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Estruturalismo e

Sociolinguística
Aula 06
Preconceito Linguístico e Variação
em Sala de Aula
Prof. Ednéia de Cássia Santos
Pinho
Doutoranda em Estudos da
Linguagem
Mestre em Estudos da Linguagem
Especialista em Língua Portuguesa
Graduada em Letras
Prof. Juliana Fogaça Sanches
Simm
Doutoranda em Estudos da
Linguagem
Mestre em Estudos da Linguagem
Especialista em Língua Portuguesa
Graduada em Letras
Objetivos

Abordar o preconceito linguístico;


Refletir sobre a relação sociolinguística e
ensino.
Vídeo

Samba do Arnesto

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=plOezZ6936Y
Atividade 1

SAMBA DO ARNESTO
Adoniran Barbosa
O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nós fumos, não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez, nós num vai mais
Nós não semos tatu!

No outro dia encontremo com o Arnesto


Que pediu desculpas, mas nós não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas você devia ter ponhado um recado na porta
Atividade 1

O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás


Nós fumos, não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez, nós num vai mais
Nós não semos tatu!

Um recado assim ói: "Ói, turma, num deu pra esperá


Ah, duvido que isso num faz mar, num tem
importância
Assinado em cruz porque não sei escrever"
Arnesto
[...]
Atividade 1

Qual a intenção do autor ao utilizar palavras e


expressões que não estão de acordo com a norma-
padrão? Explique o efeito que essa escolha
provoca.
Preconceito linguístico
Norma culta e norma “inculta”.
Toda forma de expressão é uma forma social.
Ridicularizar a língua de alguém é atacar a sua cultura.
“Esse menino fala muito errado.”
“Os alunos não sabem português.”

Qualquer manifestação linguística que escape desse


triângulo escola - gramática - dicionário é considerada, sob a
ótica do preconceito linguístico, ‘errada, feia, estropiada,
rudimentar, deficiente,’ e não é raro
a gente ouvir que ‘isso não é
português’” (BAGNO, 1999, p. 40).
Afinal, o que é considerado
erro na língua portuguesa?
O que é erro?

Stella Maris Bortoni-Ricardo (2006):


LÍNGUA ESCRITA LÍNGUA FALADA
Transgressão de um código A variação é de sua natureza.
convencionado e prescrito Recurso para marcar a
pela ortografia (não prevê identidade e desempenhar o
variação) processo interacional.
Maior organização mental Dinamicidade
Quando se trata de língua, só se
pode qualificar de erro aquilo que
comprometa a comunicação entre
os interlocutores. Se uma pessoa
disser ‘os menino tudo veio’,
ninguém, por mais preconceituoso
e tradicionalista que seja, vai poder
alegar que ‘não entendeu’ o que
aquela pessoa quis dizer”
(BAGNO, 2001, p. 26).
Situações de fala

Existem formas mais refletidas de falar e, por


outro lado, outras mais relacionadas à
realidade do educando.
GUARDA-ROUPA
LINGUÍSTICO
É de fundamental importância saber
discernir o que é adequado a cada situação,
para se poder, com eficiência, escolher esta
ou aquela norma, este ou aquele padrão
vocabular, este ou aquele tom, esta ou
aquela direção argumentativa”. (ANTUNES,
2007, p. 99)
Atividade 2

Qual é a sua maior dificuldade gramatical ou,


então, qual é a maior dificuldade gramatical que
você percebe nos seus alunos, amigos, parentes?
Comportamentos e atitudes

Preconceito:
se os usos variam geograficamente,
socialmente e historicamente, a norma
espontânea varia da mesma maneira: não
tem as mesmas atitudes lingüísticas na
burguesia e na classe operária, em Londres
ou na Escócia, hoje e cem anos atrás....
Comportamentos e atitudes...

(...) Aqui, o que interessa à Sociolingüística é o


comportamento social que essa norma
pode provocar.”
CALVET, L - J. Sociolingüística: uma
introdução crítica. São Paulo: Parábola, 2002.
p.68-69.
Comportamentos e atitudes...

Em toda comunidade existem variedades


consideradas superiores e outras inferiores, que
valem como reflexo do poder e da autoridade que
têm nas relações econômicas e sociais.
Variedades de prestígio /
Variedades não prestigiadas.
“só existe língua se houver seres humanos que a
falem.”
“O ser humano é um animal político” (Aristóteles)
Isso resulta em:
“tratar da língua é tratar de um tema político”, já que
também é tratar de seres humanos.
O preconceito linguístico está ligado, em boa medida, à
confusão que foi criada, no curso da história, entre língua e
gramática normativa. Nossa tarefa mais urgente é desfazer
essa confusão.
Imagem comparativa: igapó na Amazônia
Igapó é a gramática, com água parada, aguardando
próxima enchente;
Língua é rio caudaloso, longo, largo, que nunca se
detém em seu curso.
Desafio

“Se explicar a gramática normativa e sua lógica é


desafio, desafio maior é somar a essa explicação a
lógica da norma não-padrão.
I. A mitologia do preconceito linguístico
Há hoje uma tendência em se lutar contra o preconceito,
que é resultado de ignorância, intolerância ou de
manipulação ideológica.
TV, rádio, jornal, revista, gramática normativa e livro
didático são responsáveis pelo ensino do “certo” e do
“errado”; consequentemente, a propagação do
preconceito linguístico.
Mitos sobre a língua portuguesa

nº 1 - “A língua portuguesa falada no Brasil


apresenta uma unidade surpreendente”;
nº 2 - “Brasileiro não sabe português /
Só em Portugal se fala bem português”;
nº 3 – “Português é muito difícil”;
nº 4 – “As pessoas sem instrução falam
tudo errado”;
Mitos sobre a língua portuguesa

nº 5 – “O lugar onde melhor se fala o português no


Brasil é o Maranhão”;
nº 6 – “O certo é falar assim porque se escreve
assim”;
nº 7 – “É preciso saber gramática para falar e
escrever bem”;
nº 8 – “O domínio da norma culta é um instrumento
de ascensão social”.
Parâmetros Curriculares Nacionais
A variação é constitutiva das línguas humanas, ocorrendo em
todos os níveis. Ela sempre existiu e sempre existirá,
independentemente de qualquer ação normativa. Assim,
quando se fala em “Língua Portuguesa”, está se falando em
uma unidade que se constitui de muitas variedades. [...] A
imagem de uma língua única, mais próxima da modalidade
escrita da linguagem, subjacente às prescrições normativas da
gramática escolar, dos manuais e mesmo dos programas de
difusão da mídia sobre “o que se deve e o que não se deve falar
e escrever”, não se sustenta na análise
empírica dos usos da língua.
Que fala cabe à escola ensinar
O problema do preconceito disseminado na sociedade em
relação às falas dialetais deve ser enfrentado, na escola, como
parte do objetivo educacional mais amplo de educação para o
respeito à diferença. Para isso, e também para poder ensinar Língua
Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe
uma única forma “certa” de falar — a que se parece com a escrita — e o
de que a escrita é o espelho da fala — e, sendo assim, seria preciso
“consertar” a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. Essas duas
crenças produziram uma prática de mutilação cultural que, além de
desvalorizar a forma de falar do aluno, tratando sua comunidade como se
fosse formada por incapazes, denota
desconhecimento de que a escrita de uma
língua não corresponde inteiramente a
nenhum de seus dialetos, por mais prestígio
que um deles tenha em um dado momento
histórico. (BRASIL ,1997, p. 26)
A questão não é falar certo ou errado,
mas saber qual forma de fala utilizar,
considerando as características do
contexto de comunicação, ou seja, saber
adequar o registro às diferentes situações
comunicativas. É saber coordenar
satisfatoriamente o que falar e como
fazê-lo, considerando a quem e por que
se diz determinada
coisa.”
BRASIL (1997, p. 26)
Vídeo

TV Brasil - Polêmica - A língua falada e a língua escrita

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=M4367cC9Cjo
Fruto da polêmica

Livro do MEC – Por uma vida melhor


Divisão dos conteúdos do capítulo que
gerou a polêmica:

Diferença entre a norma culta e popular;


Distinção entre língua escrita e língua falada;
Emprego dos sinais de pontuação;
Emprego de alguns pronomes;
A concordância entre as palavras;
Sílaba e acento gráfico;
Será mesmo que o objetivo
do livro não é ensinar a
norma culta???
Trechos do livro gerador da polêmica
Atividade 3

Com base nas discussões realizadas durante esta


aula respondam:
Tem fundamento tanta polêmica gerada pelo livro
do MEC? Exponha a sua opinião.
É importante tornar o aluno poliglota da sua
própria língua.
“Falar de maneira diferente é apenas falar de
maneira diferente.” (POSSENTI, 2002, p. 325)
Finalizando….
É evidente que o papel da escola é aprimorar a fala do
aluno, ensinando a norma culta, visto que é preciso
dar a todos a chance de conhecê-la, pois é ela que vai
contar nas situações decisivas, como uma entrevista
para um novo trabalho. No entanto, isso não quer
dizer que as demais variantes precisam ser
desprestigiadas. Já dizia Gnerre:
As variantes linguísticas estigmatizadas são o “arame
farpado mais poderoso para
bloquear o acesso ao poder”.
(1985, p. 6)