21,55

Média 24,16 11,72

Peso: Biomassa arbórea acima do sol


Mg.ha-1: Megagrama (=tonelada)

fonte : IGBE Censo Agropecuário 1995-96; levantamentos anuais de produção agrícola.


Processamentos especiais do autor.

Adaptações Climáticas

O processo vivenciado por um conjunto de famílias agricultoras tem na


sua centralidade a ideia de adaptação às condições climáticas. A seca, fenô-
meno natural que atinge a região desde os primórdios, foi durante muito tempo
encarada como algo que se poderia combater. As ações do governo traziam pre-
sentes essa lógica e, nesse sentido, vários órgãos públicos foram criados com
esse fim, a exemplo do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs)
e a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


146
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
FI GUR A 8.1
Utilização,
pelas famílias,
dos espaços de
alta produtividade
biológica.

fonte :
Caatinga ONG
e Elka Macedo.

Agricultura Familiar de Baixa Emissão


Giovanne Xenofonte 147
de Carbono – Bioma Caatinga
Somente com o surgimento da Articulação do Semiárido é que a ideia da
convivência ganhou força. Passar do combater para o conviver é, sem dúvida,
uma evolução enorme, principalmente na forma de olhar o Semiárido e o bioma
Caatinga. Todas as práticas agroecológicas experimentadas pelas famílias têm
suas bases assentadas na lógica da convivência. Para se conviver, portanto,
é necessário conhecer a região, saber as suas limitações, mas principalmente
enxergar as suas potencialidades. Além disso, se faz necessário investir na es-
truturação dos sistemas familiares de produção. Para se adaptar às condições
climáticas, as famílias agricultoras necessitam principalmente de infraestrutura
para a estocagem, em especial de água. Por essa razão, existe a luta para o
desenvolvimento e a implantação de tecnologias hídricas apropriadas às con-
dições de semiaridez. Essas tecnologias apresentam uma alta capacidade de
captação de água e uma perda mínima pelo processo de evaporação. Tendo em
vista que o semiárido do nordeste brasileiro é um dos mais chuvosos do mundo,
porém, com um índice de evaporação maior que o de precipitação, as tecnolo-
gias são desenvolvidas observando essa condição climática.
Conviver com o Semiárido significa dizer que as pessoas que vivem nessa
região aprenderam a lidar com o clima, sabem trabalhar e organizar formas de
viver bem em família e em comunidade, aproveitando o que de bom e rico a
região oferece. Conseguem formas novas de aumentar os recursos naturais exis-
tentes, respeitando a cultura local.
Resumindo, um conjunto de famílias agricultoras residentes no bioma
Caatinga tem vivenciado uma forma de se fazer agricultura baseada nos princí-
pios da agroecologia e da convivência apropriada com o clima semiárido, bus-
cando diminuir os impactos ambientais e a emissão de carbono. Na base dessa
ação, está o resgate e valorização dos conhecimentos sobre os agroecossistemas
tradicionais na estratégia de conversão agroecológica. Três estratégias básicas
orientam a ação: a constituição de uma cultura de estoque de água, sementes,
forragens e alimentos. Baseada nessa estratégia, vem sendo desenvolvida na
região uma luta para construção de infraestrutura que viabilize a cultura de es-
toque; o resgate e manejo da agrobiodiversidade de forma sustentável, promo-
vendo cultivos em sistemas agroflorestais, implantação de campos de forragens
com espécies forrageiras da Caatinga e produção de mudas para recuperação
de áreas degradadas; a valorização de espaços de alta produtividade biológica,
cultivos na área em torno da casa, conhecida como quintal produtivo, e aprovei-
tamento dos espaços de baixios, para a produção diversificada de alimentos.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


148
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
referências

AGRICULTURA, Agroflorestal e Criação de Animal no semiárido / Centro Agroecológico Sabiá: Texto:


ADEILDO Fernandes da Silva, et al.

ARTICULAÇÃO DO SEMIÁRIDO BRASILEIRO – ASA. Uma Jornada em Quadrinhos. – Recife/PE, 2013.

DUARTE, Flavio. Diagnóstico Sócio Ambiental do Araripe. Convênio CAATINGA/ PDHC -039/2004.
Ouricuri/PE 2004.

EMBRAPA. Aumento da Oferta de Matéria-Prima de Base Florestal Sustentável para o Desenvolvimento


Sócio-Econômico da Região do Araripe. Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semi-Árido.
Drumond, M.A. Recursos Florestais Agroenergia. Petrolina, Brasil, 2006.

GONÇALVES, André. Estudo dos SAFs no bioma Caatinga. Recife 2002.

GUANZIROLI, C., CARDIM, S. E. (Coord.). Novo Retrato da Agricultura Familiar: O Brasil redesco-
berto. Brasília: Projeto de Cooperação Técnica FAO/INCRA, fev/2000. 74 p. Disponível em:
<http://www.incra.gov.br/fao/pub3.html>.

PERNAMBUCO. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Região do Araripe: Diagnóstico


Florestal / Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. – Brasília, DF: Ministério do
Meio Ambiente, 2007.

RAMOS, Betânia. Agrofloresta: na recuperação de áreas de preservação permanente. / Alexandre


Henrique Pires, Catarina de Angola. Centro Sabiá. Recife, 2013.

Agricultura Familiar de Baixa Emissão


Giovanne Xenofonte 149
de Carbono – Bioma Caatinga
9.
Percepção,Vulnerabilidade
e Adaptação aos
Desafios Climáticos
Estudos de Caso
na Bahia, Ceará, Piauí
e Rio Grande do Norte

Stéphanie Nasuti1
Diego Lindoso2

1
Centro de Desenvolvimento Sustentável,
Universidade de Brasília – UnB.
2
Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais –
Rede Clima.
O Semiárido nordestino é caracterizado por uma sazonalidade climática
marcante, na qual a chuva se concentra em poucos meses do ano, seguida de
um longo período de estiagem que pode durar até oito meses. Periodicamente,
é assolado por secas extremas, algumas delas muito severas, trazendo impactos
substanciais aos sistemas rurais, como perda de animais e lavouras.
A despeito das secas severas e condições adversas, o modelo tradicional
de agricultura desenvolveu-se ao longo de 400 anos. As populações rurais agre-
garam conhecimento indígena com práticas europeias e africanas, aprimorando
tecnologias e técnicas, criando uma identidade cultural e um modelo agrope-
cuário tradicional único, adaptado para a realidade do Semiárido. Todavia, esse
segmento da população brasileira apresenta uma alta vulnerabilidade à varia-
bilidade climática e aos eventos extremos. Em um contexto em que, segundo
as próprias declarações dos produtores, “o tempo se torna imprevisível”, como
pensar estratégias para melhorar a capacidade de adaptação do produtor rural?
Quais recomendações podem ser formuladas diante de um cenário político que
valoriza a produção agrícola de baixa emissão de carbono?
Tentaremos alimentar essa reflexão a partir de pesquisas realizadas entre
2011 e 2013 nos estados da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí
e Ceará (Figura 9.1), onde 1.140 produtores rurais familiares foram entrevis-
tados pelos pesquisadores da sub-rede Mudanças Climáticas e Desenvolvimento
Regional.1

1
Pesquisas realizadas no âmbito do projeto Mudanças Climáticas, Produção e Sustentabilidade: vulnerabilidade e
adaptação em territórios do semiárido, que faz parte dos trabalhos desenvolvidos pela sub-rede Mudanças Climáticas
e Desenvolvimento Regional (MCDR), coordenada pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de
Brasília (CDS/UnB), integrante da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais - Rede Clima (MCT/
Inpe). Estas pesquisas foram realizadas em parceria com a Universidade Federal do Cariri (UFC Cariri), a Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), a Universidade Estadual
do Piauí (Uespi) e a Universidade Aberto do Piauí (Uapi).

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


152
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
FI GUR A 9.1 Localização dos estudos de caso.

Chapada do Araripe
CEARÁ
250 q Seridó Potiguar
RIO GRANDE DO NORTE
255 q

Gilbués
PIAUÍ
386 q

Áreas de estudo da sub-rede


Mudanças Climáticas e
Desenvolvimento Regional no Brasil

Juazeiro
BAHIA
249 q

LEGENDA
1. 2. 3. 4.
Limites Questionário aplicados Áreas suscetíveis Incidência
Administrativos por município à desertificação de seca

46
Estados Áreas semiáridas 0 a 20% 61 a 80%
55
Região Nordeste 65 Zonas secas subúmidas 21 a 40% 81 a 100%
84 Áreas de entorno 41 a 60%
100

fonte : Secretaria de Recursos Hídricos/MMA; IBGE; sub-rede MCDR. © S. Nasuti, 2013.

Percepção, Vulnerabilidade e Adaptação aos


Stéphanie Nasuti
Desafios Climáticos. Estudo de Caso na Bahia, 153
Diego Lindoso
Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte
Emissões de Gases de Efeito Estufa
na Agricultura Familiar

A produção rural familiar do Semiárido caracteriza-se por sistemas agro-


pecuários de baixo carbono. Esse contexto se explica, essencialmente, por dois
motivos. Primeiro, a escala de produção é muito pequena quando comparada às
fazendas modernas ou até mesmo à produção rural familiar de outras regiões
brasileiras. Os cultivos, principalmente de sequeiro, ocupam áreas reduzidas
(em média 3 ha) e os rebanhos animais, em média, contam com relativamente
poucos animais (Tabela 9.1). Segundo, os sistemas agropecuários tradicionais
consomem uma baixa quantidade de insumos carbono-intensivos. Fontes impor-
tantes de óxido nitroso (N2O), como fertilizantes nitrogenados e esterco são,
de modo geral, pouco frequentes diante do elevado custo e falta de conhe-
cimento, respectivamente. Outra fonte potencialmente relevante de N2O é a
decomposição dos resíduos agrícolas nos roçados (palha do milho, feijão, man-
dioca). Porém, como as áreas cultivadas são relativamente pequenas e parte dos
resíduos é utilizada na alimentação animal, em termos absolutos essa fonte tem
participação pouco significativa no perfil de emissões da agropecuária familiar.
A pecuária responde por parte substancial das emissões de gases de
efeito estufa (GEE) na produção rural familiar do Semiárido. Nesse setor, a
digestão entérica dos ruminantes (bovinos, caprinos e ovinos) é a principal fonte
de metano (CH4). O volume de CH4 emitido é influenciado sobremaneira pela
qualidade, quantidade e digestibilidade das forragens consumidas pelos animais
(BRASIL, 2010). Isso se torna especialmente relevante na pecuária extensiva
do Semiárido. Primeiro, porque o repertório alimentar acessado pelos rebanhos
contém regularmente cactáceas (como palma e mandacaru), resíduos agrícolas
(como palha de milho e palha de mandioca) e outras espécies da Caatinga de
baixa digestibilidade (BRASIL, 2004). Segundo, pelo fato dos animais desloca-
rem-se por grandes distâncias na busca por alimento. A atividade física durante o
pastejo aumenta a atividade metabólica que, por sua vez, é refletida no aumento
da produção de gases entéricos. O resultado na interação entre esses fatores
faz do gado de corte nordestino o mais intensivo em metano entre as regiões
brasileiras (BRASIL, 2004). Também de relevância, encontra-se a decomposição
dos dejetos animais sobre pastagem, fonte de N2O.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


154
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
TA B E L A 9.1 Caracterização geral dos estabelecimentos agrícolas da amostra.

Chapada
Estudo de caso Gilbués / PI Seridó / RN Juazeiro / BA Araripe / CE

Pratica somente agricultura de sequeiro 67,6% 45% 61,2% 96,8%


Area média plantada (ha) 3,3 3,2 SI 2,4

Atividade pecuária

Frequência da bovinocultura (%) 59% 59% 26% 26%


Rebanho bovino médio (cabeças) 11 9 11 —

ovino: 16,7% ovino: 24,5% ovino: 8,4%


Frequência de caprino ou ovicultura 68%
caprino: 21,5% caprino: 9,96% caprino: 7,2%

Rebanho caprino/ovino médio (cabeças) 3 5 88 —


Uso de fertilizantes (% dos produtores) 1% 15% 13% 9%
Uso de adubo orgânico (% dos produtores) 45% 5% 37% 23%

Diversificação da renda doméstica

Recebe pelo menos 1 Bolsa Família (%) 60,3 45,6 53,2 66,6
Recebe pelo menos 1 aposentadoria (%) 34 43,6 41,6 38,2

Pelo menos 1 pessoa presta serviço no campo /


12,1 18,7 12,8 39,8
fora (no CE) (%)

fonte : Pesquisas de campo 2011, 2012, 2013, sub-rede MCDR.

A fonte de GEE mais substancial nos sistemas rurais familiares, porém,


é o desmatamento associado à prática do fogo. Diante da escassez de recursos
econômicos e dificuldade de logística para acessar insumos agrícolas, o corte
e queima da vegetação é a principal estratégia de fertilização do solo. Geral-
mente, o corte é feito no período seco, entre maio e outubro. Imediatamente

Percepção, Vulnerabilidade e Adaptação aos


Stéphanie Nasuti
Desafios Climáticos. Estudo de Caso na Bahia, 155
Diego Lindoso
Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte
antes e no início da estação chuvosa, os produtores ateiam fogo. A queima
permite um aporte inicial de nutrientes e viabiliza bons índices de produtivi-
dade na primeira colheita, mas estes caem rapidamente nos anos seguintes. Nos
estudos do caso, a vida útil de uma área após a queima dificilmente ultrapassa
três anos. Os produtores buscam, então, novas áreas de Caatinga para repetir
o processo, de modo que os estabelecimentos são, muitas vezes, mosaicos de
áreas em regeneração em diversos momentos da sucessão ecológica.
Levando em consideração a digestão entérica, dejetos em pastagens
de bovinos, caprinos e ovinos e resíduos dos principais cultivos agrícolas fa-
miliares (mandioca, feijão e milho), que são as principais fontes de GEE da
produção rural familiar, o Nordeste contribui com 17% das emissões nacionais
do setor agropecuário. No que diz respeito a emissões ligadas às práticas de
desmatamento, de acordo com o II Inventário Nacional de Emissões de Gases
de Efeito Estufa, as emissões oriundas da mudança do uso da terra no bioma
Caatinga representaram em 2005 apenas 3% das emissões nacionais de CO2
(BRASIL, 2010). Dessa forma, mesmo adicionando ao cálculo as emissões do
desmatamento e queima da Caatinga, a agropecuária sertaneja tem uma con-
tribuição relativamente pequena no cenário nacional.
Esses dados chamam a atenção, pois cerca da metade dos estabele-
cimentos familiares brasileiros encontra-se na região Nordeste (IBGE, 2006).
Esse contexto sugere que a agropecuária nordestina é, de modo geral, pouco
intensiva em carbono quando comparada a outras regiões brasileiras, não por
sua eficiência, mas por sua pequena escala, baixa complexidade tecnológica e
aporte de insumos pouco expressivos.
Isso não significa que medidas de mitigação não sejam necessárias ou
desejáveis para a região, mas sugere que medidas para reduzir as emissões talvez
não sejam o foco da agenda climática no Semiárido. O modelo tradicional nordes-
tino, de baixo carbono, é também historicamente insuficiente no fornecimento
de condições dignas e qualidade de vida duradoura para as populações rurais. As
secas periódicas, o isolamento do restante do país e a sazonalidade marcante do
Semiárido tornam o aporte de recursos básicos, como água e comida, irregulares
e incertos. Por esses motivos, os sistemas produtivos e familiares são também
de elevada vulnerabilidade climática. Fome, migrações em massa e perdas hu-
manas marcam a história da região. Nesse sentido, a adaptação encontra-se no
centro da agenda climática relativa ao Semiárido brasileiro.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


156
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Vulnerabilidade e Adaptação Climática

Majoritariamente de sequeiro e com baixo acesso a meios para prevenir


e responder ao déficit hídrico e alimentar, os sistemas rurais familiares são
extremamente sensíveis ao clima (Tabela 9.2). De forma geral, as principais
dificuldades para produzir estão ligadas às condições de acesso à água ou
ao clima, explicando uma produtividade agrícola abaixo do ideal, e rebanhos
apresentando índices zootécnicos abaixo da média nacional e elevada taxa de
mortalidade durante secas extremas.

TA B E L A 9.2 Dificuldades para produzir e prejuízos ligados ao clima.

Chapada
Gilbués / PI Seridó / RN Juazeiro / BA
Araripe / CE

Acesso à água 46,10% 46,10% 54,00% 28,90%


Clima 51,80% 51,80% 33,60% 30,10%
Acesso ao recurso 21,80% 34,90% 15,20% 14,50%
Falta de Assistência Técnica 24,70% 24,70% 6,40% 4,80%
Impacto dos eventos climáticos

% que já sofreu algum tipo de prejuízo


— 68,50% 79,20% —
ligado ao clima

Principais prejuízos sofridos


Perda de animais 37,60% 19,10% 54,40% —
Perda de lavoura 77,10% 56,80% 47,20% —
Diminuição produtividade — 16,60% 13,60% —
Causa dos prejuízos
Seca/falta de chuva 89,90% 63,60% 62,40% —
Calor 2,20% 6,10% 23,20% —

Excesso de chuva/tempestades/
1,40% 37,60% 16,40% —
inundação

Doenças/pragas 1,40% 18,80% 15,20% —

fonte : Pesquisas de campo 2011, 2012, 2013, sub-rede MCDR.

Percepção, Vulnerabilidade e Adaptação aos


Stéphanie Nasuti
Desafios Climáticos. Estudo de Caso na Bahia, 157
Diego Lindoso
Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte
A pesquisa revelou que, desde meados da década de 1990, porém, houve
um desacoplamento parcial entre a vulnerabilidade agropecuária e a vulnera-
bilidade humana na zona rural do Semiárido2. Políticas públicas assistenciais,
emergenciais e de crédito melhoraram significativamente as condições de vida,
facilitando o acesso aos serviços básicos (saúde, escola, moradias, energia).
Esse conjunto de medidas vem amenizando os impactos do clima em termos de
segurança hídrica, alimentar e econômica nos domicílios, ganhando especial
peso em anos de seca extrema. Todavia, essas políticas emergenciais e assis-
tenciais não contribuem para mudanças estruturais que tornariam os sistemas
rurais menos vulneráveis por meio da prevenção e autonomia adaptativa.
Uma vez retiradas essas políticas, as famílias voltam a contextos de vulnerabi-
lidade pretéritos.
Assim, na escala dos sistemas produtivos, as adaptações continuam
sendo, em sua grande maioria, individuais, responsivas e pouco eficientes em
evitar o impacto (Tabela 9.3). Elas viabilizam uma sobrevida precária dos
sistemas produtivos e, diante de uma seca extrema, dificilmente são fonte de
renda para o produtor e sua família e, muitas vezes, um dreno dos recursos
obtidos em outras fontes.
Nesse contexto, a diversificação das fontes de renda, proporcionada em
parte pelos programas sociais, associada à melhoria das infraestruturas rurais,
assume um papel fundamental para fortalecer a segurança hídrica, alimentar e
financeira dos domicílios. O recurso monetário introduzido por essa diversifi-
cação torna de fato as famílias menos dependentes da produção de subsistência
e menos expostas aos riscos climáticos. Assim, em anos de secas severas, como
a de 2012, os contextos de sede extrema e de fome se tornaram muitos menos
frequentes no sertão.

2
Neste contexto, vulnerabilidade está relacionada à susceptibilidade de ser afetado por um distúrbio (sensibilidade) e
à habilidade de lidar com os impactos (capacidade adaptativa) (SMIT et al., 2001).

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


158
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Estratégias de adaptação encontradas
TA B E L A 9.3
nos estabelecimentos agropecuários visitados.

Alimentação do Alimentação do Rendimento da Segurança


rebanho na seca rebanho na seca produção agrícola doméstica

Silagem/ Silagem/
armazenamento armazenamento
de alimentos Previsão do tempo de alimentos
Estratégias Armazenamento
antecipadas a partir dos de gêneros
Plantio de culturas sinais naturais Plantio de culturas
alternativas alternativas
(palma, capim, cana) (palma, capim, cana)

Compra de gêneros
Ração caseira
(mandacaru, milho Adubo Venda de gado
maniva, etc.) Adaptação
Estratégias do calendário agrícola Diversificação das
reativas Ração comprada (aos sinais, eventos atividades
climáticos)
Migração do gado, Sombreamento Migração definitiva/
aluguel de pastagens sazonal (cidade/campo)

fonte : Pesquisas de campo 2011, 2012, 2013, sub-rede MCDR.

Transição Produtiva no Semiárido

O paradigma da Convivência com o Semiárido, que foi desenvolvido e


difundido por instituições de pesquisa (Embrapa e Universidades) e ONGs, a
partir da década de 1980, trouxe uma mudança central na forma de enxergar a
questão climática e a forma de lidar com ela: em vez do combate, a coexistência;
em vez de um flagelo, a seca, um contexto ambiental, o Semiárido.
Essa nova abordagem já trouxe alguns elementos a favor de uma tran-
sição produtiva para a agricultura familiar no Semiárido. De fato, o paradigma
da convivência com o Semiárido valoriza o modelo tradicional agropecuário sem
defender a imobilidade da tradição. Congrega práticas já presentes na cultura
sertaneja com um repertório de tecnologias sociais de baixo custo econômico
e elevado valor adaptativo. Dentro desse paradigma, os sistemas agropecuários
baseiam-se em alguns princípios centrais como:

Percepção, Vulnerabilidade e Adaptação aos


Stéphanie Nasuti
Desafios Climáticos. Estudo de Caso na Bahia, 159
Diego Lindoso
Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte
hhh estocagem de água e alimento durante a abundância;

hhh planejamento e gestão racional dos recursos durante a escassez;

hhh fortalecimento dos fluxos internos de matéria e energia (como a inte-


gração lavoura-pecuária);

hhh diversificação das fontes dos recursos adaptativos.

Ao contrário do modelo da revolução verde, que busca a otimização da


produtividade por meio do aporte intensivo de insumos externos (fertilizantes,
herbicidas, inseticidas), o modelo produtivo da convivência com o Semiárido
não visa à garantir uma produtividade ótima, mas dá ênfase na autonomia do
estabelecimento e na diversificação como estratégia de diluição de riscos. Não
é um modelo desenhado para gerar lucros elevados e sistemas agropecuários
modernos, mas suficiente para garantir a segurança alimentar familiar e animal,
assim como gerar um pequeno excedente para comercialização. Soma-se a isso
o fato de ter uma externalidade cultural positiva: valoriza o conhecimento
tradicional sem negar a importância da inovação.
O paradigma da convivência com o Semiárido apresenta uma série de
oportunidades para empreender a adaptação e a mitigação às mudanças cli-
máticas, assim como em promover um ganho de qualidade ambiental e das
condições socioeconômicas da população rural. Por exemplo, o fortalecimento
dos ciclos internos de matéria e energia congrega um número de pontos de
convergência com a necessidade de adaptação e mitigação. Ao aproveitar nos
cultivos agrícolas o esterco animal produzido no estabelecimento, o produtor
tem ganhos de produtividade e dá destino a dejetos que, de outra forma, seriam
decompostos em N2O nas pastagens. Apesar de não evitar as emissões, essa
estratégia reduz custos e gera aumento na renda, tornando os sistemas rurais
economicamente menos intensivos em carbono. Ao mesmo tempo, a cobertura
com esterco reduz a taxa evapotranspirativa do solo, que no Semiárido pode
ser três vezes superior à de precipitação. Do ponto de vista adaptativo, isso
conserva umidade no solo e pode ser decisivo para que uma cultura resista a um
veranico mais prolongado. Outro exemplo é o uso tradicional de restos agrícolas

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


160
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
na alimentação animal, conectando a agricultura à pecuária, reduzindo as emis-
sões de N2O que, de outra forma, seriam liberados durante a decomposição.
Técnicas de estocagem, como silos e fenos, otimizam o potencial miti-
gador e adaptativo da integração lavoura-pecuária. Por um lado, permitem que,
no período de abundância, alimento animal produzido nos roçados do estabele-
cimento seja armazenado. Assim, durante a estiagem ou mesmo em anos de seca
extrema, os sistemas pecuários podem ser mantidos sem ou com poucos custos
adicionais, conferindo um elevado valor adaptativo. Ao mesmo tempo, contribui
para mitigação, uma vez que reduz a demanda por forragens externas, cuja
cadeia produtiva é intensiva em carbono. É o caso do milho, a principal ração
animal: durante a seca extrema de 2012, o grão foi deslocado dos centros produ-
tores do centro-sul brasileiro até o mercado consumidor do Semiárido. Além das
emissões diretas envolvidas na produção intensiva em insumos, o deslocamento
rodoviário e marítimo até o Semiárido foi responsável por emissões significa-
tivas de CO2. Assim, o incentivo da autonomia alimentar pecuária dentro dos
estabelecimentos contribui para redução de emissões indiretas de GEE.
A diversificação das atividades dentro dos estabelecimentos também é
interessante do ponto de vista climático, pois dilui riscos e aumenta a flexibi-
lidade ambiental. Nos estudos de caso, foram destaques a apicultura e o extra-
tivismo de frutas nativas. Do ponto de vista da adaptação, ambas lançam mão
de espécies já bem adaptadas às condições do Semiárido, reduzindo a vulnera-
bilidade climática global do sistema rural. Do ponto de vista da mitigação, são
atividades carbono zero, além de fomentar a conservação da Caatinga, sumi-
douro natural de carbono.
O grande potencial para mitigação das emissões de GEE, no entanto,
encontra-se no controle da prática tradicional do corte e queima. Isso é es-
pecialmente desafiador diante da inércia cultural de séculos da prática e da
dificuldade que os produtores encontram para empreender alternativas. A recu-
peração dos solos degradados é um caminho, aventado em todos os estudos de
caso por vários atores institucionais e produtores. Nesse ponto, há um dilema
imediato, pois o uso de fertilizantes e a aplicação de calcário – notórias fontes
de GEE – são necessários. Se considerar que irão levar à queda do desmatamento
e ao fortalecimento de sumidouros, porém, o balanço entre sequestro e emissão
é positivo.

Percepção, Vulnerabilidade e Adaptação aos


Stéphanie Nasuti
Desafios Climáticos. Estudo de Caso na Bahia, 161
Diego Lindoso
Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte
Gargalos para Sistemas Rurais Rentáveis,
de Baixo Carbono e Pouco Vulneráveis

Apesar do grande potencial adaptativo e de mitigação trazido pelo pa-


radigma da Convivência com o Semiárido, sistemas produtivos dentro desses
moldes ainda são exceções no Semiárido. Verificou-se que o problema não se
encontra na pesquisa e no desenvolvimento de novas tecnologias, as quais
são abundantes e eficientes. Os principais gargalos encontram-se, na verdade,
nos canais e meios de difusão dessas tecnologias entre os produtores por
conta de: custos financeiros envolvidos; situação fundiária incerta de muitos
produtores familiares, o que dificulta a obtenção da documentação necessária
para acessar o crédito; falta de orientação e acompanhamento técnico, levando
a má aplicação ou desvio do recurso; fragilidade dos órgãos governamentais
de Assistência Técnica Rural (Ater), o que pode ser considerado a principal
barreira para sistemas de baixo carbono, resilientes e de baixa vulnerabilidade
ao clima.
Não basta, todavia, desenvolver tecnologias adaptativas e modelos pro-
dutivos de baixo carbono. As experiências pretéritas que buscaram modernizar
os produtores rurais familiares, transformando-os em produtores empresariais
nos moldes da revolução verde, mostraram-se pouco exitosas ao não conside-
rarem as incompatibilidades culturais que interferem nas escolhas produtivas do
sertanejo tradicional, resultando em fracassos e êxodo rural (BURSZTYN, 1984).
Os técnicos rurais e, mais frequentemente, as instituições não-gover-
namentais, são responsáveis para construir esse canal de diálogo com a cultura
sertaneja. O paradigma da convivência com o Semiárido deve ser encarado como
uma oportunidade. Ele incorpora na sua base o modelo tradicional, ao mesmo
tempo em que propõe sistemas mais intensivos e eficientes. Isso torna mais
fácil a apropriação de estratégias que reduzam vulnerabilidades, aumentem a
resiliência e mitiguem as emissões de GEE.

Considerações Finais

Os resultados das nossas pesquisas mostram que, no intuito de alcançar


e garantir a segurança econômica e alimentar no domicílio, os agricultores
entrevistados regulam o risco por meio de uma reorientação das atividades

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


162
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
(agrícolas e não agrícolas), e cada vez menos por meio de uma adaptação das
estratégias e técnicas agrícolas. Isso não significa que a agricultura familiar
não tem futuro no Semiárido nordestino. A agricultura continua exercendo um
papel insubstituível, enquanto meio de vida e referencial cultural. Todavia, para
se manter como “opção de futuro” para os jovens, a agricultura familiar precisa
da injeção de novas tecnologias, adaptadas para uma efetiva convivência com
o Semiárido.
A necessária transição produtiva, porém, não deve se restringir a seus
aspectos técnicos. É necessário levar em consideração o conjunto de fatores
culturais, institucionais e sociais que vão condicionar a implantação duradoura
dessas novas técnicas produtivas. Nesse sentido, o papel das instituições de
extensão rural e das organizações não governamentais é fundamental. Nesse
processo, a intensificação das técnicas agrícolas, tais como o uso de fertili-
zantes e a aplicação de calcário, pode causar um aumento direto das emissões
de GEE. Leva, entretanto, a uma redução das emissões indiretas e pode levar
a uma agricultura capaz de proporcionar uma melhor qualidade de vida e mais
adequada às perspectivas de vida dos jovens rurais do Semiárido nordestino.

referências

BRASIL. Segunda comunicação nacional do brasil à convenção-quadro das nações unidas sobre mu-
dança do clima. Brasília, 2010.

BRASIL. Primeira Comunicação Nacional do Brasil à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre
Mudança do Clima. Brasília, 2004.

BURSZTYN, M. O Poder dos Donos: planejamento e clientelismo no Nordeste. Petrópolis: Vozes. 178
p. 1984.

IBGE, 2006. Censo Agropecuário. Resultados preliminares. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em:
<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/agropecuaria/censoagro/2006/agro-
pecuario.pdf>.

SMITH, J.B., SCHELLNHUBER, H-J., MIRZA, M. Q. et al. 2001.  Chapter 19: Vulnerability to Climate
Change and Reasons for Concern: A Synthesis. In IPCC, 2001. Third Assessment Report - Climate
Change 2001 - Working Group II: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Disponível em:
<http://www.grida.no/publications/other/ipcc_tar/?src=/climate/ipcc_tar/wg2/657.htm>.

Percepção, Vulnerabilidade e Adaptação aos


Stéphanie Nasuti
Desafios Climáticos. Estudo de Caso na Bahia, 163
Diego Lindoso
Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte
10.
Caminhos para a
Produção Familiar
de Baixo Carbono
no Pantanal

Carolina Joana da Silva1


Gabriela Litre2
Pedro Nogueira3
Jane Simoni4
Joari Arruda5

1
Centro de Pesquisa de Limnologia, Biodiversidade e Etnobiologia
do Pantanal, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT.
2
Centro de Desenvolvimento Sustentável,
Universidade de Brasilia – UnB.
3
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro –
UFRRJ.
4
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária –
Embrapa Sede.
5
Centro de Pesquisa de Limnologia, Biodiversidade e Etnobiologia
do Pantanal, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT.
A Declaração do Milênio enfoca as pressões socioambientais impos-
tas aos diferentes biomas do mundo, particularmente os potenciais impactos
das mudanças climáticas globais sobre esses biomas. As últimas descobertas
científicas indicam que o aumento da concentração de gases de efeito estufa
emitidos por fontes antropogênicas está alterando significativamente o equi-
líbrio do sistema climático (FOSTER et al., 2007). Vários autores têm relatado
e discutido os impactos das mudanças climáticas globais associadas a esses
biomas (ALVERSON et al., 2003; CRAMER et al., 2004; DAVIS et al., 2003). A
alteração da concentração de gases de efeito estufa (GEE) poderá desenca-
dear um aumento da temperatura média no planeta em até 5,8°C nos próximos
100 anos (IPCC, 2007; PINTO & ASSAD, 2008; ESCOBAR, 2008). Estima-se que,
das emissões totais, a agricultura contribui com aproximadamente 20% da
emissão antrópica de GEE, sendo que pode atuar como fonte ou dreno de GEE
(JOHNSON et al., 2005).
Três dos principais gases de efeito estufa são dióxido de carbono (CO2),
óxido nitroso (N2O) e metano (CH4), sendo que seus fluxos nos agroecossistemas
são dependentes do manejo e das práticas agrícolas adotadas. No Brasil, a
contribuição da agricultura às emissões de GEE é estimada em 75% das emissões
de CO2, 91% das emissões de CH4 e 94% das emissões de N2O (ESCOBAR, 2008;
CERRI & CERRI, 2007; CERRI et al., 2004).
Em 2009, durante a 15a Conferência das Partes (COP), realizada em
Copenhague, na Dinamarca, foi iniciada uma nova fase de negociações interna-
cionais sobre mudanças climáticas globais. Por meio da Lei n° 12.187, de 29 de
dezembro desse ano, foi instituída no Brasil a Política Nacional sobre Mudança do
Clima, onde foi estabelecido o compromisso de reduzir as emissões de gases de
efeito estufa entre 36,1% e 38,9% das emissões projetadas até 2020 (CNA, 2012).
Nesse sentido, o país submeteu em nível internacional, no Acordo de Copenhague
em 2009, uma lista de ações nacionais de mitigação, denominadas Namas (sigla
em inglês para “Ações de Mitigação Nacionalmente Apropriadas”). O Brasil se
comprometeu a implementar essas ações de maneira voluntária e de acordo com
os princípios e provisões estabelecidos pela Convenção sobre Mudança do Clima,
com a adoção de Planos de Ação Setoriais (CERRI et al., 2010).
Os Planos de Ação Setoriais ligados ao uso da terra foram divididos nas
seguintes categorias: Mudanças de Uso da Terra (desmatamento na Amazônia e
no Cerrado), Agropecuária, Energia e Outros (substituição de biomassa oriunda
de floresta nativa por florestas plantadas na siderurgia).

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


166
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
A Agropecuária gera uma relação de causa e consequência com a mudança
do clima: ao mesmo tempo em que emite gases de efeito estufa, o setor pode
ser amplamente impactado pelos efeitos da mudança do clima. Os fluxos de
gases de efeito estufa do solo para a atmosfera são extremamente complexos e
heterogêneos, o que faz com que as estimativas de emissões estejam sujeitas
a incertezas consideráveis. Pesquisas recentes enfatizaram a importância de
aumentar o conhecimento de processos no solo para se obter maior confiança
nas projeções de futuras mudanças nas concentrações atmosféricas de gases de
efeito estufa (PINTO & ASSAD, 2008; FERNANDES et al., 2011).
O bioma Pantanal representa uma das mais expressivas regiões criató-
rias dos bovinos de corte do Brasil. O manejo tradicional praticado há mais de
200 anos pelos produtores pantaneiros tem contribuído para a conservação
ambiental: a região possui cerca de 83% da sua vegetação nativa preservada
(MMA, 2010). A pecuária de corte é desenvolvida em sistema extensivo, sendo
que no caso dos agricultores familiares os animais são mantidos em grande
parte por pastagens nativas em extensas invernadas, de forma a permitir o
pastejo seletivo e o uso das aguadas (áreas de relevo negativo, sujeitas à
inundação), com entrada quase nula de insumos. Os índices zootécnicos dos
sistemas extensivos, entretanto, são relativamente baixos, quando comparados
aos sistemas intensivos.
Nos últimos anos, vêm crescendo as pressões econômicas para aumento
da produtividade dos sistemas de produção de gado de corte do Pantanal. Tais
pressões podem ameaçar a sustentabilidade dos ecossistemas devido à intro-
dução de tecnologias com impactos negativos, tais como o desmatamento de
cordilheiras e capões (unidades de paisagem de relevo positivo, raramente
inundáveis, cobertas por vegetação arbórea), para implantação de pastagens
com espécies exóticas, queimadas sistemáticas da mesma área e/ou aumento
da lotação dos animais.
Em virtude das emissões de GEE resultantes da fermentação entérica
ruminal e da decomposição dos dejetos bovinos, além daquelas relacionadas ao
desmatamento e queimadas para o estabelecimento de novas áreas, a pecuária
de corte tem sido apontada como uma das principais atividades antrópicas
responsáveis pelo agravamento do aquecimento global (SILVA et al., 2012; FER-
NANDES et al., 2011). Se por um lado não é possível desvincular as emissões de
GEE da atividade pecuária, por outro lado é possível pensar em mitigação das
emissões, estabelecendo as melhores estratégias a serem adotadas de acordo

Carolina Joana da Silva Jane Simoni


Caminhos para a Produção Familiar
Gabriela Litre Joari Arruda 167
de Baixo Carbono no Pantanal
Pedro Nogueira
com a realidade dos diversos sistemas de produção, como por exemplo, aumento
da eficiência do uso da terra e/ou identificação de possíveis formas de compen-
sação para as emissões (SILVA et al., 2012; FERNANDES et al., 2011).

Contexto
O Estado de Mato Grosso possui uma área de 903.357,91 Km2, equiva-
lente a 90.335.791 hectares, sendo que 47.805.514 hectares são utilizados por
propriedades agropecuárias, o que corresponde a 52,92% do território mato-
grossense. Segundo o Censo agropecuário 2006 (IBGE, 2006) essa área é ocu-
pada por 86.167 estabelecimentos de agricultura familiar (AF), que ocupam
4.884.212 ha, e por 26.811 estabelecimentos não familiares distribuídos em
um espaço de 42.921.302 ha. Vale lembrar que a Lei nº 11.326, de 24 de julho
de 2006, define como agricultor familiar o empreendedor familiar rural que
detenha até quatro módulos fiscais; utilize predominantemente mão-de-obra
da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento; tenha
percentual mínimo da renda familiar originada de atividades econômicas do seu
estabelecimento; e dirija seu estabelecimento com sua família. Esses critérios
implicam que a maior parte do território mato-grossense é ocupada por proprie-
dades consideradas não familiares, utilizadas principalmente para a produção
de commodities agrícolas como a soja, milho, algodão e também a carne bovina.
O Pantanal, maior área alagável de água-doce do mundo é um dos três
biomas que compõem o Estado de Mato Grosso (os outros são Cerrado e Amazô-
nia), é uma planície periodicamente inundada alimentada pelos afluentes do
rio Paraguai. O Pantanal como um todo apresenta uma extensão de 140.000
km2, onde 80% estão no território brasileiro. As terras inundáveis desse bioma
estão localizadas na bacia do alto rio Paraguai e se estendem além da fron-
teira brasileira com a Bolívia e o Paraguai. A diversidade biológica e cultural do
Pantanal contribuiu para seu reconhecimento como Área Úmida de Importância
Internacional pela V Convenção Ramsar, em 1993, indicando como Sítio Ramsar
o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense e a Reserva Particular do Patri-
mônio Natural do Sesc Pantanal; como Patrimônio Natural da Humanidade, em
24 de maio de 1993; e como Reserva da Biosfera, pela Unesco, em 2000, propi-
ciando oportunidades para o estabelecimento de estratégicas de conservação
dos recursos hídricos, da biodiversidade e dos modos de vida dos pantaneiros,

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


168
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
em consonância com as políticas públicas socioambientais, visando à sustenta-
bilidade desse bioma.
Nesse contexto, foram analisadas as emissões líquidas de GEE identifi-
cadas para o bioma Pantanal como um todo, assim como aquelas associadas às
atividades produtivas dos agricultores familiares localizados nos assentamen-
tos de reforma agrária na região norte do Pantanal, Estado de Mato Grosso. Em
relação às fontes de emissões de gases de efeito estufa nos principais sistemas
de produção da agricultura familiar no bioma Pantanal, foram utilizados dados
da pesquisa Mudanças Climáticas, Vulnerabilidade e Capacidade Adaptativa de
Territórios de Mato Grosso, desenvolvida pela Universidade do Estado de Mato
Grosso (Unemat), em parceria com o Centro de Desenvolvimento Sustentável
da Universidade de Brasília (CDS/UnB), no âmbito da Rede Clima, sub-rede Mu-
danças Climáticas e Desenvolvimento Regional.
Para isso, buscou-se uma resposta contextualizada nos relatórios do
IPCC, na Segunda Comunicação Nacional do Brasil à Convenção Quadro das
Nações Unidas acerca das Mudanças do Clima (BRASIL, 2010) e nos cenários de
emissões de gases de efeito estufa identificados na literatura.
Os relatórios do IPCC (2001, 2007 e 2013) e vários outros trabalhos
científicos recentes, afirmam que a mudança climática é um fato inequívoco e
se deve principalmente à ação do homem (EMCB, 2010; MARENGO et al., 2011).
Segundo o novo relatório, apresentado em setembro de 2013, as pesquisas mais
recentes apontam que existe 95% de certeza sobre a responsabilidade humana
no aquecimento global. Em 2007, quando o relatório anterior foi divulgado, a
certeza era de 90%.
A elaboração, por modelagem, de cenários de emissões de gases de
efeito estufa (GEE) indica um aumento na temperatura das regiões Sudeste e
Centro-Oeste da ordem de 0,4° a 1,1°C em 2025, podendo chegar a 5°C em 2080,
e um aumento de precipitação entre 10% e 15% durante o século XXI (SALATI
et al., 2006). Além disso, no estudo feito sobre a economia do clima no Brasil,
a partir da utilização dos modelos do IPCC, para o Centro-Oeste está previsto o
aumento de ondas de calor e de chuvas extremas e redução de geadas no Mato
Grosso do Sul (EMCB, 2010).
Esses eventos, que têm consequências importantes para o ecossistema e
a biodiversidade, têm também repercussões fortes sobre várias esferas da vida e
da subsistência humana. De fato, existe um consenso crescente sobre o fato de
as mudanças climáticas estarem transformando o contexto do desenvolvimento

Carolina Joana da Silva Jane Simoni


Caminhos para a Produção Familiar
Gabriela Litre Joari Arruda 169
de Baixo Carbono no Pantanal
Pedro Nogueira
rural, mudando as paisagens físicas e socioeconômicas, multiplicando os riscos
e as vulnerabilidades “tradicionais” que a agricultura de subsistência enfrenta
(MARENGO, 2006; MARENGO et al., 2011; GRAINGER -JONES, 2011).
Com base nos dados apresentados na Segunda Comunicação Oficial do
Brasil à Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças no Clima1, que
tem como referência o período 1994-2002, foram estimadas emissões líquidas da
ordem de 129.373 GgCO2 para o bioma Pantanal (Figura 10.1). Desse montante,
aproximadamente 79.075 GgCO2, 61% do total, tiveram origem na região Norte
do bioma, localizado no Estado de Mato Grosso e abrangendo 12 municípios
onde a presente pesquisa foi realizada.

FI GUR A 10.1
Emissões líquidas
de CO2 (toneladas)
por setor nos
Assentamentos de
Reforma Agrária
localizados na
região Norte do
bioma Pantanal.

W E

0 100 200
fonte : Km
Segunda
LEGENDA
Comunicação
Emissões líquidas de CO2
Oficial do Brasil
(Funcate, 2010). Mato Grosso – -304.412,28 149.579,83 - 349.016,55 752.780,41 - 168.986,38
Análise: Mato Grosso do Sul
0,1 - 149.579,82 349.016,55 - 752.780,41
Pedro Nogueira.

1
Mais detalhes da metodologia pode ser encontrado em: http://www.mct.gov.br/upd_blob/0215/215038.pdf.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


170
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Nesse contexto, a conversão da vegetação nativa e áreas agrícolas para
áreas de pastagens na região norte do Pantanal, Estado de Mato Grosso, foi
responsável por 92% das emissões líquidas de CO2 estimadas para essa região,
ou 56% das emissões líquidas estimadas para o bioma como um todo; o que
representa cerca de 72.743 GgCO2.
A conversão da vegetação nativa e áreas de pastagens para áreas agrí-
colas na região norte do Pantanal, em Mato Grosso, foi responsável por apenas
0,41% das emissões líquidas de CO2 estimadas para a região, ou 0,25% das emis-
sões líquidas estimadas para o bioma como um todo. Esse montante representa
aproximadamente 324 GgCO2. Deste modo, a conversão de vegetação nativa e
área agrícolas para áreas de pastagem no bioma Pantanal foi identificada como
a principal fonte de emissões líquidas de CO2 considerando o período de refe-
rência (1994-2002).
Com base no objetivo desse artigo, que busca subsidiar a transição para
uma produção familiar de baixo carbono no bioma Pantanal, os projetos de
assentamento da reforma agrária localizados na região norte do Pantanal, Estado
de Mato Grosso, foram responsáveis por 3.369 GgCO2 de emissões líquidas durante
o período de referência (1994-2002) (Figura 10.2).

FI GUR A 10.2
Emissões líquidas
de CO2 nos
Assentamentos de
Reforma Agrária
localizados na
região norte do
bioma Pantanal.

W E

S
0 100 200
Km
fonte :
LEGENDA
Emissões líquidas de CO2 Segunda Comunicação
Oficial do Brasil
Mato Grosso -304.412,28 - 0 22.692,19 - 97.394,79 377.935,75 - 1.096.803,42 (Funcate, 2010).
Análise:
Assentamento Pantanal MT 0,1 - 22.692,19 97.394,79 - 377.935,75
Pedro Nogueira.

Carolina Joana da Silva Jane Simoni


Caminhos para a Produção Familiar
Gabriela Litre Joari Arruda 171
de Baixo Carbono no Pantanal
Pedro Nogueira
Dessas, 99% estão associadas à conversão da vegetação nativa e áreas
agrícolas para áreas de pastagens, o que representa 3.361 GgCO2 (Tabela 10.1).

TA B E L A 10.1 Emissões Emissões Emissões


Projetos de
Emissões líquidas de Município líquidas líquidas líquidas
Assentamento PECUÁRIA AGRICULTURA TOTAIS
CO2 (gigagramas) por
setor nos Projetos Papiro Porto Esperidião 6 0 6
de Assentamento da Bom Sucesso Cáceres 0 0 0
Reforma Agrária,
Facão Cáceres 0 0 0
localizados na
região norte do Katira Cáceres 0 0 0
bioma Pantanal. Barranqueira Cáceres 120 5 125

Corixo Cáceres 18 0 18

Jatobá Cáceres 30 0 30

Nova Esperança Cáceres 130 0 130

Rancho da Saudade Cáceres 250 0 250

Sapicuá Cáceres 132 0 132

São Luiz Cáceres 205 0 205

Laranjeira I Cáceres 445 0 445

Laranjeira II Cáceres 57 0 57

Ipê Roxo Cáceres 33 0 33

Paiol Cáceres 392 3 395

Limoeiro Cáceres 120 0 120

Sadia Vale Verde Cáceres 53 0 53

Margarida Alves Mirasol d´Oeste 157 0 157

Agroana/Girau Poconé 70 0 70

Poconé
João Ponce de Arruda 745 0 745
Nossa Sra. do Livramento

Santa do Taquaral S. Antônio de Leverger 95 0 95

Ribeirão da Glória S. Antônio de Leverger 127 0 127

Resistência S. Antônio de Leverger 47 0 47


fonte :
Brasil, 2010. Vale do São Vicente S. Antônio de Leverger 121 0 121
Formulação
dos autores. Total 3.353 8 3.361

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


172
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Como já mencionado, autoridades brasileiras anunciaram que o país bus-
cará reduzir suas emissões de GEE entre 36,1% e 38,9% das emissões projetadas
até 2020. Segundo Cerri et al. (2010), para alcançar essa meta governamental,
os setores agricultura e pecuária devem contribuir reduzindo a emissão em 133
a 166 MtCO2eq. Ao mesmo tempo, investimentos governamentais nos setores
agrícola, pecuária e silvicultura são necessários para minimizar os esforços para
atingir as metas de redução de emissão pelos outros setores do país (CERRI et
al., 2010).
Como foi observado, a principal fonte de emissões líquidas de dióxido
de carbono (CO2) nos assentamentos de reforma agrária localizados na região
norte do Pantanal, é a conversão da vegetação nativa e áreas de agricultura
para áreas de pastagem.
Nesse contexto, para reduzir as emissões de CO2 associadas à pecuária
nos assentamentos de reforma agrária na região norte do bioma Pantanal, veri-
ficou-se a presença de três principais gargalos/desafios intimamente relaciona-
dos, os quais provavelmente se aplicam as demais regiões do Brasil: 1) oferta/
acesso ao financiamento para realizar essa transição; 2) disponibilidade de
assistência técnica; e 3) interesse político. Hoje, o conhecimento e as técnicas
para aumentar a produtividade e a eficiência da pecuária, o que poderia re-
duzir significativamente as emissões associadas a este setor, encontram-se
disponíveis. No entanto, para a implementação dessas técnicas, principalmente
quando se trata de pequenos produtores, é necessário que esses gargalos sejam
superados, possibilitando o acesso desses atores às técnicas mais sustentáveis.
Neste contexto, o Programa Agricultura de Baixo Carbono (Programa
ABC) talvez seja hoje a oportunidade mais clara para iniciar a transição dos
agricultores familiares para uma produção de baixo carbono. Dessa forma, ainda
que o Programa se encontre direcionado para os grandes produtores, justa-
mente por essas áreas apresentarem os maiores passivos ambientais (o que
pode ser interpretado como um incentivo perverso), ocuparem a maior parte
do território brasileiro (250 milhões de hectares), e devido à sua importância
econômica; apresenta uma oportunidade real para os agricultores familiares por
meio das seguintes iniciativas:

Carolina Joana da Silva Jane Simoni


Caminhos para a Produção Familiar
Gabriela Litre Joari Arruda 173
de Baixo Carbono no Pantanal
Pedro Nogueira
a) apoio a Projetos de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater);
h

b) disponibilização de insumos básicos para recuperação de pastagens


h

degradadas e projetos de integração Lavoura-Pastagem-Floresta


(iLPF) e de Sistemas Agroflorestais (SAFs);

c) aprimorar os procedimentos dos agentes financeiros para facilitar o


h

acesso às linhas de financiamento;

d) viabilizar acesso a tecnologia de fixação biológica de nitrogênio


h

(FBN);

e) facilitar acesso ao programa de distribuição de inoculantes para fins


h

de recuperação de pastagens degradadas e projetos de sistemas de


plantio direto.

Os aspectos culturais observados nas áreas da agricultura familiar, asso-


ciados às dificuldades de acesso ao financiamento, podem dificultar o acesso
dos pequenos produtores a programas de financiamento como o da Agricultura
de Baixo Carbono. Dentre as características observadas no sistema de produção
familiar, existe a necessidade de compatibilizar a sazonalidade da produção com
a renda ao longo do ano por meio da diversificação; a lógica de produção de cul-
turas de subsistência e em escala reduzida para comercialização de excedentes;
a disponibilidade da mão-de-obra da família e um menor grau de mecanização;
e a existência do estabelecimento rural como espaço de produção, moradia e de
identidade cultural e modo de vida.

Passos para Reduzir as Emissões


da Agricultura Familiar no Pantanal

Considerando que 99% das emissões líquidas de CO2 estimadas para os


assentamentos localizados na região norte do Pantanal, Estado de Mato Grosso,
durante o período 1994-2002, tiveram origem na conversão de vegetação nativa
e áreas agrícolas para áreas de pastagem, é importante que os esforços para
reduzir emissões de CO2 nessas áreas sejam direcionados para a pecuária.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


174
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Nesse sentido, as seguintes técnicas para intensificar a pecuária e re-
duzir a pressão sobre novas áreas de vegetação nativa poderiam ser empregadas
pelos pequenos produtores residentes nos assentamentos de reforma agrária
analisados: recuperação de pastagens degradadas, melhorias na dieta dos ani-
mais, implantação de sistema rotativo, semi-confinamento e confinamento e
sistemas alternativos como a integração lavoura-pecuária-floresta.
É importante ressaltar que a viabilidade de cada uma dessas técnicas
deve ser previamente analisada junto aos agricultores familiares, considerando
suas demandas, condições, interesses, entre outros. Outro ponto importante é
a necessidade de atualizar essas informações, considerando que as estimativas
aqui apresentadas têm como referência o período 1994-2002. Dessa forma, é
possível que a partir do período analisado as atividades produtivas tenham
se modificado, o que poderia resultar em outras atividades como principais
responsáveis por emissões de GEE nessas áreas. Ainda assim, as iniciativas
mencionadas encontram-se parcial ou totalmente compreendidas pelo Programa
ABC, sendo que essa convergência de demandas locais, políticas nacionais e
compromissos internacionais deve ser observada.
Outra possibilidade de cooperação para implementação de práticas mais
sustentáveis na pecuária é por meio do Programa Boas Práticas Agropecuárias
(BPA) da Embrapa. Segundo o site do Programa2, “as Boas Práticas Agrope-
cuárias – Bovinos de Corte (BPA) referem-se a um conjunto de normas e de
procedimentos a serem observados pelos produtores rurais, que além de tornar
os sistemas de produção mais rentáveis e competitivos, asseguram também a
oferta de alimentos seguros, oriundos de sistemas de produção sustentáveis”.
Ainda de acordo com site do Programa, “a Embrapa e as entidades parceiras vêm
desenvolvendo ações de conscientização dos produtores e de capacitação de
multiplicadores em protocolos de controle de qualidade”.
O potencial das propostas tecnológicas para uma agricultura de baixo
carbono é de vital importância para o Pantanal e seus habitantes: apesar de
relativamente bem preservada, a região do Pantanal é bastante vulnerável e
sofre com a atividade humana. De fato, apenas 2% da extensão desse bioma en-
contra-se sob proteção federal. A sua localização estratégica torna-o sensível ao
avanço da agricultura extensiva, pecuária, poluição aquática, barragens e trans-
porte fluvial, aumentando a pressão sobre os ecossistemas locais (TNC, 2014).

2
http://cloud.cnpgc.embrapa.br/bpa/

Carolina Joana da Silva Jane Simoni


Caminhos para a Produção Familiar
Gabriela Litre Joari Arruda 175
de Baixo Carbono no Pantanal
Pedro Nogueira
Por outro lado, se faz preciso evitar que o foco em emissões de GEE
ofusque a vital contribuição da pecuária aos modos de vida dos agricultores
familiares pantaneiros (DA SILVA & SILVA, 1995; GALDINO & DA SILVA, 2009)
e, ao mesmo tempo, dos ruminantes, que consiste na sua grande eficiência em
transformar biomassa em alimento proteico de alta qualidade nutricional (carne
e leite).
Se por um lado não é possível desvincular as emissões de GEE da atividade
pecuária (FERNANDES & FERNANDES, 2011), já que essa condição evoluiu com as
espécies de ruminantes e é necessária para evitar a intoxicação do animal, por
outro é possível pensar em mitigação, avaliando de forma concomitante os vários
processos relacionados às emissões de GEE. Para isso, Fernandes & Fernandes
(2011) afirmam que é necessário integrar a quantificação das emissões e da
capacidade de absorção de carbono pelos diferentes compartimentos presentes
nos diversos sistemas de produção pecuária existentes no Brasil, levando-se
em conta as peculiaridades de cada um. A partir daí, as melhores estratégias a
serem adotadas poderão ser estabelecidas, de modo que não representem mais
encargos financeiros para o produtor sem vantagens econômicas evidentes,
visando garantir a sustentabilidade da atividade. Além disso, também será
possível calcular a «pegada» de carbono dos produtos, a qual poderá se tornar
uma exigência dos mercados consumidores num futuro próximo (FERNANDES &
FERNANDES, 2011).
Para concluir, é fundamental que a regularização ambiental dos assen-
tamentos e lotes caminhem lado a lado com a adoção de melhores práticas
agropecuárias. Assim, o Cadastro Ambiental Rural (CAR), estabelecido pelo pela
nova legislação florestal, apresenta-se como instrumento importante para que
tal mudança de paradigma se concretize. Sua função é gerar informações ambi-
entais sobre os imóveis rurais, de modo a possibilitar o “controle, monitora-
mento, planejamento ambiental e econômico e combate ao desmatamento” em
todo território nacional (Art. 29, Lei 12.651/2012; Decreto 7.830/2012).
No entanto, apesar da importância do CAR, Azevedo et al. (2014)
concluíram que este instrumento é o primeiro passo no processo de regula-
rização ambiental das propriedades rurais, e portanto, ele sozinho pode não ser
eficaz para controlar os desmatamentos. Logo, é importante o monitoramento
e responsabilização das atividades ilegais realizadas posteriormente nessas
áreas, assim como das ações previstas para recuperação dos passivos ambi-
entais identificados.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


176
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Medidas de Adaptações Climáticas

Felizmente, e apesar do processo de mudança climática tornar a produção


de subsistência ao mesmo tempo mais cara e mais insegura (GRAINGER-JONES,
2011), as populações rurais estão ganhando cada vez mais alternativas à subsis-
tência e à vida rural (DUFOUR E PIPERATA, 2004; SIMONI, 2010). A esse respeito,
Shanin (2008) ressalta a capacidade dos agricultores familiares para encontrar
soluções frente às situações de crise provando serem extremamente resilientes e
criativos. Assim, frente às vulnerabilidades e ameaças provocadas pelas mudan-
ças climáticas e pelo aquecimento global, tem-se a necessidade de novas alter-
nativas de desenvolvimento territorial, traduzidas em oportunidades de geração
de renda e melhoria da qualidade de vida, mediante a resiliência e a capacidade
de adaptação de sistemas socioprodutivos (SIMONI, 2010; SIMONI et al., 2010).
Nesse contexto, vulnerabilidade é entendida como suscetibilidade dos
sistemas humanos a fenômenos naturais e, frequentemente, é associada a per-
das ou prejuízos específicos (MORTON, 2007; IPCC, 2007). Contudo, os eventos
climáticos são apenas a faceta destacada de uma vulnerabilidade que é multi-
dimensional (CUTTER & FINCH, 2008; FORD et al., 2010). Distúrbios sociais,
políticos e econômicos também influenciam na dinâmica da vulnerabilidade
(GIDDENS, 1991; BECK, 1999).
A vulnerabilidade é caracterizada por três atributos: sensibilidade, capa-
cidade adaptativa e exposição (IPCC, 2007). Enquanto a exposição diz respeito
à dinâmica climática (natureza, magnitude e frequência), a sensibilidade e a
capacidade adaptativa são propriedades dos sistemas socioecológicos e estão
associados a aspectos socioeconômicos, político-institucionais, demográficos,
ocupação do solo e ecológicos que potencializam os impactos climáticos e de-
terminam a capacidade de resposta durante e após o distúrbio, respectivamente.
Assim, o conceito de vulnerabilidade se depara com uma realidade com-
plexa, abrangendo diferentes dimensões (social, cultural, econômica, ecológica
e político-institucional), assim como perpassando diversas escalas espaciais
(i.e. local, paisagem, regional, nacional, global), envolvendo fatores tanto in-
ternos quanto externos e escalas temporais (curto, médio e longo prazos). Da
mesma forma, as dinâmicas do mercado e do clima moldam a vulnerabilidade da
produção familiar, especialmente daquela com inserção no mercado.
Mas como definir a capacidade adaptativa ou de adaptação? O termo
refere-se à capacidade de reação e prevenção dos sistemas socioecológicos

Carolina Joana da Silva Jane Simoni


Caminhos para a Produção Familiar
Gabriela Litre Joari Arruda 177
de Baixo Carbono no Pantanal
Pedro Nogueira
antes, durante e após um distúrbio (ADGER et al., 2003). Está associada à capa-
cidade de inovação, aprendizado e auto-organização do sistema. Depende da
disponibilidade de opções de adaptação e da capacidade apresentada por um
sistema em transitar entre estas opções (ADGER et al., 2009a; ADGER et al.,
2009b). As diversas conceituações apresentadas na literatura estão de uma
forma ou de outra relacionada à diversidade (genética, fenotípica, cultural, te-
cnológica) e a aspectos de governança (político-institucionais).
Assim, o fortalecimento de instituições e paisagens organizacionais
– capital social, legislação, fluxos de informação, disponibilidade de fundos,
capacidade de aprendizado e conhecimento acumulados – são fundamentais
para adaptação, reduzindo vulnerabilidades e preparando os sistemas humanos
para lidar com variações ambientais (EAKIN & LEMOS, 2010). Pesa a favor tam-
bém a existência de outros elementos característicos da boa governança, como
a responsabilização (accountability) (BURSZTYN, 2008). Já Deitz et al. (2003)
alertam para uma governança adaptativa como forma de fortalecer a resiliência
de sistemas socioecológicos (FOLKE, 2006).
A capacidade adaptativa compreende fatores internos e externos ao
sistema vulnerável, associados à diversidade de alternativas adaptativas dis-
poníveis, assim como aos fatores internos e externos que viabilizam a transição
entre tais opções. Esses fatores envolvem as dimensões institucionais, sociais,
econômicas e ambientais (MOSER & EKSTROM, 2010; BELLIVEAU et al., 2006). A
criação, implementação e articulação de instrumentos políticos, que fortaleçam
a capacidade adaptativa e reduzam as vulnerabilidades socioeconômicas, am-
bientais e institucionais (Programa ABC e BPA, por exemplo), podem contribuir
para o processo adaptativo da agricultura familiar às mudanças climáticas. Con-
tudo, a existência de um arcabouço político-legal – legislação, planos, linhas
de crédito, entre outros – por si só é inerte caso não encontre um contexto
político-institucional favorável para se tornar efetivo (EAKIN & LEMOS, 2010).
O cenário da capacidade adaptativa e das vulnerabilidades no Pantanal
aponta para a necessidade de se reconhecer que já existem políticas pú-
blicas aptas a aumentar a capacidade adaptativa e reduzir vulnerabilidades
de agricultores familiares. Porém, muitas chegam via estruturas institucional-
mente fragilizadas, e transparecem pouca força política e técnica para execução
(SIMONI et al., 2010a).
Apesar do crescimento do tema mudanças climáticas nas agendas es-
tadual e locais, ele requer uma integração das ações intersetoriais, capaz de

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


178
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
coordenar respostas nos diferentes níveis de governo. A temática também exige
a incorporação de visão e planejamento de longo prazo, um desafio na prática
política brasileira. As diretrizes propostas para a redução de emissões de GEE
na agricultura familiar pantaneira podem ser organizadas em três eixos de polí-
ticas a serem intensificadas, frente às principais vulnerabilidades e estratégias
adaptativas encontradas: Acesso à informação e às novas técnicas de produção;
apoio e promoção da produção rural sustentável; e minimização das alterações
climáticas – ações na área ambiental.

Considerações Finais

Em virtude das emissões de GEE resultantes da fermentação entérica


ruminal e da decomposição dos dejetos bovinos, além daquelas relacionadas ao
desmatamento e queimadas para o estabelecimento de novas áreas, a pecuária
de corte tem sido apvontada como uma das principais atividades antrópicas
responsáveis pelo agravamento do aquecimento global.
Nesse contexto, considerando as emissões de GEE oriundas das ativi-
dades produtivas desenvolvidas pelos agricultores familiares na região norte
do Pantanal, Estado de Mato Grosso, observou-se que a conversão da paisagem
(antropizada ou não) para áreas de pastagens foi responsável por 99% das
emissões líquidas de CO2 no período de referência 1994-2002; o que corresponde
a aproximadamente 3.361 GgCO2. Deste modo, tendo como base o objetivo deste
estudo, as iniciativas para reduzir as emissões de CO2 da agricultura familiar
no Pantanal Mato-grossense devem ser direcionadas para tornar a pecuária
mais produtiva e eficiente, assim como para regularizar os passivos ambientais
por meio do Cadastro Ambiental Rural nos assentamentos de reforma agrária
nessa região. Tais intervenções podem contar com o apoio de programas fe-
derais já em desenvolvimento (ABC e BPA, por exemplo) e devem considerar
as demandas, necessidades e características dos pequenos produtores, assim
como os gargalos/desafios que os mesmos enfrentam para acessar os benefícios
já existentes.
Assim, acredita-se que os principais resultados deste trabalho, de caráter
interdisciplinar, contribuirão para fornecer subsídios para elaboração de polí-
ticas públicas inovadoras de adaptação e mitigação dos impactos ambientais,
sociais e econômicos associados às mudanças climáticas, em uma perspectiva

Carolina Joana da Silva Jane Simoni


Caminhos para a Produção Familiar
Gabriela Litre Joari Arruda 179
de Baixo Carbono no Pantanal
Pedro Nogueira
de longo prazo e numa abordagem baseada na construção de sistemas de apren-
dizagem para ação em situações de complexidade e incerteza.
Esses tipos de políticas são de vital importância para Mato Grosso, um
estado com uma forte vocação agropecuária e que lidera o ranking brasileiro
na produção de grãos, possui atividade pecuária crescente e é o segundo maior
estado do Brasil em termos de processamento de madeira na Amazônia, atrás
apenas do Pará.
O estado precisa de políticas públicas capazes de considerar as especifi-
cidades locais resultantes de uma dinâmica econômica que concentra riquezas e
exacerba as desigualdades regionais e intramunicipais no estado.
Por enquanto, os setores ligados ao agronegócio tendem a se manterem
no nível tecnológico elevado e a acompanhar as inovações em escala nacional
e internacional, enquanto a agricultura familiar de Mato Grosso depende de
políticas públicas que facilitem o seu acesso a novas tecnologias e a sua inser-
ção no mercado. Em outras palavras, a agricultura familiar, uma das principais
riquezas de Mato Grosso, constitui, também, uma das suas mais importantes
vulnerabilidades.

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Caminhos para a Produção Familiar
Gabriela Litre Joari Arruda 183
de Baixo Carbono no Pantanal
Pedro Nogueira
11.
Assentamentos Sustentáveis
na Amazônia (PAS):
Viabilizando
Agricultura Familiar
de Baixo Carbono

Osvaldo Stella1
Paulo Moutinho2
Cassio Pereira3
Lucimar Souza4
Rosana Costa5
Alcilene Cardoso6
Antônio José Bentes7
Erika Pinto8
Mauro Soave Jr.9

1 ao 9
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM.
Vários estudos científicos mostram a importância das terras indígenas
e das unidades de conservação como barreiras ao desmatamento na Amazônia
(FERREIRA, et al., 2005, SOARES-FILHO, B.; et al., 2010). Assim como as terras
indígenas e as unidades de conservação, os assentamentos de reforma agrária
podem contribuir como barreiras ao avanço do desmatamento na região. Para
tanto, os assentamentos devem se consolidar como áreas geradoras de riqueza
e serviços ambientais.
Desde 1995, o IPAM vem desenvolvendo uma abordagem capaz de con-
ciliar o aumento da produção agrícola com a redução do desmatamento e
consequente redução das emissões de gases de efeito estufa na Amazônia.
Nesse universo, a agricultura familiar é um elemento-chave para a promoção de
um novo modelo de desenvolvimento amazônico. O trabalho com agricultores
familiares está focado na premissa do fortalecimento da cogestão e de diver-
sificar e intensificar a produção nas áreas já desmatadas e valorizar o uso
da floresta em pé como estratégia de desenvolvimento. É uma concepção de
sistema integrado, que inclui a cogestão como um elemento da estratégia e
está diretamente ligada à diversidade de produtos produzidos pela agricultura
familiar e não descarta a organização social dos produtores familiares como um
elemento que também determina o grau de eficiência da gestão da produção.
Essa característica é que possibilita maior segurança alimentar à família
e maximiza a produção sob as condições que elas se estabelecem na Amazônia.
Assim, todas as iniciativas para melhorar o sistema produtivo devem ter em
vista a análise dos fluxos de mão de obra, de insumos, as condições de mercado,
as visões dos agricultores e suas organizações sociais. Nelas, abordagens sim-
ples como o manejo adequado do fogo, por exemplo, são fundamentais, pois,
até hoje, a utilização de queimadas como prática de preparação para o cultivo
do solo é amplamente utilizada, principalmente pelos agricultores familiares
que não têm acesso a financiamentos e assistência técnica.
A adoção de práticas na condução das queimadas para o preparo dos
lotes tem sido uma estratégia de sucesso que permitiu uma redução drástica
nos eventos de fogo acidental na região. Essa experiência associada à implan-
tação de sistemas integrados já foi testada por vários agricultores, conseguindo
resultados importantes, porém, para se consolide e se aperfeiçoe necessita de
assistência técnica diferenciada, crédito adequado e organização social forte
atuando na governança local.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


186
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Todo esse acúmulo técnico serviu de referência para a construção de uma
abordagem mais ampla de modernização da agricultura familiar, que vem sendo
aperfeiçoada e testada em diferentes níveis de aplicação, coletiva e individual
familiar, por várias organizações sociais em parceria com IPAM há quase duas
décadas e está consolidada no “Projeto Assentamentos Sustentáveis na Ama-
zônia – PAS”, uma parceria entre o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia
(IPAM), a Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP), o Instituto de Coloni-
zação e Reforma Agrária (Incra) e diversas instituições locais. O PAS tem suas
ações voltadas para a construção de um novo modelo de política de reforma
agrária na Amazônia, ambientalmente sustentável e socialmente justo.
O projeto é desenvolvido na região oeste do Pará e participam cerca de
2.700 famílias, distribuídas nos assentamentos Bom Jardim (Transamazônica),
onde vivem 692 famílias, Cristalino II (BR-163), com 110 famílias, e Moju I e II
(Baixo Amazonas), que reúnem 1.578 famílias, além de 350 famílias do antigo
Polo do ProAmbiente da Transamazônica. O projeto recebe apoio financeiro
do Fundo Amazônia e contribuições da Climate and Land Use Alliance (CLUA),
Fundação Gordon and Betty Moore e Fundação Ford.

FI GUR A 11.1
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Baixo Amazonas 136.397 ha 692 FAMÍLIAS


1.578 FAMÍLIAS ALTAMIRA do projeto.
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TRAIRÃO Território Transamazônica

LEGENDA

Cidade Estrada Principal Núcleo PSA Assentamento Limite Municipal fonte :


IPAM.

Assentamentos Sustentáveis Osvaldo Stella Lucimar Souza Antônio José Bentes


na Amazônia (PAS): Viabilizando Paulo Moutinho Rosana Costa Erika Pinto 187
Agricultura Familiar de Baixo Carbono Cassio Pereira Alcilene Cardoso Mauro Soave Jr.
A proposta do PAS é desenvolver estratégias que permitam o aumento da
rentabilidade nas áreas já abertas, a agregação de valor nas áreas de floresta
em pé, por meio do manejo florestal, do pagamento por serviços ambientais
e fortalecimento das organizações sociais locais para processos de cogestão
do território. Muito além do controle do desmatamento, prioriza a segurança
alimentar, o aumento da renda e da melhoria da qualidade de vida das famílias
assentadas. Com essa abordagem mais ampla, de agricultura familiar de baixo
carbono em bases ecológicas, o projeto está estruturado em sete eixos estra-
tégicos que estão representados na Figura 11.2.

FI GUR A 11.2 Os sete eixos estratégicos do PAS.

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fonte : IPAM.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


188
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
1.
Regularização Ambiental
e Fundiária

A regularização é um elemento para viabilizar o aumento da rentabilidade


nas áreas já abertas e a valoração da floresta em pé. É por meio dessas ações
que se promove o acesso às linhas de financiamento e de investimentos no as-
sentamento em relação ao objetivo de trazer instrumentos técnicos para facilitar
o processo de regularização ambiental dos lotes e das atividades produtivas e,
assim, permitir que os assentados estejam habilitados para ter acesso às políticas
públicas específicas de reforma agrária. Dentro desse eixo, estão sendo elabora-
dos Cadastros Ambientais Rurais (CAR) e emitidas licenças ou suas dispensas para
as atividades produtivas de todos os lotes das famílias beneficiárias do projeto,
além do esforço para construção e licenciamento de planos de manejo florestal
comunitário com ampla e efetiva participação dos assentados(as).

2.
Gestão Compartilhada
ou Cogestão

É um processo dinâmico de relações entre representantes dos assentados


e as demais instituições governamentais e não governamentais de interesse na
gestão do assentamento, organizadas em prol do desenvolvimento dos assen-
tamentos. Atuam de forma integrada, mobilizando suas capacidades e aptidões
nas consecuções de ações internas e externas ao assentamento. O processo en-
volve preliminarmente o levantamento de atores de dentro do assentamento e
de fora, mas que mantenham relações com as famílias assentadas. Dentre elas,
associações, delegacias sindicais, cooperativas prestadoras de serviço, Incra,
secretarias de agricultura e meio ambiente, e o fortalecimento das organizações
sociais por meio de capacitações técnicas, melhorias em infraestrutura e apoio
ao acesso às políticas de desenvolvimento dos assentamentos, entre outras
atividades que são discutidas entre os participantes. A estrutura desse processo
se configura em Grupos de Sustentação dos assentamentos. No PAS, existem
três Grupos de Sustentação, um em cada território onde se localizam as ações
do projeto, Nessa estrutura, os assentados são os atores centrais e tem por

Assentamentos Sustentáveis Osvaldo Stella Lucimar Souza Antônio José Bentes


na Amazônia (PAS): Viabilizando Paulo Moutinho Rosana Costa Erika Pinto 189
Agricultura Familiar de Baixo Carbono Cassio Pereira Alcilene Cardoso Mauro Soave Jr.
objetivo propor, validar e dar andamento às atividades do PAS, bem como discutir
as estratégias para o desenvolvimento dos assentamentos para além do projeto.

3.
Transição do
Sistema Produtivo

Tem como objetivo intensificar as atividades produtivas nas áreas aber-


tas e fomentar o manejo florestal comunitário, com a implementação de novas
tecnologias de produção. Dessa forma, o aumento da produção é garantido sem
a necessidade de novos desmatamentos. Dentre as atividades produtivas alter-
nativas ao desmatamento estão lavouras temporárias e permanentes, sistemas
agroflorestais (SAF), intensificação da pecuária, piscicultura e manejo florestal
comunitário. Para possibilitar essa transição produtiva, é oferecido apoio em
insumos, maquinários, cercas, sementes e mudas, cursos de capacitação, con-
sultoria e, como elemento-chave, o serviço de assistência técnica e extensão
rural de forma planejada e contínua, em um processo participativo que envolve
a estrutura de cogestão dos assentamentos. A estratégia de transição do sis-
tema produtivo nos assentamentos envolve três importantes ferramentas peda-
gógicas: diagnóstico socioeconômico do lote, elaboração do plano de uso (PU)
e o planejamento das atividades prioritárias.

4.
Beneficiamento e
Comercialização de Produtos

O principal objetivo é melhoria na comercialização e no aumento no


valor agregado da produção das famílias atendidas, por meio de organização da
produção, fortalecimento e adequação das organizações de agricultores fami-
liares para atividades de beneficiamento e comercialização, de capacitações em
gestão, investimentos em infraestrutura para beneficiamento de produtos e iden-
tificação de estratégias para diferentes mercados. Esse eixo ainda é apoiado por
uma extensa análise dos mercados locais e regionais, que avalia as possibilidades
de mercado para a produção dos assentamentos, inclusive visando a potencializar

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


190
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
o acesso aos mercados institucionais através do Programa de Aquisição de ali-
mentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

5.
Pagamento por
Serviços Ambientais (PSA):

É uma estratégia para tornar economicamente atrativa a opção de não


desmatar. Em pequenas propriedades no oeste do Pará, predomina a prática
“corte-e-queima” para abertura de novas áreas e expansão das áreas agricul-
táveis. Essa prática, porém, é mantida, entre outros motivos, devido à falta
de incentivos e intensificação da agricultura em áreas já abertas. Como des-
crito anteriormente, o PAS propõe a realização da transição dos sistemas
produtivos, o que demanda tempo até gerar retorno econômico. Para cobrir
esse “déficit” monetário da produção, o PAS está realizando, por um período
de quatro anos, o pagamento pelos serviços ambientais vinculados ao cum-
primento de boas práticas produtivas e à redução do desmatamento, para que
os investimentos de transição consigam promover mudanças estruturais nos
padrões de uso do solo e na lógica econômica local. Para avaliar o desmata-
mento evitado de cada família, será feito o monitoramento do desmatamento
no nível de propriedade, por meio de imagens de satélite. A iniciativa envolve
350 famílias em oito assentamentos do território da Transamazônica. Essas
famílias foram selecionadas por terem participado do Proambiente, extinto
programa do governo federal que previa a compensação econômica daqueles
que mantivessem a floresta em pé.

6.
Monitoramento e
Indicadores de Sustentabilidade

Esse processo envolve a elaboração de Diagnóstico Rápido Participativo


(DRP) na escala de assentamentos, diagnóstico socioeconômico e ambiental que
tem como unidades a família e o lote, o georreferenciamento dos lotes. O IPAM
desenvolveu um poderoso sistema de armazenamento e gestão de informações

Assentamentos Sustentáveis Osvaldo Stella Lucimar Souza Antônio José Bentes


na Amazônia (PAS): Viabilizando Paulo Moutinho Rosana Costa Erika Pinto 191
Agricultura Familiar de Baixo Carbono Cassio Pereira Alcilene Cardoso Mauro Soave Jr.
denominado Sistema de Monitoramento de Lotes no Âmbito do Projeto Assen-
tamento Sustentáveis da Amazônia (Simpas). O Simpas é um sistema inédito
de gestão de informações dos assentamentos de reforma agrária com ampla
aplicabilidade para as superintendências do Incra na Amazônia e que o IPAM usa
para gerar os relatórios sobre aspectos gerais do assentamento e específicos de
cada lote. Para acompanhar o desempenho do projeto e identificar os resultados
alcançados, o IPAM construiu uma matriz de indicadores de sustentabilidade,
mostrando sua evolução ao longo dos cinco anos do projeto. A análise e moni-
toramento desses indicadores ao longo do projeto vai permitir que a efetividade
das abordagens propostas seja avaliada.

7.
Disseminação
das Informações

Ao longo do projeto, haverá um processo de disseminação de informa-


ções sobre as atividades que compõem o PAS. Essas informações já estão sendo
disponibilizadas em site, vídeos, boletins informativos, publicações etc. O obje-
tivo é possibilitar que o maior número de assentados, organizações sociais repre-
sentativas da agricultura familiar e instituições governamentais vinculadas ao
tema tenham acesso à proposta e ao andamento do projeto. O PAS pretende
trazer subsídios técnicos e servir como precursor de um novo modelo de desen-
volvimento em assentamentos de reforma agrária na Amazônia, tendo suas expe-
riências de sucesso como referências para se multiplicarem por toda a região.

Onde Estamos?

A implantação do projeto em campo teve início em dezembro de 2012,


com investimento na formação da equipe técnica, na constituição de parcerias e
na montagem da estrutura de gestão compartilhada, com ações de capacitação
e inclusão das organizações dos assentamentos – associações, cooperativas,
clube de mulheres, por exemplo – para participarem de forma integrada, com o
Incra e outras instituições públicas, da gestão social, econômica e ambiental
dos assentamentos.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


192
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
A implementação do PAS está alinhada com políticas públicas em vários
níveis. Localmente, atua em parceria com o Consórcio Intermunicipal para De-
senvolvimento Sustentável da Transamazônica e Xingu (CIDS), com os colegia-
dos territoriais e as federações de trabalhadores rurais na agricultura do Estado
do Pará. Em nível estadual, participa no Comitê Gestor e no grupo de trabalho
de assentamentos do Programa Municípios Verdes (PMV). O Programa Assenta-
mentos Verdes (PAV), no âmbito federal, é uma ação prioritária para o Incra
e tem o PAS como laboratório para a elaboração de suas ações, no sentido de
reduzir o desmatamento e incrementar as atividades produtivas sustentáveis
nos assentamentos da Amazônia. Com o desenvolvimento participativo e a
implementação de abordagens inovadoras, as atividades do PAS não apenas
beneficiam milhares de famílias de assentados na região de abrangência do
projeto, como podem influenciar a construção de importantes políticas pú-
blicas e superar, por fim, o desafio de viabilizar a agricultura familiar em uma
economia de baixo carbono.

Eixo Regularização Ambiental

Até o momento, o projeto já realizou o georreferenciamento de 2.594


propriedades rurais, correspondentes a uma área de 268.955 hectares, o que
possibilitou a elaboração de 876 CAR para os agricultores residentes nos assen-
tamentos de referência e nos grupos de PSA, correspondentes a 68.000 hectares
de área cadastrada. Foram emitidas mais de 1.200 dispensas de licenciamento
ambiental, vinculadas às atividades produtivas apoiadas pelo projeto. Até o
final do projeto, são esperadas as emissões de 1.300 CAR. Como parte desse
eixo, também foram realizados os Planos de Recuperação Ambiental do PA Bom
Jardim e PA Cristalino II.

Eixo Gestão Compartilhada

As principais metas desse eixo são as consolidações de estruturas de


gestão dentro dos assentamentos e a participação de representantes de cada
um deles em conselhos municipais. O projeto busca capacitar e fortalecer as
estruturas de gestão compartilhada existentes em cada assentamento e reunir

Assentamentos Sustentáveis Osvaldo Stella Lucimar Souza Antônio José Bentes


na Amazônia (PAS): Viabilizando Paulo Moutinho Rosana Costa Erika Pinto 193
Agricultura Familiar de Baixo Carbono Cassio Pereira Alcilene Cardoso Mauro Soave Jr.
as lideranças para empoderamento das decisões a serem tomadas no âmbito
do projeto. Atualmente, o PA Moju conta com a estrutura já consolidada e o
projeto fez a doação da infraestrutura básica para a Central das Associações
dos Assentados de Reforma Agrária do Estado do Pará (Caareapa) e o IPAM atua
como mediador e facilitador de reuniões e assessoria técnica nos processos de
reivindicação junto ao governo. A Caareapa possui estatuto e diretrizes de gestão
definidas em assembleia. O PA Cristalino e o PA Bom Jardim estão no processo
de fortalecimento das associações já existentes dentro dos assentamentos,
oferecendo cursos de capacitação em gestão e associativismo e as apoiando no
processo de regularização jurídica e contábil.

Eixo Transição
dos Sistemas Produtivos

Nesse eixo, o projeto atuou na realização de um estudo de mercado no


oeste do Pará, contemplando as zonas de influência dos assentamentos, de
maneira a identificar demandas locais por produtos da agricultura familiar
e potencial de mercado para os produtos dos assentamentos. Foi iniciada a
Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) junto às 650 famílias beneficiárias
do projeto, num primeiro momento com a implementação de um diagnóstico
socioeconômico e elaboração dos planos de uso das propriedades, onde té-
cnico e agricultor consolidam um plano de transição produtiva baseado nos
sonhos do produtor e na realidade possível. Atualmente, o projeto iniciou os
investimentos nas atividades produtivas de cada lote, acompanhados pela
equipe técnica do IPAM.

Eixo Beneficiamento
e Comercialização de Produtos

O beneficiamento e a comercialização de produtos são parte da valori-


zação das cadeias produtivas locais. As principais metas desse eixo são o
estabelecimento de parcerias para comercialização dos produtos e a construção
de estruturas de beneficiamento da produção. Atualmente, o projeto está em

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


194
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
fase de implantação das estruturas de beneficiamento e na identificação de
parcerias para comercialização. O estudo de mercado realizado aponta o PAA e
o PNAE como potenciais alvos de ação nessa etapa.

Eixo Pagamento
pelo Desmatamento Evitado
As principais metas desse eixo eram a construção de um sistema de
pagamentos por serviços ambientais e o pagamento a 350 famílias. Atualmente,
o projeto já consolidou esse sistema e efetua trimestralmente o repasse de
recursos às famílias. Os critérios para estabelecimento do valor são a cobertura
florestal, a transição produtiva e a preservação ou recuperação da reserva legal
e áreas de preservação permanentes nos lotes.

Eixo Monitoramento
dos Indicadores de Sustentabilidade

Esse eixo tem como principal meta medir o desempenho ambiental,


social e econômico dos lotes e assentamentos do projeto, comparando com a
realidade local do entorno. Desenvolveu-se, juntamente com os grupos de
sustentação do projeto, uma matriz de indicadores para comparar a situação
dos lotes e assentamentos antes, durante e após a transição produtiva. Atu-
almente, o projeto está fazendo o tratamento e análise dos dados obtidos
em campo.

Eixo Disseminação
das Informações

Esse eixo tem como principal objetivo criar uma rede de informações
entre assentamentos, propiciando a troca de informações e experiências entre
assentados de reforma agrária. Para isso, o projeto tem promovido eventos
como seminários, dias de campo e intercâmbios entre agricultores.

Assentamentos Sustentáveis Osvaldo Stella Lucimar Souza Antônio José Bentes


na Amazônia (PAS): Viabilizando Paulo Moutinho Rosana Costa Erika Pinto 195
Agricultura Familiar de Baixo Carbono Cassio Pereira Alcilene Cardoso Mauro Soave Jr.
Lições Aprendidas, Barreiras e Oportunidades
da Agricultura Familiar na Economia
de Baixo Carbono
A agricultura familiar brasileira está com crédito na questão do clima,
mesmo que isso não seja devidamente reconhecido, assim como não é reconhe-
cida, historicamente, a sua importância na segurança alimentar do país. Ainda
assim, a agricultura familiar pode ser parte da solução para a questão climática,
produzindo alimentos, gerando riqueza, diminuindo emissões e aumentando o
sequestro de carbono. No entanto, para poder exercer plenamente seu papel,
ela precisa ter apoios adequados para se estruturar produtivamente. Nesse uni-
verso, é possível identificar oportunidades e barreiras para a consolidação da
agricultura familiar na Amazônia.

As principais barreiras para uma transição produtiva na agricultura


familiar são:

hhh a não finalização dos processos de regularização fundiária e emissão


da documentação básica para acesso às políticas públicas: Consoli-
dação da Relação de Beneficiários (RB), Contrato de Concessão de Uso
(CCU), Declaração de Aptidão do Pronaf (DAP)

hhh dificuldade para obtenção de insumos e apropriação de tecnologias


apropriadas;

hhh carência de arranjos produtivos locais adequados;

hhh falta de organização produtiva das comunidades de agricultores;

hhh assistência técnica e extensão rural inadequadas tanto em termos


quantitativos, como qualitativos (Ater);

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


196
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
hhh políticas públicas de fomento e de financiamento mais robustas e
maior escala;

hhh dificuldade na regularização ambiental das atividades produtivas;

hhh falta dos requisitos necessários para a operacionalização dos pro-


gramas PAA e PNAE em maior escala;

hhh falta de política pública para apoiar o pequeno produtor a se adequar


às condições necessárias para conseguir Serviço de Inspeção Muni-
cipal (SIM), Estadual (SIE) e Federal (SIF);

hhh falta de sistema educacional adequado para a produção familiar;

hhh falta de incentivo financeiro e fiscal para verticalização da produção


da agricultura familiar.

As principais oportunidades para uma transição produtiva na agricultura


familiar são:

hhh regulamentação e implementação do novo Código Florestal;

hhh processo de discussão da Reforma Tributária – incentivos econômicos


(regularização ambiental, boas práticas, manejo florestal etc.) e me-
canismos tributários;

hhh eletrificação rural e expansão das redes de celular e internet rural


também representam oportunidade para a ampliação das ações de
Ater – por exemplo, acesso a uma Rede Virtual Nacional de Inovação
Tecnológica para agricultura familiar;

hhh criação da Agência Nacional de Ater (Anater).

Assentamentos Sustentáveis Osvaldo Stella Lucimar Souza Antônio José Bentes


na Amazônia (PAS): Viabilizando Paulo Moutinho Rosana Costa Erika Pinto 197
Agricultura Familiar de Baixo Carbono Cassio Pereira Alcilene Cardoso Mauro Soave Jr.
Considerações Finais

Como foi apresentado durante seminário de 2013 por Thomas Ludewigs,

existe atualmente uma discussão acadêmica entre duas abordagens distintas para
conciliar a produção de alimentos e a preservação ambiental, o land-sparing agricul-
ture e land-sharing agriculture. O primeiro modelo propõe concentrar produção e pro-
teção em zonas separadas (foco em riqueza de espécies e conservação em áreas
protegidas), enquanto o segundo propõe favorecer a biodiversidade incorporada em
sistemas agrícolas (foco em serviços ecossistêmicos).

Dentro dessa perspectiva conceitual, o PAS se encaixaria na segunda


abordagem, propondo a construção de uma paisagem onde a produção e os
serviços ambientais dividem o mesmo espaço. Além de abrigar em condições
dignas milhares de famílias, os assentamentos de reforma agrária na Amazônia
podem gerar cidadania, riqueza e promover a preservação dos serviços ecos-
sistêmicos na região. Da mesma maneira que as unidades de conservação e as
terras indígenas, os assentamentos de reforma agrária na Amazônia podem,
no futuro, fazer parte desse mosaico de terras que contribuem para barrar o
desmatamento na região, contribuindo para um novo modelo de desenvolvi-
mento socioambiental na região.
Neste contexto, o PAS pretende ser mais do que uma experiência piloto,
pretende ser uma experiência afirmativa para a construção de um novo caminho
para o desenvolvimento econômico da agricultura familiar, pois seus eixos for-
talecem os pilares dessa transformação, a saber:

a) h cria condições institucionais e legais para produção e inserção no


mercado;

b) h fomenta a capacidade de planejamento, gestão e integração de ações


resultando em aumento da capacidade de participação nas discussões
com instituições públicas;

c) hpropicia que políticas públicas essenciais à produção cheguem aos


assentados, como Ater e acesso às linhas de crédito e comercialização;

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


198
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
d) h favorece a percepção de que a conservação é parte importante como
um instrumento catalizador do processo de adequação ambiental e
produtiva dos lotes; e, por fim,

e) hpromove trocas entre os assentados de estratégias de produção e


gestão bem sucedidas.

referências

ARIMA, E.; SIMMONS, C.; WALKER, R. & COCHRANE, M. Fire in the Brazilian Amazon: A Spatially
Explicit Model for PolicyXPL Impact Analysis. Journal of Regional Science, 47(3): 541-567, 2007.

FERREIRA L. V.; VENTICINQUE E.; ALMEIDA S.. 2005. O desmatamento na Amazônia e a importância
das áreas protegidas. Estudos Avançados. vol.19 no.53 São Paulo Jan./Abr. 2005.

MERRY, F., et al. Role of Brazilian Amazon protected areas in climate change mitigation. PNAS, 2010.

PAVÃO, E. de M.; ASSAD, E. D. Avaliação da vulnerabilidade e impactos das mudanças climáticas na


agricultura brasileira. 2010.

SOARES-FILHO, B., etc al. Role of Brazilian Amazon protected areas in climate change mitigation. 2010.

Assentamentos Sustentáveis Osvaldo Stella Lucimar Souza Antônio José Bentes


na Amazônia (PAS): Viabilizando Paulo Moutinho Rosana Costa Erika Pinto 199
Agricultura Familiar de Baixo Carbono Cassio Pereira Alcilene Cardoso Mauro Soave Jr.
Síntese dos Principais
Temas e Argumentos
Discutidos no Seminário
(IPAM)
Reduzir Emissões / Aumentar Sequestro

hhh Metas nacionais de redução de carbono para setor agrícola: adequar


todas as políticas e programas para o setor aos objetivos e metas de
redução de emissões, não apenas algumas políticas.

hhh Promover a adoção de Boas Práticas Agrícolas, adaptadas para cada


bioma/região.

hhh Mata Atlântica e Pampa: privilegiar estratégias para aumentar se-


questro usando biodiversidade e uso de árvores em campos (também
no Cerrado);

hhh Amazônia: emissão da agricultura em muitos lugares já é muito baixa,


exceto em locais ainda de expansão de fronteiras e onde produtores
são migrantes.

hhh Cerrado e Caatinga: estratégias para reduzir emissões por queimada e


aumentar sequestro por manejo de solo e biodiversidade.

hhh Adotar estratégias que combinem mitigação de emissões e adaptação


para redução de vulnerabilidade às mudanças climáticas (iLPF, iLP,
manejo de recursos naturais – floresta como ativo econômico).

A Categoria Agricultura Familiar

hhh Conceito demasiado genérico e ao mesmo tempo não adaptado às


especificidades dos biomas/ecossistemas (especialmente tamanho de
propriedade).

chhInadequação do uso das variáveis renda ou área como critérios


de exclusão.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


202
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
chhDefinição deve passar por tipo e localização da unidade de
gestão.

chhMuitos preferem o termo “camponês”.

hhh Universo de AF ainda pouco conhecido – tem informações, mas não em


escalas e territórios de intervenção adequados.

hhh Carência de dados quantitativos sobre emissões de GEEs pela AF.

chhDados não são desagregados por AF e outros estabelecimentos

chhEstudar impactos de agricultura orgânica e agroecologia nas


emissões e sequestro.

hhh Não se pode generalizar que todo produtor AF produz alimentos, que
usa práticas de baixa emissão, ou que usa poucos agroquímicos.

hhh Há marcada tendência em todos os biomas ao envelhecimento da


população rural de AF.

Produção e Produtividade

hhh Tem muito espaço para aumentar produtividade da AF com adição de


tecnologia.

hhh Tem que aumentar produtividade do trabalho, não só da produção:


carecemos de mecanização para pequenos produtores.

hhh Aumento de produtividade não é consenso.

chh Azevedo: a lógica da produtividade não é a do camponês, mas


sim segurança alimentar ao longo do ano e redução de riscos.

Síntese dos Principais Temas e Argumentos


203
Discutidos no Seminário (IPAM)
Tecnologia, Pesquisa e Conhecimentos

hhh Há conhecimento e tecnologia, mas não organizados e disponibili-


zados para AF.

hhh Um dos grandes desafios é a apropriação das tecnologias existentes;

hhh Realizar pesquisa voltada para agricultura de baixa emissão adaptada


às condições da AF em cada bioma.

hhh Geração de conhecimento e tecnologia para AF deve ser feita em diá-


logo e construção com os produtores nas regiões.

Assistência Técnica e Extensão Rural

hhh Considerado grande gargalo em todos os biomas; para maioria, o prin-


cipal gargalo.

chhCarência de Ater qualificada para AF em geral, e em especial


para práticas de baixa emissão ou alto sequestro de carbono.

hhh Coordenar e capacitar diferentes atores que fazem este tipo de tra-
balho (agentes de Ater, ONGs, cooperativas, universidades, etc.) –
especialmente na Amazônia.

hhh Promover competências locais para fazer Ater.

hhh Utilizar metodologias participativas: processos horizontais de ge-


ração e transferência de conhecimento.

hhh Modelo de Ater pouco adequado às atitudes e objetivos propostos


no seminário.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


204
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
chhLógica da Ater é voltada para a transformação das práticas agrí-
colas na direção da agroindústria.

chhCursos focam no cultivo ao invés do sistema produtivo.

hhh Promover a aproximação entre agricultor e Ater demanda estabi-


lidade dos serviços e geração de confiança entre agente de Ater e
agricultor.

Políticas Públicas

hhh Formação da Anater como oportunidade.

hhh Novo Código Florestal, artigo 41, como oportunidade.

Políticas de Fomento

hhh Há bastante crédito disponível em programas de fomento à agricultura


ABC, agroecologia etc., mas o acesso é muito difícil.

hhh Classificações das políticas de crédito excluem muitos na AF por serem


baseadas em área / renda (outros critérios: perfil do bioma, ecor-
região, cultura, sistema produtivo).

hhh Adaptar as políticas de fomento à manutenção das características


de biodiversidade e serviços ambientais do ecossistema ao invés
de incentivar sua adaptação a sistemas produtivos apoiados pelo
crédito.

hhh Vincular o Pronaf a boas práticas agrícolas e manejo de recursos (solo,


biodiversidade, etc.).

Síntese dos Principais Temas e Argumentos


205
Discutidos no Seminário (IPAM)
hhh Descentralizar e desburocratizar processos em instituições financeiras
e ambientais visando especificamente melhorar o acesso de produ-
tores AF aos programas de crédito de baixa emissão.

chh Desenvolver indicadores consistentes para agências bancárias


terem como avaliar projetos com maior segurança.

Sistema Produtivo ao Invés de Cultivo

hhh Políticas devem enfocar a propriedade como sistema produtivo (SAFs,


iLPF).

hhh Integrar o sistema de produção ao ecossistema regional (paisagem


agrícola e natural) – conservar processos ecológicos.

Biodiversidade e Tecnologia Genética

hhh Usar a biodiversidade em grãos e SAFs.

hhh Usar a diversidade de grãos adaptados ao calor em partes que estão


aquecendo.

hhh Problema de biossegurança, contaminação por engenharia genética.

hhh Evidências crescentes da correlação entre agroquímicos e comprome-


timento da saúde.

hhh Usar AF para produzir alimentos de qualidade.

hhh Evidenciar a diferença de qualidade de alimentos orgânicos compa-


rado aos do agronegócio.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


206
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Acesso ao Mercado

hhh Marco regulatório fiscal e sanitário diferenciado para AF – para faci-


litar adesão, não para diminuir padrões.

hhh Promover a comercialização direta.

chh Mercados enquanto espaços a serem construídos e geridos pelos


produtores.

chh Vincular AF a mercados locais e regionais.

hhh Educar/politizar consumidor de produtos agroecológicos e de sistemas


de AF de baixas emissões de GEEs.

hhh Facilitar acesso aos programas do governo: PNAE, PAA.

Educação em Geral

hhh Educação para o mundo aquecido.

hhh Educação sobre qualidade dos alimentos.

hhh Formação técnica dos filhos de produtores desde a escola.

Síntese dos Principais Temas e Argumentos


207
Discutidos no Seminário (IPAM)
Alcilene Cardoso

Advogada e educadora com atuação na Amazônia. Colaboradora do IPAM desde


o ano de 1997 se dedicando a trabalhos nas regiões de várzea. Principais linhas
de atuação: capacitação de lideranças de organizações de base tais como sin-
dicatos, colônias de pescadores, associações, cooperativas e outros; assessoria
técnica, jurídica e contábil dessas organizações de trabalhadores; elaboração
e execução de projetos bem como seu gerenciamento; elaboração de cartilhas,
artigos e demais materiais voltados a divulgar dados e informações relacionados
aos trabalhos do Instituto.

Antônio José Bentes

Possui graduação em Ciências Sociais, bacharelado e licenciatura pela Univer-


sidade Federal do Pará (1997). Trabalha como Educador e Coordenador técnico
de projetos de pesquisa e extensão rural no Instituto de Pesquisa Ambiental
da Amazônia (IPAM), desenvolvendo atividades nas regiões de várzea junto às
colônias de pescadores ribeirinhos e comunidades tradicionais em Santarém
e região. Tem experiência na área das ciências sociais no campo da pesquisa,
planejamento e extensão rural, com ênfase em Sociologia.

Carolina Joana da Silva

Professora da Universidade do Estado de Mato Grosso, bióloga, mestrado em


Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, e doutorado em  Ciên-
cias, área de Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São
Carlos, Pós-doc pelo Instituto Max Planck de Limnologia, da Alemanha. Pesqui-
sadora Rede Clima e da Rede Bionorte, com experiência em pesquisa, orientação

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


208
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Sobre os Autores

de Pós-Graduação nos biomas Pantanal e Amazônia, com abordagem do pulso de


inundação e biodiversidade; conhecimento ecológico tradicional, usos da bio-
diversidade e percepções de mudanças climáticas por comunidades tradicionais.

Cassio Pereira

Possui graduação em Engenharia Agronômica (1985), especialização em Rosource,


Police and Management: Agroforestry (1986) e mestrado em Agronomia, área
de concentração Biologia Vegetal Tropical (2001). Pesquisador do Instituto de
Pesquisa Ambiental da Amazônia - IPAM, foi gerente executivo de Meio Ambiente,
Ciência, Tecnologia e Inovação da Agência de Desenvolvimento da Amazônia –
ADA (2003 a 2005). Foi diretor do Programa de Articulação de Políticas para
a Amazônia do Ministério do Meio Ambiente (2005 a 2006). Foi secretário de
Estado de Agricultura do Pará – SAGRI (2007 a 2010). Tem experiência na área
de Planejamento Regional, com ênfase em Planejamento Participativo e Desen-
volvimento Rural, atuando principalmente nos temas de Agricultura Familiar,
Extrativismo, Agropecuária, Manejo Comunitário de Florestas e Várzeas, e Meio
Ambiente e Desenvolvimento Sustentável na Amazônia.

Diego Lindoso

Biólogo (UnB), mestre e doutor em Desenvolvimento Sustentável (CDS/UnB).


Seus temas de interesse abrangem mudança climática, políticas ambientais,
indicadores de sustentabilidade e epistemologia da ciência. Desde 2008, vem
desenvolvendo pesquisa sobre mitigação e adaptação de produtores rurais fami-
liares às mudanças climáticas globais nos biomas Amazônia, Cerrado e Caa-
tinga. Atualmente é consultor ambiental e pesquisador da Rede Brasileira de
Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima).

209
Eduardo Delgado Assad

Pesquisador da Embrapa, Engenheiro Agrícola, mestrado e doutorado na Univer-


sidade de Montpellier, França em 1987. Professor do mestrado em Agrone-
gócio da FGV, membro do comitê científico do Painel Brasileiro de Mudanças
Climáticas.

Erika Pinto

Pesquisadora e gerente de projetos do escritório de Brasília. Tem bacharelado em


Ecologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP).
Desde 2004, atua nos projetos desenvolvidos no âmbito do Programa Mudanças
Climáticas, principalmente nos temas de REDD+, transição produtiva da agri-
cultura familiar na Amazônia, valoração de serviços ambientais, entre outros.
Participou das Convenções de Clima da UNFCCC (COP-11/Canadá, COP-12/Quênia,
COP-13/Indonésia) e nos debates promovidos no nível federal sobre a Política
Nacional de Mudanças Climáticas, a Estratégia Nacional de REDD+, o Projeto
de Lei que dispõe sobre o Pagamento por Serviços Ambientais e o Novo Código
Florestal. Tem experiência na capacitação de produtores rurais, na elaboração,
execução e gerenciamento de projetos, assim como na elaboração de materiais
didáticos e artigos. Atuou na coordenação de uma iniciativa envolvendo gover-
nos locais de municípios paraenses, a qual resultou na formação do Consórcio
Intermunicipal para o Desenvolvimento Sustentável da Transamazônica e Xingu
(CIDS). Atualmente está envolvida, principalmente, nos Projetos “Nossa Água”,
apoiado pelo Ministério de Desenvolvimento Social, e “Assentamentos Susten-
táveis da Amazônia”, apoiado pelo Fundo Amazônia.

Francisco de Assis Costa

Doutor em Economia pela Freie Universität Berlin, professor do Programa de


Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido do Núcleo de
Altos Estudos Amazônicos (NAEA) e do Programa de Pós-Gradução em Economia
do Departamento de Economia da UFPA, pesquisador ativo da Rede de Pesquisa
em Sistemas e Arranjos Produtivos e Inovativos Locais (RedeSist, UFRJ) e bolsista
de produtividade em pesquisa do CNPq.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


210
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Gabriela Litre

Pesquisadora associada (Pós-Doutoranda PNPD/CAPES) no Centro de Desenvol-


vimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS-UnB), com foco nas áreas
de adaptação e vulnerabilidade às mudanças climáticas na agricultura fami-
liar. Possui doutorado em Gestão Ambiental e Políticas Públicas para o Desen-
volvimento Sustentável (CDS-UnB) e em Geografia e Ordenamento Territorial
Urbano (IHEAL, Université Paris 3, Sorbonne-Nouvelle), além de mestrado em
Globalisation and Latin American Studies (Universidade de Londres). Graduada
em jornalismo e comunicação social pela Universidad del Salvador, Buenos
Aires, estudou sociologia na Universidade de Buenos Aires (UBA). Atualmente
é editora executiva da revista científica Sustentabilidade em Debate (CDS-
UnB). Foi jornalista nas áreas de Cultura e Política dos jornais La Nacion, da
Argentina, e ABC, da Espanha. Trabalhou na ONU (República Democrática do
Congo) e no International Human Dimensions Programme on Global Environ-
mental Change - Universidade das Nações Unidas em Bonn, Alemanha.

Giovanne Xenofonte

É agrônomo e há dez anos vive e trabalha na cidade de Ouricuri, Pernambuco,


no Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores e Instituições Não Gover-
namentais Alternativas – Caatinga. Filho de agricultores familiares sempre
viveu ligado às atividades agropecuárias do semiárido. Em 1990 concluiu o
curso Técnico Agrícola pela Escola Agrotécnica Federal do Crato – Ce. Em 1993
ingressou no curso de agronomia da Escola Superior de Agricultura de Mossoró
– ESAM. Transferiu-se em 1996 para Universidade Federal da Paraíba – UFPB,
onde concluiu o curso. Em 2009 se especializou em Gestão Agroambiental pela
AEDA – Autarquia Educacional do Araripe. Giovanne é hoje coordenador Geral
na ONG CAATINGA.

Jane Simoni

Pesquisadora Embrapa, cientista social, mestrado em ecologia e conservação


da biodiversidade e doutorado em Desenvolvimento Sustentável pela Universi-
dade de Brasília. Pesquisadora Rede Clima com experiência nos biomas Cerrado,

Sobre os Autores
211
Pantanal e Amazônia. Tem estudos desenvolvidos com percepções de mudanças
climáticas de comunidades tradicionais, agricultura familiar e gestores, traba-
lhou com avaliação de políticas públicas para a redução de vulnerabilidades,
adaptação e resiliência.

João Dagoberto dos Santos

Pesquisador associado NACE-ESALQ-USP, mestre e doutor em recursos Florestais


e Biodiversidade, membro do GEA (Grupo estudos em Agrobiodiversidade MDA.

Joari Arruda

Formado em Ciências Biológicas e mestre em Ciências Ambientais pela Uni-


versidade do Estado de Mato Grosso UNEMAT, doutorando em Biodiversidade e
Biotecnologia da Rede Bionorte - UNEMAT. Publicações na área de etnobiologia
e etnobotânica, participa da Rede Clima Sub-rede Mudanças Climáticas e Desen-
volvimento <regional.arrudajcbio@gmail.com>.

Judson Ferreira Valentim

Pesquisador do Grupo de Produção Animal Sustentável da Embrapa Acre. Possui


graduação em agronomia pela Universidade Federal Rural da Amazônia (1978),
M.Sc. (1985) e Ph.D. (1987) em agronomia na Universidade da Flórida. Foi
pesquisador visitante e bolsista Giorgio Ruffolo no Programa Sustainability
Science Program, na John Kennedy School of Government, Universidade de
Harvard (2013-2014), bolsista e pesquisador associado ao David Rockefeller
Center for Latin American Studies (2013-2014).

Luciano Mattos

Agrônomo pela ESALQ/USP, mestre em engenharia ambiental pela EESC/USP,


doutor em Desenvolvimento Econômico pelo IE/Unicamp, com doutorado San-
duíche em Antropologia e Mudanças Ambientais Globais pela Indiana University,
Estados Unidos. O autor é pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agro-
pecuária (Embrapa) e pesquisador associado do Instituto de Pesquisa Ambiental
da Amazônia (IPAM), ambos desde 2002.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


212
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Lucimar Souza

Atual pesquisadora e coordenadora do escritório regional do IPAM no município


de Altamira (Pará). Tem bacharelado e formação em psicologia pela Universi-
dade Federal do Pará (2002) e mestrado em estudos latino-americanos com
concentração em Conservação Tropical e Desenvolvimento pela Universidade da
Flórida (2009). Atua principalmente nas áreas educação e pesquisa relacionadas
a aspectos sociais do manejo de recursos naturais e desenvolvimento susten-
tável com foco em manejo comunitário, acordos locais, educação ambiental,
gênero, desenvolvimento. Atua ainda nas áreas de psicologia social com foco
em dinâmica de grupos e psicologia da educação.

Mauro Soave Jr.

Graduado em gestão ambiental pela Escola Superior de Agricultura Luiz de


Queiroz/USP, em Piracicaba-SP onde também realizou seu curso de mestrado
em Recursos Florestais, com conclusão em janeiro de 2013. Já atuou na área de
educação ambiental, anatomia da madeira e arborização urbana. Em Piracicaba
colaborou no Projeto Yvyraporã de Arborização Urbana do Departamento de
Ciências Florestais da ESALQ atuando junto ao bairro Santa Olímpia e coordenou
o Grupo Polis Gestão Ambiental Urbana durante seu mestrado.

Oriowaldo Queda

Professor titular aposentado do Departamento de Economia, Administração e


Sociologia/ESALQ/USP. Docente dos cursos de Pós-Graduação em Desenvol-
vimento Regional e Meio Ambiente do Centro Universitário de Araraquara/
UNIARA - MS e em Sociologia Rural pela Wisconsin State University/EUA.
O autor também é doutor e Livre-Docente em Sociologia Rural/ESALQ/USP.

Osvaldo Stella

É engenheiro mecânico e seu trabalho está focado no desenvolvimento de ati-


vidades e ações para manutenção de florestas em pé e restauração de áreas
florestais degradadas. Em 2004, fundou a ONG Iniciativa Verde, que iniciou o
primeiro sistema de compensação de emissões de gases de efeito estufa através

Sobre os Autores
213
do reflorestamento de espécies nativas ao longo de comunidades ribeirinhas.
Até o presente, essa iniciativa promoveu o plantio de mais de 800.000 árvores.
Em 2007, entrou para a equipe de Mudanças Climáticas do IPAM como coorde-
nador de projetos. Hoje, atua com instituições como o BNDES, Rabobank, CNS,
FVPP, entre outras, visando a iniciação de novos modelos de desenvolvimento
para a Amazônia, baseados em deixar a floresta de pé. Possui um boletim sema-
nal sobre meio ambiente na Rádio CBN intitulado Ciência e Meio Ambiente com
Osvaldo Stella. Possui mestrado em Energia pela USP e doutorado em Ecologia
e Recursos Naturais pela UFSCar.

Paulo Moutinho

Doutor em Ecologia pela UNICAMP, é coordenador de pesquisa do Instituto de


Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e vem trabalhando durante os últimos
quinze anos na Amazônia. Seus estudos estão relacionados com a dinâmica do
desmatamento e seus efeitos sobre a biodiversidade, clima e os habitantes da
região. Moutinho participa desde 2000 das discussões internacionais sobre mu-
dança do clima no âmbito da Convenção da ONU de Mudança Climática. É autor de
dezenas de artigos e livros científicos e um dos autores da proposta de redução
compensada do desmatamento, pela qual se pleiteia uma compensação financeira
internacional aos países em desenvolvimento que fizerem esforços de redução
de desmatamento. Atualmente está baseado na sucursal do IPAM instalada
em Brasília e vem, nos últimos meses, atuando em parceria com o Congresso
Nacional, Governo Federal e Estados Amazônicos na busca de alternativas de
desenvolvimento para a Amazônia que valorize a floresta e, simultaneamente,
crie condições para o desenvolvimento econômico para a região.

Paulo Yoshio Kageyma

Professor titular da ESALQ/USP; engenheiro agrônomo, mestre e doutor em


Genética de Plantas pela ESALQ/USP. O professor também é Pós-Doutor em Ge-
nética de Populações pela North Carolina State University (EUA) e Membro do
Grupo de Experts da FAO-Roma em Conservação Genética Florestal. Atua como
professor de Pós-Graduação da ESALQ/USP nas Ciências Florestais e na Ecologia
Aplicada e é professor visitante na Pós-Graduação da UNIARA-SP. É membro da
CTNBio pelo MDA e ex-diretor de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


214
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Pedro Nogueira

É biólogo pela Universidade Federal de Mato Grosso e MSc. em Práticas em


Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal Rural do Rio de Ja-
neiro, realiza pesquisa nos seguintes temas: Política Ambiental, Mitigação e
Adaptação às Mudanças Climáticas. É Pesquisador Associado a Sub-rede De-
senvolvimento Regional e Mudanças Climáticas, Rede Clima, Universidade de
Brasília, CDS - Centro de Desenvolvimento Sustentável.

Rafael Tonucci

Possui graduação em zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa (2004),


mestrado em zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa (2006) e doutorado
em zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa (2010) com período sanduíche
em 2009/2010 na School of Forest Resource Conservation e no Departament of
Soil and Water Science - University of Florida. Atualmente trabalha na Embrapa
Caprinos e Ovinos com sistemas agroflorestais investigando o seu potencial
como sequestradores de carbono atmosférico e investigando o potencial desses
sistemas na prestação de serviços ecossistêmicos e ambientais.

Rachael D. Garrett

É pesquisadora interdisciplinar e professora assistente no Departamento da


Terra e Meio Ambiente, na Universidade de Boston. Concluiu seu Ph.D. em Meio
Ambiente e Recursos Naturais na Universidade de Stanford (2013) e foi pesqui-
sadora visitante e bolsista Giorgio Ruffolo de Pós-Doutorado no Programa de
Ciência para a Sustentabilidade, na Universidade de Harvard (2013-2015). Sua
pesquisa examina meios de vida rurais e a sustentabilidade das cadeias alimen-
tares globais em várias escalas espaciais e temporais. O trabalho do dra. Garrett
é financiado pela Fundação Nacional da Ciência e Departamento de Estado nos
Estados Unidos e o Fundação de Gordon e Betty Moore.

Regina Aparecida Leite de Camargo

Graduada em engenharia agronômica; mestre em ciências sociais pela UFPB;


doutora em engenharia agrícola, na área de Concentração em Planejamento Rural

Sobre os Autores
215
Sustentável pela UNICAMP; professora assistente do Departamento de Economia
Rural na UNESP. Atua nas áreas de sociologia e extensão rural, agroecologia e
programa de políticas públicas para a agricultura familiar.

Rosana Costa

É engenheira agrônoma pela Universidade Federal Rural do Pará, especialista em


campesinato e pequena produção agrícola, MSc. em agriculturas familiares e de-
senvolvimento sustentável e pesquisadora do IPAM. Tem desenvolvido trabalhos
de pesquisa e assessoria técnica nas áreas de planejamento e desenvolvimento
territorial, planejamento e desenvolvimento de unidades produtivas familiares,
organização e participação social. Pelo IPAM, é coordenadora técnica de projetos
executados na área de abrangência da rodovia Cuiabá-Santarém.

Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco

Engenheira agrônoma pela ESALQ/USP; mestre em Extensão Rural pela UFV;


doutora em ciências, Livre Docente e professora titular pela Unesp de Botucatu;
professora titular aposentada da Faculdade de Engenharia Agrícola da UNICAMP.
Atualmente é bolsista do PVNS (Professor Visitante Nacional Sênior) junto à
UFSCAR, Araras. Atua nas áreas de sociologia e extensão rural, desenvolvimento
rural sustentável, reforma agrária e assentamentos rurais, agricultura familiar
e políticas públicas. Possui inúmeros livros publicados dentre eles; “O que são
Assentamentos Rurais”, da coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense e
mais de cem trabalhos publicados em periódicos científicos nacionais e interna-
cionais. Presta assessoria em diferentes órgãos públicos e entidades sindicais.

Stéphanie Nasuti

Doutora em geografia, planejamento e urbanismo pela Universidade de Paris


(2010 - França), atualmente realiza Pós-Doutorado no Centro de Desenvolvi-
mento Sustentável da Universidade de Brasília, no âmbito da Rede Brasileira
de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e do Programa
Nacional de Pós-Doutoramento da CAPES. Está envolvida em vários projetos de
pesquisa no Brasil e na França, voltados para o estudo de: (1) Vulnerabilidade
e adaptação às mudanças climáticas da agricultura familiar, (2) Mobilidade e

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


216
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
gestão dos recursos naturais nas regiões da Amazônia e do Semiárido brasileiro
e (3) Gestão territorial e ambiental em territórios quilombolas. Além da rede
universitária, colabora com instituições diversificadas, incluindo ONGs, institui-
ções internacionais e instituições governamentais. Tem ampla experiência de
pesquisa de campo no Brasil rural, com populações e instituições locais.

Sobre os Autores
217
Anater Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural
Ater Assistência Técnica e Extensão Rural
Apta Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios
ASA Articulação do Seminário Brasileiro
BPA Boas Práticas Agropecuárias
Caareapa Central das Associações dos Assentados de Reforma Agrária
do Estado do Pará
CAR Cadastro Ambiental Rural
CIDS Consórcio Intermunicipal para Desenvolvimento Sustentável
da Transamazônica e Xingu
Clua Climate and Land Use Alliance
Contag Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
Deter Detecção do Desmatamento em Tempo Real
Dnocs Departamento Nacional de Obras Contra a Seca
Embrapa Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
Esalq Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz
ETA Estação de Tratamento de Água
FNO Fundo Constitucional do Norte
FVPP Fundação Viver, Produzir e Preservar
GEE Gases de Efeito Estufa
Ibama Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
ILPF Integração Lavoura-Pecuária-Floresta
Incra Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
Inpe Instituto Nacional de Pesquisa Espacial
INSS Instituto Nacional de Seguro Social
IPAM Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia
MDA Ministério de Desenvolvimento Agrário

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


218
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Abreviaturas

MST Movimento dos Sem Terras


NEAD Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural
PAA Programa Assentamentos Verdes
PIB Produto Interno Bruto
PMV Programa Municípios Verdes
PNAE Programa Nacional de Alimentação Escolar
Pnater Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural
PNMC Plano Nacional sobre Mudanças do Clima
PPCDAm Plano de Preservação e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal
PP-Daraf Projeto de Pesquisa para o Desenvolvimento de Assentamentos Rurais
e Agricultura Familiar
Pronaf Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura
Pronatec Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego
Pronater Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Produção Familiar
PSA Pagamento por Serviços Ambientais
PU Plano de Uso
SAF Secretaria da Agricultura Familiar
Simpas Sistema de Monitoramento de Lotes no Âmbito do Projeto
Assentamento Sustentável da Amazônia
Sisa Sistema de Incentivo aos Serviços Ambientais do Acre
SPD Sistema Plantio Direto
SPSS Statistical Package for the Social Sciences
Sudene Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste
TC Tecnologia Convencional
TIC Tecnologia de Informação e Comunicação
TS Tecnologia Social
ZARC Zoneamento de Riscos Climáticos no Brasil
ZEEAcre Zoneamento Ecológico Econômico do Acre

219
Capítulo 1
19 GR ÁFICO 1.1
Frequência de ocorrência de dias em temperaturas superiores a 34 graus.
19 GR ÁFICO 1.2
Frequência de ocorrência de dias em temperaturas acima a 34 graus.
25 FIGUR A 1.1
Impacto de aquecimento global entre 1990 e 2085 para o milho no Brasil.
26 TAB E L A 1.1
Síntese dos impactos do aquecimento global na agricultura brasileira, se-
gundo o modelo ETA CIMIP5 HADGem2, para menor concentração de CO2 na
atmosfera até o ano de 2085.
28 TAB E L A 1.2
Municípios produtores de milho em 2015 e projeção para 2030. Ressalta-
se que 42,15% dos municípios tem produtividade inferior a 2.000 Kg/ha.
29 FIGUR A 1.2
Distribuição espacial de produção de milho no Brasil. Projeção Mapa 2015.

Capítulo 3
55 TAB E L A 3.1
Características das Trajetórias Tecnológicas prevalecentes no setor rural
da região Norte.
57 GR ÁFICO 3.1
Distribuição relativa da produção dos camponeses (T2) em Cametá, consi-
derados os sistemas Ribeirinhos e Terra-Firme, em 1999% do Valor Bruto
da Produção, número de casos considerados: 232 (n=232).

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


220
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Lista de Ícones Gráficos

58 GR ÁFICO 3.2
Dinâmica da Trajetória Camponesa (T2) de 1995 e 2011, no contexto da
produção rural na região Norte. Médias Móveis trianuais do Valor Bruto da
Produção corrigido para valores de 2011.
59 GR ÁFICO 3.3
Participação relativa da Trajetória Camponesa (T2) de 1995 a 2011, na
produção rural da região Norte no VBP na renda líquida e no número de
ocupações.
60 GR ÁFICO 3.4
Distribuição territorial do VBP da T2 por microrregião em 1995 (% do total).
61 GR ÁFICO 3.5
Fator de crescimento da T2 entre 1995 e 2011 (VBP de 2011/VBP de 1995)
– as microrregiões que expandiram.
61 GR ÁFICO 3.6
Fator de crescimento da T2 entre 1995 e 2011 (VBP de 2011/ VBP de 1995)
– as microrregiões que reduziram.
62 GR ÁFICO 3.7
Participação relativa das variantes da Trajetória Camponesa (T2), de 1995
a 2011 (% do VBP da trajetória).
63 FIGUR A 3.1
Distribuição espacial dos estabelecimentos da T2, em 2006.
64 GR ÁFICO 3.8
Participação relativa da T2 na economia rural (VBP da T2/ VBP de todas as
trajetórias).
65 GR ÁFICO 3.9
Renda líquida média por pessoa ocupada na T2, valores em R$ a preços
constantes de 2011 – 1995 a 2011 (tendência linear de 3,2% a.a.).

221
65 GR ÁFICO 3.10
Renda Média Per Capta Mensal na Trajetória-Camponês. T2, por Condição
Reprodutiva, 1995 e 2006, R$ de 2009.

66 GR ÁFICO 3.11
Número de estabelecimentos na Trajetória-Camponês (T2), por Condição
Reprodutiva, 1995 e 2006.

Capítulo 4
75 TAB E L A 4.1
Participação dos produtores familiares no valor bruto da produção dos
principais produtos agrícolas e pecuários na região Norte em 2006.
80 TAB E L A 4.2
Indicadores sociais da região Norte do Brasil, comparados com a média
nacional em 2010.

Capítulo 6
118 TAB E L A 6.1
Emissões antrópicas de gases de efeito estufa no ano de 2005, por setor.
122 TAB E L A 6.2
Processo tecnológico e compromisso nacional relativo à mitigação de
emissões de GEE pela agropecuária.

124 GR ÁFICO 6.1


Estoque de carbono orgânico no solo (COS) em diferentes sistemas de uso
da terra no Cerrado brasileiro.

Capítulo 8
144 TAB E L A 8.1
Capacidade de produção de biomassa e potencial de sequestro de carbono
em SAFs do bioma Caatinga.
145 FIGUR A 8.1
Utilização, pelas famílias, dos espaços de alta produtividade biológica.

Caminhos para uma Agricultura Familiar sob Bases Ecológicas:


222
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono
Capítulo 9
151 FIGUR A 9.1
Localização dos estudos de caso.
153 TAB E L A 9.1
Caracterização geral dos estabelecimentos agrícolas da amostra.
155 TAB E L A 9.2
Dificuldades para produzir e prejuízos ligados ao clima.
157 TAB E L A 9.3
Estratégias de adaptação encontradas nos estabelecimentos agropecuá-
rios visitados.

Capítulo 10
168 FIGUR A 10.1
Emissões líquidas de CO2 (toneladas) por setor nos Assentamentos de
Reforma Agrária localizados na região norte do bioma Pantanal.
169 FIGUR A 10.2
Emissões líquidas de CO2 nos Assentamentos de Reforma Agrária locali-
zados na região norte do bioma Pantanal.
170 TAB E L A 10.1
Emissões líquidas de CO2 (gigagramas) por setor nos Projetos de Assenta-
mento da Reforma Agrária, localizados na região norte do bioma Pantanal.

Capítulo 11
185 FIGUR A 11.1
Distribuição geográfica dos assentamentos participantes do projeto.
186 FIGUR A 11.2
Os sete eixos estratégicos do PAS.

Lista de Ícones Gráficos


223
Caminhos para uma Agricultura Familiar
sob Bases Ecológicas:
Produzindo com Baixa Emissão de Carbono

ORGANIZADORES
Andrea A. Azevedo
Maura Campanilli
Cassio Pereira

E N T I DA D E O R G A N I Z A D O R A
IPAM

C O O R D E N AÇ ÃO D O E V E N TO
Andrea A. Azevedo
Socorro Pena

R E L ATO R I A D O E V E N TO
Sylvia Mitraud
(Atma Fortalecimento da Gestão Social,
Desenvolvimento Territorial,
Capacitação e Consultoria Ltda.)

E Q U I P E D E C O M U N I C AÇ ÃO
Juliana Pinto
Marcela Bandeira

EQUIPE TÉCNICA
Anaiza Portilho
Ana Carolina Crisostomo

R E V I S ÃO
Felícia Oliveira
Maura Campanili

P R O J E TO G R Á F I C O E D I AG R A M AÇ ÃO
Ester Marciano

I LU S T R AÇ ÃO
Fernando Vilela

APOIO
Climate and Land use Alliance
Fundação Ford
Fundação Moore

Azevedo, A. A; Campanili, M.; Pereira, C. (Org.).


Caminhos para uma Agricultura Familiar sob bases
Ecológicas: produzindo com Baixa Emissão de Carbono.
1. ed. revisada e atual. - Brasília, DF : IPAM, 2015.
224 p. : il. ; 25cm.
ISBN 978-85-87413-09-3

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