Você está na página 1de 8

O REGIONALISMO ROMÂNTICO E NATURALISTA NA PROSA DE FICÇÃO:

IMPORTÂNCIA PARA A HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

Márcia Edlene Mauriz Viana*

Para se entender a História da Literatura Brasileira sob o foco do


regionalismo na prosa de ficção brasileira, é essencial considerar dois períodos
literários: o Romantismo e o Naturalismo, tendo em vista que foram esses os
períodos literários que legitimaram o surgimento da literatura regionalista no
Brasil. Com o objetivo de construir o texto historiográfico, recorreu-se aos
historiadores Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Nelson Werneck Sodré e
Alfredo Bosi. A escolha desse corpus teve como critério o fato de esses
autores serem alusivos à importância do regionalismo romântico e naturalista
no processo de discussão da questão nacional.

Ao propor-se um estudo sobre o regionalismo, como vertente literária,


faz-se necessário a delimitação desse termo, visto que se encontra eivado de
vários significados. Afrânio Coutinho, em A literatura no Brasil (1986), em
consonância com Georg Stewart, define regionalismo de duas maneiras. Em
sentido amplo, “toda obra de arte é regional quando tem por pano de fundo
alguma região em particular ou parece germinar intimamente desse fundo [...].
Mais estritamente, para ser regional, uma obra de arte não somente tem que
ser localizada numa região, senão também deve retirar sua substância real
desse local”1.

Segundo Afrânio Coutinho (1986), desde o Romantismo, com a


valorização do genius loci, cresce a importância do Brasil regional. Assim, a
narrativa regional romântica, com a independência política e cultural do Brasil,
aparece de forma consciente, priorizando o caráter nacional com o seu
localismo, folclore e tradição, apesar de ter sido caracterizada pelo
subjetivismo saudoso e pelo escapismo dos românticos.

*
Doutoranda em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
1
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. v. 4. p. 235.
2
Os românticos, ao revelarem o Brasil, assim como o sertanejo,
buscavam uma identidade nacional que se encontrava atrelada à literatura
portuguesa, cuja “dependência” a literatura brasileira necessitava libertar-se.

A História do Regionalismo, na visão do historiador, continuou no


Realismo-Naturalismo com a mesma concepção do Romantismo, fugindo,
apenas, do saudosismo e dos escapismos românticos, para considerar a
existência verossímil do homem em sua região. O regionalismo, na prosa de
ficção brasileira, diz Coutinho, “nasceu, sem dúvida, sob o signo do
Romantismo para, depois, misturar-se às receitas naturalistas e realistas, sob
a influência de Zola e Eça de Queiroz”2. Logo, o Romantismo proporcionou a
valorização dos elementos locais, análise e interpretação da realidade
brasileira.

Nesse contexto, o historiador defende o estudo do regionalismo


baseado nas regiões culturais e na importância da produção literária e não na
divisão geográfica do país. Para tanto, ele estabelece seis regiões: grupo
nortista, grupo nordestino, grupo baiano, grupo central, grupo paulista e grupo
gaúcho.

No Romantismo estão alguns pioneiros dessas regiões. No grupo


central, Bernardo Guimarães representa o cerrado mato-grossense em O
ermitão de Muquém (1865), O garimpeiro (1872) e A escrava Isaura (1875).
Visconde de Taunay, a região centro-leste em Inocência (1872). No grupo
nordestino, o cearense Franklin Távora em O Cabeleira (1876), O matuto
(1878) e Lourenço (1881). José de Alencar, o pai fundador de nossa prosa de
ficção, em O gaúcho (1870), Til (1872) e O sertanejo (1875).

No período do Realismo-Naturalismo, o regionalismo apresenta-se de


forma mais documental sobre as diversidades regionais, revelando novos
dados da realidade nacional. Alguns autores se destacam em suas respectivas
regiões como, por exemplo: no grupo nortista, Inglês de Sousa, com O
missionário (1888) e Contos amazônicos (1893). No ciclo nordestino, Afonso
Arinos escolheu o sertão nos contos de Pelo Sertão (1898) e, no romance, Os

2
Ibid., p. 250.
3
jagunços, do mesmo ano, sobre a Guerra de Canudos. No Ceará, formaram-se
vários grupos de escritores ideologicamente ligados ao naturalismo e às
causas da Abolição e da República. A seca do Nordeste é um tema constante,
através de vários intérpretes, como Domingos Olímpio em Luzia-homem
(1903), narrando a história de uma retirante da seca de 1877; Rodolfo Teófilo,
em A fome (1890), abordando o drama da seca e da migração; Manuel de
Oliveira Paiva, em Dona Guidinha do poço (1952), que reúne a língua literária
à riqueza da fala sertaneja como forma de apresentação da realidade entre o
homem, o meio social e o sertão.

Ademais, a proposição de regionalismo, pensada por Coutinho, é


sustentada nas fontes documentais de dois grupos teóricos distintos. O
primeiro é constituído pelos ingleses Georg Stewart, Howard W. Odum e
outros, com suas obras gerais sobre regionalismo. O segundo é formado pelos
textos dos seguintes brasileiros: Gilberto Freire, Machado de Assis, José
Veríssimo, Augusto Meyer, Franklin Távora, Sílvio Romero, Lúcia Miguel,
dentre outros, e tem como fonte principal a obra Introdução ao estudo da
literatura brasileira de Brito Broca e J. Galante de Sousa. Assim, a organização
teórica da obra de Afrânio Coutinho sofre influência do pensamento europeu e
do brasileiro acerca do tema regionalismo.

É relevante dizer, então, que o estudo do regionalismo, apresentado


pelo autor em foco, traz como contribuição os seguintes aspectos: o conceito
de regionalismo, mesmo sendo este atrelado ao pensamento do inglês George
Stewart; o levantamento dos autores e das obras regionais da ficção brasileira,
divididos pelas regiões culturais.

Antonio Candido, em Formação da literatura brasileira: momentos


decisivos 2000, reconhece que um dos aspectos formadores do Romantismo
foi o nacionalismo, já evidente em José de Alencar, que lança as bases do
romance brasileiro com um dos seus filões, o regionalismo, proporcionando um
caminho que leva ao Naturalismo e às obras de Franklin Távora e de Visconde
de Taunay.
4
O historiador acentua que a literatura do Naturalismo busca, como
definiu Viana Moog, “um regional autônomo e diferente, caracterizado pelo seu
genius loci particular”3 que, na opinião de Antônio Candido, encontra-se no
Nordeste, ilustrado nos romances de Franklin Távora.

Antônio Candido afirma, ainda, que o regionalismo de Távora funda-se


em três elementos que se constituem, em proporções variáveis, na principal
argamassa do regionalismo do Nordeste:

Primeiro o senso da terra, da paisagem que condiciona tão


estreitamente a vida de toda a região, marcando o ritmo da sua
história pela famosa “intercadência” de Euclides da Cunha. Em
seguida, o que se poderia chamar patriotismo regional,
orgulhoso das guerras holandesas, do velho patriarcado
açucareiro, das rebeliões nativistas. Finalmente, a disposição
polêmica de reivindicar a preeminência do Norte, reputado mais
4
brasileiro [...] .

Conforme Antônio Candido, “Távora foi o primeiro ‘romancista do


Nordeste’, no sentido em que hoje entendemos a expressão; e, deste modo,
abriu caminho a uma linhagem ilustre, culminada pela geração de 1930, mais
de meio século depois das suas tentativas, reforçadas a meio caminho pelo
baiano fluminense d’ Os sertões”5.

O historiador sublinha, entretanto, que:

a virtude maior de Távora foi sentir a importância literária de um


levantamento regional; sentir como a ficção é beneficiada pelo
contacto de uma realidade, concretamente demarcada no espaço e
no tempo, que serviria de limite e em certos casos, no Romantismo,
de corretivo à fantasia6.

Em uma explanação densa e rápida, Antônio Candido gerou uma História


da Literatura Regional, pautada basicamente em obras e autores que
considerava expressivos. Mas, para construir o texto, foram utilizados como
fontes, os escritos Viana Moog, João Ribeiro e José Veríssimo.

3
Viana Moog apud CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Belo
Horizonte: Itatiaia, 2000. p. 267.
4
Id., ibid.
5
Id., ibid.
6
Id., p. 269.
5
Nelson Werneck Sodré, em História da literatura brasileira: seus
fundamentos econômicos (1995), tece comentários acerca do regionalismo
romântico e do naturalista (intitulando o romântico de “sertanismo” e o realista
de “regionalismo”) estabelecendo, em toda a sua obra, as diferenças entre
ambos e defendendo a tese de que o “regionalismo, a rigor, começa a existir
quando se aprofundam e se generalizam, a ponto de surgirem em zonas as
mais diversas manifestações, a que o romantismo não poderia fornecer os
elementos característicos”7. Dentre as manifestações, cita-se a de conteúdo,
na visão do crítico, Augusto Meyer: “As paisagens, como os textos, só falam
quando são interrogados. Tudo é mudo nas formas a que não sabemos insuflar
um verbo”8.

Uma outra diferença crucial, entre o regionalismo romântico e o realista,


pontuada por Nelson Werneck, é a transplantação da cultura européia sobre a
dos povos de formação colonial, como é o caso do Brasil. Esta transplantação,
recebida no período romântico brasileiro, provocou um sentimento de exílio - o
de sermos estrangeiros em nossa própria terra. Daí a deformação do
regionalismo “sertanista” que, segundo Werneck, se despoja, assim, de
qualquer sentido local ou zonal. Porém, com o “regionalismo”, como assevera o
autor, isso não acontece. Existem nele deformações e fraquezas, mas este já
se aproxima do ambiente que o romancista pretende retratar.

Diz o historiador que a prosa do Romantismo peca também por excesso,


além de pecar por falta, pois coloca o ambiente acima da criatura. Todavia, o
“regionalismo”, ao contrário, entende o indivíduo apenas como síntese do meio
a que pertence. Peca, também, por excesso, ao conferir às exterioridades, ou
seja, à conduta social, à linguagem, etc, uma importância exclusiva. Além
disso, procura ostentação, o exótico e o estranho. Para o autor, esse pecado
não inutiliza a sua contribuição, porque, em casos numerosos, a ficção
regionalista se enriquece com os traços que o naturalismo acolheu, peculiares
à vida coletiva, principalmente, o quadro físico.

7
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1985. p.
403.
8
Augusto Meyer apud SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1985. p. 403.
6
Segundo Nelson Werneck Sodré,

‘o regionalismo’ revelou o Brasil aos brasileiros, apesar de seus


quadros pejados de natureza ou dos entraves da erudição verbalista
que proporcionou em muitos casos. Procurou dar à cor local um
sentido mais profundo do que o trazido pelo sertanismo9.

Assim, fica claro para o leitor a posição teórica de Nelson Werneck Sodré
sobre o regionalismo romântico e naturalista no Brasil, ao construir a sua
História da Literatura Brasileira. Por ser o primeiro historiador nacional a ter
escrito uma História da Literatura na visão marxista, é natural que ele assuma
uma postura comprometida com a busca de uma identidade nacional que, para
o teórico, encontra-se no período Naturalista.

O historiador, ao elencar, em sua História da Literatura, as obras e os


autores regionalistas, a partir da produção naturalista, concede um espaço
significativo ao grupo do Sul, especificamente ao Simões Lopes Neto – maior
expressão do regionalismo do Sul. Notadamente, Nelson Werneck, ao
encerrar o seu texto, reconhece que:

[...] o regionalismo correspondia, inequivocamente, a um grande


avanço no sentido da criação de uma literatura nacional. Os primeiros
traços desta encontram-se, sem dúvida alguma, nos melhores
regionalistas, naqueles que conseguiram superar as deficiências
ligadas principalmente ao geografismo e ao linguajar. Eles nos deram,
dentro do regional mais genuíno, o sentido universal que denuncia a
presença da qualidade literária, quando esta é alguma coisa mais do
que simples virtuosismo formal10.

Enfim, Nelson Werneck, para elaborar a sua História da Literatura


Brasileira, no capítulo Regionalismo, recolheu material nas fontes documentais
de Augusto Meyer, de Afrânio Coutinho, de Sílvio Romero, de Lúcia Miguel
Pereira e de Alcides Maia, procurando esboçar, ou melhor, capturar
informações que se aproximassem do texto regionalista brasileiro.

Alfredo Bosi, em História concisa da literatura brasileira (1989), ratifica


que um dos aspectos formadores do Romantismo foi o nacionalismo, presente
em José de Alencar.

9
Ibid., p. 408.
10
Id., ibid.
7
Todavia, o historiador acrescenta que “as várias formas de “sertanismo”
(romântico, naturalista, acadêmico e até modernista) que têm sulcado as
nossas letras, desde os meados do século passado, nasceram do contato de
uma cultura citadina e letrada com a matéria bruta do Brasil rural, provinciano e
arcaico”11.

Desta feita, segundo Bosi, o fazer “sertanismo” (romântico e naturalista),


no século XIX, estava subjugado ao fato de o escritor “projetar os próprios
interesses ou frustrações na sua viagem literária à roda do campo”12. O
resultado para o historiador é que o regionalismo está fadado a ser literatura de
segundo plano.

Contudo, Bosi ressalta três nomes na prosa de ficção romântica e


realista, em condições de representar o regionalismo desses períodos
literários: Bernardo Guimarães, Visconde de Taunay e Franklin Távora.

Portanto, a preocupação de Alfredo Bosi, ao escrever a sua História da


Literatura Regional, é, acima de tudo, chamar a atenção para o fazer literário
do texto romântico e realista, que, na sua concepção, aparece sem um modelo
ideológico e estético, apresentando, igualmente, deformação mimética. Para
concretizar o objetivo de sua escritura, Alfredo Bosi utilizou, como fontes, as
teorias de Nelson Werneck Sodré, de José Aderaldo Castelo, de Hugo de
Carvalho Ramos, entre outros.

Em suma, diante da posição dos autores escolhidos, para compor o


corpus dessa História da Literatura de foco regionalista romântico e naturalista,
chega-se à conclusão que, no sulco do Romantismo, nasceu o regionalismo
que mostrou o Brasil, o homem do sertão e as várias regiões culturais aos
brasileiros. Em um formato de descoberta do próprio país, através da literatura,
o Romantismo revelou as diferenças de cada região, presentes no clima, na
paisagem, na cultura, na sociedade e na língua. Assim, o trabalho do
Naturalismo foi manter os valores conquistados pelo Romantismo e
acrescentar os seus que estão pautados no cientificismo e na descrição

11
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1989. p. 155.
12
Id., ibid.
8
desapaixonada dos fatos. Uma contribuição que equilibra a caminhada do
regionalismo rumo ao Modernismo.

REFERÊNCIAS

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1989.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos.


Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.


v.4.

GALVÃO, Nogueira Walnice. Anotações à margem do regionalismo. Literatura


e Sociedade, São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Teoria
Literária e Literatura Comparada/Departamento de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, n. 1, p.45.55., 1996.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro:


Bertrand Brasil, 1985.